XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. AUTOGESTÃO E TOYOTISMO: OS MODELOS QUE SE COMPLETAM Maryna Martins Nunes Pereira (CESUPA) [email protected] O objetivo deste artigo consiste em analisar a relação direta de como o modelo de autogestão está ligado à habilidade de cultivar lideranças, equipes e cultura para criar estratégias, construir relações com os fornecedores e incentivar a maanutenção de aprendizagem do toyotismo. Para alcance do objetivo deste artigo, optou-se pela realização de um estudo de caso descritivo como estratégia de coleta de dados para permitir uma relação teórico-empírica neste estudo em questão. Este estudo de caso descreve uma indústria de fumo com subsídio de pesquisa de campo, com observação simples e entrevistas, bem como de pesquisa bibliográfica sobre modelo de autogestão e o toyotismo. A partir dos dados obtidos é possível afirmar que, o setor de fumo, seguindo as tendências gerais de reestruturação produtiva aliados com as ferramentas e princípios do Sistema Toyota de Produção aderiu tanto a inovações tecnológicas quanto organizacionais. O desenvolvimento de equipes para gerenciar as mini-fábricas gerou mais autonomia à unidade produtiva, comprometimento diante os resultados, eficiência e responsabilidade. O projeto AUGE está em consonância com o Modelo Toyota, entretanto, na prática restringe todos os pontos cruciais que possibilitariam ao trabalhador o poder decisório sobre suas atividades de trabalho, mas promove uma autonomia ficticía aos colaboradores. Palavras-chaves: autogestão, toyotismo, produtividade. XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 1. Introdução A formação de um novo paradigma produtivo decorrente de ambientes extremamente instáveis, devido à abertura dos mercados à concorrência global, à constante luta por sobrevivência no mercado e pelas tecnologias da informação, fez com que uma nova modelagem administrativa, a autogestão, baseada no toyotismo, se instalasse nas organizações. O toyotismo busca desenvolver líderes que compreendam completamente o trabalho, vivam sua filosofia e a disseminem para sua equipe, buscando sempre a melhoria continua e indiretamente o aumento da produtividade da empresa. A organização do trabalho, do ponto de vista da ordenação japonesa para processos produtivos, induz a multiplicação de tarefas pelos trabalhadores, principalmente os da área fabril, com a ampliação sensível das responsabilidades operacionais e da gestão da produção com mais autonomia. Assim, exigindo um ambiente de trabalho cooperativo, com responsabilidades e visão de superação de metas. Portanto, o objetivo deste artigo é analisar a relação direta de como o modelo de autogestão está ligado à habilidade de cultivar lideranças, equipes e cultura para criar estratégias, construir relações com os fornecedores e incentivar a manutenção de aprendizagem do toyotismo. Para o encadeamento do objetivo a metodologia adotada envolveu pesquisas bibliográficas em livros e artigos acadêmicos relacionados a modelos de gestão e sobre o modelo Toyota. Incorporado a isso foi realizado um estudo de caso descritivo para analisar a aplicabilidade desta relação em uma indústria de fumo. 2. Nova modelagem administrativa A evolução do pensamento administrativo se dá pelo contexto econômico. As escolas administrativas pelas perspectivas estrutural, integrativa e humanística não surgiram de inspirações imprevistas, mas sim decorrente de interesses políticos, da busca incessante pela satisfação de necessidades humanas e da pressão exercida pelos fatores econômicos (FERREIRA, 2006). Devido os modelos de gestão servir como referencial para orientar os gestores nos processos de planejamento, controle, tomada de decisões, liderança e, por abordar concepções filosóficas e idéias administrativas que operacionalizam as práticas gerenciais nas organizações, não deve ser executado de formas mecanicistas como os modelos fordistataylorista propunham. Por definir a estrutura organizacional, as relações interpessoais e as tecnologias que serão utilizadas pela empresa, o modelo de gestão é diretamente ligado aos objetivos empresariais. Logo, permite-se explanar que não há estilo único de modelagem de gestão, mas, independente do estilo adotado, as características desse modelo devem ser predominantes na maioria das organizações, com características próprias. Portanto, com as crises cambiais e bancárias da década de 1990 as empresas perceberam que a alternativa para manter-se em funcionamento deveria ser de adotar gestões democráticas e participativas em seus empreendimentos. Assim, da capacidade de reação dos trabalhadores perante os processos de exclusão provocados pelo desenvolvimento do capitalismo, especificamente com a redução dos postos de trabalho e o fechamento de empresas devido 2 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. processos de reestruturação produtiva e dificuldades administrativas, surge o modelo autogestor (SILVA, 2004). O modelo de autogestão se distingue por sua competência independente de fazer com que os trabalhadores tenham a liberdade de tomar decisões, sejam metas de produção, política de investimento, participação nos resultados e inovações, com maior rapidez. A metodologia do modelo autogestor é a construção de um ambiente de trabalho com mais autonomia e uma relação interpessoal resgatando o dimensionamento humano a fim de aumentar uma produção a partir da tomada de decisão em consenso, ou seja, uma espécie de ciclo de trabalho com democracia ampla em que as recompensas são de valores sociais trabalhistas e não financeiras. Esta nova modelagem determina uma participação funcional nas diversas fases do planejamento e da gestão da organização, sendo necessário que os trabalhadores absorvam valores de solidariedade e cooperação. Segundo Silva (2004) não é apenas “uma participação política nas decisões que atingem as condições de trabalho e renda dos trabalhadores. Exige que o trabalhador tenha capacidade de atuação decisiva no cenário econômico e político do empreendimento no qual ele se insere”. 3. Paradigma produtivo – Toyota O termo Manufatura Enxuta (ME), ou lean manufacturing, foi dado pelos autores Womack e Jones (1992), onde foi realizada uma pesquisa de benchmarking entre as empresas do setor automobilístico para a avaliação e comparação de seus desempenhos. Foi observado que as empresas japonesas tinham um desempenho notável quando comparadas às concorrentes ocidentais e conseguiam fazer cada vez mais com menos recursos. Assim, se pode definir que a ME é um sistema de produção eficiente, flexível, ágil e inovador, com certa superioridade à produção em massa, por ser um sistema habilitado a enfrentar melhor um mercado em constante mudança. Um dos pilares de sustentação para o sucesso da cultura de manufatura enxuta é o empowerment, que objetiva a delegação de poder de decisão, autonomia e participação dos funcionários na tomada de decisões. Slack (2002) conceitua o empowerment como uma extensão da característica de autonomia do trabalho, advindo de uma abordagem comportamental onde é cedido aos funcionários autoridade para cometer modificações no trabalho bem como na forma que é desempenhado. Ainda de acordo com Slack, isso pode acontecer por meio da ampliação do trabalho, delegando maior número de tarefas por indivíduo. O empowerment pode ser explorado também como forma de enriquecer o trabalho nos funcionários por meio do princípio de que a alocação de tarefas extras desperta nos indivíduos maior envolvimento nas tomadas de decisões, oferecendo mais autonomia e controle sobre o trabalho. As tarefas a mais podem abranger manutenções e ajustes da tecnologia de processo utilizada, planejamento e o controle de atividades internas a atividade desenvolvida, ou até mesmo o monitoramento da qualidade. A finalidade é de diminuir a repetição no trabalho e aumentar a autonomia e as oportunidades de desenvolvimento pessoal. O Modelo Toyota tem por objetivo criar vínculos entre indivíduos e seus parceiros, de modo que haja uma adaptação mútua, com objetivos em comum, o contrário que ocorre na maior parte das organizações, onde os funcionários não possuem nenhum vínculo de confiança entre 3 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. si. O principal desafio das empresas que querem se basear no Modelo Toyota é como criar uma organização, onde todos estejam aptos a querer e buscar o aprendizado contínuo e levem com si o “DNA” da empresa (LIKER, 2005). Relacionado a uma cultura e indo além de simples ferramentas para obter a eficiência e melhoria contínua, o Modelo Toyota incentiva, ampara e exige o envolvimento dos colaboradores na solução de problemas, o que os torna, com o tempo os melhores nessa prática. O direcionamento dos colaboradores deve estar pareado ao mesmo objetivo, permitindo uma sintonia entre a equipe, favorecendo o interesse do bem-estar geral, onde todos seguem a mesma filosofia (LIKER, 2005). As pessoas são a parte central do Sistema Toyota, pois somente por meio da melhoria contínua a operação pode chegar à constância necessária. As pessoas devem ser treinadas para encontrar os problemas e eliminá-los. Somente quando a equipe estiver envolvida com a filosofia pode-se dizer que estão em alinhamento com a otimização e redução de custos, todavia investindo na qualidade (LIKER, 2005). Porém, a mudança na cultura organizacional é extremamente difícil, pois envolve todos os níveis organizacionais, começando pela alta direção, e demanda tempo para desenvolver pessoas que compreendam e vivam a filosofia. As empresas que buscam a transformação enxuta devem investir à longo prazo para educar e mudar a cultura de modo que possa aplicar os princípios do Sistema Toyota de Produção de acordo com a sua realidade, desenvolvendo princípios verdadeiros e praticando-os com cautela para atingir um alto nível de valorização aos clientes. A vontade de desenvolver as pessoas capacitadas deve ser o interesse de uma organização, porém, é necessário ser sincero e não estar ligado a metas de curto prazo. 4. Método Os procedimentos metodológicos adotados incluem o tipo de pesquisa descritivo em função do objetivo proposto consisti em analisar a relação direta de como o modelo de autogestão está ligado à habilidade de cultivar lideranças, equipes e cultura para criar estratégias, construir relações com os fornecedores e incentivar a manutenção de aprendizagem do toyotismo. Inicialmente foram realizadas pesquisas bibliográficas para revisão de literatura sobre a autogestão e o toyotismo. No entanto, identificou-se que há escassez bibliográfica sobre o modelo autogestor, tendo apenas artigos científicos relacionados à modelagem. Porém também foram analisadas bibliografias sobre o modelo, cultura e filosofia Toyota de produção, e relacionados a modelos de gestão. Para alcance do objetivo deste artigo, optou-se pela realização de um estudo de caso descritivo como estratégia de coleta de dados para permitir uma relação teórico-empírica neste estudo em questão. Nesse sentido, para escolha do lócus de pesquisa foram realizadas 26 visitas técnicas em janeiro de 2011 durante a quinta versão do Projeto Sócrates, que reuniu em seu roteiro empresas localizadas nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais, bem como a Argentina e o Chile. O Projeto consiste em um programa de visitas técnicas em organizações de distintos campos de atuação e porte, com variados modelos de gestão, assim proporcionando, aos integrantes do projeto, tanto conhecimentos gerados nas mesmas, quanto experiências organizacionais achadas nos estados com realidades desiguais da vivida no estado do Pará. 4 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Das empresas visitadas, foi escolhida uma organização visitada em Uberlândia (MG), que produz cigarros e aqui será denominada de Indústria de Fumo por apresentar características compatíveis com o objetivo deste trabalho. Portanto cabe, primeiramente, caracterizar a mesma. Durante a pesquisa de campo pode-se observar o lócus bem como realizar entrevistas e coletar dados sobre o objeto de estudo. 4.1 Caracterização da empresa A Indústria de Fumo é uma empresa de capital aberto, está no mercado a mais de 100 anos, tem participação de 62,3% no comércio nacional e possui como visão “liderar o mercado brasileiro de produtos de tabaco de forma responsável e inovadora, assegurando a sustentabilidade do negócio” por meio do talento e marcas que a empresa possui. A empresa faz parte do segundo maior grupo de tabaco listado em bolsa, que possui participação no mercado mundial e tem liderança mercadológica em mais de 50 países. Possui dois complexos industriais, aplica manufatura enxuta, tem um volume produtivo de 49 bilhões de cigarros por ano apenas na unidade de Uberlândia, há cerca de 900 funcionários trabalhando em um sistema de trabalho de 24h/358 dias. 5. Um caso de sucesso – Trabalho em equipe X busca por resultados Após as crises cambiais e bancárias da década de 1990 ocorreu uma abertura econômica e a Indústria do Fumo começou a se organizar estrategicamente e com o tempo gerou mudanças intensas, o que teve como conseqüências a sua reestruturação produtiva. Atreladas a esta reestruturação estavam os programas de qualidade total, que deveriam desenvolver e disseminar a nova cultura organizacional. A unidade produtiva segue uma política de produção contínua, com grande fluidez e continuidade, sem intervalos, completando horas diárias de produção. Em relação a seus fornecedores, anteriormente, a qualquer compra, havia cotações de preços a fim de buscar os menores custos, porém, não esquecendo a qualidade do produto. Segundo Liker (2005) um dos princípios do Modelo Toyota expõe que tem que haver o desafio da organização para que seus fornecedores e parceiros possam crescer e se desenvolver, tratando-os como uma extensão de sua empresa. De acordo com Faria e Previtalli (2008) há também o “consumo por consignação; buscando sempre agilidade na resolução de problemas, uma das alternativas encontradas é a comercialização de peças no interior da fábrica por alguns fornecedores. Estes se instalam em espaços propícios, onde oferecem peças de alta rotatividade”, assim mostrando a valorização de sua rede de parceiros e fornecedores, ajudando-os a melhorar. Proposto pelo Modelo Toyota, a Indústria do Fumo implantou os sistemas de produção just in time/TQM em seu processo produtivo, como conseqüência houve a diminuição de estoques de produtos finais, a produção passou a ser controlada pelo volume de estoque e com demandas específicas e a produção se inicia de acordo com o estoque mínimo. A última fase de produção do cigarro possui ANDONS – indicando os estados das linhas, sinalizando possíveis problemas. A integração da cadeia produtiva do fumo é uma das características particulares do setor e a Indústria do Fumo, “prima por esse controle, ao atuar sistematicamente em todas as etapas (plantio, usinas, fabricação, distribuição), as novas tecnologias de informação auxiliam nesse processo de integração” (FARIA e PREVITALLI, 2008, p. 7). A inserção de robôs, no início dos anos 90, veio de encontro a produção enxuta, uma vez que o sistema de armazenamento de fumo mixado foi automatizado 5 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. permitindo o controle via CLP8 do estoque. Assim, a central de armazenamento, área de tecnologia de ponta, organiza toda a produção diária e também orienta o processo produtivo, apontando as futuras demandas, identificadas no controle eletrônico de estoques. Resultado do processo de automatização, essa área consegue operar com a força de trabalho mínima de um trabalhador, que monitora a atividade programada do dia. O trabalho morto, desempenhado por braços mecânicos, representa 90% das atividades da central (FARIA e PREVITALLI, 2008, p. 8) Uma nova cultura organizacional, onde possui uma gestão inteiramente integrada encontra-se auxiliada por conceitos de qualificação e programas voltados ao manuseio de forma otimizada dos dados necessários para a produção de cigarros. A importância destinada a esse novo instrumento em meio ao processo produtivo possibilita que a informação nesse setor seja entendida como valorização do capital, o que se dá devido à nova cultura organizacional, pois as divisões do processo produtivo recomendam um fluxo coerente aos padrões de erros aceitáveis. Alinhado ao Modelo Toyota e à nova modelagem administrativa, a Indústria do Fumo atrelou à sua reestruturação produtiva o Projeto AUGE, que aplica as práticas e cultura do modelo autogestor citado ao longo deste trabalho. O modelo foi apresentado aos funcionários como “Um modelo de gestão em que a equipe recebe autonomia para a tomada de decisões operacionais e de planejamento de suas atividades, baseadas em regras pré-estabelecidas” (Material da Empresa, 2004 apud FARIA e PREVITALLI, 2008). Tendo como objetivo alcançar maior envolvimento das pessoas, promover o gerenciamento do processo e aperfeiçoar os resultados. Assim, passou-se não apenas a uma reestruturação produtiva, bem como a uma reestruturação organizacional, onde o processo de trabalho passou a ser alinhado às novas formas propostas, atribuindo aos trabalhadores novas tarefas e responsabilidades, indo além de suas atividades iniciais, porém, não permitiam que a autonomia das equipes fossem totais, seguindo regras institucionais e a própria estrutura da produção, como é ressaltada pelo projeto. Portanto, estas tiveram de operar em uma nova área, a administrativa, para isso foram criados comitês, que são representados por trabalhadores eleitos, tais comitês passaram a ser responsáveis pela administração das mini-fábricas (anteriormente administrada somente pela central) existentes dentro da Indústria do Fumo, o que gerou mais autonomia à unidade produtiva, comprometimento perante os resultados, bem como eficiência e responsabilidade. Podemos encontrar a aplicação dos princípios do Modelo Toyota, desenvolvendo equipes para que possam obter autonomia sobre o processo produtivo, visando melhorar a qualidade e a produtividade, trabalhando juntos rumo a uma meta em comum, porém, sendo algo que deve ser aprendido, por isso, essas atividades exigem uma nova qualificação do trabalhador, o qual é submetido a constantes treinamentos. Este processo intensificou o trabalho, já que novas funções foram conferidas ao funcionário concomitante às outras atividades já realizadas, como conseqüência desta aplicação houve “um achatamento de 80% do quadro gerencial, uma vez que várias funções da gerência passaram a ser exercidas pelos próprios trabalhadores” (FARIA e PREVITALLI, 2008, p. 17). Seguindo a lógica da reestruturação, além da transmissão de tarefas, um dos objetivos a serem atingidos pelo projeto AUGE, é o alcance da autonomia interna em cada mini-fábrica. Por outro lado a gerência assume um novo papel dentro da empresa, referente à liderança (coaching) e desenvolvimento das equipes. Dessa forma, resta à nova gerência, aprimorar a qualidade do processo 6 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. decisório dos trabalhadores, dentro dos limites de ação prevista, fomentar a iniciativa (incitar a criatividade do trabalhador), captar e avaliar o feedback, analisar incidentes críticos junto às mini-fábricas e reconhecer o sucesso quando este for alcançado. A ação da gerência encontra-se voltada à gestão da força de trabalho, dessa forma, confere-se importância ao trabalhador, cooptando sua subjetividade, logo sua colaboração. Quanto a gestão da produção, um dos principais papéis da gerência é atuar diretamente no estabelecimento de metas dentro das mini-fábricas. (FARIA e PREVITALLI, 2008, p. 17). O Projeto AUGE encontra-se em consonância com a forma toyotista ou modelo japonês de produção, pois busca por meio do trabalho em equipe, desenvolver a participação dos funcionários no processo produtivo, porém, na prática, restringe todos os pontos cruciais que possibilitariam ao trabalhador algum poder decisório sobre sua atividade de trabalho, retomando o binômio taylorista/fordista de produção. O que foi apresentado concretamente é um novo quadro de tarefas, pré-estabelecidas, que são executadas durante o processo de trabalho sob a fantasia de autonomia do trabalhador (FARIA e PREVITALLI, 2008, p. 18). Esse modelo de organização em equipes segue ainda um modelo evolutivo que ao ser atingido na totalidade, concederá total autonomia às equipes, resultado do aprimoramento das formas de organização do processo de trabalho. Fazendo com que as equipes passem a ser mais responsáveis, flexíveis e compromissadas com seus objetivos de produção conferindo as atividades maior energização (empowerment). Nessa perspectiva é estimulada a concorrência entre as equipes de cada comitê, mantendo dessa maneira, certo receio entre os trabalhadores que não atinjam as metas estabelecidas dentro de suas equipes. Esse novo modelo de gestão, apesar de estar sendo aplicado parcialmente, está garantindo aumento de produtividade e benefícios para empresa, a partir da intensificação do controle sobre processo de trabalho. Utilizando-se dessas novas formas de controle, a Indústria do Fumo potencializa elementos essenciais para promover e assegurar a motivação e envolvimento do trabalhador para com os objetivos da empresa. A cultura organizacional esta se desenvolvendo a partir do comprometimento e da participação, pois o trabalhador não é apático neste processo, mas sim o principal facilitador. Com este perfil de participação direta das informações dos trabalhadores, é demonstrada a transparência dos processos desenvolvidos, garantindo que as mudanças estejam sob controle gerencial. Dessa forma, motivando as equipes a desempenhar suas funções buscando reconhecimento individual e a força de trabalho aplicada em favor do capital. Esta reestruturação volta-se a potencializar a capacidade produtiva, ou seja, sempre baseada em filosofias do Modelo Toyota, porém, a aplicação dos princípios e ferramentas que o modelo prega estava somente na teoria e pouco na prática. O trabalho em equipe proposto pelo STP e pelo modelo autogestor está defasado na Indústria do Fumo, pois a autonomia que é imposta pelos modelos não é aplicada com êxito devido às decisões ainda terem de ser tomadas pela área administrativa da Indústria do Fumo e não pelos comitês das mini-fábricas. 6. Considerações finais Os modelos de autogestão mudaram de acordo com o contexto econômico, tendo competência independente para construir um ambiente de trabalho com mais autonomia e relações interpessoais em que a tomada de decisão é dada em consenso, resgatando valores sociais trabalhistas, tendo em vista a relação com o Modelo Toyota. 7 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. A partir dos dados obtidos é possível afirmar que, o setor de fumo, seguindo as tendências gerais de reestruturação produtiva aliados com as ferramentas e princípios do Sistema Toyota de Produção aderiu tanto a inovações tecnológicas quanto organizacionais. Com a aplicação de ferramentas e princípios do Modelo Toyota houve maior envolvimento da cadeia de suprimentos, onde os fornecedores participam como uma extensão da empresa, valorizando-os e visando menores custos e qualidade. Houve também a aplicação de ferramentas no processo produtivo, reduzindo estoques de produtos finais. O desenvolvimento de equipes para gerenciar as mini-fábricas gerou mais autonomia à unidade produtiva, comprometimento diante os resultados, eficiência e responsabilidade. O projeto AUGE está em consonância com o Modelo Toyota, entretanto, na prática restringe todos os pontos cruciais que possibilitariam ao trabalhador poder decisório sobre suas atividades de trabalho, mas promove uma autonomia ficticía aos colaboradores, os dando tarefas préestabelecidas para que possam ser executadas durante o processo de trabalho. O modelo de autogestão foi aplicado parcialmente, mesmo assim, garantiu aumento de produtividade e benefícios para empresa, assegurando motivação, envolvimento, comprometimento e participação do trabalhador para com os objetivos da empresa. Por fim, cabe destacar que uma das limitações desta pesquisa concerne a insuficiência de variedade bibliográfica sobre o modelo autogestor, tendo mais artigos científicos relacionados à modelagem. Como sugestão para pesquisas futuras tem-se a realização de estudos estatísticos sobre estimativas da correlação de influências na cadeia produtiva ligadas ao modelo de gestão. Referências FARIA, A.; PREVITALLI, F. Reestruturação produtiva no setor de fumo: trabalho em equipes e novos aparatos organizacionais. Universidade Federal de Uberlândia. Disponível em: FERREIRA, Victor; CARDOSO, Antonio; CORRÊA, Carlos; FRANÇA. Modelos de gestão. Rio de janeiro: FGV, 2006. GUIDINI, Marilene; BONE, Rosemarie. 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