MANUSCRITOS CULINÁRIOS: UMA HISTÓRIA DO COTIDIANO DAS MULHERES DE JOÃO PESSOA ALESSANDRA GOMES COUTINHO FERREIRA (PIBIC-CNPq-UFPB) BELIZA ÁUREA DE ARRUDA MELLO (DLCV-PROLING-UFPB) Reflexões sobre o que pensavam as donas de casa paraibanas no início do século XX tem sido foco da nova história, da antropologia e muitas outras disciplinas. São mais conhecidos os estudos focados em personagens públicas como: Anayde Beiriz – estudante da escola Normal Oficial do Estado, onde recebeu seu diploma de professora em 1922 e intelectual que teve papel de vanguarda na sociedade paraibana no final da década de 20 -, Elizabeth Teixeira – viúva de João Pedro Teixeira, fundador e líder da Liga Camponesa de Sapé , na Paraíba e integrante do Movimento das Ligas Camponesas no Nordeste - e Margarida Maria Alves – primeira mulher a ocupar um cargo de presidente do sindicato no município de Alagoa Grande – região do brejo do estado da Paraíba - e líder do movimento dos canavieiros que reivindicavam o direito à carteira de trabalho, melhores salários e etc. Outras mulheres são um pouco mais conhecida do público iniciado pela relevância em suas áreas de atuação como escritoras e jornalistas como Adamantina Neves, Catarina de Moura, Francisca Rodrigues de Moura, Isabel Iracema Feijó da Silveira, Olivina Olívia Carneiro da Cunha – que publicaram suas poesias, contos e crônicas na revista Era Nova de divulgação quinzenal na Parahyba do Norte na década de 20. Percebe-se ao analisar as biografias destas paraibanas no artigo de Ana Coutinho sobre o “resgate das escritoras paraibanas do início do século XX” que as escritoras supracitadas foram professoras formadas pela Escola Normal Oficial do Estado e evidencia a contribuição significativa destas mulheres para a História da Educação da Paraíba. Entretanto, urge a necessidade de se saber sobre o cotidiano das mulheres catalogadas metaforicamente como “donas de casa”. O que elas fazem no cotidiano e as vozes de seus desejos fazem levar a muitas reflexões. Por isso, são pesquisados muitos cadernos culinários como os de Maria de Lourdes Vinagre Silveira, Arethuza Guedes Pereira, Evalda Velloso Freire, Domênica Lianza Dias, Isaura Miranda Henriques, Laura Peregrino,Nadir N. Ramalho, entre outras pessoenses dos primeiros cinqüenta anos do século XX, que apontam para um outro ângulo da memória das mulheres e seu cotidiano. Seus “silêncios” são falantes. Ruminam fantasias, práticas de saberes e metáforas das suas vidas. estiveram em silêncio por muito tempo. Este trabalho faz parte do projeto de pesquisa, Manuscritos Culinários: Percurso da Memória Urbana através dos Cadernos de Receitas A história das mulheres revela as inquietações dos pesquisadores sobre a quase ausência de fontes primárias que permitam a reconstrução de suas vidas. Muito do que se publicou sobre as mulheres tiveram como fontes: livros de assentos – “pequenos cadernos em que o chefe de família anotava os principais acontecimentos da história doméstica (casamentos, nascimentos, batizados e falecimentos)” ALENCASTRO (1997, p. 387) -, histórias de lutas com participação ativa de mulheres como Anayde Beiriz, Elizabeth Teixeira, Margarida Maria Alves -, entre outras. Em relação as donas de casa no início do século XX, há revistas como O Cruzeiro, Era Nova, A Cigarra, que pontuam através de suas propagandas e imagens femininas exercendo tarefas domésticas sempre com um simbólico sorriso no rosto, a função da mulher: ser boa esposa e boa mãe. A imagem da mãe-esposa-dona de casa como a principal e mais importante função da mulher correspondia àquilo que era pregado pela Igreja, ensinado por médicos e juristas, legitimado pelo Estado e divulgado pela imprensa. Mais do que isso, tal representação acabou por recobrir o ser mulher – e a sua relação com as suas obrigações passou a ser medida e avaliada pelas prescrições do dever ser. (MALUF ET ALLI, 1998, P. 374) A Nova História renovou os horizontes historiográficos, incorporando novos objetos e abordagens aos campos de investigação, ampliando o elenco dos suportes de pesquisa: obras literárias e artísticas, peças de teatro, festividades populares, monumentos arquitetônicos, bem como, artefatos da cultura material que possam servir de fontes para a reconstrução da história. Nesta perspectiva, Michelle Perrot, em seu livro Minha História das Mulheres, ressalta a importância da busca de novas fontes - permitindo a descoberta das mulheres ainda envoltas num silêncio profundo e aponta algumas razões deste silêncio: a primeira razão é a miúda presença das mulheres no espaço público – por muito tempo, único merecedor de relato -. As mulheres atuam em família, confinadas em casa, isto é, são invisíveis. A segunda razão é o silêncio das fontes, as mulheres deixam poucos vestígios diretos, escritos ou materiais. Seu acesso à escrita foi tardio. Suas produções domésticas são rapidamente consumidas, ou mais facilmente dispersas. São elas mesmas que apagam, destroem esses vestígios porque os julgam sem interesse. Afinal, elas são apenas mulheres cuja vida não conta muito. (PERROT, 2007, P. 17) A terceira é a dissimetria sexual das fontes, considerada variável e desigual segundo as épocas, por serem a maioria dos observadores do sexo masculino e assim a mulher, muitas vezes, ser vista de forma esteriotipada: representadas, imaginadas, em vez de serem descritas ou contadas. E como quarta razão, ela aponta o profundo silêncio do relato. Dessa forma, tendo como base a segunda razão apontada por Michelle Perrot sobre o silêncio das fontes que envolve as mulheres e a contribuição da Nova História, os manuscritos culinários surgem como fontes primárias da memória das mulheres por serem portadores de uma escritura feminina de João Pessoa na primeira metade do século XX. O manuscrito culinário de D. Maria de Lourdes Vinagre Silveira registrado em um caderno tipo álbum cujas folhas são de papel pautadas e numeradas. Este caderno é costurado com linha reforçado com tecido. Apresenta algumas folhas rasgadas pela ação do tempo e possui várias receitas recortadas de jornais que preenchem toda a página do caderno. Como material para escrita eram utilizados canetas-tinteiro em cores: azul, preta e sépia. Todas as páginas são aproveitadas, ora com manuscritos, ora com recortes de jornais nele fixado. O manuscrito culinário de D. Osmarina Dália da Costa registrado em um álbum cuja capa encontra-se em papel madeira. As folhas são numeradas com canetatinteiro em cores azul e preta. As folhas são totalmente preenchidas. A escrita é bem diversificada. É um caderno essencialmente manuscrito. Não há registro de recortes de jornais e revistas. O manuscrito de D. Arethuza Guedes Pereira é registrado em caderno pequeno tipo álbum, as páginas são numeradas e apresenta alguns papéis avulsos (fotografia, envelope,receitas avulsas); a capa do caderno é preta reforçada com uma faixa-tecido vermelha e encadernado com papel madeira. O manuscrito de D. Otília de Arruda Mello é um álbum de arte culinária. A capa apresenta identificação em que o tempo tem deixado a sua marca: está ilegível. O caderno é costurado com linha e reforçado com papel madeira na parte da costura. No papel madeira está escrito “neste livro tem boas receitas”. As folhas são inteiramente preenchidas, são de papel pautado. A escrita encontra-se em cores sépia, preta, azul, vermelho. Algumas receitas apresentam singelos desenhinhos. O caderno é preenchido manualmente e através de recortes de jornais, revistas e de propagandas como cremede-leite Nestlé, requeijão cremoso Poço de Caldas. O manuscrito de D. Evalda Velloso Freire é registrado em caderno grande em espiral, série universitário Savage; capa colorida com desenhos e letras; folhas pautadas. Apresenta folhas avulsas digitadas e datilografadas. O manuscrito de D. Domênica Lianza Dias é registrado em caderno pequeno tipo colegial, as folhas são pautadas e a letra foi escrita com canetas nas cores preta e azul. Há também receitas escritas a lápis. O manuscrito de D. Isaura Miranda Henriques é um conjunto de folhas avulsas de receitas envolvido em um envelope de plástico que foi entregue à pesquisa. Há também neste envelope uma fotografia desta senhora datada de 1928, e dois pequenos livros de receitas: um chamado Economia Culinária por D. Maria Silveira, directora da Cozinha Royal e outro chamado As Estrelas da Cozinha: o livro de receitas da mulher inteligente- Cozinha Experimental Estrela. O manuscrito culinário de D. Laura Peregrino é registrado em um caderno que não apresenta mais sua capa. A espessura do reforço lateral demonstra que há várias páginas faltando e as receitas são descritas com caneta azul. O manuscrito de D. Nadir N. Ramalho é registrado em caderno pequeno em espiral com indicação na capa do nome da autora. As folhas são pautadas, não numeradas e as receitas são descritas com caneta azul. Os manuscritos culinários são assim registros de uma escritura feminina porque são textos produzidos por estas mulheres durante a primeira metade do século XX. Ao se inventariar as receitas dos manuscritos descritos percebe-se a recorrência de nomes - pão de ló, baba de moça, bolo cri-cri, pudim imperial, bolo republicano, bolo 1-2-3 -, mas, a análise minuciosa dos ingredientes, utensílios e modos de execução das receitas diferem de manuscrito em manuscrito revelando, por “brechas” as próprias vidas ou percursos individuais destas senhoras. Os cadernos de receitas transpõem o tempo cronológico e faz surgir à memória do tempo histórico e de gênero a partir da dinâmica entre fragmentos de uma escrita feminina e sua relação com o mundo, e pontuam o ver e o pensar de uma sociedade por categorias de receitas como: salgados, doces, bebidas, conselhos de beleza e dicas de utilidade doméstica que narram os trajetos femininos no cotidiano. Os estudos de Câmara Cascudo – História da Amilmentação do Brasil (1983) e Gilberto Freyre – Açúcar (1968), destacam a importância da comida como suporte da memória através de um estudo sociológico da alimentação com base na história e na etnografia e explicam como a alimentação humana transcende as necessidades fisiológicas. Os autores positivizam o interesse nas pesquisas que decidiram recolher das obras literárias, da tradição oral e dos testemunhos biográficos, registros de preferências alimentares de escritores, de artistas e de brasileiros eminentes de diversos setores e mostra, portanto, a comida como uma questão cultural e que por meio dela pode-se chegar à memória de um grupo, de uma sociedade. As coleções de receitas delineam a cartografia da cidade tendo a culinária, do início ao fim, como o fio condutor desta narrativa de mulheres residentes em João Pessoa. As autoras dos cadernos de receitas foram propositalmente selecionadas a partir do espaço geográfico que habitavam em João Pessoa na primeira metade do século XX que residiam na Rua das Trincheiras - espaço em que transitavam no dia-a-dia e trocavam experiências–, na Rua Capitão José Pessoa, em Jaguaribe, na Rua Direita e na Rua Nova, hoje Rua General Osório; quase todas eram amigas e freqüentadoras dos mesmos espaços sociais, tinham uma faixa etária equivalente, eram casadas e tinham filhos. As receitas dos manuscritos culinários de 1900-1950 são registrados aleatoriamente: receitas de comidas salgadas catalogadas com os seguintes nome - Bifes paulistas, filet de peixe, vitella assada na panela, carne muquiada, camarão com macarrão, ragú de carneiro e girimum, peixe de forno com molho rubro, Bolo de Macarrão com camarão, Bolo de Talharim, Rocambole de camarão, Bolo de batatas com camarão, Bolinhos de batata , Bolos de batatas, Bolo de palmitos ,Bolo de talharim - ; receitas de comidas doces – Bôlo de Amor, Bolo Magestoso, Bolo Festival, Bolo Centenário, Bolo Militar, Bolo Imperial, Bolo “Fim-de-século”, Bolo de Pobre, Bolo republicano, Boço de S. João, Bolo Nacional, Bolo Paraiso, Bolo de Padre, Bolo Santo Antônio, Biscoitos Floriano, Biscoitos Aviadores, Biscoitos Futuristas, Bolinhos Presidente, Papos de anjo - ;receitas de bebidas - ponches e refrescos; receitas de beleza – o cuidado dos cabellos, banho para endurecer as carnes flaccidas, banho de beleza, perfume o hálito, receita para emmagrecer, shampoo para retardar a canície, receita para evitar cravos, sabão emmagrecedor, formulas reductoras, busto ganha firmeza, receita para tratar a seborrheia, receita para aformosear os cabellos da filhinha - ; receitas de roupas - vestido inteiro, saia justa, vestido tubinho , Padrão da blusa simples, Saia simples (justa) - e dicas de utilidade doméstica - Não desprezes a cozinha, que é também uma arte. É o complemento de uma bôa educação, o Almoço, a sobre-meza, o jantar, sopas, vantagens do arroz, conselhos de saúde e beleza -, fazem parte do universo destes manuscritos e encontram-se misturadas ao longo dos cadernos. O inventário do manuscrito de D. Osmarina exemplifica qual deve ser o papel da mulher na vida doméstica. Descreve a importância da cozinha e o que as donas de casa devem saber para cuidar de seu marido e seus filhos como fundamentos da boa educação e da boa saúde: elas devem conhecer a boa alimentação e a importância das principais refeições no cotidiano. A narrativa fragmentada dos cadernos de receitas estabelecem um fio de ligações com à memória coletiva da cidade, também à memória coletiva do país e de situações da política mundial, denotadas por enunciados “despreocupantes” de títulos de receitas como, por exemplo - Bolo Magestoso, Pudim Getulio Vargas, Bolo da Crise, Bolo Aliado, Biscoitos Floriano, Pudim Imperial, Biscoito Rico, Pudim Majestoso (Wanda Machado), Biscoitos Aviadores, Docinho General, Pavê Diplomata, Bolo “Fim-do-século”, Bolo Magistoso, Biscoitos Sinhá - . Estes títulos de receitas sinalizam a partir do enunciado as implicações e infiltrações do mundo político do panorama de crises nacionais na vida privada no mundo da mesa e cozinha, indicando, assim, que assuntos políticos não ficavam restritos ao mundo das salas de reuniões masculinas, mas também interessam às mulheres. Fatos estes comprovados pelo jornal Correio da Manhã, da Paraíba em sua edição de 10 de agosto de 1930 que registra em uma nota o envolvimento de senhoras “donas de casa” – com a revolução de 30. Embora elas não participassem em grande maioria das reuniões políticas, com exceções como a de Anayde Beiriz, Margarida Maria Alves, Elizabeth Teixeira e outras que não eram consideradas donas de casa, foram as donas de casa que se envolveram com o projeto de escolha da criação da nova bandeira da Paraíba, inclusive executando-a manualmente. (10/08/1930) Com efeito, as receitas transcrevem em uma sintaxe prática, vocábulos com função de dêiticos reveladores de como a política adentrava no mundo privado: na cozinha e mesas de refeições. Considerando que na época a maioria das mulheres de famílias tradicionais era apartada do cenário político, os títulos das receitas veiculam-se, também, como ilustrações de assuntos dominantes no cenário político brasileiro: percebe-se a saudade do “glamour” imperial, desterritorializado para o exílio europeu revelada simbolicamente pelos enunciados - Bolo Magestoso, Pudim Imperial - ; revela também o surgimento das novas figuras políticas do cenário nacional com Floriano Peixoto que aparece como nome de Biscoitos Floriano .O envolvimento culinário e política ainda é apontado por títulos que remetem à crise de 1930 que assolava o país, isto está presente em muitos manuscritos daquela época como títulos de receitas, Bolo da Crise. A mistura do imaginário político, com o mundo culinário parece ainda nos cadernos contemporâneos à ascensão do presidente Getúlio Vargas dando nome a receita como o Pudim Getúlio Vargas-, corroborando a tese que fios políticos moldam e tecem a vida privada. (FERREIRA, 2006, P. 8) Como contraponto, outras receitas parecem sussurros de um Eros pulsante instituído pela comida: “come-se prazer” à mesa das senhoras pessoenses como revelam os títulos dessas receitas – Sonho de amor, Bolo do Amor, Creme Ilha do Amor, Amorosos, Bolo de Amor , Sonhos de Amor, Pudim Flamejante, Beijos de Amor – apontando a maximização do envolvimento mulheres- eros- comida. Embora, aparentemente essas mulheres estabeleciam um recatamento amoroso, as comidas libertam uma sexualidade plástica, intrinsicamente vinculadas a um amor romântico. As mulheres também desejavam a recepção da busca dos desejos pontuados por nomes de outras receitas – Amarra marido, bolo dos namorados, bolo de casamento, bolo do tres amores, amorosos, creme de beijo, pudim dos bem casados, bolinhos engana rapazes, sorvete do meu bem -. As mulheres da época se não eram damas da corte, eram “damas” de uma sociedade que vedava a fala dos amores. Eram senhoras – bolo senhora - , sinhás – bolo sinhá, bolo sinhá Chiquita -, mulheres que pensavam em mulheres em criadas e crianças – bolo Kri-kri -. Mulheres que controlavam a economia doméstica – bolo financeiro, bolo economico, bolo economico de frutas -. Os inventários também mostram através da semântica das receitas, signos que remetem aos novos descobrimentos – biscoitos aviadores, bolo Santos Dumont, bolo cosmopolita -, e a busca de religiões – pudim celeste, creme do outro mundo, fatias de anjo, biscoitos divinos, papos de anjo, bolo do padre, bolo trindade, creme do ceo, bolo buda, biscoitos arcebispo, ovos de pharaó - . Observa-se os manuscritos com um atento olhar sobre normas de ortografia, há variantes lingüísticas nos cadernos – pitiza, pizza, assucar, açuca, açúcar -,. Percebese indicações de novos modos de pensar e sentir, de sentar-se à mesa; há preocupações com a economia doméstica e a beleza do corpo, mais de cem registros de receitas de beleza – o cuidado dos cabellos, banho para endurecer as carne flaccidas, receita para evitar os cabellos embranquecerem, perfumar o hálito, sabão emmagrecedor, entre outras -; expressam a vaidade feminina e o desejo das mulheres em estar sempre bonitas e bem cuidadas. O regime alimentar varia de acordo com as posses de cada um porque as receitas sinalizam as classes sociais. Os manuscritos culinários condensam receitas simples e complexas, baratas e caras de modo que seja mantido o equilíbrio econômico dos gastos da casa: responsabilidade do feminino. As bebidas que compõem a memória coletiva da cidade de João Pessoa são os licores caseiros que aparecem na maioria dos inventários – licor de maracujá, licor de jenipapo, licor de leite, licor de chocolate, licor de baunilha -. Halbwachs em seu livro A memória coletiva descreve com precisão a dupla função da memória: a individual e a coletiva, além de suas relações com o tempo e o espaço. Nos manuscritos culinários pode-se perceber a intrínseca relação entre as duas memórias. A memória individual é cristalizada a partir das autoras que escolhem e registram suas receitas - D. Maria de Lourdes, D. Osmarina, D. Arethuza, D. Otília, D. Evalda, D. Domênica, D. Isaura, D. Laura ,D. Nadir - inseridas em um determinado grupo – as donas de casa de João Pessoa na primeira metade do século. Toda a memória coletiva tem por suporte um grupo limitado no tempo e no espaço. Alguns manuscritos apresentam o registro de algumas datas como 09/05/1947 manuscrito culinário de D. Domênica – e estas se constituem também como referências às lembranças. É importante este dêitico cronológico porque o tempo tem como uma de suas características permitir a conservação de acontecimentos como se fosse a moldura de um quadro, fixando lembranças familiares, sociais, políticas e culturais ocorridos em determinada época. Assim, a memória dos manuscritos é traçada a partir do tempo destas mulheres que residiam em João Pessoa naquela época dos anos 10 aos 50. Tempo que é semelhante para os habitantes de um mesmo grupo de faixa etária, social e cultural e, também, para aqueles diferenciados, mas esse tempo é também marcado pela subjetividade de cada autora dos cadernos. As receitas culinárias revelam, também, o tempo das festas sagradas – carnaval, São João, Natal – e o das festas profanas – almoços de domingos, reuniões entre amigos –revelando uma época em que o tempo era cíclico marcado por eventos de cunho privado. Além das receitas diferentes de dias festivos, registradas em seis dos manuscritos, salgadinhos de festa e molhos , carnes, aves, sopas, massas em geral, saladas e legumes, frutos do mar, cereais, bolos e tortas, pudim ,cremes, doces, há em apenas um manuscrito de uma adolescente , receitas do trivial - doces caseiros, tapioca, cuzcuz, angú, manguzá , revelado por entrevista feita com a autora de ser curiosidade de criança. Não só o tempo é um trajeto para as lembranças, um outro elemento é o espaço geográfico. O passado se constrói e se conserva no espaço da cozinha. As comidas com seus cheiros e seus sabores despertam as lembranças de um passado, mas também os utensílios de cozinha e os ingredientes das receitas tecem a malha do tempo porque o espaço, o lugar são fatores importantes para delinear a memória como pontua Halbwachs em seu livro Memória Coletiva. “seria muito difícil evocar o acontecimento se não imaginássemos o lugar que conhecemos geralmente não porque o vimos, mas porque sabemos que existe, que poderíamos vê-lo, e que em todo caso, sua existência está garantida através de testemunhas”. HALBWACHS (2004, p.164) Assim, o espaço se apresenta como condição mnemônica para as lembranças, a sua estabilidade possui a ilusão de que as coisas não mudam através do tempo garantindo, assim, a possibilidade de encontrar o passado no presente. O tempo social permite conservar e lembrar acontecimentos que foram produzidos em uma determinada época. O indivíduo segundo as considerações de Halbwachs, participa de duas espécies de memória: aquelas que lhe são comuns e às lembranças compartilháveis apenas nos grupos que fixam sua marca na história e acentua o poder do espaço físico como provocador da faculdade de lembrar. Pensar na história do cotidiano das mulheres pessoenses a partir de seus manuscritos de cozinha é evocar as lembranças deste espaço físico: a cozinha, relacionado a memória coletiva da primeira metade do século XX em João Pessoa. Apreende-se, a partir das receitas a narrativa de uma voz que ultrapassa a palavra e que as emoções suscitam vozes plenas de história com palavras que se enunciam como lembranças, memória de linguagem impensável sem a voz. De um sujeito ativo, espelhado pela recorrência dos verbos no modo imperativo – mexa, coma, faça, derrame, bote – indicativos de uma voz de mando que nega a passividade. Este é o universo das mulheres residentes em João Pessoa da primeira metade do século XX, seus gostos e a memória dos traços afetivos, seus modos de sentir e pensar margeados por um tempo coletivo. Uma época que ficará preservada na memória desta cidade elucidada pelos manuscritos culinários - fontes primárias que falam de mulheres, que emanam delas, nas quais se pode ouvir suas vozes diretamente -. E, como bem disse Gilberto Freyre (1969, p.44) em seu livro Açúcar “a verdade parece ser realmente esta: a das nossas preferências de paladar serem condicionadas, nas suas expressões específicas, pelas sociedades a que pertencemos, pelas culturas de que participamos, pelas ecologias em que vivemos os anos decisivos da nossa existência.” Fontes e Referências Bibliográficas Fontes Primárias Costa, Osmarina Dália da. Manuscrito Culinário. João Pessoa.S. D. Dias, Domênica Lianza. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D. Freire, Evalda Velloso. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D. Henriques, Isaura Miranda. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D. Mello, Otília de Arruda. Manuscrito Culinário. João Pessoa S. D. Pereira, Arethuza Guedes. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D. Peregrino,Laura. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D. Ramalho, Nadir N. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D. Silveira, Maria de Lourdes Vinagre. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D. Fontes: periódicos Correio da Manhã, Parahyba, 07, 08, 09, 10, 11, 12, 13 agos, 1930. N. 148, 149, 150, 151, 152, 153, 154. Era Nova. Parahyba: revista quinzenal, ano II. N. 23, 1923, 25p. _______. Parahyba: revista quinzenal, ano V. N. 72, 1925, 27p. Revista Cruzeiro. 08 de agosto de 1930. Referências Bibliográficas BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Tão, 1979. CASCUDO, Luis da Câmara. História da Alimentação no Brasil. Belo Horizonte: Ed.Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1983. FERREIRA, Alessandra Gomes Coutinho. 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