MANUSCRITOS CULINÁRIOS: UMA HISTÓRIA DO COTIDIANO DAS
MULHERES DE JOÃO PESSOA
ALESSANDRA GOMES COUTINHO FERREIRA (PIBIC-CNPq-UFPB)
BELIZA ÁUREA DE ARRUDA MELLO (DLCV-PROLING-UFPB)
Reflexões sobre o que pensavam as donas de casa paraibanas no início
do século XX tem sido foco da nova história, da antropologia e muitas outras
disciplinas. São mais conhecidos os estudos focados em personagens públicas como:
Anayde Beiriz – estudante da escola Normal Oficial do Estado, onde recebeu seu
diploma de professora em 1922 e intelectual que teve papel de vanguarda na sociedade
paraibana no final da década de 20 -, Elizabeth Teixeira – viúva de João Pedro
Teixeira, fundador e líder da Liga Camponesa de Sapé , na Paraíba e integrante do
Movimento das Ligas Camponesas no Nordeste - e Margarida Maria Alves – primeira
mulher a ocupar um cargo de presidente do sindicato no município de Alagoa Grande –
região do brejo do estado da Paraíba - e líder do movimento dos canavieiros que
reivindicavam o direito à carteira de trabalho, melhores salários e etc.
Outras mulheres são um pouco mais conhecida do público iniciado pela
relevância em suas áreas de atuação como escritoras e jornalistas como Adamantina
Neves, Catarina de Moura, Francisca Rodrigues de Moura, Isabel Iracema Feijó da
Silveira, Olivina Olívia Carneiro da Cunha – que publicaram suas poesias, contos e
crônicas na revista Era Nova de divulgação quinzenal na Parahyba do Norte na década
de 20.
Percebe-se ao analisar as biografias destas paraibanas no artigo de Ana
Coutinho sobre o “resgate das escritoras paraibanas do início do século XX” que as
escritoras supracitadas foram professoras formadas pela Escola Normal Oficial do
Estado e evidencia a contribuição significativa destas mulheres para a História da
Educação da Paraíba.
Entretanto, urge a necessidade de se saber sobre o cotidiano das mulheres
catalogadas metaforicamente como “donas de casa”. O que elas fazem no cotidiano e as
vozes de seus desejos fazem levar a muitas reflexões. Por isso, são pesquisados muitos
cadernos culinários como os de Maria de Lourdes Vinagre Silveira, Arethuza Guedes
Pereira, Evalda Velloso Freire, Domênica Lianza Dias, Isaura Miranda Henriques,
Laura Peregrino,Nadir N. Ramalho, entre outras pessoenses dos primeiros cinqüenta
anos do século XX, que apontam para um outro ângulo da memória das mulheres e seu
cotidiano. Seus “silêncios” são falantes. Ruminam fantasias, práticas de saberes e
metáforas das suas vidas. estiveram em silêncio por muito tempo. Este trabalho faz
parte do projeto de pesquisa, Manuscritos Culinários: Percurso da Memória Urbana
através dos Cadernos de Receitas
A história das mulheres revela as inquietações dos pesquisadores sobre a
quase ausência de fontes primárias que permitam a reconstrução de suas vidas. Muito
do que se publicou sobre as mulheres tiveram como fontes: livros de assentos –
“pequenos cadernos em que o chefe de família anotava os principais acontecimentos da
história doméstica (casamentos, nascimentos, batizados e falecimentos)”
ALENCASTRO (1997, p. 387) -, histórias de lutas com participação ativa de mulheres
como Anayde Beiriz, Elizabeth Teixeira, Margarida Maria Alves -, entre outras. Em
relação as donas de casa no início do século XX, há revistas como O Cruzeiro, Era
Nova, A Cigarra, que pontuam através de suas propagandas e imagens femininas
exercendo tarefas domésticas sempre com um simbólico sorriso no rosto, a função da
mulher: ser boa esposa e boa mãe.
A imagem da mãe-esposa-dona de casa como a principal e mais importante
função da mulher correspondia àquilo que era pregado pela Igreja, ensinado
por médicos e juristas, legitimado pelo Estado e divulgado pela imprensa.
Mais do que isso, tal representação acabou por recobrir o ser mulher – e a sua
relação com as suas obrigações passou a ser medida e avaliada pelas
prescrições do dever ser. (MALUF ET ALLI, 1998, P. 374)
A Nova História renovou os horizontes historiográficos, incorporando
novos objetos e abordagens aos campos de investigação, ampliando o elenco dos
suportes de pesquisa: obras literárias e artísticas, peças de teatro, festividades populares,
monumentos arquitetônicos, bem como, artefatos da cultura material que possam servir
de fontes para a reconstrução da história.
Nesta perspectiva, Michelle Perrot, em seu livro Minha História das
Mulheres, ressalta a importância da busca de novas fontes - permitindo a descoberta
das mulheres ainda envoltas num silêncio profundo e aponta algumas razões deste
silêncio: a primeira razão é a miúda presença das mulheres no espaço público – por
muito tempo, único merecedor de relato -. As mulheres atuam em família, confinadas
em casa, isto é, são invisíveis. A segunda razão é o silêncio das fontes,
as mulheres deixam poucos vestígios diretos, escritos ou materiais. Seu
acesso à escrita foi tardio. Suas produções domésticas são rapidamente
consumidas, ou mais facilmente dispersas. São elas mesmas que apagam,
destroem esses vestígios porque os julgam sem interesse. Afinal, elas são
apenas mulheres cuja vida não conta muito. (PERROT, 2007, P. 17)
A terceira é a dissimetria sexual das fontes, considerada variável e desigual
segundo as épocas, por serem a maioria dos observadores do sexo masculino e assim a
mulher, muitas vezes, ser vista de forma esteriotipada: representadas, imaginadas, em
vez de serem descritas ou contadas. E como quarta razão, ela aponta o profundo silêncio
do relato.
Dessa forma, tendo como base a segunda razão apontada por Michelle
Perrot sobre o silêncio das fontes que envolve as mulheres e a contribuição da Nova
História, os manuscritos culinários surgem como fontes primárias da memória das
mulheres por serem portadores de uma escritura feminina de João Pessoa na primeira
metade do século XX.
O manuscrito culinário de D. Maria de Lourdes Vinagre Silveira registrado
em um caderno tipo álbum cujas folhas são de papel pautadas e numeradas. Este
caderno é costurado com linha reforçado com tecido. Apresenta algumas folhas
rasgadas pela ação do tempo e possui várias receitas recortadas de jornais que
preenchem toda a página do caderno. Como material para escrita eram utilizados
canetas-tinteiro em cores: azul, preta e sépia. Todas as páginas são aproveitadas, ora
com manuscritos, ora com recortes de jornais nele fixado.
O manuscrito culinário de D. Osmarina Dália da Costa registrado em um
álbum cuja capa encontra-se em papel madeira. As folhas são numeradas com canetatinteiro em cores azul e preta. As folhas são totalmente preenchidas. A escrita é bem
diversificada. É um caderno essencialmente manuscrito. Não há registro de recortes de
jornais e revistas.
O manuscrito de D. Arethuza Guedes Pereira é registrado em caderno
pequeno tipo álbum, as páginas são numeradas e apresenta alguns papéis avulsos
(fotografia, envelope,receitas avulsas); a capa do caderno é preta reforçada com uma
faixa-tecido vermelha e encadernado com papel madeira.
O manuscrito de D. Otília de Arruda Mello é um álbum de arte culinária. A
capa apresenta identificação em que o tempo tem deixado a sua marca: está ilegível. O
caderno é costurado com linha e reforçado com papel madeira na parte da costura. No
papel madeira está escrito “neste livro tem boas receitas”. As folhas são inteiramente
preenchidas, são de papel pautado. A escrita encontra-se em cores sépia, preta, azul,
vermelho. Algumas receitas apresentam singelos desenhinhos. O caderno é preenchido
manualmente e através de recortes de jornais, revistas e de propagandas como cremede-leite Nestlé, requeijão cremoso Poço de Caldas.
O manuscrito de D. Evalda Velloso Freire é registrado em caderno grande
em espiral, série universitário Savage; capa colorida com desenhos e letras; folhas
pautadas. Apresenta folhas avulsas digitadas e datilografadas.
O manuscrito de D. Domênica Lianza Dias é registrado em caderno
pequeno tipo colegial, as folhas são pautadas e a letra foi escrita com canetas nas cores
preta e azul. Há também receitas escritas a lápis.
O manuscrito de D. Isaura Miranda Henriques é um conjunto de folhas
avulsas de receitas envolvido em um envelope de plástico que foi entregue à pesquisa.
Há também neste envelope uma fotografia desta senhora datada de 1928, e dois
pequenos livros de receitas: um chamado Economia Culinária por D. Maria Silveira,
directora da Cozinha Royal e outro chamado As Estrelas da Cozinha: o livro de
receitas da mulher inteligente- Cozinha Experimental Estrela.
O manuscrito culinário de D. Laura Peregrino é registrado em um caderno
que não apresenta mais sua capa. A espessura do reforço lateral demonstra que há várias
páginas faltando e as receitas são descritas com caneta azul.
O manuscrito de D. Nadir N. Ramalho é registrado em caderno pequeno em
espiral com indicação na capa do nome da autora. As folhas são pautadas, não
numeradas e as receitas são descritas com caneta azul.
Os manuscritos culinários são assim registros de uma escritura feminina
porque são textos produzidos por estas mulheres durante a primeira metade do século
XX.
Ao se inventariar as receitas dos manuscritos descritos percebe-se a
recorrência de nomes - pão de ló, baba de moça, bolo cri-cri, pudim imperial, bolo
republicano, bolo 1-2-3 -, mas, a análise minuciosa dos ingredientes, utensílios e modos
de execução das receitas diferem de manuscrito em manuscrito revelando, por “brechas”
as próprias vidas ou percursos individuais destas senhoras. Os cadernos de receitas
transpõem o tempo cronológico e faz surgir à memória do tempo histórico e de gênero a
partir da dinâmica entre fragmentos de uma escrita feminina e sua relação com o
mundo, e pontuam o ver e o pensar de uma sociedade por categorias de receitas como:
salgados, doces, bebidas, conselhos de beleza e dicas de utilidade doméstica que
narram os trajetos femininos no cotidiano.
Os estudos de Câmara Cascudo – História da Amilmentação do Brasil
(1983) e Gilberto Freyre – Açúcar (1968), destacam a importância da comida como
suporte da memória através de um estudo sociológico da alimentação com base na
história e na etnografia e explicam como a alimentação humana transcende as
necessidades fisiológicas. Os autores positivizam o interesse nas pesquisas que
decidiram recolher das obras literárias, da tradição oral e dos testemunhos biográficos,
registros de preferências alimentares de escritores, de artistas e de brasileiros eminentes
de diversos setores e mostra, portanto, a comida como uma questão cultural e que por
meio dela pode-se chegar à memória de um grupo, de uma sociedade.
As coleções de receitas delineam a cartografia da cidade tendo a culinária,
do início ao fim, como o fio condutor desta narrativa de mulheres residentes em João
Pessoa. As autoras dos cadernos de receitas foram propositalmente selecionadas a partir
do espaço geográfico que habitavam em João Pessoa na primeira metade do século XX
que residiam na Rua das Trincheiras - espaço em que transitavam no dia-a-dia e
trocavam experiências–, na Rua Capitão José Pessoa, em Jaguaribe, na Rua Direita e na
Rua Nova, hoje Rua General Osório; quase todas eram amigas e freqüentadoras dos
mesmos espaços sociais, tinham uma faixa etária equivalente, eram casadas e tinham
filhos.
As receitas dos manuscritos culinários de 1900-1950 são registrados
aleatoriamente: receitas de comidas salgadas catalogadas com os seguintes nome - Bifes
paulistas, filet de peixe, vitella assada na panela, carne muquiada, camarão com
macarrão, ragú de carneiro e girimum, peixe de forno com molho rubro, Bolo de
Macarrão com camarão, Bolo de Talharim, Rocambole de camarão, Bolo de batatas
com camarão, Bolinhos de batata , Bolos de batatas, Bolo de palmitos ,Bolo de
talharim - ; receitas de comidas doces – Bôlo de Amor, Bolo Magestoso, Bolo Festival,
Bolo Centenário, Bolo Militar, Bolo Imperial, Bolo “Fim-de-século”, Bolo de Pobre,
Bolo republicano, Boço de S. João, Bolo Nacional, Bolo Paraiso, Bolo de Padre, Bolo
Santo Antônio, Biscoitos Floriano, Biscoitos Aviadores, Biscoitos Futuristas, Bolinhos
Presidente, Papos de anjo - ;receitas de bebidas - ponches e refrescos; receitas de
beleza – o cuidado dos cabellos, banho para endurecer as carnes flaccidas, banho de
beleza, perfume o hálito, receita para emmagrecer, shampoo para retardar a canície,
receita para evitar cravos, sabão emmagrecedor, formulas reductoras, busto ganha
firmeza, receita para tratar a seborrheia, receita para aformosear os cabellos da
filhinha - ; receitas de roupas - vestido inteiro, saia justa, vestido tubinho , Padrão da
blusa simples, Saia simples (justa) - e dicas de utilidade doméstica - Não desprezes a
cozinha, que é também uma arte. É o complemento de uma bôa educação, o Almoço, a
sobre-meza, o jantar, sopas, vantagens do arroz, conselhos de saúde e beleza -, fazem
parte do universo destes manuscritos e encontram-se misturadas ao longo dos cadernos.
O inventário do manuscrito de D. Osmarina exemplifica qual deve ser o
papel da mulher na vida doméstica. Descreve a importância da cozinha e o que as donas
de casa devem saber para cuidar de seu marido e seus filhos como fundamentos da boa
educação e da boa saúde: elas devem conhecer a boa alimentação e a importância das
principais refeições no cotidiano.
A narrativa fragmentada dos cadernos de receitas estabelecem um fio de
ligações com à memória coletiva da cidade, também à memória coletiva do país e de
situações da política mundial, denotadas por enunciados “despreocupantes” de títulos de
receitas como, por exemplo - Bolo Magestoso, Pudim Getulio Vargas, Bolo da Crise,
Bolo Aliado, Biscoitos Floriano, Pudim Imperial, Biscoito Rico, Pudim Majestoso
(Wanda Machado), Biscoitos Aviadores, Docinho General, Pavê Diplomata, Bolo
“Fim-do-século”, Bolo Magistoso, Biscoitos Sinhá - . Estes títulos de receitas sinalizam
a partir do enunciado as implicações e infiltrações do mundo político do panorama de
crises nacionais na vida privada no mundo da mesa e cozinha, indicando, assim, que
assuntos políticos não ficavam restritos ao mundo das salas de reuniões masculinas, mas
também interessam às mulheres. Fatos estes comprovados pelo jornal Correio da
Manhã, da Paraíba em sua edição de 10 de agosto de 1930 que registra em uma nota o
envolvimento de senhoras “donas de casa” – com a revolução de 30. Embora elas não
participassem em grande maioria das reuniões políticas, com exceções como a de
Anayde Beiriz, Margarida Maria Alves, Elizabeth Teixeira e outras que não eram
consideradas donas de casa, foram as donas de casa que se envolveram com o projeto
de escolha da criação da nova bandeira da Paraíba, inclusive executando-a
manualmente. (10/08/1930)
Com efeito, as receitas transcrevem em uma sintaxe prática, vocábulos com
função de dêiticos reveladores de como a política adentrava no mundo
privado: na cozinha e mesas de refeições. Considerando que na época a
maioria das mulheres de famílias tradicionais era apartada do cenário
político, os títulos das receitas veiculam-se, também, como ilustrações de
assuntos dominantes no cenário político brasileiro: percebe-se a saudade do
“glamour” imperial, desterritorializado para o exílio europeu revelada
simbolicamente pelos enunciados - Bolo Magestoso, Pudim Imperial - ;
revela também o surgimento das novas figuras políticas do cenário nacional
com Floriano Peixoto que aparece como nome de Biscoitos Floriano .O
envolvimento culinário e política ainda é apontado por títulos que remetem à
crise de 1930 que assolava o país, isto está presente em muitos manuscritos
daquela época como títulos de receitas, Bolo da Crise. A mistura do
imaginário político, com o mundo culinário parece ainda nos cadernos
contemporâneos à ascensão do presidente Getúlio Vargas dando nome a
receita como o Pudim Getúlio Vargas-, corroborando a tese que fios
políticos moldam e tecem a vida privada. (FERREIRA, 2006, P. 8)
Como contraponto, outras receitas parecem sussurros de um Eros pulsante
instituído pela comida: “come-se prazer” à mesa das senhoras pessoenses como revelam
os títulos dessas receitas – Sonho de amor, Bolo do Amor, Creme Ilha do Amor,
Amorosos, Bolo de Amor , Sonhos de Amor, Pudim Flamejante, Beijos de Amor –
apontando a maximização do envolvimento mulheres- eros- comida. Embora,
aparentemente essas mulheres estabeleciam um recatamento amoroso, as comidas
libertam uma sexualidade plástica, intrinsicamente vinculadas a um amor romântico. As
mulheres também desejavam a recepção da busca dos desejos pontuados por nomes de
outras receitas – Amarra marido, bolo dos namorados, bolo de casamento, bolo do tres
amores, amorosos, creme de beijo, pudim dos bem casados, bolinhos engana rapazes,
sorvete do meu bem -.
As mulheres da época se não eram damas da corte, eram “damas” de uma
sociedade que vedava a fala dos amores. Eram senhoras – bolo senhora - , sinhás – bolo
sinhá, bolo sinhá Chiquita -, mulheres que pensavam em mulheres em criadas e
crianças – bolo Kri-kri -. Mulheres que controlavam a economia doméstica – bolo
financeiro, bolo economico, bolo economico de frutas -.
Os inventários também mostram através da semântica das receitas, signos
que remetem aos novos descobrimentos – biscoitos aviadores, bolo Santos Dumont,
bolo cosmopolita -, e a busca de religiões – pudim celeste, creme do outro mundo, fatias
de anjo, biscoitos divinos, papos de anjo, bolo do padre, bolo trindade, creme do ceo,
bolo buda, biscoitos arcebispo, ovos de pharaó - .
Observa-se os manuscritos com um atento olhar sobre normas de ortografia,
há variantes lingüísticas nos cadernos – pitiza, pizza, assucar, açuca, açúcar -,. Percebese indicações de novos modos de pensar e sentir, de sentar-se à mesa; há preocupações
com a economia doméstica e a beleza do corpo, mais de cem registros de receitas de
beleza – o cuidado dos cabellos, banho para endurecer as carne flaccidas, receita para
evitar os cabellos embranquecerem, perfumar o hálito, sabão emmagrecedor, entre
outras -; expressam a vaidade feminina e o desejo das mulheres em estar sempre bonitas
e bem cuidadas.
O regime alimentar varia de acordo com as posses de cada um porque as
receitas sinalizam as classes sociais. Os manuscritos culinários condensam receitas
simples e complexas, baratas e caras de modo que seja mantido o equilíbrio econômico
dos gastos da casa: responsabilidade do feminino. As bebidas que compõem a memória
coletiva da cidade de João Pessoa são os licores caseiros que aparecem na maioria dos
inventários – licor de maracujá, licor de jenipapo, licor de leite, licor de chocolate,
licor de baunilha -.
Halbwachs em seu livro A memória coletiva descreve com precisão a dupla
função da memória: a individual e a coletiva, além de suas relações com o tempo e o
espaço. Nos manuscritos culinários pode-se perceber a intrínseca relação entre as duas
memórias. A memória individual é cristalizada a partir das autoras que escolhem e
registram suas receitas - D. Maria de Lourdes, D. Osmarina, D. Arethuza, D. Otília, D.
Evalda, D. Domênica, D. Isaura, D. Laura ,D. Nadir - inseridas em um determinado
grupo – as donas de casa de João Pessoa na primeira metade do século. Toda a memória
coletiva tem por suporte um grupo limitado no tempo e no espaço.
Alguns manuscritos apresentam o registro de algumas datas como 09/05/1947 manuscrito culinário de D. Domênica – e estas se constituem também como
referências às lembranças. É importante este dêitico cronológico porque o tempo tem
como uma de suas características permitir a conservação de acontecimentos como se
fosse a moldura de um quadro, fixando lembranças familiares, sociais, políticas e
culturais ocorridos em determinada época. Assim, a memória dos manuscritos é traçada
a partir do tempo destas mulheres que residiam em João Pessoa naquela época dos anos
10 aos 50. Tempo que é semelhante para os habitantes de um mesmo grupo de faixa
etária, social e cultural e, também, para aqueles diferenciados, mas esse tempo é
também marcado pela subjetividade de cada autora dos cadernos. As receitas culinárias
revelam, também, o tempo das festas sagradas – carnaval, São João, Natal – e o das
festas profanas – almoços de domingos, reuniões entre amigos –revelando uma época
em que o tempo era cíclico marcado por eventos de cunho privado.
Além das receitas diferentes de dias festivos, registradas em seis dos
manuscritos, salgadinhos de festa e molhos , carnes, aves, sopas, massas em geral,
saladas e legumes, frutos do mar, cereais, bolos e tortas, pudim ,cremes, doces, há em
apenas um manuscrito de uma adolescente , receitas do trivial - doces caseiros, tapioca,
cuzcuz, angú, manguzá , revelado por entrevista feita com a autora de ser curiosidade
de criança.
Não só o tempo é um trajeto para as lembranças, um outro elemento é o
espaço geográfico. O passado se constrói e se conserva no espaço da cozinha. As
comidas com seus cheiros e seus sabores despertam as lembranças de um passado, mas
também os utensílios de cozinha e os ingredientes das receitas tecem a malha do tempo
porque o espaço, o lugar são fatores importantes para delinear a memória como pontua
Halbwachs em seu livro Memória Coletiva.
“seria muito difícil evocar o acontecimento se não imaginássemos o lugar
que conhecemos geralmente não porque o vimos, mas porque sabemos que
existe, que poderíamos vê-lo, e que em todo caso, sua existência está
garantida através de testemunhas”. HALBWACHS (2004, p.164)
Assim, o espaço se apresenta como condição mnemônica para as
lembranças, a sua estabilidade possui a ilusão de que as coisas não mudam através do
tempo garantindo, assim, a possibilidade de encontrar o passado no presente.
O tempo social permite conservar e lembrar acontecimentos que foram
produzidos em uma determinada época. O indivíduo segundo as considerações de
Halbwachs, participa de duas espécies de memória: aquelas que lhe são comuns e às
lembranças compartilháveis apenas nos grupos que fixam sua marca na história e
acentua o poder do espaço físico como provocador da faculdade de lembrar. Pensar na
história do cotidiano das mulheres pessoenses a partir de seus manuscritos de cozinha é
evocar as lembranças deste espaço físico: a cozinha, relacionado a memória coletiva da
primeira metade do século XX em João Pessoa.
Apreende-se, a partir das receitas a narrativa de uma voz que ultrapassa a
palavra e que as emoções suscitam vozes plenas de história com palavras que se
enunciam como lembranças, memória de linguagem impensável sem a voz. De um
sujeito ativo, espelhado pela recorrência dos verbos no modo imperativo – mexa,
coma, faça, derrame, bote – indicativos de uma voz de mando que nega a passividade.
Este é o universo das mulheres residentes em João Pessoa da primeira
metade do século XX, seus gostos e a memória dos traços afetivos, seus modos de sentir
e pensar margeados por um tempo coletivo. Uma época que ficará preservada na
memória desta cidade elucidada pelos manuscritos culinários - fontes primárias que
falam de mulheres, que emanam delas, nas quais se pode ouvir suas vozes diretamente -.
E, como bem disse Gilberto Freyre (1969, p.44) em seu livro Açúcar “a verdade parece
ser realmente esta: a das nossas preferências de paladar serem condicionadas, nas suas
expressões específicas, pelas sociedades a que pertencemos, pelas culturas de que
participamos, pelas ecologias em que vivemos os anos decisivos da nossa existência.”
Fontes e Referências Bibliográficas
Fontes Primárias
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Henriques, Isaura Miranda. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D.
Mello, Otília de Arruda. Manuscrito Culinário. João Pessoa S. D.
Pereira, Arethuza Guedes. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D.
Peregrino,Laura. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D.
Ramalho, Nadir N. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D.
Silveira, Maria de Lourdes Vinagre. Manuscrito Culinário. João Pessoa. S. D.
Fontes: periódicos
Correio da Manhã, Parahyba, 07, 08, 09, 10, 11, 12, 13 agos, 1930. N. 148, 149, 150,
151, 152, 153, 154.
Era Nova. Parahyba: revista quinzenal, ano II. N. 23, 1923, 25p.
_______. Parahyba: revista quinzenal, ano V. N. 72, 1925, 27p.
Revista Cruzeiro. 08 de agosto de 1930.
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CASCUDO, Luis da Câmara. História da Alimentação no Brasil. Belo Horizonte:
Ed.Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1983.
FERREIRA, Alessandra Gomes Coutinho. Manuscritos Culinários de 1900-1950:
Inventário e descrição das receitas. João Pessoa, UFPB, 2006.
FREYRE, Gilberto. Açúcar. Em tôrno da Etnografia, da História, e da Sociologia
do doce no Nordeste Canavieiro do Brasil. Coleção Canavieira n 2. Divulgação do
Ministério da Indústria e do Comércio (Instituto do Açúcar e do Álcool). Divisão
Administrativa, seviço de documentação, 1969.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauri, 2004.
LÉVI-STRAUSS, Claude. O cru e o cozido. 1ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense,
1971.
MALUF, Marina et alli. Recônditos do mundo feminino. In: História da vida privada
no Brasil: República: da Belle époque à Era do rádio. Vol. 3. Org. Nicolau Sevcenko.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
MELLO, Evaldo Cabral de. O Fim das Casas-Grandes. In: História da vida privada
no Brasil: império, a corte e a modernidade nacional. Vol. 2. Org. Luiz Felipe
Alencastro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Tradução: Angela M. S. Correia.
São Paulo: Contexto, 2007.
ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz. Trad. Amalio Pinheiro, Jerusa Pires Ferreira. São
paulo: Companhia das Letras, 1993.
_______________.Performance, recepção, leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira, Suely
Fenerich. São Paulo: EDUC, 2000.
Sites:
http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/artigo_ana_coutinho.htm
http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/viewFile/426/347
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