Desidério Murcho Universidade Federal de Ouro Preto 1. 2. 3. 4. 5. 6. O problema da referência Descritivismo clássico: Bertrand Russell Argumentos de Kripke contra o descritivismo: semânticos, epistêmicos e modais A incompletude do descritivismo: Putnam e a Terra Gêmea A teoria causal de Kripke e as teorias da referência direta Palavras e coisas, linguagem e metafísica O caso dos termos singulares Banalidade: “Sócrates” refere Sócrates • Surpresa: Mas como? O problema não é saber se “Sócrates” refere Sócrates Sabemos que “Sócrates” refere Sócrates, tal como sabemos que os objetos caem Queremos é explicar como isso ocorre e porquê 1. 2. 3. 4. 5. 6. O problema da referência Descritivismo clássico: Bertrand Russell Argumentos de Kripke contra o descritivismo: semânticos, epistêmicos e modais A incompletude do descritivismo: Putnam e a Terra Gêmea A teoria causal de Kripke e as teorias da referência direta Palavras e coisas, linguagem e metafísica A versão de Bertrand Russell TERMOS SINGULARES Um termo singular tem o papel semântico de referir um só objeto; E não parece fazê-lo por meio de propriedades Exemplos: “Lua”; “Sócrates” TERMOS GERAIS Um termo geral refere seja o que for que tenha as propriedades indicadas Se só um objeto tiver essas propriedades, só um objeto é referido, mas o termo é mesmo assim geral Exemplos: “satélite natural da Terra”; “político honesto” Mill defendeu que os nomes não têm significado: são meras etiquetas “Porto Alegre” não quer dizer “um porto que é alegre” • Se quisesse dizer tal coisa, seria inadequado como nome caso a cidade perdesse o porto ou deixasse de ser alegre O significado literal dos nomes não desempenha qualquer papel semântico • ONU; Sacro Império Romano; Filosofia Analítica; Benedito; Desidério Se Mill tivesse razão, “A Estrela da Manhã é a Estrela da Manhã” teria o mesmo conteúdo informativo que “A Estrela da Manhã é a Estrela da Tarde”. Mas não tem o mesmo conteúdo informativo. Logo, Mill não tem razão. Se Mill tivesse razão, como poderia eu referir Sócrates? Eu não tenho qualquer contato causal com Sócrates Não posso apontar para ele e atribuir-lhe uma etiqueta “Sócrates” é uma descrição definida abreviada: “O filósofo grego que bebeu a cicuta” • x [(Fx y (Fy y = x)] “Sócrates” refere Sócrates porque só Sócrates tem a propriedade de ser um filósofo grego que bebeu a cicuta Um nome próprio é uma descrição definida disfarçada Russell tem uma teoria das descrições definidas E tem uma teoria epistemológica sobre a diferença entre conhecimento por contato e por descrição Quando estamos em contato com um objeto podemos usar um nome logicamente próprio para o referir Quando de um objeto temos apenas conhecimento por descrição, não podemos usar nomes logicamente próprios para o referir O descritivismo forte não é apenas uma teoria da referência É também uma teoria do significado • Diz-nos que o significado de “Sócrates” é “O filósofo grego que bebeu a cicuta” É uma teoria elegante: a teoria do significado dos nomes resolve o problema da referência DESCRITIVISMO FORTE As descrições associadas aos nomes abreviam os nomes Ou seja: o significado de “Sócrates” é algo como “O filósofo grego que bebeu a cicuta” Trata-se de uma teoria do significado e da referência dos nomes DESCRITIVISMO FRACO As descrições associadas aos nomes apenas lhes fornecem um mecanismo de referência As descrições não constituem o significado dos nomes Trata-se apenas de uma teoria da referência É compatível com a intuição de Mill de que os nomes não têm conteúdo semântico 1. 2. 3. 4. 5. 6. O problema da referência Descritivismo clássico: Bertrand Russell Argumentos de Kripke contra o descritivismo: semânticos, epistêmicos e modais A incompletude do descritivismo: Putnam e a Terra Gêmea A teoria causal de Kripke e as teorias da referência direta Palavras e coisas, linguagem e metafísica Argumentos semânticos, epistêmicos e modais Se “Sócrates” significasse “O filósofo grego que bebeu a cicuta”, a frase “Sócrates é o filósofo grego que bebeu a cicuta” seria analítica Mas a frase não é analítica Logo, “Sócrates” não significa “O filósofo grego que bebeu a cicuta. Dados quaisquer nome N e descrição definida D, nem sempre “N é D” é uma frase analítica. Se Russell tivesse razão, “N é D” teria de ser sempre uma frase analítica Logo, Russell não tem razão. Aplica-se apenas ao descritivismo forte O descritivismo fraco não é afetado Uma pessoa pergunta “Quem foi Sócrates?” Essa pessoa nada sabe sobre Sócrates Também não sabe que foi um filósofo grego que bebeu a cicuta Mas a pergunta já é sobre Sócrates A pessoa já o refere, mesmo sem conhecer qualquer descrição definida de Sócrates Poderíamos descobrir que afinal é historicamente falso que Sócrates tenha bebido a cicuta Ele tinha um irmão gêmeo, que morreu por ele, para salvar o grande filósofo, que depois fugiu para a Ásia, onde se dedicou ao cultivo de couves de Bruxelas Dado o caso anterior, mesmo o descritivismo fraco implica que “Sócrates” referiria o irmão gêmeo de Sócrates e não Sócrates Mas mesmo no caso anterior “Sócrates” refere Sócrates e não o seu gêmeo Logo, a teoria está errada 1. 2. “Sócrates poderia não ter sido o filósofo grego que bebeu a cicuta” “Sócrates poderia não ter sido Sócrates” 1 e 2 têm valores de verdade diferentes Mas não poderiam ter valores de verdade diferentes se o descritivismo fosse verdadeiro Logo, o descritivismo é falso Muitos filósofos se sentiram persuadidos por pelo menos algum destes argumentos a abandonar o descritivismo Mas outros persistem, como é o caso de Searle Em alguns casos, pequenos ajustes no descritivismo permitem-lhe resistir aos argumentos Podemos enfraquecer o descritivismo, entendendo-o apenas como teoria da referência. Isto anula o argumento semântico. Podemos usar aglomerados vagos de descrições, em vez de uma só. Isto permite resistir melhor ao argumento epistêmico. Podemos tornar efetivar as descrições definidas. Isto anula o argumento modal. “Sócrates” refere Sócrates por meio da descrição definida associada: “O filósofo grego que efetivamente bebeu a cicuta” 1. 2. 3. 4. 5. 6. O problema da referência Descritivismo clássico: Bertrand Russell Argumentos de Kripke contra o descritivismo: semânticos, epistêmicos e modais A incompletude do descritivismo: Putnam e a Terra Gêmea A teoria causal de Kripke e as teorias da referência direta Palavras e coisas, linguagem e metafísica Hilary Putnam e a Terra Gêmea O descritivismo pressupõe que a referência dos termos gerais é óbvia A idéia é que “satélite”, refere seja o que for que tiver a propriedade de ser um satélite, nada mais havendo para explicar Imagine-se que por coincidência cósmica há um planeta igualzinho ao nosso, molécula a molécula Mas com uma só diferença: não há lá H2O Mas há lá XYZ, que é fenomenologicamente igual a H2O Nesse planeta, quando as pessoas falam de água, querem dizer o líquido que bebem, que chove, que há nos rios, etc. Mas esse líquido é XYZ e não H2O Se o descritivismo estivesse correto, elas estariam a referir a nossa água ao usar o termo “água”. Mas isto é falso. Logo, o descritivismo é falso A idéia central é que a referência é uma função do contato causal “Água” na Terra Gêmea refere XYZ e não H2O porque essas pessoas estão em contato com a primeira e não com a segunda EXTERNISMO Os estados mentais não são suficientes para referir É necessário contato causal com o que se refere para se referir isso Os significados não ‘tão na cabeça, como diz Putnam INTERNISMO Os estados mentais são suficientes para referir Não é necessário contato causal com o que referimos para o referir Os significados estão na cabeça sim senhor O descritivismo enfrenta dificuldades notórias Estas podem ser em alguns casos resolvidas Mas sem uma teoria da referência dos termos gerais e dos termos para categorias naturais o descritivismo é uma teoria incompleta O descritivismo enfrenta dificuldades quando é aplicado a termos gerais 1. 2. 3. 4. 5. 6. O problema da referência Descritivismo clássico: Bertrand Russell Argumentos de Kripke contra o descritivismo: semânticos, epistêmicos e modais A incompletude do descritivismo: Putnam e a Terra Gêmea A teoria causal de Kripke e as teorias da referência direta Palavras e coisas, linguagem e metafísica Uma confusão que urge desfazer Kripke não tem uma teoria da referência dos nomes próprios Tem apenas uma sugestão teórica, a ser desenvolvida O nome “Sócrates” não refere por meio do seu conteúdo semântico, se é que tem algum Refere por meio de contato direto, como Russell defendia que ocorria com os nomes logicamente próprios Alguém começou a usar o nome “Sócrates” para referir Sócrates Outras pessoas ouviram o nome e começaram a fazer o mesmo Hoje, referimos Sócrates com esse nome porque esse nome está numa cadeia causal que remonta ao próprio Sócrates TEORIA CAUSAL Os nomes referem por meio de uma cadeia causal que vai dar ao objeto Os nomes podem ter conteúdo semântico, mas não é por meio deles que se dá a referência TEORIA DA REFERÊNCIA DIRETA Os nomes referem diretamente Os nomes não têm qualquer conteúdo semântico 1. 2. 3. 4. 5. 6. O problema da referência Descritivismo clássico: Bertrand Russell Argumentos de Kripke contra o descritivismo: semânticos, epistêmicos e modais A incompletude do descritivismo: Putnam e a Terra Gêmea A teoria causal de Kripke e as teorias da referência direta Palavras e coisas, linguagem e metafísica Confusões a evitar Kripke defende que os nomes próprios são, tipicamente, designadores rígidos Ao passo que muitas descrições definidas são designadores flexíveis Um designador é rígido se, e só se, refere em todos os mundos possíveis o particular que refere no mundo efetivo E é flexível se refere particulares diferentes em mundos possíveis diferentes “O filósofo grego que bebeu a cicuta” é uma descrição flexível Refere seja quem for que for um filósofo grego que bebeu a cicuta Refere Sócrates, no mundo efetivo, porque ele bebeu a cicuta e era filósofo Mas refere, por exemplo, Jacinto, num mundo possível em que ele era filósofo e bebeu a cicuta “O presidente do Brasil em 2010” refere Lula, porque ele ganhou as últimas eleições A mesma descrição referiria outra pessoa caso Lula tivesse perdido as eleições Mas “Lula” refere à mesma Lula, ainda que ele tivesse perdido as eleições “Sócrates” refere Sócrates mesmo que ele não tenha bebido a cicuta Muitas descrições definidas são flexíveis Mas algumas são rígidas • O número par primo Qualquer descrição definida por ser rigidificada, acrescentando o operador de efetividade • O filósofo que de fato, ou efetivamente, bebeu a cicuta A distinção entre designadores rígidos e flexíveis ajuda a distinguir palavras de coisas Quem confunde palavras com coisas pensa que esta distinção lingüística tem conseqüências metafísicas; mas não tem Caso Sócrates, por exemplo, possa ser uma pedra, “Sócrates” refere essa pedra nesse mundo possível A tese de que os nomes próprios são tipicamente rígidos não implica a tese metafísica conhecida como essencialismo O essencialismo é a tese de que os particulares têm algumas propriedades essencialmente, e outras acidentalmente A tese lingüística apenas clarifica as nossas intuições modais básicas, mas não implica qualquer tese modal Um acidentalista moderado é alguém que defende que as únicas propriedades essenciais são de caráter lógico Por exemplo, Sócrates é essencialmente Sócrates e essencialmente idêntico a Sócrates Mas é acidentalmente um ser humano: poderia ter sido um chinelo de quarto Se “Sócrates” refere seja quem for que era filósofo grego e bebeu a cicuta, é falso que Sócrates era acidentalmente um ser humano Para podermos sequer formular a tese acidentalista não podemos aceitar o descritivismo clássico Não são as idéias de Kripke acerca da linguagem que implicam uma tese metafísica essencialista As idéias de Kripke acerca da linguagem são compatíveis com o anti-essencialismo É o descritivismo clássico que implica o essencialismo