Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto
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O problema da referência
Descritivismo clássico: Bertrand Russell
Argumentos de Kripke contra o
descritivismo: semânticos, epistêmicos e
modais
A incompletude do descritivismo: Putnam
e a Terra Gêmea
A teoria causal de Kripke e as teorias da
referência direta
Palavras e coisas, linguagem e metafísica
O caso dos termos singulares
 Banalidade:
“Sócrates” refere Sócrates
• Surpresa: Mas como?
O
problema não é saber se “Sócrates” refere
Sócrates
 Sabemos que “Sócrates” refere Sócrates, tal
como sabemos que os objetos caem
 Queremos é explicar como isso ocorre e
porquê
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O problema da referência
Descritivismo clássico: Bertrand Russell
Argumentos de Kripke contra o
descritivismo: semânticos, epistêmicos e
modais
A incompletude do descritivismo: Putnam
e a Terra Gêmea
A teoria causal de Kripke e as teorias da
referência direta
Palavras e coisas, linguagem e metafísica
A versão de Bertrand Russell
TERMOS SINGULARES



Um termo singular tem o papel
semântico de referir um só
objeto;
E não parece fazê-lo por meio
de propriedades
Exemplos: “Lua”; “Sócrates”
TERMOS GERAIS



Um termo geral refere seja o
que for que tenha as
propriedades indicadas
Se só um objeto tiver essas
propriedades, só um objeto é
referido, mas o termo é
mesmo assim geral
Exemplos: “satélite natural da
Terra”; “político honesto”
 Mill
defendeu que os nomes não têm
significado: são meras etiquetas
 “Porto Alegre” não quer dizer “um porto que é
alegre”
• Se quisesse dizer tal coisa, seria inadequado como nome
caso a cidade perdesse o porto ou deixasse de ser alegre
O
significado literal dos nomes não
desempenha qualquer papel semântico
• ONU; Sacro Império Romano; Filosofia Analítica;
Benedito; Desidério
Se Mill tivesse razão, “A Estrela da Manhã é a
Estrela da Manhã” teria o mesmo conteúdo
informativo que “A Estrela da Manhã é a
Estrela da Tarde”.
Mas não tem o mesmo conteúdo informativo.
Logo, Mill não tem razão.
 Se
Mill tivesse razão, como poderia eu referir
Sócrates?
 Eu não tenho qualquer contato causal com
Sócrates
 Não posso apontar para ele e atribuir-lhe
uma etiqueta
 “Sócrates”
é uma descrição definida
abreviada: “O filósofo grego que bebeu a
cicuta”
• x [(Fx  y (Fy  y = x)]
 “Sócrates”
refere Sócrates porque só
Sócrates tem a propriedade de ser um
filósofo grego que bebeu a cicuta
 Um
nome próprio é uma descrição definida
disfarçada
 Russell tem uma teoria das descrições definidas
 E tem uma teoria epistemológica sobre a
diferença entre conhecimento por contato e
por descrição
 Quando estamos em contato com um objeto
podemos usar um nome logicamente próprio
para o referir
 Quando de um objeto temos apenas
conhecimento por descrição, não podemos usar
nomes logicamente próprios para o referir
O
descritivismo forte não é apenas uma
teoria da referência
 É também uma teoria do significado
• Diz-nos que o significado de “Sócrates” é “O filósofo
grego que bebeu a cicuta”
É
uma teoria elegante: a teoria do
significado dos nomes resolve o problema da
referência
DESCRITIVISMO FORTE



As descrições associadas aos
nomes abreviam os nomes
Ou seja: o significado de
“Sócrates” é algo como “O
filósofo grego que bebeu a
cicuta”
Trata-se de uma teoria do
significado e da referência dos
nomes
DESCRITIVISMO FRACO




As descrições associadas aos
nomes apenas lhes fornecem
um mecanismo de referência
As descrições não constituem o
significado dos nomes
Trata-se apenas de uma teoria
da referência
É compatível com a intuição de
Mill de que os nomes não têm
conteúdo semântico
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O problema da referência
Descritivismo clássico: Bertrand Russell
Argumentos de Kripke contra o
descritivismo: semânticos, epistêmicos e
modais
A incompletude do descritivismo: Putnam
e a Terra Gêmea
A teoria causal de Kripke e as teorias da
referência direta
Palavras e coisas, linguagem e metafísica
Argumentos semânticos, epistêmicos e modais
Se “Sócrates” significasse “O filósofo grego
que bebeu a cicuta”, a frase “Sócrates é o
filósofo grego que bebeu a cicuta” seria
analítica
Mas a frase não é analítica
Logo, “Sócrates” não significa “O filósofo
grego que bebeu a cicuta.
Dados quaisquer nome N e descrição definida
D, nem sempre “N é D” é uma frase
analítica.
Se Russell tivesse razão, “N é D” teria de ser
sempre uma frase analítica
Logo, Russell não tem razão.
 Aplica-se
apenas ao descritivismo forte
 O descritivismo fraco não é afetado
 Uma
pessoa pergunta “Quem foi Sócrates?”
 Essa pessoa nada sabe sobre Sócrates
 Também não sabe que foi um filósofo grego
que bebeu a cicuta
 Mas a pergunta já é sobre Sócrates
 A pessoa já o refere, mesmo sem conhecer
qualquer descrição definida de Sócrates
 Poderíamos
descobrir que afinal é
historicamente falso que Sócrates tenha
bebido a cicuta
 Ele tinha um irmão gêmeo, que morreu por
ele, para salvar o grande filósofo, que depois
fugiu para a Ásia, onde se dedicou ao cultivo
de couves de Bruxelas
Dado o caso anterior, mesmo o descritivismo
fraco implica que “Sócrates” referiria o
irmão gêmeo de Sócrates e não Sócrates
Mas mesmo no caso anterior “Sócrates” refere
Sócrates e não o seu gêmeo
Logo, a teoria está errada
1.
2.
“Sócrates poderia não ter sido o filósofo
grego que bebeu a cicuta”
“Sócrates poderia não ter sido Sócrates”
1 e 2 têm valores de verdade diferentes
Mas não poderiam ter valores de verdade
diferentes se o descritivismo fosse
verdadeiro
Logo, o descritivismo é falso
 Muitos
filósofos se sentiram persuadidos por
pelo menos algum destes argumentos a
abandonar o descritivismo
 Mas outros persistem, como é o caso de
Searle
 Em alguns casos, pequenos ajustes no
descritivismo permitem-lhe resistir aos
argumentos
 Podemos
enfraquecer o descritivismo,
entendendo-o apenas como teoria da
referência. Isto anula o argumento
semântico.
 Podemos usar aglomerados vagos de
descrições, em vez de uma só. Isto permite
resistir melhor ao argumento epistêmico.
 Podemos tornar efetivar as descrições
definidas. Isto anula o argumento modal.
 “Sócrates”
refere Sócrates por meio da
descrição definida associada: “O filósofo
grego que efetivamente bebeu a cicuta”
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O problema da referência
Descritivismo clássico: Bertrand Russell
Argumentos de Kripke contra o
descritivismo: semânticos, epistêmicos e
modais
A incompletude do descritivismo: Putnam
e a Terra Gêmea
A teoria causal de Kripke e as teorias da
referência direta
Palavras e coisas, linguagem e metafísica
Hilary Putnam e a Terra Gêmea
O
descritivismo pressupõe que a referência
dos termos gerais é óbvia
 A idéia é que “satélite”, refere seja o que for
que tiver a propriedade de ser um satélite,
nada mais havendo para explicar
 Imagine-se
que por coincidência cósmica há
um planeta igualzinho ao nosso, molécula a
molécula
 Mas com uma só diferença: não há lá H2O
 Mas há lá XYZ, que é fenomenologicamente
igual a H2O
 Nesse
planeta, quando as pessoas falam de
água, querem dizer o líquido que bebem,
que chove, que há nos rios, etc.
 Mas esse líquido é XYZ e não H2O
 Se o descritivismo estivesse correto, elas
estariam a referir a nossa água ao usar o
termo “água”. Mas isto é falso.
 Logo, o descritivismo é falso
A
idéia central é que a referência é uma
função do contato causal
 “Água” na Terra Gêmea refere XYZ e não H2O
porque essas pessoas estão em contato com
a primeira e não com a segunda
EXTERNISMO



Os estados mentais não são
suficientes para referir
É necessário contato causal
com o que se refere para se
referir isso
Os significados não ‘tão na
cabeça, como diz Putnam
INTERNISMO



Os estados mentais são
suficientes para referir
Não é necessário contato
causal com o que referimos
para o referir
Os significados estão na cabeça
sim senhor
O
descritivismo enfrenta dificuldades
notórias
 Estas podem ser em alguns casos resolvidas
 Mas sem uma teoria da referência dos
termos gerais e dos termos para categorias
naturais o descritivismo é uma teoria
incompleta
 O descritivismo enfrenta dificuldades
quando é aplicado a termos gerais
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O problema da referência
Descritivismo clássico: Bertrand Russell
Argumentos de Kripke contra o
descritivismo: semânticos, epistêmicos e
modais
A incompletude do descritivismo: Putnam
e a Terra Gêmea
A teoria causal de Kripke e as teorias da
referência direta
Palavras e coisas, linguagem e metafísica
Uma confusão que urge desfazer
 Kripke
não tem uma teoria da referência dos
nomes próprios
 Tem apenas uma sugestão teórica, a ser
desenvolvida
 O nome “Sócrates” não refere por meio do
seu conteúdo semântico, se é que tem
algum
 Refere por meio de contato direto, como
Russell defendia que ocorria com os nomes
logicamente próprios
 Alguém
começou a usar o nome “Sócrates”
para referir Sócrates
 Outras pessoas ouviram o nome e
começaram a fazer o mesmo
 Hoje, referimos Sócrates com esse nome
porque esse nome está numa cadeia causal
que remonta ao próprio Sócrates
TEORIA CAUSAL


Os nomes referem por meio de
uma cadeia causal que vai dar
ao objeto
Os nomes podem ter conteúdo
semântico, mas não é por meio
deles que se dá a referência
TEORIA DA REFERÊNCIA DIRETA


Os nomes referem diretamente
Os nomes não têm qualquer
conteúdo semântico
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O problema da referência
Descritivismo clássico: Bertrand Russell
Argumentos de Kripke contra o
descritivismo: semânticos, epistêmicos e
modais
A incompletude do descritivismo: Putnam
e a Terra Gêmea
A teoria causal de Kripke e as teorias da
referência direta
Palavras e coisas, linguagem e metafísica
Confusões a evitar
 Kripke
defende que os nomes próprios são,
tipicamente, designadores rígidos
 Ao passo que muitas descrições definidas
são designadores flexíveis
 Um designador é rígido se, e só se, refere em
todos os mundos possíveis o particular que
refere no mundo efetivo
 E é flexível se refere particulares diferentes
em mundos possíveis diferentes
 “O
filósofo grego que bebeu a cicuta” é uma
descrição flexível
 Refere seja quem for que for um filósofo
grego que bebeu a cicuta
 Refere Sócrates, no mundo efetivo, porque
ele bebeu a cicuta e era filósofo
 Mas refere, por exemplo, Jacinto, num
mundo possível em que ele era filósofo e
bebeu a cicuta
 “O
presidente do Brasil em 2010” refere
Lula, porque ele ganhou as últimas eleições
 A mesma descrição referiria outra pessoa
caso Lula tivesse perdido as eleições
 Mas “Lula” refere à mesma Lula, ainda que
ele tivesse perdido as eleições
 “Sócrates” refere Sócrates mesmo que ele
não tenha bebido a cicuta
 Muitas
descrições definidas são flexíveis
 Mas algumas são rígidas
• O número par primo
 Qualquer
descrição definida por ser
rigidificada, acrescentando o operador de
efetividade
• O filósofo que de fato, ou efetivamente, bebeu a
cicuta
A
distinção entre designadores rígidos e
flexíveis ajuda a distinguir palavras de coisas
 Quem confunde palavras com coisas pensa
que esta distinção lingüística tem
conseqüências metafísicas; mas não tem
 Caso Sócrates, por exemplo, possa ser uma
pedra, “Sócrates” refere essa pedra nesse
mundo possível
A
tese de que os nomes próprios são
tipicamente rígidos não implica a tese
metafísica conhecida como essencialismo
 O essencialismo é a tese de que os
particulares têm algumas propriedades
essencialmente, e outras acidentalmente
 A tese lingüística apenas clarifica as nossas
intuições modais básicas, mas não implica
qualquer tese modal
 Um
acidentalista moderado é alguém que
defende que as únicas propriedades
essenciais são de caráter lógico
 Por exemplo, Sócrates é essencialmente
Sócrates e essencialmente idêntico a
Sócrates
 Mas é acidentalmente um ser humano:
poderia ter sido um chinelo de quarto
 Se
“Sócrates” refere seja quem for que era
filósofo grego e bebeu a cicuta, é falso que
Sócrates era acidentalmente um ser humano
 Para podermos sequer formular a tese
acidentalista não podemos aceitar o
descritivismo clássico
 Não
são as idéias de Kripke acerca da
linguagem que implicam uma tese
metafísica essencialista
 As idéias de Kripke acerca da linguagem são
compatíveis com o anti-essencialismo
 É o descritivismo clássico que implica o
essencialismo
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