UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” PROJETO A VEZ DO MESTRE A AFETIVIDADE NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO Por: Maria da Aparecida Correia da Silva Orientador Profª. Celso Sanches Rio de Janeiro 2005 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” PROJETO A VEZ DO MESTRE A afetividade na relação professor-aluno Apresentação de monografia à Universidade Candido Mendes como condição prévia para a conclusão do Curso de Pós-Graduação “Latu Sensu” Pscopedagogia. Por: Maria da Aparecida Correia da Silva em 3 AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar a Deus que tem sido meu braço forte na realização desse trabalho acadêmico e também a meu esposo Décio que tem me incentivado a crescer cada vez mais. 4 DEDICATÓRIA Dedico este livro a todos os educadores, que assim que assim como eu, têm amado essa profissão e sonhado com dias melhores. A eles, o incentivo e a minha admiração. meu 5 RESUMO Essa pesquisa refere-se à afetividade na relação professor-aluno, validando a importância de uma prática pedagógica que seja participativa e libertadora. O insucesso de um número expressivo de alunos, em diferentes momentos de suas vidas, é um fato público e notório. Ainda que se possam atribuir possíveis justificativas sociais, econômicas, biológicas, inclusive familiares para o fenômeno, quase nunca o fracasso escolar é atribuído ao professor. Este parece desconhecer sua importância para o sucesso ou insucesso do seu aluno, porém o relacionamento entre o professor e o aluno pode estimular a criatividade, a curiosidade e a dúvida, pois, o ser humano, age movido pelo desejo para suprir sua carência. Tendo o seu desejo definido, o ser humano poderá construir resultados satisfatórios. Pensando no aluno, esse desejo poderá ser estimulado a partir do acolhimento do professor, e assim, ficará, certamente, mais fácil direcionar o processo de ensino-aprendizagem. Quando este assunto é transferido para a sala de aula, percebe-se que poucos são os alunos que conseguem ser percebidos pelo professor ou se identificar através dele. Também, o professor não consegue manter uma atitude de neutralidade, não demonstrando preferências ou antipatias. Essa relação afetiva entre professor e aluno não demonstra novidade ou até apresenta-se fraca e com pouca significância, importando apenas, o fato de o professor, dentro da sala de aula, ser somente um transmissor de padrões culturais e o responsável pela avaliação de algumas qualidades 6 sociais importantes para o aluno. Sabe-se que essa relação não se limita à transmissão e recepção de conhecimentos. Existe um envolvimento de ambos os lados. Professor e aluno passam a constituir um grupo novo onde o aluno procura o professor para refletir sua imagem, a fim de saber quem é e como é. É essa relação afetiva, geralmente inconsciente, mas marcante para o aluno, que pretende-se enfatizar, além de caracterizar a importância de uma relação professor-aluno mais construtiva, como ferramenta do ensinoaprendizagem, para que esse ocorra de forma adequada. 7 METODOLOGIA A metodologia utilizada foi centrada em uma revisão bibliográfica e observação do cotidiano da relação professor-aluno. Muitos pedagogos têm estudado o assunto e deixado um grande número de livros que dão respaldo ao estudo da afetividade na relação professor-aluno. As revistas educacionais também contribuíram com seus artigos sobre afetividade e cognição. Fez-se um estudo de vários autores, passo-a-passo, desde os precursores até os mais contemporâneos; não só de pedagogos, mas também psicólogos, psiquiatras e psicopedagogos. A proposta desse trabalho é uma reorganização dos estudos e idéias, visando uma relação professor-aluno mais afetiva e construtiva para que ocorra a aprendizagem de forma adequada. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 08 CAPÍTULO I - A Relação professor x aluno CAPÍTULO II - Professor... O que está por trás dessa profissão ? CAPÍTULO III 12 24 - O professor e sua disciplina CONCLUSÃO 30 42 ANEXO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 52 ÍNDICE 55 FOLHA DE AVALIAÇÃO 57 9 INTRODUÇÃO A pesquisa refere-se à afetividade na relação professor-aluno e valida a importância de uma prática pedagógica que seja participativa e libertadora. É essa relação afetiva, “as vezes inconsciente”, mas marcante para o aluno que quero enfatizar, pois é ela que caracteriza a importância da relação professor-aluno. O relacionamento entre o professor e o aluno pode estimular a criatividade, a curiosidade e a dúvida, pois, o ser humano, age movido pelo desejo de suprir sua carência. O acolhimento do professor facilitará e direcionará o processo de ensino-aprendizagem. É indispensável que se reconquiste o lado afetivo de nossos alunos para a construção do conhecimento Segundo os estudos realizados percebe-se que nossos alunos necessitam de ajuda para estabelecerem conceitos que os levem a se situarem no tempo e no espaço,real, construindo e modelando emoções. Segundo Lopes (2003), questões mal resolvidas refletem diretamente na aprendizagem; e para ajudar os alunos, especialistas sugerem, dentre vários 10 recursos, atos extremamente simples, como acolher o aluno, escutá-lo e mostrar-se disponível. “Educar é realizar a mais bela e complexa arte da inteligência. Educar é acreditar na vida, mesmo que derramemos lágrimas. Educar é ter esperança no futuro, mesmo que os jovens nos decepcionem no presente. Educar é semear com sabedoria e colher com paciência. Educar é ser um garimpeiro que procura os tesouros do coração.” ( CURY, 2003, p.9 ) Estas palavras falarão ao seu coração, pois a afetividade acompanha o ser humano desde o nascimento até a morte, por isso, faz-se necessário citar aqui, o Mestre dos mestres que nos ensina que o amor é um dom supremo “ Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência., ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor , nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se 11 com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba; mas havendo profecias desaparecerão; havendo línguas , cessarão; havendo ciência, passará, porque em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, o pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Porque agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (BÍBLIA SAGRADA, I Coríntios 13:1-13 ) Freire (2003 ) nos alerta para o fato de que precisamos saber que, sem certas qualidades ou virtudes como amorosidade, respeito aos outros, tolerância, humildade, gosto pela alegria, gosto pela vida, abertura ao novo, disponibilidade à mudança, persistência na luta, recusa aos fatalismos, identificação com a esperança, abertura à justiça, não é possível a prática pedagógica, que não se faz apenas com ciência e técnica. Ao educar para a vida, quebra-se paradigmas, transforma-se o destino de um povo e de um sistema social, preparando os alunos para questionarem e estabelecerem metas; e como ferramenta usar a afetividade para ajudá-los a escreverem suas próprias histórias. 12 CAPÍTULO I A RELAÇÃO PROFESSOR X ALUNO Quando se ouve falar em relação professor x aluno, o primeiro pensamento que nos chega é o do professor que se limita a ensinar e do aluno que está ali única e exclusivamente para aprender aquilo que o seu professor lhe traz como verdade inquestionável. É bom e desejável manter uma boa relação com os alunos na classe, sabendo que ali, é um lugar onde inevitavelmente nos relacionamos com nossos alunos. O modo como se dá essa relação com os alunos incidirá positivamente, tanto no aprendizado, quanto em nossa satisfação pessoal. Na verdade, esse relacionamento é que norteará todo o trabalho docente como facilitador do ensino-aprendizagem. Ensinar é levar alguém a aprender. Essa é uma definição muito simples. Existe uma relação básica entre ensinar e aprender. Os dois termos são inseparáveis, pois se o aluno não aprende, isso significa que o professor não ensina. O ponto central do ensino localiza-se primeiramente naquilo que 13 o professor faz, e o da aprendizagem no que o aluno faz. Mas a eficiência de nosso ensino não se avalia com base naquilo que o professor faz, mas no que o aluno faz, em decorrência de nossa prática didática. Portanto, aprender é modificar-se, pois opera mudanças em nossa forma de pensar, sentir e agir. A aprendizagem significa que houve mudança na mente, nas emoções e na vontade. Toda aprendizagem começa ao nível da emoção. As pessoas absorvem aquilo que se sentem interessadas em absorver, e rejeitam o que querem rejeitar. Se têm uma atitude positiva em relação a determinada coisa que ouvem, tendem a acatá-la; mas se têm para com ela uma atitude negativa, a tendência é fugir dela. Se temos sentimentos negativos para com alguém, rejeitamos tudo que ele diz, pois rejeitamos a pessoa dele. Pesquisando-se a fundo, os motivos que levaram alguns alunos a serem excelentes em algumas disciplinas e terem muitas dificuldades em outras, veremos que muitas vezes a causa estará relacionada a um professor que deixou sua marca,tanto positivamente, quanto negativamente. Veremos que o problema não está na disciplina e sim no professor. Segundo Morales ( 2003 ), a conduta do professor influi sobre a percepção que os alunos têm de sua própria relação com os professores. Não basta o que o professor faz; é necessário que o aluno perceba o interesse do professor. O trato do professor com o aluno ( ou com todos, cada um em seu momento ) tem um impacto muito poderoso nos alunos. Talvez nós, professores, não pensemos no que supõe para alguns alunos ver que o professor se fixou neles, que sabe que existem, que não passam despercebidos. 14 A disponibilidade, o interesse etc., têm de ser comunicados aos alunos; e tal comunicação afeta a percepção que eles têm do professor e, conseqüentemente, influi em sua dedicação às tarefas de aprendizado. O ponto de interesse consiste em captar que aquilo que importa, em última instância, é como somos percebidos, não simplesmente como imaginamos que somos. Essa idéia está relacionada com a avaliação do professor pelos alunos, que poderia merecer um tratamento mais amplo e diferenciado. Não se trata de um juízo, mas de verificar como somos percebidos e o que nos diz essa percepção que os alunos têm de nós. A imagem que os alunos captam de nós pode ser diferente daquela que queremos transmitir. Assim sendo, nos relacionamos com os outros, não como são, e sim como os percebemos. Pensemos que os alunos nos avaliam sempre de maneira informal e espontânea; nossa única opção é querer nos inteirar de como somos avaliados de fato pelos alunos e se essa avaliação nos diz algo. Uma influência específica vem da relação do professor com os alunos (disponibilidade, interesse manifestado por todos os alunos, paciência, boa preparação das aulas etc. ). Além disso, quer se pretenda conscientemente, quer não, os métodos utilizados na sala de aula, os exercícios, as práticas etc. podem influenciar notavelmente não só no aprendizado dos conteúdos ou habilidades dos alunos, mas também em suas atitudes com relação à disciplina, ao estudo e ao trabalho, assim como a respeito de si mesmos. Ao questionarem sobre a questão do professor ideal, muitos 15 chegam a conclusão de que esse professor não existe. Esse fato chega a ser um consolo para alguns, pois assim, podem aspirara serem excelentes professores sem terem que chegar às alturas de um modelo não executável. Em pesquisas de como deve ser o professor ideal, emergem traços e condutas desejáveis, mas também se conclui que há muitas maneiras de ser um bom professor, de manter um bom relacionamento com os alunos e de influenciá-los de maneira muito positiva. São muitos os estudos e pesquisas realizados sobre as características do professor ideal e do seu relacionamento com os alunos. A partir desses estudos aparecem duas características de condutas: Uma diz respeito à competência do professor para ensinar e controlar a classe e a outra a seu relacionamento com os alunos. Essas pesquisas mostram que de acordo com as idades dos alunos, as características apreciadas por eles não são as mesmas. Optei por expor a pesquisa feita com alunos mais velhos, e como era de se esperar, os alunos dão muito mais informações, pois expressam de maneira clara, que os bons professores são os que estão mais bem preparados, que são pessoas educadas e respeitosas, muito motivadas e dedicadas a sua profissão e que se preocupam de maneira autêntica com os alunos, os estimulam e ensinam a estudar, atendem às suas necessidades particulares, utilizam o reforço positivo (sabem elogiar, ressaltar os êxitos...), tiram partido dos interesses e habilidades dos alunos e buscam objetivos a longo prazo para seus alunos. 16 Segundo Morales (2003, p.34), essa pesquisa reforça duas considerações básicas: 1. Podemos ser bons professores e ao mesmo tempo diferentes; embora haja um perfil claro do bom professor, não se trata de um perfil rígido; os próprios alunos reconhecem que seus bons professores não são todos iguais. 2. Em distintas idades, as situações e necessidades dos alunos podem ser diferentes; características desejáveis com adolescentes ou adultos podem ser de importância menor em outras idades. Em síntese, segundo Morales (2003, p.34), a partir dessa pesquisa, conclui-se que, na hora da verdade, professores e alunos não são muito diferentes quando tentam definir um bom professor. Morales (2003, p.36) refere-se a uma série de estudos que mostram a relação entre qualidade do professor e traços da sua personalidade e de seu caráter ( com base nos estudos de Erdle, Murray e Rushton, 1985; Jones, 1989; e Murray, Rushtone Paunonen, 1990). Nesses estudos são utilizadas amostragens universitárias. Segundo estudos sobre o assunto, pode-se pensar que a personalidade já nos vem pronta e que pouco podemos fazer para mudála.Por exemplo, o senso de humor não se improvisa. Pode-se sempre potencializar o que há de mais positivo em nós mesmos; não contar coisas divertidas em sala, mas preparar bem nossas aulas; não mostrar uma proximidade afetiva que não está em nós, mas tratar a todos com respeito o 17 tempo todo etc. Sem dúvida, há traços de personalidade mais promissores que outros para ser um bom professor e estabelecer um bom relacionamento com os alunos; entretanto talvez aqui, mais que insistir em traços, convenha insistir em atitudes: o que mais importa são as atitudes e como se concebe o papel de professor. Na hora da verdade, importa mais o que o professor faz do que o que ele é. O que o professor faz brota de suas próprias atitudes, de como se vê em relação aos alunos. Nessa área a reflexão e a mudança são possíveis. Morales (2003, p.36) cita uma pesquisa interessante de Deiro (1995), que analisa como os professores, neste caso os de ensino médio, estabelecem uma relação sadia com sus alunos, de ajuda e apoio, dentro do que se pode considerar adequado na relação professor-aluno e em um contexto social mais propriamente desfavorecido. Os bons professores desse estudo coincidem em uma série de pontos que também aparecem em outras fontes e estudos, mas que aqui ficam mais claramente especificados. Não nos remetem traços de personalidades, mas as próprias atitudes, a como os professores se consideram como professores. Segundo Morales (2003, p.38): 18 1. Coincidem em ver sua profissão docente como uma oportunidade para ajudar e servir aos outros. Outros acrescentam até uma motivação religiosa; seu compromisso pessoal os leva a adotar uma atitude de serviço. Outros, comparando a profissão docente com outras profissões, consideram os alunos como clientes, aos quais têm de proporcionar um serviço e a cujas necessidades têm de se adaptar. Em suma, vêem a si mesmos em uma posição de poder para ajudar seus alunos. 2. Coincidem em acreditar que os professores têm a responsabilidade ética e moral de fazerem-se conscientes do impacto que eles têm sobre os alunos. Tal impacto não se dá apenas na linha dos conhecimentos e do desenvolvimento intelectual; incide também no desenvolvimento emocional e social dos alunos. Podemos influir também no desenvolvimento moral, no discernimento dos próprios valores e no discernimento para saber o que eles querem fazer com suas vidas. Nós, professores, não somos tudo, é claro, mas temos uma grande influência, ou podemos tê-la na vida de nossos alunos. 3. Coincidem em considerar-se como modelos de identificação e em aceitar as responsabilidades dessa percepção. Na relação professor-aluno,ensinar não é simplesmente dizer coisas para o aluno; o processo de ensino-aprendizagem não se resume nisso, vai muito além. Quanto maior o nível de envolvimento no processo de aprendizagem, maior o volume do conteúdo aprendido, pois a atividade que o aluno está envolvido deve fazer sentido para ele. 19 Existe de fato uma relação direta entre ensinar e aprender. Quanto maior for o envolvimento pessoal do aluno, mais ele tem possibilidade de aprender, desde que a atividade faça sentido para ele: - Atividades que forneçam orientação, sem imposição. - Atividades que dêem ênfase à função e à aplicação na prática. - Atividades com objetivos definidos. - Atividades que além de estarem relacionadas com o produto final estejam relacionadas também com o processo. - Atividades associadas a situações em que se vejam obrigados a solucionar problemas. Gostaria de citar alguns hábitos dos bons professores e dos professores fascinantes. Segundo Cury (2003, p.64), bons professores possuem metodologia e professores fascinantes possuem sensibilidade; e este hábito dos professores fascinantes contribui para desenvolver: auto-estima, estabilidade, tranqüilidade, capacidade de contemplar o belo, de perdoar, de fazer amigos, de socializar. Professores fascinantes vão além da didática, possuem sensibilidade para falar ao coração dos seus alunos. Um professor fascinante é capaz de, independente de qual seja a sua disciplina, ser alguém capaz de conduzir seus alunos numa viagem sem sair do lugar. Esse professor procura acolher seus alunos e compreendê-los, mesmo os mais difíceis. 20 A educação pode ser vista por vários ângulos e no que depender do professor, cada um dá sua parcela de contribuição para gerar uma humanidade mais saudável. Apesar de suas dificuldades, os educadores são insubstituíveis, pois sentimentos e sensibilidade não podem ser ensinados por máquinas, e sim por seres humanos. “ Educar a emoção também é se doar sem esperar retorno, ser fiel a sua consciência, extrair prazer dos pequenos estímulos, saber perder, correr riscos para transformar sonhos em realidade e ter coragem para andar por lugares desconhecidos.” (CURY, 2003, p. 66) A emoção de nossos alunos, deve ser educada para evitar gerar alguns resultados. Gerar jovens insensíveis que ofendem e machucam os outros, que não se preocupam com a sua dor e que não pensam nas conseqüências dos seus comportamentos. Gerar também , jovens alienados, que não ferem os outros, mas não pensam no futuro, que não têm sonhos, metas e que deixam a vida levá-los num conformismo doentio. Os jovens precisam de uma formação que tenha uma emoção rica e protegida. 21 “Na relação professor-aluno, em especial a relação que visa emancipar o homem, torna-se preponderante para o futuro da sociedade, pois poderá com a releitura do passado contextualizar o presente; apresentar no presente, opções outras do que a realidade atual e potencializar um futuro diferente do fatalista, ou seja, o de libertá-lo.” (GUEDES, 2004, p. 33 ) A relação do professor com os alunos não se limita ao que costumamos associar à expressão relações humanas ( sermos abertos, amáveis etc .); abrange todas as dimensões do processo de ensino- aprendizagem desenvolvido na sala de aula; dando estrutura e orientação ao aprendizado. Além disso,a tarefa básica do professor consiste em ajudar aos alunos a estudar e aprender. Um bom relacionamento com os alunos, se não houver eficácia na tarefa docente, não é uma boa relação de um ponto de vista integral. O professor influi sobre os alunos e os alunos influem sobre o professor. A atitude do professor com relação aos alunos, condiciona a atitude dos alunos diante do professor. As expectativas sobre alguns alunos se traduzem em condutas que os orientam e estimulam; deve-se ter a mesma atitude com todos. Cabe ao professor tentar mudar um mau relacionamento ( com todos ou com alguns alunos ) ... E nesse contexto, ainda que pareça um tema menor, as primeiras impressões são importantes e o professor deve controla-las ... Da posição de poder e autoridade ( o professor os tem ), é fácil lançar a culpa nos alunos ( falta de interesse, de motivação etc. ), mas sempre pode-se explorar recursos e estratégias para melhorar o relacionamento e estimular os alunos. 22 Procurar esse bom relacionamento pode ser difícil com alguns alunos. Com freqüência, os que vão pior são os que causam maiores problemas, e, às vezes, uns poucos consomem todas as energias. Apesar de ser difícil prescindir das próprias emoções e sentimentos, não pode-se esquecer, que esses alunos também são alunos. Segundo Morales (2003, p.92), o professor, mesmo que inconscientemente, dispensa um tratamento diferencial a alguns alunos e esse tratamento tende a se manifestar de diversas maneiras: 1 – Os professores estabelecem um clima sócio-emocional mais agradável com esses alunos; são mais condescendentes e amáveis com eles. Esse clima é criado em certa medida por meio de comunicações e de gestos nãoverbais, o que pode se dar com um olhar, que proporciona um canal de comunicação muito expressivo. 2 – Os professores dão uma informação mais matizada e diferenciada (feedback verbal e não-verbal ) a esses alunos sobre acertos e erros; ajudam-nos mais em seu aprendizado. Tais alunos são menos criticados, suas idéias são mais aceitas, e são muito considerados. Por exemplo: seus acertos são reconhecidos e elogiados, resume-se e aproveita-se o que o aluno especial disse, compara-se com outras coisas etc. O professor de uma maneira ou de outra, faz eco da intervenção do aluno; são menos ignorados que os outros alunos, dos quais não se espera muito. 3 – Parece que os professores ensinam mais, dão mais informação e até ensinam coisas mais difíceis a esses alunos “especiais”; contribuem mais 23 para o êxito acadêmico deles do que o dos outros alunos. 4 – Os professores dão a esses alunos mais oportunidades para responder; perguntam mais para eles ou lhes dão mais tempo para responder; o professor inicia a interação com esses alunos com mais freqüência. Faz-se necessário, estar atentos a esses tratamentos que por muitas vezes é dispensado aos alunos e fazer uso de uma pedagogia afetiva. É muito claro que uma mudança valorativa no nível de expectativa que o professor tem a respeito do rendimento acadêmico de um aluno, se traduz em mudança no afeto que o professor demonstra por esse aluno. Por exemplo, se acredita no potencial desse aluno, ele o agradará mais. Há também, a mudança no esforço do professor para ensinar e ajudar esse aluno (o esforço vale a pena ). Se o aluno responde com seu esforço às expectativas e à atenção especial do professor, reforça a atitude do professor. Os professores, precisam ser autênticos e sinceros consigo mesmos, ter consciência de que têm ( ou podem ter ) expectativas e desejos diferentes a respeito de alunos ou grupos de alunos. E, naturalmente, tais expectativas ou desejos podem ser perfeitamente legítimos. É natural, por exemplo, esperar muito de um aluno com um bom histórico anterior. O que não podemos perder de vista, é que esses alunos não são o nosso foco 24 principal e que precisamos nos esforçar sobremaneira para ajudar aos demais alunos a romper as barreiras que os deixam a margem de um rendimento desejável. Não podemos esquecer que: “ A tarefa do professor é despertar a mente do aluno, é estimular idéias, através do exemplo, da simpatia pessoal, e de todos os meios que puder utilizar para isso, isto é, fornecendo-lhes lições objetivas para os sentidos e fatos para a inteligência... O maior dos mestres disse: “A semente é a palavra.” O verdadeiro professor é o que revolve a terra e planta a semente.” (HENDRICKS, 1991, p.72) 25 CAPÍTULO II PROFESSOR... O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSA PROFISSÃO ? “O ensino que realmente causa impacto em quem o recebe não é o que passa de uma mente para outra, mas de um coração para outro”. (HENDRICKS, 1991, p. 91 ) Essa é a lei do coração, que só pode ser verdadeira se compreendermos o sentido da palavra coração. Para os hebreus, esta palavra englobava a totalidade do ser: intelecto, emoção e vontade. O ensinar nada mais é que a transformação total de uma personalidade. Transferir conhecimento de intelecto para intelecto é a coisa mais simples do mundo. Mas fazer esse trajeto pela via do coração é bem mais difícil, mas também muito mais compensador. Aliás, opera transformação de vida. Cury (2003, p.147) , a respeito de Sócrates, resume a essência da comunicação em três conceitos fascinantes que ele denominou ethos , pathos e logos. O primeiro, ethos, diz respeito ao caráter. Pathos compreende a parte da afetividade, e logos, o do conteúdo. Ethos, segundo explicava Sócrates, diz respeito à credibilidade do 26 professor, sua credencial. Ele afirmava que o nosso jeito de ser é mais importante do que o que dizemos ou fazemos. Aquilo que somos como pessoa é o fator que mais pesa em nossa atuação como professor. O professor tem que ter atrativos para aqueles a quem leciona. É preciso que confiem no professor, e quanto mais confiarem, melhor será a comunicação entre eles. O outro aspecto, phatos, diz respeito ao modo como o professor desperta as emoções e sentimentos de seus alunos. O filósofo sabia que são as emoções que afinal determinam o rumo de nossos atos . E isso é a chave para a motivação, já que Deus criou o homem com emoções e sentimentos. Segundo Cury (2003, p.148), Sócrates estava convencido também de que os professores precisam do conteúdo programático e denominou-o logos. Então o conceito do logos diz respeito à apresentação de nossa argumentação. Ele envolve a mente no processo e assim opera a compreensão do fato. Constitui a base lógica das ações que desejamos ver os alunos praticarem, para que descubram por si que essas ações são corretas e sensatas. O caráter do professor gera confiança no coração do aluno. Quando este percebe a qualidade de vida do professor, reconhece que ele tem algo a oferecer-lhe; sente que pode confiar nele. Percebe que o mestre não mentiria para ele. Essa credibilidade é o maior atributo que o professor possui para 27 sua comunicação. É preciso ter o máximo de cuidado para não perdê-la, pois uma vez perdida é dificílimo reconquistá-la. O professor precisa convencer-se de que a base de uma comunicação eficiente é aquilo que ele é, que vem de dentro dele. Vez por outra ele deve dirigir a si mesmo a pergunta: Que tipo de professor eu sou ? É a afetividade que vai gerar no aluno a motivação para aprender. Quando o aluno sente que o professor o ama e que ama aquilo que faz, dispõe-se a fazer tudo que ele quiser que faça. É o conteúdo que gera no aluno a percepção. O mestre tem primeiro a percepção de um fato, que depois o aluno também vê, compreende, descobre e apossa-se dele. Afinal, ele passa a integrar sua rede de conhecimentos. Os melhores mestres não são necessariamente os que se acham a frente de tudo, que possuem grande inteligência. São aqueles que possuem um grande coração. Ao ensinar, fazem-no com todo o seu ser, e atingem todo o ser daqueles que o ouvem. Faz-se necessário pensar um pouco nessa dinâmica de ensinaraprender. Ensinar é levar alguém a aprender ( Essa é a mais simples definição ). Existe uma relação básica entre ensinar e aprender. É o processo ensino-aprendizagem; algo conjugado, ligado por hífen. Os dois termos são inseparáveis. Se o aluno não aprende, isso significa que o 28 professor não ensina. 2.1- Professor ou educador? “O educador olha e interage com o homem - que pode ser seu aluno - em seu contexto e na sua diversidade. O professor vê seus alunos em sua disciplina. O educador é movido por sua vocação no seu campo de trabalho, na vida; enquanto o professor, atua somente em sua profissão, mas também não pode se escusar de atuar com ética, sinceridade e amor.” (FREITAS,1991, P.33 ) Não há dúvida de que a emoção influencia de maneira significativa muitas das funções comportamentais e cognitivas diárias. A importância da emoção nas questões humanas é óbvia e segundo estatísticas da organização mundial de saúde, hoje a depressão ocupa o 4º lugar entre as doenças do mundo. Para o ano 2.010, a previsão é de que ela ocupe o 2º lugar. 2.2- Como o professor pode intervir nessa realidade? Segundo Maturana (1997, p.49), “educar é enriquecer a capacidade de ação e de reflexão do ser aprendente; é desenvolver-se em parceria com outros seres; desenvolver-se na biologia do amor que nos mostra que o 29 ser vivo é uma unidade dinâmica do ser e do fazer”. Assim, a educação é, para esses autores um processo de transformação na convivência, onde o aprendiz se transforma junto com os professores e com os demais companheiros com os quais convive em seu espaço educacional. Faz-se necessário uma convivência harmoniosa e sadia, capaz de ampliar ou mudar a capacidade de ação e reflexão de maneira que possam tomar consciência de seus sentimentos e de suas emoções; e o mais importante, é que sejam capazes de criar condições que permitam a cada um ser cidadão/ã sério, responsável e, sobretudo, feliz. É a interação entre o sentir e o pensar que permitirá ao professor educar visando á restauração da inteireza no sentido de colaborar para a construção do ser humano como templo da inteireza, onde pensamentos, emoções e sentimentos estejam em constantes diálogos. Ainda respondendo à pergunta acima, deve-se educar não somente para o desenvolvimento das inteligências, mas sobretudo, educar sem reprimir a experiência da comunhão e a experiência do coração; reprimidos durante séculos em nome de algo que no mundo moderno chamamos de ciência. Educar reconhecendo a totalidade do ser humano, é a forma dos, educadores, fazerem justiça ao todo que são, lembrando que necessitam, mais do que nunca, conspirar a favor da inteireza humana para que possam ser mais felizes em sua própria humanidade. 30 A emoção precisa ser educada com inteligência, estimular o aluno a pensar antes de reagir, a não ter medo do medo, a ser líder de si mesmo, autor da sua história, a trabalhar não apenas com fatos lógicos e problemas concretos, mas também com as contradições da vida. Educar a emoção também é se doar sem esperar retorno, ser fiel à sua consciência, extrair prazer dos pequenos estímulos da existência, saber perder, correr riscos para transformar os sonhos em realidade e ter coragem para andar por lugares desconhecidos. Sem a educação da emoção pode-se gerar pelo menos três resultados: Pessoas insensíveis, hipersensíveis, ou ainda, alienadas. É preciso gerar jovens determinados, criativos e empreendedores para que sobrevivam a esse sistema tão competitivo, pois os que não têm meta nem ousadia para materializar seus projetos poderão viver á margem da sociedade e engrossar a massa de desempregados. Jovens desqualificados intelectualmente prejudicam o futuro de uma nação. É necessário qualificar os alunos. Eles devem sentir-se importantes na escola, precisam participar de certas decisões. Precisam aprender a fazer escolhas, para aprenderem a lição de que toda escolha implica perdas e ganhos. O professor precisa formar jovens que façam a diferença no mundo, 31 que proponham mudanças, que resgatem seu sentido existencial e o sentido das coisas. Uma das causas que levam milhões de jovens a usar drogas é que eles não têm sentido de vida, nem engajamento social; e esta atitude os levam a viver na mais dramática prisão: o cárcere da emoção. 32 CAPÍTULO III O PROFESSOR E SUA DISCIPLINA Se o aluno gosta do ambiente escolar, se é bem tratado, respeitado, se ele vê sentido no que aprende ali, a instituição escolar pode tornar-se alvo de projeções afetivas positivas e tornar-se um valor para ela. Caso contrário, se ele é constantemente humilhado, desrespeitado, questionado em suas capacidades e competências intelectuais e sociais, é bem provável que esse espaço seja alvo de projeções afetivas negativas, que não seja valorizado, que não se constitua em um valor para ela, e sim num contravalor: um espaço a ser depredado, pichado, ignorado. O trabalho pedagógico precisa ser interessante, ter sentido para a vida dos alunos e, por isso, acredito que o emprego de novas tecnologias, de novas ferramentas, de outras linguagens, pode ajudar no trabalho docente para que suas aulas tornem-se mais próximas das linguagens com que os estudantes de hoje estão acostumados a conviver. Empregar essas novidades como ferramentas, como recursos metodológicos, aliados a metodologias mais dinâmicas e dialógicas que promovam mudanças nas relações, nos espaços e nos tempos escolares, aumentará a probabilidade de que os conteúdos tradicionais e éticos trabalhados pelos docentes sejam alvo de projeções afetivas positivas por parte dos alunos, e possam constituir-se como valores. 33 O desafio é encontrar formas de organizar as práticas e os currículos escolares de maneira que atinjamos os objetivos propostos: a formação da cidadania, visando a que os alunos desenvolvam competências para lidar de maneira consciente, crítica, democrática e autônoma com a diversidade e o conflito de idéias, com influências da cultura e com os sentimentos e as emoções presentes nas relações que estabelecem consigo mesmos e com o mundo. O caminho que o educador que tem a afetividade como principal ferramenta do ensino aprendizagem trilha, busca romper com práticas e currículos escolares tradicionais. Diferente do ensino tradicional, entende-se que os sentimentos e os valores devem ser inseridos no currículo e nas práticas educativas como conteúdos escolares. Da mesma forma que se aprende a somar, a escrever, a conhecer fatos históricos e o mundo em que vivemos, conhecer a nós mesmos e aos demais com quem convivemos. Para atingir tal objetivo, a escola deve promover atividades sistemáticas que levem cada estudante e o coletivo da classe a tomar consciência dos próprios sentimentos, emoções e valores. Nesse tipo de proposta em que a afetividade é encarada como um tema transversal, a escola admite que tais conhecimentos são tão importantes quanto aqueles tradicionais dos currículos. A questão presente tem, pelo menos, um triplo significado: Primeiro, à medida em que sentimentos, emoções e valores são aspectos presentes na vida de todos os seres humanos, sua abordagem na escola faz com que o currículo torne-se mais contextualiza do no cotidiano das pessoas, trazendo um novo sentido 34 para a escola., segundo, ao trabalhar sentimentos, emoções e valores perpassando os conteúdos tradicionais de matemática, línguas, história, ciência e artes; estes passam a ter um novo significado, deixando de ser encarados como a “ finalidade” da educação, e passando a ser compreendidos como um importante “meio” para as pessoas conhecerem a si mesmas e ao mundo em que vivem., e por último, ao adotar a perspectiva proposta, a educação articula-se com o pressuposto de indissociação entre cognição e afetividade no funcionamento psíquico. Tal mudança curricular, além de permitir uma aprendizagem emocional importante para a resolução de conflitos cotidianos, auxilia na construção da consciência crítica e autônoma dos alunos, contribuindo para o fortalecimento dos níveis de consciência nas relações entre emoções e sentimentos. O ponto central do ensino localiza-se primeiramente naquilo que o professor faz, e o da aprendizagem no que o aluno faz. Mas a eficiência de nosso ensino não se avalia com base naquilo que o professor faz, mas no que o aluno faz, em decorrência de nossa prática didática. Portanto, uma simples definição de aprendizagem é “aprender é modificar-se”, pois basicamente, aprender opera mudanças em nossa forma de pensar, sentir e agir. A aprendizagem significa que houve mudança na mente, nas emoções e na vontade. Toda aprendizagem começa ao nível da emoção. As pessoas absorvem aquilo que se sentem interessadas em absorver , e rejeitam o que 35 querem rejeitar. Se têm uma atitude positiva em relação a determinada coisa que ouvem, tendem a acatá-la; mas se têm para com ela uma atitude negativa, a tendência é fugir dela. Quando têm-se sentimentos negativos para com alguém, rejeita-se tudo que ele diz, pois rejeita-se a pessoa dele. Mas quando se gosta de alguém que tem interesse por nós, atende-se seus pedidos por mais incomuns que sejam. Ninguém tem o mínimo interesse pelo que o professor tem a comunicar, a não ser que perceba que tem interesse nele pessoalmente. É comum encontrar alunos com baixo rendimento em determinadas disciplinas, que quando abordados sobre o assunto, respondam sempre, que não gostam daquela disciplina ou que não se sentem capazes se superar as dificuldades por não terem aptidão para ela. Segundo Gardner (1995), mesmo que não se tenham determinadas competências, todas as inteligências podem ser trabalhadas através da motivação, de técnicas e estímulos. Quando o aluno rejeita a figura do professor de determinada disciplina, a tendência é de que ele perca o interesse pela disciplina. 36 Muitos professores ao longo dos anos, vêm deixando marcas negativas em seus alunos, que muitas vezes as carregam ao longo de suas vidas, e que causam bloqueios que interferem, inclusive, nas carreiras que escolhem. Ao falar de afetividade, não se pode deixar de falar, que antes do professor ganhar seu aluno para sua disciplina, é necessário, que ele o ganhe antes para si. Imagine o que se passaria no coração de um adolescente, se, no momento em que saia da sala de aula, se seu professor o puxasse para si e o abraçasse dizendo: “Meu filho, quero lhe dizer que estou do seu lado. Se algum dia precisar de qualquer tipo de ajuda, pode me procurar, está bem ? Estou com você para o que der e vier.” Esse garoto nunca mais se esqueceria daquele professor e isso só se consegue com o coração. É preciso causar impacto. Conhecer bem os alunos, pois quanto melhor se conhecer as dificuldades deles, mais apto se está para saná-las. Essa tarefa exige grande dedicação pessoal e muito tempo, e é aí, que muitos professores desistem. Mas não existe uma fórmula mágica. Para se ensinar bem é preciso pagar o preço: estar dispostos a dedicar a vida a isso. Esse processo implica em um maior envolvimento com os alunos, tanto na sala de aula, como fora dela, formal e informalmente. Implica em 37 chegar cedo à sala de aula, e ficar um pouco mais após o horário para conversar com eles. Existem alguns professores que parecem estar preparados até demais, pedagogicamente. Um típico professor de faculdade entra na sala de aula preparado até a raiz do cabelo. Gosta da disciplina que leciona, e sabe discorrer sobre ela em qualquer situação. Mas assim que a aula se encerra, desaparece e não se vê nem a sombra dele, a não ser na próxima aula. Se alguém quiser conversar com ele terá que dar-lhe uma rasteira. Parece que alguns professores vivem num mundo irreal, totalmente alheio aos alunos. Precisam ser desafiados a mergulhar na vida deles. Com um relacionamento distante pode-se impressionar algumas pessoas; mas se quiser causar impacto, têm que nos aproximar mais. E quanto mais próximos estiverem deles, maior e mais permanente será o impacto que causarão. O professor deve mostrar-se vulnerável perante seus alunos. Falarlhes das dificuldades que enfrenta e daquelas que tem tentado vencer faz anos. Isso aproxima mais o professor de seus alunos. Ele descer do pedestal, mostrar como realmente é; sujeito aos mesmos problemas que eles. É preciso lembrar que as pessoas vêem o professor apenas como ele é no presente, e não como era antes, e portanto não sabem das lutas que ele passa; não sabem do processo de crescimento que vivenciam alunos só conseguirão enxergá-lo como realmente é, quando realmente 38 forem ensinados de coração para coração. Muitos professores desistiram de educar, corrigem seus alunos publicamente, expressam autoridade com agressividade, são excessivamente críticos, colocam limites sem dar explicações, são impacientes, não cumprem com a palavra e com isso destroem a esperança e os sonhos de seus alunos. As pessoas que perdem a esperança têm enormes dificuldades para superar seus conflitos. A perda de seus sonhos torna-os opacos, sem brilho, presos as suas derrotas. É preciso lembrar que quando não há sonhos, não há fôlego emocional., e sem esperança não há coragem para viver. É preciso discutir com os alunos a realidade concreta a que se deve associar a disciplina cujo conteúdo se ensina. Estabelecer um elo entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos; discutir à ética e as políticas ideológicas dos dominantes. A grande tarefa do educador não é transferir, depositar, oferecer, doar ao outro; sua tarefa é desafiar o educando e produzir sua compreensão. Freire (2003), nos diz que uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ensaiam a 39 experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar. 3.1- As razões e o significado do termo fracasso escolar Cordié (1993, p.20), relata que o fracasso, opondo-se ao sucesso, implica um julgamento de valor e esse valor é função de um ideal. Um sujeito se constrói perseguindo ideais, que se apresentam a ele no decorrer de sua existência. Esses ideais são, essencialmente, aqueles de seu meio sócio-cultural e de sua família., ela mesma marcada pelos valores da sociedade à qual pertence. O sucesso escolar ocupa um lugar muito importante na vida dos alunos, pais, professores e governantes. Ser bem sucedido na escola é ter a expectativa do ter, mais tarde, uma bela situação, de ter acesso, portanto, ao consumo de bens. Significa também ser “alguém”, isto é, possuir o falo imaginário, ser considerado e respeitado. O dinheiro e o poder são a felicidade. O próprio Estado alimenta essa aspiração. Para ser grande, uma nação deve sempre aumentar suas riquezas e suas competências. O fracasso escolar pressupõe a renúncia a tudo isso, a renúncia ao gozo. Quando se fala do futuro para uma criança em situação de fracasso escolar, muito freqüentemente ela evoca o fato de que se tornará um mendigo. Para muitas crianças é algo temido, angustiante, o que as espera “se elas não trabalharem bem na escola.” 40 Esse discurso de que o sucesso é desejado e esperado não é sustentado somente pelos pais; os alunos os ouvem também de seus mestres, que têm, eles próprios, um contrato a cumprir. Eles também são submetidos a um imperativo de sucesso, a turma pela qual são responsáveis deve ter suficiente performance para que, no final do ano, a maioria dos alunos seja aprovada. São, portanto, os bons resultados dos alunos que fazem os bons mestres serem reconhecidos pela hierarquia: direção, inspeção, coordenação etc., e pelos pais de alunos. A angústia que essa competitividade gera, se manifesta em todos os níveis, parecendo mais particularmente nociva durante os primeiros anos da aprendizagem escolar. De fato, a inquietude ligada às performances suscita na criança um questionamento permanente: Conseguirá passar de ano? Terá “maturidade” suficiente? Possuirá todas as capacidades intelectuais que se supunha que tivesse? Os julgamentos sobre elas terão sérias conseqüências e serão, às vezes, determinantes para o prosseguimento da escolaridade, pois podem modificar e até mesmo deteriorar grandemente as relações com o ambiente. A criança nem sempre faz a separação entre um julgamento de valor e o amor que alguém lhe dedica. Ser um mau aluno equivale para ela a ser um mau filho. 3.2- O que pode acontecer depois das primeiras dificuldades? Diante das primeiras dificuldades, três hipóteses poderão ocorrer: Na primeira hipótese, ela poderá reagir por meio de distúrbios do 41 comportamento. Para compensar seu fracasso, ela procura se fazer notar por outros meios que não os escolares: bancar o palhaço em aula, por exemplo, para fazer rir; ela pode também multiplicar as “besteiras” para impô-las a seus colegas e recuperar um certo prestígio junto a eles. A condenação da qual ela será objeto reforçará nela o sentimento de injustiça ( é assim que a criança o verbaliza ) e agravará a passagem a atos mais ou menos delituosos. As condutas desviantes, se se perpetuarem, acentuam a rejeição. Da rejeição escolar, com a revolta que se segue a ela, chega-se a rejeição social com as atitudes de marginalização e de delinqüência. O jovem desde agora se fez uma “reputação”, alguma coisa da qual lhe será muito difícil sair, pois foi fixada. Na segunda hipótese, a criança aceita seu fracasso e esse sentimento o torna “o mau aluno”, e a partir daí se identifica com isso. Ela se instala numa posição passiva masoquista. Ela será rotulada e assumirá esse papel. São essas crianças que ficam “jogadas” na reeducação em classes de recupera;ao, num estado de indiferença e de imobilismo. Esse estado de passividade que perdura, se torna uma segunda natureza., a criança se habitua a ele, depois se satisfaz com ele e por fim, lhe será difícil sair dele. Na terceira hipótese, o sistema escolar apresenta mais flexibilidade: os julgamentos de valor são relativizados. A noção de fracasso não está mais ligada ao tempo, pois o tempo não é mais marcado pelas fatídicas barreiras a vencer ( leitura, escrita etc). Os programas não são mais administrados de forma obsessiva. Ao invés do “pode fazer melhor”, chavão obrigatório do boletim escolar, o destaque é dado às realizações do sujeito. Substitui-se o temor do malogro pelos encorajamentos pelos esforços e os progressos alcançados. Ainda há nessas turmas um pouco desta 42 alegria ligada às aprendizagens lúdicas que a criança conhecia na pré-escola. Se pais e professores são menos angustiados, a criança é mais disponível em seu novo papel de estudante. Algumas escolas rurais com classe única não conhecem o fracasso escolar. Como não há uma separação bem marcada de uma série a outra, cada um pode andar no seu ritmo com o tempo que lhe for necessário. Mais liberdade na aprendizagem e menos pressão favorecem a integração da criança ao sistema. 3.3- Posição dos educadores quanto ao fracasso escolar Os educadores são muito reservados quanto a essa questão. Eles temem cada vez mais, ultrapassar seu papel, porque têm uma elevada idéia de suas responsabilidades. Poderia se dizer que sua reticência corresponde a sua consciência profissional. Não são eles, e somente eles, que devem, por suas qualidades pedagógicas, levar ao sucesso os alunos que lhe são confiados ? Em caso de fracasso, eles se sentem no banco dos réus ainda mais diretamente, pois o sistema educativo favorece esse tipo de reação. De fato, não são eles julgados considerando-se os bons resultados de sua turma ? 3.4- Aprendizagem baseada na afetividade Segundo Kohl (1992), a compreensão do pensamento humano, só é possível quando se compreende sua base afetivo-volutiva. Kohl (1992, p.84) cita que para Vygostky, “a separação do intelecto 43 e do afeto, enquanto objetos de estudo, é uma das principais deficiências da psicologia tradicional, uma vez que esta apresenta o processo de pensamento como fluxo autônomo de pensamentos que pensam a si próprios, dissociado da plenitude da vida, das necessidades e dos interesses pessoais, das inclinações e dos impulsos daquele que pensa.” Refere-se também que Wallon, traz a dimensão afetiva como ponto fundamental em sua teoria psicogenética. Para ele, o primeiro contato da criança com o mundo e as pessoas é emocional. É a emoção que permite as primeiras construções da criança. Para ele, os estados afetivos, sob forma de emoções encontram-se na origem da consciência, operando a passagem do mundo orgânico para o social, do fisiológico para o psíquico. As emoções, segundo Wallon, possuem características específicas que as diferenciam de outras manifestações orgânicas, como aceleração dos batimentos cardíacos, secura na boca, mudança no ritmo da respiração etc. Além disso, as emoções também provocam alterações na mímica facial, na postura e na forma como são executados os gestos. Galvão (1998), nos fala em sua tese de Doutorado, da importância da emoção para as funções intelectuais, que na psicogênese acabam por adquirir importância progressiva. como modo de interação com o meio. Torna-se nesse sentido, de extrema necessidade para o educador, pensar nesta importância do fator emocional para a aprendizagem e para a formação de seus alunos. 44 “ Ao educador que lida com aqueles que se encontram nesta fase por excelência, seriam de grande utilidade recursos teóricos que sensibilizassem para os traços expressivos da conduta das crianças __ olhar, mímica fisionômica, entonação da fala, qualidade dos gestos, variações posturais __ por meio dos quais se podem obter indícios sobre diversos aspectos da atividade cognitiva e dos estados afetivos. Além de uma ampliação de recursos para a leitura dos traços expressivos, desse processo de leitura dos corpos e rostos, esperam-se contribuições para o trato com as dinâmicas interativas desencadeadas pelas emoções (...) .” Dantas propõe que uma atmosfera saudável para a aprendizagem suporia ainda uma elevação da temperatura afetiva, isto é, um sólido vínculo afetivo entre professor e aluno.“ (GALVÃO, 1998, p.57-58 ). 45 CONCLUSÃO A grande preocupação enquanto educadores, com a grande quantidade de alunos que têm fracassado em sua vida escolar, leva a estudar diversos autores , que foram citados aqui neste trabalho. Como educadores, não é possível aceitar estatísticas tão nunca me conformei com estatísticas tão cruéis e desanimadoras; e por isso, este trabalho, traduz impressões, sugestões e emoções. Por não acreditar em uma pedagogia desvinculada da emoção é que afirma-se, que é tão simples; depende apenas de nossa vontade. É preciso reorganizar o espaço escolar, pois uma escola não pode ser constituída somente de aulas. Propiciar uma interação pessoal, em que se incorporem elementos inefáveis, que se expressam com um olhar, com um gesto, com um sorriso, que não se consegue expressar com palavras, mas que compõem, legitimamente, os processos cognitivos. Encerra-se aqui este trabalho, compartilhando este sonho (anexo), que um dia deixará de ser apenas um sonho, pois depende apenas de cada um ser construtor de um mundo melhor. 46 ANEXO Quais são os profissionais mais importantes da sociedade ? Num tempo não muito distante do nosso, a humanidade ficou tão caótica que os homens fizeram um grande concurso. Eles queriam saber qual a profissão mais importante da sociedade. Os organizadores do evento construíram uma grande torre dentro de um enorme estádio com degraus de ouro, cravejados de pedras preciosas. A torre era belíssima. Chamaram a imprensa mundial, a TV, os jornais, as revistas e as rádios para realizarem a cobertura. O mundo estava plugado no evento. No estádio, pessoas de todas as classes sociais se espremiam para ver a disputa de perto. As regras eram as seguintes: cada profissão era representada por um ilustre orador. O orador deveria subir rapidamente num degrau da torre e fazer um discurso eloqüente e convincente sobre os motivos pelos quais sua profissão era a mais importante da sociedade moderna. O orador tinha de permanecer na torre até o final da disputa. A votação era mundial e pela Internet. Nações e grandes empresas patrocinavam a disputa. A categoria social, uma vencedora receberia prestígio grande soma em dinheiro e subsídios do governo. Estabelecidas as regras, a disputa começou. O mediador do concurso bradou: “O espaço está aberto!” Sabem quem subiu primeiro na torre ? Os educadores? Não! O representante da minha classe, a dos psiquiatras. Ele subiu na torre e a plenos pulmões proclamou: “As sociedades modernas se tornarão uma fábrica de estresse. A depressão e a ansiedade são as doenças do século. As pessoas perderam o encanto pela existência. Muitas desistem de viver. A indústria dos antidepressivos e dos tranqüilizantes se tornou a mais importante do mundo.” Em seguida, o orador fez uma pausa. O público, pasmo, ouvia atentamente seus argumentos contundentes. O representante dos psiquiatras concluiu: “O 47 normal é ter conflitos, e o anormal é ser saudável. O que seria da humanidade sem os psiquiatras ? Um albergue de seres humanos sem qualidade de vida! Por vivermos numa sociedade doentia, declaro que somos, juntamente com os psicólogos clínicos, os profissionais mais importantes da sociedade!” No estádio reinou um silêncio. Muitos na platéia, olharam para si mesmos e perceberam que não eram alegres, estavam estressados,dormiam mal, acordavam cansados, tinham uma mente agitada, dores de cabeça. Milhões de espectadores ficaram com a voz embargada. Os psiquiatras pareciam imbatíveis. Em seguida, o mediador bradou: “O espaço está aberto!” Sabem quem subiu depois? Os professores ? Não! O representante dos magistrados _ os juízes de direito. Ele subiu num degrau mais alto e num gesto de ousadia desferiram palavras que abalaram os ouvintes: “Observem os índices de violência! Eles não param de aumentar. Os seqüestros, assaltos e a violência no trânsito enchem as páginas dos jornais. A agressividade nas escolas, os maustratos infantis, a discriminação racial e social fazem parte da nossa rotina. Os homens amam seus direitos e desprezam seus deveres.” Os ouvintes menearam a cabeça, concordando com os argumentos. Em seguida, o representante dos magistrados foi mais contundente: “O tráfico de drogas movimenta tanto o dinheiro como o petróleo. Não há como explicar o crime organizado. Se vocês querem segurança, aprisionem-se dentro de suas casas, pois a liberdade pertence aos criminosos. Sem os juízes e os promotores, a sociedade se esfacela. Por isso, declaro, com o apoio dos promotores e do aparelho policial, que representamos a classe mais importante da sociedade. ”Todos engoliram em seco essas palavras. Elas perturbavam os ouvidos e queimavam na alma, mas pareciam incontestáveis. Outro momento de silêncio, agora mais prolongado. Em seguida, o mediador, já suando frio, disse: “O espaço está novamente aberto!” Um outro representante mais intrépido subiu num degrau mais alto da torre. Sabem quem foi desta vez ? Os educadores ? Não! Foi o representante das forças armadas. Com uma voz vibrante e sem delongas, ele discursou: “Os homens desprezam o valor da vida. Eles se matam por 48 muito pouco. O terrorismo elimina milhares de pessoas. comercial mata milhões de fome. A A guerra espécie humana se esfacelou em dezenas de tribos. As nações só se respeitam pela economia e pelas armas que possuem. Quem quiser a paz tem que se preparar para a guerra. Os poderes econômico e bélico, e não o diálogo, são os fatores de equilíbrio num mundo espúrio. ”Suas palavras chocaram os ouvintes, mas eram inquestionáveis. Em seguida, ele concluiu: “Sem as forças armadas, não haveria segurança. O sono seria um pesadelo. Por isso, declaro, quer se aceite ou não, que os homens das forças armadas não são apenas a classe profissional mais importante, mas também a mais poderosa. ”A alma dos ouvintes gelou. Todos ficaram atônitos. Os argumentos dos três oradores eram fortíssimos. A sociedade tinha se tornado um caos. As pessoas do mundo todo, perplexas, não sabiam qual atitude tomar: se aclamavam um orador, ou se choravam pela crise da espécie humana, que não honrou sua capacidade de pensar. Ninguém mais ousou subir na torre. Em quem votariam ? Quando todos pensavam que a disputa havia se encerrado, ouviu-se uma conversa no sopé da torre. De quem se tratava? Desta vez eram os professores. Havia um grupo deles da pré-escola, do ensino fundamental, do médio e do universitário. Eles estavam encostados na torre dialogando com um grupo de pais. Ninguém sabia o que estavam fazendo. A TV os focalizou e projetou num telão. O mediador gritou para um deles subir na torre. Eles se recusaram. O mediador os provocou: “Sempre há covardes numa disputa.” Houve risos no estádio. Fizeram chacota dos professores e dos pais. Quando todos pensaram que eles eram frágeis, os professores, com o incentivo dos pais, começaram a debater as idéias permanecendo no mesmo lugar. Todos se faziam representar. Um dos professores, olhando para o alto, disse para o representante dos psiquiatras: “Nós não queremos ser mais importantes que vocês. Apenas queremos ter condições para educar a emoção dos nossos alunos, formar jovens livres e felizes, para que eles não adoeçam e sejam tratados por vocês.” O representante dos psiquiatras recebeu um golpe na alma. Em seguida, um outro professor que estava no lado direito da torre olhou para o 49 representante dos magistrados e disse: “Jamais tivemos a pretensão de ser mais importantes do que os juízes. Desejamos apenas ter condições para lapidar a inteligência dos nossos jovens, fazendo-os amar a arte de pensar e aprender a grandeza dos direitos e dos deveres humanos. Assim, esperamos que jamais se sentem num banco dos réus.” O representante dos magistrados tremeu na torre. Uma professora do lado esquerdo da torre, aparentemente tímida, encarou o representante das forças armadas e falou poeticamente; “os professores do mundo todo nunca desejaram ser mais poderosos nem mais importantes do que os membros das forças armadas. Desejamos apenas ser importantes no coração das nossas crianças. Almejamos levá-las a compreender que cada ser humano não é mais um número na multidão, mas um ser insubstituível, um ator único no teatro da existência. ”A professora fez uma pausa e completou: “Assim eles se apaixonarão pela vida, e, quando estiverem no controle da sociedade, jamais farão guerras, sejam guerras físicas que retiram o sangue, sejam as comerciais que retiram o pão. Pois cremos que os fracos usam a força, mas os fortes usam o diálogo para resolver seus conflitos. Cremos ainda que a vida é obra-prima de Deus, um espetáculo que jamais deve ser interrompido pela violência humana. ”Os pais deliraram de alegria com essas palavras. Mas o representante do judiciário quase caiu da torre. Não se ouvia um zumbido na platéia. O mundo ficou perplexo. As pessoas não imaginavam que os simples professores que viviam no pequeno mundo das salas de aula fossem tão sábios. O discurso dos professores abalou os líderes do evento. Vendo ameaçado o êxito da disputa, o mediador do evento disse arrogantemente: “Sonhadores! Vocês vivem fora da realidade! ”Um professor destemido bradou com sensibilidade: “Se deixarmos de sonhar, morreremos! ”Sentindo-se questionado, o organizador do evento pegou o microfone e foi mais longe na intenção de ferir os professores: “Quem se importa com os professores na atualidade ? Comparem-se com outras profissões. Vocês não participam das mais importantes reuniões políticas. 50 A imprensa raramente os noticia. A sociedade pouco se importa com a escola. Olhem para o salário que vocês recebem no final do mês!” Uma professora fitou-o e disse-lhe com segurança: “Não trabalhamos apenas pelo salário, mas pelo amor dos seus filhos e de todos os jovens do mundo.” Irado, o líder do evento gritou: “Sua profissão será extinta nas sociedades modernas. Os computadores os estão substituindo! Vocês são indignos de estar nesta disputa.” A platéia, manipulada, mudou de lado. Condenaram os professores. Exaltaram a educação virtual. Gritaram em coro: “Computadores! Computadores! Fim dos professores!” O estádio entrou em delírio repetindo esta frase. Sepultaram os mestres. professores nunca haviam sido tão humilhados. Os Golpeados por estas palavras, resolveram abandonar a torre. Sabem o que aconteceu ? A torre desabou. Ninguém imaginava, mas eram os professores e os pais que estavam segurando a torre. A cena foi chocante. Os oradores hospitalizados. foram Os professores tomaram outra atitude inimaginável: abandonaram, pela primeira vez, as salas de aula. Tentaram substituí-los por computadores, dando uma máquina para cada aluno. Usaram as melhores técnicas de multimídia. Sabem o que ocorreu ? A sociedade desabou. As injustiças e as misérias da alma aumentaram mais ainda. A dor e as lágrimas se expandiram. O cárcere da depressão, do medo e da ansiedade atingiu grande parte da população. A violência e os crimes se multiplicaram. A convivência humana, que já estava difícil, ficou intolerável. A espécie humana gemeu de dor. Corria o risco de não sobreviver... Estarrecidos, todos entenderam que os computadores não conseguiam ensinar a sabedoria, a solidariedade e o amor pela vida. O público nunca pensara que os professores fossem os alicerces das profissões e o sustentáculo do que é mais lúcido e inteligente entre nós. Descobriu-se que o pouco de luz que entrava na sociedade vinha do coração dos professores e dos pais que arduamente educavam seus filhos. Todos entenderam que a sociedade vivia uma longa e nebulosa noite. A ciência, a política e o dinheiro não conseguiam superá-la. Perceberam que a esperança de um belo amanhecer repousa sobre cada pai, cada mãe e cada professor, e 51 não sobre os psiquiatras, o judiciário, os militares, a imprensa... Não importa se os pais moram num palácio ou numa favela, e se os professores dão aulas numa escola suntuosa ou pobre eles são a esperança do mundo. Diante disso, os políticos, os representantes das classes profissionais e os empresários fizeram uma reunião com os professores em cada cidade de cada nação. Reconheceram que tinham cometido um crime contra a educação. Pediram desculpas e rogaram para que eles não abandonassem seus filhos. Em seguida, fizeram uma grande promessa. Afirmaram que a metade do orçamento que gastavam com armas, com o aparato policial e com a indústria dos tranqüilizantes e dos antidepressivos seria investida na educação. Prometeram resgatar a dignidade dos professores, e dar condições para que toda criança da Terra fosse nutrida com alimentos no seu corpo e com o conhecimento na sua alma. Nenhuma delas ficaria mais sem escola. Os professores choraram. Ficaram comovidos com tal promessa.Há séculos eles esperavam que a sociedade acordasse para o drama da educação. Infelizmente, a sociedade só acordou quando as misérias sociais atingiram patamares insuportáveis. Mas, como sempre trabalharam como heróis anônimos e sempre foram apaixonados por cada criança, cada adolescente e cada jovem, os professores resolveram voltar para a sala de aula e ensinar cada aluno a navegar nas águas da emoção. Pela primeira vez, a sociedade colocou a educação no centro das suas atenções. A luz começou a brilhar depois da longa tempestade... No final de dez anos os resultados apareceram, e depois de vinte anos todos ficaram boquiabertos. Os jovens não desistiam mais da vida. suicídios. O uso de drogas dissipou-se. Não havia mais Quase não se ouvia falar de transtornos psíquicos e de violência. E a discriminação? O que é isso ? Ninguém se lembrava mais do seu significado. Os brancos abraçavam afetivamente os negros. As crianças judias dormiam na casa das crianças palestinas. O medo se dissolveu, o terrorismo desapareceu, o amor triunfou. Os presídios se tornaram museus. Os policiais se tornaram poetas. Os consultórios de psiquiatria se esvaziaram. Os psiquiatras se tornaram escritores. Os juízes se tornaram músicos. Os professores se tornaram 52 filósofos. E os generais? Descobriram o perfume das flores, aprenderam a sujar suas mãos para cultivá-las. E os jornais e as TVs do mundo? O que noticiavam, o que vendiam? Deixaram de vender mazelas e lágrimas humanas. Vendiam sonhos, anunciavam a esperança... ( CURY, 2003, p.159 ) 53 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, João Ferreira de. (Tradução). Bíblia Sagrada. Sociedade Bíblica do Brasil. CORDIÉ, Anny. Os atrasados não existem: Psicanálise de crianças com fracasso escolar. 1ª edição. Porto Alegre: Artmed Editora, 1993. CURY, Augusto. Pais brilhantes, professores fascinantes.1ª edição. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia – Saberes necessários à prática educativa. 28ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2003. FREITAS, Nilson Guedes de. Pedagogia do Amor. 1ª edição. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2000. GALVÃO, Maria Izabel Pereira. Tese de Doutorado. Emoções e Conflitos,1998. GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas. Porto Alegre. Artes Médicas, 1995. 54 HENDRICKS, Howard. Ensinando para Transformar Vidas. 1ª edição. Minas Gerais: Editora Betânia, 1991. KHOL, Marta. Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias psicogenéticas em discussão. Sumus, 1992. LOPES, Maria do Carmo. Revista Linha Direta. Ano 6, nº 68, novembro/ 2003, p. 19 MATURANA, H. & Nisis. Formación humana y capacitación. Santiago: Dolmem, 1997. MORAES, Maria Cândida. Educar na biologia do amor e da solidariedade. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2003. MORALES, Pedro. A relação professor-aluno. O que é, como se faz. 4ª edição.São Paulo:Editora Loyola, 2003. VYGOTSKY, Lev. Semenovich. A formação Social da Mente. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1984. 55 ÍNDICE FOLHA DE ROSTO 02 AGRADECIMENTO 03 DEDICATÓRIA 04 RESUMO 05 METODOLOGIA 07 SUMÁRIO 08 INTRODUÇÃO 09 CAPÍTULO I A RELAÇÃO PROFESSOR X ALUNO 12 CAPÍTULO II PROFESSOR... O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSA PROFISSÃO? 25 2.1- Professor ou educador? 28 2.2- Como o professor pode intervir nessa realidade? 28 CAPÍTULO III O PROFESSOR E SUA DISCIPLINA 3.1- As razões e o significado do termo fracasso 32 56 escolar 39 3.2- O que pode acontecer depois das primeiras dificuldades? 40 3.3- Posição dos educadores quanto ao fracasso escolar 42 3.4- Aprendizagem baseada na afetividade 42 CONCLUSÃO 45 ANEXO 46 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 53 ÍNDICE 55 57 FOLHA DE AVALIAÇÃO Nome da Instituição: UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES Título da Monografia: A AFETIVIDADE NA RELAÇÃO PROFESSORALUNO Autora: MARIA DA APARECIDA CORREIA DA SILVA Data da entrega: 29/01/2005 Avaliado por: Prof. Celso Sanches Conceito: 58 59