UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
PROJETO A VEZ DO MESTRE
A AFETIVIDADE NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO
Por: Maria da Aparecida Correia da Silva
Orientador
Profª. Celso Sanches
Rio de Janeiro
2005
2
UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU”
PROJETO A VEZ DO MESTRE
A afetividade na relação professor-aluno
Apresentação de monografia à Universidade Candido
Mendes como condição prévia para a conclusão do
Curso
de
Pós-Graduação
“Latu
Sensu”
Pscopedagogia.
Por: Maria da Aparecida Correia da Silva
em
3
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar a Deus que tem sido meu
braço forte na realização desse trabalho
acadêmico e também a meu esposo Décio
que tem me incentivado a crescer cada vez
mais.
4
DEDICATÓRIA
Dedico este livro a todos os educadores, que assim
que assim como eu, têm amado essa profissão e
sonhado com dias melhores. A eles, o
incentivo e a minha admiração.
meu
5
RESUMO
Essa pesquisa refere-se à afetividade na relação professor-aluno,
validando a importância de uma prática pedagógica que seja participativa e
libertadora.
O insucesso de um número expressivo de alunos, em diferentes
momentos de suas vidas, é um fato público e notório. Ainda que se possam
atribuir possíveis justificativas sociais, econômicas, biológicas, inclusive
familiares para o fenômeno, quase nunca o fracasso escolar é atribuído ao
professor.
Este parece desconhecer sua importância para o sucesso ou
insucesso do seu aluno, porém o relacionamento entre o professor e o aluno
pode estimular a criatividade, a curiosidade e a dúvida, pois, o ser humano,
age movido pelo desejo para suprir sua carência. Tendo o seu desejo
definido, o ser humano poderá construir resultados satisfatórios. Pensando
no aluno, esse desejo poderá ser estimulado a partir do acolhimento do
professor, e assim, ficará, certamente, mais fácil direcionar o processo de
ensino-aprendizagem.
Quando este assunto é transferido para a sala de aula, percebe-se
que poucos são os alunos que conseguem ser percebidos pelo professor ou
se identificar através dele. Também, o professor não consegue manter uma
atitude de neutralidade, não demonstrando preferências ou antipatias.
Essa relação afetiva entre professor e aluno não demonstra novidade
ou até apresenta-se fraca e com pouca significância, importando apenas, o
fato de o professor, dentro da sala de aula, ser somente um transmissor de
padrões culturais e o responsável pela avaliação de algumas qualidades
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sociais importantes para o aluno.
Sabe-se que essa relação não se limita à transmissão e recepção de
conhecimentos. Existe um envolvimento de ambos os lados. Professor e
aluno passam a constituir um grupo novo onde o aluno procura o professor
para refletir sua imagem, a fim de saber quem é e como é.
É essa relação afetiva, geralmente inconsciente, mas marcante para
o aluno, que pretende-se enfatizar, além de caracterizar a importância de
uma relação professor-aluno mais construtiva, como ferramenta do ensinoaprendizagem, para que esse ocorra de forma adequada.
7
METODOLOGIA
A metodologia utilizada foi centrada em uma revisão bibliográfica e
observação do cotidiano da relação professor-aluno.
Muitos pedagogos têm estudado o assunto e deixado um grande
número de livros que dão respaldo ao estudo da afetividade na relação
professor-aluno. As revistas educacionais também contribuíram com seus
artigos sobre afetividade e cognição.
Fez-se um estudo de vários
autores, passo-a-passo, desde os
precursores até os mais contemporâneos; não só de pedagogos, mas
também psicólogos, psiquiatras e psicopedagogos.
A proposta desse trabalho é uma reorganização dos estudos e idéias,
visando uma relação professor-aluno mais afetiva e construtiva para que
ocorra a aprendizagem de forma adequada.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
08
CAPÍTULO I
- A Relação professor x aluno
CAPÍTULO II
- Professor... O que está por trás dessa
profissão ?
CAPÍTULO III
12
24
- O professor e sua disciplina
CONCLUSÃO
30
42
ANEXO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
52
ÍNDICE
55
FOLHA DE AVALIAÇÃO
57
9
INTRODUÇÃO
A pesquisa refere-se à afetividade na relação professor-aluno e valida a
importância de uma prática pedagógica que seja participativa e libertadora.
É essa relação afetiva, “as vezes inconsciente”, mas marcante para o
aluno que quero enfatizar, pois é ela que caracteriza a importância da
relação professor-aluno.
O relacionamento entre o professor e o aluno pode estimular a
criatividade, a curiosidade e a dúvida, pois, o ser humano, age movido pelo
desejo de suprir sua carência.
O acolhimento do professor facilitará e
direcionará o processo de ensino-aprendizagem.
É indispensável que se reconquiste o lado afetivo de nossos alunos para
a construção do conhecimento
Segundo os estudos realizados percebe-se que nossos alunos
necessitam de ajuda para estabelecerem conceitos que os levem a se
situarem no tempo e no espaço,real, construindo e modelando emoções.
Segundo Lopes (2003), questões mal resolvidas refletem diretamente na
aprendizagem; e para ajudar os alunos, especialistas sugerem, dentre vários
10
recursos, atos extremamente simples, como acolher o aluno, escutá-lo e
mostrar-se disponível.
“Educar é realizar a mais bela e complexa
arte da inteligência. Educar é acreditar na vida, mesmo
que derramemos lágrimas. Educar é ter esperança no
futuro, mesmo que os jovens nos decepcionem no
presente. Educar é semear com sabedoria e colher
com paciência.
Educar é ser um garimpeiro que
procura os tesouros do coração.” ( CURY, 2003, p.9 )
Estas palavras falarão ao seu coração, pois a afetividade acompanha
o ser humano desde o nascimento até a morte, por isso, faz-se necessário
citar aqui, o Mestre dos mestres que nos ensina que o amor é um dom
supremo
“ Ainda que eu fale a língua dos homens e dos
anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa
ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o
dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda
a ciência., ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de
transportar montes, se não tiver amor , nada serei. E
ainda que eu distribua todos os meus bens entre os
pobres e ainda que entregue
meu
próprio
corpo
para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me
aproveitará. O amor é paciente, é benigno; o amor não
arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvenientemente, não procura os
seus interesses, não se exaspera, não se ressente do
mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se
11
com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta. O amor jamais acaba; mas havendo
profecias
desaparecerão; havendo línguas , cessarão; havendo
ciência, passará, porque em parte, conhecemos e, em
parte, profetizamos.
Quando, porém, vier o que é
perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia
como menino, o
pensava como menino; quando
cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de
menino.
Porque agora, vemos como em espelho,
obscuramente; então, veremos face a face.
Agora,
conheço em parte; então, conhecerei como também
sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a
esperança e o amor, estes três; porém o maior destes
é o amor.” (BÍBLIA SAGRADA, I Coríntios 13:1-13 )
Freire (2003 ) nos alerta para o fato de que precisamos saber que,
sem certas qualidades ou virtudes como amorosidade, respeito aos outros,
tolerância, humildade, gosto pela alegria, gosto pela vida, abertura ao novo,
disponibilidade à mudança, persistência na luta, recusa aos fatalismos,
identificação com a esperança, abertura à justiça, não é possível a prática
pedagógica, que não se faz apenas com ciência e técnica.
Ao educar para a vida, quebra-se paradigmas, transforma-se o
destino de um povo e de um sistema social, preparando os alunos para
questionarem e estabelecerem metas; e como ferramenta usar a afetividade
para ajudá-los a escreverem suas próprias histórias.
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CAPÍTULO I
A RELAÇÃO PROFESSOR X ALUNO
Quando se ouve falar em relação professor x aluno, o primeiro
pensamento que nos chega é o do professor que se limita a ensinar e do
aluno que está ali única e exclusivamente para aprender aquilo que o seu
professor lhe traz como verdade inquestionável.
É bom e desejável manter uma boa relação com os alunos na
classe, sabendo que ali, é um lugar onde inevitavelmente nos relacionamos
com nossos alunos. O modo como se dá essa relação com os alunos incidirá
positivamente, tanto no aprendizado, quanto em nossa satisfação pessoal.
Na verdade, esse relacionamento é que norteará todo o trabalho docente
como facilitador do ensino-aprendizagem.
Ensinar é levar alguém a aprender. Essa é uma definição muito
simples. Existe uma relação básica entre ensinar e aprender. Os dois termos
são inseparáveis, pois se o aluno não aprende, isso significa que o professor
não ensina.
O ponto central do ensino localiza-se primeiramente naquilo que
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o professor faz, e o da aprendizagem no que o aluno faz. Mas a eficiência
de nosso ensino não se avalia com base naquilo que o professor faz, mas no
que o aluno faz, em decorrência de nossa prática didática. Portanto,
aprender é modificar-se, pois opera mudanças em nossa forma de pensar,
sentir e agir. A aprendizagem significa que houve mudança na mente, nas
emoções e na vontade.
Toda aprendizagem começa ao nível da emoção. As pessoas
absorvem aquilo que se sentem interessadas em absorver, e rejeitam o que
querem rejeitar. Se têm uma atitude positiva em relação a determinada coisa
que ouvem, tendem a acatá-la; mas se têm para com ela uma atitude
negativa, a tendência é fugir dela. Se temos sentimentos negativos para com
alguém, rejeitamos tudo que ele diz, pois rejeitamos a pessoa dele.
Pesquisando-se a fundo, os motivos que levaram alguns alunos
a serem excelentes em algumas disciplinas e terem muitas dificuldades em
outras, veremos que muitas vezes a causa estará relacionada a um
professor que deixou sua marca,tanto positivamente, quanto negativamente.
Veremos que o problema não está na disciplina e sim no professor.
Segundo Morales ( 2003 ), a conduta do professor influi sobre a
percepção que os alunos têm de sua própria relação com os professores.
Não basta o que o professor faz; é necessário que o aluno perceba o
interesse do professor. O trato do professor com o aluno ( ou com todos,
cada um em seu momento ) tem um impacto muito poderoso nos alunos.
Talvez nós, professores, não pensemos no que supõe para alguns alunos
ver que o professor se fixou neles, que sabe que existem, que não passam
despercebidos.
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A disponibilidade, o interesse etc., têm de ser comunicados
aos alunos; e tal comunicação afeta a percepção que eles têm do professor
e, conseqüentemente, influi em sua dedicação às tarefas de aprendizado.
O ponto de interesse consiste em captar que aquilo que
importa, em última instância, é como somos percebidos, não simplesmente
como imaginamos que somos. Essa idéia está relacionada com a avaliação
do professor pelos alunos, que poderia merecer um tratamento mais amplo e
diferenciado. Não se trata de um juízo, mas de verificar como somos
percebidos e o que nos diz essa percepção que os alunos têm de nós. A
imagem que os alunos captam de nós pode ser diferente daquela que
queremos transmitir.
Assim sendo, nos relacionamos com os outros, não como são,
e sim como os percebemos. Pensemos que os alunos nos avaliam sempre
de maneira informal e espontânea; nossa única opção é querer nos inteirar
de como somos avaliados de fato pelos alunos e se essa avaliação nos diz
algo.
Uma influência específica vem da relação do professor com os
alunos (disponibilidade, interesse manifestado por todos os alunos,
paciência, boa preparação das aulas etc. ). Além disso, quer se pretenda
conscientemente, quer não, os métodos utilizados na sala de aula, os
exercícios, as práticas etc. podem influenciar notavelmente não só no
aprendizado dos conteúdos ou habilidades dos alunos, mas também em
suas atitudes com relação à disciplina, ao estudo e ao trabalho, assim como
a respeito de si mesmos.
Ao questionarem sobre a questão do professor ideal, muitos
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chegam a conclusão de que esse professor não existe. Esse fato chega a
ser um consolo para alguns, pois assim, podem aspirara serem excelentes
professores sem terem que chegar às alturas de um modelo não
executável.
Em pesquisas de como deve ser o professor ideal, emergem
traços e condutas desejáveis, mas também se conclui que há muitas
maneiras de ser um bom professor, de manter um bom relacionamento com
os alunos e de influenciá-los de maneira muito positiva.
São muitos os estudos e pesquisas realizados sobre as
características do professor ideal e do seu relacionamento com os alunos.
A partir desses estudos aparecem duas características de condutas: Uma
diz respeito à competência do professor para ensinar e controlar a classe e a
outra a seu relacionamento com os alunos.
Essas pesquisas mostram que de acordo com as idades dos
alunos, as características apreciadas por eles não são as mesmas. Optei
por expor a pesquisa feita com alunos mais velhos, e como era de se
esperar, os alunos dão muito mais informações, pois expressam de maneira
clara, que os bons professores são os que estão mais bem preparados, que
são pessoas educadas e respeitosas, muito motivadas e dedicadas a sua
profissão e que se preocupam de maneira autêntica com os alunos, os
estimulam e ensinam a estudar, atendem às suas necessidades particulares,
utilizam o reforço positivo (sabem elogiar, ressaltar os êxitos...), tiram partido
dos interesses e habilidades dos alunos e buscam objetivos a longo prazo
para seus alunos.
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Segundo Morales (2003, p.34), essa pesquisa reforça duas
considerações básicas:
1.
Podemos ser bons professores e ao mesmo tempo diferentes;
embora haja um perfil claro do bom professor, não se trata de um perfil
rígido; os próprios alunos reconhecem que seus bons professores não são
todos iguais.
2.
Em distintas idades, as situações e necessidades dos alunos podem
ser diferentes; características desejáveis com adolescentes ou adultos
podem ser de importância menor em outras idades.
Em síntese, segundo Morales (2003, p.34), a partir dessa
pesquisa, conclui-se que, na hora da verdade, professores e alunos não são
muito diferentes quando tentam definir um bom professor.
Morales (2003, p.36) refere-se a uma série de estudos que
mostram a relação entre qualidade do professor e traços da sua
personalidade e de seu caráter ( com base nos estudos de Erdle, Murray e
Rushton, 1985; Jones, 1989; e Murray, Rushtone Paunonen, 1990). Nesses
estudos são utilizadas amostragens universitárias.
Segundo estudos sobre o assunto, pode-se pensar que a
personalidade já nos vem pronta e que pouco podemos fazer para mudála.Por exemplo, o senso de humor não se improvisa. Pode-se sempre
potencializar o que há de mais positivo em nós mesmos; não contar coisas
divertidas em sala, mas preparar bem nossas aulas; não mostrar uma
proximidade afetiva que não está em nós, mas tratar a todos com respeito o
17
tempo todo etc.
Sem dúvida, há traços de personalidade mais promissores que
outros para ser um bom professor e estabelecer um bom relacionamento
com os alunos; entretanto talvez aqui, mais que insistir em traços, convenha
insistir em atitudes: o que mais importa são as atitudes e como se concebe
o papel de professor.
Na hora da verdade, importa mais o que o professor faz do
que o que ele é. O que o professor faz brota de suas próprias atitudes, de
como se vê em relação aos alunos. Nessa área a reflexão e a mudança são
possíveis.
Morales (2003, p.36) cita uma pesquisa interessante de Deiro
(1995), que analisa como os professores, neste caso os de ensino médio,
estabelecem uma relação sadia com sus alunos, de ajuda e apoio, dentro do
que se pode considerar adequado na relação professor-aluno e em um
contexto social mais propriamente desfavorecido.
Os bons professores desse estudo coincidem em uma série de
pontos que também aparecem em outras fontes e estudos, mas que aqui
ficam mais claramente especificados. Não nos remetem traços de
personalidades, mas as próprias atitudes, a como os professores se
consideram como professores.
Segundo Morales (2003, p.38):
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1.
Coincidem em ver sua profissão docente como uma oportunidade
para ajudar e servir aos outros. Outros acrescentam até uma motivação
religiosa; seu compromisso pessoal os leva a adotar uma atitude de serviço.
Outros, comparando a profissão docente com outras profissões, consideram
os alunos como clientes, aos quais têm de proporcionar um serviço e a cujas
necessidades têm de se adaptar. Em suma, vêem a si mesmos em uma
posição de poder para ajudar seus alunos.
2.
Coincidem em acreditar que os professores têm a responsabilidade
ética e moral de fazerem-se conscientes do impacto que eles têm sobre os
alunos.
Tal impacto não se dá apenas na linha dos conhecimentos e
do desenvolvimento intelectual; incide também no desenvolvimento
emocional e social dos alunos. Podemos influir também no desenvolvimento
moral, no discernimento dos próprios valores e no discernimento para saber
o que eles querem fazer com suas vidas. Nós, professores, não somos
tudo, é claro, mas temos uma grande influência, ou podemos tê-la na vida
de nossos alunos.
3.
Coincidem em considerar-se como modelos de identificação e em
aceitar as responsabilidades dessa percepção.
Na relação professor-aluno,ensinar não é simplesmente dizer
coisas para o aluno; o processo de ensino-aprendizagem não se resume
nisso, vai muito além. Quanto maior o nível de envolvimento no processo de
aprendizagem, maior o volume do conteúdo aprendido, pois a atividade que
o aluno está envolvido deve fazer sentido para ele.
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Existe de fato uma relação direta entre ensinar e aprender.
Quanto maior for o envolvimento pessoal do aluno, mais ele tem
possibilidade de aprender, desde que a atividade faça sentido para ele:
- Atividades que forneçam orientação, sem imposição.
- Atividades que dêem ênfase à função e à aplicação na prática.
- Atividades com objetivos definidos.
- Atividades que além de estarem relacionadas com o produto final
estejam relacionadas também com o processo.
- Atividades associadas a situações em que se vejam obrigados a
solucionar problemas.
Gostaria de citar alguns hábitos dos bons professores e dos
professores fascinantes.
Segundo Cury
(2003, p.64), bons professores possuem
metodologia e professores fascinantes possuem sensibilidade; e este hábito
dos professores fascinantes contribui para desenvolver: auto-estima,
estabilidade, tranqüilidade, capacidade de contemplar o belo, de perdoar, de
fazer amigos, de socializar.
Professores fascinantes vão além da didática, possuem
sensibilidade para falar ao coração dos seus alunos.
Um professor
fascinante é capaz de, independente de qual seja a sua disciplina, ser
alguém capaz de conduzir seus alunos numa viagem sem sair do lugar.
Esse professor procura acolher seus alunos e compreendê-los, mesmo os
mais difíceis.
20
A educação pode ser vista por vários ângulos e no que depender
do professor, cada um dá sua parcela de contribuição para gerar uma
humanidade mais saudável.
Apesar de suas dificuldades, os educadores são insubstituíveis,
pois sentimentos e sensibilidade não podem ser ensinados por máquinas, e
sim por seres humanos.
“ Educar a emoção também é se doar sem
esperar retorno, ser fiel a sua
consciência,
extrair
prazer dos pequenos estímulos, saber perder, correr
riscos para transformar sonhos em realidade e ter
coragem para andar por lugares desconhecidos.”
(CURY, 2003, p. 66)
A emoção de nossos alunos, deve ser educada para evitar gerar
alguns resultados. Gerar jovens insensíveis que ofendem e machucam os
outros, que não se preocupam com a sua dor e que não pensam nas
conseqüências dos seus comportamentos. Gerar também , jovens alienados,
que não ferem os outros, mas não pensam no futuro, que não têm sonhos,
metas e que deixam a vida levá-los num conformismo doentio.
Os jovens precisam de uma formação que tenha uma emoção rica
e protegida.
21
“Na relação professor-aluno, em especial a
relação que visa emancipar
o
homem,
torna-se
preponderante para o futuro da sociedade,
pois
poderá com a releitura do passado contextualizar o
presente; apresentar no presente, opções outras do
que a realidade
atual e potencializar um futuro
diferente do fatalista, ou seja, o de libertá-lo.”
(GUEDES, 2004, p. 33 )
A relação do professor com os alunos não se limita ao que
costumamos associar à expressão relações humanas ( sermos abertos,
amáveis etc .); abrange todas as
dimensões do processo de ensino-
aprendizagem desenvolvido na sala de aula; dando estrutura e orientação ao
aprendizado. Além disso,a tarefa básica do professor consiste em ajudar aos
alunos a estudar e aprender. Um bom relacionamento com os alunos, se não
houver eficácia na tarefa docente, não é uma boa relação de um ponto de
vista integral.
O professor influi sobre os alunos e os alunos influem sobre o
professor. A atitude do professor com relação aos alunos, condiciona a
atitude dos alunos diante do professor. As expectativas sobre alguns
alunos se traduzem em condutas que os orientam e estimulam; deve-se ter a
mesma atitude com todos. Cabe ao professor tentar mudar um mau
relacionamento ( com todos ou com alguns alunos ) ... E nesse contexto,
ainda que pareça um tema menor, as primeiras impressões são importantes
e o professor deve controla-las ... Da posição de poder e autoridade ( o
professor os tem ), é fácil lançar a culpa nos alunos ( falta de interesse, de
motivação etc. ), mas sempre pode-se explorar recursos e estratégias para
melhorar o relacionamento e estimular os alunos.
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Procurar esse bom relacionamento pode ser difícil com alguns alunos.
Com freqüência, os que vão pior são os que causam maiores problemas, e,
às vezes, uns poucos consomem todas as energias. Apesar de ser difícil
prescindir das próprias emoções e sentimentos, não pode-se esquecer, que
esses alunos também são alunos.
Segundo Morales (2003, p.92), o professor, mesmo que
inconscientemente, dispensa um tratamento diferencial a alguns alunos e
esse tratamento tende a se manifestar de diversas maneiras:
1 – Os professores estabelecem um clima sócio-emocional mais agradável
com esses alunos; são mais condescendentes e amáveis com eles. Esse
clima é criado em certa medida por meio de comunicações e de gestos nãoverbais, o que pode se dar com um olhar, que proporciona um canal de
comunicação muito expressivo.
2 – Os professores dão uma informação mais matizada e diferenciada
(feedback verbal e não-verbal ) a esses alunos sobre acertos e erros;
ajudam-nos mais em seu aprendizado. Tais alunos são menos criticados,
suas idéias são mais aceitas, e são muito considerados. Por exemplo: seus
acertos são reconhecidos e elogiados, resume-se e aproveita-se o que o
aluno especial disse, compara-se com outras coisas etc. O professor de
uma maneira ou de outra, faz eco da intervenção do aluno; são menos
ignorados que os outros alunos, dos quais não se espera muito.
3 – Parece que os professores ensinam mais, dão mais informação e até
ensinam coisas mais difíceis a esses alunos “especiais”; contribuem mais
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para o êxito acadêmico deles do que o dos outros alunos.
4 – Os professores dão a esses alunos mais oportunidades para responder;
perguntam mais para eles ou lhes dão mais tempo para responder; o
professor inicia a interação com esses alunos com mais freqüência.
Faz-se necessário, estar atentos a esses tratamentos que por
muitas vezes é dispensado aos alunos e fazer uso de uma pedagogia
afetiva.
É muito claro que uma mudança valorativa no nível de
expectativa que o professor tem a respeito do rendimento acadêmico de um
aluno, se traduz em mudança no afeto que o professor demonstra por esse
aluno. Por exemplo, se acredita no potencial desse aluno, ele o agradará
mais. Há também, a mudança no esforço do professor para ensinar e ajudar
esse aluno (o esforço vale a pena ).
Se o aluno responde com seu esforço às expectativas e à
atenção especial do professor, reforça a atitude do professor.
Os professores, precisam ser autênticos e sinceros consigo
mesmos, ter consciência de que têm ( ou podem ter ) expectativas e desejos
diferentes a respeito de alunos ou grupos de alunos. E, naturalmente, tais
expectativas ou desejos podem ser perfeitamente legítimos. É natural, por
exemplo, esperar muito de um aluno com um bom histórico anterior. O que
não podemos perder de vista, é que esses alunos não são o nosso foco
24
principal e que precisamos nos esforçar sobremaneira
para ajudar aos demais alunos a romper as barreiras que os deixam a
margem de um rendimento desejável.
Não podemos esquecer que:
“ A tarefa do professor é despertar a mente do
aluno,
é
estimular idéias, através do exemplo, da
simpatia pessoal, e de todos os meios que puder
utilizar para isso, isto é, fornecendo-lhes lições
objetivas para os sentidos e fatos para a inteligência...
O maior dos mestres disse: “A semente é a palavra.” O
verdadeiro professor é o que revolve a terra e planta a
semente.”
(HENDRICKS, 1991, p.72)
25
CAPÍTULO II
PROFESSOR... O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSA PROFISSÃO ?
“O ensino que realmente causa impacto em
quem o recebe não é o que passa de uma mente para
outra, mas de um coração para outro”.
(HENDRICKS, 1991, p. 91 )
Essa é a lei do coração, que só pode ser verdadeira se
compreendermos o sentido da palavra coração.
Para os hebreus, esta
palavra englobava a totalidade do ser: intelecto, emoção e vontade.
O ensinar nada mais é que a transformação total de uma
personalidade. Transferir conhecimento de intelecto para intelecto é a coisa
mais simples do mundo. Mas fazer esse trajeto pela via do coração é bem
mais difícil, mas também muito mais compensador.
Aliás, opera
transformação de vida.
Cury (2003, p.147) , a respeito de Sócrates, resume a essência da
comunicação em três conceitos fascinantes que ele denominou ethos ,
pathos e logos. O primeiro, ethos, diz respeito ao caráter.
Pathos
compreende a parte da afetividade, e logos, o do conteúdo.
Ethos, segundo explicava Sócrates, diz respeito à credibilidade do
26
professor, sua credencial. Ele afirmava que o nosso jeito de ser é mais
importante do que o que dizemos ou fazemos. Aquilo que somos como
pessoa é o fator que mais pesa em nossa atuação como professor. O
professor tem que ter atrativos para aqueles a quem leciona. É preciso que
confiem no professor, e quanto mais confiarem, melhor será a comunicação
entre eles.
O outro aspecto, phatos, diz respeito ao modo como o professor
desperta as emoções e sentimentos de seus alunos. O filósofo sabia que
são as emoções que afinal determinam o rumo de nossos atos . E isso é a
chave para a motivação, já que Deus criou o homem com emoções e
sentimentos.
Segundo Cury (2003, p.148), Sócrates estava convencido também
de que os professores precisam do conteúdo programático e denominou-o
logos. Então o conceito do logos diz respeito à apresentação de nossa
argumentação.
Ele envolve a mente no processo e assim opera a
compreensão do fato. Constitui a base lógica das ações que desejamos ver
os alunos praticarem, para que descubram por si que essas ações são
corretas e sensatas.
O caráter do professor gera confiança no coração do aluno.
Quando este percebe a qualidade de vida do professor, reconhece que ele
tem algo a oferecer-lhe; sente que pode confiar nele. Percebe que o mestre
não mentiria para ele.
Essa credibilidade é o maior atributo que o professor possui para
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sua comunicação. É preciso ter o máximo de cuidado para não perdê-la,
pois uma vez perdida é dificílimo reconquistá-la.
O professor precisa convencer-se de que a base de uma
comunicação eficiente é aquilo que ele é, que vem de dentro dele. Vez por
outra ele deve dirigir a si mesmo a pergunta: Que tipo de professor eu sou ?
É a afetividade que vai gerar no aluno a motivação para aprender.
Quando o aluno sente que o professor o ama e que ama aquilo que faz,
dispõe-se a fazer tudo que ele quiser que faça.
É o conteúdo que gera no aluno a percepção. O mestre tem primeiro
a percepção de um fato, que depois o aluno também vê, compreende,
descobre e apossa-se dele.
Afinal, ele passa a integrar sua rede de
conhecimentos.
Os melhores mestres não são necessariamente os que se acham a
frente de tudo, que possuem grande inteligência. São aqueles que possuem
um grande coração. Ao ensinar, fazem-no com todo o seu ser, e atingem
todo o ser daqueles que o ouvem.
Faz-se necessário pensar um pouco nessa dinâmica de ensinaraprender. Ensinar é levar alguém a aprender ( Essa é a mais simples
definição ). Existe uma relação básica entre ensinar e aprender.
É o
processo ensino-aprendizagem; algo conjugado, ligado por hífen. Os dois
termos são inseparáveis. Se o aluno não aprende, isso significa que o
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professor não ensina.
2.1- Professor ou educador?
“O educador olha e interage com o homem - que pode
ser seu aluno - em seu contexto e na sua diversidade.
O professor vê seus alunos em sua disciplina.
O
educador é movido por sua vocação no seu campo de
trabalho, na vida; enquanto o professor, atua somente
em sua profissão, mas também não pode se escusar
de
atuar
com
ética,
sinceridade
e
amor.”
(FREITAS,1991, P.33 )
Não há dúvida de que a emoção influencia de maneira significativa
muitas das funções comportamentais e cognitivas diárias. A importância da
emoção nas questões humanas é óbvia e segundo estatísticas da
organização mundial de saúde, hoje a depressão ocupa o 4º lugar entre as
doenças do mundo. Para o ano 2.010, a previsão é de que ela ocupe o 2º
lugar.
2.2- Como o professor pode intervir nessa realidade?
Segundo Maturana (1997, p.49), “educar é enriquecer a capacidade
de ação e de reflexão do ser aprendente; é desenvolver-se em parceria com
outros seres; desenvolver-se na biologia do amor que nos mostra que o
29
ser vivo é uma unidade dinâmica do ser e do fazer”.
Assim,
a educação é, para esses autores um processo de transformação
na
convivência, onde o aprendiz se transforma junto com os professores e com
os demais companheiros com os quais convive em seu espaço educacional.
Faz-se necessário uma convivência harmoniosa e sadia, capaz de
ampliar ou mudar a capacidade de ação e reflexão de maneira que possam
tomar consciência de seus sentimentos e de suas emoções; e o mais
importante, é que sejam capazes de criar condições que permitam a cada
um ser cidadão/ã sério, responsável e, sobretudo, feliz.
É a interação entre o sentir e o pensar que permitirá ao professor
educar visando á restauração da inteireza no sentido de colaborar para a
construção do ser humano como templo da inteireza, onde pensamentos,
emoções e sentimentos estejam em constantes diálogos.
Ainda respondendo à pergunta acima, deve-se educar não somente
para o desenvolvimento das inteligências, mas sobretudo, educar sem
reprimir a experiência da comunhão e a experiência do coração; reprimidos
durante séculos em nome de algo que no mundo moderno chamamos de
ciência.
Educar reconhecendo a totalidade do ser humano, é a forma dos,
educadores, fazerem justiça ao todo que são, lembrando que necessitam,
mais do que nunca, conspirar a favor da inteireza humana para que possam
ser mais felizes em sua própria humanidade.
30
A emoção precisa ser educada com inteligência, estimular o aluno a
pensar antes de reagir, a não ter medo do medo, a ser líder de si mesmo,
autor da sua história, a trabalhar não apenas com fatos lógicos e problemas
concretos, mas também com as contradições da vida.
Educar a emoção também é se doar sem esperar retorno, ser fiel à
sua consciência, extrair prazer dos pequenos estímulos da existência, saber
perder, correr riscos para transformar os sonhos em realidade e ter coragem
para andar por lugares desconhecidos.
Sem a educação da emoção pode-se gerar pelo menos três
resultados: Pessoas insensíveis, hipersensíveis, ou ainda, alienadas.
É preciso gerar jovens determinados, criativos e empreendedores
para que sobrevivam a esse sistema tão competitivo, pois os que não têm
meta nem ousadia para materializar seus projetos poderão viver á margem
da sociedade e engrossar a massa de desempregados.
Jovens
desqualificados intelectualmente prejudicam o futuro de uma nação.
É necessário qualificar os alunos. Eles devem sentir-se importantes
na escola, precisam participar de certas decisões. Precisam aprender a
fazer escolhas, para aprenderem a lição de que toda escolha implica perdas
e ganhos.
O professor precisa formar jovens que façam a diferença no mundo,
31
que proponham mudanças, que resgatem seu sentido existencial e o
sentido das coisas. Uma das causas que levam milhões de jovens a usar
drogas é que eles não têm sentido de vida, nem engajamento social; e esta
atitude os levam a viver na mais dramática prisão: o cárcere da emoção.
32
CAPÍTULO III
O PROFESSOR E SUA DISCIPLINA
Se o aluno gosta do ambiente escolar, se é bem tratado,
respeitado, se ele vê sentido no que aprende ali, a instituição escolar pode
tornar-se alvo de projeções afetivas positivas e tornar-se um valor para ela.
Caso contrário, se ele é constantemente humilhado, desrespeitado,
questionado em suas capacidades e competências intelectuais e sociais, é
bem provável que esse espaço seja alvo de projeções afetivas negativas,
que não seja valorizado, que não se constitua em um valor para ela, e sim
num contravalor: um espaço a ser depredado, pichado, ignorado.
O trabalho pedagógico precisa ser interessante, ter sentido para a
vida dos alunos e, por isso, acredito que o emprego de novas tecnologias,
de novas ferramentas, de outras linguagens, pode ajudar no trabalho
docente para que suas aulas tornem-se mais próximas das linguagens com
que os estudantes de hoje estão acostumados a conviver. Empregar essas
novidades como ferramentas, como recursos metodológicos, aliados a
metodologias mais dinâmicas e dialógicas que promovam mudanças nas
relações, nos espaços e nos tempos escolares, aumentará a probabilidade
de que os conteúdos tradicionais e éticos trabalhados pelos docentes sejam
alvo de projeções afetivas positivas por parte dos alunos, e possam
constituir-se como valores.
33
O desafio é encontrar formas de organizar as práticas e os currículos
escolares de maneira que atinjamos os objetivos propostos: a formação da
cidadania, visando a que os alunos desenvolvam competências para lidar de
maneira consciente, crítica, democrática e autônoma com a diversidade e o
conflito de idéias, com influências da cultura e com os sentimentos e as
emoções presentes nas relações que estabelecem consigo mesmos e com o
mundo.
O caminho que o educador que tem a afetividade como principal
ferramenta do ensino aprendizagem trilha, busca romper com práticas e
currículos escolares tradicionais.
Diferente do ensino tradicional, entende-se que os sentimentos e os
valores devem ser inseridos no currículo e nas práticas educativas como
conteúdos escolares.
Da mesma forma que se aprende
a somar, a
escrever, a conhecer fatos históricos e o mundo em que vivemos, conhecer
a nós mesmos e aos demais com quem convivemos.
Para atingir tal
objetivo, a escola deve promover atividades sistemáticas que levem cada
estudante e o coletivo da classe a tomar consciência dos próprios
sentimentos, emoções e valores.
Nesse tipo de proposta em que a afetividade é encarada como um
tema transversal, a escola admite que tais conhecimentos são tão
importantes quanto aqueles tradicionais dos currículos. A questão presente
tem, pelo menos, um triplo significado:
Primeiro, à medida em que
sentimentos, emoções e valores são aspectos presentes na vida de todos os
seres humanos, sua abordagem na escola faz com que o currículo torne-se
mais contextualiza do no cotidiano das pessoas, trazendo um novo sentido
34
para a escola., segundo, ao trabalhar sentimentos, emoções e valores
perpassando os conteúdos tradicionais de matemática, línguas, história,
ciência e artes; estes passam a ter um novo significado, deixando de ser
encarados como a “ finalidade” da educação, e passando a ser
compreendidos como um importante “meio” para as pessoas conhecerem a
si mesmas e ao mundo em que vivem., e por último, ao adotar a perspectiva
proposta, a educação articula-se com o pressuposto de indissociação entre
cognição e afetividade no funcionamento psíquico.
Tal mudança curricular, além de permitir uma aprendizagem
emocional importante para a resolução de conflitos cotidianos, auxilia na
construção da consciência crítica e autônoma dos alunos, contribuindo para
o fortalecimento dos níveis de consciência nas relações entre emoções e
sentimentos.
O ponto central do ensino localiza-se primeiramente naquilo que o
professor faz, e o da aprendizagem no que o aluno faz. Mas a eficiência de
nosso ensino não se avalia com base naquilo que o professor faz, mas no
que o aluno faz, em decorrência de nossa prática didática.
Portanto, uma simples definição de aprendizagem é “aprender é
modificar-se”, pois basicamente, aprender opera mudanças em nossa forma
de pensar, sentir e agir. A aprendizagem significa que houve mudança na
mente, nas emoções e na vontade.
Toda aprendizagem começa ao nível da emoção. As pessoas
absorvem aquilo que se sentem interessadas em absorver , e rejeitam o que
35
querem rejeitar. Se têm uma atitude positiva em relação a determinada
coisa que ouvem, tendem a acatá-la; mas se têm para com ela uma atitude
negativa, a tendência é fugir dela.
Quando têm-se sentimentos negativos para com alguém, rejeita-se
tudo que ele diz, pois rejeita-se a pessoa dele. Mas quando se gosta de
alguém
que tem interesse por nós, atende-se seus pedidos por mais
incomuns que sejam.
Ninguém tem o mínimo interesse pelo que o professor tem a
comunicar, a não ser que perceba que tem interesse nele pessoalmente.
É comum encontrar alunos com baixo rendimento em determinadas
disciplinas, que quando abordados sobre o assunto, respondam sempre, que
não gostam daquela disciplina ou que não se sentem capazes se superar as
dificuldades por não terem aptidão para ela.
Segundo Gardner (1995), mesmo que não se tenham determinadas
competências, todas as inteligências podem ser trabalhadas através da
motivação, de técnicas e estímulos.
Quando o aluno rejeita a figura do professor de determinada
disciplina, a tendência é de que ele perca o interesse pela disciplina.
36
Muitos professores ao longo dos anos, vêm deixando marcas
negativas em seus alunos, que muitas vezes as carregam ao longo de suas
vidas, e que causam bloqueios que interferem, inclusive, nas carreiras que
escolhem.
Ao falar de afetividade, não se pode deixar de falar, que antes do
professor ganhar seu aluno para sua disciplina, é necessário, que ele o
ganhe antes para si.
Imagine o que se passaria no coração de um adolescente, se, no
momento em que saia da sala de aula, se seu professor o puxasse para si e
o abraçasse dizendo: “Meu filho, quero lhe dizer que estou do seu lado. Se
algum dia precisar de qualquer tipo de ajuda, pode me procurar, está bem ?
Estou com você para o que der e vier.”
Esse garoto nunca mais se
esqueceria daquele professor e isso só se consegue com o coração.
É preciso causar impacto. Conhecer bem os alunos, pois quanto
melhor se conhecer as dificuldades deles, mais apto se está para saná-las.
Essa tarefa exige grande dedicação pessoal e muito tempo, e é aí,
que muitos professores desistem. Mas não existe uma fórmula mágica.
Para se ensinar bem é preciso pagar o preço: estar dispostos a dedicar a
vida a isso.
Esse processo implica em um maior envolvimento com os alunos,
tanto na sala de aula, como fora dela, formal e informalmente. Implica em
37
chegar cedo à sala de aula, e ficar um pouco mais após o horário para
conversar com eles.
Existem alguns professores que parecem estar preparados até demais,
pedagogicamente. Um típico professor de faculdade entra na sala de aula
preparado até a raiz do cabelo. Gosta da disciplina que leciona, e sabe
discorrer sobre ela em qualquer situação. Mas assim que a aula se encerra,
desaparece e não se vê nem a sombra dele, a não ser na próxima aula. Se
alguém quiser conversar com ele terá que dar-lhe uma rasteira.
Parece que alguns professores vivem num mundo irreal, totalmente
alheio aos alunos. Precisam ser desafiados a mergulhar na vida deles.
Com um relacionamento distante pode-se impressionar algumas pessoas;
mas se quiser causar impacto, têm que nos aproximar mais. E quanto mais
próximos estiverem deles, maior e mais permanente será o impacto que
causarão.
O professor deve mostrar-se vulnerável perante seus alunos. Falarlhes das dificuldades que enfrenta e daquelas que tem tentado vencer faz
anos. Isso aproxima mais o professor de seus alunos. Ele descer do
pedestal, mostrar como realmente é; sujeito aos mesmos problemas que
eles.
É preciso lembrar que as pessoas vêem o professor apenas como
ele é no presente, e não como era antes, e portanto não sabem das lutas
que ele passa; não sabem do processo de crescimento que vivenciam
alunos só conseguirão enxergá-lo como realmente é, quando realmente
38
forem ensinados de coração para coração.
Muitos professores desistiram de educar, corrigem seus alunos
publicamente,
expressam
autoridade
com
agressividade,
são
excessivamente críticos, colocam limites sem dar explicações, são
impacientes, não cumprem com a palavra e com isso destroem a esperança
e os sonhos de seus alunos.
As pessoas que perdem a esperança têm enormes dificuldades para
superar seus conflitos. A perda de seus sonhos torna-os opacos, sem brilho,
presos as suas derrotas. É preciso lembrar que quando não há sonhos, não
há fôlego emocional., e sem esperança não há coragem para viver.
É preciso discutir com os alunos a realidade concreta a que se deve
associar a disciplina cujo conteúdo se ensina. Estabelecer um elo entre os
saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que
eles têm como indivíduos; discutir à ética e as políticas ideológicas dos
dominantes.
A grande tarefa do educador não é transferir, depositar, oferecer,
doar ao outro; sua tarefa é desafiar o educando e produzir sua
compreensão.
Freire (2003), nos diz que uma das tarefas mais importantes da
prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em
suas
relações uns com os outros e todos com o professor ensaiam a
39
experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico,
como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de
sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar.
3.1- As razões e o significado do termo fracasso escolar
Cordié (1993, p.20), relata que o fracasso, opondo-se ao sucesso,
implica um julgamento de valor e esse valor é função de um ideal. Um
sujeito se constrói perseguindo ideais, que se apresentam a ele no decorrer
de sua existência. Esses ideais são, essencialmente, aqueles de seu meio
sócio-cultural e de sua família., ela mesma marcada pelos valores da
sociedade à qual pertence.
O sucesso escolar ocupa um lugar muito importante na vida dos
alunos, pais, professores e governantes. Ser bem sucedido na escola é ter
a expectativa do ter, mais tarde, uma bela situação, de ter acesso, portanto,
ao consumo de bens. Significa também ser “alguém”, isto é, possuir o falo
imaginário, ser considerado e respeitado.
O dinheiro e o poder são a
felicidade. O próprio Estado alimenta essa aspiração. Para ser grande, uma
nação deve sempre aumentar suas riquezas e suas competências.
O fracasso escolar pressupõe a renúncia a tudo isso, a renúncia ao
gozo.
Quando se fala do futuro para uma criança em situação de fracasso
escolar, muito freqüentemente ela evoca o fato de que se tornará um
mendigo. Para muitas crianças é algo temido, angustiante, o que as espera
“se elas não trabalharem bem na escola.”
40
Esse discurso de que o sucesso é desejado e esperado não é
sustentado somente pelos pais; os alunos os ouvem também de seus
mestres, que têm, eles próprios, um contrato a cumprir. Eles também são
submetidos a um imperativo de sucesso, a turma pela qual são responsáveis
deve ter suficiente performance para que, no final do ano, a maioria dos
alunos seja aprovada. São, portanto, os bons resultados dos alunos que
fazem os bons mestres serem reconhecidos pela hierarquia: direção,
inspeção, coordenação etc., e pelos pais de alunos. A angústia que essa
competitividade gera, se manifesta em todos os níveis, parecendo mais
particularmente nociva durante os primeiros anos da aprendizagem escolar.
De fato, a inquietude ligada às performances suscita na criança um
questionamento permanente: Conseguirá passar de ano? Terá “maturidade”
suficiente? Possuirá todas as capacidades intelectuais que se supunha que
tivesse?
Os julgamentos sobre elas terão sérias conseqüências e serão, às
vezes, determinantes para o prosseguimento da escolaridade, pois podem
modificar e até mesmo deteriorar grandemente as relações com o ambiente.
A criança nem sempre faz a separação entre um julgamento de valor e o
amor que alguém lhe dedica. Ser um mau aluno equivale para ela a ser um
mau filho.
3.2- O
que pode acontecer depois das primeiras
dificuldades?
Diante das primeiras dificuldades, três hipóteses poderão ocorrer:
Na primeira hipótese,
ela poderá reagir por meio de distúrbios do
41
comportamento. Para compensar seu fracasso, ela procura se fazer notar
por outros meios que não os escolares: bancar o palhaço em aula, por
exemplo, para fazer rir; ela pode também multiplicar as “besteiras” para
impô-las a seus colegas e recuperar um certo prestígio junto a eles. A
condenação da qual ela será objeto reforçará nela o sentimento de injustiça (
é assim que a criança o verbaliza ) e agravará a passagem a atos mais ou
menos delituosos. As condutas desviantes, se se perpetuarem, acentuam a
rejeição. Da rejeição escolar, com a revolta que se segue a ela, chega-se a
rejeição social com as atitudes de marginalização e de delinqüência. O
jovem desde agora se fez uma “reputação”, alguma coisa da qual lhe será
muito difícil sair, pois foi fixada.
Na segunda hipótese, a criança aceita seu fracasso e esse
sentimento o torna “o mau aluno”, e a partir daí se identifica com isso. Ela
se instala numa posição passiva masoquista. Ela será rotulada e assumirá
esse papel. São essas crianças que ficam “jogadas” na reeducação em
classes de recupera;ao, num estado de indiferença e de imobilismo. Esse
estado de passividade que perdura, se torna uma segunda natureza., a
criança se habitua a ele, depois se satisfaz com ele e por fim, lhe será difícil
sair dele.
Na terceira hipótese, o sistema escolar apresenta mais flexibilidade:
os julgamentos de valor são relativizados. A noção de fracasso não está
mais ligada ao tempo, pois o tempo não é mais marcado pelas fatídicas
barreiras a vencer ( leitura, escrita etc).
Os programas não são mais
administrados de forma obsessiva. Ao invés do “pode fazer melhor”, chavão
obrigatório do boletim escolar, o destaque é dado às realizações do sujeito.
Substitui-se o temor do malogro pelos encorajamentos pelos esforços
e os progressos alcançados. Ainda há nessas turmas um pouco desta
42
alegria ligada às aprendizagens lúdicas que a criança conhecia na
pré-escola. Se pais e professores são menos angustiados, a criança é mais
disponível em seu novo papel de estudante. Algumas escolas rurais com
classe única não conhecem o fracasso escolar.
Como não há uma
separação bem marcada de uma série a outra, cada um pode andar no seu
ritmo com o tempo que lhe for necessário. Mais liberdade na aprendizagem
e menos pressão favorecem a integração da criança ao sistema.
3.3-
Posição dos educadores quanto ao fracasso escolar
Os educadores são muito reservados quanto a essa questão. Eles
temem cada vez mais, ultrapassar seu papel, porque têm uma elevada idéia
de suas responsabilidades. Poderia se dizer que sua reticência corresponde
a sua consciência profissional. Não são eles, e somente eles, que devem,
por suas qualidades pedagógicas, levar ao sucesso os alunos que lhe são
confiados ? Em caso de fracasso, eles se sentem no banco dos réus ainda
mais diretamente, pois o sistema educativo favorece esse tipo de reação.
De fato, não são eles julgados considerando-se os bons resultados de sua
turma ?
3.4-
Aprendizagem baseada na afetividade
Segundo Kohl (1992), a compreensão do pensamento humano, só é
possível quando se compreende sua base afetivo-volutiva.
Kohl (1992, p.84) cita que para Vygostky, “a separação do intelecto
43
e do afeto, enquanto objetos de estudo, é uma das principais deficiências da
psicologia tradicional, uma vez que esta apresenta o processo de
pensamento como fluxo autônomo de pensamentos que pensam a si
próprios, dissociado da plenitude da vida, das necessidades e dos interesses
pessoais, das inclinações e dos impulsos daquele que pensa.”
Refere-se também que Wallon, traz a dimensão afetiva como ponto
fundamental em sua teoria psicogenética. Para ele, o primeiro contato da
criança com o mundo e as pessoas é emocional. É a emoção que permite
as primeiras construções da criança. Para ele, os estados afetivos, sob
forma de emoções encontram-se na origem da consciência, operando a
passagem do mundo orgânico para o social, do fisiológico para o psíquico.
As emoções, segundo Wallon, possuem características específicas
que as diferenciam de outras manifestações orgânicas, como aceleração
dos batimentos cardíacos, secura na boca, mudança no ritmo da respiração
etc. Além disso, as emoções também provocam alterações na mímica
facial, na postura e na forma como são executados os gestos.
Galvão (1998), nos fala em sua tese de Doutorado, da importância da
emoção para as funções intelectuais, que na psicogênese acabam por
adquirir importância progressiva. como modo de interação com o meio.
Torna-se nesse sentido, de extrema necessidade para o educador,
pensar nesta importância do fator emocional para a aprendizagem e para a
formação de seus alunos.
44
“ Ao educador que lida com aqueles que se
encontram nesta fase
por excelência, seriam de
grande utilidade recursos teóricos que sensibilizassem
para os traços expressivos da conduta das crianças __
olhar, mímica fisionômica, entonação da fala, qualidade
dos gestos, variações posturais __ por meio dos quais
se podem obter indícios sobre diversos aspectos da
atividade cognitiva e dos estados afetivos.
Além
de uma ampliação de recursos para a leitura dos traços
expressivos, desse processo de leitura dos corpos e
rostos, esperam-se contribuições para o trato com as
dinâmicas interativas desencadeadas pelas emoções
(...) .” Dantas propõe que uma atmosfera saudável para
a aprendizagem suporia ainda uma elevação da
temperatura afetiva, isto é, um sólido vínculo afetivo
entre professor e aluno.“ (GALVÃO, 1998, p.57-58 ).
45
CONCLUSÃO
A grande preocupação enquanto educadores, com a grande
quantidade de alunos que têm fracassado em sua vida escolar, leva a
estudar diversos autores , que foram citados aqui neste trabalho.
Como educadores, não é possível aceitar estatísticas tão
nunca me conformei com estatísticas tão cruéis e desanimadoras; e por
isso, este trabalho, traduz impressões, sugestões e emoções.
Por não acreditar em uma pedagogia desvinculada da emoção
é que afirma-se, que é tão simples; depende apenas de nossa vontade.
É preciso reorganizar o espaço escolar, pois uma escola não
pode ser constituída somente de aulas. Propiciar uma interação pessoal, em
que se incorporem elementos inefáveis, que se expressam com um olhar,
com um gesto, com um sorriso, que não se consegue expressar com
palavras, mas que compõem, legitimamente, os processos cognitivos.
Encerra-se aqui este trabalho, compartilhando este sonho
(anexo), que um dia deixará de ser apenas um sonho, pois depende apenas
de cada um ser construtor de um mundo melhor.
46
ANEXO
Quais são os profissionais mais importantes da sociedade ?
Num tempo não muito distante do nosso, a humanidade ficou
tão caótica que os homens fizeram um grande concurso. Eles queriam
saber qual a profissão mais importante da sociedade. Os organizadores do
evento construíram uma grande torre dentro de um enorme estádio com
degraus de ouro, cravejados de pedras preciosas. A torre era belíssima.
Chamaram a imprensa mundial, a TV, os jornais, as revistas e as
rádios
para realizarem a cobertura. O mundo estava plugado no evento.
No
estádio, pessoas de todas as classes sociais se espremiam para ver a
disputa de perto.
As regras eram as seguintes:
cada profissão era
representada por um ilustre orador. O orador deveria subir rapidamente num
degrau da torre e fazer um discurso eloqüente e convincente sobre os
motivos pelos quais sua profissão era a mais importante da sociedade
moderna. O orador tinha de permanecer na torre até o final da disputa. A
votação era mundial e pela Internet. Nações e grandes empresas
patrocinavam a disputa. A categoria
social,
uma
vencedora
receberia
prestígio
grande soma em dinheiro e subsídios do governo.
Estabelecidas as regras, a disputa começou.
O
mediador
do
concurso
bradou: “O espaço está aberto!” Sabem quem subiu primeiro na torre ? Os
educadores? Não! O representante da minha classe, a dos psiquiatras. Ele
subiu na torre e a plenos pulmões proclamou: “As sociedades modernas se
tornarão uma fábrica de estresse. A depressão e a ansiedade são as
doenças do século. As pessoas perderam o encanto pela existência.
Muitas desistem
de viver.
A
indústria dos antidepressivos e dos
tranqüilizantes se tornou a mais importante do mundo.” Em seguida, o
orador fez uma pausa.
O público, pasmo, ouvia atentamente seus
argumentos contundentes. O representante dos psiquiatras concluiu: “O
47
normal é ter conflitos, e o anormal é ser saudável.
O que seria da
humanidade sem os psiquiatras ? Um albergue de seres humanos sem
qualidade de vida! Por vivermos numa sociedade doentia, declaro que
somos, juntamente com os psicólogos clínicos, os profissionais mais
importantes da sociedade!”
No estádio reinou um silêncio.
Muitos na
platéia, olharam para si mesmos e perceberam que não eram alegres,
estavam estressados,dormiam mal, acordavam cansados, tinham uma
mente agitada, dores de cabeça. Milhões de espectadores ficaram com a
voz embargada.
Os psiquiatras pareciam imbatíveis. Em seguida, o
mediador bradou: “O espaço está aberto!” Sabem quem subiu depois? Os
professores ? Não! O representante dos magistrados _ os juízes de direito.
Ele subiu num degrau mais alto e num gesto de ousadia desferiram palavras
que abalaram os ouvintes: “Observem os índices de violência! Eles não
param de aumentar. Os seqüestros, assaltos e a violência no trânsito
enchem as páginas dos jornais. A agressividade nas escolas, os maustratos infantis, a discriminação racial e social fazem parte da nossa rotina.
Os homens amam seus direitos e desprezam seus deveres.” Os ouvintes
menearam a cabeça, concordando com os argumentos. Em seguida, o
representante dos magistrados foi mais contundente: “O tráfico de drogas
movimenta tanto o dinheiro como o petróleo. Não há como explicar o crime
organizado. Se vocês querem
segurança, aprisionem-se dentro de suas
casas, pois a liberdade pertence aos criminosos.
Sem os juízes e os
promotores, a sociedade se esfacela. Por isso, declaro, com o apoio dos
promotores e
do aparelho policial, que representamos a classe mais
importante da sociedade. ”Todos engoliram em seco essas palavras. Elas
perturbavam os ouvidos e queimavam na alma,
mas pareciam
incontestáveis. Outro momento de silêncio, agora mais prolongado. Em
seguida, o mediador, já suando frio, disse: “O espaço está novamente
aberto!” Um outro representante mais intrépido subiu num degrau mais alto
da torre. Sabem quem foi desta vez ? Os educadores ? Não! Foi o
representante das forças armadas. Com uma voz vibrante e sem delongas,
ele discursou: “Os homens desprezam o valor da vida. Eles se matam por
48
muito pouco.
O terrorismo elimina milhares de pessoas.
comercial mata milhões de fome. A
A guerra
espécie humana se esfacelou em
dezenas de tribos. As nações só se respeitam pela economia e pelas armas
que possuem. Quem quiser a paz tem que se preparar para a guerra. Os
poderes econômico e bélico, e não o diálogo, são os fatores de equilíbrio
num mundo espúrio. ”Suas palavras chocaram os ouvintes, mas eram
inquestionáveis. Em seguida, ele concluiu: “Sem as forças armadas, não
haveria segurança. O sono seria um pesadelo. Por isso, declaro, quer se
aceite ou não, que os homens das forças armadas não são apenas a classe
profissional mais importante, mas também a mais poderosa. ”A alma dos
ouvintes gelou. Todos ficaram atônitos. Os argumentos dos três oradores
eram fortíssimos. A sociedade tinha se tornado um caos. As pessoas do
mundo todo, perplexas, não sabiam qual atitude tomar:
se aclamavam um
orador, ou se choravam pela crise da espécie humana, que não honrou sua
capacidade de pensar. Ninguém mais ousou subir na torre. Em quem
votariam ? Quando todos pensavam que a disputa havia se encerrado,
ouviu-se uma conversa no sopé da torre. De quem se tratava? Desta vez
eram os professores.
Havia um grupo deles da pré-escola, do ensino
fundamental, do médio e do universitário. Eles estavam encostados na torre
dialogando com um grupo de pais. Ninguém sabia o que estavam fazendo.
A TV os focalizou e projetou num telão. O mediador gritou para um deles
subir na torre. Eles se recusaram. O mediador os provocou: “Sempre há
covardes numa disputa.” Houve risos no estádio. Fizeram chacota dos
professores e dos pais. Quando todos pensaram que eles eram frágeis, os
professores, com o incentivo dos pais, começaram a debater as idéias
permanecendo no mesmo lugar. Todos se faziam representar.
Um dos
professores, olhando para o alto, disse para o representante dos psiquiatras:
“Nós não queremos ser mais importantes que vocês. Apenas queremos ter
condições para educar a emoção dos
nossos alunos, formar jovens livres
e felizes, para que eles não adoeçam e sejam tratados por vocês.”
O
representante dos psiquiatras recebeu um golpe na alma. Em seguida, um
outro professor que estava no lado direito da torre olhou para o
49
representante dos magistrados e disse: “Jamais tivemos a pretensão de ser
mais importantes do que os juízes. Desejamos apenas ter condições para
lapidar a inteligência dos nossos jovens, fazendo-os amar a arte de pensar e
aprender a grandeza dos direitos e dos deveres humanos.
Assim,
esperamos que jamais se sentem num banco dos réus.” O representante
dos magistrados tremeu na torre. Uma professora do lado esquerdo da
torre, aparentemente tímida, encarou o representante das forças armadas e
falou poeticamente; “os professores do mundo todo nunca desejaram ser
mais poderosos nem mais importantes do que os membros das forças
armadas. Desejamos apenas ser importantes no coração das nossas
crianças. Almejamos levá-las a compreender que cada ser humano não é
mais um número na multidão, mas um ser insubstituível, um ator único no
teatro da existência. ”A professora fez uma pausa e completou: “Assim eles
se apaixonarão pela vida, e, quando estiverem no controle da sociedade,
jamais farão guerras, sejam guerras físicas que retiram o sangue, sejam as
comerciais que retiram o pão. Pois cremos que os fracos usam a força, mas
os fortes usam o diálogo para resolver seus conflitos. Cremos ainda que a
vida é obra-prima de Deus, um espetáculo que jamais deve ser interrompido
pela violência humana. ”Os pais deliraram de alegria com essas palavras.
Mas o representante do judiciário quase caiu da torre. Não se ouvia um
zumbido na platéia. O mundo ficou perplexo. As pessoas não imaginavam
que os simples professores que viviam no pequeno mundo das salas de aula
fossem tão sábios. O discurso dos professores abalou os líderes do evento.
Vendo ameaçado o êxito da disputa, o mediador do evento disse
arrogantemente:
“Sonhadores!
Vocês vivem fora da realidade! ”Um
professor destemido bradou com sensibilidade: “Se deixarmos de sonhar,
morreremos! ”Sentindo-se questionado, o organizador do evento pegou o
microfone e foi mais longe na intenção de ferir os professores: “Quem se
importa com os professores na atualidade ? Comparem-se com outras
profissões. Vocês não participam das mais importantes reuniões políticas.
50
A imprensa raramente os noticia. A sociedade pouco se importa com a
escola. Olhem para o salário que vocês recebem no final do mês!” Uma
professora fitou-o e disse-lhe com segurança: “Não trabalhamos apenas
pelo salário, mas pelo amor dos seus filhos e de todos os jovens do mundo.”
Irado, o líder do evento gritou: “Sua profissão será extinta nas sociedades
modernas. Os computadores os estão substituindo! Vocês são indignos de
estar nesta disputa.”
A
platéia,
manipulada,
mudou
de
lado.
Condenaram os professores. Exaltaram a educação virtual. Gritaram em
coro: “Computadores!
Computadores! Fim dos professores!” O estádio
entrou em delírio repetindo esta frase.
Sepultaram os mestres.
professores nunca haviam sido tão humilhados.
Os
Golpeados por estas
palavras, resolveram abandonar a torre. Sabem o que aconteceu ? A torre
desabou. Ninguém imaginava, mas eram os professores e os pais que
estavam segurando a torre. A cena foi chocante. Os oradores
hospitalizados.
foram
Os professores tomaram outra atitude inimaginável:
abandonaram, pela primeira vez, as salas de
aula. Tentaram substituí-los
por computadores, dando uma máquina para cada aluno.
Usaram as
melhores técnicas de multimídia. Sabem o que ocorreu ? A sociedade
desabou. As injustiças e as misérias da alma aumentaram mais ainda. A
dor e as lágrimas se expandiram. O cárcere da depressão, do medo e da
ansiedade atingiu grande parte da população. A violência e os crimes se
multiplicaram. A convivência humana, que já estava difícil, ficou intolerável.
A espécie humana gemeu de dor.
Corria o risco de não sobreviver...
Estarrecidos, todos entenderam que os computadores não
conseguiam
ensinar a sabedoria, a solidariedade e o amor pela vida. O público nunca
pensara que os professores fossem os alicerces das profissões
e
o
sustentáculo do que é mais lúcido e inteligente entre nós. Descobriu-se que
o pouco de luz que entrava na sociedade vinha do coração dos professores
e dos pais que arduamente educavam seus filhos. Todos entenderam que a
sociedade vivia uma longa e nebulosa noite.
A ciência, a política e o
dinheiro não conseguiam superá-la. Perceberam que a esperança de um
belo amanhecer repousa sobre
cada pai, cada mãe e cada professor, e
51
não sobre os psiquiatras, o judiciário, os militares, a imprensa... Não
importa se os pais moram num palácio ou numa favela, e se os professores
dão aulas numa escola suntuosa ou pobre eles são a esperança do mundo.
Diante disso, os políticos, os representantes das classes profissionais e os
empresários fizeram uma reunião com os professores em cada cidade de
cada nação.
Reconheceram que tinham cometido um crime contra a
educação. Pediram desculpas e rogaram para que eles não abandonassem
seus filhos. Em seguida, fizeram uma grande promessa. Afirmaram que a
metade do orçamento que gastavam com armas, com o aparato policial e
com a indústria dos tranqüilizantes e dos antidepressivos seria investida na
educação.
Prometeram resgatar a dignidade dos professores, e dar
condições para que toda criança da Terra fosse nutrida com alimentos no
seu corpo e com o conhecimento na sua alma. Nenhuma delas ficaria mais
sem escola. Os professores choraram.
Ficaram comovidos com tal
promessa.Há séculos eles esperavam que a sociedade acordasse para o
drama da educação. Infelizmente, a sociedade só acordou quando as
misérias sociais atingiram patamares insuportáveis. Mas, como sempre
trabalharam como heróis anônimos e sempre foram apaixonados por cada
criança, cada adolescente e cada jovem, os professores resolveram voltar
para a sala de aula e ensinar cada aluno a navegar nas águas da emoção.
Pela primeira vez, a sociedade colocou a educação no centro das suas
atenções. A luz começou a brilhar depois da longa tempestade... No final
de dez anos os resultados apareceram, e depois de vinte anos todos ficaram
boquiabertos. Os jovens não desistiam mais da vida.
suicídios.
O uso de drogas dissipou-se.
Não havia mais
Quase não se ouvia falar de
transtornos psíquicos e de violência. E a discriminação? O que é isso ?
Ninguém se lembrava mais do seu significado. Os brancos abraçavam
afetivamente os negros. As crianças judias dormiam na casa das crianças
palestinas. O medo se dissolveu, o terrorismo desapareceu, o amor triunfou.
Os presídios se tornaram museus. Os policiais se tornaram poetas.
Os consultórios de psiquiatria se esvaziaram. Os psiquiatras se tornaram
escritores. Os juízes se tornaram músicos. Os professores se tornaram
52
filósofos. E os generais? Descobriram o perfume das flores, aprenderam a
sujar suas mãos para cultivá-las. E os jornais e as TVs do mundo? O que
noticiavam, o que vendiam?
Deixaram de vender mazelas e lágrimas
humanas. Vendiam sonhos, anunciavam a esperança... ( CURY, 2003,
p.159 )
53
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, João Ferreira de. (Tradução). Bíblia Sagrada. Sociedade Bíblica
do Brasil.
CORDIÉ, Anny. Os atrasados não existem: Psicanálise de crianças com
fracasso escolar. 1ª edição. Porto Alegre: Artmed Editora, 1993.
CURY, Augusto. Pais brilhantes, professores fascinantes.1ª edição. Rio de
Janeiro: Sextante, 2003.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia – Saberes necessários à prática
educativa. 28ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
FREITAS, Nilson Guedes de. Pedagogia do Amor. 1ª edição. Rio de Janeiro:
Wak Editora, 2000.
GALVÃO, Maria Izabel Pereira. Tese de Doutorado. Emoções e
Conflitos,1998.
GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas. Porto Alegre. Artes Médicas,
1995.
54
HENDRICKS, Howard. Ensinando para Transformar Vidas. 1ª edição. Minas
Gerais: Editora Betânia, 1991.
KHOL, Marta. Piaget, Vygotsky, Wallon:
Teorias psicogenéticas em
discussão. Sumus, 1992.
LOPES, Maria do Carmo. Revista Linha Direta. Ano 6, nº 68, novembro/
2003, p. 19
MATURANA, H. & Nisis. Formación humana y capacitación. Santiago:
Dolmem, 1997.
MORAES, Maria Cândida. Educar na biologia do amor e da solidariedade. 1ª
edição. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2003.
MORALES, Pedro. A relação professor-aluno. O que é, como se faz. 4ª
edição.São Paulo:Editora Loyola, 2003.
VYGOTSKY, Lev. Semenovich. A formação Social da Mente. São Paulo:
Editora Martins Fontes, 1984.
55
ÍNDICE
FOLHA DE ROSTO
02
AGRADECIMENTO
03
DEDICATÓRIA
04
RESUMO
05
METODOLOGIA
07
SUMÁRIO
08
INTRODUÇÃO
09
CAPÍTULO I
A RELAÇÃO PROFESSOR X ALUNO
12
CAPÍTULO II
PROFESSOR... O QUE ESTÁ POR TRÁS DESSA
PROFISSÃO?
25
2.1- Professor ou educador?
28
2.2- Como o professor pode intervir nessa
realidade?
28
CAPÍTULO III
O PROFESSOR E SUA DISCIPLINA
3.1- As razões e o significado do termo fracasso
32
56
escolar
39
3.2- O que pode acontecer depois das primeiras
dificuldades?
40
3.3- Posição dos educadores quanto ao fracasso
escolar
42
3.4- Aprendizagem baseada na afetividade
42
CONCLUSÃO
45
ANEXO
46
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
53
ÍNDICE
55
57
FOLHA DE AVALIAÇÃO
Nome da Instituição: UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES
Título da Monografia: A AFETIVIDADE NA RELAÇÃO PROFESSORALUNO
Autora: MARIA DA APARECIDA CORREIA DA SILVA
Data da entrega: 29/01/2005
Avaliado por: Prof. Celso Sanches
Conceito:
58
59
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