Capítulo II – Os primeiros anos da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal Em Setúbal temos conhecimento que, em 1786, a Câmara Municipal deliberou criar duas companhias de aguadeiros, com os respectivos capatazes, assim como comprar duas bombas para acudir aos incêndios. Esta data é, normalmente, apontada como a da fundação dos actuais Bombeiros Municipais, mas rigorosamente só com muita benevolência tal correspondência poderá ser feita. Na época, e até finais do século XIX, Setúbal não tinha água canalizada. A água era fornecida por uns indivíduos, os aguadeiros, normalmente oriundos da Galiza, que tinham licença camarária para exercer a profissão de venda ao domicílio de água em barricas. Podiam ter clientes certos, mas também podiam vender pontualmente, segundo uma tabela camarária, água a qualquer cliente. A água era recolhida normalmente no chafariz do Sapal, em frente dos actuais Paços do Concelho 1, ou noutros chafarizes e fontes da cidade. Este serviço originou constantes conflitos entre os aguadeiros e também com a população em geral. Tudo indica que, em 1786, a Câmara licenciou o serviço de aguadeiros, impondo a obrigação de prestarem serviço nos incêndios da cidade. As bombas manuais foram colocadas nos serviços da abegoaria 2, o serviço que tratava dos animais de carga da Câmara, assim como do serviço de limpeza da cidade. Entretanto, em 1858, na madrugada do dia nove de Setembro, deu-se um “desastroso fogo” na casa de Francisco Santos3, comerciante, com origem no armazém da loja, e que rapidamente alastrou para os andares superiores. Os sinos deram o alarme e logo as autoridades administrativas e militares organizaram os socorros. Mas apenas conseguiram evitar que o fogo alastrasse aos prédios vizinhos. O prédio foi completamente consumido e, após o rescaldo, apenas se encontraram algumas moedas semi-derretidas. No relato na imprensa não há nenhuma referência a serviços organizados de bombeiros e apenas se refere a actuação de populares e de militares. Podemos deduzir que, na realidade, não existia qualquer serviço de bombeiros na cidade. Os socorros eram fornecidos pela população e pelos militares da guarnição alojada no quartel do Baluarte da Conceição, futuro Regimento de Infantaria 11 (RI 11). Este incêndio, pela sua violência, deve ter causado, na época, uma profunda impressão, pois o comerciante atingido ficou arruinado com a perda de todos os seus bens pessoais e profissionais. 1. A situação do serviço de incêndios em Setúbal no século XIX Talvez devido às consequências do incêndio de 1858, a Câmara organizou, em 1864, o serviço de incêndios com a publicação do respectivo Regulamento, que indicava a colocação das bombas, assim como o serviço dos aguadeiros em caso de incêndio na zona urbana da cidade. O serviço de aguadeiros, na prática, não funcionava e, mais tarde, em 1869, foi reorganizado. Setúbal já era cidade desde 1860, tinha sofrido muitos melhoramentos, era servida por linha de caminho de ferro desde 1861, tinha um Liceu Municipal e até possuía iluminação a gás. Tinha, assim, que dispor de um serviço de combate aos incêndios à altura na nova cidade. A situação agravou-se quando, em Outubro de 1869, se declarou “um pavoroso incêndio” num edifício na Praia da Alfândega, em frente ao 1 Nos anos trinta do século XX foi removido para o local actual, na Praça Teófilo de Braga. Estes serviços estavam localizados onde hoje está instalado a quartel da GNR, na Avenida Jaime Cortesão. 3 O jornal O Curioso de Setúbal, de 25 de Setembro de 1858, relata, em pormenor, este sinistro. 2 então quartel do Batalhão de Caçadores 1 (BC 1), mais tarde quartel do RI 11, na actual Avenida Luísa Todi. Naquele prédio estava situado o escritório do conceituado empresário Torlades O’Neill4. O incêndio começou nas águas furtadas e quando foi descoberto já era tarde para ser combatido com os meios rudimentares da época. Os soldados do BC 1 ainda deram uma boa ajuda a salvar a mobília, mas o prédio ardeu completamente. A imprensa da época fez eco das preocupações dos setubalenses e no jornal Gazeta Setubalense escreveu-se que “o pavoroso incêndio que na terça-feira houve nesta cidade veio demonstrar bem claramente a necessidade impreterível dum serviço de incêndios.” Depois, lamentava o facto de apenas haver duas bombas. Uma delas avariou e a outra apenas lançava água até ao primeiro andar do prédio. O jornal finalmente terminava por colocar a esperança nas próximas eleições municipais. A Câmara mandou reparar rapidamente as duas bombas e colocou-as no edifício do antigo Convento do Carmo Foi neste clima que, em Dezembro de 1869, foi publicado o Regulamento para o Serviço de Acudir aos Incêndios, aprovado pela Câmara Municipal. Um dos vereadores que aprovou este Regulamento foi Joaquim José Correia, que, mais tarde, em 1883, seria um dos fundadores da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. O novo Regulamento, em resumo, organizava o serviço com quatro bombas: uma no edifício da Abegoaria, duas num depósito de vinhos na Rua dos Açougues, actual Rua Luís de Camões, e a última no pavimento inferior do extinto Convento do Carmo, onde hoje está a Esquadra N.º 1 da PSP, ao lado da antiga Escola Conde de Ferreira. As chaves das casas estavam em poder de vários funcionários da Câmara, que eram responsáveis pela conservação e entrega do material. As bombas estavam instaladas sobre carros que também tinham pipas que deviam, em princípio, estar sempre cheias de água. Os carros podiam ser puxados por mulas ou por tracção humana. O alarme era dado pelas torres sineiras das igrejas da cidade segundo um esquema simples5, mas eficaz. Se o fogo deflagrasse na freguesia de S. Sebastião eram dadas dez badaladas seguidas na torre mais à mão. Se fosse em Santa Maria, seriam 15 badaladas, em S. Julião vinte e na Anunciada já seriam 25 badaladas. As badaladas podiam ser repetidas após um intervalo. Apesar de ser primitivo, este serviço funcionou até aos anos trinta do século XX, quando o telefone começou a generalizar-se. Em caso de sinistro, as bombas avançavam prontamente e os aguadeiros deviam comparecer junto destes engenhos ou nos locais dos sinistros com os barris atestados de água. Para estimular os aguadeiros, a Câmara instituiu um prémio de 3$600 réis para ser distribuído pelo pessoal da primeira bomba que comparecesse num incêndio, assim como 1$000 réis ao seu encarregado. Como é habitual em Portugal, publica-se legislação e depois toda a gente fica descansada, pois o problema está resolvido. O esquema de combate ainda funcionava para os incêndios caseiros, originados por fogões a lenha ou por sujidade nas chaminés, mas um incêndio de maiores proporções não podia ser apagado por barricas de água, pois a cidade não possuía água canalizada, bem como as correspondentes bocas-deincêndio. Passados apenas quatro meses sobre o incêndio no prédio da actual Avenida Luísa Todi, em Fevereiro de 1870 deu-se outro incêndio de grandes proporções na fábrica de cortiça da família Pereira, situada no antigo convento dos Jesuítas, no local onde hoje estão instalados os armazéns da empresa gráfica Armazéns Papeis do Sado, perto do Jardim do Quebedo. Algumas fagulhas da caldeira de cozer a cortiça atiçaram um incêndio na madrugada do dia seis de Fevereiro, provocando a queima total do telhado 4 5 Empresário de origem irlandesa com interesses no comércio marítimo internacional. A publicação Almanaque dos Bombeiros Portugueses, de 1878, explica em pormenor este sistema. da casa da caldeira. No entanto, conseguiu-se proteger uma pilha de cortiça com 95 mil arrobas. O incêndio foi extinto com as duas bombas municipais, mas notou-se a falta de água para alimentá-las e teria de ser fornecida pelos poços da fábrica. Os aguadeiros não compareceram e a sorte do empresário foi a ajuda dos soldados do quartel do Batalhão de Caçadores 1 e de muitos populares que acorrerem ao sinistro. O industrial Francisco Pereira ofereceu, posteriormente, 22$500 réis para serem distribuídos pelos 65 militares que acudiram ao sinistro. Mas o empresário não gostou da maneira como o incêndio foi combatido pelos serviços oficiais e, como tinha estudado em Inglaterra e tinha lá muitos contactos comerciais, mandou vir de Londres, para a sua fábrica de cortiça, uma bomba manual para combater incêndios. A bomba chegou em Junho de 1870, fez alguns exercícios e logo se revelou superior às bombas existentes no concelho. O empresário declarou então que a sua bomba estava ao serviço da cidade em caso de sinistro. E não perdeu tempo, pois ainda em Junho de 1870, quando houve um incêndio num prédio na Rua de S. Francisco, pela madrugada, a nova bomba entrou logo em acção, tendo prestado melhores serviços que as municipais. Nos finais de 1870 um grande incêndio declarou-se novamente na cidade. No dia 23 de Outubro, de madrugada, começou a arder um prédio situado na Ponte do Livramento, hoje Rua Augusto Cardoso, na esquina com a Avenida 22 de Dezembro. O vento forte alimentava o fogo, que começou a ameaçar os prédios vizinhos. O incêndio foi de tal monta que, segundo a imprensa da época, “quase todas as pessoas principais de Setúbal ajudaram” a combater o sinistro. Apenas se salvou alguma mobília, pois o prédio ardeu completamente. Um dos proprietários, dias depois, agradeceu ao Francisco Pereira o empréstimo da sua bomba, assim como a cedência do pessoal da sua fábrica para o combate ao incêndio. Estas situações eram incómodas para a maioria política que detinha a Câmara Municipal. Foi então encarregado do serviço de incêndios um novo chefe, o José Duarte, que propôs à respectiva vereação a reorganização do serviço. Esta, como solução, propôs às companhias de seguros que dessem uma contribuição para o respectivo serviço o que, como se calcula, caiu em saco roto. Em Maio de 1872, novo incêndio, de algumas proporções, deu-se numa padaria situada no actual Largo da Misericórdia. Compareceram as bombas municipais e a bomba da empresa do Francisco Pereira com o seu pessoal, que foi decisiva para extinguir o incêndio. Nesse mesmo ano, em Junho, surge uma notícia muito interessante no jornal Gazeta de Setubalense. Noticiava-se que “alguns mancebos distintos pretendem constituir uma associação que tem por fim prestar socorros por ocasião de incêndios. Os promotores, consta, são os senhores José Ahrens e Grill tomando parte o senhor António Joaquim Correia”. Foi uma notícia isolada, mas significava que já havia na cidade a consciência da necessidade de se fundar uma associação de bombeiros voluntários, uma vez que em Lisboa já tinha sido fundada, em 1868, a respectiva associação. Mas, entretanto, o Município também não descurava o serviço municipal de incêndios e o novo encarregado organizava, periodicamente, exercidos práticos. Sabe-se que, em Outubro de 1872, foram aprontados exercícios na Rua das Esteiras, actual Rua Dr. Estevão de Vasconcelos, que mereceram da imprensa o seguinte comentário: “este serviço está presentemente com a regularidade que nunca teve.” Nos finais de 1872 surgem novamente notícias da criação de uma possível associação de bombeiros voluntários em Setúbal, mas desta vez a ideia partia do cidadão António Cardoso Júnior, que defendia as virtudes de tais associações. Mas os sinistros não se compadeciam com boas vontades e lá iam surgindo de vez em quando. Em Agosto de 1873 foi a vez de um prédio na Rua dos Ourives, actual Rua Dr. Paula Borba, que numa madrugada ardeu completamente, apesar das ajudas prontas de todas as bombas e pessoas disponíveis. Um ano depois, em 1874, novamente um incêndio numa fábrica de cortiça do industrial Jacinto Archer. Muita gente tentou ajudar, o Francisco Pereira enviou a sua bomba e o pessoal, mas nada impediu que o armazém da cortiça ardesse completamente. Setúbal, na época, tinha uma grande actividade turística nos meses de Verão e até meados de Outubro devido às suas praias cristalinas, mesmo no centro da cidade. Os mais abonados vinham de Évora, Elvas ou de Badajoz de comboio e hospedavam-se em casas particulares nas Fontainhas. Iam de manhã à Praia das Fontaínhas, muito cedo para evitar a força do Sol que queimava a pele e que era o terror de qualquer senhora de bem6. Lá para as dez horas, no máximo, recolhia-se a casa, depois do habitual banho de mar, e almoçava-se, em geral pelas onze horas. De tarde, descansava-se. O jantar era lá para as seis da tarde e depois havia o convívio social no Bonfim, no coreto da Avenida da Praia, hoje início da Avenida Luísa Todi, no Clube Setubalense, nas serenatas nocturnas no Rio Sado ou nos bailes nas várias colectividades locais. Na época, Setúbal, era um centro de veraneio estival apenas comparável a Espinho ou à Figueira da Foz. Como afirmava um jornal da época, os forasteiros tomavam banho “nas límpidas águas do Sado cuja extensa praia é das mais belas do reino.” O Algarve ainda era inacessível e desconhecido. Neste ambiente, um serviço continuava primitivo: o combate aos incêndios. Já em 1880, em Junho, surgiu um incêndio num prédio na Rua da Conceição, actual Avenida Cinco de Outubro, cerca da uma hora da madrugada. Compareceram as bombas habituais, mas enquanto a bomba da casa dos Pereiras foi pontual e funcionou bem, as bombas camarárias demoraram meia hora a chegar, pois o pessoal estava a dormir, como seria normal. A imprensa lamentou que não houvesse “uma pessoa competente que dirija o serviço de incêndios”. Além disso, novamente foi alertada a Câmara para a necessidade de organizar uma boa companhia de bombeiros. Nos anos seguintes, mais ou menos regularmente, iam-se manifestando em Setúbal incêndios mais ou menos graves e, normalmente, agravados pela falta de um Comando estruturado. Quando, em Agosto de 1883, ardeu um palheiro perto da igreja da Boa Hora, apesar de os socorros terem sido rápidos, a imprensa lamentava que, “como mandam todas as pessoas que se julgam com autoridade para o fazer, não há que lamentar senão a falta de organização dos senhores camaristas.” Com efeito, no serviço de incêndios podiam dar ordens várias entidades. O administrador do concelho, o vereador responsável pelo serviço de incêndios, o inspector de incêndios e depois o encarregado do serviço de incêndios. O normal era todos acorrerem ao local e cada um dar as suas ordens, baseadas apenas no senso comum ou em palpites de ocasião, mas com pouca competência para tal. Na sequência deste incêndio, o jornal Gazeta Setubalense anunciou que em Évora já existia uma associação de bombeiros voluntários, em Barcelos estava outra em organização e logo se interrogava: “Quando se organizará em Setúbal um corpo de bombeiros?” 2. A fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal 6 Ficando bronzeada pareceria uma vulgar camponesa, sempre tostada pelo Sol, e uma senhora da sociedade devia ter a pele alva demonstrando, publicamente, que não tinha necessidade de andar ao Sol para ganhar a sua vida. Tudo indica que a pergunta colocada pelo jornal Gazeta Setubalense teve efeitos imediatos. Logo em Outubro de 1883, um grupo de cidadãos, das melhores famílias setubalenses, reuniu-se na associação recreativa Clube Dramático 7, situado na Rua das Amoreiras, actual Rua João Eloy, e fundaram, em Assembleia-Geral, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Os documentos originais da fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal já não existem nos arquivos, mas, em 1933, aquando da comemoração dos cinquenta anos da associação, foi publicado um jornal especialmente dedicado à efeméride, no qual o sócio Libânio da Silva escreveu a história da criação da associação, a partir dos documentos originais que, na altura, tudo indica, ainda existiam na associação ou então estavam na posse de algum dirigente, assim como das suas próprias memórias. Graças a essa publicação, assim como aos jornais da época, podemos hoje reconstituir como foi formada a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Como apenas existe, que se saiba, um exemplar completo daquela publicação, transcreve-se integralmente o citado artigo, para os leitores mais curiosos, no Anexo I. Segundo Libânio da Silva, a origem da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal foi a seguinte. Em 19 de Outubro de 1883 um grupo constituído pelos senhores Henrique Augusto Pereira, Artur Mena, Álvaro José Baptista, António Avelino Silva e Joaquim José Correia, com uma bomba que era propriedade do primeiro e uma escada de ganchos, tiraram uma fotografia e à noite, depois de terem convidado para acompanhá-los os senhores Manuel Maria Portela Júnior, Joaquim Caetano da Veia e Alfredo Portela, foram reunir-se numa sala do Clube Dramático, onde deliberaram convidar mais outras pessoas para uma nova reunião a realizar no Domingo 21 de Outubro de 1883 com o fim de fazer a eleição dos Corpos Gerentes da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal e lavraram uma acta de instalação da mesma associação. Existe ainda hoje, no Museu da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, uma reprodução, em grande formato e já em mau estado de conservação, da fotografia original, que deve ter sido feita em 1933, nas comemorações dos cinquenta anos da associação, que pode ser vista na Figura 1, e na qual estão os fundadores da associação com o material inicial. Na fotografia, de pé e da esquerda para direita, temos Joaquim José Correia, Henrique Augusto Pereira, Artur Mena e Álvaro José Baptista. Sentado está o António Avelino da Silva. De notar a juventude de alguns dos fundadores. Figura 1 - Fundadores da associação 7 O Clube Dramático estava instalado na Rua das Amoreiras, 12 onde hoje está construído um prédio moderno. Mais tarde, ainda segundo Libânio da Silva, reuniram no dia 21 com maior número de pessoas e elegeram os corpos gerentes. Nos dia 23 e 24 realizou-se uma Assembleia-Geral com o fim de apreciar e aprovar os estatutos. No entanto, a cópia da acta existente na publicação do 50.º aniversário indica a data de 22 de Outubro como o dia da realização da Assembleia-Geral para aprovação dos estatutos. Efectivamente, a acta já refere o Presidente e é assinada pelo “primeiro secretário da Assembleia-Geral”, de onde se deduz que os corpos gerentes tinham já sido eleitos no dia 21, como escreve Libânio da Silva. Os corpos gerentes, eleitos no dia 21 de Outubro, foram os seguintes: Mesa da Assembleia-Geral Presidente - Augusto Grill Vice-Presidente - Venâncio O. F. Torres Primeiro Secretário - António Pedro Cardoso Júnior Segundo Secretário - Joaquim Patrício Frixell Direcção Presidente - Álvaro José Baptista Vice-Presidente - Joaquim José Correia Primeiro Secretário - José Manuel Correia Segundo Secretário - Eduardo A. Soares Rosa Tesoureiro - João Guilherme Pereira Primeiro Vogal - João José Pereira Segundo Vogal - João José Freitas Pereira Comando Primeiro Comandante - Henrique A. Pereira Instrutor geral - Artur Mena A lista dos nomes eleitos representava cidadãos importantes na área empresarial ou nas actividades de navegação. As famílias Grill, Frixell e Pereiras tinham ligações comerciais com a Inglaterra e países nórdicos. Por sua vez, Joaquim José Correia era periodicamente eleito vereador da CMS e era influente nos meandros da política local. A iniciativa da criação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, segundo o jornal Gazeta Setubalense, partiu do Artur Mena, Comandante de uma Esquadra de bombeiros localizada no Hospital de São José, em Lisboa, que pertencia aos Bombeiros Voluntários da Ajuda, e que conseguiu agregar na ideia o Álvaro Baptista e o Avelino Silva. Este grupo inicial conseguiu depois obter o apoio do Augusto Grill, assim como do Henrique Pereira. A partir daí foi fácil criar a associação. A entrada do Henrique Pereira, certamente através do seu amigo Augusto Grill, foi fundamental. Este poderoso industrial da cortiça e proprietário de uma agência de navegação com comércio regular com a Inglaterra, onde, aliás, estudou na adolescência, já possuía uma bomba de incêndios para o serviço na sua fábrica e estava naturalmente interessado na criação de uma associação dos bombeiros voluntários, uma vez que as suas relações com algumas vereações camarárias não eram, em geral, amistosas. Na Assembleia-Geral do dia 22 de Outubro foram criados os sócios activos, os sócios honorários e os sócios protectores. Os activos pertenciam ao corpo activo, isto é, eram os bombeiros; os honorários eram aqueles que, por razões poderosas, mereceriam tal distinção; os sócios protectores pagavam quotas e podiam frequentar a associação, mas não eram considerados bombeiros. Depois, foi aprovada uma comissão para elaborar os estatutos, da qual fizeram parte os sócios José Manuel Correia, o Henrique Pereira e o Artur Mena. A sessão terminou com troca de elogios ao Henrique Pereira, que seria, no fim, o sustentáculo material da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, e ao Artur Mena pelo facto de se oferecer para, graciosamente, dar instrução aos futuros bombeiros voluntários. Foi por essa razão que a assembleia aprovou, por unanimidade, considerar o Artur Mena como o seu primeiro sócio honorário. Foi salientado o papel do António Avelino Silva na criação da Associação e, finalmente, foi proposto que os sócios que assistiram às reuniões preparatórias, assim como à primeira Assembleia-Geral, fossem considerados sócios fundadores, o que foi aprovado. A acta da respectiva Assembleia-Geral pode ser lida, na íntegra, no Anexo II. Após a leitura deste documento temos uma visão razoável de como surgiu a iniciativa de se fundar a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. O Artur Mena, como Comandante de uma Esquadra de bombeiros voluntários, deveria ser um médio comerciante ou industrial de Lisboa. Tinha meios para passar as suas férias balneares em Setúbal, normalmente em Setembro ou Outubro. Teve conhecimentos com várias pessoas da cidade, que lhe devem ter falado na ideia da fundação de uma associação de bombeiros voluntários em Setúbal, que já andava no ar há alguns meses. Nos seus contactos com o Álvaro Baptista e o Avelino Silva a ideia foi consolidada e depois bastou angariar os apoios necessários, que passavam, obrigatoriamente, pelo vereador do pelouro, o Joaquim José Correia, pela sua influência política, e pelo industrial da cortiça Henrique Pereira, pelo seu poder económico e também como parte interessada na existência de um bom corpo de bombeiros na cidade. A partir daí, tudo foi mais fácil. 3. Os primeiros incêndios da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal Passada a fase inicial da formalização da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, passou-se à organização dos pormenores mais práticos e funcionais. Tudo indica que o instrutor, o Artur Mena, começou, certamente aos domingos, a ministrar a instrução ao corpo activo. Também foi aprovada a fundação de uma charanga 8, numa Assembleia-Geral realizada em 27 de Dezembro de 1883, que efectivamente se organizou, embora em data posterior, pois a compra dos instrumentos exigia meios financeiros ainda não disponíveis. O baptismo de fogo da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal foi no dia 27 de Janeiro de 1884 quando, pelas onze horas da noite, como então se dizia, foi declarado um incêndio através do toque de dez badaladas das torres dos sinos, logo em São Sebastião, na Travessa Francisco Pereira, número 12, na loja do prédio, isto é, no rés do chão. A travessa tinha, ironicamente, o nome do pai do Comandante da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, o Henrique Pereira, que tinha falecido em Novembro de 1869 e era considerado “o primeiro industrial da cidade”, além de ser um “protector das classes laboriosas e benfeitor da pobreza”. A vereação da CMS da altura, como homenagem, atribuiu o nome do industrial aquela travessa. Por acaso, estava situada na freguesia de Santa Maria, pelo que houve engano no alarme das torres. Mas como a cidade era pequena e o incêndio foi à noite, o engano deve ter sido corrigido rapidamente. Os bombeiros voluntários compareceram depressa, com 16 homens dos 22 disponíveis, e levaram duas bombas e o carro de escadas. Foi um incêndio pouco importante materialmente. Segundo o registo oficial, ardeu “uma porção de palha apenas”, mas foi um incêndio muito significativo para o corpo activo. O primeiro patrão, José Manuel Correia, foi quem dirigiu o ataque ao sinistro. Passado cerca de um mês, no dia quatro de Fevereiro, novo incêndio, desta vez ao meio-dia, na Rua Direita de Tróino, no número 146, no primeiro andar. Já compareceram 18 dos 24 bombeiros existentes no corpo activo. Uma criança a brincar com o lume tinha incendiado uns trapos que depois pegaram fogo a uma cama. Este fogo foi o primeiro mencionado na imprensa setubalense, que salientou que “compareceram com uma rapidez admirável os nossos bombeiros voluntários e logo após eles o pessoal da Câmara”. O jornal Gazeta Setubalense elogiou especialmente a actuação do bombeiro número 16, o Agostinho do Carmo. É interessante notar a frase escrita pelo jornal “logo após eles o pessoal da Câmara”. Nascia neste dia a rivalidade, sempre latente, entre as duas corporações de bombeiros na sua porfia em chegar primeiro aos incêndios e que durou dezenas de anos, como iremos ver nos capítulos seguintes. Como era do regulamento da CMS, esta quis atribuir à Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal o prémio da primeira bomba a comparecer no incêndio. A Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal oficiou, um pouco cavalheirescamente, a CMS comunicando que não pretendia receber o prémio, apesar de serem os primeiros a comparecer. A CMS agradeceu o gesto e assim poupou uns milhares de réis... Logo no mês seguinte, no dia seis de Março, foi convocada uma AssembleiaGeral, no Clube Dramático, para aprovar o “Relatório da Direcção e posse aos novos corpos gerentes”. Sabemos que a Assembleia-Geral se realizou, pois Libânio da Silva, no seu artigo, escreveu: “Há depois um relatório de contas impresso, apresentado pela primeira Direcção à Assembleia-Geral de seis de Março de 1884”. 4. A apresentação oficial da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal 8 Uma charanga é um conjunto musical formado por instrumentos de sopro, de metal e por instrumentos de percussão. Também pode ser designada pelo termo fanfarra. Chegou-se assim ao dia nove de Março de 1884, dia em que foi solenemente inaugurada a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, num Domingo, e cujo programa completo pode ser lido no Anexo I. Segundo o jornal Gazeta Setubalense, a sessão solene foi um sucesso. O Salão Nobre da CMS estava “cheio de cavalheiros e damas” e tocaram as bandas filarmónicas da Capricho e da Firmeza. O discurso inaugural foi do Presidente da mesa da Assembleia-Geral, o Dr. Francisco Soveral, médico muito conceituado em Setúbal devido às suas posições públicas de defesa da saúde dos setubalenses e pela sua exigência constante para que a CMS instalasse água canalizada na cidade, que não havia na altura. Foi depois comunicado que a companhia de seguros Fidelidade tinha oferecido a importância de 100$000 réis à associação. Uma excelente contribuição, na época, quando um professor do ensino secundário ganhava 180$000 réis por ano... Falou depois o secretário Júlio Olímpio e, seguidamente, o bombeiro Paulino de Oliveira, um cidadão com dotes literários e que seria mais tarde um grande defensor, e também muito beneficiado, do regime republicano. Depois toda a gente se deslocou à “casa das máquinas”, que era o armazém onde se guardavam as bombas e o respectivo material. Lá foi descerrado um quadro, pintado pelo artista setubalense Francisco Augusto Flamengo, com o emblema da associação. Este quadro talvez seja o que está colocado numa das paredes do museu da associação, logo à entrada. Passou-se aos exercícios práticos de demonstração efectuados num prédio do senhor Novais, no terceiro andar. Este prédio, olhando à importância social da família Novais, devia estar situado na actual Avenida Luísa Todi, mas no lado Norte, pois o lado Sul, na altura, não tinha ainda quaisquer construções. O exercício foi realizado com escadas de ganchos, espias e duas agulhetas ligadas a duas bombas. Havia duas pessoas “aflitas” no terceiro andar que foram salvas graças à “mangueira de salvação”. Muito povo assistiu com entusiasmo. Finalmente, realizou-se à noite um baile no Clube Dramático, com mais de cem senhoras, que contou com partes de poesia, música e récitas. O jornal Gazeta Setubalense terminou o seu artigo afirmando: “Setúbal tem sede de progresso, e é uma cidade apta a receber na sua vida material e moral”. Palavras sempre actuais. Ainda em Março de 1884 temos conhecimento de que os preparativos para formação da fanfarra continuavam, pois foi realizada uma subscrição pública para angariar dinheiro para a compra dos instrumentos. Mas a subscrição não teve rendido o necessário e, como havia a necessidade de angariar mais fundos, além de que, na altura, não existiam os actuais subsídios camarários ou governamentais, a associação teve uma iniciativa pouco habitual. Em Junho de 1884, aproveitando o Verão, assim com o grande fluxo de visitas que a cidade recebia anualmente, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal solicitou à CMS autorização para montar um bazar no campo do Bonfim, com entradas pagas. Foi aprovada pela edilidade. O bazar era formado por objectos oferecidos pelos setubalenses. Depois eram rifados pelos participantes num clima de alegria e com música ambiente tocada ao vivo. No fundo, era um convívio social que também servia de pretexto para as raparigas casadoiras saírem de casa, devidamente acompanhadas, e terem algum convívio, mais ou menos informal, com rapazes da sua idade e com alguma liberdade. Foi organizada uma lista das pessoas que ofereceram os prémios, devidamente encabeçada pelo Henrique Pereira, o que era habitual sempre que havia subscrições para angariação de dinheiro para qualquer causa. Depois, estavam praticamente todas as famílias com algum prestígio na cidade. Com efeito, os nomes Novais, O’Neill, Grill, Groot Pombo, Ahrens, Soveral e até o Visconde de Alcácer do Sal responderam ao apelo. A lista atingiu dezenas de nomes, pelo que se pode afirmar que nenhuma família em Setúbal, com algum prestígio social, mesmo que modesto, se atreveu a ficar de fora das ofertas para o bazar. O prestígio da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal até chegou a Sua Majestade a Rainha, que ofereceu um par de jarras para o bazar. O bazar foi adiado por duas vezes, mas acabou por se realizar em Setembro, a época do auge dos banhos de mar em Setúbal. Não sabemos quanto rendeu, mas sabemos que foi um sucesso do ponto de vista social. Um tal João Silva escreveu um artigo no jornal Gazeta Setubalense onde elogiou o bazar, o serviço e faz uma autêntica declaração de amor a uma senhora, por sinal casada, da qual se enamorou, platonicamente. Essa senhora estava no bazar a atender os clientes. O João Silva escreveu que essa dama era “a rainha do bazar na noite do dia 21 [de Setembro] do corrente. Pelo porte nobre, majestoso... atraindo todos aqueles que desejavam auxiliar a benemérita associação.” Sabemos assim que, por obra da graciosidade da sedução feminina, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal certamente conseguiu angariar o dinheiro para comprar os instrumentos para a sua charanga. Ainda no Verão de 1884, durante a Feira de Santiago, como se escrevia correctamente na época, no dia um de Agosto, no final da tarde, houve fogo numa barraca onde arderam uns panos. Os bombeiros voluntários compareceram e apagaram o fogo. À noite, os bombeiros voluntários, com a farda de gala, promoveram na Feira uma subscrição para reparação dos danos sofridos pela barraca. Este acto não caiu bem na população, pois não concordaram que os bombeiros voluntários andassem a recolher dinheiro para um comerciante forasteiro. Tratou-se, sem dúvida, de um gesto algo ingénuo dos bombeiros que lhes serviu de emenda, pois nunca mais cometeram tal acção. Em Agosto de 1884 reuniu a Assembleia-Geral da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal para organização do bazar e para nomear um seu representante no cortejo cívico das comemorações da revolução de 1820, a realizar em Lisboa no dia 24. A assembleia nomeou o associado Aranha Júnior para a representar. Os estatutos da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal foram enviados para aprovação do Governador Civil de Lisboa, pois na altura ainda não tinha sido criado o Distrito de Setúbal, o que se verificou apenas em 1926. O Governo Civil não aprovou os estatutos e, assim, houve necessidade de se realizar uma nova AssembleiaGeral, marcada para o dia 15 de Setembro, para alterar os Estatutos de acordo com as directivas superiores. Desconhecemos qual o teor das observações do Governo Civil. Entretanto, algum conflito se deve ter dado na associação, pois no espaço de um mês, em finais de Setembro, dois sócios activos, o José Lapido e o Paulino de Oliveira, pediram a demissão e, em meados de Outubro, o vereador Joaquim José Correia também pediu a exoneração do seu lugar. Ao mesmo tempo, o bombeiro José Maria Peres foi suspenso do corpo activo. A charanga foi-se organizando e, no final do ano de 1884, uma comissão foi encarregada de redigir o respectivo Regulamento. Praticamente no fim do ano 1884, no dia 23 de Dezembro, deu-se um incêndio, no início da noite, na casa do Henrique Pereira, que era o Comandante dos bombeiros voluntários. Um sócio dos bombeiros voluntários, o Joaquim Arocha, que trabalhava perto, deu pelo fogo, correu para o local e com um cobertor apagou o fogo, que se tinha dado na chaminé, acidente muito vulgar na época. Logo depois apareceram os bombeiros voluntários e os municipais, mas tudo já estava resolvido. O jornal Gazeta Setubalense muito entusiasticamente escreveu que “Não há incêndio possível. Até teve [o fogo] a astúcia de se introduzir na própria habitação do Comandante dos bombeiros voluntários, mas aí foi logo estrangulado por um sócio contribuinte da associação dos beneméritos.” Este artigo mostra bem o entusiasmo que havia na cidade com a criação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Em 1885 realizaram-se eleições, no dia 19 de Março, assim como foi aprovado o Relatório das contas referentes ao ano anterior. Com esta Assembleia-Geral verificou-se o que depois passou a ser habitual na Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal: as assembleias realizarem-se quase sempre em segunda convocatória. Na altura, era necessário marcar nova Assembleia-Geral, para uma semana depois, pois não se usava o processo actual de se mencionar logo a segunda convocatória no mesmo dia da primeira e passado meia hora. Estas eleições reconduziram o Dr. Francisco Soveral como Presidente da mesa da Assembleia-Geral e elegeram o sócio Venâncio Torres para Presidente da Direcção. Curiosamente, este senhor era o agente em Setúbal da Companhia de Seguros Bonança. Mas nem todos os sócios eleitos para os cargos tomaram posse dos lugares e, assim, houve necessidade de se realizar nova Assembleia-Geral, no dia 10 de Maio, para a eleição dos cargos ainda não ocupados. No Verão de 1885 deu-se o primeiro incêndio com certas proporções, numa fábrica de conservas de peixe, indústria ainda nos seus inícios. A fábrica Fragoso e Sá, a funcionar num barracão situado na praia do Caboz, perto do actual edifício da Lota, começou a arder perto das 22h00 do dia três de Julho e com tal violência que “ardeu tudo e depressa”. O problema, na época, era falta de água, pois, como não havia água canalizada, as bombas tinham que ser alimentadas à mão, o que não permitia grandes caudais para as mangueiras. A empresa atingida pelo sinistro agradeceu publicamente os socorros que recebeu, “de entre os quais tanto se distinguiram os beneméritos bombeiros voluntários.” 5. Inaugura-se o Clube da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal No mês de Agosto, no dia 15, um Sábado, foi inaugurado o Clube da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Tudo indica que era o antigo Clube Dramático, na Rua das Amoreiras, que agora passava a estar exclusivamente destinado aos sócios dos bombeiros voluntários. A inauguração foi com uma soirée familiar. Estes clubes, na época, eram fundamentais para permitir a distracção das famílias da pequena e média burguesias. Além disso, as raparigas casadoiras tinham uma vida muito fechada em casa e a soirée familiar, assim como a ida à missa, era das poucas ocasiões em que podiam ser vista pelos rapazes da sua idade e assim conseguirem, talvez, construir mais tarde um razoável casamento, o objecto final de vida de qualquer moça da época. Estas soirées familiares, além do inevitável baile, acompanhado por músicos ao vivo, continha as chamadas contradanças, danças com vários pares sincronizados, momento de recitação de poesia, monólogos teatrais, música de câmara e canções acompanhadas ao piano. Além disso, havia os intervalos onde se serviam doces e bebidas. No final do mês de Setembro, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal apresentou, em Assembleia-Geral, as suas contas do ano de 1884 aos sócios. As receitas totais foram de 1.340$318 réis e as despesas atingiram 1.164$398 réis. O saldo positivo foi, assim, de 175$920 réis. O ordenado anual, na época, de um professor do ensino secundário. A receita ainda deu para a compra de uma nova bomba, por 326$000 réis, considerada “muito moderna.” Na Assembleia-Geral foi votado um voto de agradecimento ao vereador Joaquim José Correia pelos auxílios prestados à associação. No ano seguinte, em Abril de 1886, deu-se um incêndio numa barraca situada na Praia do Seixal, actual doca dos Pescadores, que ardeu completamente, apesar de o fogo se ter declarado às 11h00. A actuação dos bombeiros municipais foi desastrosa devido à falta de Comando, o que fez a imprensa da época, o jornal Gazeta Setubalense, afirmar “o deplorável estado em que se encontra o pessoal e o material que o município sustenta”. Depois, acrescenta o jornal que faltam “perícia, disciplina e há ausência completa de táctica e estratégia nesse corpo sem cabeça”. Um dos problemas era que todos os que se consideravam chefes mandavam e o resultado era “um indivíduo arvorado em chefe, [que] grita, braceja e ameaça aqueles que não passam de simples recrutas, sendo mais um elemento de desordem para o incêndio que lavra.” O jornal pedia depois reformas ao respectivo vereador. Mais tarde, em 14 de Setembro, houve um incêndio na antiga fábrica de conservas do José Neto, na Ladeira de São Sebastião, às 22h00, e quando o pessoal dos bombeiros municipais chegou já o fogo estava extinto. O jornal perguntava um pouco cinicamente: “Quem é o inspector de incêndios a quem a Câmara dá 80$000 réis anuais?” Este problema, a falta de unidade de Comando, foi constante até às reformas dos bombeiros municipais nos anos trinta. Nos finais de Dezembro, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal apresentou as suas contas de 1885. Foi um ano mais pobre que o anterior, pois as receitas foram apenas 451$120 réis e as despesas atingiram 288$930 réis. O saldo foi, assim, 162$190 réis. Um saldo semelhante ao do ano anterior. Naquele ano atenderam a quatro incêndios e, em três deles, foram os primeiros a chegar aos sinistros. Nessa altura, o jornal Gazeta Setubalense referiu a falta de água na cidade. A CMS apenas tinha quatro pipas de água funcionar e cada uma delas levava entre dez a quinze minutos a encher... Solicitavam depois que a CMS comprasse depósitos de 1500 litros, em lugar das pipas, pois estas apenas levavam quinhentos litros cada uma. Bastavam quatro carros com depósitos de 1500 litros, puxados por mulas, para abastecer a cidade em caso de incêndio. De notar que Setúbal ainda não tinha água canalizada na altura. Mas as prioridades da CMS, na época, eram outras. O debate sobre falta de água estava aberto, até porque, recentemente, a CMS tinha aberto o concurso para fornecimento de água canalizada à cidade, ao qual concorreram 16 empresas. O médico Dr. José Rocha até sugeriu que a CMS ligasse o poço da abegoaria, situado onde hoje está o quartel de GNR, por uma canalização até ao Largo das Almas, actual Praça dos Combatentes, para um chafariz a instalar no local. Depois, ao longo da Rua da Conceição, actual Avenida Cinco de Outubro, seriam instaladas várias bocas-de-incêndio. A ideia era boa, mas impraticável na altura. O poço certamente não teria caudal suficiente para abastecer tão grande extensão. 6. A criação da charanga Logo no início de 1887, no dia um de Janeiro, foi inaugurada a charanga 9 da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Com uma sessão solene no Clube e, à noite, a inevitável soirée literária. A sessão solene, com a sala cheia, foi às 13h00, pois, na época, o almoço era normalmente às 11h00. Foi tocado o Hino da Associação, escrito pelo músico militar António Camacho Júnior (na Figura 2 podemos apreciar a primeira página da partitura para piano) e discursou-se, tendo falado um tal senhor Machado, que era o segundo Comandante da Real Associação dos Bombeiros Voluntários da Ajuda, à qual também pertencia o instrutor, o Artur Mena. 9 A charanga, designada nos documentos normalmente por banda, chegou a ter livro de registos dos ensaios, no período de 1899 a 1903. Ensaiava normalmente de cinco em cinco dias e tinha um número variável de músicos entre vinte e trinta membros Figura 2 - Partitura do hino da associação Foi depois tocado o passo doble Avante e todos se deslocaram para a estação do material. Tocou-se mais uma vez alguma música e todos se encaminharam para o edifício da CMS para apresentação de cumprimentos às autoridades concelhias. À noite, a charanga percorreu a cidade e realizou-se depois mais uma soirée, muito concorrida. Os aniversários da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal foram, durante muitos anos, comemorados no mês de Março, quando a associação foi apresentada oficialmente à cidade. Só a partir dos anos trinta do século XX, após o 50.º aniversário, apareceu uma Direcção com coragem, e saber para comemorar os aniversários no mês de Outubro. Foi assim que, em Março de 1887, foi assinalado o terceiro aniversário da associação. No dia nove houve exercícios na Praça do Bocage, dirigidos pelo segundo Comandante José Manuel Correia, com acompanhamento da charanga dirigida por Joaquim José Santana, conhecido músico e compositor setubalense. À noite houve baile no Clube, mas, naquele dia, “com luz de gás, pálida.” O gás tinha, com frequência, flutuações no fornecimento e este problema deu origem a constantes conflitos entre a companhia produtora e a CMS. Claro, quem deve ter apreciado com prazer a falta de luz devem ter sido os inúmeros pares casadoiros que voltearam toda a noite no salão... Estiveram presentes cerca de cinquenta senhoras e, pela meia-noite, foi servido um chá com doces. Este ambiente de festa, encanto e selectividade caracterizou os anos iniciais da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. No dia 18 de Abril houve temporal no mar e naufragou uma canoa a cinco léguas da Costa da Galé. Dos 13 pescadores, morreram oito e apenas cinco se salvaram. O desastre causou grande abalo na sociedade setubalense e a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal realizou uma soirée de beneficência para ajudar as viúvas dos pescadores falecidos. Para isso, organizou, no seu Clube, uma noite muito recheada de variedades, que incluíram a charanga, recitação de poesia, teatro, música de violino, violoncelo e piano, além de um quarteto de cordas. Até números de ilusionismo foram executados na soirée. Foi um verdadeiro êxito, como se pode calcular, pois, além do programa anunciado, também compareceu o actor Taborda10, que interpretou o seu conhecido monólogo Tio Mateus. Não sabemos o valor da importância angariada em favor das vítimas do temporal. No ano seguinte, em Abril de 1888, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal novamente se empenhou noutra causa de beneficência. Desta vez foi o incêndio do Teatro Baquet11, no Porto. Realizou-se o que se chamava, na época, um bando precatório, um grupo, normalmente acompanhado com músicos e bandeiras, que percorria a zona urbana solicitando ajuda monetária para uma causa pública, acção que, neste caso, rendeu a quantia de 175$000 réis, que foi enviada ao Governo Civil do Porto. Ainda em dez de Abril foi convocada uma Assembleia-Geral para aprovação das contas de 1887, assim como eleger os corpos gerentes. Mas esta assembleia parece que estava embruxada, pois a convocatória repetiu-se para o dia 19, depois para o dia dois de Maio e passou novamente para oito de Maio, data em que finalmente se realizou. Não sabemos mais pormenores desta Assembleia-Geral. 7. A família Real apadrinha a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal Em Setembro, o Príncipe D. Carlos e a Princesa D. Amélia vieram a Setúbal no seu barco, o iate a vapor Amélia, e passearam-se pela cidade, indo até Palmela. D. Carlos depois foi caçar para a Tróia e, à noite, foi organizada uma serenata a SS. AA no rio Sado. Estas serenatas eram realizadas com vários barcos, iluminados com balões a velas, onde se tocava música ao vivo. Numa altura em que não havia poluição luminosa nem sonora na cidade, deviam ser um espectáculo deslumbrante, numa noite de Verão, estas manifestações artísticas, hoje infelizmente impossíveis de se recriarem, como na altura. Já iremos ver mais tarde quais as consequências destas vistas a Setúbal da família real para com a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Em Março de 1889 12 comemorou-se o quinto aniversário as Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Como era habitual, houve um exercício na Praça do Bocage, mas, desta vez, realizou-se à noite e iluminado com luz Drummond 13. O efeito do exercício deve ter sido extraordinário para a época. O jornalista do jornal Gazeta Setubalense escreveu: “Julgávamos estar assistindo à representação da lanterna mágica.”14 O exercício constou de um incêndio no terceiro andar e correu muito bem. Seguiu-se o baile no salão do Clube, com a presença do corpo activo nos seus uniformes de gala de cor amarela, Clube que tinha o palco adornado com vários utensílios dos bombeiros. No baile estiveram umas 150 pessoas e houve uma contradança com 10 O actor Taborda, de seu nome Francisco Alves Taborda, nasceu em Abrantes, em 1824, e morreu em Lisboa em 1909. Dotado de grande riqueza fisionómica, ficou célebre pelas suas interpretações de personagens muito características. 11 O teatro Baquet estava edificado na baixa do Porto. No dia 20 de Março de 1888, durante uma representação, deu-se um incêndio nos bastidores. O público, em pânico, precipitou-se para uma única saída, o que originou que muitos espectadores fossem pisados e depois morressem carbonizados. Calculase que morreram mais de 100 espectadores. 12 Em 1889 foi organizada uma empresa privada setubalense para a construção da praça de touros de Setúbal, que acabou por receber nome de D. Carlos, na altura príncipe e mais tarde rei de Portugal, que foi inaugurada no dia 15 de Setembro de 1889. Passados anos, a mesma empresa aventurou-se a construir, na actual Avenida Luísa Todi, o teatro D. Amélia no exacto local onde hoje está construído o Fórum Luísa Todi. 13 A luz Drummond era uma lanterna com uma chama de gás, mistura de oxigénio e hidrogénio, que incidia sobre um cilindro de cal e que fornecia uma luz muito branca. Tinha ainda uma lente que reforçava o feixe de luz. Era utilizada na época nos teatros como projector para realçar os actores. 14 A lanterna mágica era a designação, na época, do moderno projector de diapositivos. quarenta pares. No palco, a charanga tocou alguns números com iluminação à veneziana15. O jornal terminou o artigo com a frase “Que muitos anos conte mais.” Frase profética, como sabemos. Existe uma fotografia (ver Figura 3) de um exercício prático realizado nesta altura num prédio da cidade. Na fotografia distingue-se o carro das escadas, uma escada italiana, as duas bombas e uma manga de salvação. Figura 3 - Exercício em 1890 Em 1890, o então já Rei D. Carlos ficou “cativado por Setúbal”. Como o seu pai, o Rei D. Luís, tinha morrido em Cascais e D. Carlos evitava frequentar o local, começou a passar o Verão em Setúbal. A Rainha D. Amélia ficava na fortaleza do Outão enquanto o Rei caçava na herdade da Tróia ou passeava no seu yatch16 e pescava. No dia 18 de Agosto de 1890, a família real veio a Setúbal no seu barco, que ficou ancorado na baía do Sado. À noite tocou a banda do quartel do RC 1, houve fogo de artifício e barcos iluminados com balões à veneziana. O rei aceitou a presidência honorária da Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, cuja Direcção foi a bordo agradecer tal deferência. A partir desse dia, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal passou a ser designada como a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Foram então impressos cartões de identificação para os bombeiros voluntários da corporação, já com a nova designação. Na Figura 4 temos um exemplar, em branco, de um desses cartões, já dos inícios do século XX, que miraculosamente ficou nos arquivos da associação. Repare-se que o titular é tratado por Ex.mº Sr. e não pelo nome e 15 A iluminação à veneziana consistia em balões redondos, de papel frisado de cores variadas, com uma vela no seu interior. Na época, sem energia eléctrica, era muito usada nos arraiais populares. 16 O navio era a vapor, com duas chaminés, e tinhas acomodações para a família real e a sua criadagem. número, como aconteceu posteriormente. Também não havia burocracia: bastava a assinatura do titular e do Comandante da corporação. Mais tarde, tudo se complicou, como veremos no capítulo V. Figura 4 - Cartão de identificação dos inícios do século XX Nos finais desse ano, 1890, no dia nove de Novembro, realizou-se na Praça de Touros D. Carlos, em Setúbal, um espectáculo de ginástica, seguido da apresentação de dois touros lidados por amadores e pelo cavaleiro setubalense Mendonça. O lucro deste espectáculo reverteu a favor da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Sabemos que foi um bom espectáculo, com bons touros e com a correspondente actuação dos amadores, que até efectuaram pegas. Abrilhantaram o espectáculo a banda do RC 1 e a charanga da associação. Logo no início de 1891 houve dois incêndios na mesma semana. Mais uma vez, o socorro do serviço municipal falhou e a imprensa, pela voz do jornal Gazeta Setubalense, voltou ao assunto em termos muito críticos, afirmando que as bombas não funcionavam bem e que em ambos os incêndios “houve bastantes tolices.” Terminava o artigo por referir: “O que nos vale é a existência do corpo dos bombeiros voluntários.” Talvez fosse por este facto que a CMS não aperfeiçoava os seus serviços de incêndios. Os bombeiros voluntários iam dando conta do recado e assim se poupava o orçamento camarário. Nesse mesmo ano, no dia quatro de Outubro, a família real veio de veraneio para Setúbal. Vieram de barco, como era habitual, e chegaram ao princípio da tarde à cidade. A Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, como seu corpo activo e a charanga, estiveram presentes na recepção. Ainda em Outubro, desta vez o jornal O Distrito, falou nas eleições para a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal e escreveu uma frase algo enigmática: “Consta que já houve agente eleitoral que foi introduzir política oficial nas eleições dos corpos gerentes da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Que tristeza!” Na altura, o Partido Republicano estava a dar os primeiros passos em Setúbal. Possivelmente estaria interessado em ter algum seu militante na Direcção. O Henrique Pereira, fundador da associação e Comandante do corpo activo, era um monárquico acérrimo e não estaria disposto a compartilhar o poder com os republicanos. Daí, talvez, a origem desta estranha notícia. O futuro iria esclarecer esta questão. No início de 1892, Setúbal atravessou um período de fome. Houve pouca pesca e assim a classe dos pescadores e do pessoal das fábricas de conservas de peixe atravessou uma época difícil. Várias iniciativas foram tomadas e uma delas foi organizada pela Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal quando, em 20 de Março, um Domingo, realizou um bando precatório pela cidade a favor “dos pobres de Setúbal”. Tomaram parte a charanga, o corpo activo e a filarmónica da Capricho, além da filarmónica Sol e Dó. Num único dia conseguiram angariar 244$000 réis 17, importância razoável para a época. O problema dos pobres devia ser tão grave que os fabricantes de conservas também fizeram uma colecta entre eles para ajudá-los. Os 16 fabricantes que contribuíram apenas conseguiram angariar 181$000 réis. Quem deu uma boa contribuição foi o futuro político local, o António José Baptista, o maior fornecedor nacional de chulipas18, que, pela Páscoa, deu quinhentas esmolas de quinhentos réis cada aos pobres da cidade. Depois, deslocou-se à cadeia da cidade e entregou mais 20$000 réis para os presos. Além de benemérito, o António José Baptista estava a preparar a sua campanha eleitoral para mais tarde concorrer à presidência da CMS. Efectivamente, as esmolas deram resultado, pois, nas eleições efectuadas no final do ano, deram a vitória à sua lista e assim o António José Baptista foi eleito Presidente da CMS. 8. Crise na Direcção da associação Em 1893, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal convocou uma Assembleia-Geral para o dia 27 de Março para prestação das contas de 1892. Novamente convocada para o dia 4 de Abril, lá se realizou. Nessa reunião foram prestadas as contas e foi dada posse aos novos corpos gerentes. Também se deliberou que a associação devia “dedicar-se unicamente ao seu fim especial que é o dos socorros contra incêndios, acabando com a charanga, com a sala de baile e o jogo de bilhar.” Mais, foi deliberado vender os utensílios desnecessários e com o dinheiro comprar material para a actividade principal. Mas algo não corria bem na associação. Um grupo de sócios contestou, oficialmente, a Assembleia-Geral junto da autoridade administrativa, uma vez que tinham sido tomadas deliberações que não constavam na Ordem de Trabalhos. Estes sócios deviam ter razão, pois mais tarde o administrador do concelho19 anulou essa Assembleia-Geral e convocou nova Assembleia-Geral para o dia 15 de Junho, com uma nova ordem de trabalhos para apreciação de vários assuntos e “a demissão do Comandante e do Presidente da Direcção.” Mas novamente houve necessidade de se efectuar uma segunda convocatória e, no dia 23 de Junho, lá se 17 Na mesma altura uma casa com sete salas e quintal, no centro da cidade, era arrendada por 60$000 reis anuais. 18 Chulipas são as travessas, de madeira de pinho, sobre as quais se montam as linhas de caminho de ferro. 19 O cargo de administrador do concelho foi criado pelo Código Administrativo de 1836 e foi extinto em 1936. Era o representante do Governo nos concelhos tal como ainda hoje o Governador Civil representa o Governo nos distritos. conseguiu reunir a Assembleia-Geral, que deliberou continuar com todas as actividades existentes e formou uma comissão para pedir ao Comandante, o Henrique Pereira, para retirar o seu pedido de demissão. Mas esta comissão não atingiu o seu objectivo, pois uma nova Assembleia-Geral foi realizada no dia 21 de Julho e aí foi conhecida a demissão do Henrique Pereira e nomeado novo Comandante, o sócio activo Luís José da Silva Loureiro. O novo Presidente da Direcção passou a ser Eduardo Rosa. Tudo indica que estava instalada uma crise na Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. O grupo fundador, com o Henrique Pereira a encabeçar, pretendia que a associação apenas tivesse actividades ligadas à prestação do socorro aos incêndios. Os novos sócios pretendiam uma associação mais abrangente, com intensa actividade social, e, mais tarde ou mais cedo, a ruptura tinha que acontecer. Também é bem possível que houvesse influência do Partido Republicano ou dos simpatizantes monárquicos na agitação que lavrava, pois ambas a partes pretendiam a hegemonia numa associação tão dinâmica e influente como era a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. O Partido Republicano vinha ganhando força em Setúbal e, em Fevereiro de 1894, realizou no Teatro Bocage20 o seu primeiro comício, no qual foram oradores Magalhães Lima, Alves Correia e Martins de Carvalho. Mas, do ponto de vista eleitoral, os republicanos ainda tinham pouca influência. Em Abril houve eleições para o Parlamento e, enquanto os dois candidatos dos partidos monárquicos tiveram 2428 e 1885 votos, o candidato republicano com maior votação no concelho, Teófilo de Braga, teve apenas 84 votos. Nesse ano, Setúbal atravessou uma grande crise económica. Havia pouco peixe e as cerca de vinte fábricas de conservas de peixe não trabalhavam e algumas até encerraram, como a Cunha e Cª e a Fragoso, Fortes e Cª. O desemprego era elevado e logo a miséria começou a manifestar-se em centenas de casas. No entanto, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal parecia imune à crise, pois, em Junho de 1894, comprou uma escada da conceituada casa alemã Magirus 21, que tinha um desenvolvimento de 17 metros. A escada ainda hoje existe e em bom estado de conservação e deve ser das mais antigas existentes no mundo. A Figura 5 mostra essa escada Magirus na sua localização actual. Figura 5 - Escada Magirus do século XIX 20 O teatro Bocage era um pequeno teatro, com poucas condições, instalado na actual Avenida Cinco de Outubro, um pouco antes da actual estação de serviço da BP. O edifício ainda hoje existe, mas é um estabelecimento comercial. 21 As escadas Magirus devem o seu nome ao alemão Conrad Magirus, que foi Comandante dos bombeiros de Ulm a partir de 1848. Em 1864 fundou uma empresa de material de combate a incêndio e foi o inventor da escada rotativa Magirus. Mais tarde, a empresa Magirus começou a construir camiões, mas, em 1938, foi adquirida pela Deutz, passando, em 1975, a integrar o grupo IVECO, que deu continuidade à marca. Não sabemos pormenores sobre o modo como foi financiada 22, mas, além dos habituais bandos precatórios e uma ou outra tourada, certamente houve uma boa contribuição do Rei D. Carlos, uma vez que era o Presidente honorário da associação. O que é certo é que, em Dezembro de 1895, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal ainda organizava quermesses com rifas para angariar fundos. Nessa quermesse foram rifados objectos valiosos, como quadros de conceituados pintores setubalenses como João Vaz e Augusto Flamengo, assim como um “relógio de frente de metal.” A escada chegou a Setúbal no dia 24 de Junho. Prestou excelentes serviços durante dezenas de anos e hoje está instalada, em muito bom estado de conservação, no átrio da sede da associação. A crise em Setúbal durava há um ano, arrastou-se quase durante dois anos, mas uma das maiores preocupações da edilidade da altura era arranjar um bom nome para a Rua da Praia, que entretanto estava em obras. Os nomes alvitrados foram Avenida Marginal, Avenida D. João II, Avenida Todi ou Avenida Rainha D. Amélia. A CMS acabou por adiar o assunto, uma vez que o seu Presidente, o inefável António José Baptista, afirmou que “A avenida devia ter um nome mais célebre que o de uma cantora de palco.” Em fins de Agosto voltou a CMS a debruçar-se sobre o nome da futura avenida. O diálogo que se estabeleceu na sessão da CMS foi eloquente. O vereador Francisco Lino propôs o nome de Avenida Todi. O Presidente, rico mas boçal, disse que “Talvez a Todi fosse uma camareira 23” e logo o vereador Assis respondeu que, “na classe das cantoras havia mulheres honestas”. Felizmente, apesar do nível da discussão, lá foi adiada mais uma vez a deliberação. Na última sessão de Agosto o vereador Assis voltou ao assunto e propôs novamente o nome de Avenida Todi24 para a Rua da Praia. Argumentou que Luísa Todi foi uma “notabilíssima cantora, nossa conterrânea e uma das glórias do palco lírico.” A CMS lá aceitou a proposta, que acabou por ser aprovada. Os conflitos na real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal ainda não estavam resolvidos, pois, em Outubro de 1895, surge uma notícia algo enigmática na imprensa, na qual se referia que “têm entrado voluntários para o corpo activo, que 22 O preço da escada é desconhecido. Mas, em 1888, a Associação dos Bombeiros Voluntários de Guimarães pagou por uma escada Magirus, semelhante à de Setúbal, 462$300 réis. Quase na mesma altura, a actual Casa Bocage, em Setúbal, foi comprada por 600$000 réis. 23 Uma camareira na época era o equivalente a uma alternadeira actualmente. 24 Só nos anos trinta do século XX é que a avenida passou a chamar-se Avenida Luísa Todi. estavam na disponibilidade, em substituição dos que se demitiram em forma de grevistas.” Isto significa que houve sócios activos que devem ter seguido o exemplo do antigo Comandante, o Henrique Pereira, pedindo a demissão de forma mais ou menos intempestiva, daí a designação “em forma de grevistas”. 9. O primeiro automóvel em Setúbal e a primeira vítima num incêndio Em Outubro de 1895 deu-se em Setúbal um acontecimento histórico. O primeiro automóvel25 a circular em Portugal veio de Coina para Santiago de Cacém, com passagem por Setúbal. Ao descer a estrada do castelo de Palmela atropelou um burro, que sofreu ligeiros ferimentos. Assim Setúbal teve a honra de ser o primeiro concelho em Portugal onde se deu um acidente rodoviário. E logo com um burro... Nos finais de 1895, no dia 18 de Dezembro, declarou-se um incêndio numa loja de papelaria e tabacos situada na Praça do Bocage, O bombeiros voluntários conseguiram dominar o incêndio, mas um hóspede de um hotel situado nas traseiras da loja morreu asfixiado pelos gases, uma vez que se recusou a abandonar o seu quarto. Soube-se depois que estava embriagado. Também morreu no incêndio um gato, com a vetusta idade de 14 anos, residente na loja. O jornal O Distrito comentou que as pipas das CMS “só compareceram por causa do prémio. Depois nada fizeram.” A morte do hóspede do hotel foi um acontecimento inédito em Setúbal, pois nunca se tinha registado uma morte num incêndio. Ainda no final deste ano, nova alteração no Comando da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. O Comandante Luís Loureiro pediu a demissão do lugar, apesar de ser considerado “muito entendido no assunto”, e foi substituído pelo bombeiro José Manuel Correia, antigo sub-Comandante. Logo no início do ano de 1896 o novo Comandante não quis fazer classificação do pessoal, como era habitual, e fez uma eleição entre o corpo activo, o que era inédito. Após a votação foram promovidos sete bombeiros para o lugar de primeiro patrão e cinco para segundo patrão. Além destes, foram eleitos o primeiro patrão ajudante, o primeiro patrão chefe de material e o primeiro patrão chefe do carro das ferramentas. Na altura, cada bomba, designada como máquina, tinha uma guarnição formada por um primeiro patrão, um segundo patrão e um aspirante. A guarnição da escada Magirus era composta por um primeiro patrão e três aspirantes. Nos finais de 1895 deram-se, em Moçambique, vários confrontos entre as tropas portuguesas e as tropas de régulos locais que acabaram com a prisão do régulo Gungunhana, o rei de Gaza, nos últimos dias do ano, pelas tropas portuguesas. Nessa guerra participaram militares do RC 1 de Setúbal, que regressaram nos inícios de Fevereiro de 1896. Setúbal preparou uma enorme recepção aos seus soldados e num desfile participou um carro da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, ornamentado com vários instrumentos de combate aos incêndios. Existe uma fotografia (Figura 6) deste carro, do fotógrafo Kuchemberg Figueiredo26, nos arquivos da associação. Figura 6 - Carro de escadas ornamentado em 1896 25 Era um carro de marca francesa Panhard – Levassor, importado pelo Conde de Avilez, residente em Santiago do Cacém. Esse carro ainda hoje existe, em bom estado, na sede do ACP no Porto. 26 O fotógrafo Kuchemberg de Figueiredo tinha o seu atelier na Rua de S. António, 28. Parte do seu espólio foi recuperado, anos depois, pelo fotógrafo setubalense Américo Ribeiro. Nas comemorações do 12.º aniversário da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, em nove de Março de 1896, o programa foi diferente do habitual. De manhã efectuou-se a revista ao corpo activo. Depois, na estação das máquinas, foi oferecido um bodo a duzentos pobres da cidade, constituído por pão, carne de vaca, toucinho, arroz, chouriço e uma importância em dinheiro. À noite realizou-se o habitual baile, mas desta vez no rés-do-chão do edifício do antigo convento da Boa Hora, ao lado da actual igreja da Boa Hora. No dia seguinte, realizouse então um exercício na Avenida Todi. Esta oferta do bodo aos pobres significava que a crise da falta de peixe em Setúbal ainda não tinha acabado. Nestas comemorações, o corpo activo fotografou-se. A Figura 7, apesar do seu mau estado, permite-nos, ainda hoje, ver como eram os bombeiros voluntários nos primeirso anos da corporação. Figura 7 - Corpo activo nos finais do século XIX O exercício comemorativo dos 12 anos, segundo a imprensa, “ultrapassou os limites do que se esperava”, isto “porque é impossível exigir mais perícia e destreza a bombeiros cuja aprendizagem da mor parte não passa além de seis meses.” O corpo activo desconhecia o exercício e actuou por apitos dados pelo Comando. Foi usada a nova escada Magirus, assim com a manga de salvados. Depois, houve subidas e descidas a pulso por cabos e por croques. Também houve uma descida pelas costas da escada Magirus. Após o exercício o pessoal ofereceu uma taça de champagne ao Comandante, tendo, seguidamente o corpo activo ido a casa do Comandante “para fazer uma saúde”. À noite, houve um baile muito concorrido. Lendo estes comportamentos sentimos como, há cem anos, a sociedade, pelo menos em Setúbal, era tão diferente em relação aos tempos presentes. Era relativamente rara a presença da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal em cerimónias religiosas, mas sabemos que, na Semana Santa de 1896, os bombeiros voluntários colaboraram, a pedido da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, com o corpo activo e a fanfarra para prestarem guarda de honra numa procissão nocturna. Na mesma altura, em Abril de 1896, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal recebeu a triste notícia de que um dos fundadores e instrutores da associação, o Comandante Artur Mena, tinha falecido. A associação mandou rezar uma missa no 30.º dia da sua morte como homenagem póstuma. 10. A associação constrói um esqueleto A associação sentia a falta de uma estrutura para efectuar os seus treinos e exercícios periódicos, aquilo a que hoje se chama casa escola. Na altura, era uma estrutura feita de barrotes de madeira e, devido ao seu aspecto tosco, chamavam-lhe o esqueleto. Em Junho de 1896 a associação solicitou à CMS um subsídio para construir um esqueleto. A CMS concedeu 50$000 réis27, retirados da verba da rubrica Incêndios. No dia 14 de Julho houve um incêndio na Rua da Cruz, numa mercearia, pelas onze horas da noite. Os bombeiros voluntários apagaram o fogo e os bombeiros municipais fizeram o rescaldo, como era habitual, demorando nesta actividade cerca de duas horas. O jornal O Distrito lamentou que aquele pessoal, o municipal, tenha ganho 600 réis cada um para um trabalho sem qualquer risco. Mais uma vez o jornal escrevia que faltava “superintendência de incêndio que exerça toda a autoridade de mandar.” Além disso, nos sinistros toda a gente quer ajudar, mas só “complicam a vida aos bombeiros e chegam a ofendê-los.” O jornal acrescentou depois um pormenor, de ordem técnica, pois, contra a vontade do Comandante dos bombeiros voluntários, alguém, cujo nome não é mencionado, mandou abrir uma porta da mercearia, o que fez com que o incêndio se atiçasse ainda mais. O Rei D. Carlos continuava a adorar vir a Setúbal e, mais uma vez, em Outubro, veio de barco pescar no Portinho. A seguir veio à cidade, onde houve uma recepção na qual participou o corpo activo da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, que fez a guarda de honra com a respectiva fanfarra na estação dos caminhosde-ferro, pois D. Carlos seguiu para Lisboa de comboio. Compare-se o processo de deslocação do Rei D. Carlos na época, demorado e complicado, próprio de um tempo em que não havia pressas, sem o sistema actual de automóveis rápidos e com batedores. A construção do esqueleto continuava, mas o subsídio da CMS não era suficiente. Então, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, em Outubro de 1896, utilizou o velho, mas eficiente, processo do peditório público para angariação fundos. O apelo foi respondido pela população, pois em meados de Novembro foi publicada a lista dos contribuintes, nos jornais da cidade, formada por dezenas de nomes. Mas a Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal também tinha actividades culturais, pois na sede tinha um gabinete de leitura para o serviço dos seus associados, para onde a imprensa da cidade na época enviava os jornais. Um dos problemas da sociedade naquele tempo era a ocupação dos tempos livres dos homens. As casas de habitação, em geral, eram pequenas e tinham pouco conforto. Nas casas havia sempre muitas crianças e mulheres e a presença dos homens apenas servia para atrapalhar a lida caseira. Daí os homens saírem das casas e irem para actividades exteriores que, conforme a sua classe social, seria a taberna, uma associação de cultura e recreio ou um clube. A Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal funcionava também com essa função, daí a existência do gabinete de leitura. No dia 17 de Fevereiro de 1897 deu-se um incêndio ao princípio da tarde. O Comandante dos bombeiros voluntários, o José Correia, era vereador da CMS e estava em plena sessão camarária. Pois não se atrapalhou e colocou o dever de bombeiro 28 acima de tudo. Abandonou a sessão e foi dar assistência ao sinistro, que era no telhado da igreja do Carmo. Os bombeiros voluntários foram os primeiros a chegar e, rapidamente, apagaram o incêndio. O Comandante voltou para sessão da CMS e assumiu novamente o lugar de vereador. No mês de Março de 1897 foi comemorado o 13.º aniversário da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. Sabemos que, na altura, a associação tinha um médico, o Dr. Loforte, ao seu serviço, assim como um farmacêutico, o senhor 27 Na altura esta importância permitia comprar cinquenta quilos de manteiga de boa qualidade. Episódio semelhante sucedeu mais tarde, nos anos 30, com o actor de teatro António Silva, que era Comandante dos Bombeiros Voluntários da Ajuda, em Lisboa. Um dia abandonou o palco de um teatro do Parque Mayer para assistir a um incêndio ali perto e depois regressou novamente ao teatro e continuou a representar. 28 Marques29. Foi realizado o habitual exercício, desta vez num prédio na Praça do Bocage. No exercício foi usada a escada Magirus, uma manga de salvação e, pela primeira vez, a salvação com nó de cadeira. O ataque ao incêndio foi com escadas parisienses, por onde subiram os bombeiros com as agulhetas. Seguiram-se os exercícios de perícia, efectuados ao som da fanfarra, no qual se fizeram subidas com escadas com ganchos e descidas a pulso do topo da escada Magirus. Muita assistência assistiu aos exercícios. Depois, todo o corpo activo deslocou-se para a estação das máquinas, onde houve um beberete. O baile foi muito concorrido e a sala estava engalanada com canários em gaiolas “que pendiam do tecto entre verduras e que cantavam maviosamente.” Efectivamente, deve ter sido um espectáculo extraordinário assistir a um baile com música instrumental ao vivo e, ao mesmo tempo, ouvir os canários a cantarem ao desafio com a música. Actualmente, com os modernos sistemas de amplificação de som, seria impossível os pobres dos canários competirem com a aparelhagem de um conjunto musical... Ainda em 1897, em princípios de Maio, o Comandante da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, que era também vereador da CMS, apresentou uma proposta, numa reunião camarária, que pretendia dispensar o inspector de incêndios porque ele, vereador, e os bombeiros voluntários assumiam a responsabilidade do combate aos incêndios. Foi aprovada a proposta. No entanto, o jornal O Distrito considerou que era um abuso tal deliberação. Efectivamente, o inspector reclamou da aprovação para o Ministro do Reino 30 e, em finais do mês, a decisão foi revogada, pois o ministro deu razão ao inspector. Tratou-se de uma medida discricionária do vereador, assim como da CMS, manifestamente ilegal e pouco abonatória do carácter do então Comandante da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. O sistema de alarme do fogo era simples, mas prestava-se a abusos. No dia 8 de Junho houve um incêndio, pelas 04h30 da madrugada, em S. Julião. O sino tocou trinta badaladas, depois tocou cinco e depois tocou vinte, o que originou confusões. Afinal, nada de especial se tinha passado, pois era um simples trapo a arder. Estes falsos alarmes assustavam a população e saíam caro à CMS, pois cada saída para um incêndio custava o dinheiro a pagar à bomba que primeiro acudia. O jornal O Distrito exigiu um regulamento que “prescreva a forma por que hão de ser dados os primeiros sinais de alarme.” Só mais tarde, com a instalação do serviço telefónico na cidade, este assunto ficou resolvido. 11. Setúbal moderniza-se e a associação acompanha-a No ano de 1897 Setúbal começou a ter finalmente água canalizada na cidade e, em Agosto, passou a ter um moderno teatro, o teatro D. Amélia31, construído por uma empresa privada setubalense, a construtora da praça de touros S. Carlos, a Empresa de Recreios Setubalense. Em plena época balnear, no dia 19 de Setembro, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal inaugurou o seu ginásio privativo e o respectivo esqueleto. O ginásio tinha 20 por 25 metros, era iluminado com nove candeeiros a gás, tinha um palco para os músicos e um pórtico para ginástica. O esqueleto32 tinha 14 29 30 Certamente ligado à Farmácia Marques, que ainda hoje existe na Rua Arronches Junqueiro. O ministro do Reino era o equivalente do actual ministro da Administração Interna. Este teatro, feio por fora e bonito por dentro, estava construído no local onde actualmente está implantado o Fórum Luísa Todi. 32 O esqueleto foi depois remontado, já no século XX, no novo quartel. Pode ser visto na Figura 10. 31 metros de altura por dez de largo, com três pavimentos, um terraço e uma escada interior. Do terraço avistava-se um panorama vasto de Palmela à Arrábida, que era “o mais bonito da cidade”. O ginásio destinava-se também a festas e até tinha um bazar e “uma sala para senhoras”, certamente um toucador. As instalações eram num quintal33, na então Rua do Pinhana, número 12, hoje Rua Francisco Augusto Flamengo, transversal à Rua Arronches Junqueiro. A inauguração foi à tarde, com revista à estação das máquinas acompanhada pela fanfarra. Depois, os convidados dirigiram-se para as novas instalações, onde se fizeram discursos sobre as vantagens da ginástica para a saúde humana. Efectuaram-se exercícios no esqueleto com escaladas diversas, descidas por nó de cadeira, por braço de ferro e a pulso. Seguiram-se os exercícios nos aparelhos de ginástica do ginásio, ao som da fanfarra. Finalmente, ao cair da noite, realizou-se o tão ansiado baile, com bazar, que durou até à meia-noite. Em Maio de 1898 houve um incêndio, às nove horas da noite, na baixa da cidade. Nesse dia, os bombeiros voluntários tinham-se deslocado a Lisboa para participar nas comemorações do quarto centenário da Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia. Como escreveu o jornal O Distrito, “só eles, pela extraordinária rapidez com que acodem, poderiam ter evitado a propagação do incêndio.” Também não estava em Setúbal nem o administrador do concelho 34 nem o Comandante dos bombeiros voluntários. O inspector de incêndios, com o auxílio de um antigo bombeiro voluntário, lá evitou que o prédio ao lado fosse atingido. Entretanto, para agravar a situação, os rapazes nunca mais paravam de tocar os sinos, o que alarmou os habitantes. Talvez devido a este incidente, a CMS, nas sessões seguintes, aprovou a instalação de 120 bocas de incêndio na cidade e deliberou conceder um subsídio de 150$000 à Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal para reparação do seu material. Essa reparação não podia vir em melhor altura. Em fins de Julho declarou-se um incêndio na fábrica de conservas Pierre Chancerelle35, de madrugada. A fábrica ardeu completamente, mas estava segurada em 80.000$000 contos de réis, tendo sofrido prejuízos de cerca cem contos réis. Segundo se escreveu na altura, “nunca houve em Setúbal incêndio tão grande e de tantas perdas.” Neste ano, 1898, os bailes da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal passaram a ter um cunho artístico reforçado. Na habitual época balnear, em princípios de Outubro, houve um sarau com um programa que continha música de piano pela pianista Alda Zorro, um grupo de bandolins, poesia, com a declamação do poema O Bombeiro36, do sócio fundador Manuel Maria Portela, e baile até de madrugada. Este poema, típico do período romântico da literatura, foi escrito para ser ouvido e não para ser lido. Para melhor ser apreciado convidamos o leitor a lê-lo em voz alta. Verá que tem um efeito muito diferente em relação à sua simples leitura silenciosa. O poema pode ser lido no Anexo III. No final do ano de 1898, em Dezembro, a Direcção da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal solicitou à CMS a permissão para instalar no edifício da Casa do Copo Santo, onde estava anteriormente a escola primária de Santa Maria, uma “estação de socorros”. A CMS aceitou a proposta. Tudo indica que a associação tinha já muito material e as antigas instalações tinham problemas de espaço. O espaço 33 O quintal ainda hoje existe com um portão largo metálico. O antigo ginásio, hoje são só paredes. Há anos foi usado como oficina de reparação de carros. 34 A imprensa dizia, claramente, que o administrador do concelho tinha uma amante em Lisboa e passava lá as noites, e às vezes os dias, dando pouca assistência aos seus deveres em Setúbal. O que é certo é que, passado pouco tempo, o administrador foi substituído. 35 Esta fábrica ficava perto das instalações actuais do Clube Naval Setubalense. 36 Este poema foi recitado pela primeira vez numa festa em benefício da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal realizada em 14 de Janeiro de 1894, no então Teatro Bocage. agora solicitado devia ser o que actualmente está ocupado pelos Serviços de Turismo da CMS, com entrada pela abertura na antiga muralha medieval. Em Março de 1899, a CMS teve consciência dos inúmeros incêndios provocados pela falta de limpeza das chaminés das casas de habitação, que acumulavam fuligem e gorduras inflamáveis. Foi então publicada uma postura camarária que, no seu artigo 159.º, tornava obrigatória a limpeza das chaminés, com multas de 1$000 réis pela sua falta. Mas, se por falta de limpeza, houvesse um incêndio, a multa passava a ser de 6$000 réis. Mas o pior era que, como é normal em Portugal, a redacção da Postura era ambígua sobre quem seria o responsável pela falta de limpeza, não se sabendo bem, da sua leitura, se era o senhorio, o inquilino ou até um hóspede da casa. Assim, tudo ficou na mesma e, de vez em quando, lá ardia uma chaminé... As comemorações do 15.º aniversário da associação tiveram o habitual programa, com um exercício no esqueleto, à tarde, acompanhado pela fanfarra, seguido de copo de água no Clube e de baile à noite. Em seis de Junho realizou-se uma cerimónia significativa para a associação, no Salão Nobre da CMS, com a entrega da bandeira da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal oferecida por um grupo de senhoras da cidade. 12. A Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal desloca-se a Coimbra No mês de Junho de 1899, uma delegação da associação, formada pelo corpo activo e pela fanfarra, deslocou-se de comboio a Coimbra, numa visita à cidade e à sua congénere coimbrã. A partida foi à uma hora da madrugada do dia nove. No Terreiro do Paço, delegações das associações dos Bombeiros Voluntários de Belém e do Bairro Andrade estavam à espera da comitiva de Setúbal, a quem apresentaram cumprimentos. Em Santa Apolónia eram esperados por outra delegação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Paços de Arcos e apanharam o comboio das quatro horas para Coimbra. Chegados ao destino, logo na estação Coimbra B estava a receber os bombeiros voluntários de Setúbal uma delegação dos bombeiros municipais de Coimbra com uma banda de música. Mudaram de comboio e, em Coimbra A, já na baixa da cidade, tal como hoje, estava à sua espera a Associação dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, com música e muito povo a assistir. Seguiu-se logo um copo de água em plena estação, depois cumprimentos às autoridades locais e ovação dos estudantes na porta férrea, enquanto senhoras lançavam flores sobre os bombeiros. À noite houve uma récita 37 no teatro Príncipe Real, na qual se tocou o hino da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal. No dia seguinte visitaram a Universidade, assim como a Sé Velha e outros locais interessantes de Coimbra. No dia 11 visitaram a mata do Buçaco, onde foi servido um jantar oferecido pela Associação dos Bombeiros Voluntários de Coimbra. Toda a delegação ficou hospedada no Hotel Mondego. No dia 12 foi a partida para Setúbal, com muita gente no cais a despedir-se dos bombeiros voluntários setubalenses. Chegaram a Setúbal cerca das sete horas da noite e ainda foram cumprimentar a vereação da CMS. Deve ter sido uma jornada emocionante esta visita a Coimbra. Os transportes eram lentos e incómodos. As pessoas raramente saíam de Setúbal, o ir a Lisboa já era uma aventura, quanto mais uma viagem de três dias a Coimbra. Depois, todos os contactos eram pelo correio e, no entanto, nada falhou no programa. Outro pormenor que ressalta é a participação das várias associações de bombeiros, assim como da população de Coimbra e das suas autoridades. Para os padrões de hoje, esta viagem 37 No Anexo IV podemos apreciar um cartão de convite para esta récita e um poema lido na récita. chama-nos a atenção para a cordialidade com que na altura eram encaradas as relações institucionais entre os bombeiros voluntários e as autoridades locais. No final do ano de 1899 foi pacífico, ao contrário do que viria a acontecer em 1999, que o novo século apenas começaria nos finais de 1900. Os sábios assim o disseram e a população aceitou a argumentação. No entanto, logo no dia um de Janeiro de 1900, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, pelas cinco horas da manhã, saiu com a sua fanfarra, na altura designada por banda, a anunciar a alvorada do novo ano. Depois, às 11h00, foi apresentar cumprimentos às autoridades e à noite realizou-se o habitual baile. Logo no início de 1900, um temporal, ao largo de Setúbal, afundou a canoa A Pândega e houve vítimas entre os seus pescadores. A Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal organizou mais uma vez uma quête38 e conseguiu apurar 214$380 réis para as viúvas. O dinheiro foi distribuído proporcionalmente ao número de filhos. Uma viúva com quatro filhos, por exemplo, recebeu 35$000 réis. Em Junho de 1900 foi a vez de o Comandante da Associação dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, certamente com uma pequena delegação, não o sabemos ao certo, visitar os seus camaradas setubalenses. Visitou a Arrábida, onde almoçou, depois foi às instalações da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal e jantou no Hotel Esperança. Já nos finais do século, em Dezembro de 1900, a Rainha D. Amélia visitou Setúbal, onde se deslocou de comboio, e depois seguiu directamente para o Sanatório do Outão, pelo qual tinha grande desvelo. Frente aos Paços do Concelho houve salva de foguetes e a banda filarmónica da Capricho tocou vários números. A comitiva, espalhada por vinte carruagens, passou pela frente da estação do material da Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal, onde o corpo activo e a fanfarra vitoriaram a Rainha. Dali até Tróino continuaram as manifestações populares. O século XIX tinha terminado. Setúbal já tinha água canalizada, uma boa praça de touros e, recentemente, um bom teatro. O actual Clube Setubalense passou a ocupar as novas instalações, ainda hoje utilizadas. Um novo coreto tinha sido construído na Avenida Todi e já existia uma delegação da Caixa Económica Portuguesa, actual Caixa Geral de Depósitos, com cerca de cinquenta clientes. O então Regimento de Caçadores 1, instalado em Setúbal, passou, a partir de Outubro de 1899, a denominar-se Regimento de Infantaria 11. Setúbal tinha já umas trinta fábricas de conservas de sardinha, que começavam a ameaçar o futuro turístico da cidade com as suas descargas de restos de peixe para o rio Sado. Finalmente, a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Setúbal tinha instalações próprias, com sede social, estação do material e ginásio com o respectivo esqueleto. O novo século estava a chegar e, com ele, novos desafios se iriam colocar às associações de bombeiros voluntários, sendo talvez as principais a introdução do automóvel, a instalação de comunicações telefónicas e a tendência para que os bombeiros voluntários passassem a estar cada vez a estar mais ocupados a transportar acidentados e doentes e a ocorrência aos fogos passar para segundo plano. No capítulo seguinte vamos ver como evoluíram os tempos, a sociedade e as novas atribuições. 38 Uma quête, palavra francesa, significa uma recolha de fundos na via pública, ou entre várias pessoas, para fins de caridade. Actualmente usa-se a palavra peditório.