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O SIGNO DA LOUCURA EM FRANCISCO DE ASSIS
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Uilsiene Rosani de Souza
Especialista em Lingüística e Literatura Aplicada Faculdade de São Lourenço
[email protected]
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No Prometeu de Ésquilo, Oceano dá ao
protagonista este conselho atrevido: “Parecer louco é o segredo do sábio”
Introdução
No presente trabalho, cujo objetivo é o estudo sobre a vida de Francisco de
Assis sob a ótica da loucura como signo, pretende-se realizar uma reflexão a cerca
da vida dessa personalidade enfocando a visão que seus contemporâneos, erroneamente, tiveram dele ao tratá-lo como louco e, com isso, tentarem cercear seu discurso - sem, contudo, obterem sucesso. Para tanto, inicia com uma visão geral de
Semiótica, base teórica. Parte para uma breve apresentação da personagem e seu
contexto histórico. A partir da leitura das teorias de Foucault e outros autores abordamos a personagem Francisco no contexto de seu tempo e analisamos seus discursos e interdições feitas pela sociedade medieval.
A personagem aqui abordada, Francisco de Assis, para muitos, simplesmente
São Francisco foi considerado pela revista Times como “O Homem do Milênio” e
imortalizado na frase de Dante Aliguieri como “O Sol de Assis”, tal personalidade
fascinante e intrigante é corpus de estudo para a aplicação dos conceitos que serão
abordados.
Em seu discurso inaugural no Collége de France, Foucault fala sobre o discurso do louco, um discurso interditado de várias maneiras pela sociedade, mas
que encontra brechas para infiltrar-se no seio hermético da sociedade. Francisco foi
tido como louco pelos seus familiares, amigos e contemporâneos, mas o discurso
desse louco arrebatou multidões de seguidores e arrebata ainda hoje. Não há
quem, diante da vida coerente de Francisco, consiga seguir indiferente, ainda que a
reação seja de desaprovação. Aquele que estiver lendo esse trabalho também será
“tocado” por seu conteúdo e estou ciente dessa responsabilidade sem, no entanto,
alimentar a ilusão de que posso controlar seu efeito. Como no discurso, sou res-
ponsável pelo enunciado, mas nunca sobre o efeito que ele vai produzir. De tão
amplo que essa questão pode ser existe uma disciplina que trata especificamente
desse efeito do discurso, a Estética da Recepção. Por limitação do recorte não aprofundarei essa discussão.
Não é à toa que nos afrescos da basílica do Sacro Convento de Assis, Giotto
começa a vida de Francisco pela cena do louco a estender o manto à passagem do
jovem assisiense e o saúda exclamando:
“Tu és dos nossos, e nós, os loucos, sempre nos entendemos
bem”. (MERINO, José António, 133 pg)
1. Semiótica
Segundo Barthes (1985) o objeto da semiótica é qualquer sistema de signos,
independente de serem signos verbais. Não só sistemas que constituem linguagem,
mas qualquer sistema de significação.
Para Pignatari (1973), foi Peirce o primeiro a tentar “uma sistematização científica do estudo dos signos” e que cria a idéia de signo como um representante,
ou seja, toda coisa que substitui outra, representando-a para alguém, sob certos
aspectos e em certa medida (PIGNATARI, 1973, p.26-27).
Conforme Pignatari (2000), semiótica, ou Teoria Geral dos Signos, é uma
indagação sobre a natureza dos signos e suas relações, entendendo-se por signo
tudo aquilo que represente ou substitua alguma coisa, em certa medida e para certos efeitos.
“Para Peirce, todo pensamento é um signo, e o próprio homem pode ser considerado assim: ‘em qualquer momento, o
homem é um pensamento, e como o pensamento é uma espécie de símbolo, a resposta geral à questão: Que é o homem? – é que ele é um símbolo’” (apud PIGNATARI, 2000).
A personagem central desse trabalho é um símbolo que ultrapassou gerações e que não foi compreendido em sua época e talvez ainda hoje não o seja. E,
como signo, é uma resposta viva ao anseio de todo homem de saber qual a essência do ser humano. Ainda como signo, esse ser humano se torna o espelho de uma
realidade que todo homem anseia atingir: o status de verdadeiro SER HUMANO.
Segundo Pignatari (2000), o que caracteriza o fenômeno poético é a transformação de símbolos em ícones; baseando-se nesse e nos demais conceitos tomamos o signo da loucura em Francisco de Assis e analisamos as formas como a
sociedade busca interditar seu discurso ao classificá-lo como louco.
2. Apresentando a personagem
Segundo Jacques Le Goff (1924) Francesco Bernardone nasceu em 1181
ou 1182, não há um consenso sobre a data exata. Foi chamado de João pela mãe;
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depois no entanto, o pai ao voltar da França, e em cuja ausência o filho nascera,
deu-lhe o nome de Francisco, como nos prova a Legenda dos Três Companheiros:
“Francisco, oriundo da cidade de Assis, situada nos limites do
vale de Espoleto, primeiramente, foi chamado de João pela
mãe; depois no entanto, o pai ao voltar da França, e em cuja
ausência o filho nascera, deu-lhe o nome de Francisco.” (apud FASSINO, 1993. Pag. 20).
A pequena Assis do centro da Itália, cercada de montanhas, envolta no verde
dos Olivais e repleta de ruas estreitas e tortuosas. E como toda cidade medieval,
Assis também tinha suas características:
“A cidade medieval não se perdia espalhada como as cidades de hoje, mas se apresentava compacta, fechada em suas
muralhas, bem definida em seus limites, bem fortificada entre
muros e torres” (MAZZUCO, 1994. Pag. 42).
O jovem Francisco levou uma juventude agitada e cheia de contradições. Foi
pródigo nos gatos, levando a vida sem maiores preocupações.
“Francisco, depois que se tornou adulto , exerceu a arte do
pai, o comércio, mas de maneira muito diferente, pois era
muito mais hilariante e mais liberal, dado aos jogos e cantos,
circundando de dia e de noite pela cidade de Assis, em companhia dos seus semelhantes; larguíssimo nos gastos, de modo que tudo que pudesse, ter ou lucrar consumia em comidas
e outras coisas.” (FASSINI, 1993. Pag. 20).
A citação acima mostra-nos mais uma razão para o considerarem louco,
pois como conceber que alguém tão dado a gastos e festas pudesse abandonar
tudo e viver de forma totalmente controversa?
As cidades de seu tempo viviam em constantes rixas e rivalidades, o que ocasionavam periódicas guerras. Assis entrou em guerra contra Perugia e o jovem
Francisco foi, heroicamente defender sua cidade. Mas em 1202, caiu prisioneiro.
No cativeiro, destilava ânimo e otimismo aos companheiros de infortúnio. Ao regressar, dormindo numa estalagem, durante o sono ouviu uma voz a questioná-lo
sobre suas prioridades na vida. Assim relata Baggio (1972):
- Francisco, o que é mais glorioso: Servir ao Senhor ou servir
ao servo?
- Servir ao Senhor, é claro – respondeu prontamente.
- Pois bem, por que então estás correndo atrás do servo?
- Que devo então fazer?
- Volta a Assis e te será dito.
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Esse episódio foi um divisor de águas na vida de Francisco, pois a partir daí
uma grande inquietação tomou conta dele e o impeliu a buscar um novo rumo em
sua vida. A partir deste e de outros fatos que se sucederam, Francisco transforma
sua vida e seus sonhos, mas de uma forma tão radical e contraditória que seus contemporâneos o consideram louco. Como nos prova a Legenda dos Três companheiros: “Muitos, no entanto, ridicularizavam-no julgando-o insano” (Legenda dos Três
companheiros – apud FASSINI, 1993. Pag. 248).
Francisco começa a ficar reflexivo, deixa a vida boêmia e começa a dedicarse às coisas do espírito. Abdica de sua herança e entrega seus bens aos pobres.
Deixa a casa dos pais com as vestes que veio ao mundo, nu. Passa a viver entre
pobres e leprosos.
3. Contexto Histórico
O contexto histórico nos permite compreender melhor uma personalidade,
visto que a mesma pode ser produto do meio ou mesmo assumir uma personalidade que conteste o âmago dessa mesma sociedade.
Francisco é um homem medieval e isso não é um simples acaso, traz implicações em sua personalidade, costumes e modo de pensar. Como veremos na citação a seguir, o homem medieval, especialmente da fase em que viveu Francisco,
buscava dedicar-se a uma grande causa, a um ideal maior pelo qual até mesmo
valeria dar a própria vida.
“O medieval constituiu um período orgânico na vida da humanidade: como todos os organismos poderosos começou
com uma longa e misteriosa gestação, teve a sua juventude,
a sua virilidade, a sua decrepitude. O fim do século XII e o início do século XIII assinalam o seu definitivo desenvolvimento orgânico. São anos com sua própria poesia, sonhos, entusiasmo, generosidade e audácia. O amor era abundante em
sua força; por toda parte os homens tinham um só desejo:
dedicar-se a alguma grande e santa causa. ” (SABATIER,
1978, p.31)
Como período orgânico, esse foi rico e fez germinar fortes personalidades
que marcaram época. Como afirmou Sabatier na citação acima: “por toda parte os
homens tinham um só desejo: dedicar-se a alguma grande e santa causa”. Francisco também sonhava alto, queria ser cavaleiro do rei, dedicar-se a uma causa acima
da normalidade e mediocridade de cada dia.
Ainda falando sobre a Idade Média, é importante notar que essa fase também sofreu mudanças ao longo dos anos e assumiu peculiaridades com o passar
do tempo. Os séculos XII e XIII, em que viveu Francisco, foi um período de germinação e eclosão de novas tendências. Segundo Mazzuco:
“Queremos entender aqui a Idade do Meio como uma idade
nuclear isto é, um período onde a humanidade viveu um
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MEIO, Essencial, uma Raiz, uma Identidade e foi justamente
o homem e santo Francisco de Assis quem melhor captou este núcleo da época.” (MAZZUCO, 1994, p.49)
Foi somente a partir do século XI que o comércio começou um reavivamento
dentro da Europa. Reavivamento esse, grandemente influenciado pelas guerras contra muçulmanos e o fim das invasões escandinavas. Esses dois aspectos limitaram
por um longo tempo as experiências econômicas na Europa Ocidental. Os povos
muçulmanos e escandinavos foram grandes comerciantes e construíram diversas
redes de influência e dominação dentro de toda a Europa. O fim de suas empreitadas culminou na desarticulação dessas redes. A partir de então, foram necessários
outros meios para que tais transações voltassem a acontecer.
Um movimento próprio da Europa ocidental na articulação dessas novas
transações tem início juntamente com as cruzadas. Expedições são montadas por
diversos nobres com o objetivo de alcançar outras terras. Francisco participa das
Cruzadas de seu tempo. Os embates que se iniciaram em diversos pontos do mediterrâneo trouxeram diversos benefícios para os comerciantes europeus.
Com novas relações exteriores, diversas características internas da própria
Europa começam a ser formar. A partir do século XII dá-se início às conhecidas feiras medievais. Tais feiras tinham como um dos objetivos reunir diversos comerciantes das mais variadas condições num único local. Muitas cidades foram construídas
ou começaram seu desenvolvimento a partir dessas feiras. A peregrinação também
é um dos fatores-chave para a compreensão dessa articulação, pois tal característica influenciou a maior movimentação de indivíduos dentro do continente.
Essa nova estruturação econômica traz também outros fatores importantes. É
a partir desse momento que se iniciam, novamente, a cunhagem de moedas. Desde
o fim do Império Romano, a circulação de moedas dentro da Europa Ocidental
tinha perdido quase que completamente seu valor. As estruturas que foram se articulando após isso não privilegiavam tais transações. Mas no século XII é o início
dessa nova fase comercial, a moeda começa, aos poucos, a ganhar novamente sua
importância.
Mesmo com todas essas transformações, o comércio ainda era uma relação
que beneficiava os nobres. As grandes transações e movimentações comerciais eram estruturadas a partir dessas pessoas. Nessa época, a terra é que ainda representava poder. A riqueza material sem ter como apoio um título de nobreza não
tinha consideração social. A riqueza por si só não se sustentava dentro dessa sociedade, até mesmo por que nem todas as transações eram feitas em espécie. Mas
mesmo assim, ainda coexistia um comércio menor que tinha como objetivo transações mais simplificadas. As feiras medievais e grande parte do comércio móvel dessa época se apoiavam em características como essa. Devido ao recorte e sem a
pretensão de fazer um tratado de história abstenho-me maiores informações por
não ter propriedade suficiente para aprofundar a vastidão desse período.
4. O Louco e as interdições ao seu discurso pelo poder
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Foucault (1970) supõe que a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída pela sociedade na qual é produzido. Nela, há procedimentos que conjuram os poderes e perigos dos discursos dominando seu acontecimento aleatório.
No início de sua mudança de vida, chamada também de conversão, os familiares e contemporâneos de Francisco se afastam dele e o chamam de louco. A sociedade da época com seus modos próprios de selecionar, organizar e redistribuir
os discursos, vê no discurso de Francisco um perigo para a ordem e normalidade
estabelecidas.
“Como os discursos são perigosos às sociedades, elas articulam procedimentos de exclusão. Dos quais, o mais conhecido
possa ser a interdição, ou seja, não se tem o direito de dizer
tudo, não se pode falar qualquer coisa, a ninguém é dado
esse poder ou licença”. (FOUCAULT, 1970, p. 9)
Mas como reconhecer um louco? Pelas suas palavras, seu discurso conexo,
às vezes desconexo, instigante, difícil de ser ouvido, compreendido e aceito, porque
muito diferente.
“É curioso constatar que durante séculos na Europa a palavra
do louco não era ouvida, ou então, se era ouvida, era escutada como uma palavra de verdade. Ou caía no nada – rejeitada tão logo proferida; ou então nela se decifrava uma
razão ingênua [...] De qualquer modo, excluída ou secretamente investida pela razão, no sentido restrito, ela não existia. Era através de suas palavras que se reconhecia a loucura
do louco; elas eram o lugar onde se exercia a separação;
mas não era nunca recolhidas nem escutadas.” (FOUCAULT,
1970, p. 11)
Segundo Foucault (1970) há interdições que cerceiam o discurso dos indivíduos, mas ainda que sejam fortes as suas grades, nelas encontram brechas, rachaduras por onde certos discursos, antes interditados, podem escoar. Nas regiões onde essa grade é cerrada encontram-se a sexualidade e a política, sendo assim, o
discurso é um dos lugares onde essas duas forças exercem seus mais temíveis poderes. Os saberes são dominados pela ordem estabelecida e a partir disso recebem
classificações como qualificável ou inqualificável; inferior ou superior, etc.
“[...] por saber dominado se deve entender outra coisa e, em
certo sentido, uma coisa inteiramente diferente: uma série de
saberes que tinham sido desqualificados como não competentes ou insuficientemente elaborados: saberes ingênuos, hierarquicamente inferiores, saberes abaixo do nível requerido
de conhecimento ou de cientificidade.” (FOUCAULT, 1976)
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Conforme Foucault (1970) o discurso pode ser mínimo, mas são as interdições que revelam seu poder verdadeiro e sua ligação com o desejo. A força dos
discursos não está naquilo que expressam, mas no que ocultam, é aquilo que o
objeto deseja, “o poder dos qual nos queremos apoderar”. No caso de Francisco,
seu discurso ameaçava a ordem natural das coisas, abalava a estrutura da burguesia medieval e da própria Igreja rica e poderosa. Como conceber que um jovem
medieval, rico e cheio de mimos, possa despir-se de seus bens, cuspir na cara da
soberania, recusar riqueza e poder, aquilo que a sociedade via como o valor máximo?
Outro princípio de exclusão que podemos descortinar nas sociedades é a
separação ou rejeição. Remontada da alta Idade Média, pensemos na oposição
RAZÃO X LOUCURA.
“O louco é aquele cujo discurso não pode circular como o
dos outros: pode ocorrer que sua palavra seja considerada
nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importância, não podendo testemunhar na justiça, não podendo autenticar um ato ou um contrato, não podendo nem mesmo
no sacrifício da missa, permitir a transubstanciação e fazer do
pão um corpo;” (FOUCAULT, 1970, p. 10)
Visto que Francisco era um homem medieval, podemos deduzir a força com
que esse discurso vinha de encontro ao seu. Nos primeiros dois anos de sua conversão, Francisco viveu só, isolado. Ninguém o procurava, nem mesmo lhe davam
ouvidos, pois tratava-se de um louco e como tal não merecia crédito, seu discurso
não era válido. Não havendo quem lhe desse ouvidos ele passa a pregar aos pássaros e outros animais, conforme atesta sua cronologia no início deste trabalho.
Conforme Merino (2004) Francisco de Assis recorre também à loucura como metáfora e signo da sua própria existência. Teve clara consciência de trazer ao
mundo um novo estilo de vida quando diz: “O mesmo Senhor, que disse querer
fazer de mim um novo louco no mundo, não quis levar-me por outra sabedoria senão esta.”
Francisco parecia comprazer-se em ser tido como um “idiota”, amante das
coisas ignorante e simples, sem qualquer pretensão de fazer parte do grupo dos
doutos e letrados, sem, no entanto, deixar de demonstrar por atos que possuía uma
“douta ignorância”.
“O louco Francisco opõe-se com decisão visceral e apaixonada ao aparentemente razoável da sociedade. É a negação
da negação dos verdadeiros valores.” (MERINO 2004, p. 30)
Maritain comenta um dos momentos mais marcantes e desconcertantes da
vida de Francisco, quando, em um ato público e solene, despoja de suas vestes:
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“Imaginemos Francisco no exato momento em que arroja de
si as próprias roupas e aparece nu diante do bispo: na raiz
de gestos como este há algo de tão profundo na alma que
não se consegue explicar. É aí que reside a loucura: é o irracional, o não definível, o não canônico, o herético. Digamos
que é uma simples rejeição total, estável, supremamente ativa, mas nunca uma rejeição passiva ao aceitar as coisas como são.” (apud MERINO 2004, p. 30)
Com esse gesto, Francisco rompe com toda a normalidade da época e com
tudo que pregava a sociedade de então: luxo, riqueza, poder, status, conquistas.
Para quem estivesse presenciando essa cena só lhe restava pensar que estava diante
de um espetáculo de loucura. E como se tratasse de um louco o melhor a fazer seria abandoná-lo, desacreditá-lo para que não possa vir novamente bater às portas
da consciência e chamá-los a uma reflexão para a qual não estavam preparados.
Merino comenta: “Para ninguém são tão loucos os santos, os heróis e os redentores
como para os mais próximos e os de casa”.
Francisco e, seu discurso, vem contra ordem vigente, é extremamente contraditório a ela quando se despoja de seus bens e renega sua herança. Isso para a
sociedade e Igreja de então, só poderia ser qualificado como o discurso de um louco, alguém que está fora de consciência, agindo sem o auxílio da razão.
“O poder é essencialmente repressivo. O poder é o que reprime a natureza, os indivíduos, os instintos, uma classe.
Quando o discurso contemporâneo define repetidamente o
poder como sendo repressivo, isto não é uma novidade, Hegel foi o primeiro a dizê-lo; depois, Freud e Reich também o
disseram. Em todo caso, ser órgão de repressão é no vocabulário atual o qualificativo quase onírico do poder. Não será, então, que a análise do poder deveria ser essencialmente
uma análise dos mecanismos de repressão?” (FOUCAULT,
1976)
Vimos na citação que o poder reprime a natureza, os indivíduos, os instintos.
O poder repreende o que vem de encontro aquilo que acredita ser a verdade ou se
impõe como tal. Reprimir é ter poder, pois para fazê-lo é necessário estar investido
de tamanha habilidade. Foucault chega a dizer “ser órgão de repressão é no vocabulário atual o qualitativo quase onírico do poder”. E um modo de repressão é a
interdição de um discurso, no caso de Francisco ao desacreditar seu discurso o poder o reprime deixando-o à margem do que a sociedade prega como verdade. Os
próprios seguidores de Francisco quando se investem de certo grau de poder dentro
da Ordem reprimem-no junto com a Igreja ao negarem sua Regra de Vida exigindo
que outra fosse escrita.
Notamos, porém, que quanodo a sociedade não consegue cercear por definitivo determinado discurso ela encontra novos meios para tentar controlá-lo. Aco-
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lhe-o como sendo aceito para que o mesmo não se volte contra ela e lhe tome o
poder. A sociedade contemporânea de Francisco não meramente aceita seu discurso que antes não tinha crédito, mas como seu discurso já extrapolasse os limites
físicos e contagiava multidões, a sociedade o “aceita” para assim mantê-lo sempre
perto de seu controle. Ainda seguindo esse raciocínio em sua aula inaugural no
Collége de France, Foucault ao deparar-se com o fato de ter que iniciar um discurso declara:
“E a instituição responde: ‘ Você não tem porque temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está
na ordem das leis; que a muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra, mas o desarma; e que se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de
nós que ele lhe advém´” (FOUCAULT 1970, p. 07)
Foucault (1970) defende que ao discurso do louco também ocorria atribuir
estranhos poderes, o de dizer uma verdade escondida, o de pronunciar o futuro, o
de enxergar com toda ingenuidade aquilo que a sabedoria dos outros não pode
perceber. Nela se decifrava uma razão mais razoável do que a das pessoas razoáveis.
“É curioso constatar que durante séculos na Europa a palavra
do louco não era ouvida, ou então se era ouvida, era escutada como uma “palavra de verdade”, ou seja, nela poderia
haver um lampejo de uma verdade escondida, a poucos revelada. Esse mesmo discurso poderia receber a reação proporcionalmente inversa rejeitado tão logo proferido”. (FOUCAUT 1970, p. 11)
Aos poucos o louco Francisco foi sendo percebido com maior interesse e
começou a despertar a atenção de seguidores que acreditavam que por trás daquele duro discurso poderia estar escondida uma verdade que nem todos podiam ver.
O primeiro de seus seguidores foi Bernardo de Quintavalle, do qual a Legenda dos
três companheiros relata:
“Bernardo, considerando a constância e o fervor no serviço
divino do beato Francisco, isto é, o modo como com muito
trabalho reparava as igrejas destruídas e levava uma vida áspera, sabendo que o mesmo vivera no século, propôs no seu
coração distribuir aos pobres todas as coisas que tinha e aderir firmemente a ele na vida e no hábito”. (apud FASSINI
1993. P. 280)
Conforme Foucault (1970), o imenso discurso do louco retornava ao ruído,
a palavra só lhe era dada simbolicamente, no teatro onde se lhe apresentava, desarmado e reconciliado, visto que representava aí o papel de verdade mascarada.
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Algumas palavras de Foucalt caracterizam bem o que passou a ser o discurso de Francisco depois que as pessoas começam a lhe dar ouvidos: “Sonho lírico de
um discurso que renasce em cada um de seus pontos, absolutamente novo e inocente, e que reaparece sem cessar, em todo frescor, a partir das coisas, dos sentimentos ou dos pensamentos.”
Segundo Foucault (1970), a palavra do louco, excluída ou secretamente investida pela razão, no sentido restrito, ela carecia de existência. Através dela se reconhecia a loucura do louco. Suas palavras eram o lugar onde se exercia a separação (a interdição). Palavras nunca recolhidas, nem escutadas. Isso nos leva a um
questionamento: por que então as palavras de Francisco foram ouvidas mesmo fora
do contexto de sua cidade, atraindo multidões mesmo depois de sua morte? Será a
verdade escondida, a razão mais razoável?
“Ora, eis que no século XVII a verdade, a mais elevada já
não mais residia no que era o discurso, ou no que ele fazia,
mas residia no que ele dizia: chegou o dia em que a verdade
se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação
para o próprio enunciado: para seu sentido, sua forma, seu
objeto, sua relação a sua referência.” (FOUCAULT, 1970)
5. Conclusão
A personagem centro deste trabalho, Francisco de Assis, não foi um homem
alheio ao seu tempo, mas trouxe novidade com seu novo estilo de vida.
À luz da semiótica buscamos entender essa personalidade que se mostra ao
mundo como símbolo de ser humano livre e completo, signo do desejo fundamental
de todo ser humano de encontrar sua essência e fazê-la transbordar.
Como demonstra o presente trabalho, a sociedade com seu imenso poder de
controlar, selecionar, organizar e redistribuir os discursos tentou, de várias formas,
impedir que o discurso de Francisco fosse ouvido e propagado. No entanto, por
maiores que sejam as interdições dos discursos, os mesmos encontram brechas para
evadir.
A sociedade medieval teve medo do discurso do Pobre de Assis e o chamou
de louco para que assim fosse desacreditado. Isto mostra que aquele discurso ameaçava algum valor importante para a sociedade de então, do contrário, nada fariam.
Todo discurso é dotado de força. E o discurso do “louco” Francisco mostrouse mais forte que o discurso da própria sociedade e suas instituições de poder, pois
até hoje causa incomodo e seduz grande número de pessoas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix, 1985.
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FASSINI, Dorvalino. Legenda dos três companheiros. São Paulo: Edições Loyola.
1993.
FOUCAULT, Michel. A origem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
_______. Microfísica do poder. 1976
HEERS, Jacques. História medieval. São Paulo: Editora da USP, 1974.
LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. São Paulo: Edusc, 2005.
_______. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.
MAZZUCO, Vitório. Francisco de Assis e o modelo de amor cortêscortês-cavaleiresco.
Petrópolis: 2001.
MERINO, José António. D. Quixote e S. Francisco: dois loucos necessários. São
Paulo: Editorial Franciscana, 2004.
PIGNATARI, Décio. Semiótica e Literatura. São Paulo: Ateliê Editorial,1973.
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