Epilepsias Prof. Dr. Marcelo Heitor Ferreira Mendes Coordenador dos Ambulatórios de Epilepsias Faculdade de Ciências Médicas da UERJ Serviço de Neurologia – Hospital Universitário Pedro Ernesto Epilepsia Em Pessoas Famosas O que são Epilepsias ? • São um grupo de doenças que têm em comum o fato de produzirem crises epilépticas. • Têm curso crônico, recorrente e esteriotipado. • Início e duração rápidos (segundos). • Ocorrência imprevisível (paroxística). • Entre uma crise e outra, o paciente é normal (caso não haja uma doença). O que são Crises Epilépticas ? São sintomas produzidos pela despolarização paroxística de um grupo de neurônios corticais sincronizados, capazes de produzir um sintoma clínico (crise), que seja perceptível, apenas, para o paciente (subjetivo), ou para um observador e que ocorrem espontaneamente. Hopkins,A; 1987 Crises Produzem Alterações nas Seguintes Esferas • Motora • Sensorial • Cognitiva • Autonômica • Consciência * Convulsão = termo leigo que significa contração muscular * Nem toda crise epiléptica é convulsiva; crises convulsivas são aquelas nas quais há ativação do córtex motor, produzindo contrações (fase tônica) e posteriormente relaxamento fásico da musculatura (fase clônica). Homúnculo de Penfield 6 7 8 9 Propagação das Crises no Córtex Sulco Central Lobo Frontal Lobo Occipital Fissura Calcarina Classificação de Acordo com a Etiologia • Epilepsia Sintomática • Epilepsia Estrutural/Metabólica • Epilepsia de Causa Desconhecida (Idiopática) • Epilepsia Genética Etiologia de Acordo com a Idade 13 14 Esclerose Tuberosa Lesões Cutâneas e no Fundo de Olho. Nevus Sebaceous Linear em criança com Hemimegaloencefalia Hemimegaloencefalia Infarto Isquêmico Giro Pré-Central Área da Mão Síndrome de Sturge-Weber Angioma na Face Síndrome de Sturge-Weber Classificação das Crises e Síndromes Epilépticas – ILAE, 2010 Crises Crises Focais Generalizadas • Evidências clínicas e eletroencefalográficas de que a crise se inicia em uma parte de um dos hemisférios. • Aura. • Sintomas Focais. • EEG regional ou Lateralizado. • Evidências clínicas ou eletroencefalográficas do envolvimento inicial de ambos os hemisférios. • Sem Aura. • Sinais clínicos bilaterais. • EEG generalizado. Epilepsia Focal Epilepsia Generalizada Classificação Internacional das Crises e Síndromes Epilépticas, ILAE 2010 I. Crises Focais II. Crises Focais Discognitivas (comprometimento da consciência) III. Crises Generalizadas (sem início focal) e sem AURA A. Crises de Ausência. B. Crises Mioclônicas, abalos mioclônicos (múltiplos ou isolados) C. Crises Tônico-Clônicas D. Tônicas E. Atônicas III. Crises Não-Classificadas Causas de Epilepsia • • • • • • • • • Tumores. Má-Formações vasculares. Infartos cerebrais. Má-formações do desenvolvimento cerebral. Sequela de Infecções do SNC. Sequela de TCE. AIDS. Demências Corticais (D. Alzheimer). Canelopatias (“Idiopáticas”). Síndromes Epilépticas Eletroencefalograma Crise II Crise I Neuroimagem RM Síndrome da Epilepsia Mesial TemporalS Atrofia e Esclerose do Hipocampo Síndrome da Epilepsia Mesial TemporalS • Síndrome Epileptica focal mais comum. • Crises refratárias ao tratamento clínico. • Características clínicas: reação de parada (“staring”) → automatismos → confusão mental pós -ictal. • Reação de parada → Automatismos → Crise secundariamente generalizada. Síndrome da Epilepsia Mesial TemporalS • Maior incidência de comorbidades psiquiátricas: depressão, ansiedade, diminuição da libido. • Queixas frequêntes de memória. • Melhor forma de tratamento é a cirurgia. • Atrofia do Hipocampo na ressonância magnética de crânio. • Refratária ao tratamento clínico. Síndrome Epileptica Ausência na Infância • O único Tipo de Crise é a crise de ausência. • Não se observam alterações cognitivas interictais. O comprometimento observado é apenas durante as crises. • Número grande de crises durante o dia. • Excelente resposta clínica ao Divalproato, Valproato de Sódio e Ácido Valpróico. 31 Síndrome Epiléptica Ausência na Infância EEG demonstrando Pontas-Ondas Generalizadas a32 3 Hz Síndromes Eletroclínicas Agrupadas por Idade, ILAE, 2010 Adolescência Adultos • Epilepsia Ausência da Juventude. • Epilepsia Mioclônica Juvenil. • Epilepsia Com Crises Tônico-Clônicas Puras. • Epilepsias Mioclônicas Progressivas. • Epilepsia Autossômica Dominante com características auditivas. • Outras Epilepsias do Lobo Temporal. Síndromes Eletroclínicas Agrupadas por Idade, ILAE, 2010 Infância • • • • • • • • • • Epilepsia com Crises Febris Plus. Epilepsia Occipital Precoce (Panayiotopoulos). Epilepsia com Crises Mioclônicas Atônicas (Doose). Epilepsia de Ausência na Infância. Epilepsia Benigna com Espículas Centro-Temporais. Epilepsia Autossômica Dominante Noturna de Lobo Frontal. Epilepsia Occipital de Início Tardio (Gastaut). Epilepsia com Ausências Mioclônicas. Epilepsia com Espícula-Onda Contínua durante o Sono. Síndrome de Landau-Klefner. MUITO IMPORTANTE ! O diagnóstico da Epilepsia é clínico e requer a presença de duas ou mais crises epilépticas não-provocadas (ou sintomáticas agudas). Classificação ILAE 2005 • O diagnóstico poderá ser feito com apenas uma crise contanto que exista uma condição que cause uma predisposição duradoura à geração de crises. 36 Crises Sintomáticas Agudas • Crises que ocorrem no momento, ou em até 7 dias de uma lesão cerebral aguda: infarto ou hemorragia cerebrais, trauma do SNC, encefalopatia anóxica ou cirurgia intracraniana, como primeiro sinal de hematoma subdural, na presença de infecção ativa do SNC, ou durante a fase ativa da esclerose múltipla ou outra doença autoimune. Epilepsia, 51(4): 671-675, 2010 Crises Sintomáticas Agudas • O diagnostico de CSA deve ser feito na presença de alterações metabólicas graves, documentadas em até 24 h por teste bioquímico ou hematológico específico, na presença de drogas, intoxicação por álcool ou abstinência (até 48 h) na exposição a droga epileptogênica bem definida. Epilepsia, 51(4): 671-675, 2010 Crises Sintomáticas Agudas Valores de Corte para Crises Sintomáticas Agudas em Alterações Metabólicas Glicose <36 mg/dl ou >450mg/dl associada à cetoacidose (com ou sem história de diabétis) Sódio < 115 mg/dl Cálcio < 5,0 mg/dl Magnésio < 0,8 mg/dl Uréia > 100 mg/dl Creatinina >10,0 mg/dl Epilepsia, 51(4): 671-675, 2010 Crises Sintomáticas Agudas – Não São Epilepsia Izoniazida, penicilina Cefepime Aminofilina Lidocaína Meperidina metohexital Amitriptilina, maprotilina, imipramina, doxepin, fluoxetina Haloperidol, Clozapina, Clorpromazina Metotrexate, BCNU, Asparaginase Ciclosporina Cocaína Crises Sintomátias Agudas – NÃO SÃO Epilepsia Doenças Clínicas •Eclâmpsia •Encefalopatia hipertensiva (PRES) •Insuficiência hepática •Insuficiência Renal – principalmente aguda •Porfiria •Poliarterite Nodosa •Anemia falciforme •Sífilis •Lupus Eritematoso Sistêmico •Púrpura trombocitopência trombótica •Síndrome Hemolítica Urêmica •Doença de Whipple Atenção Crises que ocorrem exclusivamente durante febre (6 meses aos 5 anos) – Convulsões Febris – não são consideradas epilepsia e não requerem uso contínuo com DEA (Droga Anti-Epiléptica). Crise Febril é considerada Crise Sintomática Aguda. O Diagnóstico de Epilepsia é Clínico. Não é realizado através do Eletroencefalograma. Critério: 2 ou mais crises não-provocadas Problema O quê fazer com o paciente que apresentou apenas uma crise não-provocada (crise única não-provocada) ? Investigação Clínica dos Pacientes Com Suspeita de Epilepsia Exame obrigatórios para todos os pacientes: 1. Ressonância Magnética de Crânio – 1a escolha. 2. Eletroencefalograma ou 3. Vídeo-Eletroencefalograma: este é o único exame capaz de confirmar, com certeza, o diagnóstico de epilepsia. Em casos Selecionados: 1. Bioquímica e eletrólitos. 2. Punção Lombar e análise do LCR. Princípios do Tratamento • O Tratamento é iniciado com apenas uma droga – MONOTERAPIA. • A dose da DAE deve ser calculada em função do peso. • Devemos utilizá-la até a dose máxima permitida ou tolerada (até surgirem efeitos colaterais). • Apenas se esta primeira etapa for cumprida, deveremos associar uma 2a droga. • Dosagens sérica dos níveis sanguíneos não são necessárias rotineiramente. • A DAE escolhida é baseada no tipo de crise e síndrome epiléptica. Crises Focais (parciais) carmamazepina, fenitoína, Divalproato,Lamotrigina*Topiramato*, Levetiracetam*, Zonizamida* Crises Focais que evoluem para Crises Generalizadas oxcarbazepina, carbamazepina fenitoína, Lamotrigina, Divalproato, topiramato*, Levetiracetam*, Zonizamida*, Gabapentina* Crises Generalizadas Tônico-Clônicas Primárias Divalproato, Depakote, Lamotrigina, Zonizamida, Topiramato* Levetiracetam Crises de Ausência Depakote, Divalproato, Etosuximida Crises Tônicas Depakote, Divalproato, Lamotrigina*,topiramato* Ausência Mioclônicas Depakote, Etosuximida, Divalproato, Lamotrigina, Topiramato*, Zonizamida, Levetiracetam* * Aprovadas como drogas adjuntivas às drogas de primeira linha Tratamento e Manuseio do Estado de Mal Epileptico Convulsivo Generalizado 48 Status Epilepticus Tonico- Clônico Generalizado (Convulsivo) Estado de Mal Epiléptico Não-Convulssivo (EMENC) O quê fazer se seu paciente teve apenas uma crise com duração inferior a 5 minutos? NADA ! 50 Estado de Mal Epiléptico Convulsivo Generalizado • Diagnóstico: 3 ou mais crises em 30 minutos sem que o paciente recupere a consciência entre as crises (clássica). • Ou crise GTC com duração igual ou superior a > 5 min (atual). Status Epilepticus • 20-40 casos/100.000/ano Status Epilepticus Não-Convulsivo • 10% dos paciente hospitalizados com alteração da consciência. • 16% dos idosos em Estado Confusional Agudo. • 48% dos pacientes com Estado de Mal Epiléptico Convulsivo (24 h de Monitorização EEG). 52 Medidas Iniciais • Proteção das vias aéreas – intubação orotraqueal se necessário. • Avaliação dos sinais vitais. • Oximetria de pulso. • Tratamento do choque (hipovolêmico, séptico, cardiogênico etc.). • Monitorização do ECG. • Acesso venoso periférico em veia calibrosa. • Oxigênio sob máscara a 5L/min. • Monitorização contínua da P.A. Tratamento na Fase Pré-hospitalar Crise com duração ≥ 5 minutos Midazolam 10 mg IM se >40Kg ou 5mg IM se < 40Kg 54 Silbergleit et al. N Engl J of Med 2012; 366: 591-600. Medidas Iniciais • Coleta de sangue para bioquímica, análise toxicológica. • Coleta de sangue arterial para gasometria. • Exame neurológico sumário para identificação de sinais focais ou rigidez de nuca. • Tomografia computadorizada de crânio após estabilização do paciente. • Caso haja história de febre e/ou confusão mental de início súbito, junto com as crises, e não existam sinais focais ou de hipertensão intracraniana → Punção liquórica (meningite e encefalite). Medidas Terapêuticas Iniciais Não se usam drogas por via intramuscular ou subcutânea no tratamento do estado de Mal Epiléptico estabelecido. 5 minutos iniciais Consultar o Neurologista Caso as crises continuem seguir a etapa 2 57 5 minutos Iniciais 4mg de Lorazepam EV Caso não haja acesso venoso: diazepam 20mg via retal ou midazolam 10mg IM, via bucal ou via nasal. Se as Crises persistirem: intubação orotraqueal usando bloqueador neuromuscular de ação rápida (succinilcolina). Evitar Ethomidato. Midazolam 0,2mg/Kg/ ataque, repetir 0,2-0,4/Kg a cada 5 min até que as crises parem (dose max 2,0mg/Kg) Infusão inicial 0,1mg/Kg/h; manutenção 0,05-2,9 mg/Kg/h Como alternativa, Propofol 1-2mg/Kg ataque; repetir de 5 em 5 min até que as crises parem (dose max 10mg/kg). Infusão inicial 33μg/Kg/min; manutenção 17-250μg/min. 58 Rosseti AO et al. Neurocritical Care 2011; 14(1): 4-10. 30 minutos Fenitoína 20mg/Kg ataque ou DEPAKON 40mg/Kg em 30 min. Dê mais 30mg/Kg, se necessário Se as Crises persistirem por > 30 minutos: Status Epilepticus Refratário > 30 minutos Tiopental 59