“PARA BAILES”: A ROUPA FEMININA E OS ESPAÇOS PÚBLICOS
EM SÃO LUÍS NO INÍCIO DO SÉCULO XX
Camila Ferreira Santos Silva
(email: [email protected])
Doutoranda em História Social pela Universidade Federal do Pará
Resumo: Em São Luís, capital do estado do Maranhão, no início do século XX, vivenciou a inauguração de diversos
locais de diversão tais como cafés, confeitarias, clubs, cinema, teatro e os constantes bailes e soirées que eram
oferecidos na cidade. Nesse sentido, com o surgimento do modo de viver urbano, São Luís tornava-se o palco onde
ocorria a circulação e a movimentação de homens e mulheres, dos diversos segmentos sociais, nos espaços públicos
passeando, consumindo e se divertindo. E é com essa nova movimentação dentro do espaço urbano que muda a
posição social das mulheres, principalmente daquelas dos setores dominantes, que passaram a frequentar, cada vez
mais, as ruas e as novas atrações. Assim, a exposição dos corpos femininos aos olhares e às opiniões era
acompanhada de medidas ditas, de um lado, “moralizadoras” e, de outro, “modernizadoras” e “civilizadoras”, que
lhes demandavam traços físicos e um modo de vestir. A escolha da roupa, portanto, era destinada ao seu uso em um
espaço público, ou seja, a natureza deste influenciava no uso das roupas. Dessa forma, os usos das roupas, as pessoas
vestidas, ao estarem em público, fazem ver algo que não está, a não ser na imagem (vestida) que exibe. Enfim, a
roupa comporta significados, podendo ser reconhecida como algo que permite ao indivíduo investir-se de certos
sentidos. Então, a ideia do que era “ser mulher” no período estudado, e, consequentemente, o que ela deveria vestir,
estava permeado de estratégias de cunho moral. Com isso, muitas roupas direcionadas às mulheres tinham
preocupações com decotes, pernas, cores vibrantes, entre outras. Sendo, o intuito desse artigo é analisar o discurso
moralizador e, ao mesmo tempo, modernizador e civilizador que atravessava a representação da roupa feminina
direcionada aos locais públicos em São Luís no início do século XX.
Palavras-chave: Viver urbano. Roupa feminina. São Luís.
Introdução
O Brasil, até o início do século XIX, era um país cuja população vivia quase
em sua totalidade no meio rural e mantinha resquícios do período colonial. Os homens
que viviam em fazendas comumente tinham seu comportamento considerado
“grosseiro” e “rude”, trabalhando diretamente com a terra e os animais, vivendo de
pouco luxo. Normalmente, suas casas possuíam poucos móveis, roupas e outros
utensílios e estes eram fabricados em suas próprias fazendas (BESSE, 1999; SCHPUN,
1999; SOUZA, 1987).
Além disso, havia poucos encontros entre as famílias desses fazendeiros por
conta da distância entre as fazendas e a consequente dificuldade de comunicação. As
mulheres, normalmente gordas após as gestações, usavam vestidos largos, com tecidos
grosseiros costurados por elas mesmas, e não estavam a par de qualquer tipo de
novidades, principalmente da moda e das normas de etiqueta utilizadas nos países
europeus (FREYRE, 1987). Para esses fazendeiros, o que lhes concedia status eram
suas terras e o número de escravos (SOUZA, 1987).
A partir da segunda metade do século XIX, as transformações socioeconômicas
Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p. 66
foram paulatinamente mudando esse cenário. Segundo Besse (1999, p. 15), “a
aceleração da Revolução Industrial na Europa trouxe ao Brasil as ferrovias e os navios a
vapor, criou elevada demanda pelas culturas de exportação do Brasil e propiciou
oportunidades de lucro sem precedentes [...]”, fazendo com que as cidades,
principalmente as capitais, vivessem dinâmicas diferenciadas, tanto econômica quanto
socialmente.
Já na virada do século XIX para o século XX, o Brasil vivia uma espécie de
“vertigem e aceleração do tempo”1. O país foi palco de uma série de transformações
como a consolidação do capitalismo, o crescimento do espaço urbano, a ascensão da
burguesia e suas ideologias, assim como no campo da política propiciou a queda do
regime monárquico e da escravidão e o início de uma nova ordem política, a República.
Todas essas mudanças influenciaram diretamente no cotidiano dos diversos segmentos
sociais e nos costumes de homens e mulheres.
Portanto, o cenário deste estudo, o Brasil e por consequência o Maranhão, é
formado por uma “[...] sociedade recém-egressa da escravidão, que guarda marcas e
hierarquias arraigadas, e de um novo projeto político republicano que tenta se impor a
partir da difusão de uma imagem de modernidade e de civilidade criada na
contraposição com o Império” (SCHWARCZ, 2002, p.43).
Em São Luís, capital do estado do Maranhão, não foi diferente, pois desde
meados do século XIX esta cidade vinha buscando tornar-se mais urbana e moderna,
deixando de lado as características que remontassem ao passado colonial e rural, daí a
vinda dos fazendeiros para a capital, mais precisamente para o bairro da Praia Grande,
na freguesia de Nossa Senhora da Vitória estendendo-se para a freguesia de Nossa
Senhora da Conceição. E no início do século XX, o centro da capital já era local de
residência tanto dos fazendeiros quanto dos ricos comerciantes, marca da riqueza do
período imperial, com seus sobrados e casarões. Além disso, havia uma preocupação
constante por parte dos governantes com a organização da cidade, podendo ser
observada por meio dos Códigos de Posturas (1892-1896) 2 existentes na época.
De todo modo, as mudanças previstas no projeto de modernização das
primeiras décadas republicanas, que ocorreram em São Luís, ficaram mais no discurso
do que na prática (PALHANO, 1988). E, embora tenha havido um crescimento urbano e
demográfico na cidade nesse período, o principal símbolo3 de progresso e de moderno
eram as fábricas têxteis que empregavam milhares de trabalhadores, principalmente
mulheres. Além disso, o “moderno” e o “civilizado” 4 também passava pela inauguração
1
Segundo Neves (2003), esse era o sentimento que estaria presente nas principais cidades brasileiras que,
como a capital (Rio de Janeiro), crescia e se tornava complexa tanto na política como na vida cotidiana;
nas ideias e nas práticas sociais; na vida dentro das casas e no que se via nas ruas.
2
Para maiores esclarecimentos sobre os Códigos de Postura que vigoravam em São Luís no final do
século XIX e início do século XX ver: CARVALHO (2005).
3
Segundo Bourdieu (2005), os símbolos são instrumentos de conhecimento, comunicação e integração
social, tornando possível o consenso acerca do mundo social e contribuindo para a reprodução da ordem
social, dando lógica à integração e condição para se ter integração moral. O símbolo diz mais do que
aquilo que mostra ou enuncia e carrega sentidos ocultos, construídos social e historicamente.
4
O termo civilização, segundo Elias (1994, p. 23), “refere-se a uma grande variedade de fatos: ao nível
da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às idéias religiosas
e aos costumes”. E ainda, “[...] Pode se referir ao tipo de habitações ou à maneira como os homens e
mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema judiciário ou ao modo como são
preparados os alimentos”. Não há, portanto, um conceito fechado de civilização. Além dos conceitos
acima citados, Elias (1994, p. 54) expõe ainda que civilização é a consciência que o Ocidente tem de si.
Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p. 67
de locais de diversão para a sociedade ludovicense, principalmente a elite, que
constantemente reclamava nos jornais da monotonia da cidade.
Nesse sentido, o surgimento do modo de viver urbano, que se fixou no início
do século XX, levou homens e mulheres a adaptarem-se à vida na cidade, que em vários
aspectos diferenciava-se da vida rural, principalmente no que diz respeito à
sociabilidade dos citadinos. Desse modo, “o moderno” e “o civilizado”, pregado pelo
discurso republicano, não passava só pela instalação das fábricas, pelo crescimento
demográfico e pela organização da cidade, mas também pela vivência dos homens e
mulheres que circulavam dia a dia nesses espaços.
Destarte, fazia-se necessária a existência de uma sociedade ludovicense
civilizada e moderna – muitas vezes denominada de “high-life”, “boa sociedade” ou
“elegantes ornamentos da sociedade” –, que estivesse apta à convivência nesses novos
locais de sociabilidade, compartilhando de comportamentos e vestimentas ditos
corretos. Essas prerrogativas estavam voltadas principalmente para as mulheres, na
medida em que crescia a presença das moças das camadas médias e altas que se
aventuravam pelos diversos espaços da cidade.5
Todavia, a exposição dos corpos femininos aos olhares e às opiniões era
acompanhada de medidas ditas modernizadoras e civilizadoras, que lhes demandavam
traços físicos e um modo de vestir (SCHPUN, 1999). Assim, tendo em vista que, na
maioria das vezes, a escolha da roupa era destinada ao seu uso em um espaço público
(CRANE, 2006, p.47-48), podemos dizer, portanto, que a natureza do espaço público 6
influenciava a maneira como as pessoas usavam suas roupas, para serem vistas e
avaliadas. Daí a preocupação do artigo em analisar o discurso moralizador e, ao mesmo
tempo, modernizador e civilizador que atravessava a representação da roupa feminina
direcionada aos locais públicos em São Luís no início do século XX.
“VIDA MUNDANA”: roupa feminina e moralidade
São Luís, até as últimas décadas do século XIX era uma cidade pacata
(LACROIX, 2011, p.313). Ao se revestir de uma nova faceta, a urbana, na virada para o
século XX, se tornou o cenário em que os protagonistas, isto é, os homens e mulheres
que representavam e compunham esse cenário passaram a dar vida e movimento às ruas,
aos cafés, bailes, às praças, ao teatro, cinema, como também dinamizavam o comércio
da época.
A coluna Vida Nocturna, rubricada por K. Boré, do Diário de São Luiz
Para Elias (1994, p. 23-27), o conceito de “civilização” não significa a mesma coisa para as diferentes
nações ocidentais. O autor informa que a diferença era maior entre o que os ingleses e franceses
entendiam por “civilização” e o que os alemães entendiam pelo mesmo termo. Para os ingleses e
franceses, o conceito significa “seu orgulho pela importância de suas nações para o progresso do Ocidente
e da humanidade”. Já para os alemães, Zivilization significa “algo fútil”. E a palavra que para os alemães
expressa “orgulho em suas próprias realizações e no seu próprio ser” é Kultur.
5
Sobre o comportamento feminino e educação temos para São Luís: ABRANTES, 2010. Para outras
capitais: MALUF; MOTT, 1998; PEDRO, 1994; ALVES; MATOS, 2006 e outros.
6
As fronteiras entre o público e o privado vêm se delineando desde o final do século XVIII. Conforme
Arendt (1997), a distinção entre a esfera pública e a esfera privada, que se dá com o advento da
modernidade, é caracterizada pela diferença e separação entre o mundo e a intimidade, respectivamente.
Portanto, a esfera pública é aquilo que pode ser visto e ouvido por todos e tem maior divulgação possível.
Já o privado é o íntimo, ou seja, a principal função do privado é proteger a intimidade, proteger aquilo
que está “entre quatro paredes” e que fora reforçado pelo individualismo moderno.
Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p. 68
apresentava parte desse movimento na cidade, bem como a oferta e demanda por
diversão, que vinha se desenrolando desde o final do século XIX. Segundo o articulista,
ao descrever uma noite de “diversão” em São Luís, informa: “foi uma bela noitada para
aqueles que não cansam de se divertir. Festas muitas e em toda parte”. Os locais de
divertimento estiveram cheios, no ‘City’, por exemplo, “a enchente foi extraordinária.
Os proprietários foram obrigados a limitar as entradas”. Continuando, relata que “no
‘High- Life’, foi um pouco fraco, mas excepcionalmente chic. Boa gente, boa música e
muitos amigos”. E, conclui a coluna do dia, informando que havia nesses locais “muitas
damas e muitas casacas”. (Diário de São Luiz, 1/10/1923). Na mesma seção, o autor,
frisando a presença feminina nos bailes, informa que “no ‘City’, uma nuvem de
borboletas de cores variadas, vagavam sem passar das salas do baile para os corredores,
salas de jantar e tapete verde”. (Diário de São Luiz, 19/10/1923).
Convém ressaltarmos que da mesma forma que havia uma demanda pela “vida
mundana”, ou melhor dizendo, pela “vida urbana” e “moderna”, também havia, em
contrapartida, uma demanda por uma vida baseada nas ditas “boas condutas” 7. E no
processo de “validação” das ditas “boas condutas”, a mulher, sobretudo a mulher de
elite, era peça fundamental no jogo das representações, da “vida mundana” e da “boa
conduta”, pois foi ela, quem mais aderiu aos novos espaços e aos novos ornamentos
externos, como a moda, com o intuito de demarcar as diferenças sociais (SOUZA,
1987). Com isso, era ela o principal alvo dos discursos delineadores de uma “mulher
ideal”, dentro dos padrões de moralidade e de “boa conduta”. Em suma, a mulher era a
“vitrine” no jogo das aparências e era ela quem refletia os principais “ares de
moralidade” ou de “imoralidade”.
Nesse sentido, por mais que tais “locais de diversão” redefinissem a rotina
dessa cidade, as mudanças nos comportamentos causaram discussões nos jornais, cujos
articulistas não deixavam de descrevê-las com estranhamento, na medida em que
algumas dessas mudanças, como é o caso das roupas, modificavam não só a
representação visual do modelo de mulher, à época, como também a representação de
seu papel social8 de mulher: dona de casa, esposa e mãe, além de filha e virgem.
As roupas representam uma presença (CHARTIER, 2002, p.20), pois estar com
esta ou aquela roupa ou usando-a dessa ou daquela forma, remete ao status social, ao
sexo, entre outros, de modo que, muitas vezes o que é visto mascara o que é,
principalmente no que diz respeito a uma dita “mulher honesta” transformada pelo uso
7
Silva (2011) apresenta a relação entre a educação recebida pelas mulheres, na escola, no lar e nas
práticas cotidianas com o comportamento social esperado nos ambientes públicos e privados. Essa
educação a autora chamou de “educação de salão”, na qual visava preparar as mulheres para os papéis
sociais de esposa e mãe, devendo representar socialmente sua família através de práticas comportamentais
que destacassem as “boas maneiras”, fazendo a distinção de classe e de conduta moral. Segundo a autora,
nesse período havia uma demanda pela formação e existência de uma sociedade ludovicense civilizada muitas vezes chamada de “high-life”, “boa sociedade”, ou ainda, “elegantes ornamentos da sociedade” -,
que tivesse adaptada à convivência nesses novos locais de sociabilidade. Tal demanda recaia
principalmente sobre a mulher de elite e da camada média, pois o direcionamento dos comportamentos
ditos corretos, normalmente voltava-se para a mulher, dona de casa ou donzela, pertencente a essas
camadas sociais.
8
Segundo Louro (2010, p.24), os papéis seriam “padrões ou regras que uma sociedade estabeleça para
seus membros e que definem seus comportamentos, suas roupas, seus modos de se relacionar ou de se
portar... através dos papéis, cada um/a deveria conhecer o que é considerado adequado (e inadequado)
para um homem ou para uma mulher numa determinada sociedade [...]”.
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da roupa em “mulher falada”9. No início do século XX, essa marca de “mulher falada”,
ou seja, essa representação aderida aos usos da roupa era recorrente e os conservadores,
em especial a Igreja Católica, eram os maiores cruzadistas no combate às roupas que
“agrediam a moral” da mulher, consequentemente da família 10, transformando-as em
“mundanas”.
Em todo caso, ao mesmo tempo que observamos a disseminação e o incentivo
pelos jornais das ditas “novidades da moda”, em contrapartida havia também a
desvalorização de tais modas, ou, mais precisamente, das mulheres que as
acompanhavam. E, como observa Freire (2009, p.37), os comportamentos considerados
tradicionais muitas vezes eram exaltados como “verdadeiros e sadios”, em
contraposição à degradação dos costumes provocados pela disseminação dos
comportamentos “escandalosos” das mulheres ditas modernas.
Desse modo, a exposição dos corpos femininos aos olhares e às opiniões era
acompanhada de medidas ditas moralizadoras. Pois, na cena pública, a “[...] linguagem
dos corpos, [...] destina-se aos outros, que devem poder captá-la. Ela projeta o indivíduo
para fora de si mesmo e o expõe ao elogio ou à sanção do grupo” (REVEL, 1991,
p.169). A composição ornamental externa, portanto, valia (ou vale) mais que a interna.
Por isso, a forma da vestimenta e como era usada, ou seja, todo o arranjo do vestir,
como linguagem, era observado e avaliado.
Esses olhares e opiniões estavam focados justamente na utilização das
vestimentas pela elite ou camada média, pois qualquer deslize de um de seus integrantes
causava danos à sua reputação. Lacroix (2012, p.336) afirma que em São Luís “rigorosa
era a censura ao comportamento feminino”. Segundo a autora, em se tratando das
inovações das primeiras décadas do século XX, as “senhoras de família” mantiveram os
usos e costumes de suas avós. Podemos inferir, a partir disso, duas conclusões: uma que
as senhoras continuavam a acompanhar freneticamente a moda como, suas avós na
segunda metade do século XIX em São Luís; e outra, que mantiveram o tradicionalismo
e conservantismo dos modelos representacionais de mulher do século vivido por suas
avós. Acreditamos que as duas conclusões conviviam nos primeiros anos do século XX,
pois ao mesmo tempo em que as “senhoras de família” seguiam a moda, eram avaliadas,
taxadas e reprimidas...
Tudo isso, pela manutenção status quo, era de suma importância para
representar a “boa imagem” desta camada. Como destaca Del Priore (2011, p.127),
nesse período, “a repressão era forte e a ênfase no pudor, uma obsessão”. Essa obsessão
9
Pedro (1994, p.67) analisa das mulheres das camadas médias e altas, em Desterro/Santa Catarina, e
preocupação destas em não se tornarem “mulheres faladas”, apontado que “[...] era necessário que o
comportamento feminino não desse margem a qualquer comentário, que as mulheres não se tornassem
‘faladas’, pois se fosse alvo de ‘murmurações’, a honra da família estaria irremediavelmente perdida,
assim como estariam em perigo as aspirações de ascensão social e a permanência nos grupos de comando
dessa sociedade”.
10
Segundo D’Incao (2009, p.223-230), “a vida burguesa reorganiza as vivências domésticas. Um sólido
ambiente familiar, lar acolhedor, filhos educados e a esposa dedicada ao marido e sua companheira da
vida social são considerados um verdadeiro tesouro”. Por conseguinte, em prol da manutenção dos
“bons costumes” que poderiam ser corrompidos pela modernidade e atingir diretamente o seio da
família, destruindo-o, nada mais indicado que a mulher, “rainha do lar”, para resguardar a tranquilidade
do lar e, consequentemente, da Nação. Dessa forma, era “especificamente sobre as mulheres que recaía
uma forte carga de pressões acerca do comportamento pessoal e familiar desejado, que lhes garantissem
apropriada inserção na nova ordem, considerando-se que delas dependeria, em grande escala, a
consecução dos novos propósitos”.
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levou a um debate assíduo nos jornais tanto do Brasil 11, quanto ludovicenses acerca das
novas modas e seus “exageros” e “imoralidades”. Tal incômodo, causado pelas
“mulheres da moda”, ficava evidenciado quando a elas eram associados “a
negatividade, a perda de feminilidade e os danos que poderiam ocasionar à moral das
mulheres” (BONADIO, 2007, p.188)12, uma constante nos jornais.
O ponto central do debate do vestir feminino era a sensualidade. O desejo que a
“nudez” causaria nos homens. A ideia de que a mulher está se dando “ao desfrute” por
conta de suas roupas é recorrente. Na seção Bilhetes do jornal Diário de São Luiz, em
que o remetente da carta era Joaquim do Egyto, o qual escreveu sobre um rapaz que
perseguiu uma mocinha que estava em uma praça, “à luz meridiana”, assim é
mencionado:
Viu-a e ficou extasiado! O casaco semi-aberto, deixando á amostra uma nesga do
seu seio rijo, uma nesga adorável, de um seio alvo, entonteceu-o! As mangas
curtas, bem curtas e frouxas e de fazenda finíssima, transparente deixando nú os
deliciosos braços, fizeram que á sua imaginação já causticada pela sedução do
sexo, delirasse! Ou melhor, meu caro dr. Não foram propriamente as mangas,
foram os braços! Agora, crescente a isto as saias curtas, bem curtas, que lhe
mostravam uns pedaços admiráveis, completavam a obra!...(Diário de São Luiz,
26/09/1923).
E afirma ainda em sua carta que a culpa de o rapaz ter atacado a mocinha foi a
Moda: “o uso caprichoso [da moda] que despiu a mulher em ‘publica praça’”, pois uma
moça naqueles trajes em uma praça sozinha no final da tarde era em suas palavras uma
“tentação diabólica”. E aconselha: “[...] A mulher que se vista com recato, que se
componha, que seja discreta no trajar, ciosa de sua beleza, que esses casos de
embriaguez e estonteamento desaparecerão”. Segundo o remetente, devia-se fazer uma
“caçada na cidade” à Moda, “porque o nú embriaga, a beleza despida tem força de mil
cavalos, e ninguém é responsável, atuando por esse tropicalismo que nos empolga, de
cometer um ato de loucura ou de tolice”. (Diário de São Luiz, 26/09/1923).
Tal cena apresenta os perigos que a moda daquele tempo representava para as
mulheres de famílias abastadas. Embora elas fossem estimuladas a sair, a frequentar as
ruas, tanto para o “lazer” quanto para o trabalho, a preocupação com o comportamento e
a vestimenta era recorrente. Isso porque a rua simbolizava o espaço do desvio, das
tentações, dos descontroles dos desejos, daí a preocupação com a moralidade como
indicação e progresso e civilização. (SOHIET, 2009, p.365) 13.
11
A partir da análise da Revista Feminina, Bonadio (2007), mostra como o discurso de alguns cronistas da
revista estava alicerçado na moral conservadora, para o qual as roupas da moda eram no mínimo muito
incomodas.
12
Bonadio (2007) analisa o debate acerca dos exageros das modas a partir dos textos dos colaboradores
da Revista Feminina, que circulava em São Paulo nos anos de 1920.
13
Sohiet (2009) trata da preocupação em moldar a mulher pobre aos ditames do comportamento da elite,
ou seja, analisa a construção de um discurso de “modo de vida”, bem como de práticas, baseado nas
necessidades da elite que ia de encontro com o resto da população. Para São Luis, Correia (2006)
analisa os discursos acerca da civilização e do progresso, bem como as falas acerca do feminino na
sociedade ludovicense, procurando perceber o ponto de encontro entre os discursos proferidos e a
concretização destes nos “chãos das fábricas”, ou seja, busca entender as contradições entre os discursos
Anais do Colóquio Nacional de Estudos de Gênero e História – LHAG/UNICENTRO, p. 71
Além dos meios de comunicação, às instituições tradicionais, tal como a Igreja,
e aos conservadores (médicos e positivistas) cabia definir os traços que uma mulher e
um homem deveriam possuir diante das mudanças trazidas pela modernidade, buscando
de todas as formas reagir contra as imposições comportamentais, de vestuário, traçando
uma “cruzada” em favor de comportamentos e modas “corretos” e “morais”. Muitas
eram as normas e regras que vigiavam a mulher fora do lar, tal era a preocupação em
mantê-la nos limites da moralidade e do pudor, digna do posto de “rainha do lar”.
Várias eram as colunas nos jornais trazendo informações e notícias do exterior,
de outras cidades, da própria São Luís, informando sobre a renúncia dos padres, bispos
etc. em virtude do uso de saias curtas e decotes pelas cristãs, exemplo máximo das
mudanças dos padrões de vestir. O jornal Diário de São Luiz informa que o reverendo
na missa paroquial em São Luís, não informando de qual paróquia, concluiu as
reflexões da missa do dia, tratando das “modas modernas”, utilizando-se de um
manifesto produzido pelos vigários do Rio de Janeiro. O autor da notícia, chamando
atenção às leitoras, transcreve tal manifesto, que se inicia de forma contundente: “Não
basta ser casta e honesta é também necessário parecer ser”. Continuando, menciona que
se fazia urgente mostrar os “inconvenientes”, as “más consequências” e os “gravíssimos
perigos” dos “abusos da moda”, com o único fim de combatê-la. (Diário de São Luiz,
22/12/1921). Pois,
Multiplicam-se e crescem cada dia os escandalos provocados pela moda
indecorosa. E’ certíssimo que a dignidade, moralidade e elevação da mulher se
conhece pelo seu traje, assim como a sua corrupção e degradação. A virtude exige
recato e severidade no vestir, sem espalhafato, nem reclame da forma. A mulher
honesta deve vestir de modo tal que se imponha ao respeito e á consideração dos
que a virem. (Diário de São Luiz, 22/12/1921).
Seguindo, o texto apresenta os três pilares que formam os “encantos” e os
“mais belos ornatos da mulher”: “a virtude, a modéstia e a timidez”. E que, portanto,
“[...] os costumes femininos e os seus trajes devem estar em relação e correspondência
com os seus dotes morais”. Segundo o manifesto dos vigários, quando “diante de nós”
vemos uma mulher “[...] chamando a atenção pelo excêntrico, pelo espalhafatoso do seu
traje, não nos passa despercebido todo o cômico e ridículo da sua figura, e então nos
escapa um sorriso de compaixão e logo pomos em duvida o seu carater”. E pede:
“Encompridais as saias curtas que exibem as pernas; levantai os decotes, que expõem
vosso corpo; baixai as mangas, que descobrem os braços; sede discretas no trajar para
não vos confundirdes com as heroinas do vicio”. (Diário de São Luiz, 22/12/1921).
Tais ressalvas do texto, lido em São Luís, que vinha a ser reflexivo para
aqueles(as) que estavam presentes na missa, remetem às análises de Rago (1985, p.85116), quando esta diz que havia um discurso que estava preocupado com a submissão
sexual da mulher e com um possível desvio da mulher à prostituição, à imoralidade.
Nessa perspectiva, a roupa nos apresenta algo que está para além do visível; está no que
foi construído a respeito daquilo e mesmo daquele(a) que se veste. O decote e a saia
curta apresentam partes do corpo da mulher que remetiam à vulgaridade, isto é, a partes
e as práticas no cotidiano das mulheres trabalhadoras, cruzando suas vivências na condição feminina
com a sua condição de operárias.
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do corpo que somente as prostitutas mostravam, à época.
Assim, aparência externa das mulheres, principalmente nos ambientes
públicos, mas também com grande ressonância no privado, era uma preocupação dos
articulistas dos jornais que, nas primeiras páginas dos jornais apresentavam notas e
artigos acerca dos ataques feitos aos novos figurinos da moda, saia curta e decote. Isso
porque a garantia da moralidade da família estava estritamente a cargo da moralidade da
mulher. O que equivalia a dizer que uma mulher que não se vestia dentro dos “padrões
de moralidade” aceitos para a circulação nos espaços públicos, possivelmente não tinha
como comandar uma família baseada em tais padrões.
Conforme já enfatizamos, por mais que os jornais estivessem apresentando
colunas que tratavam das novidades da moda, havia um discurso paralelo, conservador,
que estava atento aos desvios da mulher mediante a utilização de tais modas, chamadas
“modas indecorosas”. Bonadio (2007, p.153-196) trata dessa questão quando fala da
Revista Feminina, que circulava em São Paulo e em outras capitais, como é o caso de
São Luís. Essa revista apresentava a “mulher moderna” e seguidora da moda, mas ao
mesmo tempo apresentava artigos com conotação mais conservadora, que focava
questões relativas ao pudor e à moral, bem como questões que traziam a mulher de volta
ao seu local central: o lar. Então, ao mesmo tempo que a exposição do corpo ao olhar
público autorizava a mulher a despir-se, paradoxalmente, cada vez mais é reclamada sua
moralização e a sua volta ao ambiente doméstico.
O foco das discussões acerca do vestir, nesse aspecto, era o fato de apagar o
brilho da mulher na família, ou melhor, a pose tradicional da mulher na família. A seção
A Moda, de 22 de fevereiro de 1921, do Diário do São Luiz, assinada por Zeca, depois
de pronunciar como a moda é exigente acrescenta: “Vive a mulher sujeita a seus
caprichos, como uma escrava”. Tece um lembrete para as senhoras e donzelas que
vivem a acompanhar a moda e a soltar “os quadris nas danças”: “Poderá a mulher
quebrar-se e requebrar-se! Poderá mostrar um palmo de colo e dois de pernas grossas e
bonitas; poderá despir ou vestir o braço, nada disso a torna mais sedutora!”. Pois,
segundo o articulista, “[...] a beleza do espírito é tudo na mulher”. Desse modo, “o
homem de valor não admira outra coisa na mulher que não seja a graça da inteligência,
a suavidade dos sentimentos. Essa beleza é eterna!”. Essa, pois, é a beleza que: “cintila
no lar”, “no doce carinho da família”. Enfim, é a beleza da mulher que nasceu “para
rainha do lar, para companheira espiritual do homem, para os dias de desconforto, para
as ocasiões em que a infelicidade nos bate á porta [...]”.
E conclui a sua reflexão para as leitoras: “Para que despertar desejos noutro
homem, se é casada?”, “para que encontrar a mulher sobre o seu colo nú, o olhar
abrasador, pela paixão, de um homem que não é o seu esposo?” e, ainda, “para que
desafiar a volúpia ao que lhe vê a perna formosa, através da meia finíssima?”.
Respondendo a tais questionamentos, o autor diz que com tudo isso “a mulher
desvaloriza-se. Despindo-se na praça pública, nos bailes, nas festas, perde essa feiticeira
e sadia poesia do amor que é o sonho. Será melhor vestir-se. Nada como se estar
vestido”. (Diário do São Luiz, 22/02/1921).
Como podemos inferir, o retrato da mulher casada e mãe era o de uma mulher
pura, delicada, centrada na manutenção do lar, dos filhos e do marido. Suas vestes,
portanto, teriam que ser apropriadas ao seu estado civil, pois jamais uma mulher de “boa
família” poderia vestir-se tal qual uma “mulher da vida”; suas roupas deveriam ser
recatadas, não tanto quanto as das moças solteiras, e não deviam de maneira alguma
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aparentar “vulgaridade”, de forma que agradasse o marido e não escandalizasse os que
estavam à sua volta. Nas formas de vestir ficava patente a submissão da mulher ao
homem, pois era a ele, ao marido, que ela deveria agradar e para ele preservar sua
honra. Como diz uma das frases da seção Bric à Brac de O Jornal: “A discrição é pra a
alma o que o pudor é para o corpo”. (O Jornal, 24/07/1917).
Daí a preocupação não só com a saída da mulher de elite às ruas da cidade para
os eventos sociais como para o teatro, as praças, os cafés, as lojas de luxo e para o
trabalho, mas também com aquilo que ela iria vestir para estarem em tais locais. O que
tornou a vigilância ainda mais forte, uma vez que “o valor e o dever moral da pureza
medem-se em lugares de risco e de tentações temíveis” (GIORGIO, 1990, p.224), no
espaço público. Daí o controle e a inquietação com a honra feminina e a
supervalorização da virgindade e do recato, que comumente era representada nos jornais
da época, principalmente diante das idas e vindas das mulheres nos locais públicos de
São Luís.
Conclusão
O início do século XX foi marcado por inúmeras modificações não apenas no
cenário político e econômico, com a implantação da República; o fim da escravidão,
com a fixação do trabalho assalariado; mas também com o crescimento urbano e
industrial que consolidou o capitalismo no país. As cidades cresciam, principalmente as
capitais, e São Luís, capital do Maranhão, não ficou para trás nessa corrida, mesmo com
muitas restrições. No cerne dessas modificações conjunturais, ocorreram também
mudanças no que diz respeito à vivência da sociedade nesse novo ambiente, agora
chamado de “urbano” e “moderno”.
Até meados do século XIX, tínhamos uma sociedade que vivia em fazendas, no
meio rural. Nesse meio, o contato entre as famílias era raro, ocorrendo somente em dias
de missa, de modo que não precisavam nem necessitavam de muitos adereços para
circularem em seu cotidiano, pois sua riqueza era caracterizada pela quantidade de
terras e de escravos que possuíam. Já a vida na cidade, que se firmou no início do século
XX, em nada se parecia com a do meio rural; várias eram as oportunidades que homens
e mulheres tinham de circular nos diversos espaços de sociabilidade: ruas, mercados,
praças, teatros, cinemas, bailes, etc. Todavia, essa circulação era vigiada pelos que na
cidade residiam. Enfim, novos estilos correspondem a novas necessidades, que
apontavam “novos controles”.
Entre os novos estilos temos as mudanças no vestir feminino que causavam
desassossego dos conservadores. A principal modificação no traço da roupa feminina foi
o tamanho da saia, curta, e a altura do decote, profundo. Daí acentuada preocupação
com o despir do corpo feminino via a utilização das “modas indecorosas” pelas
mulheres, que perturbavam o imaginário da sociedade ludovicense, dada perspectiva da
circulação da mulher por entre os espaços da cidade, aos olhos da “boa sociedade”. Os
jornais apresentavam tal desassossego causado pelos novos figurinos utilizados pelas
mulheres, apresentando um discurso a favor do pudor e da moralidade feminina.
Por tudo isso, o que está por trás desse discurso de pudor e de moralidade e
dessas representações da mulher vulgar com tais roupas é a própria modernidade, e com
ela, a instabilidade que os “novos tempos” vinham causando na estrutura tradicional da
sociedade brasileira, no caso, na ludovicense, em que a família é central e a mulher,
esposa e mãe, é a base dessa estrutura além de pilar moral. Dessa forma, como a
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preocupação à época era com a aparência (e ainda hoje é), às ruas a toilette era
impreterivelmente avaliada e a carga recaía sobre as mulheres, pois a delas eram
exigidos os principais comportamentos familiares e pessoais, de modo a garantir a
entrada na “nova ordem” – civilizada e moderna, porém dentro dos padrões de
“moralidade”.
Referências
Fontes
O Jornal, 24/07/1917.
Diário do São Luiz, 22/02/1921.
Diário de São Luiz, 22/12/1921.
Diário de São Luiz, 26/04/1923.
Diário de São Luiz, 1/10/1923.
Diário de São Luiz, 19/10/1923.
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Camila Ferreira dos Santos Silva