Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 A (RE)CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO EM SEUS DISCURSOS DE POSSE: OLHARES E INTERFACES Cláudia Maris TULLIO 1 RESUMO: O discurso de posse do presidente constitui uma diretriz do que será seu governo, além de refletir sua postura perante seus compatriotas e eleitores. Observar a recorrência de alguns termos, o apagamento de outros, dentre outros aspectos, contribui para a leitura dos efeitos de sentido provocados pelo discurso acima mencionado. Busca-se, com este trabalho, verificar como se dá a (re)construção da identidade do Presidente Fernando Henrique Cardoso a partir de seus discursos de posse. Ao considerarmos a linguagem enquanto forma de inter-ação, procuramos neste trabalho observar a relação do Presidente Fernando Henrique Cardoso com o povo brasileiro e com o próprio Brasil no momento de sua posse como representante maior do país. Questões como: quem é este presidente; o que é cidadania, povo, nação, Brasil para este sujeito, naquele momento histórico, nortearão a pesquisa. Para tanto, mobilizar-se-á os conceitos de condições de produção, interdiscurso, memória, ideologia, sujeito e formação discursiva da Análise de Discurso (Pêcheaux, Orlandi, Foucault, Coracini), linha francesa, além da noção de Identidade, proposta por Hall. Também, utilizar-se-á como suporte teórico o proposto pela História das Ideias Linguísticas. A presente pesquisa é qualitativa. O corpus é constituído pelos discursos de posse, do Presidente Fernando Henrique Cardoso, proferidos no Congresso Nacional em 1º de janeiro de 1995 e em 1º de janeiro de 1999. PALAVRAS-CHAVE: Identidade; Discurso de posse; Análise de Discurso. ABSTRACT: The inaugural address of President is a guideline of what will be his government, besides reflect their attitude towards their compatriots and voters. Note the recurrence of some terms, deleting others, among other things, contributes to the effects of reading effect caused by the speech above. Looking up, with this work, to verify how d? (re) construction of identity of President Fernando Henrique Cardoso from their discourses of possession. In considering the language as a form of inter-action, seek this observe the working relationship of President Fernando Henrique Cardoso to the Brazilian people and the proprio Brazil at the time of his tenure as representative of most parents. Issues such as who and this president, what and citizenship, people, nation, Brazil for this subject at that time historic, guide the search. Therefore, it mobilized the concepts of conditions of production, interdiscourse, memory, ideology, subject and discursive formation of Discourse Analysis (Pecheaux, Orlandi, Foucault, CORACINI), French Line, beyond the notion of identity, proposal by Hall. Also, make use of the theoretical support as proposed by the History of Ideas Linguistic. This research and qualitative. The corpus and constitutional? Tenure of speeches by, President Fernando Henrique Cardoso, delivered in Congress in 1? January 1 1995 and January 1999. PALAVRAS-CHAVE: Identity; Inaugural Address; Discourse Analysis. 1 Doutoranda em Estudos da Linguagem – UEL; Docente IESSA; [email protected] 1 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 1 Introdução O processo simbólico, no qual, em grande medida nem sempre é a razão que conta: inconsciente e ideologia aí significam. Não é a cultura ou a história factuais, mas os mitos, da relação com a linguagem e com os sentidos. É a memória histórica que não se faz pelo recurso à reflexão e às intenções, mas pela “filiação”. Aquela na qual, ao significar, significamos. [Desta forma é que se ] constroem um imaginário social que nos permite fazer parte de um país, de um Estado, de uma história e de uma formação social determinada”. Eni P. Orlandi A linguagem é um poderoso instrumento que acompanha o ser humano em qualquer lugar e em qualquer momento do cotidiano. Ela é quem ajuda o homem a construir uma visão sobre o mundo. Além disso, também ajuda na construção do ser como sujeito no mundo. Percebemos então que a língua nunca é única, enquanto meio vivo e concreto. Ao contrário, deve ser vista como um imenso conjunto de variedades lexicais, fonéticas, morfológicas, sintáticas. No entanto, mesmo que a linguagem possibilite ampla variação, os interlocutores são capazes de negociar significados a fim de compreenderem e serem compreendidos. Afinal, a interpretação do real e os valores, revelados por meio da linguagem, estão condicionados às circunstâncias sociais, históricas e culturais nas quais o sujeito está inserido. Ao considerarmos a linguagem enquanto forma de inter-ação, procuramos neste trabalho observar a relação do Presidente Fernando Henrique Cardoso com o povo brasileiro e com o próprio Brasil no momento de sua posse como representante maior do país. Buscamos, dessa forma, verificar como se dá a (re)construção da identidade desse presidente a partir dos seus discursos de posse (1995 e 1999). Além, analisar quem é o cidadão, o povo e o brasileiro, presentes nos discursos acima mencionados. Ao final, pretende-se verificar os possíveis efeitos de sentido desencadeados pelos referidos discursos. A presente pesquisa é qualitativa. O córpus é constituído pelos discursos de posse do Presidente Fernando Henrique Cardoso proferidos no Congresso Nacional em 1º de janeiro de 1995 e em 1º de janeiro de 1999. Do ponto de vista teórico, situamo-nos na Análise do Discurso (Pêcheux, Orlandi, Foucault, Coracini e outros). 2 O tecer teórico “As palavras, expressões, proposições, etc., mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam”. Pêcheux Coracini (2003, p.11) diz que o sujeito é “fragmentado, esfacelado, emergindo apenas pontualmente pela linguagem, lá onde se percebem lapsos, atos falhos”. Assim, o sujeito emerge na linguagem, esta vista como lugar de interação e como efeito de sentidos entre sujeitos historicamente situados. Estes sujeitos mobilizam os repetíveis e os (re)atualizam em seus discursos. Portanto, o discurso é constitutivamente atravessado pelo discurso do outro. 2 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sóciohistóricas de identificação, na medida em que ele constitui ao mesmo tempo um efeito dessas filiações e um trabalho (mais ou menos consciente, deliberado, construído ou não, mas de todo modo atravessado pelas determinações inconscientes) de deslocamento no seu espaço (PÊCHEUX, 1988, p. 57). Podemos considerar, portanto, que a identidade do sujeito se constrói na e pela linguagem, e que está em constante movimento. Segundo Hall apud CORACINI, A identidade passa a ser definida historicamente e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu”coerente. [...] Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora “narrativa do eu”. A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia (Hall apud CORACINI, 2003, p. 307). Outros dois aspectos devem ser considerados na construção da identidade: a ideologia e os interdiscursos que permeiam os espaços sócio-históricos situados. Pêcheux busca enfatizar o papel fundamental que a ideologia representa no processo de interdição dos sentidos. Ao propor o conceito de “condições de produção”, o citado autor demonstra que o discurso é efeito de sentidos entre os interlocutores. Logo, o indivíduo não é, nem está livre para escolher aleatoriamente, numa determinada situação ou momento, o que dizer, haja vista estar o seu dizer afetado por este “já lá”, denominado por Pêcheux de interdiscurso ou “o todo complexo com dominante das formações discursivas” (PÊCHEUX, 1988, p162). Pelo famoso “já–lá”, pode-se entender serem os sentidos os quais foram se construindo historicamente sempre partindo das relações de poder. Os tais sentidos podem ou não ser assumidos pelo sujeito, observadas as posições discursivas que ele ocupa (ocupará) ou não em função do funcionamento da ideologia. Para Pêcheux o caráter material do sentido, ou dos sentidos, somente é possível porque “a materialidade concreta da instância ideológica existe sob a forma de formações ideológicas, que, ao mesmo tempo, possuem um caráter ‘regional’ e comportam posições de classe”. (PÊCHEUX 1988, p.146) É importante salientar que a materialidade ideológica, para Pêcheux, só é possível de ser apreendida a partir da materialidade linguística, a qual se vislumbra nas formações discursivas. Dessa maneira, o sujeito Fernando Henrique Cardoso, o Presidente da República do Brasil, em 1995 e 1999 identificava-se com a formação discursiva que o dominava (na qual se constituía com sujeito). Veremos na análise dos discursos quais eram estas formações. Orlandi (2005, p.43) define formação discursiva como “aquilo que numa formação ideológica dada – ou seja, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada – determina o que pode e deve ser dito”. Para esta autora: [...] ideologia não se define como o conjunto de representações, nem muito menos como ocultação de realidade. Ela é uma prática significativa; sendo 3 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 necessidade da interpretação, não é consciente – ela é efeito da relação do sujeito com a língua e com a história em sua relação necessária, para que se signifique (ORLANDI, 1998, p. 48). Vislumbramos nos discursos de posse a presença marcante da ideologia da Social Democracia, através dos princípios de Liberdade, Igualdade e Justiça Social para construção de um estado de bem estar social. Cabe lembrar que o presidente Fernando Henrique fora eleito pela legenda do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira). A evidência de que vocês e eu somos sujeitos – e até aí que não há problema – é um efeito ideológico, o efeito ideológico elementar. Este é aliás o efeito característico da ideologia – impor (sem parecer fazê-lo, uma vez que se tratam de ‘evidências’), as evidências como evidências, que não podemos deixar de reconhecer e diante das quais, inevitável e naturalmente, exclamamos: é evidente! É exatamente isso! É verdade! (ALTHUSSER, 1985, p. 94). Também os interdiscursos, de acordo com Orlandi, (2005, p. 31-33) acabam por disponibilizar dizeres os quais afetam “o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada. [...] O interdiscurso é todo o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos”. Como preconiza Orlandi (2005, p. 32) “o dizer não é propriedade particular. As palavras não são só nossas. Elas significam pela história e pela língua”. Dessa maneira, buscamos nos discursos os interdiscursos aí latentes, as marcas históricas. Ainda, [...] as identidades não são fundamentalmente propriedades privadas dos indivíduos, mas construções sociais, suprimidas e promovidas de acordo com os interesses políticos da ordem social dominante (Kitzinger) como pessoa somos sempre outros, sempre essencialmente segundas pessoas (Shotter ) (MOITA LOPES, 2003, p. 13). Qual é a identidade do Presidente Fernando Henrique Cardoso? 3 Desenrolando o fio “A primeira trama, já desfeita, será tecida novamente, mas formando outros desenhos, novas formas, e junto com ela tecendo-se, a cada vez, a ilusão de se prender o signo na nova malha”. Grigoleto Num primeiro momento, é mister recuperar o contexto histórico/de produção dos discursos, objeto da análise. Após o período ditatorial, instaurado em 1964, o país assiste em 1985 o término da primeira fase da Transição Democrática brasileira, com a saída dos militares do governo e a eleição indireta de Tancredo Neves, que morre antes de tomar posse, assumindo seu vice, José Sarney. Em 1990 ocorrem as primeiras eleições diretas para Presidente, onde se enfrentam no segundo turno, Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio da Silva (o Lula), do Partido dos Trabalhadores (PT). Entre 1990 e 1992, o candidato vitorioso, Fernando Collor iniciou seu governo com o confisco das contas correntes e da poupança de toda a sociedade brasileira e apresenta um ambicioso programa de estabilização da economia, o "Plano Collor". Com o fracasso do Plano 4 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 volta a inflação galopante e se agrava a recessão, presente desde a década anterior. Porém, em 1992, acusado, por seu próprio irmão, de envolvimento em esquema de corrupção, o Presidente foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Ao mesmo tempo os "caras pintadas" saem às ruas exigindo o impeachment de Collor, o qual renuncia e tem seus direitos cassados por oito anos, assumindo o Vice Itamar Franco. Um fato que merece importância é a nomeação, em 1994, do senador Fernando Henrique Cardoso para Ministro da Fazenda, criador o Plano Real que visava a estabilização da moeda. Nas eleições desse ano se enfrentam, no segundo turno, Luiz Inácio da Silva, do PT, e Fernando Henrique Cardoso (FHC), do PSDB, que sai vitorioso. No período de 1995- 1998, para concretizar a estabilidade econômica a sustar a crise fiscal do Estado, causada pelas dívidas externa e interna, foram desencadeadas as reformas constitucionais. Ao mesmo tempo, foi derrubado o monopólio em vários setores, como o petróleo, a telecomunicação, gás canalizado e a navegação de cabotagem. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso é reeleito para mais um mandato de 4 anos. A política de estabilidade e da continuidade do Plano Real foi o principal apelo da campanha eleitoral de 1998 para a reeleição de FHC. Foi reeleito já no primeiro turno.No primeiro mandato FHC conseguiu a aprovação de uma emenda constitucional que criou a reeleição para os cargos eletivos do Executivo, sendo o primeiro presidente brasileiro a ser reeleito. Em seu governo houve diversas denúncias de corrupção, dentre as quais merecem destaque as acusações de compra de parlamentares para aprovação da reeleição e de favorecimento de alguns grupos financeiros no processo de privatização de empresas estatais. O fim de seu primeiro mandato é marcado por uma crise no setor energético, que ficou conhecida como apagão. A crise ocorreu por falta de planejamento e ausência de investimentos em geração e distribuição de energia e foi agravada pelas poucas chuvas. Com a escassez de chuva, o nível de água dos reservatórios das hidrelétricas abaixou e os brasileiros foram obrigados a racionar energia. A crise acabou afetando a economia e consequentemente provocou uma grande queda na popularidade de FHC. No início de seu segundo mandato, uma forte desvalorização da moeda provocada por crises financeiras internacionais leva o Brasil a uma grave crise financeira que, para ser controlada, teve como consequência um aumento dos juros, o que levou aos juros reais mais altos de sua história e a um aumento enorme na dívida interna. FHC, como é conhecido, criou o Bolsa Escola e outros programas sociais destinados à população de baixa renda (programas que mais tarde seriam transformados em um só pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, com o nome Bolsa Família). Ampliou-se muito, no governo FHC, o investimento privado em educação superior. 4 Um olhar... “Uma verdadeira viagem de descoberta não é a de pesquisar novas terras, mas de ter um novo olhar”. Marcel Proust A fim de verificar a identidade do presidente Fernando Henrique Cardoso, do povo e do Brasil, construídos em seus discursos de posse, optamos por apresentar alguns fragmentos dos mesmos e os possíveis efeitos de sentido criados por estes. Também, olharemos primeiro o discurso de 1995 e por último o de 1999. Antes, porém, torna-se fundamental verificar as cenografias em que se encontram inseridos os referidos discursos. Nas palavras de Amossy, 5 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 [...] a cenografia é, assim, ao mesmo tempo, aquela de onde o discurso vem e aquela que ele engendra; ela legitima um enunciado que, por sua vez, deve legitimá-la, deve estabelecer que essa cena de onde a fala emerge é precisamente a cena requerida para enunciar, como convém, a política, a filosofia, a ciência... (AMOSSY, 2005, p. 77). Ainda conforme a autora “o discurso político é igualmente propício à diversidade das cenografias: um candidato poderá falar a seus eleitores como jovem executivo, como tecnocrata, como operário, como homem experiente etc., e conferir os “lugares” correspondentes a seu público.[...] o discurso político mobiliza cenografias variadas uma vez que, para persuadir seu co-enunciador, deve captar seu imaginário, atribuir-lhe uma identidade invocando uma cena de fala valorizada”. (AMOSSY 2005, p.76) Dessa forma, no início do discurso (1995) quando diz -“Permitam que, antes do Presidente, fale aqui o cidadão que fez da esperança uma obsessão, como tantos brasileiros”, instaura uma cenografia em que enunciador e co-enunciadores são cidadãos, transparecendo o princípio de igualdade. Eu, presidente, sou cidadão como você. Na sequência afirma “pertenço a uma geração que cresceu embalada pelo sonho de um Brasil que fosse ao mesmo tempo democrático, desenvolvido, livre e justo. Vem de longe a chama deste sonho. Vem dos heróis da Independência. Vem dos abolicionistas. Vem dos "tenentes" revolucionários da Velha República”. Além de denotar um sentimento de identidade aponta os princípios da social democracia (liberdade, igualdade e justiça social). Traça um perfil histórico do sonho de um Brasil democrático, sempre movido por ideais revolucionários contrários ao governo. O interessante é que apesar de ser oposição ao ex-presidente Fernando Collor, foi apoiado pelo então presidente Itamar Franco. Assim, este “sonho” diz respeito a quê? Quando diz “assim eu vi meus filhos nascerem meus netos, sonhando e lutando para divisar o dia em que o desenvolvimento, liberdade e justiça - justiça, liberdade e desenvolvimento - andariam juntos nesta terra”, procura dar legitimidade à sua fala e reiterar os preceitos da Social Democracia. Esta é considerada a forma ideal de democracia representativa, que pode solucionar os problemas encontrados numa democracia liberal, enfatizando os seguintes princípios para construir um estado de bem estar social: liberdade, igualdade e justiça social. Solidariedade e que seja desenvolvido um senso de compaixão para vítimas da injustiça e desigualdade. Todo o discurso deixa transparecer a ideologia do Partido da Social Democracia Brasileira, denotando a ideia de fidelidade partidária. Isto significa que se o sujeito Fernando Henrique Cardoso, doravante FHC, é fiel aos preceitos do partido a que pertence também o será com as propostas e com o povo brasileiro na figura de Presidente da República. Destarte, a formação discursiva revelada é da Social Democracia e das necessidades prementes de um país que passou por um impeachment, por algumas crises econômicas, que não deseja voltar à ditadura. Para Pêcheux In GADET (1975, p. 160), a formação discursiva é “aquilo que [...], a partir de uma posição dada numa conjuntura dada [...] determina o que pode e deve ser dito”. Talvez pela sua formação superior em Sociologia, constrói seu discurso pautado em fatos históricos a fim de justificar seu posicionamento. Temos, entre outros, o interdiscurso da história e também da religião. Apesar de não ter uma filiação religiosa (muitas vezes disse ser ateu) seu discurso é permeado por ditos cristãos. Refere-se várias vezes à fé e à esperança. Ora, as duas são consideradas virtudes teologais (fé, esperança e caridade). Quando diz “chegou o tempo de crescer e florescer” remete ao dito bíblico de que há um tempo de semear e outro de colher. 6 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 Sabemos que o ‘povo’ brasileiro é um povo religioso, crente em sua fé. Portanto, quando o Presidente FHC apropria-se do já-dito religioso aproxima-se do seu co-enunciador. É uma estratégia para construir sua identidade. A forma como define o cidadão, o povo, o brasileiro em seu discurso fornece pistas para sua (re)construção da identidade. Afirma: “...o meu mandato veio do voto livre dos meus concidadãos”. Da maioria deles, independentemente da sua condição social”. Mas veio também, e em grande número dos excluídos; os brasileiros mais humildes que pagavam a conta da inflação, sem ter como se defender; dos que são humilhados nas filas dos hospitais e da Previdência; dos que ganham pouco pelo muito que dão ao País nas fábricas, nos campos, nas lojas, nos escritórios, nas ruas e estradas, nos hospitais, nas escolas, nos canteiros de obra; dos que clamam por justiça porque têm, sim, consciência e disposição para lutar por seus direitos - a eles eu devo em grande parte a minha eleição”. Quem são os concidadãos que votaram em FHC? Primeiro, eles pertencem a priori a todas as camadas sociais, indo de encontro ao fato de ser considerado presidente da elite. Depois são cidadãos todos aqueles que não se enquadram no terceiro enunciado: os excluídos; os mais humildes, os humilhados, os que ganham pouco, que desejam justiça. Almeida In SILVA trabalha a questão do que é povo: Em vista dos resultados, é possível constatar o que é e o que não é povo no imaginário da sociedade brasileira. Povo é: a) Conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns; b) Conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes; c) Conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, à classe operária, à plebe; d) Conjunto dos cidadãos de um país, excluindo-se os dirigentes e a elite econômica; e) Conjunto de pessoas sem autonomia político-econômica; f) Conjunto de pessoas ingênuas, tolas, ludibriáveis”. () É possível, então, inferir o que não é povo: a) Povo não é governo; b) Não é dirigente e/ou elite econômica; c) Não tem autonomia político-econômica; d) Não é visto/tido/considerado cidadão” [...] A impressão que fica é que povo é sempre um não-eu, é sempre o outro. Entretanto, quando esse “outro” adquire voz e passa a ocupar um lugar discursivo, ele deixa de ser povo, e assim sucessivamente (Almeida In SILVA, 2006, p. 76-77) Destarte, pode-se inferir que para o presidente FHC povo são os excluídos, os humilhados, os humildes, os que ganham pouco. Eles não são vistos nem como cidadãos nem têm autonomia político-econômica. Posteriomente, FHC pronuncia “minha missão, a partir de hoje, é fazer com que essas prioridades do povo sejam também as prioridades do governo”. Reitera a identidade do povo: não é governo e suas prioridades nem sempre são as do governo, mas em seu mandato assim o será. Em seu discurso fica latente que seu governo não será para poucos, isto é a elite. Reforça a construção da identidade de presidente para todas as camadas sociais. Vejamos: “Vou governar para todos. Mas, se for preciso acabar com privilégios de poucos para fazer justiça à imensa maioria dos brasileiros, que ninguém duvide: eu estarei ao lado da maioria”. 7 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 Sabendo que a maioria dos brasileiros não espera milagres, mas há de cobrar resultados a cada dia do governo”. Quem é a maioria dos brasileiros? O povo. O brasileiro é visto como o povo em algumas partes do discurso. “Mesmo porque os brasileiros voltaram a acreditar no Brasil, e têm pressa para vê-lo cada vez melhor. Quando os brasileiros puderem ser mais informados; quando puderem ser mais críticos das políticas postas em prática do que do folclore dos fatos diversos da vida cotidiana”. Porém, quando fala mais afetivamente, quando busca uma maior empatia com seus coenunciadores inclui-se no sintagma ‘brasileiros’. “Nós, brasileiros, somos um povo com grande homogeneidade cultural. Nós, brasileiros, somos um povo solidário”. Ao final, agradece aos cidadãos e cidadãs do Brasil e proclama “Eu os convoco para mudar o Brasil”. Assim, ele convoca os cidadãos e não o povo a mudar o Brasil. Portanto, mesmo afirmando veementemente que o governo será para todos, vislumbramos que neste ‘todos’ não se inclui o povo. O presidente FHC é identificado, então, como presidente da elite, de determinados segmentos sociais. Reeleito, FHC mantêm sua identidade? Observemos o discurso de 1999. Os interdiscursos da história e da religião permanecem em sua fala. “Preparamos o terreno. Plantamos a semente. ...pertenço a uma geração que desde cedo sonhou com a reforma social em nosso país ...” Para ele “o povo brasileiro deu uma demonstração inequívoca, sem precedente por sua dimensão, de crença na democracia”. E no decorrer de seu discurso a identidade do povo continua a mesma da construída no discurso de 1995. No entanto, sobressaem alguns nomes: Nação e Brasil. “Empenharei toda minha capacidade e dedicação para corresponder à expectativa da Nação brasileira”. “Nos últimos anos o Brasil renovou sua fisionomia....” “Reunimos hoje as condições para construir um Brasil efetivamente solidário e mais justo. “O Brasil espera com impaciência por uma nação mais justa”. Nação e Brasil são nomes e designam valores. Segundo Guimarães: A designação de um nome é, tal como já estabeleci em Semântica do Acontecimento (GUIMARÃES, 2002), sua significação enquanto algo próprio das relações de linguagem e também, e por isso mesmo, enquanto uma relação simbólica exposta ao real, enquanto uma relação tomada na história. [...] Dizer o que um nome designa é para mim poder dizer com que outras palavras ele se relaciona no que venho chamando Domínio Semântico de Determinação (DSD) (GUIMARÃES, 2004, p. 04). Ainda neste artigo, Guimarães enfatiza que “nada é uma coisa ou outra em si, mas nas relações específicas que se estabelecem” e acredita ser possível relacionar as palavras que aparecem no mesmo domínio semântico. No caso em questão, as palavras país, nação e o nome gentílico Brasil são empregadas em diferentes contextos nos discursos dos presidentes. Pelas definições acima expostas, percebe-se que o conceito de país diz respeito principalmente à questão territorial, social e política, enquanto Nação é a união de um mesmo povo, com costumes, língua, religião e tradições próprios. Assim, ao enfatizar uma ou outra palavra, o locutor também estará enfatizando ora a questão objetiva ora a subjetiva. O Brasil é o país, meu, nosso país que vai dar certo , e uma nação dos tempos novos, mais justa. Percebe-se assim, ser Brasil determinante de nação, isto é, o conceito tido de Brasil é que vai determinar a nação desejada. Saliente-se o valor positivo dos sintagmas em que se encontra inserida a palavra nação, até mesmo quando propala-se não como nação submissa, não como nação injusta. Silva assim propala: [...] as identidades nacionais não são coisas com as quais nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação. [...] Portanto, a 8 Anais do X Encontro do CELSUL – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná Cascavel-PR | 24 a 26 de outubro de 2012 | ISSN 2178-7751 nação não se constitui apenas numa entidade política mas em algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural. As pessoas não são apenas cidadãos/cidadãs legais de uma nação: elas participam da idéia da nação tal como representada em sua cultura nacional. Uma nação é uma comunidade simbólica (SILVA, 2003, p. 309). Termina o discurso citando o que Sérgio Motta lhe disse por ocasião da reeleição “Não se apequene. Cumpra seu destino histórico. Coordene as transformações do País”. E encerra afirmando “Assim farei.” Ao contrário do 1º discurso em que convoca os cidadãos a mudar o Brasil, agora se encarrega da missão. Constrói uma identidade de transformador, de um salvador da Pátria que instaura um marco histórico com a reeleição, com o Real. Considerações finais Dessa forma, os discursos de posse do presidente revelam muito não só de suas propostas, mas principalmente de suas filiações ideológicas e das formações discursivas de que deriva. Propiciam aos leitores uma reflexão acerca da malha política e ideológica tecida nos bastidores do governo federal. Enfim, fazemos nossas as palavras de Deleuze e Parner (apud Coracini, 2003): Falar de identidade e de linguagem é transformar o sujeito numa palavra de intervalo no decurso de sua vida e de sua história e essa palavra comprometida não é senão o próprio sujeito por intermédio do discurso, por esse discurso inconsciente que nos habita e que é construído por um eu a partir de um outro numa alteridade sem limites. Porque ‘nós somos desertos, mas povoados de tribos, de faunas e de flores. Passamos nosso tempo a organizar essas tribos, a dispô-las de outro modo, a eliminar algumas, a fazer prosperar outras. E todos esses povos, todas essas multidões, não impedem o deserto, que é nossa própria a-cena, ao contrário, eles o habitam, passam por ele, sobre ele’ (Deleuze e Parner, 1996, p. 18). O sujeito não pode dispor de seu deserto sem uma história e é sua história (individual e coletiva) que vai ajudá-lo, vai dar-lhe os meios de povoá-lo, de dispô-lo, de fazê-lo prosperar, de eliminar, preservando sua identidade e porque sabemos que todo sujeito é único e singular em seu tempo e em seu espaço (CORACINI, 2003, p. 24). Referências ALMEIDA, G. M. de B. Povo no dicionário e no jornal: relações de sentido. In: SILVA, S. M. S. da (org). Os sentidos do povo. São Carlos: Claraluz, 2006. AMOSSY, R. (org.) Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005. ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos do Estado. 7 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985. CORACINI, M. J. R. F.(org.) Identidade & Discurso: (des)construindo subjetividades. 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