UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA NOVAS RURALIDADES E A ROTA DO CAFÉ ESPECIAL, NO MUNICÍPIO DE CARMO DE MINAS Patrícia Augusta Amaral Torga Conselheiro Lafaiete 2011 2 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA NOVAS RURALIDADES E A ROTA DO CAFE ESPECIAL, NO MUNICÍPIO DE CARMO DE MINAS Patrícia Augusta Amaral Torga Monografia apresentada na Disciplina Trabalho de Conclusão de Curso I do Curso de Graduação em Geografia (bacharelado) à distância da UFMG sob orientação da Prof. Maria Aparecida dos Santos Tubaldini. Conselheiro Lafaiete 2011 3 TORGA, Patrícia Augusta Amaral. Novas Ruralidades e a Rota do Café Especial, no Município de Carmo de Minas. Patrícia Augusta Amaral Torga, 2011. 87p. Monografia apresentada na Disciplina Trabalho de Conclusão de Curso I do Curso de Graduação em Geografia (bacharelado) à distância da UFMG sob orientação da Prof. Maria Aparecida dos Santos Tubaldini. 4 Patrícia Augusta Amaral Torga NOVAS RURALIDADES E A ROTA DO CAFE ESPECIAL, NO MUNICIPIO DE CARMO DE MINAS Monografia apresentada na Disciplina Trabalho de Conclusão de Curso I do Curso de Graduação em Geografia (bacharelado) à distância da UFMG. Conselheiro Lafaiete, 2011 _____________________________________________ Titulo acadêmico e nome do orientador Instituição a que pertence ________________________________________________ Titulo acadêmico e o nome do membro da banca examinadora Instituição a que pertence ___________________________________________________ Titulo acadêmico e o nome do membro da banca examinadora Instituição a que pertence 5 Dedico este projeto a todos aqueles que de alguma forma me ajudaram nesta dura empreitada como mulher, mãe, estudante, pesquisadora... nesta jornada do dia a dia. Especialmente ao meu marido incansável ao meu lado, e perdão aos meus filhos pelas horas que não pude estar com eles em momentos importantes dos últimos quatro anos pela dedicação à esta jornada. À Gui, pelo seu exemplo de coragem, sempre a ser seguido...o meu muito obrigado!! Neste momento presto as minhas homenagens e os meus sinceros agradecimentos. 6 Num salão de Paris a linda moça, de olhar gris, toma café, Moça feliz. Mas a moça não sabe, por quem é, que há um mar azul, antes da sua xícara de café; e que há um navio longo antes do mar azul... E que antes do navio longo há uma terra do sul; e antes da terra um porto, em contínuo vaivem, com guindastes roncando na boca do trem e botando letreiros nas costas do mar... E antes do porto um trem madrugador sobe-desce da serra sem gritar, sem parar, nas carretilhas que zunem de dor... E antes da serra está o relógio da estação... Tudo ofegante como num coração que está sempre chegando, palpitando assim. e antes dessa estação se estende o cafezal. E antes do cafezal está o homem, por fim, que derrubou sozinho a floresta brutal. O homem sujo de terra, o lavrador que dorme rico, a plantação branca em flor, e acorda pobre no outro dia...(não faz mal) com a geada negra que queimou o cafezal. A riqueza é uma noiva, que fazer? 7 que promete e que falta sem querer... Chega a vestir-se assim, enfeitada de flor, na noite branca que é o seu véu nupcial, mas vem o sol, queima-lhe o véu, e a conduz loucamente para o céu arrancando-a das mãos do lavrador. Quedê o sertão daqui? lavrador derrubou. Quedê o lavrador? está plantando café. Qudê o café? Moça bebeu. Mas a moça, onde está? está em Paris. Moça feliz (Cassiano Ricardo Leite) CAVALCANTI, Di. Colheita de Café 8 RESUMO: A História do café se confunde com a própria História do Brasil. Trata-se de um produto tipicamente adaptado e de grande importância econômica para o país desde os seus primórdios, no cenário nacional e internacional. Aliado ao “Ciclo do Café” o Brasil deu os primeiros passos para a industrialização e a urbanização. A Oligarquia Rural, os grandes Barões do Café, foram os responsáveis por inserir o país no cenário econômico nacional e internacional. O estado de Minas Gerais esteve presente nessa História e é o maior estado produtor atualmente representando 52% da produção nacional do café. Em busca de excelência a microrregião da Serra da Mantiqueira face sul de Minas gerais, procura aliar os aspectos físicos (clima e relevo) aos aspectos sociais e humanos (históricos, responsabilidade social e sustentabilidade) para o agronegócio dos cafés especiais. A cafeicultura de Altas Montanhas possui as condições naturais propícias, o manejo específico, agregando valor ao produto, que já insere no circuito internacional o nome de Carmo de Minas. Aliado ao agronegócio nasce uma nova forma de conceder maior visibilidade ao produto e desenvolver o potencial turístico da região como “Rota do Café Especial” ou “cafés gourmets”. O turismo rural apresenta-se como “novas ruralidades”, no cenário da microrregião. Ainda em busca da “Denominação Geográfica” do produto da região, o café representa a consolidação dos municípios envolvidos em celeiro de grãos selecionados, qualidade, responsabilidade social, e os inscreve definitivamente na rota do agronegócio de “cafés especiais”. PALAVRAS CHAVE: café, agronegócio, novas ruralidades, denominação Geográfica. 9 ABSTRACT The History of Coffee is intertwined with the history of Brazil itself. This is a product typically adapted and of great economic importance to the country since its inception, the national and international scene. Coupled with the "coffee cycle" Brazil took the first steps towards industrialization and urbanization. The Oligarchy Rural, large Coffee Barons were responsible for entering the country at the national and international economic scenario. The state of Minas Gerais was present in that history and is currently the largest producing state accounting for 52% of national production of coffee. In search of excellence micro region of Mantiqueira south side of Minas Gerais, seeks to combine the physical (climate and topography) to the social and human aspects (historical, social responsibility and sustainability) for agribusiness specialty coffee. The High Mountains of coffee has favorable natural conditions, the specific management, adding value to the product, which falls on the international circuit since the name of Carmo de Minas. Allied to agribusiness comes a new way of providing greater visibility to the product and develop the tourist potential of the region as "specialty coffee route" or "gourmet coffees." Rural tourism is presented as "new countryside", the scene of the microregion. Still in search of "geographical designation" Product of the region, coffee represents the consolidation of the municipalities involved in the grain barn selected, quality, social responsibility, and definitely falls on the route of agribusiness: the "specialty coffee." KEYWORDS: coffee, agribusiness, specialty coffees, new rural, geographical name. 10 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Mapa da linha sulmineira que encampou três ferrovias: Minas e Rio, Sapucay e Muzambinho........................................................................................pag. 23 Figura 2: O Titulo da Cidade.................................................................................pag.40 Figura 3, O Produto Regional................................................................................pag.40 Figura 4: O Café do Brasil....................................................................................pag. 40 Figura 5: Circuito Turístico Terras Altas da Mantiqueira....................................pag. 41 Figura 6: Mapa dos municípios que compõem a microrregião e seu detalhe no mapa de Minas....................................................................................................................pag. 41 Figura 7: Circuito das Águas, do qual faz parte a cidade de São Lourenço.........pag. 42 Figura 8: Divisão Territorial dos Municípios dos Circuitos Turísticos de MG........................................................................................................................pag. 43 Figura 9: O selo de IP trará vários benefícios para a microrregião, tais como proteção, reconhecimento,agregação de valor,desenvolvimento sustentável, visando sempre o lucro coletivo........................................................................................................pag. 48 Figura 10: Municípios que integram a região do IP.............................................pag. 49 Figura 11: O tão almejado selo de IP...................................................................pag. 51 Figura 12: A diversidade de Cafés no Brasil........................................................pag. 52 Figura 13: O Esquema de Rastreabilidade da Família Sertão...............................pag. 53 Figura 14: O cuidado nas “ruas” das lavouras......................................................pag. 54 Figura 15: A derriça manual na plantação............................................................pag. 54 Figuras 16, 17, 18: Saca Padrão de 60 kg do Café premiado da Fazenda Santa Inês........................................................................................................................pag. 55 Figuras 19, 20: Japoneses e Carmenses em Feiras Internacionais, sempre bons negócios.................................................................................................................pag. 55 Figura 21: Panorama Geral da Serra da Mantiqueira............................................pag. 57 Figura 22: Cachoeiras e Corredor de Mata Atlântica bem preservado.................pag. 58 Figura 23: Vista da Sede colonial da Fazenda Sertão atualmente descaracterizada por reformas................................................................................................................pag. 60 Figura 24: Marco da Sede Colonial......................................................................pag. 61 Figura 25: Matriarca que ainda reside no município............................................pag. 61 11 Figuras 26, 27: As faixas de “Grande Campeã”, não deixam dúvidas sobre a qualidade e o compromisso na produção “Café com Leite”.................................................pag. 62 Figura 28: A moradia dos colonos, a simplicidade das habitações contrasta com o agronegócio altamente lucrativo que as rodeiam..................................................pag. 63 Figura 29: Escola Rural dentro da propriedade, a responsabilidade social presente..................................................................................................................pag. 64 Figura 30: A Paisagem Rural, objeto de consumo das novas ruralidades.............pag. 64 Figuras 31, 32: O caminho que conduz a experiências sensoriais na Rota do Café Especial................................................................................................................pag. 65 Figura 33: Parada no Mirante Central....................................................................pag. 65 Figura 34: “Cafés até onde a vista alcança”..........................................................pag. 65 Figuras 35, 36: Os topos de morros cobertos pela lavoura com a imponência da Serra da Mantiqueira ao fundo........................................................................................pag. 66 Figura 37: Detalhe da plantação “morro acima”...................................................pag. 67 Figura 38: O movimento do maquinário em plena colheita..................................pag. 67 Figuras 39, 40: Turistas ouvem atentamente as explicações sobre como se tomar café........................................................................................................................pag. 68 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Participação da produção cafeeira da zona da mata na produção do estado de Minas Gerais (períodos selecionados)...................................................................pag. 21 Tabela 2: Produção Cafeeira dos municípios que compõem a microrregião de São Lourenço................................................................................................................pag. 50 12 LISTA DE SIGLAS ABCE- Associação Brasileira de Cafés Especiais ABIC- Associação Brasileira da Industria de Café APROCAM- Associação dos produtores de Carmo de Minas BSCA- Brazil Speciaaly Coffe American CAI – Complexo Agroindustriais CICAFE- Centro de inteligência do Café COCARIVE- Cooperativa dos Agricultores do vale do Rio Verde CONAB- Companhia Nacional de Abastecimento CULTUR – Festival de Cultura e Turismo de Carmo de Minas DO – Denominação de Origem FJP – Fundação João Pinheiro IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICMS- Imposto Circulação sobre Mercadorias IG – Indicação Geográfica IMA- Instituto Mineiro Agropecuário INDI- MG Instituto Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais INPE – Instituto de Pesquisas Espaciais IP- Indicação de Procedência LEADER- Ligações para o Desenvolvimento Rural da União Européia RSM- Região Sulmineira SAG – Sistemas Agropecuários SEBRAE- Serviço Brasileiro de apoio às Micro e Pequenas Empresas UFLA- Universidade Federal de Lavras USP – Universidade de São Paulo 13 SUMÁRIO: 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 14 1.1 Justificativa ....................................................................................................................... 16 1.2 Objetivos............................................................................................................................ 17 1.3 Aspectos Teóricos e Metodológicos ................................................................................. 18 2. INTRODUÇÃO E EXPANSÃO DO CAFÉ NO SUL DE MINAS ................................20 2.1 As Novas Ruralidades: O Turismo Rural e o Agroturismo .........................................26 2.2 O Território para o Turismo Rural ................................................................................ 32 2.3 O Novo Rural .................................................................................................................... 36 2.4 A Microrregião no Quadro Turístico Sul Mineiro ........................................................41 2.5 Território e a Estratégia da Indicação Geográfica.......................................................45 3. O QUADRO NATURAL DA MICRORREGIÃO .......................................................... 57 4. A ROTA DO CAFÉ ESPECIAL....................................................................................... 60 ANEXOS ................................................................................................................................. 74 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 82 14 1. INTRODUÇÃO A História do café se confunde com a própria História do Brasil. Trata-se de um produto tipicamente adaptado e de grande importância econômica para o país desde os seus primórdios, no cenário nacional e internacional. Aliado ao “Ciclo do Café” o Brasil deu os primeiros passos para a industrialização e a urbanização. A Oligarquia Rural, os grandes Barões do Café, foram os responsáveis por inserir o País no cenário econômico nacional e internacional. O café no Brasil é força matriz cultural e econômica desde a sua aclimatação ocorrida nos estados do Pará e do Maranhão, sendo em seguida trazida para o Rio de Janeiro em 1760. O café ocupou a região sulmineira no início do século XVIII e com os tropeiros se expandiu por todos os caminhos que levavam às áreas de mineração do estado, tronando-se assim a mais importante cultura regional. Sua expansão trouxe consigo, as ferrovias, a eletricidade, o desenvolvimento de cidades, o comércio local e regional, a criação de bancos e indústrias. A proximidade do estado de São Paulo com o sul de minas propiciou uma rápida transformação econômica regional e uma influência cada vez maior da cultura paulista nos municípios do sul de Minas Gerais. Historicamente a expansão cafeeira ocorreu num segundo período de ocupação, quando se deu o desbravamento e ocupação das áreas de terras roxa na região oeste do Vale do Paraíba Paulista, ocupando-se também os planaltos sul mineiro. Entre auges e revezes políticos e econômicos a região se firmou com alta produtividade, o que pode ser constatado até hoje, contando com melhorias na qualidade do produto e Especializando-se nos Cafés Especiais e Café Gourmet. Essa diferenciação na produção e excelência foi um meio encontrado pela microrregião para se destacar no mercado nacional e internacional. Minas Gerais, segundo dados da Companhia Nacional do Abastecimento (2010), é o primeiro estado produtor do país contribuindo com 50,8 % da safra brasileira de produção de café, que no ano de 2010 atingiu em torno de 48,09 milhões de sacas. As principais regiões produtoras são o Sul de Minas Gerais com 12.616,0 sacas (26,1%), seguidos pelo Cerrado com 5.652,0 sacas beneficiadas. Trata-se de uma região econômica importante e tradicional para o estado e para o país. O café lidera as vendas internacionais do agronegócio mineiro seguido pela exportação do minério de ferro, segundo dados divulgados na imprensa em dezembro de 2010, pela Secretaria da Agricultura do Estado de Minas Gerais. . 15 Em busca de excelência e especialização da produção cafeeira a microrregião da Serra da Mantiqueira face sul de Minas gerais, procura aliar os aspectos físicos (clima e relevo) aos aspectos sociais e humanos (históricos, responsabilidade social e sustentabilidade) para o agronegócio dos cafés especiais. A cafeicultura de Altas Montanhas possui as condições naturais propícias, o manejo específico, agregando valor ao produto, que já insere no circuito internacional o nome de Carmo de Minas. Aliado ao agronegócio nasce uma nova forma de conceder maior visibilidade ao produto e desenvolver o potencial turístico da região como “Rota do Café Especial” . Segundo o Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (INDI) o consumo de cafés especiais cresce de 10 a 15%, enquanto que o tradicional aumenta de 1 a 1,5% ao ano. (INDI, 2006). A expansão das cafeterias e a procura por Cafés Gourmets e Especiais levaram os produtores a buscarem estratégias, a fim de competirem junto às novas oportunidades do agronegócio. Os Cafés especiais englobam quatro categorias sensoriais: doçura, amargor, acidez e aroma - sendo vendidos por preços “prêmios”, pela percepção de sua alta qualidade e/ou pela denominação geográfica. A professora Maria Sylvia Saes, do Programa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo – Pensa / USP, em seu trabalho “Diagnóstico Sobre o Sistema Agroindustrial de Cafés Especiais e Qualidade Superior do Estado de Minas Gerais”, assim definiu conceito de cafés especiais: O conceito de cafés especiais está intimamente ligado ao prazer proporcionado pela bebida. Destacam-se por algum atributo específico associado ao produto, ao processo de produção ou ao serviço a ele associado. Diferenciam-se por características como qualidade superior da bebida, aspecto dos grãos, forma de colheita, tipo de preparo, história, origem dos plantios, variedades raras e quantidades limitadas, entre outras. Podem também incluir parâmetros de diferenciação que se relacionam à sustentabilidade econômica, ambiental e social da produção, de modo a promover maior eqüidade entre os elos da cadeia produtiva. Mudanças no processo industrial também levam à diferenciação, com adição de substâncias, como os aromatizados, ou com sua subtração, como os descafeinados. A rastreabilidade e a incorporação de serviços também são fatores de diferenciação e, portanto, de agregação de valor . (SAES, 2001 p. 68) A Busca pela Indicação Geográfica é parte do desejo dos cafeicultores, que reconhecem nos cafés produzidos na microrregião, a alta qualidade sensorial, que se traduziu na conquista de vários Prêmios Nacionais e Internacionais. A Indicação Geográfica do produto traz consigo uma série de vantagens para o produtor e região, pois além de agregar valor ao produto, reconhecimento da procedência e qualidade, possibilita práticas de agricultura sustentável, valorização do patrimônio cultural da região e desenvolvimento do turismo rural. 16 Os aspectos fisiográficos da região, sua paisagem exuberante, clima extremamente agradável, viabiliza a distinção do Parque cafeeiro como um atrativo turístico a mais para a região já consolidada como roteiro turístico do Circuito da Águas. O turismo rural apresentase como “novas ruralidades”, no cenário da microrregião. Ainda em busca da “Denominação Geográfica” do produto da região, o café representa a consolidação dos municípios envolvidos em celeiro de grãos selecionados, qualidade, responsabilidade social, e os inscreve definitivamente na rota do agronegócio de “cafés especiais”. As novas ruralidades se estendem ao agronegócio trazendo consigo as possibilidades de valorização do patrimônio natural e cultural da região, agregando valor ao produto e melhorando a visibilidade do mesmo. No primeiro capítulo vamos mostrar a constituição dos fatos históricos que moldaram a região sul mineira, ou seja, como historicamente o café penetrou e se estabeleceu na região e os fatores que permitiram o desenvolvimento da cultura cafeeira. No segundo trataremos das Novas Ruralidades, recente paradigma do desenvolvimento rural, que constitui o eixo central do tema estabelecido. No terceiro capitulo a importância do Território no Turismo bem como na participação pela busca da Indicação Geográfica. Por fim a descrição da “Rota dos Café Especial” particularidade do município de Carmo de Minas que procura dar visibilidade ao produto regional usada como estratégia de Turismo Rural para agregar ainda mais valores; social, econômico, ambiental em um produto único: o café Especial! 1.1 Justificativa No ano de 2010, segundo fontes da CONAB o país produziu 48.094,8 de sacas de café de 60 Kg, ocupando o posto de maior exportador do produto, seguido pelo Vietnam. O estado de Minas Gerais participa com 50,8% da produção nacional e a região sul mineira contribuiu com um total de 26,1% sendo a maior região produtora do estado. Com o crescimento do consumo de cafés especiais, e cafés gourmet , bem como o aumento da demanda interna, o país é hoje o segundo maior consumidor, seguindo atrás dos Estados Unidos, o que vem levando e estimulando os produtores a aprimorar a qualidade do produto, concedendo uma maior valorização das características sensoriais presente nos cafés de alta qualidade como aroma, sabor, corpo, acidez e sabor residual. A Microrregião de São Lourenço, em especial Carmo de Minas, tem conseguido agregar valor em novas espécies adaptadas do café Arábica (catuaí , Bourbon, dentre outras) e 17 investindo no processamento do café cereja (despolpamento, desmucilamento, descascamento) tornando-se excelência em cafés de alta qualidade. A região da face sul mineira da Serra da Mantiqueira vem, portanto, se consolidando na Rota do Café Especial, como um importante celeiro de grãos selecionados, valorizando o patrimônio cultural (fazendas centenárias, sustentabilidade, turismo, responsabilidade social) e inscreve definitivamente a cultura cafeeira de qualidade na microrregião. A busca pela “Indicação Geográfica dos Cafés Especiais da face sul da Serra da Mantiqueira” faz parte de um anseio dos produtores da região que se mobilizaram em torno da Associação dos Produtores de café da Mantiqueira (APROCAM), com sede em Carmo de Minas, a fim assegurar qualidade, sustentabilidade, responsabilidade social, valorização e desenvolvimento para a região produtora, o que já é uma realidade, pois vários produtores conquistaram prêmios concedidos pela Associação Brasileira de cafés especiais, Cup of Excellence realizada em parceria com a mesma. Torna-se, pois de extrema importância conhecer o processo pelo qual passa a maior região cafeicultora do estado, suas potencialidades, às novas ruralidades, e a expansão da excelência em cafés especiais, aliando esta commodity de imenso valor econômico, às novas ruralidades - o turismo rural. 1.2 Objetivos Este trabalho tem como objetivo geral compreender a ocupação territorial da região sul mineira com a cafeicultura e os fatores fisiográficos e históricos que a levaram a se tornar a maior produtora de cafés especiais do Estado de Minas Gerais, em busca de excelência. Dentre os objetivos específicos destaca-se: ¾ Compreender a ocupação do território com a cultura cafeeira em seus aspectos históricos e a importância do produto para a região. ¾ Compreender os fatores fisiográficos da região que ajudarão a valorizar o produto, inserindo-o como excelência no agronegócio nacional e internacional. ¾ Investigar a iniciativa dos produtores na busca pela “Indicação Geográfica” do produto que irá agregar valor, renda e desenvolvimento para a região. ¾ Investigar as novas ruralidades com o surgimento do turismo rural, que promovendo o patrimônio cultural e as tradições da região aliado ao agronegócio dos cafés especiais. 18 1.3 Aspectos Teóricos e Metodológicos O instrumental teórico utilizado para a construção desta monografia parte da leitura de artigos, livros, dissertações e teses disponibilizadas em sites e bancos de teses das Universidades na internet. O referencial teórico incluiu o conhecimento e aplicação dos conceitos das categorias geográficas como Paisagem, Escala, Região, Território, Lugar, Espaço, tão inerentes à geografia. A Pesquisa de ordem bibliográfica inclui ainda a leitura, compreensão e “cruzamento de idéias”, baseada na interdisciplinaridade, pelo qual permeia o objeto desse estudo. Aqui, particularmente, a interdisciplinaridade com a História será fundamental para a compreensão da ocupação do território pelo café, dos aspectos regionais e da sua articulação e inserção no cenário mineiro e nacional. Para a abordagem dos aspectos geográficos, foram usados dados do IBGE, bases cartográficas do município e microrregião disponível no Google maps para identificar a Microrregião e sua posição no estado e o quadro natural da região. O acesso aos dados de Institutos de Pesquisa, banco de dados, Fundações, Secretarias Estaduais, Municipais e Ministérios, bem como outros órgãos ligados ao agronegócio irão embasar os gráficos, tabelas e quadros para melhor identificar o crescimento do agronegócio e seus valores. A realização de trabalhos de campo, também é parte fundamental da metodologia, através dos quais serão realizadas entrevistas, roteiro turístico, visitas técnicas ao beneficiamento, armazéns e firmas de exportação além das cooperativas. Esta etapa foi um passo importante para compreender a realidade da região confrontando-a com as bases teóricas a fim de compreender o desenvolvimento e a sustentabilidade dos processos em voga no município. O método de pesquisa utilizada nesta iniciação cientifica a fim de se alcançar os objetivos propostos foi o estudo de caso em si da “Rota dos Café Especial” em Carmo de Minas, com visita a sede da APROCAM (1997) e COCARIVE(1992) . As duas entidades particulares representativas no município são o principal meio de escoamento da produção, armazenamento, ajuda técnica e financeira aos produtores, bem como a seleção e classificação e avaliação dos cafés especiais para concursos nacionais e internacionais. Assim, segundo Yin citado por Dutra (2009, p. 66) o estudo de caso é “uma investigação empírica que investiga um fenômeno e o dentro de seu contexto da vida real, 19 especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos.” As entrevistas foram realizadas com o gerente comercial da Rota do Café Especial, turismólogo, o qual será denominado Gerente 1, e gravações em vídeos durante a Rota propriamente dita na Fazenda Sertão no dia 22.07.2011; objeto de nosso estudo. Essa condição será adotada a fim de se preservar a identidade dos mesmos, apesar de não ter sido imposto como condição na realização da entrevista, mas visa à ética aplicada nas ciências sociais aplicadas. 20 2. INTRODUÇÃO E EXPANSÃO DO CAFÉ NO SUL DE MINAS O Café foi introduzido primeiramente no estado do Pará graças a Francisco de Melo Palheta que em 1727 trouxe as primeiras sementes contrabandeadas da Guiana Francesa. Em 1760 no Rio de Janeiro a planta foi introduzida nos pomares e arredores da cidade, hoje onde se encontra a Floresta da Tijuca, onde se aclimatou. As montanhas que circundavam a cidade do Rio de Janeiro e em cujos vales ela hoje se estende, compreende a região onde se fizeram as primeiras plantações de café, nas matas da Tijuca, onde hoje é um dos mais importantes e aprazíveis arrabaldes da ex-capital brasileira. (PRADO JUNIOR, 1983, p. 117). Segundo Filetto e Alencar (2001) a introdução e expansão do Café na região sul de Minas Gerais, deu-se em três momentos históricos distintos. O primeiro momento, no inicio do século XIX, tendo o tropeiro como o principal ator na introdução das primeiras mudas de café na região sul mineira. Estes seriam então os responsáveis pelo carregamento das primeiras mudas e sementes para o sul de minas através do Caminho Novo que levava as minas até Paraty, como destacam os autores Filetto e Alencar (2001, p.3) “as primeiras culturas de café no sul de minas foram estabelecidas em Aiuruoca, Jacuí e Baependi, no Vale do Sapucaí, em fins do século XVIII, por intermédio dos tropeiros”. Temos suporte também em Valverde citado por Filetto (2001, p.3) onde: Diz-se que os tropeiros vindos de Minas Gerais, então em absoluta decadência, e do vale do Paraíba, deixavam suas mercadorias no Rio e iam carregar as cangalhas de suas mulas com mudas e sementes de café, no Mendanha, antes de subirem a serra de volta. (VALVERDE apud FILETTO, 2001, p. 3) O sul de minas era responsável pelo abastecimento do mercado interno do Estado do Rio de Janeiro, demanda que aumentaria posteriormente com a decadência das minas, e com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil. Caio Prado Jr. nos apresenta a seguir uma passagem de seu livro Historia Econômica do Brasil se referindo ao Sul de Minas: Servi-lhes-à sobretudo o Sul de Minas Gerais, onde se desenvolve uma economia agrária que embora não contando com gêneros exportáveis de alto valor comercial – como se dera com as regiões açucareiras do litoral alcançara um nível de relativa prosperidade. (PRADO JÚNIOR, 1983 p. 65) A mesma situação encontramos nos relatos de Saint Hilaire em sua narrativa de viagem pelo interior do Brasil, em 1822, após passar pelo entreposto de Estrela no estado do Rio de Janeiro pelo Caminho Novo que levava às minas, nos conta que “[…] iniciou o cultivo 21 de algodão em Minas Novas (MG), e começou a exportação de café no sul da Província de Minas, atividades essas que, à época de minha estada no Brasil (1816), tinham sido iniciadas havia poucos anos.” (HILAIRE, 1975 p.23) A existência de uma ampla e diversificada estrutura manufatureira na capitania mineira, e a vocação agropastoril da região já se destacavam incluindo a produção de lingüiça, queijos, carne seca, toucinhos, doces, carnes salgadas, tabaco, aguardente, demonstrando que havia um dinamismo e complexidade considerável em Minas Gerais, bem como a existência de um mercado interno (PAULA, 2000, p.63,64). Ainda segundo Paula (2000), a pecuária sulmineira, experimentou os mais altos níveis de desenvolvimento tecnológico no conjunto da pecuária colonial brasileira, ocupando a posição de destaque na economia regional. Inicialmente o café destinava-se ao consumo próprio e modestamente foi se ampliando para atender a demanda local. Segundo Taunay (1945, p.61) citado por Filetto (2001) a exportação mineira era de apenas 9.739 arrobas no ano de 1818. Sendo que este valor estava agregado ao conjunto da produção da zona da mata mineira. A primeira grande expansão da cultura cafeeira partiu do Estado do Rio de janeiro, alcançando o Vale Paraíba Fluminense, se especializando na monocultura, escravatura, e no latifúndio. Entretanto com as técnicas deficientes no manejo do solo, logo cobra o seu preço e o café encontra no Vale do Paraíba paulista, e a expansão para o oeste o grande momento da produção brasileira. Prado Júnior (1983) faz referência à esse grande momento da expansão oeste no estado de São Paulo, considerado o momento em que a cultura cafeeira não obedece os limites geográficos e alcança o sul do estado de Minas Gerais no inicio do sec. XIX, tendo assim o segundo momento da expansão na região: “nesta nova região do oeste paulista, de relevo unido, as culturas se estendem em largas superfícies uniformes de plantações ininterruptas que cobrem a paisagem a perder de vista. Verdadeiro "mar de café": este nome lhes foi dado e é merecido!” (PRADO JUNIOR, 1983, p.118). A expansão cafeeira da Zona da Mata, após a decadência das minas, ocorreu com a derrubada de matas e florestas em direção ao litoral, processo que não teve início anteriormente pelo temor do contrabando do ouro para o litoral do Rio de Janeiro. Assim o desenvolvimento da cultura cafeeira naquela região foi baseado na monocultura de exportação nas grandes propriedades deixando, em segundo plano, a produção do sul de minas que rapidamente tornou-se a região mais produtora do estado. A Zona da Mata Mineira manteve sua expansão diferente do sul de minas, pois esta se conectou ao estado vizinho do Rio de janeiro, por onde escoava sua produção pelo porto do 22 estado, o principal meio de escoamento para o mercado externo. Temos a situação da Zona da Mata resumida por citado por Castilho (2009, p. 43) e complementada pela tabela a seguir: Em meados de XIX, a Mata era responsável por 99% da produção mineira de café. Principal região cafeicultora do estado até 1920, com uma produção de 81.000 arrobas em 1829/1830, essa região terá um crescimento de produção para aproximadamente 2,5 milhões de arrobas em 1870/1871. Em 1890, 75% da receita de todo o estado advinha de suas taxas pela produção cafeeira. Entre 1870 e 1930, o café vai participar em cerca de 60% do total do valor das exportações de Minas Gerais. Essa região e o Sul, maiores produtores de café a província desde o final do século XIX, serão responsáveis por 86% do total da produção de Minas. A região matense sofreu uma queda em relação ao sul da província no final do século passado (XIX), quando da expansão da lavoura desse produto para essa região, embora a Mata continuasse tendo a maior produção até o início desse século (XX), com cerca de 60% do total do estado. (CASTILHO, 2009 p. 43) TABELA 2 Participação da produção cafeeira da zona da mata na produção do estado de Minas Gerais (períodos selecionados) PERIODO 1847/48 1850/51 1886 * 1888* 1903/04 1926 MINAS GERAIS 745.381 900.264 5.776.866 5.047.600 9.404.136 12.793.977 ZONA DA MATA 743.707 898.184 4.316.067 4.433.800 5.993.425 9.105.543 % TOTAL 99,77% 99,76% 74,71% 87,83% 63,73% 71,17% Fonte: Transcrito de CASTILHO, Fábio F. A. Entre a locomotiva e o fiel da balança. Cabe ressaltar que o café inicialmente carecia de um bom beneficiamento pela simples falta de aparato técnico, conhecimentos agrários necessários e especializações humanas, onde “o café, o algodão, o milho, o feijão são amontoados sob telheiros úmidos e cobertos por couros. Metade se estraga e apodrece e o resto fica consideravelmente deteriorado, graças a uma negligencia que atinge às raias da estupidez”. (ROMERO E ROMERO apud FILETO, 2001 p. 4) A partir de 1830 o Brasil tornou-se o maior produtor mundial de café e “já no ano de 1832, o café ocupou o primeiro lugar na pauta das exportações brasileiras.” (VALVERDE apud FILETTO, 2001 p. 5) O sul de Minas em sua expansão cafeeira evitava as regiões de altitudes da Serra da Mantiqueira, por possuir um relevo movimentado e com altos índices de pluviométricos. Assim o café se deslocou lentamente pela região sendo produzido concomitante à policultura de subsistência e atendendo a demanda local, mas tendo a pecuária como principal produto do mercado interno, como nos lembra Castilho (2009) em sua dissertação: 23 Inicialmente os fazendeiros do Sul de Minas possuíam atividades econômicas diversificadas: investiam na lavoura do café, mas continuavam criando gado – um negócio rendoso e com mercado menos instável, no final do século XIX, a principal atividade econômica local ainda era a pecuária.(CASTILHO, 2009 p. 21) As dúvidas para que se iniciassem as produções em ritmo aceleradas seria a falta de estradas para escoar a produção, a comunicação deficitárias, a enorme distancia entre os portos, elevando assim os custos da produção. É importante destacar que as ferrovias viriam a suprir em parte essa indecisão quanto ao inicio da produção efetiva. Os primeiro trilhos da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro em 1890 atravessaram a região do sul de minas impulsionando os fazendeiros a investir efetivamente nos cafezais. Segundo os estudos de Oliveira e Grinberg “[...] terras férteis em abundância e quase a custo zero, mão-de-obra ociosa, expansão das linhas ferroviárias e, principalmente, um longo período de preços atraente do café explica a rápida expansão cafeicultora no Sul de Minas”. (OLIVEIRA E GRINBERG apud CASTILHO 2009, p. 21) A expansão da malha ferroviária na região sul mineira foi favorecida pelo fator geográfico e de localização na fronteira entre dois estados, que inicialmente alavancaram a expansão cafeeira, Rio de janeiro e São Paulo. A importância desse fenômeno é destacada em: (...) o surto ferroviário alteraria radicalmente as feições da economia cafeeira e sua estruturação no território nacional. “Tendo como vetores as linhas da estrada de ferro, surgiria a rede urbana, definindo-se em grande parte em função da ferrovia os municípios que desempenhariam as funções de centros e pólos regionais.” (SEMEGHINI, 1991, p. 39) 24 O Plano das Linhas em Tráfego na Rede Sul Mineira - 1910 Figura 1: Mapa da linha sulmineira que encampou três ferrovias: Minas e Rio, Sapucay e Muzambinho Fonte: SANTOS, Welber Luiz. A Estrada de Ferro Oeste de Minas: São João Del Rei (1877-1898) 25 Interessa nos aqui salientar que a Companhia The Rio and Minas Railway, foi a primeira a penetrar no sul de minas como um ramal vindo do município de Cruzeiro (SP),e que teve em seus trilhos incluído o município de Carmo de Minas e região, conforme destaca Castilho (2009, p. 20) “nos indica o interesse da região em estreitar laços com São Paulo, direcionando suas estradas de ferro, e conseqüentemente sua produção para aquela província...reforçavam-se os laços entre Sul de Minas e São Paulo”. De acordo com os relatos da História de Carmo de Minas, temos uma semelhança com o trabalho apresentado de Nogueira (2006) em “A construção da Centralidade Urbana de Sete Lagoas”, em Carmo de Minas também houve a interferência de fortes grupos políticos da cidade, na época da construção da Ferrovia Minas-Rio, que uniram-se e conseguiram modificar o traçado da mesma, incluindo a cidade de Carmo de Minas do Rio Verde ( atual Carmo de Minas). Esta história pode ser lida a seguir: Segundo anotações do carmense Sr. Fernando Pena (1915-2006), a Estrada de Ferro Minas-Rio foi construída por uma Companhia Inglesa – a Minas and Rio Railway Company. Quando alcançou Soledade, os deputados Silvestre Dias Ferraz Júnior, Cristiano Correia Ribeiro da Luz e Padre Antônio Ribeiro da Luz se uniram e conseguiram a mudança do itinerário original, visando a passagem da Estrada de Ferro por Cristina, para benefício da então Carmo de Minas do Rio Verde (Prefeitura Municipal de Carmo de Minas, acessado em 20.12.2011) A semelhança da história pode ser confirmada em Sete lagoas no trabalho abaixo: o projeto de expansão dos trilhos da estrada de ferro, obrigatoriamente passaria pelo território mineiro, sendo o trajeto escolhido - a planície do rio das Velhas -, muito distante do sítio urbano de Sete Lagoas. É justamente nesse momento que se pode, pela primeira vez, identificar-se a manifestação da atuação da elite política setelagoana, a qual estrategicamente conseguiu mudar os planos do traçado da ferrovia, de tal modo que ela passasse pelo território setelagoano. Ora, ferrovia, no século XIX, significou progresso e desenvolvimento, enfim, integração econômica, e a elite local não poderia perder tal oportunidade de cessar de vez com o relativo isolamento no qual estava mergulhada a cidade. (Nogueira,2006 p.115) A região por onde a produção cafeeira escoava era conhecida como “Zona de Santos”, e conforme destaca Filetto (2001, p 9), essa denominação explica a extensa ligação do sul de minas com o estado de São Paulo, num futuro não muito distante, tratando-se como zona de desconcentração das indústrias paulistas. Podendo ser verificado no documento Planejamento de Desenvolvimento do Sul de Minas, feito pela Fundação João Pinheiro em 1980. (...) infere-se a posição estratégica da região sul de minas no contexto econômico do Centro-Sul, face às oportunidades que lhe são abertas, tanto no que diz respeito à desconcentração industrial do eixo Rio-São Paulo, quanto às tendências futuras de modernização da agropecuária regional (FJP, 1980 p. 37) 26 Interessante notar que a agricultura do sul de minas, com o fim áureo das minas redirecionou os seus produtos para a corte estabelecida no Rio de Janeiro e nunca esteve decadente como ocorreu com algumas áreas da mineração e experimentou sim, um grande avanço para novos mercados. Tratava-se, pois de produção mercantil de gêneros de subsistência que redirecionou a produção em busca de novos mercados, dando início a uma economia mercantil que ordenará a formação de cafezais e de uma classe dominante com grande prestígio econômico e social. 2.1 As Novas Ruralidades: O Turismo Rural e o Agroturismo O conceito de Turismo Rural é definido no Ministério do turismo como: “conjunto das atividades turísticas desenvolvidas nos meios rurais, comprometidas com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade” (BRASIL, 2008). No entanto, esse conceito não é tão simples assim. O referencial espacial, epistemológico, em que repousa as novas abordagens do espaço rural, onde se desenvolve o turismo em questão tem sido construído e reformulado por diversos autores, podemos citar KAGEYAMA(2008), KAYSER (1990), CARNEIRO (1998), ABRAMOVAY e FAVARETTO (2007), GRAZIANO (1999), WANDERLEY (2001), VEIGA (2003) dentre outros. O caráter das atividades, a questão demográfica, a colonização, a infra-estrutura agrária, as relações sociais, a pluriatividade, a relação com a natureza, são elementos fundamentais para a compreensão do rural. Esses múltiplos diálogos enriquecem o entendimento sobre o espaço rural e evolui para a renovação do mesmo, até atingir o entendimento das transformações ocorridas neste espaço e associá-lo às novas ruralidades, então vejamos. Para Graziano (1997) o mundo rural e os camponeses estavam fadados ao desaparecimento. O camponês seria o bóia-fria, aquele que vive no urbano e presta serviços no mundo rural, sendo um cidadão/trabalhador como outro qualquer, decomposto pela sociedade capitalista avançada sobre o campo, onde já não existe a classe camponesa nem as sociedades rurais. O mundo rural seria então um continuum do urbano, onde se estabelecem relações sociais e econômicas avançadas onde o campo praticamente acabou e a agricultura é uma atividade part- time ou meio horário. 27 Assim a figura do part-time farmer atribuída por Graziano seria: não somente um agricultor ou pecuarista:ele combina atividades agropecuárias com outras atividades não-agrícolas, dentro ou fora de seu estabelecimentos, tanto nos ramos tradicionais urbano-industriais como nas novas atividades que vêm se desenvolvendo no meio rural, como lazer, turismo, conservação da natureza, moradias e prestação de serviços pessoais. [...] Essa é a sua característica nova: uma pluriatividade que combina atividades agrícolas e não agrícolas. (SILVA, 1997 p. 43) O conceito do continuum rural-urbano ganhou mais força após a industrialização e a crescente urbanização brasileira e a aproximação das indústrias com o campo, formando os Complexos Agroindustrais (CAI) somente possível com a Revolução Verde e o avanço do capitalismo na agricultura. O urbano transbordou, ou ainda segundo Lefebvre “explode” em si mesmo e invade o campo colocando de vez um ponto final na dicotomia rural-urbano, já não podemos mais dizer que o rural é o lugar do atraso, do bucólico, encontramos as duas realidades em ambos os espaços. A cidade invade o campo e o modifica e ao mesmo tempo encontramos o rural urbanizado e articulado com as novas atividades econômicas impostas pela globalização, além da valorização do ambiente natural, e a presença de novos atores sociais no campo, como os aposentados, a alta classe média, sitiantes de fim de semana, agitam as sociedades rurais despertando para as “novas ruralidades”.1 Wanderley (2001) percebe a aproximação do urbano com o campo como uma relação que aproxima dois pólos; continuum rural-urbano, antes distantes, mas que se integram e valorizam os dois pontos. As relações entre campo e cidade não significam a destruição ou o fim do rural, mas representam a revalorização do espaço rural e uma profunda ressignificação das funções sociais atribuídas a este espaço isto se torna claro em: Entender as relações campo-cidade como uma via de mão dupla, na qual, do ponto de vista teórico, as assimetrias e descontinuidades não significam necessariamente desequilíbrios, mas relações de complementaridade pelas quais as funções recíprocas se alimentam e são intercambiadas. (WANDERLEY, 2009 p. 12) 1 Conceito definido por: LOTTICI KRAHL, Mara Flora. In: Turismo Rural: conceituação e características básicas. Dissertação de Mestrado. Brasília: GEA/IH/UnB, 2003: 30.: Ruralidade: valor que a sociedade contemporânea concebe ao rural e que contempla as características mais gerais do meio rural: a produção territorializada de qualidade, a paisagem, a biodiversidade, a cultura e certo modo de vida, identificados pela atividade agrícola, a lógica familiar, a cultura comunitária, a identificação com os ciclos da natureza. 28 Em Kageyama (2004) encontramos um longo debate sobre a definição do rural onde: a definição de rural é praticamente inesgotável, mas parece haver um certo consenso sobre os seguintes pontos: a) rural não é sinônimo de e nem tem exclusividade sobre o agrícola; b) o rural é multissetorial (pluriatividade) e multifuncional (funções produtiva, ambiental, ecológica, social); c) as áreas rurais têm densidade populacional relativamente baixa (o que pode mesmo constituir sua própria definição legal); d) não há um isolamento absoluto entre os espaços rurais e as áreas urbanas. Redes mercantis, sociais e institucionais se estabelecem entre o rural e as cidades e vilas adjacentes. (KAGEYAMA, 2004 p. 385) Aqui a pluriatividade aparece juntamente com o multissetorial, o que também é importante para Carneiro (1998) onde o agricultor pluriativo seria aquele que faz “renascer” o estilo camponês; capaz da diversificação da produção atenta as potencialidades não mais de um estabelecimento familiar com suas lógicas produtivistas, mas no âmbito de um território específico, onde novos atores sociais contribuiriam para a formação de novos mercados (“nichos”) sustentados na relação entre produtor e consumidor. Temos, portanto em Carneiro (1998) o agricultor (pluriativo) teve de reinventar a sua ocupação demonstrando uma grande capacidade inovadora que lhe permitiu permanecer no campo. Inventar uma nova lógica de funcionamento do seu estabelecimento e de distribuição da capacidade de trabalho[...] a preocupação com o meio ambiente, com a qualidade de vida e com a qualidade dos alimentos aproximou o agricultor pluriativo do modo de praticar agricultura de seus antepassados – os camponeses- sem, no entanto,deixar de estar atento à novas tecnologias e à novas inserções econômicas e sociais que a sociedade contemporânea oferece. (CARNEIRO, 1998 p. 9 ) Encontramos em Veiga (2003) talvez o maior “provocador” de teorias acerca do conceito rural. Este se baseia primeiramente e principalmente nos dados estatísticos disponibilizados pelo IBGE, em sua arcaica metodologia definições de urbano/rural, o autor chega mesmo a chamar de “equívocos” os dados sobre a taxa de urbanização brasileira. Com as conclusões do autor, que é defensor ferrenho de políticas publicas de desenvolvimento rural, Tubaldini (2011) nos ajuda a concluir que; uma vez que somente uma pequena parcela da população habita o campo, ou seja, em áreas essencialmente rurais, não faz sentido investir em tais políticas, pois para o mesmo o Brasil é Urbano. No entanto algumas considerações no livro de Veiga, Cidades Imaginárias (2002) após tantas críticas, fez com que pesquisadores como Ana Fani e Ariovaldo Oliveira (2004) suscitassem sobre a necessidade, mais uma vez de se trazer à tona a discussão sobre a relação cidade/campo no mundo globalizado. Neste, os lugares assumem vital importância para o capital e o Estado impõe as relações de produção enquanto dominação do espaço, 29 imbricando espaços dominados/dominantes para assegurar a reprodução da sociedade. (OLIVEIRA, 2004 p.56) Para Kayser, citado por Wanderley (2000) temos; O “rural” é um modo particular de utilização do espaço e de vida social. Seu estudo supõe, portanto, a compreensão dos contornos, das especificidades e das representações deste espaço rural, entendido, ao mesmo tempo, como espaço físico, lugar onde se vive, e lugar de onde se vê e se vive o mundo. (KAYSER apud WANDERLEY,2000 p. 143) O “renascimento do rural” para o autor nos remete às “novas ruralidades”, presente nas relações sociais como econômicas imbricadas no território onde se desenrolam as estratégias e iniciativas dos autores locais, que podem gerar conflitos ou manter a ordem de dominação nos grupos sociais. O desenvolvimento do rural faz parte de um projeto coletivo integrado, onde a nível local partem demandas e iniciativas locais articulando-se com projetos nacionais e supranacionais. (KAISER, 1994 p.109) As “novas ruralidades” impõem ao agricultor essa tomada de decisão, a racionalização da vida rural no mundo contemporâneo, expressão utilizada por Favareto (2007) quando contempla que; As habilidades agora exigidas para a gerencia e boa performance dos estabelecimentos rurais não podem mais se resumir àqueles conhecimentos transmitidos de pai para filho. As novas dinâmicas econômicas que condicionam a atividade agrícola ou outras realizadas nos estabelecimentos rurais impõem um maior grau de exigência quanto a habilidades gerenciais, de identificação e conquista de mercados específicos, conversão de produtos e culturas. Aspectos, enfim, que pressupõem um maior domínio técnico sobre o tradicional trabalho rural. (FAVARETO, 2006 p. 178-179) Para a instalação de uma atividade de turismo rural dentro de sua propriedade é preciso levar em consideração, que se trata de uma prestação de serviços, onde a demanda depende da oferta, qualidade dos serviços, e de uma avaliação constante do negócio, não perdendo o foco do seu objetivo principal; a valorização do produto, agregando ainda mais valor aos novos nichos do mercado. Assim nos lembra Wanderley (2009) que; Não menos importante, o acesso a empregos, bens e serviços, no interior das próprias áreas rurais e nos centros urbanos, expressa uma demanda, particularmente, das famílias agrícolas. (WANDELEY, 2009 p.77, grifos meus) 30 O estabelecimento do Turismo Rural na propriedade constitui uma nova atividade que pode levar ao “desmonte” e a especialização das unidades produtivas, o crescimento da prestação de serviços, a formação de redes dentro dos distintos complexos agroindustriais, o crescimento do emprego rural não-agrícola e a melhoria das condições de vida e lazer no meio rural. (SILVA, 1997) Temos, portanto as profundas transformações que ocorreram no meio rural principalmente nas relações de produção e trabalho, decorrentes do processo de intensificação da globalização e da modernização da agricultura, capaz de receber investimentos, de se inserir numa cadeia global, e transformar o camponês em um agricultor familiar moderno. As mudanças no espaço e a apropriação do território são “vividas” e sentidas pelos indivíduos que compõem a sociedade rural. A integração com o “novo”, no sentido de assimilar a apropriação do espaço, introduzindo técnicas modernas, a regulação capitaltrabalho, e ainda atribuindo outro sentido no trato com a natureza, leva ao “estabelecimento de estratégias por parte dos indivíduos a enfrentarem a territorialização do espaço” com atitudes de conservação e transmissão de seus valores sócio-culturais, em “modelo original” que exerce papel fundamental no modo de funcionamento da agricultura familiar. (LAMARCHE, 1993). O vínculo ao território compreende uma das particularidades do rural, estreita laços entre o homem e a terra que ultrapassa o sentido econômico e constitui a verdadeira dimensão da ruralidade. O Programa LEADER (Ligações para o Desenvolvimento Rural da União Européia), criado na União Européia em 1991, fez com que muitos países programassem políticas públicas de modo a revitalizar os territórios rurais adotando práticas que buscassem o desenvolvimento da sociabilidade, integração entre os espaços rurais e urbanos além da transformação socioeconômica com o objetivo de diminuir a pobreza no campo, evitando a descaracterização das paisagens e da identidade da população local, inserindo, assim, o turismo rural nos estudos e projetos governamentais (BRASIL, 2010). Esta nova abordagem de desenvolvimento pode ser constatada em Meyer e Muheim (1996/97) citado por Wanderley (2000 p. 101) onde esclarecem que os recursos naturais e culturais locais são explicitamente percebidos como fatores que podem favorecer o desenvolvimento local, inclusive em sua dimensão econômica, ao se constituir como fonte de emprego e de renda para parte significativa da população local. É, portanto, nesse ambiente de renovação e vitalidade do espaço rural que se inserem as novas ruralidades, a partir de uma abordagem onde os habitantes, a cultura local e as atividades rurais representam 31 oportunidades de valorização dos produtos regionais. Para Campanhola e Graziano da Silva (1999, p 16) o turismo rural: (...) constitui-se numa forma de valorização do território, pois ao mesmo tempo em que depende da gestão do espaço rural para o seu sucesso, contribui para a proteção do meio ambiente e para a conservação do patrimônio natural, histórico e cultural do meio rural. Constitui-se, portanto, em um instrumento de estímulo à gestão e ao uso sustentável do espaço local, que deve beneficiar prioritariamente a população direta e indiretamente envolvida com as atividades turísticas. Ainda segundo o Ministério do Turismo, algumas localidades têm adotado esse tipo de atividade uma vez que: Turismo Rural propicia o contato direto do consumidor com o produtor rural que, além de vender produtos serviços de hospedagem, alimentação e entretenimento, pode comercializar in natura (frutas, ovos, verduras) ou beneficiados (compotas, queijos artesanato) aos visitantes. Dessa maneira, o produtor incrementa a sua renda e o turista tem acesso a produtos de qualidade e acessíveis. (BRASIL, 2010). O Turismo Rural é um exemplo das novas ruralidades em prática no município de Carmo de Minas, com um duplo caráter, primeiro buscando a atividade turística como forma de agregar valor e visibilidade ao produto, e segundo valorizando o patrimônio natural e histórico da região. Nessa perspectiva há a necessidade de se diferenciar dois conceitos que dialogam dentro da atividade turística nos espaços rurais, o turismo rural e o agroturismo. Segundo Graziano o Turismo Rural na Agricultura Familiar consiste em uma: (...) atividade turística que ocorre no âmbito da unidade de produção dos agricultores familiares que mantêm as atividades econômicas típicas da agricultura familiar, dispostos a valorizar, respeitar e compartilhar seu modo de vida, o patrimônio cultural e natural, ofertando produtos e serviços de qualidade e proporcionando bem estar aos envolvidos.” (GRAZIANO DA SILVA et al.,1998 p.14) Ainda segundo este autor, o conceito de Agroturismo seria composto por: (...) atividades internas à propriedade, que geram ocupações complementares às atividades agrícolas, as quais continuam a fazer parte e do cotidiano da propriedade, em menor ou maior intensidade. Devem ser entendidas como parte de um processo de agregação de serviços e bens não materiais existentes nas propriedades rurais (paisagem, ar puro, etc.) a partir do “tempo livre” das famílias agrícolas, com eventuais contratações de mão de obra externa.” (GRAZIANO DA SILVA et al., 1998 p. 14) 32 A Agricultura Familiar é definida pela Lei 11326, de 24 de julho de 2006 como: (...) aquela que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos: I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II – utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III – tenha renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento; IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família (Brasil, 2006) Temos então, o turismo rural associado à produção familiar que compreende um espaço próprio da produção agropecuária, com mão de obra estritamente familiar, e a família detentora dos meios de produção, administrando com sua lógica a propriedade, principal meio de obtenção de renda com essas atividades econômicas. Já o agroturismo constitui uma abordagem que também engloba o turismo rural, ou turismo no espaço rural, assim neste trabalho vamos considerar as duas terminologias como sinônimas, pois englobam em si características e critérios das ruralidades no campo. Em suma as definições aqui expostas pressupõem que o “Turismo Rural Agricultura Familiar, pressupõe o Agroturismo, que pressupõe o Turismo Rural, que pressupõe o Turismo no Espaço Rural” (BRASIL, 2006). Desse modo, dentro do nosso contexto regional sabemos que o Café possui um caráter econômico expressivo, e a expansão do Café do Cerrado no noroeste de Minas, cafeicultura essa mais recente e com alta tecnologia, gera a necessidade de estratégias para sobrevivência dos agricultores familiares menos modernizados no mercado nacional e internacional. As condições edafoclimáticas da região, a especialização em novas adaptações do café arábica, a qualidade dos grãos selecionados, o manejo específico, a preocupação com a forma responsável e sustentável da produção levou os produtores a considerarem a atividade turística dentro do espaço rural como alternativa, uma vez que a busca pela indicação geográfica já fora iniciada, o turismo rural viria somar e dar maior visibilidade ao produto e valorizando a origem geográfica. 2.2 O Território para o Turismo Rural O território, categoria geográfica, se refere a linhas de abordagem, social, política, econômica, cultural, ambiental. Para Haesbaert citado por Souza e Pedon ( 2007, p.131) o enfoque político constitui um “recorte” espaço-poder, delimitado e gerido jurídico e politicamente pelas elites rurais. Na abordagem cultural o território é “vivido” pelos agentes 33 sociais, profundamente enraizados de lembranças, memórias, experiências. Na abordagem econômica a dimensão territorial se baseia na fonte de recursos disponíveis e a capacidade de realizar trocas, é o espaço onde se expressa a divisão social do trabalho. Há ainda a abordagem natural, na qual o território é tido como espaço natural de estreita ligação com os seres humanos que o habitam, uma co-relação de afeto com o ambiente físico. Nos territórios rurais as características naturais correspondem um grande trunfo particularmente junto ao turismo. A dimensão territorial do desenvolvimento desperta, cada vez mais, o interesse de pesquisadores sociais que vêem no território, uma categoria geográfica, uma organização complexa de laços que vão além dos atributos naturais e dos custos de transporte e comunicação. (ABRAMOVAY apud MOREIRA, 2006). Diferentemente de Veiga (2002), discutido por Ana Fani (2004); onde o território é apenas um receptáculo das ações do Estado, e não produto concreto da luta de classes travada pela sociedade no processo de produção de sua existência, sociedade esta, capitalista, assentada no trinômio:proletariado, burguesia e proprietários de terra. Oliveira (2004) nos lembra que a construção do território: é, pois simultaneamente, construção/destruição/manutenção/transformação, a unidade dialética, portanto contraditória, da espacialidade que a sociedade tem e desenvolve. Logo, a construção do território é, contraditoriamente, o desenvolvimento desigual, simultâneo e combinado, o que quer dizer: valorização, produção e reprodução. (OLIVEIRA, 2004 P. 40) A própria Fani (2004) em discussão com Veiga (2002) aponta que no plano dos lugares (cidade ou campo) as transformações impostas pelo capitalismo realizam-se de formas contraditórias, produzindo enfrentamentos, separações; o caminho das atividades voltadas para o Turismo no campo, por exemplo, representam as novas relações entre o campo e a cidade, produzindo novas relações sociais, articuladas à expansão do mundo da mercadoria, ao conjunto do território. (OLIVEIRA, 2004 p.58) Interessante notar que à medida que se globaliza a economia e os lugares assumem importante papel estratégico, a propriedade privada da terra/solo (urbano ou rural) que delimita, orienta e condiciona a vida privada, produz o espaço da segregação. O espaço tornado mercadoria pela generalização do processo produtivo generaliza a propriedade privada, englobando espaços urbanos e rurais em uma nova articulação. (OLIVEIRA, 2004 p. 58) 34 No caso de Carmo de Minas, o Território utilizado como Rota Turística serve de herança, base histórica dos agentes coletivos que se utilizando características naturais determinantes (condições endafoclimáticas), ou seja, o meio natural e somando-se à articulação de uma elite, totalmente preparada para enfrentar à nova realidade econômica decorrente da globalização, ou seja, inserção produtiva especializada demandada pelo mercado internacional conseguiu racionalizar o território, com um projeto técnico-econômico moderno, colhendo assim os melhores frutos na competição internacional promovida pela competitividade internacional. O Território também é importante como espaço de vida para os habitantes locais, possui uma história, uma dinâmica social e, portanto, com a integração deste com a lógica do capital monopolista, novos atores se inserem na comunidade local onde um projeto maior, promovido por iniciativas locais, converge para o desenvolvimento, autonomia, integração, em nova trama territorial. Assim, Pernet (1990) citado por Wanderley (2000) nos lembra: o território se constitui como a base espacial da própria atividade agrícola; por um lado, o desenvolvimento da agricultura supõe, cada vez mais, a capacidade de explorar as potencialidades de cada local, oferecendo à clientela produtos cuja qualidade é reconhecida e procurada, precisamente, pela vinculação que possui com a própria localidade. (WANDERLEY, 2000 p. 104) Por outro lado regiões/lugares que se tornam altamente funcionais aos ditames do capital passam a se especializar na produção de determinadas mercadorias, no caso brasileiro um país agroexportador, a dinâmica das regiões agrícolas especializam e tendem cada vez mais a produzir e servir aos interesses do mercado internacional. Neste processo as ações hegemônicas conduzem à competitividade, aprofundam a divisão territorial do trabalho, e o resultado é a fragmentação do território, desequilíbrios e destruição da ordem preexistente no local. E assim temos Pernet (1990) citado por Wanderley (2000) que conclui: O território, completo e estruturado, é também um lugar da articulação, da integração desta agricultura ao sistema econômico e social global, ao aparelho agroindustrial, aos mercados nacionais e internacionais, como ao aparelho do estado, das instancias que geram regulamentações e distribuições das ajudas às que definem a política agrícola. É o espaço de reprodução. ( WANDERLEY, 2000 p. 105) 35 Ao inserir o Território nos espaços de produção vinculados ao mercado internacional estes se tornam mais eficientes (modernização técnico e cientifica) e ao mesmo tempo dependentes dos “humores” da balança comercial, das graves crises econômicas (vale lembrar a crise de 1929), e sociais (êxodo rural, estagnação da econômica local) e “usado” seletiva e corporativamente por grandes empresas multinacionais no circuito espacial da produção cafeeira. Santos (2004) já na década de 90 dá força à discussão sobre o conceito de “território usado”; A essa composição do território tanto técnica como política- quer dizer, fluidez das rodovias, aeroportos, aparelhamento hoteleiro, mão de obra adequada ao quero fazer, sindicatos dóceis ou menos dóceis, governos coniventes ou menos coniventesé o que chamo de território usado. (SANTOS, 2004 p. 34) Este não me parece ser o caso da região sul mineira produtora de café, mas sim do Sudoeste de Minas Gerais (Café do Cerrado), onde os circuitos espaciais de produção e cooperação transformaram a região a partir da década de 70 com a chegada de paranaenses e políticas estatais possibilitaram elevar a região à grande produtora de commodities destinadas à exportação. Conforme nos lembra Filetto (2001) a formação do CAI sul mineiro, imprimindo características de modernidade a atividade cafeeira, não rompeu com uma característica que atualmente agrega valor a cadeia: a tradição na produção de cafés de boa qualidade. (FILETTO, 2000 p. 92) É, pois nesta balança entre o moderno e o tradicional, o arcaico e o dinâmico, que Filetto (2001) conclui; O longo período de constituição da cafeicultura sul mineira que culminou, no período recente, na formação de um CAI cafeeiro, pode ser considerado como um referencial para sua denominação de tradicional região cafeeira (FILETTO, 2000 p.114) Durante quase todo o século XIX, a cafeicultura sul mineira manteve-se internalizada (em bases artesanais) a produção de meios de produção para as fazendas de café e de parte da força de trabalho (a roça de subsistência do colono).(FILETTO, 2000 p. 114) Assim a base do território onde hoje encontra implantada a Rota do Café ESPECIAL, se configura em “novas ruralidades”, com a contribuição da paisagem (ou quadro natural), a guarda e a reprodução das tradições culturais (práticas tradicionais dos agricultores), e a 36 modernidade (polivalencia e pluriativos) conferem ao município hoje o titulo de capital mundial do Café Especial. Filetto (2000) nos ajuda a concluir com; Outra característica desta estrutura tradicional é a falta de especialização, ou seja, a mescla de funções entre as atividades. Embora menos permeada de valores e costumes, onde apesar da industrialização e do surto de urbanização, a vinculação rural da população, quer por sua origem, quer por sua cultura, ainda não desapareceu. [...] A estrutura rural tradicional, paralelamente, reforça essas características. As formas de uso e distribuição do solo agrícola apresentavam uma configuração parcelada em minifúndios, pela partilha hereditária, motivada pelo crescimento demográfico. (FILETTO,2001 p. 118) 2.3 O Novo Rural O Conceito de “novo rural” emerge das transformações significativas ocorridas no espaço rural a partir da década de 90, após intensa urbanização, em que o urbano “implode e explode”, expressão de Lefebrve (1972), abarcando uma extensão que se confunde com o rural. Nesta visão o campo seria um “continuum do urbano do ponto de vista espacial”. (GRAZIANO, 1997). Para Graziano em “O novo rural brasileiro” (1997), o rural hoje: só pode ser entendido como um continuum do urbano do ponto de vista espacial; e do ponto de vista da organização da atividade econômica espacial; e, do ponto de vista da organização econômica, as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e a pecuária. Em outras palavras, pode-se dizer que o meio rural brasileiro se urbanizou, nas duas últimas décadas, como resultado de industrialização da agricultura, de um lado, e, de outro, do transbordamento do mundo urbano naquele espaço que tradicionalmente era definido como rural. (GRAZIANO, 1997) O meio rural não pode ser mais considerado apenas como o lugar da agricultura e da pecuária, devido a aproximação das agroindustriais com todo o seu complexo de produção e rede de serviços e transporte somado às relações que se estabelecem com o urbano. Desta aproximação o rural estaria fadado ao desaparecimento, conforme Graziano (1997) expôs acima; este se submeteria cada vez mais ao urbano resultando na transformação das formas rurais e nos antigos modos de vida homogeneizando as organizações sociais e econômicas. Outra visão dicotômica levava a um contraste entre os dois espaços, sendo o rural o lugar da realização das atividades primárias apoiadas em uma estreita relação com o ambiente natural, e o espaço urbano, com uma completa urbanização “hoje virtual, amanhã real” 37 apoiada na produção industrial e na artificialização dos espaços, nos quais se encontra uma sociedade que nasce na pós-industrialização e que domina e absorve a produção agrícola. (LEFEBVRE apud VEIGA, 2004 p. 64) Essa corrente interpreta as relações rurais/urbanas, como espaços diferentes, gestados por relações sociais e econômicas antagônicas e dinâmicas, onde a completa urbanização proposta por Lefebvre em A Revolução Urbana (2002) mostrou-se equivocada ao prever o desaparecimento do rural (re) significando o rural ao agrário. Entretanto a dialética nos permite compreender que o rural e o urbano possuem suas especificidades, as quais não se excluem e sim se completam pelas diferenças. Com as transformações no modo de produzir, a revolução verde, a globalização mais recente, a modernização agrícola, a importância dada à dimensão ambiental, o processo pela busca do desenvolvimento sustentável, constituem fatores internos e externos que geram os novos espaços rurais. Para Abramovay e Favareto (2007), as novas ruralidades são apoiadas em três dimensões fundamentais; a dimensão ambiental, as relações com as cidades e nas relações interpessoais, com diferentes e múltiplas dimensões na vida social dos atores envolvidos (pluriatividades, vitalidade social). A importância dada ao meio ambiente após o uso indiscriminado dos recursos naturais, desmatamento, poluição hídrica, queimadas descontroladas, mau uso do solo, e o agravamento do efeito estufa, levou a uma valorização da natureza, uma volta ao rural, a busca do bucólico. A busca por “espaços preservados”, a importância crescente da natureza valorizam o rural, principalmente em áreas próximas às regiões metropolitanas, ou grandes centros regionais, associando-os a uma melhor qualidade de vida. A consciência ambiental trouxe em seu bojo o “renascimento do rural” como parte de um patrimônio a ser preservado, seja pelo uso predatório do solo e da água, mas como os valores sociais ali reinantes. Outra dimensão do “novo rural” diz respeito às relações com as cidades, não mais de uma forma antagônica, mas como um espaço diversificado com especificidades, pois o lugar assume hoje no mundo globalizado grande importância econômica. Com a descentralização industrial os lugares assumem certas vantagens locacionais de caráter econômico e social. Essas vantagens se fazem por meio de facilidades de transporte (encurtando distancias) ou promovendo atrativos econômicos e fiscais, como isenção de impostos. É assim que para Boaventura Santos (2002) citado por Moreira ( 2003 p. 118), quando visualiza as relações do local com o global, parecem apontar para as valorizações contraditórias de práticas sociais e culturais transnacionais (globalizadas) e nacionais 38 regionais (localizadas). Na ruptura dessas fronteiras as relações sociais adquirem um espaço de atuação globalizado, ganhando forças, no sentido paradoxal identidades locais, regionais, e nacionais com demarcações diferenciadas das antigas experiências fazendo emergir novos localismos, o local globalizado. Outra dimensão do “novo rural”, para Abramovay e Favareto (2007) se apóia em relações interpessoais que no “arcaico rural” centrava-se em isolamento e perda populacional. Agora os espaços rurais mostram-se dinâmicos, com um atrativo populacional, crescente integração econômica com outros espaços urbanos, ocorrendo o afluxo de múltiplos atores. A terceira idade em busca de refúgio, a classe média abastada em busca do “ar fresco do campo” em finais de semana, a classe alta em busca de refúgio contra a violência e caos urbano do trafego intenso. Claro que não podemos deixar de mencionar que as “novas ruralidades” e o “renascimento” do rural não ocorreram em todo o território brasileiro e nem deveria devido à própria colonização e o processo histórico de ocupação territorial, no qual se observam áreas deprimidas e estanques, sem condições de experimentar um desenvolvimento baseado nas suas dimensões ambientais, locacionais e sociais. O que não poderia deixar de ser diferente, uma vez que o espaço rural brasileiro ainda constitui ruralidades em sociedade com “modernidade incompleta-periferica” (MOREIRA, 2003 p.117). Com baixo nível de modernização, baixo nível de escolaridade, saúde e cidadania, além de elevado índice de desigualdades sociais e exclusão social. Para Abramovay e Favareto (2007) a produção local agrícola se liga a um sistema de agribusiness moderno, com utilização de insumos e equipamentos capazes de viabilizar um importante acréscimo no PIB nacional, mostrando um processo de interação no local com setores internacionalizados pautados na exportação da produção. A hegemonia do sistema agribusiness impulsiona processos nacionais de compreensão do espaço agrário como em um novo mundo rural, passando a ser compreendido não mais como espaço exclusivo das atividades agrícolas, mas como lugar de uma sociabilidade mais complexa que aciona novas redes sociais regionais, estaduais, nacionais e transnacionais. (MOREIRA, 2003). Sendo assim, o processo de revalorização do mundo rural; Envolve a reconversão produtiva (diversificação da produção), a reconversão Tecnológica (tecnologias de cunho agroecologico e natural), a democratização. Da organização produtiva e agrária (fortalecimento da agricultura familiar), bem como o fortalecimento e a expansão dos turismos rurais, ecológicos e cultural. A revalorização de festas, rodeios e feiras agropecuárias associa-se à valorização da 39 cultura local [...] bem como a dinamização de agroindústria associativa de agricultores familiares (MOREIRA, 2003 p. 121) Esta valorização do mundo rural fez parte de um programa maior que teve inicio nos Estados Unidos da America intitulado Pós-industrial de desenvolvimento rural: o papel dos recursos naturais e o meio ambiente (tradução minha)2, e o Programa LEADER, (Ligações para o Desenvolvimento Rural da União Européia) desenvolvido nos países europeus. Os dois programas ajudaram a consagrar o consenso básico a respeito das ruralidades avançadas, datado de meados dos anos 1990, parte das seguintes considerações: 1. As zonas rurais, que englobam os locais de residência de um quarto da população européia e de mais de um quinto da americana, e mais de 80% dos dois territórios, caracterizam-se por tecidos culturais, econômicos e sociais singulares, um extraordinário mosaico de atividades e uma grande variedade de paisagens (florestas e terras agrícolas, sítios naturais incólumes, aldeias e pequenas cidades, centros regionais, pequenas indústrias etc.). 2. As zonas rurais, bem como os seus habitantes, formam uma autêntica riqueza para suas regiões e países e podem ser bem competitivas. 3. As maiores partes dos espaços rurais europeus e norte-americanos são constituídos por terras agrícolas e florestas que influenciam fortemente o caráter das paisagens. 4. Dado que a agricultura certamente permanecerá como importantíssima interface entre sociedade e ambiente, os agricultores deverão cada vez mais desempenhar funções de gestores de muitos dos recursos naturais dos territórios rurais. 5. Mas a agricultura e as florestas deixaram de desempenhar papel predominante nas economias nacionais. Com o declínio de seus pesos econômicos relativos, o desenvolvimento rural, mais do que nunca, deve envolver todos os setores socioeconômicos das zonas rurais. 6. Como os cidadãos europeus e norte-americanos dão cada vez mais importância à qualidade de vida em geral, e em particular a questões relativas à saoede, segurança, ao desenvolvimento pessoal e lazer, as regiões rurais ocuparão posições privilegiadas para satisfazer tais interesses, oferecendo amplas possibilidades de um autêntico desenvolvimento, moderno e de qualidade. 7. As políticas agrícolas deverão se adaptar às novas realidades e desafios colocados, tanto pelos desejos e preferências dos consumidores, como pela evolução do comércio internacional. Deverá haver, sobretudo, uma adaptação que impulsione a transição de um regime de sustentação de preços para um regime de apoios diretos. 8. Os subsídios estabelecidos pelas respectivas políticas agrícolas serão crescentemente contestados. E já é ampla a aceitação de que apoios financeiros públicos devam ser cada vez mais condicionados a uma adequada gestão dos recursos naturais, à manutenção e ao reforço da biodiversidade e das paisagens culturais. 9. As reformas das políticas agrícolas da primeira metade da década de 1990 conservaram inconsistências, duplicações e alta complexidade jurídica, apesar de inegáveis avanços em termos de transparência e eficácia. 10. Torna-se absolutamente necessário promover a capacidade local de desenvolvimento sustentável nas zonas rurais e, nomeadamente, iniciativas privadas e comunitárias bem integradas a mercados globais. (Transcrito de VEIGA, 2004, p. 51). 2 POST INDUSTRIAL RURAL DEVELOPMENT; THE ROLE OF NATURAL RESOURCER AND THE ENVIRONMENT 40 Vemos que o item 10 aplica-se bem no contexto associado por MOREIRA (2003) quanto à promoção e desenvolvimento sustentável das zonas rurais e a integração local a mercados globais, como o agribusiness do café na região sul mineira. A ruralidade avançada combina elementos das atividades agrícolas bem como a questão do desenvolvimento rural baseado na visão territorial. Para VEIGA (2004) são dois os elementos básicos da interpretação da contraditória influencia da globalização sobre os espaços rurais: a capacidade de certas áreas rurais atraírem os potenciais empreendedores devido às características ambientais de residência;e um dinamismo empreendedor voltado para os mercados emergentes, com muita inovação, e que explora as vantagens competitivas que resultam de condições de vida e de trabalho das mais amenas, além de mais estabilidade, qualidade e motivação da força de trabalho por menor custo (KEEBLE E TYLER apud VEIGA, 2000 p. 64) Para Wanderley (2009) não restam duvidas de que as transformações observadas no meio rural brasileiro são, antes de tudo, o efeito local, dos processos mais gerais da sociedade. Em um espaço tradicional como o sul mineiro, que teve nos caminhos a mineração e na produção diversificada de gêneros alimentícios destinados a suprir a corte portuguesa no Rio de janeiro, e na intensa atividade mercantil ao longo de suas estradas, trazendo nesses aspectos os processos de ocupação e uso do espaço fortemente aliados à atividade agropecuária. Deste modo o desenvolvimento do espaço rural sul mineiro se liga às condições históricas de ocupação, ao seu quadro natural único, à conservação da paisagem, à valorização dos recursos naturais (águas minerais, clima, paisagem) e à preservação do patrimônio cultural. Outra particularidade das novas ruralidades denomina-se pluriatividades do espaço rural, visto por Garcia Jr. (1989) citado por Wanderley (2009) como estratégias ascendentes ou descendentes, de reprodução das unidades de produção familiares. Assim as atividades que são exercidas servem como complemento à renda total da família criando uma nova dinâmica rural. A partir das atividades remuneradas não-agrícolas nos múltiplos empreendimentos que tem surgido nos espaços rurais (exposição, festas religiosas, festa do peão, festa da colheita, hotel fazenda, pesque e pague) e a associação entre a agricultura familiar e o turismo rural, proporciona a comercialização da produção e o resgate do patrimônio rural local, além da agregação de valor ao produto tradicional da região. 41 Figura 2,3,4: O titulo da cidade, o produto regional e o Café do Brasil Fonte: arquivo pessoal, trabalho de campo jul.2011 2.4 A Microrregião no Quadro Turístico Sul Mineiro A Região do Sul de Minas, particularmente, possui uma beleza natural que se destaca no estado de Minas Gerais e ainda o Circuito das Águas e as Terras Altas da Mantiqueira. Ambos os circuitos turísticos fazem parte de um plano maior de desenvolvimento para regiões do estado apoiado na atividade dinâmica do turismo mundial. Assim é que o meio natural do território de Carmo de Minas se encontra inserido entre estes dois circuitos, uma vez que o município faz limites com São Lourenço (tradicional Parque das Águas) e é próximo à Pouso Alto, que se encontra associado ao Circuito Turístico Terras Altas da Mantiqueira. O Planejamento Turístico em Minas Gerais surgiu com a seguinte idéia; de se agrupar municípios em Circuitos Turísticos veio da necessidade de explorar melhor o potencial do Estado nesse setor, sendo que, no final dos anos de 1990, à medida que se estimulava as tradicionais cidades e localidades turísticas de Minas a promover uma revisão de seus posicionamentos e ações em relação ao turismo, vislumbrava-se a geração de oportunidades também para os municípios vizinhos. Estes passariam não só a explorar suas respectivas potencialidades, mas também a contribuir para a diversificação da atratividade e ou da infra-estrutura turística de sua região. (FARIA, 2008 p. 10) Ambos “Circuitos Turísticos” fazem parte de um plano maior de desenvolvimento para regiões do estado apoiado na atividade dinâmica do Turismo Mundial onde; O turismo pode e deve ser um dos elos da construção de um relacionamento respeitoso ao meio rural e, ao mesmo tempo, uma atividade que proporcione prazer ao visitante, visto que o mesmo pode retornar ao passado procurando suas raízes, ou então, buscar a experiência com intimidade o meio rural. (ROQUE E VIVIAN, 1999 p.6) 42 Figura 5 : Circuito Turístico Terras Altas da Mantiqueira Fonte: http://www.turismo.mg.gov.br/circuitos-turisticos/mapa/989-circuito-turistico-das-aguas- Abaixo podemos visualizar o mapa da microrregião de São Lourenço: Figura 6: Mapa dos municípios que compõem a microrregião e seu detalhe no mapa de Minas Fonte: Assessoria de Gestão Regional – AGE – SES/MG/2009 Estes dois Circuitos Turísticos centenários são um atrativo a mais para a valorização do produto de Carmo de Minas, os Cafés Especiais. 43 Figura 7: Circuito das Águas, do qual faz parte a cidade de São Lourenço Fonte: http://www.turismo.mg.gov.br/circuitos-turisticos/mapa/989-circuito-turistico-das-aguas- No mapa abaixo temos o Circuito da Estrada Real onde fica mais bem compreendida a relação do sul mineiro com o estado de São Paulo e a divisão dos Circuitos no Planejamento Turístico do Estado de Minas Gerais. Figura 8: Divisão Territorial dos Municípios dos Circuitos Turísticos de MG Fonte: Transcrito de FARIA, Helena Mendonça.2008 44 Os seguintes pontos fortes, levantados por Roque e Vivian (1999 p. 10) esclarecem as vantagens da utilização do espaço rural como atividade turística: 1. O espaço rural brasileiro apresenta características ambientais que propiciam a implementação de atividades turísticas em boa parte do território nacional. 2. O turismo no espaço rural se apresenta como uma atividade que colabora na manutenção do homem no campo, sendo pertinente com o momento atual, em que o empresário rural está aberto a novas formas e metodologias de trabalho. 3. A atividade do turismo rural, se bem planejada, pode ser vista como uma estratégia de suplementação ou complementação dentro da propriedade rural, permitindo a estabilidade da organização e a integração das atividades tradicionais. 4º. O turismo no espaço rural, apresenta-se como uma das metodologias administrativas que respeita preceitos ambientais e a nova realidade mundial, que exige do setor empresarial a valorização de uma consciência ambiental. 5. Este ramo de negócio valoriza a conservação das características naturais e históricas das propriedades, garantindo a preservação dos valores humanos. 6. A atividade proporciona o culto à tradição regional, podendo-se citar como exemplos a "Rota da Cachaça de Minas Gerais", "A Rota do Cacau na Bahia" e "A Rota do Chimarrão de desenvolvimento regional. 7. O turismo rural, visto como estratégia apresenta diversas linhas de atuação, como o agro turismo, o ecoturismo, hotéis fazendas, entre outros, permitindo assim que o empresário tenha a possibilidade de optar pela tipologia que mais se enquadra em sua realidade. 8. O turismo no espaço rural permite o aproveitamento de estruturas ociosas, podendo proporcionar o aumento do lucro real das propriedades. 9. A pluriatividade da empresa rural, especificamente o agro turismo, permite ao empresário a agregação de valor aos produtos gerados na própria fazenda, eliminando níveis de intermediação. 45 10. Observa-se a possibilidade de maior interação entre o setor rural e urbano, permitindo a interrelação social entre seres de diferentes espaços. Em outros termos podemos notar que as “novas ruralidades” trazidas com a implantação do Turismo Rural abrangem uma dimensão setorial conflitiva, que se desdobra no território rural. Neste momento a dialética se revela sob o território rural. Em busca de desenvolvimento local ou regional, o turismo levanta as relações de forças profundamente assimétrica que são reproduzidas no campo pelos processos históricos de ocupação, nas formas tradicionais de dominação econômica, social e política dos grandes proprietários em geral. O Território pode ser entendido na dialética onde; Como porção do espaço geográfico apropriado por uma determinada relação social que o produz e o mantém a partir de uma forma de poder [...] estas relações sociais produzem continuamente espaços e territórios de forma contraditórias, solidárias e conflitivas.(FERNANDES, 2005 p. 28) 2.5 Território e a Estratégia da Indicação Geográfica Como vimos o conceito de Território é importante para a construção de um projeto maior, partindo de iniciativas locais, permeados por ações do Estado de favorecimento e controle no campo, ligando o local ao global em estratégia de desenvolvimento e valorização da imagem do produto, no nosso caso café, para o mercado internacional. A estratégia de buscar na Indicação Geográfica (IG) a valorização do produto no município aconteceu a partir da criação da APROCAM em consonância com o Programa Mineiro de Incentivo à Certificação de origem do Café, CertifiCafé, operacionalizado pelo governo do estado, em meados da década de 90. (Vide anexo I) A partir desse momento os produtores começam a se articular politicamente e regionalmente a fim de se encaixar no programa de certificação, pois vislumbra uma real potencialidade no produto regional tradicional sul mineiro. Minas Gerais se tornou um caso emblemático, ao delimitar em 1995, através de medidas oficiais, quatro regiões produtoras de café: Sul de Minas, Cerrado, Jequitinhonha e Montanhas de Minas (Zona da Mata). Conferindo a cada uma delas um “certificado de origem” da produção. (Certicafé) 46 O Programa Mineiro de Incentivo à Certificação de origem do Café (Certicafé) perdurou até meados de 2002, quando ficou inviabilizado pelas discordâncias políticas entre as cooperativas e a forma instituída pelo Estado “de cima pra baixo” criando as Portarias do IMA. (DANTAS, 2009, p.81) Outra situação é que as regiões instituídas eram demasiadas grandes com atributos geográficos diferentes e não corresponderiam aos anseios dos agricultores, e o Certicafé não poderia ser usado como instrumento para concessão do IG,conforme portaria do INDI, a solução foi que o IMA, então desmembrou- as em Microrregiões, já com articulação de Cooperativas e Associações de Produtores interessados em instituir as IG’s para valorização do produto. Interessa-nos aqui a Criação da Microrregião dos Cafés da Serra da Mantiqueira no ano de 2006, onde a APROCAM representou os interesses dos produtores da Região, que já se destacavam no cenário internacional desde 2002 participando ativamente e com méritos nos concursos dos Cafés Especiais promovidos pela torrefadora italiana Illycafé e a Associação Brasileira de Cafés Especiais. (Vide Anexo II) Fundada em 1997, a APROCAM entidade representativa dos fazendeiros da face sul mineira da Serra da Mantiqueira (circuito das águas), órgão responsável pela “missão” de levar capacitação técnica aos produtores, instituir trabalhos de marketing focando no mercado dos cafés certificados e/ou diferenciados, aprimoramento da tecnologia cafeeira regional, procurando novos cultivares adaptados à região, instalação de infra-estrutura para melhoria da qualidade do café. O Plano Estratégico da entidade contava ainda com o apoio do Centro de Inteligência em Mercados Agropecuários, centro de pesquisa para gestão do circuito espacial da produção de produtos agropecuários, com atenção especial ao café, em parceria com a UFLA. O CICAFE (Centro de Inteligência do Café) viabiliza a captação, organização e gestão da informação, fazendo análises e estudos para definir políticas e ações estratégias para empresas e governo ligados à produção cafeeira. Carmo de Minas conta com o apoio da UFLA/CICAFE, atualmente as pesquisas estão sendo coordenadas pelo Professor Doutor Flávio Meira Borém e sua equipe de mestrandos e doutorandos da Universidade Federal de Lavras, responsáveis pela coleta de amostras de solos, análise do micro clima, pesquisas de novas espécies cultivares. Temos abaixo a importância da Associação dos produtores em torno de um ideal, que articulados localmente puderam inserir a microrregião no circuito espacial da produção de café: 47 O movimento da Aprocam para diferenciar o café produzido na serra da Mantiqueira dos outros iniciou em 2002, com a participação dos produtores da região em concursos internacionais. A região montanhosa e de clima frio limita o uso de máquinas nas plantações. A forma encontrada pelos cafeicultores para disputar o mercado, de acordo com o presidente da Aprocam, Antonio Junqueira Vilela, foi investir na produção de café de qualidade, no café especial. Atualmente, sete anos depois do inicio dos investimentos, o Café da Mantiqueira já tem qualidade reconhecida internacionalmente e obtém os melhores preços nos leilões virtuais. (AGENCIA BRASILEIRA DE NOTICIAS, 24.07.2009) Não somente em termos de visibilidade internacional, mas o reconhecimento como zona diferenciada da produção de cafés finos e únicos no mundo trazem à Serra da Mantiqueira e microrregião de São Lourenço: O desenvolvimento da cafeicultura certificada na região, segundo o prefeito de São Lourenço, Zé Neto, que participou do encontro de Carmo de Minas, é fundamental para o desenvolvimento das cidades do sul de Minas. Para o prefeito, a parceria dos municípios produtores com os municípios do Circuito das Águas, que possuem infraestrutura para oferecer serviços e receber turistas, é uma alternativa eficiente para impulsionar a economia e a qualidade vida na região. (AGENCIA BRASILEIRA DE NOTICIAS, 24.07.2009) Os fatos mais importantes para a concretização “do sonho” em torno de um ideal podem ser mais bem visualizados na cronologia abaixo: 1997 – CRIAÇÃO DA APROCAM 2000- Elaboração de Plano Estratégico dos Produtores Visando Valorização do produto da região, capacitação dos produtores, definição de estratégias de mercado. 2001 – Implantação de Novos processos de cafeicultura, gestão empresarial, neste momento podemos dizer que estava criado o sistema agribusiness. 2002- Primeiras premiações pela qualidade do Café, no Cup of Excellence, dos 28 cafés finalistas, 12 lotes eram do Sul de Minas, sendo 8 lotes de Carmo de Minas. 2003 – 30% dos cafés finalistas eram de Carmo de Minas do premiado Cup of Excellence. 2004- Sobe para 33% a participação dos finalistas no Concurso Cup of Excellence, dos 36 finalistas, 12 eram do Sul de Minas, sendo 11 da Serra da Mantiqueira e 6 de Carmo de Minas. 48 2005- Recorde Mundial, considerado o melhor café do mundo 22 sacas produzidos na Fazenda Santa Inês, atingiram a pontuação de 95,85 dos 100 possíveis, recorde mantido até hoje. 2006- início do processo de indicação geográfica pela Delimitação da Região pelo Instituto Mineiro de Agropecuária, conforme portaria 805 de 18/10/2006 e memorial descritivo. 2007- Iniciado o processo de Indicação de Procedência (IP) no INPI. 2008- Constituído grupo de pesquisas junto a UFLA/CICAFE para reconhecimento e estudos sobre as condições edafoclimáticas da região. JUNHO 2010 – INPI reconhece a denominação Região da Serra da Mantiqueira Minas Gerais como IP para o Café. 2011- Segue a consolidação da região como produtora de Cafés Especiais, e iniciada a ação para a Denominação de Origem (DO) próximo passo para caracterização e reconhecimento da qualidade do produto da micorregião. Figura 9: O selo de IP trará varios benefícios para a microrregião, tais como proteção, reconhecimento,agregação de valor,desenvolvimento sustentável, visando sempre o lucro coletivo Fonte: http://www.aprocam.com.br/indicacao-proscedencia.php 49 Municípios que compõem a Microrregião beneficiadas com o IP legenda: Municípios da Região delimitada Sul de Minas Gerais Municipios: 1. Baependi 2. Brasópolis 3. Cachoeira de Minas 4. Cambuquira 5. Campanha 6. Carmo de Minas 7. Caxambu 8. Conceição das Pedras 9. Conceição do Rio Verde 10. Cristina 11. Dom Viçoso 12. Heliodora 13. jesuania 14. Lambari 15. Natércia 16. Olimpio Noronha 17. Paraisopolis 18. Pedralva 19. Pouso Alto 20. Santa Rita do Sapucaí 21. São Lourenço 22. Soledade de Minas Figura 10: Municípios que integram a região do IP Fonte: http://www.aprocam.com.br/municipios.php 50 Podemos acompanhar pela tabela abaixo a produção cafeeira por municípios que integram essa região demarcada, em destaque o município de Carmo de Minas: TABELA 2 Produção Cafeeira dos municípios que compõem a microrregião de São Lourenço. MUNICIPIO São Lourenço Soledade Sta Rita Sapucaí Pouso Alto Pedralva Paraisopolis Olimpio Noronha Lambari Jesuania Heliodora Dom Viçoso Cristina Conceição do Rio Verde Conceição Pedras Caxambu Carmo de Minas Campanha Cambuquira Cachoeira de Minas Brazopolis Baependi Natercia Itamonte Alagoa Total REND.MEDIO PRODUTO/TON VALOR PRODUÇÃO 1378/kg/hec 80 ton 374 mil 1320/kg/hec 441 ton 1764 mil 840/kg/hec 5775 ton 25312 mil ÁREA PLANTADA 58 hec 334 hec 6875 hec 718/kg/hec 1200/kg/hec 900/kg/hec 960/kg/hec 79 ton 3936 ton 144 ton 1056 ton 369 mil 17251 mil 631 mil 4932 mil 110 hec 3820 hec 160 hec 1100 hec 1019/kg/hec 1319/kg/hec 1200/kg/hec 839/kg/hec 900/kg/hec 1260/kg/hec 5875 ton 2072 ton 4044 ton 318 ton 1440 ton 2612 ton 27436 mil 9676 mil 15165 mil 1272 mil 6725 mil 12198 mil 5760 hec 1570 hec 3370 hec 265 hec 1200 hec 3110 hec 900/kg/hec 1494 ton 6548 mil 1660 hec 1260/kg/hec 1260/kg/hec 252 ton 5100 ton 1072 mil 23817 mil 200 hec 1200 hec 852/kg/hec 900/kg/hec 1080/kg/hec 4026ton 4635 ton 1728 ton 16104 mil 18540 mil 7574 mil 4725 hec 5150 hec 1600 hec 1080/kg/hec 1200/kg/hec 1560/kg/hec 1250/kg/hec 1000/kg/hec 26195 kg/hec 1242 ton 1824 ton 3120 ton 10 ton 1 ton 51304 ton 5444 mil 7788 mil 11700 mil 47 mil 4 mil 221743 mil 1150 hec 1520 hec 2000 hec 8 hec 1 hec 46946 hec Fonte: Dados Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo Agropecuário, 2009 Tabela elaborada pela autora. 51 O tão almejado Selo da Microrregião Produtora de Cafés Especiais, o IP está dentro do entorno do Circuito da Águas, compreende 22 municípios mineiros, com cerca de 8 mil produtores, dos quais 80% são agricultores familiares; cultivam perto de 50 mil hectares de café, de onde saem por ano, em média, 1 milhão de sacas do produto, proporcionando 150 mil empregos diretos e indiretos. Figura 11: O tão almejado selo de IP Fonte: http://www.aprocam.com.br/indicacao-proscedencia.php Este selo representa um grande marco para a microrregião que desde 1997, através da APROCAM, vem se mobilizando para consegui-lo, esta certificação vem agregar uma série de benefícios aliados a ele. Cabe aqui uma distinção entre IP e DO, conforme Serviço de Política e Desenvolvimento Agropecuário (2009) Indicação de Procedência: É o nome geográfico de um país, cidade, região ou localidade que se tornou conhecido como centro de produção, fabricação ou extração de certo produto. Denominação de Origem: É o nome geográfico de um país, cidade, ou região ou uma localidade que produza um produto cujas qualidades se devam exclusivamente ao meio geográfico. 52 Mas de uma forma geral os objetivos de uma certificação segundo Medaets (2005) citado por Dantas (2009, p. 51) são: a) identificar e diferenciar o produto por intermédio de um sinal de qualidade; b) dar credibilidade ao mercado por intermédio da ação de um organismo certificador independente; c) agregar valor ao produto; d) facilitar o conhecimento e reconhecimento de um produto; e) ganhar a confiança dos consumidores; f) beneficiar uma iniciativa coletiva (caso de uma certificação vinculada a uma IG) Pode-se afirma que estes objetivos foram alcançados com o selo de IP, para a primeira microrregião do país (face sul da Serra da Mantiqueira) a obter este selo e não para por aí a Associação e Produtores já deram inicio à obtenção da DO (Denominação de Origem), processo muito mais lento e custoso onde é preciso o reconhecimento de vinculação do território com os fatores naturais e humanos. No texto: Atualmente, o Brasil possui oito IPs: Pinto Bandeira (RS) (vinho tinto, branco e espumante); Região do Cerrado Mineiro (café); Vale dos Vinhedos – RS (vinho tinto, branco e espumante); Pampa Gaúcho da Campanha Meridional – RS (carne bovina e derivados); Paraty – RJ (cachaça e aguardente composta azulada); Vale do Submédio São Francisco - BA/PE (manga e uvas de mesa); e Vale do Sinos – RS (couro acabado). Em 2010, foi concedida a primeira DO para brasileiros: Litoral Norte Gaúcho, região produtora de arroz. (AGUIAR, 2011) Mapa dos Principais IP dos Cafés no Brasil Figura 12: A diversidade de Cafés no Brasil Fonte: http://www.revistacafeicultura.com.br/index.php acessado em 22.01.2011 53 A Rastreabilidade presente na Rota do Café ESPECIAL, “do pé à xícara”, também é preocupação no agronegócio; cujo foco maior é a segurança alimentar e pode atender também a identificação da origem do produto em uma IG. Neste contexto; o SAG ganha em qualidade da informação, agregação de valor ao produto,diminuição do custo de transação com o aumento da confiança gerada pela informação; por outro lado, o custo agregado ao produto também aumenta. Esta riqueza de informações proporcionada por sistema rastreado pode ser útil em SAGs de produtos com alta especificidade, como é o caso dos produtos com IG reconhecida. (DANTAS, 2009 p.55) Assim temos no Grupo Sertão responsável pela criação da Rota do Café ESPECIAL em sua principal propriedade um esquema de rastreabilidade “do pé à xícara” , um sistema altamente controlado que procura levar ao consumidor um produto diferenciado com alto valor agregado, e qualidade superior, visando ganhar a confiança dos consumidores e garantir um mercado em expansão. Além disso, a rastreabilidade garante a segurança alimentar, o que leva a aumentar a reputação do produto baseado na cultura e tradição. Apesar de um alto custo para os produtores garante, sobretudo um diferencial nos leilões internacionais do qual o produto de Carmo de Minas está sempre entre os grandes finalistas. A Rastreabilidade do Café proporciona diferenciação do produto no mercado, nada impede que o mesmo produto tenha rastreabilidade, certificação e IG reconhecida; este parece ser o caso do Café de Carmo de Minas que procura complementar a cadeia produtiva agregando ainda mais valor ao produto. Temos abaixo o esquema da Rastreabilidade dos Cafés Especiais praticados pelo Grupo Sertão: Figura 13: O Esquema de Rastreabilidade da Família Sertão Fonte: http://www.gruposertao.com.br/pt/cafes/pt/rastreabilidade.htm 54 Podemos visualizar abaixo algumas etapas na rastreabilidade do café nas fazendas do Grupo Sertão, isso só foi possível graças à criação da Rota do Café Especial, onde o consumidor pode ver e conferir a qualidade e dedicação com o produto. Em um mercado cada vez mais competitivo a certificação, rastreabilidade, preocupação ambiental, responsabilidade social, são alternativas e ao mesmo tempo exigências para garantir nichos de mercado e imprimir desenvolvimento rural. Figura 14 : O cuidado nas “ruas” das lavouras Figura 15: A derriça manual na plantação Fonte: Arquivo pessoal trabalho de campo jul.2011 http://carmocoffees.com.br/flash/index.html Segundo o Gerente 1 o esquema da rastreabilidade começa com a limpeza do terreno, capina, varrição e logo depois é estendido um pano onde o café colhido é colocado: [...] varre, coloca um pano embaixo e feito a derriça, galho a galho ou maquina derriçadeira elétrica, isso cai num pano vai para a primeira separação arcaica e vai pro saco de medida 60 litros, duas vezes por dia vai passar um caminhão recolhendo.. [...]qual talhão quem colheu e assim durante o período de jan/julh, e vai para o pátio de secagem, quando chega na xícara o cliente lá no Japão (pergunta)eu posso falar que ele é da fazenda sertão?, talhão XX? tá tudo documentado que esse café é daqui tudo isso e qualidade com os vinhos também é assim.... todo RG lá do produto..(Gerente 1)3 A Fazenda Santa Inês (Grupo Sertão) obteve a nota recorde no ano de 2005, de 95,85 pontos (em uma escala de zero a 100) em concorrido concurso promovidos em parceria com BSCA, que concede o premio “cup of Excellence” aos melhores cafés do país. A região de Carmo de Minas vem se destacando desde o ano de 2002 quando ingressou na competição anual onde participam apenas os seletos países produtores de cafés especiais, entre eles Brasil, 3 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Carmo de Minas em 22/07/2011 55 Colômbia, Guatemala, Bolívia. A pontuação obtida pela Fazenda Santa Inês até hoje se mantêm como Recorde mundial, tornando-se um “diamante” na região. Premiação do Cup of Excellence ano 2005, dos 36 Cafés finalistas, 26 foram do Sul de Minas e destes 24 da Serra da Mantiqueira, sendo 18 de Carmo de Minas e conquistou o recorde mundial de 95,85 pontos (numa escala de 0 a 100), 22 sacas foram comercializadas em leilão virtual e vendidas a U$6 mil cada saca! Figura 16, 17, 18 - Saca Padrão de 60 kg do Café premiado da Fazenda Santa Inês Fonte: Arquivo pessoal trabalho de campo jul.2011 Japoneses estão entre os melhores compradores dos cafés especiais produzidos em Carmo de Minas, entre leilões, feiras e concursos as portas vão se abrindo para o agronegócio da microrregião no sul de minas. Figura 19, 20 : Japoneses e Carmenses em Feiras Internacionais, sempre bons negócios. Fonte: Arquivo Pessoal, trabalho de campo julho.2011 56 O resultado do ultimo Concurso Cup of excellence, cujo resultado foi divulgado em 18/11/2011 pela BSCA dentre os 25 finalistas 18 são do sul de minas, sendo 11 da cidade de Carmo de Minas e entre os 10 melhores colocados 6 são do município. O grande vencedor foi o Café Especial da fazenda Rainha, da região Alta Mogiana (SP), que recebeu nota 91,41 dentre o máximo de 100 pontos, ficando, portanto recorde da fazenda Santa Inês ainda a ser batido! No site oficial da Associação Brasileira de Cafés Especiais encontramos o seguinte: O preço médio pago pelos 25 lotes vencedores do 12º Concurso de Qualidade Cafés do Brasil, oferta dos em leilão via internet, foi de US$7,40 por libra peso. O maior lance, dado aos cafés da Fazenda Rainha, superou em 927,35% o fechamento do dia da bolsa nova iorquina. (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CAFÉS ESPECIAIS, 2012) Um consórcio formado pela empresas Kyokuto Fadie Corporation, Times Club for CCOOP, Coffee Libre and Tashiro Coffee Co. Ltda pagou por cada uma das 22 sacas da Fazenda Rainha, o montante de R$ 5.399,21 ou U$ 3.055,58 em 60 Kg um preço bem superior ao do commodities praticado no mercado. Ao todo o lote rendeu um total de US$ 67.222,66 ( R$ 118.782,44) ao seu vencedor, o que com certeza exemplifica o “diamante” que os produtores tem em suas mãos, um agronegócio espetacular, que pode render bons frutos para a região; como sustentável. desenvolvimento social, econômico, ambiental 57 3. O QUADRO NATURAL DA MICRORREGIÃO Como dissemos as condições privilegiadas da microrregião fazem do quadro natural um fator importante para o desenvolvimento da cultura cafeeira e conseqüentemente do produto, do turismo, da economia, capaz de modificar toda a estrutura de uma região. A melhor descrição do quadro natural se encontra no Anexo 2 da Portaria nº 805 IMA de 18.10.2006, onde reproduziremos aqui alguns trechos interessantes: Caracterização geomorfológica, hídrica e climática Com latitude média de 22º sul e altitude entre 850 a 1400 m, a cafeicultura regional está implantada acima de 800 metros, com temperatura média anual de 19ºC. As baixas temperaturas favorecem a maturação mais demorada dos frutos que resulta em formação de mais açúcares e acidez característica que melhora a bebida. O relevo é montanhoso com declives variando de médio a acentuado.As lavouras de café estão implantadas nas encostas com declividade de 0% a 50% em nível, com boa drenagem de ar frio, menos ocorrência de geadas. A precipitação pluviométrica anual média é de 2000 mm, com boa distribuição ao longo do ano, onde o período de maio a agosto tem baixa pluviosidade, favorecendo a colheita e preparo do café de qualidade. As boas disponibilidades de água associada à inclinação do solo propiciam um equilíbrio entre o fornecimento adequado e drenagem do excesso de água. (INSTITUTO MINEIRO DE AGROPECUÁRIA, 2006) Figura 21: Panorama Geral da Serra da Mantiqueira Foto arquivo pessoal trabalho de campo jul.2011 58 Além disso, a região ainda conta com: a presença de áreas significativas de remanescentes de Mata Atlântica bem como vegetações ciliares e grandes número de nascentes, garantem ao ambiente, características únicas e diferenciadas das demais regiões cafeeiras do país. A incidência desse remanescente de Mata Atlântica cria condições de retenção Especial de umidade do ar, implicando uma restrição da amplitude térmica durante o verão, provocando maturação mais lenta nos frutos do café. Este processo permite melhor formação de açucares, que tem relação direta com a qualidade final da bebida. O solo predominante é o latossolo vermelho, amarelo com boa textura e granulométrico, oferecendo condições ideais de armazenamento de água, drenagem e aeração, necessários ao desenvolvimento do sistema radicular do cafeeiro. (INSTITUTO MINEIRO DE AGROPECUÁRIA, 2006) A Associação mostra que: As medidas de proteção ao meio ambiente incluem a reserva de amplas áreas para preservação da flora e da fauna nativas. A qualidade da água recebe atenção especial, uma vez que as nascentes que proliferam na região (Mantiqueira significa “lugar onde nascem as águas” na língua Tupi) alimentam o tradicional Circuito das Águas do Sul de Minas. (ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE CAFÉ DA MANTIQUEIRA, 2011) Figura 22: Cachoeiras e Corredor de Mata Atlântica bem preservado. Foto Arquivo pessoal trabalho de campo jul.2011 Remetendo o quadro natural para a atividade agropecuária na ocupação do espaço sul mineiro temos; As propriedades policulturas, como é o caso do Sul de Minas, se caracterizam pela baixa taxa de exposição do solo[...] é plausível que a combinação da paisagem natural com a policultura e a pecuária resultasse em impactos muito menores, 59 passíveis de serem confundidos,à primeira vista, com um maior conhecimento técnico[...], a fazenda Sul de Minas está assentada em condições de produtividade mais prolongada, já que os problemas ambientais gerados pelo manejo são muito menores que os verificados nas áreas de monoculturas tradicionais. (GIOVANINI, 2006, p. 90) A associação do quadro natural com a ocupação preterida do espaço, visto que havia poucas atividades mineratórias na microrregião de São Lourenço, podemos afirmar que o Sul de Minas dedicou-se à intensa atividade agropecuária, um espaço dinâmico, interligado por “caminhos” que abasteciam o mercado interno com café, queijos, lingüiça, tecidos, gado, tabaco, como bem nos lembra Saint Hilaire (1975): várias caravanas vieram sucessivamente aboletar-se no rancho. Vêm umas do Rio de Janeiro para São João e Barbacena, carregando sal; vão outras destes arredores para a capital e levam toucinho e queijos. Estes gêneros que constituem dois ramos de comércio muito importantes para a comarca de São João transportam-se em cestas de bambu (jacás) achatados e quadrados; cada cesto contém 50 queijos e dois formam a carga de um burro. Os de toucinho pesam cada um três arrobas, se o burro que os leva é novo, e quatro, quando já acostumado à carga. O sal é transportado em sacos. (SAINT HILAIRE, 1975 p.91) Mas quando se trata das belezas da Serra da Mantiqueira, o mesmo Hilaire (1975), se mostra encantado com as paisagens naturais. À nossa frente tínhamos a Serra da Mantiqueira, a cujos cumes, bastante diferentes pelo formato, veste sombria floresta. Nada melhor lembra os vales da Suíça do que este de que acabo de fazer a descrição. (SAINT HILAIRE, 1975 p. 125) quando se atravessa o rio avista-se em conjunto o que acabo de descrever, vê-se além disso, ao longe, a Serra da Mantiqueira, cortada por imensas florestas e a gente não pode cansar-se de contemplar uma paisagem que tem, ao mesmo tempo, algo de risonho e majestoso. (SAINT HILAIRE, 1975 p. 124) Porém o grande diferencial da região é o fato de se situarem em região montanhosa da Serra da Mantiqueira, que possui espetacular beleza, as lavouras se distribuem em altitude médias que vão dos 850m até 1400m estabelecendo diferenças sensoriais a cada patamar de altitude, podendo ser encontrado cafés de média a alta complexidade em termos de doçura, aroma, acidez, particularidades que fazem da microrregião candidata a produção de cafés de qualidade e de personalidades sensoriais estável ao longo dos anos. Neste quadro natural se inscreve a Rota do Café Especial, como veremos a seguir. 60 4. A ROTA DO CAFÉ ESPECIAL A Rota do Café Especial é um investimento em turismo rural colocado em prática no ano de 2008 sob a iniciativa do Grupo Sertão. O Grupo Sertão é composto por tradicionais agricultores da região sul mineiro, mais especificamente no município de Carmo de Minas, que há mais de 100 anos vem do ambiente geográfico favorável para a manutenção e continuidade da tradicional cultura “café com leite”. Conforme nos lembra Filetto (2000) em sua tese sobre a expansão da cafeicultura o atual agronegócio do café sul mineiro apresenta características dinamizadoras que foram agregadas a partir do surgimento do CAI do café e da modernização da agricultura brasileira durante a década de 70. (FILETTO, 2000 p.92) Deste modo o território da Rota do Café ESPECIAL, vem servindo como espaço de produção agropecuária, permeado por relações sociais contraditórias, e mais recentemente às relações econômicas que o colocam no topo como expressão máxima de vantagens locacionais, servindo ao mundo globalizado de produção, como fica claro na “missão” instituída pelos proprietários do território. Neste sentido, constitui Missão do Grupo Sertão; 1- Produzir e comercializar cafés de alta qualidade com padrões definidos para exportação; 2- Desenvolver um gado girolando de referência nacional; 3- Produzir e comercializar milho e soja com alto padrão de qualidade; 4- Rentabilidade, melhoria da qualidade de vida dos colaboradores, respeito à legislação e ao meio ambiente e contribuição social para uma sociedade mais igualitária e justa. (GRUPO SERTÃO, 2011) Suas vastas propriedades, cinco ao todo, divididas entre os filhos, como é comum na agricultura familiar e tradicional na RGSM, integram os pioneiros fazendeiros no cultivo de café e criação do gado Girolando. 61 Figura 23: Vista da Sede colonial da Fazenda Sertão atualmente descaracterizada por reformas. Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul 2011 A Matriarca da Fazenda Sertão ainda vive no município e suas glebas de terras figuram sempre entre os finalistas dos concorridos concursos internacionais de cafés especiais promovidos pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Figura 24, 25: Marco da Sede Colonial e a Matriarca que ainda reside no município Fonte: Arquivo pessoal trabalho de campo jul.2011 A Visão empresarial do Grupo Sertão, pioneiros e únicos a ofertarem o Turismo rural como prioridade para atingir os objetivos familiares, perpassados por seus valores; tornar -se uma referência mundial no mercado do agribusiness nos próximos 5 anos e aumentar significativamente as exportações de cafés arábicas de alta qualidade com valor agregado. Valorização da Família, Ética, Transparência, Credibilidade, Profissionalismo, Humildade e Determinação. (GRUPO SERTÃO, 2011) 62 Podemos comprovar no trecho abaixo como a Rota foi pensada e a finalidade, que pode ser traduzida a principio como educação, ou seja, educar o brasileiro a tomar café, café especial de preferência, aguçar o paladar, informar que os melhores cafés são realmente do país, mas que estes são exportados e a regulamentação da ABIC permite um excesso de “defeitos” nos cafés das mesas dos brasileiros: o propósito da rota é educação, a pessoa sai informada do que é o café especial... a gente ate brinca que as pessoas vão tomar café pela primeira vez na vida! na rota do café especial.. Com as premiações, e tendo essa visibilidade... (Gerente 1) e a rota do café é um projeto turístico que visa mostrar para o brasileiro que existe um tipo de café diferenciado e que está próximo da gente e que podemos degustar este café, porém a gente tem que mostrar, que 95, 5% dos cafés daqui vão pra fora, japoneses, Estados Unidos, Noruega, Dinamarca, são os nossos maiores clientes....(Gerente1) e a rota próximo a São Lourenço que é um pólo turístico..., então por que não trazer o público de São Lourenço para visitar as fazendas? Mas são (sic) um público pequeno porque é um roteiro diferenciado de bastante informação,a gente vai passar pela lavoura e não pensamos em massificar e vamos mostrar aos pouco do que está acontecendo aqui nesta nossa região. (Gerente 1)4 As propriedades centenárias são hoje administradas pelos herdeiros, filhos, genros e noras, que compõem um seleto grupo de agropecuaristas com forte visão empresarial, e presença marcante nas decisões da APROCAM, Carmo Coffee, Unique Café, constituindo uma elite no município. [...]turismo só existe na Fazenda Sertão, a rota só na Fazenda Sertão os outros produtores ainda não se abriram a isso ainda... não entendem o turismo como atividade econômica, ... estão começando ainda a perceber...porque a gente recebe 400 estrangeiro/ano que vem por causa da rota de turismo criada pelo café....para "eles" que não viram essa possibilidade ainda..... pois o valor da rota é bem superior ao passeio do Trem das Águas que vai de S Lourenço a Soledade...(Gerente1)5 A criação de gado Girolando também é tradição no município e na RSM aproveitando-se que o café é plantado nos topos de morros, o gado utiliza-se das pastagens nas encostas dos mesmos, permitindo uma dupla renda para os proprietários. Não raramente seu rebanho figura entre finalistas e vencedores de concursos nacionais e regionais. O gado leiteiro ainda tem outra função, a responsabilidade social, é distribuído, sem cotas diárias para os colonos/empregados da Fazenda, sendo ao todo 40 casas, com construção do inicio dos anos 1900, que abrigam aproximadamente 120 funcionários e suas famílias. 4 5 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Carmo de Minas em 22/07/2011 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Carmo de Minas em 22/07/2011 63 Figura 26,27: As faixas de “Grande Campeã”, não deixam dúvidas sobre a qualidade e o compromisso na produção “Café com Leite”. Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul.2011 A Fazenda Sertão conta com Capela, onde se realizam as tradicionais festas religiosas e as missas domingueiras, Escola Rural Municipal, com ensino fundamental seriado até o quinto ano para as crianças que moram na propriedade, e transporte escolar gratuito para os maiores , a partir do sexto ano, de responsabilidade conjunta com a prefeitura, duas vezes por dia. Nas casas dos empregados percebem-se a prática de horta de subsistência, culturas complementares como mandioca, milho, e ainda a produção de queijo para uso doméstico com o leite fornecido diariamente, em algumas casas, caracterizando a melhoria na renda das famílias. As residências simples, de caráter rural acompanham as modernidades da vida moderna, com a presença de parabólicas, televisores; mas de um modo geral segue o ritmo do campo, um modo de vida simples, rústico, enraizado no sopé das montanhas emoldurados pelos imponentes pés de cafés “subindo os morros” ; filhos de gerações de empregados desde os primórdios da cafeicultura na Fazenda em 1912 e ajudaram a erguer a Sede Colonial em 1891. Nas palavras do Gerente 1 : [...] Há famílias de trabalhadores aqui que estão há 3,4 gerações na Sertão,são funcionários, tudo registrado, tudo certinho... vivem aqui, moram aqui...apenas na 64 colheita ou adubação a gente contrato pessoal daqui da região para ajudar, também tudo legalizado...tudo certinho. (Gerente 1)6 Figura 28: A moradia dos colonos, a simplicidade das habitações contrasta com o agronegócio altamente lucrativo que as rodeiam. Fonte: Arquivo pessoal trabalho de campo jul.2011 Mesmo não sendo permitido descer durante o passeio dentro da propriedade, corremse o risco de se perder, os turistas prestam bastante atenção nas historias contadas pelo guia que chama sempre a atenção para os aspectos sociais com que o Grupo gerencia o seu território. Um exemplo está exposto a seguir, a preocupação com a educação, como dito anteriormente de responsabilidade do município em terras rurais particulares. Figura 29: Escola Rural dentro da propriedade, a responsabilidade social presente. Fonte: Arquivo pessoal trabalho de campo jul.2011 6 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Carmo de Minas em 22/07/2011 65 Em busca de Paisagens Rurais em ambiente familiar e tranqüilo, turistas se delicia com a rusticidade e o ritmo lento do campo, ditado pela natureza. Figura 30: A Paisagem Rural, objeto de consumo das novas ruralidades Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul.2011 Os turistas são levados pelo interior da Fazenda, o que contribui para gerar o Cenário perfeito para a valorização do Produto e prepará-los para os Sabores do Campo. Esta estratégia é parte do serviço de comunicação, boca a boca, essencial no turismo rural, onde as experiências sensoriais, os atrativos, são transmitidas e podem aumentar o numero de turistas/ano na propriedade. Figura 31,32: O caminho que conduz a experiências sensoriais na Rota do Café ESPECIAL Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul. 2011 Seguindo pela empoeirada estrada em curvas cada vez mais apertadas e solavancos a van para no Mirante Central à 1145m, onde grupo de turistas em visita à propriedade ouve atentamente os detalhes conservacionistas aplicados e se deliciam com a paisagem de “café até onde a vista alcança”. 66 Parada “técnica” da Rota no Mirante Central da Fazenda, explicações e “tira dúvidas” sobre a plantação, produção, preparando os turistas para apreciarem um café especial, com características raras e únicas. Figura 33, 34: Parada no Mirante Central e “Cafés até onde a vista alcança” Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul.2011 O gerente da Rota faz as explicações devidas sobre a sustentabilidade ambiental, mostra os corredores de Mata Atlântica, aponta as cachoeiras dentro da propriedade e sustenta que: pessoal aqui a gente fala um pouco da cafeicultura dentro do meio ambiente, nossos cafés começam láaaa... os corredores ecológicos...[...]900m, partindo lá da cidade, 1000m na primeira parada, vamos chegar a 1300 m existem lavouras ate 1500m, uma das diferenças da plantação de montanha, 1 milhão de cafés nesta fazenda é colhido manualmente, galho a galho , ou grão a grão, tudo isso vai gerar a qualidade.... (Gerente 1)7 A extensão da propriedade impressiona, bem como o meio ambiente preservado, cachoeiras, o verde e o ritmo frenético da época da colheita feita basicamente de maneira tradicional e cuidadosa, o que leva a pensar na importância do produto para a economia regional. 7 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Carmo de Minas em 22/07/2011 67 Figura 35,36: Os topos de morros cobertos pela lavoura com a imponência da Serra da Mantiqueira ao fundo. Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul.2011 Detalhe das plantações “morro acima” e os “corredores naturais” de Mata Atlântica preservados, a dimensão ambiental presente como fator primordial para o desenvolvimento do Turismo Rural na propriedade. Figura 37: Detalhe da plantação “morro acima” Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul.2011 68 Toda a estrutura do agronegócio do Café Especial pode ser observada pelos turistas, que visitam o pátio de secagem, a maquinaria, e o trabalho febril na época da colheita que se estende justamente com o período de inverno abril a setembro. Figura 38: O movimento do maquinário em plena colheita Fonte: Arquivo pessoal , trabalho de campo jul.2011 Todo esse trabalho pode ser assim descrito, nas palavras do Gerente da Rota: no pátio tem cereja, outro de verdes, que estourou depois... o melaço (doce natural)virou uma casquinha que virou um pergaminho ou par de café.. o café depois que sai da lavoura tem 4 horas para chegar ate aqui para não perder a qualidade, aqui ele fica 7 dias sendo virado acompanhando conforme o sol, virado manualmente... uma produção não tão grande porém com volume e mesmo com 3 pátios a gente não consegue dar conta do café que vem da lavoura, então aceleramos o processo ele fica três dias aqui porque tem que limpar para colocar outros café e colocamos na secadora industrial, mais três dias secando depois vai para o descanso ate ser ensacado, por 60 kg e vai para a cooperativa... aí que vai ser classificado...se ele vale mais de 80 pontos ou menos.. ou seja se é especial ou commodities... a seleção por tamanho de grãos define na peneira, amostragem por sacas... (Gerente 1)8 A tradição da secagem nos terreiros, aproveitando os meses secos e dias ensolarados do inverno, os secadores mecânicos completam o trabalho. Após a visita ao Pátio, turistas são levados para a Sede Colonial onde são apresentados ao aroma e sabor indiscutíveis do café “rastreado do pé à xícara”. 8 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Carmo de Minas em 22/07/2011 69 Figura 39,40: Turistas ouvem atentamente as explicações sobre como se tomar café Fonte: Arquivo pessoal, trabalho de campo jul.2011 Em Palestra na Sede Colonial da Fazenda Sertão (1891) os turistas acompanham atentamente a explanação da Produção do Café Especial e aprendem a “tomar café pela primeira vez”, desmitificando o trinômio café preto/forte/quente! [...] hoje vocês vão tomar café pela primeira vez na vida, pra muita gente o café tem que ser preto extremamente quente e amargo... o sabor do cafe é o amargor, a gente vai derrubar isso. Café não é preto não tem amargor excessivo, um café bom se toma sem açúcar, hoje vocês vão saber como é que se consegue tomar café sem fazer careta. (Gerente 1)9 Diante do exposto acima pudemos perceber que a “Rota do Café Especial” cumpre os requisitos para se firmar como Turismo Rural, de acordo com a cartilha do Ministério do Turismo. É realizada em pequena escala, pois a van que faz o transporte comporta no máximo 14 pessoas sem aglomeração, e de modo a permitir o contato personalizado, e sem excesso de veículos no interior da propriedade, o que contribui para o meio ambiente. A Rota situa-se em local de rara beleza com paisagens tipicamente rurais que vão de encontro aos anseios dos turistas, em sua grande maioria proveniente de áreas urbanas, Outra característica é a manutenção das atividades produtivas na propriedade, pois os turistas não interferem na frenética época da colheita, o melhor período para se fazer a visita à propriedade, pois o período de estiagem coincide com o inverno e com a colheita propiciando deslumbrantes dias ensolarados e raras nuvens. A conservação dos recursos naturais, a preocupação com a manutenção dos ecossistemas, o manejo do solo, a preservação da fauna, flora e recursos hídricos, bem como a 9 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Carmo de Minas em 22/07/2011 70 conservação (ainda que descaracterizada por reformas), o Casarão centenário, possui traços arquitetônicos do inicio do século que harmonizam com o rural. A manutenção das tradições familiares, pois a quatro gerações a propriedade se encontra no âmbito familiar, transmitido de pai para filho, e sendo administrados por eles. As tradições culturais com o tradicional “bolo de fubá” e do “pão de queijo”, coroado com o “café especial” na velha cozinha de azulejos azuis e brancos, a toalha de renda em crochê, representa o jeito mineiro de ser, receber e de consolidar bons frutos com esse belo trabalho. Neste sentido é que foi pensada e criada a Rota do Café ESPECIAL aproximarem-se do consumidor final para que este possa reconhecer as percepções sensoriais do Café Especial, sabor, aroma, blend, qualidade,dedicação com meio ambiente, responsabilidade social, enfim promover o produto, valorizar o território, garantindo assim o desenvolvimento da região, e uma fatia do crescente mercado de cafés especiais. 71 CONCLUSÃO Desde a introdução da cafeicultura na região sul-mineira esclarecido no tópico 2 pode-se afirmar que a região percorreu um longo caminho até se consolidar como microrregião produtora de cafés especiais; merecedora de destaques em concursos nacionais e internacionais, sem contudo perder o caráter tradicional mineiro! Ao longo do tempo o café se destinava ao consumo interno como subproduto da região, sobreviveu a crises, levou muitos à ruínas e elevou muitos à condições de grandes agropecuaristas. O caráter mercantil da região, principal rota de comercio de abastecimento da corte, a policultura, conviveu pacificamente com as atividades auríferas (mesmo porque foi pouco expressivo o ouro nesta região), e com pequenas manufaturas (doces, forjas, sabão) e ainda transição entre o trabalho escravo e o trabalho livre não foi palco de conflitos em terras sul mineiras. O café se tornou a mais importante cultura regional, impulsionando o desbravamento da região, articulando-o às novas regiões permitindo as expansões do comércio, novas estradas, configurando-se como centro político econômico no inicio do século XX, também neste momento a região se beneficiou da proximidade com o estado de São Paulo, tornando-se uma área de desconcentração das indústrias do interior paulista. Podemos citar na região uma boa infra-estrutura de cidades industriais próximas ao circuito das águas, como Varginha, Três Corações, Alfenas, Três Pontas, Santa Rita do Sapucaí, todas que fazem grandes negócios com o país e o mundo. A indústria de laticínios, tradicionais da política “café com leite” já possuem produção sofisticada, com mecanização, e instalada em toda a região buscando agregar valor aos produtos tipo exportação como o queijo de Cruzília e Minduri. No que se refere ao café, grandes investimentos estão sendo feitos para aumentar a capacidade de torrefação (mercado em expansão), adaptação de novas espécies de cultivares, e sobretudo o investimento em cafés especiais que agregam valor ao produto e conferem visibilidade à região. Estas particularidades forjaram a consolidação da região sulmineira, onde, conjuntamente com o quadro natural único, permitiram desenvolver um território de extrema relevância para o desenvolvimento local, mas articulada com o global. O país possui uma dinâmica comercial de regiões agrícolas exportadoras especializadas, que desempenham um importante papel na economia, típica de países “em desenvolvimento”. Assim a função de “especializar” em detrimento do mercado internacional, e servir cada vez mais aos interesses de um mercado restrito torna as regiões dependentes da 72 demanda desses países compradores (Japão, Estados Unidos, Dinamarca), além dos “humores” e crises internacionais. Por outro lado, quando o mercado se encontra aquecido, as condições climáticas favorecem a lavoura, bem como a safra bi-anual do produto, pode-se esperar a colheita de “bons frutos” no mercado externo, como foi o ano de 2011 para os cafeicultores da região. O Território passou a ser o centro da excelência na cadeia do agronegócio, ele é praticamente controlado por ações “de fora” que determinam e submetem a gestão territorial de acordo com demandas internacionais. Não que tenham grandes corporações instaladas em Carmo de Minas, mas a visibilidade do município nos leilões e feiras internacionais, levou os “gestores” a instrumentalizar para servir, e administrar localmente para a grande empreitada de elevar o local ao global. Nesse cenário de internacionalização foi pensada a Rota do Café ESPECIAL em um Território centenário de ambiente tradicional familiar, de cafeicultores da região. O território para fins de turismo rural, utilizado para a produção de cafés especiais partiu de um projeto da elite local, que articulados globalmente pela exportação do produto e participações em leilões internacionais “vislumbrou” uma articulação do território/turismo/desenvolvimento/visibilidade/remuneração o que pode ser verificado no tópico 2.2. Ainda incipiente devido principalmente por ser recente (criado no ano de 2008), e, sobretudo, por não contar com uma infra-estrutura turística (nem sequer possui agencia bancária!) hotéis, restaurantes, pousadas, o município está bem articulado com o Circuito das águas e Circuito Terras Altas da Mantiqueira como vimos no tópico 2.4. A prefeitura estruturou a Secretaria Municipal de Turismo e Cultura no ano de 2010 para pleitear o ICMS Turístico, novidade da gestão do então governador Aécio Neves, que desde janeiro de 2011 vem recebendo repasses mensais para investir em infra-estrutura turística e desenvolvimento do turismo no município. Ao todo o município recebeu, no ano de 2011, segundo dados da Fundação João pinheiro o valor de R$ 176.801,38. Esta iniciativa foi um passo importante político e econômico para tornar possível a viabilidade do turismo no município, tanto o Turismo Rural sustentável e social. Apesar de não contar com uma “rede de colaboração” dos “outros produtores”, aqui entendidos como aqueles que até fazem parte da APROCAM e jus ao selo de IP conseguido pela entidade, mas a idéia de não adesão ao Turismo Rural nessas propriedades é sentida como atividade “custosa”, “trabalhosa” e que requer “tempo” o que para o pequeno/médio produtor inviabiliza o turismo. 73 No entanto, conforme visto no tópico final, a atividade de produção dos cafés especiais movimenta o município que já é conhecido internacionalmente, muito mais do que nacionalmente, e a “Rota dos Café Especial” vem trazendo ainda mais visibilidade para o produto e região. Creio ser questão de tempo, para articulação política e econômica, pois a prefeitura junto com a Secretaria de Turismo e Cultura já tomou a iniciativa, e junto com o Selo da Indicação Procedência (IP) conseguida recentemente pela união dos produtores na APROCAM viabilizaria ainda mais o crescimento de turistas no município. O caminho para a inserção do local no global já foi iniciado, definitivamente em 1996 com a criação da APROCAM, iniciativa das elites locais, é verdade, que juntando o café e o gado girolando, ou seja, a célebre dupla política “café com leite” promete inscrever o município no prestigioso circulo de leilões agropecuários incorporando benefícios e desenvolvimento para o município, graças aos seus atributos geográficos e uma pitada de “exclusivismo colonial”. 74 ANEXOS ANEXO I PORTARIA Nº 397, DE 21 DE JULHO DE 2000. ALTERA A DELIMITAÇÃO DAS REGIÕES PRODUTORAS DE CAFÉ DO ESTADO DE MINAS GERAIS PARA A INSTITUIÇÃO DO CERTIFICADO DE ORIGEM E QUALIDADE. O DIRETOR-GERAL DO INSTITUTO MINEIRO DE AGROPECUÁRIA-IMA, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 19, incisos I e XI do Decreto nº 33.859, de 21 de agosto de 1992, para atender o disposto no inciso XLVI do artigos 2º do mesmo diploma legal, considerando a atual adoção de práticas de irrigação para a cultura do café, em regiões com déficits hídricos considerando que a delimitação das regiões produtoras de café do Estado de Minas Gerais, estabelecida pela Portaria nº 165/95, de 27.04.95, não contempla áreas localizadas em microclimas favoráveis à produção de café; considerando a recomendação do Comitê Técnico do CERTICAFÉ para alterar as delimitações das regiões produtoras de café do Estado, endossadas pelo Conselho Executivo do CERTICAFÉ considerando os levantamentos cadastrais da EMATER-MG, sobre a dispersão geográfica da produção de café no Estado RESOLVE: Art. 1º - Ficam delimitadas as regiões para a produção de Café no Estado de Minas Gerais em: Região Sul de Minas, Região dos Cerrados de Minas, Região das Montanhas de Minas e Região das Chapadas de Minas, conforme Anexo Único desta Portaria. Art. 2º - Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação e revoga qualquer disposição em contrário. Registre-se, publique-se e cumpra-se. INSTITUTO MINEIRO DE AGROPECUÁRIA - IMA, em Belo Horizonte, aos 21 (vinte e um) dias do mês de julho de 2000. Célio Gomes Floriani Diretor-Geral 75 ANEXO II PORTARIA Nº 805, DE 18 DE OUTUBRO DE 2006. Institui indicação geográfica protegida e marca geográfica na região Sul do Estado de Minas Gerais, no âmbito do Programa Mineiro de Incentivo à Certificação de Origem e Qualidade do café - CERTCAFÉ. O DIRETOR-GERAL do INSTITUTO MINEIRO DE AGROPECUÁRIA - IMA, no uso da atribuição que lhe confere o artigo 13, inciso X, do Regulamento baixado pelo Decreto nº 43.415, de 04 de julho de 2003, e tendo em vista o disposto nos Decretos nºs 38.559, de 17 de dezembro de 1996 e 41.406 de 30 de novembro de 2000, considerando a importância dos nomes geográficos como indicadores de preferência no sistema comercial nacional e internacional; considerando a necessidade de adequada proteção e publicidade dos nomes geográficos reconhecidos como centros de produção de matérias primas, bens e serviços no Estado, no País e no exterior; considerando as características do microclima montanhoso da região para o cultivo de café; considerando a tradição da região para produção de cafés especiais; considerando as características sensoriais da bebida com reconhecimento nacional e internacional. RESOLVE: Art. 1º. Fica instituída a Indicação Geográfica Protegida - IGP com a denominação de REGIÃO DOS CAFÉS DA SERRA DA MANTIQUEIRA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, compreendida entre as coordenadas 44º53’24”W a 45º32’32” W de longitude delimitada respectivamente pelos municípios de HELIODORA e BAEPENDI, e 21º’50”10”S a 22º15’16”S de latitude delimitada respectivamente pelos municípios de DOM VIÇOSO e CAMPANHA, composta de dezessete municípios da região do Sul de Minas, conforme Anexo I. Art. 2º. Fica instituída a Marca Geográfica denominada CAFÉ DA SERRA DA MANTIQUEIRA DE MINAS GERAIS, compreendida entre as coordenadas definidas no artigo anterior. Art. 3º. A marca geográfica prevista nesta Portaria compreende as áreas de produção de café dos associados da APROCAM - Associação dos Produtores de Café da Mantiqueira, com sede em Carmo de Minas, cuja região se caracteriza pelas ótimas condições edafo-climáticas propícias à produção de cafés especiais, conforme memorial descritivo, Anexo II desta Portaria. Art. 4º. As propriedades inseridas nessa área geográfica farão jus ao uso da marca geográfica, desde que se submetam aos controles do Programa Mineiro de Incentivo à Certificação de Origem e Qualidade do Café - CERTCAFÉ, devendo, para tanto, ser cadastradas, registradas e certificadas pelo Instituto Mineiro de Agropecuária -IMA. 76 § 1º A Certificação far-se-á mediante auditoria ambiental e de conformidade realizada pelo Instituto Mineiro de Agropecuária-IMA, para fins de recebimento do selo de origem e qualidade. § 2º A concessão do selo está condicionada aos resultados de avaliação das auditorias efetuadas. § 3º As auditorias far-se-ão de acordo com plano estabelecido entre o produtor e a autoridade auditora e o previsto na Portaria nº 712, de 17 de junho de 2005, desta Autarquia. Art. 5º. Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. Belo Horizonte, 18 de outubro de 2006. Altino Rodrigues Neto Diretor-Geral 77 ANEXO I DA PORTARIA Nº 805, DE 18 DE OUTUBRO DE 2006 MUNICÍPIOS QUE INTEGRAM A INDICAÇÃO GEOGRÁFICA PROTEGIDA DENOMINADA SERRA DA MANTIQUEIRA DO ESTADO DE MINAS GERAIS BAEPENDI DOM VIÇOSO CAMBUQUIRA CAMPANHA CARMO DE MINAS CONCEIÇÃO DAS PEDRAS CONCEIÇÃO DO RIO VERDE CAXAMBU CRISTINA HELIODORA JESUÂNIA LAMBARI OLÍMPIO NORONHA PEDRALVA POUSO ALTO SÃO LOURENÇO SOLEDADE DE MINAS 78 ANEXO II DA PORTARIA Nº 805, DE 18 DE OUTUBRO DE 2006 MEMORIAL DESCRITIVO 1. Caracterização geomorfológica, hídrica e climática Com latitude média de 22º sul e altitude entre 850 a 1400 m, a cafeicultura regional está implantada acima de 800 metros, com temperatura média anual de 19ºC. As baixas temperaturas favorecem a maturação mais demorada dos frutos que resulta em formação de mais açúcares e acidez característica que melhora a bebida. O relevo é montanhoso com declives variando de médio a acentuado.As lavouras de café estão implantadas nas encostas com declividade de 0% a 50% em nível, com boa drenagem de ar frio, menos ocorrência de geadas. A precipitação pluviométrica anual média é de 2000 mm, com boa distribuição ao longo do ano, onde o período de maio a agosto tem baixa pluviosidade, favorecendo a colheita e preparo do café de qualidade. As boas disponibilidades de água associada à inclinação do solo propiciam um equilíbrio entre o fornecimento adequado e drenagem do excesso de água. Além dessas peculiaridades climáticas, a presença de áreas significativas de remanescentes de Mata Atlântica bem como vegetações ciliares e grandes número de nascentes, garantem ao ambiente, características únicas e diferenciadas das demais regiões cafeeiras do país. A incidência desse remanescente de Mata Atlântica cria condições de retenção especial de umidade do ar, implicando uma restrição da amplitude térmica durante o verão, provocando maturação mais lenta nos frutos do café. Este processo permite melhor formação de açucares, que tem relação direta com a qualidade final da bebida. O solo predominante é o latossolo vermelho, amarelo com boa textura e granulométrico, oferecendo condições ideais de armazenamento de água, drenagem e aeração, necessários ao desenvolvimento do sistema radicular do cafeeiro. 2. Influência dos meios edáficos climáticos nas características sensoriais dos cafés APROCAM As lavouras de café situadas na área de abrangência da APROCAM têm como particularidade o fato de se situarem em região montanhosa da Serra da Mantiqueira. Considerando-se o aspecto altitude, uma vez fixada altitude média da região, verifica-se que a cafeicultura desenvolvida por seus produtores se distribui desde 850 m até 1400 metros acima do nível do mar. A cada 100 metros além do mar, há um gradiente negativo de temperatura média da ordem de 0,7ºC, de forma que, para fins de mapeamento das características sensoriais das bebidas de café da APROCAM constituiu-se dois grupos: cafés produzidos entre 850 a 1100 metros de altitude e cafés produzidos a partir de 1.100 metros de altitude, estabelecendo uma diferença média de temperatura entre os dois grupos em torno de 2ºC. O primeiro grupo, cuja produção se concentra em áreas de menor altitude, apresentam cafés cujas características sensoriais médias se aproximam muito dos cafés produzidos nas regiões circunvizinhas. Cafés com aroma de média a alta intensidade e acidez com razoável grau de complexidade, predominância de notas frutadas delicadamente cítricas, como uvas itálicas e cacau. São bebidas que, uma vez que haja bom preparo dos grãos, detém excelente qualidade. Já os grãos produzidos em altitudes acima de 1.100 metros na região da APROCAM, apresentam algumas particularidades especiais como: predominância de variedades como Catuaí Amarelo 47, Mundo Novo e Bourbon Amarelo e Vermelho; lavouras plantadas em faces de insolação consideradas altamente favoráveis para o pleno desenvolvimento dos frutos e temperaturas médias mais baixas em torno de 2ºC. Este 79 conjunto particularidades fez surgir à bebida característica dos cafés da APROCAM, que permitem uma produção de qualidade e personalidade sensorial estável ao longo dos anos, como: Aroma intenso, com top-flavor (notas da cabeça) com predominância de notas florais cítricas adocicadas, lembrando tangerinas e middle-flavor (notas intermediárias) apresentando toques de frutas, como uva moscatel; acidez de média a alta intensidade, com predominância da acidez cítrica e por vezes tartárica em menor intensidade; encorpados com elevado grau de doçura: sabor intenso adocicado, com predominância típicas da frutose e notas frutadas de uvas moscatel, proporcionando finalização de média duração. Em termos físicos, as altitudes elevadas, combinadas com as variedades escolhidas pelos produtores da APROCAM, possibilitam a produção de grãos com espectro concentrado em peneiras altas e formato alongada; coloração média é verde esmeralda intenso, tanto para os cafés com processamento de pós-colheita por Cerejas Descascadas, quanto pelo Natural, devido à altitude media de produção. 80 ANEXO III 81 ANEXO IV Lote Propriedade Produtor Cidade/Estado Nota Sacas Caixas 1 Fazenda Rainha Roberto Irineu Marinho S. Sebastião. da Grama ‐ 91,41 22 SP 44 2 Fazenda Senhor do Bonfim Benyosef Rosa Soares Piatã ‐ BA 88,82 15 30 3 Sítio Cafezal Jabes Carvalho Junqueira Carmo de Minas ‐ MG 88,68 19 38 4 Fazenda JR – Junqueira Reis José Flávio Ferraz Reis Carmo de Minas ‐ MG 88,41 17 34 5 Granja São Francisco Otaviano Ribeiro Ceglia Carmo de Minas ‐ MG 88,24 20 40 6 Gleba São Francisco Maria José Junqueira Ceglia Carmo de Minas ‐ MG 88,12 17 34 7 Fazenda São Pedro Robson Villela Martins Cristina ‐ MG 88,03 23 46 8 Gleba Flamengo Luis Eduardo Junqueira Ceglia Carmo de Minas ‐ MG 87,88 20 40 9 Sítio Tia Cama José Carlos Santiago Junqueira Carmo de Minas ‐ MG 87,74 18 36 10 Fazenda União João Florentino Barbosa Piatã ‐ BA 86,88 17 34 11 Sítio Serra da Bela Vista Jussara Franqueira Junqueira Carmo de Minas ‐ MG 86,47 19 38 12 Chácara Sagrado Coração de Jesus Álvaro Antônio Pereira Coli Carmo de Minas ‐ MG 86,44 19 38 13 Fazenda Sertãozinho Fazenda Sertãozinho LTDA. Botelhos ‐ MG 85,62 38 76 14 Sítio Brejinho Antônio Gabriel de C Pereira Carmo de Minas ‐ MG 85,44 17 34 15 Sítio Araucária Kleber de Castro Junqueira Carmo de Minas ‐ MG 85,41 21 42 16 Sítio Nascente D’Água Limpa Marianna Carneiro C. Junqueira Virgínia ‐ MG 85,41 23 46 17 Fazenda N Senhora Aparecida Eduardo Vilela Martins Cristina ‐ MG 85,35 28 56 18 Fazenda Divino Espírito Santo Michael Freitas de Alcântara Piatã ‐ BA 85,18 17 34 19 Chácara São Judas Tadeu Antonio Rigno de Oliveira Piatã ‐ BA 84,88 28 56 20 Fazenda Marimbondo José Mauro Pereira Junqueira Soledade de Minas ‐ MG 84,85 18 36 21 Fazenda Moinho Vinícius José Carneiro Pereira Olímpio Noronha ‐ MG 84,82 19 38 22 Sítio Bela Vista Márcio Heleno de C Junqueira Dom Viçoso ‐ MG 84,62 20 40 23 Fazenda Capão Salvador da Paixão Mesquita Piatã ‐ BA 84,62 21 42 24 Fazenda Capoeirinha Ipanema Agrícola SA Alfenas ‐ MG 84,15 19 38 25 Sítio do Pica‐Pau José Isidro Pereira Neto Carmo de Minas ‐ MG 84,12 19 38 82 REFERÊNCIAS ABRAMOVAY, Ricardo (2003 a) – “Funções e medidas da ruralidade no desenvolvimento contemporâneo” in O Futuro das Regiões Rurais pp. 17-56 – Ed. UFRGS, Porto Alegre. AGUIAR, Cibele. 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