FISIOTERAPIA Relação entre a presença de joelhos valgos e o aumento do ângulo Q Eloiza Satico Tabuti Jensen Pesquisadora Cristina Maria Nunes Cabral Orientadora Resumo Uma das lesões mais freqüentes na articulação do joelho é a disfunção fêmoro-patelar (DFP), que afeta um entre quatro indivíduos, com idade entre 10 e 35 anos, ocorrendo mais comumente em pessoas do gênero feminino. Ao exame físico, um dos principais achados em pacientes com DFP é o aumento da medida do ângulo Q, formado pela intersecção entre a linha que liga a espinha ilíaca ântero-superior até o centro da patela e outra que liga o centro da patela até a tuberosidade da tíbia. O objetivo deste estudo foi estabelecer a relação entre o aumento do ângulo Q e a presença de DFP e também verificar qual a melhor posição para medir esse ângulo. Para isso, foram avaliados 30 indivíduos, do gênero feminino, sedentários, com idade entre 18 e 35 anos, que apresentavam joelhos valgos, e que não tinham lesão musculoesquelética no joelho. A medida do ângulo Q foi realizada bilateralmente, com o paciente em posição supina e em pé e foi observado que não houve diferença entre os valores nessas duas posições. Observou-se também que o aumento do ângulo Q é apenas um dos fatores que podem levar à DFP, já que nem todos os indivíduos relataram sentir dor. Além disso, verificamos que nem todos os indivíduos que apresentam joelhos valgos possuem ângulo Q aumentado. Palavras-chave: Ângulo Q. Joelho valgo. Disfunção fêmoro-patelar. Abstract One of the most frequent injuries at knee joint is the patellofemoral dysfunction (PFD), that affects one among four persons, between the age from 10 to 35 year, occurring more commonly in female gender. At physical examination, one of the mainly founds in patients with PFD is the increase of Q-angle, delineated by drawing an imaginary line from the anterior superior iliac spine to the center of the patella and from the center of the patella to the middle of the anterior tibial tuberose. The purpose of this study was to establish the relationship between Q-angle increase and PFD and also verify the best position to measure this angle. It was evaluated thirty female genders, sedentary, between 18 to 35 years old that had valgus knee and didn’t have muscle-skeletal injury at the knee. Q-angle measurement was taken bilaterally with the subject in supine and standing position and it was observed that there was no difference between values in this two positions. It was observed that the increase of Q angle is only one of the factors that can take to DFP, once not all the individuals reported feeling pain. Besides that, it was verified that not all the individuals who have valgus knees had the Q angle increased. Key words: Q-angle. Valgus knee. Patellofemoral dysfunction. Revista PIBIC, Osasco, v. 3, n. 1, 2006, p. 83-91 83 Eloiza Satico Tabuti Jensen 1 Introdução Apesar da grande prevalência da DFP, sua etiologia ainda não está totalmente esclarecida, porém muitos A disfunção fêmoro-patelar (DFP) consiste numa das patologias mais comuns do joelho, encontradas em clínicas de ortopedia e medicina desportiva, e considerada uma das principais lesões musculoesqueléticas que acometem a articulação do joelho (CABRAL et al., 1998). Os pacientes com essa patologia apresentam como característica comum, a dor na região anterior do joelho e isso se deve ao desalinhamento do mecanismo extensor, resultando em hipotrofia e diminuição da força do músculo vasto medial, provocando assim, desequilíbrio entre os componentes laterais e mediais do músculo quadríceps femoral (SOUZA; GROSS, 1991; COWAN et al., 2002; CABRAL; MONTEIROPEDRO, 2003). 84 fatores têm sido propostos como causa dessa lesão, tais como joelho valgo ou hiperestendido, patela alta ou hipermóvel, anteversão da cabeça do fêmur, torção tibial lateral, pés pronados, fraqueza do músculo vasto medial e hipertrofia do músculo vasto lateral (McINTYRE; ROBERTSON, 1992; CABRAL et al., 1998). Entretanto, apesar de todos os fatores mencionados, o desalinhamento da patela tem sido apontado como um dos principais sintomas, pois aumenta a força de compressão na articulação fêmoro-patelar, precipitando assim a DFP. Esse mau alinhamento pode ocorrer diretamente no local do joelho devido a um trauma ou pode ser devido a um desequilíbrio biomecânico do Essa patologia afeta um entre quatro indivíduos e pode eixo corporal longe da articulação fêmoro-patelar, cuja acometer atletas e sedentários, porém a maior incidência é causa pode ser ascendente ou descendente (SILVA, 2002). entre atletas. Além disso, a DFP normalmente afeta pessoas com idade entre 10 e 35 anos e ocorre com mais freqüência em pessoas do gênero feminino. Isso se deve a fatores anatômicos, principalmente à largura da pelve, que permite a articulação do quadril mover-se mais lateralmente do que a linha média, favorecendo aumento no ângulo valgo do quadril com relação ao joelho (McINTYRE; ROBERTSON, 1992; BLAZER, 2003). Clinicamente a DFP é caracterizada por dor difusa, que pode estar localizada na região retropatelar, peripatelar, medial ou lateral e pode ser agravada quando os indivíduos flexionam a perna em atividades funcionais como subir e descer escadas, ficar sentado por muito tempo, agachar, ajoelhar, e também na realização de exercícios físicos. Além disso, pode haver também sensação de crepitação e de estalo (NISSEN, 1998; COWAN et al., 2002; LOUDON et al., 2002; BLAZER, 2003). Revista PIBIC, Osasco, v. 3, n. 1, 2006, p. 83-91 A dor é fator significante, pois poderá inibir a atividade muscular e alterar a função do membro inferior. Todos os pacientes que apresentam dor na região anterior do joelho podem ser diagnosticados como portadores da DFP, com exceção daqueles que se referem à dor devido a bursites, plica sinovial, patologias intraarticulares, lesão de cartilagem, joelho de saltador, tendinites peripatelares, síndrome de Osgood Schlater e neuromas (ALFONSO et al., 1999; BLAZER, 2003). Ao exame físico, o principal achado em pacientes com DFP é um aumento da medida do ângulo quadricipital, ou mais comumente chamado ângulo Q, o qual é formado pela intersecção de duas linhas: uma que liga a espinha ilíaca ântero-superior (EIAS) até o centro da patela e outra que liga o centro da patela até a tuberosidade da tíbia (HORTON; HALL,1989; WOODLAND; FRANCIS, 1992; CAYLOR et al., 1993; GUERRA et al., 1994; Relação entre a presença de joelhos valgos e o aumento do ângulo Q BLAZER, 2003). Segundo Tang et al. (2001), o ângulo Q 3 Material e métodos tem grande importância em pacientes com DFP, já que normalmente é considerado fator predisponente. Foram avaliadas 30 mulheres sedentárias, com idade entre 18 e 35 anos (21,97 ± 3,70 anos), peso de 66,00 ± A angulação normal diverge entre os autores, podendo o o 14,09 kg, altura de 1,64 ± 0,08 m que apresentavam variar entre menor que 15 até 18 (HAMIL; KNUTZEN, joelhos valgos. Os indivíduos que apresentaram histórico 1999; BLAZER, 2003). Além disso, a maioria dos estudos de lesão traumática, ligamentar, cartilagínea ou meniscal relata que existe diferença no valor do ângulo Q entre de joelho e fratura, ou que realizaram alguma cirurgia homens e mulheres (GRELSAMER; KLEIN, 1998). Isso de no joelho, foram excluídos deste estudo. fato ocorre, pois nas mulheres, a pelve geralmente é mais larga e para que a extremidade distal dos côndilos fique Os participantes assinaram termo de consentimento, paralela ao solo, o fêmur deve rodar medialmente, ficando cientes de todos os procedimentos. O estudo foi aumentando assim, o ângulo Q (MAGEE, 2005). conduzido de acordo com a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Apesar da grande importância do ângulo Q, ainda não existem estudos que comprovem qual a melhor forma O estudo foi realizado no Laboratório I do de realizar a medição e qual a melhor posição, não Departamento de Fisioterapia do UNIFIEO – Centro havendo, portanto, uma padronização, o que facilitaria Universitário FIEO e dividido em várias etapas. muito a avaliação clínica (GUERRA et al., 1994). A primeira delas referia-se a um questionário Segundo Livingston e Mandigo (1999), a postura do preenchido pelo próprio participante da qual constavam indivíduo, a contração do músculo quadríceps femoral, a dados pessoais como idade, gênero, peso, altura, e posição do joelho e a posição do pé durante a medida do também era questionado se sentia dor ao realizar ângulo Q podem alterar significativamente o resultado. atividades como subir e descer escadas, andar, correr, dirigir, e em caso positivo, se a dor era unilateral ou 2 Objetivos As propostas do presente estudo foram: 1) investigar qual a melhor forma e posição para medir o ângulo Q, a fim de obter dados mais confiáveis, uma vez que a literatura não apresenta padronização; bilateral. Caso fosse bilateral, perguntava-se se havia predomínio da dor em algum dos lados. Para garantir a homogeneidade da amostra e excluir qualquer lesão no joelho, exceto a dor fêmoro-patelar, foram realizados testes do joelho como estresse valgo e varo, gaveta anterior e posterior, McMurray, teste de 2) verificar se todos os indivíduos com joelhos valgos possuem o ângulo Q aumentado; 3) verificar se o aumento do ângulo Q leva à dor no joelho. apreensão para deslocamento e subluxação da patela, teste de compressão da patela, teste da raspagem e teste de Waldron. Foram verificadas a mobilidade da patela e a presença de crepitação. Realizou-se prova de retração muscular do músculo gastrocnêmio, prova de Thomas, prova Revista PIBIC, Osasco, v. 3, n. 1, 2006, p. 83-91 85 Eloiza Satico Tabuti Jensen de Ober, encurtamento do músculo reto femoral; e ainda Antes de medir o ângulo eram feitas marcas com o prova de função muscular manual para os músculos lápis dermatográfico nas bordas superior, inferior, lateral quadríceps femoral, bíceps femoral, semitendíneo, e medial da patela. A partir daí, verificava-se o centro semimembranáceo e gastrocnêmio, de acordo com Kendall da patela utilizando-se a fita métrica e um ponto era et al. (1995), Hoppenfeld (2003) e Cipriano (2005). Além marcado. A tuberosidade da tíbia também era marcada. disso, foi realizada a medida de comprimento dos membros A fita métrica era posicionada na EIAS e esticada até o inferiores, tanto real quanto aparente, conforme descrito centro da patela, onde se traçava uma linha. Outra linha por Hoppenfeld (2003). Fez-se também a medida de também era traçada a partir da tuberosidade da tíbia até perimetria da musculatura da coxa em quatro pontos (5 o centro da patela, também se utilizando a fita métrica. cm, 10 cm, 15 cm e 20 cm acima da linha interarticular do A partir disso, o ângulo Q era medido através de um joelho), para a qual foi utilizada a fita métrica. As medidas goniômetro (MAGEE, 2005). de goniometria da flexão e extensão da perna, flexão dorsal e flexão plantar do pé foram realizadas de acordo com o padrão proposto por Marques (2003). 86 Por último, solicitou-se aos participantes que marcassem na escala visual analógica (EVA) o ponto que representasse a dor que sentiam nos joelhos, e Após esses procedimentos foi feita avaliação postural, também que preenchessem a Escala de Contagem de de acordo com o padrão proposto por Kendall et al. (1995). Lysholm e a Escala de Avaliação para Articulação Realizou-se também a medição alternativa de joelho Fêmoro Patelar. valgo com a fita métrica, em que o participante ficava Os dados foram analisados através da média, desvio- em pé e encostava um joelho no outro e a fita métrica padrão e porcentagens utilizando-se a planilha Excel para era colocada entre os maléolos mediais da tíbia os cálculos. Os valores da intensidade da dor preenchidos (MARQUES, 2003). pelos voluntários na EVA foram medidos com uma régua, As medidas do ângulo Q foram realizadas com o indivíduo em pé e em posição supina. Ao realizar a medida do ângulo Q, com o paciente em posição supina, o indivíduo era orientado a ficar com o segundo dedo do pé, perpendicular à maca, e quando a medida era realizada com o indivíduo em pé, este era instruído a resultando em valores de 0 a 10 cm. À Escala de Contagem de Lysholm e à Escala de Avaliação para Articulação Fêmoro Patelar, cuja pontuação máxima era 100, somou-se a quantidade de pontos obtidos das respostas do questionário, obtendo-se valores de 0 a 100. 4 Resultados manter o segundo dedo do pé em marca vertical que havia no chão do laboratório, apenas como referência, Neste estudo, 100% dos indivíduos avaliados eram com o intuito de manter esse dedo apontado para frente do gênero feminino, possuíam joelhos valgos, eram e evitar que a rotação de tíbia ou de coxa influenciasse sedentários, já que essas eram as condições para a avaliação. na medida. Os dados demográficos podem ser verificados na tabela 1. Revista PIBIC, Osasco, v. 3, n. 1, 2006, p. 83-91 Relação entre a presença de joelhos valgos e o aumento do ângulo Q Tabela 1 – Médias e desvio-padrão (DP) da idade, peso e altura (n=30), Osasco-SP, 2005. Entre eles, 46,67% sentiam dor no joelho direito ao realizar atividades como subir e descer escadas, correr, agachar ou ficar sentado durante muito tempo; 20% sentiam dor no joelho esquerdo ao realizar essas atividades e 33,33% dos indivíduos não sentiam dor. Apesar de alguns indivíduos sentirem dor bilateral no Tabela 3 – Ocorrência, em porcentagem, dos testes, cujo resultado foi positivo com alteração postural de membros inferiores (n=30), Osasco-SP, 2005. joelho, foi questionado qual era o lado predominante (tabela 2). Além disso, a medida alternativa de joelho valgo apresentou valor médio de 9,6 ± 3,7 cm. A média do ângulo Q medido, com o indivíduo em posição supina, foi de 16,30 ± 3,36 graus no joelho direito e 16,87 ± 4,12 graus no joelho esquerdo. Já com Tabela 2 – Ocorrência, em porcentagem, de indivíduos que sentem ou não dor no joelho ao realizar as atividades (n=30), Osasco-SP, 2005. o indivíduo em pé, a média foi de 15,60 ± 3,62 graus no joelho direito e 17,67 ± 3,77 graus no joelho esquerdo. Apesar de 100% dos indivíduos avaliados possuírem Alguns dos testes realizados para verificar a joelhos valgos, 30% apresentaram o joelho direito com homogeneidade da amostra tiveram resultados positivos ângulo Q menor que 15 graus e 30% também apresentaram e, também, na realização da avaliação postural, foram o joelho esquerdo com ângulo Q menor que 15 graus, verificadas alterações importantes no membro inferior, quando a medida foi realizada com os indivíduos em posição como podemos observar na tabela 3. supina. Na medição com os indivíduos em pé, 33,33% apresentaram o joelho direito com ângulo Q menor que 15 graus e 23,33% apresentaram o joelho esquerdo com ângulo Q menor que 15 graus, como demonstra a tabela 4. Revista PIBIC, Osasco, v. 3, n. 1, 2006, p. 83-91 87 Eloiza Satico Tabuti Jensen Tabela 4 – Médias e desvio-padrão (DP) do ângulo Q e ocorrência, em porcentagem, de ângulo Q menor do que 15 graus (n=30), Osasco-SP, 2005. Legenda: JD: Joelho direito; JE: Joelho esquerdo. A média da dor avaliada através da EVA foi de 3,26 em seu estudo que o ângulo Q sozinho não é indicativo ± 2,92 cm. Já na Escala de Lysholm, a média foi de de que o indivíduo possui ou possuirá alguma patologia 84,73 ± 14,26 e na Escala de Avaliação para Articulação no joelho, pois 22% das mulheres estudadas Fêmoro-Patelar a média foi de 85,10 ± 13,26 (tabela 5). apresentaram ângulo Q maior que 20º e possuíam joelho saudável. Outro estudo que também verificou não ser o aumento do ângulo Q fator predisponente para a DFP foi o de Caylor et al. (1993), pois após estudos perceberam que o ângulo Q em indivíduos com DFP não diferenciava muito quando comparado com o valor 88 Tabela 5 - Média e desvio padrão (DP) das escalas de dor e funcionais (n=30), Osasco-SP, 2005. 5 Discussão dos indivíduos assintomáticos. Da mesma forma, Woodland e Francis (1992) também concluíram que o ângulo Q é apenas um dos elementos Tendo em vista que esse trabalho tem por objetivo utilizados para a avaliação do joelho e não deve ser investigar qual a melhor forma e melhor posição para enfatizado ao extremo, pois esse ângulo pode ser afetado medir o ângulo Q; verificar se o indivíduo que por uma série de fatores já descritos anteriormente, como apresenta joelho valgo possui o ângulo Q aumentado por exemplo, mecanismo anormal do músculo e também verificar se esses indivíduos apresentam quadríceps, desequilíbrio muscular, torção de tíbia, dor no joelho, pudemos observar que apesar de a DFP anteversão femoral, patela alta ou baixa, entre outros, e ser causada por mau alinhamento da patela, e entre as isso deve ser considerado no momento da avaliação e causas, o joelho valgo ser fator contribuinte, parte de se propor um tratamento. dos indivíduos deste estudo relatou não sentir dor no Nesse estudo, não houve diferença entre a média joelho. Além disso, não houve correlação da dor com dos valores do ângulo Q com o indivíduo em pé ou em o joelho de maior ângulo Q, pois o joelho em cujo posição supina, porém para o joelho direito a média do lado a dor era predominante nem sempre era o de ângulo Q foi um pouco maior quando medido em maior ângulo. Sendo assim, nossos resultados estão posição supina e, para o joelho esquerdo, a média desse de acordo com Horton e Hall (1989) que concluíram ângulo foi maior quando medido em pé. Revista PIBIC, Osasco, v. 3, n. 1, 2006, p. 83-91 Relação entre a presença de joelhos valgos e o aumento do ângulo Q Esse resultado vai ao encontro do observado por apresentaram patelas convergentes e 16,67%, patelas Guerra et al. (1994) que também verificaram não haver divergentes e, de acordo com Sanfridsson et al. (2001), muita diferença nos valores do ângulo Q quando medido o ângulo Q depende da relação entre a localização da em pé ou em posição supina, porém baseado em seus patela e a inserção do tendão patelar. estudos anteriores, concluíram que a distância entre as EIAS é maior quando o indivíduo está em pé, do que quando está em posição supina e por isso achavam que o ângulo Q poderia ser diferente quando medido nessas duas posições. A pronação subtalar também foi fator bastante presente nos nossos indivíduos, já que 66,67% deles apresentaram essa característica, e segundo Levinger e Gilleard (2006), essa pronação também pode aumentar o ângulo Q, pois aumenta a rotação da tíbia. Da mesma Da mesma forma para Woodland e Francis (1992), a maneira, Bento e Mannrich (2005) também constataram melhor forma de mensurar o ângulo Q ainda é em seu estudo que, entre os indivíduos que possuíam a questionável, porém acham que medir nas duas posições DFP, havia predominância de pés pronados no lado é a forma mais completa para avaliar esse parâmetro. acometido. Além disso, acham também que para medição mais confiável é necessário utilizar instrumentos mais precisos e não apenas o goniômetro tradicional. Apesar de 33,33% dos indivíduos relatarem não sentir dor, a EVA indicou média e desvio padrão de 3,26 ± 2,92 e as Escalas de Lysholm e Avaliação para No estudo realizado por eles, o ângulo Q medido Articulação Fêmoro-Patelar apresentaram média abaixo em pé foi maior do que o medido em posição supina, de 90, apontando, assim, que há perda da capacidade porém foi avaliado somente o joelho direito e os funcional, já que para estar em ótima capacidade é indivíduos praticavam esportes. Além disso, utilizaram necessário apresentar pontuação acima de 90. um goniômetro especial que possuía um braço curto 6 Conclusão de 10 cm e um braço longo de 60 cm. Para eles, o valor do ângulo Q com o indivíduo em pé foi maior devido à sobrecarga do peso corporal. Todos os indivíduos do nosso estudo possuíam joelhos valgos, e isso foi observado durante a avaliação postural enquanto estavam em pé, pois quando os joelhos eram encostados um no outro, os maléolos mediais não se tocavam. Dentro das condições experimentais utilizadas, podemos sugerir que a presença de joelhos valgos na avaliação postural pode ser facilmente observada, porém nem sempre indica aumento no valor do ângulo Q, já que este sofre grande interferência da rotação tibial e da posição da patela. Apesar disso, uma parte dos indivíduos apresentou ângulo Podemos sugerir também que o ângulo Q é apenas Q menor do que 15º e isso pode ter ocorrido por possuírem um dos fatores que pode contribuir para a DFP, porém rotação de tíbia ou de coxa, influenciando, assim, no quando analisado de maneira isolada não indica se o resultado. Outro fator que também pode ter influenciado indivíduo tem ou terá a DFP, já que nem todos os foi o posicionamento da patela, já que 23,33% dos indivíduos indivíduos relataram sentir dor. Revista PIBIC, Osasco, v. 3, n. 1, 2006, p. 83-91 89 Eloiza Satico Tabuti Jensen Além disso, não houve diferença nos valores do ângulo Q quando medido com o indivíduo em pé ou em com segurança qual a melhor forma para medir esse ângulo, necessitando, portanto, de mais estudos. posição supina e, dessa forma, não podemos afirmar Referências ALFONSO, V. C.; SASTRE, E. R.; SANJUAN, V. M. Pathogenesis of anterior knee pain syndrome and functional patellofemoral instability in the active young. Am. J. Knee Surg, Thorofare, v. 12, n. 1, p. 29-40, 1999. BENTO, A. O.; MANNRICH, G. Relação entre alterações posturais e síndrome patelofemoral em remadores. FisioBrasil, a. 9, n. 71, p. 41-47, maio/jun. 2005. BLAZER, K. Diagnosis and treatment of patellofemoral pain syndrome in the female adolescent. Physician Assistant, p. 23-30, 2003. CABRAL, C. M. N.; SERRÃO, F. V.; BÉRZIN, F.; GARDELIM, R. J. B.; GIL, I. A.; GROSSO, D. B.; VITTI, M.; MONTEIROPEDRO, V. 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