FERNANDA CRISTINA PUÇA FRANÇA MARCADORES DISCURSIVOS em língua francesa: O uso de alors, donc, mais e bien no discurso de sala de aula DISSERTAÇÃO APRESENTADA AO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO –UFPE-, COMO PARTE DOS REQUISITOS PARA OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM LINGÜÍSTICA. ORIENTADORA: PROFa Dra KAZUE SAITO MONTEIRO DE BARROS. RECIFE 2007 França, Fernanda Cristina Puça Marcadores discursivos em língua francesa: o uso de alors, donc, mais e bien no discurso de sala – de aula / Fernanda Cristina Puça França. Recife : O Autor, 2007. 187 folhas : il., tab., graf., quadros. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CAC. Letras, 2007. Inclui bibliografia e anexos. 1. Lingüística. 2. Língua francesa – Estudo e ensino. 3. Análise de interação em educação. I.Título. 801 410 CDU (2.ed.) CDD (22.ed.) UFPE CAC200768 Aos meus queridos filhos Gabriella Fernanda e Paulo Henrique. AGRADECIMENTOS Inicialmente agradeço a Deus, o autor e Senhor da vida. Aquele que sempre está ao meu lado em todos os momentos de minha vida, incluindo a realização deste Mestrado. Esta dissertação é o resultado de esforço pessoal e de ajuda de pessoas muito queridas e respeitadas. Agradeço a minha orientadora Profa Dra Kazue Saito Monteiro de Barros pela confiança, pela paciência, pelo apoio, ajuda, amizade e profissionalismo dispensados durante as orientações. Ao meu marido pela compreensão, ajuda e força nos momentos em que mais precisava. Aos meus queridos filhos Gabriella Fernanda e Paulo Henrique, por existirem e tornarem minha vida mais feliz. Aos professores do Mestrado em Lingüística da UFPE, em especial, agradeço a Profa Dra Abuêndia Padilha Pinto pela amizade, incentivo, ajuda e confiança. Aos meus amigos de curso Edmilson, Irã, Eva, Rosângela, Flávia, Daniel, Carla e demais mestrandos pelo companheirismo e amizade. Aos meus colegas do Colégio de Aplicação Edson Wagner Falcão e Marlon Freire de Melo pela ajuda dada ao assumir parte de minha carga horária para que eu pudesse fazer o Mestrado. «Tout est possible à celui qui croit » (BÍBLIA, N.T. Marcos, 9 :23). RESUMO O presente trabalho tem como objetivo investigar a função e os pontos de ocorrência dos marcadores discursivos alors, donc, mais e bien, identificados como os mais produtivos no discurso em sala de aula de língua francesa. A base teórica ancora-se, principalmente, nos estudos de Schiffrin (1987, 2001), Fraser (1999) e Barros (1991) sobre marcadores discursivos. Os marcadores são observados em três aulas de metodologia da língua francesa, ministradas por uma professora francesa. Uma dessas aulas, identificada como corpus restrito, é analisada de forma detalhada com o intuito de demonstrar que não é possível determinar as funções dos marcadores sem uma análise profunda do próprio discurso. A investigação torna evidente que os marcadores discursivos são sensíveis a aspectos da organização tópica: na fala do professor, salientam metadiscursivamente, mudanças, desdobramentos, digressões e retomadas do tópico discursivo, constituindo-se numa ferramenta confiável para a análise desse fenômeno. Palavras-chave: Marcadores discursivos; interação em sala de aula; organização tópica. RÉSUMÉ Ce travail a pour objectif de faire des recherches sur la fonction et la localisation des marqueurs discursifs, alors, donc, mais et bien, reconnus comme étant les plus productifs du discurs en français en salle de classe. La base théorique est centrée surtout dans les études de Schiffrin (1987, 2001), Fraser (1999) et Barros (1991) sur les marqueurs discursifs. Les marqueurs sont observés en trois cours de methodologie de la langue française, donnés par une professeure française. Un de ces cours, identifié comme corpus restreint, a été analysé de manière detaillé dans l’intention de démontrer qu’il n’est pas possible de déterminer les fonctions des marqueurs sans une profonde analyse du discours en lui même. L’investigation rend évidente que les marqueurs discursifs sont sensibles aux aspects de l’organisation des sujets: dans les mots du professeur, ils montrent, de forme metadiscursive, des changements, des dédoublements, des digressions et le retour du sujet, constituant ainsi un outil fiable pour l’analyse de ce phénomène. Les mots-clés: Marqueurs discursifs ; interaction dans la salle de classe; organisation du sujet. LISTA DE QUADROS, GRÁFICOS E TABELAS QUADROS Quadro 6.1. Macromudanças. Aula 1: La consigne (A instrução). ...................p. 107 Quadro 6.2. Macromudanças. Aula 2: D’une langue à l’autre: la mediation (De uma língua a outra: a mediação)................................................................................p. 108 Quadro 6.3. Macromudanças. Aula 3: L’interaction orale: Présentation et analyse d’activités. (Interação oral: apresentação e análise de atividades)................... p. 108 GRÁFICOS Gráfico 6.1. Freqüência dos marcadores encontrados nas aulas 1, 2 e 3. ......p.97 TABELAS Tabela 6.1. Distribuição dos marcadores na aula 1. .......................................p. 96 Tabela 6.2. Alors como marcador de micromudanças na aula 1 ....................p. 113 Tabela 6.3. Alors como marcador de micromudanças na aula 2.....................p. 113 Tabela 6.4. Alors como marcador de micromudanças na aula 3.....................p. 115 Tabela 6.5. Mais como marcador contrastivo na aula 1...................................p. 121 Tabela 6.6. Mais como marcador contrastivo na aula 2...................................p. 122 Tabela 6.7. Mais como marcador contrastivo na aula 3...................................p. 122 Tabela 6.8. Donc como marcador resumitivo na aula 1...................................p. 125 Tabela 6.9. Donc como marcador resumitivo na aula 2...................................p. 126 Tabela 6.10. Donc como marcador resumitivo na aula 3.................................p. 126 LISTA DE ABREVIATURAS AC Análise da Conversação AD Análise do Discurso CECR Quadro Europeu de Referência para a Aprendizagem de Línguas. EC Etnografia da Comunicação FLE Francês língua estrangeira LE Língua Estrangeira MD Marcadores Discursivos SI Sociolingüística Interacionista ZDP Zona de Desenvolvimento proximal SUMÁRIO INTRODUÇÃO..................................................................................... p. 13 1. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS..........................................p. 16 1.1. Amostra ..........................................................................................p. 16 1.2. Coleta e seleção de dados .............................................................p. 17 1.3. Metodologia de análise dos dados .................................................p. 19 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: Interação...................................... p. 22 2.1. INTERAÇÃO VERBAL: Conceito................................................... p. 23 2.2. INTERAÇÃO VERBAL: Principais perspectivas envolvidas no trabalho......................................................................................p. 28 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: Estudos sobre o discurso de sala de aula.................................................................................. p. 40 4. MARCADORES DISCURSIVOS ...................................................... p. 49 4.1. Estudos já realizados sobre marcadores discursivos.......................p. 51 4.2. Uma abordagem funcional dos marcadores ................................... p. 60 4.3. Os marcadores discursivos alors (então), donc (pois, logo, assim), mais (mas) e bien (bem)................................................................. p. 68 4.4. Função metadiscursiva dos marcadores discursivos ......................p. 74 5. ASPECTOS ETNOGRÁFICOS DO EVENTO AULA...........................p. 79 6. ANÁLISE DOS MARCADORES DISCURSIVOS EM FRANCÊS NO EVENTO AULA ..................................................p. 95 6.1. Os marcadores como organizadores de macroestrutura do evento aula: bien + alors. ........................................................p. 98 6.2. Marcador de micromudanças: alors................................................p. 110 6.3. Marcador indicando digressão e retomada: alors... bien................p. 114 6.4. Marcador contrastivo: mais.............................................................p. 117 6.5. Marcador resumitivo : donc.............................................................p. 122 6.6. Uma macrofunção dos marcadores: a metadiscursiva. .................p. 126 7. RESULTADOS OBTIDOS E PALAVRAS FINAIS..............................p. 134 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................p. 140 ANEXO ..................................................................................................p. 148 INTRODUÇÃO A imagem que temos da sala de aula é a de um espaço de ensinoaprendizagem onde idéias são compartilhadas e atividades realizadas. Considerando ou não essa imagem correspondente à realidade, ela é a idealização que condensa valores, conceitos, crenças em relação à escola. Tínhamos como objetivo inicial verificar as funções desempenhadas por alguns marcadores discursivos em francês no discurso de sala de aula. Quando iniciamos, verificamos a estreita relação dos marcadores com o tópico discursivo e observamos que as ações tópicas podem ser sistematicamente correlacionadas aos marcadores - este é o foco do presente trabalho. Para identificar a função dos marcadores analisamos o tópico e a estrutura da aula. Os resultados evidenciaram que os marcadores são ferramentas confiáveis na análise da organização tópica. O corpus analisado são três aulas em francês, ministradas por uma professora francesa. Uma das aulas, que denominamos de corpus restrito, foi analisada de forma detalhada. A partir de uma perspectiva interacionista, o presente estudo procura investigar, as funções e os pontos de ocorrência dos marcadores discursivos (aqui denominados MD) mais produtivos na fala do professor em sala de aula. Entendemos por MD partículas verbais e não verbais que desempenham importante papel pragmático na interação. Os marcadores que desempenham, prioritariamente, um papel na organização textual, são os marcadores textuais; já os marcadores que 14 antecedem hesitação, são os cognitivos; e, por fim, os que monitoram a interação, que são os marcadores interacionais. Os marcadores aqui estudados têm função predominantemente, textual, identificando as mudanças tópicas no discurso do professor. Pode-se dizer que nos estudos sobre marcadores há duas grandes perspectivas: a predominantemente formal e a predominantemente funcional. A perspectiva predominantemente formal parte de uma análise dessas partículas para verificar as suas funções no discurso. A perspectiva predominantemente funcional parte de uma análise do discurso em si, examinando qual o papel desempenhado por essas partículas. No trabalho, as funções encontradas têm relação direta com a seleção do marcador e seus pontos de ocorrência, por isso procedemos a uma análise predominantemente funcional dos mesmos. Constatamos, através de observações preliminares e bibliografia sobre o assunto que o uso de MD por nativos da língua francesa é alto (cf., por exemplo, com Chanet, 2003b). No entanto, não se observam trabalhos sistemáticos sobre os mesmos nos manuais didáticos. Segundo Chaudron (1986), a ausência de marcadores dificulta a compreensão, e acreditamos que o seu uso melhora a fluência de alunos brasileiros que aprendem o francês como segunda língua. Uma aula tem como objetivo máximo a construção de conhecimentos. Na sala de aula, os MD, principalmente os textuais, são usados para tornar mais claro o discurso, para deixar evidente o que está sendo dito, o fluxo dos tópicos, etc. No decorrer de nossa análise, observaremos os marcadores mais produtivos encontrados na aula analisada, de forma detalhada. A freqüência e a lista dos MD 15 mais produtivos serão comparadas à lista apresentada por Chanet, 2003b, autora que apresentou uma lista com os MD mais utilizados no francês falado. Sua lista é composta de 85 formas, consideradas mais utilizadas a partir de um corpus de 1 500 000 palavras (CORPAIX, 1 050 000 palavras e o CRFP – Corpus de referência do francês falado – 450 000 palavras). Segundo a autora, as formas mais freqüentes, aquelas que aparecem, no mínimo, a cada dois minutos, são essencialmente monossilábicas, com exceção de alors e parce que que estão entre as dez primeiras palavras e não são monossílabos. Os dez primeiros marcadores mais freqüentes, destacados por Chanet, são, por ordem de apresentação: mais, donc, alors, bon, là, bien, parce que, quoi, ben e puis. De forma análoga, neste estudo, os mais encontrados no discurso do professor são: alors, donc, mais e bien. Na organização desta dissertação, iniciamos pela metodologia (Capítulo 1) que se segue a esta introdução. Os pressupostos e conceitos que baseiam nossa análise se encontram nos Capítulos 2 e 3. O Capítulo 4, ainda teórico, é exclusivamente dedicado aos MD. A análise mostrou que o uso de marcadores é sensível às características do gênero em questão. Por isso, aspectos contextuais do evento aula são discutidos no Capítulo 5, que constitui o primeiro capítulo da análise. A observação e a análise dos marcadores discursivos em francês no discurso de sala de aula são apresentadas no Capítulo 6. Por fim, o Capítulo 7 condensa os resultados obtidos. Após o capítulo 7, encontramos a bibliografia e no anexo, transcrevemos e traduzimos, na íntegra, a aula 1 que corresponde ao nosso corpus restrito. 16 1. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Tínhamos como idéia inicial observar o uso de marcadores discursivos por professores de língua francesa que não tinham essa língua como a materna. Após a realização de estudo preliminar, observamos através de gravações desses professores que o uso dos marcadores não era tão produtivo quanto o uso feito por nativos de língua francesa, e alguns manuais didáticos analisados não contemplavam o assunto. Prosseguimos com um levantamento dos marcadores mais produtivos no francês falado. Dessa feita, decidimos observar um grupo de marcadores que ocorrem de forma sistemática nas aulas de língua francesa ministradas por professores nativos dessa língua. O objetivo da escolha do gênero aula se deve ao fato de a clareza ser seu objetivo específico. Em estadia de um mês, no ano de 2006, na França, realizando um curso de formação em metodologia da língua francesa, pudemos observar, numa série de aulas, a alta freqüência de marcadores específicos. É evidente que o material coletado foi bem maior do que o analisado em nosso trabalho. Todavia, os dados selecionados foram suficientes para a realização de nossa pesquisa, e a noção de tópico discursivo, aquilo sobre que se está falando num discurso, foi importante para a identificação desses marcadores. 1.1. Amostra A amostra é composta por dados que incluem três aulas: aula 1, aula 2 e aula 3. A aula 1 foi analisada de forma detalhada e aqui a denominamos de corpus 17 restrito; das outras duas aulas, aula 2 e aula 3 - aqui chamadas de corpus estendido nós destacamos alguns pontos específicos, a freqüência e a forma de marcadores indicando macromudanças no evento aula. Eles servem para conferir mais confiabilidade aos resultados. Em nossa análise, averiguamos: a) as formas dos marcadores discursivos (itens); b) os pontos de ocorrência dos mesmos na estrutura tópica; e c) as funções dos marcadores mais freqüentes. Escolhemos analisar de forma detalhada a aula 1 para demonstrar os resultados, já que a análise mostra que a função do marcador é sensível ao ponto de ocorrência no discurso. A aula aqui analisada é de metodologia da língua francesa, ministrada em francês por uma professora formadora, francesa, a um grupo de professores de diversas nacionalidades. 1.2. Coleta e seleção de dados Os participantes das aulas 1, 2 e 3 foram a professora formadora e professores de língua francesa de diferentes nacionalidades (três gregos, dois turcos, um holandês, três brasileiros, uma inglesa, uma cubana e uma etíope), perfazendo um total de 12 professores (homens e mulheres). O critério de escolha de análise dos MD alors, donc, mais e bien baseia-se, como dissemos, na freqüência e na produtividade dos mesmos nas aulas selecionadas para análise. O resultado encontrado corrobora a lista apresentada por Chanet, 2003b, na qual a autora apresenta os marcadores mais freqüentes no francês falado. 18 A aula 1, escolhida para a análise detalhada, foi registrada após três semanas de curso. O procedimento adotado na escolha é justificado por compreendermos que, no primeiro momento, o grupo ainda não interagia de forma espontânea e natural. Dessa forma, preferimos analisar a aula que, em teoria, fosse mais interativa, ou seja, em que houvesse uma maior participação oral dos alunos. Alguns alunos e a professora mantiveram contato em outros módulos do curso, e parte do grupo já se conhecia e tinha um bom relacionamento dentro e fora da sala de aula. Optamos por coletar um evento natural com o objetivo de minimizar a influência do observador sobre os observados (já que o observador faz parte do grupo dos observados), visto que há uma interação coletiva entre os interlocutores, na qual os participantes produzem falas com certo grau de naturalidade que não se verifica em entrevistas mais estruturadas. O que se defende em favor dessa metodologia é a atenção voltada ao tema proposto para discussão: a atenção dos interlocutores é desviada do gravador e de como a pesquisadora observa seus informantes, uma vez que esta igualmente participa da interação. Consideramos que a presença da pesquisadora não interfere, nos resultados, uma vez que o foco foi a fala do professor. 19 1.3. Metodologia de análise dos dados As análises preliminares demonstraram que havia relação sistemática entre o uso de marcadores e mudanças tópicas. Daí, termos procurado investigar essa relação e, ainda, estudos realizados sobre tópico discursivo. De acordo com Galembeck et al. (1990), a noção de tópico, conquanto esteja genericamente ligada à noção de tema ou assunto, apresenta dois níveis principais de abrangência: o tópico sentencial, também conhecido por tópico frasal, e o tópico discursivo. No primeiro caso, discute-se o papel do tópico na estruturação do enunciado (articulação tema - rema ou tópico - comentário). Quanto ao tópico discursivo, focalizam-se suas propriedades (centração, concernência, organicidade) e o fato de ele estar ligado ao desenvolvimento do processo interacional. Também se discute o papel do tópico discursivo no estabelecimento e na manutenção da relevância conversacional. A noção de tópico discursivo não elimina a frase, mas considera-a sempre relacionada tanto a aspectos cotextuais como contextuais. Trabalhos anteriores (cf., por exemplo, Barros, 1991) também demonstram que os MD têm relação com o estudo das ações tópicas. Na interação em sala de aula é possível distinguir as macromudanças das micromudanças, e as macromudanças são claramente marcadas por marcadores textuais. Inicialmente, em nossa análise, sinalizamos as macromudanças de tópicos com duas barras e as micromudanças de tópicos com apenas uma barra. Posteriormente, solicitamos que outro professor de língua francesa fizesse a leitura 20 do material e pudemos verificar que estivemos de acordo com a maioria das mudanças marcadas. Os resultados demonstram que as macromudanças são marcadas mais claramente do que as micromudanças. Nestas, a abertura do tópico implica o fechamento de um tópico anterior. A identificação dos pontos de ocorrência das ações tópicas revelou um número de elementos estruturais com funções específicas no desenvolvimento do tópico. Finalmente, observamos que o uso dos marcadores poderia confirmar a segmentação das estruturas. Essas estruturas internas foram identificadas a partir de critério semântico e mostraram congruência com a identificação dos MD, definidos de acordo com o critério metadiscursivo. Os passos metodológicos seguidos foram os seguintes: 1. Observamos os aspectos etnográficos do evento aula. Dentre os aspectos observados, verificamos que a organização dos participantes determina o tipo de aula ministrada. Consideramos, nesse caso, como tipo de aula, uma aula centrada no professor, não centrada no professor ou uma aula centrada no aluno. 2. Escolhemos um tipo de aula: aula mais interativa, centrada no aluno, isto é, uma aula em que o aluno tem mais oportunidades de falas. 3. Transcrevemos outras aulas para checar a recorrência dos marcadores e, dessa forma, dar mais confiabilidade à análise. 4. O texto principal foi segmentado por dois olhares, observando as ações tópicas. 21 5. A estrutura interna do desenvolvimento do tópico foi observada. 6. O uso de marcadores foi examinado para verificar se houve consistência com as estruturas tópicas. Preferimos nos concentrar em um único evento, provendo descrições detalhadas do que está acontecendo para auxiliar o leitor a entender nossas intenções. Na maioria das vezes, a recorrência de elementos pode ser vista através do texto. Durante o curso de que participamos, embora tivéssemos a mobilidade de montar nosso programa semanal de aulas, o programa geral do curso já havia sido pré-determinado. Poderíamos definir se veríamos tal conteúdo na primeira ou na segunda semana, por exemplo. Foi um curso intensivo com aulas nos períodos da manhã e da tarde. Durante cada semana os alunos-professores tinham, no mínimo, três professores diferentes. Normalmente o grupo permanecia toda a semana no mesmo espaço físico. Embora os professores mudassem, o espaço geralmente era o mesmo. Quando possível, as cadeiras eram dispostas para formar um semicírculo. Com um programa pré-determinado e assuntos que precisavam ser contemplados, alguns professores formadores monopolizavam a fala durante as aulas. Os passos metodológicos definidos para a construção desta pesquisa nos demandaram pesquisar conceitos e perspectivas interativas necessárias para a realização da mesma. 22 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: Interação “A interação verbal é a realidade fundamental da linguagem.” Mikael Bakhtin, 2004. Sendo a citação acima verídica, as abordagens interativas deveriam poder se aplicar a todo fenômeno da linguagem, qualquer que seja a sua natureza. Observamos os MD em sala de aula numa perspectiva interacionista, já que consideramos aula = interação. Averiguamos os processos envolvidos no uso dessas partículas e algumas posturas quanto ao seu estudo. Adotamos o conceito de línguagem enquanto interação e realizamos uma análise interacionista. Acreditamos que a ausência de marcadores compromete diretamente a compreensão, como comprovam outros estudos (cf., por exemplo, Chaudron, 1986). Vimos afirmando que este trabalho adota perspectiva interacionista. Assim, faz-se necessário discutir o conceito de interação, o que é realizado em 2.1. O conceito varia, de acordo as múltiplas perspectivas envolvidas no estudo da interação, podendo a interação ser estudada de uma perspectiva predominantemente: a) lingüística, com vistas à observação da organização textual; b) interpretativista, buscando relacionar as condições do contexto ao comportamento lingüístico; e c) interpretativista e inferencial, que busca interpretar os processos inferenciais envolvidos na atualização da interação. Alguns pressupostos e conceitos dessas três vertentes – que, obviamente, estão imbricados – são discutidas em 2.2. 23 2.1. INTERAÇÃO VERBAL: Conceito. Utilizamos em nosso aparato de análise algumas perspectivas no estudo da interação. Recorremos à Análise da Conversação e observamos algumas características básicas constitutivas, que, segundo Marcuschi (2003), são: a) interação entre pelo menos dois falantes; b) presença de uma seqüência de ações coordenadas; c) execução numa identidade temporal; d) envolvimento numa interação centrada. Ainda por se tratar do evento aula, usamos alguns preceitos da Etnografia da Comunicação (por exemplo, funcionalidade do evento e elementos que o compõem). Com base nos estudos dos processos interacionais, referenciamos algumas correntes do sociointeracionismo que englobam diferentes pensamentos. Mesmo ciente das diferenças de alguns conceitos, ao tratarmos da interação, decidimos observar duas perspectivas diferentes, mas que do nosso ponto de vista se assemelham, quais sejam: os sociointeracionistas de linha bakhtiniana, como Brait e outros, e os sociointeracionistas que seguem uma linha da sociolingüística interacionista, como Goffman e outros. Dessas duas perspectivas, focamos a aula que consideramos um momento de compartilhar os diversos conhecimentos, sejam eles científicos ou empíricos, um momento interativo, pois. A interação é a ação ou influência mútua entre os seres. É o que se passa quando duas ou mais pessoas se encontram reunidas. É uma ação mútua porque os indivíduos agem uns sobre os outros e changent en échangeant, como diz KerbratOrecchioni (1990). Ela é um componente do processo de comunicação, de significação, de construção de sentido e faz, dessa forma, parte de todo ato de linguagem. Como 24 afirma Marcuschi (1986), a interação acontece, necessariamente, entre dois falantes que se caracterizam como atores da interlocução e que vão se relacionar enquanto parceiros. Como parceiros, os interactantes desenvolvem uma atividade cooperativa que decorre da seqüência da troca interativa organizada, já que interação é negociação de sentido. Em diferentes situações de comunicação, os falantes trocam informações, expressam idéias, constroem o texto juntos e desempenham papéis como num jogo cujo resultado é fruto de um trabalho conjunto. O sociointeracionista Erving Goffman (1998), um dos pilares da Sociolingüística Interacionista (SI), diz que uma situação completa de interação seria tornar completo um confronto face a face com os ingredientes paralingüísticos, tais como tons de voz, gesticulação, significado facial. Para ele, isso auxiliaria no fornecimento de pistas para se construir sentido. Ele acrescenta que a observação das formas dessa maneira de dizer junto a outros recursos (entoação, gestualidade, expressão facial, etc.) permite uma leitura dos pressupostos, dos elementos que, mesmo estando implícitos, se revelam em algum momento. Goffman (1998) desenvolveu em seu trabalho o conceito de estruturas de expectativas, que são compostas pelos enquadres e pelos esquemas. Os esquemas de conhecimento (sob o ângulo da psicologia e da inteligência artificial) apresentam mensagens calcadas na informação pressuposta. Já os chamados enquadres interativos de interpretação operam as mensagens calcadas nas múltiplas relações que os participantes co-constroem em um encontro face a face. A interação face a face é uma categoria descritiva na questão da análise da interação da construção em nível micro. No entanto, Goffman (1998) propõe uma outra categoria descritiva, que é o 25 alinhamento (footing). Este, segundo o autor, caracteriza o aspecto dinâmico dos enquadres. Seria a postura, a posição e a projeção de um participante com relação a si próprio, com relação ao outro e com relação ao discurso em construção. Ou seja, alinhamento que os participantes estabelecem para si e para os outros em uma dada situação. Na verdade, o conceito de alinhamento proposto por ele é um desenvolvimento da noção de enquadre. E um elemento chave no enquadramento é o uso de registros lingüisticamente identificáveis. Em relação à sala de aula, por exemplo, o enquadre no contexto pode incluir o alinhamento do professor em relação ao alinhamento dos alunos entre si, e destes em relação a objetos físicos, como quadro, mural, caderno, livros, etc. Afinal, nós aprendemos o sentido de todas essas coisas socioculturalmente. Por isso, o professor deve estar atento e não ser ingênuo quanto ao uso da linguagem e do seu papel social enquanto detentor de poder. A noção do alinhamento, que foi a grande contribuição desse autor, está na construção de sentido co-construído por falantes e ouvintes, e para o dinamismo da interação, em como as relações interpessoais são negociadas o tempo todo e mudam o tempo todo. Dessa forma, o alinhamento também apresenta o papel discursivo e social que se negocia ao longo da interação e que pode mudar, ou seja, ser (re-) construído o tempo todo. Goffman afirma que a lingüística nos fornece pistas e marcadores através dos quais tais footings se tornam manifestos, ajudando-nos a encontrar o caminho na direção de uma base estrutural para a sua análise. Nesse contexto, compreendemos que os conhecimentos - segundo Koch e Travaglia (2005) o conhecimento lingüístico, o conhecimento de mundo e o conhecimento partilhado - são negociados pelos interactantes na interação. 26 Para Brait (2001), sociointercionista de linha bakhtiniana, a interação é um fenômeno sociocultural possuidor de características lingüísticas e discursivas que podem ser observadas, descritas, analisadas e interpretadas. Essa autora acrescenta que uma abordagem chamada interacional permite verificar em um texto as relações interpessoais, intersubjetivas, que são passadas pela maneira de organização do evento. Goffman (1998) e Brait (2001) estão em sintonia quando afirmam a necessidade de se observarem todos os aspectos e elementos envolvidos numa interação. Há elementos que são ditos de forma clara e outros que estão implícitos na maneira de dizer. Afinal, numa situação de interação verbal, outros elementos, e aqui nos referimos aos paralingüísticos, além de palavras estão envolvidos. Para Brait, o olhar captador e difusor de informações é como uma câmera que interpreta e expressa aspectos, características, que, embora não explicitados por palavras, interferem de forma direta na dimensão interacional de um determinado evento. Além de discorrer sobre o tema interação, Brait aponta o processo de autoria. Este compreende os procedimentos cognitivos e metacognitivos que se realizam pelas e nas operações de linguagem. Operações que estão implicadas nos diversos mecanismos enunciativos e de textualização. É através desses mecanismos que o autor (consciente ou inconscientemente) faz sua escolha, faz sua seleção, organiza e decide sobre o conteúdo temático a ser semiotizado. Ele também gerencia e adapta o texto empírico às inúmeras variáveis de sua situação de comunicação. O autor, guiado por emoções, crenças e valores, imprime ao texto um estilo pessoal. Isso porque, ao apresentar-se como autor, o indivíduo assume diante das instituições o papel social que se constitui a partir de sua relação com a linguagem e o mundo. É preciso que o 27 indivíduo se torne princípio do agrupamento, instituindo o domínio sobre as várias posições nas quais se instaura o sujeito, imprimindo a ele significações coerentes e dando sentido aos fatos. Ainda para Brait (2001), a organização interacional prevê um conjunto de regras com o objetivo de oferecer aos que participam de dado evento de interação determinadas características de comportamento que estimulam ou antecipam atitudes caracterizadoras do intercurso conversacional. Tais regras variam e podem ser rompidas. Sua manutenção demonstra o esforço, por parte dos interlocutores, em manter a negociação, e o seu rompimento evidencia um processo polêmico e desarmonioso. Tendo por base o pensamento de vários estudiosos, a mesma autora afirma que um ato de linguagem é uma interação pelo fato de fundar-se no olhar avaliativo dos parceiros, isto é, daqueles que participam desse ato com a atenção profundamente voltada para todos os aspectos que, de alguma forma, interferem nesse evento. Tomamos como foco central a interação em sala de aula. As perspectivas apresentadas, embora possuam algumas diferenças conceituais, têm como foco central a interação. Acreditamos que os MD desempenham importante papel no processo interativo. 28 2.2. INTERAÇÃO VERBAL: Principais perspectivas envolvidas no trabalho. O processo interativo pode ser visto como um jogo de subjetividades, um jogo de representação. Nesses jogos, o conhecimento se dá através de um processo de negociação, de trocas, de normas partilhadas, de concessões. Observando essas especificidades e tomando a interação como objeto central de estudo, vários campos do conhecimento, nem sempre teoricamente semelhantes, apresentam contribuições nos estudos sobre interação. Destacamos a Análise da Conversação (AC) por ser capaz de descrever a organização textual-interativa do objeto de estudo . Além dela, a Etnografia da Comunicação (EC), por considerar relevante a observação dos participantes e suas relações. A partir da EC, podemos categorizar a aula como um evento comunicativo. Com base nos estudos dos processos interacionais, é possível referir algumas correntes do sociointeracionismo. Por isso decidimos observar aqui duas perspectivas, os sociointeracionistas de linha bakhtiniana, como Brait e outros, e os sociointeracionistas que seguem uma linha da Sociolingüística Interacionista, como Goffman e outros, isso porque consideramos a aula = interação. Para a Análise da Conversação, qualquer conversação tem uma estrutura organizada. E, nessa estrutura, segundo Marcuschi (2003), encontramos cinco características básicas constitutivas: 1) interação entre pelo menos dois falantes; 2) ocorrência de pelo menos uma troca de falantes; 3) presença de uma seqüência de ações coordenadas; 4) execução numa identidade temporal; e 5) envolvimento numa interação centrada. É na AC que verificamos como a conversação se estrutura com 29 organizadores globais e locais. É senso comum que a abordagem da AC seja rigorosamente empírica, ou seja, apenas dados autênticos sejam analisados. A perspectiva é indutiva e a maioria das categorias usadas em um dado trabalho é conseqüência da própria análise. A AC pesquisa estruturas recorrentes, e a unidade de análise, ou o foco de interesse, deve estar acima do nível da sentença. Para a AC, uma conversação inclui qualquer interação em que dois ou mais participantes dividam o tópico discursivo.1 A conversação está definida como uma atividade na qual participam dois ou mais interlocutores que se alternam. Esses interlocutores organizam a fala em turnos, sem uma disposição fixa, podendo ser caracterizados como modelos simétricos e assimétricos. O modelo simétrico é a conversação em que os interlocutores têm o mesmo direito não só de tomar a palavra, mas também de escolher o tópico discursivo, direcionando-o de acordo com o tempo de participação. Já no modelo assimétrico ocorre uma prioridade no que diz respeito ao uso da palavra, cabendo a um dos interlocutores começar a conversação, conduzi-la e também mudar o tópico. O critério de simetria social entre os participantes, ou a liberdade dos participantes em alternância de falas, não é empregada como critério de definição de conversa, já que é mais do que fala entre iguais. 1 ROULET et al. L’articulation du discours en français contemporain. Peter Lang. Sciences pour la communication. 1985.; SCHIFFRIN, D. Conversational analysis, in F. Newmeyer (ed.), Linguistics: The Cambridge Survey IV. Language: The Socio-Cultural Context. Cambridge: Cambridge University Press. 1988. 30 O corpus analisado é concebido como conversação, tendo em vista que a interação em sala de aula envolve, no mínimo, dois papéis de participantes: falanteouvinte; falante-audiência; falante-ouvinte e audiência. Em seu livro Discourse Markers, Schiffrin (1987) demonstra interesse em saber como as pessoas se comunicam e interpretam significados na conversação. Ela procura examinar onde e quando ocorrem os MD. A autora inicia a sua argumentação concordando com Gumperz (1984) que sugere uma visão integrada da coerência. Para Schiffrin, Gumperz sugere que o significado comunicativo é atingido através do processo de interpretação da situação, no qual o ouvinte infere as estratégias e intenções dos contextualizam falantes suas através mensagens. da interpretação Tais pistas são de pistas chamadas lingüísticas de pistas que de contextualização. Elas são aspectos verbais e não verbais do código comunicativo que provê um esquema interpretativo para o conteúdo referencial da mensagem. Esses esquemas, também conhecidos como padrões de conhecimento, são padrões de expectativas e hipóteses sobre o mundo, seus habitantes e objetos. O mais importante no modelo de Gumperz (1984) é a idéia de que esses esquemas não são apenas forçados pela grande estrutura interacional na qual eles estão situados, mas de que eles de fato criam contextos interpretativos através dos quais a intenção comunicativa do falante pode ser inferida. E as pistas lingüísticas ou maneiras de falar evidenciam e sinalizam a mudança de enquadres e esquemas. Assim, produção e recepção de uma mensagem dependem de acesso compartilhado, definido culturalmente, de repertórios de esquemas verbais e não verbais que estão situados na estrutura interacional em que ocorrem. A coerência, dessa maneira, dependeria da bem sucedida integração dos 31 diferentes esquemas verbais e não verbais, do falante, para situar a mensagem numa estrutura interpretativa, com a habilidade do ouvinte em perceber e compreender as pistas e, por conseguinte, interpretar a mensagem. Acreditamos que princípios que regem a AC sejam pertinentes à nossa pesquisa, porque analisamos dados autênticos numa abordagem empírica, foram esses dados que indicaram o caminho que precisaria ser percorrido, observamos estrururas recorrentes e consideramos o corpus analisado como uma conversação. A Etnografia da Comunicação é um termo concebido por Hymes para se referir a uma abordagem sociolingüística que concerne não apenas ao uso da línguagem, mas também às regras da fala, entendida como os meios pelos quais os falantes associam modos particulares de fala, tópicos ou formas de mensagens, com cenários e atividades particulares. A ênfase dessa análise está no contexto. O destaque da EC é que ela considera a linguagem como uma forma cultural socialmente situada2. Assim, o enfoque dado é a investigação de o que, como e por que um falante deve se comunicar de forma apropriada para ser inteiramente compreendido. Nomes como John Gumperz, Dell Hymes e Muriel Saville-Troike estão entre os pesquisadores dessa área. Metodologicamente, muito desse trabalho foi desenvolvido por meio de observaçãoparticipante e também ao fazerem gravações orais das interações estudadas. Em se tratando de sala de aula, as questões levantadas por Hymes sobre competência comunicativa influenciaram Widdoson (1978) a escrever Teaching language as communication, daí surgindo as idéias de uma abordagem comunicativa no ensino de línguas estrangeiras. 2 SAVILLE-TROIKE, Muriel. The ethography of communication – an introduction. New York: Basil Blackwell Ltd, 1982. 32 Os autores que adotam essa abordagem, iniciam suas análises a partir de um exame detalhado do evento no qual a interação descrita acontece. Hymes (1973) é considerado o pioneiro e a maior figura dessa forma de estudo da comunicação. O primeiro conceito central dessa escola é a comunidade de fala, definida por Hymes como uma comunidade dividindo regras para a conduta e interpretação do discurso e regras para a interpretação de, no mínimo, uma variável lingüística. Em sua procura por modelos lingüísticos e regularidades, os etnógrafos da comunicação baseiam suas análises na descrição de princípios de modelos sociais existentes em certa comunidade de fala. Para eles, deve-se iniciar com um grupo social e considerar todas as variáveis lingüísticas presentes nele, ao invés de começar com qualquer variável. Baseada na EC, encontramos a microanálise etnográfica da conversação. Os estudos que adotam essa abordagem de pesquisa têm em comum o objetivo de apresentar um autêntico e holístico retrato de um determinado contexto cultural e social e, portanto, como toda pesquisa com esse tipo de objetivo, apresentam perfil de pesquisa interpretativa e etnográfica. Para caracterização do evento de fala, o segundo conceito-chave da EC, os etnógrafos da comunicação devem categorizar o texto. Hymes (1986) define um evento de fala como uma atividade ou aspectos de uma atividade em que as regras sociais são estritamente conectadas com as lingüísticas. Ele sugere que, para qualquer evento de fala, o etnógrafo deve descrever os componentes básicos da fala, que são forma da mensagem (como as coisas são ditas), conteúdo da mensagem (como tópicos e mudanças de tópicos influenciam a estrutura de um evento), cenário, falante ou ouvinte, propósitos, canais, formas de fala, normas de interação, normas de interpretação e gêneros. Esses componentes serão 33 sistematicamente observados no capítulo 5. E, por fim, o terceiro conceito-chave da EC, ato de fala, que é o enunciado efetivamente realizado por um determinado falante numa dada situação. Essa abordagem permite-nos realizar um exame detalhado do evento aula, para podermos descrever o princípio de modelo social existente nessa comunidade de fala. Ao observarmos os componentes básicos da fala, e mais especificamente quem controla o canal de comunicação nesse evento, podemos verificar a predominância dos MD a serem encontrados e, assim, obtermos um retrato desse contexto. Contexto esse que se refere a um gênero determinado. Os gêneros são padrões comunicativos que, socialmente utilizados, funcionam como espécies de modelos comunicativos em conhecimento social localizado em situação concreta. Bakhtin (2004) afirma que somente sob forma de gêneros específicos os enunciados se revestem de sentidos na cadeia discursiva. Como as situações/ atividades variam no seio da sociedade, os gêneros também são altamente heterogêneos e se mesclam conforme a necessidade imposta pela dinâmica social. A idéia de que gêneros discursivos são construídos nas práticas sociais sugere que a situação de enunciação não seja algo que se acrescenta à língua, mas algo que condiciona a organização da língua e, portanto, a historiciza. Os gêneros discursivos em cada esfera de atividade adquirem do ritual em que são produzidos suas características comuns, mas cada um deles se singulariza pelos traços bakhtinianos: o tratamento do tema, o querer-dizer do locutor e as formas típicas de estruturação do gênero. Todavia, o gênero não é uma forma fixa, cristalizada, mas constituída numa 34 relação heterogênea com outros gêneros, posto que é no acontecimento enunciativo que o gênero adquire concretude. O gênero aula remete a uma experiência em que cada um conhece o seu papel na interação. Alguns elementos ritualísticos são determinados (papel do professor, papel do aluno), pois há certas operações discursivas que fazem parte do ritual de sala de aula (quem fala primeiro, quem fala depois). De acordo com Uyeno (1956), as relações hierárquicas da sociedade são apreendidas por meio de cotidianos ritualizados, fazendo crer que são naturais. É o imaginário social que legitima as relações de poder, incidindo nas relações de ensino no bojo da escola. Ao se fazer uso da fala, ao se produzir um discurso qualquer, presume-se um tipo de ritual social da linguagem implícito, mas que é partilhado por todos. Em uma instituição escolar, por exemplo, qualquer discurso produzido por um professor, na sala de aula, é apresentado em um contrato que lhe credita o lugar de detentor do saber. O contrato de fala que o liga aos interlocutores, alunos da instituição de ensino, não lhe permite ser não possuidor do saber, não possuidor do conhecimento científico. Durante o evento de fala, o professor dá ao aluno pistas para que o mesmo seja capaz de acompanhar o seu raciocínio lógico utilizado no decorrer do mesmo. Acreditamos, baseada em trabalhos que serão oportunamente discutidos, que o uso de marcadores discursivos na interação em sala de aula funciona como orientador e facilitador da compreensão das informações veiculadas no evento. Outra perspectiva envolvida nesta dissertação é a sociointeracionista, aqui incluindo tanto autores como Gumperz e seus seguidores quanto Vygotsky e os que nele se baseiam para o desenvolvimento de seus estudos. Essa perspectiva está 35 ancorada na pesquisa qualitativa empírica e interpretativa. Trata-se do estudo da organização social do discurso em interação. Dessa forma, o que se propõe é o estudo do uso da língua na interação social. Essa interação social ou qualquer tipo de encontro face a face demonstra uma complexidade que pode ser vislumbrada em uma análise da organização do discurso e da interação social. Isso porque, na condição de participantes, estamos freqüentemente introduzindo ou sustentando mensagens que organizam o encontro social, mensagens que orientam a conduta dos participantes e atribuem significado à atividade em desenvolvimento ao mesmo tempo que ratificam ou contestam os significados atribuídos pelos demais participantes. Como participante dessa interação, o interlocutor tem a posição de quem procura entender o significado do discurso, a partir do contexto interacional, indagando sempre: onde se situa o contexto da fala, onde está a realidade de uma dada interação? O que está acontecendo? Por que isso agora? Todavia, nessa abordagem do discurso, tanto o falante como o ouvinte têm papéis ativos na elaboração da mensagem e na definição do que está passando aqui e agora. A noção de contexto ganha relevância, passando a ser entendida como criação conjunta de todos os participantes presentes ao encontro e emergente a cada novo instante interacional3 . Esses papéis ativos na elaboração da mensagem demonstram a dependência social do outro. E essa dependência é percebida desde o nascimento, quando o Homem entra em um processo histórico que, de um lado, oferece dados sobre o mundo e, de outro, permite a construção de uma visão pessoal sobre esse 3 RIBEIRO, Branco Telles e GARCEZ, Pedro M. (orgs.) Sociolingüística Interacional. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2002. 36 mesmo mundo. A experiência é pessoal, intransferível e está inserida em um tempo e espaço em movimento constante. No entanto, cada vida se integra e se entrelaça com outras muitas histórias de outras vidas. Como resultado, sendo seres ontologicamente sociais, passamos a construir a nossa história só e exclusivamente com a participação dos outros e da apropriação do patrimônio cultural da humanidade. Temos assim um movimento de constituição do Homem que passa pela vivência com os outros e vai se consolidar na formação adulta de cada um de nós. Essa discussão tem em Vygotsky (1996, 1998) e em outros psicólogos russos a sua origem. Seu aprofundamento vem sendo feito à luz de experiências, especialmente do campo educacional. Na perspectiva sociointeracionista vygotskyana, encontramos uma visão de desenvolvimento humano baseada na idéia de um organismo ativo cujo pensamento é construído em um ambiente histórico e cultural: a criança reconstrói internamente uma atividade externa como resultado de processos interativos que se dão ao longo do tempo. Vygotsky salienta que as possibilidades que o ambiente proporciona ao indivíduo são fundamentais para que este se constitua como sujeito lúcido e consciente, capaz, por sua vez, de alterar as circunstâncias em que vive. O nascimento proporciona vivências em situações diversas, interações sociais com parceiros mais experientes – adultos ou companheiros de mesma idade – que orientam o desenvolvimento do pensamento e o próprio comportamento da criança e daqueles de quem dependerão as suas aprendizagens mediante as experiências a que for exposta. A mediação é importante porque, enquanto sujeito do conhecimento, o homem não tem acesso direto aos objetos, mas acesso mediado, através de recortes do real, operados pelos sistemas simbólicos de que dispõe. Dessa forma, Vygotsky 37 enfatiza a construção do conhecimento como uma interação mediada por várias relações, ou seja, o conhecimento não está sendo visto como uma ação do sujeito sobre a realidade, e sim pela mediação feita por outros sujeitos. Assim sendo, o importante é a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. Segundo Vygotsky (1984), o processo de construção do conhecimento ocorre em uma complexa dinâmica interativa, da qual participam três elementos essenciais: o aluno, como sujeito do conhecimento; os conteúdos e os significados; o professor que atua como mediador. Essa concepção supõe um caminho em direção à identificação e análise dos mecanismos mediante os quais ocorre o conhecimento. Suas concepções sobre o conhecimento representam um marco na interação que existe simultaneamente entre aprendizado e desenvolvimento humano. As relações com um conhecimento anteriormente possuído dirigem a atenção e a memória do indivíduo, orientando sua percepção e facilitando a aprendizagem. Os mecanismos mediadores são internalizados e o indivíduo deixa de operar com signos externos, passando a usar as representações mentais, os conceitos, as imagens visuais, as palavras, realizando atividades mais complexas nas quais é capaz de controlar deliberadamente suas ações através de recursos internalizados. Trata-se, então, de uma trama complexa implícita no processo de construção do conhecimento dos seres humanos. Embora concordemos com as concepções de conhecimento apresentadas por Vygotsky, as análises realizadas vão mostrar que a professora – pelo menos nos dados que constituem a base desta investigação – não atua em todos os momentos como mediadora. A linguagem é o principal instrumento simbólico de representação da realidade nesse processo de intermediação em que há a transformação das funções 38 psicológicas elementares (por exemplo: memória) em superiores (por exemplo: raciocínio, atenção voluntária). A linguagem foi preocupação central para Vygotsky que a abordou em seu aspecto funcional, psicológico. Ela não foi considerada como um sistema lingüístico de estrutura abstrata, mas estudada em conexão com o pensamento. Quando criança, o pensamento evolui sem a linguagem, pois há uma linguagem pré-intelectual e um pensamento pré-lingüístico. Quando os prés se juntam, surge um novo tipo de organização lingüístico-cognitiva. É aí que o pensamento se torna verbal e a linguagem, racional. Há um propósito na fala, e esta serve ao intelecto. Os vários campos do conhecimento, destacados neste item, apresentam contribuições aos estudos sobre interação. Em nossa pesquisa utilisamos princípios de cada perspectiva, que nos conduziram a observar aspectos, como: organização do evento, observação dos participantes e suas relações; e organização social do discurso na interação. Em conformidade com as discussões implementadas, tomamos o conceito de interação como uma produção conjunta, em que dois ou mais conversacionalistas vão construindo o texto. As ações estão interligadas numa complexa rede de intervenções, com base nas contribuições dos envolvidos, que atuam de acordo com as formas como eles lêem o evento, isto é, com base em suas interpretações do que está ocorrendo. Três grandes perspectivas de estudo formam a base das nossas investigações: da AC de linha etnometodológica, tomamos a preocupação com as questões que giram em torno da organização, já que à etnometodologia interessa saber como se cria ordem social. Adotamos seu pressuposto básico de que toda conversação tem uma estrutura 39 organizada. Dela, extraímos os conceitos de marcador discursivo e de tópico discursivo, que serão discutidos mais adiante. A EC nos dá a base para considerarmos a aula enquanto um evento comunicativo, isto é, como práticas governadas por regras de conduta e interpretação: no Capítulo 5, usaremos suas categorias para observar aspectos do evento aula. Por fim, os comportamentos de professores e alunos estão baseados em suas estruturas de expectativas, que determinam os vários alinhamentos que se atualizam em sala de aula. Valemo-nos desses conceitos do Sociointeracionismo para, mesmo sem procedermos à uma análise cognitiva detalhada, explicarmos os comportamentos dos interactantes, tais noções estão na base do aparato teórico metodológico que fundamenta esta pesquisa. Obviamente, os limites entre as três perspectivas aqui destacadas não são claramente demarcados e os pressupostos teóricos e categorias, mesmo que com nomes diferentes, podem ser equivalentes, assim como posturas metodológicas. A exposição foi assim dividida por propósitos didáticos. 40 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA : Estudos sobre o discurso de sala de aula Os estudos sobre o discurso em sala de aula são variados e cumprem objetivos diferentes. Há que se considerar que a interação em sala de aula, por suas características e funcionalidade, guarda especificidades, ao lado de nossas próprias observações, alguns achados a respeito dessa interação são aqui comentados. Pelos objetivos subjacentes à interação em sala de aula, o tópico discursivo – visto como uma co-construção de dois ou mais conversacionalistas – tem características próprias, peculiares ao evento comunicativo em questão. No processo de interação há uma relação de troca. No caso da interação na sala de aula, esse processo envolve vínculos entre quem ensina e quem aprende. Nesse momento, percebemos que quem ensina aprende e vice-versa. O aluno não é ensinado nem o professor o faz aprender. Aluno e professor interagem no espaço denominado sala de aula. Esse espaço é a primeira aproximação da criança das esferas públicas de interação social. Todavia ele ainda pode ser considerado como público restrito, tendo em vista que os atores desse processo foram previamente determinados e são de certa forma limitados em número. Nesse espaço, o discurso é representado como um processo de construção social. Isso porque o significado é um construto negociado pelos participantes, ou seja, não é intrínseco à linguagem. E ainda, a construção social do significado é situada em circunstâncias sociohistóricas particulares e é medida por práticas discursivas específicas nas quais os participantes estão posicionados em relação de poder. Percebemos que, nessa visão de discurso como construção social por meio do qual os 41 participantes constroem a realidade e a si mesmos através do discurso, a construção da identidade social é vista como estando sempre em processo. A identidade é identificada como produção, como processo, visto que é dependente da realização discursiva em circunstâncias particulares: os significados que os participantes dão a si mesmos e aos engajados no discurso. Assim, concordamos com a afirmação de Shotter (1989, apud Moita Lopes, 2002) de que somos criados da forma que somos pelos outros à nossa volta. As práticas discursivas na sala de aula desempenham um papel importante no desenvolvimento de sua conscientização sobre suas identidades e a dos outros. Isso se entendermos a escola como instituição socialmente justificável como espaço de construção de conhecimento/ aprendizagem, na qual os significados que são gerados nas salas de aula têm mais crédito social do que em outros contextos. E esse crédito é devido ao papel de autoridade que o professor desempenha na construção do significado. Por conseqüência, as atividades sociais construídas na escola podem desempenhar um papel importante na vida dos indivíduos quando se depararem com outras práticas discursivas nas quais suas identidades são reexperenciadas ou reposicionadas1. A construção dessas atividades sociais é resultado da negociação patente na interação entre professor e aluno. Segundo Moita Lopes (1996), essa negociação é que vai levar à construção de um conhecimento comum entre esses participantes. Esse conhecimento é construído conjuntamente em sala de aula através de um processo que 1 MOITA LOPES, Luís Paulo da. Identidades Fragmentadas: A construção discursiva de raça, gênero e sexualidade na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2002. 42 envolve controle, negociação, compreensão e falhas na compreensão, até que passa a fazer parte do conhecimento compartilhado na sala de aula. A aprendizagem em sala de aula é caracterizada pela interação social entre os significados do professor e os dos alunos, na tentativa de construção de um contexto mental comum. Ao colocarmos junto a essa aprendizagem o ensino, verificamos que os dois são processos que ocorrem por meio de uma produção lingüística, inevitável e imprescindível, presente em toda e qualquer sala de aula. Professores e alunos necessitam se apropriar do recurso lingüístico, para que, em permanente articulação, alcancem seus objetivos nas tarefas de ensino e aprendizagem. Pois é no contexto de sala de aula que professores e alunos, mediados pela linguagem, constroem ativamente o sentido de mundo. De acordo com Mortimer e Scott (2003), o processo de aprendizagem não é visto como a substituição das velhas concepções, que o indivíduo já possui antes do processo de ensino, pelos novos conceitos científicos, mas como a negociação de novos significados num espaço comunicativo no qual há o encontro entre diferentes perspectivas culturais, num processo de crescimento mútuo. Embora os autores façam referência, especificamente, ao ensino de Ciências, compreendemos que seja possível ampliar os comentários feitos para um contexto educacional mais geral. Afinal de contas, uma aprendizagem significativa contempla não apenas o que se deseja ensinar e aprender, mas também aquilo que já se sabe. Dessa forma, o termo negociação, utilizado pelos autores, representa claramente essa concepção de ensino e aponta para a importância da interação entre professor/aluno e aluno/aluno no espaço da sala de aula. 43 Acreditamos que um cenário de negociação supõe a consolidação de ambos os discursos, o do professor e o do aluno. É imprescindível que haja o reconhecimento recíproco das mensagens, cabendo ao professor aceitar como legítimo o discurso do aluno e vice-versa, e ao educando, ouvir e respeitar a comunicação de seu mestre. E, assim, é em um ambiente de fluidez lingüística que os objetivos que norteiam qualquer processo de ensino-aprendizagem podem ser alcançados. Por isso, quando os alunos deixam de ser considerados interactantes e os professores assumem o discurso monológico que veicula o saber, ocorre a perda de reconhecimento do professor pelo aluno. Embora se estabeleça um padrão de comunicação nesse contexto, pautado em um discurso de autoridade, o reconhecimento recíproco deixa de existir, promovendo uma desmotivação progressiva dos alunos no ato de aprender. Nesse contexto, não há reconhecimento mútuo dos envolvidos no evento. Existe a presença do aprendiz, mas não há negociação pela mediação da linguagem. E isso não deveria acontecer, porque é na sala de aula que o educador escolar serve de mediador entre a criança e o mundo. Acrescentamos que a falta de estímulo interfere na interação. Se os alunos são motivados a se expressar oralmente, suas comunicações adquirem valor na sala de aula, estimulando as relações interativas, o que pode propiciar um ambiente de negociação e aprendizagem. Essas relações interativas provenientes das trocas entre os parceiros têm sua importância como momentos significativos no processo de ensinoaprendizagem. Tal importância remete à psicologia sociohistórica. Essa psicologia sugere objetivo e finalidades que, acredita-se, devam ter ação educativa. Essa mesma 44 psicologia traz em seu bojo a concepção de que todo Homem se constitui como ser humano pelas relações que estabelece com os outros. A negociação valoriza as trocas entre os parceiros em sala de aula, pois é nas interações que tanto o conceito científico pode ser mais detalhado pelo professor, pois passa a ser mais discutido em um processo descendente, quanto os conceitos mais cotidianos dos alunos passam a ser enriquecidos e tomam um caminho mais ascendente, pois são ampliados pelo conhecimento científico, elaborado historicamente. Professores e alunos podem conferir às palavras significados e sentidos diferentes. Dessa forma, interações sociais de crianças com parceiros mais experientes, como fora postulado por Vygotsky, estimulam-nas não só na apropriação da linguagem, como também na sua expansão, possibilitando, assim, a elaboração de sentidos particularizados que dependem da vivência infantil e da obtenção de significados mais objetivos e abrangentes. Na perspectiva sociointeracionista, sociocultural ou sociohistórica na qual se insere Vygotsky, o desenvolvimento humano se dá em relação, nas trocas entre parceiros sociais, através de processos de interação e mediação. Ele enfatizava o processo histórico-social e o papel da linguagem no desenvolvimento do indivíduo. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. Para ele, o sujeito é interativo, pois adquire conhecimentos a partir de relações intra e interpessoais e de troca com o meio, partindo de um processo denominado mediação. Os conceitos sobre desenvolvimento e aprendizagem, nessa perspectiva, podem ser mais bem compreendidos ao tratarmos o que Vigotsky denomina de Zona de 45 Desenvolvimento proximal (ZDP). Esse conceito define a distância entre o nível de desenvolvimento real, determinado pela capacidade de resolver um problema sem ajuda, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da resolução de um problema sob a orientação de um adulto ou em colaboração com outro companheiro. A ZDP é o campo intermediário do processo. Para Vygotsky, o processo de aprendizagem deve ser olhado por uma ótica prospectiva, ou seja, não se deve focalizar o que a criança aprendeu, mas sim o que ela está aprendendo. Em nossas práticas pedagógicas, sempre procuramos prever em que tal ou qual aprendizado poderá ser útil àquela criança, não somente no momento em que é ministrado, mas para além dele. É um processo de transformação constante na trajetória das crianças. As implicações desta relação entre ensino e aprendizagem para o ensino escolar estão no fato de que este ensino deve se concentrar no que a criança está aprendendo, e não no que já aprendeu. Vygotksy firma esta hipótese no seu conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP). (Creche Fiocruz, 2004) Vygotsky (1996, 1998) dá grande valor ao processo de interação, às intervenções pedagógicas e ao ensino na construção do conhecimento. Para ele, não é suficiente ter todo o aparato biológico da espécie para realizar uma tarefa se o indivíduo não participa de ambientes e práticas específicas que propiciem essa aprendizagem. O processo de ensino-aprendizagem se dá via interação. É na interação entre as pessoas que em primeiro lugar se constrói o conhecimento que depois será partilhado pelo grupo junto ao qual tal conhecimento foi conquistado ou construído. O desenvolvimento e a aprendizagem estão relacionados ao fato de o ser humano viver em um meio social. O processo interativo em uma sala de aula oferece o direito de fala a todos, proporciona o levantamento de hipóteses, negociações, permite chegar a conclusões que ajudam o aluno a se perceber parte de um processo dinâmico de construção. Não 46 é uma sala de aula onde cada um faz o que quer, mas onde o professor seja o articulador dos conhecimentos e todos se tornem parceiros de uma grande construção, pois, ao valorizarmos as parcerias, estamos mobilizando a classe para pensar conjuntamente e não para esperar que uma única pessoa tenha todas as respostas para tudo. Todavia (mesmo valorizando as interações), reafirmamos que na sala de aula há papéis que precisam estar bem definidos, mas também queremos reforçar que esses papéis não estão rigidamente constituídos, ou seja, o professor vai, sim, ensinar o seu aluno, mas este poderá aprender também com os colegas mais experientes ou que tiverem vivências diferenciadas. Ao professor caberá, ao longo do processo, aglutinar todas as questões que aparecem e sistematizá-las de forma a garantir o domínio de novos conhecimentos por todos os seus alunos. Na interação em sala de aula, os tópicos são pré-determinados, no sentido de que eles são parte de um programa de curso previamente elaborado. É preciso notar que os objetivos de um evento influenciam consideravelmente a forma do conteúdo da mensagem. Barros (1991) declara que em algumas atividades em língua estrangeira, cujo objetivo primordial é praticar a estrutura da língua, alvo maior do que transmitir certas informações, a escolha dos tópicos deve ser menos restrita. Em se tratando de um curso de formação intensiva de professores de língua estrangeira (Língua Francesa) com um programa de curso previamente elaborado, os tópicos são prédeterminados e o objetivo não é apenas praticar a estrutura da língua, mas transmitir informações específicas. 47 Segundo Barros (1991), no evento aula nós observamos três níveis principais, relacionados a saberes específicos, considerando o tipo de tópico discursivo que pode surgir: - um nível instrucional, compreendendo tópicos que se referem ao tópico acadêmico envolvido. O foco está na informação específica; - um nível organizacional, que inclui tópicos relativos a negociações entre interactantes: mudança de horário, exames, o programa do curso; e - um nível disciplinar, incluindo tópicos relativos à admoestação de alunos, chamando a atenção deles para a relevância do tópico acadêmico. O tipo de interação que ocorre na sala de aula entre o professor e os alunos é usualmente considerado formal. Uma maior ou menor participação dos envolvidos no evento revela o grau de formalidade do mesmo. Segundo Tardelli (2002), os lugares e os papéis dos interactantes já foram previamente definidos, tanto pela instituição de ensino quanto pela sociedade, e a compreensão desse princípio direciona o grau de formalidade no registro lingüístico utilizado e as relações interpessoais, além de intervir no tipo de gerenciamento da aula. Em um contexto de interação, o conhecimento se constrói nas atividades de interlocução que possibilitam a emergência de falas heterogêneas e a condição de torná-las relevantes e incorporá-las ao tema trabalhado. E este, por sua vez, subsidia a produção de texto. Assim, o processo pedagógico atende a uma necessidade real de comunicação. Por isso, ao trabalhar o conteúdo por meio de ações, ou seja, trabalhar competências, o professor deixa de ser aquele que detém o conhecimento, trabalha em parceria com o aluno e atua como mediador na construção do saber. 48 Embora ocorra na escola a construção de conhecimento por parte dos alunos, mediada pelo professor, reafirmamos que os conteúdos a serem trabalhados não são, na maioria das vezes, negociados pelos interactantes. A maioria deles é uma imposição institucional. Os alunos devem aprender mesmo não achando o tópico atrativo ou interessante. Cabe ao professor otimizar as condições de aprendizagem. Para tanto, algumas técnicas ou estratégias usadas pelo professor têm a finalidade de assegurar a atenção do aluno ao tópico em foco, garantir certo armazenamento das mensagens e permitir que o aluno identifique e assimile o conhecimento científico. O professor pode realizar atividades em duplas ou em grupos pequenos, utilizar músicas, filmes, leituras de contos, dramatizações de diálogos estudados, apresentações teatrais, etc. Acreditamos que qualquer modelo teórico apresenta limitações. É provável que um modelo específico seja útil para a percepção e análise de certos fatos ou fenômenos lingüísticos, mas inadequado para trabalhar com outros ou mesmo aceitar a sua existência. Por isso recorremos a diferentes estudos, com o intuito de elaborar um aparato que melhor dê conta dos processos interacionais que ocorrem na sala de aula. 49 4. MARCADORES DISCURSIVOS Neste capítulo, nos propomos discutir o conceito de marcador discursivo, vistos como itens que, do ponto de vista informacional, podem ser considerados como sintaticamente irrelevantes, mas com importante papel pragmático (4.1.), defendendo uma postura que privilegia um enfoque funcionalista da questão (4.2.). Procedemos, também, com uma breve revisão bibliográfica sobre os principais marcadores estudados neste trabalho (4.3.). Os marcadores desempenham uma macrofunção metadiscursiva, reportando-se ao próprio discurso de forma rápida e eficiente, assim contribuindo para a criação de sentidos – tal função é discutida em 4.4. Nos estudos sobre marcadores encontramos duas grandes tendências de observação: os que partem de itens definidos previamente como marcadores e tentam observar seus pontos de ocorrência e usos; e os que partem de uma análise do discurso em si, verificando qual o papel de tais partículas no texto. Na tendência predominantemente formal, Marcuschi (2003) afirma que os marcadores podem ser responsáveis tanto pela sintaxe da interação quanto pela segmentação e pelo encadeamento de estruturas lingüísticas. De forma geral, os MD podem ser observados do ponto de vista formal, para o funcional, e do ponto de vista da função, para a forma. Os MD podem ser produzidos pelo falante e pelo ouvinte e aparecem no início, no meio ou no fim das unidades lingüísticas. Os produzidos pelo falante ou pelo ouvinte servem para sustentar o turno, preencher pausas, dar tempo à 50 organização do pensamento, monitorar o ouvinte, explicar intenções, indicar início de assunto ou término, avisar ou antecipar algo que será dito, concordar, discordar, reformular, orientar quanto à recepção, etc. Observamos três categorias gerais de marcadores, de acordo com a função que desempenham: os marcadores textuais, os interativos e os cognitivos. Os marcadores textuais conectam partes do texto e mostram a posição do falante em relação à mensagem por ele produzida. Os marcadores interativos têm a função de estabelecer a relação entre falante e ouvinte e são empregados como estratégias na negociação das relações e dos papéis sociais entre os interactantes. Por fim, os marcadores cognitivos estão associados ao processo de produção do discurso – fenômeno de hesitação. Os marcadores discursivos são elementos constitutivos de diversos grupos. Envolvem sons não lexicalizados, palavras, locuções e sintagmas mais desenvolvidos, aos quais se pode atribuir de forma consensual a condição de uma categoria pragmática bem consolidada no funcionamento da linguagem. Através desses marcadores, a instância da enunciação marca forte presença no enunciado, assim como se manifestam importantes aspectos que definem sua relação com a construção textual-interativa. Como o objetivo deste estudo é verificar as funções de alguns desses marcadores nos processos interativos, procuraremos enfocar a perspectiva predominantemente funcional e observar os marcadores produzidos pelo falante. 51 4.1. Estudos já realizados sobre marcadores discursivos De acordo com Bertrand e Chanet (2001), a literatura pragmática, nos últimos vinte e cinco anos, acompanhou a multiplicação de estudos sobre pequenas palavras apresentadas sobretudo no discurso oral, como: bon, ben, quoi, - bom, bem, o quê? -, etc. Esses itens lingüísticos, que funcionam nos domínios cognitivo, expressivo, social e textual, foram alvo de estudo de vários analistas. Na década de 80’, estudos sobre esses itens proliferaram e, segundo Fraser (1999), dezenas de artigos eram publicados anualmente. Fraser cita vários estudiosos, como: Knott and Dale (1994), Blakemore (1987), Redeker (1990, 1991), Schorup (1985), Polanyi e Scha (1983), Bazanella (1990), Schiffrin (1987), dentre outros. Os estudos realizados observam os marcadores de diferentes perspectivas, mais formais ou mais funcionais, e a definição do conceito varia, dependendo da postura teórica e até mesmo dos objetivos do analista. A terminologia para designar essas unidades é bastante variada. No domínio da literatura americana, Fraser (1999) nomeou-as marcadores discursivos e acrescentou que a análise desses marcadores era um mercado crescente na lingüística. Esse mesmo autor apresenta uma série de termos diferentes para esses marcadores: cue phrases, discourse connectives, discourse operators, discourse particles, discourse signalling devices, phatic connectives, pragmatic connectives, 52 pragmatic expressions, pragmatic formatives, pragmatic markers, pragmatic operators, pragmatic particles, sentences connectives.1 Fraser ainda destaca que uma das mais antigas referências aos MD como entidades lingüísticas foi feita por Labov e Fanshel, em 1977:156. Esses autores escreveram que: “As a discourse marker, well refers backwards to some topic that is already shared knowledge among participants. When well is the first element in a discourse or a topic, this reference is necessarily to a unstated topic of joint concern” 2. Em seguida, Levinson (1983), em seu livro Pragmatics, considerou os MD como uma classe merecedora de estudo por seus próprios méritos, embora não tenha dado a essa classe um nome. Esse autor sugeriu que não apenas no inglês, mas certamente em outras línguas, haveria palavras e muitas frases que indicavam relação entre o que está sendo dito e o que fora dito anteriormente. Barros (1991) resgata um momento ainda anterior ao mencionado por Fraser. A autora afirma que o estudo de marcadores não é recente, posto que, em 1976, Keller e Taba-Warner apresentam uma lista de gambitos3 que são classificados como openers, links, responders e closers4. Ela mostra que os falantes usam os 1 Frases sinalizadoras, conectivos do discurso, operadores do discurso, partículas do discurso, instrumentos sinalizando o discurso, conectivos fáticos, conectivos pragmáticos, expressões pragmáticas, formativos pragmático, marcadores pragmáticos, operadores pragmáticos, partículas pragmáticas, sentenças conectivas. Fraser, 1999, p.932. 2 Como um marcador, bem se refere a alguns tópicos anteriores que já têm o seu conhecimento compartilhado entre os participantes. Quando bem é o primeiro elemento em um discurso ou em um tópico, esta referência é necessariamente a um tópico instituído de interesse conjunto. Labov e Fanshel, 1977: 156. 3 Gambitos foi o termo utilizado por Keller e Teba-Warner em 1976 (apud Barros 1991). Trata-se de uma ferramenta conversacional. 4 Existem quatro tipos de gambitos: os que iniciam uma intervenção, os chamados de ligação, os usados para introduzir respostas e, finalmente, os de fechamento. 53 marcadores para sinalizar ações tópicas e que é necessário estabelecer as diferentes categorias de marcadores, de acordo com a função que desempenham. Ela acrescenta que o uso de marcadores é grande e que a alta ocorrência dos mesmos pode ser conseqüência de procedimentos rotineiros que caracterizam as atividades. Assim, eles substituem, sendo mais rápidos e mais eficientes, longas explicações, evitando a interrupção do fluxo conversacional. A maioria das pesquisas realizadas até a década de noventa, segundo Andersen e Burns (1989), tinha como foco o uso textual dessas formas no discurso de adultos, descrevendo como eles: a) criam coerência e estruturam o discurso pela coordenação de atos de fala, turnos e conteúdo proposicional; b) provêem feedback de ouvintes do que fora dito anteriormente; c) sinalizam problemas de produção por parte do falante. Também foram feitos estudos explorando como as crianças aprendem as funções textuais dessas formas, em inglês e em hebraico. E, por fim, uma quarta função dessas formas e que naquele momento ainda não havia sido sistematicamente estudada, o uso desses marcadores como marcas de relação social entre interlocutores em qualquer evento de fala no plano do discurso. Andersen e Burns (1989) afirmam que, nesse enquadre, a variação sistemática na distribuição dos marcadores pode ser considerada um aspecto de conhecimento adquirido, refletindo o status relativo do falante e a quem se destina, assim como seu nível de familiaridade ou intimidade com o tópico e o cenário de seu discurso. Quando usados dessa maneira, essas formas estão normalmente na posição inicial da sentença; separadas do que vem em seguida por vírgulas de entonação, elas carregam pouco ou nenhum conteúdo semântico. Dessa forma, seu significado natural está ausente e elas não desempenham nenhum papel gramatical no discurso. Podemos verificar no Exemplo 4.1., fornecido por Andersen e Burns (1989), Well, now, tomorrow you can 54 finish this up. (Bem, agora, amanhã vocês concluem isto), que now (agora) é claramente um MD, ao invés de um advérbio temporal, tanto pela prosódia quanto pela semântica da proposição à qual está ligado. E ainda mais, o uso de well e now (bem e agora), para introduzir essa declaração, adiciona um sentido de autoridade, indicando, assim, que o falante tem mais poder que o ouvinte. Embora pesquisas registrassem o fato, o mesmo não era devidamente considerado. Em 1975, Sinclair e Coulthard apresentaram uma breve descrição do que chamaram de frames no discurso de sala de aula, ao longo do qual exemplos de transcrição do diálogo entre aluno e professor, em escolas britânicas, estavam repletos de declarações do professor iniciando com well (bem) ou now (agora). Andersen e Burns (1989) sugerem que essas formas são mais amplamente usadas do que é declarado por Sinclair e Coulthard e que também crianças começam a entender como essas formas podem ser usadas tanto para refletir como para manipular relações sociais. Dessa forma, podemos inferir que o mesmo processo aplicado ao inglês, como língua materna, pode ser utlizado para os aprendizes de uma língua estrangeira, já que, nesta, a identificação e o uso dos marcadores podem facilitar as relações sociais. Ao afirmar, na época da publicação de seu trabalho, que já há dez anos crescia o interesse teórico pelos MD (definição, significado e funções), Fraser (1999) destacou o trabalho de Schiffrin (1987) como o primeiro e mais detalhado sobre MD. Essa autora também os nomeia discourse markers – marcadores discursivos - e 55 analisa em detalhe as expressões and, because, but, I mean, now, oh, so, or, then, well e y’know 5 que ocorrem em entrevistas não estruturadas. Schiffrin escreve que devemos: “... try to find common characteristics of these items to delimit what linguistics conditions allow an expression to be used as a marker. But such an approach would require not only discovery of the shared characteristics of an extremely diversified set of expressions, in English: it would require across a wide body of tipologically diverse language to discover what other linguistic resources are drawn upon for use as markers.”6 Em seu trabalho, Schiffrin (1987) afirma que sua visão está condicionada à postura de que o discurso é um processo de interação social e não se constitui apenas de unidades lingüísticas formais. Para ela, os marcadores são definidos em relação às unidades de fala, e não limita essa unidade a uma sentença, proposição ou ato de fala. As unidades de fala são definidas levando-se em consideração suas relações estruturais, coesivas ou interacionais com outras unidades. Há muitas unidades de fala que influenciam o uso de marcadores. Ela acredita que, ao restringir sua definição em uma unidade precisa, a análise de seus dados fica limitada. O desejo de dar conta da distribuição dos marcadores (que marcadores ocorrem, quando e por que ocorrem?), de forma a determinar sua importância em nível lingüístico (quais são suas formas e quais são seus significados?) e ao nível do 5 6 E, porque, mas, quer dizer,agora, oh, então, ou, logo, bem e você sabe. “... procurar encontrar características comuns desses itens para delimitar quais condições lingüísticas permite o uso de uma expressão como um marcador. Mas este tipo de abordagem poderia requerer não apenas a descoberta das características compartilhadas de uma grande diversidade de grupos de expressões em Inglês: isto poderia requerer através de um amplo corpo de línguas diversas a descoberta de outras fontes lingüísticas que evidenciam seu uso como marcadores”. Schiffrin, 1987: 328. 56 discurso (o que está acontecendo naquele momento da interação?), determinou sua visão, e o seu trabalho sobre marcadores tornou-se seminal. Em um sentido mais restrito, os MD são vistos como expressões comuns da língua, usadas na conversação para estruturar a interação em vários níveis. Uma interpretação mais ampla do termo inclui todos os elementos que sinalizam a estrutura e a coerência do discurso, tanto na comunicação escrita quanto na comunicação oral. Um objetivo importante numa conversa é a interação e, longe de serem simplesmente muletas, esses MD desempenham funções importantes que garantem que ela se desenvolva sem incompreensões, de forma cooperativa e cortês. Em 2001, Schiffrin afirma que os marcadores podem ser considerados como um grupo de expressões compreendidas por membros de classes variadas, como conjunções, interjeições, advérbios e frases lexicalizadas. Quanto ao sentido literal, são itens não obrigatórios seqüencialmente, de forma pragmática relevantes, ou seja, não contribuem com o sentido estritamente lingüístico, entretanto carregam grande significação ao nível do discurso. Segundo Bertrand e Chanet (2001), os termos francófonos mais empregados são os de marqueurs discursifs, connecteurs, particules phatiques7, e podem cobrir diferentes realidades. As autoras acrescentam que unidades desse tipo têm em comum o fato de estruturarem o universo de referência (para os conectores), o texto (para os organizadores), o discurso (para as partículas), ou a interação (para os fáticos e os reguladores), à medida que são construídos. 7 Marcadores discursivos, conectores, partículas fáticas. 57 Essas unidades não constituem (ou não constituem apenas, para certos conectores) sinais lingüísticos, no sentido restrito do termo, à medida que seu significado é mais informativo que denotativo. Nos processos interacionais valemonos de operações metadiscursivas que marcam explicitamente uma articulação no discurso: anunciar o que vai ser dito, retomar o que foi dito e antecipar o que vai ser dito, concluir retomando em parte o que fora dito. Nas operações metadiscursivas, uma parte do discurso fala de outras partes do discurso; contribuem, pois, para uma estruturação explícita do discurso. Elas fazem igualmente intervir certo número de marcadores lingüísticos e uma organização retórica: seu lugar no início e no final de partes marca uma pausa e um encadeamento no discurso8. Ainda de acordo com Bertrand e Chanet (2001), os elementos chamados de fáticos e reguladores não são considerados na literatura como MD. No entanto, esse termo engloba não só os conectores (mais, alors, donc – mas, então, logo), mas também as partículas (ben, bon, en fait – bem, bom, de fato). Os conectores têm o papel de religar uma informação produzida pelo discurso àquelas que foram construídas anteriormente. Por outro lado, as partículas não assumem esse papel de ligação, elas designam um dado momento da interação que o locutor produz na construção de seu próprio discurso. Os conectores e as partículas (segundo Bertrand e Chanet, 2001) têm em comum o fato de constituirem unidades não referenciais e de agirem sobre as representações cognitivas construídas pelo discurso e na construção dessas representações. Esses marcadores dariam as instruções sobre a maneira como os interactantes podem construir juntos as representações, modificá-las e 8 BEACCO, Jean-Claude ; DAROT, Mireille. Analyses de discours lecture et expression. Hachette/ laurousse. Paris, 1984. 58 ajustá-las umas às outras. Assim, os MD não interviriam necessariamente na construção discursiva de um universo de referência; no entanto, poderiam dar indicações sobre a maneira de se construir esse universo, de maneira mais geral, e sobre as operações cognitivas que guiam os interactantes na atividade discursiva para otimizar a comunicação. Na prática, percebemos que a distinção entre MD, conectores e partículas não é clara. De uma parte, alguns autores empregam o termo partículas onde outros empregam o termo MD e inversamente. Por outro lado, parece que, em alguns de seus empregos, mais, donc, alors e bien – mas, logo, então e bem - têm funções pragmáticas similares àquelas das partículas, tanto que formas como cependent, car, ou puisque – no entanto, porque ou visto que - são sempre consideradas, na literatura, como conectores. Adotamos o termo global MD e acreditamos que os termos marcadores discursivos, conectores e partículas não designam palavras nelas mesmas, mas as funções pragmáticas dessas palavras no discurso. O estudo desses marcadores abriu um campo de pesquisa muito fecundo que representa hoje um dos domínios mais estimulantes na análise do discurso e na pragmática lingüística. Os marcadores têm sido estudados em uma variedade de línguas, incluindo o chinês, o alemão, o hebraico, o italiano, o português, o francês, o dinamarquês, dentre outras. Eles têm sido examinados em uma variedade de gêneros e contextos interativos, por exemplo: narrativas, entrevistas políticas, consultas médicas, jogos, programas de rádio, assim como em diferentes situações de contato em diferentes línguas. Os MD são itens que perdem gradativamente seu sentido original e adquirem mais liberdade sintática, tornando-se, portanto, mais 59 abstratos, auxiliando na organização do discurso. Dessa forma, podem ser reconhecidos como elementos lingüísticos com valor pragmático que desempenham papéis na interação. Assim como outros autores já citados, Fraser (1999) conclui que os MD, com exceção de alguns casos idiomáticos, são expressões vindas de classes sintáticas variadas e que têm um significado que é processual, e restrições coocorrentes que estão em distribuição complementar de seu complemento natural conceitual. Esse autor sugere que os marcadores devem ser considerados como uma classe pragmática então definida porque contribuem para a interpretação de uma declaração ao invés do seu conteúdo proposicional. Os autores citados, até o momento, levam em consideração a língua sempre associada a um contexto, daí inferirmos que o texto tem um endereço determinado. Após revisarmos o que fora pesquisado, produzido e apresentado pelos diferentes autores, corroboramos a assertiva de que os MD são itens lingüísticos desprovidos de suas funções sintático-gramaticais, mas com uma grande carga pragmática. Que eles podem ser retirados do texto produzido sem, todavia, causarem qualquer alteração lingüística. No entanto, pragmaticamente, inferimos que a sua ausência poderá impedir a compreensão ou a interação entre os interactantes. Fazse necessário ater-se ao que eles fazem no discurso. Assim sendo, é preciso identificar as funções que eles desempenham no processo interativo. Veremos a seguir que esses marcadores apresentam uma variedade de funções e como eles são extremamente importantes na estruturação do discurso. 60 4.2. Uma abordagem funcional dos marcadores A estrutura do discurso, de acordo com Chanet (2003b), constitui uma das problemáticas mais exploradas da análise do discurso, que se prende por definir por quais ferramentas e por quais procedimentos essa estrutura é constituída dinamicamente, e quais são os indícios explorados pelo ouvinte para reconstruí-la. Há mais de uma dezena de anos estudos vêm sendo desenvolvidos sobre o papel dos MD no estabelecimento dessa estrutura. Esses trabalhos são essencialmente pragmáticos e não intervêm na prosódia, se bem que alguns dentre eles assinalem sua importância na identificação dos MD (que correspondem freqüentemente a formas ambíguas) e pela atribuição a um dado marcador no discurso. Em sua obra sobre os marcadores discursivos, em 1987, Schiffrin afirma não se surpreender com o fato de a análise do discurso ser um campo tão vasto e difuso, já que, como a Pragmática e a Sociolingüística, ela tem suas raízes intelectuais não apenas na Lingüística, mas também nas Ciências Sociais e na Filosofia. Esse campo é tão vasto que percebemos nele termos, conceitos e perspectivas oriundos de outras áreas. A própria Análise do Discurso (AD) iniciou na lingüística, através do trabalho de Harris (1951, 1952 apud Schiffrin, 1987), um lingüista estrutural que usou métodos distribucionais de análise para descobrir modelos recorrentes de morfemas que poderiam diferenciar um texto de uma coleção de frases aleatórias. Schiffrin afirma que a distinção entre função referencial e função social da linguagem, que é tão importante para os estudos do discurso, tem suas raízes no conceito de comunicação fática do antropologista Malinowski (1930). A 61 mesma autora acrescenta que a sociologia também divide responsabilidade, promovendo interesse no discurso, e exemplifica através da noção de fato social de Durkheim (1895) e do foco nas formas da vida social, incluindo conversações e interação em pequenos grupos de Simmel (1961). Dessa forma, o discurso tem sido uma das interfaces da sociologia e da lingüística. Para Schiffrin (2001), a produção de um discurso coerente é um processo interativo que requer do falante o uso de diferentes tipos de conhecimentos comunicativo-cognitivos, expressivos, sociais, textuais. Dessa forma, entendendo o discurso em uma perspectiva funcionalista, este seria considerado um evento composto de estratégias que os falantes empregam para uma comunicação bem sucedida. Essas estratégias de comunicação podem ser feitas através de elementos que interagem com as informações no discurso e que também são responsáveis pela coerência das mensagens. Para Koch e Travaglia (2005), o estabelecimento da coerência depende em muito dos fatores pragmáticos. É fato que a língua sempre ocorre em algum tipo de contexto (Schiffrin, 1987). No contexto cultural, significados e posições de mundo são compartilhados. Já o contexto social é o indivíduo em seu habitat; é nesse contexto que o eu e os outros interagem para construír definições de situação e ação. E, por fim, o contexto cognitivo, que é formado pelo conhecimento e pelas experiências vividas que o indivíduo, armazena e posteriormente usa na realização de algo. Assim, entender o uso e a estrutura da língua é reconhecer como a mesma está encravada nesses contextos. 62 No entanto, a língua, em suas formas e funções, tanto no nível superficial, a palavra nela mesma, quanto no nível profundo, o que podemos inferir do que foi dito, não só ocorre nesses contextos como é sensível às características dos mesmos. Schiffrin (1987) afirma que uma variedade de perspectivas tem documentado relações sistemáticas entre língua e contexto. A autora exemplifica, com a análise da sociolingüística quantitativa, que restrições resultantes dos domínios cultural, social, psicológico e textual afetam as variações fonológicas, morfológicas e sintáticas, conforme pode ser verificado, segundo a autora, em: Fasold, 1983, Fasold and Shuy, 1975, Labov e Sankoff, 1980, Sankoff e Cedergren, 1981. Ela acrescenta que exemplos de sensibilidade ao contexto da língua poderiam ser quase infinitamente multiplicados a partir de pressões internas e externas na mudança da língua. Por exemplo, como pressuposições culturais influenciam a estrutura narrativa, como diferentes graus de conhecimento mútuo sobre determinado assunto influenciam o uso e expressões da língua. Assim, percebemos que a língua é potencialmente sensível a todos os contextos em que ocorre, e ainda mais, a língua reflete os diversos contextos porque ajuda a constituí-los. Segundo alguns analistas, a língua é considerada comunicativa quando ocorre sob certas condições de intencionalidade do falante. De acordo com Schiffrin (1987), Ekman e Freisen (1969) diferenciam as mensagens que são informativas das que são comunicativas; Mackay (1972) afirma que a comunicação tem um alvo determinado; Grice (1957) assevera que o significado não está nele mesmo, ou seja, o significado da intenção do falante recebe uma interpretação e uma resposta porque quem está recebendo a mensagem reconhece a intenção. Concordamos com 63 Schiffrin que assume que a língua é sempre comunicativa e que é designada para a comunicação. Verificamos que o discurso: a) forma estruturas, b) transmite significado; e c) realiza ações sociais, sendo essas ações parte integral do mesmo. Essas ações são realizadas em contextos interacionais culturalmente definidos em que o que uma pessoa faz é tratado como base para o que o outro faz. A análise completa do significado de um texto poderia especificar tanto o significado proposicional mostrado por laços coesivos quanto as inferências e entendimentos derivados através dos princípios contextuais e pragmáticos. Essas três partes – estrutura, significado e ações sociais - são integradas pelo falante e pelo ouvinte em seu esforço para achar coerência no discurso. Os marcadores pragmáticos são freqüentemente usados nas interações diárias entre os falantes de determinada língua, aqui denominados de nativos. No entanto, eles são raros nas interações entre os não–nativos e ainda mais raros nos dicionários ou nos manuais de ensino, de acordo com estudo não sistemático que realizamos. Alguns deles representam um desenvolvimento de freqüência de distribuição fantástico nos últimos vinte anos. Podemos estabelecer diferentes categorias de marcadores, de acordo com a função que desempenham. Os MD podem aparecer no início, no meio e no final das unidades. Citamos, no item 4.1., Keller e Taba-Warner (apud Barros, 1991) que, em 1976, apresentaram uma lista de gambitos. Embora os gambitos citados por esses autores sejam diversos em relação à unidade à qual eles possam estar conectados, sua terminologia sugere que os MD abrem, juntam e fecham unidades. Dessa forma, é possível tomar os openers como 64 aqueles marcadores que mostram uma disjunção em relação ao elemento precedente. Já os links, aqueles que juntam, são os MD que demonstram a continuação do discurso; e, por fim, os closers , aqueles que fecham as unidades, que se encontram, como afirma Marcuschi (2003), pós-posicionados: né, não sabe?, viu?, etc. Também no item 4.1. citamos Charaudeau e Maingueneau (2002) que afirmam que os MD apresentam uma grande diversidade formal e que os valores semânticos que possuem se baseiam nas funções que assumem. Dentre essas funções, podemos destacar: a) a estrutura da interação; b) a dinâmica da relação interlocutiva; c) a planificação discursiva; e d) a coerência textual. Observamos que os MD são importantes para o bom desenvolvimento e a fluidez da troca conversacional. O critério semântico usado na segmentação do texto é consistente com o uso de marcadores que obedecem a critérios metacognitivos e interacionais (Barros, 1991). Barros destaca a produção de Ventola (1978, apud Barros, 1991), pois esta sugere que o falante estabelece relação entre: a) o falante e sua mensagem; b) o falante e o ouvinte; e c) o falante e o texto. Já para Marcuschi (1987), os MD podem ser considerados de acordo com as suas propriedades interacionais e intratextuais. Partindo desses dois (Marcuschi e Ventola), a autora acima classifica os MD em três categorias gerais, de acordo com suas funções: a) marcadores interativos, cuja função é estabelecer a relação entre os interactantes e são empregados como estratégias na negociação de papéis sociais e relações; b) marcadores cognitivos, que são associados ao processo de produção da fala; c) marcadores textuais, que 65 conectam as partes do texto e mostram a atitude do falante em relação à mensagem por ele proferida. É necessário apontar que há evidência de que os MD são um meio seguro e que ajudam no exame das ações tópicas e das estruturas. Eles são usados através do texto para indicar os importantes passos no desenvolvimento do tópico. Na interação em sala de aula, onde o objetivo central é compartilhar conhecimentos, é imperativo que os interactantes sejam orientados em relação ao que está acontecendo. Inicialmente, os alunos devem entender o conteúdo informacional da mensagem do professor e, para esse fim, o mesmo faz uso de estratégias do tipo em staccato9, com a finalidade de garantir uma fácil assimilação. Através dos tópicos no plano instrucional, digressões metalingüísticas também são freqüentemente marcadas por uma mudança no tempo. Barros (1991) observou que o professor, em sala de aula, fala mais rápido quando lida com tópicos no plano orientacional e metatópico do que com tópicos no plano instrucional. O professor precisa identificar o que é essencial e secundário e quando se dá o início do tópico acadêmico, por exemplo. Para indicar a importância de uma seqüência sobre a outra, o professor faz uso de repetições e paralelismos sintáticos/ semânticos. A entoação é freqüentemente usada para destacar as palavras-chave em cada momento. As seqüências metalingüísticas expressam a relevância de certas partes do discurso, preparando o aluno para o que está por vir. Os MD são apenas uma das muitas formas de conduzir a informação metadiscursiva. 9 Cada palavra é salientada com nitidez, fala pausada. 66 O uso desses MD na interação em sala de aula é grande. A sua ocorrência pode ser uma conseqüência do procedimento de rotina que caracteriza as atividades em sala de aula: eles substituem (sendo mais rápidos e mais eficientes) longas explicações, como no Exemplo 4.2., Nous avons fait ça ... et maintenant nous allons faire ... (Nós fizemos isso... e agora vamos fazer...), e facilitam, assim, o fluxo conversacional. Para Fraser (1999), os conectores assinalam sempre uma relação entre duas unidades do discurso que eles ligam. Em conseqüência disso, um mesmo conector pode assumir vários valores semânticos ou pragmáticos, visto que sua interpretação é em grande parte negociada pelo contexto específico em que ele é empregado. Dessa forma, marcadores como alors, donc, voilà e bon (então, logo ou assim, eis aqui e bom), empregados também no oral, são considerados polissêmicos nos estudos pragmáticos. De acordo com Mosegaard-Hansen (1998), os marcadores podem ligar atos de linguagem, seqüências de discursos mais longas contendo vários atos de linguagem. Esse ponto de vista está associado ao de Moeschler (1996) que considera que os chamados marcadores pragmáticos podem ligar dois atos de linguagem, duas intervenções ou duas trocas no discurso. O emprego adequado dos chamados MD constitui uma dimensão importante da língua falada na medida em que ajuda o locutor a estruturar o seu discurso, mantendo certa coesão. Vários estudos de aquisição mostraram que mesmo os aprendizes avançados de francês sentem dificuldades em dominar os conectores do francês (Elo 1993, Hancock 1997, Kerr-Barnes 1998). Pode acontecer 67 de aprendizes demonstrarem segurança no emprego de alguns conectores e, simultaneamente, uma falta de segurança no uso de outros conectores quando interagem com locutores nativos da língua francesa. Os MD permitem ao leitor tratar a informação recebida com justeza e fazer as inferências necessárias a uma boa compreensão dos enunciados. A presença de marcadores adequados pode tornar o texto coerente e compreensível. A competência pragmática da segunda língua supõe a habilidade de empregar uma ampla variedade de rotinas conversacionais e estratégias discursivas para manejar uma interação comunicativa com os demais. Os MD desempenham um importante papel tanto na auto-regulação (formulação e reformulação da própria fala) como na inter-regulação (tomada de turno e retroalimentação ilocutiva na interação). O seu emprego é importante para se comunicar eficazmente em uma segunda língua. Para Martín Zonaquino (1998), o estudo dos marcadores é necessário para a aquisição de uma competência plena em uma segunda língua. Os MD se definem como sinais ou pistas usadas pelos falantes a fim de conduzirem de forma cooperativa o processo interpretativo de seu interlocutor (Montolío Duran, 1998), isso se partimos da teoria da relevância que trata os processos existentes entre o significado literal e a interpretação de uma mensagem. Na eleição dos marcadores a serem analisados, optamos por alors (então), donc (logo, pois), mais (mas) e bien (bem), que são marcadores reguladores do discurso oral, motivada, como dito, pela grande freqüência desses marcadores no francês falado (cf. Catherine Chanet, 2003b). Em geral, o que caracteriza esses tipos de marcadores é que os mesmos têm funções de mostrar a relação existente entre 68 diferentes enunciados. Alguns dos marcadores têm a função de auto-regulação que o falante usa para dar a si mesmo mais tempo para reformular. Outros marcadores são empregados para dar retroalimentação ao dito ou para regular o turno entre os interlocutores. Estes são os marcadores de inter-regulação. O fato de conhecermos e identificarmos as suas funções na interação em sala de aula nos motiva a buscar meios para que nossos alunos, aprendizes do francês - língua estrangeira -, se apropriem desse conhecimento e façam uso dele. Afinal, essas partículas desempenham importante papel pragmático no processo interativo. Vejamos, a seguir, uma breve descrição dos marcadores analisados em nossa pesquisa. 4.3. Os marcadores discursivos alors (então), donc (pois, logo, assim), mais (mas) e bien (bem). Neste item (4.3.) realizamos uma apresentação do que já foi pesquisado em relação a alors (então), donc (logo, pois), mais (mas) e bien (bem) O marcador discursivo alors O morfema alors (então) possui uma diversidade de valores que lhe são associados: valores gramaticais (Exemplo 4.3. Je suis sorti; alors je l’ai aperçu/ Eu saí, então o avistei), valores argumentativos (Exemplo 4.4. Si Pierre vient, alors je reste/ Se Pierre vem, então eu fico) e valores conversacionais (Exemplo 4.5. Vous affirmez avoir lu Roulet ; alors expliquez-nous le modèle hiérarchique et fonctionnel/ Você afirma ter lido Roulet, então nos explique o modelo hierárquico e funcional). Podemos considerar que, através de todos esses empregos, alors funciona como um anafórico cuja propriedade lhe permite constituir uma proposição ou enunciação 69 como referência temporal e/ ou argumentativa a partir da qual outra proposição ou enunciação possa ser validada. Alors participa assim dos fenômenos de coerência (Exemplo 4.5.) e coesão (Exemplos 4.3. e 4.4.) discursiva e textual. Uma interessante descrição de alors é proposta por Bouacha (1981). Estudando as condições de ocorrência desse morfema ao nível das intervenções monólogas assumidas por um só locutor, o autor atribui a ele propriedades de um metaoperador cujo funcionamento seria ligado à articulação não de proposições ou de enunciados, o que seria próprio de um conector, mas de seqüências discursivas distintas. Dessa forma, o funcionamento de alors é associado aos operadores com funções anáforas, dando conta da necessidade interna de que um discurso seja articulado como um encadeamento de seqüências coerentes. No entanto, há outras interpretações que associam o funcionamento de alors à dinâmica do tema do discurso. Nesse sentido, a alors é atribuída a função de um marcador de micromudança cuja enunciação viria concluir um episódio e delimitar uma nova seqüência temática. Alors aparece comumente, no oral, em combinação com outros marcadores, e mais freqüentemente com marcadores de tematização: mais alors, bon alors, et alors, alors là. Uma mesma função seria, pois, assegurada por dois marcadores. Entretanto, percebemos que, no oral, alors possui um funcionamento original e, nesse sentido, ele não pode ser transferido para nenhuma outra marca formal – e específica, na medida em que ele explora a dimensão anafórica inerente à sua semântica. Schiffrin (1987) procura listar, em sua obra sobre o assunto, a definição de critérios para identificação de marcadores. Tais critérios separam alors com função de 70 advérbio de alors com função de marcador. Mesmo assim, não é tão fácil a distinção das duas funções, no caso de alors. Primeiramente, desde que ambos, o marcador e o advérbio, estejam inseridos em seqüências dependentes, eles são indistintos nesse olhar. Mas dependência seqüencial é também propriedade de outros itens que não marcadores. Toda anáfora, por exemplo, possui laços coesivos que conectam falas. Considerando esse critério separadamente, poderíamos ter muitos outros itens como marcadores. Segundo, como marcador ou como advérbio, alors sustenta falas. Como advérbio, ele mantém a relação temporal entre dois eventos lingüísticos no discurso, ao passo que, como marcador, ele exibe essa relação não apenas entre eventos lingüísticos, mas entre justificativas, ordens, inferências e ações. Terceiro, tanto como advérbio quanto como marcador, alors ocorre em posição inicial ou posição final. Essa diferença distribucional para alors como advérbio está associada com a diferença de significado. Da mesma forma, alors como marcador nas posições inicial e final possui usos específicos no discurso. Na posição inicial, tem um maior alcance como marcador discursivo do que na posição final. Na posição inicial, marca relações discursivas globais entre episódios e, na posição final, é freqüentemente usado para marcar relações entre ações. Em quarto lugar, as unidades marcadas por alors como marcador são sempre unidades discursivas. Essa discussão é fundamental porque, ao considerarmos conexões entre unidades claramente identificáveis como unidades discursivas, não há dúvidas sobre o funcionamento de uma palavra como marcador. A análise que apresentaremos no capítulo 6 exibe o alors, como marcador discursivo, na posição inicial, desempenhando função de micromudança. 71 O marcador discursivo donc A gramática de uso Le bon usage Grevisse (1994) dá um tratamento um tanto impreciso a donc. Ela o considera: a) reforço de pronomes interrogativos (Exemplo 4.6. qui donc es-tu?/ quem pois é você?); b) conjunção com valor adverbial, quando é usado para concluir uma ordem ou uma súplica (Exemplo 4.7. donnez-moi donc cela/ dê-me pois isso) ou quando serve para indicar estranheza ou surpresa (Exemplo 4.8. que ta maison est donc jolie!/ como sua casa é, pois, bonita!). Destacamos, primordialmente, o uso de donc como marcador de estruturação do discurso, como conector argumentativo com valor consecutivo ou resumitivo. Como conector argumentativo, donc relaciona um termo antecedente ao termo subseqüente. Se, no entanto, donc, como qualquer conector argumentativo, tem como função primordial relacionar dois argumentos, marcando sua orientação, também sustenta uma informação suplementar, se atendemos à força ilocutória tanto do antecedente como do próprio ato em que se encontra. Donc serve de justificação à conclusão que se apresenta como conseqüência. O conector liga duas partes do discurso, servindo a primeira de justificação ou argumento que valida a conclusão da segunda. O movimento de justificação se dá por um princípio determinado no qual cada vez que tivermos X, teremos Y. A principal função de donc é a de marcador discursivo. 72 O marcador discursivo mais De acordo com Ducrot, 1980, como conector pragmático, mais liga dois segmentos do discurso (os enunciados X e Y) e opera, seja nas proposições p e q relativas aos enunciados X e Y, seja na entidade de sentidos implícitos que denominamos um subentendido dedutível, uma conclusão, uma implicadura ou uma implicação e que podem ser de dois tipos: ora elas são implicadas pela única informação lingüística, quer dizer, por p e q nelas mesmas (= implicaduras convencionais de Grice), ora inferidas a partir de informações lingüísticas e de outras informações de ordem contextual (= implicaduras conversacionais de Grice). Um conector pode ter, pois, ao seu alcance as entidades semânticas seguintes: as proposições p e q atualizadas pelos enunciados x e y e diferentes conclusões (r, r’, r”...) implicadas por essas proposições ou inferidas da base de informações de diferentes origens. O marcador mais funciona como conector opondo uma conclusão r, que resulta de uma proposição p, a uma proposição q (mas de relação direta) ou a uma conclusão r que resulta de q (mas de relação indireta). Segundo Schiffrin (1987), embora mais seja um coordenador discursivo, ele tem um efeito pragmático diferente porque marca uma unidade que está logo por vir, como uma ação contrastiva. Esse efeito está baseado em seu próprio significado contrastivo e sua aplicabilidade é ainda mais ampla pelo simples fato de que essa relação, por ela mesma, é muito variável. Às vezes, esse tipo de relação é suficientemente transparente para ser encontrada nos conteúdos proposicionais, mas 73 em outros momentos está implícita nos seus falantes e ouvintes, baseada no conhecimento de mundo, implícita em suas expectativas sobre cada um, na conduta de cada um e também baseada nas proposições. É essa a função de mais que identificamos e exemplificamos no Capítulo 6. O marcador discursivo bien Por definição, uma macromudança tem uma propriedade disjuntiva, desde que ela pressuponha uma complexa ação de abertura e fechamento. No discurso de sala de aula, bien marca as macromudanças encontradas no evento. Para Barros (1991), essa partícula indica uma quebra em relação ao que foi dito imediatamente antes e ao limite inicial de uma nova seção do discurso. Ela cita autores, como Sinclair e Coulthard (1975), que afirmam que o bien (well) indica limites na aula, o término de um estágio e o início do próximo. Essa mesma autora destaca que, segundo Golberg (1980), bien (well) está conectado com a introdução de mudança. Essa partícula liga duas partes do discurso enquanto provê informação que conduz a conversação para uma nova fase. Bien (well) tem também uma função de sinalar o final de uma narrativa e, nesse ponto, os autores mencionados por Barros (1991) concordam. Essas características de bien (well) ratificam as ocorrências dos mesmos em nossos dados. Bien funciona como ponto de fechamento, demonstrando uma disjunção, e é seguido por alors que permite que o fluxo conversacional continue. 74 4.4. Função metadiscursiva dos marcadores discursivos “O metadiscurso se apresenta como um jogo com o discurso; na realidade, ele constitui um jogo no interior deste discurso. Presume-se, uma vez mais, que se possua uma concepção apropriada da discursividade: não um bloco de palavras e de proposições que se impõem maciçamente aos enunciadores, mas um dispositivo que abre seus caminhos, que negocia continuamente através de um espaço saturado de palavras, palavras outras”. Maingueneau 1998: 95. O termo Metadiscurso foi primeiramente definido por Harris (1959; 1970 apud Hyland 2000) para se referir às passagens de um texto que contêm informações de importância secundária. Uma definição mais abrangente desse termo pode ser encontrada em Hyland (2000), referindo-se aos recursos que os escritores utilizam para organizar explicitamente seus textos, atrair a atenção de seus leitores e indicar sua atitude com relação ao seu material e a seu público. Pode ser concebido como um aspecto da nossa vida cotidiana e caracteriza as formas como nos comunicamos em diferentes gêneros e contextos. Pesquisas têm sugerido sua importância nos gêneros variados, por exemplo, na conversação cotidiana (Schiffrin, 1980), em textos escolares (Crismore, 1989). Consideramos o metadiscurso um elemento essencial da interação por ter o papel de facilitar a comunicação, sustentar a posição do autor e construir uma relação com o público. Por ter esse papel definido e considerando o contexto em que o texto está inserido e a cultura da comunidade de leitores, o metadiscurso tem como uma de suas características, então, permitir que o escritor contribua para a construção do sentido do texto e a construção de conhecimento em sua área. Considerando, ainda, que o leitor utiliza seu universo de conhecimentos para dar 75 sentido ao que foi escrito, utilizando as marcas lingüísticas, ou itens metadiscursivos, fornecidos pelo escritor, podemos afirmar que escritor e leitor são participantes ativos na comunicação, que constróem juntos o texto, com o auxílio do metadiscurso. Podemos afirmar que o metadiscurso atravessa constantemente o dito de um enunciado, pode ser mais ou menos visível e manifesta um trabalho de ajustamento dos termos a um código de referência. Para Maingueneau (1998), o metadiscurso do locutor apresenta um grande interesse, pois permite descobrir os pontos sensíveis na maneira como uma formação discursiva define sua identidade em relação à língua e ao interdiscurso. Longe de ser um procedimento para corrigir falhas de comunicação, o metadiscurso constitui um sintoma e deve ser apreendido através desse estatuto. No seu estatuto de discurso auto-referente, os enunciados metadiscursivos tornam concreto um vasto inventário de aspectos de textualização que se desdobram em mecanismos variados de focalização da atividade discursiva, como, por exemplo: procedimentos mais pontualizados que recaem sobre o signo, explicando-lhe valores semânticos e funções em contextos comunicativos concretos, ou sinalizando o processamento de seleções lexicais; procedimentos que põem em destaque unidades mais amplas, como o tópico e o texto, explicitando-lhes a organização, por marcas de aberturas, fechos, retomadas, sínteses, exemplificações, reformulações ou mesmo de esquemas macroestruturais de composição textual; procedimentos com foco na natureza dos atos de fala, pela rotulação de seu teor declarativo, responsivo ou interrogativo; procedimentos evidenciadores do caráter dialógico do texto falado, 76 relacionados à administração das relações interacionais, com alvo na eficácia da comunicação, pela checagem da boa transmissão e recepção informacional. O metadiscurso entra, na composição do texto, em pauta diferenciada da estrutura informacional. Ele denuncia momentos de processamento verbal na interação, estabelecendo-se como elemento explícito de antecipação, avaliação e comentários da produção discursiva, firmando-se como indicadores da montagem do texto. Entre outras atuações, os enunciados metadiscursivos operam efetivamente no âmbito da atividade enunciativa. Assim sendo, mantêm-se exteriores aos conteúdos das proposições tópicas. No entanto, asseguram a ancoragem pragmática desse conteúdo, ao circunscreverem a significação proposicional, de base informacional, no âmbito das significações geradas pelo espaço discursivo. Dessa forma, em seu estatuto pragmático-discursivo, funcionam como embreadores dos enunciados com as condições de enunciação, ao apontarem para as instâncias produtoras do discurso, correlacionando-as simultaneamente com a estruturação textual-interativa. De acordo com Authier-Revuz (1998), o metadiscurso apresenta funções variadas: autocorrigir-se (eu deveria dizer...) ou corrigir o outro (você quer dizer que...); marcar a inadequação de certas palavras (uma espécie de...); eliminar, com antecedência, um erro de interpretação (no sentido próprio...); desculpar-se (se posso me permitir...); reformular a proposição (dito de outra forma...). Acreditamos que a função metadiscursiva é a função primordial dos MD, já que os mesmos estão presentes nessas estruturas metadiscursivas. Essa função revela a dimensão dialógica do discurso, e o metadiscurso se destina a construir uma imagem do 77 locutor, confirmar enunciados anteriores, autocorrigir-se e fazer uma preterição (eu ia dizer, não direi). O enunciador volta ao seu discurso para esclarecê-lo, torná-lo mais acessível ao seu interlocutor ou mesmo propor uma nova reformulação no seu dizer. Esse termo também é caracterizado como o discurso sobre o discurso10. E essa é a propriedade básica particularizadora da metadiscursividade, ou seja, a autoreflexidade do discurso: este se elabora focalizando-se a si mesmo, pela conjunção do que é dito com o ato de dizer. Koch (2004) afirma que as estratégias metadiscursivas são aquelas que tomam por objeto o próprio ato de dizer. Isto é, ao colocar em ação tais estratégias, o locutor avalia, corrige, ajusta, comenta a forma do dizer; ou, então, reflete sobre a sua enunciação, expressando a sua posição, o grau de adesão, de conhecimento, atenuações, juízos de valor, etc., tanto em relação àquilo que está a dizer como em relação a outros ditos. Borillo (1985) afirma a existência de três tipos de intervenções metadiscursivas: a) as que fazem referência ao discurso para explicar o código usado na construção do texto; b) as que fazem referência ao discurso como fato enunciativo para explicar as suas condições dialógicas; c) as que fazem referência à própria construção do discurso, sinalizando a sua construção. Koch (2004) faz referência a essas intervenções metadiscursivas de Borillo (1985), mas prefere considerar as estratégias como sendo: 10 Vande Kopple, 1985; Crismore e Farnsworth, 1990. 78 a) metaformulativas - que têm o texto e suas relações como objeto de estudo; b) as modalizadoras ou metapragmáticas - que verificam a relação do locutor com o discurso; e c) as metaenunciativas - em que o objeto é a própria enunciação. A autora acrescenta que essas estratégias têm características diferentes. Enquanto uma tem como escopo o dito, a outra tem como objeto o modo. Uma tem o escopo textual, outra atitudinal e a terceira é tipicamente enunciativo-discursiva. Presente potencialmente em toda manifestação textual, na língua falada a metadiscursividade ganha uma densidade particular. Isso se deve ao fato de as contingências da produção oral promoverem uma acentuada manifestação dos fatores enunciativos na estruturação do texto. Por estar sustentado no entorno espaço-temporal de interação face a face, o texto falado é produzido momentaneamente e dinamicamente, e essa forma facilita sensivelmente o surgimento, na sua superfície, de traços da enunciação. Em 6.6. nos propomos realizar uma análise metadiscursiva dos marcadores do discurso apresentados neste trabalho. 79 5. ASPECTOS ETNOGRÁFICOS DO EVENTO AULA Partilhar conhecimentos é objetivo primordial na aula. Faz-se necessário, assim, observar como as características do evento são moldadas pela sua funcionalidade, já que interferem diretamente no comportamento lingüístico. Observar vários elementos que se constituem característica do mesmo. Por exemplo: o canal oral que é mais usado, mas não é o único presente nesse evento; os participantes, denominados professor e alunos, que desempenham papéis específicos; o local e o tempo que constituem critérios importantes na definição de um evento. Dessa forma, em uma sala de aula, todos os elementos são observados, inclusive a disposição das cadeiras, algo que poderia parecer irrelevante. Com o objetivo de observarmos os aspectos etnográficos do evento aula, verificamos esses elementos característicos que norteiam comportamentos lingüístico-interativos. 5.1. Canal Para o estudo de um evento de fala, segundo Hymes (1973), é necessário se observar o canal de comunicação. Este pode ser oral, escrito, eletrônico ou outros. No ambiente escolar, o canal oral é o mais usado. No entanto, a ausência de discurso também tem sua importância. Em momentos da aula, o silêncio é aceito e é até desejável, como, por exemplo, quando os alunos estão fazendo teste de conhecimento específico escrito ou realizando leituras silenciosas. Ou seja, 80 momentos outros que não envolvam a interação verbal e que precisam ser vivenciados na sala de aula. Mas, em outros casos, o silêncio pode ser interpretado como um indício de que algo está errado, correspondendo até mesmo a uma advertência disciplinar. Em experiência como professora, recorremos várias vezes ao silêncio no início da aula. Com a turma agitada, comportamento muitas vezes típico na fase da adolescência, o silêncio funcionou como advertência disciplinar. O professor também pode utilizar o silêncio como sinal introdutório do assunto da aula e, nesse momento, o silêncio é usado como organizador de abertura, no sentido de que precede uma seqüência do enunciado. Mas a significação do mesmo decorre das próprias características do evento de sala de aula, em relação aos objetivos e aos papéis dos participantes. O objetivo do evento é que ocorram trocas de conhecimento e, para isso, o professor faz uso do silêncio, produz vários enunciados com o objetivo de manter aberto, ou checar, o canal de comunicação. Por essa razão, muitas perguntas retóricas são utilizadas. Retiramos de nossos dados os exemplos a seguir. Neles, constatamos enunciados que visam garantir a abertura do canal de comunicação. Destacamos que todos os elementos ora destacados - canal, objetivos, ambiente físico e psicológico, participantes, recorrência dos eventos - são exemplificados com nossos dados. Exemplo 5.1.: A professora inicia o tópico acadêmico e, em seguida, procura fazer com que os alunos contribuam com informações sobre o assunto. 81 « Alors, heu... (inintelligible) de la consigne. Je veux demander qu’est-ce que vous faites de la consigne, comment la faites-vous, comment, quelle est votre... (inintelligible) consigne, quelle soit écrite ou quelle soit à l’oral. Quelle est la part de l’élève ? Comment vous pratiquez ?Qui veut commencer ? Quand il n’y a pas de volontiers, je désigne un volontaire (des rires). Alors, qui veut bien prendre la parole ? (prénom de l’élève 1) ! Alors, (prénom de l’élève 1)?” [Então, euh... (não compreensível) da instrução. Gostaria de perguntar o que vocês fazem com a instrução, como vocês a constroem, como..., qual é a sua... (não compreensível) instrução, quer seja ela escrita ou oral? Qual a parte do aluno? Como você a põe em prática? Quem quer começar ? Quando não há voluntários, eu designo um voluntário (risos). Então, quem quer a palavra? (nome do aluno 1) ! Então, (nome do aluno 1) !] Exemplo 5.2.: As falas anteriores são resumidas e é dada aos alunos oportunidade para que os mesmos continuem contribuindo no processo interacional. « Donc, si je... si je répète... C’est assez important, on est en train de réflechir. C’est un élément extrêmement important, la consigne, ils ont la consigne sous les yeux, ils n’ont pas vraiment vu et vous la réformulez, c’est ça. Les autres.” [Logo, se eu... se eu repito... É muito importante, a gente reflete. Trata-se de algo extremamente importante, a instrução. Eles têm a instrução sob os olhos, eles não a viram e você a modifica, é isso. Os outros.] Exemplo 5.3.: Para que haja a participação do maior número de alunos e para que essa participação represente o conhecimento geral do grupo em relação ao tópico acadêmico, é preciso esgotar todas as possibilidades de participação dos alunos. « Est- ce qu’il y a encore d’autres pratiques ? ... (nom de l’élève 7).” [Ainda há outras práticas ?... (nome da aluna 7).] 82 5.2. Objetivos De acordo com Hymes (1973), os eventos de fala possuem um objetivo, mesmo que este seja somente fático. Na escola, os papéis desempenhados por professor e aluno são específicos e são previamente determinados. O professor desempenha o papel de facilitador, de mediador de conhecimentos. Teoricamente, ele possui o conhecimento científico, mas está ciente de que outros conhecimentos são trabalhados em sala de aula. O aluno é aquele que está disposto a sistematizar o que sabe e está aberto para novos conhecimentos. Para que o professor atinja o objetivo geral, que é esse compartilhar de conhecimentos, verbalizar determinadas informações não é suficiente. Ele precisa optimizar as condições de interação. Isso porque muitas vezes o aluno está na escola como aquele que deve aprender. Por isso o professor faz uso de diferentes estratégias com objetivos específicos: 1. Garantir a atenção do aluno mantendo aberto o canal de comunicação. 2. Fazer com que os alunos fixem os conhecimentos. 3. Usar marcas para distinguir as informações relevantes das não relevantes, uma vez que, na escola, o professor trabalha conteúdos específicos que posteriormente serão cobrados do aluno. Para garantir a atenção do aluno mantendo o canal de comunicação aberto, o professor fala da importância do tópico, utiliza os recursos dos olhares, dirige-se aos alunos engajados em atividades. Vejamos, no exemplo 5.4., como a professora destaca a importância do tópico descrevendo como a ausência de 83 conhecimento dos alunos em relação ao mesmo pode ter conseqüências indesejáveis. Exemplo 5.4.: Professeur : « Bien, vous avez une démarche heu.... Il n’y a qu’une démarche qui est quand même un peu différente, mais d’après de ce que vous me dites, bien, vous faites le travail à la place de vos apprenants. Je regrette... et ça c’est TRÈS nocif, au niveau de la consigne. Je dis bien, c’est très nocif. Pourquoi ? Parce que si c’est vous qui remplacez, les tuteurisez, les maternez, parce que vous les maternez. Vous faites le travail à leur place, quand ils seront en jour de l’examen, ou en jour de preuve, devant la consigne, ils ne seront... (inintelligible), c’est à dire que vous faites exactement comme une mère de famille qui fait tout pour ses enfants et le jour où il ou elle est à l’extérieur, il est incapable de faire quoi que ce soit... parce que c’est ma maman, ou la femme, ou la soeur qui font toujours tout. Et quand la personne est à l’exterieur, elle va arriver complètement perdue ». (Professora : Bem, vocês têm uma prática pedagógica euh... Só há uma prática pedagógica que é de alguma forma diferente, mas, de acordo com o que vocês me dizem, bem, vocês fazem o trabalho no lugar de seus alunos. Eu lamento.... e isto é MUITO nocivo, em nível de instrução. Eu digo que é muito nocivo. Por quê? Porque se são vocês que fazem no lugar deles, vocês os tratam como se fossem bebês, porque vocês os maternalizam (neologismo – tratar os alunos como a mãe trata o bebê). Vocês os substituem. Quando eles estiverem num dia de exame, ou de prova, diante de uma instrução, não serão... (não compreensível), isto é, vocês fazem exatamente como uma mãe de família que faz tudo por seus filhos, e quando ele ou ela estiver fora (deste contexto), será incapaz de fazer o que quer que seja... porque é minha mãe ou a mulher ou a irmã que sempre fazem tudo. E, quando a pessoa estiver fora, ficará completamente perdida). Para auxiliar os alunos a fixar certos conteúdos e distinguir informações relevantes das informações não relevantes, repetições são usadas. Mesmo que seja do enunciado dele mesmo ou do enunciado do aluno, o professor marca prosodicamente o que é importante, geralmente falando pausadamente e enfatizando 84 as palavras-chave. Perguntas cujas respostas são conhecidas pelo professor que sabe que o aluno também sabe. Vejamos, nos exemplos a seguir, o uso de perguntas. Algumas são retóricas e, em outras, tem-se ciência de que o aluno também sabe da resposta. Exemplo 5.5.: « Qu’est-ce que c’est... alors à l’oral ? Qui formule la consigne ? Le prof, bien sûr... Et les consignes doivent être une consigne... et là... (prénom de l’élève 2) a tout à fait raison. Comment (prénom de l’élève 2) ? Élève 2 : Courtes. Professeur : Courtes. C’est à dire que... elle va se faire par étapes et, en général ce qui est très mauvais, c’est de dire : « Prenez votre livre à la page 40, regardez l’exercice 10, lisez la consigne et al.ez-y (pause, 6 secondes) Que ça ?! Élève 1 : C’est mauvais ! » [O que é ... então no oral? Quem formula a instrução? Sem dúvida o professor... E as instruções devem ser uma instrução... e aí (nome da aluna 2) está totalmente certa. Como (nome da aluna 2)?] Aluna 2 : Curtas. Professora : Curtas. Quer dizer que... ela vai ser feita por etapas e, em geral, o que é muito ruim, é dizer: “Pegue seu livro e o abra na página 40. Observe o exercício 10, leia a instrução e faça a atividade (pausa, 6 segundos) Que é isso?! Aluno 1 : Isto é ruim. Exemplo 5.6.: « Ce n’est pas vraiment les aimer que les trop les materner. Vous en faites des handicapés. Pourquoi on fait des handicapés ? S’ils ont une consigne écrite, on verra le cas de la consigne orale après. Si c’est un exercice, une activité... (inintelligible) qui se trouve dans un manuel ou alors c’est un papier que vous avez fait, vous, et que vous leur donnez. La consigne est écrite, pourquoi la réformulée à leur place? Pourquoi, hein ? Pourquoi ? Ils sont pas capables de comprendre ? Ils sont pas capables d’essayer de comprendre ? Si vous réformulez toujours, ils ne vont pas comprendre une consigne qui n’a pas été réformulée. Donc, ça c’est un premier point, on va y revenir. Pourquoi faire lire à voix haute ? Alors, il faut surtout pas faire lire à voix haute. » 85 [Não é porque os amamos muito que vamos tratá-los como crianças. Vocês criam deficientes. Por que produzimos deficientes? Se eles têm uma instrução escrita... Verse-á o caso da instrução oral depois. Se for um exercício, uma atividade... (não compreensível) que se acha em um manual ou, então, é um documento que você elaborou, você, e que você mesmo elaborou e lhes deu. A instrução está escrita, por que reformulá-la no lugar deles? Por que, hein? Por quê? Eles não são capazes de compreender? Eles não são capazes de tentar compreender? Se vocês sempre reformulam, eles não vão compreender uma instrução que não tenha sido reformulada. Logo, isto é um primeiro ponto. Nós voltaremos a ele posteriormente. Por que fazê-los ler em voz alta? Então, não é necessário fazê-los ler em voz alta.] 5.3. Ambiente Físico e Psicológico O ambiente, aqui denominado de local e tempo, pode, com base em Hymes (1973), se constituir num critério decisivo na definição de um evento. Por exemplo, geralmente numa igreja (na maioria das vezes católica), as pessoas procuram usar um tom mais baixo em suas conversações, isso porque respeitam o lugar ou já há uma convenção de se falar baixo numa igreja (mesmo que não esteja acontecendo nenhuma cerimônia). 1) Local No Centro de Formação, onde as aulas foram observadas, quase sempre há variação quanto ao local, embora sempre ocorram numa sala de aula ou até num laboratório de informática. 86 A disposição espacial das bancas em relação à mesa do professor é observada por Mazeland (1979, apud Barros 1986) como algo que pode interferir em muitos aspectos da interação. A disposição circular pode tornar a conversação mais informal se comparada aos eventos em salas com uma disposição tradicional, tipo auditório. Essa disposição interfere, também, no tom (mais alto ou menos alto) que será utilizado pelos participantes da aula. 2) Tempo O tempo é um fator importante na estruturação dos acontecimentos na sala de aula. Há um horário semanal a ser cumprido e uma extensão específica para o evento. Nas observações realizadas, cada evento tinha duração média de uma hora e trinta minutos. A programação do evento tem conexão com o planejamento, por parte do professor, de atividades pedagógicas, do conteúdo a ser trabalhado, do material impresso a ser distribuído, dos equipamentos diversos usados na aula, etc. Outro elemento importante é o sinal. Podemos nos referir ao sinal (toque da campainha, música, em alguns lugares, presença de relógio na sala de aula) na escola ou no centro de formação como um marcador de início e término de uma conversação. Na sala de aula, o término da aula não é negociado como na conversação casual. Afinal, nesse evento específico, na maioria das vezes, a conversação não pode extrapolar o horário da aula e não há necessidade de se negociar um fechamento. 87 Hymes (1973) destaca a necessidade de observar o ambiente psicológico (psychological setting) do evento. Este é definido por Hymes como formal, informal, sério ou festivo. A formalidade ou informalidade do evento é determinada pelos papéis desempenhados pelos participantes. De acordo com Irvine (1979), os termos formal e informal são utilizados para descrever ocasiões sociais e o comportamento a elas associado e são usados, de acordo com a literatura por ela pesquisada, em três principais sentidos. O termo formal pode ser usado: 1. para se referir às propriedades de um código comunicativo (o termo é usado para caracterizar a existência de uma maior estruturação do discurso e torná-lo mais previsível); 2. para se referir às propriedades de um ambiente social; e 3. para se referir tecnicamente às características de um modo de descrição do analista. Há outros códigos que também organizam o comportamento num ambiente social: vestuário, gestos e organização espacial. Embora não exista um código especial para a comunicação em sala de aula, a sua linguagem apresenta algumas especificidades que não são comuns em outras interações. Na interação em sala de aula, a fala do professor, quando enfoca algum elemento relevante, apresenta um ritmo mais lento e seu discurso é mais explícito. E essa forma explícita de produzir o discurso não é só fonológica, mas também sintática e semântica (sendo muito comuns expressões metadiscursivas e paráfrases). Isso se 88 dá pelo fato de o professor já ter o tópico definido e ser menos interrompido. Nesse momento, a fala do professor praticamente não apresenta falsos começos, hesitações e autocorreções. Exemplo 5.7.: « ... contact l’apprenant avec un groupe linguistique, par exemple, s’il répète bien, la tentation du prof va à mesure où l’élève a bien répété, bien prononcé, on pense qu’il a compris. C’est une erreur fondamentale ! C’est une erreur fon-da-men-ta-le ! On peut très bien répéter sans y comprendre. Si vous avez une bonne oreille, vous répetez n’ importe quoi. » [... contato do aprendiz com um grupo lingüístico. Por exemplo se ele repete bem, o professor será tentado a pensar, na medida em que o aluno repetiu bem, pronunciou bem, de pensar que ele entendeu. Isto é um erro fundamental! É um erro fun-da-mental! Podemos muito bem repetir sem compreender. Se você tem um bom ouvido, você repete qualquer coisa]. 5.4. Participantes e a relação entre os mesmos. No evento aula, verificamos características de eventos rituais e de conversações naturais. Os participantes desse evento podem desempenhar papéis distintos1. E o discurso prevê dois papéis, o do professor com a turma, o do professor com um aluno ou o de um aluno com outro aluno. Todavia, quando o discurso do professor é dirigido a um aluno, pressupomos a existência de um terceiro papel, que é o da audiência, ou seja, a turma. Normalmente a turma presta atenção na interação professor/ aluno quando o destaque está no foco acadêmico. Quando se trata de uma 1 Hymes, 1973; Labov, 1972. 89 conversa particular, freqüentemente, no mesmo momento, surgem várias outras conversas simultâneas. Fazendo referência à aula analisada (com um grupo de adultos), antes de iniciar o evento, a professora se dirigiu a uma aluna para falar sobre o uso de sombrinha em dia ensolarado. No mesmo momento conversas paralelas surgiram e os alunos falaram sobre assuntos diversos. Infelizmente o barulho resultante das várias conversas simultâneas impediu a transcrição gráfica do trecho em questão. Além dos papéis desempenhados pelos participantes, é interessante identificar o tipo de relação que existe entre eles. Na sala de aula, a diferença de poder entre aluno e professor é um elemento sociocultural. Normalmente o professor é adulto e o aluno, mais jovem do que ele. Quando a idade não é fator preponderante, há outro fator que merece destaque, a hierarquia existente. Todos os participantes conhecem os direitos e deveres de cada parte, e a instituição confere ao professor, como autoridade titulada, maior poder em relação ao aluno. O título conferido ao professor tem relação direta do mesmo com os tópicos acadêmicos. O professor conhece os tópicos que serão abordados e quase sempre sabe quanto o aluno sabe sobre o mesmo. Essa relação de dominação entre esses dois participantes determina o controle do discurso pelo professor. Dessa forma, o lingüístico reflete o social e o social reflete o lingüístico. No exemplo a seguir, a professora explicita o domínio do assunto e demonstra que a contribuição do aluno deve ser valorizada. A diferença de conhecimento entre os dois se estabelece, mas o canal de comunicação permanece aberto. 90 Exemplo 5.8.: « Alors, on ne va pas, on ne va jamais lire à voix haute une consigne. Complètement inutile, complètement inutile. En revanche c’est vrai, il faut vérifier s’ils ont compris. Comment peut-on vérifier ? (prénom de l’élève 1), a la solution, mais pas pour lui. Élève 1 : La réformulation. Professeur : Par les élèves, pas par vous. Par vos élèves, par vos apprenants. Vous leur faites, vous leur demandez de regarder, d’observer la consigne et maintenant dites moi ce qu’il faut faire. Dites-moi ce que vous devez faire. Et bien entendu, les premières consignes, on va les faire dans leurs langues, quand ils sont débutants. Et la réformulation après tout. Est-ce que c’est grave qu’ils les reformulent dans leurs langues ? Pas du tout. Puisqu’on veut, c’est vérifier s’ils savent ce qu’il faut faire, c’est tout. Bon, s’ils le disent en portugais, en arabe, en turc, on se moque pour des débutants. Puisqu’il faut dire peu à peu, on va les faire faire en français, bien sûr. Et c’est complètement inutile de se casser la tête à perdre 10 minutes pour réformuler en français, alors qu’ils sont capables de les dire en 30 secondes en portugais, en espagnol... les faits qui sont compris. » [Então, não vamos, não vamos jamais ler uma instrução em voz alta. Completamente inútil, completamente inútil. Por outro lado, é verdade que é preciso verificar se eles compreenderam. Como podemos verificar? (nome do aluno 1) tem a solução, mas não por ele. Aluno 2: A reformulação. Professora : Pelos alunos, não por vocês. Por seus alunos, por seus aprendizes. Vocês fazem por eles, vocês lhes pedem para olhar, observar a instrução e em seguida... Digam-me o que é preciso fazer. E, evidentemente, que as primeiras instruções, nós vamos fazê-las na língua materna dos alunos, quando eles são iniciantes. E a reformulação depois de tudo. É grave se eles reformularem na sua língua materna? De jeito nenhum, posto que queremos verificar se eles sabem o que é preciso fazer, é tudo. Bom, se eles dizem em português, em árabe, em turco, tanto faz para os iniciantes. Isto não quer dizer que pouco a pouco não possamos fazê-los dizer em francês, é claro. E é totalmente inútil preocupar-se em perder 10 minutos para reformular em francês, então, se eles são capazes de dizer em 30 segundos em português, em espanhol... os fatos que eles compreenderam.] Na escola, o professor, por ser aquele que, teoricamente, possui o conhecimento científico, dispõe também dos conteúdos proposicionais que devem ser concretizados lingüisticamente. A condução do discurso acadêmico é de responsabilidade do professor. O aluno pode participar do discurso acadêmico, mas é o professor que o dirige, ou seja, ele o introduz, desenvolve-o e ainda determina a 91 participação ou não do aluno. A opção do professor por um desenvolvimento mais expositivo priva o aluno de participar oralmente no evento em tela. A opção feita por uma aula com mais participação oral dos alunos faz com que os mesmos participem do discurso acadêmico, mas ainda de forma restrita, afinal é o professor que, em muitos casos, define sua participação. 5.5. Recorrência dos eventos e a aula como um evento recorrente. De acordo com Barros (1986), o fator da recorrência é importante para a descrição de um evento. A recorrência pode influenciar a estrutura de um evento a partir do momento em que contribui para o estabelecimento de convenções tácitas entre os participantes. Quando uma regularidade é constituída no comportamento de um membro de uma comunidade, decorrente da expectativa de que outro aja de acordo com um padrão comportamental esperado, uma convenção é estabelecida. Para Lewis (1969, apud Barros 1986), o estabelecimento de uma convenção está sujeito a diferentes estágios. Inicialmente, os termos do encontro são negociados explicitamente, em seguida são simplesmente confirmados e, posteriormente, não são mais discutidos. De acordo com Griffin e Mehan (1981), as convenções em sala de aula são estabelecidas dessa mesma maneira. Isso porque, no início do ano letivo, são gastos momentos preciosos no estabelecimento de padrões de comportamento. E, quando esses padrões são firmados, os participantes desse evento interagem naturalmente. 92 Embora alguns padrões comportamentais demonstrem o aspecto ritualizado do evento, Griffin e Mehan discordam disso e afirmam que na escola acontece uma convenção negociada. No entanto, percebemos que essa negociação não está presente em todos os momentos da aula, pois há momentos em que o professor faz uso de sua autoridade e conduz o discurso. No exemplo a seguir, a professora não leva em consideração o discurso de uma aluna porque, embora ele condiga com o seu próprio, não reflete a opinião do grupo em geral. Assim, a professora desconsidera o discurso da aluna 2 e tenta manter o canal com os outros alunos. Dessa forma, verificamos o uso da autoridade daquela que diz quem pode e quem não pode falar nesse momento. Exemplo 5.9.: « Professeur : Les autres. Élève 2 : Et c’est intéressant ça, pardon, et c’est intéressant ça parce que si la consigne est écrite, alors je dis, qu’est-ce qu’on va faire ? Lisez d’abord. Alors... Professeur : Ils lisent à voix haute ? Élève 2 : Non. Professeur : Ils regardent et lisent à voix haute ? Élève 2 : Non, Non,... Professeur : Qui fait lire à voix haute ? Élève 2 : ... silencieusement ils lisent. Et s’ils ne comprennent pas, alors... Professeur : Vous comprenez à voix haute? C’est à dire qu’ils ont la consigne et on leur demande de lire la consigne à voix haute. Les élèves : Oui, oui, oui. Professeur : (prénom de l’élève 4).” [Professora : Os outros. 93 Aluna 2 : E isto é interessante, desculpe, e isto é interessante porque, se a instrução estiver escrita, então eu digo: o que faremos? Leiam primeiro. Então... Professora : Eles lêem em voz alta ? Aluna 2 : Não. Professora : Eles olham e lêem em voz alta ? Aluna 2 : Não, não... Professora : Quem pede para os alunos lerem em voz alta ? Aluna 2 : ... eles lêem silenciosamente. E se eles não compreendem, então... Professora : Vocês compreendem em voz alta ? Quer dizer que eles têm a instrução e a gente pede que eles a leiam em voz alta. Os alunos : Sim,sim, sim. Professora : (nome da aluna 4).] Na sala de aula, a posição do professor é privilegiada em relação ao aluno. Ele conduz o discurso e fala mais que os alunos. Por isso a tarefa de interpretar e de reconhecer uma convenção é mais complexa para o aluno. E, aí, a situação do aluno se torna delicada porque o professor pode ignorar uma convenção, como aconteceu no exemplo 5.9., em que a contribuição dada pela aluna 2 foi rejeitada. A recorrência contribui para a familiarização de negociação. Professor e aluno se familiarizam tanto com a estrutura pedagógica da aula quanto com a estrutura lingüística. O conhecimento que é partilhado pelos participantes introduz previsibilidade ao discurso. Quanto mais recorrente, mais previsível. E essa previsibilidade é sintática e prosodicamente marcada. Neste capítulo, observamos alguns dos aspectos etnográficos do evento aula que mais interferem no comportamento verbal de professores e alunos quando em sala de aula. Observamos que a recorrência torna o discurso previsível e esta recorrência é marcada. No capítulo seguinte, vamos ver o papel dos MD na interação 94 em sala de aula e como eles, de forma recorrente, marcam os discursos entre professor e alunos. 95 6. ANÁLISE DOS MARCADORES DISCURSIVOS EM FRANCÊS NO DISCURSO DE SALA DE AULA Como especificamos na metodologia, do corpus de três aulas observadas, uma foi escolhida para análise mais detalhada – essa aula é aqui identificada como aula 1. Isso porque não é possível identificar a função dos marcadores sem uma análise profunda do próprio discurso. Adiantamos, na fundamentação teórica, que são três as principais formas de observação dos marcadores, no tocante ao seu papel na organização textual (marcadores textuais), como marcas de hesitação (marcadores cognitivos) e como monitoradores da interação (marcadores interacionais). Neste trabalho, ao optarmos pela análise do discurso do professor, identificamos haver relação entre a organização tópica e o uso de marcadores, sendo esse o foco central do estudo. Em outras palavras, os marcadores observados têm função predominantemente textual, utilizados pelo professor para assinalar introdução, manutenção, mudança de tópico. Os nossos dados evidenciam que os quatro marcadores mais utilizados pelo professor no discurso de sala de aula estão entre os marcadores mais utilizados na modalidade oral da língua francesa, de acordo com a literatura pesquisada. Antes de iniciarmos a análise propriamente dita, demonstraremos a produtividade de alors, donc, mais e bien partindo da lista dos marcadores mais freqüentes de acordo com Chanet (2003b). Em 6.1, focamos os marcadores que indicam macromudanças na estrutura da interação estudada, a saber, a partícula bien seguida de alors. Nos itens seguintes, concentramo-nos na estrutura organizacional do tópico acadêmico: Instrução. Em 6.2, examinamos o alors como marcador de micromudanças. Em 6.3, 96 detemo-nos nas digressões tópicas. Por definição, consideramos digressão uma ação tópica dupla, caracterizada pela a) introdução de um novo tópico e b) pela retomada do tópico anterior. A primeira ação é assinalada por alors e a segunda por bien. O professor também utiliza marcadores para contrastar tópicos e enunciados: o mais é discutido no 6.4. Em 6.5, destacamos a função resumitiva de donc, usado pela professora para indicar que está concluindo tópicos. Finalmente, os resultados da análise mostram que todos os marcadores cumprem uma função discursiva mais geral – a metadiscursiva –, já que apontam para o próprio discurso. Tal função é discutida em 6.6. Os MD mais utilizados no oral, apresentados por Chanet 2003b, são destacados na tabela 6.1, abaixo. Nesta tabela, verificamos a freqüência desses marcadores na aula 1. Em seguida, o gráfico 6.1. apresenta um comparativo da freqüência desses mesmos marcadores nas aulas 1, 2 e 3. TABELA 6.1. Distribuição dos marcadores na aula 1. Marcador Freqüência Percentagem Alors 55 38% Donc 36 25% Mais 18 12,4% Bien 11 7,6% Bom 07 4,8% parce que 07 4,8% Quoi 06 4% Puis 04 2,8% Bem 01 0,6% Total 145 100% 97 Gráfico 6.1. – Freqüência dos marcadores encontrados nas aulas 1, 2 e 3. O gráfico 6.1. evidencia que os MD mais produzidos no francês falado (cf. Chanet, 2003b) e encontrados na aula 1 são os mesmos que foram encontrados nas aulas 2 e 3. Após observação da tabela e do gráfico, confirmamos que os MD mais produtivos no francês falado e encontrados na aula 1 foram alors, donc, mais e bien. A produtividade desses marcadores determinou a escolha; dessa forma, decidimos examinar as funções desempenhadas por esses marcadores e os seus pontos de ocorrência. Em seguida, listamos essas funções e as consubstanciamos com trechos da aula 1 e, por fim, a freqüência desses marcadores com as funções destacadas. 98 6.1. Os marcadores como organizadores de macroestrutura do evento aula: bien + alors Neste subitem, apresentamos a macroestrutura da aula com o objetivo de demonstrar que as grandes porções do evento, as macromudanças, são claramente marcadas pelo professor. Destacamos que o texto – aula 1 – está na íntegra em anexo. Trata-se de uma aula expositiva em que a professora apresenta o assunto sem consultar notas, e, no mais das vezes, os alunos só apresentam contribuições quando solicitados. É uma aula mais centrada no professor e o tópico acadêmico é Instrução. Após as saudações iniciais, a professora distribui material impresso para os alunos. (Exemplo 6.1.) O material impresso é uma lista com bibliografia específica com o objetivo de orientar os alunos no assunto da aula. Os títulos sugeridos, segundo a professora, podem ser avaliados pelos alunos na biblioteca do próprio Centro de Formação ou adquiridos em livraria credenciada. Em seguida outro assunto é apresentado pela professora (Exemplo 6.2.), o CECR – Quadro Europeu Comum de Referência para a Aprendizagem das Línguas, como acessá-lo através da internet, as traduções encontradas desse material e a utilidade de uso desse Quadro Europeu em sala de aula. Só após esses tópicos o tópico acadêmico foi introduzido (Exemplo 6.3.). Durante o evento, identificamos macromudanças e micromudanças. A maioria das micromudanças são marcadas com MD; todavia, as macromudanças, como veremos a seguir, são sempre marcadas e, em nosso caso, os marcadores utilizados são sempre os mesmos. 99 Exemplificamos abaixo, com trechos da aula 1 de nossa análise, as macroestruturas desse evento. No Exemplo 6.1., a professora adentra a sala de aula onde já há alguns alunos, em seguida temos a chegada de outros alunos. Há várias pequenas conversas que acontecem ao mesmo tempo. Verificamos que a chegada do professor ao espaço físico sala de aula não representa o início da aula propriamente dita. Quando começa a falar para todo o grupo classe, a professora faz uso de dois marcadores, bien seguido de alors. A partir dos dados analisados, observamos que o bien tem função disjuntiva e marca a parada de todas as outras conversas paralelas para o início do que chamamos de evento aula. Já o marcador alors possui a função de continuação. Parafraseando a professora, diríamos: Bem, vamos deixar o que estávamos falando para trás, vamos parar um pouco com os outros assuntos que estávamos conversando e, então, vamos dar continuidade ao nosso programa de formação e à aula que temos agora. Exemplo 6.1. [Chegada de alguns alunos e da professora à sala de aula. Ruído de cadeiras sendo arrastadas. Conversa entre alunos e a professora com uma aluna. Comentários sobre o tempo e o calor. Risos. Acomodação de outros alunos que chegam à sala de aula]. Professeur: Bien, Alors, je veux commencer par... heu... distribuer... Professora : Bem, Então, eu quero começar distribuindo ... euh.... 100 distribuindo... [alunos conversam enquanto a professora fala] Professeur : ... quelques bibliographies que je ne les ai pas vous distribuées hier. Heu..., surtout je veux commencer par donner à ceux qui n’ont pas eu hier (inintelligible). Alors, alors, qui n’a pas eu le document hier? Professora: ... algumas bibliografias, eu não as distribuí com vocês ontem. Gostaria, inicialmente, de entregar àqueles que não as receberam ontem. Então, então, quem não recebeu o documento ontem? [A professora inicia a distribuição do material aos alunos que não o receberam no dia anterior, chamando-os pelo nome]. Professeur: Alors, heu... donc, avant de poursuivre, je répète ce que je vous ai dit tout à l’heure aux collègues. Si, pendant le cours... (inintelligible) vous ne vous sentez pas très bien à cause de la chaleur, n’hésitez pas à demander... on peut faire une petite interruption de trois, quatre minutes. Vous allez aux toilettes vous rafraîchir... (inintelligible). Faut pas lutter contre l’étouffement, d’accord ? Professora : Então, euh... assim, antes de continuar, repito o que eu disse agora há pouco aos colegas. Se durante a aula... (não compreensível) vocês não se sentirem muito bem devido ao calor, não hesitem em pedir, nós podemos fazer uma pequena pausa de três, quatro minutos. Vocês vão ao banheiro se refrescar... (não compreensível). Não é necessário ficar morrendo de calor, certo? Professeur : Bien, alors,... (inintelligible) démontrer, recommencer également par vous donner les bibliographies, la bibliographie de façon à ceux qui accédent, vous pouvez regarder à la bibliothèque, consulter et événtuellement acquérir à (nom de la ville)... (inintelligible). Semble intéressant pour vos cours, et donc, on vous donne la bibliographie maintenant, ça vous donne... (inintelligible) une petite démarche. Si vous 101 allez voir le livre chez le (nom de la librairie) qui est notre librairie... (inintelligible) il est fort probable qu’elle soit dévalisée de certains documents, donc si c’est votre dernière semaine... si c’est votre dernière semaine et que quelqu’un veuille exactement le même document que vous et ne part que la semaine prochaine, soyez gentils. Entendez-vous que ceux qui partent la semaine prochaine... Soyez assez gentils. (inintelligible), d’accord ? Professora : Bem, então, (não compreensível) demonstrar, recomeçar semelhantemente, dando-lhes as bibliografias, a bibliografia, de forma que aqueles que querem ter acesso, vocês podem olhar na biblioteca, consultar e, eventualmente, adquirir na... (nome da cidade)... (não compreensível). É interessante para as suas aulas, e, assim, a gente lhes dá agora a bibliografia, o que lhes trará um pequeno esforço. Se forem ver o livro na (nome da livraria), que é nossa livraria, ... (não compreensível) é muito provável que ela esteja desfalcada de certos documentos; assim, se for sua última semana, se for a sua última semana e alguém quiser o mesmo documento que você e se você só vai partir na próxima, seja gentil, compreenda aqueles que partem na próxima semana. Sejam gentis. (não compreensível), certo? [Outros alunos chegam, ruído de acomodação. A professora pára de falar e espera que os alunos se acomodem]. Professeur : Alors, voici donc la bibliographie. Si vous habitez..., mais demandez la bibliographie lui même, même si vous habitez loin. Je sais qu’elle fait des expéditions, donc, éventuellement si elle n’a pas le livre maintenant, en payant le port, c’est à dire, le transport, elle devra pouvoir vous envoyer chez vous, d’accord ? Et en général c’est toujours moins cher que si vous achetez ici, que si vous achetez chez vous. Il y a des pays où le prix est facilement élevé à 50%, forfait pas plus. Professora : Então, eis aqui, pois, a bibliografia. Se vocês moram... Peçamna a ele próprio. Mesmo se vocês morarem longe. Eu sei que faz entregas. Se, eventualmente, não dispuser agora do livro, pagando o frete, ou melhor, 102 o transporte, ela poderá enviar para vocês, certo? E, geralmente, é sempre mais barato vocês adquirirem aqui que comprarem onde moram. Há países em que o preço é facilmente elevado até a 50% ou mais. [Ruído. A professora distribui material escrito] [Alunos conversando] Nos dados analisados, o início da aula não corresponde ao início do tópico acadêmico. Isso pode ser verificado nos Exemplos 6.1. e 6.2. Até o presente, conforme parte da transcrição da aula 1, o tópico acadêmico ainda não havia iniciado; o que constatamos são outros assuntos sendo tratados antes de se falar sobre o tópico Instrução. Exemplo 6.2. Professeur: Alors, heu... (inintelligible) ouvrages de référence. D’abord sur stratégies d’apprentissage. C’est un excellent ouvrage et... les activités d’apprentissage en classe de langue de Madame... (inintelligible), de même, alors, l’exercice dans la classe de français, un petit peu ancien, consultez-le à la mediathèque. Mais bon, il n’y a pas beaucoup de choses nouvelles sur ce thème là et ensuite heu... ce sont des manuels d’activités, d’exercices, uniquement à partir de 95’, c’est à dire qu’ils ont moins de dix, de dix ans, ou dix ans. Lorsque sinon vous savez, il faudrait trois ou quatre pages pour mettre tous les manuels d’activités, d’exercices... (inintelligible) et ils sont classés par rapport à, par rapport à tout qui est Capelle, CECR, Civilisation, Exercice de grammaire, Lexique, l’Oral, l’Écrit, la Phonétique et... (inintelligible), d’accord ? Donc, n’hésitez pas à consulter en mediathèque pour qu’ on voie ce qui peut vous intéresser, c’est bon ? Alors, heu... Suite à ce que nous avons dit hier, j’ai enfin pu trouver le chemin pour aboutir le 103 cadre. Alors, c’est un chemin qu’ils ont un peu caché, maintenant... (inintelligible) qui peut accéder par le chemin habituel... (inintelligible) ce qui fait que j’ai pu tirer, mais en différentes langues, le tableau de compétences, de niveau de compétences et... donc, je vais pouvoir vous le donner, toutefois, il n’est pas traduit en Serbe. Alors, je peux vous le donner en français. Quelle est la langue la plus proche pour vous ? Professora : Então, euh... (não compreensível) obras de referência. Inicialmente sobre estratégias de aprendizagem. É uma excelente obra e ... as atividades de aprendizagem nas aulas de língua de Madame... (não compreensível) da mesma maneira, o exercício nas aulas de francês, um pouco antigo. Consultem-no na biblioteca virtual. Mas... Bom, não há muitas coisas novas sobre este tema e depois, euh... são manuais de atividades, de exercícios, unicamente a partir de 95, quer dizer que eles têm menos de dez, de dez anos, ou dez anos. Caso não, vocês já sabem, seriam necessárias três ou quatro páginas para colocar todos os manuais de atividades, de exercícios... (não compreensível) e eles são classificados em relação, em relação a tudo que é Capelle, CECR (Quadro Europeu Comum de Referência para o Aprendizado das Línguas), Civilização, Exercício de gramática, o Léxico, o Oral, o Escrito, a Fonética e... (não compreensível), certo? Assim, não hesitem em consultar na biblioteca virtual porque a gente pode ver o que pode lhes interessar, está bom? Então, euh... Dando continuidade ao que dissemos ontem , eu finalmente pude achar o caminho para chegar ao quadro. Então..., é um caminho um pouco difícil... (não compreensível), mas agora pode ser acessado pelo caminho habitual (não compreensível). Isto fez com que eu pudesse tirar, mas em diferentes línguas, o quadro de competência de níveis de competência e, portanto, eu posso dar para vocês, todavia ele não está traduzido em Sérvia. Então eu posso dá-lo em francês. Qual é a língua mais próxima para você? Élève 4: Le croate. Aluna 4: A língua croata. Professeur: Je crois qu’il n’y a pas . 104 Professora : Acredito que não haja. Élève 4: Le turque. Aluna 4: A língua turca. Professeur: Le turc oui, bien sûr. Professora: O turco, sim, com certeza. [A professora tece comentários sobre as línguas em que o quadro está traduzido. Apresenta-o nos diferentes idiomas representados na sala de aula e afirma que ele está disponível na internet. Ela o distribui. Os alunos emitem comentários. Em seguida há uma explicação da disposição dos elementos do quadro, pela professora]. Os alunos conversam... (não compreensível). (5 minutos). Professeur : (Inintelligible)... et l’interaction va se trouver dans grand part à une conversation, au niveau du parler, vous savez, quand on part à une conversation, là c’est... (inintelligible). Alors, heu... je ne sais ce que vous faites, vous dans vos cours, mais il y a une chose qui me semble tout à fait logique. C’est que, si vous revendiquez... heu... de mettre le cadre à l’honneur dans vos cours, heu... d’appuyer vos cours, de centrer vos cours, d’organiser vos cours après ça comme vous voulez par rapport au cadre, il me semble tout à fait indispensable que vos apprenants sachent à quoi ça correspond. Quelque que soit la classe que je prenne en charge au... (nom du Centre de Formation), j’ai quand même, j’ai des classes... (inintelligible) des classes normales, heu... dès que j’ai des nouvelles classes, je distribue le tableau dans leurs langues à mes élèves. Parce qu’il me semble (inintelligible) Donc, il me semble tout à fait indispensable de donner à un apprenant le tableau de compétences. Il est plus simple de le lui donner dans sa langue... (inintelligible), ils sont débutants, ils ne pourraient pas comprendre de toute façon. Donc, donne-lui dans sa langue, dans une langue qu’il connaît assez bien. Et de lui demander de se positionner. Alors, je crois qu’il était intéressant,... (inintelligible). Est-ce que vous êtes capables, 105 vous, au niveau heu... A2 heu... de vous exprimer oralement ... (inintelligible) ? Est-ce que vous pouvez utiliser (inintelligible)... des phrases ou des expressions (inintelligible), d’accord ? Donc, ça c’est une question que je... (inintelligible). Voilà ce que je vous avais promis. J’étais contente quand hier, j’ai pu enfim trouver le chemin caché. Professora : (Não compreensível)... e a interação efetiva-se em grande parte em uma conversação, no nível da fala, vocês sabem, quando pertencem a uma conversa, aí é... (não compreensível). Então, euh... eu não sei o que vocês fazem em suas aulas, mas há uma coisa que me parece inteiramente lógica. É que, se vocês reivindicam... euh... colocar o quadro a serviço de suas aulas, euh... apoiar os seus cursos, de centrar os seus cursos, de organizar os seus cursos, depois disso, como vocês quiserem. Em relação ao quadro, parece-me indispensável que os seus aprendizes saibam a que ele corresponde. Não importa que turmas eu tenha no (nome do Centro de Formação), eu tenho turmas... (não compreensível) turmas normais, euh... Desde que eu tenha novas classes, entrego aos meus alunos o quadro nas suas respectivas línguas. Porque me parece... Assim, parece-me indispensável entregar ao aluno o quadro de competências. É mais simples apresentá-lo em sua língua... (não compreensível). Eles são iniciantes, não poderiam mesmo compreendê-lo. Assim, dê-o em sua língua, em uma língua que ele conheça bem. E peça-lhe que se posicione. Então, acredito que seja interessante... (não compreensível). Vocês são capazes no nível euh... A2 euh... de expressar oralmente... (não compreensível)? Vocês podem usar (não compreensível) frases ou expressões, (não compreensível), certo? Assim, isto é uma questão que eu... (não compreensível). Eis o que eu prometera. Fiquei contente quando ontem pude finalmente encontrar o caminho escondido. Observamos que só agora, no Exemplo 6.3., o tópico acadêmico é iniciado. E nessa macromudança verificamos os mesmos marcadores do início do evento aula, bien + alors. O primeiro, com a função disjuntiva, e o segundo, com a 106 função de continuação. Mais uma vez, parafraseando a professora, poderíamos dizer : Bem, depois de tratarmos desses outros assuntos, vamos dar início ao tópico acadêmico, que é o assunto central a ser tratado nesta aula. Então, dando continuidade ao nosso programa de formação, proponho abordar... Exemplo 6.3. Bien, alors, je vous propose maintenant d’aborder puisque nous allons voir des activités ensemble et essayer de voir ensemble la différence entre activité, exercice, éventuellement la tâche, et analyser parmi... (inintelligible) tout d’abord, maintenant le, la question de la consigne. Alors, je m’adresse à vous tous et toutes. Je vous ai donné un travail... (inintelligible) hier soir. Je suis sûre que vous en avez pensé toute la nuit. (risos dos alunos) Oui ou non ? Vous allez me décevoir. (risos da professora). Alors, heu... (inintelligible) de la consigne. Je veux demander qu’est-ce que vous faites de la consigne, comment la faites-vous, comment, quelle est votre... (inintelligible) consigne, quelle soit écrite ou quelle soit à l’oral. Quelle est la part de l’élève ? Comment vous pratiquez ?Qui veut commencer ? Quand il n’y a pas de volontiers, je désigne un volontaire (des rires). Alors, qui veut bien prendre la parole ? (prénom de l’élève 1) ! Alors, (prénom de l’élève 1)? Bem, então, eu lhes proponho agora abordar, posto que nós vamos observar atividades juntos e tentar ver juntos a diferença entre atividade, exercício e, eventualmente, tarefa, e analisar entre... (não compreensível). Inicialmente, agora... o, a questão da instrução. Então, eu me dirijo a todos e a todas. Eu lhes dei um trabalho... (não compreensível) ontem à noite. Tenho certeza de que vocês pensaram nele durante a noite toda. (risos dos alunos) Sim ou não? Vocês vão me decepcionar! (risos da professora). Então, euh... (não compreensível) da instrução. Gostaria de perguntar o que vocês fazem com 107 a instrução, como vocês a constroem, como..., qual é a sua... (não compreensível) instrução, quer seja ela escrita ou oral? Qual a parte do aluno? Como você a põe em prática? Quem quer começar ? Quando não há voluntários, eu designo um voluntário (risos). Então, quem quer a palavra? (nome do aluno 1) ! Então, (nome do aluno 1) ! A fim de tornar o trabalho mais sistemático, destacamos nos quadros abaixo as macromudanças exemplificadas, o início do evento aula e o início do tópico acadêmico, tanto da aula 1 quanto das aulas 2 e 3. Quadro 6.1. Macromudanças. Aula 1: La consigne (A instrução). Início do evento aula Início do tópico acadêmico Bien, Alors, je veux commencer par... heu... distribuer... Bem, então, eu quero começar distribuindo ... euh.... distribuindo... Bien, alors, je vous propose maintenant d’aborder... Bem, então, eu lhes proponho agora abordar,... Procuramos demonstrar, através dos dados encontrados em nossa análise, que as macroestruturas do evento são sempre bem marcadas, e marcadas com os mesmos marcadores, quais sejam: bien, alors. Como já afirmarmos em 4.5, o bien tem uma propriedade disjuntiva e isso pressupõe uma ação complexa de abertura e fechamento. O bien separa um novo assunto do que fora dito anteriormente e o alors dá continuidade. Após o bien, encontramos o alors, isso porque, após a disjunção, o fluxo da aula continua. 108 Observamos as duas outras aulas que fazem parte do nosso corpus estendido e nelas encontramos os mesmos marcadores desempenhando as mesmas funções. Quadro 6.2. Macromudanças. Aula 2 : D’une langue à l’autre: la médiation. (De uma língua a outra : a mediação). Início do evento aula Início do tópico acadêmico Bien, alors, eh... Je vous propose dans un premier temps une définition, redéfinition, redéfinition de ceux (não compreensível) de différentes compétences du cadre et surtout de votre (não compreensível) à la médiation par rapport (não compreensível) dans le cadre européen. Bem, então, euh... Proponho, em um primeiro momento, uma definição, redefinição dos (não compreensível) das diferentes competências do CADRE e, sobretudo, a mediação em relação (não compreensível) no quadro europeu. Bien, je plaisante, bien entendu. Alors, on va se situer par rapport au cadre européen où il y a la médiation, bien entendu ? On ne peut pas compreendre si on ne la voit pas par rapport au Cadre Européen Commun de Référence. Bem, estou brincando, certo. Então, vamos nos situar em relação ao quadro europeu onde há a mediação, certo ? Não podemos compreender se não a virmos em relação ao Quadro Europeu Comum de Referência. Quadro 6.3. Macromudanças. Aula 3 : L’Interaction orale: Présentation et analyse d’activités. (Interação oral : apresentação e análise de atividades). Tentativa frustrada de início da aula Início da aula Bien, écoutez, nous allons commencer parce que... Alors, voilà, donc, le document qui était incomplet mais qui est complet dans ce moment... Bem, escutem, vamos começar porque... 109 Início do tópico acadêmico Então, eis aqui, pois, o documento que estava incompleto naquele momento... Bien, alors, maintenant nous allons aborder un autre point qui va être le point qui concerne l’interaction orale et euh... Bem, então agora nós vamos abordar um outro ponto que vai ser o ponto que concerne à interação oral e heu... Observamos que no item 6.1. o tópico acadêmico não é iniciado quando se inicia o evento aula, tampouco a aula se inicia com a chegada do professor. Há tentativas frustradas de início da aula, pois, ao tentar iniciá-la, o professor se depara com conversas paralelas, questionamentos por parte de alguns alunos e barulho de acomodação. Desde o início da aula, um dispositivo de abertura do evento é requerido para chamar a atenção dos alunos. Ele é necessário para se estabelecer o foco da atenção. Como já fora dito anteriormente, em uma sala de aula o foco não é determinado por regras de interesse, como em conversas casuais, mas como uma obrigação institucional. Afinal, há um programa estabelecido que precisa ser seguido e cumprido. No entanto, essa obrigação institucional não garante a atenção dos alunos. Ainda que os alunos saibam que estão nesse espaço para aprender, eles precisam ser estimulados pelo professor, que desenvolve estratégias, seja o uso de silêncio, mudança do tom de voz ou técnicas específicas que transformam os alunos em parceiros nesse processo de ensino-aprendizagem. Concluímos que as macromudanças do evento em tela são sempre marcadas, e marcadas com os mesmos MD bien + alors, que salientam, 110 respectivamente, uma disjunção e uma continuação. Isso porque o resultado observado nas três aulas foi o mesmo. 6.2. Marcador de micromudanças: alors Além das macromudanças, encontramos outras mudanças às quais denominamos de micromudanças. Essa denominação se justifica pelo fato de essas mudanças serem pequenas dentro do âmbito do tópico acadêmico. O MD alors foi encontrado como o responsável por introduzir essas micromudanças de tópico. Na análise realizada, constatamos que as micromudanças encontradas possuem, também, característica de continuação, isso porque parte do tópico é mantida. No Exemplo, 6.4. a professora faz comentários acerca de uma prática pedagógica mais tradicional. Ela acrescenta que o que é trabalhado com os alunos adultos no Centro de Formação poderia ainda ter resultados mais positivos com crianças e adolescentes. Diz ainda que a experiência vivenciada nesse Centro de Formação deve ser bem aproveitada, até no sentido de coletar materiais e atividades para aplicação imediata em sala de aula. Ela lamenta essa prática tradicional ainda encontrada e afirma que, baseada em sua experiência de professora Formadora, pode asseverar que, na maioria das vezes, nós subestimamos a capacidade de aprendizagem dos nossos alunos. Seria desconsiderar outros conhecimentos que não fosse o científico e retroceder em anos o que a pedagogia não considera mais desde os anos 80. Ou seja, o professor tem o conhecimento científico e fornece o mesmo aos alunos que o incorporam e ponto final. Em seguida, ela muda o tópico e 111 diz que esse assunto não diz respeito ao tema central da aula, Instrução. Nessa mudança, ela usa o marcador alors, introduzindo um novo momento. Exemplo 6.4. « Avec des résultats tout à fait meilleurs que ... (inintelligible) et demain jouez le jeu heu... quand je dis, jouez le jeu, c’est à dire vraiment le faire et ne pas... (inintelligible) par rapport à nos étudiants et... moi, je suis convaincue d’une chose depuis à : un certain... temps... en tant que formatrice et enseignante, que nous mésestimons trois sur quatre nos apprenants, on les mésestime et donc... heu... (inintelligible) un petit peu et vous verrez que... (inintelligible). Alors, ça, ça ne vise, ne règle pas le problème de la consigne. Vous n’avez pas vraiment répondu à ma question au niveau de la consigne, vous avez dit ce que vous faites comme activité. Alors, autre réaction par rapport à la consigne ?” [Com resultados bem melhores que... (não compreensível) e amanhã pratique habilmente, e... quando afirmo, pratique, isto significa que exercitá-los de verdade e não apenas em relação aos nossos alunos e... eu, eu estou convencida de uma coisa, desde: um certo tempo.... enquanto formadora e professora.... que depreciamos um aluno em cada quatro, nós os subestimamos e... assim... um pouquinho e vocês verão que... (não compreensível). Então, isso, isso não visa ao problema nem regulamenta a instrução. Você, na realidade, não respondeu à minha pergunta quanto à instrução, você disse o que faz como atividade. Então, outra reação no que concerne à instrução?] Nesse outro momento, exemplificado em 6.5., a professora sugere que a palavra Instrução deva fazer parte do vocabulário desde cedo introduzido na sala de aula. Em seguida o tópico é mudado e a aula continua. Mais uma vez o marcador alors introduz a mudança. Exemplo 6.5. Le mot consigne est un mot qui fait parti des mots de la classe, vous savez comme... (inintelligible) asseyez-vous, etc. C’est un mot qui devrait faire parti des mots de la classe, le mot consigne. Alors, on suit. Ils ont réformulé, on a vérifié. A palavra instrução é uma palavra que faz parte das palavras da sala de aula, vocês 112 sabem como... (não compreensível) sentem-se, etc. É uma palavra que deveria fazer parte das palavras de sala de aula, a palavra instrução. Então, prosseguiremos. Eles reformularam, nós verificamos. No terceiro Exemplo, 6.6., a professora afirma que o grau de dificuldade da instrução dada deve ser proporcional ao nível de conhecimento da língua estrangeira demonstrado pelo aluno. Ou seja, frases curtas e simples devem ser usadas com alunos iniciantes e, com o passar do tempo, orações coordenadas podem ser utilizadas para os mais avançados. Em seguida a professora muda o tópico e diz que entregará material impresso para todos. Mais uma vez a mudança é precedida pelo marcador alors. Exemplo 6.6. « ... Si vous vous surprenez à l’oral en train de dire : euh... et... euh... et, et, qui, que, que, que, et vous prenez l’exercice qui et que et qui (inintelligible). Pas de phrases relatives, pas de coordination, s’il vous plaît. Normalement une action et une seule, ceci ou moins pendant tous les niveaux A1, A2 et... (inintelligible) début B1. Après, lorsque vous augumentez en niveaux, vous pouvez avoir des consignes plus complexes avec de qui, mais... (inintelligible), nous sommes d’accord ? C’est clair ? Donc, attention au traitement de la consigne... Alors, je vous donnerai un document. C’est un document qui vient d’un matériel pour enfants. Puisqu’on fait en français, dans l’étranger on ne trouve pratiquement rien sur la consigne ou alors, sur la façon de la traiter. ... » ... Se vocês se surpreenderem na forma oral dizendo: heu...e... heu.../ e, e, quem, que, que, e vocês usarem o exercício “qui e que” (não compreensível). Nada de frases relativas, nada de coordenação, por favor. Normalmente uma ação e uma só, isso pelos menos nos níveis A1, A2 e... (não compreensível), no início de B1. Posteriormente, quando vocês crescem, quanto aos níveis, vocês poderão dispor de instruções mais complexas com relativos, mas... (não compreensível) Vocês concordam? Está claro? Assim, atenção ao tratamento da instrução... Então, eu lhes darei um documento. É um documento oriundo de um material para crianças. Ele é elaborado em francês, visto que no exterior não se encontra praticamente nada sobre instrução ou então sobre a forma de tratá-la. ... 113 Em nossa análise, observamos e exemplificamos que as chamadas micromudanças são precedidas pelo marcador alors. Realizamos uma contagem do marcador alors encontrado em nossos dados. O marcador alors representa o marcador mais freqüente em nossos dados e, com essa função, corresponde a 38% dos marcadores encontrados na aula 1. De acordo com a tabela 6.2, o marcador alors aparece 55 vezes na aula 1 e, nessas, 20 vezes apresenta-se com a função de marcador de micromudanças em relação ao tópico acadêmico, ou seja, em 36% das vezes em que aparece na aula 1, possui essa função específica. Tabela 6.2. Alors como marcador de micromudanças na aula1. Frequência do marcador alors na aula analisada. 55 Frequência de alors como marcador de micromudanças 20 Percentagem 36% Aproveitamos para acrescentar tabelas demonstrativas das aulas 2 e 3, tabelas 6.3. e 6.4. Nelas apresentamos a freqüência desse marcador e constatamos que o número de vezes que ele aparece com a função de marcador de micromudanças é bastante similar. Tabela 6.3. Alors como marcador de micromudanças na aula 2. Frequência do marcador alors na aula 2. 57 Frequência de alors como marcador de micromudanças na aula 2. 22 Percentagem 39% Tabela 6.4. Alors como marcador de micromudanças na aula 3. 114 Frequência do marcador alors na aula 3. 53 Frequência de alors como marcador de micromudanças na aula 3. 18 Percentagem 34% 6.3. Marcador indicando digressão e retomada: alors ... bien Além de marcar as macromudanças (item 6.1) e as micromudanças (item 6.2), o marcador alors introduz uma digressão (item 6.3). As digressões podem ser vistas como construções que se manifestam por meio de desvios tópicos. Segundo Bublitz (1988), digressão é uma ação momentânea de suspensão de um tópico, sendo introduzido um novo e de maior interesse naquele instante, seguindo-se a reintrodução do tópico original. As digressões não devem ser vistas como rupturas tópicas, mas como decorrência das condições interacionais. Elas orientam os participantes no processo discursivo planejado durante a interação. Na análise das digressões na interação em sala de aula, devemos considerar que a aula é um evento planejado, e aspectos próprios ao ensino e à aprendizagem são determinados na forma como o tópico discursivo é desenvolvido e, conseqüentemente, nas ocorrências das digressões. Há aulas mais ritualizadas, controladas pelo professor, como, por exemplo, as exposições orais. Mas há aulas em que o discurso é mais espontâneo. Na interação analisada, em torno do tópico acadêmico Instrução constatase a ocorrência de digressão marcada por marcador discursivo. No Exemplo a seguir, 6.7., a professora procede à distribuição de material impresso. Ao iniciar a 115 distribuição, ela aparentemente percebe a reação dos alunos em relação ao forte calor que acomete não só a sala de aula, que não possui refrigeração, como toda a cidade e a França nesse verão intenso. Ela fala sobre o material que está distribuindo e, de repente, faz menção ao calor e ao procedimento a ser adotado para minimizálo. Em seguida retoma o tópico anterior e procede ao fluxo normal da aula. A digressão é marcada pelo marcador alors e a retomada, com o marcador bien. Exemplo 6.7. “... je veux commencer par donner à ceux qui n’ont pas eu hier (inintelligible). Alors, alors, qui n’a pas eu le document hier? [A professora inicia a distribuição do material aos alunos que não o receberam no dia anterior, chamando-os pelo nome]. DIGRESSÃO Alors, heu... donc, avant de poursuivre, je répète ce que je vous ai dit tout à l’heure aux collègues. Si, pendant le cours... (inintelligible) vous ne vous sentez pas très bien à cause de la chaleur, n’hésitez pas à demander... on peut faire une petite interruption de trois, quatre minutes. Vous allez aux toilettes vous rafraîchir... (inintelligible). Faut pas lutter contre l’étouffement, d’accord ?” [Gostaria, inicialmente de entregar àqueles que não o receberam ontem. Então, então, quem não recebeu o documento ontem? [A professora inicia a distribuição do material aos alunos que não o receberam no dia anterior, chamando-os pelo nome.] Professora : Então, euh... assim, antes de continuar, repito o que eu disse agora há pouco aos colegas. Se durante a aula... (não compreensível) vocês não se sentirem muito bem devido ao calor, não hesitem em pedir, nós podemos fazer uma pequena pausa de três, quatro minutos. Vocês vão ao banheiro se refrescar... (não compreensível). Não é necessário ficar morrendo de calor, certo?] RETOMADA - Em seguida, há a retomada do tópico anterior introduzido pelo marcador bien. « Bien, alors,... (inintelligible) démontrer, recommencer également par vous donner les bibliographies, la bibliographie de façon à ceux qui accédent, vous pouvez regarder à la bibliothèque, consulter et événtuellement acquérir à (nom de la ville)... » [Bem, então, (não compreensível) demonstrar, recomeçar semelhantemente, dandolhes as bibliografias, a bibliografia, de forma que aqueles que querem ter acesso, vocês podem olhar na biblioteca, consultar e, eventualmente, adquirir na... (nome da cidade)...] 116 O contexto do Exemplo 6.8. reflete a necessidade apontada pela professora de se aproveitar a oportunidade de estar num Centro de Formação e ter acesso a bons materiais que podem ser utilizados em diversas faixas etárias. Num primeiro momento, a professora fala da prática pedagógica adotada por uma aluna, em seguida afirma que o comentário a essa prática não está relacionado com o tópico acadêmico e, posteriormente, retoma o assunto de uma prática pedagógica tradicional. A professora muda o foco dizendo que a aluna não respondeu à pergunta feita e que a resposta dada foi uma descrição de procedimentos em sala de aula. Em seguida a professora retoma o tópico anterior e fala de práticas pedagógicas adotadas. A digressão surgiu como um comentário realizado sobre um assunto inferido de uma postura que em seguida se dissipa e dá oportunidade ao retorno do assunto principal. A digressão é introduzida pelo marcador alors e a retomada, com o marcador bien. Exemplo 6.8. DIGRESSÃO Professeur : Alors, ça, ça ne vise, ne règle pas le problème de la consigne. Vous n’avez pas vraiment répondu à ma question au niveau de la consigne, vous avez dit ce que vous faites comme activité. Alors, autre réaction par rapport à la consigne ? Professora : Então, isso, isso não visa ao problema nem regulamenta a instrução. Você, na realidade, não respondeu à minha pergunta quanto à instrução, você disse o que faz como atividade. Então, outra reação no que concerne à instrução? RETOMADA Professeur : Bien, vous avez une démarche heu.... Il n’y a qu’une démarche qui est quand même un peu différente, mais d’après de ce que vous me dites, bien, vous faites le travail à la place de vos apprenants. Je regrette... et ça c’est TRÈS nocif, au niveau de la consigne. Je dis bien, c’est très nocif. Professora : Bem, vocês têm uma prática pedagógica euh... Só há uma prática pedagógica que é de alguma forma diferente, mas, de acordo com o que vocês me dizem, bem, vocês fazem o trabalho no lugar de seus alunos. Eu lamento.... e isto é MUITO nocivo, em nível de instrução. Eu digo que é muito nocivo. 117 A digressão é um recurso utilizado em sala de aula por muitos professores. Mesmo se tratando de uma aula totalmente expositiva, o professor muda de referencial em alguns momentos da aula. Isso porque numa sala de aula há convergência de conhecimentos. Não há um único conhecimento. E, nessas digressões, a professora faz uso de conhecimentos outros (empírico, por exemplo) que não o científico. 6.4. Marcador contrastivo: mais De acordo com Schiffrin (1987), embora mais seja um coordenador discursivo, ele tem um efeito pragmático diferente porque marca uma unidade que está por vir logo, como uma ação contrastiva. Em nossos dados, percebemos que o marcador mais pode ser interpretado como um esforço feito pelo falante, nesse caso a professora, em retornar a um interesse anterior de uma opinião conhecida. Os exemplos a seguir apresentam ações contrastivas como esforço do falante em tornar algo conhecido através de reações que interrompem, distraem, desafiam e manifestam desacordo. Vamos contextualizar o Exemplo 6.9., que é um argumento da professora. Ela considera ser provável que, pela grande demanda nesse período do ano, a livraria conveniada com o Centro de Formação esteja desfalcada de alguns títulos. Ela também solicita aos alunos que forem partir da cidade na semana subseqüente que dêem oportunidade de adquirir os livros sugeridos aos que forem partir na semana em curso. Embora não tenha direito de impedir que alguém que parta, não importa em que momento, adquira os livros sugeridos na bibliografia, ela apela à 118 gentileza dos alunos. Esses pontos são importantes porque estão relacionados de modo particular ao argumento. A posição da professora é a de que a preferência da compra dos livros seja dada aos que partem na semana em curso. Mais marca o contraste entre a situação hipotética em que alguns alunos abram mão de adquirir os títulos e a situação atual em que se dá a falta de controle disso por parte da professora. Nesse momento, temos o argumento exposto no Exemplo 6.9. Temos um contraste entre adquirir os livros, em razão da gentileza de alguns alunos ao não adquiri-los no mesmo momento, e a possibilidade de adquirir os títulos de qualquer forma, solicitando à livraria conveniada que os enviem posteriormente para o endereço indicado. Exemplo 6.9. Professeur : Alors, voici donc la bibliographie. Si vous habitez..., mais demandez la bibliographie lui même, même si vous habitez loin. Je sais qu’elle fait des expéditions, donc, éventuellement si elle n’a pas le livre maintenant, en payant le port, c’est à dire, le transport, elle devra pouvoir vous envoyer chez vous, d’accord ? Et en général c’est toujours moins cher que si vous achetez ici, que si vous achetez chez vous. Il y a des pays où le prix est facilement élevé à 50%, forfait pas plus. Professora : Então, eis aqui, pois, a bibliografia. Se vocês moram... mas peçam-na a ele próprio. Mesmo se vocês morarem longe. Eu sei que faz entregas. Se, eventualmente, não dispuser agora do livro, pagando o frete, ou melhor, o transporte, ela poderá enviar para vocês, certo? E, geralmente, é sempre mais barato vocês adquirirem aqui que comprarem onde moram. Há países em que o preço é facilmente elevado até a 50% ou mais. Continuando a nossa análise, a professora entrega aos alunos uma lista com a bibliografia referente a estratégias de aprendizagem. Destaca a qualidade da obra citada e sugere que a mesma seja consultada na biblioteca virtual. Em seguida, no Exemplo 6.10., esclarece não haver obras atuais sobre o assunto. O acervo limita- 119 se a títulos que têm em torno de dez anos. Nesse caso, o mais contrasta a qualidade da obra em questão com o tempo de produção da mesma. Exemplo 6.10. Professeur: Alors, heu... (inintelligible) ouvrages de référence. D’abord sur stratégies d’apprentissage. C’est un excellent ouvrage et... les activités d’apprentissage en classe de langue de Madame... (inintelligible), de même, alors, l’exercice dans la classe de français, un petit peu ancien, consultez-le à la mediathèque. Mais... bon, il n’y a pas beaucoup de choses nouvelles sur ce thème là et ensuite heu... ce sont des manuels d’activités, d’exercices, uniquement à partir de 95’, c’est à dire qu’ils ont moins de dix, de dix ans, ou dix ans. Professora : Então, euh... (não compreensível) obras de referência. Inicialmente sobre estratégias de aprendizagem. É uma excelente obra e ... as atividades de aprendizagem nas aulas de língua de Madame... (não compreensível) da mesma maneira, o exercício nas aulas de francês, um pouco antigo. Consultem-no na biblioteca virtual. Mas... Bom, não há muitas coisas novas sobre este tema e, depois, euh... são manuais de atividades, de exercícios, unicamente a partir de 95, quer dizer que eles têm menos de dez, de dez anos, ou dez anos. Ainda em nossos dados, a professora destaca a importância do processo interativo. Posteriormente faz uma micromudança de tópico. Ela muda de tópico, saindo do tópico acadêmico, e, embora se exima da responsabilidade da prática pedagógica dos outros professores, leva os mesmos a refletirem sobre a sua própria prática, tomando por base a prática da professora. O contraste entre o não querer envolve-se com a prática pedagógica dos outros, naquele momento, e a necessidade de destacar algo que, do seu ponto de vista, parece lógico, é efetuada pelo mais. Em outras palavras, a professora afirma não saber o que os professores fazem em sala de aula, isso não lhe interessa no momento, mas há algo que precisa ser verificado e que é lógico que seja feito pelos professores, já que a mesma o faz. 120 Exemplo 6.11. « Professeur : (Inintelligible)... et l’interaction va se trouver dans grand part à une conversation, au niveau du parler, vous savez, quand on part à une conversation, là c’est... (inintelligible). Alors, heu... je ne sais ce que vous faites, vous dans vos cours, mais il y a une chose qui me semble tout à fait logique. C’est que, si vous revendiquez... heu... de mettre le cadre à l’honneur dans vos cours, heu... d’appuyer vos cours, de centrer vos cours, d’organiser vos cours après ça comme vous voulez par rapport au cadre, il me semble tout à fait indispensable que vos apprenants sachent à quoi ça correspond. » [Professora : (Não compreensível)... e a interação efetiva-se em grande parte em uma conversação, no nível da fala, vocês sabem, quando pertencem a uma conversa, aí é... (não compreensível). Então, euh... eu não sei o que vocês fazem em suas aulas, mas há uma coisa que me parece inteiramente lógica. É que, se vocês reivindicam... euh... colocar o quadro a serviço de suas aulas, euh... apoiar os seus cursos, de centrar os seus cursos, de organizar os seus cursos, depois disso, como vocês quiserem. Em relação ao quadro, parece-me indispensável que os seus aprendizes saibam a que ele corresponde.] Após ouvir o que os alunos compreendem por instrução e como ela é utilizada em sala de aula pelos mesmos, a professora chega à conclusão de que a prática pedagógica dos alunos é bastante tradicional. Ela excetua uma prática específica que durante a aula demonstrou ser diferente das demais, mas não a leva em consideração por não refletir a idéia do grupo. Embora haja alguém que demonstre pensar de forma diferente, de acordo com o que foi informado, o professor faz o trabalho no lugar do aluno. O contraste do discurso com a prática é introduzido pelo marcador mais. Vejamos isso no Exemplo 6.12. Exemplo 6.12. « Professeur : Bien, vous avez une démarche heu.... Il n’y a qu’une démarche qui est quand même un peu différente, mais d’après de ce que vous me dites, bien, vous faites le travail à la place de vos apprenants. Je regrette... et ça c’est TRÈS nocif, au niveau de la consigne. Je dis bien, c’est très nocif. Pourquoi ? Parce que si c’est vous qui remplacez, les tuteurisez, les maternez, parce que vous les maternez. » [Professora : Bem, vocês têm uma prática pedagógica euh... Só há uma prática 121 pedagógica que é de alguma forma diferente, mas, de acordo com o que vocês me dizem, bem, vocês fazem o trabalho no lugar de seus alunos. Eu lamento.... e isto é MUITO nocivo, em nível de instrução. Eu digo que é muito nocivo. Por quê? Porque se são vocês que fazem no lugar deles, vocês os tratam como se fossem bebês, por que vocês os maternalizam (neologismo – tratar os alunos como a mãe trata o bebê).] Os exemplos analisados (6.9., 6.10., 6.11. e 6.12.) demonstram que o marcador mais indica um contraste entre um enunciado A e um enunciado B. Segundo Schiffrin (1987), o mais (em sua análise, but – mas) é similar a anyway (= de qualquer forma). Também verificamos esse sentido no Exemplo 6.10. Em outro momento, mais é similar a cependent (however, na análise de Schiffrin (1987), = todavia, no entanto), e esse sentido pode ser verificado no Exemplo 6.11. A freqüência dessa partícula em nossos dados foi alta. Ela representa mais de 12% de todos os marcadores encontrados na aula 1 (Tabela 6.1.). Nessa mesma aula, a freqüência do marcador mais com a função aqui especificada é de 100%, conforme a tabela 6.5. Tabela 6.5. Mais como marcador contrastivo na aula 1. Frequência do marcador mais na aula aula 1. Frequência de mais como marcador contrastivo aula 18 18 Percentagem 1. 100% Realizando o levantamento do marcador mais nas aulas 2 e 3, encontramos números similares aos encontrados na aula 1, conforme as tabelas 6.6. e 6.7. 122 Tabela 6.6. Mais como Marcador contrastivo na aula 2 . Frequência do marcador mais na aula aula 2. Frequência de mais como marcador contrastivo aula 15 15 Percentagem 2. 100% Tabela 6.7. Mais como Marcador contrastivo na aula 3. Frequência do marcador mais na aula 3. Frequência de mais como marcador contrastivo aula Percentagem 3. 20 20 100% Dessa forma, observamos que a função do marcador mais é bem específica, porque indica contraste entre tópicos e enunciados. 6.5. Marcador resumitivo : donc Após observarmos os marcadores relacionados às macro, micromudanças, digressões e retomadas em relação ao tópico discursivo, constatamos a presença de um marcador, donc, com uma alta freqüência, representando 25% dos marcadores presentes na aula 1 (Tabela 6.1.) e sendo o segundo mais produtivo. No evento aula, esse marcador desempenha a função de resumir tópicos discursivos No Exemplo 6.13., a professora destaca que ler bem uma instrução não significa necessariamente que o aluno a tenha compreendido plenamente. E acrescenta que, se o aluno ouve bem, pode reproduzir qualquer coisa solicitada pelo professor. Logo em seguida, ela resume o que dissera afirmando a inutilidade da leitura de uma instrução em voz alta. Nesse momento, o marcador donc é utilizado 123 para resumir o que fora dito. Lembramos que a leitura e a repetição solicitada ao aluno são em FLE – Francês língua estrangeira. Exemplo 6.13. « On peut très bien répéter sans y comprendre. Si vous avez une bonne oreille, vous répetez n’ importe quoi. On peut vous faire répéter des insanités, des insultes, n’ importe quoi... (inintelligible). Donc, inutile de faire lire à voix haute, n’ajoutez pas de difficultés, qui... (inintelligible) la tentation va être quand ils vont lire. [Podemos muito bem repetir sem compreender. Se você tem um bom ouvido, você repete qualquer coisa. Podemos fazê-los repetir insanidades, insultos, não importa o que seja... (não compreensível). Logo, inútil fazê-los ler em voz alta; não acrescente dificuldades que... (não compreensível) a tentação vai ser quando eles forem ler.] No Exemplo 6.14., a professora discorre sobre os verbos que devem ser usados para se dar uma instrução e sobre a necessidade de se ter um critério para a escolha dos mesmos. Ela usa o Marcador donc que precede o resumo do que acabara de afirmar. Parafraseando-a, poderíamos dizer : Assim, resumindo o que eu disse, sejam hábeis na utilização desses verbos e façam-nos constar na sua prática como professor. Exemplo 6.14. «... Alors, il y a un élément très intéressant... (inintelligible), tout le matériel qu’on peut travailler auprès des enfants, sur les verbes qui figurent dans les consignes, et là je ne saurais plus insister, car en réalité dans les verbes qui sont dans une consigne que, vous allez les avoir de deux types : vous allez avoir des verbes qui induisent une trace graphique, c’est à dire, dans l’activité que vous allez faire il y a une trace graphique qu’il faut faire : souligner, barrer, cocher, et là, méfiez-vous, il y a vraiment des éléments culturels... heu... cocher... il y a de gens et culturelement, et je peux vous dire que même chez les professeurs... (inintelligible). Donc, débrouillez-vous de telle sorte que dans vos exercices tous ces verbes là apparaissent (inintelligible). » [... Então, há um elemento muito interessante... (não compreensível), todo o material que podemos trabalhar junto às crianças com os verbos que figuram nas instruções, e nisso eu não poderia deixar de insistir, porque na realidade, nos verbos que estão 124 em uma instrução que, vocês vão tê-los de dois tipos: vocês terão verbos que induzem a um traço gráfico, quer dizer, na atividade que vocês farão há um traço gráfico que é preciso fazer: sublinhar, riscar, marcar, e, aí, prestem atenção, há muitos elementos culturais... euh... marcar, há pessoas e... culturalmente, e eu posso lhes dizer que mesmo para os professores... (não compreensível). Assim, sejam hábeis, de tal forma que em seus exercícios constem todos esses verbos... (não compreensível). Dando continuidade à análise, no contexto que precede o Exemplo 6.15. a professora afirma que o númeo ideal de alunos para se trabalhar em grupo é cinco. Embora esse não seja o foco central da aula, ela discorre sobre a constituição dos grupos nas atividades em sala de aula e os critérios adotados pelos professores. Por fim, ela utiliza o marcador donc com função resumitiva, apontando as várias possibilidades de constituição dos grupos para a realização de tarefas em sala de aula. Mais uma vez o marcador donc é utilizado. Exemplo 6.15. « ...tout le monde va participer, bon, donc, on les met en groupes, ils se mettent en groupes, le hasard les met en groupe, comme vous voulez. » [... todos vão participar. Bom, assim nós os colocamos em grupos, eles se colocam em grupos, o acaso os coloca em grupos, como vocês quiserem.] É muito importante que o aluno demonstre autonomia diante de uma instrução, seja ela oral ou escrita. A professora destaca essa necessidade de autonomia por parte do aluno e acrescenta que os professores, em geral, tratam os alunos como deficientes, como quem sempre precisa de ajuda para realizar algo. Após a explanação, a professora resume o dito lembrando a analogia que há entre o amor de uma mãe pelo filho e a dependência de um aluno em relação ao professor, e afirma que amor demais sufoca, mata e tira a autonomia. O marcador donc aparece precedendo o resumo feito. 125 Exemplo 6.16. « Vous faites le travail à leur place, quand ils seront en jour de l’examen, ou en jour de preuve, devant la consigne, ils ne seront... (inintelligible), c’est à dire que vous faites exactement comme une mère de famille qui fait tout pour ses enfants et le jour où il ou elle est à l’extérieur, il est incapable de faire quoi que ce soit... parce que c’est ma maman, ou la femme, ou la soeur qui font toujours tout. Et quand la personne est à l’exterieur, elle va arriver complètement perdue. Vous en faites des handicapés. Excusez-moi, mais vous en faites des handicapés. Ah ! Quelquefois l’amour tue. Trop d’amour tue, étouffe. Donc, emmenez-les... (inintelligible) pourqu’ils épousent bien,... (inintelligible), nous sommes d’accord ? Donc, c’est pour quoi je dis quelquefois que trop l’amour tue. Ce n’est pas vraiment les aimer que les trop les materner. Vous en faites des handicapés. » [Vocês os substituem. Quando eles estiverem num dia de exame, ou de prova, diante de uma instrução, não serão... (não compreensível), isto é, vocês fazem exatamente como uma mãe de família que faz tudo por seus filhos, e quando ele ou ela estiver fora (deste contexto), será incapaz de fazer o que quer que seja... porque é minha mãe ou a mulher ou a irmã que sempre fazem tudo. E, quando a pessoa estiver fora, ficará completamente perdida. Vocês criam deficientes. Desculpem-me, mas vocês criam deficientes. Ah ! Algumas vezes o amor mata. Amor em excesso mata, sufoca, logo, conduzam-nos... (não compreensível) para que eles se casem bem... (não compreensível), concordam? Assim, é por isso que afirmo que às vezes o amor mata. Não é porque os amamos muito que vamos tratá-los como crianças. Vocês criam deficientes.] A Tabela 6.8. demonstra a função primordial de donc como marcador discursivo: resumitiva. Tabela 6.8. Donc como marcador resumitivo na aula1. Frequência do marcador donc na aula1. 36 Frequência de donc como marcador resumitivo 18 Percentagem 50% Em seguida, elaboramos mais duas tabelas (6.9. e 6.10.) com as mesmas informações expressas na tabela 6.8., dessa feita referentes às aulas 2 e 3. Confirmamos nessas tabelas a alta freqüência do marcador donc em nossos dados com a função aqui demonstrada. 126 Tabela 6.9. Donc como marcador resumitivo na aula 2. Frequência do marcador donc na aula 2. 35 Frequência de donc como marcador resumitivo 17 Percentagem 41% Tabela 6.10. Donc como marcador resumitivo na aula 3. Frequência do marcador donc na aula aula 3. 40 Frequência de donc como marcador resumitivo 20 Percentagem 50% 6.6. Uma macrofunção dos marcadores: a metadiscursiva Nos itens anteriores, destacamos as principais funções de alors, donc, mais e bien encontradas no discurso de sala de aula. Ao final, reconhecemos que todos os MD que aqui examinamos, predominantemente os textuais, realizam uma macrofunção: a metadiscursiva. Como vimos em 4.6., o processo de metadiscursividade é um recurso importante na estruturação textual e é ativado freqüentemente na organização do texto falado. Ancorada numa perspectiva textual-interativa, esta análise baseia-se numa concepção pragmática da linguagem. Esse fundamento nos leva a ver os componentes enunciativos como introjetados no produto lingüístico de um ato comunicativo – o texto. Com exceção do marcador cognitivo - euh... - , utilizamos nesta análise os MD descritos no item 4.5. Certamente poderíamos introduzir outros marcadores com função metadiscursiva, mas preferimos nos deter nos marcadores já trabalhados. 127 Percebemos que os enunciados metadiscursivos não atuam diretamente no plano da estrutura informativa e que o estatuto de metadiscurso é sempre assinalado. Verificaremos que nessa sinalização entram procedimentos verbais de natureza e níveis variados, indo de fatos prosódicos a construções referenciadoras do processamento lingüístico-textual-interativo. Observando os MD como operadores de metadiscursividade, constatamos, em nossos dados, que eles tendem a se posicionar como prefaciadores – no item 6.1. referimo-nos aos mesmos como organizadores de macromudanças - e, portanto, como mecanismos que anunciam antecipadamente, no texto, o valor discursivo das grandes porções da aula que são introduzidas por eles. Indiciam-lhe o estatuto e as funções discursivas (por exemplo, o seu papel de síntese, reformulação, repetição, exemplificação), apontam seu lugar e a relação com as demais partes integrantes do texto na macroestrutura textual, qualificam sua força ilocutória, explicitam sua direção argumentativa, comentam propriedades de unidades lexicais que o constituem, conferem sua eficácia na relação comunicativa entre os interlocutores. Apresentamos, no Exemplo 6.17., os MD, operadores de metadiscursividade funcionando como prefaciadores. Essa função está diretamente relacionada com a marcação das macromudanças do evento (item 6.1.). Verificamos que eles antecipam o valor discursivo das grandes partes do evento aula. 128 Exemplo 6.17. Aula 1: La consigne (A instrução). Bien, Alors, je veux commencer par... heu... distribuer... Bem, então, eu quero começar distribuindo ... euh.... distribuindo... Bien, alors, je vous propose maintenant d’aborder... Bem, então, eu lhes proponho agora abordar,... No Exemplo 6.18., o papel de síntese é desempenhado pelo marcador resumitivo: donc. No item 6.5. já havíamos demonstrado que esse marcador desempenha a função de resumir tópicos discursivos. Exemplo 6.18. Aula 1: La consigne (A instrução). Parce qu’il me semble (inintelligible) Donc, il me semble tout à fait indispensable de donner à un apprenant le tableau de compétences. Il est plus simple de le lui donner dans sa langue... (inintelligible), ils sont débutants, ils ne pourraient pas comprendre de toute façon. Donc, donne-lui dans sa langue, dans une langue qu’il connaît assez bien. Porque me parece... Assim, parece-me indispensável entregar ao aluno o quadro de competências. É mais simples apresentá-lo em sua língua... (não compreensível). Eles são iniciantes, não poderiam mesmo compreendê-lo. Assim, dê-o em sua língua, em uma língua que ele conheça bem. Embora não tenhamos destacado em nosso trabalho os marcadores cognitivos, já que analisamos os MD predominantemente textuais, averiguamos em nossos dados a presença do marcador cognitivo - euh.... Ele representa a hesitação da professora que precede a sua reformulação do discurso, como verificamos no Exemplo 6.19. O marcador cognitivo euh... vem precedido do marcador discursivo bien que marca uma disjunção com o que fora dito anteriormente (Capítulo 4). 129 Exemplo 6.19. Aula 1: La consigne (A instrução). Bien, vous avez une démarche heu.... Il n’y a qu’une démarche qui est quand même un peu différente, mais d’après de ce que vous me dites, bien, vous faites le travail à la place de vos apprenants. Je regrette... et ça c’est TRÈS nocif, au niveau de la consigne. Je dis bien, c’est très nocif. Bem, vocês têm uma prática pedagógica euh... Só há uma prática pedagógica que é de alguma forma diferente, mas, de acordo com o que vocês me dizem, bem, vocês fazem o trabalho no lugar de seus alunos. Eu lamento.... e isto é MUITO nocivo, em nível de instrução. Eu digo que é muito nocivo. Em outro momento, Exemplo 6.20., o marcador introduz uma direção do tipo argumentativa do discurso. A professora, dessa feita, resume o que foi dito (item 6.5.) e, em seguida, argumenta o fato de repetir falas e enfatizar o tópico por considerá-lo relevante para o bom andamento das atividades realizadas em sala de aula. Exemplo 6.20. Aula 1: La consigne (A instrução). Donc, si je... si je répète... C’est assez important, on est en train de réflechir. C’est un élément extrêmement important, la consigne, ils ont la consigne sous les yeux, ils n’ont pas vraiment vu et vous la réformulez, c’est ça. Assim, se eu... se eu repito... É muito importante, a gente reflete. Trata-se de algo extremamente importante, a instrução. Eles têm a instrução sob os olhos, eles não a viram e você a modifica, é isso. Já no Exemplo 6.21., identificamos que a professora tenta manter a relação comunicativa entre os participantes do processo interativo. Uma micromudança é introduzida pelo marcador alors, como fora destacado no item 6.2., com a finalidade de manter a relação comunicativa entre os participantes. A professora tenta, de alguma forma, fazer com que os alunos se manifestem em relação ao tópico. 130 Exemplo 6.21. Aula 1: La consigne (A instrução) Alors, ça, ça ne vise, ne règle pas le problème de la consigne. Vous n’avez pas vraiment répondu à ma question au niveau de la consigne, vous avez dit ce que vous faites comme activité. Alors, autre réaction par rapport à la consigne ? Então, isso, isso não visa ao problema nem regulamenta a instrução. Você, na realidade, não respondeu à minha pergunta quanto à instrução, você disse o que faz como atividade. Então, outra reação no que concerne à instrução? No evento por nós analisado, o papel de professor domina quase exclusivamente o turno, e isso justifica a grande quantidade de marcadores textuais encontrados. A professora exerce sua ação verbal numa situação marcadamente didática. Nessa situação notadamente marcada, verificamos o metadiscurso permeando todo o evento. No Exemplo abaixo, 6.22., observamos a professora tentando sustentar a continuidade do ato comunicativo, pela freqüente proposição de tópicos a serem abordados. Na realidade, essa série de tópicos apresentados nada mais é do que um resumo listado do que fora visto anteriormente. Por isso, observamos a presença do marcador resumitivo donc introduzindo a lista. Essa lista é usada pela professora para sustentar a continuidade do ato comunicativo. Exemplo 6.22. Aula 1: La consigne (A instrução) ... donc, on les met en groupes, ils se mettent en groupes, le hasard les met en groupe, comme vous voulez. À ce moment là et à ce moment là seulement, vous donnez votre consigne. Si c’est une consigne. Que faire... après ? Qu’est-ce qu’on a fait tout à l’heure ? Ils ont une consigne et réformulent. Pendant... Donner la consigne qu’est-ce qu’on aurait demandé ? ... la même chose, de réformuler, c’est à dire, pas vraiment répéter. ... assim nós os colocamos em grupos, eles se colocam em grupos, o acaso os coloca em grupos, como vocês quiserem. Nesse momento, e apenas nesse 131 momento, vocês apresentam a instrução. Se é uma instrução. O que fazer... depois ? O que fizemos agora mesmo ? Eles têm uma instrução e reformulam-na. Enquanto apresentar uma instrução, o que teríamos que pedir? ... a mesma coisa, ou seja, reformular, isto é, não necessariamente repetir. Os reflexos dessas condições comunicativas se fazem notar na elaboração textual, com predominância da estrutura ideacional do discurso sobre a interpessoal e com maior projeção da organização global da informação em tópicos discursivos. Essas características propiciam o surgimento do metadiscurso pontuando o texto, com referências à sua macroestrutura e à montagem das partes internas de sua composição. Na perspectiva de Borillo, o discurso torna-se autoreflexivo, nesses casos, exatamente porque tem por foco a construção do texto. A seguir, no Exemplo 6.23., encontramos uma intervenção metadiscursiva que faz referência ao discurso para explicar o código usado na construção do texto. Exemplo 6.23. Aula 1: La consigne (A instrução) « ... Si vous vous surprenez à l’oral en train de dire : euh... et... euh... et, et, qui, que, que, que, et vous prenez l’exercice qui et que et qui (inintelligible). Pas de phrases relatives, pas de coordination, s’il vous plaît. Normalement une action et une seule, ceci ou moins pendant tous les niveaux A1, A2 et... (inintelligible) début B1. Après, lorsque vous augumentez en niveaux, vous pouvez avoir des consignes plus complexes avec de qui, mais... (inintelligible), nous sommes d’accord ? C’est clair ? Donc, attention au traitement de la consigne... Alors, je vous donnerai un document. C’est un document qui vient d’un matériel pour enfants. Puisqu’on fait en français, dans l’étranger on ne trouve pratiquement rien sur la consigne ou alors, sur la façon de la traiter. ... » ... Se vocês se surpreenderem na forma oral dizendo: heu...e... heu.../ e, e, quem, que, que, e vocês usarem o exercício “qui e que” (não compreensível). Nada de frases relativas, nada de coordenação, por favor. Normalmente uma ação, e uma só, isso pelo menos nos níveis A1, A2 e... (não compreensível), no início de B1. Posteriormente, quando vocês crescem, quanto aos níveis, vocês poderão dispor de instruções mais complexas com relativos, mas... (não compreensível) Vocês 132 concordam? Está claro? Assim, atenção ao tratamento da instrução... Então, eu lhes darei um documento. É um documento oriundo de um material para crianças. Ele é elaborado em francês, visto que no exterior não se encontra praticamente nada sobre instrução ou então sobre a forma de tratá-la. ... Esse marcador, alors, confere estatuto de tópico discursivo ao segmento por ele introduzido. A nomeação do tópico assim desencadeada ganha teor de metadiscurso porque enquadra, no âmbito do discurso, os elementos referenciados, ao fazer deles pontos de centração do diálogo em seu andamento. No Exemplo seguinte, 6.24., o metadiscurso faz referência à própria construção do discurso, sinalizando a sua construção. O marcador alors introduz a micromudança e é seguido pelo marcador cognitivo euh... que auxilia a professora a refletir na organização e posterior construção do discurso. Exemplo 6.24. Aula 1: La consigne (A instrução). Alors, heu... je ne sais ce que vous faites, vous dans vos cours, mais il y a une chose qui me semble tout à fait logique. C’est que, si vous revendiquez... heu... de mettre le cadre à l’honneur dans vos cours, heu... d’appuyer vos cours, de centrer vos cours, d’organiser vos cours après ça comme vous voulez par rapport au cadre, il me semble tout à fait indispensable que vos apprenants sachent à quoi ça correspond. Quelque que soit la classe que je prenne en charge au... (nom du Centre de Formation), j’ai quand même, j’ai des classes... (inintelligible) des classes normales, heu... dès que j’ai des nouvelles classes, je distribue le tableau dans leurs langues à mes élèves. Então, euh... eu não sei o que vocês fazem em suas aulas, mas há uma coisa que me parece inteiramente lógica. É que, se vocês reivindicam... euh... colocar o quadro a serviço de suas aulas, euh... apoiar os seus cursos, centrar os seus cursos, organizar os seus cursos, depois disso, como vocês quiserem. Em relação ao quadro, parece-me indispensável que os seus aprendizes saibam a que ele corresponde. Não importa que turmas eu tenha no (nome do Centro de Formação), eu tenho turmas... (não compreensível) turmas normais, euh... Desde que eu tenha novas classes, entrego aos meus alunos o quadro nas suas respectivas línguas. 133 Os diferentes tipos de enunciados destacados na análise põem em relevo a propriedade básica da auto-reflexividade, pela qual o metadiscurso faz referência explícita ao discurso em que se inscreve. Os aspectos particularizadores da focalização da atividade discursiva puderam ressaltar a funcionalidade do metadiscurso no processamento do texto falado, explicitando uma variada ordem de fatores de composição textual engendrados na dinâmica da interação verbal. Em consonância com a perspectiva teórica segundo a qual a linguagem é uma atividade verbal contextualizada em um conjunto complexo de circunstâncias enunciativas, procuramos demonstrar que os MD desempenham funções específicas no discurso de sala de aula, como pudemos verificar nos itens 6.1., 6.2., 6.3., 6.4. e 6.5. Identificamos, ainda, que esses marcadores analisados realizam uma macrofunção: a metadiscursiva. Verificamos que as funções metadiscursivas correlacionam-se com os papéis discursivos que os locutores assumem relativamente à natureza do ato comunicativo que protagonizam. 134 7. RESULTADOS OBTIDOS E PALAVRAS FINAIS É na linguagem e pela linguagem que os indivíduos se representam e constituem o mundo. Todavia, não basta apenas estudar a língua como um código, através de um locutor que transmite mensagens, e nem como um sistema formal abstrato, com elementos de vários níveis que permitem organizar as frases de uma língua fora de um contexto, é necessário ver a linguagem como lugar de interação, de constituição de identidades e de co-participação. De acordo com o que pudemos observar na revisão bibliográfica feita, livros e artigos sobre MD vêm sendo publicados por vários pesquisadores. No entanto, em nossa experiência como professora de Língua Estrangeira, não lidamos com tal assunto em sala de aula. A razão é que esse assunto não é contemplado nos guias de métodos observados, tampouco nos livros didáticos. Daí professor e alunos ficarem sem a informação. Nesta pesquisa, optamos por analisar o discurso do professor e vimos que as ações tópicas podem ser sistematicamente correlacionadas aos marcadores e que o falante fornece dicas ao seu interlocutor. Essas dicas servem para guiar o ouvintefalante no evento aula. Concluímos, através da análise dos dados, que os marcadores são ferramentas confiáveis na análise da organização tópica. Eles são usados pelo professor para destacar introdução, manutenção, mudança de tópico, indicar digressão e retomada de tópico anterior, contrastar tópicos e enunciados, resumir tópicos. Dessa forma, identificamos a sala de aula como uma fonte proveitosa para o estudo de ações tópicas e de marcadores. 135 As formas mais produtivas encontradas em nossa análise foram: alors, donc, mais e bien. Esses marcadores mais recorrentes encontrados e analisados corroboram a lista dos marcadores mais freqüentes do francês falado apresentada por Chanet, 2003b. Percebemos que os pontos de ocorrência têm ligação com a organização tópica da aula. Esse resultado já era esperado, porque o discurso do professor é diferente na interação em sala de aula, já que o professor detém, institucionalmente, o dever e a obrigação de conduzir a interação. Encontramos, através da observação dos aspectos etnográficos do evento, que, em nossos dados, a professora, ao ministrar uma aula expositiva, se apresenta, na maioria das vezes, como a transmissora do conhecimento científico. Esse tipo de aula é, por natureza, mais centrado na professora e isso possibilita uma diminuição da participação oral por parte dos alunos. Pelo fato de a aula ser mais centrada no discurso da professora, temos uma grande freqüência de marcadores textuais. Afinal, cada porção da aula é marcada pela professora. Possivelmente, se tivéssemos uma aula mais interativa, poderíamos encontrar mais marcadores interativos. Dessa forma, a aula centrada mais na professora nos possibilitou encontrar mais marcadores textuais. Verificamos como resultados, em nossa análise, que as macromudanças na estrutura da interação estudada, conforme exemplificamos, são sempre marcadas. Do ponto de vista da análise dos principais marcadores encontrados, constatamos que os marcadores com funções textuais, no discurso do professor, marcam em 100% as macromudanças. O marcador bien marca a disjunção com o que fora dito 136 anteriormente e, logo em seguida, o marcador alors indica a continuação do tema da aula. Quanto à estrutura organizacional do tópico acadêmico, encontramos o marcador alors, com sentido de continuação, introduzindo as micromudanças de tópicos. Em seguida, os MD alors + bien mais uma vez aparecem, e agora marcam digressões e retomadas. O marcador alors introduz um novo tópico, enquanto o marcador bien marca a retomada do tópico anterior. O marcador mais é encontrado com função contrastiva. Ele indica um contraste entre um enunciado A e um enunciado B. Em nossa análise, os exemplos apresentados demonstram em 100% que esse marcador é utilizado para contrastar tópicos e enunciados. As finalizações de tópico, notadamente as seqüências resumitivas, são marcadas pela partícula donc. Após verificarmos os marcadores alors, donc, mais e bien, os mais produtivos encontrados, e suas funções no discurso de sala de aula, reconhecemos que os mesmos realizam uma macrofunção: a metadiscursiva. Esse processo de metadiscursividade é importante na estruturação textual e é ativado freqüentemente na organização do texto falado. Por isso, procuramos demonstrar que as funções metadiscursivas correlacionam-se com os papéis discursivos que os locutores assumem relativamente à natureza do ato comunicativo que protagonizam. Os resultados encontrados em nossa análise sobre os marcadores discursivos corroboram os achados organizados no livro publicado por Schiffrin, em 1987, Marcadores Discursivos, e a tese de Barros (1991) sobre a Estrutura Interna e Marcadores Conversacionais na organização tópica em sala de aula. As funções 137 encontradas, desses marcadores, são semelhantes às de Schiffrin (1987) e Barros (1991); e as relações entre o uso de marcadores e tópico discursivo, são semelhantes às de Barros (1991). Mas, acreditamos que esta pesquisa apresenta contribuições pelo estudo de marcadores em francês: alors, donc, mais e bien, haja vista termos determinado os usos dessas partículas no discurso de sala de aula. Cremos que, ao apresentarmos suas funções discursivas bem definidas e que são usados de maneira sistemática e previsível, descartamos a idéia de considerar esses elementos como meros vícios de linguagem e podemos afirmar que eles possuem um lugar inegável na descrição lingüística e que é possível levar para dentro da sala de aula o seu conhecimento. Vislumbramos perspectivas que se abrem para a continuação do estudo de marcadores. Primeiramente, precisamos que nossos alunos tenham ciência da existência e do funcionamento dos mesmos. E por que não propormos uma ação de ensino dos marcadores em língua estrangeira? Quando falamos em levar o conhecimento dos marcadores, de forma sistemática, para a sala de aula, é porque verificamos que a política de educação no campo das línguas vivas tem por fim aumentar o conhecimento e a compreensão mútua entre os povos, aumentar o nível de cooperação, combater e evitar os preconceitos e a intolerância perante outras culturas e falantes de diferentes línguas e reforçar as estruturas e práticas democráticas. Em trabalho publicado no final dos anos 90’ (Quadro Europeu Comum de Referência para a Aprendizagem das Línguas, 1998), concretiza-se a proposta de fornecer uma base comum para a elaboração de programas de línguas, linhas de orientações curriculares, etc. Nele é descrito de 138 forma exaustiva o que os aprendizes de uma determinada língua precisam saber para estarem aptos à comunicação nessa língua. Isso significa que saberes, competências e informações culturais precisam ser desenvolvidos e conhecidos, para tornar o indivíduo proficiente na língua alvo. Para lidar com as diferentes situações de comunicação, aqueles que aprendem, que estão envolvidos nessas situações, utilizam as competências que são adquiridas com o decorrer do tempo. Algumas competências são denominadas gerais. Nessas competências, encontramos o conhecimento declarativo (saber), que engloba o conhecimento do mundo, o conhecimento sociocultural, a consciência intercultural, as capacidades práticas e a competência de realização (a capacidade para se comportar de acordo com os princípios definidos pela comunidade-alvo), as capacidades interculturais e a competência de realização (esta incluindo a capacidade de estabelecer uma relação entre a cultura de origem e a cultura estrangeira), a competência de aprendizagem (a consciência da língua e da comunicação, a consciência e as capacidades fonéticas, as capacidades de estudo, as capacidades heurísticas). A fim de realizar as intenções comunicativas, os aprendizes mobilizam as capacidades gerais acima citadas e as combinam com uma competência comunicativa mais especificamente relacionada com a língua. Essa competência comunicativa compreende as competências lingüísticas (competências lexical, gramatical, semântica, fonológica, ortográfica e ortoépica), as competências sociolingüísticas (marcadores lingüísticos de relações sociais, regras de delicadeza, as expressões de sabedoria popular, as diferenças de registro, os dialetos e os 139 sotaques) e as competências pragmáticas (a competência discursiva, a competência funcional e esquemas de interação). Entrevemos, assim, uma boa oportunidade para, em ações futuras, inserir o conhecimento e o estudo dos MD em sala de aula, em livros didáticos e metodologias de ensino do francês como LE. 140 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSEN, L. W.; BURNS, R.B. Research in Classroom. Oxford: Pergamon Press, 1989. AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. 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Pensamento e Linguagem. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1998. 148 ANEXO AULA: LA CONSIGNE (A instrução). TEMPO TOTAL: 1’38”17”’ PARTICIPANTES: Professora formadora e grupo de professores de francês de diversas nacionalidades. LOCAL: França, verão, 2006. TRANSCRIÇÃO GRÁFICA [Chegada de alguns alunos e da professora à sala de aula. Ruído de cadeiras sendo arrastadas. Conversa entre alunos e a professora com uma aluna. Comentários sobre o tempo e o calor. Risos. Acomodação de outros alunos que chegam à sala de aula]. Professeur: Bien, Alors, je veux commencer par... heu... distribuer... Professora : Bem, Então, eu quero começar distribuindo ... euh.... distribuindo... [alunos conversam, enquanto a professora fala] Professeur : ... quelques bibliographies que je ne les ai pas vous distribuées hier. Heu..., surtout je veux commencer par donner à ceux qui n’ont pas eu hier (inintelligible). Alors, alors, qui n’a pas eu le document hier? Professora: ... algumas bibliografias, eu não as distribui para vocês ontem. Gostaria, inicialmente de entregar àqueles que não as receberam ontem. Então, então, quem não recebeu o documento ontem? 149 [A professora inicia a distribuição do material aos alunos que não o receberam no dia anterior, chamando-os pelo nome]. Professeur: Alors, heu... donc, avant de poursuivre, je répète ce que je vous ai dit tout à l’heure aux collègues. Si, pendant le cours... (inintelligible) vous ne vous sentez pas très bien à cause de la chaleur, n’hésitez pas à demander... on peut faire une petite interruption de trois, quatre minutes. Vous allez aux toilettes vous rafraîchir... (inintelligible). Faut pas lutter contre l’étouffement, d’accord ? Professora : Então, euh... assim, antes de continuar, repito o que eu disse agora há pouco aos colegas. Se durante a aula... (não compreensível) vocês não se sentirem muito bem devido ao calor, não hesitem em pedir, nós podemos fazer uma pequena pausa de três, quatro minutos. Vocês vão ao banheiro se refrescar... (não compreensível). Não é necessário ficar morrendo de calor, certo? Professeur : Bien, alors,... (inintelligible) démontrer, recommencer également par vous donner les bibliographies, la bibliographie de façon à ceux qui accédent, vous pouvez regarder à la bibliothèque, consulter et événtuellement acquérir à (nom de la ville)... (inintelligible). Semble intéressant pour vos cours, et donc, on vous donne la bibliographie maintenant, ça vous donne... (inintelligible) une petite démarche. Si vous allez voir le livre chez le (nom de la librairie) qui est notre librairie... (inintelligible) il est fort probable qu’elle soit dévalisée de certains documents, donc si c’est votre dernière semaine... si c’est votre dernière semaine et que quelqu’un veuille exactement le même document que vous et ne part que la semaine prochaine, soyez gentils. Entendez-vous que ceux qui partent la semaine prochaine... Soyez assez gentils. (inintelligible), d’accord ? Professora : Bem, então, (não compreensível) demonstrar, recomeçar semelhantemente, dando-lhes as bibliografias, a bibliografia de forma que, aqueles que querem ter acesso, vocês podem olhar na biblioteca, consultar e, eventualmente, adquirir na... (nome da cidade)... (não compreensível). É interessante para as suas aulas, e, assim, a gente lhes dá agora a bibliografia, o que lhes trará um pequeno esforço. Se forem ver o livro na (nome da livraria), que é nossa livraria, ... (não compreensível) é muito provável que ela esteja desfalcada de certos documentos, 150 assim, se for sua última semana, se for a sua última semana e alguém quiser o mesmo documento que você e se você só vai partir na próxima, seja gentil, compreenda aqueles que partem na próxima semana. Sejam gentis. (não compreensível), certo? [Outros alunos chegam, ruído de acomodação. A professora pára de falar e espera que os alunos se acomodem]. Professeur : Alors, voici donc la bibliographie. Si vous habitez..., mais demandez la bibliographie lui même, même si vous habitez loin. Je sais qu’elle fait des expéditions, donc, éventuellement si elle n’a pas le livre maintenant, en payant le port, c’est à dire, le transport, elle devra pouvoir vous envoyer chez vous, d’accord ? Et en général c’est toujours moins cher que si vous achetez ici, que si vous achetez chez vous. Il y a des pays où le prix est facilement élevé à 50%, forfait pas plus. Professora : Então, eis aqui pois a bibliografia. Se vocês moram... mas peçam-na a ele próprio. Mesmo se vocês morarem longe. Eu sei que faz entregas. Se eventualmente, não dispuser agora do livro, pagando o frete, ou melhor, o transporte, ela poderá enviar para vocês, certo? E, geralmente, é sempre mais barato se vocês adquirirem aqui que comprarem onde moram. Há países em que o preço é facilmente elevado até a 50% ou mais. [Ruído. A professora distribui material escrito] [Alunos conversando] Professeur: Alors, heu... (inintelligible) ouvrages de référence. D’abord sur stratégies d’apprentissage. C’est un excellent ouvrage et... les activités d’apprentissage en classe de langue de Madame... (inintelligible), de même, alors, l’exercice dans la classe de français, un petit peu ancien, consultez-le à la mediathèque. Mais bon, il n’y a pas beaucoup de choses nouvelles sur ce thème là et ensuite heu... ce sont des manuels d’activités, d’exercices, uniquement à partir de 95’, c’est à dire qu’ils ont moins de dix, de dix ans, ou dix ans. Lorsque sinon vous savez, il faudrait trois ou quatre pages pour mettre tous les manuels d’activités, d’exercices... (inintelligible) et 151 ils sont classés par rapport à, par rapport à tout qui est Capelle, CECR, Civilisation, Exercice de grammaire, Lexique, l’Oral, l’Écrit, la Phonétique et... (inintelligible), d’accord ? Donc, n’hésitez pas à consulter en mediathèque pour qu’ on voie ce qui peut vous intéresser, c’est bon ? Alors, heu... Suite à ce que nous avons dit hier, j’ai enfin pu trouver le chemin pour aboutir le cadre. Alors, c’est un chemin qu’ils ont un peu caché, maintenant... (inintelligible) qui peut accéder par le chemin habituel... (inintelligible) ce qui fait que j’ai pu tirer, mais en différentes langues, le tableau de compétences, de niveau de compétences et... donc, je vais pouvoir vous le donner, toutefois, il n’est pas traduit en Serbe. Alors, je peux vous le donner en français. Quelle est la langue la plus proche pour vous ? Professora : Então, euh... (não compreensível) obras de referência. Inicialmente sobre estratégias de aprendizagem. É uma excelente obra e ... as atividades de aprendizagem nas aulas de língua de Madame... (não compreensível) da mesma maneira, o exercício nas aulas de francês, um pouco antigo. Consultem-no na biblioteca virtual. Mas... Bom, não há muitas coisas novas sobre este tema e depois, euh... são manuais de atividades, de exercícios, unicamente a partir de 95, quer dizer que eles têm menos de dez, de dez anos, ou dez anos. Caso não, vocês já sabem, seriam necessárias três ou quatro páginas para colocar todos os manuais de atividades, de exercícios... (não compreensível) e eles são classificados em relação, em relação a tudo que é Capelle, CECR (Quadro Europeu Comum de Referência para o Aprendizado das Línguas), Civilização, Exercício de gramática, o Léxico, o Oral, o Escrito, a Fonética e... (não compreensível), certo? Assim, não hesitem em consultar na biblioteca virtual porque a gente pode ver o que pode lhes interessar, está bom? Então, euh... Dando continuidade ao que dissemos ontem , eu finalmente pude achar o caminho para chegar ao quadro. Então..., é um caminho um pouco difícil... (não compreensível) mas agora pode ser acessado pelo caminho habitual (não compreensível). Isto fez com que eu pudesse tirar, mas em diferentes línguas, o quadro de competência de níveis de competência e, portanto, eu posso dar para vocês, todavia ele não está traduzido em Sérvia. Então eu posso dá-lo em francês. Qual é a língua mais próxima para você? Élève 4: Le croate. 152 Aluna 4: A língua croata. Professeur: Je crois qu’il n’y a pas . Professora : Acredito que não haja. Élève 4: Le turque. Aluna 4: A língua turca. Professeur: Le turc oui, bien sûr. Professora: O turco sim, com certeza. [A professora tece comentários sobre as línguas em que o quadro está traduzido. Apresenta-o nos diferentes idiomas representados na sala de aula e afirma, que ele está disponível na internet. Ela o distribui. Os alunos emitem comentários. Em seguida há uma explicação da disposição dos elementos do quadro, pela professora]. Os alunos conversam... (não compreensível). (5 minutos). Professeur : (Inintelligible)... et l’interaction va se trouver dans grand part à une conversation, au niveau du parler, vous savez, quand on part à une conversation, là c’est... (inintelligible). Alors, heu... je ne sais ce que vous faites, vous dans vos cours, mais il y a une chose qui me semble tout à fait logique. C’est que, si vous revendiquez... heu... de mettre le cadre à l’honneur dans vos cours, heu... d’appuyer vos cours, de centrer vos cours, d’organiser vos cours après ça comme vous voulez par rapport au cadre, il me semble tout à fait indispensable que vos apprenants sachent à quoi ça correspond. Quelque que soit la classe que je prenne en charge au... (nom du Centre de Formation), j’ai quand même, j’ai des classes... (inintelligible) des classes normales, heu... dès que j’ai des nouvelles classes, je distribue le tableau dans leurs langues à mes élèves. Parce qu’il me semble (inintelligible) Donc, il me semble tout à fait indispensable de donner à un apprenant le tableau de compétences. Il est plus simple de le lui donner dans sa langue... (inintelligible), ils sont débutants, ils ne pourraient pas comprendre de toute façon. Donc, donne-lui dans sa langue, dans une langue qu’il connaît assez bien. Et de lui demander de se positionner. Alors, je crois qu’il était intéressant,... (inintelligible). Est-ce que vous êtes capables, vous, au niveau heu... A2 heu... de vous exprimer oralement ... 153 (inintelligible) ? Est-ce que vous pouvez utiliser (inintelligible)... des phrases ou des expressions (inintelligible), d’accord ? Donc, ça c’est une question que je... (inintelligible). Voilà ce que je vous avais promis. J’étais contente quand hier, j’ai pu enfim trouver le chemin caché. Bien, alors, je vous propose maintenant d’aborder puisque nous allons voir des activités ensemble et essayer de voir ensemble la différence entre activité, exercice, éventuellement la tâche, et analyser parmi... (inintelligible) tout d’abord, maintenant le, la question de la consigne. Alors, je m’adresse à vous tous et toutes. Je vous ai donné un travail... (inintelligible) hier soir. Je suis sûre que vous en avez pensé toute la nuit. (risos dos alunos) Oui ou non ? Vous allez me décevoir. (risos da professora). Alors, heu... (inintelligible) de la consigne. Je veux demander qu’est-ce que vous faites de la consigne, comment la faites-vous, comment, quelle est votre... (inintelligible) consigne, quelle soit écrite ou quelle soit à l’oral. Quelle est la part de l’élève ? Comment vous pratiquez ?Qui veut commencer ? Quand il n’y a pas de volontiers, je désigne un volontaire (des rires). Alors, qui veut bien prendre la parole ? (prénom de l’élève 1) ! Alors, (prénom de l’élève 1)? Professora : (Não compreensível)... e a interação efetiva-se em grande parte em uma conversação, no nível da fala, vocês sabem, quando pertencem a uma conversa, aí é... (não compreensível). Então, euh... eu não sei o que vocês fazem em suas aulas, mas há uma coisa que me parece inteiramente lógica. É que, se vocês reivindicam... euh... colocar o quadro a serviço de suas aulas, euh... apoiar os seus cursos, de centrar os seus cursos, de organizar os seus cursos, depois disso, como vocês quiserem. Em relação ao quadro, parece-me indispensável que os seus aprendizes saibam a que ele corresponde. Não importa que turmas eu tenha no (nome do Centro de Formação), eu tenho turmas... (não compreensível) turmas normais, euh... Desde que eu tenha novas classes, entrego aos meus alunos o quadro nas suas respectivas línguas. Porque me parece... Assim, me parece indispensável entregar ao aluno o quadro de competências. É mais simples apresentá-lo em sua língua... (não compreensível). Eles são iniciantes, não poderiam mesmo compreendê-lo. Assim, dêlhe em sua língua, em uma língua que ele conheça bem. E peça-lhe que se posicione. Então, acredito que seja interessante... (não compreensível). Vocês são 154 capazes no nível euh... A2 euh... de expressar oralmente... (não compreensível)? Vocês podem usar (não compreensível) frases ou expressões, (não compreensível), certo? Assim, isto é uma questão que eu... (não compreensível). Eis o que eu prometera. Fiquei contente quando ontem pude finalmente encontrar o caminho escondido. Bem, então, eu lhes proponho agora abordar, posto que nós vamos observar atividades juntos e tentar ver juntos a diferença entre atividade, exercício e eventualmente, tarefa, e analisar entre... (não compreensível). Inicialmente, agora... o, a questão da instrução. Então, eu me dirijo a todos e a todas. Eu lhes dei um trabalho... (não compreensível) ontem à noite. Tenho certeza de que vocês pensaram nele durante a noite toda. (risos dos alunos) Sim ou não? Vocês vão me decepcionar! (risos da professora). Então, euh... (não compreensível) da instrução. Gostaria de perguntar o que vocês fazem com a instrução, como vocês a constroem, como..., qual é a sua... (não compreensível) instrução, quer seja ela escrita ou oral? Qual a parte do aluno? Como você a põe em prática? Quem quer começar ? Quando não há voluntários, eu designo um voluntário (risos). Então, quem quer a palavra? (nome do aluno 1) ! Então, (nome do aluno 1) ! Élève 1 : Chez moi, c’est pas très uniforme. J’ai réalisé que... en fait, parfois je fais ceci, parfois je fais cela. Aluno 1 : Para mim não é muito uniforme. Percebo que, de fato, na verdade, às vezes eu faço isso, às vezes, eu faço aquilo. Professeur : Qu’est-ce que ça veut dire ? Qu’est-ce que c’est: ceci et cela ? Professora : O que isto quer dizer ? O que é que é: isto e aquilo? Élève 1 : Heu... parfois ce sont des petites phrases, parfois je leur donne beaucoup d’information avant... avant de leur dire ce qu’il faut faire réellement. Heu... parfois j’ai des exercices heu... oraux que je mets sur papier parce que, bon..., ils doivent préparer. Par exemple, préparez ça d’une manière individuelle. Aluno 1 : Euh... Às vezes são pequenas frases, outras, eu lhes dou muita informação antes... antes de lhes dizer o que é necessário fazer realmente. Euh... às vezes tenho exercícios euh... orais que passo para o papel porque, bom, eles devem preparar. Por exemplo, execute isto individualmente. Professeur : Pour un exposé ou pour une compréhension ? 155 Professora : Para uma apresentação ou para uma compreensão? Élève 1 : Heu.... Aluno 1 : Euh... Professeur : Les exercices oraux, c’est d’expression ou de la compréhension ? Professora : Os exercícios orais são de expressão ou de compreensão? Élève 1 : Expression. Aluno 1 : Expressão. Professeur : D’accord. Professora : Certo. Élève 1 : Donc, ... Aluno1: Enfim, ... [A professora interrompe o aluno e faz um comentário não compreensível]. Élève 1 : Donc, ça c’est pour vous dire que j’ai pas vraiment des, des, des stratégies ou des systèmes dans, la manière dont, je... dont, je formule mes, mes consignes. Aluno 1 : Enfim, isso é para lhe dizer que eu não tenho de forma alguma estratégias ou sistemas para, a maneira com a qual, com a qual, eu formulo minhas, minhas instruções. Professeur : Lorsqu’il y a une consigne faite, quelle est votre... (inintelligible) ? Comment procédez-vous ? Que faites-vous ? Que font les apprenants ? Professora : E quando já existe uma instrução? Qual é a sua... (não compreensível)? Como vocês procedem? O que vocês fazem ? O que fazem os alunos ? Élève 1 : Heu... Alors, les exercices qui se trouvent dans les manuels, justement sont des exercices à faire à la maison.... C’est que je... Aluno 1 : Euh... Então, os exercícios que se encontram nos manuais são justamente exercícios para serem feitos em casa... (...) Professseur : Ils ne font jamais en classe. Professora : Eles nunca fazem na sala. Élève 1 : Non. Aluno 1 : Não. 156 Professeur : Vous ne leur donnez jamais des exercices écrits en classe avec une consigne ? Professora : Você nunca lhes dá exercícios escritos em classe com uma instrução? Élève 1 : Heu... pas donc d’ exercices qui proviennent des manuels. Aluno 1 : Euh... não, nunca exercícios provenientes dos manuais. Professeur : Mais... (inintelligible) des exercices avec des consignes? Professora : Mas... (não compreensível) exercícios com instruções? Élève 1 : Voilà. Mais ça ce sont mes propres exercices. Aluno 1 : Com certeza. Mas esses são meus próprios exercícios. Professeur : D’accord. Il y a bien une consigne ? Professora : Claro. Existe mesmo uma instrução? Élève 1 : Oui. Aluno 1 : Sim. Professeur : Et que faites-vous à ce moment-là ? Professora : E o que você faz nesse momento ? Élève 1 : Heu....Je leur dis heu... que l’exercice soit à telle page... qui, heu... à ce moment là, moi, je formule la consigne oralement. Aluno 1 : euh... Eu lhes digo euh... que o exercício está em tal página... que, euh... nesse momento, eu formulo a instrução oralmente. Professeur : Vous relisez la consigne ou vous la réformulez ? Professora : Você relê a instrução ou você a reformula? Élève 1 : Je la réformule. Aluno 1 : Eu a reformulo. Professeur : Vous la réformulez ? Est- ce... Professora : Você a modifica ? Você... Élève 1 : En général, oui. Aluno 1 : Em geral, sim. Professeur : Est-ce qu’ils ont regardé avant votre réformulation ou nom ? Professora : Eles olharam antes da sua modificação ou não? Élève 1 : Pardon ? Aluno 1 : Desculpe ? 157 Professeur : Est- ce qu’ils l’ont regardée, vue, avant votre réformulation ou non ? Professora : Eles a olharam (a instrução), viram antes de sua modificação ou não? Élève 1 : Heu... en principe, non. Aluno 1 : Euh... em princípio não. Professeur : Donc, si je... si je répète... C’est assez important, on est en train de réflechir. C’est un élément extrêmement important, la consigne, ils ont la consigne sous les yeux, ils n’ont pas vraiment vu et vous la réformulez, c’est ça. Les autres. Professora : Logo, se eu... se eu repito... É muito importante, a gente reflete. Trata-se de algo extremamente importante, a instrução. Eles têm a instrução sob os olhos, eles não a viram e você a modifica, é isso. Os outros. Élève 2 : Moi, je coupe les consignes en phrases simples et courtes. Heu... je ne donne pas toutes les consignes dans le même temps. Alors, quand ils terminent une activité, alors, je donne la consigne pour l’activité prochaine. Heu... et toujours après avoir expliqué, alors, après avoir donné des consignes. Alors, je demande je, je pose des questions pour savoir s’ils ont compris ou pas, et pas seulement : « Vous avez compris ? » Alors, est-ce qu’il faut compléter ? Est- ce qu’il faut travailler deux par deux ? Pour avoir des réponses, des réponses très simples, pour savoir s’ils ont compris ou pas. Mais pas une lon : gue consigne. Jamais. Aluna 2 : Eu, eu divido as instruções em frases simples e curtas. Euh... eu não apresento todas as instruções ao mesmo tempo. Então, quando eles terminam uma atividade, então eu dou a instrução para a atividade seguinte. Euh... e sempre após explicar, então, depois de dar as instruções. Então eu peço... eu... eu pergunto para saber se eles compreenderam ou não, e não apenas: - “Vocês entenderam?” Então, é necessário completar? É preciso trabalhar em dupla? Para obter respostas, respostas muito simples, para saber se eles entenderam ou não. Mas nunca uma lon:ga instrução. Jamais. Professeur : Les autres. Professora: Os outros. Élève 3 : Moi. Aluno 3 : Eu. Professeur : (prénom de l’élève 3). Professora : (nome do aluno 3). 158 Élève 3 : Moi, je demande aux élèves de faire l’activité ou ... d’expression oral, en fait, en général, je prononce, je dis la consigne. Après, je la mets, je la mets au tableau et... je mets ensemble les éléments qui doivent... (inintelligible). Par exemple, si c’est un discours, heu..., peut-être... (inintelligible) par exemple : à mon avis... Aluno 3 : Eu, eu peço aos alunos para fazerem uma atividade ou ... de expressão oral, na verdade, geralmente eu pronuncio, eu digo a instrução. Depois eu a coloco, eu a coloco no quadro e... eu acrescento os elementos que devem... (não compreensível). Por exemplo, se é um discurso, euh... pode ser... (não compreensível). Por exemplo: na minha opinião... Professeur : (Fala sobreposta e não compreensível). Élève 3 : Des choses comme ça, des éléments qu’ils doivent utiliser dans la discussion, heu... consigne, si c’est un exercice du livre, en général, je lis avec, avec eux et je leur demande s’ils ont compris tout ça, à faire, on fait toujours le premier exercice pour savoir s’ils ont bien compris. Aluno 3 : Coisas assim, elementos que eles devem utilizar na discussão, euh... instrução, se é um exercício do livro, em geral, eu leio com, com eles e eu lhes pergunto se compreenderam tudo isso para fazer. A gente faz sempre o primeiro exercício para saber se eles entenderam bem. Professeur : Les autres. Professora : Os outros. Élève 2 : Et c’est intéressant ça, pardon, et c’est intéressant ça parce que si la consigne est écrite, alors je dis, qu’est-ce qu’on va faire ? Lisez d’abord. Alors... Aluna 2 : E isto é interessante, desculpe, e isto é interessante porque se a instrução estiver escrita, então eu digo: o que faremos? Leiam primeiro. Então... Professeur : Ils lisent à voix haute ? Professora : Eles lêem em voz alta ? Élève 2 : Non. Aluna 2 : Não. Professeur : Ils regardent et lisent à voix haute ? Professora : Eles olham e lêem em voz alta ? 159 Élève 2 : Non, Non,... Aluna 2 : Não, não... Professeur : Qui fait lire à voix haute ? Professora : Quem pede para os alunos lerem em voz alta ? Élève 2 : ... silencieusement ils lisent. Et s’ils ne comprennent pas, alors... Aluna 2 : ... eles lêem silenciosamente. E se eles não compreendem, então... Professeur : Vous comprenez à voix haute? C’est à dire qu’ils ont la consigne et on leur demande de lire la consigne à voix haute. Professora : Vocês compreendem em voz alta ? Quer dizer que eles têm a instrução e a gente pede que eles a leiam em voz alta. Les élèves : Oui, oui, oui. Os alunos : Sim,sim, sim. Professeur : (prénom de l’élève 4). Professora : (nome da aluna 4). Élève 4 : Oui, je leur demande à lire à voix haute. Oui, je fais ça au début. Aluna 4 : Sim, eu peço que eles leiam em voz alta. Sim, eu faço isso no início. Élève 5 : (Inintelligible). Quand ils lisent y a pas toute la classe qui comprend, mais quand il y a de l’oral, quand il y a quelqu’un d’autre qui la lit, ils comprennent mieux. Mais les miens, ils sont très petits... (inintelligible). Aluna 5 : (Não compreensível). Quando eles lêem, nem toda a classe compreende, mas quando há o oral, quando alguém a lê, eles compreendem melhor. Mas os meus são muito pequenos... (não compreensível). Élève 3 : Ah oui, avec les adultes, je pense que ça fonctionne mieux avec la lecture silencieuse. Avec moi, par exemple, c’est comme ça. Aluno 3 : Ah sim, com os adultos, eu acho que funciona melhor com a leitura silenciosa. Comigo, por exemplo, é assim. Professeur : (prénom de l’élève 6). Professora : (nome da aluna 6). Élève 6 : Je les fais lire de temps en temps. 160 Aluna 6 : Eu os faço ler de vez em quando. Professeur : C’est à dire, les faire lire à voix haute. Professora : Quer dizer, fazê-los ler em voz alta. Élève 6 : Lire à voix haute. Aluna 6 : Ler em voz alta. Professeur : Est- ce qu’il y a encore d’autres pratiques ? ... (nom de l’élève 7). Professora : Ainda há outras práticas ?... (nome da aluna 7). Élève 7 : Quelquefois je leur demande de lire seuls, pour savoir, pour que quelqu’un ne soit pas... ça veut dire, heu... quelquefois, quelqu’un comprende aux autres... (inintelligible). Aluna 7 : Algumas vezes eu lhes peço para lerem sozinhos, para saber, para que ninguém seja, quer dizer, euh... (...) algumas vezes, alguém compreende aos outros (não compreensível). Professeur : Vous leur demandez de comprendre. Est-ce que vous avez quelque chose que vous permet de savoir qu’ils ont compris ? Professora : Você lhes pede para compreender. Você tem alguma coisa que lhe permite saber se eles compreenderam? Élève 7 : Oui, après, quand ils travaillent. Aluna 7 : Sim, depois, quando eles trabalham. Professeur : Quand ils font ? Professora : Quando eles fazem ? Élève 7 : Oui, quand ils font. Je pense des questions... Aluna 7 : Sim, quando eles fazem. Eu penso em perguntas... Élève 2 : Ou demander à un élève d’expliquer aux autres. J’ai toujours fait ça. Aluna 2 : Ou pedir a um aluno que explique aos outros. Eu sempre fiz isso. Élève 8 : (Inintelligible)... si ce sont eux d’abord. S’ils n’arrivent pas à écouter, c’est moi qui interviens, alors pour les consignes qui sont compliquées. Aluna 8 : Inicialmente, ... (não compreensível), se são eles. Se eles não conseguem escutar, sou eu que intervenho, então, para as instruções que são complicadas. [professora interrompe o aluno oito e faz pergunta ao aluno nove] 161 Professeur : (Prénom de l’élève 9), c’est ça que vous faites aussi ? Professora : (Nome da aluna 9), você faz assim também? Élève 9 : Ça dépend, donc, parce que j’ai des petits heu... (inintelligible) je pense que c’est vraiment difficile de travailler avec les petits parce que, c’est un heu... tout à fait,... (inintelligible) quelque chose qui est complètement inconnue pour eux, parce que la Grèce ça va bien, ils ont (inintelligible), tout ça, mais le français c’est très difficile, donc et quand ils sont tout à fait des petits, heu..., je dois... c’est un peu difficile de trouver des choses qui sont heu... intéressantes... Aluna 9 : Depende, pois tenho alunos pequenos euh... (não compreensível). Na realidade, penso que é difícil trabalhar com os pequenos porque, é um euh... inteiramente (não compreensível) algo que é completamente desconhecido para eles, porque a Grécia vai bem, eles têm... (não compreensível), tudo isso, mas o francês é muito difícil, portanto, e quando eles são pequeninos, euh..., eu devo... é um pouco difícil encontrar coisas que sejam euh... interessantes... Professeur : Pour eux. Professora : Para eles. Élève 9 : Par exemple, quand on fait du présent. Je leur donne deux, deux, ou trois verbes pour conjuguer, pour écrire. Oui. C’est comme ça. Mais c’est la seule manière d’apprendre, d’avoir un mécanisme de penser à ça, mais d’avoir un mécanisme, et puis, heu... j’ai besoin des jeux de rôle, par exemple, ils ont ... (inintelligible), ils miment, donc, par exemple, ils montrent ce qu’ils font, donc, mais heu... après, heu... l’un après l’autre, par exemple : « Je dors, ou je tricote, ou tu rêves », quelque chose comme ça. C’est donc premièrement la théorie, disons, parce que j’ai pas.... ils sont très petits, ils ne comprennent presque rien... et j’ai, j’ai besoin de leur expliquer bien, ce que c’est ça, et puis on fait les exercices oraux. Aluna 9 : Por exemplo, quando se conjuga o presente. Eu lhes dou dois, dois ou três verbos para conjugar, para escrever. Sim. É assim. Mas é a única maneira de aprender, de ter um mecanismo de pensar nisso, mas de ter um mecanismo, e depois, euh... eu tenho necessidade de “jeux de rôle” (atividade em que o aluno, em grupo, desempenha um papel pré-determinado), por exemplo, eles têm (não 162 compreensível), eles fazem mímica, assim, por exemplo, eles mostram o que eles fazem, pois, mas euh... depois, euh... um após o outro, por exemplo: “Eu durmo, ou eu tricoto, ou você sonha”, alguma coisa assim. É assim primeiramente a teoria, digamos, porque eu não tenho... eles são muito pequenos, eles não compreendem quase nada... e eu tenho, eu tenho necessidade de lhes explicar bem o que é isso e depois fazem-se exercícios orais. Professeur : Nous sommes dans une démarche tout à fait traditionelle. Professora : Nós estamos com um procedimento em sala de aula totalmente tradicional. Élève 9 : Oui, je sais mais... Aluna 9 : Sim, eu sei mas... Professeur : Tout à fait traditionelle, mais je crois... Bon, on va pas... Professora : Totalmente tradicional, mas eu creio... Bom, não se vai... Élève 9 : Mais, quand ils sont plus grands c’est un peu différent. Aluno 9 : Mas quando eles são maiores é um pouco diferente. Professeur : On ne va pas partir dans ce domaine là parce que ça c’est un autre domaine, tel que l’autre, et je crois que vous devriez tirer parti du fait que vous êtes ici pour vous intéresser vraiment, ce que c’est l’enseignement précoce... (inintelligible). Et je suis sûre qu’on pourrait, peut être, vous pourriez, peut être, avoir certains documents et vous voyez que ce qu’on fait avec les adultes c’est encore mieux et plus réalisable avec des enfants. Avec des résultats tout à fait meilleurs que ... (inintelligible) et demain jouez le jeu heu... quand je dis, jouez le jeu, c’est à dire vraiment le faire et ne pas... (inintelligible) par rapport à nos étudiants et... moi, je suis convaincue d’une chose depuis à : un certain... temps... en tant que formatrice et enseignante, que nous mésestimons trois sur quatre nos apprenants, on les mésestime et donc... heu... (inintelligible) un petit peu et vous verrez que... (inintelligible). Professora : Não vamos adentrar nesse assunto porque é um outro domínio, tal que o outro, e eu acredito que você deveria tirar partido do fato que você está aqui para se interessar verdadeiramente, no que é o ensino precoce... (não compreensível). E eu estou certa de que se poderia, talvez você poderia, provavelmente dispor de certos 163 documentos e você veria que o que fazemos com os adultos é ainda melhor e mais realizável com as crianças. Com resultados bem melhores que... (não compreensível) e amanhã pratique habilmente, e... quando afirmo, pratique, isto significa que exercitá-los de verdade e não apenas em relação aos nossos alunos e... eu, eu estou convencida de uma coisa, desde: um certo tempo.... enquanto formadora e professora.... que depreciamos um aluno em cada quatro, nós os subestimamos e... assim... um pouquinho e vocês verão que... (não compreensível). Professeur : Alors, ça, ça ne vise, ne règle pas le problème de la consigne. Vous n’avez pas vraiment répondu à ma question au niveau de la consigne, vous avez dit ce que vous faites comme activité. Alors, autre réaction par rapport à la consigne ? Professora : Então, isso, isso não visa ao problema nem regulamenta a instrução. Você, na realidade, não respondeu à minha pergunta quanto à instrução, você disse o que faz como atividade. Então, outra reação no que concerne à instrução? [Os alunos ficam em silêncio]. Professeur : Bien, vous avez une démarche heu.... Il n’y a qu’une démarche qui est quand même un peu différente, mais d’après de ce que vous me dites, bien, vous faites le travail à la place de vos apprenants. Je regrette... et ça c’est TRÈS nocif, au niveau de la consigne. Je dis bien, c’est très nocif. Pourquoi ? Parce que si c’est vous qui remplacez, les tuteurisez, les maternez, parce que vous les maternez. Vous faites le travail à leur place, quand ils seront en jour de l’examen, ou en jour de preuve, devant la consigne, ils ne seront... (inintelligible), c’est à dire que vous faites exactement comme une mère de famille qui fait tout pour ses enfants et le jour où il ou elle est à l’extérieur, il est incapable de faire quoi que ce soit... parce que c’est ma maman, ou la femme, ou la soeur qui font toujours tout. Et quand la personne est à l’exterieur, elle va arriver complètement perdue. Vous en faites des handicapés. Excusez-moi, mais vous en faites des handicapés. Ah ! Quelquefois l’amour tue. Trop d’amour tue, étouffe. Donc, emmenez-les... (inintelligible) pourqu’ils épousent bien,... (inintelligible), nous sommes d’accord ? Donc, c’est pour quoi je dis quelquefois que trop l’amour tue. Ce n’est pas vraiment les aimer que les trop les materner. Vous en faites des handicapés. Pourquoi on fait des handicapés ? S’ils ont une consigne 164 écrite, on verra le cas de la consigne orale après. Si c’est un exercice, une activité... (inintelligible) qui se trouve dans un manuel ou alors c’est un papier que vous avez fait, vous, et que vous leur donnez. La consigne est écrite, pourquoi la réformulée à leur place? Pourquoi, hein ? Pourquoi ? Ils sont pas capables de comprendre ? Ils sont pas capables d’essayer de comprendre ? Si vous réformulez toujours, ils ne vont pas comprendre une consigne qui n’a pas été réformulée. Donc, ça c’est un premier point, on va y revenir. Pourquoi faire lire à voix haute ? Alors, il faut surtout pas faire lire à voix haute. Si vous les faites lire à voix haute, de toute façon il faudrait qu’ils ayent lu d’abord silencieusement. Or la plupart des profs. disent : « Ouvrez le livre à la page telle. Lisez ! ». C’est pas possible ! On ne peut pas lire correctement si on n’a pas lu silencieusement, si on n’a pas compris et c’est la compréhension de ce qu’on lit qui permet de trouver des grands groupes rythmiques..., d’accord ? Par exemple, s’il y a des consignes de ce genre, consignes très simples. Professora : Bem, vocês têm uma prática pedagógica euh... Só há uma prática pedagógica que é de alguma forma diferente, mas de acordo com o que vocês me dizem, bem, vocês fazem o trabalho no lugar de seus alunos. Eu lamento.... e isto é MUITO nocivo, ao nível da instrução. Eu digo que é muito nocivo. Por quê? Porque se são vocês que fazem no lugar deles, vocês os tratam como se fossem bebê, por que vocês os maternalizam (neologismo – tratar os alunos como a mãe trata o bebê). Vocês os substituem. Quando eles estiverem num dia de exame, ou de prova, diante de uma instrução, não serão... (não compreensível), isto é, vocês fazem exatamente como uma mãe de família que faz tudo por seus filhos e quando ele ou ela estiver fora (deste contexto), será incapaz de fazer o que quer que seja... porque é minha mãe ou a mulher ou a irmã que sempre fizeram tudo. E, quando a pessoa estiver fora ficará completamente perdida. Vocês criam deficientes. Desculpem-me, mas vocês criam deficientes. Ah ! Algumas vezes o amor mata. Amor em excesso mata, sufoca, logo, conduza-os... (não compreensível) para que eles se casem bem... (não compreensível), concordam? Assim, é por isso que afirmo que às vezes o amor mata. Não é porque os amamos muito, que vamos tratá-los como crianças. Vocês criam deficientes. Por que produzimos deficientes? Se eles têm uma instrução escrita... Verse-á o caso da instrução oral depois. Se for um exercício, uma atividade... (não 165 compreensível) que se acha em um manual ou então, é um documento que você elaborou, você, e que você mesmo elaborou e lhes deu. A instrução está escrita, por que reformulá-la no lugar deles? Por que, hein? Por quê? Eles não são capazes de compreender? Eles não são capazes de tentar compreender? Se vocês sempre reformulam, eles não vão compreender uma instrução que não tenha sido reformulada. Logo, isto é um primeiro ponto. Nós voltaremos a ele posteriormente. Por que fazê-los ler em voz alta? Então, não é necessário fazê-los ler em voz alta. Se vocês os fazem ler em voz alta seria necessário que eles tivessem inicialmente lido silenciosamente. Ora, a maioria dos professores diz: “Abram o livro em tal página. Leiam!” Não é possível! Não podemos ler corretamente se não lemos silenciosamente, se não compreendemos e, é a compreensão que nos permite encontrar os grandes grupos rítmicos..., concordam? Por exemplo, se há instruções desse tipo, instruções simples. [A professora escreve no quadro, um exemplo de instrução, enquanto fala] Professeur: Pas très simple... (inintelligible). Par exemple : voilà une consigne... [referindo-se ao que foi escrito no quadro]... (inintelligible). Vous demandez à vos apprenants... (inintelligible) de lire à voix haute. Ils n’ont pas, ils n’ont pas eu le temps... les phrases courtes, hein ?, nous sommes d’accord ? Et rares sont les consignes avec des phrases courtes. Y en a, mais pas toujours et même pas avec les débutants. Comment vont-ils lire ? Deux sur trois vont dire : « Lisez les/ phrases/ cidessous », peut être, mais au lieu de dire « Lisez/ les phrases/ ci-dessous » parce qu’il a deux coupes possibles, il y en a beaucoup qui vont avoir des difficultés, pourquoi ? Parce que vous ajoutez, vous faites... (inintelligible) ce qu’on a vu dans les exercices structuraux. Vous faites un exercice de synthèse. Vous leur demandez de, de lire, de comprendre, en lisant et automatiquement ils vont chercher à articuler correctement et à donner une bonne prosodie. Y a quatre choses, alors, qu’on sort... (inintelligible) qu’est-ce que... excusez-moi... (inintelligible) qu’est-ce qu’on cherche ? Vérifiez s’ils ont compris. Professora : Não é tão simples... (não compreensível) Por exemplo : eis uma instrução... [referindo-se ao que foi escrito no quadro]... (não compreensível). Vocês 166 pedem aos seus alunos que a leiam em voz alta. Eles não têm, não tiveram o tempo de... As frases são curtas, não? Concordam? E raras são as instruções com frases curtas. Há, mas nem sempre e, sobretudo para os iniciantes. Como eles vão ler? Dois terços vão dizer: “Leiam as/ frases/ abaixo”, pode ser, mas ao invés de dizer “Leiam/ as frases/ abaixo” porque há dois cortes possíveis, há muitos que terão dificuldades, por quê? Porque vocês acrescentam, vocês fazem... (não compreensível) o que foi visto nos exercícios estruturais. Vocês fazem um exercício de síntese. Vocês lhes pedem para, para ler, compreender lendo, e, automaticamente eles vão procurar articular corretamente e dar uma boa entonação. Há quatro coisas, então, o que aproveitamos...(não compreensível)? O que... desculpem-me... (não compreensível) o que desejamos? Verificar se eles compreenderam. [Concordância por partes de alguns alunos] Élèves : Ahã ! Alunos : Ahã ! Professeur : Ce n’est pas en lisant correctement qu’on va voir s’ils ont compris, or très souvent, quand le professeur va entendre que l’élève a bien lu, soit qu’il lise bien... Qu’est-ce qu’il comprend ? « Ils ont compris. Très bien ! On continue ! Lisez les phrases ci-dessous ! Très bien ! » Et on continue. C’est une tentation, qui est normale. Vous comprenez ce que je veux dire ?... (inintelligible) s’ils ont bien lu, on va comprendre qu’ils ont compris. De la même façon que dans une phase, dans la phase, la première phase d’une unité quand on ... (inintelligible) contact l’apprenant avec un groupe linguistique, par exemple, s’il répète bien, la tentation du prof va à mesure où l’élève a bien répété, bien prononcé, on pense qu’il a compris. C’est une erreur fondamentale ! C’est une erreur fon-da-men-ta-le ! On peut très bien répéter sans y comprendre. Si vous avez une bonne oreille, vous répetez n’ importe quoi. On peut vous faire répéter des insanités, des insultes, n’ importe quoi... (inintelligible). Professora : Não é lendo corretamente que vamos constatar que eles compreenderam. Ora, muito freqüentemente, quando o professor ouve que o aluno leu bem, que ele lê bem... O que é que ele compreende? “Eles compreenderam. Muito bem! Continuemos! Leiam as frases abaixo! Muito bem!” E continuamos. Esta é 167 uma tentação que é normal. Vocês compreendem o que eu quero dizer? .... (não compreensível) se eles leram bem, vamos pensar que eles entenderam. Da mesma forma que em uma fase. Na fase, na primeira fase de uma unidade, quando.... (não compreensível) contato do aprendiz com um grupo lingüístico, por exemplo se ele repete bem, a tentação do professor está na medida em que o aluno repetiu bem, pronunciou bem, de pensar que ele entendeu. Isto é um erro fundamental! É um erro fun-da-men-tal! Podemos muito bem repetir, sem compreender. Se você tem um bom ouvido, você repete qualquer coisa. Podemos fazê-los repetir insanidades, insultos, não importa o que seja... (não compreensível). [Concordância por parte dos alunos] Professeur: Donc, inutile de faire lire à voix haute, n’ajoutez pas de difficultés, qui... (inintelligible) la tentation va être quand ils vont lire. [A professora faz referência às diferentes maneiras equivocadas da leitura da instrução escrita que está no quadro]. Professora: Logo, inútil fazê-los ler em voz alta, não acrescente dificuldades que... (não compreensível) a tentação vai ser quando eles forem ler. Professeur: On va avoir la tentation de corriger la phonétique... (inintelligible). On va multiplier des distracteurs, alors, puisque ce que nous interesse c’est de savoir s’ils ont compris la consigne et de vérifier. Alors, on ne va pas, on ne va jamais lire à voix haute une consigne. Complètement inutile, complètement inutile. En revanche c’est vrai, il faut vérifier s’ils ont compris. Comment peut-on vérifier ? (prénom de l’élève 1), a la solution, mais pas pour lui. Professora : Vamos ter a tentação de corrigir a fonética... (não compreensível). Vamos multiplicar os elementos de distração, então, visto que o que nos interessa é saber e verificar se eles entenderam a instrução. Então, não vamos, não vamos jamais ler uma instrução em voz alta. Completamente inútil, completamente inútil. Por outro lado, é verdade que é preciso verificar se eles compreenderam. Como podemos verificar? (nome do aluno 1) tem a solução, mas não por ele. Élève 1 : La réformulation. 168 Aluno 2: A reformulação. Professeur : Par les élèves, pas par vous. Par vos élèves, par vos apprenants. Vous leur faites, vous leur demandez de regarder, d’observer la consigne et maintenant dites moi ce qu’il faut faire. Dites-moi ce que vous devez faire. Et bien entendu, les premières consignes, on va les faire dans leurs langues, quand ils sont débutants. Et la réformulation après tout. Est-ce que c’est grave qu’ils les reformulent dans leurs langues ? Pas du tout. Puisqu’on veut, c’est vérifier s’ils savent ce qu’il faut faire, c’est tout. Bon, s’ils le disent en portugais, en arabe, en turc, on se moque pour des débutants. Puisqu’il faut dire peu à peu, on va les faire faire en français, bien sûr. Et c’est complètement inutile de se casser la tête à perdre 10 minutes pour réformuler en français, alors qu’ils sont capables de les dire en 30 secondes en portugais, en espagnol... les faits qui sont compris. Alors, comment ils vont, comment ça peut être votre obligation, ça peut être du baragouin. Vous comprenez le baragouin ? C’est à dire, quelque chose qui n’est pas correcte, c’est pas du bon français, c’est pas de leur langue, c’est un mélange de leur langue et du français, des gestes, des... je ne sais pas pourquoi. « Ah ! ben, je dois barrer ou je dois souligner », peut être qu’ils vont faire des gestes. On a vu qu’ils ont réellement compris. Et si c’est incertain, on n’est pas vraiment sûr qu’ils ont compris. On peut faire bien prendre un exemple, de leur demander de donner un exemple, de venir au tableau et de dire ou de faire ce qu’on leur a demandé de faire. C’est ça quoi, ce qu’il faut les habituer, et ça et le mot consigne est un mot introduit dès nos premiers cours. Lisez la consigne, regardez la consigne. Le mot consigne est un mot qui fait parti des mots de la classe, vous savez comme... (inintelligible) asseyez-vous, etc. C’est un mot qui devrait faire parti des mots de la classe, le mot consigne. Alors, on suit. Ils ont réformulé, on a vérifié. Alors, la vérification de... se fait avant l’exercice parce que si on vérifie une fois l’exercice fait, quand il y a des problèmes, qu’ils n’ont pas compris la consigne, là, c’est quand même ennuyant. Parce que vous avez, peut être, perdu 15 ou 20 minutes, pour rien, vous comprenez ? Vérifiez toujours, ou alors prenez un autre exemple. Vous m’apprenez à faire un plat de chez vous. J’ai la recette avec la consigne et si je n’ai pas compris qu’il faut mettre les oeufs avant le lait et moi, je ne sais pas pourquoi et je n’ai que ces deux oeufs là dans la frigidaire, il est dix heures du soir. Qu’est-ce que je 169 fais ? Je ne peux pas commencer... Donc, c’est quand même embetant. C’est la même chose, d’accord ? Donc... réformulez, vérifiez. Réformulation par tous les moyens, montrez. Ils doivent montrer qu’ils ont compris, quoi. Qu’est-ce que c’est... alors à l’oral ? Qui formule la consigne ? Le prof, bien sûr... Et les consignes doivent être une consigne... et là... (prénom de l’élève 2) a tout à fait raison. Comment (prénom de l’élève 2) ? Professora : Pelos alunos, não por vocês. Por seus alunos, por seus aprendizes. Vocês fazem por eles, vocês lhes pedem para olhar, observar a instrução e em seguida... Digam-me o que é preciso fazer. E, evidentemente, que as primeiras instruções, nós vamos fazê-las na língua materna dos alunos, quando eles são iniciantes. E a reformulação depois de tudo. É grave se eles reformularem na sua língua materna? De jeito nenhum, posto que queremos verificar se eles sabem o que é preciso fazer, é tudo. Bom, se eles dizem em português, em árabe, em turco, tanto faz para os iniciantes. Isto não quer dizer que pouco a pouco não possamos fazê-los dizer em francês, é claro. E é totalmente inútil preocupar-se em perder 10 minutos para reformular em francês, então, se eles são capazes de dizer em 30 segundos em português, em espanhol... os fatos que eles compreenderam. Então, como eles vão, como isso pode ser sua obrigação, isto pode ser “baragouin”. Vocês compreendem o “baragouin”? Quer dizer alguma coisa que não está correta, não é um bom francês, não é a língua deles. É uma mistura da língua dos alunos com a língua francesa, como os gestos, e... eu não sei por que. “Ah! Bom, eu devo passar um traço ou eu devo sublinhar”, pode ser que eles façam gestos. Vimos que eles realmente compreenderam. E se é duvidoso, se não temos a certeza absoluta que eles compreenderam, podemos solicitar um exemplo, pedir-lhes para dar um exemplo, para ir ao quadro e dizer ou fazer o que lhes pedimos para fazer. É isto a que lhes devemos habituar. E a palavra instrução é uma palavra introduzida desde nossas primeiras aulas. Leiam a instrução, observem a instrução. A palavra instrução é uma palavra que faz parte das palavras da sala de aula, vocês sabem como... (não compreensível) sentem-se, etc. É uma palavra que deveria fazer parte das palavras de sala de aula, a palavra instrução. Então, prosseguiremos. Eles reformularam, nós verificamos. Então, a verificação de... faz-se antes do exercício, porque, se 170 verificamos uma vez o exercício feito, quando há problemas, porque eles não compreenderam a instrução, torna-se desestimulante porque se vocês perderem provavelmente 15 ou 20 minutos para nada, vocês compreendem? Verifiquem sempre, ou então apresentem um outro exemplo. Vocês me ensinam a fazer um prato típico de seus países. Eu tenho a receita com as instruções, e, se eu não compreendi que é necessário colocar os ovos antes do leite e eu, eu não sei por que... e só tenho dois ovos na geladeira, são dez horas da noite... O que é que eu faço? Eu não posso começar... Assim, fico aborrecida. É a mesma coisa, de acordo ? Assim... reformulem, verifiquem. Reformulação por todos os meios, apresentem. Eles devem demonstrar, isto, que compreenderam... O que é ... então no oral? Quem formula a instrução? Sem dúvida o professor... E as instruções devem ser uma instrução... e aí (nome da aluna 2) está totalmente certa. Como (nome da aluna 2)? Élève 2 : Courtes. Aluna 2 : Curtas. Professeur : Courtes. C’est à dire que... elle va se faire par étapes et, en général ce qui est très mauvais, c’est de dire : « Prenez votre livre à la page 40, regardez l’exercice 10, lisez la consigne et allez-y (pause, 6 secondes) Que ça ?! Professora : Curtas. Quer dizer que... ela vai ser feita por etapas e, em geral, o que é muito ruim, é dizer: “Pegue seu livro e o abra na página 40. Observe o exercício 10, leia a instrução e faça a atividade (pausa, 6 segundos) Que é isso?! Élève 1 : C’est mauvais ! Aluno 1 : Isto é ruim. Professeur : Prenez votre manuel à la page 40... Bon, vous y êtes, c’est l’exercice 10... Lisez la consigne... qu’est –ce qu’il faut faire ? (inintelligible). Ou alors, vous allez vous mettre en groupe de quatre ou de sept ou de trois. Bon, ça c’est un autre problème, le numéro de personnes par groupe. Si on aura l’occasion, si c’est nécessaire on en parlera, heu... ! Donc, mettez-vous en groupe, vous lisez le texte et puis après, vous allez essayer, en groupe, de vous mettre d’accord et de comprendre. Alors, ce que je voudrais c’est un résumé du texte et aussi, je voudrais que vous souligniez tous les mots inconnus et... heu... vous pouvez expliquer à vos camarades après les mots, que vous aurez compris et eux, ils vous expliquent, point. Allez-y !... 171 Professora : Pegue o seu manual na página 40... Bom, vocês já a encontraram. É o exercício 10... Leiam a instrução... O que é necessário fazer... (não compreensível)? Ou então, vocês vão se colocar em grupo de quatro, de sete ou de três. Bom, isso é um outro problema, o número de pessoas nos grupos. Se tivermos oportunidade, se for necessário, falaremos sobre isso, euh... Assim, coloquem-se em grupos. Leiam o texto e depois vocês vão tentar, em grupo, concordar com as opiniões e compreender. Então, o que eu gostaria é de um resumo do texto e também, que vocês sublinhassem todas as palavras desconhecidas e... euh... vocês podem explicar aos seus colegas os vocábulos que vocês compreenderam e eles farão o mesmo, ponto final. É só. [Risos dos alunos] Élève 3 : Ils ont déjà oublié. Aluno 3: Eles já esqueceram. Élève 2 : Ils vont demander : « Qu’est –ce qu’il faut faire ?! » Aluna 3 : Eles vão perguntar : « O que é preciso fazer ?!”. [risos]. Professeur : (risos) Qu’est-ce qu’il faut faire ?! Professora : (risos) O que é preciso fazer ?! Élève 2 : Oui. Aluna 2 : Sim. Professeur : Parce que le temps de se mettre en groupe... ils ont tout oublié et qui a eu là... (simulando o barulho de cadeiras sendo arrastadas) un bruit musical de la part du prof, ils ont écouté les premiers mots... (inintelligible) Donc, là il y a eu aussi toute une activité dès qu’on met les gens en groupes, surtout avec des débutants ou de gens moyens jusqu’à B1... , il est préférable. Lorsqu’ils ont déjà un grand niveau en français, c’est différent de leur dire de se mettre en groupe ou de constituer le groupe. Ça dépend. Ça c’est un autre problème, de travailler en groupe... (inintelligible) groupes... (inintelligible) qu’ils soient en groupes pour donner la consigne, si elle est orale, mais ne donnez jamais la consigne avant... parce que c’est sûr, ils vont (inintelligible) perdre de temps beaucoup. On va constituer les groupes, on va faire constituer les groupes... Qu’est-ce que vous faites ? Vous les constituezvous ou vous les faites constituer par eux ? 172 Professora : Porque durante o tempo de se organizar, de se colocar em grupo, eles esqueceram tudo e quem teve... (simulando o barulho de cadeiras sendo arrastadas) um barulho musical da parte do professor... eles escutaram as primeiras palavras (não compreensível). Assim, houve nesse momento, toda uma atividade, desde que colocamos os alunos em grupos, sobretudo com os iniciantes, ou os alunos de nível médios até o nível B1..., de preferência. Quando eles já têm um bom nível de francês, é diferente, para lhes dizer de se organizarem em grupos ou mesmo para os constituírem. Isto também depende, é um outro problema trabalhar em grupo... (não compreensível) quer eles estejam em grupo para apresentar a instrução, se ela for oral, porém jamais apresentá-la antes ... porque é evidente que eles têm... (não compreensível) vão perder muito tempo. Vamos constituir os grupos ou deixar que eles os constituam? O que vocês fazem? Vocês os constituem ou permitem que eles o façam? Élève 2 : Ça depend. Aluna 2: Depende. [Os alunos conversam entre si] Professeur: C’est vous qui les constituez? (A professora se dirige a uma aluna). Professora: É você que constitui os grupos? (A professora se dirige a uma aluna). Élève 4: Oui, parce qu’ils sont petits et si je dis: « Allez, constituez des, des groupes, ça peut être... (inintelligible). Aluna 4 : Sim, porque eles são pequenos e se eu disser : Vão, constituam os, os grupos, isto pode ser... (não compreensível). [Os alunos relatam suas estratégias de divisão de grupos e justificam suas escolhas, quais sejam: de forma aleatória, misturando os alunos considerados fracos com os alunos considerados fortes, separando os fortes dos fracos, etc]. Professeur: Je crois pas que ça soit la meilleure solution. Je ne crois pas que ça soit la meilleure solution. Je veux dire pourquoi, je crois qu’il faut que vraiment le groupe se mélange et... (inintelligible) un groupe fort et un groupe faible, s’est tombé comme ça. Un groupe dans lequel il y a des forts et des faibles mais qui, moi je préfère... 173 (inintelligible) jusqu’à qu’ils ayent appris à travailler en groupe, c’est à dire, jusqu’à qu’ils ayent appris à travailler avec un tas de gens différents de la classe. Et lorsqu’après on peut les laisser se mettre en groupe d’eux mêmes, ils vont se mélanger. Effectivement... (inintelligible) une petite parenthèse que je fais (inintelligible) ce n’est pas le thème de notre... cours. C’est le fait que si vous constituer les groupes involontierèment pour mettre très souvent les mêmes ensemble, ils vous diront au bout d’un moment : « Madame, pourquoi je travaille toujours avec tel ? Madame, pourquoi je n’ai pas travaillé jamais avec un tel ? »... heu... Si vous les laissez se mettre en groupe et si vous vous annoncez avant qu’on va faire un exercice de grammaire, ils vont dire : « Ah grammaire, je veux de... (inintelligible) ah, mais je ne veux pas de... (inintelligible) parce qu’en grammaire... (inintelligible), mais si je dis lexique, « Ah ! je veux... (inintelligible) » si vou voulez. C’est à dire que, ils vont choisir en fonction de l’activité et ça c’est pas normal ou alors vous allez avoir des rivalités entre enfants. Ils ne s’aiment pas pour une raison X ou Y, et je trouve que c’est justement le moment de leur faire travailler ensemble, puisqu’ils se connaissent. Parce que, en général, s’ils ne s’aiment pas, c’est très souvent qu’ils ne se connaissent pas ou qu’ayent, disons, un préjugé. Donc, il faut qu’ils travaillent. Je ferme la parenthèse. Toujours, ... (inintelligible) quelque que soit la façon que vous constituez les groupes, là aussi, il faudrait parler de nombres de personnes par groupe et là... j’ai pris de ma part éviter les groupes pairs, ni deux, ni quatre, sauf pour les activités très mécaniques, à la rigueur, mais jamais de groupes pairs. Et le nombre optimal surtout si vous faites de la créativité c’est ... cinq... cinq est le chiffre optimal si vous faites de la créativité et pas trois. Trois c’est pas mal mais cinq c’est le chiffre. Professora : Não creio que esta seja a melhor solução. Eu não acredito que esta seja a melhor solução. Eu vou dizer o porquê, creio que é necessário que o grupo se misture e... (não compreensível) um grupo forte e um grupo fraco, fica assim. Um grupo no qual há fortes e fracos, mas que... eu prefiro... (não compreensível) até que eles tenham aprendido a trabalhar em grupo, isto é, até que eles tenham aprendido a trabalhar com diferentes pessoas da sala. E quando... (não compreensível). Depois podemos deixá-los escolher os grupos, eles próprios, eles vão se misturar. Na verdade... (não compreensível) pequenos parênteses que eu faço... (não 174 compreensível) não é o tema de nossa.... aula. É o fato de se vocês constituírem os grupos involuntariamente, para colocá-los freqüentemente juntos, eles lhes dirão num determinado momento: - ”Professora, por que eu trabalho sempre com tal pessoa? Professora, por que eu nunca trabalhei com tal pessoa?” ... euh... Se vocês deixá-los formar os grupos e disser antes que farão um exercício de gramática, eles vão dizer: « Ah! gramática, eu quero... (não compreensível) ah! mas eu não quero... (não compreensível) porque em gramática... (não compreensível). E se disser: léxico, “Ah! eu quero... (não compreensível)”. Se vocês quiserem. Isto quer dizer que eles vão escolher os colegas do grupo em função da atividade e isto não é normal ou então, vocês vão ter rivalidades entre as crianças. Eles não se gostam por uma razão X ou Y, e eu penso que é justamente o momento de fazê-los trabalhar juntos, visto que eles se conhecem. Porque em geral, se eles não se gostam porque, muito freqüentemente, não se conhecem ou têm, digamos, um preconceito, logo, é preciso que eles trabalhem. Eu fecho os parênteses. Sempre... (não compreensível) qualquer que seja a maneira que vocês constituem os grupos, aí também é preciso falar do número de pessoas por grupo e aí, eu pessoalmente decidi evitar os grupos pares, nem dois, nem quatro, exceto para as atividades muito mecânicas a rigor, mas jamais grupos pares. E o melhor , sobretudo se vocês trabalham com a criatividade é ... cinco... cinco é o número ótimo, se vocês usam a criatividade e não três. Três não é ruim, mas cinco é o número. Élève 5 : Je n’ai pas beaucoup d’apprenants dans les salles. Aluna 5 : Eu não tenho muito alunos nas salas de aula. Professeur : Ça dépend du nombre. Si vous n’en avez pas beaucoup, bien sûr vous faites de deux ou de trois. Professora : Isto depende do número. Se você não tem muitos, é claro que você faz de dois ou de três. [aluna falando (inintelligible). C’est pour ça que je...] Professeur : Mais cinq c’est un très bon nombre et si vous avez de dix ça vaut mieux deux groupes de cinq... Si c’est des activités de créativité, nous sommes d’accord ? 175 Professora : Mas cinco é um número muito bom e se vocês tiverem dez, é melhor dois grupos de cinco... se são atividades de criatividade, estamos de acordo? Un élève : Oui Um aluno : Sim Professeur : Parce que là vous avez, avez un équilibre de forces... ça va s’équilibrer... tout le monde va participer, bon, donc, on les met en groupes, ils se mettent en groupes, le hasard les met en groupe, comme vous voulez. À ce moment là et à ce moment là seulement, vous donnez votre consigne. Si c’est une consigne. Que faire... après ? Qu’est-ce qu’on a fait tout à l’heure ? Ils ont une consigne et réformulent. Pendant... Donner la consigne qu’est-ce qu’on aurait demandé ? ... la même chose, de réformer, c’est à dire, pas vraiment répéter. C’est qu’on aurait dit, pas répéter comme un perroquet, mais réformuler... et la réformulation, que ce soit à l’oral ou à l’écrit doit toujours être un terme d’action, vous comprenez d’action. Premièrement, je fais ça ; deuxièmement, je fais ça ; troisièmement, je fais ça ; c’est à dire, par étapes et par verbes d’action. D’abord j’écoute, il y aura une cassette, après je regarde, ou, d’abord je regarde une grille. Normalement : « Regarde la grille avant d’écouter ». Je regarde les questions avant de lire, je regarde, j’observe... (inintelligible) ce matin... vous les verrez toute la semaine, dans le processus. Je regarde la grille après j’écoute. Quand je regarde la grille, j’essaie de deviner qu’est-ce qu’il y a pour me guider. J’écoute... pendant l’écoute je peux, peut- être, barrer... déjà, cocher... et puis après, bon ah ! je fais ça... mais... par étapes et en reformulant par activité, un terme d’action, nous sommes d’accord ? Ça ce sont des consignes ? Non, ça va ? ... Alors un autre élément maintenant de réfléxion... Ça c’est plutôt pour les consignes écrites d’abord, on va bien voir la consigne orale ensuite. Consigne écrite, vous allez avoir quelque chose comme ça, une phrase. Professora : Porque aí vocês têm, têm um equilíbrio de forças... isso vai equilibrar, todos vão participar. Bom, assim nós os colocamos em grupos, eles se colocam em grupos, o acaso os coloca em grupos, como vocês quiserem. Neste momento e apenas neste momento, vocês apresentam a instrução. Se é uma instrução. O que fazer... depois ? O que fizemos agora mesmo ? Eles têm uma instrução e reformulam-na. Enquanto apresentar uma instrução, o que teríamos que pedir? ... a 176 mesma coisa, ou seja, de reformular, isto é, não necessariamente repetir. Foi o que dissemos, não repetir como um papagaio, mas reformular... e a reformulação, quer seja oral ou escrita deve sempre ter um termo de ação, vocês compreendem termos de ação? Primeiramente, eu faço isso; em seguida eu faço isso; depois eu faço aquilo; quer dizer, por etapas e com verbos de ação. Inicialmente eu escuto, haverá uma fita cassete; depois eu olho ou de início eu olho a tabela. Normalmente: “Observe a tabela antes de escutar”. Eu olho as perguntas antes de ler, eu olho, observo... (não compreensível). Nesta manhã... vocês os verão a semana toda, no desenrolar. Olho a tabela, depois escuto. Quando eu observo a tabela, tento adivinhar qual será o conteúdo para me guiar. Escuto... Durante a escuta, percebo que devo riscar..., talvez marcar... e logo em seguida, bom, ah! Eu faço isso... mas ... .por etapas e reformulando por atividade, um termo de ação, vocês concordam? São as instruções? Não, está certo ?... Então, um outro elemento agora de reflexão... Isto é de preferência para as instruções escritas inicialmente, em seguida, veremos a instrução oral. Instrução escrita, vocês terão alguma coisa assim, uma frase. [A professora escreve um exemplo de instrução no quadro, enquanto fala] Professeur: Ça c’est la consigne... d’accord ? Vous avez quatre morceaux ou trois morceaux, d’accord ? Une consigne, même avec des petites phrases, hã ! Courtes. Ou alors la même consigne va être disposée comme ça. Professora : Isto é a instrução... de acordo? Vocês têm quatro partes ou três partes, de acordo? Uma instrução, mesmo com as frases pequenas, viram! Curtas. Ou então a mesma instrução vai ser disposta desta forma. [A professora altera a disposição da instrução que fora escrita no quadro] Professeur: Et la consigne c’est la même, avec quelle disposition vont-ils mieux la comprendre, pourquoi ? C’est le pourquoi qui m’intéresse. Professora : E as instruções são as mesmas, com qual disposição eles vão compreender melhor, por quê? É o porquê que me interessa. Les élèves : La deuxième. Os alunos: A segunda. Professeur : Pourquoi ? 177 Professora : Por quê ? Élève 2 : D’abord, après, ensuite. Aluna 2 : Primeiro, depois, em seguida. Professeur : Mais oui, c’est tout. Alors, elle dit la deuxième parce qu’il y a les etapes. Professora : Claro, é tudo. Então, ela diz a segunda porque há as etapas. Élève 2 : Oui, c’est ça. Aluna 2 : Sim, é isso. Professeur : C’est pas suffisant comme explication. Professora : Não é suficiente como explicação. Élève 3 : C’est plus visuelle comme ça, je pense. Aluno 3 : É mais visual assim, eu acho. Professeur : (inintelligible) voir les étapes. C’est pas suffisant... Pour moi c’est pas suffisant. Professora : (não compreensível) observar as etapas, não é suficiente. Para mim não é suficiente. [Barulho de cadeira sendo arrastada] Professeur : Vous avez raison, voir les étapes. Mais y a un autre phénomène. Professora : Vocês têm razão, observar as etapas. Mas há um outro fenômeno. Élève 1 : J’ai numéroté. Aluno 1 : Eu enumerei. Professeur : Non, parce qu’on peut très bien avoir des numéros ici, non ; là même il n’y a pas de numéros, heu... d’accord ? Y a un phénomène quand je vous leur dis, vous allez bien ? Ah oui, en effet, c’est l’oeuf de Colombe... (inintelligible). Vous connaissez l’histoire de l’oeuf de Colombe ? Professora : Não, porque podemos muito bem ter números aqui, não; lá não há números, euh... de acordo? Há um fenômeno quando eu lhes : vocês vão bem? Ah sim, na realidade, é o ovo de Colombo (não compreensível). Vocês conhecem a história do ovo de Colombo? Élève 2 : Oui. Aluna 2: Sim. Professeur : Christophe Colombe. Comment faire tenir un oeuf debout ? Personne n’y arrive et Christophe Colombe fait. Professora : Cristóvão Colombo. Como fazer um ovo ficar em pé? Ninguém conseguiu e Cristóvão Colombo fê-lo. 178 Élève 2 : Ah, mais si c’était pour faire comme ça, je savais... Aluna 2 : Ah, mas se fosse para fazer assim, eu saberia... Professeur : Ça s’appelle l’oeuf de Colombe. Professora : Isto se chama o ovo de Colombo. Élève 2 : Parce que les phrases sont courtes ? Aluna 2 : Porque as frases são curtas ? Professeur : Non, c’est pas ça. Professora : Não, não é isso. Élève 1 : Elles sont... Aluno 1 : Elas são... Élève 11 : À l’ordre, elles sont à l’ordre. Aluna 11 : Na ordem, elas estão na ordem. Professeur : Y a une chose qui en général... Professora : Há uma coisa que em geral... Élève 11 : Et le processus heu... Aluna 11 : E o processo euh... Professeur : Ah ! Alors, quel est le processus ? (prénom de l’élève 11), (prénom de l’élève 11), quel est le processus ? Professora : Ah ! Então, qual é o processo ? (nome da aluna 11), (nome da aluna 11), qual é o processo ? Élève 11 : La pensée, la pensée de... Aluna 11 : O pensamento, o pensamento de... Professeur : Non, beaucoup plus simple. Il y a quelque chose qui se passe là, c’est vrai, mais simple. Professora : Não, muito mais simples. Há algo que aí se passa, é verdade, mais simples. 179 [Um aluno fala, não compreensível] Professeur: Que les profs sont compliqués ! (risos) Professora : Como os professores são complicados ! (risos) [Todos riem] Élève 2 : (inintelligible) C’est facile ? Non. Aluna 2 : (não compreensível) É fácil? Não. Professeur : Non. Professora : Não. Élève 11 : Non, non, c’est le processus de .... d’ordre... Aluna 11 : Não, não, é o processo de ... de ordem... Professeur : Je vais vous aider. Il y a un phénomène dont on n’est pas conscient et pourtant, et pourtant, si vous faites attention, je suis sûre que vous le faites tous. Lorsque vous lisez... (inintelligible) et votre oeil est déjà là. Professora : Eu vou lhes ajudar. Há um fenômeno do qual não somos conscientes, e portanto, e portanto, se prestarem atenção, tenho certeza de que vocês todos fazem. Quando você lê, (não compreensível) e o seu olho já está aí. [A professora fala mostrando a instrução que havia sido escrita no quadro] Les élèves: Ouais. Os alunos: Sim. Professeur: Quand on lit, on antecipe toujours ce qui suit par l’oeil, nous sommes d’accord ? Professora : Quando lemos, antecipamos sempre o que segue, pelos olhos, vocês concordam ? Les élèves : Oui [concordância por parte dos alunos] Alunos: Sim [concordância por parte dos alunos] Professeur : Ça, c’est un phénomène et c’est universel. Vous êtes turcs, vous êtes serbes, vous êtes... ce que vous voulez. Partout... (inintelligible) l’antecipation existe. Quand on antecipe, on n’a pas fini de lire et d’assimiler ça que déjà on a ça en tête. 180 Professora : Isto é um fenômeno e é universal. Quer vocês sejam turcos, sérvios, quer sejam, o que quiserem. No mundo inteiro a antecipação existe. Quando antecipamos, não terminamos de ler e de assimilar e já temos isso na cabeça. Élève 11 : Ouais. Aluna 11 : Sim. Professeur : Résultat, quand on lit comme ça, après on a besoin de s’arrêter de lire. Qu’est-ce que j’ai lu ? Je dois... réflechir... Professora : Resultado, quando lemos assim, depois precisamos parar de ler. O que foi que eu li? Eu devo... refletir... Élève 11 : On prévient... Aluna 11 : Prevemos... Professeur : assimiler... (inintelligible) on revient, c’est à dire, on fait une pause qui va être plus ou moins longue... (inintelligible) qu’est-ce que j’ai lu ? Qu’est-ce que j’ai lu ? Professora : assimilar... (não compreensível) voltamos, quer dizer, fazemos uma pausa que vai ser mais ou menos longa... (não compreensível)? O que eu li? O que eu li? Élève 11 : Uhum. Aluna 11: Uhum. Professeur : Alors que... si vous lisez comme ça, vous ne pouvez pas anticiper. Professora : Ao passo que... se você ler assim, você não pode antecipar. Élève 11 : uhum. Aluna 11: Uhum. Professeur : Vous êtes obligés de revenir à la ligne. Et le milliard ou les dix milliers, je ne sais pas pourquoi, des secondes pendant lesquelles vous revenez à la ligne, c’est comme dans... avec la fonction entrer sur l’ordinateur, tap, tap. Vous comprenez ? Professora : Vocês são obrigados a reler. E os milhões ou os dez milhares, eu não sei por que, de segundos durante os quais você volta, é como na... com a função “enter” no computador: tap, tap. Estão compreendo? Élève 2 : Oui. 181 Aluna 2 : Sim. Professeur : Ça fait comme... entrer. J’enregistre là (inintelligible), j’ai compris, je continue, c’est à dire qu’en les disposant de cette façon, vous allez enregistrer une information à la fois. Alors que là c’est comme ça (inintelligible) vous comprenez ce que je dis. C’est pourquoi on est obligé de réflechir pour les mettre en tête. C’est bon ? Donc, dans la mesure du possible, si c’est vous qui rédigez une consigne... écrite à vos élèves. Ne la rédigez pas comme ça [neste momento a professora fala mostrando o exemplo que está no quadro, no qual as frases estão em seqüência], rédigez comme ça [mostrando o segundo exemplo, no qual as frases, além de curtas, estão dispostas uma em cada linha]. D’accord? Dans la mesure du possible. Alors, lorsque c’est possible les éditeurs les font, bien sûr quelquefois heu... j’ai des collègues qui me disent : « Mais (nom du professeur) ça c’est toi qui l’as fait, mais pourquoi la consigne n’est pas disposée comme s’agit là ? » Oui, mais, moi je propose, mais après, lorsqu’ils font la composition en édition, ils ont des contraientes eux, que moi je ne domine pas. Ils ne vont pas perdre une autre page, quand dans un livre il y a un nombre limité de pages. Ils vont pas mettre en autre cahier. Un cahier en édition c’est huit pages supplémentaires. Huit pages, et huit pages supplémentaires dans un livre, ça coûte cher. Donc, ils ont une contrainte en nombre de pages, ils sont quelquefois forcés de... quel est le résultat... dont... pour nos apprenants ? Si on a une consigne qui est écrite comme ça ? Et on ne peut pas faire d’autrement sinon leur demander de... stop. Tu arrêtes là. Tu arrêtes. Tu ne continues pas à lire pour que après tu lises eventuellement au début leur dire : « Cachez » (risos) « Cachez la suite. Cachez ce qui vient après le point (inintelligible) quelque chose qui cache, au début. Professora : Isto faz como: enter. Eu registro aí... (não compreensível), eu compreendi, eu continuo, quer dizer que, colocando desta maneira, vocês vão registrar uma informação cada vez. Então lá é dessa forma... (não compreensível). Vocês compreendem o que eu digo. É porque somos obrigados a refletir para colocálos na cabeça. É bom? Assim, na medida do possível, se é você que redige uma instrução... escrita, aos seus alunos. Não a redijam desta forma [neste momento a professora fala mostrando o exemplo que está no quadro, no qual as frases estão em seqüência], redijam desta forma, [mostrando o segundo exemplo, no qual as frases, 182 além de curtas, estão dispostas uma em cada linha]. De acordo? Na medida do possível. Então, desde que possível, os editores fazem, certamente, algumas vezes euh... eu tenho colegas que me dizem: “Mas (nome da professora) foi você quem fez, mas por que a instrução não está disposta como deve ser?” Sim, mas, eu proponho. Porém quando eles fazem a composição na edição, têm suas limitações, que eu não domino. Eles não vão perder uma outra página, quando num livro há um número limitado de páginas. Eles não colocarão um outro caderno. Um caderno de edição são oito páginas suplementares. Oito páginas, e oito páginas suplementares, num livro, custam caro. Por isso, eles têm um limite do número de páginas. Algumas vezes são forçados a ... Qual é o resultado... pois,... para nossos aprendizes se uma instrução está escrita assim? E não podemos fazer de outra forma, senão a de pedirlhes para ... parar. Você, páre aí. Você pára. Você não continue. “Marquem” (risos) Marquem o que vem depois do ponto (não compreensível) alguma coisa que esconde, no início. Les élèves : uhum, uhum... Alunos : Uhum. Uhum... Professeur : Faut les habituer à lire correctement. Dans une consigne. La consigne doit être enoncée en phrases simples : sujet, verbe, objet ; sujet, verbe, objet. Et à l’oral c’est pareil. Si vous vous surprenez à l’oral en train de dire : euh... et... euh... et, et, qui, que, que, que, et vous prenez l’exercice qui et que et qui (inintelligible). Pas de phrases relatives, pas de coordination, s’il vous plaît. Normalement une action et une seule, ceci ou moins pendant tous les niveaux A1, A2 et... (inintelligible) début B1. Après, lorsque vous augumentez en niveaux, vous pouvez avoir des consignes plus complexes avec de qui, mais... (inintelligible), nous sommes d’accord ? C’est clair ? Donc, attention au traitement de la consigne... Alors, je vous donnerai un document. C’est un document qui vient d’un matériel pour enfants. Puisqu’on fait en français, dans l’étranger on ne trouve pratiquement rien sur la consigne ou alors, sur la façon de la traiter. Alors, je vous donne ce document. Vous avez le... euh... ce document se trouve à la bibli, à la mediathèque. C’est un gros carnet comme ça... (inintelligible). Carnet, cahier et là, si je pense, je pense, par exemple là, à (nom de l’élève 8) ou à ceux qui ont des enfants. C’est un matériel pour enfants, à l’ecole primaire en 183 France... c’est à dire, même pour les enfants plus jeunes que vous (risos). Plus jeunes que vos apprenants. (...) Ah! C’est pas vrai. Ah non, mais ce n’est pas vrai. (risos) Elle n’a fait que la première. Professora : É preciso habituá-los a ler corretamente, em uma instrução. A instrução deve ser enunciada com frases curtas: sujeito, verbo, objeto; sujeito, verbo, objeto. E no oral é parecido. Se vocês se surpreenderem na forma oral dizendo: heu...e... heu.../ e, e, quem, que, que, e vocês usarem o exercício “qui e que” (não compreensível). Nada de frases relativas, nada de coordenação, por favor. Normalmente uma ação e uma só, isso pelos menos nos níveis A1, A2 e... (não compreensível), no início de B1. Posteriormente, quando vocês crescem, quanto aos níveis, vocês poderão dispor de instruções mais complexas com relativos, mas... (não compreensível) Vocês concordam? Está claro? Assim, atenção ao tratamento da instrução... Então, eu lhes darei um documento. É um documento oriundo de um material para crianças. Ele é elaborado em francês, visto que no exterior não se encontra praticamente nada sobre instrução ou então sobre a forma de tratá-la. Então, eu dou para vocês esse documento. Vocês têm o... heu... este documento se encontra na bibli... na mediateca. Trata-se de um caderno bastante volumoso, ...(não compreensível) Caderno, livro... Quando o vejo penso, eu penso, por exemplo em...(nome da aluna 8) ou naqueles que trabalham com crianças. É um material para crianças, da escola primária na França... isto é, mesmo para crianças mais jovens que vocês (risos). Mais jovens que seus alunos. (...) Ah ! Não é verdade. Ah não, mas não é verdade. (risos) Ela só fez a primeira. Élève 11: La première feuille. Aluna 11 : A primeira folha. Professeur : Je ne vous les donne pas. Alors, je vous... (inintelligible) c’est pas vrai. Ah non ! Ah non ! (risos) Je vous en donnerai demain... (inintelligible) (...) Si vous voyez des montagnes de documents que nous photocopions en ce moment au (nom du Centre de Formation). Je pense que c’est au minimum une grande foret qui disparaît pendant l’été au... (nom du Centre de Formation). Alors, l’évaluation de la compréhension de la consigne. Évaluation... (inintelligible). 184 Professora : Eu não vou lhes dar. Então, eu... (não compreensível). Não é verdade. Ah não! Ah não! (risos) Dou para vocês amanhã... (não compreensível). Se vocês virem as montanhas de documentos que nós fotocopiamos neste momento no (nome do Centro de Formação). Eu acho que é no mínimo uma grande floresta que desaparece durante o verão no (nome do Centro de Formação). Então, a avaliação da compreensão da instrução. Avaliação... (não compreensível) [A professora é interrompida pela atitude de uma aluna que quer abrir as janelas da sala. A professora a adverte quanto da entrada de ar quente, caso as janelas sejam abertas. Alguns alunos não concordam e dizem que abrindo as janelas uma corrente de ar refrescará o ambiente. Assim, a professora permite que os alunos abram as janelas, se acharem conveniente] (1min 46 segundos) Professeur: Alors... [os alunos conversam enquanto a professora tenta chamar a atenção dos mesmos para continuar a aula]. (inintelligible) n’est pas toujours consideré comme faisant parti de la tâche à accomplir. Et en réalité, c’est vrai, l’évaluation de la consigne fait parti du travail qu’ils doivent accomplir. Donc, souvent le prof... (inintelligible) “Vous avez compris? Oui? » Allez, on continue. Alors, la situation donc... heu, la compréhension... (inintelligible) a explicité le contenu de la consigne. Alors, réformuler,... (inintelligible) écrire de manière exaustive les différentes étapes de son application, développer chez les élèves une sorte de conditionnement à l’insistence et dispensant de l’effort de réflexion individuel, c’est à dire, vous faites le travail à leur place. (inintelligible) Alors, il y a un élément très intéressant... (inintelligible), tout le matériel qu’on peut travailler auprès des enfants, sur les verbes qui figurent dans les consignes, et là je ne saurais plus insister, car en réalité dans les verbes qui sont dans une consigne que, vous allez les avoir de deux types : vous allez avoir des verbes qui induisent une trace graphique, c’est à dire, dans l’activité que vous allez faire il y a une trace graphique qu’il faut faire : souligner, barrer, cocher, et là, méfiez-vous, il y a vraiment des éléments culturels... heu... cocher... il y a de gens et culturelement, et je peux vous dire que même chez les professeurs... (inintelligible). 185 Professora : Então... [os alunos conversam enquanto a professora tenta chamar a atenção dos mesmos para continuar a aula]. (Não compreensível) não é sempre considerado como fazendo parte da tarefa a ser completada. E, em realidade, é verdade. A avaliação da instrução faz parte da tarefa que eles devem completar. Por isso, freqüentemente o professor... (não compreensível) “Vocês compreenderam? Sim?” Vamos, continuemos. Então, a situação pois... euh, a compreensão... (não compreensível) explicitou o conteúdo da instrução. Então, reformular, (não compreensível) escrever de maneira exaustiva as diferentes etapas de sua aplicação, desenvolver nos alunos um tipo de condicionamento à insistência, dispensando-lhes esforço de reflexão individual, isto é, vocês fazem o trabalho no lugar deles. (não compreensível) Então, há um elemento muito interessante... (não compreensível), todo o material que podemos trabalhar junto às crianças com os verbos que figuram nas instruções, e isso eu não poderia deixar de insistir, porque na realidade, nos verbos que estão em uma instrução que, vocês vão tê-los de dois tipos: vocês terão verbos que induzem a um traço gráfico, quer dizer, na atividade que vocês farão há um traço gráfico que é preciso fazer: sublinhar, riscar, marcar, e aí, prestem atenção, há muitos elementos culturais... euh... marcar, há pessoas e... culturalmente, e eu posso lhes dizer que mesmo para os professores... (não compreensível). [A professora explica o valor cultural desses verbos apresentando alguns exemplos. Em seguida, destaca a importância de variar os verbos utilizados e sugere mais exemplos]. (1min 40 segundos) Professeur: Donc, débrouillez-vous de telle sorte que dans vos exercices tous ces verbes là apparaissent (inintelligible). Professora: Assim, sejam hábeis de tal forma que, em seus exercícios constem todos esses verbos... (não compreensível). [A professora destaca a importância do aluno manter contato com os mais variados verbos, durante as instruções. Assim, o mesmo não apresentará dificuldades em um dia de exame]. 186 [Observação de uma aluna quanto a sua prática pedagógica e o uso de instruções com os verbos citados. Alguns alunos fazem comentários]. Professeur: Bien, alors, maintenant ce que vous allez voir, on va tout au moins le commencer parce qu’on rappelle que ni... (inintelligible). Professora: Bem, então, agora o que vocês vão ver. Vamos ao menos começar porque lembramos que nem... (não compreensível). [A professora justifica a forma pela qual a atividade será executada e dá as instruções necessárias para a sua realização. Uma montagem de atividades e exercícios é distribuída entre os alunos para que eles possam trabalhar em grupos. Por fim, a professora refaz junto aos alunos os passos das instruções dadas. Os alunos trabalham em grupos, trocando experiências e idéias]. [Considerações gerais da professora sobre o uso de instruções em sala de aula e como as mesmas devem ser formuladas]. Professeur: Je vous donne l’origine de tous les exercices que vous avez et je n’ai pas donné avant pour ne pas influencier. Professora: Eu lhes dou a fonte de todos os exercícios que vocês têm e eu não lhes dei antes para não influenciar. [A professora procede à distribuição do material informado]. Professeur : Heu... je vous souhaite une très bonne fin d’après-midi. Demain, aprèsmidi, n’oublie pas de voir les éditeurs (inintelligible) et nous nous retrouvons aprèsdemain, ici, pour voir ensemble les exemples d’activités et exercices au niveau A1, A2 et au niveau B1, B2, c’est à dire, tous les niveaux de façon à ce que vendredi vous poussiez élaborer. Demain également, je vous donnerai une introduction des séances de différents descripteurs et situations pour l’intéraction orale et je vous donnerai ça demain, jeudi, pardon, après-demain. Je vous donnerai au début de la séance. Professora : Euh... eu desejo a vocês um final de tarde muito bom. Amanhã à tarde, não se esqueçam de vesitar os editores... (não compreensível) e nós nos encontraremos depois de amanhã, aqui, para vermos juntos os exemplos de atividades e exercícios no nível A1, A2 e no nível B1, B2, quer dizer, todos os níveis, 187 de forma que sexta-feira vocês possam elaborar. Amanhã, também, eu lhes darei uma introdução de aula de diferentes descritores e situações para a interação oral e eu lhes darei isto amanhã, quinta-feira, perdão, depois de amanhã. Eu lhes darei no início da aula. Élève 2 : D’accord. Aluna 2 : Certo. Professeur : Je vous souhaite une bonne soirée. Professora : Eu lhes desejo uma boa noite. Élève 11 : Merci, pour vous aussi. Aluna 11 : Obrigada, para você também. [Barulho e saída dos alunos] Término: 1’38”17”’