Modelo de Sistema Adaptativo Complexo para o Mercado do Etanol no Brasil Autoria: Jorge Estuardo Tello Gamarra, Eugenio Avila Pedrozo Resumo São muitas as tentativas, dos diferentes agentes econômicos, que visam converter o etanol em uma commodity, contudo, ainda não se conseguiu entender todas as variáveis e os relacionamentos interorganizacionais próprios deste sistema, entendido como complexo, que viabilizem a sua commoditização. O desafio do presente estudo é unir a Teoria da Complexidade e a Teoria dos Sistemas Adaptativos Complexos resumidos por Bolch (2005), como base conceitual capaz de representar o mercado do etanol brasileiro como um modelo de Sistema Adaptativo Complexo, no intuito de entender melhor os relacionamentos existentes. À luz da Teoria da Complexidade, o presente estudo aponta que o mercado brasileiro do etanol está em um ponto de bifurcação, evoluindo de forma dinâmica e nãolinear, realidade que pode ser melhor entendida, mediante um modelo de Sistema Adaptativo Complexo, para dito mercado. Nesse sentido, modeliza-se o mercado do etanol brasileiro apresentando ele em uma topologia de rede formada por agentes econômicos (nós), onde cada agente é representado com diferentes características e cujo relacionamento interorganizacionais varia em intensidade. Por último, potencialmente, propõe-se que do resultado final, desse tipo de visão sistêmica e complexa, pode emergir a commoditização do etanol, criando múltiplas oportunidades (econômicas, geopolíticas, sociais, etc.) para o Brasil. 1. Introdução O mercado de combustíveis no Brasil, hoje, apresenta quatro (4) vetores de mudança, sendo eles: o pico na exploração de petróleo, o risco à segurança energética, a mudança na frota de veículos leves no e a influência do efeito estufa sobre o clima. A sinergia entre estes vetores faz com que a cadeia brasileira de produção sucroalcooleira tenha entrado em uma fase de investimentos, com o objetivo de atender a atual, e principalmente, a futura demanda do álcool combustível no mercado nacional e internacional (GAMARRA, 2009). Essa conjuntura, existente há quase uma década, fez prever que o etanol estava próximo a virar uma commodity energética, contudo, mesmo sendo investidos diferentes recursos e capacidades por parte de diferentes agentes econômicos envolvidos, este, ainda continua esperando por dita commoditização. Por um lado, pensa-se que este objetivo será resolvido quando, se estabelecer um contrato futuro; integração de esforços de pesquisa; investimentos em infra-estrutura e definição da quantidade de créditos de carbono. Por outro lado, existem opiniões que apontam para um aumento da produção mundial; a formação de preços a partir da oferta de longo prazo; infra-estrutura de armazenagem e o gerenciamento da segurança alimentar, que são as chaves para se fazer do etanol uma commodity. No entanto, para se aproximar às características desse fenômeno, entende-se como relevante o uso de uma abordagem sistêmica que permita enxergálo de uma forma mais rica ou complexa, como este estudo quer apresentar. Para tanto, integram-se conceitos da Teoria da Complexidade e Teoria dos Sistemas Adaptativos Complexos, estudados por diferentes teóricos e resumidos por Bolch (2005) em onze (11) características, as quais se aplicam no estudo do comportamento dos agentes do mercado do etanol. Identifica-se que os agentes, elementos ou nós existentes nesse mercado são dez (10) elementos. Para entender as características estruturais das relações interorganizacionais existentes neste mercado, desde uma perceptiva dinâmica não-linear, utilizaram-se seis (6) características definidas por Strogatz (2001), mostrando o mercado do etanol brasileiro como um conjunto de elementos, se inter-relacionam, entre o limite do caos e a complexidade, e entre o estancamento e a emergência. O artigo termina com um modelo de sistema adaptativo complexo para o mercado do etanol no Brasil, onde cada nó (agente) tem as suas próprias características (representadas por cores, neste trabalho) e onde cada inter-relação entre eles tem uma intensidade diferente, também como, um dinamismo complexo o qual luta para vencer a entropia do entorno. 2. A complexidade como uma forma para entender a realidade Ao compartilhar da concepção, de que a racionalidade humana é limitada (Simon, 1945), pode-se dizer que temos certa fragilidade no sentido de perceber, entender e agir de uma forma “ótima” frente aquilo que concebemos como realidade, mesmo sendo o fenômeno algo mais “simples”. Em qualquer situação, o entendimento dela pode se tornar complexo devido às características e inter-relações que provêm daquela situação. Uma situação real que começa a estar cada vez mais presente no âmbito global é a problemática em torno ao mercado mundial do etanol e a sua commoditização, para viabilizar a comercialização. Este mercado somado ao de açúcar, no Brasil, atualmente representa 1,5% do PBI, gerando 3,6 milhões de empregos (diretos e indiretos) envolvendo a 72.000 agricultores (UNICA, 2007). Neste momento, o Brasil enfrenta parte da responsabilidade de fazer do etanol uma commodity energética internacional, sendo assim, o etanol poderia ser comercializado mundialmente abrindo oportunidades para diferentes países latino-americanos. Liderados pelo Brasil, graças ao potencial que conta, esses países fariam com que aqueles números mostrados por UNICA (2007), pudessem gerar maiores receitas, emprego, renda, etc. Pidd (1998) apresenta certas características que descrevem uma situação em escala real que são: informações escassas, contraditórias, ambíguas, etc.; limitada disponibilidade de recursos; conseqüências de ações que podem não ser totalmente conhecidas; opiniões e interesses diversos que e, por vezes conflitantes; diferentes decisões e problemas relacionados; níveis mínimos de desempenho tidos como aceitáveis. Unindo as características de Pidd (1998), referidas a uma situação real, com a atual problemática sobre a commoditização internacional do etanol podemos mencionar o seguinte: a) Segundo Carvalho (2007) A recente divulgação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, o relatório afirma que há uma “enorme probabilidade” de que o aquecimento se deva à ação humana, sendo a queima de combustíveis fósseis sua principal causa. Para Carvalho, o século do uso intensivo das fontes renováveis de energia, será o século XXI, mas está começando com um ranço do século XIX, o protecionismo. Ele ressalta que, é um verdadeiro absurdo que se pretenda inaugurar uma nova era com os vícios antigos. Esse ranço protecionista acaba por contaminar a energia renovável de origem vegetal. Para Carvalho, se vive uma situação absurda e contraditória, na qual o petróleo entra nos Estados Unidos livre de impostos, isso independentemente de sua origem ser de país que o governo norte-americano tenha relações menos que amigáveis ou não. No entanto, qualquer etanol importado, à exceção do produto comprado nos termos da CBI (Caribbean Basin Initiative), paga uma taxa de US$ 0,54 o galão (US$ 0,14 o litro), mais tarifa ad valorem de 2,5%. Na União Européia, a tarifa praticamente inviabiliza a importação: 0,921 Euros, por litro. Fato que demonstra um aspecto ambíguo e contraditório da atual situação. b) Para Shimanouchi (2007), embaixador do Japão no Brasil, a abundância de recursos hídricos, o grande potencial de produção canavieira e a conseqüente possibilidade de investimentos que resultem na ampliação da produção, fazem do Brasil um país atraente para muitas empresas japonesas, diante do surgimento da demanda de álcool combustível no Japão. Nesse sentido Prot von Kunow (2007) embaixador da Alemanha no Brasil diz “A bioenergia surge como alternativa de combustível não 2 poluente e economicamente viável, e o Brasil possui grandes oportunidades nesse mercado, já Margareta Winberg (2007), embaixadora da Suécia no Brasil, devido a sua permanecia aqui comenta “...pude constatar as condições favoráveis para produção de etanol neste país” . Expressões que podem ser resumidos, segundo Troster (2007), quando diz: “existe uma capacidade brasileira competitiva e notória na produção de etanol”. Isto demonstra a limitada disponibilidade de recursos de alguns países e a existência dos mesmos em outros. c) Algumas opiniões apontam que a cultura do etanol no Brasil, levará a um incremento nos preços dos alimentos e uma escassez dos mesmos no mundo todo. Mas, segundo Burnquist (2007), o Brasil pode expandir a sua produção de etanol, explorando economias de escala, sem que seja necessário reduzir a área alocada para outros produtos agrícolas e/ou alimentares. Esses dois fatos aparentemente contraditórios são prova que as conseqüências das ações podem não ser totalmente conhecidas. d) Referido à commoditização do etanol Shimanouchi (2007), ressalta que existem quatro requisitos indispensáveis antes que o etanol vire commodtidy energética internacional. Referindo-se a esse assunto Borges (2007) sinaliza que existem 6 aspectos para consolidar o etanol no mercado internacional, já Teixeira (2007) comenta que existem outros tantos para cumprir esse objetivo. Isto deixa claro que, existem opiniões e interesses sobre determinada realidade e também que diferentes decisões e problemas se relacionam. e) No referente à padronização do etanol, Junior (2007) diz que no Brasil, as especificações para o etanol anidro e hidratado foram definidas na década de 80, com participação dos players do mercado - produtores, governo, montadoras e outras indústrias pertencentes à cadeia. Mas no mercado internacional ele opina que as especificações são tão confusas, que é necessário um tradutor técnico para colocar as informações em uma base única e coerente, e assim assegurar o entendimento do que está sendo solicitado, e, finalmente saber se é possível disponibilizar o produto desejado. Este comentário, deixa claro que existem níveis mínimos de desempenho, tidos como aceitáveis e usados no Brasil; e que não são aceitáveis internacionalmente. Das particularidades do mercado do etanol no Brasil e no mundo, apresentadas nos moldes de uma situação real definidas por Pidd (1997), podemos dizer que a commoditização do etanol, dadas suas características e inter-relações com os diferentes agentes interessados, apresenta-se como uma realidade complexa. Segundo Price Waterhouse (1996), cada dia as coisas se tornam mais complexas. Cada dia há mais contradições e novos paradigmas que emergem. Cada dia o mundo avança em direção de mais caos. É por isso que hoje as pessoas, os sistemas e as diferentes organizações demandam mais simplicidade, mas obter essa simplicidade cria complexidade infinita em sistemas, estruturas e processos. Gerenciar o ambiente atual requer entender que: o caos, a complexidade, e a contradição é parte do ambiente dos negócios; que o alcance de mais altos níveis de desempenho só se consegue no equilíbrio das demandas conflitantes ou “tensões” criadas por paradoxos inerentes em desenvolvimento, operação e transformação continua da desordem e por último que a superação do caos e complexidade não será possível com algum grupo ou fórmula rígida, mas sim com um trabalho flexível, detalhado e, as vezes, integrador de todos os elementos. Nesse caso, enxerga-se que o mercado do etanol está em um caos, que se reflete na não commoditização dele. Acredita-se que, esta, só virá de um trabalho flexível, detalhando que integre todos os agentes existentes no mercado. Então, é importante entender que a atual dinâmica do mercado como um todo, e não somente uma parte ou algumas partes desta dinâmica, também como os relacionamentos interorganizacionais existentes entre os agentes envolvidos. Faz alguns anos que a visão dos 3 agentes é reduzida postergando assim o objetivo comum a todos estes agentes econômicos: a commoditização do etanol Visto que o mercado do etanol pode ser observado através das luzes da complexidade, o seguinte item oferecerá alguns alcances da dita teoria. 3. A Origem da complexidade e a Teoria General de Sistemas Segundo Gionannini & Kruglianskas (2004), ao se referirem às empresas e organizações, ressaltam que elas envolvem pessoas e podem ser entendidas como sistemas dinâmicos não-lineares e, por tanto, podem estar sujeitas às regras estudadas pela complexidade. Reforçando esta afirmação está o fato de que nenhum autor contemporâneo pesquisado considera as organizações sistemas lineares. Seguindo essa mesma lógica podemos dizer que, um mercado como o de etanol, é um conjunto de organizações e demais agentes econômicos, composto por pessoas com diferentes interesses, por tanto, também é um sistema dinâmico não-linear que deve ser estudado pelas regras da complexidade. Devido ao desenvolvimento da Física Quântica, nas primeiras três décadas do século passado, cinco dos principais fundamentos do paradigma cartesiano-newtoniano se desmoronaram (GRIBBIN, 2002, HOCK, 2004), eles são: a) a noção de tempo e espaço absolutos; b) a noção de partículas sólidas elementares; c) a noção da matéria como substância fundamental; d) a natureza estritamente causal dos fenômenos; e) a descrição objetiva da natureza. Dadas essas circunstâncias, se cria a necessidade de ter novas respostas à forma clássica (da ciência) de resolver os problemas de uma forma reducionista, quer dizer, decompondo o problema em partes simples e “fáceis” de serem analisadas e entendidas; surgindo assim três novas abordagens que foram as ferramentas utilizadas para se entender as organizações. A primeira dessas abordagens foi a Teoria Geral dos Sistemas, ainda que algumas idéias sobre essa teoria possam ser remotas à filosofia grega, sobre toda a idéia de fluxos e processos de Heráclito no século IV A.C.. Foi somente no século XX, com os trabalhos científicos dos mais diversas áreas, que esta teoria se consolidou no âmbito da ciência. Esta teoria demonstrou, entre outras coisas, os pontos convergentes que existem entre as diferentes ciências, independentemente de suas particularidades, ou seja, era pensado que alguns fenômenos de sistemas eram, "… de significação quase universal para todas as disciplinas" (Boulding, 1956, p. 200). Estes fenômenos incluem populações (ou agregações de indivíduos em relações de interdependência) e a interação destes indivíduos com o ambiente deles, governados pela busca do equilíbrio. Os sistemas foram categorizados em uma hierarquia de nove níveis, baseados na sua complexidade. Esses, como sistemas abertos ou maiores níveis de complexidade (de quatro níveis a mais) foram pensados para ser regulados por o principio de auto-manutenção, alcançada por fluxos de energia por limites de sistemas permeáveis. Assim, as organizações sociais foram consideradas complexas, superados unicamente por sistemas transcendentais ainda não imaginados (BOULDING, 1956). Para (CAPRA, 1997), os sistemas realizam trocas de energia e matéria com os subsistemas que eles contem, assim como os sistemas maiores nos quais estão contidos. É assim que, os sistemas são abertos, eles também são orgânicos, porque suas partes são interdependentes, já que uma mudança em uma delas pode exercer influência nas outras e por último um sistema tem um sentido, propósito ou objetivo que pode mudar de acordo as necessidades dele. A segunda abordagem é a estruturalista, a mesma que estabelece a estrutura como um conjunto de elementos sempre considerados em função ao todo ao qual pertencem. Os defensores do estruturalismo defendem a idéia de que ao estar às partes organizadas em 4 função a uma estrutura dada, as partes ficam subordinadas ao todo e por isso qualquer mudança em uma delas altera a relação que elas mantêm, quer dizer, ao ser alterada uma parte é alterada a sua totalidade (BAUER, 1999). A cibernética foi a terceira abordagem, nascida nessa mesma época, que de acordo com (BAUER, 1999), ela é uma ciência da comunicação que tem como finalidade o controle. Utilizando a comunicação para integrar suas partes em um todo, é o controle que regula o seu comportamento. Nesse sentido, cibernética representa um processo de transformação de informação para atingir a realização dos objetivos. A cibernética deixa claro a capacidade dos diferentes sistemas (orgânicos, mecânicos, sociais, etc), de se autocontrolarem e se direcionarem para um objetivo por meio dos mecanismos de feedback. Estes mecanismos, definem o caráter de não-linearidade dos sistemas uma vez que podem ser positivos (na medida em que provocam reações), ou negativos (na medida em que amortecem estas ações). A não-linearidade é uma característica que predomina nos sistemas organizacionais, pois neles as ações podem ter resultados de magnitudes diversas e reações desproporcionais (GIOVANNINI & KRUGLIANSKAS, 2004). Apesar dos avanços, ainda existem dificuldades relacionadas a respeito do desenvolvimento de modelos que possam prever o comportamento dos sistemas. Aspecto que era considerado pelos investigadores da época devido às limitações computacionais. A idéia era que, a imprecisão e incerteza nas previsões dos sistemas não-lineares tinham as suas origens nas limitações tanto de tecnologia como de informação. Mas pesquisas posteriores, como computadores mais sofisticados e maiores quantidades de informação, demonstraram que a previsibilidade e o determinismo procurado por tanto tempo eram incongruentes com determinados fenômenos. Reconhecendo-se assim, o comportamento complexo em determinados tipos de sistemas (BAUER, 1999; GLEISER, 2002). 4. A Teoria da Complexidade A Teoria do Caos não é de desordem, como poderia ser entendido no senso comum sobre o significado da palavra “caos”. É sim uma Teoria que demonstra existir uma ordem intrínseca no aparente acaso. Em vários processos aparentemente aleatórios e casuais há certa ordem. Por exemplo, a formação das nuvens, os tremores ou o comportamento dos mercados. Por outro lado, em situações onde aparentemente há ordem, como por exemplo, o funcionamento de um motor ou o sistema cardíaco de um jovem, na verdade existe um pouco de caos. Esta é a teoria do caos, onde, há ordem na desordem e desordem na ordem (GLEISER, 2002; BRIGGS & PEAT; 1994 e BAUER, 1999). Segundo Waldrop (1992), define-se a complexidade como a ciência emergente que trata a fronteira entre o caos e a ordem. A teoria do caos estabelece que regras dinâmicas muito simples podem dar lugar a comportamentos extraordinariamente intrincados. Caos trata da universalidade da complexidade, mas somente o caos, não explica a estrutura, a coerência e a coesão auto-organizacional dos sistemas complexos. Os sistemas complexos adquirem, de alguma maneira, a capacidade de colocar o caos e a ordem em uma espécie de equilíbrio, que é o ponto, no caos de organismos vivos, onde a vida adquire a estabilidade necessária para o seu funcionamento e conservação. Esta fronteira do caos representa a batalha constante entre estancamento e anarquia, e o ponto no qual um sistema complexo pode ser espontâneo, adaptável e vivo. Fazendo um paralelo com o atual momento que atravessa o mercado do etanol no Brasil e a Teoria da Complexidade, pode-se dizer, que ele está em um processo de adaptação, constante e não linear. Também se salienta que é preciso estabelecer relações dinâmicas simples de comunicação e coordenação entre todos os agentes do sistema (complexo), que lhe permita se adaptar aos atuais desafios do mercado, ou seja, o mercado em geral encontra-se em um momento de mudança, ele saiu de um relativo “estancamento” no qual se encontrava 5 há alguns anos, para se tornar estruturado, coerente e auto-organizado em um sistema adaptativo complexo. É possível, que o desafio hoje, seja ser uma commodity energética internacional, mas o mercado continuará mudando e tendendo ao caos e a entropia (propriedade que tem as entidades de sair do equilíbrio, de entrar na desordem ou de autoconsumir), e é isso precisamente que tornará o sistema espontâneo, adaptável e vivo. Stacey (1996, p. 10), destaca que a teoria da complexidade “estuda as propriedades fundamentais das redes de feedback não-lineares e, em especial, das redes adaptativas complexas. Essas redes consistem de uma certa quantidade de componentes, ou agentes, que interagem de acordo com um conjunto de regras, as quais requerem que as pessoas examinem e respondam às ações de cada uma delas, no sentido de melhorar seus comportamentos e, também, o comportamento do sistema como um todo”. Ou seja, que o conceito de sistemas dinâmicos em constante evolução, por meio de seus agentes, encontra-se inerente à definição da complexidade de Stancey. Essa compreensão é reforçada por Axelrod e Cohen (2000, p.15), que afirmam, que “complexidade” não indica simplesmente muitas partes em movimento. Indica sim, que o sistema consiste de partes, as quais interagem entre si, influenciando fortemente as probabilidades de eventos futuros. Para esses autores, complexidade resulta, com freqüência, em características chamadas ‘propriedades emergentes’, as quais são propriedades do sistema que as partes isoladas não possuem. Stacey (1996), ao identificar a teoria da complexidade com o estudo dos sistemas de rede de feedback não-lineares e com as redes adaptativas complexas, afirma que esse enfoque mina a visão mecanicista e reducionista, e, assim, apresenta uma perspectiva mais abrangente, na qual o todo é mais do que a soma das partes, as quais se relacionam de maneira interativa, seguindo leis não-lineares. Essa ótica destaca as limitações da previsibilidade, e desafia a possibilidade de formas lineares de controle praticadas pelas pessoas sobre a natureza e sobre as organizações, além de destacar a inter-relação existente entre criatividade e situações de desequilíbrio, caracterizadas por diferenças, conflitos e crises (STACEY, 2000). A Teoria da complexidade propõe que organizações são melhor entendidas como sistemas complexos formados de redes dinâmicas de relações. Organizações têm uma estrutura assimétrica contendo subseções funcionando, que para existir, deveriam ser organizadas hierarquicamente, quer dizer, que são sistemas dinâmicos (Cilliers, 2001, 2007). Através de interação, as redes interdependentes são capazes de disseminar inteligência (Marion & Uhl-Bien, 2001) e criação de significado (Burnes, 2004) sobre as necessidades contemporâneas que possam guiar o funcionamento do sistema. 5. Os sistemas adaptativos complexos Um sistema é considerado “complexo” quando está composto de um grande número de elementos os quais interagem entre si (BAR-YAM, 1997). O funcionamento global do sistema se da precisamente pelas interações, é assim que não será possível achar tal funcionalidade, se os elementos são observados independentemente. Essa funcionalidade recebe a denominação de “emergente”, pois só se encontra a nível do sistema. Um exemplo de propriedade emergente se pode encontrar nas células, formadas “só” de moléculas e proteínas, dizemos que célula está viva, mas não que os seus componentes o estão. Pela nossa tendência reducionista estamos acostumados a pensar em sistemas simples, por serem mais fáceis de imaginar ou lidar, mas aquilo não é muito útil quando se trata de imaginar, pensar o gerenciar sistemas complexos. Por exemplo, é bem mais fácil pensar que o atual problema da commoditização do etanol radica na abertura dos mercados internacionais e na definição de um contrato padrão a ser comercializado na Bolsa de Mercadorias & Futuros, mas em realidade existem outros elementos (agentes ou também chamados nós, no modelo do seguinte trabalho), que precisamos tomar em consideração (produtores, entidades reguladoras, 6 logística, fornecedores, etc), pois encontraremos problemas que “emergem” quando o número de elementos se incrementam; e no mercado do etanol este número aumenta à medida que nos acercamos à realidade. Nesse sentido, a única forma de alcançar uma “ótima” funcionalidade é de maneira emergente, ou seja, organizando os elementos do mercado da forma mais “completa” possível para que em seu conjunto se resolvam os problemas. Os agentes são indivíduos, empresas, processo, etc. com um determinado objetivo. O “Exame”, um caso especial de agentes que foram simulados se tem desenvolvido no Santa Fé Institute em Nuevo México, conhecido como “Exames” (Lagton et al., 1999), inspirados na organização de insetos sociais (Bonebeau et al., 1998). Poderíamos dizer que um exame é um agente com muitas outras qualidades: um enxame geralmente esta composto de vários exames, os quais, por sua vez, podem consistir de vários enxames. Se fossem objetos, isto seria uma simples agregação. Mas, como cada enxame tem sua própria dinâmica, esta forma de pensamento ajuda a simulação de sistemas a vários níveis ao mesmo tempo. Podemos dizer que um sistema é adaptativo se melhora o seu desempenho no tempo. Na metade do século passado aproximadamente, na cibernética (Wiener, 1948; Ashby 1956), começou-se a estudar os métodos para construir sistemas adaptativos, e na atualidade os estudos estes continuam. Bloch (2005) utiliza como base os trabalhos feitos por Maturana, & Varela, (1980; 1987); Barabasi, (2002); Mandelbrot, (1982); Kauffman, (1995); (Banks, 2000); (Ainslie, 1995; Goerner, 1994, 1995; Kauffman, 1995), para descrever de uma forma mais “completa” as características dos sistemas adaptativos complexos e das dinâmicas não-lineares. Os sistemas adaptativos complexos compartilham características comuns em física, biologia ou em ciências sociais e são as seguintes: 1. Autopoiese ou auto-regeneração; os sistemas adaptativos complexos, referidos neste ponto, simplesmente como entidades, tem a habilidade de manter-se eles mesmos, embora os componentes deles, e até mesmo as suas formas possam mudar. Neste sentido, eles têm vida. Vida é a habilidade que a entidade tem para manter-se ela mesma. Vida é a habilidade para se adaptar internamente a mudanças ambientais. 2. Troca aberta ou livre; sistemas são abertos, ou seja, eles se mantêm através do fluxo e troca de componentes ou energia. 3. Participação em redes; nas trocas, entidades são partes de redes. Qualquer entidade é parte de muitas redes, que podem ser descritas não somente como círculos concêntricos, mas como vínculos já-ampliados a nós, além da própria entidade. Ao mesmo tempo, uma entidade particular pode ter redes que operam dentro delas. 4. Fractais; entidades são partes ou fractais de outras entidades. Cada fractal tem a totalidade do organismo na sua forma. No final das contas, cada organismo pode ser visto como um fractal de universo. Fractais revelam-se, como estruturas irregulares que são auto-semelhantes em diferentes escalas de manifestação. 5. Fase de transição entre ordem e caos; entidades são dinâmicas. Em troca constante de formas, componentes, e energia, elas se movem entre a ordem e o caos. Essas transições de fase são comparáveis ao movimento de água entre suas três fases: liquidas, sólido ou gelo, e gás ou vapor. Transições de fases são a oportunidade para a criatividade e o aparecimento de novas formas. 6. A procura por ponto ótimo de mudança; durante as transições de fase, entidades procuram uma ótima condição, isso é, o ponto que desempenará a maior mudança para sobrevivência. 7. Dinâmica não-linear; transições de fase são melhor explicadas por dinâmica nãolinear. Em dinâmica não-linear, existe a expectativa que mudanças de iguais dimensões produziram efeitos iguais. Há também a suposição que a causa é, se não 7 unidimensional, também facilmente estudada através de métodos de regressão múltipla. Entidades complexas, não entanto, comportam-se de forma não linear. Porque as transições entre ordem e caos estão provocando causas de múltiplas redes de relações, de uma interação continuada do interno e externo, é frequentemente o que teria sido considerado “ruído” na ciência reducionista, que é da maior importância entendendo a dinâmica de entidades não-lineares. 8. Dependência sensitiva ou potencial para que pequenas mudanças provoquem grandes efeitos; pequenas mudanças provocam efeitos grandes. Entre a não-recorrência de padrões não-lineares, pode se encontrar que, pequenas mudanças provocam efeitos grandes. Este fenômeno, conhecido como dependência sensitiva, é qualidade que caracteriza a todas as entidades complexas. Não importa quão semelhante os estados iniciais de entidades dinâmicas sejam, pois pode-se ter a certeza que eles “vaguearão separadamente” depois de um tempo. 9. Atratores que limitam o crescimento; atrator é: um conjunto invariante para o qual órbitas próximas convergem depois de um tempo suficientemente longo. Como as entidades se movem através da sua transição, podem conservar a sua vida e podem se amoldar com respeito a vários tipos de atratores que limitam o seu movimento e crescimento. Estes atratores restritivos, podem ser descritos como atratores ponto, atratores pendulo ou atratores torus. Como o nome sugere, uma entidade formada por atratores ponto retorna repetidamente para o mesmo estado como se atraídos por um imã. Uma entidade formada por atratores pendulo se move de um lado para outro entre dois estados identificáveis, exatamente como um pendulo que se balanceia de lado a lado. Finalmente, uma entidade segurou um lugar por um atrator torus movendo-se ao redor, e novamente ao redor, em um padrão circular. Padrões formados por atratores torus são frequentemente descritos como donas (donut), como rodadas e rodadas o mesmo circulo de eventos vão, nunca repetindo exatamente, mas nunca deixando a área circunscrita. 10. O role de atratores estranhos na emergência; no entanto, como as entidades movem-se por suas transições, isso pode reter a vida através da criação de novas formas, uma qualidade conhecida como emergência. Atratores estranhos, produzem entidades que não são, nem lineares nem controladas. Quando elas são traçadas matematicamente, os padrões formam figuras únicas ou fractais. 11. Espiritualidade; entidades adaptativas complexas existem unicamente como partes de inseparabilidade acomodada ou conectividade. Em outras palavras, não há nenhum sistema vivo sem interdependência. Espiritualidade é a experiência desta unidade. Visando contribuir com o entendimento da dinâmica e funcionamento (i.e. autoorganização) desses sistemas, Kay et al. (1999) consideraram central retratar as interações entre sistemas naturais e sistemas humanos de decisão através da idéia de Self-Organizing Holarchic Open System - SOHO. Os autores destacam que o entendimento do funcionamento dos sistemas SOHO depende da percepção dos sistemas abertos como processos dissipativos e com a presença de exergy (i.e. energia, materiais ou informação de alta qualidade). Por meio de um processo de catálise, a exergy promove alguns processos e inibe outros. Nestas circunstâncias, comportamentos coerentes aparecem nos sistemas por longos períodos de tempo, podendo mudar e até mesmo desaparecer repentinamente. Para Kay et al. (1999) o ambiente tenderá a favorecer alguns processos. O padrão estabelecido no sistema SOHO pode ser classificado como um conjunto de comportamentos e propensões que são coerentemente organizados dentro da organização ou sistema, denominados de atratores. Alguns atratores podem ser mantidos pelo SOHO, mesmo diante de pressões externas impostas pelo ambiente, mas vale observar que os sistemas possuem 8 múltiplas possibilidades de articular atratores, podendo substituir inesperadamente um atrator por outro. Os autores enfatizam que os indivíduos e suas organizações também exibem as características dos sistemas SOHO, ainda que essa noção seja pouco explorada em estudos de fenômeno de auto-organização em sistemas sociais (e.g. mercados, organizações empresariais e redes de relacionamento). Mantendo certa sintonia com essas idéias, Campbell-Hunt (2007) apontam que uma representação de prática social, como sistema adaptativo complexo, oferece um meio para investigar estes fenômenos impenetráveis. Períodos de mudança ou crise em estratégia são atrativas oportunidades para entender e transformar determinados fenômenos (Barley & Tolbert, 1997; Regner, 2003). Nestas ocasiões, estruturas definidas são rompidas e outras novas emergem em constante evolução (Brocklesby & Campbell-Hunt, 2004). Juntando-se a isso, as indicações de que é preciso pensar o mercado do etanol numa perspectiva global, o estudo do mesmo torna-se relevante quando o uso de uma abordagem sistêmica, a partir da perspectiva de sistema adaptativo complexo, é apresentado como alternativa. Nesse sentido, dá-se prosseguimento no presente trabalho, buscando se apresentar uma proposta para o mercado do etanol brasileiro, entendendo esta prática econômica e social como um sistema adaptativo complexo. 6. O mercado do etanol como sistema adaptativo complexo Diferentes autores (Borges, 2007; Burnquist, 2007; Junior, 2007; Prot von Kunow, 2007; Teixeira, 2007; Shimanouchi, 2007; Winberg, 2007; Troster, 2007), enxergam esse mercado somente com certo número de elementos, que devem cumprir de forma eficiente suas funções. O presente estudo, no entanto, define este sistema adaptativo complexo, organizado por diferentes agentes aplicando-se as características estudadas por Maturana, & Varela, (1980; 1987); Barabasi, (2002); Mandelbrot, (1982); Kauffman, (1995); (Banks, 2000); (Ainslie, 1995; Goerner, 1994, 1995; Kauffman, 1995), e posteriormente agrupadas por BOCH (2005). Entender a complexidade deste sistema ajudaria a alcançar estabilidade dinâmica, que caracteriza os sistemas dinâmicos não-lineares. Pois, na atualidade, existe uma necessidade de fazer do etanol uma commodity energética internacional, o qual só poderá ser feito pela comunicação, coordenação e cooperação do sistema como um todo e não por esforços individuais ou associações composta só por alguns agentes do mercado. Um conceito que nos pode ajudar a entender esse mercado, é utilizando algumas analogias vindas da teoria de Inteligência de enxame, onde a estrutura desse sistema é formada por agentes econômicos. Dependendo da escala de analise, um agente pode representar um individuo, um projeto em equipe, uma divisão, ou uma organização inteira (CHOI, 2000). Para efeitos desta análise os agentes são, por exemplo: as instituições reguladoras, os produtores de cana, os fornecedores, etc. Ou seja, os agentes do mercado de etanol brasileiro, são elementos do sistema, mas cada um deles, independentemente, é outro sistema adaptativo complexo formado por suas próprias estruturas e relações internas, quer dizer, que as partes fazem um todo mais cada parte é a sua vez um todo. Cada parte pode ser: o sistema das instituições reguladoras, o sistema dos produtores de cana ou o sistema dos fornecedores formados por seus receptivos agentes. Esses agentes têm um grau de conectividade com outros agentes, pelo qual a informação e os recursos podem fluir (CHOI, 2000). Cabe mencionar que nessa mesma lógica, mas em uma perceptiva maior, o mercado do etanol brasileiro como sistema adaptativo complexo pode ser entendido como um agente que faz parte do mercado mundial do etanol, formado pelos mercados ou agentes que são os diferentes sistemas internacionais do etanol, juntamente com os outros mercados ou agentes internacionais (agente americano, chinês, japonês, etc). Em fim, cada sistema/agente terá que 9 se adaptar à entropia (novas mudanças do mercado que puxam o agente ao desordem) do entorno. Terá que emergir, de forma adaptativa com a finalidade de alcançar a sua estabilidade dinâmica de sistema não-linear. A seguir é apresentado uma aplicação dos Sistemas Adaptativos Complexos no mercado do etanol brasileiro, como proposta que objetive a inter-relação dos diferentes agentes envolvidos, que garantam a adaptação que o mercado do etanol precisa (a commoditização). Para isso se faz um paralelo das características descritas anteriormente por Boch (2007): 1. Autopoiese ou auto-regeneração; para Prigogine (2002) as estruturas de nãoequilíbrio, também são chamadas de “dissipativas” e a formação dessas, só existem quando se dissipa energia e permanece em interação com o mundo exterior. Também se diz que: “Só podemos falar de sistema nas situações de não-equilíbrio” (PRIGOGINE, 2002 p 28). São precisamente estas circunstâncias de não-equilíbrio entre os diferentes elementos do mercado do etanol brasileiro e a sua interação, também como a sua interação com o seu ambiente, que permitirá a emergência do sistema. A permanecia e evolução dele dependerá da capacidade de se auto-manter. A “vida” do mercado do etanol dependerá da autonomia de cada uma das partes, da autonomia das instituições de regulação que cumpram a sua função de controle, da autonomia das instituições de pesquisa que gerem no conhecimento a ser aplicado em cada agente, ou da autonomia da BM&F - Bolsa de Mercadorias que definam um contrato futuro padrão, etc. também se ressalta que deve existir independência aos estímulos e/ou ruídos externos. 2. Troca aberta ou livre; o mercado do etanol no Brasil pode ser entendido também como um sistema aberto-dissipativoi, pelo fato de se relacionar com seu meio ambiente. É exatamente desse ambiente que o sistema realiza troca de produtos, serviços, dinheiro (energia) para sobreviver. O mercado do etanol requer de múltiplos fluxos para poder existir, ele necessita diferentes recursos para enfrentar a entropia do sistema, ele pega do ambiente toda a entropia negativa que precisa para continuar em equilíbrio dinâmico e talvez em equilíbrio dinâmico evolutivo. Evolução que agora tem o nome de commoditização. 3. Participação em redes; no processo de troca o sistema é parte de diferentes redes. Nesse processo o sistema (mercado do etanol) pode ser parte do sistema de maquinas agrícolas, bancário, aéreo, político, educativo, etc. onde, por exemplo: o mercado do etanol brasileiro, apresentado como um sistema adaptativo complexo, é parte de muitas outras redes descritas por estruturas complexas. Ao mesmo tempo em que, cada componente do mercado do etanol (Ver figura 1) é uma rede operando em outra rede. 4. Fractais; se é selecionado somente um fractal ou elemento do sistema para esta análise, como por exemplo a logística do mercado de etanol, esse elemento, olhado através de uma perspectiva macro, é “simplesmente” um fractal do sistema mundial de logística, mas se olhado através de uma perspectiva micro, esse fractal, é o sistema logístico do mercado do etanol no Brasil. Então dependendo do grau de analise o mesmo elemento pode se estudado como fractal ou como universo composto de fractais. 5. Fase de transição entre ordem e caos, o mercado do etanol Brasileiro é dinâmico, ou seja, sua forma, os seus componentes e o seu nível de entropia negativa utilizado pelo sistema, variam constantemente quando se move a ordem até o caos. Por exemplo, em determinado momento o sistema adaptativo complexo pode ter uma forma que priorize o agente logístico, melhorando os gargalhos desse agente, até que ele obtenha determinada competitividade para que depois a sua prioridade estrutural possa girar em torno da Bolsa de Mercadorias & Futuros. Também os seus componentes e os seus fluxos podem variar em razão das novas fases de transição do produto e das mudanças do entorno. 10 6. A procura por um ótimo ponto de mudança, o sistema adaptativo complexo (mercado do etanol) encontra-se agora em um “ótimo” ponto de mudança, nesse sentido se faz necessário que o sistema como um todo identifique que commoditizar o etanol não é um problema para o mercado Brasileiro e sim um ponto de bifurcação (PRIGOGINE, 2002 p. 23) que deve ser identificado como uma oportunidade para evoluir e passar a outro nível. 7. Dinâmica não-linear, mesmo existindo estruturas simples, elas apresentam interações não-lineares (GIOVANINNI E KRUGLIANSKAS, 2004). Se cada elemento do sistema adaptativo complexo (mercado do etanol brasileiro) fosse um individuo, por exemplo, os produtores de cana seriam “o produtor de cana”, a dinâmica do sistema como um todo devido às características de suas interações e às intensidades das mesmas, dariam origem a uma dinâmica não-linear. Hoje, a realidade é diferente, pois cada elemento do mercado do etanol brasileiro é um sistema, então a dinâmica de uma rede, formada por redes, só pode ser não-linear. 8. Dependência sensitiva ou potencial para que pequenas mudanças provoquem grandes efeitos,o fato de não existir recorrência entre o comportamento dos elementos que fazem parte do mercado do etanol no Brasil, significa que pequenas mudanças em algum deles podem ter efeitos de magnitudes maiores no sistema como um todo, ou seja, uma pequena mudança de regulação sobre a porcentagem de mistura da gasolina com etanol, que na atualidade se vem fazendo, pode provocar uma grande mudança em todo o sistema. Outro exemplo que pode-se comentar, é que se alguma pesquisa referir-se sobre a obtenção do etanol a partir da celulose de maneira comercial, mesmo que seja em um pequeno laboratório, isso poderia transformar rapidamente todo o mercado. 9. Atratores que limitam o crescimento; no mercado brasileiro do etanol, pode se dizer que nos anos oitenta o consumo de etanol era motivado pelo aumento dos preços do petróleo, o qual estimulava diretamente o consumo de produtos substitutos. Foi nessa época que o etanol ganhou relevância no mercado brasileiro, pois o sistema se amoldou a esse tipo de atrator (gasolina cara). Posteriormente, nos anos noventa com a queda nos preços internacionais do petróleo, aquele atrator que conservou a vida do mercado do etanol começou a limitar o seu crescimento. 10. O role de atratores estranhos na emergência; o conceito de atrator estranho, no mercado brasileiro do etanol, revela que o sistema se move pelas suas transições, e na atualidade o mercado esta em um processo de transição que deve levar a commoditizar do etanol. Deve-se ter em consideração o tempo que essa transição levará, pois enquanto não se entenda que a evolução deve sair da coordenação de todo o sistema, as perdas financeiras serão de grandes magnitudes em função da natureza entrópica do sistema. O atrator estranho na presente pesquisa é a commoditização do etanol. 11. Espiritualidade; o mercado do etanol no Brasil só existe como parte de acomodada inseparabilidade ou como conjunto de partes conectadas, sistema no qual há interdependência. Isto pode se apresentar em qualquer elemento do sistema adaptativo complexo (ver a Figura 1). Os fornecedores existem porque dependem da indústria ou dos produtores de cana que precisam de seus produtos e serviços, igualmente a logística que existe por diferentes elementos ou nós que necessitam dela para cumprir com seus compromissos com o sistema. 7. A estrutura de rede do mercado do etanol como sistema adaptativo complexo Segundo Strogatz (2001) o estudo de redes está penetrando em todas as ciências, desde a neurobiologia para a estatística física. Mesmo assim, tem que ser considerado que o mais importante assunto que deve ser estudado, gira em torno da estrutura. A seguinte proposta 11 visa apresentar um modelo estrutural de rede para o mercado do etanol no Brasil, entendendo este mercado com as características de um Sistema Adaptativo Complexo. Desde uma perspectiva de dinâmica não-linear, Strogatz (2001), estuda como uma enorme rede de sistemas dinâmicos interagindo (seja eles neurônios, centrais elétricas ou laser) se comportarão coletivamente, determinando a estrutura dinâmica individual e associada deles. Pois, pesquisadores só estão começando agora a desvendar a estrutura e dinâmica de redes complexas (STROGATZ, 2001). Dito de outra forma esta proposta é uma aplicação da Teoria de Sistemas Complexos Adaptativos ao campo dos agronegócios. Para cumprir isto, utilizamos um modelo de rede aplicado a nosso objeto de estudo, mercado do etanol brasileiro, definindo ele como um sistema composto de dez elementos ou nós. Acreditando que a estrutura afetará a função do sistema e que as redes são inerentemente difíceis de entender, descreve-se a continuação uma lista de possíveis complicações jazidas nas redes (STROGATZ, 2001); e que estarão presentes na estrutura de rede do sistema adaptativo complexo do etanol no Brasil (ver Gráfico 01): 1.- Complexidade Estrutural: A rede apresentada pode parecer muito emaranhada, mas isso é produto das relações entre os nós, pois se corre o risco de perder realismo ao tentar ser simplistas. O fato de ter, por exemplo, as instituições de pesquisa como um nó, significa que esse nós tem que estar agindo de maneira independente com os nove nós restantes, inovando em cada área para ajudar ao sistema como um todo 2.- Evolução de Rede: A estrutura da rede pode mudar com o tempo, reduzindo-se algum nó ou incrementando-se outros. Pode ser que no tempo as tarifas de importação caiam e o mercado interno e o externo sejam gerenciados, somente, como um nó, também pode acontecer que o desenvolvimento do etanol de celulose mude a estrutura da rede aumentando o numero de nós. 3.- Diversidade de Conexão: No gráfico diferenciou-se (com cores) as ligações dos nós, mudando a ligação em função ao tipo de traço ou à intensidade de cor. Aquilo mostra o que atualmente acontece no mercado brasileiro de etanol, toda vez que os fornecedores podem manter um relacionamento interorganizacional próximo com os produtores de cana, mas um relacionamento menos importante com o mercado interno ou com as entidades reguladoras. 4.- Complexidade Dinâmica: Cada nó ou elemento é por sua vez um sistema dinâmico não-linear. A Bolsa de Mercadorias & Futuros vem a ser um nó do sistema adaptativo complexo, mas ela também pode ser um sistema adaptativo complexo a ser estudado pelas mesmas características. 5.- Diversidade de Nós: Esta refere-se ao que se poderia levar a diferentes tipos de nós, com um nível de importância também diferente. Nos começos dos anos oitenta a Bolsa de Mercadorias & Futuros não tinha um papel tão importante no mercado de etanol, mas agora ela esta presente, tendo características diferentes (obviamente) aos outros nós. 6.- Meta-complicação: Algum fenômeno em um nó pode influenciar o comportamento de outros podendo complicar o comportamento de todo o sistema. Um problema climático que afeta diretamente à cultura da cana pode chegar a complicar todo o mercado brasileiro e inclusive o mercado mundial do etanol. 12 O mercado do etanol como sistema adaptativo complexo Fonte: Elaborado pelos autores. 8. Considerações finais O artigo buscou trazer elementos vindos da teoria da Complexidade, da Teoria de redes e dos Sistemas Adaptativos Complexos ao campo dos agronegócios. Para isso se fez um detalhamento das características estudadas por diferentes teóricos que foram agrupados por Bloch (2005) e outras vindas das topologias de rede de Strogatz (2001). Diante da necessidade, dos agentes econômicos (nós) do mercado de etanol brasileiro, de agir da forma mais racional, sistêmica e adaptativa, esta proposta apresentou uma tipologia de rede do mercado de etanol no Brasil que seja capaz de enfrentar o desafio de commoditizar o etanol em um menor prazo possível. Dadas as evidencias encontradas nas expressões de diferentes entendidos neste tema pode se dizer que os diferentes agentes econômicos poderiam ter uma ferramenta nestas teorias que refletem de forma mais “certa” o complexo 13 mundo real. Onde os diferentes agentes econômicos mantêm relacionamentos interorganizacionais que podem ser melhor entendidos a partir desta tipologia de rede. Pois, cada nó (agente) tem uma característica diferente e o relacionamento que este tem sempre é diferente de agente para agente, fato que precisa ser analisado com maior profundidade em pesquisas futuras. Ou seja, estudar as diferentes características (poder, coordenação, tempo, etc) dos relacionamentos existentes no mercado do etanol. Na atualidade o mercado estudado se encontra no que Prigogine (2002) chamaria de ponto de bifurcação e acredita-se que é exatamente este ponto no qual o sistema evoluirá para “níveis superiores”. É nesse limite entre o caos e a complexidade que este sistema dinâmico não-linear, que terá que emergir e superar suas limitações (commoditização do etanol), contornando a incerteza intrínseca deste sistema complexo no qual esta inserido. Especula-se que entender o atual desafio no mercado do etanol brasileiro, baixo as luzes de modelos mais sistêmicos não-lineares e complexos, poderiam evitar algumas perdas financeiras do mercado. Finalmente, propõe-se que a aplicação dos conceitos de Sistemas Adaptativos Complexos, Teoria de Redes e Sistemas Adaptativos Complexos aplicados ao agronegócio podem ser recursos teóricos que melhorarem a compressão das inter-relaciones existentes nos diferentes sistemas agronegociais. 9. Referencial Teórico AINSLIE, P Chaos, psychology, and spirituality. In R. Robertson ; A. Combs (Eds), Chaos Theory in psychology and the life science, p. 309- 317. Mahwah, NJ: Erlbaum. 1995. ASHBY, W. R. An introduction to Cybernetics. London, Chapman; Hall, 1956. AXELROD, Robert. The complexity of cooperation : agent-based models of competition and collaboration. New Jersey: Princeton University, 1997. BAUER, Ruben. Gestão da Mudança: caos e complexidade nas organizações. São Paulo: Atlas, 1999. BANKS, L. Sensitive dependence. Retrieved January 23, 2002. Disponível em : <http://www.johnbanks.math.latrobe.edu.au/chaos/animaed/sensitive.html> Acesso em: 16 jul. 2007. BARABASI, A. 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