Modelo de Sistema Adaptativo Complexo para o Mercado
do Etanol no Brasil
Autoria: Jorge Estuardo Tello Gamarra, Eugenio Avila Pedrozo
Resumo
São muitas as tentativas, dos diferentes agentes econômicos, que visam converter o
etanol em uma commodity, contudo, ainda não se conseguiu entender todas as variáveis e os
relacionamentos interorganizacionais próprios deste sistema, entendido como complexo, que
viabilizem a sua commoditização. O desafio do presente estudo é unir a Teoria da
Complexidade e a Teoria dos Sistemas Adaptativos Complexos resumidos por Bolch (2005),
como base conceitual capaz de representar o mercado do etanol brasileiro como um modelo
de Sistema Adaptativo Complexo, no intuito de entender melhor os relacionamentos
existentes. À luz da Teoria da Complexidade, o presente estudo aponta que o mercado
brasileiro do etanol está em um ponto de bifurcação, evoluindo de forma dinâmica e nãolinear, realidade que pode ser melhor entendida, mediante um modelo de Sistema Adaptativo
Complexo, para dito mercado. Nesse sentido, modeliza-se o mercado do etanol brasileiro
apresentando ele em uma topologia de rede formada por agentes econômicos (nós), onde cada
agente é representado com diferentes características e cujo relacionamento
interorganizacionais varia em intensidade. Por último, potencialmente, propõe-se que do
resultado final, desse tipo de visão sistêmica e complexa, pode emergir a commoditização do
etanol, criando múltiplas oportunidades (econômicas, geopolíticas, sociais, etc.) para o Brasil.
1. Introdução
O mercado de combustíveis no Brasil, hoje, apresenta quatro (4) vetores de mudança,
sendo eles: o pico na exploração de petróleo, o risco à segurança energética, a mudança na
frota de veículos leves no e a influência do efeito estufa sobre o clima. A sinergia entre estes
vetores faz com que a cadeia brasileira de produção sucroalcooleira tenha entrado em uma
fase de investimentos, com o objetivo de atender a atual, e principalmente, a futura demanda
do álcool combustível no mercado nacional e internacional (GAMARRA, 2009).
Essa conjuntura, existente há quase uma década, fez prever que o etanol estava
próximo a virar uma commodity energética, contudo, mesmo sendo investidos diferentes
recursos e capacidades por parte de diferentes agentes econômicos envolvidos, este, ainda
continua esperando por dita commoditização.
Por um lado, pensa-se que este objetivo será resolvido quando, se estabelecer um
contrato futuro; integração de esforços de pesquisa; investimentos em infra-estrutura e
definição da quantidade de créditos de carbono. Por outro lado, existem opiniões que apontam
para um aumento da produção mundial; a formação de preços a partir da oferta de longo prazo;
infra-estrutura de armazenagem e o gerenciamento da segurança alimentar, que são as chaves
para se fazer do etanol uma commodity. No entanto, para se aproximar às características desse
fenômeno, entende-se como relevante o uso de uma abordagem sistêmica que permita enxergálo de uma forma mais rica ou complexa, como este estudo quer apresentar.
Para tanto, integram-se conceitos da Teoria da Complexidade e Teoria dos Sistemas
Adaptativos Complexos, estudados por diferentes teóricos e resumidos por Bolch (2005) em
onze (11) características, as quais se aplicam no estudo do comportamento dos agentes do
mercado do etanol. Identifica-se que os agentes, elementos ou nós existentes nesse mercado
são dez (10) elementos. Para entender as características estruturais das relações
interorganizacionais existentes neste mercado, desde uma perceptiva dinâmica não-linear,
utilizaram-se seis (6) características definidas por Strogatz (2001), mostrando o mercado do
etanol brasileiro como um conjunto de elementos, se inter-relacionam, entre o limite do caos e
a complexidade, e entre o estancamento e a emergência.
O artigo termina com um modelo de sistema adaptativo complexo para o mercado do
etanol no Brasil, onde cada nó (agente) tem as suas próprias características (representadas por
cores, neste trabalho) e onde cada inter-relação entre eles tem uma intensidade diferente,
também como, um dinamismo complexo o qual luta para vencer a entropia do entorno.
2. A complexidade como uma forma para entender a realidade
Ao compartilhar da concepção, de que a racionalidade humana é limitada (Simon,
1945), pode-se dizer que temos certa fragilidade no sentido de perceber, entender e agir de
uma forma “ótima” frente aquilo que concebemos como realidade, mesmo sendo o fenômeno
algo mais “simples”. Em qualquer situação, o entendimento dela pode se tornar complexo
devido às características e inter-relações que provêm daquela situação.
Uma situação real que começa a estar cada vez mais presente no âmbito global é a
problemática em torno ao mercado mundial do etanol e a sua commoditização, para viabilizar
a comercialização. Este mercado somado ao de açúcar, no Brasil, atualmente representa 1,5%
do PBI, gerando 3,6 milhões de empregos (diretos e indiretos) envolvendo a 72.000
agricultores (UNICA, 2007).
Neste momento, o Brasil enfrenta parte da
responsabilidade de fazer do etanol uma commodity energética internacional, sendo assim, o
etanol poderia ser comercializado mundialmente abrindo oportunidades para diferentes países
latino-americanos. Liderados pelo Brasil, graças ao potencial que conta, esses países fariam
com que aqueles números mostrados por UNICA (2007), pudessem gerar maiores receitas,
emprego, renda, etc.
Pidd (1998) apresenta certas características que descrevem uma situação em escala
real que são: informações escassas, contraditórias, ambíguas, etc.; limitada disponibilidade de
recursos; conseqüências de ações que podem não ser totalmente conhecidas; opiniões e
interesses diversos que e, por vezes conflitantes; diferentes decisões e problemas
relacionados; níveis mínimos de desempenho tidos como aceitáveis.
Unindo as características de Pidd (1998), referidas a uma situação real, com a atual
problemática sobre a commoditização internacional do etanol podemos mencionar o seguinte:
a) Segundo Carvalho (2007) A recente divulgação do relatório do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, o
relatório afirma que há uma “enorme probabilidade” de que o aquecimento se deva à
ação humana, sendo a queima de combustíveis fósseis sua principal causa. Para
Carvalho, o século do uso intensivo das fontes renováveis de energia, será o século
XXI, mas está começando com um ranço do século XIX, o protecionismo. Ele ressalta
que, é um verdadeiro absurdo que se pretenda inaugurar uma nova era com os vícios
antigos. Esse ranço protecionista acaba por contaminar a energia renovável de origem
vegetal. Para Carvalho, se vive uma situação absurda e contraditória, na qual o
petróleo entra nos Estados Unidos livre de impostos, isso independentemente de sua
origem ser de país que o governo norte-americano tenha relações menos que
amigáveis ou não. No entanto, qualquer etanol importado, à exceção do produto
comprado nos termos da CBI (Caribbean Basin Initiative), paga uma taxa de US$
0,54 o galão (US$ 0,14 o litro), mais tarifa ad valorem de 2,5%. Na União Européia, a
tarifa praticamente inviabiliza a importação: 0,921 Euros, por litro. Fato que
demonstra um aspecto ambíguo e contraditório da atual situação.
b) Para Shimanouchi (2007), embaixador do Japão no Brasil, a abundância de recursos
hídricos, o grande potencial de produção canavieira e a conseqüente possibilidade de
investimentos que resultem na ampliação da produção, fazem do Brasil um país
atraente para muitas empresas japonesas, diante do surgimento da demanda de álcool
combustível no Japão. Nesse sentido Prot von Kunow (2007) embaixador da
Alemanha no Brasil diz “A bioenergia surge como alternativa de combustível não
2
poluente e economicamente viável, e o Brasil possui grandes oportunidades nesse
mercado, já Margareta Winberg (2007), embaixadora da Suécia no Brasil, devido a
sua permanecia aqui comenta “...pude constatar as condições favoráveis para
produção de etanol neste país” . Expressões que podem ser resumidos, segundo
Troster (2007), quando diz: “existe uma capacidade brasileira competitiva e notória na
produção de etanol”. Isto demonstra a limitada disponibilidade de recursos de alguns
países e a existência dos mesmos em outros.
c) Algumas opiniões apontam que a cultura do etanol no Brasil, levará a um incremento
nos preços dos alimentos e uma escassez dos mesmos no mundo todo. Mas, segundo
Burnquist (2007), o Brasil pode expandir a sua produção de etanol, explorando
economias de escala, sem que seja necessário reduzir a área alocada para outros
produtos agrícolas e/ou alimentares. Esses dois fatos aparentemente contraditórios são
prova que as conseqüências das ações podem não ser totalmente conhecidas.
d) Referido à commoditização do etanol Shimanouchi (2007), ressalta que existem
quatro requisitos indispensáveis antes que o etanol vire commodtidy energética
internacional. Referindo-se a esse assunto Borges (2007) sinaliza que existem 6
aspectos para consolidar o etanol no mercado internacional, já Teixeira (2007)
comenta que existem outros tantos para cumprir esse objetivo. Isto deixa claro que,
existem opiniões e interesses sobre determinada realidade e também que diferentes
decisões e problemas se relacionam.
e) No referente à padronização do etanol, Junior (2007) diz que no Brasil, as
especificações para o etanol anidro e hidratado foram definidas na década de 80, com
participação dos players do mercado - produtores, governo, montadoras e outras
indústrias pertencentes à cadeia. Mas no mercado internacional ele opina que as
especificações são tão confusas, que é necessário um tradutor técnico para colocar as
informações em uma base única e coerente, e assim assegurar o entendimento do que
está sendo solicitado, e, finalmente saber se é possível disponibilizar o produto
desejado. Este comentário, deixa claro que existem níveis mínimos de desempenho,
tidos como aceitáveis e usados no Brasil; e que não são aceitáveis internacionalmente.
Das particularidades do mercado do etanol no Brasil e no mundo, apresentadas nos moldes de
uma situação real definidas por Pidd (1997), podemos dizer que a commoditização do etanol,
dadas suas características e inter-relações com os diferentes agentes interessados, apresenta-se
como uma realidade complexa.
Segundo Price Waterhouse (1996), cada dia as coisas se tornam mais complexas. Cada
dia há mais contradições e novos paradigmas que emergem. Cada dia o mundo avança em
direção de mais caos. É por isso que hoje as pessoas, os sistemas e as diferentes organizações
demandam mais simplicidade, mas obter essa simplicidade cria complexidade infinita em
sistemas, estruturas e processos.
Gerenciar o ambiente atual requer entender que: o caos, a complexidade, e a
contradição é parte do ambiente dos negócios; que o alcance de mais altos níveis de
desempenho só se consegue no equilíbrio das demandas conflitantes ou “tensões” criadas por
paradoxos inerentes em desenvolvimento, operação e transformação continua da desordem e
por último que a superação do caos e complexidade não será possível com algum grupo ou
fórmula rígida, mas sim com um trabalho flexível, detalhado e, as vezes, integrador de todos
os elementos. Nesse caso, enxerga-se que o mercado do etanol está em um caos, que se reflete
na não commoditização dele. Acredita-se que, esta, só virá de um trabalho flexível,
detalhando que integre todos os agentes existentes no mercado.
Então, é importante entender que a atual dinâmica do mercado como um todo, e não
somente uma parte ou algumas partes desta dinâmica, também como os relacionamentos
interorganizacionais existentes entre os agentes envolvidos. Faz alguns anos que a visão dos
3
agentes é reduzida postergando assim o objetivo comum a todos estes agentes econômicos: a
commoditização do etanol
Visto que o mercado do etanol pode ser observado através das luzes da complexidade,
o seguinte item oferecerá alguns alcances da dita teoria.
3. A Origem da complexidade e a Teoria General de Sistemas
Segundo Gionannini & Kruglianskas (2004), ao se referirem às empresas e
organizações, ressaltam que elas envolvem pessoas e podem ser entendidas como sistemas
dinâmicos não-lineares e, por tanto, podem estar sujeitas às regras estudadas pela
complexidade. Reforçando esta afirmação está o fato de que nenhum autor contemporâneo
pesquisado considera as organizações sistemas lineares. Seguindo essa mesma lógica
podemos dizer que, um mercado como o de etanol, é um conjunto de organizações e demais
agentes econômicos, composto por pessoas com diferentes interesses, por tanto, também é um
sistema dinâmico não-linear que deve ser estudado pelas regras da complexidade.
Devido ao desenvolvimento da Física Quântica, nas primeiras três décadas do século
passado, cinco dos principais fundamentos do paradigma cartesiano-newtoniano se
desmoronaram (GRIBBIN, 2002, HOCK, 2004), eles são: a) a noção de tempo e espaço
absolutos; b) a noção de partículas sólidas elementares; c) a noção da matéria como
substância fundamental; d) a natureza estritamente causal dos fenômenos; e) a descrição
objetiva da natureza.
Dadas essas circunstâncias, se cria a necessidade de ter novas respostas à forma
clássica (da ciência) de resolver os problemas de uma forma reducionista, quer dizer,
decompondo o problema em partes simples e “fáceis” de serem analisadas e entendidas;
surgindo assim três novas abordagens que foram as ferramentas utilizadas para se entender as
organizações.
A primeira dessas abordagens foi a Teoria Geral dos Sistemas, ainda que algumas
idéias sobre essa teoria possam ser remotas à filosofia grega, sobre toda a idéia de fluxos e
processos de Heráclito no século IV A.C.. Foi somente no século XX, com os trabalhos
científicos dos mais diversas áreas, que esta teoria se consolidou no âmbito da ciência. Esta
teoria demonstrou, entre outras coisas, os pontos convergentes que existem entre as diferentes
ciências, independentemente de suas particularidades, ou seja, era pensado que alguns
fenômenos de sistemas eram, "… de significação quase universal para todas as disciplinas"
(Boulding, 1956, p. 200). Estes fenômenos incluem populações (ou agregações de indivíduos
em relações de interdependência) e a interação destes indivíduos com o ambiente deles,
governados pela busca do equilíbrio.
Os sistemas foram categorizados em uma hierarquia de nove níveis, baseados na sua
complexidade. Esses, como sistemas abertos ou maiores níveis de complexidade (de quatro
níveis a mais) foram pensados para ser regulados por o principio de auto-manutenção,
alcançada por fluxos de energia por limites de sistemas permeáveis. Assim, as organizações
sociais foram consideradas complexas, superados unicamente por sistemas transcendentais
ainda não imaginados (BOULDING, 1956).
Para (CAPRA, 1997), os sistemas realizam trocas de energia e matéria com os
subsistemas que eles contem, assim como os sistemas maiores nos quais estão contidos. É
assim que, os sistemas são abertos, eles também são orgânicos, porque suas partes são
interdependentes, já que uma mudança em uma delas pode exercer influência nas outras e por
último um sistema tem um sentido, propósito ou objetivo que pode mudar de acordo as
necessidades dele.
A segunda abordagem é a estruturalista, a mesma que estabelece a estrutura como um
conjunto de elementos sempre considerados em função ao todo ao qual pertencem. Os
defensores do estruturalismo defendem a idéia de que ao estar às partes organizadas em
4
função a uma estrutura dada, as partes ficam subordinadas ao todo e por isso qualquer
mudança em uma delas altera a relação que elas mantêm, quer dizer, ao ser alterada uma parte
é alterada a sua totalidade (BAUER, 1999).
A cibernética foi a terceira abordagem, nascida nessa mesma época, que de acordo
com (BAUER, 1999), ela é uma ciência da comunicação que tem como finalidade o controle.
Utilizando a comunicação para integrar suas partes em um todo, é o controle que regula o seu
comportamento. Nesse sentido, cibernética representa um processo de transformação de
informação para atingir a realização dos objetivos. A cibernética deixa claro a capacidade dos
diferentes sistemas (orgânicos, mecânicos, sociais, etc), de se autocontrolarem e se
direcionarem para um objetivo por meio dos mecanismos de feedback. Estes mecanismos,
definem o caráter de não-linearidade dos sistemas uma vez que podem ser positivos (na
medida em que provocam reações), ou negativos (na medida em que amortecem estas ações).
A não-linearidade é uma característica que predomina nos sistemas organizacionais, pois
neles as ações podem ter resultados de magnitudes diversas e reações desproporcionais
(GIOVANNINI & KRUGLIANSKAS, 2004).
Apesar dos avanços, ainda existem dificuldades relacionadas a respeito do
desenvolvimento de modelos que possam prever o comportamento dos sistemas. Aspecto que
era considerado pelos investigadores da época devido às limitações computacionais.
A
idéia era que, a imprecisão e incerteza nas previsões dos sistemas não-lineares tinham as suas
origens nas limitações tanto de tecnologia como de informação. Mas pesquisas posteriores,
como computadores mais sofisticados e maiores quantidades de informação, demonstraram
que a previsibilidade e o determinismo procurado por tanto tempo eram incongruentes com
determinados fenômenos. Reconhecendo-se assim, o comportamento complexo em
determinados tipos de sistemas (BAUER, 1999; GLEISER, 2002).
4. A Teoria da Complexidade
A Teoria do Caos não é de desordem, como poderia ser entendido no senso comum
sobre o significado da palavra “caos”. É sim uma Teoria que demonstra existir uma ordem
intrínseca no aparente acaso. Em vários processos aparentemente aleatórios e casuais há certa
ordem. Por exemplo, a formação das nuvens, os tremores ou o comportamento dos mercados.
Por outro lado, em situações onde aparentemente há ordem, como por exemplo, o
funcionamento de um motor ou o sistema cardíaco de um jovem, na verdade existe um pouco
de caos. Esta é a teoria do caos, onde, há ordem na desordem e desordem na ordem
(GLEISER, 2002; BRIGGS & PEAT; 1994 e BAUER, 1999).
Segundo Waldrop (1992), define-se a complexidade como a ciência emergente que
trata a fronteira entre o caos e a ordem. A teoria do caos estabelece que regras dinâmicas
muito simples podem dar lugar a comportamentos extraordinariamente intrincados. Caos trata
da universalidade da complexidade, mas somente o caos, não explica a estrutura, a coerência e
a coesão auto-organizacional dos sistemas complexos. Os sistemas complexos adquirem, de
alguma maneira, a capacidade de colocar o caos e a ordem em uma espécie de equilíbrio, que
é o ponto, no caos de organismos vivos, onde a vida adquire a estabilidade necessária para o
seu funcionamento e conservação. Esta fronteira do caos representa a batalha constante entre
estancamento e anarquia, e o ponto no qual um sistema complexo pode ser espontâneo,
adaptável e vivo.
Fazendo um paralelo com o atual momento que atravessa o mercado do etanol no
Brasil e a Teoria da Complexidade, pode-se dizer, que ele está em um processo de adaptação,
constante e não linear. Também se salienta que é preciso estabelecer relações dinâmicas
simples de comunicação e coordenação entre todos os agentes do sistema (complexo), que lhe
permita se adaptar aos atuais desafios do mercado, ou seja, o mercado em geral encontra-se
em um momento de mudança, ele saiu de um relativo “estancamento” no qual se encontrava
5
há alguns anos, para se tornar estruturado, coerente e auto-organizado em um sistema
adaptativo complexo. É possível, que o desafio hoje, seja ser uma commodity energética
internacional, mas o mercado continuará mudando e tendendo ao caos e a entropia
(propriedade que tem as entidades de sair do equilíbrio, de entrar na desordem ou de autoconsumir), e é isso precisamente que tornará o sistema espontâneo, adaptável e vivo.
Stacey (1996, p. 10), destaca que a teoria da complexidade “estuda as propriedades
fundamentais das redes de feedback não-lineares e, em especial, das redes adaptativas
complexas. Essas redes consistem de uma certa quantidade de componentes, ou agentes, que
interagem de acordo com um conjunto de regras, as quais requerem que as pessoas examinem
e respondam às ações de cada uma delas, no sentido de melhorar seus comportamentos e,
também, o comportamento do sistema como um todo”. Ou seja, que o conceito de sistemas
dinâmicos em constante evolução, por meio de seus agentes, encontra-se inerente à definição
da complexidade de Stancey.
Essa compreensão é reforçada por Axelrod e Cohen (2000, p.15), que afirmam, que
“complexidade” não indica simplesmente muitas partes em movimento. Indica sim, que o
sistema consiste de partes, as quais interagem entre si, influenciando fortemente as
probabilidades de eventos futuros. Para esses autores, complexidade resulta, com freqüência,
em características chamadas ‘propriedades emergentes’, as quais são propriedades do sistema
que as partes isoladas não possuem.
Stacey (1996), ao identificar a teoria da complexidade com o estudo dos sistemas de
rede de feedback não-lineares e com as redes adaptativas complexas, afirma que esse enfoque
mina a visão mecanicista e reducionista, e, assim, apresenta uma perspectiva mais abrangente,
na qual o todo é mais do que a soma das partes, as quais se relacionam de maneira interativa,
seguindo leis não-lineares. Essa ótica destaca as limitações da previsibilidade, e desafia a
possibilidade de formas lineares de controle praticadas pelas pessoas sobre a natureza e sobre
as organizações, além de destacar a inter-relação existente entre criatividade e situações de
desequilíbrio, caracterizadas por diferenças, conflitos e crises (STACEY, 2000).
A Teoria da complexidade propõe que organizações são melhor entendidas como
sistemas complexos formados de redes dinâmicas de relações. Organizações têm uma
estrutura assimétrica contendo subseções funcionando, que para existir, deveriam ser
organizadas hierarquicamente, quer dizer, que são sistemas dinâmicos (Cilliers, 2001, 2007).
Através de interação, as redes interdependentes são capazes de disseminar inteligência
(Marion & Uhl-Bien, 2001) e criação de significado (Burnes, 2004) sobre as necessidades
contemporâneas que possam guiar o funcionamento do sistema.
5. Os sistemas adaptativos complexos
Um sistema é considerado “complexo” quando está composto de um grande número
de elementos os quais interagem entre si (BAR-YAM, 1997). O funcionamento global do
sistema se da precisamente pelas interações, é assim que não será possível achar tal
funcionalidade, se os elementos são observados independentemente. Essa funcionalidade
recebe a denominação de “emergente”, pois só se encontra a nível do sistema. Um exemplo de
propriedade emergente se pode encontrar nas células, formadas “só” de moléculas e proteínas,
dizemos que célula está viva, mas não que os seus componentes o estão.
Pela nossa tendência reducionista estamos acostumados a pensar em sistemas simples,
por serem mais fáceis de imaginar ou lidar, mas aquilo não é muito útil quando se trata de
imaginar, pensar o gerenciar sistemas complexos. Por exemplo, é bem mais fácil pensar que o
atual problema da commoditização do etanol radica na abertura dos mercados internacionais e
na definição de um contrato padrão a ser comercializado na Bolsa de Mercadorias & Futuros,
mas em realidade existem outros elementos (agentes ou também chamados nós, no modelo do
seguinte trabalho), que precisamos tomar em consideração (produtores, entidades reguladoras,
6
logística, fornecedores, etc), pois encontraremos problemas que “emergem” quando o número
de elementos se incrementam; e no mercado do etanol este número aumenta à medida que nos
acercamos à realidade. Nesse sentido, a única forma de alcançar uma “ótima” funcionalidade
é de maneira emergente, ou seja, organizando os elementos do mercado da forma mais
“completa” possível para que em seu conjunto se resolvam os problemas.
Os agentes são indivíduos, empresas, processo, etc. com um determinado objetivo. O
“Exame”, um caso especial de agentes que foram simulados se tem desenvolvido no Santa Fé
Institute em Nuevo México, conhecido como “Exames” (Lagton et al., 1999), inspirados na
organização de insetos sociais (Bonebeau et al., 1998). Poderíamos dizer que um exame é um
agente com muitas outras qualidades: um enxame geralmente esta composto de vários
exames, os quais, por sua vez, podem consistir de vários enxames. Se fossem objetos, isto
seria uma simples agregação. Mas, como cada enxame tem sua própria dinâmica, esta forma
de pensamento ajuda a simulação de sistemas a vários níveis ao mesmo tempo.
Podemos dizer que um sistema é adaptativo se melhora o seu desempenho no tempo.
Na metade do século passado aproximadamente, na cibernética (Wiener, 1948; Ashby 1956),
começou-se a estudar os métodos para construir sistemas adaptativos, e na atualidade os
estudos estes continuam.
Bloch (2005) utiliza como base os trabalhos feitos por Maturana, & Varela, (1980;
1987); Barabasi, (2002); Mandelbrot, (1982); Kauffman, (1995); (Banks, 2000); (Ainslie,
1995; Goerner, 1994, 1995; Kauffman, 1995), para descrever de uma forma mais “completa”
as características dos sistemas adaptativos complexos e das dinâmicas não-lineares. Os
sistemas adaptativos complexos compartilham características comuns em física, biologia ou
em ciências sociais e são as seguintes:
1. Autopoiese ou auto-regeneração; os sistemas adaptativos complexos, referidos neste
ponto, simplesmente como entidades, tem a habilidade de manter-se eles mesmos,
embora os componentes deles, e até mesmo as suas formas possam mudar. Neste
sentido, eles têm vida. Vida é a habilidade que a entidade tem para manter-se ela
mesma. Vida é a habilidade para se adaptar internamente a mudanças ambientais.
2. Troca aberta ou livre; sistemas são abertos, ou seja, eles se mantêm através do fluxo e
troca de componentes ou energia.
3. Participação em redes; nas trocas, entidades são partes de redes. Qualquer entidade é
parte de muitas redes, que podem ser descritas não somente como círculos
concêntricos, mas como vínculos já-ampliados a nós, além da própria entidade. Ao
mesmo tempo, uma entidade particular pode ter redes que operam dentro delas.
4. Fractais; entidades são partes ou fractais de outras entidades. Cada fractal tem a
totalidade do organismo na sua forma. No final das contas, cada organismo pode ser
visto como um fractal de universo. Fractais revelam-se, como estruturas irregulares
que são auto-semelhantes em diferentes escalas de manifestação.
5. Fase de transição entre ordem e caos; entidades são dinâmicas. Em troca constante de
formas, componentes, e energia, elas se movem entre a ordem e o caos. Essas
transições de fase são comparáveis ao movimento de água entre suas três fases:
liquidas, sólido ou gelo, e gás ou vapor. Transições de fases são a oportunidade para a
criatividade e o aparecimento de novas formas.
6. A procura por ponto ótimo de mudança; durante as transições de fase, entidades
procuram uma ótima condição, isso é, o ponto que desempenará a maior mudança para
sobrevivência.
7. Dinâmica não-linear; transições de fase são melhor explicadas por dinâmica nãolinear. Em dinâmica não-linear, existe a expectativa que mudanças de iguais
dimensões produziram efeitos iguais. Há também a suposição que a causa é, se não
7
unidimensional, também facilmente estudada através de métodos de regressão
múltipla. Entidades complexas, não entanto, comportam-se de forma não linear.
Porque as transições entre ordem e caos estão provocando causas de múltiplas redes de
relações, de uma interação continuada do interno e externo, é frequentemente o que
teria sido considerado “ruído” na ciência reducionista, que é da maior importância
entendendo a dinâmica de entidades não-lineares.
8. Dependência sensitiva ou potencial para que pequenas mudanças provoquem grandes
efeitos; pequenas mudanças provocam efeitos grandes. Entre a não-recorrência de
padrões não-lineares, pode se encontrar que, pequenas mudanças provocam efeitos
grandes. Este fenômeno, conhecido como dependência sensitiva, é qualidade que
caracteriza a todas as entidades complexas. Não importa quão semelhante os estados
iniciais de entidades dinâmicas sejam, pois pode-se ter a certeza que eles “vaguearão
separadamente” depois de um tempo.
9. Atratores que limitam o crescimento; atrator é: um conjunto invariante para o qual
órbitas próximas convergem depois de um tempo suficientemente longo. Como as
entidades se movem através da sua transição, podem conservar a sua vida e podem se
amoldar com respeito a vários tipos de atratores que limitam o seu movimento e
crescimento. Estes atratores restritivos, podem ser descritos como atratores ponto,
atratores pendulo ou atratores torus. Como o nome sugere, uma entidade formada por
atratores ponto retorna repetidamente para o mesmo estado como se atraídos por um
imã. Uma entidade formada por atratores pendulo se move de um lado para outro entre
dois estados identificáveis, exatamente como um pendulo que se balanceia de lado a
lado. Finalmente, uma entidade segurou um lugar por um atrator torus movendo-se ao
redor, e novamente ao redor, em um padrão circular. Padrões formados por atratores
torus são frequentemente descritos como donas (donut), como rodadas e rodadas o
mesmo circulo de eventos vão, nunca repetindo exatamente, mas nunca deixando a
área circunscrita.
10. O role de atratores estranhos na emergência; no entanto, como as entidades movem-se
por suas transições, isso pode reter a vida através da criação de novas formas, uma
qualidade conhecida como emergência. Atratores estranhos, produzem entidades que
não são, nem lineares nem controladas. Quando elas são traçadas matematicamente, os
padrões formam figuras únicas ou fractais.
11. Espiritualidade; entidades adaptativas complexas existem unicamente como partes de
inseparabilidade acomodada ou conectividade. Em outras palavras, não há nenhum
sistema vivo sem interdependência. Espiritualidade é a experiência desta unidade.
Visando contribuir com o entendimento da dinâmica e funcionamento (i.e. autoorganização) desses sistemas, Kay et al. (1999) consideraram central retratar as interações
entre sistemas naturais e sistemas humanos de decisão através da idéia de Self-Organizing
Holarchic Open System - SOHO. Os autores destacam que o entendimento do funcionamento
dos sistemas SOHO depende da percepção dos sistemas abertos como processos dissipativos e
com a presença de exergy (i.e. energia, materiais ou informação de alta qualidade). Por meio
de um processo de catálise, a exergy promove alguns processos e inibe outros. Nestas
circunstâncias, comportamentos coerentes aparecem nos sistemas por longos períodos de
tempo, podendo mudar e até mesmo desaparecer repentinamente.
Para Kay et al. (1999) o ambiente tenderá a favorecer alguns processos. O padrão
estabelecido no sistema SOHO pode ser classificado como um conjunto de comportamentos e
propensões que são coerentemente organizados dentro da organização ou sistema,
denominados de atratores. Alguns atratores podem ser mantidos pelo SOHO, mesmo diante
de pressões externas impostas pelo ambiente, mas vale observar que os sistemas possuem
8
múltiplas possibilidades de articular atratores, podendo substituir inesperadamente um atrator
por outro. Os autores enfatizam que os indivíduos e suas organizações também exibem as
características dos sistemas SOHO, ainda que essa noção seja pouco explorada em estudos de
fenômeno de auto-organização em sistemas sociais (e.g. mercados, organizações empresariais
e redes de relacionamento).
Mantendo certa sintonia com essas idéias, Campbell-Hunt (2007) apontam que uma
representação de prática social, como sistema adaptativo complexo, oferece um meio para
investigar estes fenômenos impenetráveis. Períodos de mudança ou crise em estratégia são
atrativas oportunidades para entender e transformar determinados fenômenos (Barley &
Tolbert, 1997; Regner, 2003). Nestas ocasiões, estruturas definidas são rompidas e outras
novas emergem em constante evolução (Brocklesby & Campbell-Hunt, 2004).
Juntando-se a isso, as indicações de que é preciso pensar o mercado do etanol numa
perspectiva global, o estudo do mesmo torna-se relevante quando o uso de uma abordagem
sistêmica, a partir da perspectiva de sistema adaptativo complexo, é apresentado como
alternativa. Nesse sentido, dá-se prosseguimento no presente trabalho, buscando se apresentar
uma proposta para o mercado do etanol brasileiro, entendendo esta prática econômica e social
como um sistema adaptativo complexo.
6. O mercado do etanol como sistema adaptativo complexo
Diferentes autores (Borges, 2007; Burnquist, 2007; Junior, 2007; Prot von Kunow,
2007; Teixeira, 2007; Shimanouchi, 2007; Winberg, 2007; Troster, 2007), enxergam esse
mercado somente com certo número de elementos, que devem cumprir de forma eficiente
suas funções. O presente estudo, no entanto, define este sistema adaptativo complexo,
organizado por diferentes agentes aplicando-se as características estudadas por Maturana, &
Varela, (1980; 1987); Barabasi, (2002); Mandelbrot, (1982); Kauffman, (1995); (Banks,
2000); (Ainslie, 1995; Goerner, 1994, 1995; Kauffman, 1995), e posteriormente agrupadas
por BOCH (2005).
Entender a complexidade deste sistema ajudaria a alcançar estabilidade dinâmica, que
caracteriza os sistemas dinâmicos não-lineares. Pois, na atualidade, existe uma necessidade de
fazer do etanol uma commodity energética internacional, o qual só poderá ser feito pela
comunicação, coordenação e cooperação do sistema como um todo e não por esforços
individuais ou associações composta só por alguns agentes do mercado.
Um conceito que nos pode ajudar a entender esse mercado, é utilizando algumas
analogias vindas da teoria de Inteligência de enxame, onde a estrutura desse sistema é
formada por agentes econômicos. Dependendo da escala de analise, um agente pode
representar um individuo, um projeto em equipe, uma divisão, ou uma organização inteira
(CHOI, 2000). Para efeitos desta análise os agentes são, por exemplo: as instituições
reguladoras, os produtores de cana, os fornecedores, etc. Ou seja, os agentes do mercado de
etanol brasileiro, são elementos do sistema, mas cada um deles, independentemente, é outro
sistema adaptativo complexo formado por suas próprias estruturas e relações internas, quer
dizer, que as partes fazem um todo mais cada parte é a sua vez um todo. Cada parte pode ser:
o sistema das instituições reguladoras, o sistema dos produtores de cana ou o sistema dos
fornecedores formados por seus receptivos agentes. Esses agentes têm um grau de
conectividade com outros agentes, pelo qual a informação e os recursos podem fluir (CHOI,
2000).
Cabe mencionar que nessa mesma lógica, mas em uma perceptiva maior, o mercado
do etanol brasileiro como sistema adaptativo complexo pode ser entendido como um agente
que faz parte do mercado mundial do etanol, formado pelos mercados ou agentes que são os
diferentes sistemas internacionais do etanol, juntamente com os outros mercados ou agentes
internacionais (agente americano, chinês, japonês, etc). Em fim, cada sistema/agente terá que
9
se adaptar à entropia (novas mudanças do mercado que puxam o agente ao desordem) do
entorno. Terá que emergir, de forma adaptativa com a finalidade de alcançar a sua
estabilidade dinâmica de sistema não-linear.
A seguir é apresentado uma aplicação dos Sistemas Adaptativos Complexos no
mercado do etanol brasileiro, como proposta que objetive a inter-relação dos diferentes
agentes envolvidos, que garantam a adaptação que o mercado do etanol precisa (a
commoditização). Para isso se faz um paralelo das características descritas anteriormente por
Boch (2007):
1. Autopoiese ou auto-regeneração; para Prigogine (2002) as estruturas de nãoequilíbrio, também são chamadas de “dissipativas” e a formação dessas, só existem
quando se dissipa energia e permanece em interação com o mundo exterior. Também se
diz que: “Só podemos falar de sistema nas situações de não-equilíbrio” (PRIGOGINE,
2002 p 28). São precisamente estas circunstâncias de não-equilíbrio entre os diferentes
elementos do mercado do etanol brasileiro e a sua interação, também como a sua interação
com o seu ambiente, que permitirá a emergência do sistema. A permanecia e evolução
dele dependerá da capacidade de se auto-manter. A “vida” do mercado do etanol
dependerá da autonomia de cada uma das partes, da autonomia das instituições de
regulação que cumpram a sua função de controle, da autonomia das instituições de
pesquisa que gerem no conhecimento a ser aplicado em cada agente, ou da autonomia da
BM&F - Bolsa de Mercadorias que definam um contrato futuro padrão, etc. também se
ressalta que deve existir independência aos estímulos e/ou ruídos externos.
2. Troca aberta ou livre; o mercado do etanol no Brasil pode ser entendido também
como um sistema aberto-dissipativoi, pelo fato de se relacionar com seu meio ambiente. É
exatamente desse ambiente que o sistema realiza troca de produtos, serviços, dinheiro
(energia) para sobreviver. O mercado do etanol requer de múltiplos fluxos para poder
existir, ele necessita diferentes recursos para enfrentar a entropia do sistema, ele pega do
ambiente toda a entropia negativa que precisa para continuar em equilíbrio dinâmico e
talvez em equilíbrio dinâmico evolutivo. Evolução que agora tem o nome de
commoditização.
3. Participação em redes; no processo de troca o sistema é parte de diferentes redes.
Nesse processo o sistema (mercado do etanol) pode ser parte do sistema de maquinas
agrícolas, bancário, aéreo, político, educativo, etc. onde, por exemplo: o mercado do
etanol brasileiro, apresentado como um sistema adaptativo complexo, é parte de muitas
outras redes descritas por estruturas complexas. Ao mesmo tempo em que, cada
componente do mercado do etanol (Ver figura 1) é uma rede operando em outra rede.
4. Fractais; se é selecionado somente um fractal ou elemento do sistema para esta análise,
como por exemplo a logística do mercado de etanol, esse elemento, olhado através de uma
perspectiva macro, é “simplesmente” um fractal do sistema mundial de logística, mas se
olhado através de uma perspectiva micro, esse fractal, é o sistema logístico do mercado do
etanol no Brasil. Então dependendo do grau de analise o mesmo elemento pode se
estudado como fractal ou como universo composto de fractais.
5. Fase de transição entre ordem e caos, o mercado do etanol Brasileiro é dinâmico, ou
seja, sua forma, os seus componentes e o seu nível de entropia negativa utilizado pelo
sistema, variam constantemente quando se move a ordem até o caos. Por exemplo, em
determinado momento o sistema adaptativo complexo pode ter uma forma que priorize o
agente logístico, melhorando os gargalhos desse agente, até que ele obtenha determinada
competitividade para que depois a sua prioridade estrutural possa girar em torno da Bolsa
de Mercadorias & Futuros. Também os seus componentes e os seus fluxos podem variar
em razão das novas fases de transição do produto e das mudanças do entorno.
10
6. A procura por um ótimo ponto de mudança, o sistema adaptativo complexo
(mercado do etanol) encontra-se agora em um “ótimo” ponto de mudança, nesse sentido
se faz necessário que o sistema como um todo identifique que commoditizar o etanol não
é um problema para o mercado Brasileiro e sim um ponto de bifurcação (PRIGOGINE,
2002 p. 23) que deve ser identificado como uma oportunidade para evoluir e passar a
outro nível.
7. Dinâmica não-linear, mesmo existindo estruturas simples, elas apresentam interações
não-lineares (GIOVANINNI E KRUGLIANSKAS, 2004). Se cada elemento do sistema
adaptativo complexo (mercado do etanol brasileiro) fosse um individuo, por exemplo, os
produtores de cana seriam “o produtor de cana”, a dinâmica do sistema como um todo
devido às características de suas interações e às intensidades das mesmas, dariam origem a
uma dinâmica não-linear. Hoje, a realidade é diferente, pois cada elemento do mercado do
etanol brasileiro é um sistema, então a dinâmica de uma rede, formada por redes, só pode
ser não-linear.
8. Dependência sensitiva ou potencial para que pequenas mudanças provoquem
grandes efeitos,o fato de não existir recorrência entre o comportamento dos elementos
que fazem parte do mercado do etanol no Brasil, significa que pequenas mudanças em
algum deles podem ter efeitos de magnitudes maiores no sistema como um todo, ou seja,
uma pequena mudança de regulação sobre a porcentagem de mistura da gasolina com
etanol, que na atualidade se vem fazendo, pode provocar uma grande mudança em todo o
sistema. Outro exemplo que pode-se comentar, é que se alguma pesquisa referir-se sobre a
obtenção do etanol a partir da celulose de maneira comercial, mesmo que seja em um
pequeno laboratório, isso poderia transformar rapidamente todo o mercado.
9. Atratores que limitam o crescimento; no mercado brasileiro do etanol, pode se dizer
que nos anos oitenta o consumo de etanol era motivado pelo aumento dos preços do
petróleo, o qual estimulava diretamente o consumo de produtos substitutos. Foi nessa
época que o etanol ganhou relevância no mercado brasileiro, pois o sistema se amoldou a
esse tipo de atrator (gasolina cara). Posteriormente, nos anos noventa com a queda nos
preços internacionais do petróleo, aquele atrator que conservou a vida do mercado do
etanol começou a limitar o seu crescimento.
10. O role de atratores estranhos na emergência; o conceito de atrator estranho, no
mercado brasileiro do etanol, revela que o sistema se move pelas suas transições, e na
atualidade o mercado esta em um processo de transição que deve levar a commoditizar do
etanol. Deve-se ter em consideração o tempo que essa transição levará, pois enquanto não
se entenda que a evolução deve sair da coordenação de todo o sistema, as perdas
financeiras serão de grandes magnitudes em função da natureza entrópica do sistema. O
atrator estranho na presente pesquisa é a commoditização do etanol.
11. Espiritualidade; o mercado do etanol no Brasil só existe como parte de acomodada
inseparabilidade ou como conjunto de partes conectadas, sistema no qual há
interdependência. Isto pode se apresentar em qualquer elemento do sistema adaptativo
complexo (ver a Figura 1). Os fornecedores existem porque dependem da indústria ou dos
produtores de cana que precisam de seus produtos e serviços, igualmente a logística que
existe por diferentes elementos ou nós que necessitam dela para cumprir com seus
compromissos com o sistema.
7. A estrutura de rede do mercado do etanol como sistema adaptativo complexo
Segundo Strogatz (2001) o estudo de redes está penetrando em todas as ciências, desde
a neurobiologia para a estatística física. Mesmo assim, tem que ser considerado que o mais
importante assunto que deve ser estudado, gira em torno da estrutura. A seguinte proposta
11
visa apresentar um modelo estrutural de rede para o mercado do etanol no Brasil, entendendo
este mercado com as características de um Sistema Adaptativo Complexo.
Desde uma perspectiva de dinâmica não-linear, Strogatz (2001), estuda como uma
enorme rede de sistemas dinâmicos interagindo (seja eles neurônios, centrais elétricas ou
laser) se comportarão coletivamente, determinando a estrutura dinâmica individual e
associada deles. Pois, pesquisadores só estão começando agora a desvendar a estrutura e
dinâmica de redes complexas (STROGATZ, 2001). Dito de outra forma esta proposta é uma
aplicação da Teoria de Sistemas Complexos Adaptativos ao campo dos agronegócios. Para
cumprir isto, utilizamos um modelo de rede aplicado a nosso objeto de estudo, mercado do
etanol brasileiro, definindo ele como um sistema composto de dez elementos ou nós.
Acreditando que a estrutura afetará a função do sistema e que as redes são inerentemente
difíceis de entender, descreve-se a continuação uma lista de possíveis complicações jazidas
nas redes (STROGATZ, 2001); e que estarão presentes na estrutura de rede do sistema
adaptativo complexo do etanol no Brasil (ver Gráfico 01):
1.- Complexidade Estrutural: A rede apresentada pode parecer muito emaranhada,
mas isso é produto das relações entre os nós, pois se corre o risco de perder realismo ao
tentar ser simplistas. O fato de ter, por exemplo, as instituições de pesquisa como um nó,
significa que esse nós tem que estar agindo de maneira independente com os nove nós
restantes, inovando em cada área para ajudar ao sistema como um todo
2.- Evolução de Rede: A estrutura da rede pode mudar com o tempo, reduzindo-se
algum nó ou incrementando-se outros. Pode ser que no tempo as tarifas de importação
caiam e o mercado interno e o externo sejam gerenciados, somente, como um nó,
também pode acontecer que o desenvolvimento do etanol de celulose mude a estrutura
da rede aumentando o numero de nós.
3.- Diversidade de Conexão: No gráfico diferenciou-se (com cores) as ligações dos
nós, mudando a ligação em função ao tipo de traço ou à intensidade de cor. Aquilo
mostra o que atualmente acontece no mercado brasileiro de etanol, toda vez que os
fornecedores podem manter um relacionamento interorganizacional próximo com os
produtores de cana, mas um relacionamento menos importante com o mercado interno
ou com as entidades reguladoras.
4.- Complexidade Dinâmica: Cada nó ou elemento é por sua vez um sistema dinâmico
não-linear. A Bolsa de Mercadorias & Futuros vem a ser um nó do sistema adaptativo
complexo, mas ela também pode ser um sistema adaptativo complexo a ser estudado
pelas mesmas características.
5.- Diversidade de Nós: Esta refere-se ao que se poderia levar a diferentes tipos de nós,
com um nível de importância também diferente. Nos começos dos anos oitenta a Bolsa
de Mercadorias & Futuros não tinha um papel tão importante no mercado de etanol, mas
agora ela esta presente, tendo características diferentes (obviamente) aos outros nós.
6.- Meta-complicação: Algum fenômeno em um nó pode influenciar o comportamento
de outros podendo complicar o comportamento de todo o sistema. Um problema
climático que afeta diretamente à cultura da cana pode chegar a complicar todo o
mercado brasileiro e inclusive o mercado mundial do etanol.
12
O mercado do etanol como sistema adaptativo complexo
Fonte: Elaborado pelos autores.
8. Considerações finais
O artigo buscou trazer elementos vindos da teoria da Complexidade, da Teoria de
redes e dos Sistemas Adaptativos Complexos ao campo dos agronegócios. Para isso se fez um
detalhamento das características estudadas por diferentes teóricos que foram agrupados por
Bloch (2005) e outras vindas das topologias de rede de Strogatz (2001).
Diante da necessidade, dos agentes econômicos (nós) do mercado de etanol brasileiro,
de agir da forma mais racional, sistêmica e adaptativa, esta proposta apresentou uma tipologia
de rede do mercado de etanol no Brasil que seja capaz de enfrentar o desafio de commoditizar
o etanol em um menor prazo possível. Dadas as evidencias encontradas nas expressões de
diferentes entendidos neste tema pode se dizer que os diferentes agentes econômicos
poderiam ter uma ferramenta nestas teorias que refletem de forma mais “certa” o complexo
13
mundo real. Onde os diferentes agentes econômicos mantêm relacionamentos
interorganizacionais que podem ser melhor entendidos a partir desta tipologia de rede. Pois,
cada nó (agente) tem uma característica diferente e o relacionamento que este tem sempre é
diferente de agente para agente, fato que precisa ser analisado com maior profundidade em
pesquisas futuras. Ou seja, estudar as diferentes características (poder, coordenação, tempo,
etc) dos relacionamentos existentes no mercado do etanol.
Na atualidade o mercado estudado se encontra no que Prigogine (2002) chamaria de
ponto de bifurcação e acredita-se que é exatamente este ponto no qual o sistema evoluirá para
“níveis superiores”. É nesse limite entre o caos e a complexidade que este sistema dinâmico
não-linear, que terá que emergir e superar suas limitações (commoditização do etanol),
contornando a incerteza intrínseca deste sistema complexo no qual esta inserido. Especula-se
que entender o atual desafio no mercado do etanol brasileiro, baixo as luzes de modelos mais
sistêmicos não-lineares e complexos, poderiam evitar algumas perdas financeiras do mercado.
Finalmente, propõe-se que a aplicação dos conceitos de Sistemas Adaptativos
Complexos, Teoria de Redes e Sistemas Adaptativos Complexos aplicados ao agronegócio
podem ser recursos teóricos que melhorarem a compressão das inter-relaciones existentes nos
diferentes sistemas agronegociais.
9. Referencial Teórico
AINSLIE, P Chaos, psychology, and spirituality. In R. Robertson ; A. Combs (Eds), Chaos
Theory in psychology and the life science, p. 309- 317. Mahwah, NJ: Erlbaum. 1995.
ASHBY, W. R. An introduction to Cybernetics. London, Chapman; Hall, 1956.
AXELROD, Robert. The complexity of cooperation : agent-based models of competition
and collaboration. New Jersey: Princeton University, 1997.
BAUER, Ruben. Gestão da Mudança: caos e complexidade nas organizações. São Paulo:
Atlas, 1999.
BANKS, L. Sensitive dependence. Retrieved January 23, 2002. Disponível em :
<http://www.johnbanks.math.latrobe.edu.au/chaos/animaed/sensitive.html> Acesso em:
16 jul. 2007.
BARABASI, A. L.Linked: The new science of networks. Cambridge, MA. Perseus. 2002.
BARLEY, S.R.; TOLBERT, P.S. Institutionalization and structuration: Studying the links
between action and institution. Organization Studies, v.18, n.2, p. 303-328, 1997
BAR-YAM, Y. Dynamics of complex systems. New England: Addison-Wesley. 1997.
Disponível em: <http://www.necsi.org/publications/dcs> Acesso em: 25 de jul. de 2007.
BLOCH D. P. Complexity, chaos, and nonlinear dynamics: A new perspective on career
development theory. Career Development Quarterly, v. 53, n. 3, p.194-207. 2005.
BONABEAU, E. Swarm intelligence : from natural to artificial systems. New York:
Oxford University Press, 1999..
BORGUES J. M. Álcool: a commodity global. . Revista Opiniões, Ribeirão Preto, jan./mar.,
2007.
BOULDING, K. E. General systems theory: The skeleton of science. Management Science,
v. 2, n. 3, 197–208. 1956.
BROCKLESBY, J.; CAMPBELL-HUNT, C. The evolution of competitive capability: A
cognition and complex systems perspective. Journal of Organizational Transformation
and Social Change, v 1, n. 2-3, 143–62. 2004.
BURNES, B. Kurt Lewin and complexity theories: Back to the future? Journal of Change
Management, v. 4, n. 4, 309-325. 2004.
14
BURNQUIST H. L. Por que o Brasil deve apoiar a internacionalização do etanol?.
Revista Opiniões, Ribeirão Preto, jan./mar., 2007a.
CAMPELL-HUNT, C, Complexity in practice. Human Relations, v. 60, n. 5, 793-823. 2007.
CILLIERS, P. Boundaries, hierarchies and networks in complex systems. International
Journal of Innovation Management, v. 5, n. 2, p 135−147. 2001.
CILLIERS, P. knowing complex systems the limits of understanding. department of
philosophyuniversity of stellenbosch stellenbosch south Africa. 2007. Disponível em:
<http://www.wkdnews.org/wkd/files/original_presentations/wkd_20060915_cilliers_kno
wing_complex_systems.pdf> Acesso em: 05 de ag. de 2007.
CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo: Cultrix, 1997.
CARVALHO, P.E. Etanol: Quanto mais, melhor. Revista Opiniões, Ribeirão Preto,
jan./mar., 2007a.
GAMARRA, J. E. T. Transmissão de preços entre os mercados do etanol e da gasolina desde
o lançamento dos carros Flex-Fuel, no mercado brasileiro. 2009. Dissertação (Mestrado) –
Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios, Programa de Pós-Graduação em
Agronegócios, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2009
GIOVANINNI, F.; KRUGLIANSKAS, I. Organização eficaz. São Paulo, Nobel, 2004.
GRIBBIN, J. Fique por dentro da física moderna. São Paulo: Cosac; Naify, 2002.
GLEICK, J. Chaos : making a new science. New York: Penguin Books. 1987.
GLEISER, I. Caos e complexidade: a evolução do pensamento econômico. Rio de Janeiro:
Campus, 2002.
HOCK, Dee. Nascimento da era caórdica. São Paulo: Cultrix, 2004.
KAY, James J.; REGIER, Henry A.; BOYLE, Michelle et. all.. An ecosystem approach for
sustainability: addressing the challenge of complexity. Futures, Guildford, v. 31, n.7, p.
721-742, 1999.
KAUFFMAN, S. At home in the universe: The search for laws of self-organization and
complexity. New York: Oxford University Press.1995
KUNOW P. V. Commodity, sim. Mas, sustentável. Revista Opiniões, Ribeirão Preto,
jan./mar., 2007a.
MANDELBROT, B. B. The fractal geometry of nature. San Francisco. Freeman. 1982.
MARION, R.; Uhl-Bien, M. Leadership in complex organizations. The leadership
Quarterly, v.12, n. 4, 389−418. 2001.
MATURAMA, H. & VARELA, F. Autopoiesis and cognition: The realization of the
living. Vol. 42 in R.S Cohen & M. W. Wartofsky (Series Eds.), Boston studies in the
philosophy of science. Dordrecht. Holland: Reidel. 1980.
MATURAMA, H. & Varela, F. The tree of knowledge: The biological roots of human
understanding. Boston: Shambala. 1987.
PIDD, Ml. Modelagem empresarial: ferramentas para tomada de decisão. Porto Alegre:
Bookman, 1998.
PRICE WATERHOUSE. Change Integration Team. The paradox principles : how highperformance companies manage chaos, complexity, and contradiction to achieve
superior results. Chicago: Irwin, 1996.
PRIGOGINE, I. As leis do caos . Sao Paulo: Editora Unesp, 2002.
REGNER, P. Strategy creation in the periphery: Inductive versus deductive strategy making.
Journal of Management Studies. v. 40, n.1, 57–82. 2003.
SIMON, Herbert A Administrative Behavior. Nova York, Free Press, 1995.
STANCEY, R. D. Complexity and creativity in organizations. San Francisco: BerrettKoehler. 1996.
15
SHIMANOUCHI K. Ações no Japão para a introdução do etanol brasileiro e requisitos para
tornar o álcool uma commodity. Revista Opiniões, Ribeirão Preto, jan./mar., 2007a.
STROGATZ, S.H. Exploring complex networks, Nature, v. 410, n. 6825, p. 268-276. 2001.
TEXEIRA S. Temos muito trabalho pela frente, mas o futuro é promissório. Revista
Opiniões, Ribeirão Preto, jan./mar., 2007a.
TROSTER. R. l. O cavalo selado. Revista Opiniões, Ribeirão Preto, jan./mar., 2007a.
UNICA (2007): Uma nova fonte de energia limpa para o mundo. ANO 9 • Nº 76 •
Maio/Junho
2007,
Disponível
em:
<http://www.portalunica.com.br/portalunica/files/referencia_publicacoes_informacaounic
a-32-Arquivo.pdf> Acesso 14 de jul. de 2007.
WIENER, N Cybernetics; or control and communication in the animal and the machine.
Cambridge: MIT Press., 1948.
WINBERG M. Proposta para abrir as portas da UE para o etanol brasileiro. Revista Opiniões,
Ribeirão Preto, jan./mar., 2007a.
i
O conceito de sistema dissipativo criado por Prigogine (1997), esta sendo adaptado para a o mercado do etanol
no Brasil.
16
Download

Modelo de Sistema Adaptativo Complexo para o Mercado