XXX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
Maturidade e desafios da Engenharia de Produção: competitividade das empresas, condições de trabalho, meio ambiente.
São Carlos, SP, Brasil, 12 a15 de outubro de 2010.
PROPOSTA DE UM PROTOCOLO PARA
O ESTUDO DE CASO EM PESQUISAS
QUALITATIVAS
João Henrique Lopes Guerra (UFSCar)
[email protected]
O estudo de caso é uma das abordagens metodológicas mais utilizadas
em engenharia de produção, mas na literatura existem poucos modelos
de referência para se criar e utilizar um protocolo. O foco deste artigo
é a pesquisa qualitativa realizzada por meio de estudo de caso e o seu
objetivo é apresentar um modelo para o protocolo do estudo de caso
visando subsidiar a coleta de dados através de entrevistas. O modelo
apresentado é fruto de aperfeiçoamentos que um modelo original
sofreu ao longo do tempo, durante uma série de entrevistas realizadas
pelo autor no âmbito de um doutorado. Por servir como meio pelo qual
os dados fluem das fontes de evidência até o pesquisador, o protocolo
exerce forte influência sobre a eficiência (utilização correta dos
recursos empregados durante a pesquisa de campo) e a eficácia
(alcance dos objetivos esperados com a pesquisa de campo) do
processo de coleta de dados.
Palavras-chaves: protocolo, estudo de caso, pesquisa qualitativa,
entrevista
1. Introdução
De acordo com Silva e Menezes (2001): “pesquisar significa, de forma bem simples, procurar
respostas para indagações propostas” (p.19); “pesquisa científica seria [...] a realização
concreta de uma investigação planejada e desenvolvida de acordo com as normas consagradas
pela metodologia científica” (p.22).
Com base em qualquer dicionário, pode-se conhecer que: a palavra metodologia refere-se ao
estudo dos métodos; já o método, por sua vez, refere-se ao modo ordenado de proceder, ao
como proceder. Segundo Miguel (2007), a forma com que o pesquisador interage com o
ambiente pesquisado, como formula hipóteses e coleta e analisa dados necessita estar
sustentada por métodos adequados à natureza da pesquisa e à realidade investigada.
Na prática, escolher o método mais adequado para a pesquisa significa tomar decisões sobre
algumas variáveis que determinam as características da pesquisa e que, portanto, lhe conferem
uma classificação (para mais detalhes sobre as classificações da pesquisa científica, ver:
SILVA e MENEZES, 2001): a pesquisa será qualitativa ou quantitativa? Ela terá um objetivo
exploratório, descritivo ou explanatório? Ela será realizada por meio de uma pesquisa
bibliográfica, um estudo de caso, uma pesquisa-ação, um levantamento? Os dados serão
coletados da literatura ou por meio de entrevistas?
Se a natureza da pesquisa e a realidade a ser investigada indicarem que o estudo de caso é a
abordagem mais adequada para a realização da pesquisa, Miguel (2005, 2007) e Yin (2005)
aconselham que o estudo de caso esteja suportado por um protocolo. Yin (2005) explica que o
protocolo engloba o instrumento de coleta de dados (por exemplo, o questionário a ser
utilizado em uma entrevista), porém é mais do que isso: ele também contém as regras e os
procedimentos a serem seguidos ao se utilizar o instrumento.
O estudo de caso é uma das abordagens metodológicas mais utilizadas em engenharia de
produção (MIGUEL, 2007), inclusive aqui no Brasil (ver: BERTO e NAKANO, 1998, 2000).
Além disso (ou justamente por causa disso), ele tem sido um tema bastante recorrente na
literatura (aplicada ou não à Engenharia de Produção) sobre metodologia de pesquisa (apenas
para citar alguns exemplos: EISENHARDT, 1989; BARTON, 1995; VOSS, TSIKRIKTSIS e
FROHLICH, 2002; DUBOIS e ARAUJO, 2007; SEURING, 2008). Porém, nas discussões
sobre o estudo de caso na literatura, o protocolo ainda permanece como um assunto deixado à
margem. Como resultado, existem poucos modelos de referência para se criar um protocolo
que sustente o desenvolvimento de um estudo de caso na prática (entre os poucos disponíveis,
merece destaque os trabalhos de: YIN, 2005; TOLEDO e SHIAISHI, 2009).
O foco deste artigo é a pesquisa qualitativa realizada por meio de estudo de caso e o seu
objetivo é apresentar um modelo para o protocolo do estudo de caso visando subsidiar a coleta
de dados através de entrevistas. O modelo aqui apresentado é fruto de aperfeiçoamentos que
um modelo original sofreu ao longo do tempo, durante uma série de entrevistas realizadas
pelo autor no âmbito de um doutorado. Ele se comportou muito bem ao sustentar o processo
de coleta de dados, o que favoreceu bastante o processo seguinte, de análise de dados.
Antes de apresentá-lo, no entanto, é preciso discutir os principais conceitos envolvendo a
pesquisa qualitativa e o estudo de caso.
2. Pesquisa qualitativa e estudo de caso
Este artigo não tem o objetivo de promover uma ampla e profunda revisão de literatura sobre
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a pesquisa qualitativa ou o estudo de caso, mas tão somente identificar as principais
características deste tipo de pesquisa e desta abordagem metodológica visando deixar claro o
contexto em que o protocolo proposto pode ser utilizado. É importante explicitar que não se
afirma aqui que o modelo proposto não pode ser aplicado em outros tipos de pesquisa: afirmase apenas que ele não foi utilizado, até agora, em outros contextos. De fato, isto é justamente
o que o autor espera com este artigo: que outros pesquisadores possam aplicá-lo (modificado
ou adaptado), tanto no contexto em que ele foi desenvolvido, quanto em outros.
Ao se analisar a literatura, é comum não encontrar a pesquisa qualitativa definida por si só,
mas em contraponto à quantitativa (GUNTHER, 2006). Para Turato (2000), a pesquisa
qualitativa não pode ser definida pela via da negação, ou seja, como aquela que não recorre a
números, cálculos, tabelas, técnicas estatísticas, amostras, etc. Na mesma linha, Berto e
Nakano (1998) argumentam que a presença ou ausência de quantificação de dados não é uma
boa referência para se distinguir a pesquisa qualitativa da quantitativa.
Com base na literatura, Fraser e Gondim (2004) recorrem a diferentes abordagens, sustentadas
por pressupostos filosóficos distintos, para diferenciar a pesquisa quantitativa da qualitativa.
A primeira defende o ponto de vista de que a realidade é externa ao sujeito e prega a
quantificação e o controle das variáveis para que um conhecimento objetivo seja alcançado. A
quantificação (ou mensuração) é feita a partir de instrumentos padronizados que assegurem a
neutralidade e permitam fazer generalizações com precisão. Já a segunda defende o ponto de
vista de que o essencial não é quantificar ou mensurar, mas sim captar os significados,
compreender uma realidade (que é dinâmica) particular na sua complexidade. Além disso,
lida com um objeto de estudo que, diferentemente de um objeto físico e passivo, reage diante
de seu pesquisador.
Uma importante diferença entre os estudos qualitativos e os quantitativos é citada por Dubois
e Araujo (2007) e refere-se à forma como a generalização é feita. No primeiro caso, a
generalização é analítica e, no segundo, estatística (ver também: YIN, 2005).
Para Turato (2000), na pesquisa qualitativa os pesquisadores preocupam-se tanto (ou mais)
com o processo do que com o produto, ou seja, querem entender como os fenômenos
ocorrem. Segundo Berto e Nakano (1998), a compreensão do fenômeno ocorre pela sua
descrição e interpretação. Turato (2000) também lembra que a pesquisa qualitativa ocorre no
ambiente natural e não em um reproduzido (como um laboratório). Além disso, este autor cita
que os dados coletados levam a forma de palavras, os resultados devem conter citações
ilustrativas literais e, em uma entrevista, o pesquisador deve complementar a redação com as
observações que surgem no ambiente em que ela ocorre.
Quanto à abordagem metodológica, Miguel (2007) argumenta que ela deve atender a questão
da pesquisa de modo a proporcionar um caminho para respondê-la.
Esta relação entre a questão da pesquisa e a abordagem metodológica também aparece em Yin
(2005), que defende que a forma da questão fornece um indício importante para a escolha da
abordagem. De acordo com este autor, dentre as diversas abordagens existentes, o estudo de
caso é utilizado em diferentes situações, tendo como objetivo “contribuir com o conhecimento
que temos dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais, políticos e de grupo, além de
outros fenômenos relacionados” (p.20). Ainda segundo este autor, “em geral, os estudos de
caso representam a estratégia preferida quando se colocam questões do tipo „como‟ e „por
que‟, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os acontecimentos e quando o foco se
encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real” (p.19).
Este autor complementa afirmando que, em um estudo de caso, “os limites entre o fenômeno e
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o contexto não estão claramente definidos” (p.32).
Para um pesquisador, é necessária a consciência de que “a condução adequada de um estudo
de caso não é uma tarefa trivial” (MIGUEL, 2007, p.217). “É preciso se ter em mente que o
caso é um todo complexo, e não a mera soma de suas partes constituintes” (PERES e
SANTOS, 2005, p.114). Leffa (2006) considera o estudo de caso como uma investigação
profunda e exaustiva, já que se busca pesquisar tudo o que é possível saber sobre o objeto de
estudo; portanto, a investigação não ocorre sobre uma variável isolada, mas, ao contrário,
busca-se descrever todos os aspectos relacionados ao caso. Por causa disso, o estudo de caso
pode exigir muito tempo e ser custoso (MEREDITH, 1998). Voss, Tsikriktsis e Frohlich
(2002) também citam a exigência de entrevistadores habilidosos e a necessidade de cuidado
ao se generalizar as conclusões e para se garantir o rigor da pesquisa.
Portanto, o protocolo que é apresentado no próximo item é aplicável nas pesquisas que têm
como objetivo a compreensão de um fenômeno que é contemporâneo, está inserido em algum
contexto da vida real e cujos limites entre ele e o seu contexto não estão claramente definidos.
O próximo item apresenta brevemente alguns conceitos relacionados à entrevista, já que o
protocolo proposto neste artigo foi desenvolvido para suportar esta técnica de coleta de dados.
3. A entrevista como técnica de coleta de dados
A entrevista é uma técnica de coleta de dados muito usada em estudos de caso (SEURING,
2008).
De acordo com Fraser e Gondim (2004), algumas das vantagens da entrevista referem-se ao
fato dela favorecer a relação intersubjetiva entre o pesquisador e o entrevistado e, por meio de
trocas verbais e não verbais, permitir uma maior compreensão da opinião de pessoas sobre
situações e vivências pessoais. Esta interação por meio da palavra torna possível “apreender
significados, valores e opiniões e compreender a realidade social com uma profundidade
dificilmente alcançada por outras técnicas” (p.150). Isto ocorre porque a relação entre o
pesquisador (entrevistador) e o entrevistado que ocorre na entrevista permite acessar não
apenas as opiniões e percepções do entrevistado, mas também as suas motivações e os valores
que suportam sua visão particular sobre o tema da entrevista. Assim, a entrevista seria uma
forma apropriada de conhecer como as pessoas percebem o mundo e de qual perspectiva elas
falam. Outra vantagem se refere ao fato do entrevistado ter um papel ativo na construção da
interpretação do entrevistador, já que o segundo concede ao primeiro a oportunidade de
legitimá-la. Assim, a entrevista poderia ser caracterizada como um “texto negociado”.
Fraser e Gondim (2004) citam que as duas modalidades mais gerais de entrevista são a face-aface e a mediada. A primeira ocorre quando o pesquisador e o entrevistado se encontram um
diante do outro, enquanto que a segunda refere-se àquela feita por telefone ou computador,
por exemplo. Com relação a sua estruturação, por sua vez, as entrevistas podem ser
estruturadas, semi-estruturadas ou não estruturadas. Elas diferem entre si em função da
rigidez da estruturação de roteiro e do espaço permitido para a fala espontânea do
entrevistado, motivo pelo qual as duas últimas, menos rígidas, sejam preferidas na pesquisa
qualitativa, já que neste tipo de pesquisa o pesquisador procura manter uma postura de
abertura no processo de interação, de modo que a palavra do entrevistado encontre brechas
para a sua expressão. A entrevista estruturada “se caracteriza por uma estruturação rígida do
roteiro e oferece pouco espaço para a fala espontânea do entrevistado” e por uma “limitação
das opções de respostas” (FRASER e GONDIM, 2004, p.143). Segundo Boni e Quaresma
(2005), na entrevista semi-estruturada “o pesquisador deve seguir um conjunto de questões
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previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa
informal” (p.75), enquanto que na não estruturada ele “introduz o tema e o entrevistado tem
liberdade para discorrer sobre o tema sugerido” (p.74).
Quanto ao número de entrevistas necessárias em uma pesquisa, Fraser e Gondim (2004,
p.147) defendem que “o que importa não é quantos foram entrevistados, mas se os
entrevistados foram capazes de trazer conteúdos significativos para a compreensão do tema
em questão”. Para saber se o número de entrevistas realizadas já é suficiente, pode-se adotar o
conceito de “saturação teórica” (EISENHARDT, 1989): quando o aprendizado incremental
obtido com as novas entrevistas for mínimo, ou seja, quando as novas entrevistas não mais
agregarem nada de novo na pesquisa, é hora de parar (aliás, para VOSS, TSIKRIKTSIS e
FROHLICH, 2002, saber quando parar é uma importante qualidade do pesquisador).
4. Proposta de um protocolo para o estudo de caso em pesquisas qualitativas
O protocolo está dividido em nove seções, explicitadas a seguir. Para facilitar, sugere-se que
ele esteja organizado em um único arquivo (Word, por exemplo), mas que, no arquivo, cada
seção seja iniciada em uma nova página, de modo que as nove seções estejam em páginas
separadas (embora algumas seções fatalmente ocuparão mais de uma página).
4.1. Primeira seção: dados sobre o entrevistado e a entrevista (para controle do
pesquisador)
O pesquisador deve preencher nesta primeira seção, durante a entrevista ou antes dela (isto é o
ideal, pois quanto mais dados ele conseguir preencher de antemão, mais tempo sobrará para a
aplicação dos questionários), os dados do entrevistado, da organização que ele pertence e
algumas informações sobre a entrevista, para que fique registrado quem foi entrevistado e o
tipo de entrevista que foi realizada.
Os dados que devem ser obtidos do entrevistado e preenchidos nesta seção são os seguintes:
 Nome, telefone e e-mail (observação: pode-se solicitar o cartão do entrevistado, pois ele já
contém estas informações); sugere-se que estes mesmos dados sejam obtidos da secretária
do entrevistado, pois isto pode facilitar um contato futuro (especialmente se o entrevistado
for uma pessoa muito ocupada);
 Formação;
 Dados profissionais atuais: organização, área, cargo e data de entrada na organização;
dependendo do conteúdo da pesquisa, o pesquisador pode estar interessado na experiência
que o entrevistado teve em um emprego anterior; neste caso é importante também anotar os
dados profissionais anteriores (outras empresas em que o entrevistado trabalhou), não se
esquecendo de obter do entrevistado a data de saída da organização.
No caso dos dados relacionados à organização do entrevistado (atual e anteriores), como o
objetivo de um estudo de caso em uma pesquisa qualitativa pode variar enormemente, é muito
importante que o pesquisador defina precisamente (e antecipadamente) quais dados são
realmente necessários, de modo a não perder muito tempo na coleta destes dados. No caso de
uma empresa, alguns dos dados básicos que tipicamente interessam a uma pesquisa são:
 Nome e localização (da sede e das filiais);
 Dados gerais: número de funcionários, faturamento, lucro;
 Linhas de produto, market share (participação no mercado, ou seja: a porcentagem do
mercado consumidor que é dominada pela empresa), clientes e principais concorrentes.
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Sobre a entrevista, os dados que precisam ser preenchidos são os seguintes:




Data e horário de início da entrevista, além do local (incluindo a cidade);
Tipo da entrevista (face-a-face ou mediada);
Forma de registro dos dados (anotação, gravação - áudio, vídeo - ou e-mail);
Considerando que a pesquisa pode demandar a realização de entrevistas com diferentes
grupos de pessoas, sugere-se que o entrevistado crie uma classificação e especifique, nesta
seção, a qual grupo o entrevistado pertence, como por exemplo: profissional da indústria
que atua na função X (produção, compras, marketing, etc), pesquisador, especialista (por
exemplo, de uma revista ou outra mídia que é especializada no tema da pesquisa), etc;
 Especificar se a identidade do entrevistado deve ser mantida em sigilo (“Sim” ou “Não”).
O último ponto merece comentários adicionais.
Sobre a confidencialidade da identidade do entrevistado, o pesquisador tem pelo menos duas
alternativas: solicitar que o entrevistado opte (em manter ou não a sua identidade em sigilo)
ou adotar a piori como critério mantê-la em sigilo (mesmo que o entrevistado pudesse estar
disposto a ter a sua identidade revelada).
Caso a identidade do entrevistado for mantida em sigilo, o pesquisador deve se comprometer
a não associá-la à pesquisa. Além da palavra do pesquisador, pode ser fornecido ao
entrevistado um documento, discutido no item 4.9, que formaliza este compromisso.
A vantagem de manter a identidade do entrevistado em sigilo é que, como ele não vai estar
formalmente ou publicamente associado à pesquisa, ele pode se sentir em uma posição mais
confortável e segura que lhe dará mais liberdade para falar. Dependendo do conteúdo da
pesquisa, esta pode ser uma estratégia essencial, caso contrário o pesquisador não conseguirá
se aprofundar no caso por receio do entrevistado em lhe fornecer determinadas informações.
Porém, a ética e o respeito legal devem ser os alicerces de qualquer pesquisa. Entre outras
coisas, isto significa que o pesquisador não deve buscar obter do entrevistado informações
confidenciais, por exemplo, sobre alguma empresa. Mas, por outro lado, a necessidade de
sigilo sobre a identidade do entrevistado não pode fazer o pesquisador recuar na proposta
inicial da pesquisa, ou seja, ficar mais na superfície do caso, sem aprofundá-lo como
desejaria, de modo a conquistar o consentimento da pessoa em participar da (ou continuar na)
pesquisa (este cuidado é citado por: LEFFA, 2006).
4.2. Segunda seção: dados sobre a pesquisa (a serem explicitados ao entrevistado)
Nesta seção o pesquisador mantém os dados sobre a pesquisa: o entrevistado pode querer
conhecer detalhes sobre ela. De fato, mesmo que o entrevistado não solicite estes detalhes,
aconselha-se que o pesquisador cite ao entrevistado os principais dados, pois isto pode
favorecer o sentimento de veracidade e importância da entrevista.
As seguintes informações devem constar nesta seção:
 Dados sobre o pesquisador e seu orientador (se for o caso): nome, e-mail e telefone;
 Dados sobre o patrocinador; por exemplo: agência de fomento e número do processo;
 Dados sobre a organização responsável pela pesquisa; por exemplo: nome e endereço da
universidade e dados sobre o departamento (qual é, página na Web, telefone e nome e email da secretária);
 Tipo de pesquisa (mestrado, doutorado, pesquisa setorial financiada pelo governo, etc);
 Linha de pesquisa (apenas no caso de pesquisa de mestrado ou doutorado);
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 Objetivo da pesquisa;
 Contribuições (benefícios) da pesquisa;
 Etapa atual da pesquisa; por exemplo: pesquisa de campo (citar resumidamente ao
entrevistado o que a etapa atual engloba e como ela está sendo executada).
Dentre os dados que o pesquisador deve citar ao entrevistado, um é especialmente relevante
(esta sugestão também aparece em: VOSS, TSIKRIKTSIS e FROHLICH, 2002; MIGUEL,
2007): refere-se às contribuições que resultarão da pesquisa (ou seja, os benefícios advindos
da sua realização). O pesquisador, porém, não deve citar apenas as contribuições relacionadas
à academia, mas também aquelas que envolvem a organização que o entrevistado representa
ou a própria indústria que a sua empresa pertence (se for o caso).
Por fim, uma observação: pode ser muito útil fornecer esta seção (ou uma cópia dela) ao
entrevistado: ele pode, posteriormente, localizar e entrar em contato com o pesquisador, por
qualquer motivo, por meio dos dados que estão inclusos nela.
4.3. Terceira seção: orientações gerais ao pesquisador
Todas as informações a seguir devem constar nesta seção. Elas representam orientações ao
pesquisador relacionadas a: o antes, o durante e o depois da entrevista. É aconselhável que o
pesquisador sempre leia estas informações como forma de preparação para a entrevista.
 Ao marcar a entrevista: (i) reservar um tempo adequado para a realização da entrevista (é
importante considerar que serão gastos em torno de quinze minutos para a preparação e
início e mais quinze minutos para a finalização da entrevista); no caso do entrevistado ser
muito importante para a pesquisa e ele não dispuser do tempo solicitado, uma estratégia
pode ser marcar a entrevista exatamente antes do seu almoço: há sempre a possibilidade do
entrevistado convidar o pesquisador para o almoço e a entrevista continuar durante este
período; (ii) solicitar que a entrevista ocorra em um local calmo e reservado;
 O que verificar antes da entrevista: (i) confirmar a entrevista, o horário e o local exato onde
ela acontecerá; (ii) confirmar se o acesso ou permissão de entrada ao local já foram
providenciados (para a entrada em uma empresa, por exemplo);
 O que levar para a entrevista: (i) informações sobre o entrevistado (nome, área, cargo,
ramal, etc); (ii) documentos para a entrada na organização; (iii) gravador (entrevista
gravada); (iv) lápis, caneta e borracha; (v) relógio e celular; (vi) protocolo impresso e
preenchido com todas as informações que o pesquisador souber de antemão; (vii) dados,
esquemas, figuras, textos, etc, para ilustrar ou complementar as questões dos questionários;
(viii) folhas adicionais em branco para anotações; (ix) vestir roupa adequada para o
ambiente e para o cargo do entrevistado;
 Durante a entrevista: (i) no caso de entrevista não gravada, devido à diferença de
velocidade entre a fala e a escrita, priorizar a anotação dos pontos mais importantes da
resposta do entrevistado, solicitando que ele repita algum ponto, se for necessário; (ii)
Barton (1995) compara o pesquisador a um repórter investigativo: ele deve guardar as
respostas das entrevistas prévias na mente enquanto simultaneamente examina as respostas
do entrevistado atual; (iii) o pesquisador não deve anotar apenas o que ele ouve, mas
também o que ele vê, pois o entrevistado fornece informações não verbais: ele pode
transparecer nervosismo, dúvida, etc; Turato (2000) sugere que o pesquisador preste
atenção na entonação, hesitação e expressões faciais e corporais do entrevistado; todas
estas informações não verbais também devem ser levadas em consideração quando o
pesquisador estiver fazendo suas interpretações sobre os dados coletados; (iv) no campo, o
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pesquisador deve observar a convergência de visões e informações sobre eventos e
processos, pois não é incomum encontrar visões diferentes ou incompletas; se isto ocorrer,
é importante buscar outras fontes de dados (VOSS, TSIKRIKTSIS e FROHLICH, 2002);
(v) segundo Yin (2005), é preciso ficar atento no que se refere à imprecisão nas
informações fornecidas devido à memória fraca do entrevistado, respostas viesadas,
reflexibilidade (o entrevistado dá ao pesquisador o que ele quer ouvir), discurso pronto,
etc; (vi) cuidado quando os entrevistados parecerem ecoar os mesmos pensamentos, mas
de uma maneira “conspiratória”: isto ocorre quando eles estão conscientes das respostas
desejáveis e “parecem estar fornecendo evidências corroborativas, quando, na verdade,
estão meramente repetindo a reza da instituição a que pertencem” (YIN, 2005, p.136); (vii)
caso o entrevistado não quiser responder alguma questão por envolver informação sigilosa,
pedir para que ele responda em um contexto mais geral ou que ele avance com a resposta
até um nível de detalhe tal que não exponha este tipo de informação;
 Após a entrevista: (i) relembrar de toda a entrevista, fazendo anotações adicionais e já
fazendo interpretações sobre os dados coletados; (ii) terminar de preencher o protocolo,
caso houver pendências; transferir seu conteúdo para um formato digital (que deverá ser
armazenado no banco de dados da pesquisa - ver: YIN, 2005); preparar as interpretações e
os dados para enviar ao entrevistado, visando a checagem posterior (ver o item 4.7).
4.4. Quarta seção: observações gerais ao entrevistado sobre a entrevista
Esta é a parte do protocolo em que o pesquisador deve incluir as instruções ou regras que
deverão ser seguidas pelo entrevistado durante a aplicação dos questionários. Estas instruções
ou regras devem ser explicitadas claramente ao entrevistado.
Por exemplo, o pesquisador pode explicitar ao entrevistado que os questionários possuem
questões fechadas, ou seja, oferecem como resposta um determinado número de alternativas e
que ele deverá escolher uma dentre elas.
Apenas para ilustrar com outro exemplo, o autor incluiu as seguintes observações nesta seção
do seu protocolo, que eram lidas ao entrevistado (na verdade, havia outras observações além
destas, mas o autor omitiu-as por serem muito específicas a sua pesquisa):
 “Nesta entrevista será bem-vinda a fala espontânea do entrevistado, que tem liberdade para
usar seu conhecimento e experiência profissionais e opinião pessoal para responder as
perguntas; o entrevistado poderá citar exemplos que facilitem ou ilustrem sua resposta,
assim como fazer comentários gerais ou específicos sobre o assunto da questão e seu
contexto, porém, dados sigilosos devem ser preservados”;
 (No caso de entrevista não gravada) “O pesquisador fará anotações durante a resposta do
entrevistado; por causa da limitação de velocidade que envolve a anotação, o pesquisador
poderá pedir que o entrevistado repita algum ponto da sua resposta”.
4.5. Quinta seção: definição de termos utilizados nos questionários
Nesta seção, o pesquisador deve incluir aqueles termos que aparecem nas questões dos
questionários e que pode existir a possibilidade do entrevistado ter alguma dúvida sobre o seu
significado. Se o entrevistado tiver dúvida sobre o significado de um termo durante a
aplicação dos questionários, há duas situações indesejáveis: a primeira é o entrevistado
perguntar ao pesquisador sobre o significado do termo, o que irá gerar uma interrupção
desnecessária na entrevista que pode, inclusive, afetar a linha de raciocínio de ambos; a
segunda é o entrevistado, mesmo com a dúvida, não perguntar nada ao pesquisador e
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responder a questão interpretando o termo com um significado diferente daquele considerado
pelo pesquisador. Esta seção visa reduzir a possibilidade destas situações ocorrerem.
Assim, nesta seção o pesquisador deve ler os termos e seus respectivos significados ao
entrevistado antes de ir para a próxima seção. Sugere-se que isto seja feito independentemente
da possibilidade do entrevistado já conhecê-los. Porém, para que esta medida faça sentido, é
importante que o pesquisador seja bastante criterioso na escolha dos termos que serão
incluídos nesta seção, pois a leitura de termos cujo significado é óbvio tomará dele um tempo
precioso. É importante destacar também que se o pesquisador realmente achar que existem
muitos termos que devem ser incluídos nesta seção, isto pode ser um indicativo de que a
linguagem utilizada nos questionários não está adequada (ver o item 4.6).
A seguir há um exemplo de termo e seu significado:
“Cadeia de abastecimento = refere-se ao conjunto de empresas que são responsáveis por
alguma etapa de transformação do produto final (um automóvel, por exemplo); o termo
engloba, por exemplo: a montadora, mais os fornecedores diretos da montadora, mais os
fornecedores dos fornecedores da montadora e assim por diante.”
4.6. Sexta seção: questionários
Esta é a seção em que o pesquisador deve incluir os questionários que serão dirigidos ao
entrevistado. Embora o conteúdo dos questionários seja específico a cada pesquisa, é possível
fazer algumas recomendações gerais. Com base na literatura (entre outros, ver: MORON,
1998; LUMMUS, VOKURKA e DUCLOS, 2005) e na própria experiência do autor, sugerese que o pesquisador verifique:
 Se o vocabulário utilizado nas questões está adequado; se as questões possuem termos que
são difíceis ou com significado dúbio (não são muito bem definidos, são vagos);
 A clareza das questões: se as questões são ambíguas (admitem mais de uma interpretação);
se as questões possuem eventos compostos (ou seja, se há possibilidade do entrevistado
concordar com uma parte da questão e discordar de outra, fazendo com que a resposta à
questão completa não tenha sentido);
 Se as questões deixam claro o contexto em que devem ser respondidas;
 Se o conteúdo das questões tende a captar dados sobre situações momentâneas ou
específicas ao invés de captar o geral, o que é típico;
 Um possível viés existente ou sugerido pelas questões (a questão dirige ou induz a resposta
em alguma direção);
 Se as questões tendem a despertar alguma objeção do entrevistado;
 Se há necessidade das questões serem mais pessoais ou mais impessoais, mais formais ou
mais informais, mais diretas ou mais indiretas;
 Se é melhor dividir alguma questão ou se é melhor agrupar algumas das questões;
 Se a questão atual se tornaria inadequada, caso certas respostas fossem dadas nas questões
anteriores;
 Se as questões anteriores criam uma certa atmosfera ou expectativa que possa influenciar a
resposta da questão atual ou das posteriores;
 Se a ordem das questões está adequada;
 Se os questionários estão longos, curtos ou tediosos; se os questionários criarão e manterão
o interesse e o envolvimento do entrevistado;
 A adequação dos questionários ao público a que se destinam (entrevistados);
 Se os entrevistados estarão dispostos a responder as questões ou a fornecer os dados
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solicitados;
 Comparação dos questionários com a pesquisa (questão, objetivo, etc) e seu contexto:
avaliação se há questões, assuntos ou variáveis que constam e não deveriam constar nos
questionários ou que deveriam constar, mas não constam.
4.7. Sétima seção: finalizando a entrevista
Depois de o entrevistado responder a última questão do questionário, o pesquisador deve
finalizar a entrevista. Este momento representa uma oportunidade para o pesquisador obter
algumas informações valiosas.
Sugere-se que os seguintes pontos constem nesta seção e sejam explicitados pelo pesquisador
ao entrevistado:
 Deixar claro que, se após a data de realização da entrevista o entrevistado quiser fazer
algum comentário adicional ou acréscimo em alguma de suas respostas, ele poderá entrar
em contato com o pesquisador por e-mail ou telefone (neste caso, deixar com o
entrevistado uma cópia da segunda seção do protocolo - item 4.2 - pode ser bastante útil);
 Solicitar a permissão de poder enviar ao entrevistado, por e-mail ou telefone, alguma nova
questão que surgir posteriormente, durante a pesquisa, caso o pesquisador considerar
importante conhecer a opinião do entrevistado;
 Solicitar ao entrevistado críticas, sugestões ou comentários sobre a forma como a
entrevista foi conduzida, sobre as questões apresentadas ou sobre as discussões que
surgiram ao longo da entrevista;
 Solicitar que o entrevistado sugira outras pessoas (de dentro da sua organização ou não)
que poderiam contribuir com a pesquisa; neste caso, obter do entrevistado os seguintes
dados: nome da pessoa, organização, área, cargo, telefone e e-mail (observação: é comum
o próprio entrevistado se oferecer para fazer um primeiro contato com a pessoa que ele
sugeriu; mas mesmo que isto não aconteça, o pesquisador, ao entrar em contato com a
pessoa, pode usar o entrevistado como referência: “foi fulano quem o indicou”);
 Combinar com o entrevistado que ele faça uma checagem posterior dos dados coletados na
entrevista e das interpretações feitas pelo pesquisador (com base nos dados coletados).
O último ponto merece mais detalhes, pois ele influencia a qualidade (rigor) da pesquisa.
Após a realização da entrevista, o pesquisador deve transcrevê-la, ou seja, transformar as suas
anotações ou gravação em um formato textual que facilite o processo de análise dos dados
coletados. Durante esta transcrição ou posteriormente a ela, o pesquisador faz interpretações
sobre os dados. Todo este processo envolve alguns riscos: o pesquisador pode ter entendido
algo que ele anotou ou ouviu de uma maneira diferente daquela que o entrevistado quis dizer;
mesmo que o pesquisador tenha entendido tudo corretamente, ele pode tirar interpretações
divergentes em relação àquelas sugeridas pelos dados coletados; o pesquisador pode, ainda,
identificar que algumas respostas dadas pelo entrevistado contêm pontos que não estão claros.
De modo a garantir que estes riscos não interfiram nos resultados e conclusões da pesquisa, é
importante que o pesquisador faça uma checagem posterior dos dados coletados e das suas
interpretações com os próprios entrevistados. Godoy (2005, p.89-90) cita que: “a checagem
dos dados coletados [...] e das interpretações dos resultados pelos participantes do estudo
constitui-se numa estratégia que deve estar presente em várias etapas do trabalho, por meio de
abordagens formais e informais. Por exemplo, fornecer ao participante a transcrição de sua
entrevista para que ele possa confirmar suas informações ou voltar ao informante para
10
esclarecer pontos obscuros tem sido prática comum entre os pesquisadores”. Para Fraser e
Gondim (2004), esta prática dá legitimidade à pesquisa qualitativa.
O pesquisador, então, nesta seção, deve combinar uma data em que ele enviará ao
entrevistado (via e-mail, por exemplo) a transcrição da entrevista e as suas interpretações,
bem como um prazo adequado para que o entrevistado possa fazer a sua avaliação e dar um
retorno (embora o prazo combinado realmente deva ser adequado para o entrevistado, para se
evitar a dependência do pesquisador em relação a uma possível demora no retorno do
entrevistado, pode-se combinar que se o entrevistado não responder até o prazo combinado, o
pesquisador irá considerar que o entrevistado concorda com seus dados e interpretações).
Por fim, ainda nesta seção, o pesquisador deve:
 Anotar o horário de término da entrevista;
 Agradecer ao entrevistado em seu nome, em nome da universidade e do patrocinador
(agência de fomento, por exemplo);
 Fornecer ao entrevistado uma estimativa de quando a pesquisa será encerrada e citar a
forma como os dados serão divulgados (dissertação, tese, artigo, relatório);
 Colocar-se à disposição para qualquer informação adicional (agora ou posteriormente).
4.8. Oitava seção: planilha de despesas
É importante que o pesquisador tenha controle sobre todos os gastos que foram necessários
para a realização da entrevista, especialmente se foram utilizados recursos provenientes de
uma agência de fomento, por exemplo. Então, sugere-se que sejam incluídas as seguintes
informações nesta seção:




Tipo de despesa: combustível, pedágio, alimentação, hotel, passagem, etc;
Valor gasto;
Data e local (cidade);
Especificar a posse ou não (“Sim” ou “Não”) de uma nota fiscal que comprove a despesa e
o seu valor (evidentemente, é desnecessário explicitar que este tipo de comprovante é
sempre necessário, mas sempre há a possibilidade de alguma nota fiscal se extraviar).
4.9. Nona seção: termo de compromisso
Conforme explicitado no item 4.1, o pesquisador pode preencher, assinar e entregar ao
entrevistado um documento em que ele assume formalmente um compromisso de que manterá
a identidade do entrevistado em sigilo. Esta pode ser uma estratégia útil - em alguns casos, até
necessária - para deixar o entrevistado mais à vontade não apenas para participar da pesquisa,
mas também para responder as questões: sustentado pelo documento, ele poderá falar com
mais liberdade, fornecendo respostas com maior amplitude e profundidade.
Este documento pode ser bastante simples. Por exemplo, uma simples folha impressa com o
título “Termo de Compromisso”, que contenha as informações a seguir e seja assinado pelo
pesquisador (que deve incluir o local e a data), embora simples, tem validade legal:
“Eu, João Henrique Lopes Guerra, brasileiro, solteiro, engenheiro, portador do RG n.º
XX.XXX.XXX SSP/SP, CPF n.º XXX.XXX.XXX-XX, residente e domiciliado à Rodovia
Washington Luís, km 235, bairro da Universidade, na cidade de São Carlos, SP, venho através
do presente termo, comprometer-me a não associar ou relacionar, direta ou indiretamente, de
forma escrita, verbal ou de qualquer outra forma, o nome ou a identidade de (nome completo
do entrevistado) à minha pesquisa de doutorado iniciada em 2008 e ligada ao Programa de
11
Pós-Graduação do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São
Carlos, seja durante e/ou após a realização da mesma.”
5. Considerações finais
Uma das vantagens do estudo de caso é a sua flexibilidade: o projeto de um estudo de caso
pode ser modificado por novas informações e constatações obtidas, por exemplo, durante a
coleta dos dados (YIN, 2005). Ou seja: novas informações ou idéias, importantes, podem
reorientar a pesquisa. Esta vantagem também é citada por outros autores (VOSS,
TSIKRIKTSIS e FROHLICH, 2002; LEFFA, 2006; DUBOIS e ARAUJO, 2007). Para Leffa
(2006, p.20), quem faz um estudo de caso “parte do pressuposto de que é impossível prever
todos os resultados possíveis antes de começar a execução do projeto”.
Esta característica do estudo de caso de ser flexível, ajustando-se no decorrer da pesquisa,
pode demandar alterações no protocolo. Mas esta é uma situação em que a alteração não pode
ser prevista antecipadamente e, de fato, todos os pesquisadores (e protocolos) estão sujeitos.
O indesejável é ter que promover alterações no protocolo ao se descobrir, já em campo,
durante as entrevistas, que o protocolo precisa ser alterado (completado ou modificado)
porque está incompleto e não suporta o pesquisador em todas as suas necessidades. Esta é o
tipo de alteração que o pesquisador tem como prever. Para isso, há algumas recomendações.
A primeira delas: antes do pesquisador sair a campo, ele deve apresentar e discutir
profundamente o protocolo com os seus pares: seu orientador (se for o caso), pesquisadores
que conheçam o conteúdo da sua pesquisa ou assuntos próximos ou similares, pesquisadores
com experiência na utilização de estudos de caso (independentemente de conhecerem ou não
o tema estudado pelo pesquisador), entre outros que o pesquisador achar conveniente.
A outra é realizar uma entrevista-piloto: uma entrevista preliminar em que o pesquisador
entrevista uma pessoa “com características similares aos da população a ser investigada”
(MORON, 1998, p.70). Nesta entrevista (na verdade, podem ser feitas mais de uma), são
avaliados (pelo pesquisador e pelo próprio entrevistado) o instrumento de coleta de dados
(questionários), a postura do pesquisador durante a entrevista e, é claro, o protocolo. Assim, a
entrevista-piloto representa uma ótima oportunidade para o pesquisador realizar a prova final
visando confirmar se o protocolo está pronto para enfrentar a realidade das entrevistas.
Uma observação final que serve como “moral da história” deste artigo: na busca do
pesquisador pelo encadeamento de evidências (ver YIN, 2005), ou seja, pela progressão da
pesquisa da questão inicial até seus resultados e conclusões, o protocolo do estudo de caso
exerce um papel fundamental porque serve como meio pelo qual os dados fluem das fontes de
evidência até o pesquisador. Desta forma, ele exerce forte influência sobre a eficiência
(utilização correta dos recursos empregados durante a pesquisa de campo) e a eficácia
(alcance dos objetivos esperados com a pesquisa de campo) do processo de coleta de dados.
De fato, o protocolo funciona como uma espécie de filtro: se deficiente ou utilizado de forma
incorreta, ele pode reduzir o fluxo e a qualidade dos dados coletados; se planejado com
cuidado, se adequado e utilizado corretamente, ele otimiza o processo de coleta de dados, o
que, por sua vez, pode sugerir novos horizontes para a pesquisa - dado que a flexibilidade é
uma das características do estudo de caso.
Referências
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