UMA PROPOSTA DE DISTRIBUIÇÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTO NA LOGÍSTICA HUMANITÁRIA Fábio Luis França de Faria Gabriella Vitorino Guimaraes Adriano de Paula Fontainhas Bandeira Renata Albergaria de Mello Bandeira UMA PROPOSTA DE DISTRIBUIÇÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTO NA LOGÍSTICA HUMANITÁRIA Fábio Luis França de Faria Instituto Militar de Engenharia Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Defesa Gabriella Vitorino Guimarães Adriano de Paula Fontainhas Bandeira Renata Albergaria de Mello Bandeira Instituto Militar de Engenharia Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Transportes RESUMO O presente artigo propõe uma metodologia para a localização de centros de distribuições intermediários e sua alocação aos centros de distribuição regionais para armazenamento das doações recebidas em casos de desastres naturais, tendo como base a estrutura da cadeia de suprimento humanitário proposta por Balcik (2010) e em complemento ao procedimento de estruturação da rede de distribuição local determinado por Costa (2013). A modelagem desenvolvida utiliza o algoritmo de agrupamento interativo k-médias (k- means), e tem o software MATLAB R2013a como ambiente de desenvolvimento. O objetivo é encontrar uma alternativa ótima para alocação de centros de distribuição. Como resultado, obteve-se uma saída gráfica, que exibirá os depósitos intermediários selecionados, bem como os pontos de distribuições locais abastecidos a partir deles. A aplicação desta metodologia permite o aperfeiçoamento do atendimento às vítimas em casos de calamidade pública, contribuindo para a redução do tempo de entrega total. ABSTRACT The paper presents a methodology for locating intermediate distribution centers and their allocation to regional distribution centers for storage of donations received in cases of natural disasters, based on the structure of the humanitarian supply chain proposed by Balcik (2010) and in complementing the procedure developed by Costa (2013). The proposed procedure uses the an interactive algorithm, using k-means clustering in the environment of software MATLAB R2013a, is developed. The objective is to find a optimal alternative for allocation of distribution centers. As a result, we obtained a graphical output that displays the selected intermediate deposits and local distribution points supplied from them. This methodology can be applied for planning the distribution of donations to victims in cases of public calamity, helping the reduction of the total delivery time. 1. INTRODUÇÃO A população mundial cresceu significativamente no último século, e com isso o solo passou a ser mais ocupado, e de diferentes maneiras, associados aos processos de urbanização e industrialização. As causas naturais dos desastres, que envolve a dinâmica interna da terra (terremotos, maremotos, vulcanismo e tsunamis) e a externa (tempestades, tornardos, inundação, seca e ressaca) são agravadas pela forma como a sociedade tem se comportado nas últimas décadas, tendo-se como principais agravantes a emissão de gases nocivos, retirada da mata ciliar e assoreamento dos rios, impermeabilização do solo e ocupação desordenada de encostas íngremes (Kobiyama et. al., 2006), fazendo com que a probabilidade de ocorrência de desastres naturais no mundo aumentasse consideravelmente. Os desastres trazem inúmeras consequências para a localidade e seus habitantes, com perdas materiais, humanas e/ou econômicas, principalmente quando não há o desenvolvimento de programas eficientes de combate aos mesmos. A partir da necessidade de atender esses tipos de situações emergenciais, surge o conceito de logística humanitária, que propõe o uso efetivo dos conceitos logísticos adaptados às especificidades da cadeia de assistência humanitária. Tais conceitos, de acordo com Nogueira e Gonçalves (2009), podem ser o grande diferencial no sentido de minimizar ações de improvisação, muito comuns nessas ocorrências, 1 maximizando a eficiência e o tempo de resposta à situação de emergência. Embora apresentem semelhanças, principalmente quanto à estrutura e funcionamento das operações, a logística empresarial e a humanitária distinguem-se no seu foco principal. Enquanto a empresarial foca no consumidor final, que terá grande influência pelo fato de entrar com recursos para que as operações sejam realizadas, a humanitária volta-se para consumidores que não participam de transações comerciais, porém necessitam dos serviços em caráter de urgência. Em operações humanitárias, a questão do tempo é crucial, pois o atraso pode colocar em risco a segurança e a vida das vítimas (Costa et. al., 2012). Desta forma, torna-se evidente a importância e complexidade do processo de distribuição na logística humanitária, pois tem que atender situações atípicas e diferenciadas, e ainda sob a pressão do tempo. Bertazzo et al. (2013) identificaram 82 artigos na literatura nacional que tratam do tema desastres, e verificaram que parte considerável (35 deles) relaciona-se a eventos de inundações e deslizamentos. De acordo com os resultados de Bertazzo et al. (2013), a abordagem sobre o tema de gerenciamento de desastres é mais difundida na literatura nacional, seguida de questões relacionadas à localização e a transportes. Os autores identificaram que apenas o artigo de Costa et al. (2012) estuda sobre distribuição no contexto nacional, sendo a pesquisa de Lima et al. (2012) a única que trabalha a questão da aquisição, indicando que a literatura nacional sobre o tema logística humanitária ainda é muito incipiente, sendo necessário o desenvolvimento de estudos que apliquem conceitos com enfoque em distribuição e em localização no âmbito nacional em situações emergenciais. Nesse contexto, este artigo tem como objetivo propor uma metodologia de distribuição da cadeia de suprimento humanitário aplicável em qualquer região que venha a sofrer algum tipo de desastre natural, a partir da determinação da localização de centros intermediários de distribuição para armazenamento das doações arrecadadas e futura destinação final. Para isso, utiliza-se como base a estrutura da cadeia de ajuda e o conceito de “estoques intermediários e pontos de distribuição” de Balcik et al. (2010). A metodologia proposta utiliza o algoritmo de agrupamento iterativo k-médias para definição de grupos a serem abastecidos por um determinado centro intermediário de distribuição, sendo o critério da menor distância a ser percorrida adotado como parâmetro de decisão para definição da cadeia de abastecimento. Os Centros de distribuição intermediários e os centros de distribuição regionais são alocados, visando atender com maior eficácia a população atingida. Portanto, o presente trabalho pode ser aplicado de forma complementar ao procedimento proposto por Costa (2013) para a estruturação da rede de pontos de distribuição locais em operações de logística humanitária. Assim, busca-se a possibilidade de melhor eficiência no processo de atendimento em caráter de urgência, bem como atendimento a curto prazo às vítimas de evento desta natureza. Este artigo foi estruturado da seguinte maneira: a seção 2 aborda a distribuição da cadeia humanitária de suprimento. A seção 3 apresenta o procedimento desenvolvido por Costa (2013). A seção 4 traz a metodologia proposta, apresentando a modelagem e os conceitos utilizados para a execução da mesma. A seção 5 apresenta da aplicação da metodologia; e, por fim, as conclusões. 2. DISTRIBUIÇÃO DA CADEIA HUMANITÁRIA DE SUPRIMENTO A Lei nº 12.608/2012, que institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil - PNPDEC, 2 “abrange as ações de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação voltadas à proteção e defesa civil”. Além disso, faz parte de seus objetivos “prestar socorro e assistência às populações atingidas por desastres”. Nesse contexto, a logística enquadra-se como ferramenta essencial na resposta aos desastres. Entretanto, são muitos os desafios da logística humanitária. Em situações de desastre, a infraestrutura encontra-se, na maior parte dos casos destruída, dificultando assim o acesso, a chegada de recursos e a saída de pessoas (Meirim, 2007, apud Nogueira e Gonçalves, 2009). Além disto, há o excesso de pessoas (voluntários) sem treinamento adequado e o acúmulo de doações nas primeiras semanas, gerando assim desperdícios e avarias, devido a itens inadequados. De acordo com Heaslip et. al (2008), quando aplicada às ações humanitárias, a cadeia de suprimentos precisa ser flexível e capaz de responder rapidamente a eventos imprevisíveis, de forma efetiva (que pode ser a diferença entre vida e morte) e eficiente (atender a um maior número de necessitados) sob fortes restrições orçamentárias. Esse fato reforça a necessidade do desenvolvimento de procedimentos para que, quando este tipo de evento ocorra, tenham-se as diretrizes a seguir de modo a garantir que as vítimas sejam atendidas em tempo hábil. A partir dessas considerações, é possível perceber a complexidade da atividade logística nesse contexto e verificar que ela engloba os aspectos de aquisição, distribuição, gerenciamento, localização e transportes. Porém, o foco deste trabalho é a distribuição da cadeia humanitária de suprimento. Para Liberatore et al. (2014), um dos maiores desafios da logística humanitária envolve a distribuição de suprimentos aos beneficiários, uma vez que, após o desastre, a infraestrutura física é destruída e a capacidade de transporte se encontra limitada, ou mesmo inexistente, o que dificulta o fluxo de suprimentos que normalmente é direcionado para a região afetada. Balcik et al. (2010) defendem que a cadeia de suprimento humanitária segue a estrutura apresentada na Figura 1. As linhas tracejadas, na Figura 1, referem-se ao fluxo do fornecimento no pós-desastre, enquanto as linhas cheias representam o fluxo do fornecimento pré-desastre. Primeiramente, há a aquisição de suprimentos, que se dá através de doações, locais ou globais, em espécie e de materiais, ou a partir de políticas públicas. A seleção dessas doações, através do processo de triagem, merece atenção pelo fato da aleatoriedade dos itens recebidos, que pode haver excesso de alguns e escassez de outros. Assim, a triagem do material recebido é crucial, pois evita que itens desnecessários naquele determinado momento sejam transportados para os centros de distribuição, ocupando espaços de armazenamento e gerando retrabalho, que deve ser evitado ao máximo, considerando que tempo é um fator delicado nessas operações. 3 Figura 1: Estrutura da cadeia de ajuda (Fonte: Balcik et al., 2010) Em seguida, tem-se o transporte dos suprimentos para os centros de distribuição, que irão armazenar no primeiro instante os produtos adquiridos e doados, que foram selecionados na etapa de triagem. Nesses locais, evita-se que os produtos sejam deteriorados e roubados, além de ser possível organizá-los para posterior entrega nos estoques intermediários e pontos de distribuição. Balcik et al. (2010) afirmam que a etapa do transporte é o maior componente das operações pós-desastres, e que pode ser considerado um desafio para as agências de ajuda, pois fatores como a necessidade de aluguel de veículos, as características geográficas do local afetado e proximidades e a falta de informações suficientes sobre as condições atuais das estradas são condicionantes para a eficiente execução dessa atividade. Nos estoques intermediários e pontos de distribuição encontram-se uma segunda possibilidade de armazenamento dos suprimentos, como o nome já sugere, em posição intermediária entre os principais locais de doação (geralmente grandes centros) e as localidades onde, de fato, ocorreu o desastre. Nesses locais os itens estão mais desagregados, separados conforme critérios estabelecidos pela equipe responsável por essa atividade. Por fim, têm-se os pontos de distribuição locais, onde os kits que serão entregues deverão estar organizados para destinação final, ou seja, para serem entregues às vítimas (beneficiários). Nessas etapas, ocorre novamente a atividade de triagem do material recebido, porém seguindo os critérios mais específicos, pois nesses novos estoques estarão os kits que já serão distribuídos juntamente às vítimas. Costa (2013) propõe um procedimento para determinar a localização de pontos de distribuição locais, abrindo a oportunidade de melhoramento de sua metodologia a partir da determinação de alocação de pontos de distribuição intermediários, conforme desenvolvido neste trabalho. A seção 3 apresenta a metodologia desenvolvida por Costa (2013). 3. PROCEDIMENTO DE COSTA (2013) PARA A ESTRUTURAÇÃO DO PROCESSO DE DISTRIBUIÇÃO EM OPERAÇÕES DE LOGÍSTICA HUMANITÁRIA Costa (2013) propõe um procedimento para apoio à ação humanitária de resposta a desastre com base em cinco etapas. São elas: (1) identificação e delimitação da região atendida; (2) estimativa da demanda de abastecimento; (3) identificação da infraestrutura; (4) classificação 4 da infraestrutura; e (5) definição da rede de distribuição, conforme mostrado na Figura 2. Figura 2: Etapas do procedimento de apoio às ações humanitárias em desastres naturais. Fonte: Costa (2013). A primeira etapa tem dois pontos principais: identificação e caracterização das condições das áreas habitadas na região atendida (classificando as áreas de acordo com o comprometimento em livres, afetadas e críticas, a partir de um mapa em escala da região atingida pelo desastre) e definição de um referencial espacial de localização, orientação e distância a ser utilizada em apoio à estruturação da rede de distribuição de ajuda humanitária, em que se calculam as distâncias entre pontos de demanda e de atendimento. Na segunda etapa, a demanda de abastecimento é estimada a partir da população impactada, tendo como base as variáveis de densidade demográfica média da região atingida e o fator de expectativa de pessoas que recorrerão à ajuda humanitária, e também pela mensuração da demanda e da quantidade a ser armazenada (Costa, 2013). A identificação da infraestrutura (etapa 3) é realizada a partir da premissa de se utilizar a infraestrutura existente na região atingida. O autor sugere o preenchimento de um banco de dados sobre as instalações potenciais. Desta forma, estará disponível um maior número de alternativas para a configuração da rede de distribuição. Na etapa 4, o autor define dois tipos de pontos de abastecimento: os Pontos de Distribuição (PDD), que “são instalações fixas localizadas na infraestrutura disponível nas sub-regiões impactadas (SRIs), com a função básica de efetuar a entrega direta de itens de ajuda às vítimas que se dirijam até elas”, e os Centros Temporários de Distribuição (CTD), que tem a mesma função dos PDDs, porém, “utilizados em locais impactados por desastres naturais onde não haja infraestrutura disponível ou que a existente não esteja em condições de realizar o atendimento adequado (Costa, 2013). Costa (2013) faz uso de PDDs para atender diretamente às vítimas, tendo como “pré-requisito que tenham área disponível maior ou igual ao espaço necessário para guardar a quantidade necessária ao atendimento das vítimas”. No entanto, “as sub-regiões impactadas que não tenham locais apropriados para servirem de PDDs são atendidas por CTDs posicionados em locais onde haja espaço para a operação de entrega de ajuda às vítimas de forma segura”. Por fim, na etapa de definição da rede de distribuição, o autor formulou duas alternativas ao gestor para a tomada de decisão da localização dos PDDs: 1) utilizando o menor número de PDDs no abastecimento de todos os Centros Temporários de Distribuição (CTDs), privilegiando a opção de menor custo de estoque e de maior facilidade no gerenciamento das operações nos PDDs; e 2) utilizando a menor distância total percorrida para o abastecimento de todos os CTDs, estando a quantidade de PDDs utilizados condicionada ao melhor resultado. Enfim, Costa (2013) propõe critérios para definição da localização dos CTDs. Entretanto, conforme apresentado previamente, a metodologia proposta por Costa (2013) determina a localização de pontos de distribuição locais (PDDs ou CTDs), porém não 5 determina a alocação de pontos de distribuição intermediários ou dos centros de distribuição regionais. Este trabalho tem como objetivo agregar esta etapa à metodologia desenvolvida por Costa (2013), propondo um algoritmo para a locação de centros de distribuição intermediários que seja aplicável em qualquer localidade que venha a sofrer desastres naturais. 4. METODOLOGIA Nesta seção, apresenta-se a modelagem proposta para agregar a alocação de pontos de distribuição intermediários à metodologia de Costa (2013), além de detalhar os conceitos utilizados para o seu desenvolvimento. Com a finalidade de encontrar uma alternativa ótima para a estruturação da rede de distribuição na cadeia de suprimento humanitário, desenvolveu-se uma modelagem, utilizando o software MATLAB R2013a, tendo como base o procedimento proposto por Costa (2013) para a localização dos pontos de distribuição locais (PDDs e CTDs) e o conceito de estoques temporários e pontos de distribuição da estrutura da cadeia de ajuda (Figura 1) proposta por Balcik et al. (2010). O critério de seleção para os depósitos intermediários é a menor distância dos mesmos aos centróides do grupo de pontos de distribuição locais que vão atender, considerando ainda a capacidade de cada depósito intermediário. Como dados de entrada para modelagem, têm-se: Coordenadas dos pontos de distribuição locais no plano cartesiano; Quantidade desejada de depósitos intermediários; Raios mínimos e máximos das elipses que determinam a área de busca dos depósitos intermediários; Coordenadas dos candidatos a depósitos intermediários, bem como suas respectivas capacidades; Coordenadas dos depósitos centrais; O primeiro passo da modelagem consiste no agrupamento dos pontos de distribuição locais de acordo com a distância entre eles. Para tal fim foi utilizado o algoritmo de clusterização Kmeans, também conhecido como K-médias. De acordo com Fontana e Naldi (2009), K-means utiliza o conceito de centroides como protótipos representativos dos grupos, em que o centroide representa o centro de um grupo, sendo calculado pela média de todos os objetos do grupo. O objetivo deste algoritmo é encontrar a melhor divisão de P dados em K grupos Ci, i = 1, ... K, de maneira que a distância total entre os dados de um grupo e o seu respectivo centro, somada por todos os grupos, seja minimizada (Pimentel et al., 2003). O funcionamento do K-means pode ser descrito pelos seguintes passos: Atribuem-se valores iniciais para os protótipos seguindo algum critério, por exemplo, sorteio aleatório desses valores dentro dos limites de domínio de cada atributo; Atribui-se cada objeto ao grupo cujo protótipo possua maior similaridade com o objeto; Recalcula-se o valor do centroide (protótipo) de cada grupo, como sendo a média dos objetos atuais do grupo; Repete-se os passos 2 e 3 até que os grupos se estabilizem; O algoritmo continua a repetir os passos 2 e 3 enquanto ocorrer alterações nos grupos, ou seja, até não ocorrer variação significativa na distância mínima de cada objeto da base de dados a cada um dos centroides. 6 Figura 3: Ilustração de agrupamento pelo método K-means Fonte: www.pubs.rsc.org A entrada das coordenadas dos pontos de distribuição locais se dá através de uma matriz nx2, onde n é a quantidade de pontos de distribuição locais. A quantidade de depósitos deverá ser inserida pelo usuário, visto que ela dependerá de fatores externos como verba disponível para instalação dos mesmos, disponibilidade de instalações e de pessoal, dentre outros. O número de depósitos determinará a quantidade de agrupamentos feitos através do K-means. Definidos os centroides de cada grupo, define-se um novo centroide, que pode ser chamado de centroide geral, pois trata-se do centroide dos centroides dos grupamentos de pontos de distribuição locais. O centroide geral tem por objetivo ser o ponto de onde definiremos duas elipses que formarão uma faixa onde se encontram os candidatos a depósitos intermediários. A faixa indica o limite mínimo e o limite máximo de onde podem estar os depósitos intermediários. Foi utilizada a elipse para definição de área por ser menos restritiva que a circunferência. Em locais que possuam grande extensão no eixo das ordenadas e pequena extensão no eixo das abcissas (ou vice-versa), a elipse pode se encaixar de forma mais eficiente na definição de limites. Os eixos das elipses são definidos pelo usuário, pois dependem do relevo da região e da área que está afetada pela calamidade. Assim, de posse da faixa formada pelas elipses, inserem-se as coordenadas cartesianas dos candidatos a depósito intermediário através de uma matriz mx2, em que m é a quantidade de candidatos. O próximo passo do algoritmo consiste em calcular as distâncias euclidianas entre os candidatos e os centroides, sendo que as menores distâncias determinarão qual será o ponto escolhido como depósito intermediário. Após selecionados os depósitos intermediários é feita uma verificação da capacidade dos mesmos, ou seja, de posse da quantidade de pontos de distribuição locais agrupados por centroide, verifica-se se se os depósitos selecionados atendem a demanda exigida. Caso não atenda, é selecionado outro depósito para abastecer o centroide (o que possui a segunda menor distância ao respectivo centroide). Depois de inseridas as coordenadas dos depósitos centrais, um processo análogo é feito para determinar quais os respectivos depósitos intermediários serão atendidos pelos depósitos centrais. Optouse por fazer o processo separadamente, primeiro definindo a distância entre os centroides e depósitos intermediários, e com os depósitos intermediários já definidos, verificar qual 7 depósito central os atenderá. Tomou-se tal decisão pelo fato de que as distancias dos depósitos centrais a área de calamidade são muito maiores do que dos depósitos intermediários, e as últimas teriam pouco peso na determinação da menor distância. Outro fator é que o deslocamento na área de calamidade normalmente é bem mais difícil do que nas demais áreas, exigindo uma análise mais próxima do eixo analisado. Enfim, os dados de saída da modelagem proposta são: (i) alocação de quais pontos de distribuição locais serão atendidos por cada depósito intermediário; (ii) Depósitos intermediários selecionados de acordo com a mínima distância aos centroides, e verificação de atendimento de demanda; (iii) depósitos centrais que abastecerão os respectivos depósitos intermediários de acordo com a menor distância entre os mesmos. 5. APLICAÇÃO DA MODELAGEM PROPOSTA O ambiente de inserção de dados do modelo desenvolvido é a própria área de trabalho do MATLAB, onde as entradas são inseridas na forma de matrizes. A área afetada é inserida em um plano cartesiano com quadrículas dimensionadas de acordo com a precisão que se deseja. As coordenadas dos pontos de distribuição locais estão dentro da área crítica e as coordenadas dos depósitos intermediários estão em uma área considerada mais estável de acordo com os eixos da elipse. Assim, o primeiro passo para a aplicação do método consiste na entrada das coordenadas dos pontos de distribuição locais, que foram definidas após a aplicação do procedimento proposto por Costa (2013). Para a aplicação em questão, os resultados do procedimento de Costa (2013) definiram a necessidade de 23 pontos de distribuição locais, conforme apresentado na Tabela 1. Tabela 1: Coordenada dos PDDs, resultante da aplicação do procedimento de Costa (2013) Nr PDD Coord. 1 2 3 4 5 6 7 8 X 1 Y 2 3 5 7 10 9 4 13 9 4 6 8 11 3,5 8 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 7 1 5 10 11 6 7 8 6 5 9 10 6 0 0 5 2,5 2,5 1 10 12 1,5 2,5 5 6 11 7,5 2,5 2 Em seguida, foram definidos: a quantidade desejada de depósitos intermediários; e os raios mínimos e máximos das elipses que determinam a área de busca dos depósitos intermediários; Para o exercício em questão, definiu-se como cinco a quantidade desejada de depósitos intermediários, reforçando que esta decisão deve ser tomada pelo usuário, pois este dado varia para cada caso específico, dependendo de fatores como verba disponível para instalação dos mesmos, disponibilidade de instalações e de pessoal. A faixa do limite mínimo e o limite máximo de onde podem estar os depósitos intermediários também devem ser definidas pelo usuário por dependerem do relevo da região e da área que afetada. Para esta aplicação, definiu-se o eixo horizontal da elipse como 8 Km, o eixo vertical como 7,5 Km e a largura da faixa como 5 Km. A Tabela 2 apresenta os dados de caracterização da faixa de depósitos intermediários e grupos de pontos de distribuição locais para esta aplicação. Tabela 2: Caracterização da faixa de depósitos intermediários e grupos de PDDs Característica Valor(u.m) Grupos de PDDs 5 Eixo Horizontal 8 Eixo Vertical 7,5 Largura da faixa 8 5 Os demais dados de entrada necessários para a aplicação da modelagem são apresentados nas Tabelas 3 e 4. A Tabela 3 traz as coordenadas dos candidatos a depósitos intermediários, bem como suas respectivas capacidades, enquanto a Tabela 4 define as coordenadas dos depósitos centrais. Tabela 3: Coordenadas dos candidatos a depósitos intermediários Nr Dep. Intermed. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 X 15 0 -5 5 16 17 -5 5 10 -1 12 Y Capacidade (x100 Ton) 5 6 4 -4 3 12 7 16 -2,5 5 5 5 5 6 6 6 Coord Tabela 4. Coordenadas dos depósitos centrais: Nr Dep. Central Coord 1 2 X -25 10 Y 6 -27 De acordo com as entradas inseridas, foi possível selecionar as cinco instalações que funcionarão como depósitos intermediários e por quais depósitos centrais estes pontos intermediários serão atendidos, tendo-se como critério de decisão a minimização da distância total a ser percorrida. A Tabela 5 apresenta os centroides dos pontos de distribuição locais, bem como o depósito intermediário alocado para atendê-lo e sua respectiva capacidade, bem como o depósito central selecionado para abastecer o ponto intermediário. Tabela 5: Caracterização dos centroides e respectivos depósitos intermediários selecionados Centroide Depósitos Interm Selec. Nr X Y Demanda(x100T) Nr X Y Capacidade(x100t) 1 4,916 7,25 6 2 0 12 6 Dep Central Abast 1 2 10,5 2,62 4 9 10 -2,5 6 2 3 1,625 4 4 3 -5 4 5 1 4 6,75 0,875 4 4 5 -4 6 2 5 10,6 8,4 5 6 17 12 5 2 Verifica-se, a partir da Tabela 5, que nenhuma demanda excede a capacidade do depósito selecionado, sendo que a demanda é diretamente proporcional a quantidade de pontos de distribuição locais (100 T por ponto de distribuição local) agrupados pelo centroide. A Figura 5 apresenta uma saída gráfica do modelo desenvolvido, na qual é possível verificar os depósitos centrais que abastecerão os depósitos intermediários selecionados, bem como quais pontos de distribuição locais serão abastecidos por cada depósito intermediário. Percebe-se que, se fosse utilizado somente o critério da menor distância, o depósito intermediário “9” seria responsável pelo atendimento dos centroides “4” e “5”, contudo sua capacidade seria excedida já que somando a demanda dos dois centroides temos 800 T >600 T. Dessa forma, a seleção é alterada automaticamente para o segundo depósito mais próximo de modo que a demanda seja atendida. 9 Figura 4: Estrutura da cadeia de ajuda resultante da modelagem desenvolvida 5. CONCLUSÕES A logística humanitária tem como objetivo salvar vidas e prestar assistência a beneficiários. Considerando-se que muitas áreas estão suscetíveis a sofrer desastres naturais, a aplicação de conceitos logísticos torna-se cada vez mais importante, principalmente se considerar o caráter de urgência que o atendimento às vítimas requer. Desta forma, é imprescindível desenvolver modelos que se apliquem a eventos dessa natureza, para que, quando da ocorrência do mesmo, já se tenha o planejamento de ações viáveis para amenizar os impactos sofridos. Além disso, deve-se fazer uso de outras áreas do conhecimento, a exemplo da matemática e da computação, com o intuito de quantificar e aplicar o que foi esquematizado. A partir da metodologia proposta por Costa (2013) para a definição e alocação de centros de distribuições locais, utilizou-se o conceito de “estoques intermediários e pontos de distribuição” de Balcik et al. (2010), para o desenvolvimento da modelagem proposta para determinar os centros de distribuição intermediários e os depósitos centrais. A modelagem foi desenvolvida no software MATLAB R2013a. A partir da modelagem proposta, é possível selecionar as melhores localizações dos centros intermediários de distribuição dentre todas as alternativas apresentadas. Os critérios de seleção utilizados para a alocação dos depósitos intermediários foram a menor distância dos mesmos aos centroides do grupo de pontos de distribuição locais que vão atender, a demanda destes pontos de distribuição locais e a capacidade dos novos depósitos. Assim, como sugestão para trabalhos posteriores, propõe-se considerar outros aspectos, como financeiros e de relevo, o que pode ser feito utilizando fatores que multiplicados pelas distâncias poderão alterar a tomada de decisão, trazendo maior confiabilidade e estabilidade ao modelo. 10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Balcik, B.; B. M. Beamon; C.C. Krekci.; K.M. Muramatsu and M. Ramirez (2010). Coordination in humanitarian relief chains: Practices, challenges and opportunities. International Journal Production Economics. Science Direct, 126 (1), pp.22-34. Bertazzo, T. R., I. B. Junior, A. Leiras e H. T. Y. Yoshizaki (2013) Revisão da literatura acadêmica brasileira sobre a gestão de operações em desastres naturais com ênfase em logística humanitária. Revista Transportes, v. 21, n. 3, p. 31-39. Disponível em: <http://www.revistatransportes.org.br/anpet/article/view/633/481>. Acessado em: 18 de abril de 2014. BRASIL. 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