O LETRAMENTO COMO FUNÇÃO SOCIAL DA LÍNGUA ENTRE
ADULTOS NÃO-ESCOLARIZADOS
HERBERT ELTON DE FIGUEIREDO NOBRE ALVES
RESUMO:
Este estudo pretende mostrar que indivíduos adultos, mesmo não-escolarizados, ao viverem influenciados pela língua escrita, apresentam um determinado nível de letramento, devido à função social da língua, mesmo que os símbolos gráficos, com que se
deparam no cotidiano, sejam apenas encarados como marcas visuais de referência.
O referido nível varia na razão direta dos diferentes gêneros
de textos com que o indivíduo tem contato direto ou indireto. Além disso, busca determinar em que medida esse fenômeno chamado de letramento, aqui entendido como um conjunto de práticas
sociais (SOARES, 1998), pode influenciar o comportamento social.
Considerem-se as seguintes perspectivas de letramento, segundo Britto:
De fato, o termo letramento, certamente o mais usado de todos
em tempos recentes pode ter várias significações, dependendo
do tipo de raciocínio que se desenvolva. Vejamos algumas destas significações, estabelecendo distinções que podem ser úteis
para nosso debate.
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Uma primeira distinção seria aquela entre o processo pelo qual
se estabelece a distribuição dos saberes, isto é, as ações político-sociais e pedagógicas de formação dos sujeitos na cultura
escrita, e o estado em que se encontram indivíduos ou grupos,
isto é, as competências de ler e escrever para atuar nos espaços
sociais organizados em função da escrita. A noção de processo
supõe práticas sociais de uso da leitura e escrita e agentes formadores que definem os modos privilegiados de levar adiante a
tarefa do letramento. A segunda concepção se associa à idéia
de alfabetizado, letrado, educado, e supõe aquilo que uma pessoa é capaz de fazer com seus conhecimentos de escrita. Uma
segunda distinção relevante é a que se estabelece entre a dimensão individual e a dimensão coletiva de letramento, isto é,
entre capacidades individuais e comportamentos ou condições
sociais. (BRITTO, 2003, p. 11)
A hipótese que se levanta é de que pessoas não-escolarizadas, à semelhança do que acontece com as escolarizadas, possuem um determinado nível de letramento, maior ou menor, dependendo do convívio com a língua escrita e da participação em eventos de letramento, o que independe de alfabetização, uma vez que
isso se dá, devido à função social exercida pela língua escrita,
presente com seus símbolos gráficos, no cotidiano da vida.
Muito mais do que mero domínio da tecnologia da leitura e
da escrita, o letramento tem sido definido como “um conjunto de
práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e
enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos
específicos” (SCRIBNER; COLE, 1981). Ou mesmo, simplesmente como “o impacto social da escrita” (KLEIMAN, 1991).
Em outras palavras, “para compreender o letramento, é necessário partir de uma ótica integradora: as habilidades de leitura e
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escrita que o caracterizam agregam-se à dimensão social que o
configura.” (WILSON, inédito).
Letramento, portanto:
compreende diferentes práticas que dependem da natureza, estrutura e aspirações de determinada sociedade” e se ajusta às
agências e aos eventos em que ocorre. (SOARES, 2001, p.
112).
Até o final dos anos 70, portanto, há pouco mais de 30 anos,
estudiosos da oralidade e da escrita tratavam de forma dicotômica
essas modalidades, dando margem ao predomínio da noção de
supremacia cognitiva da escrita. Isso porque a relação entre oralidade e letramento era considerada de modo polarizado, pois, atribuíam-se à escrita valores cognitivos intrínsecos, no uso da língua.
A partir da década de 80, pela mudança de visão em relação
ao assunto, oralidade e letramento passaram a ser compreendidos
como atividades interativas e complementares, no contexto das
práticas sociais.
A escrita, como verdadeira expressão formal e funcional dos
muitos tipos de letramento, não pode ser vista como simples tecnologia. Com a evolução das relações sociais e das comunicações, no
mundo inteiro, o letramento passa a ser considerado como prática
social. Símbolo de poder, em determinadas culturas, a escrita apresenta-se, no cenário global, como essencial ao enfrentamento de
desafios diários, seja nos centros urbanos ou na zona rural.
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É de fundamental importância, entender o letramento, além
da simples expansão das habilidades da leitura e da escrita, por
parte de um indivíduo. Em meio ao desenvolvimento das relações
humanas, os letramentos sociais, diferentemente do que se possa
pensar, existem em função das práticas exercidas à margem da
escola, sem que se considerem essas, desenvolvidas sob as regras
do ensino sistematizado, menos importantes.
Não apenas por saber identificar os símbolos, lendo-os, escrevendo-os, na forma de texto, formalmente disposto em orações,
períodos, parágrafos etc, mas, as pessoas tornam-se letradas ao
envolverem-se em relações diretas e indiretas, no contexto social,
com a língua escrita ou com seus falantes, expandindo suas habilidades e práticas sociais.
É interessante observar que pessoas pouco ou não-escolarizadas, em meio aos elementos formadores da cultura e do contexto social em que vivem, participam de eventos cotidianos que
promovem uma profunda e marcante interação com o mundo ao
redor, em meio às relações fundamentadas na leitura e na escrita,
presentes nas atividades mais simples e rotineiras da vida contemporânea.
Letramento: seus níveis e manifestações
O letramento, termo que expressa um fenômeno ainda não
dicionarizado, pode ser entendido como o processo de aprendizado
da língua escrita, a partir da convivência de crianças ou adultos,
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escolarizados ou não, com materiais escritos: livros, revistas, cartazes, rótulos de embalagens e outros produtos gráficos, presentes
no cotidiano da sociedade.
O referido fenômeno manifesta-se em diferentes níveis, caracterizados pela variedade de gêneros de textos escritos que as
pessoas reconhecem.
Quanto mais convivência com material escrito, quanto mais
leituras realizadas ou mais se ouçam leituras feitas por outros, maior será o nível de letramento adquirido.
Em relação ao letramento e aos estudos de suas implicações
diretas no cotidiano social, bem como à marginalização constatada
por grupos que não possuem a tecnologia da escrita, ou que ainda
não provaram de uma maior expansão de suas habilidades em termos de leitura e escrita, diz Kleiman:
os estudos sobre letramento no Brasil estão numa etapa ao
mesmo tempo incipiente e extremamente vigorosa, configurando-se hoje como uma das vertentes de pesquisa que melhor
caracteriza a união do interesse teórico, a busca de descrições
e explicações sobre um fenômeno, com o interesse social, ou
aplicado, a formulação de perguntas cujas respostas possam
vir a promover uma transformação de uma realidade tão preocupante como é a crescente marginalização de grupos sociais
que não conhecem a escrita”. (KLEIMAN, 1995)
E Tfouni:
Enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por
um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os
aspectos sócio-históricos da aquisição de uma sociedade.
(TFOUNI, 1995)
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Ou ainda, Scribner e Cole:
um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto
sistema simbólico e enquanto tecnologia em contextos específicos, para objetivos específicos”. (SCRIBNER; COLE,
1981)
Considerando que o conceito de letramento começou a ser
usado nos meios acadêmicos numa tentativa de separar os estudos
sobre “o impacto social da escrita” (KLEIMAN, 1991) dos estudos
sobre alfabetização, cujas conotações escolares destacam as competências individuais no uso e na prática da escrita, devemos resguardar, dessas conotações, os sentidos que Paulo Freire atribui à
alfabetização, sobretudo em relação à visão desse educador, que a
considerava um instrumento capaz de levar o analfabeto a organizar reflexivamente seu pensamento, desenvolver a consciência
crítica e introduzi-lo num processo real de democratização da cultura e de libertação (FREIRE, 1980).
Importante, já neste momento, lembrar que letramento é um
fenômeno além da simples alfabetização, segundo Soares:
À medida que o analfabetismo vai sendo superado, que um
númro cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e
à medida que, concomitantemente, a sociedade vai se tornando
cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais
grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta
apenas aprender a ler e a escrever. As pessoas se alfabetizam,
aprendem a ler e a escrever, mas não necessariamente incorporam a prática da leitura e da escrita, não necessariamente
adquirem competência para usar a leitura e a escrita, para
envolver-se com as práticas sociais de escrita (...) Esse novo
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fenômeno só ganha visibilidade depois que é minimamente
resolvido o problema do analfabetismo e que o desenvolvimemnto social, cultural, econômico e político traz novas,
intensas e variadas práticas de leitura e de escrita, fazendo
emergirem novas necessidades além de novas alternativas de
lazer”. (SOARES, op. cit.)
Levando-se em conta, pois, o fato de que o letramento assume características e formas peculiares ao surgir no cotidiano
social, através dos denominados eventos de letramento, é importante refletir sobre suas condições de ocorrência.
Não só na escola, agência considerada como a principal
promotora de eventos de letramento, centrados na alfabetização, o
referido fenômeno também ocorre em outros palcos de manifestação, como a família, o local de trabalho, os ambientes de encontros
formais, informais e de diversão: cinema, teatro, estádios de futebol, ginásios esportivos, lojas, igrejas, estações rodoviárias e ferroviárias, aeroportos, ou até mesmo, as ruas e avenidas das cidades.
O letramento, pois, “compreende diferentes práticas que dependem da natureza, estrutura e aspirações de determinada sociedade” (SOARES, op. cit., p. 112).
Embora a escola seja, categoricamente, considerada a mais
importante de todas as agências de letramento, em que a alfabetização é o principal modelo praticado, é possível afirmar que existem outras agências e outros modelos de letramento, não menos
importantes, encontrados na sociedade.
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O primeiro exemplo a ser contemplado é o da família, núcleo de convívio em que a sociedade se baseia, ainda sendo vista
como sua célula mãe por grande parte da humanidade.
Segundo Goulart (2006), “vem sendo observado que [as] essas crianças, cujas famílias são letradas, participando de atos de
leitura e escrita desde muito cedo, vendo familiares escrevendo e
lendo, ouvindo histórias, chegam à escola conhecendo muitos dos
usos e funções sociais da língua escrita. Participam do que Heath
(Apud Goulart, 1982, p. 50) denominou de eventos de letramento”:
“eventos em que a linguagem escrita é essencial à natureza das
interações e aos processos e estratégias interpretativas de seus
participantes”.
Embora, infelizmente, ainda existam, no Brasil e em outros
países, famílias em que não há alfabetizados, sendo rara a constatação do contato com a língua escrita, mesmo assim, o letramento
é experimentado, de alguma outra forma e em algum nível.
A igreja, um outro bom exemplo, não importando a corrente
teológica na qual se fundamente, através das oportunidades de
participação oferecidas aos seus membros, acaba por transformarse numa importante agência de evento de letramento, pelo constante e sistemático uso de textos escritos, leituras realizadas em
público ou até mesmo de comunicações impressas, para a divulgação de suas programações e encontros voltados para o ensino de
princípios bíblicos ou religiosos etc. Em seguida, aparece o cenário urbano, com suas inúmeras ofertas visuais, por meio de carta8
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zes, letreiros de lojas, placas de trânsito e outros sinais gráficos,
sempre à vista dos transeuntes.
Surgem, de modo marcante também, o ambiente e as relações interpessoais, do lidar com documentos e papéis, publicações
de jornais e periódicos ou outros tipos de representações da língua
escrita, nos locais de trabalho e estabelecimentos comerciais, que
ricamente contribuem para o letramento das pessoas. Efetivamente, os eventos de letramento caracterizam-se pelas práticas que
levam pessoas a desenvolver relações diretas ou indiretas com
outras, por vezes, detentoras de saberes e tecnologias novas, o que
passa a ser um fator de enriquecimento cultural e de ampliação da
visão de mundo, trazendo alterações de comportamento social, não
necessariamente só voltados diretamente para a leitura ou a escrita.
Portanto, o simples registro escrito da língua, experimentado por decodificação de signos gráficos, pela habilidade do leitor
ou simplesmente por ouvir a voz de alguém ao realizar uma leitura, qualquer que seja a natureza do texto em questão, caracteriza
um autêntico evento de letramento.
É interessante observar a maneira entusiasmada com que alguns adultos não-escolarizados encaram a alfabetização como um
marco inicial na grande mudança de vida que esperam experimentar, ao poderem dominar a tecnologia da leitura e da escrita.
De acordo com Barton e Hamilton (Apud GOULART,
2000, p. 8), eventos de letramento “são episódios observáveis que
emergem de práticas e são por elas moldados”.
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Importante é ressaltar que mesmo indivíduos não-escolarizados que, conseqüentemente não dominam as técnicas de leitura e
escrita, possuem um determinado nível de letramento, em função
das práticas sociais que envolvem os símbolos gráficos representativos da língua escrita, presente no cotidiano de todos, seja nos
centros urbanos ou no ambiente rural.
CONCLUSÃO
Assim, considerando-se o fato de que o letramento é um fenômeno verificado através de diversos eventos que têm como agências os mais diversos meios de convívio social, ou seja, desde a
escola, seu principal palco de manifestação, onde se privilegia a
alfabetização como instrumento, passando pela família, a igreja, o
ambiente de trabalho, até estabelecimentos comerciais, ruas, praças e avenidas, estações rodoviárias e ferroviárias, através da ostentação de placas, cartazes e anúncios em fachadas de prédios etc,
é possível dizer que mesmo pessoas não escolarizadas podem ser
vistas como letradas.
Pelo fato de não-escolarizados ouvirem outras pessoas ler
ou por discutirem os assuntos que motivam debates pelos quais se
interessam, além de terem contato com revistas, jornais, panfletos
e materiais promocionais, mesmo que encarem os símbolos gráficos neles contidos apenas como marcas visuais indecifráveis da
língua escrita, pode-se dizer que são letrados.
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Na verdade, ao participarem das práticas de leitura e discussão de temas propostos em quaisquer debates, adultos nãoescolarizados incluem-se no contexto da cultura letrada, agindo
sobre o mesmo, sentindo-se parte dele, apesar das restrições ligadas ao domínio do “código”.
Portanto, conforme Goulart:
letramento está relacionado ao conjunto de linguagens sociais
que identificam práticas sociais, com expressões orais e escritas, e relacionadas a instituições e aos gêneros de discurso que
aí se produzem. Estaria, conseqüentemente, relacionado de
modo forte à formação dos diferentes campos de conhecimento. Assim, vivendo em sociedades letradas, tanto os sujeitos
escolarizados, quanto os não escolarizados são afetados de alguma forma pelo fenômeno do letramento. (GOULART, op.
cit.)
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