Concepções Filosóficas e Representações do Feminino1 Fernanda Henriques Universidade de Évora Num texto de 1997, La politica de las mujeres, a filósofa espanhola Amelia Valcárcel afirmava a dado passo que na maior parte do mundo ocidental, a filosofia, a mais alta, difícil e abstracta reflexão das humanidades, é um dos veículos conceptuais da sexualização, talvez o principal. Concordo totalmente com esta afirmação, considerando mesmo que as concepções filosóficas, que ao longo do pensamento ocidental se foram desenvolvendo, representam os factores fundamentais de discriminação directa e indirecta das mulheres e do feminino na nossa cultura, por terem configurado uma conceptualização antropológica assimétrica e desvalorizadora das mulheres e que, ao ser interiorizada pelos homens e pelas mulheres, se constitui como um elemento perturbador da possibilidade de um “olhar lavado” sobre a natureza humana, nas duas morfologias que assumiu. Nesta comunicação, proponho-me analisar a referida questão, dando especial ênfase ao papel das concepções filosóficas e das representações do feminino na emergência da idade moderna, uma vez que aí se forjam os alicerces da nossa sociedade, tal como ainda hoje a vivemos. Esta análise destacará as diferentes concepções filosóficas que então se definiram, e porá em evidência que se transformaram em pensamento dominante aquelas que eram mais desfavoráveis às mulheres e ao feminino, contribuindo, decisivamente, para a sua exclusão da figura da cidadania como um direito usufruído em plenitude. 1. Quadro de inteligibilidade Esta reflexão operacionaliza uma certa interpretação da categoria de eficácia do trabalho da história – cerne da hermenêutica de Hans-Georg Gadamer –, segundo a qual a nossa consciência histórica é, simultaneamente, condição de possibilidade e de constrangimento do modo como interpretamos a realidade. De acordo com Gadamer: Ter sentido histórico, significa o seguinte: pensar expressamente no horizonte histórico que é co-extensivo à vida que vivemos. Nessa medida, enquanto seres pertencentes a uma cultura, estamos condenados a ter uma consciência histórica, ou seja, a darmos conta de nós dentro do desenrolar de um processo que nos contextualiza e, de alguma maneira, nos forma. Sendo o “horizonte histórico co-extensivo à vida que vivemos” é nosso destino trabalharmos a história que nos trabalha. Gadamer chama preconceito ao resultado do trabalho da história sobre nós, pretendendo designar com essa noção aquilo que poderíamos caracterizar como esquemas de significação trans-subjectivos, e que funcionam como princípios de leitura da realidade.Mas, diz também, Gadamer: A consciência histórica não escuta de forma beatífica a voz que lhe chega do passado mas, reflectindo sobre ela, recoloca-a no contexto em que ela se enraíza para avaliar a significação e o valor relativo que lhe pertence. Este comportamento reflexivo perante a tradição chama-se interpretação2. (sublinhado meu). Assim sendo, pertencermos a um tempo e a uma cultura significa possuirmos uma herança, constituída por um conjunto de recursos de interpretação, com a qual nos orientamos como humanos. Contudo, segundo a própria indicação gadameriana, a interpretação deve 1 Comunicação apresentada no Colóquio internacional Pessoa e Sociedade: Perspectivas para o Século XXI Braga, 17-19 de Novembro de 2005 2 Hans-Georg GADAMER, Le problème de la conscience historique (1958),Paris, Seuil, 1996, pp. 24-25. 1 configurar-se como um comportamento reflexivo perante a tradição ou herança cultural que coube a cada pessoa e não representar uma aceitação passiva dela. Ou seja, “ter sentido histórico” obriga a reconhecer o legado cultural que recebemos, mas, ao mesmo tempo, re-avaliá-lo e re-interpretá-lo, de tal forma que possamos re-configurar, cada vez com maior equidade, a herança cultural que queremos deixar depois de nós. No caso vertente, o das representações do feminino, este trabalho de interpretação é particularmente delicado, na medida em que tem de ser feito ao arrepio daquilo que mais profundamente nos constitui, tendo de tomar sempre, num primeiro momento, a figura da desconstrução, uma vez que as representações mais consistentes simbolicamente advêm de uma concepção antropológica assimétrica, em que o masculino é o padrão e o feminino o derivado3. Por este motivo, não estou totalmente de acordo com Jane Mansbridge e Susan Okin quando identificam como centrais nos Estudos sobre as Mulheres4 as três questões seguintes: ‘Como pode ter acontecido a dominação masculina?’, ‘Porquê foi ela tão completamente aceite?’ e ‘Quais são as suas consequências?’. Na verdade, embora as considere fundamentais como quadro questionador do nosso enraizamento cultural, defendo que um olhar reflexivo sobre a tradição ocidental deve reformular a segunda interrogação e refazê-la do seguinte modo: “Porque é que a dominação masculina assumiu o aspecto de parecer ter sido tão completamente aceite?”, na medida em que re-escrever a nossa História Comum, de homens e de mulheres, obriga a desocultar os ruídos graves à aceitação universal da dominação masculina que houve em todas as épocas, por um lado, e, por outro, a trazer à luz os sinais claros da grande ambiguidade e da grande complexidade nas relações de poder entre os sexos, de que todas as épocas testemunham. De facto, sem esses acontecimentos turbulentos, inquietantes, e, por vezes, provocadores, não seria possível fazer um novo caminho de entendimento do nosso modo de ser e de estar e, sobretudo nós, as mulheres, estaríamos desmunidas de modelos ou figuras femininas que nos apontassem a possibilidade de nos olharmos como seres humanos integrais, indivíduos com múltiplos caminhos de realização que não apenas aqueles ligados ao parir e ao espaço privado do gineceu. Se, enquanto mulheres, olharmos para o “horizonte histórico co-extensivo à vida que vivemos” aceitando passivamente que a dominação masculina foi sempre completamente aceite estamos a fazer uma nova discriminação em relação à nossa herança cultural, porque não só não estamos a fazer justiça a todos aqueles e a todas aquelas que se insurgiram contra a dominação do masculino, como também estamos, por nossa vez, a invisibilizar o seu esforço, reiterando um certo legado cultural que o conseguiu escamotear. 3 Ver a este respeito a recolha de representações do feminino, ao longo da tradição ocidental, de Benoîte GROULT, Cette mâle assurance, Paris, Albin Michelle, 1993. 4 Cf. Jane Mansbridge e Susan Okin “Feminism”, in Robert E. Goodin and Philip Pettit (ed.)The Blackwell, Companion to Contemporary Political Philosophy, Oxford, Blackwell Publisher, 1993, pp. 269-290. 2 Uma interpretação reflexiva do desenvolvimento da cultura ocidental confrontar-nos-á com um modo de pensar as mulheres e o feminino, a que poderemos chamar pensar canónico, nomeadamente nos quadros das concepções filosóficas, e que dá das mulheres e do feminino uma visão negativa e subalterna, mas também nos vai permitir encontrar contra correntes de pensamento ou ruídos marginais ao pensar dominante que põem de manifesto o facto de a aceitação da dominância do masculino, como norma e referência, nem sempre ter sido pacífica. Deste modo, orientada pela ideia de que uma efectiva consciência histórica obriga a uma re-interpretação do significado do lugar comum da invisibilidade das mulheres ao longo da História, esta reflexão vai ocupar-se da análise do cruzamento entre as concepções filosóficas e as representações sociais do feminino, no momento-charneira da História do Ocidente que foi a emergência da Modernidade, procurando dar voz à polifonia de perspectivas sobre o feminino que se desenvolveram, mas que a interpretação dominante tende a escamotear. 2. A modernidade e as conceptualizações do feminino O projecto da Modernidade, como o define Habermas, sendo formulado no século XVIII pelos filósofos da Ilustração, consiste em desenvolver as ciências objectivadoras, os fundamentos universalistas da moral e o direito e a arte autonomamente, sem esquecer as características peculiares de cada um deles e, ao mesmo tempo, em libertar das suas formas esotéricas as potencialidades cognoscitivas que, assim, se manifestam e aproveitá-las para a praxis, isto é, para uma configuração racional das relações vitais… 5. Ou seja, podemos dizer acerca do projecto da Modernidade que corresponde a um triunfo da Razão, vista como recurso de análise, de progresso e de emancipação. Nesta perspectiva, cabe perguntar o que resultou para a conceptualização da natureza das mulheres e do feminino deste triunfo da razão? Isto é, que ganhos ontológicos e cívicos obtiveram? Lamentavelmente, o fervilhar das ideias que então se concretizou não contribuiu para apagar a ideia antropológica mais enraizada na nossa cultura, a de fazer do macho a verdadeira forma da humanidade, e, pelo contrário, fazendo calar todas as novas possibilidades de conceptualização do feminino que então emergiram, conseguiu vestir a mesma ideia com novas roupagens. Contudo, poderia ter sido de outra forma porque algumas mulheres e alguns homens trouxeram à luz do debate público novas formas de pensar a humanidade nas suas duas morfologias, pretendendo que também as mulheres lograssem usufruir do processo de emancipação e autonomia que a Modernidade instaurou. Acompanhemos os dois percursos que foram possíveis para as mulheres nos alvores da idade moderna: aquele que articula Descartes (1596-1650) com Rousseau (1712-1778) que saiu vencedor, e o que alia 5 Este texto foi recuperado da análise de Celia AMOROS, Tiempo de feminismo, Madrid, Cátedra, 1997. 3 Poulain de la Barre (1647-1723) e Mary Wollstonecraft (1759-1797), que, embora derrotado, ao nível do pensar dominante, representa a prova de que a dominação masculina não foi sempre universalmente aceite. 2. 1. O pensar canónico ou a manutenção da perspectiva discriminadora do feminino na transformação histórica-cultural da Modernidade Descartes e o inicio da modernidade filosófica Para aquilo que aqui nos ocupa, a problemática das concepções filosóficas, a Modernidade começa com Descartes. Hegel e Heidegger, dois eminentes intérpretes da tradição filosófica ocidental, tendem a ver em Descartes o iniciador de um novo modo de pensar e a considerar que é ele quem empresta o seu perfil ao projecto moderno do mundo, ele quem expressa a “decisão” ontológica da modernidade, pela qual a verdade se converte no que se alcança “com método”. Por ter sido ele ainda quem deu à questão do método uma tão clara prioridade sobre a questão do ser, que esta passa a ser tida em conta somente na perspectiva do que dessa maneira se deixa descobrir[…].6 Ora, é exactamente a ideia de método de Descartes, bem como a correspondente concepção de razão em que assenta, que servirão para acantonar as mulheres a uma região espiritual diminuída e, poderíamos mesmo dizer, fora do campo da racionalidade. Para Genevieve Lloyd7, é a este pensador que devemos uma teoria do espírito que permite fundamentar uma divisão sexual do trabalho mental, na sequência da qual foi atribuída às mulheres, como tarefa, o resguardar da sensibilidade e aos homens o desenvolvimento da razão. Esta autora faz uma interpretação do processo de constituição do pensamento ocidental pondo de manifesto uma longa tradição de aliança entre o masculino e a razão; contudo, salienta ela, no século XVII, assente em Descartes, produz-se uma mudança qualitativa nessa situação, porque a estreita ligação estabelecida entre o método e a razão, por um lado, a ideia de que é possível “treinar” a razão, aperfeiçoando o seu exercício por meio de regras claras de procedimento, por outro, e, por fim, a separação radical entre a substância pensante e o corpo, vão definir um novo espaço de pensar o humano e o seu desenvolvimento, de tal modo que acabam por excluir as mulheres do campo da racionalidade. Segundo a sua leitura, até ao século XVII, as mulheres foram representadas com sendo menos racionais que os homens, mas a partir do século XVII elas ficam pura e simplesmente fora da racionalidade, pelo que a sua tarefa fica determinada com base nessa separação constitutiva: A tarefa da Mulher é a de preservar a esfera da interligação entre o espírito e o corpo, a que o Homem de Razão recorrerá para conforto, 6 Irene BORGES-DUARTE, “Descartes e a Modernidade, na Hermenêutica Heideggeriana”, in Aavv, Descartes, Leibniz e a Modernidade, Lisboa, Colibri, 1998, pp. 507-524, pp. 510-513. 7 Cfr. Genevieve LLOYD, The man of reason, “male” and “female” in Western Philosophy, London, Routledge, 1993. 4 calor e descanso. Se ele pretende exercitar a mais exaltada forma de Razão, deve ter por detrás emoções suaves e sensualidade; a mulher mantê-las-á intactas para ele. Estava, então, aberto o caminho para as mulheres serem associadas não apenas a uma presença inferior da Razão, mas a uma forma diferente de carácter intelectual, construída como complementar da Razão “masculina”8. Rousseau e a instrumentalização das mulheres Evidentemente que não foi a filosofia cartesiana a responsável única, nem directa, desta situação, mas a operacionalização educativa que Rousseau levou a cabo, porque as mulheres foram as “enteadas” do programa de educação que ele desenvolveu9. Para Rousseau, a pedagogia tem uma dimensão política. A remissão que faz para Platão – que define na sua República a paideia capaz de formar bons ou boas governantes, ou seja, aqueles e aquelas que têm capacidade para adquirir as condições para dirigir uma cidade justa –, deixa perceber não só o sentido político que atribuía à educação, como também põe de manifesto que a sua proposta educativa tinha em vista a construção de uma Cidade Nova. Nessa medida, a configuração diferenciada que faz da educação masculina e da feminina, em função de uma ideia de natureza humana idealizada, simultaneamente, supõe e produz uma concepção do feminino ligada à fragilidade, à sensualidade e à sujeição, marcando, claramente, a ideia de que a racionalidade feminina se restringe a uma natureza estritamente prática. Em Émile representa-se um ser genérico, um homem universal, e que, portanto, está em questão uma perspectiva educativa que decorre de uma determinada concepção de natureza humana. Tendo isso em conta como dado, fácil se torna perceber como no projecto emancipador proposto por Rousseau para a realização do ser humano, pior do que estarem excluídas, as mulheres estavam consideradas como instrumentos ao serviço do desenvolvimento da outra parte da humanidade. Ao contrário da educação de Émile – que deveria respeitar o seu ritmo individual e salvaguardar o fortalecimento da sua liberdade e autonomia, configurando a sua força e especificando a sua individualidade –, a educação de Sophie é perspectivada na base de que o feminino não tem individualidade. Nas mulheres, o indivíduo é o espelho do grupo. A identidade feminina é pensada e apresentada como a de um colectivo, definindo um destino e uma prisão. Não há individualidades entre as mulheres. Para Rousseau, de tal maneira todas as mulheres se equivalem que ele retira qualquer valor representativo às mulheres que por qualquer motivo se distinguiram do seu destino comum10. Nelas predomina a regra e não a excepção, e a regra é: beleza, manha, fraqueza, desregramento, arbitrariedade, sensibilidade, docilidade, dependência, fragilidade. 8 Ibidem, p. 50. Remeto aqui para a análise sistemática que fiz deste tema em: Fernanda HENRIQUES, “Rousseau e a exclusão das mulheres de uma cidadania efectiva”, in Mª Luísa R. Ferreira (org.) O que os filósofos pensam das mulheres, Lisboa, CF-UL, 1998, pp. 171-190. 10 Cfr. Ibidem, p. 454. 9 5 A existência de uma diferença radical entre a natureza humana masculina e a feminina, pensada em termos de assimetria valorativa, era um dado evidente para Rousseau: O ser supremo quis em tudo fazer honra à espécie humana: ao dar ao homem inclinações desmedidas, deu-lhe, ao mesmo tempo, a lei que as regula, para que ele seja livre e se comande a si mesmo; ao atribuir-lhe paixões imoderadas, juntou a essas paixões a razão para as governar; ao atribuir à mulher desejos ilimitados, juntou a esse desejos o pudor para os conter.”11 Não são apresentados argumentos justificativos, mas o texto não tem dúvidas em colocar o homem na esfera da racionalidade, com a qual pode estruturar e gerir as suas tendências para o desregramento, e a mulher fora dela, estando, por isso, impedida de poder realizar qualquer gestão de si mesma. Para as mulheres, destituídas de uma racionalidade plena, só resta esperar que o pudor as obrigue a controlar os instintos. A razão fundamental da esquematização desta diferença assimétrica entre os dois sexos assenta na inscrição directa das mulheres no plano da natureza, sendo o feminino o lugar a partir do qual se pensa o sexo. Homem e mulher são sexuados, mas a sexualidade é apenas constitutiva da natureza feminina, porque a mulher é sempre e só fêmea e no homem, o sexo é apenas uma das suas múltiplas determinações. Assim, o destino comum das mulheres é serem educadas para agradar e dar prazer aos homens e a última parte de Émile, está destinada a definir as regras dessa educação de maneira a retirar às mulheres qualquer possibilidade de, ao menos, transformar esse destino em projecto pessoal. A debilidade da sua natureza obriga a que estejam sempre sujeitas ao domínio de um homem qualquer: o pai, o marido ou, até, um filho. A nefasta herança de Rousseau A força das ideias rousseaunianas é, a meu ver, exemplarmente simbolizada no aparecimento, em 1801, nos alvores da fundação da sociedade moderna, na sequência da Revolução Francesa, do opúsculo que Sylvain Maréchal publicou e onde dava forma a um projecto de lei proibindo as mulheres de aprender a ler. O opúsculo era constituído por 113 considerandos e 82 determinações, contendo, ainda, um Decálogo (os dez mandamentos do amor) e um poema “a uma mulher culta”. Tal conjunto consubstanciava uma panóplia argumentativa que punha em evidência uma conceptualização do feminino como sendo destituído de capacidade para se determinar e para viver autonomamente, ao mesmo tempo que defendia a ideia de que o estudo e o saber só serviam para envaidecer as mulheres e impedi-las de realizar a sua missão de mães e de amantes. Fictício, embora, tal projecto pode ser tomado como um símbolo de um certo modo de pensar dominante nessa nova sociedade que emergia das lutas revolucionárias e onde algumas pessoas procuravam a forma de 11 J.J. ROUSSEAU, Œuvres Complètes, Paris, Gallimard, 1969, tomo IV, p. 448. 6 continuar a manter as mulheres fora da grande transmutação que estava a ocorrer a todos os níveis da vida humana. Ou seja, quando o imaginário ocidental se configurou de modo a poder pensar a humanidade em termos de igualdade e de liberdade, houve a vontade, o poder e a força de excluir as mulheres dessa mundividência enriquecedora, postulando e definindo a sua diferença como um estigma de desigualdade. Por outro lado, as controvérsias que o opúsculo de Sylvain Marechal suscitou deixam também ver as linhas de força do pensar da sociedade emergente acerca da natureza feminina, pondo a claro a nefasta herança de Rousseau12. Para Geneviève Fraisse, que estudou detalhadamente este período: O texto de Sylvain Marechal cristaliza todos os temas que alimentam o debate da exclusão das mulheres pela democracia. Podemos resumi-los deste modo: o medo de que a excepção se converta em regra, a recusa da vida pública para as mulheres e o controlo sobre a sua aparência, a insistência na naturalidade do sexo feminino, em especial na sua função reprodutora, a certeza acerca de um destino idêntico para todas as mulheres produtoras de costumes, domésticas e públicas, a vontade política de não lhes dar nem cidadania, nem poder na cidade.13 Os temas do debate que o opúsculo de Sylvain Marechal desencadeou directamente ou que estavam a fermentar a mundividência da sociedade em efervescência catalizam os tópicos clássicos em torno da conceptualização da natureza feminina. Foram eles: •A •A •A •A •A •A oposição entre natureza e razão defesa de uma igualdade desigual total separação entre o privado e o público aliança entre a genialidade feminina e a frigidez articulação entre o amor e felicidade das mulheres relação entre o controle do corpo feminino e a harmonia Em termos sintéticos, as conclusões do debate articulam-se em torno de duas ideias centrais e de uma série de corolários. Por um lado, o estabelecimento de que, para as mulheres e para o feminino, não há historicidade. O seu futuro é sempre destino e destino de espécie. Por outro lado, a afirmação clara de que a razão humana é sexuada, mas apenas a razão feminina é determinada negativamente por esse factor, diminuindolhe o poder racional. Destes dois princípios gerais, decorrem várias consequências diminuidoras do estatuto ontológico e social das mulheres, nomeadamente retirando-lhes: • • • • A legitimidade de formularem um projecto pessoal de vida O poder de serem autónomas A possibilidade de realização plena A pertinência da sua vontade de saber Ou seja, o próprio quadro do debate encarcerou a definição do lugar das mulheres no âmbito de uma alternativa constrangedora: Ou aceitava ser 12 Cfr. A este respeito : Geneviève FRAISSE, Muse de la raison, Aix-en-Provence, Éditions Alinéa, 1989. Geneviève FRAISSE, Muse de la raison, Aix-en-Provence, Éditions Alinéa, 1989. Versão castelhana: Musa de la razón, Madrid, Cátedra, 1991, p. 175. 13 7 musa inspiradora do masculino e viver feliz na sociedade nascente, embora dentro da gaiola dourada da feminilidade, ou, se não aceitava esta situação, corria o risco de ser apenas mono, isto é, uma mera imitação imperfeita do masculino e ostracizada da vida social. Por outras palavras, se queriam conquistar alguma influência na vida da sua sociedade, as mulheres teriam de dar o seu consentimento a serem pensadas como o segundo sexo. 2. 2. O ruído marginal ao pensar canónico ou Descartes contra Descartes François Poulain de la Barre: outra herança cartesiana possível A vitória da concepção rousseauniana sobre a conceptualização do feminino e sobre o projecto da sua educação não foi fácil, pelo contrário, supõe uma forte oposição e um duro debate. Essa disputa está, aliás, documentada na própria obra Émile, onde existe um claro registo crítico que tem como alvo os defensores da igualdade entre os sexos. Curiosamente, uma das raízes das vozes inovadoras remonta também a Descartes, sendo consubstancializada em François Poulain de la Barre que é, nas palavras de Celia Amorós, a fonte para dotar o feminismo da sua própria memória crítica14. Poulain de la Barre publicou, em 1673, uma obra intitulada De l’égalité des deux sexes. Discours physique et moral ou l’on voit l’importance de se défaire des préjugés, onde está em jogo o questionamento dos preconceitos sobre o feminino e a feminilidade a partir das ideias cartesianas. Pode-se dizer que Poulain de la Barre pragmatiza o Cogito cartesiano, ao articular a dúvida com o agir e não apenas com o pensar. Para ele, existimos, porque o que duvida age e o que age existe15.Este descolar da problemática do Cogito para o plano da acção é acompanhado de uma defesa intransigente do princípio cartesiano de se pensar apenas a partir do trabalho da racionalidade, pondo de parte os preconceitos ou ideias feitas. Aquilo que, para ele, o cartesianismo trouxe de inovador foi a denúncia dos preconceitos e a aplicação do método racional na pesquisa da verdade. Explorando esta ideia Poulain de la Barre defende que a concepção da desigualdade entre os sexos advém, apenas, do interesse e do costume, não se fundamentando em nenhum tipo de razões consistentes. Aquilo que, ao longo dos séculos, determinou a desigual situação entre mulheres e homens assenta, somente, na força e não na racionalidade. Por isso, continua ele a defender, é necessário que a educação questione este preconceito e se ocupe em formular uma conceptualização da natureza com base em critérios puramente racionais. Poulain de la Barre põe, ainda, em evidência uma ideia que me parece fundamental e que resulta de uma reflexão perspicaz – trata-se da sua 14 Célia AMORÓS, op. cit.,p. 109. Cfr., Henry PIÈRON, ”De l’influence sociale des principes cartésiens. Un précurseur inconnu du féminisme et de la Révolution : Poulain de la Barre” , Revue de Synthèse Historique, 1902. Todas as informações sobre Poulain de la Barre são devedoras da obra de Celia Amorós, atrás referida. 15 8 chamada de atenção para o facto de que o preconceito sobre a desigualdade entre os sexos estar interiorizado pelas próprias mulheres, sendo, por conseguinte, um forte factor da manutenção da sua sujeição e da própria reprodução do preconceito. Daí a sua insistência na defesa de uma educação despida de preconceitos e que alimentasse as mulheres e os homens com as luzes da razão Vozes dissonantes em relação a Rousseau A importância de uma educação humanamente digna para as mulheres é directamente defendida por D’Alembert contra Rousseau. D’Alembert aponta duas razões para a existência da imagem de mulher e de feminino apregoada por Rousseau para justificar o tipo de educação feminina que preconizava. Por um lado: A escravidão e a degradação a que temos reduzido as mulheres, os entraves que pomos ao seu intelecto e ao seu coração a conversa fiada, fútil e humilhante para elas e para nós a que reduzimos a nossa relação com elas como se elas não tivessem uma razão para cultivar ou não fossem dignas disso. Por outro: a educação funesta, quase homicida que lhes prescrevemos sem lhes permitirmos ter outra; educação essa em que aprendem quase exclusivamente a fingir sem cessar, a afogar todos os sentimentos, a ocultar todas as suas opiniões e a disfarçar todos os seus pensamentos16. Tudo se passa, continua o autor a defender, como se os homens tivessem medo do real valor das mulheres e, por isso, as submetessem a uma educação inferiorizadora e a uma sistemática exclusão do acesso às fontes do crescimento e do aperfeiçoamento humano. Diz, ainda, D’Alembert que algumas das afirmações que Rousseau faz sobre a relação das mulheres com a ternura e o amor só podem advir da má fé ou da ignorância, uma vez que não tomam em linha de conta o testemunho dos textos que documentam a dignidade e a grandeza do amor feminino. Apelando para o exemplo do próprio Descartes que as julgava mais aptas que [os homens] para a filosofia, tendo sido uma infeliz princesa o seu melhor discípulo, D’Alembert ataca duramente o projecto educativo de Rousseau para as mulheres, ao mesmo tempo que defende a necessidade de uma nova educação para a construção de um novo modelo de relação humana: Inexorável para com elas, vós as tratais, Senhor, como a esses povos vencidos, mas temíveis, a quem os conquistadores desarmam. […] Parece-me que o género humano melhorará com a educação. […] 16 Alicia H PULEO (ed.), La ilustración olvidada. La polémica de los sexos en el siglo XVIII, Barcelona, Anthropos, 1993, p. 74. 9 Quando a educação for mais livre de se expandir, mais desenvolvida e mais homogénea, experimentaremos os seus efeitos benfazejos. O amor entre os sexos será, nessa altura, como a amizade mais doce e verdadeira entre os homens virtuosos; ou, então, será ainda um sentimento mais delicioso, o complemento e a perfeição da amizade, sentimento que, na intenção da natureza deveria fazer-nos felizes e que, para nossa desgraça, fomos capazes de alterar e corromper.17 Contudo, a grande polémica contra a perspectiva de Rousseau veio de Inglaterra e de uma mulher: Mary Wollstonecraft. Na sua obra central A Vindication of the Rights of Woman, de 1792, diz a determinada altura: Rousseau trata de provar que tudo estava bem originariamente; uma multidão de autores trata de provar que tudo está bem agora e eu quero provar que tudo estará bem depois18. É esta perspectiva sobre a necessidade de preparar um novo futuro para a humanidade com base no desenvolvimento educativo que Mary Wollstonecraft defenderá até ao fim da sua actividade de escritora e intelectual. Numa atitude de certo modo precursora do construtivismo contemporâneo, porá em evidência a irrelevância do sexo na determinação das capacidades intelectuais e humanas e defenderá a importância da acção modeladora da educação nessa determinação. Ou seja, procurará sempre mostrar que é a educação e não o sexo que marca a diferença existente entre homens e mulheres e não uma qualquer determinação biológica. Nessa medida, tomará sempre uma posição contrária à de quem defendia a sexualização da razão e manter-se-á intransigente na defesa de uma única natureza humana. O olhar analítico que desenvolveu em relação à sociedade sua contemporânea foi, a um tempo, crítico e reconstrutor, reconhecendo, simultaneamente, a fragilidade real da figura feminina e apontando a necessidade de a transformar por um projecto educativo dignamente humano e respeitador das duas formas assumidas pela humanidade. 3. Observações conclusivas Parafraseando Júlia Kristeva, poderemos dizer, para concluir, que, nos alvores da sociedade moderna, houve, efectivamente, a consciência clara de que a educação era o lugar onde se faz e se refaz o sujeito humano e que, ao contrário dos Velhos do Restelo que teimavam em querer fazer vingar a ideia de que o feminino correspondia a uma segunda natureza e a uma natureza de segunda, houve o reconhecimento da dimensão preconceituosa dessa perspectiva e da sua falta de fundamento racional. 17 Ibidem, p. 76. Mary WOLLSTONECRAFT, A Vindication of the Rights of Woman (1792). Versão castelhana: Vindicación de los Derechos de la Mujer, Madrid, Cátedra, 1994, p. 120. 18 10 Nesse sentido, embora dê a razão à perspectiva analítica de Amélia Valcárcel, ao afirmar que Quando as elites renovadoras quiseram iniciar nos seus países mudanças em profundidade, comprometeram sempre na sua causa as mulheres porque desejavam um novo tipo de mulher capaz de ser mãe e educadora do novo cidadão que deveria realizar e consolidar as conquistas pelas quais se lutava. (…) Porém, uma vez consolidada a mudança, o conjunto das mulheres costuma obter vantagens relativamente escassas. O mesmo pensamento secularizado que as empurrou para a acção sabe propor-lhes um novo lugar em que o seu papel seja, de novo, subsidiário, sob uma forma modernizada19. quero salientar, também, que a emergência da modernidade corresponde a uma mudança qualitativa na conceptualização do feminino. Venceram os Velhos de Restelo, mas a razão, essa, como tem tempo, não tem pressa e lá vai fazendo o seu caminho na construção da verdade. Algumas referências bibliográficas enquadradoras da reflexão, embora não citadas directamente no texto • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 19 AAVV, Women, the Environment and Sustainable Development (1994). Versão portuguesa: Mulher, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Lisboa, Piaget, 2000. AGACINSKI, Sylvanne, La Politique des Sexes, Paris, Seuil, 1998. AMORÓS, CÉLIA, Tiempo de feminismo, Madrid, Cátedra, 1997. BADINTER, Elisabeth, XY, De l ’identité masculine, Paris, Odile Jacob, 1992. BENHABIB, Seyla e CORNELL, Drucilla (eds.), Feminism as Critique (1986). Versão castelhana:Teoria Feminista y Teoría Crítica, Valência, Edicions Alfons el Magnànim, 1990. BONILLA, Alcira, “Razon poética y género: arquetipos femeninos”, Philosophica Malacitana, IV, 1991, pp. 49-64. BUTLER, Judith, Gender Trouble. 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É membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e vice-presidente da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres. Faz, igualmente, parte do Conselho Editorial da Revista ex aequo, desde a sua fundação, em 1999. Várias publicações individuais, bem como participação em obras colectivas, nas áreas da Filosofia Hermenêutica, da Filosofia da Linguagem e dos Estudos sobre as Mulheres, quer nacionais quer estrangeiras. 12