AVALIAÇÃO DA QUALIDADE BACTERIOLÓGICA E FÍSICO-QUÍMICA, PARA CONSUMO HUMANO, DA ÁGUA DO MANANCIAL SUBTERRÂNEO, EM ÁREAS URBANAS DE FEIRA DE SANTANA - BAHIA - BRASIL, 2000 *Rita de Cassia Assis da Silva EMBASA - Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A. Graduada em Ciências Biológicas-Universidade Católica do Salvador, Salvador-Bahia-Brasil; Especialista em Microbiologia-Fundação Severino Sombra, Rio de Janeiro-Brasil; Especialista em Direito Sanitário-Universidade Estadual de Feira de Santana-Bahia-Brasil; Mestre em Saúde Coletiva-Universidade Estadulal de Feira de SantanaBahia-Brasil; Bióloga da Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A.-Bahia-Brasil. Tãnia Maria Araújo Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS Endereço (*): Rua São Mamede, 98 - Village Ouro Preto – Santa Mônica – Feira de Santana – Bahia – 44050.400 – Brasil Tel.: (75) 625.7492 – Fax: (75) 254.1731. e-mail: [email protected] RESUMO O consumo humano da água fora dos padrões de potabilidade constitui-se fator de risco e agravos a saúde. Através do processo de infiltração no solo, as águas subterrâneas podem ser contaminadas pelos resíduos gerados pela atividade humana e depositados no solo, lançados nos cursos d'água ou ar. O consumo humano da água in natura, capitada neste manancial, pode levar ao risco de doenças. No Brasil, a Portaria do Ministério da Saúde, nº 1.469, de dezembro de 2000, estabelece os valores máximos permissíveis (VMP) para as características bacteriológicas, organolépticas, físicas e químicas da água potável. O objetivo deste estudo foi avaliar a qualidade da água subterrânea, para consumo humano, quanto as características bacteriológicas e físico-químicas nos bairros Campo Limpo e Santa Mônica, da cidade de Feira de Santana-Bahia-Brasil, no ano de 2000. Para este fim, realizou-se análises bacteriológicas e físico-químicas, comparando-se os resultados encontrados aos parâmetros estabelecidos na legislação federal vigente. Trata-se de estudo descritivo de corte transversal. Analisou-se amostras coletadas em 120 poços. Foram calculadas amostras proporcionais, baseado na freqüência de poços encontrados em cada bairro. Foram realizadas análises do Número Mais Provável (NMP) de coliformes totais e fecais, Determinação de Organismos Heterotróficos, amônia, cloreto, cor, dureza, nitrato, nitrito, pH e turbidez. Encontrou-se coliformes totais em 90.8% das amostras. No Campo Limpo este percentual foi de 89,8% e no Santa Mônica 95,5%. Foi encontrado coliformes fecais, em 65,8% das amostras, sendo que, no Campo Limpo este percentual foi de 66,3% e no Santa Mônica 63,6%. No estudo, 71,4% das amostras apresentaram mais de 500 Unidades Formadoras de Colônias (UFC)/ml. No Campo Limpo este percentual foi de 68% e no Santa Mônica 86,4%. Considerando-se o VMP legalmente para parâmetros físico-químicos encontrou-se os seguintes resultados: em 7,1% das amostras do Campo Limpo e 9,1% do Santa Mônica encontrou-se cor >15 uH; na análise do pH, 82,8% das amostras analisadas apresentaram pH ácido, < 6,0, com equivalência entre os bairros; em 23,4% das amostras a turbidez foi >5 uT, com percentual equivalente entre os bairros; cloreto foi >250 mg/L Cl em 12,5% das amostras analisadas; quanto ao teor de nitrato, 88,2% das amostras apresentaram nitrato acima de 10mg NO3-N/L, sendo que, no Campo Limpo este percentual foi de 94,8% e no Santa Mônica, 59,1%; na análise de amônia, 33,7% das amostras coletadas no Campo Limpo e 68,2% no Santa Mônica apresentaram mais de 1,5mg/L NH3 e em 100% das amostras os índices de nitrito e dureza atenderam ao recomendado legalmente. Os achados do estudo indicam que o elevado percentual de amostras fora dos padrões de potabilidade podem levar os consumidores da água deste manancial ao risco de agravos à saúde. Palavras Chave: Água subterrânea, consumo humano, qualidade bacteriológica, qualidade físico-química INTRODUÇÃO O consumo humano da água contaminada, fora dos padrões de potabilidade, é fator de risco e agravos à saúde. A água é nociva à saúde quando possui seres patogênicos e/ou elementos e substâncias químicas prejudiciais ao organismo, capazes de causar-lhe doenças (PELCZAR et al.., 1981; GRAY, 1996; OPS, 2000). A qualidade da água para consumo humano é uma questão de grande relevância e preocupação para a saúde pública. No Brasil, a Portaria 1 do Ministério da Saúde nº 1.469 de 29 dezembro de 2002 aprova a Norma de Qualidade da Água para Consumo Humano, que define os valores máximos permissíveis (VMP) para as características bateriológics, organolépticas, físicas e químicas da água potável. Segundo a Portaria nº 1.469, Art 4º, I (2000) "água potável é a água para consumo humano cujos parâmetros microbiológicos, físicos, químicos e radioativos atendam ao padrão de potabilidade e que não ofereça risco à saúde". O desenvolvimento industrial, o crescimento demográfico, a modernização da agricultura e a expansão urbana são as principais ameaças de contaminação dos mananciais superficiais e subterrâneos. A água do manancial subterrâneo, mesmo sem cor, sabor ou cheiro, pode estar contaminada com bactérias patogênicas, vírus, parasitas, substâncias orgânicas não degradáveis, nitrato, gás sulfídrico, metais pesados, combustível, entre outros.A poluição da água subterrânea tende a ser insidiosa e é invariavelmente muito persistente. A recuperação de aqüíferos poluídos é muito cara e tecnicamente dificil. Em algumas áreas, principalmente nos maiores centros urbanos e cercanias, detectou-se evidências de poluição, configurando risco à saúde pública ou causando o abandono das fontes de abastecimento de águas subterrâneas com a conseqüente perda de investimento financeiro e de recursos naturais (FOSTER, 1993). Em torno de 20% da população dos países em desenvolvimento que dispõem de fossas sépticas ou outro tratamento in situ, protege a salubridade do seu domicílio, mas pode permitir a liberação de patógenos, que podem alcançar massas de água próximas, colocando em perigo a saúde dos vizinhos. Além disso, o conteúdo das fossas, ou de tratamento semelhante, se infiltra, comprometendo as águas subterrâneas (OPS, 2000). A água subterrânea pode ser captada no aqüífero confinado ou artesiano, que se encontra entre duas camadas relativamente impermeável, dificultando a sua contaminação, ou ser captada no aqüífero não confinado ou livre, que fica próximo à superfície e mais suscetível a contaminação por infiltração. Estes últimos são os mais usado devido ao baixo custo e facilidade de perfuração. Em Feira de Santana, hospitais, clínicas médicas e odontológicas, escolas, restaurantes, bares, lanchonetes, creches, indústrias de produtos alimentícios (nos quais a água é utilizada como matéria-prima), além de residências particulares, vêm utilizando a água deste manancial, captada em poços rasos, in natura ou tratada inadequadamente, sem conhecimento da sua qualidade bacteriológica e/ou físico-química. Mais de 70% dos usuários da água subterrânea a utilizam para beber, cozinhar e tomar banho (ASSIS DA SILVA, 1999a). Em torno de 70% do destino final do esgoto doméstico gerado em Feira de Santana é feito em fossas, a "céu aberto" ou na rede coletora de água pluvial. A cidade não conta com sistema para coleta e tratamento de resíduos industriais. Além disso, não possui eficiente sistema de coleta e destinação final dos resíduos sólidos. O lixo é depositado num aterro controlado localizado em local inadequado, na zona urbana da cidade. Logo, a possibilidade de contaminação do manancial subterrâneo por microorganismos patogênicos e/ou substâncias e elementos químicos nocivos é real. Avaliando-se a qualidade bacteriológica e físico-química de amostras de água coletada em poços localizados em Feira de Santana, em junho de 1999, foram encontradas bactérias do grupo coliforme em 77% das amostras e nitrato acima do recomendado legalmente em 66,6% (ASSIS DA SILVA, 1999b). A exposição a H. pylori pode causar câncer de estômago e a infecção por este microorganismo se associa, em potencial, a contaminação da água e alimentos. Como o câncer de estômago é freqüente nos países em desenvolvimento, a infecção por H. pylore poderia ser a associação mais importante entre contaminação da água e câncer (OPS, 2000). Nos cinco países das Américas com mais baixo índice de mortalidade infantil, mais de 90% da população possui acessibilidade a água potável (UNICEF, 1994 apud MENDONZA, 1995). AVILA et al. (1989), comparando índices de coliforme na água para abastecimento e casos de gastroenterite encontrou o seguinte achado: onde a incidência de gastroenterite era de 116/1.000 habitantes não foi encontrado nenhuma amostra aceitável para coliformes totais e foi observado coliformes fecais em 42,9% das amostras. Onde a incidência de gastroenterite era de 49/1.000 habitantes foi encontrado 41,5% de amostras aceitáveis para coliforme total e 5,7% com presença de coliforme fecal. ABRAMOVICH et al. (1998), em uma população composta por cianças de 4 meses a 12 anos encontrou 47% de amostras de fezes positivas para enteroparasitos, sendo 43,7% de cistos de Cryptosporidium spp, entre os que consumiam água subterrânea clorada no reservatório de acumulação, com dosagem de cloro variando de 1 a 2mg/L. Entre os que consumiam água superficial submetida a tratamento convencional observou percentual significativamente menor em porcentagem de crianças parasitadas e não foi encontrado nehuma amostra com Cryptosporidium spp. Entre os constituintes inorgânicos mencionados nos Guias da OMS sobre Qualidade de Água Potável como nocivos à saúde, o nitrato é aquele que apresenta ocorrência mais generalizada e problemática, devido a sua alta mobilidade e estabilidade nos sistemas aeróbios de águas subterrâneas (FOSTER, 1993). O preço a ser pago por ingestão de águas contaminadas é difícil de ser computado, pois as pessoas não adoencem obrigatoriamente. Seus organismos preparam-se para a luta contra agressores utilizando-se de suas defesas e, em geral, ganham a batalha. Mas isto custa maiores gastos com alimento, perda da qualidade de vida, envelhecimento precoce no adulto e, na criança, subdesenvolvimento físico e mental. Porém, em indivíduos com baixa resistência e entre crianças com menos de um ano, as infecções gastroentestinais é causa de elevada taxa de mortalidade. 2 As águas subterrâneas cumprem função importante e, em inúmeros casos, é vital para o fornecimento de água potável. Por isso, recomenda-se a sua proteção, com eliminação das causas de possíveis contaminações, bem como o uso de filtração, antes da desinfecção, para reduzir, a um nível significante, o risco de de transmissão de parasitos pela água (OMS, 1995 apud ABRAMOVICH, 1998). CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO ESTUDADA Avaliou-se poços localizados em domicílios dos bairros Campo Limpo e Santa Mônica, da cidade de Feira de Santana, localizada no Estado da Bahia, nordeste do Brasil. É a segunda maior cidade do Estado, com 480.692 habitantes, segundo o Censo Demográfico de 2000 (IBGE), representando a 31ª maior população do País. O Campo Limpo está situado a noroeste e o Santa Mônica a nordeste da cidade. A população residente no Campo Limpo possui condições sócio-econômicas mais precárias que a do Santa Mônica. OBJETIVO Avaliar a qualidade, para consumo humano, da água do manancial subterrâneo captada em poços localizados nos bairros Campo Limpo e Santa Mônica, na cidade de Feira de Santana-Bahia-Brasil, durante o ano de 2000. METODOLOGIA Tipo de estudo - Estudo descritivo, de corte transversal, direcionado a avaliar a qualidade da água subterrânea, para consumo humano, em duas áreas urbanas da cidade de Feira de Santana. População estudada - Baseou-se em estudo epidemiológico no qual foram avaliadas unidades prediais existentes nos bairros Campo Limpo e Santa Mônica, cuja amostra foi calculada segundo dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (1996). Critérios amostrais - Foram analisadas 120 amostras de água de poços de domicílios localizados nos dois bairros. O tamanho da amostra foi estabelecido em função do custo das análises. Foram calculadas amostras proporcionais por bairro, de acordo com o percentual de poços encontrados em cada bairro. Foram avaliados 98 poços no Campo Limpo, onde foi encontrado 82% dos poços dos domicílios do estudo e 22 no Santa Mônica (18% dos poços do estudo). A seleção dos locais de coleta das amostras foi feita por sorteio, entre números atribuídos a cada domicílio estudado, por meio de listagem de números aleatórios, gerada pelo Programa Epi-Info, versão 6.0. Instrumentos de pesquisa - Dados referentes a característica dos poços foram obtidos através de inquérito domiciliar, com a aplicação de formulário elaborado com questões fechadas. Os dados sobre a qualidade da água do manancial subterrâneo foram obtidos através de análises bacteriológicas (NMP Coli total/fecal-termotolerantes e Determinação de Organismos Heterotróficos) e físico-químicas (amônia, cloretos, cor, dureza, nitrato, nitrito, pH e turbidez). Análise dos dados - A qualidade da água foi avaliada por resultados obtidos nas análises bacteriológicas e físicoquímicas, comparados com os valores máximos permissíveis (VMP) para os parâmetros pesquisados, recomendados na Portaria nº 1.469, de 29 de dezembro de 2000 - Norma de Qualidade da Água para Consumo Humano, do Ministério da Saúde e Resolução nº 20, de julho de 1986 do Conselho Nacional do Meio Ambiente, Ministério do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. Foi utilizado o cálculo do Intervalo de Confiança (IC), com limite de confiança de 95%, para avaliação da significância estatistica das associações estudadas. RESULTADOS Foi encontrado maior percentual de poços rasos, escavados manualmente, com até 10 metros de profundidade, cuja captação da água era feita por bombeamento. Chamou a atenção o elevado percentual de domicílios onde os entrevistados não sabiam informar a distância entre o poço e a fossa mais próxima (V. Tabela 1). Quanto ao destino final do esgoto doméstico dos domicílios onde foram coletadas as amostras, no Santa Mônica, 100% destinavam em fossas. No Campo Limpo, 35,7% destinavam em fossas, 63,3% utilizavam o serviço público de esgotamento doméstico e 1,0% não sabiam a destinação final do esgoto. 3 TABELA 1: Características dos poços onde foram coletadas amostras de água para análises nos laboratoriais nos bairros Campo Limpo e Santa Mônica. Feira de Santana-Bahia-Brasil, 2000. Bairros Características Total Campo Limpo (%) Santa Mônica (%) Tipo de perfuração do poço 72,5 45,4 78,6 Escavação manual 21,7 36,4 18,4 Perfuração com broca 5,8 18,2 3,0 Ignorado Profundidade do poço Até 5 metros > 5 a 10 metros > 10 a 20 metros > 20 metros Ignorado Tipo de captação da água Bombeamento Manual com balde Distância entre o poço e a fossa mais próxima Até 5 metros > 5 a 10 metros > 10 a 20 metros > 20 metros Ignorado Total 35,7 26,5 32,7 1,0 4,1 18,2 22,7 54,6 4,5 21,5 25,8 36,7 0,8 4,2 54,0 46,0 86,4 13,6 60,0 40,0 1,0 9,2 28,6 13,3 47,9 100,0 4,5 18,2 54,6 22,7 100,0 0,9 8,3 26,7 20,8 43,3 100,0 Foi encontrado coliforme total em 90,8% das amostras, variando de 2 a mais de 1.600/100ml. O maior percentual (34,2%) foi de amostras com 100 a 500/100ml. Em 89,8% das amostras de poços do Campo Limpo e 95,5% do Santa Mônica houve crescimento deste tipo de bactéria. Observou-se presença de coliformes fecais, em 65,8% das amostras, variando entre 2 e 1.600/100ml. No Campo Limpo este percentual foi de 66,3% e Santa Mônica, 63,6%. (V. Tabela 2). A Portaria nº 1.469/00 estabelece que em água para consumo humano, incluindo fontes individuais como poços, não serpa permitido a presença de coliformes fecais ou termotolerante em 100ml da água (Art.11). Em relação a coliformes totais o Art. 11 § 8º determina que em amostras procedentes de poços tolera-se a presença de coliformes totais, na ausência de Escherichia coli e/ou, coliformes termotolerantes, devendo ser investigada a origem da ocorrência e tomadas providências imediatas de caráter corretivo, preventivo e realizada nova análise. Logo, mais de 90% das amostras indicavam água imprópria para consumo humano. Segundo a Resolução nº 20/86 do CONAMA, a água de 90,8% dos poços analisados deveria ser submetido a tratamento simplificado quando utilizada para abastecimento doméstico (Art. 4º). TABELA 2: Percentual de amostras de poços coletadas nos bairros Campo Limpo e Santa Mônica, segundo o N.M.P. coliforme total e fecal. Feira de Santana-Bahia-Brasil, 2000. Coliforme total Coliforme fecal NMP coliforme/100ml Campo Limpo Santa Mônica Campo Limpo Santa Mônica < 2* 10,2 4,5 33,7 36,4 2 a 20 20,4 41,0 33,7 22,8 > 20 a 100 14,3 4,5 12,2 4,5 > 100 a 500 34,7 31,8 19,4 31,8 > 500 a 1.600 9,2 9,1 1,0 4,5 > 1.600 11,2 9,1 Total 100,0 100,0 100,0 100,0 *<2 bactérias/100ml indica análises onde não há crescimento de bactérias coliformes, segundo a tabela do NMP para resultados quantitativos, com limite de confiança de 95% (POP.BA.003 - EMBASA, 2000). Das amostras analisadas, 71,4% apresentaram mais de 500 Unidades Formadoras de Colônias (UFC)/ml, segundo a análise da Determinação de Organismos Heterotróficos, não atendendo ao legalmente recomendado. Encontrou-se 4 maior número de poços cujas amostras apresentaram mais de 500 UFC/ml no Santa Mônica que no Campo Limpo, com diferença de 18,4% (V. Tabela 3) TABELA 3: Número e percentual de amostras de poços coletadas no Campo Limpo e Santa Mônica, segundo o número de Unidades Formadoras de Colônia (UFC) estabelecido na Portaria nº 1.469/00. Feira de Santana-Bahia-Brasil, 2000. Campo Limpo Santa Mônica Total UFC/ml n % n % n % < 500 31 32,0 3 13,6 34 28,6 > 500 66 68,0 19 86,4 85 71,4 22 100,0 119 100,0 Total 97 100,0 Em 7,5% das amostras foi encontrado até mais de 15 Pt-Co/L (unidade Hazen-uH), VMP estabelecido na Portaria nº 1.469/00. A cor variou entre 5 e 137,5 uH. A turbidez da água dos poços analisados variou de 0,16 e 132 unidade de turbidez (uT - unidade Jackson ou nefelométrica). O VMP permitido na legislação vigente, para água subterrânea tratada pelo processo de desinfecção, em 95% das amostras analisadas é de 1,0 uT. Nos 5% restantes e em amostras de água coletada em rede de distribuição permite-se até 5,0 uT. Quando se considerou turbidez acima de 1,0 uT encontrou-se 74,2% fora do recomendado.Considerando-se turbidez maior que 5,0 uT este percentual foi de 23,4%. Foi encontrado maior percentual de amostras com turbidez acima do recomendado em amostras do Campo Limpo (V. Tabela 4). Encontrou-se 82,8% de amostras com pH ácido, abaixo 6,0. Houve equivalência entre os percentuais encontrados nas amostras coletadas nos dois bairros. Em 12,5% das amostras analisadas foi encontrado cloreto maior que 250mg/L Cl, fora do VMP. Este percentual foi mais elevado em amostras coletadas no Santa Mônica (V. Tabela 4). Em 88,2% das amostras analisadas encontrou-se nitrato acima do recomendado na legislação (10mg NO3-N/L). Foi expressivo o percentual de amostras coletadas em poços do Campo Limpo (94,8%), com nitrato acima do recomendado, quando comparado ao encontrado no Santa Mônica, 59,1%. Foi encontrado amostra com até 92mg NO3-N/L de nitrato no Campo Limpo e no Santa Mônica com até 34 mg NO3-N/L. A freqüência de amostras com nitrato acima do recomendado foi 1,6 vezes maior no Campo Limpo, em relação ao Santa Mônica. Quanto a amônia, 32,7% das amostras analisadas estiveram fora do padrão (1,5mg/L NH3). Foi encontrado maior percentual de amostras acima do recomendado entre as que foram coletadas em poços localizados no Santa Mônica. Neste bairro, 68,2% das amostras apresentaram amônia acima de 1,5 mg/L NH3. No Santa Mônica foi encontrado amostras com até 106mg/L NH3. No Campo Limpo, 33,7% das amostras analisadas não atenderam ao padrão e o maior teor encontrado foi de 22,8mg/L NH3. Para cada amsotra encontrada no Campo Linpo com amônia acima do recomendado na Portaria nº 1.469/00, foi encontrada 2,9 no Santa Mônica. Em 100% das amostras os parâmetros de dureza e nitrito atenderam ao definido na Portaria nº 1.469/00. TABELA 4: Número e percentual de amostras de poços coletadas no Campo Limpo e Santa Mônica, segundo o resultado de análises de parâmetros físico-químicos investigados. Feira de Santana-Bahia-Brasil, 2000. Campo Limpo Santa Mônica Total Parâmetro n % n % n % Cor < 5 uH 76 77,6 13 59,1 89 74,2 > 5 a 15 uH 15 15,3 7 31,8 22 18,3 >15 uH 7 7,1 2 9,1 9 7,5 pH < 6,0 73 83,0 9 81,8 82 82,8 > 6,0 a 6,5 14 15,9 2 18,2 16 16,2 > 6,5 a 8,5 1 1,1 1 1,0 Turbidez <1 uT 24 24,5 7 31,8 31 25,8 >1 a 5 uT 51 52,0 10 45,5 61 50,8 > 5 uT 23 23,5 5 22,7 28 23,4 Cloreto Até 250 mg/L Cl 86 87,8 19 86,4 105 87,5 > 250 mg/L Cl 12 12,2 3 13,6 15 12,5 5 ANÁLISE DOS DADOS Foi positiva a associação entre poços com até 10 metros de profundidade e presença de coliforme fecal (RP = 1,36; IC = 1,02 - 1,83). A presença de coliforme fecal estava associada positivamente a poços com captação manual, através de balde (RP = 1,36; IC = 1,06 - 1,73). Em 100% das amostras coletadas em poços que distavam até 10 metros da fossa mais próxima foi encontrado presença de coliforme total. Para esta mesma distância, a presença de coliforme fecal foi detectada em 90,9% das amostras e mais de 500UFC/ml em 72,7% das amostras. Associou-se positivamente, a níveis significantes, amostras coletadas no Santa Mônica e presença de mais de 500UFC/ml de bactérias heterotróficas (RP = 1,27; IC = 1,02 - 1,57). Foi encontrada associação positiva entre cor maior que 5uH e captaçao da água subterrânea através de balde (RP = 2,73; IC = 1,44 - 5,17). Turbidez até 1uT associou-se positivamente a poços com profundidade até 10 metros (RP =1,57; IC = 1,19 - 2,07). Em relação ao pH, o percentual de amostras fora do padrão recomendado legalmente aumentava em relação a profundidade do poço. Maior profundidade maior freqüência de amostras fora do padrão. Quanto aos índices de cloretos, 93,3% das amostras que não atenderam ao recomendado foram coletadas em poços com até 10 metros de profundidade. Foi encontrada associação positiva, a níveis de significância estatística entre nitrato maior que 10mg NO3-N/L e amostras coletadas no Campo Limpo. (RP = 1,59; IC = 1,12 - 2,26). Amônia acima do recomendado na Portaria nº 1.469/00 associou-se positivamente a amostras coletadas em poços localizados no Santa Mônica (RP = 2,88; IC = 1,81 - 4,58). Não foi siginificante a associação entre nitato acima de 10mg NO3-N/L, profundidade do poço e distância entre o poço e a fossa mais próxima. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS O consumo da água subterrânea foi maior no bairro Campo Limpo que no Santa Mônica. Os poços estudados eram superficiais, do tipo raso, perfurados manualmente, localizados no aqüífero livre, situado acima da camada rochosa relativamente impermeável, que protege o lençol de infiltrações e contaminações. No estudo foi encontrado elevado percentual de amostras com presença de coliformes, indicando ser a água imprópria para consumo humano. Os coliformes são bactérias utilizadas como indicadoras de poluição em águas. A presença de coliformes fecais indica a possibilidade de contaminação por fezes e consequentemente de algum microorganismo patogênico existente nas mesmas, que por serem mais raros e mais frágeis às condições ambientais, tornam-se difíceis de serem evidenciados. Coliformes totais são bactérias escassas em fezes, e por ocorrerem em grande quantidade em sementes e plantas, indicam contaminação pelo solo (BIER, 1982). A presença de coliformes na água indica que a água está sujeita a poluição potencialmente perigosa (PELCZAR et al., 1981). O maior percentual de amostras com cor acima do recomendado para água para consumo humano foram coletadas em poços do Santa Mônica, enquanto que, em relação a turbidez, o maior percentual foi de amostras de poços do Campo Limpo. "A turbidez da água para consumo humano, medida de transparência da água, é comumente usada para indicar o risco de contaminação microbiológica e a efetividade do tratamento da água" (EPA, 1984 apud SCHWARTZ et al., 2000:45). SCHWARTZ et al. (2000) encontraram associação entre índices de turbidez e admissão hospitalar por doenças gastroentestinais, entre a população idos na Filadélfia, durante o período de 19921993. Em ambos os bairros foi elevado o percentual de amostras com pH ácido, menor que 6,0. Segundo DERISIO (1992), as maiores alteração neste indicador são provocadas por despejos de origem industrial. O percentual de poços com níveis de cloreto acima do recomendado legalmente foi mais freqüente em amostras coletadas no Santa Mônica. Altas concentrações de cloreto confere sabor à água e efeitos laxativos em quem costumeiramente consome água com baixas concentrações. Amostras com nitrato acima de 10mg NO3-N/L foi 1,6 vezes maior no Campo Limpo que no Santa Mônica. O nitrato é o produto final da estabilização aeróbia do nitrogênio orgânico, indicando contaminação antiga. Os resultados encontrados no Campo Limpo podem estar relacionado a presença de rede coletora de esgotamento doméstico. Neste bairro, em 63,3% dos domicílios pesquisados foi referido utilizar este serviço. Segundo BOUCHARD et al., (1992), naturalmente, a concentração de nitrato em água subterrânea é menor que 3mg NO3N/L. O autor refere que já se considera como pandemia natural, altas concentrações de nitrato na água subterrânea. Níveis elevados de nitratos indicam contaminação por disposiçaõ inadequada de dejetos humanos (tanque sépticos), industiais ou de industrias alimentícias, além do uso de fertilizantes nitrogenados na agricultura. A contaminação por nitrato na água de beber pode trazer graves conseqüências à saúde. No organismo humano o nitrato se converte em nitrito que, por sua vez, combina-se a hemoglobina para formar metahemoglobina, impedindo o transporte de oxigênio no sangue, causando cianose intensa, podendo causar a morte, principalmente em crianças muito pequenas e idosos. PACKHAM (1992) relata que mais de 2.000 casos, com casos fatais em torno de 8% foram descritos na 6 literatura até 1970 e cita a existência de diversos estudos relacionando níveis elevados de nitrato em água de poços, com incidência de câncer gástrico. A associação entre câncer e nitrato elevado vem sendo estudada. Segundo BOUCHARD et al., (1992) estudos realizados na Austrália e Canadá mostraram aumento significante de malformação congêncita associada a ingestão de alta concentração de nitrato. O percentual de amônia foira do padrão foi duas vezes maior entre as amostras coletadas no Santa Mônica, quando comparadas às do Campo Limpo. A ocorrência de concentrações elevadas de amônia pode ser resultante de poluição próximas, bem como de redução de nitrato por bactérias ou por íons ferrosos presentes no solo. Como o nitrogênio amoniacal é um dos primeiros passos da decomposição da matéria orgânica, sua presença indica contaminação recente e pode estar relacionada a construção precária dos poços e falta de proteção do aqüífero (ALABURDA e NISHIHARA, 1998). Os resultados encontrados para amônia, em amostras coletadas no Santa Mônica, podem estar relacionados ao fato de que, como 100% dos domicílios pesquisados destinavam o esgoto doméstico em fossas, o manancial subterrâneo recebe, constantemente, carga contaminante. CONCLUSÃO A contaminação da água do manacial subterrâneo localizado no Campo Limpo e Santa Mônica, Feira de SantanaBahia-Brasil se comprova através do resultado das análises bacteriológicas e físico-químicas de amostras de água captada em poço dos dois bairros. A água não atende ao padrão de potabilidade recomendado na Portaria nº 1.469/00 e o consumo humano desta água é fator de à saúde. Faz-se necessário avaliar a qualidade do manancial subterrâneo em outras áreas de Feira de Santana, visto que, na cidade, o consumo humano da água subterrânea é elevado e generalizado. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Abramovich B., Carrera E., Lurá M.C., Haye M.A. (1998) Cryptosporidium y agua: estudio de una asociación riesgosa. Ingeniería Sanitaria y Ambiental. Argentina, n. 36, p. 30-34. Alaburda J. e Nishihara L. (1998) Presença de compostos de nitrogênio em águas de poços. Revista de Saúde Pública. São Paulo, v.32, n. 2, p. 160-165. Assis da Silva R. C. (1999a) Abrindo mão do direito ao consumo da água tratada: Feira de Santana – Ba. Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Direito Sanitário da Universidade Estadual de Feira de Santana. Orientador: Vicente Deocleciano Moreira. Feira de Santana-Ba. Assis da Silva R. C. 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