ENSINO A DISTÂNCIA E ASCENDÊNCIA TECNOLÓGICA Wagner Braga Batista/UFCG Introdução O artigo examina a influência liberal em projetos educacionais. Assinala a ascendência de parâmetros técnicos sobre pressupostos pedagógicos no implemento do ensino a distância. Parte da análise histórica para identificar movimento regressivo que constrange projetos educacionais. Esse movimento apela à idéia de modernização tecnológica para banalizar o ensino, eliminar parâmetros pedagógicos e exigir a desregulamentação da atividade educacional. Sob crescente influência liberal e sob o patrocínio das forças de mercado, a educação a distância aprofunda digressões observadas no início do século XX. ( Noble, 1997 )1. No contexto vigente, potencialidades do ensino a distância ficam subordinadas à dinâmica de expansão da economia de mercado. Habilitado a ampliar a rede pública sofre constrangimentos políticos, econômicos e ideológicos que limitam o alcance de programas educacionais. A pesquisa recupera processos educacionais para contextualizar tendências atuais do ensino a distância. Ainda que, eventualmente, remeta a experiências educacionais realizadas ao longo do século findo, o estudo é datado. Fixa-se no ensino a distância realizado no último quartel de século. Modernização e privatização do ensino Partimos da premissa de que projetos de ensino a distância têm conferido precedência a aspectos técnicos. Ao acentuar aspectos técnicos a ideologia da modernização do ensino eleva o valor simbólico de programas educacionais. A ideologia da modernização técnica, despida de perspectiva crítica e emancipatória, avança pari passu à privatização do ensino. Neste linha de inflexão, a ênfase tecnológica obscurece questões pedagógicas. Suprime, outrossim, um conjunto de injunções socioeconômicas. Esta diretriz não é aleatória. Está conjugada com estratégias de comercialização do ensino.A ênfase técnica ao mesmo tempo em que aumenta o valor simbólico do ensino a distância elide o caráter público da educação. O apelo ao refinamento técnico oculta mecanismos restritivos impostos pelo ensino pago. Acentua faceta excludente do ensino a distância com destinação comercial. Em que pesem significativas experiências de educação a distância realizadas com recursos técnicos rudimentares, a apologia das novas tecnologias da informação induz ao pressuposto de que são indispensáveis e constituem garantia de qualidade de padrões educacionais. Sem renunciar ao domínio destas tecnologias, educadores têm vasto leque de referências. Podem se inspirar em projetos de ensino por correspondência e radiofônicos de amplo alcance social. Neles observamos que a indissolubilidade de concepções pedagógicas consistentes e de recursos técnicos adequados é fundamental para assegurara a consistência de projetos de educação pública a distância, particularmente em países de porte continental e em regiões com graves carências socioeconômicas, a exemplo do norte e do nordeste brasileiro. Ações educacionais realizadas em países periféricos por movimentos sociais e confessionais revelaram potencialidades do ensino a distância. Empreendidas com recursos elementares ampliaram o alcance social da educação. Argumentamos que a valorização das tecnologias da informação no campo da educação está articulada com estratégias de marketing, vale-se de métodos funcionalistas e behavioristas para reduzir objetivos educacionais à lógica produtivista. ( Frigotto, 1986 )2 Grosso modo, contribui 1 Noble, David. The automation of higher education. In Digital Mills, Part I october / 1997 URL: http://communication.ucsd.edu/dl/ 2 Frigotto, Gaudêncio. Educação e a crise da capitalismo real, São Paulo, Cortez Editora, 1995 para legitimar o auto-aprendizado e o ensino prescritivo. Viabiliza valores liberais acentuando a autonomia individual e o empreendedorismo competitivo. Estas estratégias são pouco transparentes. Induzem ao suposto de que a incorporação de novas tecnologias de base eletroeletrônica garantem a democratização e a universalização do ensino. Nesta acepção, o ensino a distância é apregoado como vetor de oportunidades educacionais, como experiência educacional avançada e como patamar da modernidade. Estes pressupostos mascaram a intensa comercialização do ensino a distância. Na atualidade o ensino a distância se converte em instrumento de estratégia de reconfiguração de instituições de ensino e de sistemas educacionais, de privatização da esfera pública e de internacionalização de mercados educacionais periféricos. A estratégia privatista é empreendida em nome da equidade liberal. Esta percepção nos remete a concepções e a método de análise histórica. Inscreve o ensino a distância nos marcos da História da Educação. O ensino a distância é desdobramento de ações educacionais seculares. Sob este viés é tributário de diferentes concepções educacionais ( Luzuriaga, 1951 )3 e de acúmulos técnico-pedagógicos. Os acúmulos tecnológicos são resgatados por meio da sistematização crítica ( Marx, 1858 )4 As linhas de continuidade e as rupturas na ação pedagógica serão aclaradas pela investigação histórica da natureza, dos fundamentos e dos objetivos da educação em diferentes contextos sociais. Os desenlaces educacionais examinados a partir da articulação do ensino a distância com o novo mercado educacional em formação. A análise vale-se de contribuições de Braudel para acentuar a relevância da educação pública. Examina fatos incidentais dentro de processos históricos de longa duração. Ao destacar a formação dos mercados educacionais, permite-nos entender o mercado periférico como elemento subsidiário do mercado mundial, como subsistema de uma rede que se amplia graças a políticas econômicas e educacionais que dão suporte à disseminação comercial das tecnologias da informação. A análise das possibilidades ou digressões mercantis do ensino a distância impõe a sistematização histórica. Por meio dela podemos identificar trajetórias distintas. O ensino a distância associado à experiência de ampliação da rede pública, bem como, convertido em instrumento de expansão do mercado educacional. ( Batista, 2002 )5. Por um lado pode favorecer a difusão do ensino de qualidade e promover a democratização do acesso à rede pública, por outro, sob influência liberal, constitui-se num instrumento da modernização regressiva. Revestido de elevado valor simbólico, o ensino a distância implica em novas restrições instauradas pela sofisticação tecnológica e pelo ensino pago. Novas taxonomias e banalização do ensino No embate educacional correntes de pensamento se afirmam. A elaboração teórica cumpre o papel de demarcar vertentes da educação. Novos conceitos ajustam-se às estratégias de desenvolvimento do ensino a distância. Porquanto uns tenham como intuito legitimar a comercialização do ensino a distância, outros conceitos visam associa-lo à expansão da rede pública. A precedência de aspectos técnicos sobre questões pedagógicas é marcante em teorias funcionalistas. Sob este viés o ensino a distância se reveste de caráter instrumental. A valorização do auto-aprendizado encaixa-se nas teorias funcionalistas. A ação individual desloca práticas pedagógicas coletivas. Desdobra-se em formulações que operam a clivagem entre ensino e aprendizado. A partir daí surge o foco no aprendizado. 3 Luzuriaga, Lorenzo. História da Educação e da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1954 Marx, Karl. Introdução à crítica da economia política in Contribuição para a crítica da Economia Política, Lisboa, Editorial Estampa, 1976 5 Batista, Wagner. Educação a Distancia: ampliar ou superar distâncias? Tese de Doutorado Programa de Pósgraduação em Educação, UFRJ, Rio de Janeiro, 2002 4 Autores norte-americanos substituem distance education por distance learning.Nesta abordagem a educação, mais abrangente em seus propósitos, é substituída pela ênfase na instrução. 6 A instrução prescritiva demanda menos recursos pedagógicos. Essa ilação é feita a partir do que Janette Hill considera fundamental para o ensino a distância, via Internet. Os preceitos técnicos e a visão esquemática se impõem em detrimento de questões pedagógicas. Destacando os atributos da rede, a autora assinala os desafios do acesso multimídia, do assincronismo e das demandas de leitura.7 Desde modo projetos de ensino a distância tangenciam questões pedagógicas. Ressaltando que a pedagogia está relacionada ao ensino e aprendizado, a autora acrescenta que as principais conseqüências da pedagogia concernem à importância dos meios técnicos nos ambientes de aprendizado a distância. Citando Winn (1990), enfatiza que esses meios freqüentemente dirigem a metodologia, criando constrangimentos para a instrução. 8 A pedagogia surge como linha auxiliar da tecnologia previamente definida. Como recurso subsidiário, a pedagogia supre exigências da tecnologia. Aparentemente imunes a tensões educacionais, estes projetos suprimem problemas pedagógicos que não sejam equacionados tecnologicamente. Sob essa ótica, questões pedagógicas não têm lugar no projeto de ensino a distância. Nesta concepção de ensino que exacerba a importância do auto-aprendizado e das plataformas tecnológicas, os requerimentos técnicos estão acima dos requisitos pedagógicos. Suas implicações podem ser aferidas a partir dos padrões de qualidade de programas de ensino a distância que dela decorrem. Destituídos de substância, reivindicam a qualidade de extração técnica. O esmero técnico é buscado na visibilidade de projetos educacionais sem consistência ou substância crítica. Em nome do esmero técnico surgem os formatadores de programas de educação a distância. Tendências do mercado educacional são suas matrizes . A formatação destes programas envolve equipes que incluem gerentes de empresa, programadores de informática, web designers, infografistas, publicitários, redatores, entre outros profissionais. Nelas, pedagogos inserem-se no rol dos conteudístas. O ensino on-line e o aviltamento da pedagogia Na acepção de tecnólogos, o surgimento da Internet modifica substancialmente a administração do ensino a distância. A partir de seus recursos desenvolvem-se inúmeras propostas de educação a distância. Cria-se uma nova modalidade denominada educação baseada na Internet ou web based education. Essa modalidade de educação a distância está intimamente relacionada às possibilidades de interação geradas pela Internet. A sublimação das possibilidades técnicas reduz a sociabilidade a momentos de troca de informações através da rede. Aprofundando diferenças entre o ensino on-line e as atividades presenciais instaura-se a dicotomia entre a educação a distância e as práticas presenciais. Em detrimento das últimas, a educação a distância se afirma 6 “Distance learning consists of instrucional through print or eletronic communications media to persons engaged in learning in a place or time diferent from that of the instructor(s) or other students ( Moore, Cookson & Donaldson;1990 ). From its beginnings with pen and paper in correspondenece study in England ( Sherow & Wedemeyer; 1990) , distance learning has incorporated several technologies to meet the “media” requirement, including radio, television, and computers. Computer technologies have been used in a variety os ways to meet various needs: chat groups, eletronic mail, and, most recently, the World WebWide..” Hill, Janette R. Distance Learning environments via the World Wide Web in Kahn, B. Web-Based instruction, Educational Technology Publication, Englewoods Cliffs, Canadá, 1997 p. 75 7 Idem, ibidem. P. 76 8 Winn, B. Media and instructional methods in Garrinson, D. et Shale,D.( org ) Eduacation at a distance: from issues to practice, p. 53 / 56 ) , Malabar, Robert E. Krieger Publishing Company, 1990 APUD Hill, Janette R. Distance Learning environments via the World Wide Web in Kahn, B. Web-Based instruction, Educational Technology Publication, Englewoods Cliffs, Canadá, 1997 p. 76 pela excelência dos recursos técnicos e pela valorização do auto-aprendizado. Alguns cursos são oferecidos integralmente através da Internet.9 A Internet abre um leque de opções para o ensino a distância. Impõe novas reflexões e formulações educacionais que viabilizem novas alternativas pedagógicas ensejadas pela rede. Cumpre-nos assinalar que políticas educacionais comprometidas com a ampliação da rede pública não podem ignorar os avanços técnicos. Tampouco devem se abster destes recursos visando a melhoria de padrões educacionais. Contudo o empenho de incorporação de novas tecnologias exige referências sociais e critérios políticos bastante precisos. Estes escrúpulos em nome da modernização conservadora são varridos pela lógica liberal que desregulamenta, banaliza e privatiza o ensino emulando a reconfiguração de suas instituições basilares. Sob este viés os portais da internet convertem-se em vetores da educação sem escolas e os professores na esdrúxula figura de animadores educacionais. A desconstrução dos processos educacionais Ensino on-line, ambientes virtuais de aprendizado, universidades virtuais, campi eletrônicos e campi off são termos correlatos. Essas entidades beneficiam-se das redes de informática e dos domínios virtuais com maior ou menor amplitude. A educação a distância mediada por suportes da informática é anunciada como superação de modalidades tradicionais. A ruptura conceitual verifica-se pela adoção de recurso técnico e pelos ambientes que aprendizado que propicia. Grosso modo, as redes de informática podem ser dimensionadas pelo alcance, pela intensidade do fluxo e pela aceleração do processamento de informações. Assinalamos anteriormente que concepções de educação a distância foram apropriadas por correntes educacionais de inspiração liberal. A ressignificação do ensino a distância visa legitimar novos objetivos educacionais. As novas designações espelham possibilidades concretas ou valores simbólicos que facilitam a destinação comercial do ensino a distância. Por meio da digressão de parâmetros educacionais, o ensino a distância será caracterizado por adjetivos que realçam suportes técnicos, conveniências do aprendizado e seu valor simbólico. Neste quadro, atributos do conhecimento são conformados à lógica da economia de mercado. O conhecimento converte-se em fonte de poder e a educação em capital humano. O ensino a distância transforma-se em ensino on line. É destacado pelas virtudes do auto-aprendizado e das interações em tempo real. O e-learning substitui conceitos pedagógicos.10 Graças a estratégias publicitárias o e-learning torna-se o reino do auto-aprendizado. Estas estratégias sugerem que a aquisição do conhecimento pelo auto-aprendizado descarta relações pedagógicas. As virtualidades da educação são empobrecidas pela virtualidade do auto-aprendizado. A realidade virtual sugere um conjunto de possibilidades que não se concretizam na vida real. Sugere fetiches que são capitalizados por estratégias comerciais. A educação é fetichizada através de alusões à autonomia, ao empreendedorismo, à competitividade, à empregabilidade, entre outras virtualidades. Neste contexto proliferam as universidades corporativas. O e-bussines sinaliza o mundo dos negócios capitalizado por investimentos em educação corporativa. Esta educação está centrada na oferta de modelos e de técnicas gerenciais que facultam o ingresso no mercado e a inserção na economia competitiva. Por intermédio de vários 9 Jung,Insung. Introduction of Internet-based distance education, The American Center for the study of Distance Education. College Education of Penn State University, URL: http://www.ed.psu.edu/acsde/annbib/annbib.asp 10 Elliot Maise, especialista norte-americano nesta prática conceitua o e-learnin como “Um aprendizado cada vez mais rápido e informal para capacitar o empregado a fazer qualquer tipo de trabalho, além de ser adaptado à cultura do país... que aglutina todas as práticas de ensino online, sobretudo via internet.” E-learning quebra paradigmas Gazeta Mercantil, 15 de março de 2001, 3o Caderno, C 3 de vários adereços publicitários estes cursos tornam-se atrativos. Cobrando preços elevados e atendendo às conveniências da clientela, convertem-se em usinas de diplomação de executivos.11 A ressignificação do ensino a distância ajusta-se a concepções educacionais emergentes, algumas das quais associadas a estratégias de mercado. Novos conceitos e taxonomias exploram as particularidades técnicas e os recursos didáticos próprios das diversas modalidades de ensino a distância. Os ambientes de aprendizado constituídos pelas novas tecnologias são apresentados como fatores de diferenciação. Basque e Doré recorrem aos conceitos de computer-based learning environment ( Salomon ;1992), computer enhanced learning environment, technology-intensive learning environment ( Salomon; 1994), bem como à noção de enriched learning and information environment ( Goodrum, Dorsey et Schwen: 1993) para desenvolver considerações sobre ambientes de aprendizado informatizados.12 Suas considerações partem da teoria dos conjuntos. Sob esse ponto de vista a totalidade dos integrantes de uma classe de aulas constituiria um sistema, porquanto os estudantes sujeitos ao processo de aprendizado representariam sub-sistemas. Assinalando que a justaposição dos termos ambiente e aprendizado subtende relação colaborativa e estratégias centradas no cognitivismo e no construtivismo, as autoras propõem que a construção do conhecimento seja processo desenvolvido de forma horizontal. Ou seja, por meio de interações na comunidade de aprendizado. A noção de comunidade de aprendizado contrapõe-se à imagem da assimetria característica de processos educacionais viabilizados pela transmissão unilateral de conhecimentos. Enseja, por fim, que os ambientes de aprendizado informatizados suplantem as práticas pedagógicas efetuadas por meio de computadores. Exige novas taxonomias referentes às atividades educacionais realizadas em ambientes virtuais. A banalização de conceitos pedagógicos permite que se arquitete a prevalência de artifícios técnicos como alternativas para problemas educacionais. Os problemas da assimetria nas relações pedagógica, que ocuparam grande parte das reflexões de Paulo Freire,13 encontram uma solução técnica. A presumida solução estaria na horizontalidade da comunidade de aprendizado mediada por computadores. Sob este viés a mediação técnica surge como resposta para a assimetria das relações pedagógicas. Na prática se cogita que a mediação técnica substitua a pedagogia. Uma plêiade de qualificações tem sido empregada para ornamentar o ensino prescritivo e ambientes de aprendizado circunscritos às redes da informática. Ensino ou ambiente de aprendizado colaborativo somam-se ao rol de tecnologias amigáveis que servem como adereços de programas educativos de qualidade duvidosa. Desenvolvidas no meio acadêmico ou em agências publicitárias estas formulações esvaziam o conteúdo crítico da educação. Tendem a viabilizar a comercialização do ensino graças a artifícios que acentuam a conveniência, o conforto ou expectativas individuais. Associadas a pulsões e a preferências individuais, novas tendências educacionais apropriam-se de concepções e de métodos de aprendizado degradando 11 Noble, David. The automation of higher education. In Digital Mills, Part I october / 1997 URL: http://communication.ucsd.edu/dl/ 12 Salomon, G. (1992). Effects with and of computers and the study of computer-based learning environments. Dans E. DeCorte, M.C. Linn, H. Mandl et L. Verschaffel (Eds.), Computer-based Learning Environments and Problem Solving (p. 249-263). Berlin : Springer-Verlag; Salomon, G. (1994). Differences in patterns : Studying computer enhanced learning environments. Dans S. Voniadou, E. De Corte et H. Mandl (Eds.), Technology-based learning environments : Psychological and educational foundations (p. 79-85). Berlin : Springer-Verlag; Goodrum, D.A., Dorsey, L.T., et Schwen, T.M. (1993). Defining and building an enriched learning and information environment. Educational Technology, XXXIII(11), 10-20. APUD Basque, Josianne et Doré Sylvie, Le concept d’environnement d’apprentissage informatisé Journal of Distance Education/Revue de l'enseignement à distance (1998) ISSN: 08300445 URL: http://cade.athabascau.ca/vol13.1/dore.html 13 A propósito da assimetria nas relações pedagógicas são relevantes as considerações feitas por Paulo Freire sobre a autoridade do professor e sobre a autonomia do estudante no processo dialógico do aprendizado. Estas reflexões estão condensadas em Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997 seu sentido original. Nesta linha de inflexão, o construtivismo tem sido usado exaustivamente para viabilizar o ensino a distância, como êmulo do auto-aprendizado. No ensino baseado na informática os métodos cognitivos e contrutivistas têm sido empregados. A educação confunde-se com processamento de informações na abordagem de autores que se reclamam da adoção de métodos construtivistas. Apoiando-se na leitura de educadores afiliados à psicologia educacional estes autores remetem-se ao construtivismo para valorizar experiências individuais e o auto-aprendizado. A perspectiva construtivista é absorvida por trabalhos que se inspiram na psicologia individual minimizando a influência de condicionamentos sociais. Trabalhos de psicólogos da Gestalt, Piaget, Vygotsky, Bruner Bartlett e Dewey são esvaziados de conteúdo crítico. A leitura das inegáveis contribuições destes autores para a compreensão de processos cognitivos e seus reflexos no aprendizado reduzem-se a destacar significados subjetivos. Significados que, via de regra, exacerbam as virtudes do auto-aprendizado. A apropriação destes autores, nesta linha de inflexão, ainda que proponha a construção do conhecimento ativamente, colocando em segundo plano a capacidade de memória e valorizando o exercício de criação do conhecimento, circunscreve este processo aos domínios restritos da informática. O foco destes analistas confere precedência aos fatores subjetivos em detrimento da sociabilidade indispensável à educação. Nesta linha, as pulsões individuais tornam-se mais relevantes do que as relações sociais. A leitura crítica do construtivismo destaca a influência do contexto social e da sociabilidade sobre o aprendizado individual. Estão dimensões são fundamentais para a avaliação do processo de ensino / aprendizado. Referenciam o conhecimento e a noção que os indivíduos desenvolvem acerca de si mesmos. À luz dos condicionantes sociais processos relacionados à educação adquirem maior nitidez. O processamento de informações, a capacidade de memória, as representações subjetivas, a produção do conhecimento são examinados face a condicionantes sociais ao invés de ser interpretados como particularidades individuais. Esta abordagem enfatiza aptidões que se desenvolvem em contextos sociais sob a influência de condições de vida, de culturas moleculares e dos diferentes tipos de relacionamento embutidos no processo de aprendizado. Face a estas considerações as análises funcionalistas ou behavioristas se revelam limitadas. Ao se limitarem apreciação de comportamentos particulares selecionados previamente estas análises perdem de vista a concepção sistêmica da educação. Ao restringirem previamente as variáveis que intervêm no processo de aprendizado estas análises sofrem prejuízos em seus resultados. Tendem a incorrer no reducionismo analítico. Limitadas à consideração de comportamentos singulares, de tecnologias ou de ambientes de aprendizado exaurem-se em tentativas de descrever ou de quantificar processos que não conseguem apreender substantivamente. Declinando de apreciação crítica contribuem para legitimar conteúdos e valores do ensino prescritivo detendo-se em enfatizar performances técnicas, capacidades de respostas e ritmos de aprendizado. Sob este prisma, o sentido da educação não entra em jogo uma vez que o objetivo destes métodos é desenvolver competências e habilidades previamente definidas em curto espaço de tempo. Os ambientes de aprendizado informatizados são domínios nos quais um ou mais integrantes de um coletivo utilizam-se de recursos da informática. Conceitos da pedagogia são substituídos por conceitos extraídos de técnicas gerenciais, de equações matemáticas e de linguagens digitais. A lógica formal da construção de algoritmos, adaptada aos processos educacionais, transforma a pedagogia numa ação esquemática. Neste transito o que se modifica é o trato dos conceitos, porquanto as práticas pedagógicas tornam-se esquemáticas do mesmo modo que as linguagens de programação da informática. Este exercício de banalização induz ao pelo suposto de que novas formulações alterem o conteúdo de ações educativos e do aprendizado. Neste âmbito surgem novas palavras portadoras de velhos significados. A proliferação de termos não transforma a educação mediada por computadores. O apelo a métodos cognitivos sugere que o aprendizado não seja processo cognitivo. A esquematização do aprendizado conduz ao formalismo de métodos de aprendizado. Nesta formatação invoca-se elementos pró-ativos como se a atitude crítica, essencial ao aprendizado, fosse resgatada por normas prescritivas. A ação unilateral recomenda a atenção aos valores da interatividade. A educação esquemática e prescritiva apela a valores que não consegue consubstanciar em suas práticas. Daí surgem os programas amigáveis e os ambientes colaborativos em processos educacionais que constrangem a sociabilidade. O ensino prescritivo que se alimenta da autonomia e da competitividade reveste-se de valores incompatíveis com seus pressupostos originais. A exacerbação do sentimento de autonomia dificulta a percepção de valores educacionais. Os valores funcionam como simples alusões dado que não se materializam nestas ações educacionais. Conclusões Nos anos 90 os ambientes de aprendizado informatizados receberão novos aditivos. As redes de informática estabelecem novos domínios virtuais. O acesso e a troca de informações viabilizamse por conexões feitas por computadores. O deslocamento da educação do plano real para domínios virtuais, tangíveis graças às mediações da informática, instaura novos ambientes e condições para o aprendizado. As redes de computadores utilizadas como recursos didáticos revestem-se de atributos propiciados pelos domínios virtuais que ampliam as possibilidades das cadeias de aprendizado. As classes convencionais são substituídas por ambientes virtuais. Os métodos de aprendizado aplicados à educação mediatizada por computadores desdobra-se em novas formas de agrupamento de alunos que dispensam estruturas convencionais. As salas de aula que articulavam as turmas de aluno são substituídas por classes virtuais. Um novo conceito é empregado para expressar a formação de estudantes agregados em ambientes virtuais.14 As universidades virtuais são configurações que fornecem maior abrangência ao ensino a distância. Estas configurações derivam das universidades abertas ou das megauniversidades que oferecem ensino a distância em escala mundial desde a década de 30. As universidades virtuais criam condições de aprendizado sem precedentes, além de removerem barreiras espaciais e temporais, viabilizam a troca de informações simultânea. O impacto da Internet na estrutura de sistemas educacionais tem sido objeto de estudos de governos, de empresas e de educadores. Em recente relatório o governo norte-americano faz um balanço da educação on line nos EUA.15 As infovias eletrônicas conectam mais de 80% das escolas norte-americanas. Contudo, prevalecem os objetivos comerciais da educação. 14 “The Virtual Classroom[TM] is a teaching and learning environment located within a computer-mediated communication system. Rather than being built of steel and concrete, it consists of a set of group communication and work "spaces" and facilities that are constructed in software. Thus it is a "virtual" facility for interaction among the members of a class, rather than a physical space. The special software structures incorporated in the Virtual Classroom were designed to support collaborative learning. As with other CMCSs tailored to support a specific type of application, some of these communication structures resemble facilities or procedures used in the off-line analogical world. Others support forms of interaction that would be difficult or impossible in the face-to-face environment. All are accessed, not by traveling to a university, but by typing and reading from a personal computer that connects by telephone to a computer acting as the "group agent" for the Virtual Classroom software. Participation is generally asynchronous; that is, the Virtual Classroom participants may dial in at any time around the clock, and from any location in the world accessible by a reliable telephone system.” Hiltz, Starr R. et Turoff, Murray, Video plus virtaul classroom for distance education: Experience with graduate courses Paper for Conference on Distance Education in DOD, National Defense University, 1993 15 The Power of the Internet for Learning:Moving from Promise to Practice Report of the Web-based Education Commission to the President and Congress of the United States.2000. Sob a orientação liberal, a educação a distância é despojada de seu caráter socializador para viabilizar a comercialização do ensino. Deste modo incorpora estratégias econômicas que visam conferir maior competitividade às empresas provedoras de educação a distância. Nesta orientação torna-se preponderante a ação de consórcios ou corporações transnacionais em escala mundial. A formação dos consórcios educacionais atuantes em escala mundial obedece estratégias tipicamente econômicas. Promovendo economias de escala conseguem oferecer pacotes educacionais em condições mais vantajosas em todas as partes do mundo. Esta estratégia não é exclusiva de empresas privadas. Instituições de ensino públicas sentem-se atraídas por esses enlaces criando modelos híbridos ou compartilhados que tendem a desfigurar seus estatutos e sua função social. Apresentada como signo de modernidade, de melhoria de qualidade ou de democratização do ensino, a educação a distância ocupa lugar central em estratégias educacionais na década de 90. Sob a hegemonia liberal, tornou-se expressão de modernização educacional. A paradoxal modernização excludente que aprofunda disparidades sociais. A educação a distância pode ser concebida de vários modos. Como o método que articula tecnologias da informação e da comunicação. Como nova interação técnico- pedagógica entre educadores e educandos. Como administração do ensino em ambientes virtuais. Como resultado de inovações tecnológicas no campo da educação. Como mudança de paradigma educacional. Como adotado no campo educacional diante das. Em todas essas concepções de ensino a distância a tecnologia é apresentada como uma linha de corte. A tecnologia configura-se como principal fator de diferenciação de condições educacionais. Sob este viés tem ascendência sobre concepções pedagógicas, objetivos, métodos, programas ou rotinas educacionais. Na prática, a distância entre educadores e educandos sempre foi um dado tangível nos processos educacionais. A distância pode estar referida às várias formas de assimetria que resultam das relações pedagógicas. Está relacionada aos diferentes graus de conhecimento, aos descompassos das atividades pedagógicas, às várias dimensões de tempo, de espaço, de ritmo de aprendizado. Enfim a noção de distância nos remete às condições de vida. A quão distante está o ensino das reais condições de vida. Estas distâncias truncam o ensino e criam lacunas no aprendizado. No estudo em tela, o ensino a distância busca um estatuto. A busca de afirmação do ensino a distância implica na obtenção de requisitos técnico-pedagógicos que lhe permitam superar lacunas educacionais. Sob este ponto de vista o ensino a distância requer implementos técnicopedagógicos e políticas educacionais de amplo alcance social. Argumentamos que todo processo educacional tende a incorporar acúmulos técnico-pedagógicos, podendo se consubstanciar em propostas de educação convergente. Nesta percepção, o ensino a distância é legatário da sistematização pedagógica e das potencialidades técnicas que ampliam o alcance social da educação pública. Contudo, o ensino a distância está sujeito a injunções socioeconômicas que limitam suas possibilidades. A análise de experiências de ensino a distância permitiu identificar singularidades e limites de projetos neste âmbito. Na atualidade estas limitações derivam de constrangimentos políticos e econômicos provocados pela influência liberal em programas educacionais. Para concluir assinalamos que a montagem de um quadro de referências críticas é indispensável para a fixação de parâmetros educacionais. A consistência dos projetos de educação a distância deriva da observância de três dimensões da educação: a ) a concepção pedagógica que fundamenta a ação educacional; b ) a base técnica que dá suporte ao projeto educacional e c) os objetivos e o alcance social do ensino público a distância. URL: http://interact.hpcnet.org/webcommission/index.htm Referências - - - - - - Batista, Wagner. Educação a Distancia: ampliar ou superar distâncias? Tese de Doutorado Programa de Pós-graduação em Educação, UFRJ, Rio de Janeiro, 2002 Berlin : Springer-Verlag; Goodrum, D.A., Dorsey, L.T., et Schwen, T.M. (1993). Defining and building an enriched learning and information environment. Educational Technology, XXXIII(11), 10-20. APUD Basque, Josianne et Doré Sylvie, Le concept d’environnement d’apprentissage informatisé Journal of Distance Education/Revue de l'enseignement à distance (1998) ISSN: 0830-0445 URL: http://cade.athabascau.ca/vol13.1/dore.html E-learning quebra paradigmas Gazeta Mercantil, 15 de março de 2001, 3o Caderno, C 3 Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo, Paz e Terra, 1997 Frigotto, Gaudêncio. Educação e a crise da capitalismo real, São Paulo, Cortez Editora, 1995 Hill, Janette R. Distance Learning environments via the World Wide Web in Kahn, B. Web-Based instruction, Educational Technology Publication, Englewoods Cliffs, Canadá, 1997 p. 75 Hiltz, Starr R. et Turoff, Murray, Video plus virtaul classroom for distance education: Experience with graduate courses Paper for Conference on Distance Education in DOD, National Defense University, 1993 Jung,Insung. Introduction of Internet-based distance education, The American Center for the study of Distance Education. College Education of Penn State University, URL: http://www.ed.psu.edu/acsde/annbib/annbib.asp Luzuriaga, Lorenzo. História da Educação e da Pedagogia, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1954 Marx, Karl. Introdução à crítica da economia política in Contribuição para a crítica da Economia Política, Lisboa, Editorial Estampa, 1976 Noble, David. The automation of higher education. In Digital Mills, Part I october / 1997 URL: http://communication.ucsd.edu/dl/ The Power of the Internet for Learning:Moving from Promise to Practice Report of the Web-based Education Commission to the President and Congress of the United States.2000. URL: http://interact.hpcnet.org/webcommission/index.htm