XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 O PROCESSO DE MUDANÇA ORGANIZACIONAL DE UMA COOPERATIVA DE PRODUÇAO DA REGIÃO DAS MISSÕES Jorge Oneide Sausen (UNIJUI) [email protected] Fátima Regina Zan (URI) [email protected] Resumo O presente estudo descreve e analisa o processo de mudança organizacional de uma cooperativa de produção da região das Missões do Estado do Rio Grande do Sul, no período compreendido entre 1982-2002. De maneira geral, interpreta esse processo de mudança, evidenciando quais foram as mudanças estratégicas ocorrida no referido período, como se desenvolveram e que fatores contextuais internos e externos ocasionaram essas mudanças. Em termos da metodologia empregada, trata-se de um estudo de caso singular, enquadrado nas características das abordagens qualitativa e contextualista. Utilizou-se do modo de análise longitudinal e histórico para fazer inferências teóricas sobre o processo de mudança e adaptação estratégica daquela organização. Palavras-Chave: mudança estratégica – estratégias organizacionais – cooperativismo 1 - Introdução Nas últimas décadas, as empresas que querem sobreviver dentro de um ambiente conturbado e de forte instabilidade, pelo qual passam todas as instituições, desafiam seus gestores a definir mudanças constantes. Os gestores detêm métodos e modos diferentes de encarar as crises e de proporcionar as mudanças necessárias para viabilizar os seus empreendimentos. Alguns dão maior ênfase à análise do ambiente interno, outros à análise do contexto externo. Ambos os ambientes, porém, possuem grau de importância considerável nos processos de mudança organizacional. Muitas empresas têm facilidades para se adaptar às mudanças, buscam novos mercados, reestruturam-se administrativamente, implantam inovações tecnológicas, enquanto que outras se acomodam na maneira de fazer negócios e não conseguem se adaptar, acabam sendo fechadas ou mudando de ramo. Assim como as demais organizações, as cooperativas de produção também estão inseridas nesse ambiente complexo e turbulento de mudanças. Elas se sentem pressionadas a promoverem a gestão das mudanças para adequar as suas estruturas à nova realidade competitiva do mercado. Neste artigo, procura-se analisar como a Cooperativa Tritícola Regional Ltda, de São Luiz Gonzaga, processou suas mudanças estratégicas, no período compreendido entre 19822002. 2 – Objetivos do estudo Elaborar a análise longitudinal do processo de mudança e adaptação estratégica da Cooperativa Tritícola Regional Ltda – COOPATRIGO, tendo como referência o período compreendido entre 1982-2002, evidenciando as principais mudanças ocorridas e a relação destas com os eventos e variáveis do contexto externo mais amplo da cooperativa. 3 – Metodologia de pesquisa Do ponto de vista metodológico, o presente estudo pode ser classificado como um estudo de caso singular, de natureza qualitativa. ENEGEP 2003 ABEPRO 1 XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 Mintzberg (1997) é um dos autores que recomenda o método do estudo de caso na construção de modelos de análise de mudanças organizacionais, partindo-se de dados e observações de fatos e procedendo-se de forma indutiva, através da investigação sistemática do comportamento de uma determinada organização. A pesquisa qualitativa, classificação em que se enquadra o presente trabalho, segue um processo de pesquisa que não admite visões isoladas, parceladas, estanques. Ela se desenvolve em interação dinâmica retroalimentando-se, reformulando-se constantemente, de maneira que, por exemplo, a coleta de dados em determinados momentos passa a ser, também, análise de dados, e esta, em seguida, é veículo para nova busca de informações. Ela assume características de um processo simultâneo, não linear (Triviños, 1987). Neste estudo foram utilizadas, como técnicas de coleta de dados, entrevistas, pesquisa documental e pesquisa bibliográfica. Foram entrevistadas pessoas que são ou foram membros da coalizão dominante da organização, no sentido atribuído por Miles e Snow (1978). Todos eles exercem e/ou exerceram cargos estratégicos (presidência, vice-presidência, superintendência, direção) na cooperativa. Em relação à pesquisa documental, buscaram-se informações complementares sobre o processo de adaptação estratégica da empresa em vários documentos internos, como relatórios da diretoria e de conselhos superiores, balancetes contábeis e financeiros e atas de reuniões. A pesquisa bibliográfica foi realizada em livros e revistas especializadas como reforço de informações, principalmente na caracterização do campo das condições objetivas da empresa – ambiente geral e específico -, que exigiu a compreensão de fatos e acontecimentos do contexto político e econômico mais amplo relacionados à história da cooperativa e que não estavam suficientemente presentes na interpretação dos sujeitos (entrevistados), mas que estabeleciam relação com as mudanças e decisões estratégicas ocorridas na empresa. 4 – O contexto externo da cooperativa A cooperativa como qualquer outra organização empresarial, está sujeita ao acato incondicional das medidas governamentais que as vezes são adotadas com rigidez e geram conseqüências negativas afetando não somente a Cooperativa, como também e, principalmente, os produtores rurais e outras empresas cujas atividades são congêneres às das Sociedades Cooperativas. O período de análise de mudanças considerado no estudo da cooperativa, compreendido entre 1982 e 2002, foi escolhido em função de indicar um período em que a cooperativa passou por grandes mudanças na sua história, registrando momentos de crescimento e expansão, como também de crise financeira e de dificuldades. Nesta parte do trabalho procura-se descrever o contexto externo com que se confrontou a cooperativa, em seu processo de mudança estratégica, caracterizando resumidamente os ambientes geral e específico da organização. Para Wagner III e Hollenbeck (2000), o ambiente de uma organização consiste em tudo o que é externo a ela. Fatores gerais como as condições econômicas, geográficas e políticas que incidem sobre a empresa também fazem parte de seu ambiente. Bowditch e Buono (1997) fazem uma distinção analítica entre ambiente geral e ambiente específico. Ambiente geral, para estes autores, se refere aos fatores, tendências e condições gerais que afetam a todas as organizações. O ambiente especifico (ou da tarefa) enfoca os fatores e as condições externas que tenham relevância imediata para a organização. Um ambiente específico inclui os clientes, fornecedores, sindicatos, autoridades regulamentadoras, grupos de interesse público, associações e outros públicos ou entidades relevantes da organização. Embora o ambiente geral seja semelhante para todas as ENEGEP 2003 ABEPRO 2 XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 organizações, o ambiente específico irá variar dependendo do domínio específico que a organização tiver escolhido. Com essa distinção, o ambiente geral de uma cooperativa é o mesmo ambiente de outras empresas, mas o ambiente específico leva em consideração os fatores e aspectos relevantes ocorridos no setor agrícola. 4.1 - Ambiente geral: condições macro-econômicas e políticas do Brasil no Período de 1982 a 2002 Nos anos 80, a economia brasileira foi marcada por graves desequilíbrios externos e internos. Se a década de 70 pode ser lembrada como a década da prosperidade econômica, a década de 80 leva o estigma da década perdida. As dificuldades internas da economia brasileira no final dos anos 70 e início dos anos 80, agravadas por um conjunto de mudanças adversas no cenário econômico internacional, levaram o Brasil ao colapso financeiro e à mais grave crise econômica de sua história. A chamada década perdida caracterizou-se pela queda nos investimentos e no crescimento do PIB, pelo aumento do déficit público, pelo crescimento das dívidas externa e interna e pela ascensão inflacionária. Na década de 80 é possível identificar dois momentos distintos que marcaram o quadro político e econômico do país, com repercussão em todos os segmentos e setores da sociedade: i. o III Plano Nacional de Desenvolvimento (III PND – 1980-1984); e ii. a constituição da Nova República (1985-1990). O primeiro momento, da promulgação do III PND, estabelece uma tentativa do novo governo militar (Figueiredo) de atualizar e adequar o Projeto Brasil-Potência à nova situação da economia, que apresentava claros sinais de fraqueza no final do período anterior e início deste novo período. O segundo momento, de transição de um regime autoritário para um regime democrático, é conseqüência da desintegração progressiva do sistema de poder implantado no país desde 1964 (regime militar) e da emergência política da sociedade civil, que passou a ocupar mais espaços no cenário político nacional. Os anos 1990 foram marcados pelo grande desafio de viabilizar novamente o país, que se encontrava abalado pela crise profunda dos anos 80. Para além das exigências decorrentes da necessidade de superação da crise, impunha-se, também, a inserção do país numa nova etapa de desenvolvimento, provocada pelas mudanças profundas que estavam em curso no cenário mundial, no final do século XX. As principais mudanças que se processavam no mundo e que configuravam uma nova ordem mundial, com reflexos nas economias das nações, neste final de século, estavam relacionadas a desideologização das relações internacionais; a abertura das economias e liberalização do comércio, que estabelece um processo de globalização completo; acirramento na concorrência comercial que determina novas relações na disputa de mercados pelas corporações transnacionais; nova fase de expansão e ramificação do capital, proliferando novos investimentos no mundo todo; a emergência de novos conceitos de qualidade, produtividade, modernização e competitividade, que revolucionam as estruturas e processos produtivos das empresas; e formação de grandes estruturas transnacionais que influenciam as grandes decisões no mundo e em cada país; Diante deste contexto, destacam-se dois grandes fatos que marcam o quadro políticoeconômico do Brasil, nos anos 90. O primeiro, diz respeito ao Governo Collor e a sua estratégia de desenvolvimento calcada nos postulados neoliberais, que compreendeu o período de 1990-1992. Neste período, o país passa por uma profunda reestruturação produtiva. Essa reestruturação, designada por alguns autores (Lacerda et. al., 2000; Batista, 1994) de modernização conservadora, provocou aceleração no processo de privatização de empresas ENEGEP 2003 ABEPRO 3 XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 estatais, abertura da economia e desregulamentação dos mercados. O segundo momento caracteriza-se pela adoção do Plano Real, anunciado em 7 de dezembro de 1993, considerado um dois mais bem-sucedidos planos de estabilização da economia brasileira. Ao desindexar a economia e reduzir substancialmente os níveis inflacionário, o Plano Real criou condições efetivas para uma nova etapa de desenvolvimento econômico e social, em bases mais sustentáveis e duradouras do que os planos de estabilização anteriores. Neste início de século (anos 2000) o país vive um clima de transição de um governo que sai e outro que entra. O que sai, deixa como herança, de um lado, um país com uma economia com bases mais sólidas, em termos de estabilização, frutos dos resultados alcançados pela adoção do Plano Real e, de outro lado, um país com um enorme déficit social. O governo que entra, traz consigo promessas de conduzir a economia com rigor e austeridade e atacar os problemas sociais, principalmente aqueles mais diretamente ligados a fome e ao analfabetismo. A retomada do crescimento econômico passa pela competência do governo de conduzir as reformas necessárias, tais como a tributária, a da previdência e a trabalhista. 4.2 – Ambiente específico: evolução do setor agrícola 1982 a 2002 Os anos 80 não foram bons para a atividade agrícola. Os primeiros anos, sobretudo os de 1982 e 1983, trouxeram grandes dificuldades aos produtores rurais. A maxidesvalorização do cruzeiro, enchentes que causaram prejuízos à agricultura, a elevação das taxas de juros, o corte do subsídio ao crédito rural, aumentando o custo das lavouras, a pequena estiagem de novembro e dezembro/83, que prejudicaram principalmente as culturas do milho e da soja, além do quadro recessivo vivido pelo país, em função dos altos índices da inflação, foram os fatores que contribuíram de forma negativa a situação do setor agrícola nestes anos. No ano de 1984, houve uma intensa mobilização de amplos segmentos da sociedade brasileira, respaldando e ensejando um processo gradual de mudanças estruturais em âmbito nacional, que posteriormente seria protagonizado com o advento da Nova República. Diversos eventos de desagravo foram realizados no Estado, mas estes esforços desencadeados foram ineficazes para a reformulação imediata dos rumos da política nacional e, mais uma vez, o setor produtivo descapitalizou-se em decorrência da adoção de medidas governamentais equivocadas, tais como: a fixação de VBCs (valores básicos de custeio) abaixo do custo de produção; retirada total dos subsídios agrícolas e escassez de recursos para a comercialização das safras, somando-se a isto os altos custos dos insumos e os fatores climáticos adversos. A Nova Republica trouxe alterações significativas na vida do país. Um novo período histórico, caracterizado pela busca da plenitude democrática e de uma nova ordem econômica e social, começa a ser esboçado no país. Contudo, o setor agrícola enfrentou uma seca que atingiu a região sul do país, causando sérios prejuízos às lavouras, à pecuária, e ao abastecimento de energia elétrica e de água. Algumas medidas emergenciais do governo, tais como a prorrogação dos prazos dos financiamentos, plantio e liberação de pequenas linhas de credito, ajudaram a amenizar o impacto da seca. No âmbito político-econômico mais amplo, que se conviveu com o Plano Cruzado, que inicialmente despertou na população brasileira uma certa esperança de estabilidade econômica e incentivou a realização de novos investimentos, no seu transcorrer evidenciou suas fraquezas e o país como um todo começou a sentir seus reflexos negativos. Em consequência do fracasso do Plano Cruzado, a economia agrícola enfrentou dificuldades quanto a liberação de recursos financeiros relativos a formação de lavouras e para a aquisição das safras, apesar de haver um incentivo para a produção de culturas de subsistência. Além disso, conviveu-se novamente com um quadro de frustrações de safras. ENEGEP 2003 ABEPRO 4 XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 Em 1985, a agricultura conviveu com uma das piores crises do setor, provocada pelo aviltamento dos preços dos produtos agrícolas. Em contrapartida, suportou elevados custos de produção, corrigidos pela TR ( taxa referencial) durante o primeiro semestre do ano. Apesar destas dificuldades, o setor serviu de sustentáculo do Plano Real, produzindo alimento barato para um povo ávido e sem poder aquisitivo. Se nos anos 80 o balanço do setor não pode contabilizar resultado satisfatório, os anos 90 reservariam uma situação ainda mais crítica para o setor agrícola. O governo Collor (19901992), em suas primeiras ações já demonstrava a política a ser estabelecida em relação ao setor agrícola. Ao determinar a correção das dívidas dos agricultores por um índice superior a 80%, enquanto corrigia os preços dos produtos agrícolas por uma taxa apenas um pouco acima de 40%, convocava os produtores rurais a entrarem com sua cota de sacrifício para o êxito de seu plano de estabilização econômica. Com o advento do Plano Real (1993), a situação não mudou nada na agricultura. Pelo contrário, se agravou mais ainda. Novamente neste plano a agricultura brasileira foi chamada a entrar com sua quota de sacrifício (a chamada “ancora verde”) para sustentar a nova moeda introduzida. Apesar da safra 1994/95 ter sido considerada boa, o retorno aos produtores não foi compensatório. Os preços no mercado externo ficaram baixos, para conter o custo da cesta básica, enquanto o câmbio sobrevalorizado manteve baixos os preços dos produtos de exportação, como a soja, por exemplo. Assim, a adversa combinação de vários fatores – endividamento anterior, descapitalização, preços baixos e juros altos – levou grande número de produtores rurais à inadimplência das dívidas contraídas junto aos bancos, comprometendo ainda mais a crise do tão combalido setor agrícola (Brum, 1997). No governo de Fernando Henrique, que assumiu em 1995, o quadro da agricultura também continuou complicado. Procurou amenizar o terrível quadro em que se encontrava a agricultura, porém de forma moderada e sem paternalismo. Criou condições para a renegociação das dívidas agrícolas junto aos bancos e sua securitização; alongou os prazos de pagamento das dívidas agrícolas por vários anos; e concedeu novos empréstimos agrícolas, com subsídios variáveis de acordo com o tamanho da propriedade. O ano de 1999 já mostrou uma situação um pouco diferente para o setor com a instituição do regime de câmbio flexível, o início do processo de queda das taxas de juros e o aumento na oferta de crédito interno. A desvalorização do real, em janeiro de 1999, permitiu amenizar os efeitos recessivos derivados da retração dos preços das commodities no mercado internacional. Por outro lado, provocou aumentos nos custos de produção, principalmente dos fertilizantes e dos insumos que dependem de matérias-primas importadas. Atualmente, as altas constantes do dólar, ajudaram a elevar os preços dos produtos agrícolas, permitindo que os agricultores trabalhem com margens de lucratividade maiores, podendo recuperar um pouco dos seus prejuízos. 5 – Fases do processo de mudança estratégica da cooperativa Esta parte do trabalho apresenta os eventos relevantes e os períodos estratégicos que montam a trajetória da cooperativa e explicam melhor o seu processo de mudança estratégica. Quadro 1 - Eventos Críticos N. Identificação dos eventos críticos Ano 01 02 03 04 05 06 07 08 Crescimento empresarial e expansão dos Negócios Aquisição do controle acionário do Frigorífico São Luiz Nova estrutura administrativa –Maior participação dos associados Período de dificuldades financeiras Mudança de diretoria Renegociação de dividas e reestruturação através de consultoria Redefinição dos objetivos sociais Implantação do plano de saneamento ENEGEP 2003 ABEPRO 1982 1985 1985 1986 1986 1986 1986 1987 5 XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 09 10 11 12 13 14 15 Diminuição do número de associados e fechamento de unidades Implantação de agroindústria Implantação de um novo regimento interno Retomada do crescimento Implantação de planejamento estratégico para a década de 90 Frustração de safras Aquisição da fábrica de Rações e Concentrados Piratini Ltda., e a abertura do Abatedouro Coopatrigo Implantação do Plano Estratégico e Programa de Qualidade Total Reativação da Unidade Recebedora de Bossoroca Crise financeira e mudança na estrutura administrativa operacional Crise financeira e troca de diretoria Perda da credibilidade junto aos associados e instituições de crédito Renegociação das dividas, fechamento de unidades e diminuição das atividades Reestruturação administrativa e contração de consultoria Retomada do crescimento e troca de diretoria Implantação de um Cerealista e criação da marca própria 7 Povos Financiamento da produção dos associados Reestruturação e investimentos 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 1987 1988 1989 1989 1990 1991 1992 1994 1994 1994 1995 1996 1996 1997 1998 2000 2001 2002 Fonte: entrevistas dos autores Quadro 2 – Período Estratégicos da Cooperativa N. 01 02 03 04 05 PERÍODOS ESTRATÉGICOS 1982-1984 1985-1986 1987-1988 1989-1993 1994-1997 06 1998-2002 DESCRIÇÃO Crescimento empresarial e diversificação das atividades Crise financeira Reestruturação organizacional Retomada do crescimento e mudança nos objetivos sociais da cooperativa Nova crise financeira e perda da credibilidade junto aos associados e comunidade Retomada do crescimento e dos investimentos. Fonte: pesquisa dos autores No primeiro período estratégico (1982-1984) a cooperativa buscou a inovação e expansão de suas atividades, imprimindo um desenvolvimento com enormes repercussões, com benefícios aos seus associados e a toda a comunidade regional. O contexto externo de dificuldades, que se apresentava com a maxidesvalorização do cruzeiro, elevação da taxa de juros, elevação dos custos da produção, política governamental instável para o setor agrícola, problemas de estiagens e os altos índices de inflação, não foram obstáculos para o crescimento físico da cooperativa. Ela abriu novos empreendimentos e diversificou suas atividades. No segundo período (1985-1986) a cooperativa começava a apresentar problemas financeiros e, mesmo assim, a política de expansão continuava em pleno vapor. Foi adquirido o Frigorífico São Luiz S/A, que foi revendido no ano seguinte, além da abertura de novos supermercados e da conclusão da agroindústria. No ano de 1986, a situação financeira já era crítica. A frustração de safras ajudou a desencadear a maior crise financeira vivida pela cooperativa até então. Os associados também entraram numa fase de endividamento e de dificuldades financeiras. Diante da difícil situação em que se encontrava a cooperativa, os conselhos de Administração, Fiscal e de Representantes dos Associados, assumiram a gestão da cooperativa. O período estratégico 3 (1987-1988) foi de implantação do Plano de Saneamento, que implicou em mudanças da estrutura administrativa, funcional e operacional. Muitas outras mudanças foram desencadeadas, dentre as principais destacam-se: cobrança de devedores; renegociação de dividas; desmobilizações; redução do custo operacional; ENEGEP 2003 ABEPRO 6 XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 mudanças políticas e administrativas na gestão; e a capitalização da cooperativa, através da subscrição de cotas partes de capital, com a participação do associado. No período estratégico 4 (1989-1993), após a implementação de um conjunto de mudanças organizacionais, a cooperativa ingressou num período de estabilidade e de crescimento, porém com os objetivos voltados preponderantemente aos associados. A falta de incentivos por parte do governo para o financiamento das lavouras levou a cooperativa a financiar o agricultor, através do sistema “troca-troca”. Este período também é marcado pelos investimentos na setor agroindustrial. No período estratégico 5 (1994-1997) a cooperativa passa novamente por uma crise financeira, mas de proporções ainda maiores do que a vivida no período de 1985 a 1986. Além dos problemas financeiros, perdeu a credibilidade junto aos associados e comunidade em geral. Houve novamente um enxugamento no quadro de pessoal, avaliação das atividades mantidas, determinando a desativação de muitas delas, e outras terceirizadas. No período estratégico 5 (1998-2002), a cooperativa conseguiu novamente equilibrar a sua situação econômico-financeira. Renegociou suas dívidas. Reorganizou o quadro social, a partir de novos conceitos de associativismo e profissionalismo. Buscou o equilíbrio entre receitas e despesas. Ampliou mercados. Readquiriu antigas unidades, antes vendidas ou desativadas, e duplicou sua capacidade de industrialização. Enfim, foi um período em que a cooperativa além de crescer e expandir sua base de atuação, fez uma ampla revisão na sua missão, nos seus objetivos e nas suas estratégias de ação. 6 – Conclusões e considerações finais Do estudo do processo de mudança organizacional da COOPATRIGO é possível concluir que a cooperativa alternou períodos de crise e de crescimento. Nessa alternância, os fatores externos à cooperativa, no âmbito dos ambientes geral e específico, exerceram forte influência no comportamento da cooperativa. Os momentos de instabilidade econômica do país e as constantes alterações na política agrícola, repercutiram de forma negativa no desempenho da COOPATRIGO, exigindo e provocando mudanças internas. O governo foi, sem dúvida, o stakeholder (Freeman e Reed, 1983) de maior influência no processo de mudança da cooperativa. As constantes alterações na condução da economia, através da adoção dos planos econômicos e a retirada gradual dos subsídios da política de crédito rural, agravada pela diminuição constante do crédito agrícola, exigiram mudanças profundas não só no interior da cooperativa, como também na gestão da propriedade rural dos produtores associados. No primeiro período estratégico (1982-1984), apesar do ambiente externo ser desfavorável, a cooperativa consegui crescer e expandir seus negócios. A capacidade de exercer escolhas estratégicas do seu comando superior foi maior que o determinismo do meio (Hrebiniak e Joyce, 1985). Os dois períodos estratégicos seguintes (1985-1988), foram de dificuldades. A crise do setor e a instabilidade econômica do país, produziram reflexos desastrosos na cooperativa. A interseção do alto grau de influência ambiental e a baixa capacidade de escolha estratégica determinaram um período de adaptação através da seleção natural, da tipologia de Hrebiniak e Joyce (1985). Apesar do esforço da cooperativa nas ações de reestruturação organizacional, ela não conseguiu evitar a crise interna. Para Hammel e Prahalad (1995), a reestruturação e a reengenharia talvez sejam fundamentalmente insuficientes e demasiadamente tardias quando o setor de uma empresa está mudando profundamente e a empresa está muito atrás dessa curva de mudança. Talvez a tese destes autores tenha se confirmado na cooperativa, neste período. No momento em que a política governamental de crédito fácil se esgotou, a ENEGEP 2003 ABEPRO 7 XXIII Encontro Nac. de Eng. de Produção - Ouro Preto, MG, Brasil, 21 a 24 de out de 2003 cooperativa entrou em crise. A cultura paternalista e assistencialista ainda estava muito forte internamente na cooperativa e no âmbito do seu quadro social. No período estratégico 4 (1989-1993), as mudanças da cooperativas são realizadas através de um processo de planejamento estratégico. As estratégias de mudanças, na linha da reestruturação organizacional e dos novos investimentos em agroindústria, resultaram de um processo planejado (Mintzberg, Ahlstrand e Lampel, 2000), diferentemente das mudanças anteriores. É o início de uma gestão com base em um planejamento estratégico, coisa até então inexistente na cooperativa. O período estratégico 5 (1994-1997), registra uma nova crise financeira, de proporções ainda maiores da anterior. Novamente a cooperativa passa por uma reengenharia completa (Hammer & Champy, 1994). Muitos setores e atividades são reestruturados e/ou fechados. Depois de cinco anos a cooperativa voltou a ter resultados positivos, inclusive com distribuição de sobras a seus associados. Neste último período estratégico (1998-2002), percebe-se um tipo de gestão mais profissionalizada, em que os empreendimentos são feitos com base em estudos de viabilidade econômico-financeira e análise de cenários. 7 – Referências bibliográficas BATISTA, Paulo Nogrueira. O consenso de Washintong: a visão neoliberal dos problemas latino-americanos. Cadernos Dívida Externa. n. 6, São Paulo, 1994. BOWDITCH, J.I.; BUONO, A.F. Elementos de comportamento organizacional. São Paulo: Pioneira, 1997 BRUM, Argemiro Jacob. Desenvolvimento econômico brasileiro. Rio de Janeiro: Vozes, 1997. HAMEL, G., & PRAHALAD, C.K. Competindo pelo Futuro. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1995. FREEMAN, R. E. e REED, D. L. Stockeholders and stackeholders: a new perspective on corporate governance. California Management Review, v. XXV, n. 3, Spring, 1983. HAMMER, M. & CHAMPY, J. Reengenharia. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 1992. HREBRINIAK, Lawrence G, JOYCE, William F. 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