i INSTITUTO COPPEAD DE ADMINISTRAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO ALEXIUS VIKTOR ANDRADE FREUND APREÇAMENTO DE FUNDOS DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITÓRIOS (FIDC) Tese submetida ao Programa de Pós-Graduação em Administração do Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Administração Orientador: Prof. Eduardo Facó Lemgruber, PhD. Rio de Janeiro 2013 ii Freund, Alexius Viktor Andrade. Apreçamento de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). / Alexius Viktor Andrade Freund. - Rio de Janeiro: UFRJ, 2013. 166 f.: il.; 30 cm. Orientador: Eduardo Facó Lemgruber. Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto COPPEAD de Administração, 2013. 1.FIDC. 2. Apreçamento. 3. Securitização – Teses. I. Lemgruber, Eduardo Facó. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto COPPEAD de Administração. III. Título. iii APREÇAMENTO DE FUNDOS DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITÓRIOS (FIDC) ALEXIUS VIKTOR ANDRADE FREUND Tese submetida ao Programa de Pós-Graduação em Administração do Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Administração. Aprovada por: _________________________________________ Prof. Eduardo Facó Lemgruber, Ph.D. – Orientador (COPPEAD/UFRJ) _________________________________________ Prof. Otávio Henrique dos Santos Figueiredo. D.Sc. (COPPEAD/UFRJ) _________________________________________ Prof. Antônio Carlos Magalhães da Silva, D.Sc. (UFF) _________________________________________ Prof. Cláudio Henrique da Silveira Barbedo, D.Sc. (IBMEC) _________________________________________ Profa. Myrian Beatriz Eiras das Neves, D.Sc. (BANCO CENTRAL DO BRASIL) Rio de Janeiro 2013 iv AGRADECIMENTOS Ao Banco Central do Brasil, pela oportunidade oferecida por meio do seu Programa de Pós-graduação, para que eu pudesse participar deste doutorado. Aos meus amigos que, de alguma forma, contribuíram para este trabalho, particularmente: a Isabella e ao Gustavo, que há 4 anos me encaminharam um e-mail com informações sobre o doutorado em finanças da Coppead/UFRJ e, com isso, iniciaram todo o processo;; e ao Vicente e ao Euler, pelas boas dicas e ajudas “on line”. Aos funcionários da Coppead, em especial às sempre eficientes Lucianita, Fátima e Sílvia, por todo apoio administrativo. Aos membros da banca de defesa. Ao Prof. Cláudio Barbedo e à Profa. Myrian Beatriz, pelas valiosas contribuições a esta tese, mesmo antes do convite para fazerem parte da banca. Ao meu amigo, Prof. Antônio Carlos Magalhães da Silva, por toda ajuda e boas ideias, que contribuíram bastante na melhoria deste trabalho. Ao Professor Otávio Figueiredo, pela ajuda na análise de regressão e dicas que ajudaram a melhorar bastante o texto. Ao meu orientador, Prof. Eduardo Facó, pela paciência, conhecimento, ideias, sugestões e por estar sempre disponível para me ajudar no desenvolvimento deste estudo, atributos sem os quais este trabalho não teria sido concluído. E aos meus pais, por todo apoio, educação e orientações ao longo de minha vida, que contribuíram para que eu chegasse até aqui. v FREUND, Alexius Viktor Andrade. Apreçamento de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC). 2013. 160 f. Tese (Doutorado em Administração) – Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. RESUMO Este trabalho apresenta três ensaios sobre o apreçamento de cotas de Fundos de Investimento em Direito Creditórios – FIDCs. O Ensaio 1 procura identificar características presentes nas emissões de FIDCs fechados, as quais podem explicar o nível dos spreads nas rentabilidades-alvo de cotas seniores. Esses spreads são definidos na época de emissão das cotas e permanecem constantes ao longo do prazo de duração da emissão. Que é de nosso conhecimento, este é o primeiro estudo que analisa o spread da rentabilidade-alvo das cotas seniores de um FIDC e o que possui o banco de dados mais extenso. Foram feitas análises em dois grupos distintos de FIDCs, um com rentabilidade-alvo expressa na forma spread % CDI e outro na forma CDI + spread. Os resultados apontaram significância do rating, existência de tranche mezanino, existência de coobrigação, vida média, nível da taxa CDI e existência de procedimento de bookbuilding. Observou-se que ao longo do período analisado houve mudança nas características de emissão das cotas. O Ensaio 2 apresenta um modelo para apreçamento das diversas classes de cotas que compõem um FIDC. Os resultados do modelo foram aferidos, sendo comparados com outros modelos conhecidos da literatura acadêmica e com um modelo de simulação, e foram considerados satisfatórios. O modelo foi então aplicado a um FIDC com perfil específico para análise de sensibilidade dos diversos fatores que podem influenciar nas rentabilidades das cotas. Dentre as conclusões obtidas, destacamse: o aumento no valor de cotas seniores é benéfico para a rentabilidade de cotas subordinadas; o aumento no valor de cotas mezanino não necessariamente reduz spread das cotas seniores, mas o aumento de cotas subordinadas sim; o aumento na volatilidade possui forte efeito na rentabilidade das cotas subordinadas, mas pouco efeito nas cotas seniores; o aumento do prazo de duração do fundo por meio do aumento da carência reduz o spread das cotas subordinadas, enquanto que o aumento dos prazos entre as amortizações, mantendo-se prazo final constante, elevou esses spreads. No Ensaio 3 são apresentadas aplicações do modelo em dois casos reais. O primeiro caso analisado foi o do Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. Foram comparados os resultados de valores das cotas seniores, mezanino e subordinadas calculados com o modelo e os valores contábeis informados pelo fundo. Como praticamente não há negociações de cotas de FIDC no mercado secundário, não pode ser realizada comparação com valores de mercado. O segundo caso analisado foi o do RB Capital Agre FII. Apesar de ser um fundo imobiliário, o RB Capital Agre possui uma estrutura semelhante a um FIDC, com a vantagem de ter mais negociações das cotas seniores no mercado secundário. Os resultados indicam que, devido ao elevado grau de proteção às cotas seniores, os valores calculados para essas cotas utilizando o modelo ficaram próximos dos valores contábeis para o caso do FIDC. No caso do FII, os valores calculados com o modelo ficaram próximos dos valores contábeis corrigidos pelo índice de referência; igual ao valor de mercado em uma das datas analisadas e inferior nas demais. Palavras-chave: FIDC. Apreçamento. Securitização. Opções compostas. Modelo binomial. Renda fixa. vi FREUND, Alexius Viktor Andrade. Apreçamento de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC). 2013. 160 f. Tese (Doutorado em Administração) – Instituto COPPEAD de Administração, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013. ABSTRACT This work presents three essays on the pricing of quotas of Fundos de Investimento em Direitos Creditórios – FIDCs. Essay 1 aims to identify the main factors present in FIDCs’ issues that may explain the spread levels in senior securities target returns. These spreads are defined at the time of the issue and remain constant throughout the issue term. From our knowledge, this is the first study that analyzes FIDCs’ spread in target returns and the one with the most extensive database. Analysis was conducted in two distinct groups of FIDCs: one with target returns expressed as spread % of CDI and another as CDI + spread. The results showed the significance of rating, mezzanine tranche, credit enhancement, average life, level of CDI and the existence of a bookbuilding process. It was observed that during the analyzed period there was a change in the issues’ characteristics. Essay 2 presents a model for the pricing of the various classes of quotas that make up the FIDC. The model results were measured and compared with other models known in academic literature, as well as with a simulation model, and were considered satisfactory. The model was then used for the analysis of various factors that may affect the return of the FIDC quotas. Among the conclusions achieved, we highlight that: increase in senior quotas value is good for subordinated quotas; increase in mezzanine quotas value does not necessarily reduce the senior quotas spreads, but the increase in subordinated quotas does; the increase in volatility has a strong effect on the returns of subordinate quotas, but little effect on senior quotas; increasing the fund term by increasing the grace period reduces the spread of subordinated quotas, while the increase in the period between amortizations, maintaining constant the final term, increases these spreads. Essay 3 presents two actual applications of the FIDC quotes pricing model developed in Essay 2. The first case studied was the Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. We compared the results of the values of senior, mezzanine and subordinated quotas calculated with the model and the book values reported by the fund. Due to the absence of secondary market trading of the fund quotas, no analysis comparing with market values could be performed. The second case studied was the RB Capital Agre FII. Despite being a real estate fund, the RB Capital has a structure similar to a FIDC, with the advantage of having more trades in the secondary market. Thus, for this case, the results achieved with the pricing model could be compared with the book and market values. The results indicate that, due to the high degree of protection to senior quotas, the book values and the pricing model ones were close for the FIDC case. In the FII case, the values calculated with the model were close to book values adjusted by the benchmark; equal to the market value in one of the analyzed dates and lower in others. Key words: FIDC. Pricing. Securitization. Compound options. Binomial model. Fixed income. vii SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 1 ENSAIO 1 - A INFLUÊNCIA DE CARACTERÍSTICAS DA EMISSÃO DE COTAS DE FUNDOS DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITÓRIOS (FIDC) NOS SPREADS DAS RENTABILIDADES-ALVO DE COTAS SENIORES ............................. 7 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 9 1.1 REVISÃO DE LITERATURA INTERNACIONAL .................................................. 9 1.2 REVISÃO DE LITERATURA NACIONAL ............................................................ 13 1.3 OBJETIVO ................................................................................................................ 17 2 METODOLOGIA ............................................................................................................. 20 3 BANCO DE DADOS ....................................................................................................... 30 3.1 FIDCs DA AMOSTRA ............................................................................................. 30 3.2 FONTES USADAS NA EXTRAÇÃO DOS DADOS .............................................. 31 3.3 VARIÁVEIS .............................................................................................................. 33 4 RESULTADOS ................................................................................................................ 45 4.1 FIDCs COM REMUNERAÇÃO NA FORMA % CDI............................................. 45 4.1.1 VERIFICAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS .............................................................. 45 4.1.2 ANÁLISE DOS RESULTADOS ........................................................................... 47 4.2 FIDCs COM REMUNERAÇÃO NA FORMA CDI + .............................................. 53 4.2.1 VERIFICAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS .............................................................. 53 4.2.2 ANÁLISE DOS RESULTADOS ........................................................................... 55 4.3 LIMITAÇÕES DO MODELO .................................................................................. 57 5 CONCLUSÃO DO ENSAIO 1......................................................................................... 58 ENSAIO 2 - MODELO PARA APREÇAMENTO DE FIDCS ..................................... 61 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 63 2 REVISÃO DOS MODELOS-BASE PARA CONSTRUÇÃO DO MODELO BINOMIAL PARA FIDCs ....................................................................................................... 69 viii 2.1 MODELO DE MERTON .......................................................................................... 69 2.2 MODELO DE OPÇÕES COMPOSTAS ................................................................... 74 2.3 MODELO BINOMIAL ............................................................................................. 77 3 METODOLOGIA ............................................................................................................. 83 3.1 MODELO BINOMIAL PARA APREÇAMENTO DE FIDCS ................................ 83 3.2 IMPLEMENTAÇÃO ................................................................................................. 91 3.3 LIMITAÇÕES DO MODELO .................................................................................. 96 4 ANÁLISE DA SENSIBILIDADE DE VARIÁVEIS NO APREÇAMENTO DAS COTAS DE UM FIDC ............................................................................................................. 97 5 CONCLUSÃO DO ENSAIO 2....................................................................................... 112 ENSAIO 3 - APLICAÇÃO DO MODELO BINOMIAL PARA APREÇAMENTO DE FIDCS EM CASOS REAIS ................................................................................................. 115 1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 117 2 CHEMICAL V FIDC – INDÚSTRIA PETROQUÍMICA ............................................. 119 2.1 Descrição do Fundo ................................................................................................. 119 2.2 Metodologia para a Análise ..................................................................................... 120 2.3 Aplicação do Modelo de Apreçamento e Análise dos Resultados .......................... 123 3 RB CAPITAL AGRE FII ............................................................................................... 126 3.1 Descrição do Fundo ................................................................................................. 126 3.2 Metodologia para Análise ........................................................................................ 127 3.3 Aplicação do Modelo de Apreçamento e Análise dos Resultados .......................... 132 4 CONCLUSÃO DO ENSAIO 3....................................................................................... 139 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE OS TRÊS ENSAIOS ............................................ 141 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 145 ANEXO ............................................................................................................................. 153 1 1 INTRODUÇÃO Uma operação de securitização pode ser definida como um processo ou técnica para transformação de fluxos financeiros advindos de ativos ilíquidos em títulos mobiliários líquidos para negociação no mercado de capitais. A Figura 1 abaixo mostra de forma resumida a estrutura típica de uma operação de securitização. I nvestidores $ Títulos mobiliários Veículo de Propósito Específico (VPE) $ AgentesAuxiliares Direitos creditórios Cedente (Originador) Direitos creditórios Empréstimos Vendas a prazo Clientes (Devedores, Sacados) Figura 1 – Estrutura de uma operação de securitização Clientes (devedores, sacados) adquirem serviços, bens ou empréstimos de uma empresa (cedente) a qual passa a ter contra esses clientes direitos creditórios vinculados a venda a prazo/empréstimo. A cedente vende seus direitos creditórios ao veículo de propósito específico (VPE), que obtém os recursos necessários por meio da venda a investidores no mercado de capitais de títulos mobiliários. Os agentes auxiliares ajudam o VPE na administração, gestão e cobrança. Inicialmente, uma empresa (chamada de cedente ou originadora), por meio de vendas a prazo de bens ou serviços a seus clientes (também chamados de devedores ou sacados), adquire contra os mesmos direitos de crédito. Em seguida é constituído um Veículo de 2 Propósito Específico (VPE). Trata-se de uma entidade criada com o único propósito de arrecadar recursos junto a investidores no mercado de capitais, por meio da emissão de títulos mobiliários, para aquisição dos direitos creditórios da cedente, utilizando uma taxa de desconto (taxa de cessão). O VPE não pode desempenhar quaisquer outras atividades. Ele tem como característica importante o fato de possuir uma estrutura jurídica que o torna independente dos efeitos do risco de falência da cedente. Dessa forma, os investidores que compraram os títulos mobiliários lastreados nos direitos creditórios estariam protegidos contra o risco de falência da empresa originadora. Os investidores que adquiriram os títulos mobiliários recebem amortização e juros vinculados ao pagamento da dívida pelos clientes. Para a administração, gestão dos recursos e cobrança dos direitos creditórios, um VPE necessita de agentes que irão auxiliá-lo nessas atividades. Um agente importante na estruturação de uma securitização é a agência classificadora de risco, responsável por emitir um parecer onde consta sua avaliação a respeito do risco de crédito contido na emissão dos títulos mobiliários lastreados nos direitos creditórios securitizados. Existem diversas razões para securitização. Conforme estudo da Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro - Andima (2006), empresas que não tem estrutura e nível de risco necessário para captar recursos no mercado de capitais por meio de instrumentos tradicionais, como emissão de debêntures ou notas promissórias, por meio da securitização passam a ter acesso a uma fonte de captação de recursos a custos mais baixos, uma vez que esses recursos são lastreados em uma carteira de ativos de risco inferior ao da própria cedente. Empresas de capital fechado, proibidas de realizar esse tipo de captação, também se beneficiam. Operações de securitização também permitem a bancos reduzir sua carteira de créditos, diminuindo com isso a exigência de capital, requisito do Acordo de Basiléia II. Segundo Couette, Altman e Narayan (apud Mattes e Neto [2007]), a origem das operações de securitização ocorreu nos Estados Unidos, em 1970, quando a agência governamental norte-americana Government National Mortgage Association (conhecida por “Ginnie Mae”) emitiu títulos de renda fixa lastreados em hipotecas residenciais (Mortgage Backed Securities – MBS). Até 1985, as operações de securitização utilizavam como direitos creditórios apenas hipotecas residenciais. A partir desse ano, se iniciam securitizações utilizando outros tipos de direitos creditórios como lastro, tais como financiamentos ligados à aquisição de veículos e cartões de crédito. Tais operações ficaram conhecidas como AssetBacked Securities – ABS. 3 A primeira operação de securitização no mercado brasileiro, conforme Securato (2005), ocorreu em 1992, quando a Mesbla Trust de Recebíveis de Cartão de Crédito S.A. emitiu debêntures lastreadas nos créditos originados pela Mesbla S.A. A Mesbla Trust constituía-se assim como o VPE da operação. Esse VPE, como se pode observar pela sua denominação, se tratava de uma companhia aberta. Na época de sua criação ainda não havia a figura do Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC). De fato, segundo Silva (2010), os VPEs podem ser divididos, atualmente, em: a) Sociedade de Propósito Específico (SPE); b) Companhia Securitizadora; c) Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). As SPEs se caracterizam por serem companhias abertas com acesso ao mercado de capitais, constituídas para uma operação de securitização específica. Seria esse o caso da Mesbla Trust. Já as companhias securitizadoras, apesar de também serem companhias abertas, podem realizar várias operações de securitização. Conforme determina a Lei 9.514, de 20 de novembro de 1997, essas companhias foram criadas com a finalidade de adquirir e securitizar créditos imobiliários por meio da emissão no mercado financeiro dos Certificados de Recebíveis Imobiliários – CRI. Os FIDCs foram criados no final de 2001, se apresentando como alternativa vantajosa às SPEs, uma vez que, diferente das SPEs, os FIDCs não são sociedades anônimas, e, portanto, suas operações são desoneradas de impostos como PIS, Cofins, IRPJ, CSSL (Andima e Cetip, 2006).1 Recentemente, o governo brasileiro anunciou a possibilidade de edição de medida provisória zerando ou reduzindo o Imposto de Renda sobre aplicações feitas nos FIDCs que se dedicarem a financiar investimentos em infraestrutura (Izaguirre e Oms, 2012). Esses fundos podem ser constituídos sob a forma de condomínio fechado, quando o resgate das cotas só pode ocorrer ao final do prazo de duração previsto na emissão, ou abertos, quando é permitido o resgate das cotas a qualquer tempo. Seu patrimônio líquido deve ser constituído de no mínimo 50% de direitos creditórios. O seu funcionamento depende de registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a negociação de suas cotas deve ser feita em bolsa de valores ou em mercado de balcão organizado. Suas cotas podem ter diferentes níveis de classe: cotas seniores, mezanino e subordinadas, e guardam entre si 1 PIS: Contribuição para o Programa de Integração Social Cofins: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social IRPJ: Imposto de Renda Pessoa Jurídica CSSL: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido 4 diferença no nível de prioridade para amortização e resgate, sendo que as seniores são as que possuem maior prioridade, seguidas das cotas mezanino e por último as cotas subordinadas. Os direitos creditórios podem ser dos mais diversos tipos, como por exemplo: agronegócio; empréstimos consignados; créditos para fins educacionais; créditos para pessoas jurídicas; recebíveis comerciais, industriais ou de serviços; royalties; setor imobiliário; serviços públicos (energia elétrica, saneamento); empréstimos para aquisição de veículos, dentre outros. A participação dos FIDCs na indústria de fundos de investimento vem apresentando tendência de crescimento desde 2005, como se pode observar na Tabela 1. Tabela 1 - Comparação do Patrimônio Líquido (PL) de FIDCs em atividade com o total de Fundos de Investimento entre dez/2005 e dez/2011. %PL dos FIDCs / Período PL FIDC (R$ bilhões) PL Total Fundos de Investimento dez/2005 14,9 1,90% dez/2006 20,2 2,10% dez/2007 29,5 2,51% dez/2008 39,4 2,47% dez/2009 55,6 2,10% dez/2010 58,9 2,27% dez/2011 61,6 3,20% Fonte: CVM, Anbima. Conforme tem sido noticiado, o mercado financeiro espera que a taxa Selic seja mantida nos patamares atuais por um período bastante prolongado (Clini, 2012). Nesse novo ambiente de taxas de juros baixas, os investidores têm sido obrigados a buscar novas formas de investimento. Dentre esses investidores destacam-se os fundos de pensão. Com a queda nas taxas, a maior parte dos títulos privados corrigidos pelo IPCA disponíveis no mercado passou a render abaixo de 6% ao ano, valor inferior à meta atuarial das fundações (Pinheiro, 2012). Assim, esses fundos estão à procura de investimentos capazes de oferecer rentabilidades superiores, sem no entanto apresentarem os riscos do mercado de ações. Esse cenário ajuda a explicar o aumento da demanda por cotas de FIDCs. Além disso, a busca pela diversificação de investimentos derrubou o custo de captação das empresas brasileiras no 5 mercado de capitais (Pinheiro, 2012). Com isso, as empresas tendem a buscar captação de recursos nesse mercado de capitais em detrimento de empréstimos bancários, mais caros. Entretanto, o aumento dos investimentos nesse mercado relativamente recente traz consigo algumas preocupações. Como exemplo, pode-se citar que, em junho de 2012, o aumento da inadimplência no financiamento a veículos cresceu de 3,8% a 6,1% em um ano, o que refletiu nos FIDCs com cotas lastreadas em direitos creditórios referentes a financiamentos a veículos. Embora as cotas seniores não tivessem sido afetadas, os cotistas subordinados sofreram perdas (Rosa, 2012a). Em outro exemplo, em abril de 2012, quatro fundos de pensão ligados a servidores estaduais e municipais tiveram perdas com aplicações em cotas de FIDC, que se desvalorizaram 40% em função de perdas realizadas (Rosa, 2012b). O Banco Central do Brasil (Bacen) tem mostrado preocupação com a questão dos direitos creditórios usados como lastro em FIDCs, particularmente os originados por instituições financeiras, e por isso passou a exigir o envio do detalhamento das operações referentes a esses direitos creditórios, que ao serem cedidos ao FIDC deixavam de integrar a carteira dos bancos e consequentemente não precisavam mais ser informados (Mandl e Lima, 2012). Em janeiro de 2012 entrou em operação como câmara especial de liquidação e custódia o Sistema Central de Cessões de Crédito – C3, por meio do qual passaram a ser realizadas, de forma obrigatória, as cessões de créditos entre bancos, correspondentes inicialmente a créditos de veículos e créditos consignados, e futuramente a outros tipos de crédito (Febraban, 2012). O objetivo do C3 é o de registrar as cessões de crédito, impedindo a venda de um mesmo crédito a dois ou mais cessionários. A Resolução 3.998 do Banco Central, de 28 de julho de 2011, que autorizou a criação do Sistema, determinou também a obrigatoriedade do registro das cessões de créditos a FIDCs. Assim, o Banco Central poderá monitorar diariamente essas operações. Os exemplos citados mostram a importância para investidores, gestores e reguladores de se conhecer bem o produto. Particularmente importante é a questão do apreçamento das cotas. Em um mercado com pouca liquidez, como é o caso do de cotas de FIDC, torna-se essencial conhecer os fatores que influenciam nos valores das cotas, bem como saber calcular o seu real valor. No entanto, são raros os estudos acadêmicos que tratam desse assunto. Nesse sentido, propõe-se nesta tese de doutorado o desenvolvimento de três ensaios com foco no apreçamento de cotas de FIDC. No primeiro ensaio, o objetivo é identificar os fatores relacionados a características presentes nas emissões de cotas de FIDCs que podem explicar o nível dos spreads nas rentabilidades-alvo de cotas seniores. Esses spreads são definidos na época de emissão das cotas e permanecem constantes ao longo do prazo de 6 duração da emissão. Para tanto, é construído um banco de dados com características das emissões extraídas a partir de informações disponíveis nos prospectos de emissão das cotas dos FIDCs. Que é de nosso conhecimento, este é o primeiro estudo sobre FIDCs que analisa esse spread da rentabilidade-alvo das cotas seniores e o que possui o banco de dados mais extenso. O Ensaio 2 utiliza os fatores identificados no Ensaio 1 para a construção de um modelo teórico que permite a determinação do valor das diferentes classes de cotas que compõem um FIDC, com a consequente determinação de suas respectivas rentabilidades. Também não foi identificada a existência de estudo anterior com esse propósito. O modelo desenvolvido é aplicado sobre um FIDC hipotético, com características típicas dos FIDCs do banco de dados da Ensaio 1, e então é realizada uma análise de sensibilidade dos diversos fatores que compõe o modelo, para se determinar o seu efeito nos valores das cotas. No Ensaio 3 aplica-se o modelo teórico desenvolvido no Ensaio 2 a dois casos reais. O primeiro é o Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. Para esse fundo, foram comparados os resultados de valores das cotas seniores, mezanino e subordinadas calculados com o modelo e os valores contábeis informados pelo fundo. Como praticamente não há negociações de cotas de FIDC no mercado secundário, não pôde ser realizada comparação com valores de mercado. O segundo caso analisado foi o do RB Capital Agre FII. Apesar de ser um fundo imobiliário, o RB Capital Agre possui uma estrutura semelhante a um FIDC, com a vantagem de ter mais negociações das cotas seniores no mercado secundário. Assim, para esse fundo, os resultados alcançados com o modelo de apreçamento puderam ser comparados com os valores contábeis e com os de mercado. 7 ENSAIO 1 A Influência de Características da Emissão de Cotas de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) nos Spreads das Rentabilidades-Alvo de Cotas Seniores 8 RESUMO Este estudo tem como objetivo principal identificar fatores presentes nas emissões de FIDCs fechados que podem explicar o nível dos spreads nas rentabilidades-alvo de cotas seniores. Esses spreads são definidos na época de emissão das cotas e permanecem constantes ao longo do prazo de duração da emissão. Que é de nosso conhecimento, este é o primeiro estudo sobre FIDCs que analisa o spread da rentabilidade-alvo das cotas seniores de um FIDC e o que possui o banco de dados mais extenso. Foram feitas análises em dois grupos distintos de FIDCs, um com rentabilidade-alvo expressa na forma spread % CDI e outro na forma CDI + spread. Os resultados apontaram significância do rating, existência de tranche mezanino, existência de coobrigação, vida média, nível da taxa CDI e existência de procedimento de bookbuilding. Observou-se que ao longo do período analisado houve mudança nas características de emissão das cotas. ABSTRACT This study aims to identify the main factors present in FIDCs’ issues that may explain the spread levels in senior securities target returns. These spreads are defined at the time of the issue and remain constant throughout the issue term. From our knowledge, this is the first study that analyzes FIDCs’ spread in target returns and the one with the most extensive database. Analysis was conducted in two distinct groups of FIDCs: one with target returns expressed as spread % of CDI and another as CDI + spread. The results showed the significance of rating, mezzanine tranche, credit enhancement, average life, level of CDI and the existence of a bookbuilding process. It was observed that during the analyzed period there was a change in the issues’ characteristics. 9 1 INTRODUÇÃO O crescimento das operações de securitização de ativos, principalmente nos mercados americano e europeu, trouxe a atenção do mundo acadêmico. No entanto, não é raro encontrar artigos recentes que mencionam a pouca produção acadêmica sobre o assunto, principalmente quando comparada a de outros mercados de renda fixa, como o de debêntures. Embora a maior parte desses artigos possua enfoque teórico, com poucos tratando de estudos empíricos, há diversos artigos importantes no auxílio à compreensão de questões relacionadas com o apreçamento de operações de securitização. Com relação às operações de securitização no Brasil, realizadas por intermédio dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), a produção acadêmica nacional possui características semelhantes, com poucos artigos publicados em comparação com a de outros instrumentos de renda fixa, mesmo por quê, o mercado de FIDCs no Brasil começou somente no final de 2001. Ao longo desta seção, serão descritos, de forma resumida, alguns dos principais trabalhos acadêmicos internacionais e nacionais que tratam de operações de securitização, bem como mencionadas suas conclusões mais importantes relacionadas a aspectos envolvendo o apreçamento dessas operações. 1.1 REVISÃO DE LITERATURA INTERNACIONAL A securitização pode ser definida como um processo ou técnica para transformação de fluxos financeiros advindos de ativos ilíquidos em títulos mobiliários líquidos para venda a investidores. Nesse processo de transformação, deve-se lidar com a questão de assimetria de informação entre emissor e investidor. Não é à toa que boa parte dos estudos teóricos está relacionada com esse tema. Por exemplo, Greenbaum e Thakor (1987), a partir de um modelo que considera assimetria de informação, concluem que bancos devem securitizar créditos de boa qualidade e emitir certificados de depósitos para lastrear ativos de qualidade inferior. Outro trabalho bastante citado na literatura de securitizações é o de Boot e Thakor (1993), que demonstra que, em um ambiente com assimetria de informação, o valor total de uma emissão aumenta se a securitização de ativos for estruturada em mais de uma tranche (ou classe) com características de risco distintas, onde investidores mais bem informados podem 10 adquirir títulos mobiliários de tranches com maior risco, obtendo maior rentabilidade. Riddiough (1997) estende o modelo de Boot e Thakor (1993) de forma a incluir aspectos de governança presentes em uma securitização. A partir de tal modelo, o autor mostra que: a) a estrutura deve prever que parte da emissão seja retida pelo próprio emissor. Essa parte deve ser subordinada (classe subordinada) em relação aos demais títulos mobiliários emitidos, de modo a arcar prioritariamente com os prejuízos decorrentes na hipótese de default dos devedores dos direitos creditórios, diminuindo assim a assimetria de informação; b) o nível de subordinação dessa tranche pode ser incrementado em relação ao necessário, para mitigar o efeito do risco de seleção adversa dos ativos securitizados; c) uma vez que o próprio emissor adquire parte da emissão e é também responsável pela renegociação da dívida em caso de default dos devedores, devem ser previstas formas de restrição de extensão da dívida, pois o emissor pode renegociar a dívida em seu benefício, em detrimento das cotas da classe sênior. O modelo de Riddiough (1997), segundo o próprio autor, possui algumas implicações empíricas a saber: a) níveis de subordinação e qualidade dos ativos securitizados são relacionados negativamente, assim como níveis de subordinação e o grau de diversificação dos ativos; b) à medida que o tempo passa, a qualidade dos ativos securitizados vai se revelando. Assim, avaliações de crédito na emissão tendem a melhorar (na média) ao longo do tempo, com a velocidade da melhoria sendo negativamente relacionada com a qualidade com que o ativo securitizado é percebido na época da emissão; e c) níveis de subordinação estão positivamente relacionados com a capacidade de renegociação da dívida pelo emissor, no caso de default dos devedores. DeMarzo e Duffie (1999) também analisam a estrutura ótima de securitização sob a perspectiva da falta de liquidez causada pela assimetria de informação entre emissor e investidor. Da mesma forma que Riddiough (1997), o estudo conclui que há uma compensação entre o custo de o emissor reter tranche subordinada da emissão, diminuindo assimetria de informação, e o custo da redução de liquidez causada pela desconfiança do investidor, caso o emissor não seja responsável de forma prioritária nos riscos. Plantin (2004) elabora um modelo que considera uma securitização com mais de duas tranches. O autor conclui que a divisão da emissão em mais tranches implica aumento no seu valor total. DeMarzo (2005) desenvolve modelos de intermediação financeira e conclui que, para 11 intermediários financeiros com informação superior, o “empacotamento” de ativos pelo originador não é vantajoso, pois há perda de informação dos ativos individuais. No entanto, nos casos de informação incompleta, a redução de risco atribuída ao “empacotamento” de ativos e o posterior aumento de liquidez resultante da divisão da emissão de títulos em tranches pode representar uma solução ótima para o intermediário financeiro. No campo dos trabalhos empíricos, Lockwood, Rutherford e Herrera (1996), utilizando a técnica de estudo de eventos, avaliam o efeito do anúncio de securitizações de ativos sobre o valor de empresas pertencentes a quatro grupos distintos (bancos, financeiras, companhias automotivas e outras empresas industriais), com ações negociadas na NASDAQ entre janeiro de 1985 e dezembro de 1992. Os autores concluem que, para financeiras e bancos, o anúncio de uma securitização implica aumento de valor, enquanto que para bancos pequenos há perda de valor e para empresas do setor industrial não há influência. Thomas (1999) efetua análise semelhante, mas sobre empresas americanas que emitiram títulos securitizados não garantidos pelo governo entre janeiro de 1991 e dezembro de 1996. O autor encontrou indícios de que a securitização aumenta o valor das ações enquanto possui efeito insignificante sobre títulos representativos de dívidas. Diferentemente dos resultados encontrados por Lockwood, Rutherford e Herrera (1996), o aumento no valor das ações de empresas do setor industrial foi mais significante do que no de bancos e financeiras. Ammer e Clinton (2004) estudam o efeito da mudança da avaliação de crédito sobre securitizações de ativos já emitidas, verificando que a redução nessa avaliação possui forte impacto negativo sobre os spreads dos títulos, enquanto que a melhora possui, na média, efeito praticamente nulo. Firla-Cuchra e Jenkinson (2005) analisam emissões de securitização de ativos no mercado europeu entre 1987 e 2003 e concluem que há evidências de que a existência de assimetria de informação e a segmentação de mercado explicam a estrutura de subordinação de um processo de securitização, o que estaria em acordo com os modelos teóricos. Jobst (2005) elabora um modelo para apreçamento de tranches, baseado em distribuição de perdas decorrentes de default em empréstimos bancários securitizados. Por meio de simulações, o autor examina como o processo de subordinação entre tranches transforma o risco de crédito de default dos ativos securitizados em risco de investimento dos títulos mobiliários. O resultado mostra que a tranche mais júnior possui elevada expectativa de perda, com consequente maior retorno para o investidor, enquanto as demais tranches sofrem em decorrência de perdas não esperadas. Seguindo o trabalho de Ammer e Clinton (2004), que analisava o efeito da mudança do rating de crédito nos spreads, surgiram alguns estudos que se concentraram em verificar 12 outras causas que poderiam determinar o nível dos spreads no momento da emissão dos títulos mobiliários decorrentes de securitização. O trabalho de Firla-Cuchra (2005) foi o primeiro desse tipo. O autor analisa 5.161 tranches, tanto de classe sênior quanto subordinada, provenientes de processos de securitização na Europa entre 1987 e 2003. A análise foi realizada por meio de uma regressão linear, cujas variáveis independentes procuravam refletir características relacionadas a cinco grupos: (i) condições econômicas de mercado na data de emissão (nível da taxa de juros e inclinação da curva da estrutura a termo das taxas, risco cambial); (ii) características da estrutura de fluxo de caixa (vida média da emissão, classe da tranche); (iii) ratings de crédito; (iv) variáveis dummies para controle de data; e (v) diversos fatores que poderiam ou não ter sido considerados pelas agências classificadoras de risco na avaliação, tais como tipo de ativo securitizado, direitos dos credores, reputação do estruturador da emissão e liquidez, representada pelo tamanho da tranche. Foram feitas regressões adicionando as variáveis de cada grupo de cada vez. Os resultados encontrados levaram o autor a concluir que, principalmente com relação aos spreads na data de emissão: a) existe relação negativa com o nível da taxa de juros do benchmark; b) a vida média da emissão possui relação positiva, indicando que investidores cobram prêmio sobre emissões mais longas; c) existe uma importante relação com ratings de crédito (melhores ratings, spreads menores) para cada tranche, para os diferentes tipos de ativos considerados, com os ratings explicando cerda de 40% dos spreads; d) o tipo de ativo securitizado exerce influência, na medida em que os coeficientes para quase todos os ativos (com exceção de dois entre os dez testados) foram significantes; e) o tamanho da tranche possui relação negativa, sugerindo que existe um efeito de liquidez. Vink e Thibeault (2008) apresentam um trabalho semelhante ao de Firla-Cuchra (2005), mas com foco maior na análise da relação entre a natureza dos ativos securitizados e os spreads. Foram analisadas emissões de 2.427 tranches em mercados fora dos Estados Unidos entre janeiro de 1999 e março de 2005. O estudo utiliza também regressão linear para análise. As variáveis independentes são divididas em três grupos: (i) expectativa de perda devido ao risco de default (rating, nível de subordinação, tipo de originador, natureza dos ativos, reforços para mitigar risco de crédito, tais como garantias e coobrigações); (ii) negociação dos títulos no mercado (tamanho da tranche, número de tranches, tipo da taxa de juros, quantidade de agências de risco); e (iii) risco sistêmico (país de origem, direitos dos 13 credores, risco cambial, risco legal). Segundo os autores, a regressão apresentou evidências sobre os seguintes resultados: a) ativos de natureza fungível correspondem a emissões com spreads menores do que as de ativos infungíveis; b) todos os ratings mostraram-se significantes, apresentando relação negativa com os spreads; c) o nível de subordinação apresentou relação negativa com os spreads, o que, segundo os autores, é uma surpresa, pois esperavam que a relação não fosse significante, uma vez que os ratings de crédito deveriam estar capturando essa característica; d) emissões de maior vencimento possuem maiores spreads; e) reforços de crédito diminuem spreads, o que, segundo os autores, também é inesperado, uma vez que os ratings de crédito também deveriam ter capturado essa informação; e f) o número de tranches para uma emissão não apresentou significância. Vink e Fabozzi (2009) também conduzem estudo sobre causas no nível de spreads em emissão de securitizações baseado em modelo de regressão linear e concluem que variáveis redundantes ao rating de crédito, além do próprio rating, tais como coobrigação e subordinação, são significantes e explicam boa parte dos spreads. 1.2 REVISÃO DE LITERATURA NACIONAL A literatura acadêmica nacional também tem contribuído para melhor compreensão de questões relativas ao apreçamento de FIDCs. Por exemplo, Luxo (2007), por meio de modelo teórico e testes empíricos, sugere que há evidências da influência da securitização de ativos sobre os indicadores financeiros e o beta de empresas brasileiras que obtém capital por meio de operações estruturadas. Pulino (2008) compara os ratings de emissões de títulos securitizados com os de títulos de dívida corporativa referentes ao mesmo originador e conclui que há evidências de que o custo de capital proporcionado a empresas brasileiras não financeiras por meio da estruturação de FIDCs pode ser inferior ao custo de capital associado a operações de crédito tradicionais. Pinheiro e Savoia (2009) avaliam os riscos e os retornos para os investidores em cotas de FIDCs. O trabalho utiliza um modelo de simulação estocástica de taxas de juros e de taxas de inadimplência, considerando características do fundo, tais como percentual de cotas subordinadas, tipo de ativo securitizado e proporção de recebíveis sobre o ativo total do 14 fundo. Segundo os autores, os resultados mostram que é improvável a obtenção de retorno para cotas seniores inferior à remuneração alvo estabelecida, enquanto que, para cotas subordinadas, o risco de retorno inferior à taxa de juros é baixo. Ainda segundo os autores, os resultados mostram também que, em níveis normais de volatilidade das taxas de juros, as perdas de crédito são a componente principal do risco das cotas. O estudo de Catão, Rodrigues e Libonati (2009) indica que há efeito da securitização nos índices de alavancagem, liquidez e qualidade de crédito da carteira de bancos nacionais, mas que, dependendo do banco, esse efeito pode ser positivo ou negativo para esses índices. Silva (2010) faz descrição sobre o mercado de FIDCs, destacando sua origem e evolução, bem como apresenta os aspectos legais, elementos e participantes que compõem esse mercado. Souza (2010) realiza um estudo de caso onde descreve o processo de estruturação de um FIDC aplicado a operações ligadas ao agronegócio, particularmente relacionadas a empresas de açúcar e álcool. Goldberg (2011) usa técnica de estudo de evento para avaliar se o anúncio de emissão de títulos via um FIDC tem impacto no preço da ação da empresa. O autor conclui que não há evidência que possa sugerir esse efeito. O Quadro 1 a seguir apresenta um resumo dos estudos mencionados acima, na ordem em que foram citados. Quadro 1 – Resumo dos trabalhos mencionados até o momento Tema Tipo de estudo Resultados Autores Assimetria de informação e decisão sobre créditos a serem securitizados Modelo teórico Bancos devem securitizar créditos de boa qualidade e emitir certificados de depósito para os de qualidade inferior. Greenbaum e Thakor (1987) Efeito da existência de mais de uma tranche em uma estrutura de securitização no valor da emissão Extensão do modelo de Boot e Thakor (1993) de forma a incluir aspectos relacionados à governança (continua) Modelo teórico Modelo teórico Valor total da emissão aumenta se a securitização for estruturada em mais de uma tranche com características distintas. Estrutura deve prever que parte da emissão seja retida pelo emissor. Elevação no nível de subordinação mitiga o efeito do risco de seleção adversa dos ativos securitizados. Nível de subordinação é negativamente correlacionado com a qualidade e o grau de diversificação dos ativos securitizados e positivamente correlacionado com o poder de negociação da dívida pelo emissor. Boot e Thakor (1993) Riddiough (1997) 15 Quadro 1 – Resumo dos trabalhos mencionados até o momento (continuação) Tema Tipo de estudo Resultados Estrutura ótima de securitização sob a perspectiva da falta de liquidez causada por assimetria de informação entre emissor e investidor Modelo teórico Efeito da quantidade de tranches no valor total da securitização Modelo teórico A divisão da emissão em mais do que duas tranches implica aumento no seu valor real. Plantin (2004) Modelo teórico O “empacotamento” de ativos não é vantajoso para intermediários financeiros com informação superior e vantajoso para intermediários financeiros com informação incompleta. DeMarzo (2005) Efeito do anúncio de securitização no valor das empresas Modelo empírico (Estudo de eventos) Há evidências de que para financeiras e bancos de maior porte, securitização implica aumento de valor; para bancos de pequeno porte, redução de valor; e para empresas do setor industrial, não há influência. Lockwood, Rutherford e Herrera (1996) Estudo semelhante ao de Lockwood et al. (1996), mas considerando apenas empresas cujos títulos securitizados não eram garantidos pelo governo Modelo empírico (Estudo de eventos) Efeito da mudança na avaliação de crédito sobre o valor de securitizações já emitidas Modelo empírico (Estudo de eventos) Qualidade da informação e intermediação financeira em processos de securitização Análise de emissões de títulos de securitização e verificação de que assimetria de informação e segmentação de mercado explicam a estrutura de subordinação. (continua) Modelo empírico (Regressão linear) Há compensação entre o custo de o emissor reter a tranche subordinada para diminuir assimetria de informação e o custo de redução de liquidez causada pela desconfiança do investidor. Autores Há evidências de que a securitização aumenta o valor das ações, sendo que para empresas do setor industrial, esse aumento é mais significante do que para bancos e financeiras. Há evidências de que a redução na avaliação de risco de crédito possui forte impacto negativo nos spreads, sendo que a melhora nessa avaliação apresenta efeito quase nulo. Há evidências de que a existência de assimetria de informação e a segmentação de mercado explicam a estrutura de subordinação de um processo de securitização. DeMarzo e Duffie (1999) Thomas (1999) Ammer e Clinton (2004) Firla-Cuchra e Jenkinson (2005) 16 Quadro 1 – Resumo dos trabalhos mencionados até o momento (continuação) Tema Exame do processo de subordinação a partir da elaboração de modelo para apreçamento de tranches, baseado em distribuição de perdas em empréstimos securitizados Identificação das causas que determinam o nível dos spreads no momento da emissão dos títulos mobiliários decorrentes de securitização. Semelhante ao trabalho de Firla-Cuchra (2005), mas com foco na natureza dos ativos securitizados. Semelhante ao trabalho de Firla-Cuchra (2005), mas com foco na discussão do excesso de confiança na avaliação de crédito como indicativo do nível dos spreads. Analisa a influência da securitização nos indicadores financeiros e na percepção de risco de empresas brasileiras que obtiveram capital por meio dessas operações. (continua) Tipo de estudo Resultados Autores Modelo Teórico e modelo empírico (simulação) Modelo para examinar como o processo de subordinação entre tranches transforma o risco de crédito dos ativos securitizados em risco de investimento dos títulos imobiliários. O resultado mostra que a tranche mais júnior possui elevada expectativa de perda, com consequente maior retorno para o investidor, enquanto as demais tranches sofrem em decorrência de perdas não esperadas. Jobst (2005) Modelo empírico (Regressão linear) Com relação ao spread, há evidências de que: existe relação negativa com o nível da taxa de juros; a vida média da emissão possui relação positiva; melhores ratings implicam menores spreads; tipo de ativo securitizado exerce influência (exceto quando os direitos são representativos de cartão de crédito ou hipotecas residenciais); o tamanho da tranche possui relação negativa. Firla-Cuchra (2005) Modelo empírico (Regressão linear) Há evidências de que ativos de natureza fungível correspondem a emissões com spreads menores do que ativos infungíveis; todos os ratings foram significantes, sendo que ratings melhores correspondem a spreads menores; nível de subordinação possui relação negativa com spreads; emissões com maior vencimento possuem spreads maiores; reforços de crédito diminuem spreads; número de tranches não apresentou significância. Vink e Thibeault (2008) Modelo empírico (Regressão linear) Modelo empírico (Regressão linear) Há evidências de que as variáveis coobrigação e subordinação, redundantes ao rating de crédito, além do próprio rating, são significantes e explicam boa parte dos spreads. Há evidências da influência da securitização de ativos sobre os indicadores financeiros e o beta de empresas brasileiras que obtém capital por meio de operações estruturadas. Vink e Fabozzi (2009) Luxo (2007) 17 Quadro 1 – Resumo dos trabalhos mencionados até o momento (continuação) Tema Tipo de estudo Avalia o custo de capital obtido por meio de operações de securitização em comparação com o obtido por meio de operações de crédito tradicionais. Modelo empírico (Análise comparativa de estatísticas descritivas) Resultados Há evidências de que o custo de capital proporcionado a empresas brasileiras não financeiras por meio da estruturação de FIDCs pode ser inferior ao custo de capital associado a operações de crédito tradicionais. Autores Pulino (2008) Avaliação de riscos e retornos para investidores em cotas de FIDCs Modelo empírico (Simulação) É improvável a obtenção de retorno para cotas seniores inferior à remuneração-alvo estabelecida, enquanto que para cotas subordinadas, o risco de retorno inferior à taxa de juros é baixo. Efeito da securitização em índices contábeis de bancos Modelo empírico (Análise comparativa por meio de coeficientes de correlação) Há evidências de que há efeito da securitização nos índices de alavancagem, liquidez e qualidade de crédito da carteira dos bancos nacionais, mas esse efeito pode ser positivo ou negativo, dependendo do banco. Catão, Rodrigues e Libonati (2009) Descrição do mercado de FIDCs Análise descritiva Descreve o mercado de FIDC, destacando origem, evolução, aspectos legais, elementos e participantes. Silva (2010) Descrição do procedimento de securitização no setor de agronegócios Análise descritiva Avaliação do anúncio de oferta de cotas de FIDC no preço de ações de uma empresa Modelo empírico (Estudo de eventos) Descreve processo de estruturação de FIDC aplicado ao agronegócio. Não há evidência de que o anúncio de emissão de títulos via FIDC possui influência no preço da ação de uma empresa. Pinheiro e Savoia (2009) Souza (2010) Goldberg (2011) 1.3 OBJETIVO A questão do apreçamento de um FIDC é de grande relevância. Tanto gestores, quanto investidores e reguladores, necessitam saber quanto vale esse tipo de investimento, para que cada um possa tomar medidas com vistas ao cumprimento do seu objetivo específico. No entanto, como visto, há poucos trabalhos sobre o assunto. Nosso estudo visa justamente a compreender melhor o FIDC, isto é, a entender como as diversas características presentes no momento da oferta das cotas influenciam no spread indicado na rentabilidade dessas cotas. 18 Especificamente neste ensaio, o foco está nas cotas seniores. As cotas subordinadas são normalmente adquiridas pelos cedentes do FIDC, como forma de sinalizar ao mercado a mitigação de risco de crédito dos ativos securitizados. O interesse deste estudo está na perspectiva do investidor nesses fundos. Dentre as variáveis a serem analisadas, estão incluídas algumas que a literatura tem indicado como relevantes, bem como outras variáveis que se julgou importantes e que não foram consideradas em estudos anteriores sobre o assunto. Uma dessas características é a existência de procedimento de bookbuilding, a outra é o valor da taxa de administração. Importante destacar que os spreads tratados aqui, apesar de serem definidos na época da emissão da oferta, fazem parte da rentabilidade-alvo das cotas, que é válida para todo o prazo de duração da emissão. Embora não seja obrigatório que essa rentabilidade-alvo seja atingida, procura-se alcançar esse objetivo, pois a rentabilidade das cotas subordinadas é determinada pelo excesso de rentabilidade, após cumprida a obrigação de se pagar aos cotistas mais seniores o que foi especificado. A rentabilidade-alvo é pós-fixada em relação a um determinado índice de referência (benchmark). Portanto, os spreads em relação ao benchmark, definidos na época da oferta da emissão, permanecerão constantes até o vencimento dessa emissão. Este trabalho é próximo dos elaborados por Firla-Cuchra (2005) e Vink e Thibeault (2008). Enquanto este estudo estava sendo preparado, tivemos acesso aos trabalhos de Oliveira (2012) e, em seguida, Zacchello (2010), que versam sobre a identificação de fatores que podem explicar spreads na emissão de cotas de FIDCs, a partir de características presentes nesses fundos. Zacchello (2010) analisa 113 ofertas públicas indexadas ao CDI, entre 2002 e 2009, a partir da base de dados da CVM, enquanto Oliveira (2012) estuda 101 emissões realizadas entre 2004 e 2011 também a partir de informações da CVM. Entretanto, uma diferença importante entre esses dois trabalhos e este é que, conforme foi destacado, nosso foco está sobre o spread da rentabilidade-alvo, constante ao longo da vida da emissão, enquanto que nos dois trabalhos mencionados, o spread utilizado foi calculado na data da emissão, com base nas taxas de juros de referência à época, obtidas para o período de duração das emissões. Essa diferença de abordagem na consideração dos spreads vai implicar também diferenças metodológicas no tratamento dos dados. Além disso, este estudo possui um banco de dados mais extenso, na medida em que se obteve informações de FIDCs a partir de três fontes distintas (CVM, Cetip e BM&FBovespa), enquanto esses trabalhos se basearam em FIDCs relacionados no site da CVM, que não inclui fundos cujo prazo esteja encerrado. 19 O Quadro 2 abaixo traz um resumo das características analisadas nos modelos de regressão linear dos quatro estudos mencionados no parágrafo anterior. Quadro 2 – Lista das variáveis independentes analisadas nos modelos de regressão linear de trabalhos semelhantes. Variável dependente: spread na emissão. Variáveis independentes* Autores Firla-Cuchra (2005) Rating, taxa de juros, inclinação curva de juros, volatilidade implícita da taxa de juros, natureza dos ativos securitizados, época da emissão, vida média ponderada da emissão, senioridade da tranche, tamanho da tranche, número total de tranches na emissão, número de administradores na emissão, país de origem, direitos dos credores. Rating, tipo de taxa de juros (fixa ou flutuante), nível de subordinação, natureza dos ativos securitizados, época da emissão, vencimento, tamanho da tranche, número de Vink e Thibeault (2008) tranches, tipo de originador, número de administradores, número de agências de rating, reforços de crédito, tipo de mercado, país de origem, direitos dos credores, risco da moeda. Zacchello (2010) Rating, Ibovespa, nível de subordinação, natureza dos ativos securitizados, época da emissão, duration, vencimento, tamanho da tranche, existência de amortização, nome do custodiante, nome do administrador, concentração de cedentes, concentração de sacados, fundo mono ou multi-cedente, número de investidores nas cotas seniores. Oliveira (2012) Rating, taxa CDI, Ibovespa, nível de subordinação, natureza dos ativos, duration, vencimento, tamanho da tranche, nome do custodiante, nome do administrador, concentração de cedentes, concentração de sacados, capital aberto ou não, % inadimplência do SFN. * Se referem à data de emissão da oferta dos títulos mobiliários Verifica-se no quadro acima que as variáveis rating, natureza dos ativos, tamanho da tranche e prazo estão presentes em todos os estudos. As demais variáveis independentes são incorporadas aos modelos conforme o foco que cada estudo pretende dar. Este trabalho está dividido da seguinte forma. A Sessão 2 trata da metodologia empregada. Serão apresentados o modelo de regressão e as hipóteses relacionadas a cada variável que o compõe. Na Sessão 3 descreve-se o banco de dados; como foi construído e as adaptações para aplicação da metodologia. Na Sessão 4 é feita a análise dos resultados encontrados. A Sessão 5 traz a conclusão. 20 2 METODOLOGIA A partir dos resultados observados na revisão de literatura, conclui-se que certas variáveis podem ser relevantes na determinação do spread em ofertas de cotas de FIDC. Essas variáveis representam características relacionadas a risco de crédito, estrutura do FIDC e seu fluxo de caixa, bem como condições econômicas existentes na época da emissão. Neste estudo será utilizado um modelo de regressão linear, onde os coeficientes serão obtidos pelo método dos mínimos quadrados. O modelo a ser analisado terá a seguinte forma: Spread = α + β1 .rating + β2 .natureza ativo + β3 .mezanino + β4 .coobrigação + β5 .nível de subordinação + β6 .vida média + β7 .tamanho tranche sênior + β8 .bookbuilding + β9 .taxa de administração + β10 .nível CDI + β11 .inclinação da curva de taxa de juros + β12 .época de emissão recente + ϵ A escolha das variáveis que compõem o modelo tomou por base trabalhos anteriores sobre o assunto (Firla-Cuchra [2005] e Vink e Thibeault [2008]). As variáveis utilizadas nesses dois trabalhos já foram mencionadas no Quadro 2. Conforme será esclarecido adiante, o efeito das variáveis natureza do ativo, mezanino, coobrigação e nível de subordinação poderia já estar incluído no rating. Esse fato indica que o modelo possui variáveis com multicolinearidade, a qual, dependendo do seu grau, pode trazer alguns problemas à análise. Conforme Hair et al. (2009, p. 191-192), dentre os efeitos indesejados trazidos pela multicolinearidade estão: a) comprometimento da capacidade de os coeficientes da regressão serem significantes; b) coeficientes de regressão incorretamente estimados, podendo até mesmo possuir sinais trocados no caso de alto grau de multicolinearidade; c) os efeitos das variáveis independentes individuais se tornam menos distinguíveis, o que pode comprometer a compreensão do efeito de determinada variável independente na variável dependente. Dessa forma, torna-se importante investigar o grau de multicolinearidade presente no modelo, para que a análise dos coeficientes possa ser realizada de forma satisfatória. Ressalta- 21 se por oportuno, que o fato de não ser comprovada multicolinearidade, não implica que os efeitos mencionados acima não possam existir. Apesar de não se ter identificado na literatura algum trabalho que analisasse o efeito da taxa de administração e da existência de procedimento de bookbuilding em ofertas de títulos de securitização (incluindo cotas de FIDCs), entende-se, pelas razões a serem expostas adiante, que essas variáveis podem exercer essa influência e por isso decidimos incluí-las no modelo. Segue abaixo uma descrição sobre cada variável do modelo de regressão. VARIÁVEL DEPENDENTE (SPREAD) A rentabilidade-alvo das cotas seniores de um FIDC fechado é estabelecida antes do anúncio de distribuição da oferta. Essa rentabilidade-alvo é definida na forma de um spread aplicado sobre um valor de referência (benchmark), que, no caso dos FIDCs, é normalmente a taxa dos certificados de depósito interbancário (taxa dos CDI, chamada também apenas de CDI) ou um índice atrelado à inflação (IPCA, IGPM). Quando o benchmark utilizado é o CDI, existem duas formas comumente usadas pelo mercado para expressar o spread: “% CDI” ou “CDI +”. Em virtude da pouca quantidade de FIDCs cuja rentabilidade-alvo é atrelada a índices de inflação, o que implicaria não confiabilidade dos resultados gerados na regressão, neste estudo serão analisados apenas os fundos com benchmark de rentabilidade sendo a taxa de CDI. Uma vez que o spread para esse benchmark é expresso de duas formas, criamos dois grupos de FIDCs, um para cada forma. Ao longo do texto os FIDCs, cuja rentabilidade-alvo é expressa na forma spread % CDI, serão denominados como grupo % CDI, enquanto que o grupo de FIDCs, cuja rentabilidade-alvo é expressa na forma CDI + spread, será chamado de grupo CDI +. Essa diferença na forma como as rentabilidades-alvo são expressas traz um aspecto importante. Ao se substituir a taxa de referência (CDI) por um valor, o spread definido como no grupo CDI + não sofre influência, mas o spread definido como no grupo % CDI sim. Por exemplo, o spread definido como CDI + 2% será sempre de 2%, não importa o valor do CDI, mas se o spread fosse definido como 120% CDI, isso não ocorreria. Se o CDI médio previsto no momento da emissão para o prazo de duração do fundo fosse 10% a.a., o spread de 120% CDI calculado naquela data seria 1,82% a.a., mas se o CDI fosse 20%, o spread seria 3,33% a.a.2 2 120% x 10% = 12%; spread= ( %) ( %) − 1 = 1,82% 22 Ao definir o valor do spread na variável dependente simplesmente como 120%, sem calcular um valor substituindo o CDI, eliminamos a possibilidade dessa diferença. Desse modo, não há perda do efeito de pós-fixação pela taxa do CDI, já que o spread de 120% será constante ao longo da vida da emissão e é com base nesse valor que o investidor irá tomar a decisão de adquirir cotas do FIDC. A implicação direta disso é que os dois grupos de FIDCs não podem ser juntados em um conjunto único de observações e a aplicação do modelo deverá ser realizada para cada grupo. VARIÁVEIS INDEPENDENTES RATING Ao se observar os relatórios de risco elaborados pelas agências classificadoras para as emissões de FIDCs, pode-se verificar que as análises para atribuição de ratings baseiam-se praticamente nos mesmos fatores. Mantovani e Santos (2007) descrevem o processo de classificação da Austin Ratings para emissão de FIDCs. A Standard & Poor’s também documenta suas premissas e metodologia utilizadas na análise de rating de operações estruturadas (2009). Moody’s e Fitch divulgam critérios de classificação conforme o tipo de ativo securitizado. 3 O rating de uma oferta de cotas objeto de uma securitização reflete a avaliação do risco de um FIDC deixar de honrar suas obrigações com os investidores. Com base nas metodologias divulgadas pelas agências, pode-se citar como principais fatores levados em consideração na avaliação de risco os seguintes: a) partes envolvidas (originador, emissor, custodiante, recebedor dos créditos, agentes intermediários); b) qualidade da carteira (homogeneidade, região geográfica, setor, perda histórica, níveis de concentração de sacados e cedentes, garantias contratuais, regularidade na geração de caixa); c) reforços de crédito (spread excedente, subordinação, sobrecolateralização, reservas de capital, coobrigação/seguro/fiança); e d) estrutura financeira (fluxo de caixa). 120% x 20% = 24%; spread= 3 ( %) ( %) − 1 = 3,33% Moody’s:<http://www.moodys.com/Pages/rr004_0.aspx?bd=4294965756&rd=4294965756%204294966667 &ed=4294966848&tb=0&po=0&sb=&sd=0&rdt=&rdtid=&lang=pt&cy=bra> Fitch:<http://www.fitchratings.com/jsp/general/Research.faces?Ne=1195+4293330944&N=363+429333072 8&Ns=PUB_DATE|1&listingName=criteriaReport> 23 Cada agência classificadora possui sua própria escala de rating, entretanto essas escalas são comparáveis. Com base na amostra que compõe o banco de dados a ser detalhado na Seção 3 deste trabalho, verifica-se que o menor grau de classificação de risco atribuído a um FIDC até o momento foi A-. Para graus de classificação acima desse, as escalas entre as agências são praticamente as mesmas. O Bank for International Settlement – BIS possui uma tabela comparativa entre as escalas de classificação de risco de longo prazo da Standard & Poor`s, Moody`s e Fitch. 4 A Tabela 1 abaixo apresenta a equivalência entre as escalas para emissões de longo prazo, isto é, com vencimento acima de 12 meses, de todas as agências de rating que avaliam emissões de FIDCs. AAA corresponde à melhor avaliação. Tabela 1 – Comparação entre as escalas de rating para emissões de longo prazo (acima de 12 meses) das agências classificadoras de risco de FIDC. Moody's S&P Fitch Austin LF SR Aaa AAA AAA AAA AAA AAA Aa1 AA+ AA+ AA+ AA+ AA+ Aa2 AA AA AA AA AA Aa3 AA- AA- AA- AA- AA- A1 A+ A+ A+ A+ A+ A2 A A A A A A- A- A- A- A3 AFontes: BIS e agências classificadoras. Abreviação dos nomes das agências de rating - Moody’s: Moody’s Investors Service;; S&P: Standard & Poor’s Rating Services;; Fitch: Fitch Ratings;; Austin: Austin Rating;; LF: LF Rating;; SR: SR Rating. As escalas de rating nesta tabela correspondem àquelas identificadas na amostra de FIDCs que compõem o banco de dados, a ser detalhado na Seção 3 deste trabalho, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Na tabela 1 acima, observa-se que as avaliações de rating variam entre 7 categorias, de A- (ou A3) a AAA ou (Aaa). Conforme será visto no detalhamento do banco de dados, para várias dessas categorias houve poucas observações, tendo sido necessário agrupá-las, resultando em 3 grupos de avaliações. Os FIDCs avaliados AAA permaneceram sem alteração. Os FIDCs avaliados em AA+ (ou Aa1), AA (ou Aa2) e AA- (ou Aa3) foram agrupados como AA. Os FIDCs A+ (ou A1), A (ou A2) e A- (ou A3) foram agrupados como A. No modelo de regressão, a variável rating será do tipo dummy. Esse tipo de variável foi escolhido em vez de se adotar um índice correspondente a cada grau de rating, pois, dessa forma, será possível capturar efeitos não lineares decorrentes da classificação de risco. A 4 <http://www.bis.org/bcbs/qis/qisrating.htm> 24 definição de índices, como, por exemplo, AAA = 1, AA+ = 2, AA = 3, implicaria se estabelecer uma relação em que emissões com rating AA teriam uma contribuição três vezes maior sobre a rentabilidade em relação a emissões com rating AAA, fato que não possui fundamentação teórica. A avaliação de crédito de cada emissão, concedido por agências de classificação de risco, é, conforme foi visto na revisão de literatura (Firla-Cuchra (2005), Vink e Thibeault (2008) e Vink e Fabozzi (2009)), o principal componente que explica os spreads em emissões de securitização. Espera-se uma relação negativa entre o spread e o grau de rating da emissão, isto é, melhores graus de avaliação devem estar associados a menores níveis de spread. NATUREZA DO ATIVO Os FIDCs possuem ativos securitizados de diversas naturezas: agronegócio; créditos diversos para pessoa física (por exemplo, créditos consignados e créditos para fins educacionais); créditos para pessoas jurídicas; recebíveis comerciais, industriais ou de serviços; royalties; setor imobiliário; serviços públicos (energia elétrica, saneamento); empréstimos para aquisição de veículos, dentre outros. Entretanto, como será visto na seção referente ao banco de dados, em decorrência da pouca quantidade de observações em nossa base de dados, a divisão de FIDCs de acordo com essas classificações acima implica um número muito pequeno de observações para diversas dessas categorias, o que prejudica a análise dos resultados. Dessa forma, optou-se por dividir os FIDCs, de acordo com a natureza dos seus direitos creditórios, em apenas três grupos: a) Créditos PF - créditos cujos sacados (ou devedores) sejam somente pessoas físicas; b) Créditos PJ – créditos cujos sacados (ou devedores) sejam somente pessoas jurídicas; c) Créditos PF ou PJ – créditos cujos sacados (ou devedores) sejam pessoas físicas ou jurídicas. Conforme documento do BIS, The Internal Ratings-Based Approach (2001), a expectativa é de que o risco de crédito originado por empréstimos a pessoas jurídicas seja maior do que o originado por pessoas físicas. A natureza dos ativos será uma variável dummy. Espera-se que créditos PJ tenham risco maior em relação à categoria de crédito PF ou PJ, que por sua vez tenha risco maior que a categoria créditos PF. Quanto maior o risco decorrente da natureza o ativo, maior deverá ser o spread. 25 MEZANINO A emissão de um FIDC com tranche intermediária tem por objetivo oferecer cotas a uma rentabilidade maior para investidores com maior capacidade de obter informações e assim avaliar melhor o risco envolvido em arcar, de forma prioritária em relação às cotas seniores, com as perdas decorrentes no caso de default dos devedores. Assim, uma vez que a presença desse tipo de investidor pode ser uma sinalização de que os riscos envolvidos na emissão podem estar sendo melhor monitorados, e como os ativos securitizados são os mesmos para toda a emissão, espera-se que os spreads das cotas seniores sofram uma redução para as emissões que possuam tranches intermediárias. Estima-se, portanto, que o coeficiente da variável dummy que indica a presença de tranches mezanino seja negativo. COOBRIGAÇÃO A coobrigação do cedente dos direitos creditórios, no caso do default dos devedores de direitos creditórios, é uma garantia maior para o investidor nas cotas seniores, pois, por ordem do fundo, a cedente é obrigada a trocar esses direitos por outros em que não ocorreu inadimplência. A coobrigação é uma variável dummy, que indica a existência desse tipo de garantia na emissão. Espera-se assim que a relação entre essa variável e o spread na emissão de cotas seniores seja negativa. NÍVEL DE SUBORDINAÇÃO O nível de subordinação é definido conforme abaixo. 𝑁í𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑒 𝑠𝑢𝑏𝑜𝑟𝑑𝑖𝑛𝑎çã𝑜 = ∑ 𝑣𝑎𝑙𝑜𝑟 𝑒𝑚𝑖𝑠𝑠õ𝑒𝑠 𝑑𝑒 𝑡𝑟𝑎𝑛𝑐ℎ𝑒𝑠 𝑠𝑢𝑏𝑜𝑟𝑑𝑖𝑛𝑎𝑑𝑎𝑠 à 𝑡𝑟𝑎𝑛𝑐ℎ𝑒 𝑠ê𝑛𝑖𝑜𝑟 𝑉𝑎𝑙𝑜𝑟 𝑡𝑜𝑡𝑎𝑙 𝑑𝑎 𝑒𝑚𝑖𝑠𝑠ã𝑜 Por exemplo, em um FIDC composto por 10% de cotas subordinadas, 20% de cotas mezanino e 70% de cotas seniores, o nível de subordinação das cotas mezanino é 10%, enquanto o nível de subordinação das cotas seniores é 30% (10% + 20%). As tranches subordinadas suportam, de forma prioritária em relação às cotas seniores, as perdas provenientes do default dos ativos securitizados. Conforme Riddiough (1997), um nível de subordinação maior implica maior proteção para os cotistas seniores e o sinal da relação dessa variável com o spread deve ser negativo. 26 VIDA MÉDIA PONDERADA DA EMISSÃO Os títulos mobiliários lastreados em ativos securitizados têm como importante característica a amortização do principal em datas programadas ao longo do prazo da emissão. Conforme Fabozzi (2007, p. 269-270), esse pré-pagamento do principal traz consequências em relação ao risco de taxa de juros. Assim, o prazo de vencimento da emissão não diz muita coisa em termos desse risco. Como alternativa, uma medida bastante usada no mercado é a vida média ponderada. Ela é definida como: 𝑣𝑖𝑑𝑎 𝑚é𝑑𝑖𝑎 𝑝𝑜𝑛𝑑𝑒𝑟𝑎𝑑𝑎 = ∑ 𝑑𝑎𝑡𝑎 𝑝𝑎𝑔𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 × 𝑝𝑟𝑖𝑛𝑐𝑖𝑝𝑎𝑙 𝑎 𝑠𝑒𝑟 𝑝𝑎𝑔𝑜 𝑇𝑜𝑡𝑎𝑙 𝑑𝑜 𝑝𝑟𝑖𝑛𝑐𝑖𝑝𝑎𝑙 A variável vida média será uma variável numérica. Não é possível prever o sinal dessa variável. Enquanto Jackson e Perraudin (1999), Helwege e Turner (apud Vink e Thibeault [2008]) e Barbosa e Ribeiro (2007) encontraram, por meio de estudos empíricos, relação positiva entre empréstimos e spread, Sarig e Warga (1989) encontraram relação negativa entre essas mesmas variáveis. O modelo teórico de Merton (1974) também prevê a possibilidade da relação negativa entre essas variáveis. Merton considera que o valor das dívidas seniores (com risco) de uma empresa, equivalente às cotas seniores de um FIDC, pode ser determinado como o valor presente da dívida sem risco deduzido do valor de uma opção de venda com preço de exercício e vencimento iguais aos da dívida sem risco. O prazo de vencimento da dívida possui efeito ambíguo no valor dessa opção de venda, pois atua, ao mesmo tempo, no sentido de aumentar o efeito da volatilidade e de reduzir o valor presente da dívida sem risco. TAMANHO DA TRANCHE SÊNIOR Segundo Firla-Cuchra (2005), o tamanho da tranche está relacionado com a liquidez dos títulos mobiliários. Maiores tranches proporcionariam maiores lucros para os market makers (Firla-Cuchra [2005]) e por isso seriam mais líquidas, resultando em spreads menores. O autor sugere ainda que maiores tranches em um mercado segmentado também estariam associadas a uma menor demanda dos investidores, possuindo relação positiva com o spread. No caso específico do mercado brasileiro de FIDCs, não há market makers. Nesse sentido, esperamos que o tamanho da tranche não tenha relação com liquidez e o sinal dessa variável esteja associado principalmente à segmentação de mercado. 27 BOOKBUILDING Alguns FIDCs utilizam o procedimento de bookbuilding para definir o spread da remuneração-alvo, enquanto outros fundos já estabelecem diretamente essa remuneração para os investidores (preço fixo). Pelo procedimento de bookbuilding, investidores indicam a quantidade de cotas que estariam dispostos a adquirir para determinados níveis de spread, permitindo a construção de uma curva de demanda e a definição, por parte do fundo, do spread que atenderia sua necessidade de venda das cotas. De acordo com Ljungqvist, Jenkinson e Wilhelm (2000), ofertas primárias de ações no mercado internacional realizadas com procedimento de bookbuilding, apesar de apresentarem custo maior do que ofertas com preço fixo, resultaram em substancial redução na quantidade de ofertas subvalorizadas. Assim, espera-se que ofertas de cotas de FIDC com procedimento de bookbuilding tenham spreads menores. A variável bookbuilding foi definida como uma variável dummy, indicando a informação no prospecto de que houve esse procedimento para determinação do spread. TAXA DE ADMINISTRAÇÃO Conforme informação da CVM, a taxa de administração é uma taxa paga pelo investidor ao administrador/gestor do fundo, de valor proporcional ao montante investido.5 Para essa taxa é feita uma provisão diária, e o pagamento ocorre mensalmente. A taxa é usualmente expressa em % a.a.. Como essa taxa incide sobre o patrimônio líquido dos fundos (composto por todas as classes de cotas), e o valor das cotas é calculado com base nesse patrimônio líquido, espera-se que haja uma relação positiva entre taxa de administração e spread, com investidores demandando maiores spreads para FIDCs que cobrem taxas de administração mais altas.6 NÍVEL DE TAXAS DO CDI O nível de taxa do CDI over na época de emissão da oferta de cotas do FIDC pode influenciar os spreads de duas formas. Primeiramente, o nível pode ser uma indicação do ambiente econômico existente à época. Essa interpretação decorre do fato de que a taxa do CDI é correlacionada com a taxa Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária, com base 5 Disponível em <http://cvmweb.cvm.gov.br/swb/default3.asp>, consulta ao glossário de fundos. Alguns FIDCs cobram também taxas de performance, que é paga pelo investidor ao gestor do fundo apenas quando a rentabilidade ultrapassa um patamar pré-determinado. Essa taxa não foi considerada no cálculo da taxa de administração. 6 28 nas perspectivas do comitê sobre o futuro das condições econômicas do país. Se a política monetária for restritiva, a taxa Selic, e consequentemente o CDI, serão elevados. Longstaff e Schwartz (1995) indicam que há uma correlação negativa entre o nível da taxa de juros e spreads em virtude da tendência do processo neutro ao risco para o valor da empresa. Segundo Junqueira (apud Oliveira [2012]), quando o CDI se eleva, há maior demanda por papéis de renda fixa, reduzindo o spread de títulos desse tipo, como as cotas de FIDC. O nível do CDI pode ter também outro efeito, principalmente para o grupo de FIDCs, CDI +, como resultado da relação entre valor do spread e o valor da taxa CDI. Por exemplo, spread de 2% a.a. para uma taxa CDI por volta de 10% a.a. tem um valor relativo diferente de um spread de 2% a.a. para um CDI de 20% a.a. Assim, valores maiores de CDI para esse grupo podem estar relacionados com valores de spread maiores. Definimos o nível do CDI como uma variável dummy que indica se o nível das taxas é alto, médio ou baixo. A partir dos valores de CDI over diários no período de análise (entre maio/2005 e março/2012), definiu-se o nível de taxas baixo como aquele representado pelo primeiro quartil e o nível de taxas alto pelo quarto quartil. Para cada FIDC foi obtida a taxa de CDI na data de registro da oferta e verificou-se a qual quartil pertencia essa taxa. Assim espera-se que haja um sinal negativo na relação entre nível da taxa de juros representado pelo CDI e o spread, no caso do grupo de FIDCs % CDI. Para o grupo de FIDCs CDI +, a direção do sinal vai depender de qual efeito é mais forte, o do ambiente econômico ou o da relação entre o valor do spread e o do CDI. Aqui cabe uma observação importante a respeito da escolha das datas nas quais foram obtidas as taxas de CDI over. Existem algumas datas importantes no processo de oferta de distribuição de cotas de um FIDC: data do protocolo de entrega do pedido de registro da oferta junto à CVM; data de registro da oferta na CVM; data do anúncio de início de distribuição e data do anúncio de encerramento de distribuição. Com relação a essas datas, entendemos que a que melhor caracteriza a época da emissão das cotas para efeitos de avaliação da rentabilidade-alvo é a data de registro da oferta na CVM. A data de anúncio de início de distribuição, de acordo com a Instrução CVM no 400, de 29/12/2003, nos termos do seu art. 52, é aquela em que a instituição líder do processo de distribuição dá ampla divulgação da oferta ao mercado. Entretanto, verificamos que em diversos processos de distribuição de cotas, antes dessa data, o FIDC já disponibiliza em seu site o prospecto da oferta, além de apresentar as características dessa oferta a potenciais investidores. Nos casos em que a remuneração-alvo é determinada por processo de 29 bookbuilding, a coleta de intenções pode ocorrer também em data anterior a do anúncio de início de distribuição. A data do protocolo também não é interessante para caracterizar a época da oferta. Após a entrega da documentação para pedido de registro da oferta, o líder da distribuição ou o ofertante podem solicitar a CVM prorrogação do prazo para o efetivo registro. Além disso, após o protocolo, a CVM pode fazer exigências quanto à documentação entregue, no sentido de deixar mais claras as informações sobre a oferta. INCLINAÇÃO DA CURVA DE TAXA DE JUROS Collin-Dufresne, Goldstein e Martin (apud Firla-Cuchra [2005]) comentam que a inclinação da curva da taxa de juros oferece uma medida de incerteza da economia. Uma inclinação negativa (taxa de juros decrescentes) indica expectativa de corte na taxa de juros, associada com uma piora no ambiente econômico e aumento nos spreads. ÉPOCA DE EMISSÃO RECENTE Essa variável foi incluída após ser observado o comportamento de certas características presentes na emissão dos fundos, as quais se modificaram ao longo do tempo. Essas diferenças ficarão claras ao longo da descrição dos dados na próxima seção e parecem indicar uma mudança nas características de emissão, conforme a emissão tenha ocorrido em data mais antiga ou mais recente. A data de 15/10/2008 representa a data correspondente à metade do período para o qual foram obtidos os dados da amostra e foi considerada a referência para se definir fundos com emissões recentes (após 15/10/2008) e fundos com emissões antigas. 30 3 BANCO DE DADOS Os dados foram extraídos a partir de informações e de documentos disponibilizados nos sites de três instituições: Cetip, BM&FBovespa e CVM. 3.1 FIDCS DA AMOSTRA A princípio, a intenção era obter os nomes de todos os FIDCs fechados que emitiram cotas no período compreendido entre a criação desse tipo de fundo, em 29/11/2001, e 30/3/2012. No entanto, grande parte das informações necessárias a esta pesquisa só é disponibilizada pela CVM para os FIDCs em atividade. A Cetip disponibiliza informações sobre FIDCs registrados em seus sistemas de emissão e negociação (mercado secundário) somente a partir de 4/5/2005, enquanto que a BM&FBovespa disponibiliza informações dos FIDCS registrados em seu sistema a partir de 27/1/2004. Dessa forma, tivemos acesso apenas a informações de fundos com cotas emitidas a partir de 27/1/2004. Inicialmente foram gerados, por meio do site da Cetip, para todos os FIDCs no período desejado, dois relatórios: o de negociações definitivas e o de volume depositado por ativo.7 8 O relatório de negociações definitivas oferece, para cada negociação registrada, informações sobre a data do negócio, código do ativo negociado (cota), nome do ativo (FIDC fechado), número de negócios, quantidade de cotas negociadas, preço do negócio, classe (sênior ou subordinada) e a série da emissão. Desse conjunto de negociações, foram extraídos para compor a lista de FIDCS do banco de dados somente aqueles (juntamente com seus respectivos códigos e série de emissão) que negociaram cotas seniores, totalizando 202 fundos. O relatório de volume depositado por ativo apresenta informações sobre data de emissão das cotas, o código do ativo (cota), nome do fundo, prazo até o vencimento da emissão, se o volume depositado foi realizado no primeiro dia da emissão (chamado de volume na emissão) ou se foi em dia posterior (chamado de volume decorrido). À lista de 7 <www.cetip.com.br>, estatísticas, séries históricas, dados por ativo, opção fundos fechados, negociações definitivas 8 <www.cetip.com.br>, estatísticas, séries históricas, dados por ativo, opção fundos fechados, volume depositado por ativo 31 FIDCs obtida no relatório de negociações definitivas foram então adicionados 28 fundos com registro de emissão, mas sem registro de negociação. Pelo site da BM&FBovespa foram gerados também dois relatórios: histórico de negócios e FIDCs listados.9 10 O relatório de histórico de negócios oferece, para cada negociação registrada, informações sobre a data do negócio, código do ativo negociado (cota), número de negócios, quantidade de cotas negociadas e preço do negócio. O relatório foi gerado para o período compreendido entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Entretanto, esse relatório não informa os nomes dos fundos. Já o relatório de FIDCs listados informa o código, nome do fundo, série de emissão volume e rentabilidade-alvo das cotas sênior emitidas, mas oferece essas informações apenas para os FIDCs em atividade. Assim, foram extraídos do relatório de histórico de negócios apenas os fundos com cotas negociadas, cujo código poderia ser relacionado ao nome do fundo por meio do relatório de FIDCs listados, totalizando 12 fundos. Desses 12 fundos, 7 já haviam sido identificados a partir dos relatórios da Cetip. A esses cinco fundos restantes, foram incluídos mais dez FIDCs que tiveram registro de emissão de cotas na BM&FBovespa, apesar de não haver registro de negociação, conforme o relatório de negociação, de suas cotas no mercado secundário. Em resumo, foi possível extrair, a partir dos relatórios mencionados acima, um total de 245 FIDCs sobre os quais seriam obtidas informações relacionadas às variáveis da pesquisa. A lista com os FIDCs que compõem essa amostra inicial encontra-se no anexo deste trabalho. 3.2 FONTES USADAS NA EXTRAÇÃO DOS DADOS Após a determinação dos FIDCs que poderiam compor o banco de dados, a etapa seguinte consistiu em buscar informações referentes às variáveis da regressão. Para tanto se recorreu às seguintes fontes: prospecto da oferta de distribuição de cotas, regulamento do fundo e relatório de risco de agência de rating contendo classificação das cotas seniores no momento da emissão. O prospecto é um documento obrigatório nas ofertas públicas de distribuição de cotas de FIDC e deve apresentar conteúdo mínimo, especificado em exigências regulamentares, que inclui informações sobre: a oferta; os valores mobiliários objeto da oferta e os direitos que lhes são inerentes; o ofertante; a companhia emissora e sua situação patrimonial, econômica e financeira; terceiros garantidores de obrigações relacionadas com os valores mobiliários 9 <www.bmfbovespa.com.br>, mercados, renda fixa, FIC e FICFIDC, histórico de negócios <www.bmfbovespa.com.br>, mercados, renda fixa, FIC e FICFIDC, FIDCs listados 10 32 objeto da oferta; e terceiros que venham a ser destinatários dos recursos captados pela oferta.11 Em algumas situações, a CVM pode, a seu critério, dispensar o FIDC, a pedido, da obrigatoriedade de registro ou do cumprimento de determinados requisitos, dentre os quais a elaboração do prospecto. Para isso, ela considera as condições especiais definidas no art. 4 da Instrução CVM no 400, de 29/12/2003, que incluem valor da oferta e características do público destinatário da oferta (localidade geográfica e quantidade). Ofertas públicas distribuídas com esforços restritos estão dispensadas automaticamente do registro de distribuição, o que também elimina a necessidade de elaboração de prospecto. Esforços restritos, conforme definido no art. 3 da Instrução CVM no 476, de 16/1/2009, são aqueles cuja oferta é destinada à procura de, no máximo, 50 investidores qualificados e os valores mobiliários ofertados são subscritos ou adquiridos por, no máximo, 20 investidores qualificados.12 13 O regulamento é um documento obrigatório exigido pela CVM para concessão de registro de funcionamento do FIDC. Seu conteúdo mínimo é especificado no art. 24 da Instrução CVM no 356, de 17/12/2001 e inclui, dentre outros pontos, forma de constituição; taxa de administração e outras taxas e despesas; política de investimento; natureza e critérios de elegibilidade de direitos creditórios; condições para emissão, negociação, amortização e resgate das cotas para cada série; prazo de duração do fundo; relação mínima entre patrimônio líquido e valor das cotas seniores. Em geral, as informações que constam nos regulamentos, necessárias à pesquisa, também se encontram nos prospectos. O art. 3 da Instrução CVM no 356, de 17/12/2001, exige que cada classe ou série de cotas de emissão do FIDC seja classificada por agência classificadora de risco em funcionamento no país. Entretanto, o art. 23-A desse mesmo regulamento permite a dispensa dessa classificação de risco nas ofertas públicas de distribuição de cotas em que essas cotas sejam destinadas a um único cotista, ou grupo de cotistas vinculados por interesse único e indissociável. 11 Art. 39 da Instrução CVM no 400, de 29 de dezembro de 2003, bem como seu Anexo III. Art. 6 da Instrução CVM no 476, de 16 de janeiro de 2009. 13 Investidores qualificados são definidos no art. 109 da Instrução CVM no 409, de 18 de agosto de 2004 e incluem: instituições financeiras; companhias seguradoras e sociedades de capitalização; entidades abertas e fechadas de previdência complementar; pessoas físicas ou jurídicas que possuam investimentos financeiros em valor superior a R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) e que, adicionalmente, atestem por escrito sua condição de investidor qualificado mediante termo próprio; fundos de investimento destinados exclusivamente a investidores qualificados; administradores de carteira e consultores de valores mobiliários autorizados pela CVM, em relação a seus recursos próprios; regimes próprios de previdência social instituídos pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal ou por Municípios. 12 33 Inicialmente, foram obtidos todos os prospectos de FIDCs disponíveis nos sites da Cetip e da BM&FBovespa para os FIDCs referentes aos 245 fundos.14 15 Com base nas informações existentes nesses prospectos, extraímos os dados referentes às variáveis da pesquisa. Entretanto, conforme mencionado anteriormente, muitos FIDCs obtém isenção para elaboração do prospecto. Para esses casos, alternativamente, buscamos obter os dados por meio dos regulamentos e dos relatórios de classificação de risco referentes à emissão das cotas seniores para cada série de cotas. Esses documentos são disponibilizados no site da CVM. Como a CVM só disponibiliza informações para FIDCs em atividade, para muitos dos 245 fundos que compõem nossa lista não pudemos obter os dados. Isso reduziu nossa amostra para 196 FIDCs. Desses 196 FIDCs, nove não estabelecem rentabilidade-alvo para suas cotas e, portanto, fogem do escopo deste trabalho. Além disso, outros 13 FIDCs, apesar de possuírem informação a respeito da rentabilidade-alvo, não possuíam informações sobre demais variáveis dependentes e foram retirados da amostra. O grupo composto por FIDCs com rentabilidade-alvo expressa como índice de inflação + spread inclui apenas 9 FIDCs e, em virtude do pequeno número de observações, foi retirado da amostra. Por fim, dois FIDCs possuíam apenas uma tranche de cotas e, por isso, divergem do tipo de fundo com características que se pretende analisar neste estudo, sendo retirados da amostra. Portanto, dos 245 FIDCs integrantes da amostra inicial, o banco de dados utilizado na análise ficou composto por 163. 3.3 VARIÁVEIS Para cada FIDC da base de dados foram obtidas informações referentes às variáveis da regressão descritas no capítulo anterior. Abaixo seguem observações sobre como essas variáveis foram obtidas e os respectivos ajustes necessários para utilização no modelo. VARIÁVEL DEPENDENTE (SPREAD) O grupo de FIDCs % CDI ficou composto por 97 FIDCs enquanto que o grupo de FIDCs CDI + foi formado com 66 FIDCs. As Figuras 1a e 1b abaixo mostram as 14 <www.cetip.com.br>, comunicados e documentos, prospectos, categoria de documento: prospectos de fundos de Investimento – cotas de fundos fechados. 15 <www.bmfbovespa.com.br>, mercados, renda fixa, FIC e FICFIDC, prospecto, fundos: todos 34 rentabilidades-alvo definidas de acordo com a data em que os FIDCs foram registrados na CVM. %CDI x data reg CVM 140% % CDI 130% 120% 110% 100% 1/14/04 5/28/05 10/10/06 2/22/08 7/6/09 data reg CVM 11/18/10 4/1/12 Figura 1a - Rentabilidade-alvo x data registro na CVM (CDI +) x data reg CVM 5% CDI + 4% 3% 2% 1% 0% 5/28/05 10/10/06 2/22/08 7/6/09 data reg CVM 11/18/10 4/1/12 Figura 1b - Rentabilidade-alvo x data registro na CVM Rentabilidade-alvo para cotas seniores dos FIDCs. Os grupos CDI + spread e spread % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. Os FIDCs fazem parte do banco de dados, com informações obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. As figuras acima mostram um aspecto interessante. Verifica-se um aumento nos spreads ao longo do tempo para ambos os grupos (spread %CDI e CDI + spread). Essas figuras também parecem indicar uma diminuição na quantidade de observações para o grupo % CDI e um aumento para o grupo CDI +. A Tabela 2 a seguir confirma essa percepção. Verifica-se uma mudança na forma como a remuneração-alvo vem sendo expressa nas emissões de cotas de FIDC. 35 Tabela 2 – Quantidade de FIDCs classificados por época de emissão Época da emissão Grupo CDI + Grupo % CDI Antes de 15/10/2008 25 66 Após 15/10/2008 41 31 Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. A data da emissão considerada refere-se à data de registro do fundo na CVM. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. As emissões com remuneração-alvo expressas na forma CDI+ cresceram 64%, se comparados os conjuntos de emissões antes e depois de 15/10/2008, enquanto que as emissões na forma %CDI diminuíram 53%. VARIÁVEIS INDEPENDENTES RATING As emissões de cotas dos FIDCs da base de dados tiveram ratings atribuídos por seis agências classificadoras de risco distintas (Standard & Poor`s, Moody`s, Fitch, Austin, SR e LF). Dois FIDCs possuíam prazo de vencimento da oferta inferior a 12 meses, o que implica classificação de risco de curto prazo. Esses dois fundos obtiveram classificação F1, pela Fitch, que é a melhor classificação disponível para curto prazo. Para fins da análise por regressão, consideramos a classificação F1 equivalente à melhor classificação de longo prazo, AAA. Como vimos na Tabela 1, as avaliações de rating variam entre 7 categorias, de A- (ou A3) a AAA ou (Aaa). Para várias dessas categorias houve poucas observações e foi necessário agrupá-las, resultando em 3 grupos. Os FIDCs avaliados AAA (que incluía o rating F1) permaneceram sem alteração. Os FIDCs avaliados em AA+ (ou Aa1), AA (ou Aa2) e AA- (ou Aa3) foram agrupados como AA. Os FIDCs A+ (ou A1), A (ou A2) e A- (ou A3) foram agrupados como A. Na regressão, a categoria omitida foi A. Essa categoria possuía poucas observações, pois houve forte redução de emissões com esse rating ao longo do tempo, 16 emissões antes de 15/10/2008 e apenas 4 depois dessa data. A Tabela 3 que segue mostra a quantidade de FIDCs para cada rating, conforme o seu spread. 36 Tabela 3 – Quantidade de FIDCs por rating de acordo com seu spread. Grupo % CDI Spread Total Até 105% 105% a 110% 110% a 115% 115% a 125% 125% a 135% A 1 2 5 4 2 14 AA 2 16 6 6 9 39 AAA 2 24 11 7 0 44 5 42 22 17 11 97 rating Total Grupo CDI + rating Total Spread Total Até 1% 1% a 2% 2% a 3% 3% a 4% 4% a 5% A 0 3 3 0 0 6 AA 7 10 10 6 2 35 AAA 3 14 7 1 0 25 10 27 20 7 2 66 Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. A data da emissão considerada refere-se à data de registro do fundo na CVM. FIDCs avaliados como AA+ (Aa1) e AA- (Aa3) foram agrupados com os avaliados AA (Aa2). FIDCs avaliados como A+ (A1) e A- (A3) foram agrupados com os avaliados A (A2). FIDCs avaliados como F1 foram agrupados com os avaliados AAA. Pela Tabela 3, pode-se verificar que a quantidade de FIDCs classificados com rating mais elevado (AAA) diminui para spreads mais altos, sendo que os FIDC classificados como AA predominam nessa faixa. NATUREZA DOS DIREITOS CREDITÓRIOS A Tabela 4 a seguir mostra a quantidade de FIDCs para cada rating, classificados segundo a natureza do direito creditório securitizado. Para o grupo de FIDCs %CDI, 38 fundos têm como devedores de direitos creditórios somente pessoas físicas (PF), 29 somente pessoas jurídicas (PJ) e 30 com ambos (PF ou PJ). Para o grupo de FIDCs CDI +, 17 fundos possuem como devedores de direitos creditórios somente pessoas físicas, 42 somente pessoas jurídicas e seis ambos. Na regressão, a categoria omitida foi PJ. 37 Tabela 4 – Quantidade de FIDCs de acordo com o rating e a natureza dos ativos securitizados Natureza do ativo Grupo % CDI rating PF PF ou PJ PJ A 1 10 3 AA 11 14 14 AAA 26 6 12 Natureza do ativo Grupo CDI + rating PF PF ou PJ PJ A 1 0 5 AA 8 3 24 AAA 8 4 13 Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. FIDCs avaliados como AA+ (Aa1) e AA- (Aa3) foram agrupados com os avaliados AA (Aa2). FIDCs avaliados como A+ (A1) e A- (A3) foram agrupados com os avaliados A (A2). FIDCs avaliados como F1 foram agrupados com os avaliados AAA. PF corresponde aos FIDCs, cujos devedores dos direitos creditórios são somente pessoas físicas. PJ corresponde aos FIDCs, cujos devedores dos direitos creditórios são somente pessoas jurídicas. PF ou PJ corresponde aos FIDCs, cujos devedores dos direitos creditórios são pessoas físicas ou pessoas jurídicas. Pela Tabela 4 pode-se verificar que há mais direitos creditórios de devedores pessoas físicas com rendimento expresso na forma % CDI e mais direitos creditórios de devedores pessoas jurídicas com rendimento expresso na forma CDI +. Essa tabela, a princípio, também indica que direitos creditórios com origem em devedores pessoas físicas estão associados a ratings de crédito melhores. MEZANINO Essa variável dummy refere-se apenas à existência ou não de tranche mezanino, independentemente de quantas tranches mezanino existam. A Tabela 5 mostra a distribuição da quantidade de FIDCs com e sem mezanino, de acordo com a época em que foram emitidos. 38 Tabela 5 – Quantidade de FIDCs classificados por data de emissão e estrutura mezanino Grupo % CDI Mezanino Não Sim Emissão antes de 15/10/2008 62 4 Emissão após 15/10/2008 7 24 Grupo CDI + Mezanino Não Sim Emissão antes de 15/10/2008 22 3 Emissão após 15/10/2008 31 10 Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. As datas de emissão correspondem às datas de registro da oferta na CVM. A coluna “Não” referese à quantidade de FIDCs emitidos sem estrutura mezanino. A coluna sim refere-se à quantidade de FIDCs emitidos com estrutura mezanino. Dentre o grupo % CDI, 28 FIDCs possuem esse tipo de tranche, enquanto que para o grupo CDI +, são apenas 13 fundos. No entanto, um ponto importante pode ser observado. Levando-se em conta a época de emissão do FIDC, pode-se ver que a maior parte dos FIDCs com estrutura mezanino (cerca de 82%) foram emitidos mais recentemente. COOBRIGAÇÃO A variável coobrigação refere-se à existência de informação no prospecto (ou regulamento) de que há responsabilidade da cedente no caso de default no pagamento, pelos devedores, dos direitos creditórios por ela cedidos ao fundo. A existência de coobrigação deve estar expressa no texto do prospecto ou regulamento como obrigatória. Para os casos de FIDC em que a coobrigação é uma possibilidade e não obrigatoriedade, considerou-se que essa não existia. 39 Tabela 6 – Quantidade de FIDCs classificados por rating e existência de coobrigação Coobrigação Grupo % CDI Rating Não Sim A 6 8 AA 28 11 AAA 41 3 Coobrigação Grupo CDI + Rating Não Sim A 5 1 AA 34 1 AAA 20 5 Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. FIDCs avaliados como AA+ (Aa1) e AA- (Aa3) foram agrupados com os avaliados AA (Aa2). FIDCs avaliados como A+ (A1) e A- (A3) foram agrupados com os avaliados A (A2). FIDCs avaliados como F1 foram agrupados com os avaliados AAA. A coluna N refere-se à quantidade de FIDCs emitidos sem estrutura mezanino. A coluna S refere-se à quantidade de FIDCs emitidos com estrutura mezanino. Diferentemente da emissão com mezanino, FIDCs com coobrigação foram emitidos uniformemente ao longo de todo o período analisado. A Tabela 6 mostra que para o grupo % CDI houve 22 FIDCs com coobrigação, sendo que desses 22, apenas três foram classificados com rating AAA. O grupo CDI + apresenta apenas sete casos. NÍVEL DE SUBORDINAÇÃO Os níveis de subordinação ficaram concentrados em torno da média 20% para o grupo de FIDCs %CDI e em torno de 25% para o grupo de FIDCs com remuneração do tipo CDI +. Algumas poucas observações possuem níveis de subordinação altos, acima de 80%, indicando potenciais outliers na amostra. Dois desses FIDCs tem em comum o fato de se tratarem de emissões pequenas em relação aos demais. Mesmo assim, não havendo uma razão que justificasse a remoção dessas observações na amostra, decidiu-se por mantê-las. VIDA MÉDIA PONDERADA Para o grupo de FIDCs % CDI, os valores de vida média estão distribuídos entre três e sessenta meses, com maior concentração em torno da média aproximada de trinta meses. Há duas observações de curto prazo, isto é, inferiores a doze meses, sendo uma com três meses e outra com sete meses. 40 Para o grupo de FIDCs CDI+, os valores de vida média estão distribuídos entre 12,5 e 126,5 meses (apenas um FIDC possui 126,5 meses de vida média, os demais possuem valor inferior a 64 meses), com maior concentração em torno da média aproximada de 34 meses. TAMANHO DA TRANCHE SÊNIOR Ao tamanho da tranche sênior foi aplicada transformação logarítmica, de modo a evitar a forte assimetria decorrente da alta concentração de fundos com valores elevados de tranche próximos. As Figuras 2a e 2b mostram que há forte variação de spreads para tranches seniores cujos valores são próximos, não sendo possível identificar alguma relação. %CDI x ln (tamanho tranche sênior) 140% %CDI 130% 120% 110% 100% 10,0 12,5 15,0 17,5 20,0 ln(tam tranche sênior) 22,5 25,0 Figura 2a – Rentabilidade-alvo x ln (tamanho da tranche sênior) (CDI +) x ln (tamanho tranche sênior) 5% CDI + 4% 3% 2% 1% 0% 12,5 14,5 16,5 18,5 ln(tam tranche sênior) 20,5 22,5 Figura 2b –Rentabilidade-alvo x ln (tamanho da tranche sênior) Rentabilidade-alvo para cotas seniores dos FIDCs. Os grupos CDI + spread e spread % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. Ln é o logaritmo natural do tamanho da tranche sênior, cujo valor é em reais. Os FIDCs fazem parte do banco de dados, com informações obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. 41 BOOKBUILDING Como se pode perceber na Tabela 7, o procedimento de bookbuilding é muito mais usado no grupo FIDC CDI +. Praticamente 50% das emissões nesse grupo utilizaram esse procedimento. Importante notar também que para o grupo de FIDC % CDI, a utilização de bookbuilding foi bem maior para emissões antigas e praticamente se extinguiu após 15/10/2008, tendo ocorrido apenas uma única emissão, em 4/11/2010. Tabela 7 – Quantidade de FIDCs classificados por data emissão e existência de bookbuilding Grupo % CDI Bookbuilding Não Sim Emissão antes de 15/10/2008 53 13 Emissão após 15/10/2008 30 1 Grupo CDI + Bookbuilding Não Sim Emissão antes de 15/10/2008 12 13 Emissão após 15/10/2008 22 19 Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. As datas de emissão correspondem às datas de registro da oferta na CVM. A coluna “Não” referese à quantidade de FIDCs com ofertas emitidas sem procedimento de bookbuilding para determinação da rentabilidade-alvo das cotas seniores. A coluna sim refere-se à quantidade de FIDCs emitidos com procedimento de bookbuilding para determinação da rentabilidade-alvo das cotas seniores. A Tabela 8 a seguir mostra a distribuição da quantidade de FIDCs conforme a existência ou não de procedimento de bookbuilding para determinação da rentabilidade-alvo das cotas seniores. 42 Tabela 8 – Quantidade de FIDCs classificados por rating e existência de bookbuilding Bookbuilding Grupo % CDI Não Sim A 14 0 AA 35 4 AAA 34 10 Rating Bookbuilding Grupo CDI + Não Sim A 4 2 AA 21 14 AAA 9 16 Rating Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. FIDCs avaliados como AA+ (Aa1) e AA- (Aa3) foram agrupados com os avaliados AA (Aa2). FIDCs avaliados como A+ (A1) e A- (A3) foram agrupados com os avaliados A (A2). FIDCs avaliados como F1 foram agrupados com os avaliados AAA. A coluna “Não” refere-se à quantidade de FIDCs com ofertas emitidas sem procedimento de bookbuilding para determinação da rentabilidade-alvo das cotas seniores. A coluna sim refere-se à quantidade de FIDCs emitidos com procedimento de bookbuilding para determinação da rentabilidade-alvo das cotas seniores. Pode-se observar que o procedimento de bookbuilding é bem mais utilizado nas emissões com ratings mais elevados, o que indica que os custos com a realização do procedimento só compensaria nesses casos. TAXA DE ADMINISTRAÇÃO Para alguns FIDCs, a taxa de administração divulgada incluía também a taxa de gestão, não havendo indicação de quanto do percentual cabia ao administrador ou ao gestor do fundo. Para vários FIDCS, no entanto, taxas de administração e de gestão eram discriminadas. Dessa forma, optou-se nesses casos por somar as duas taxas. As taxas variaram entre 0,03% e 3,5% a.a. para grupo de FIDCs %CDI, com média 0,85% a.a. O grupo CDI + possui taxas ligeiramente menores em média (0,48% a.a.), variando entre 0,05% e 2% a.a. NÍVEL DE TAXAS DO CDI As datas de registro das ofertas de distribuição das emissões de séries de cotas seniores foram obtidas no site da CVM, que disponibiliza esse tipo de informação para todas 43 as ofertas a partir de 2005. 16 A Figura 3 mostra o comportamento da taxa CDI over no período analisado, para as datas de registro das ofertas. Definimos o primeiro quartil como taxas de CDI baixas (abaixo de 10% a.a.) e o quarto quartil (acima de 15% a.a.) como taxas de CDI altas. Na regressão, a categoria omitida escolhida foi para taxas de CDI médias. CDI (%) x Data 25 CDI (%) 20 15 10 5 0 1/1/05 1/11/06 1/21/07 1/31/08 2/9/09 Data 2/19/10 3/1/11 3/10/12 Figura 3 – Taxa CDI x data, para período entre 1/1/2005 e 30/3/2012. Taxa CDI anualizada, base 252 dias úteis, em % a.a., periodicidade diária. O período inclui as datas de emissão das ofertas das cotas dos FIDCs que compõem o banco de dados utilizado neste trabalho. Fonte: Banco Central do Brasil. A Tabela 9 abaixo mostra a quantidade de FIDCs por nível de taxa CDI por spread. Tabela 9 – Quantidade de FIDCs classificados por nível de taxas do CDI e spread Grupo % CDI Nível CDI Até 105% 105% a 110% 110% a 115% 115% a 125% 125% a 135% Total Alto 3 16 0 0 0 19 Baixo 0 1 2 4 2 9 Médio 2 25 20 13 9 69 Grupo CDI + Nível CDI Spread Spread Total Até 1% 1% a 2% 2% a 3% 3% a 4% 4% a 5% Alto 1 4 2 0 0 7 Baixo 0 7 4 3 2 16 Médio 9 16 14 4 0 43 Os FIDCs fazem parte do banco de dados, cujas informações foram obtidas para o período entre 27/1/2004 e 30/3/2012. Os grupos CDI + e % CDI correspondem às formas como são expressas as rentabilidades-alvo das cotas seniores. Na linha Nível CDI Alto estão as quantidades de FIDCs cuja emissão ocorreu em data onde as taxas CDI eram superiores a 15% a.a. Na linha Nível CDI Baixo estão as quantidades de FIDCs cuja emissão ocorreu em data onde as taxas CDI eram inferiores a 10% a.a. Na linha Nível CDI Médio estão as quantidades de FIDCs cuja emissão ocorreu em data onde as taxas CDI estavam entre 10% a.a. e 15% a.a. 16 <www.cvm.gov.br>, registros de ofertas públicas, consultas, ofertas públicas de quotas de FIDC para registros concedidos 44 Para o grupo de FIDCs % CDI, verifica-se que há mais fundos na faixa de taxas de CDI Alta, havendo poucas observações na faixa de taxas de CDI Baixa, enquanto que para o grupo de FIDCs CDI + spread, ocorre o contrário. INCLINAÇÃO DA CURVA DE TAXA DE JUROS Os dados de taxas de juros negociadas para contratos futuros de DI vencendo em diversos prazos foram obtidos a partir de informações disponibilizadas pela agência Bloomberg. Dessa forma foi gerada uma curva de estrutura a termo da taxa de juros (ETTJ) associada a cada data de registro na CVM dos FIDCs do banco de dados. Para cada FIDC, foi obtida a taxa de juros do contrato de DI futuro negociado com prazo de vencimento mais próximo à data de resgate das cotas. Esse valor foi então deduzido do valor da taxa CDI over vigente na data de registro do FIDC na CVM, resultando na inclinação da taxa de juros (em termos de %). ÉPOCA DE EMISSÃO RECENTE Época da emissão recente é uma variável dummy, que indica apenas se a data de registro da oferta de emissão de cotas seniores na CVM foi realizada antes ou após 15/10/2008. A presença dessa variável no modelo se mostrou necessária para caracterizar duas épocas que parecem apresentar emissões de FIDCs com características distintas. Como vimos ao longo desta seção, emissões a partir de 15/10/2008 estão associadas a: a) maior quantidade de emissões de FIDCs, em termos proporcionais, com spreads expressos na forma CDI +; b) spreads mais altos; c) taxas de juros CDI over mais baixas; d) maior quantidade de emissões de fundos com estrutura de tranche mezanino; e e) menor quantidade de emissões com rating A. 45 4 RESULTADOS As análises dos modelos de regressão a seguir foram realizadas utilizando-se o software IBM SPSS Statistics 20 (SPSS). Previamente a análise dos resultados de cada grupo de FIDCs, foram verificados os pressupostos de adequação do modelo de regressão linear. 4.1 FIDCS COM REMUNERAÇÃO NA FORMA % CDI 4.1.1 VERIFICAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS De acordo com Montgomery, Peck e Vining (2012, p. 129), os principais pressupostos de um modelo de regressão linear são: a) os erros possuem distribuição normal; b) o termo de erro ϵ tem média zero; c) o termo de erro ϵ tem variância constante; d) os erros são não correlacionados. Ainda segundo esses autores, a verificação dos pressupostos pode ser realizada de forma bastante eficiente por meio da análise gráfica da distribuição de resíduos [Montgomery, Peck e Vining (2012, p. 136)]. A Figura 4 a seguir foi gerada pelo SPSS, para o modelo de regressão linear reduzido, conforme será detalhado na Seção 4.1.2. Quanto mais próximos os resíduos se encontram da linha reta contínua, mais próximos estão da distribuição normal acumulada. 46 Figura 4 – Gráfico Normal P-P para resíduos padronizados referentes ao modelo de regressão reduzido à página 46. Inspeção da Figura 4 mostra que os resíduos não se afastam muito da reta que representa a probabilidade acumulada da curva normal, indicando que o pressuposto de normalidade da distribuição dos erros pode ser considerado como atendido. A Figura 5 abaixo mostra a distribuição dos resíduos padronizados para os valores previstos ajustados da variável dependente, considerando o modelo reduzido. Figura 5 – Gráfico Resíduos studentizados x Valor ajustado previsto para variável dependente (PRESS) no modelo reduzido à página 46. O comportamento aleatório da distribuição dos resíduos indica que os pressupostos b, c e d foram atendidos. 47 Como apontado anteriormente, a existência de multicolinearidade pode representar um problema, tendo em vista que algumas das variáveis independentes também podem estar associadas ao rating de crédito, que por sua vez é outra variável independente no modelo. A Tabela 10 abaixo mostra os valores de VIF (variation inflation factor) para as variáveis do modelo reduzido. Tabela 10 – Variáveis independentes do modelo reduzido à página Variáveis independentes VIF AAA 3,157 AA 3,034 Mezanino 2,254 Coobrigação 1,282 Vida média 1,189 Taxa CDI Alta 1,193 Época emissão recente 2,330 Conforme Montgomery, Peck e Vining (2012, p. 296), a multicolinearidade se torna preocupante para valores de VIF acima de 5. Verifica-se na tabela que nenhuma das variáveis ultrapassou esse limite. Os resultados acima sugerem que os pressupostos para utilização do modelo de regressão linear proposto neste trabalho foram atendidos e, portanto, o modelo pode ser empregado. 4.1.2 ANÁLISE DOS RESULTADOS Para FIDCs do grupo % CDI, as variáveis que apresentaram significância, de acordo com o modelo apresentado na Seção 2, foram: rating AAA, rating AA, mezanino, coobrigação, vida média, taxa de CDI alta e época de emissão. O teste F também apresentou significância, indicando que não é possível rejeitar o modelo como explicativo dos spreads. Foi realizada uma regressão posterior, por meio de um modelo reduzido, contendo somente as variáveis indicadas como significantes: Spread = α + β1 .rating AAA + β2 .rating AA + β3 .PF + β4 .mezanino + β5 .coobrigação + β6 .vida média + β7 .taxa CDI Alta + β8 .época de emissão recente + ϵ 48 A Tabela 11 a seguir apresenta os resultados obtidos pelos modelos de regressão completo e reduzido para o grupo de FIDCs com remuneração expressa na forma % CDI. Tabela 11 – Resultado do modelo de regressão linear aplicado para o grupo com remuneração (variável dependente) na forma % CDI, considerando os casos (i) com todas as variáveis dependentes, isto é, modelo completo, e (ii) somente com as variáveis independentes significativas no caso (i), isto é, modelo reduzido. Variáveis (Constante) AAA Grupo % CDI – modelo completo Coeficiente t p-valor 1,177 12,713 ,000 -,058 Grupo % CDI – modelo reduzido Coeficiente t p-valor 1,212 50,042 ,000 -2,804 ,006** -,056 -3,519 ,001** ** -,050 -3,182 ,002** AA -,053 -2,912 PF ,020 1,621 ,109 PF ou PJ ,016 1,244 ,217 Mezanino ,054 3,346 ,001** ,053 3,602 ,001** 4,238 ** ,052 4,377 ,000** -,002 -4,167 ,000** -,027 -2,180 ,032* ,066 4,525 ,000** Coobrigação ,055 ,005 ,000 Nível de subordinação ,000 -,698 ,487 Vida média -,002 -4,288 ,000** ln (Tam. tranche sênior) ,002 ,384 ,702 Bookbuilding -,013 -,887 ,378 Tx administração ,006 ,709 ,480 Tx CDI Alta -,030 -2,237 ,028* Tx CDI Baixa -,022 -1,115 ,268 Incl. Curva CDI -,001 -,216 ,829 Época emissão recente ,070 4,383 ,000** Número de observações Teste F R2 2 97 97 F = 15,471; p-valor = 0,000 F = 32,863; p-valor = 0,000 0,741 0,721 R ajustado 0,693 variável significante a 5% para o grupo com remuneração expressa na forma % CDI ** variável significante a 1% para o grupo com remuneração expressa na forma % CDI 0,699 * Variáveis independentes são: tx CDI Alta – taxas CDI over na data da emissão da oferta de cotas seniores acima de 15% a.a., correspondente ao quarto quartil referente ao período analisado; tx CDI Média, taxas CDI over na data da emissão da oferta de cotas seniores abaixo de 15% a.a. e acima de 10% a.a.; Bookbuilding – indicação no prospecto de que foi realizado procedimento de bookbuilding; AAA – rating de emissões AAA ou F1; AA – ratings de emissões AA+ (ou Aa1), AA (ou Aa2), AA- (ou Aa3); PF direitos creditórios cujos devedores são somente pessoas físicas; PF ou PJ – direitos creditórios cujos devedores são pessoas físicas ou jurídicas; ln (tamanho da tranche sênior) – ln do volume total de cotas seniores ofertadas, de acordo com o prospecto da oferta; nível de subordinação – percentual do valor total do fundo composto por cotas subordinadas às cotas seniores; mezanino – existência de mais de três ou mais tranches na estrutura do FIDC; tx adm – taxa de administração e gestão indicadas no prospecto da oferta da emissão; coobrigação – existência de coobrigação da cedente no caso de default dos devedores dos direitos creditórios; vida média – vida média da oferta. As categorias omitidas foram tx CDI média para o nível de taxa de juros; A para rating e PJ para natureza do direito creditório. A regressão com modelo reduzido gerou como resultado R2 ajustado = 0,699 e estatística F = 32,863. Para efeito de comparação, apesar de empregar metodologia diferente da usada aqui, Zacchello (2010) encontra por meio de seu modelo de regressão com todas as variáveis R2 ajustado = 0,180 e na regressão que considera apenas variáveis significantes, R2 ajustado = 0,235. Oliveira (2012), também empregando metodologia diferente, encontra por 49 meio de seu modelo de regressão com todas as variáveis R2 ajustado = 0,246 e na regressão que considera apenas variáveis significantes, R2 ajustado = 0,197.17 18 Esse valor de R2 ajustado é da mesma magnitude dos que vêm sendo encontrados na literatura internacional para spreads na emissão de securitizações (Firla-Cuchra [2005], Vink e Thibeault [2008], Vink e Fabozzi [2009]). As duas variáveis que representam rating (AAA e AA) se mostraram significantes e com sinais de coeficientes negativos, sendo que o coeficiente da variável AAA foi um pouco mais negativo. Tal resultado está de acordo com o de estudos anteriores, que sugerem quanto melhor a avaliação de risco, menor o spread exigido pelos investidores. A variável PF, que representa emissões com direitos creditórios de devedores pessoas físicas, apresentou p-valor próximo a 10%. A maior parte desses direitos representam créditos consignados. Vários trabalhos (Firla-Cuchra [2005], Vink e Thibeault [2008] e Vink e Fabozzi [2009]) encontram significância em variáveis que indicam o tipo de direito creditório. Zacchello (2010) e Oliveira (2012), em regressões utilizando todas as variáveis de seus respectivos modelos, não encontram natureza do direito creditório como significante. Entretanto, ao excluir algumas variáveis, Zacchello (2010) encontra que a natureza do direito creditório originado de créditos para aquisição de veículos é significativa. Como mencionado anteriormente, para concessão do rating, as agências classificadoras avaliam a qualidade da carteira de ativos a ser securitizada. Portanto, ao se considerar 10% como nível de significância, pode-se concluir que a variável relacionada ao tipo de direito creditório sugere que os investidores em cotas seniores de FIDC consideram que o rating concedido pelas agências não reflete toda a percepção de risco relacionada ao ativo. Entretanto, o sinal do coeficiente para essa variável é contrário ao esperado. Isso pode indicar que o mercado percebe devedores pessoas físicas como sendo mais arriscados do que devedores pessoas jurídicas, mesmo levando-se em conta o fato de que, como vimos na Tabela 4, direitos creditórios de pessoas físicas estão associados a emissões com o rating mais alto (AAA). Já as variáveis ln (Tamanho da tranche sênior) e nível de subordinação não se mostraram significantes, o que pode indicar que seu efeito esteja sendo capturado pelo rating, não havendo prêmio adicional a ser incluído no spread. Oliveira (2012) encontra o volume da 17 Ambos os modelos (Zacchello [2010] e Oliveira [2012]) consideram um grupo de observações único em vez da divisão em dois grupos conforme a forma como o spread é expresso (%CDI e CDI +). Nesses trabalhos são utilizados diferentes modelos de regressão que partem de um modelo base a partir do qual são eliminadas variáveis. 18 Os modelos de Zacchello (2010) e Oliveira (2012) consideram algumas variáveis diferentes das que estão sendo utilizadas neste trabalho. 50 emissão como significativo na explicação do spread. Além disso, essa autora, a partir de regressão considerando o rating como variável dependente, encontra que o nível de subordinação é significativo na explicação dessa variável. A existência da tranche mezanino também se mostrou significante na regressão. Como discutido na literatura internacional, a presença dessa tranche deveria estar relacionada à redução dos spreads da tranche sênior, em virtude da presença de investidores mais bem informados, capazes de melhor monitorar os riscos do fundo. Entretanto, o resultado da regressão mostrou uma relação positiva dessa variável com o spread. Uma explicação para esse fato pode ser encontrada na Tabela 5. Verifica-se nessa tabela que mais de 85% das emissões com tranche mezanino ocorreram posteriormente a 15/10/2008, coincidente, portanto, com a época de emissão de cotas de FIDC com maior rentabilidade-alvo. A Tabela 12 abaixo, que representa a matriz de correlação entre as variáveis do modelo, também mostra a forte correlação positiva (0,734) existente entre as variáveis mezanino e época de emissão recente. Tabela 12 – Matriz de correlação (Pearson) entre as variáveis do modelo reduzido de regressão linear aplicado para o grupo com remuneração (variável dependente) na forma % CDI. Remuneração Remuneração AAA AA Mezanino Coobrigação Vida média Tx CDI Alta ,080 -0,304 ,500 AA ,179 -,747 ,493 Mezanino ,645 -,123 ,174 ,455 Coobrigação ,501 -,345 ,108 ,198 ,421 Vida média -,111 -,023 -,215 ,109 ,014 9,366 Tx CDI Alta -,407 ,176 -,087 -,314 -,143 -,106 ,399 ,655 -,092 ,205 ,734 ,157 ,045 -,338 AAA Época emissão de Época de emissão ,469 Nota: diagonal principal representa o desvio padrão da variável Ao se testar a variável mezanino somente para as observações referentes à época de emissão anterior a 15/10/2008, verificou-se que o sinal se tornou negativo (-0,137) como esperado, entretanto, apesar de negativo, ele não foi significativo (p-valor igual a 0,139), e, portanto, não se pode afirmar que ele reduza significativamente o spread para as observações dessa época. A coobrigação, assim como o mezanino, foi significante e com sinal contrário ao esperado. A existência de coobrigação implica garantia maior ao investidor, pois no caso de default de um devedor do direito creditório, a cedente, responsável pela qualidade da carteira, 51 deve assumir o risco da inadimplência. Entretanto, aqui cabe mencionar um argumento levantado por Gorton e Souleles (2005). Nesse estudo, os autores sugerem que, mesmo embora um contrato de cessão de ativos não preveja que a empresa cedente continue responsável pela qualidade desses ativos, ela está moralmente obrigada a fazê-lo para evitar problemas futuros, se desejar acessar o mercado de capitais. Assim, a existência da coobrigação em algumas emissões de FIDCs pode não ter efeito forte suficiente para diferenciar o spread em comparação com aquele de emissões FIDCs que não contam com essa garantia. Além disso, como mencionado em Buscaino, Caselli, Corielli e Gatti (2009), a estrutura de emissão de cotas de um FIDC é estabelecida de forma a se obter um determinado rating da agência classificadora. Isso implica que a existência da coobrigação possa estar associada à necessidade de reforço extra para que uma emissão obtenha determinado rating, ou seja, a existência da coobrigação estaria associada a emissões mais arriscadas e, portanto, com spreads maiores. Como se pode observar na Tabela 6, a maior parte das emissões com coobrigação encontra-se nos FIDCs com ratings mais baixos. O resultado da regressão mostra a existência de relação entre maior vida média das emissões e redução dos spreads. Como foi mencionado, diferentes resultados encontrados em estudos anteriores não permitem previsão para o sinal do coeficiente dessa variável. O sinal negativo encontrado neste estudo corrobora o que foi encontrado no estudo empírico de Sarig e Warga (1989) e que está também previsto pelo modelo teórico de Merton (1974). Zacchello (2010) utiliza, em vez da vida média, o valor do duration, embora contendo algumas modificações. O trabalho mostra também a ocorrência de sinal negativo e significância dessa variável, no modelo que considera todas as variáveis. Oliveira (2012) considera, alternativamente à vida média, o duration com modificações e o prazo de vencimento. Ambas se mostram não significativas quando usadas isoladamente. O modelo de regressão linear indica que não há evidências de que a existência de procedimento de bookbuilding tenha efeito nos spreads para o grupo de FIDCs % CDI. Com base na Tabela 7 e na Figura 1, citadas anteriormente, podemos concluir que esse resultado pode ser decorrente da pouca quantidade de observações, principalmente se for levado em conta que, para esse grupo, apenas um único FIDC foi emitido após 15/10/2008, quando os spreads eram maiores. A variável taxa de administração também não foi significativa. Portanto não há evidências de que o mercado leva em consideração essa taxa na definição dos spreads que compõem a remuneração-alvo. 52 A variável tx CDI Alta apresentou sinal negativo, estando de acordo com o esperado e confirma o que vem sendo discutido na literatura. Com taxas CDI mais altas, a demanda por títulos de renda fixa aumenta, resultando em valorização nesse tipo de título, o que implica redução dos spreads. Interessante notar que, para o grupo de FIDCs % CDI, apenas as taxas CDI mais altas parecem ter influência na definição dos spreads, uma vez que a variável de tx CDI Baixa não foi significante. A variável inclinação da curva da taxa de juros não se mostrou significante. Assim, por meio do modelo proposto, não há evidência de que o mercado avalia a expectativa da taxa de juros futura como fator necessário na determinação dos spreads. Tal resultado é diferente do encontrado por Firla-Cuchra (2005), cujo coeficiente de variável equivalente se mostrou negativo e significante. Zacchello (2010) não utiliza uma variável como medida de incerteza futura em seus modelos. Oliveira (2012) também não inclui diretamente tal variável, mas comenta que os efeitos de expectativa de inflação já estariam, de alguma forma, sendo considerados, pois os spreads em seu trabalho foram obtidos da curva pré da BMF. Entretanto, deve-se ressaltar um outro ponto. Como vimos na Figura 1, as emissões com spreads mais altos ocorrem após meados de 2008. Essa época coincide com a chegada dos efeitos da crise financeira internacional no mercado brasileiro. Assim, os spreads mais altos exigidos pelos investidores nas emissões desses FIDCs podem estar relacionados com o aumento do risco provocado pela crise. Além disso, como a taxa CDI está correlacionada com a taxa Selic, os CDIs mais baixos podem estar refletindo o período de baixa da taxa Selic, como resposta do governo brasileiro à crise, de forma a incentivar um período de expansão econômica. Zacchello (2010) não utiliza uma variável correspondente ao nível de CDI, mas uma variável dummy para indicar se o início da distribuição das cotas seniores ocorreu a partir de 2009, como forma de captar o ambiente econômico diferente correspondente aos efeitos da crise econômica e em seus modelos de regressão, tanto completo com todas variáveis, como somente com as variáveis significativas, essa variável se mostrou significativa. Já Oliveira (2012) inclui o nível de CDI no modelo, e conclui que ele é significativo, com sinal negativo em relação ao spread. 53 4.2 FIDCS COM REMUNERAÇÃO NA FORMA CDI + 4.2.1 VERIFICAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS Da mesma forma como realizado na Seção 4.1.1, a verificação dos pressupostos será realizada por meio de gráficos. A Figura 6 a seguir foi gerada para o modelo de regressão linear reduzido, conforme detalhado na Seção 4.2.2. Figura 6 – Gráfico Normal P-P para resíduos padronizados referentes ao modelo de regressão reduzido à página 52. Inspeção da Figura 6 mostra que os resíduos não se afastam muito da reta que representa a probabilidade acumulada da curva normal, indicando que o pressuposto de normalidade da distribuição dos erros pode ser considerado como atendido. A Figura 7 abaixo mostra a distribuição dos resíduos padronizados para os valores previstos ajustados da variável dependente, considerando o modelo reduzido. 54 Figura 7 – Gráfico Resíduos studentizados x Valor ajustado previsto para variável dependente (PRESS) no modelo reduzido à página 52. O comportamento da distribuição dos resíduos mostra a existência de quatro níveis, relacionados ao fato de o modelo reduzido possuir apenas duas variáveis independentes dummies, com dois resultados possíveis cada uma. Entretanto, dentro de cada nível, a inspeção do gráfico permite concluir que a distribuição dos resíduos é aleatória, com pouca presença de heteroscedasticidade, indicando que os pressupostos b, c e d foram atendidos. A Tabela 13 abaixo mostra os valores de VIF (variation inflation factor) para as variáveis do modelo reduzido. Tabela 13 – Variáveis independentes do modelo reduzido à página Variáveis independentes VIF Bookbuilding 1,003 Época emissão recente 1,003 Verifica-se na tabela que nenhuma das variáveis ultrapassou o valor de VIF igual a 5 e, portanto, o modelo não apresenta problemas de multicolinearidade. Os resultados acima sugerem que os pressupostos para utilização do modelo de regressão linear proposto neste trabalho foram atendidos e, portanto, o modelo pode ser empregado. 55 4.2.2 ANÁLISE DOS RESULTADOS Para FIDCs do grupo CDI +, apenas duas variáveis apresentaram significância, de acordo com o modelo: bookbuilding e época da emissão. O teste F também apresentou significância, indicando que não é possível rejeitar o modelo como explicativo dos spreads. Foi realizada uma regressão posterior, por meio de um modelo reduzido, contendo somente as variáveis indicadas como significantes: Spread = α + β1 .bookbuilding + β2 .época de emissão recente + ϵ A Tabela 14 a seguir apresenta os resultados obtidos pelos modelos de regressão completo e reduzido para o grupo de FIDCs com remuneração expressa na forma CDI +. Tabela 14 – Resultado do modelo de regressão linear aplicado para o grupo com remuneração (variável dependente) na forma CDI +, considerando os casos (i) com todas as variáveis dependentes, isto é, modelo completo, e (ii) somente com as variáveis independentes significativas no caso (i), isto é, modelo reduzido. Variáveis (Constante) Grupo CDI + - modelo completo Coeficiente t p-valor ,054 2,168 ,035 AAA -,006 -1,336 ,188 AA -,002 -,467 ,643 PF ,001 ,313 ,755 PF ou PJ ,003 ,662 ,511 Mezanino -,004 -1,137 ,261 Coobrigação ,003 ,541 ,591 Nível de subordinação ,000 ,319 ,751 Vida média ,000 -1,617 ,112 ln (Tam. tranche sênior) -,001 -1,180 ,244 Bookbuilding -,005 -1,815 ,076+ Tx administração -,004 -1,328 ,190 Tx CDI Alta -,003 -,437 ,664 Tx CDI Baixa ,005 1,414 ,164 Incl. Curva CDI -,001 -,824 ,414 Época emissão recente ,008 3,152 ,003++ Número de observações Teste F R2 Grupo CDI + - modelo reduzido Coeficiente t p-valor ,019 9,326 0,000 -,006 -2,762 ,008++ ,007 3,370 ,001++ 66 66 F = 2,555; p-valor = 0,007 F = 10,033; p-valor = 0,000 0,434 0,242 R2 ajustado 0,264 + variável significante a 10% para o grupo com remuneração expressa na forma CDI + ++ variável significante a 1% para o grupo com remuneração expressa na forma CDI + 0,217 Variáveis independentes são: tx CDI Alta – taxas CDI over na data da emissão da oferta de cotas seniores acima de 15% a.a., correspondente ao quarto quartil referente ao período analisado; tx CDI Média, taxas CDI over na data da emissão da oferta de cotas seniores abaixo de 15% a.a. e acima de 10% a.a.; Bookbuilding – indicação no prospecto de que foi realizado procedimento de bookbuilding; AAA – rating de emissões AAA ou F1; AA – 56 ratings de emissões AA+ (ou Aa1), AA (ou Aa2), AA- (ou Aa3); PF direitos creditórios cujos devedores são somente pessoas físicas; PF ou PJ – direitos creditórios cujos devedores são pessoas físicas ou jurídicas; ln (tamanho da tranche sênior) – ln do volume total de cotas seniores ofertadas, de acordo com o prospecto da oferta; nível de subordinação – percentual do valor total do fundo composto por cotas subordinadas às cotas seniores; mezanino – existência de mais de três ou mais tranches na estrutura do FIDC; tx adm – taxa de administração e gestão indicadas no prospecto da oferta da emissão; coobrigação – existência de coobrigação da cedente no caso de default dos devedores dos direitos creditórios; vida média – vida média da oferta. As categorias omitidas foram tx CDI média para o nível de taxa de juros; A para rating e PJ para natureza do direito creditório. A regressão com o modelo reduzido gerou como resultado R2 ajustado = 0,217, mas com F = 10,033 (p-valor = 0,000). Esse valor de R2 é um pouco acima da magnitude dos que vêm sendo encontrados na literatura nacional e inferior aos encontrados na literatura internacional. Com relação a variável bookbuilding, o sinal negativo confirma o encontrado em estudos anteriores, ou seja, não há como rejeitar a hipótese de que esse procedimento resulta em diminuição nos spreads de lançamento de cotas seniores de FIDC. O fato de a variável época de emissão ter apresentado significância no modelo mostra haver evidências de que o período de emissão das cotas foi importante na definição dos spreads. Como foi visto, essa variável indica que, com a evolução do tempo, ocorreram diversas modificações na forma de emissão das cotas dos FIDCs. Uma questão que pode ser levantada é com relação à ausência das variáveis explicativas que foram significantes para cada grupo de FIDCs % CDI e que não foram significantes para o grupo CDI +, exceto pela variável época de emissão. Para a maioria das variáveis, podemos justificar essa aparente discrepância pelo número de observações. Dentro do grupo CDI+, a variável coobrigação possuía apenas sete observações, enquanto a variável mezanino possuía treze. Esse pequeno número de observações pode ter contribuído para que o modelo não identificasse níveis de significância apropriados. As variáveis vida média e rating AAA, apesar de não terem sido significantes a 10%, possuem pvalores próximos dessa referência, 12,4% e 15,0%, respectivamente, o que torna difícil rejeitar de forma convicta a influência dessas variáveis no spread. De novo, aqui, um maior número de observações pode ajudar em uma conclusão mais substanciada sobre o efeito dessas variáveis. Com relação ao efeito do nível da taxa CDI não ter sido significante para o grupo CDI +, vimos que a variável época da emissão está bastante correlacionada com o nível de taxa de juros, já que para emissões após 15/10/2008 se verifica taxas de CDI mais baixas. Ao eliminarmos a variável época da emissão do modelo e rodarmos novamente o modelo de regressão, verificamos que a variável tx CDI Baixa passa a ser significante, indicando que, o 57 nível de taxa CDI, na ausência da variável época de emissão, é capaz de explicar o nível de spreads das emissões. 4.3 LIMITAÇÕES DO MODELO Modelos de regressão linear possuem limitações que lhes são inerentes. Tais modelos explicam de forma geral a relação entre variáveis independentes e variável dependente, entretanto: a) os valores das variáveis dependente e independentes são obtidos de uma amostra específica, que apresenta distorções da realidade; b) as variações da variável dependente não são perfeitamente explicadas pelas variáveis independentes; c) podem existir outras variáveis independentes que expliquem a variável dependente e não foram incluídas. Outra limitação importante da aplicação do modelo no caso específico deste estudo foi a existência de poucas observações, particularmente para o grupo CDI+, o que refletiu na análise dos resultados. Essa influência se mostrou importante na medida em que não foi detectada para esse grupo a significância das variáveis de rating, significância essa que é amparada em diversos trabalhos teóricos e empíricos, como os citados na revisão de literatura. 58 5 CONCLUSÃO DO ENSAIO 1 Este estudo tem por objetivo principal identificar fatores presentes nas emissões de FIDCs fechados que podem explicar o nível dos spreads que compõem a rentabilidade-alvo de cotas seniores. Esses spreads são definidos na época de emissão das cotas e permanecem constantes ao longo do prazo de duração da emissão, até que as cotas sejam amortizadas, e desde que não haja eventos extraordinários como a ocorrência de default por parte dos devedores dos direitos creditórios. Que é de nosso conhecimento, este é o primeiro estudo que analisa o spread da rentabilidade-alvo das cotas seniores de um FIDC. O banco de dados construído também é o mais extenso, uma vez que reúne informações provenientes de três instituições: Cetip, BM&FBovespa e CVM. Não é de nosso conhecimento também a existência de trabalhos anteriores sobre apreçamento de títulos mobiliários originados de securitização, que analise o efeito de variáveis como a existência de procedimento de bookbuilding e taxa de administração. Em virtude da existência de duas formas distintas de expressão da rentabilidade-alvo, os FIDCs que compuseram a amostra tiveram que ser divididos em dois grupos: um com rentabilidade-alvo expressa na forma spread % CDI e outro com rentabilidade na forma CDI + spread. Como consequência, o mesmo modelo teve que ser aplicado a cada grupo, o que gerou duas análises distintas. A partir de estudos anteriores a respeito de apreçamento de títulos originados via securitização, foi possível identificar variáveis-chave que poderiam explicar os spreads. Além da existência de procedimento de bookbuilding e da taxa de administração, mencionadas acima, o modelo também inclui variáveis relacionadas a determinadas características presentes na emissão de um FIDC, tais como: sua estrutura (existência de tranche mezanino, existência de coobrigação, nível de subordinação, vida média e tamanho da classe sênior); ambiente econômico (nível de taxas do CDI); e risco (rating e natureza do direito creditório). A partir da análise dos dados, e previamente à avaliação pelo modelo, foi necessário incluir uma variável que pudesse distinguir emissões mais recentes das mais antigas, pois ao longo do período a que se referem as informações do banco de dados, se identifica uma clara 59 mudança nas características de emissão das cotas dos FIDC. Essa variável mostrou-se significante para os dois grupos de FIDC analisados (% CDI e CDI +). De fato, emissões mais recentes se mostraram associadas à maior quantidade de emissões de FIDCs, em termos proporcionais, com spreads expressos na forma CDI +; a spreads mais altos; a taxas de juros CDI over mais baixas; à maior quantidade de emissões de fundos com estrutura de tranche mezanino; e à menor quantidade de emissões com rating A. Para o grupo de FIDCs % CDI, além da época de emissão, foram significantes, de acordo com o modelo empregado, as variáveis rating, mezanino, coobrigação, vida média e nível da taxa CDI. Os sinais dos coeficientes das variáveis rating, vida média e nível da taxa CDI foram de acordo com o esperado. Melhores ratings, vida média mais longa e nível da taxa CDI mais alto estão relacionados com menores spreads. Já a existência de tranche mezanino e de coobrigação da cedente se mostraram relacionadas com o aumento do spread. Para a variável mezanino, isso se explica com o fato de que FIDCs com esse tipo de tranche passaram a ser lançados principalmente em épocas mais recentes, quando os spreads estavam mais elevados. Para a coobrigação, esse resultado pode ser explicado pela forma como são estruturados os FIDCs, ou seja, a existência de coobrigação pode ter sido um reforço necessário para que a emissão alcançasse um rating mais elevado do que se obteria com outras características. Portanto, essa variável estaria associada a emissões mais arriscadas. Para o grupo de FIDCs CDI+, além da variável época de emissão, apenas outra se mostrou significante, a existência de bookbuilding. O sinal dessa variável estava de acordo com o esperado, isto é, a existência de procedimento bookbuilding para se definir o spread está relacionada com spreads mais baixos. O baixo número de variáveis significantes para esse grupo pode estar relacionado com o pequeno número de observações. Como foi visto, a época de emissão de FIDCs mostrou-se ser importante na análise dos resultados gerados pelo modelo. Isso pode ser resultado do nível das taxas de juros CDI que se tornaram mais baixos; dos efeitos da crise financeira internacional que se fez presente a partir de meados de 2008, o que representa metade do período da amostra; ou de ambos os efeitos. Além das limitações inerentes a modelos de regressão linear, outra limitação importante da aplicação do modelo foi a existência de poucas observações, particularmente para o grupo CDI+, o que refletiu na análise dos resultados. Essa influência se mostrou importante na medida em que não foi detectada para esse grupo a significância das variáveis de rating, significância essa que é amparada em diversos trabalhos teóricos e empíricos, como os citados na revisão de literatura. 60 Assim, será importante uma nova investigação futura, quando o número de observações e o período da amostra forem grandes o suficiente para que efeitos desse tipo não exerçam tanta influência. Por meio deste estudo, foi possível identificar características que possuem influência no apreçamento de cotas seniores de FIDCs. O próximo passo seria, portanto, a elaboração de um modelo apropriado que permitisse compreender melhor como esse processo ocorre, e que, a partir dessas características, pudesse oferecer um valor de apreçamento para um FIDC. Este será o objetivo do próximo ensaio. 61 ENSAIO 2 Modelo Para Apreçamento de FIDCs 62 RESUMO Este trabalho apresenta um modelo para apreçamento das diversas classes de cotas que compõem um FIDC. Os resultados do modelo foram aferidos, sendo comparados com outros modelos conhecidos da literatura acadêmica e com um modelo de simulação, e foram considerados satisfatórios. O modelo foi então aplicado a um FIDC com perfil específico para análise de sensibilidade de diversos fatores que podem influenciar nas rentabilidades das cotas. Dentre as conclusões obtidas, destacam-se: que o aumento no valor de cotas seniores é benéfico para a rentabilidade de cotas subordinadas e inconclusivo para cotas mezanino, mas só eleva rentabilidade dos próprios cotistas seniores se a proporção dessas cotas for baixa em relação ao total; o aumento no valor de cotas mezanino não necessariamente reduz spread das cotas seniores, mas o aumento de cotas subordinadas sim; a taxa livre de risco pode produzir diferentes efeitos nas rentabilidades, a depender de como está relacionada com o custo de capital; o aumento na volatilidade possui forte efeito nas cotas subordinadas, mas pouco efeito, e mesmo assim oscilatório, nas rentabilidades das cotas seniores, o que indica que a taxa de inadimplência dos devedores deve ser considerada de outra forma que não na volatilidade; o aumento do prazo de duração do fundo por meio do aumento da carência reduz o spread das cotas subordinadas, enquanto que o aumento dos prazos entre as amortizações, mantendo-se prazo final constante, elevou esses spreads. ABSTRACT This paper presents a model for the pricing of the various classes of quotas that make up the FIDC. The model results were measured and compared with other models known in academic literature, as well as with a simulation model, and were considered satisfactory. The model was then used for the analysis of various factors that may affect the return of the FIDC quotas. Among the conclusions achieved, we highlight that: increase in senior quotas value is good for subordinated quotas but inconclusive for mezzanine; increase in the profitability of senior quotas occurs only if the proportion of such quotas is low in relation to total; increase in mezzanine quotas value does not necessarily reduce the senior quotas spreads, but the increase in subordinated quotas does; the risk-free interest rate can yield different effects on return, depending on how its relation to the cost of capital is; the increase in volatility has a strong effect on the subordinate quotas, but little effect, and even oscillatory, on the returns in senior quotas, which demands that the borrowers default rate should not be considered in the volatility; increasing the fund term by increasing the grace period reduces the spread of subordinated quotas, while the increase in the period between amortizations, maintaining constant the final term, increases these spreads. 63 1 INTRODUÇÃO No Ensaio 1, procurou-se identificar características dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) que possuíssem influência nos spreads das rentabilidades-alvo das cotas seniores definidas no momento da emissão. Ao longo do referido ensaio, por meio de um modelo de regressão linear, foi observado que variáveis representativas de risco (ratings e natureza do ativo-lastro), vida média ponderada da série das cotas e nível da taxa de juros livre de risco (CDI) poderiam explicar esses spreads. Tais variáveis também são tratadas no modelo de Merton (1974). Merton utiliza o modelo de apreçamento de opções desenvolvido também por Black e Scholes (1973) para avaliar dívidas corporativas. Assim, no modelo de Merton, ratings e a natureza do ativo-lastro estariam incluídos na volatilidade dos ativos; vida média ponderada corresponderia ao vencimento da dívida corporativa; a estrutura de subordinação do FIDC corresponderia à estrutura de subordinação da dívida corporativa. O modelo de Merton permite ainda considerar o detalhamento do fluxo de caixa do FIDC, ao possibilitar a inclusão de variáveis como custo de capital, valor dos ativos e das amortizações por classe de cotas, além da taxa de inadimplência dos direitos creditórios. Analisando o comportamento dos spreads dos títulos representativos de dívida, Merton conclui com base no seu modelo que esses spreads: a) são função crescente da relação entre valor presente da dívida livre de risco e o valor total dos ativos da empresa; b) são função crescente da volatilidade dos preços dos ativos; c) são função decrescente da taxa de juros livre de risco; d) com relação ao prazo de vencimento, são função decrescente quando se trata de firma alavancada, e função inicialmente crescente e depois decrescente, quando se trata de firma pouco alavancada. Black e Scholes já haviam mencionado a possibilidade do apreçamento de ações e debêntures por meio de opções, embora não tivessem desenvolvido um modelo. Os autores foram ainda além nessa discussão, ao comentarem que títulos de dívida que pagam cupons poderiam ser vistos como opções compostas, isto é, opções sobre opções. A primeira opção teria validade a partir da data do pagamento do penúltimo cupom, expiraria na data de vencimento da dívida, e teria como preço de exercício o valor do principal acrescido do valor 64 do último cupom. A segunda opção seria uma opção para adquirir a primeira opção, se iniciando na data de pagamento do antepenúltimo cupom, com vencimento na data de pagamento do penúltimo cupom e preço de exercício igual ao valor do cupom. E assim por diante. O modelo para apreçamento de opções compostas foi desenvolvido por Geske (1977 e 1979a). Esse modelo considera uma opção sobre uma ação de uma empresa. A ação dessa empresa, por sua vez, corresponderia a uma opção de compra dos ativos de uma empresa, conforme sugerido por Merton (1974). Em seguida surgiram outras aplicações do modelo de Geske. Roll (1977) sugere um portfólio composto por três opções, sendo uma opção composta, que, segundo o autor, replicaria o fluxo de caixa de uma opção americana com pagamento de dividendos discretos. Em seguida, Geske (1979b) desenvolve o modelo proposto por Roll, simplificando o portfólio sugerido por esse autor, substituindo-o por uma única opção composta. Whaley (1981) apresenta uma correção nos modelos de Roll e Geske. Esse modelo para apreçamento de opção americana sobre ações com pagamento de dividendos fixos passou a ser identificado na literatura como modelo Roll-Geske-Whaley (RGW). O modelo de Geske (1979a) também possui aplicações em assuntos relacionados a opções reais, como indicam Perle, Peske e Schrank (apud Enea e Lo Nigro, 2012). Outros trabalhos procuraram aperfeiçoar o modelo RGW. Sterk (1983) faz uma comparação do desempenho entre os modelos RGW e Black e Scholes (1973) modificado por Black (1975) para incluir a possibilidade de pagamento de dividendos em ações no cálculo do preço de opções americanas. O autor conclui que o modelo RGW possui desempenho igual ou melhor que o modelo de Black (1975), se aproximando mais dos preços de opções negociadas no mercado. Geske e Johnson (1984) propõem uma correção no modelo de opções compostas de Geske (1979a), quando utilizado para apreçar títulos de dívida júnior e sênior. Selby e Hodges (1987) sugerem modificação na forma como são consideradas as distribuições multivariadas normais no modelo de Geske (1979a), reduzindo a quantidade de cálculos integrais necessários, aperfeiçoando dessa forma o algoritmo de cálculo. Rubinstein (1983) propõe uma alteração no modelo de Black e Scholes (1973) de forma a considerar os ativos de uma firma com diferentes níveis de risco. Randal e Lally (2004), com base nessa ideia, incluem no modelo de Geske (1979a) a possibilidade de se considerar a existência de ativos heterogêneos em uma empresa, sendo uma parte dos ativos composta por ativos com risco e outra, por ativos livres de risco. 65 Os modelos mencionados até aqui são modelos analíticos em tempo contínuo, isto é, o valor de uma opção é determinado a partir de uma expressão matemática fechada, considerando a evolução do preço do ativo contínua no tempo. Em contrapartida, Cox, Ross e Rubinstein (1979) desenvolvem um modelo para apreçamento de opções baseado em intervalo de tempo discreto, o modelo binomial. O modelo utiliza um procedimento numérico para apreçamento, levando-se em conta a inexistência de arbitragem, o que, como salientam os autores, permite tornar mais clara a compreensão dos princípios econômicos fundamentais envolvidos. Os autores demonstram ainda que, quando o intervalo de tempo discreto utilizado no modelo tende a zero, o resultado tende a equação de Black e Scholes. O modelo permite também o apreçamento de opções americanas, cujo exercício antes do vencimento pode ser ótimo. Omberg (1987) realiza uma comparação entre os modelos de RGW e de Cox, Ross e Rubinstein (1979), aplicados ao apreçamento de opções americanas. O trabalho se atém apenas à questão da convergência nos resultados e conclui que o modelo RGW gera resultados que são limites inferiores ao valor real da opção enquanto que no modelo binomial a convergência é oscilatória. Breen (1991) também aborda essa mesma questão e propõe uma técnica de aceleração de convergência para o modelo binomial. Frishling (2002) faz uma comparação entre três modelos encontrados na literatura para apreçamento de opções americanas com pagamentos de dividendos discretos: a) o primeiro modelo é um modelo analítico, que considera o somatório dos dividendos trazidos a valor presente e descontados do preço inicial do ativo. Sobre esse valor é então aplicado o movimento geométrico browniano para se determinar o preço da opção; b) já no segundo modelo, também analítico, o movimento geométrico browniano é aplicado sobre o preço inicial do ativo, enquanto que os dividendos são levados a valor futuro na data de vencimento e então descontados do preço de exercício da opção; c) o terceiro modelo é o modelo binomial, que permite o desconto dos dividendos no instante em que eles são devidos. A comparação apresentada por Frishling (2002) ressalta que, apesar de os três modelos possuírem o mesmo valor esperado, as distribuições finais dos valores dos ativos são diferentes, o que resulta em preços de opções diferentes. O autor menciona que não é claro como se deve incluir o efeito do timing do pagamento de dividendos discretos no primeiro e 66 segundo modelos e conclui que o modelo binomial seria aquele dentre os três capaz de refletir melhor a realidade. Como foi mencionado, o modelo proposto por Merton (1974) para o apreçamento de dívidas corporativas inclui características que estão presentes também na emissão de cotas de FIDCs e que, como foi visto no Ensaio 1, possuem efeito sobre o apreçamento das cotas seniores. Os valores de mercado das ações e das dívidas, utilizados no modelo de Merton, corresponderiam, no caso dos FIDCs, respectivamente, aos valores das cotas subordinadas e das cotas seniores. Os ativos de uma empresa considerados no modelo de Merton corresponderiam aos ativos dos FIDCs, que incluem direitos creditórios e títulos públicos. Além disso, verifica-se que o modelo de opções compostas permite replicar a estrutura de amortização de cotas de um FIDC. Por exemplo, para o caso de um FIDC com duas classes de cotas, uma subordinada e outra sênior, o valor da cota subordinada corresponderia ao valor de uma opção de compra composta. Essa opção de compra composta representa uma cesta de opções de compra, em que cada opção possui preço de exercício igual ao valor mais próximo a ser amortizado para as cotas seniores e vencimento na data dessa amortização. Se, para uma data de amortização específica, o valor dos ativos do FIDC (direitos creditórios e títulos públicos) for superior ao necessário para amortização dos cotistas seniores, a amortização será concretizada e o valor da opção – e, por consequência, dos ativos - nessa data, corresponderá ao saldo após a amortização. Se, no entanto, o valor dos ativos não for suficiente para amortização das cotas seniores, então a opção valerá zero e todas as opções de compra seguintes a essa amortização também serão iguais à zero. Esse processo se repete para cada opção de compra que compõe a cesta até o prazo final de resgate das cotas. No entanto, a fórmula analítica para o apreçamento de uma opção composta foi desenvolvida apenas para o caso de uma opção sobre outra opção. Geske (1979a) indicou a solução para casos com mais de uma opção composta, entretanto, o cálculo se torna complexo, pois exige a consideração de distribuições de probabilidades multivariadas. Nesse caso, o modelo binomial se apresenta como o mais apropriado, pois permite o detalhamento da estrutura de amortizações de FIDC, tratando-as como opções compostas, sem, no entanto, a necessidade da elaboração de cálculos extensos em virtude da distribuição de probabilidade multivariada. O modelo binomial também possui uma vantagem em relação a modelos por simulação. Como será visto adiante, o modelo binomial produz como resultado um único valor para um mesmo número de passos. Já o procedimento de simulação oferece resultados baseados na média de diferentes simulações. Mesmo que a quantidade de simulações seja alta e que o número de simulações constante, essas médias são diferentes cada vez que o 67 procedimento é executado. Esse fato dificulta uma análise de sensibilidade para se identificar o efeito dessas mudanças em uma variável de interesse, como, por exemplo, a rentabilidade de cotas de um FIDC. Às vezes essas alterações provocam pequenas, mas importantes mudanças nos resultados e, nesse caso, o modelo de simulação não permitiria uma conclusão apropriada. Outra vantagem do modelo binomial sobre o de simulação é a rapidez. Para se aumentar a precisão dos resultados obtidos pelo modelo de simulação, deve-se aumentar o número de simulações e muitas vezes essa quantidade se torna excessiva, se a necessidade da precisão é grande. Em contrapartida, o modelo binomial pode gerar resultados precisos com poucos passos, convergindo rapidamente para um resultado. Apesar da extensa aplicação dos modelos de Geske e binomial em diversas áreas que envolvem avaliação de opções, não identificamos na literatura nenhum trabalho que utilizasse tais modelos no apreçamento de operações de securitização, incluindo nesse caso também os FIDCs. Na literatura acadêmica nacional identificamos um único trabalho sobre o assunto. Pinheiro e Savóia (2009), por meio de um modelo de simulação estocástica das variáveis taxa de juros e taxa de inadimplência, a partir de informações de mercado, avaliaram riscos e retornos para investidores em cotas de FIDC. Os autores concluíram que o risco de um investidor da classe sênior receber menos do que a remuneração-alvo é muito baixo. Saber determinar o valor de uma cota em um FIDC, diante das expectativas futuras envolvendo diversos fatores de risco, é de grande importância para gestores, investidores e reguladores. Dessa forma, entendemos como de grande relevância apresentar um modelo para apreçamento de cotas de FIDCs. Tal modelo deve possuir flexibilidade para replicar as características específicas desses fundos, de modo a refletir com maior grau de realidade a estrutura do fluxo de pagamentos. O objetivo deste trabalho será apresentar o modelo binomial para o apreçamento de FIDCs, que utiliza o conceito de opções compostas. Em virtude do recente aumento de ofertas de FIDCs com três classes de cotas (subordinada, mezanino e sênior), como foi visto no Ensaio 1, consideraremos que o FIDC do modelo possui essas três classes. O modelo permitirá a análise de diversos fatores que influenciam no apreçamento dessas classes de cotas, tais como, percentual do valor total de cada classe em relação ao total de ativos do fundo, nível de subordinação, volatilidade, taxas de juros, custo de capital, taxas de inadimplência, prazo de duração do fundo e características relacionadas às amortizações. Este trabalho está dividido da seguinte forma. A Seção 2 apresenta uma revisão dos principais modelos que serão considerados na elaboração do modelo, objeto deste estudo. A Seção 3 apresenta o modelo binomial para apreçamento de FIDCs. A Seção 4 avalia o 68 comportamento das rentabilidades de todas as classes de cotas de um FIDC em função de alterações em fatores de risco. A Seção 5 apresenta a conclusão. 69 2 REVISÃO DOS MODELOS-BASE PARA CONSTRUÇÃO DO MODELO BINOMIAL PARA FIDCS Nesta seção serão descritos de forma sucinta os modelos que formam a base para a construção do modelo binomial para apreçamento de FIDCs, o qual será utilizado na determinação das rentabilidades das cotas e na análise do comportamento dessas rentabilidades diante de alterações envolvendo fatores de risco. Os modelos a serem descritos são: o modelo de Merton (1974), o modelo de opções compostas de Geske (1979a) e o modelo binomial de Cox, Ross e Rubinstein (1979). 2.1 MODELO DE MERTON Merton (1974) utiliza o modelo de apreçamento de opções desenvolvido também por Black e Scholes (1973) para avaliar dívidas corporativas, com vencimento em uma única data. Segundo tal modelo, uma firma possui ativos de valor presente total V e duas classes de passivos: uma classe homogênea representando total de dívidas de valor presente B, a ser pago aos credores em uma data específica T; e o restante (S) representando o valor total pertencente aos acionistas da empresa, de tal forma que V = S + B. Conforme Merton, considerando que nem ativos e nem valores mobiliários distribuem rendimentos, o valor dos ativos da firma (V) seguiria um processo estocástico na forma do Movimento Geométrico Browniano (MGB) conforme a seguinte equação: dV = αVdt + σVdz Onde: V: valor da firma α: retorno por unidade de tempo sobre os ativos da firma dt: fração do tempo σ: volatilidade do valor dos ativos dz: processo estocástico padrão de Gauss-Wiener (1) 70 Ainda segundo Merton, um valor mobiliário, seja um título representativo de dívida ou uma ação de uma empresa, cujo valor de mercado Y ao longo do tempo dependa do valor da empresa, isto é, Y = f (V, t), seguiria também um processo estocástico na forma de MGB: dY = αyYdt + σyYdzy (2) Onde: Y: preço do valor mobiliário αy: retorno por unidade de tempo sobre o valor mobiliário t: tempo decorrido da data inicial até o instante considerado σy: volatilidade dos preços do valor mobiliário dzy: processo estocástico padrão de Gauss-Wiener Aplicando o Lema de Itô e considerando a inexistência de arbitragem, Merton concluiu que: 𝛼−𝑟 𝛼 −𝑟 = (3) 𝜎 𝜎 Onde r representa a taxa livre de risco. A equação diferencial que descreveria o comportamento do valor de Y em função do valor de V seria dada por: σ V f + rVf − rf − f = 0 (4) Onde: τ representa o tempo do instante considerado até o vencimento, isto é, τ = T - t; e f, seguido de subscritos, representa derivada parcial da função f em relação às variáveis do subscrito. No caso de f representar a ação de uma firma, denominada S no início desta seção, os acionistas só receberão sua parte após os credores receberem o total da dívida prometida no vencimento. Isto é, se o valor dos ativos for maior que o valor da dívida, os acionistas recebem, no vencimento, S = V – KB, onde KB é o valor de dívida no vencimento. Mas se o 71 valor dos ativos for menor do que o valor da dívida prometida no vencimento, isso significará que a firma não conseguirá honrar completamente suas dívidas e seus acionistas nada receberão. Em virtude da responsabilidade limitada dos acionistas, o menor valor possível que a ação pode assumir é zero. Ou seja, f sempre será não negativa e, no caso em que os ativos tiverem valor zero, em qualquer tempo: f (0, τ) = 0 (5) Além disso, na data de vencimento, isto é τ = 0, o valor da ação em função do valor dos ativos da firma pode ser dada por: f (V, 0) = máx (0, V – KB) (6) Como se pode perceber pela Equação (6), o valor de uma ação da firma corresponde, na data do vencimento, a uma opção de compra com preço de exercício igual ao valor da dívida prometida no vencimento (KB). Ou seja, os acionistas teriam uma opção de compra sobre os ativos da firma. Eles poderiam exercer essa compra e ficar com os ativos, sempre que o valor dos ativos for superior ao valor da dívida para com os credores. No caso dos ativos, no vencimento, possuírem valor inferior ao da dívida prometida, a opção expiraria sem valor e os ativos ficariam com os credores. As Equações (5) e (6) representam condições de contorno para se determinar a solução da Equação diferencial (4), e, desse modo, permitir o cálculo do valor da ação para qualquer momento antes do vencimento da dívida. A solução para a Equação (4) será: 𝑓(𝑉, 𝜏) = 𝑉𝑁(𝑑1) − 𝐾 𝑒 𝑁(𝑑2) Onde: V, KB, r, τ, σ: conforme definidos anteriormente N (.): valor da área da curva normal acumulada 𝑑1 = ln 𝑉 𝐾 𝑑2 = 𝑑1 − 𝜎√𝜏 + (𝑟 + 𝜎 )𝜏 𝜎 √𝜏 (7) 72 Tendo determinado o valor da ação, o valor da dívida em qualquer momento anterior ao do vencimento pode ser determinado também. Chamando o valor dos títulos representativos da dívida de F(V, τ), que corresponde ao que foi denominado B no início desta seção, e sabendo-se que: V=S+B V = f(V, τ) + F(V, τ) F(V, τ) = V - f(V, τ) 𝐹 (𝑉, 𝜏) = 𝑉 − 𝑉𝑁(𝑑1) + 𝐾 𝑒 𝐹 (𝑉, 𝜏) = 𝑉(1 − 𝑁(𝑑1)) + 𝐾 𝑒 𝐹 (𝑉, 𝜏) = 𝑉(𝑁(−𝑑1)) + 𝐾 𝑒 𝑁(𝑑2) 𝑁(𝑑2) 𝑁(𝑑2) Adicionando-se e subtraindo-se KB.e-rτ da expressão acima, tem-se: 𝐹 (𝑉, 𝜏) = 𝐾 𝑒 + 𝑉 𝑁(−𝑑1) + 𝐾 𝑒 (𝑁(𝑑2) − 1) 𝐹 (𝑉, 𝜏) = 𝐾 𝑒 + 𝑉 𝑁(−𝑑1) − 𝐾 𝑒 𝑁(−𝑑2) 𝐹 (𝑉, 𝜏) = 𝐾 𝑒 − (𝐾 𝑒 𝑁(−𝑑2) − 𝑉𝑁(−𝑑1)) (8) Lembrando que uma opção de venda possui valor igual a: 𝑓(𝑉, 𝜏) = 𝐾 𝑒 𝑁(−𝑑2) − 𝑉𝑁(−𝑑1) Onde: V, KB, r, τ, σ: conforme definidos anteriormente N (.): valor da área da curva normal acumulada 𝑑1 = ln 𝑉 𝐾 𝑑2 = 𝑑1 − 𝜎√𝜏 + (𝑟 + 𝜎 )𝜏 𝜎 √𝜏 (9) 73 Pode-se perceber, pela Equação (8), que o valor da dívida para os credores, em qualquer instante até o seu vencimento, corresponde ao valor presente do valor de face da dívida deduzido do valor de uma opção de venda sobre os ativos com mesmo vencimento.19 Para os casos em que a dívida é repartida em sênior e subordinada, com apenas um pagamento no vencimento, a dívida sênior é calculada conforme descrito acima. Para as dívidas subordinadas, o seu valor pode ser determinado pela diferença entre duas opções de compra, uma com preço de exercício igual ao valor total da dívida (subordinada + sênior), e a outra com preço de exercício igual a somente o valor da dívida sênior. A Figura 1 a seguir ilustra o comportamento dos diferentes valores mobiliários das contas no vencimento da dívida. Valor das Cotas K B Ação Dívida júnior Dívida Senior K KB+KJ Valor Total dos Ativos B Figura 1- Valor das cotas x Valor dos ativos no vencimento da dívida para cotas subordinada, mezanino e sênior. KB corresponde ao valor de face da dívida sênior. K J corresponde à dívida subordinada júnior. De acordo com modelo de Merton, a dívida sênior corresponde ao valor presente da dívida deduzido de uma opção de compra com preço de exercício K B; a dívida júnior corresponde a uma opção de compra com preço de exercício K B, deduzida de outra opção de compra com preço de exercício (KJ + KB); e uma ação da empresa corresponde a uma opção de compra com preço de exercício (K J + KB), sendo todas as opções com vencimento na data da dívida. Como se pode observar na figura acima, a linha tracejada, que representa o valor da ação de uma empresa na data de vencimento das dívidas, possui a mesma forma do payoff de uma opção de compra, com preço de exercício igual ao somatório dos valores de face das dívidas júnior e sênior (KB + KJ). A linha contínua, que representa o valor de face da dívida sênior de uma empresa na data de vencimento, possui a mesma forma do payoff do valor de 19 KB corresponde à dívida prometida livre de risco e F(V, τ), ou B, à dívida incluindo efeito do risco. 74 face da dívida (KB) e uma posição vendida em opção de venda, com preço de exercício igual a KB. A linha pontilhada, que representa o valor de face da dívida júnior de uma empresa na data de vencimento, possui a mesma forma do payoff de uma posição comprada em opção de compra com preço de exercício igual ao valor da dívida sênior (KB) e uma posição vendida em opção de compra, com preço de exercício igual ao total das dívidas sênior e subordinada (KB+KJ). 2.2 MODELO DE OPÇÕES COMPOSTAS O modelo de opções compostas desenvolvido por Geske (1977 e 1979a) trata do caso de uma opção de compra europeia sobre uma ação de uma empresa. Geske parte do modelo de Merton, que considera a ação de uma empresa como uma opção de compra sobre os ativos dessa mesma empresa. Assim, uma opção de compra sobre uma ação, corresponderia a uma opção de compra sobre outra opção de compra. Assim como Merton (1974), Geske (1977 e 1979a) supõe que o valor total dos ativos da empresa segue um MGB na forma da Equação (1). Seguindo os mesmos passos existentes em Merton (1974), isto é, aplicando o Lema de Itô e considerando a inexistência de possibilidade de arbitragem, o valor de uma opção de compra pode ser determinado pela equação diferencial: 𝜎 𝑉 𝑐 + 𝑟𝑉𝑐 − 𝑟𝑐 − 𝑐 = 0 (10) que corresponde à Equação (4), com a letra c no lugar de f apenas para indicar que se trata de uma opção de compra (call). Considerando que a opção de compra sobre uma ação com valor S tenha preço de exercício KM e vencimento em τ1, uma condição de contorno seria que, em τ1: C (S, 0) = máx (0, Sτ1 – KM) (11) Onde Sτ1 corresponde ao valor da ação no vencimento da opção em τ1. Aqui ocorre uma questão importante, pois a equação do valor da opção de compra (10) está em função do valor dos ativos da firma (V), enquanto sua condição de contorno está em função do valor da 75 ação (S). Para solucionar esse problema, primeiramente Geske utiliza o resultado encontrado por Merton para definir a equação do valor da ação em função dos ativos da empresa: 𝜎 𝑉 𝑆 + 𝑟𝑉𝑆 − 𝑟𝑆 − 𝑆 = 0 (12) Essa equação é similar à Equação (4) com S no lugar de f apenas para indicar que se trata do preço da ação (stock, em inglês). Considerando a condição de contorno para uma ação de uma empresa com valor de face total de dívida sem risco igual a KB e prazo de vencimento τ2 > τ1: S (V, 0) = máx (0, Sτ2 – KB) (13) Onde Sτ2 corresponde ao valor da ação na data de vencimento da dívida KB. A solução da Equação (12), com vencimento em τ2 > τ1 seria: 𝑆(𝑉, 𝜏) = 𝑉𝑁(𝑑1) − 𝐾 𝑒 𝑁(𝑑2) (14) Onde: V, KB, r, σ: conforme definidos anteriormente 𝑑1 = ln 𝑉 𝐾 + 𝑟+ 𝜎 𝜏 𝜎 √𝜏 𝑑2 = 𝑑1 − 𝜎 𝜏 Em seguida, Geske propõe o seguinte raciocínio. Na data de vencimento da opção (τ1), existe um valor V dos ativos da empresa para o qual é indiferente ao titular da opção exercêla, isto é, existe um valor V para o qual Sτ1 – KM = 0. Esse valor de V foi denominado de 𝑉 . Valores de V acima de 𝑉 implicam valores de S acima de KM e, consequentemente, o exercício da opção. Valores de V inferiores a 𝑉 implicam valores de S inferiores a KM e a opção irá expirar sem exercício. Para se determinar 𝑉 , deve-se resolver, de forma iterativa, a seguinte equação: Sτ1 – KM = 0 𝑉 𝑁(𝑑1) − 𝐾 𝑒 𝑁(𝑑2) − 𝐾 = 0 76 Onde Sτ1, KB, KM, r, τ1, τ2, σ, N(.): conforme definidos anteriormente τ = τ2 – τ1 ln 𝑉 𝐾 + 𝑟+ 𝜎 𝑑1 = 𝜏 𝜎 √𝜏 𝑑2 = 𝑑1 − 𝜎√𝜏 Geske demonstra então que o valor de uma opção de compra sobre outra opção de compra (CC) pode ser obtida pela equação:20 𝐶𝐶 = 𝑉𝑁 ℎ + 𝜎√𝜏 ; 𝑘 + 𝜎√𝜏 ; 𝜏 ⁄𝜏 . −𝐾 𝑒 𝑁 ℎ; 𝑘; 𝜏 ⁄𝜏 . −𝐾 𝑒 𝑁(ℎ) (15) Onde: V, 𝑉 , KB, KM, r, τ1, τ2, σ, N(.): conforme definidos anteriormente N2(.): função de distribuição normal cumulativa bivariada com k e h como limites integrais superiores e ln 𝑉 𝑉 ℎ= 𝑘= 20 𝜏 ⁄𝜏 como coeficiente de correlação. + 𝑟− 𝜎 𝜏 𝜎 √𝜏 ln 𝑉 𝐾 + 𝑟− 𝜎 𝜏 𝜎 √𝜏 Completando a informação, acrescenta-se que Rubinstein estendeu o trabalho de Geske (apud Hull, [2008, p. 557-558]) e desenvolveu fórmulas analíticas para os demais casos de opções compostas. Opção de venda sobre opção de compra (PC): 𝑃𝐶 = 𝑀𝑒 . 𝑁 −ℎ; 𝑘; − 𝜏 ⁄𝜏 − 𝑉𝑁 −(ℎ + 𝜎√𝜏 ); 𝑘 + 𝜎√𝜏 ; − 𝜏 ⁄𝜏 + 𝐾𝑒 . 𝑁(−ℎ) (16) Opção de compra sobre opção de venda (CP): 𝐶𝑃 = 𝑀𝑒 . 𝑁 −ℎ; −𝑘; 𝜏 ⁄𝜏 − 𝑉𝑁 −(ℎ + 𝜎√𝜏 ); −(𝑘 + 𝜎√𝜏 ); 𝜏 ⁄𝜏 . − 𝐾𝑒 𝑁(−ℎ) (17) Opção de venda sobre opção de venda (PP): 𝑃𝑃 = 𝑉𝑁 ℎ + 𝜎√𝜏 ; −(𝑘 + 𝜎√𝜏 ); − 𝜏 ⁄𝜏 − 𝑀𝑒 . 𝑁 ℎ; −𝑘; − 𝜏 ⁄𝜏 Não foi identificada aplicação em opções reais para essas equações. + 𝐾𝑒 . 𝑁(ℎ) (18) 77 2.3 MODELO BINOMIAL O modelo binomial foi desenvolvido por Cox, Ross e Rubinstein (1979) e será aqui adaptado para ativos reais. A ideia básica por trás do modelo assume que o preço de um ativo segue um processo binomial em períodos discretos. A Figura 2 abaixo mostra uma representação do modelo considerando apenas um único período. t0 t u.S com probabilidade real q d.S com probabilidade real (1 – q) S Figura 2 – Representação do comportamento do valor de um ativo em um modelo binomial com um único período S: o valor do ativo; u: fator multiplicativo de elevação do preço; d: fator multiplicativo de redução de preço; q: probabilidade de o preço do ativo elevar-se; t0: instante inicial; t: instante qualquer; t > t0. De acordo com o modelo, no instante inicial (t0), um ativo possui valor S. Ao final de um intervalo de tempo t, o ativo pode ter dois valores: u.S, com probabilidade q, ou d.S, com probabilidade 1 – q, onde u -1 e d -1 representam rentabilidades sobre o ativo. O modelo requer que as rentabilidades devam ser tais que u > (1 + r) > d, onde r representa a taxa livre de risco. Para o processo de movimento do preço do ativo S para um período, mostrado na Figura 2, o valor de uma opção de compra (C) sobre esse ativo, com preço de exercício K, terá um dos seguintes resultados, conforme apresentado na Figura 3: t0 t Cu=máx[0, u.S – K] com probabilidade real q C Cd=máx[0,d.S – K] com probabilidade real (1 – q) Figura 3 - Representação do comportamento do valor de uma opção de compra em um modelo binomial com um único período C: o valor da opção de compra no instante t0; Cu: o valor da opção de compra no instante t se o preço do ativo se elevar; Cd: o valor da opção de compra no instante t se o preço do ativo diminuir; S: valor do ativo; u: fator multiplicativo de elevação do preço do ativo; d: fator multiplicativo de redução de preço do 78 ativo; K: preço de exercício; q: probabilidade real de o preço do ativo elevar-se. A palavra “real” é em oposição a “neutra ao risco”, que será explicada posteriormente; t0: instante inicial; t: instante qualquer; t > t0. Uma vez que o preço da opção C depende do preço do ativo S, a ideia presente no modelo é a de formar um portfólio composto por ∆ ações vendidas a descoberto para cada opção de compra adquirida. Dessa forma, seria constituído um portfólio que, independentemente do valor do ativo ao final do período (u.S ou d.S), o resultado final seria o mesmo, eliminando-se o risco. Como consequência, o portfólio teria então como rentabilidade a taxa livre de risco. Em termos de equação: −∆. 𝑢. 𝑆 + 𝐶 = −∆. 𝑑. 𝑆 + 𝐶 ∆ = 𝐶𝑢 − 𝐶𝑑 (19) 𝑆. (𝑢 − 𝑑) ∆ é chamado de razão de hedge. Uma vez que a rentabilidade de um portfólio composto por ∆ ações a descoberto para cada opção possui rentabilidade livre de risco, temos: (−∆. 𝑆 + 𝐶)(1 + 𝑟) = −∆. 𝑑. 𝑆 + 𝐶 21 𝐶(1 + 𝑟) = ∆. 𝑆. (1 + 𝑟) − ∆. 𝑑. 𝑆 + 𝐶 𝐶(1 + 𝑟) = ∆. 𝑆. (1 + 𝑟 − 𝑑) + 𝐶 𝐶(1 + 𝑟) = 𝐶𝑢 − 𝐶𝑑 . 𝑆. (1 + 𝑟 − 𝑑) + 𝐶 𝑆. (𝑢 − 𝑑) Fazendo 𝑝 = (1 + 𝑟 − 𝑑) (20) (𝑢 − 𝑑) Temos 𝐶(1 + 𝑟) = (𝐶 − 𝐶 ). 𝑝 + 𝐶 𝐶= 21 𝑝. 𝐶 + (1 − 𝑝). 𝐶 (21) (1 + 𝑟) Alternativamente poderia ter se usado −∆. 𝑢. 𝑆 + 𝐶 , pois o resultado final seria o mesmo. 79 A variável p possui características de probabilidade, já que 0 < p < 1, uma vez que pelo modelo u > (1 + r) > d. Além disso, o somatório das probabilidades de todos os eventos possíveis é igual a 1, pois 1 + (1 – p) = 1. A Equação (21) indica que o valor da opção de compra pode ser interpretado como uma expectativa do seu valor futuro, descontado pela taxa de juros em um mundo neutro ao risco. A probabilidade p corresponde à probabilidade real q, definida nas Figuras 1 e 2, mas em um mundo neutro ao risco. Qualquer ativo, cujos possíveis valores futuros estão associados a uma distribuição de probabilidade neutra ao risco, possuirá como rentabilidade a taxa livre de risco. A Equação (20) para o cálculo da probabilidade neutra ao risco não considera o caso de ativos que pagam dividendos (i). Para incorporar o efeito de dividendos, quando definidos como um percentual aplicado de forma contínua no valor do ativo, a fórmula é ajustada, conforme Hull (2008), para a seguinte: 𝑝 = (1 + 𝑟 − 𝑖 − 𝑑) (22) (𝑢 − 𝑑) Cox, Ross e Rubinstein (1979) expandiram o modelo de um período mostrado até aqui. Inicialmente apresentaram como seria o caso com dois períodos (passos). Para cada passo, o valor do ativo pode aumentar com rentabilidade u - 1, ou diminuir com rentabilidade d – 1. A Figura 4 representa essa situação. t0 t1 t2 Cuu = máx [0, u2S – K], com probabilidade real q2 Cu C Cud=Cdu = máx [0, u.d.S – K], com probabilidade real 2q(1-q) Cd Cdd = máx [0, d2S – K], com probabilidade real (1-q)2 Figura 4 - Representação do comportamento do valor de uma opção de compra em um modelo binomial com dois períodos C: o valor da opção de compra no instante t0; Cu: o valor da opção de compra no instante t1 se o preço do ativo se elevar; Cd: o valor da opção de compra no instante t1 se o preço do ativo diminuir; Cuu: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo tiver valor u2.S; Cud: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo tiver valor igual a u.d.S; Cdu: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo tiver valor igual a d.u.S; Cdd: o valor da opção de compra no instante t2 se 80 o preço do ativo tiver valor igual a d 2.S; S: valor do ativo; u: fator multiplicativo de elevação do preço do ativo; d: fator multiplicativo de redução de preço do ativo; K: preço de exercício; q: probabilidade de o preço do ativo elevar-se; t0: instante inicial; t1 e t2: instantes quaisquer; t2 > t1 > t0. A Equação (21) permanece válida para cada passo. Assim: 𝐶 = 𝐶 = 𝑝. 𝐶 + (1 − 𝑝). 𝐶 (1 + 𝑟) 𝑝. 𝐶 + (1 − 𝑝). 𝐶 (1 + 𝑟) O cálculo de p continua a ser feito por meio da Equação (20), no entanto, os valores de u, d e r se referem ao intervalo de tempo de cada passo. Alternativamente, pode-se chegar diretamente ao valor de C, a partir dos resultados possíveis em t2. Nesse caso, 𝐶= 𝑝 .𝐶 + 𝑝(1 − 𝑝). 𝐶 + (1 − 𝑝) 𝐶 (23) (1 + 𝑟) Expandindo em seguida o modelo para considerar n períodos, Cox, Ross e Rubinstein (1979) chegaram a seguinte formulação genérica: ∑ 𝐶= 𝑛! 𝑝 (1 − 𝑝) 𝑗! (𝑛 − 𝑗)! 𝐶=𝑆 ! !( )! 𝑝 (1 − 𝑝) 𝑚á𝑥[0, 𝑢 𝑑 (1 + 𝑟) 𝑢 𝑑 (1 + 𝑟) − 𝐾(1 + 𝑟) 𝑆 − 𝐾] 𝑛! 𝑝 (1 − 𝑝) 𝑗! (𝑛 − 𝑗)! (24) Na equação acima, a corresponde ao menor valor inteiro não negativo tal que uadn-aS > K. Quando o número de períodos tende a infinito, e u e d são escolhidos de forma que d=1/u, sendo 𝑢 = 𝑒 √ , os autores mostram que a Equação (24) tende à fórmula do modelo de Black e Scholes (1973). Cox e Rubinstein (1985, p. 185-196) desenvolveram, a partir do modelo binomial, expressões para se determinar a rentabilidade de uma opção. Partindo da razão de hedge (∆), que corresponde à variação do preço da opção em relação à variação do preço do ativo, os autores definem o conceito de elasticidade da opção, que nada mais é do que a variação do 81 preço da opção em relação à variação do preço do ativo em termos percentuais. Para uma opção de compra, o valor da elasticidade é calculado por: ( 𝛺 = ) .( ) 𝛺 = (𝑆⁄𝐶 )Δ (25) Lembrando que q é a probabilidade real, o retorno esperado do ativo é definido por: RS = q.u + (1 – q).d (26) E o retorno da opção de compra seria: 𝑅 = 𝑞. 𝐶 + (1 − 𝑞). 𝐶 (27) 𝐶 Levando-se em conta ainda que: (−∆. 𝑆 + 𝐶)(1 + 𝑟) = 𝑞. [−∆. 𝑢. 𝑆 + 𝐶 ] + (1 − 𝑞)[−∆. 𝑑. 𝑆 + 𝐶 ] (28) Alterando (28) em função de (25), (26) e (27), chega-se finalmente a rentabilidade para uma opção de compra: 𝑅 = 𝑟 + 𝛺 (𝑅 − 𝑟) (29) A Tabela 1 abaixo apresenta um resumo das principais fórmulas acima e das fórmulas equivalentes para opção de venda. 82 Tabela 1 – Fórmulas para determinação da razão de hedge, elasticidade e retorno esperado de opções de compra e de opções de venda Descrição Razão de hedge (Δ) Elasticidade (Ω) Retorno esperado (R) Opção de compra ∆ = 𝐶𝑢 − 𝐶𝑑 𝑆. (𝑢 − 𝑑) Ω = ∆ 𝑆 𝐶 𝑅 = 𝑟 + Ω (𝑅 − 𝑟) Opção de venda ∆ = 𝑃𝑢 − 𝑃𝑑 𝑆. (𝑢 − 𝑑) Ω = ∆ 𝑆 𝑃 𝑅 = 𝑟 + Ω (𝑅 − 𝑟) Nas fórmulas acima: Cu é o valor de uma opção de compra sobre um ativo se o valor do ativo aumentar; C d é o valor de uma opção de compra sobre um ativo se o valor do ativo diminuir; P u é o valor de uma opção de venda sobre um ativo se o valor do ativo aumentar; P d é o valor de uma opção de venda sobre um ativo se o valor do ativo diminuir; C é o valor da opção de compra no instante inicial; P é o valor da opção de venda no instante inicial; S é o valor de um ativo no instante inicial; r é a taxa livre de risco; u – 1 é o retorno sobre o valor de um ativo no caso de valorização; d – 1 é o retorno de um ativo se houver desvalorização. u > r > d; R s é o retorno do ativo. 83 3 METODOLOGIA 3.1 MODELO BINOMIAL PARA APREÇAMENTO DE FIDCS O FIDC para o qual será desenvolvido o modelo é do tipo fechado, isto é, as cotas emitidas possuem prazo determinado para serem completamente amortizadas. O FIDC possui a estrutura de capital conforme apresentada na Figura 5. FIDC Cotas seniores F(KS) Ativos (V) Cotas mezanino F(KM) Cotas subordinadas F(KJ) Figura 5 – Estrutura do FIDC para o qual será desenvolvido o modelo binomial Por meio da venda de cotas, um FIDC arrecada recursos para a compra de títulos públicos e de direitos creditórios emitidos por uma ou mais cedentes contra devedores. Esses títulos e direitos creditórios compõem o total de ativos (V) do fundo. As cotas são emitidas com características distintas, havendo uma classe para cada conjunto de características. Em geral, um FIDC emite até três classes de cotas distintas: cotas seniores, cotas mezanino e cotas subordinadas. Os ativos são amortizados e pagam juros ao longo da vida do FIDC. Denominando-se o valor atual das amortizações e juros transferidos às cotas seniores de F(KS); o valor atual das amortizações e juros transferidos às cotas mezanino de F(KM); e o valor atual das amortizações e juros transferidos às cotas subordinadas de F(KJ), tem-se que: V = F(KS) + F(KM) + F(KJ) 84 Há subordinação entre as espécies de cotas. Se houver inadimplência (default) por parte dos devedores dos direitos creditórios, as cotas subordinadas são obrigadas, de forma prioritária, a arcar com os custos. Ou seja, o valor correspondente ao montante não pago pelos devedores será retirado das cotas subordinadas e utilizado para amortizar as cotas mezanino e sênior. Se o valor do default for superior ao total das cotas subordinadas, as cotas mezanino passarão a arcar com esses custos, de modo a que as cotas seniores continuem a ser amortizadas normalmente. Conforme prática do mercado, as cotas seniores e mezanino possuem rentabilidadesalvo, definidas no momento da emissão. As cotas subordinadas não possuem rentabilidadealvo, embora haja uma rentabilidade esperada. O investidor nessas cotas é a própria empresa cedente dos direitos creditórios (Silva, 2010), que fica com o restante do lucro, se houver, após amortização das cotas seniores e mezanino. As cotas subordinadas equivalem, no modelo de Merton (1974), a uma ação, pois essas cotas pertencem aos cedentes dos créditos. Portanto, como foi visto na Seção 2.1, o valor dessas cotas pode ser determinado por meio de uma opção de compra, com preço de exercício igual ao valor a ser amortizado (amortização mais juros) das cotas mezanino e sênior. Ocorre que, no caso de um FIDC, existe uma opção de compra sempre que ocorre uma amortização. Se o valor do ativo for suficiente para ser amortizado, a opção de compra será exercida, resultando em um valor equivalente à diferença entre o valor do ativo e o valor amortizado. Esse resultado corresponde ao valor de outra opção de compra com vencimento na data da amortização seguinte e preço de exercício igual ao total a ser amortizado nesse novo vencimento. Se o valor do ativo não for suficiente para ser amortizado, a opção expira sem exercício, com valor igual a zero, pois, assumindo-se que não há recuperação dos créditos inadimplentes, os cotistas subordinados não irão receber nada, uma vez que sua parte foi utilizada para amortização das outras espécies de cotas. Essa sequência ocorre até o pagamento da última amortização. Portanto, a opção de compra no instante t0, cujo preço equivale ao valor das cotas subordinadas, corresponde a uma opção de compra composta por uma cesta de opções de compras encadeadas. Inicialmente, considera-se um modelo binomial de dois passos (n = 2). No instante inicial (t0), o total de ativos possui valor igual a V0. No instante t1 esses ativos podem assumir dois valores: V1 = u0.V0 ou V2 = d0.V0, onde u0 e d0 são multiplicadores de elevação e de redução, respectivamente, correspondentes à volatilidade do preço do ativo. Assume-se que u0 > (1 + r) > d0, onde r é a taxa livre de risco. Para cada um desses valores possíveis (V1 e V2), 85 deve-se considerar a redução devido ao pagamento, nesse instante t1, da primeira parcela das amortizações das cotas seniores (KS1) e mezanino (KM1), obtendo-se os valores, no vencimento, das opções C1 e C2 da seguinte forma: C1 = máx [V1-(KM1+KS1), 0] C2 = máx [V2-(KM1+KS1), 0] Sobre o valor de opção de compra encontrado em t1, são aplicadas novas volatilidades (u1 e d1), que podem ou não ser iguais a u0 e d0. Dessa forma, no instante t2, podem ocorrer quatro resultados: V1,1 = u1.C1; V1,2 = d1.C1; V2,1 = u1.C2; V2,2 = d1.C2. Considerando a segunda e última parcela da amortização restante das cotas seniores e mezanino nesse instante final pelos valores KS2 e KM2, as opções de compra terão os seguintes valores: C1,1 = máx[V1,1 – (KS2+KM2), 0] C1,2 = máx[V1,2 – (KS2+KM2), 0] C2,1 = máx[V2,1 – (KS2+KM2), 0] C2,2 = máx[V2,2 – (KS2+KM2), 0] A Figura 6 a seguir ilustra o procedimento descrito. t0 t1 t2 V1=u0.V0 V1,1=u1.C1 C1=máx[V1-(KS1+KM1), 0] C1,1=máx[V1,1 - (KS2+KM2),0] V0 V1,2=d1.C1 C1,2 = máx[V1,2 - (KS2+KM2),0] V2=d0.V0 V2,1=u1.C2 C2=máx[V2 – (KS1+KM1), 0] C2,1=máx[V2,1 - (KS2+KM2),0] V2,2=d1.C2 C2,2=máx[V2,2 - (KS2+KM2),0] Figura 6 - Representação de dois períodos do modelo binomial para apreçamento da opção de compra composta, usada para apreçamento das cotas subordinadas de um FIDC S: valor total dos ativos no instante inicial t0; V1: valor total dos ativos no instante t1 > t0, caso o valor dos ativos se eleve; V2: valor total dos ativos no instante t1 > t0, caso o valor dos ativos seja reduzido; C1: o valor da opção de compra no instante t1 se o preço do ativo se elevar; C2: o valor da 86 opção de compra no instante t1 se o preço do ativo reduzir; u0: fator multiplicativo de aumento, no primeiro passo, do preço do ativo; d 0: fator multiplicativo de redução, no primeiro passo, do preço do ativo; KS1: amortização de cotas seniores no instante t1; KM1: amortização de cotas mezanino no instante t1; V1,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos subir em relação a V1; V1,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos cair em relação a V 1; V2,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos subir em relação a V 2; V2,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos cair em relação a V2; u1: fator multiplicativo de aumento, no segundo passo, do preço do ativo; d 0: fator multiplicativo de redução, no segundo passo, do preço do ativo; C1,1: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V1,1; C1,2: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V1,2; C2,1: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V2,1; C2,2: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V2,2; KS2: amortização de cotas seniores no instante t2; KM2: amortização de cotas mezanino no instante t2. As amortizações KS1 e KS2 incluem não só o principal das cotas seniores, mas também os juros, calculados por meio da rentabilidade-alvo dessas. As amortizações KM1 e KM2 incluem não só o principal das cotas mezanino, mas também os juros, calculados por meio da rentabilidade-alvo para essas cotas. Denominando a opção composta no instante inicial de C0, seu valor pode ser calculado pela Equação (23). Entretanto, uma vez que se está flexibilizando a adoção de volatilidades diferentes em cada passo, haverá também uma probabilidade neutra ao risco para cada passo. Utilizando-se a Equação (20), teremos, para o primeiro passo: 𝑝 = (1 + 𝑟 − 𝑑 ) (𝑢 − 𝑑 ) 𝑝 = (1 + 𝑟 − 𝑑 ) (𝑢 − 𝑑 ) E para o segundo passo: O valor da opção de compra no instante inicial, que corresponderá ao valor total das cotas subordinadas, será igual a: 𝐶 = 𝑝 .𝑝 .𝐶 , + 𝑝 . (1 − 𝑝 ). 𝐶 , + (1 − 𝑝 ). 𝑝 𝐶 (1 + 𝑟) , + (1 − 𝑝 ). (1 − 𝑝 ). 𝐶 , As cotas seniores são equivalentes, no modelo de Merton (1974), aos títulos de dívida em mãos dos credores. Dessa forma, para se determinar o valor dessas cotas no instante inicial, basta deduzir do valor presente da dívida sem risco, o valor de uma opção de venda com preço de exercício igual ao valor da dívida no vencimento. Entretanto, para um FIDC, cada amortização corresponderá a uma opção de venda. 87 Caso o valor dos ativos seja superior ao valor da amortização das cotas seniores a ser paga em um determinado instante, a opção de venda não é exercida, e seu valor é igual à zero. Caso o valor dos ativos seja inferior ao valor da amortização das cotas seniores, a opção de venda é exercida e se obtém o valor correspondente à diferença entre o valor das amortizações das cotas seniores e o valor dos ativos. A partir desse instante, considera-se o fundo como liquidado, pois não haverá mais fluxos de caixa para honrar as amortizações futuras e todas as opções de venda correspondentes às amortizações seguintes serão exercidas. Para se determinar o valor das cotas seniores, o somatório dos valores de todas essas opções de venda será deduzido do valor atual da dívida livre de risco. A Figura 7 mostra o procedimento de avaliação das opções de venda para os instantes t1 e t2. Para os demais períodos a avaliação é realizada da mesma forma. t0 t1 t2 𝑉, =𝑢 𝑊 𝑉 =𝑢 𝑉 𝑉 𝑃 = 𝑚á𝑥[𝐾𝑆 − 𝑉 , 0] 𝑋 = 𝑚á𝑥[𝑉 − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 = 𝑚á𝑥[𝑉 − 𝐾𝑆 , 0] Se X1 > 0, W1 = X1 Se X1 = 0 e Y1 >= 0, W1 = Y1 𝑉 =𝑑 𝑉 𝑃 = 𝑚á𝑥[𝐾𝑆 − 𝑊 , 0] 𝑋 = 𝑚á𝑥[𝑉 − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 = 𝑚á𝑥[𝑉 − 𝐾𝑆 , 0] Se X2 > 0, W2 = X2 Se X2 = 0 e Y2 > 0, W2 = Y2 𝑃 , = 𝑚á𝑥[𝐾𝑆 − 𝑉 , , 0] 𝑋 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X1,1 > 0, W1,1 = X1,1 Se X1,1 = 0 e Y1,1 >= 0, W1,1 = Y1,1 𝑉, =𝑑 𝑊 𝑃 , = 𝑚á𝑥[𝐾𝑆 − 𝑉 , , 0] 𝑋 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X1,2 > 0, W1,2 = X1,2 Se X1,2 = 0 e Y1,2 >= 0, W1,2 = Y1,2 𝑉, =𝑢 𝑊 𝑃 , = 𝑚á𝑥[𝐾𝑆 − 𝑉 , , 0] 𝑋 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X2,1 > 0, W2,1 = X2,1 Se X2,1 = 0 e Y2,1 >= 0, W2,1 = Y2,1 𝑉, =𝑑 𝑊 𝑃 , = 𝑚á𝑥[𝐾𝑆 − 𝑉 , , 0] 𝑋 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 , = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X2,2 > 0, W2,2 = X2,2 Se X2,2 = 0 e Y2,2 >= 0, W2,2 = Y2,2 Figura 7 - Representação de dois períodos do modelo binomial para apreçamento da opção de venda, usada para apreçamento das cotas seniores de um FIDC 88 S: valor total dos ativos no instante inicial t0; V1: valor total dos ativos no instante t1 > t0, caso o valor dos ativos se eleve; W1: valor total dos ativos, após dedução da amortização, no instante t 1 > t0, caso o valor dos ativos se eleve; V2: valor total dos ativos no instante t1 > t0, caso o valor dos ativos seja reduzido; W 2: valor total dos ativos, após dedução da amortização, no instante t 1 > t0, caso o valor dos ativos se reduza; P 1: o valor da opção de venda no instante t1 se o preço do ativo se elevar; P2: o valor da opção de venda no instante t1 se o preço do ativo reduzir; u0: fator multiplicativo de aumento, no primeiro passo, do preço do ativo; d 0: fator multiplicativo de redução, no primeiro passo, do preço do ativo; KS 1: amortização de cotas seniores no instante t1; KM1: amortização de cotas mezanino no instante t1; V1,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos subir em relação a V1; W1,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos subir em relação a V1; V1,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos cair em relação a V1; W1,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos cair em relação a V1; V2,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos subir em relação a V2; W2,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos subir em relação a V2; V2,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos cair em relação a V2; W2,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos cair em relação a V 2; u1: fator multiplicativo de aumento, no segundo passo, do preço do ativo; d 0: fator multiplicativo de redução, no segundo passo, do preço do ativo; P 1,1: o valor da opção de venda no instante t2 se o preço do ativo for V1,1; P1,2: o valor da opção de venda no instante t2 se o preço do ativo for V1,2; P2,1: o valor da opção de venda no instante t2 se o preço do ativo for V2,1; P2,2: o valor da opção de venda no instante t2 se o preço do ativo for V2,2; KS2: amortização de cotas seniores no instante t2; KM2: amortização de cotas mezanino no instante t2. Se em um determinado instante o valor da opção de venda for maior que zero, as opções de venda dos períodos seguintes serão exercidas. As cotas mezanino, como visto anteriormente, podem ser avaliadas como a diferença entre duas opções de compra com posições e preços de exercício distintos. No caso dos FIDCs, equivaleria a uma posição comprada em opção de compra com preço de exercício igual ao do valor total da amortização das cotas seniores e uma posição vendida em uma opção de compra com preço de exercício igual ao somatório do valor total de amortização de cotas seniores e mezanino. Se em uma das datas de amortização não houver mais possibilidade de amortização das cotas mezanino, as cotas mezanino em períodos seguintes não terão mais valor. A Figura 8 ilustra o procedimento de avaliação das cotas mezanino (Mez) para os instantes t1 e t2. Para os períodos seguintes, a avaliação é realizada da mesma forma. 89 t0 t1 t2 𝑉, =𝑢 𝑊 𝐶 𝑉 =𝑢 𝑉 𝑉 𝐶 = 𝑚á𝑥[𝑉 − 𝐾𝑆 , 0] −𝑚á𝑥[𝑉 − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑋 = 𝑚á𝑥[𝑉 − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 = 𝑚á𝑥[𝑉 − 𝐾𝑆 , 0] Se X1 > 0, W1 = X1 Se X1 = 0 e Y1 >= 0, W1 = Y1 𝑉 =𝑑 𝑉 , 𝑋, 𝑌, 𝑉, =𝑑 𝑊 𝐶 , 𝑋, 𝑌, 𝐶 = 𝑚á𝑥[𝑉 − 𝐾𝑆 , 0] −𝑚á𝑥[𝑉 − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑋 = 𝑚á𝑥[𝑉 − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] 𝑌 = 𝑚á𝑥[𝑉 − 𝐾𝑆 , 0] Se X2 > 0, W2 = X2 Se X2 = 0 e Y2 > 0, W2 = Y2 = 𝑚á𝑥 𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0 −𝑚á𝑥 𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0 = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X1,1 > 0, W1,1 = X1,1 Se X1,1 = 0 e Y1,1 >= 0, W1,1 = Y1,1 = 𝑚á𝑥 𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0 −𝑚á𝑥 𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0 = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X1,2 > 0, W1,2 = X1,2 Se X1,2 = 0 e Y1,2 >= 0, W1,2 = Y1,2 𝑉, =𝑢 𝑊 𝐶 , 𝑋, 𝑌, = 𝑚á𝑥 𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0 −𝑚á𝑥 𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0 = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X2,1 > 0, W2,1 = X2,1 Se X2,1 = 0 e Y2,1 >= 0, W2,1 = Y2,1 𝑉, =𝑑 𝑊 𝐶 , 𝑋, 𝑌, = 𝑚á𝑥 𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0 −𝑚á𝑥 𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0 = 𝑚á𝑥[𝑉 , − (𝐾𝑆 + 𝐾𝑀 ), 0] = 𝑚á𝑥[𝑉 , − 𝐾𝑆 , 0] Se X2,2 > 0, W2,2 = X2,2 Se X2,2 = 0 e Y2,2 >= 0, W2,2 = Y2,2 Figura 8 - Representação de dois períodos do modelo binomial para apreçamento das opções de compra, usadas para apreçamento das cotas mezanino de um FIDC S: valor total dos ativos no instante inicial t0; V1: valor total dos ativos no instante t1 > t0, caso o valor dos ativos se eleve; W1: valor total dos ativos, após dedução da amortização, no instante t 1 > t0, caso o valor dos ativos se eleve; V2: valor total dos ativos no instante t1 > t0, caso o valor dos ativos seja reduzido; W 2: valor total dos ativos, após dedução da amortização, no instante t1 > t0, caso o valor dos ativos se reduza; C1: o valor da opção de compra no instante t1 se o preço do ativo se elevar; C2: o valor da opção de compra no instante t1 se o preço do ativo reduzir; u0: fator multiplicativo de aumento, no primeiro passo, do preço do ativo; d 0: fator multiplicativo de redução, no primeiro passo, do preço do ativo; KS 1: amortização de cotas seniores no instante t1; KM1: amortização de cotas mezanino no instante t1; V1,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos subir em relação a V1; W1,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos subir em relação a V1; V1,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos cair em relação a V1; W1,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos cair em relação a V1; V2,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos subir em relação a V2; W2,1: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos subir em relação a V2; V2,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, se o valor dos ativos cair em relação a V2; W2,2: valor total dos ativos no instante t2 > t1, após dedução das amortizações, se o valor dos ativos cair em 90 relação a V2; u1: fator multiplicativo de aumento, no segundo passo, do preço do ativo; d 0: fator multiplicativo de redução, no segundo passo, do preço do ativo; C1,1: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V1,1; C1,2: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V1,2; C2,1: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V2,1; C2,2: o valor da opção de compra no instante t2 se o preço do ativo for V2,2; KS2: amortização de cotas seniores no instante t2; KM2: amortização de cotas mezanino no instante t2. Se em um determinado instante o valor da opção de venda for maior que zero, as opções de venda dos períodos seguintes serão exercidas. Cabe neste ponto algumas observações importantes. Como foi citado por Cox, Ross e Rubinstein, para que o modelo binomial se aproxime do modelo de Black e Scholes (1973), quando os intervalos de tempo tendem a zero, os multiplicadores u e d devem ser escolhidos de forma que 𝑢 = 𝑒 √ e d = 1 / u. Nesse caso, passa a ser interessante trabalhar-se com taxas de juros contínuas. No modelo binomial isso corresponde a alteração na fórmula de cálculo de p. A Equação (20) passa então a ser: 𝑝 = (𝑒 − 𝑑) (𝑢 − 𝑑) Outro ponto importante é a inclusão de dividendos. Como visto, a presença de dividendos contínuos pagos pelos ativos implica alteração na fórmula para cálculo de p. No caso dos FIDCs, apesar de cotas não pagarem dividendos, há outra característica que pode ser usada no seu lugar: o valor referente à inadimplência de devedores de direitos creditórios. Pinheiro e Savóia (2009) utilizaram, em seu modelo de simulação para avaliação de riscos em FIDC, o efeito causado pela inadimplência dos devedores na volatilidade. Entretanto, a volatilidade contribui tanto para a redução do valor de um ativo como para seu aumento e a inadimplência dos devedores possui apenas o efeito de reduzir o valor dos ativos. Esse é o mesmo efeito causado pelo pagamento de dividendos. Assim, decidiu-se por considerar a taxa de inadimplência dos devedores no modelo como se o ativo pagasse dividendos contínuos. Possíveis taxas de recuperação dos créditos inadimplidos poderiam ser consideradas da mesma forma, reduzindo-se o valor da taxa de inadimplência. A fórmula (22) considerava o efeito dos dividendos na probabilidade neutra ao risco para intervalos de tempo discretos. Para intervalos de tempo contínuos, a fórmula passa a ser: 𝑝 = (𝑒 ( ) − 𝑑) (30) (𝑢 − 𝑑) Para o cálculo das rentabilidades das cotas, foram utilizadas as fórmulas mostradas na Tabela 1. Para se determinar as razões de hedge das opções de compra e das opções de venda (∆ e ∆ ), procedeu-se da seguinte maneira. Adicionou-se e subtraiu-se uma unidade sobre o 91 valor de ativo V0, encontrando-se assim Cu (Pu) e Cd (Pd), respectivamente. Sobre a variável Rs, que representa a rentabilidade dos ativos que compõe o fundo, é importante esclarecer que ela é em parte composta por títulos de renda fixa, com rentabilidade igual à taxa livre de risco, e em parte composta pela rentabilidade referente aos direitos creditórios adquiridos pelo fundo, isto é, pela taxa de desconto utilizada na compra desses direitos, normalmente chamada de taxa de cessão. Após o cálculo do valor e da rentabilidade de cada opção, procede-se ao cálculo das rentabilidades esperadas das cotas seniores (Rsenior), mezanino (Rmez) e subordinada (Rsub) por meio das seguintes expressões: (31) 𝑅𝑠𝑢𝑏 = 𝑅𝑐 𝑅𝑚𝑒𝑧 = ( 𝑅𝑠𝑒𝑛𝑖𝑜𝑟 = ( ) × 𝑅𝑐 ) − ( ×𝑟−( ) ) × 𝑅𝑝 × 𝑅𝑐 (32) (33) Onde: RcKS é a rentabilidade esperada da opção de compra com preço de exercício igual ao total amortizado das cotas seniores; CKS é valor da opção de compra com preço de exercício igual ao total amortizado das cotas seniores; RcKSKM é a rentabilidade esperada da opção de compra com preço de exercício igual ao total amortizado das cotas seniores e cotas mezanino; CKSKM é o valor da opção de compra com preço de exercício igual ao total amortizado das cotas seniores e cotas mezanino; P é o valor do somatório das opções de venda correspondentes a cada período de amortização; B é o valor presente da dívida das cotas seniores; r é a taxa livre de risco; Rp é a rentabilidade esperada de P. 3.2 IMPLEMENTAÇÃO O modelo binomial descrito ao longo da Seção 3.1 foi implementado em um programa Visual Basic para planilha Excel. O programa considera a possibilidade de até 12 92 amortizações e permite a alteração dos valores de volatilidade nos períodos correspondentes às amortizações. Após a construção do modelo, o primeiro passo foi verificar se os resultados gerados eram apropriados. Para isso, elaborou-se outro modelo, cujos resultados são obtidos por simulação estocástica, baseada também no Modelo de Merton (1974) e programada em Visual Basic para planilha Excel. Comparou-se então esses resultados com os obtidos pelos modelos de Black, Scholes e Merton e pelo de opções compostas de Geske. A comparação com esses dois modelos ficou restrita a opção de compra, que está relacionada às cotas subordinadas. O FIDC utilizado como exemplo possui as características conforme Tabela 2 abaixo. Tabela 2 – Características do FIDC exemplo para aferir os valores calculados pelo modelo binomial Características Valores Valor total dos ativos (V0) R$ 10.000,00 Principal a ser amortizado para cotas seniores R$ 9.000,00 Principal a ser amortizado para cotas mezanino Taxa livre de risco (r) Taxa de inadimplência dos direitos creditórios (i) Remuneração-alvo dos cotistas sêniores Volatilidade (σ) Prazo de vencimento Número de passos Amortização R$ 0 7,5% a.a. (base 252 d.u.) 0% a.a. CDI + 1% a.a. 20% a.a. 1 ano 500 Com relação à amortização, considerou-se três situações distintas: (a) amortização do principal correspondente às cotas seniores em dois períodos: t1 = 0,5 ano e t2 = 1 ano, em duas parcelas iguais a R$4.500 cada. A amortização dos juros se realizará nas mesmas datas da amortização do principal, o que resulta nas amortizações totais de R$4.877,94 e R$4.688,97, respectivamente, em relação às parcelas intermediária e final. (b) para comparação com o modelo de Black, Scholes e Merton, considerou-se o prazo da amortização intermediária muito próximo ao do início (t1 = 0,00001 anos). Isso equivale ao valor total dos ativos (R$10.000), deduzido da primeira parcela a ser amortizada em t1 (R$4.500), correspondendo, portanto, a um valor inicial R$5.500,00. O preço de exercício corresponderia à parcela restante a ser amortizada, carregada pelos juros de CDI + 1%, o que equivale a R$ 4.885,87. (c) a última situação considerada foi com prazo da parcela intermediária muito próximo ao do vencimento (t1 = 0,99999 anos). Isso equivaleria, no modelo de Black, Scholes e Merton, ao preço de exercício de R$9.271,74. 93 Os valores das variáveis foram escolhidos de forma a guardar relação com valores observados para operações de emissão de cotas de FIDCs, a partir das informações do banco de dados construído para o Ensaio 1. Os valores investidos nas classes de cotas podem não ter a mesma ordem de grandeza dos negociados no mercado, mas possuem mesmo percentual de composição em relação ao valor total dos ativos. Os resultados obtidos para os diferentes modelos são apresentados na Tabela 3 a seguir. Tabela 3 – Comparação dos valores de opção de compra entre os modelos de Black, Scholes & Merton, simulação, binomial para FIDC e modelo de Geske para prazos da parcela intermediária de 0,00001 ano; 0,5 ano e 0,99999. Variação % em relação ao modelo de Black, Scholes & Merton. Descrição T1 = 0,00001 ano T1 = 0,5 ano T1 = 0,99999 ano Binomial para FIDC 1.045,82 1.176,19 1.299,55 Simulação 1.043,70 1.179,76 1.297,52 982,82 1.127,90 1.299,86 1.045,65 - 1.299,86 Modelo de Geske Black, Scholes e Merton Considerou-se opção de compra sobre ativo com valor inicial R$10.000, amortizações em duas parcelas principais de R$4.500,00 cada, acrescidos de juros CDI + 1% a.a., onde o CDI = 7,5% a.a. (base 252 d.u.). Não foi considerado default dos devedores dos direitos creditórios (rf = 0% a.a.). Número de passos usados no modelo binomial igual a 500. Número de simulações usada igual a 100.000. Pode-se verificar na Tabela 3 que os valores da opção de compra entre os modelos estão próximos, exceto para o caso do modelo de Geske, quando o valor da amortização intermediária está próxima do início. A diferença máxima entre os valores obtidos pelo modelo binomial e pelo modelo de Black, Scholes e Merton ficou em 0,024%, enquanto que a diferença máxima entre os valores obtidos pelo modelo de simulação e pelo de Black, Scholes e Merton ficou em 0,187%. A diferença dos valores calculados pelo modelo de Geske e pelo de Black, Scholes e Merton foi de 6,009%. Essa grande discrepância encontrada entre os modelos de Geske e de Black, Scholes e Merton, por ser importante, exigiu maior investigação. O estudo de Frishling (2002), descrito na Seção 1 deste ensaio, ajuda a entender as razões dessa diferença. A partir da comparação de três modelos, cada um considerando uma forma diferente de incluir o pagamento de dividendos discretos de uma ação objeto de uma opção americana, o autor verifica que as distribuições finais dos valores dos ativos são diferentes, o que resulta em preços de opções diferentes. Isso decorre da forma como se considera o momento do pagamento de dividendos discretos. Com essa conclusão em mente, retornando à Figura 6 deste ensaio, pode-se observar que, no modelo binomial, o efeito estocástico entre o período t0 e t1 ocorre sobre o valor inicial dos ativos (V0), enquanto que o efeito estocástico do período posterior à 94 amortização (entre t1 e t2) ocorre sobre os valores dos ativos já deduzidos da amortização (C1 e C2). No entanto, como visto na Seção 2.2, Geske começa a construir o modelo de opções compostas partindo do pressuposto de que o MGB é aplicado a um ativo de valor inicial V. Não se verifica no modelo a consideração do fato de que, após a dedução da amortização, o movimento estocástico deveria ser aplicado sobre um novo valor de ativo. O modelo de Geske estaria nesse caso mal especificado, pois a dinâmica do MGB aplicado ao preço de um ativo deve levar em conta o momento do pagamento do dividendo. Haug, Haug e Lewis (2003) também criticam o modelo RGW aplicado ao apreçamento de opções americanas sobre ações com pagamento de dividendos discretos pelos mesmos motivos. Entretanto, conforme visto acima, além da situação do pagamento de dividendos em ações objeto de opções americanas, pode-se concluir que o uso do modelo de Geske não é apropriado sempre que o preço de exercício da opção composta implica alteração no valor do ativo objeto da opção, como é o caso do FIDC. Esse resultado é relevante, na medida em que o modelo de opções compostas de Geske é bastante utilizado em análises por opções reais. Os valores calculados pelo modelo binomial para classes de cotas mezanino e sênior foram aferidos comparando-se somente os resultados do modelo binomial com os do modelo de simulação. As Tabelas 4 e 5 abaixo descrevem os testes elaborados, sendo que os valores usados nos exemplos se encontram na Tabela 4, enquanto que os resultados, na Tabela 5. Cada exemplo corresponde a um conjunto contendo uma ou mais alterações nas características do FIDC exemplificado na Tabela 2. Tabela 4 – Descrição dos exemplos utilizados para aferir resultados do modelo binomial para cálculo de FIDC, comparando com resultados de simulação. Valor dos Cotas Cotas Ativos seniores mezanino 1 10.000,00 9.000,00 2 12.000,00 9.000,00 3 12.000,00 9.000,00 4 14.000,00 9.000,00 5 12.000,00 9.000,00 6 12.000,00 9.000,00 7 12.000,00 8 12.000,00 9 14.000,00 Exemplos Rentab-alvo Rentab-alvo No. sênior mez Amort 20% 110% CDI 130% CDI 2 20% 110% CDI 130% CDI 2 0 20% 110% CDI 130% CDI 5 0 20% 110% CDI 130% CDI 5 15 0 20% 110% CDI 130% CDI 5 7,5 0 50% 110% CDI 130% CDI 5 7,5 2,5 20% 110% CDI 130% CDI 5 7,5 0 20% 130% CDI 170% CDI 5 15 2,5 50% 130% CDI 170% CDI 10 R (% a.a.) i (% a.a.) Vol. - 7,5 0 2.000,00 7,5 0 2.000,00 7,5 3.000,00 7,5 2.000,00 2.000,00 9.000,00 2.000,00 9.000,00 2.000,00 9.000,00 3.000,00 Cotas seniores e mezanino representam, respectivamente, os valores principais a serem amortizados em cotas seniores e mezanino em um FIDC; R é a taxa livre de risco, base 252 dias úteis, que corresponde ao valor do CDI; i é a taxa que representa o percentual de inadimplência dos direitos creditórios, base 252 d.u.; Vol é a volatilidade dos ativos (direitos creditórios + títulos públicos); Rentab-alvo sênior é a rentabilidade-alvo das cotas sênior; Rentab-alvo mez é a rentabilidade-alvo das cotas mezanino e No. Amort. é o número de amortizações das cotas sênior e mezanino, considerando parcelas iguais de amortização do principal, mais amortização dos juros, isto é, rentabilidade-alvo das cotas seniores e mezanino, realizadas na mesma data. Amortização das cotas subordinadas ocorre após o resgate das demais cotas. Os prazos das amortizações correspondem ao prazo do vencimento dividido pelo número de amortizações. 95 Tabela 5 – Valores de classes de cotas calculados pelos modelos binomial para FIDC e simulação para os exemplos descritos na Tabela 4. Valor Cotas Seniores Valor Cotas Mezanino Valor Cotas Subordinadas Exemplos Binomial Simulação Δ % Binomial Simulação Δ % Binomial Simulação Δ % 1 8.810,13 8.807,42 -0,03% - - - 1.189,87 1.165,39 -2,06% 2 8.933,93 8.933,80 0,00% 1.791,19 1.790,40 -0,04% 1.275,01 1.377,15 8,01% 3 8.889,51 8.904,47 0,17% 1.923,94 1.925,49 0,08% 1.186,55 1.228,00 3,49% 4 8.991,67 8.994,62 0,03% 2.970,55 2.972,04 0,05% 2.037,78 2.028,85 -0,44% 5 8.914,42 8.928,49 0,16% 1.946,48 1.944,66 -0,09% 1.139,10 1.159,08 1,75% 6 8.232,45 8.355,65 1,50% 1.741,65 1.739,14 -0,14% 2.025,90 2.085,63 2,95% 7 8.860,42 8.880,85 0,23% 1.908,96 1.909,96 0,05% 1.049,66 1.066,15 1,57% 8 8.943,64 8.958,80 0,17% 1.946,51 1.945,22 -0,07% 1.109,86 1.128,11 1,64% 9 8.524,27 8.697,51 2,03% 2.860,12 2.863,54 0,12% 2.416,17 2.438,26 0,91% Nas colunas Binomial estão os valores calculados pelo modelo binomial para FIDC; nas colunas Simulação estão os valores calculados pelo modelo de simulação;; Δ% corresponde à diferença em termos percentuais entre o valor calculado pelo modelo binomial para FIDC e o calculado pelo modelo de simulação, isto é, Δ% = (valor calculado pelo modelo simulação - valor calculado pelo modelo binomial)/valor calculado pelo modelo binomial. No modelo binomial fora utilizados 100 passos até o vencimento e no modelo de simulação utilizou-se 10.000 simulações. Os valores apresentados nas colunas correspondentes às diferenças percentuais entre os valores calculados pelo modelo binomial para FIDC e pelo modelo de simulação indicam que esses valores estão bem próximos. A média dessas diferenças foi de 0,83%. Das 26 diferenças calculadas, 21 ficaram abaixo de 2%, e apenas uma (a de cotas subordinadas do Exemplo 2), ficou acima de 3,5%. Já havia sido observado na Tabela 3, que, para uma configuração de FIDC simples, sem mezanino e com apenas uma amortização intermediária, os valores gerados pelo modelo binomial eram os que mais se aproximavam do modelo de Black e Scholes. O modelo de simulação gerava valores próximos, embora com discrepância um pouco maior em relação ao binomial, que poderia ser reduzida com o aumento do número de simulações. Essa tendência se repetiu nos resultados da Tabela 5, que considera configurações mais complexas na estrutura de um FIDC. Cabe aqui ressaltar que, como visto, para algumas situações pontuais, o valor gerado pela simulação ficou distante do valor do modelo binomial (chegando a 8,01%). O aumento do número de simulações reduziria essa discrepância. Entretanto, apesar disso, a existência de flutuações nos valores gerados pela simulação sempre existirá. Esse fato reforça a opção pelo uso do modelo binomial. Assim, na Seção 4, utilizaremos o modelo binomial para FIDC com o objetivo de analisar o comportamento da influência das diversas características presentes no apreçamento das cotas de FIDCs. 96 3.3 LIMITAÇÕES DO MODELO Uma questão importante refere-se ao número máximo de amortizações permitido. O programa foi implementado em programação Visual Basic para Excel. Essa linguagem permite vetores com no máximo 60 dimensões. Outras linguagens de programação podem ajudar a resolver essa limitação. Apesar da limitação a 60 amortizações, verifica-se que dos 163 FIDCs que compõem a base de dados do Ensaio 1, apenas três (1,8%) ultrapassariam essa quantidade de amortizações. Outro ponto a ser destacado é que o número de passos utilizados para situações envolvendo muitas amortizações faz com que o tempo gasto na solução cresça de forma exponencial, obrigando a uma redução no número de passos para solução, o que reduz a acurácia do resultado. 97 4 ANÁLISE DA SENSIBILIDADE DE VARIÁVEIS NO APREÇAMENTO DAS COTAS DE UM FIDC As rentabilidades das diferentes classes de cotas que compõem um FIDC são calculadas por meio das Equações (31) a (33), as quais, por sua vez, dependem de variáveis como razão de hedge, elasticidade e rentabilidade das opções, determinados por meio das equações na Tabela 1. A análise da influência de características presentes na emissão de cotas de um FIDC pode ser feita observando-se o efeito dessas características nas variáveis presentes nessas fórmulas. Mas essa tarefa muitas vezes não é trivial, pois essas variáveis interagem entre si, podendo produzir efeitos contrários em uma rentabilidade. Dessa forma, optou-se por analisar esses efeitos a partir dos resultados gerados pelo modelo binomial para FIDCs, aplicando-o a diversas situações envolvendo alterações em um conjunto base de carcetrísticas de um FIDC. Esse conjunto base de características está informado na Tabela 6 abaixo. Os valores das variáveis foram escolhidos de forma a guardar relação com valores observados para operações de emissão de cotas de FIDCs. Procurou-se caracterizar, dessa forma, o perfil de um FIDC, a partir das informações do banco de dados construído para o Ensaio 1. Os valores investidos nas classes de cotas podem não ter a mesma ordem de grandeza dos negociados no mercado, mas possuem mesmo percentual de composição em relação ao total dos ativos. Considerou-se, inicialmente no exemplo base, a taxa de inadimplência dos direitos creditórios como zero. Importante ressaltar que a análise de sensibilidade a seguir refere-se ao FIDC com esse perfil específico e os resultados não podem ser diretamente estendidos. 98 Tabela 6 – Características do FIDC exemplo para analisar o comportamento das variáveis que influenciam o apreçamento de suas cotas. Descrição Valor Valor total dos ativos (V0) R$ 100.000,00 Principal a ser amortizado para cotas seniores R$ 80.000,00 Principal a ser amortizado para cotas mezanino R$ 15.000,00 Taxa livre de risco (r) 7,5% a.a. (base 252 d.u.) Taxa de inadimplência (i) 0% a.a. (base 252 d.u.) Custo de capital 10% a.a. (base 252 d.u.) Remuneração-alvo dos cotistas sêniores Remuneração-alvo dos cotistas mezanino CDI + 1,5% a.a. CDI + 5% a.a. Prazo de vencimento 60 meses Carência 36 meses Volatilidade (σ) 20% a.a. Número de passos Amortização 40 Amortização do principal das cotas seniores e mezanino em 5 parcelas iguais semestrais nos seguintes prazos: 36 meses, 42 meses, 48 meses, 54 meses e 60 meses. Amortização dos juros nas mesmas datas do principal. Amortização das cotas subordinadas somente ao final, após amortizações das cotas seniores e mezanino. Para análise da influência das características do FIDC nas rentabilidades das cotas, utilizaremos o modelo binomial apresentado na seção anterior. Com relação ao número de passos escolhido, quanto maior sua quantidade, maior é a convergência gerada pelo modelo para um determinado resultado. Entretanto, isso ocorre às custas do tempo computacional envolvido. Após alguns experimentos, concluiu-se que, para a configuração do FIDC mostrada na Tabela 6, com cinco amortizações, o número de 40 passos era o que representava melhor relação convergência/tempo computacional. Quantidade de passos acima de 40 aumentava bastante o tempo computacional utilizado, sem representar alteração elevada nos valores encontrados. Sobre as rentabilidades apresentadas nas tabelas seguintes ao longo desta seção, devese esclarecer que a interpretação das rentabilidades mostradas para as cotas seniores e mezanino é diferente da interpretação das rentabilidades para as cotas subordinadas. As rentabilidades das cotas seniores e mezanino indicam as rentabilidades que esses cotistas deveriam exigir para investir nessas cotas. Já as rentabilidades das cotas subordinadas indicam as rentabilidades que esses cotistas devem receber, caso as amortizações ocorram como previsto. 99 COTAS SENIORES A Tabela 7 apresenta os resultados dos valores e rentabilidades para as cotas seniores, mezanino e subordinadas, para diferentes quantidades de cotas seniores, com as quantidades de cotas mezanino e subordinadas, além de outras características do FIDC, mantidas constantes conforme valores da Tabela 6. Tabela 7 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores a serem amortizados de cotas seniores Cotas Seniores Cotas Mezanino Cotas Subordinadas Valor Total dos Ativos (R$) Principal a ser Amortizado 40.000 20.000 18.651,47 8,61 1,03 114,7 15.236,83 8,74 1,15 116,5 6.111,70 17,40 9,21 232,0 60.000 40.000 36.580,15 8,80 1,21 117,3 14.963,61 8,56 0,99 114,2 8.456,24 17,75 9,54 236,7 80.000 60.000 54.336,10 8,77 1,18 116,9 14.839,71 8,73 1,14 116,3 10.824,19 17,95 9,72 239,3 100.000 80.000 72.035,53 8,80 1,21 117,3 14.762,2 8,68 1,10 115,7 13.202,24 18,02 9,79 240,3 120.000 100.000 89.703,97 8,82 1,23 117,6 14.712,79 8,61 1,03 114,8 15.583,24 18,11 9,87 241,5 140.000 120.000 107.357,84 8,81 1,22 117,5 14.675,38 8,77 1,18 117,0 17.966,78 18,12 9,88 241,5 160.000 140.000 125.002,41 8,82 1,23 117,6 14.644,18 8,82 1,23 117,6 20.353,41 18,11 9,87 241,5 180.000 160.000 142.640,25 8,82 1,23 117,6 14.618,68 8,80 1,21 117,3 22.741,07 18,18 9,93 242,4 200.000 180.000 160.272,14 8,84 1,24 117,8 14.598,94 8,63 1,05 115,1 25.128,92 18,21 9,97 242,8 220.000 200.000 177.898,74 8,83 1,24 117,8 14.584,21 8,68 1,10 115,7 27.517,05 18,25 10,00 243,4 Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. A Tabela 7 mostra que o aumento no valor a ser amortizado para as cotas seniores possui influência relevante nas rentabilidades das cotas seniores e mezanino apenas quando o valor inicial das cotas seniores é proporcionalmente pequeno em relação ao total de ativos. A partir daí, o aumento na quantidade de cotas seniores possui influência oscilatória na rentabilidade dessas cotas, sem representar uma clara tendência de alta ou de queda. Para as cotas subordinadas, percebe-se que o aumento nos valores das cotas seniores corresponde a aumentos nas rentabilidades. A Tabela 8 abaixo ajuda a compreender esse comportamento. 100 Variáveis Δ put Tabela 8 – Valores de variáveis necessárias para cálculo das rentabilidades Valores cotas seniores 20.000 40.000 60.000 100.000 200.000 -0,206 -0,316 -0,344 -0,394 -0,431 Ω put -3,305 -3,319 -3,021 -2,951 -2,824 R put -0,764% -0,798% -0,054% 0,123% 0,441% P 2.494,29 5.711,38 9.101,19 16.024,85 33.558,89 B/(B-P) 1,13 1,16 1,17 1,18 1,19 P/(B-P) 0,13 0,16 0,17 0,18 0,19 Δ C KSKM 0,605 0,578 0,565 0,551 0,538 Ω C KSKM 3,961 4,101 4,178 4,246 4,301 C KSKM 6.111,70 8.456,24 10.824,19 15.583,24 27.517,05 Δ put: razão de hedge referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização;; Ω put: elasticidade referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização; R put: rendimento referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização; P: somatório das opções de venda de cada período de amortização; B: valor presente da dívida sem risco das cotas seniores; Δ C KSKM: razão de hedge da opção de compra para calcular valor das cotas subordinadas;; Ω C KSKM: elasticidade da opção de compra para calcular valor das cotas subordinadas; C KSKM: valor da opção de compra para calcular cotas subordinadas. Cotas seniores elevadas de R$20.000 para R$40.000 levaram à redução da rentabilidade da opção de venda, que estava negativa, em virtude de a elasticidade ter se tornado ainda mais negativa. Na Equação (33) isso contribui para um aumento na rentabilidade das cotas seniores. A elevação das cotas seniores fez com que a relação B/(B – P) aumentasse, o que também contribuiu para o aumento da rentabilidade dessas cotas. Para aumentos posteriores nas cotas seniores, o aumento na relação B/(B – P) foi compensado pelo aumento da rentabilidade da opção de venda em virtude da redução da elasticidade, que passou a ser positiva. Já, no caso das cotas subordinadas, o aumento no valor das cotas seniores implica elasticidade crescente, que por sua vez influencia diretamente no aumento das rentabilidades. No caso das rentabilidades das cotas mezanino verifica-se oscilação nos valores, às vezes crescente, às vezes decrescente. Isso é consequência do cálculo do valor dessas cotas, que é resultado da diferença entre duas opções de compras. Às vezes uma opção exerce mais influência que a outra, não sendo possível prever quando isso ocorre. A análise do comportamento das rentabilidades considerando o aumento nos valores de cotas seniores é importante, pois é prática comum no mercado um mesmo FIDC emitir novas séries de cotas seniores, mesmo com as séries iniciais ainda não tendo sido completamente amortizadas. Verificamos que esse aumento é benéfico para cotistas subordinados e possui influência positiva nas cotas seniores, quando os valores das cotas seniores estiverem proporcionalmente baixos em relação ao total de ativos, não tendo muita influência quando essa proporção de cotas sênior estiver elevada. Pode haver, no entanto, efeito negativo sobre a rentabilidade das cotas mezanino. 101 COTAS MEZANINO Da mesma forma como ocorreu com as cotas seniores, analisamos o comportamento das rentabilidades das diferentes classes de cotas do FIDC em decorrência do aumento na proporção do valor de cotas mezanino em relação ao valor total de ativos do FIDC. A Tabela 9 apresenta os resultados obtidos. Tabela 9 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores a serem amortizados de cotas mezanino Valor Total dos Ativos (R$) Principal a ser Amortizado 86.000 1.000 88.000 90.000 Cotas Seniores Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI a.a. 72.614,17 8,71 1,13 116,2 992,17 8,20 0,65 109,3 12.393,66 17,68 9,47 CDI + 235,7 % CDI 3.000 72.524,36 8,70 1,11 116,0 2.971,87 9,24 1,61 123,1 12.503,77 17,73 9,52 236,4 5.000 72.435,47 8,74 1,15 116,5 4.947,82 8,74 1,16 116,6 12.616,71 17,73 9,52 236,5 92.000 7.000 72.349,09 8,75 1,16 116,7 6.919,90 8,64 1,06 115,2 12.731,01 17,84 9,61 237,8 94.000 9.000 72.265,37 8,76 1,17 116,8 8.888,42 8,67 1,09 115,6 12.846,21 17,91 9,69 238,8 96.000 11.000 72.187,14 8,73 1,15 116,5 10.849,99 8,94 1,34 119,2 12.962,87 17,94 9,71 239,1 98.000 13.000 72.111,31 8,77 1,18 116,9 12.806,71 8,85 1,25 117,9 13.081,99 17,93 9,70 239,0 100.000 15.000 72.035,53 8,80 1,21 117,3 14.762,23 8,68 1,10 115,7 13.202,24 18,02 9,79 240,3 102.000 17.000 71.960,70 8,82 1,23 117,6 16.716,33 8,63 1,05 115,1 13.322,97 18,09 9,85 241,2 105.000 20.000 71.850,92 8,85 1,25 118,0 19.643,22 8,63 1,05 115,0 13.505,86 18,13 9,89 241,8 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Verifica-se que o aumento na quantidade de cotas mezanino possui influência sobre as rentabilidades das cotas seniores e subordinadas, causando, em geral, elevação no valor dos spreads nessas cotas. Um aumento na quantidade de cotas mezanino de 0% ara 20% do valor total dos ativos representou um aumento nos spreads de 0,10% para cotas seniores e de 0,50% para cotas subordinadas. Definindo o nível de subordinação como o percentual total de ativos em cotas que possuem responsabilidade prioritária em arcar com prejuízos no caso de inadimplência dos devedores em direitos creditórios, tem-se que as cotas subordinadas se subordinam às cotas mezanino, que por sua vez se subordinam às cotas seniores. A princípio, portanto, poderia se pensar que o aumento na quantidade de cotas mezanino, e consequentemente no nível de subordinação das cotas seniores, representaria um aumento no grau de proteção dessas últimas cotas, no caso de default nos direitos creditórios. Esse aumento de proteção corresponderia a uma redução no nível dos spreads. Entretanto, esse efeito de redução só foi observado em algumas situações.22 Os resultados mostram que a redução foi compensada pelo aumento maior na quantidade de dívidas totais da empresa – e, portanto, aumento no valor das amortizações, sem que o aumento no valor total dos ativos em decorrência da volatilidade acompanhasse esse movimento. Isso causou redução acelerada no valor total dos ativos ao 22 Quando o valor total das cotas mezanino aumentou de R$1.000 para R$3.000 e de R$9.000 para R$11.000 102 longo do tempo, elevando assim o risco da empresa e contribuindo então para o aumento dos spreads para os cotistas seniores. Para comprovar esse efeito, aplicamos o modelo binomial novamente para o caso com cotas mezanino de R$20.0000, mas com a amortização integral dessas cotas somente no vencimento, em 5 anos. O spread exigido para as cotas seniores caiu de CDI + 1,25% a.a., conforme Tabela 9, para CDI + 0,7% a.a. No caso das cotas subordinadas, a elevação da rentabilidade deve-se ao aumento da elasticidade da opção de compra usada para se determinar o valor dessas cotas. Em relação às cotas mezanino, a tendência das rentabilidades é de queda, no entanto há saltos para cima em duas situações. Para se determinar o motivo desse comportamento, deve-se observar a Tabela 10. Variáveis Tabela 10 – Valores de variáveis necessárias para cálculo das rentabilidades Valores cotas mezanino 1.000 3.000 5.000 9.000 11.000 15.000 20.000 Δ C KS 0,590 0,605 0,601 0,613 0,629 0,625 0,631 Ω C KS 3,791 3,441 3,081 2,653 2,535 2,236 2,000 R C KS 16,976% 16,101% 15,202% 14,131% 13,838% 13,089% 12,500% C KS 13.385,83 15.475,64 17.564,53 21.734,63 23.812,86 27.964,47 33.149,08 CKS/(CKS-CKSKM) 13,491 5,207 3,550 2,445 2,195 1,894 1,688 CKSKM/(CKS-CKSKM) 12,49 4,21 2,55 1,45 1,19 0,89 0,69 Δ C KSKM 0,587 0,582 0,574 0,569 0,564 0,556 0,547 Ω C KSKM 4,072 4,093 4,094 4,165 4,174 4,209 4,254 C KSKM 12.393,66 12.503,77 12.616,71 12.846,21 12.962,87 13.202,24 13.505,86 R C KSKM 17,68% 17,73% 17,73% 17,91% 17,94% 18,02% 18,13% Δ C KS: razão de hedge da opção de compra com preço de exercício igual amortização sênior; Ω C KS: elasticidade da opção dessa compra;; R C KS: rendimento dessa opção de compra; mez: valor dessa opção de compra; CKS/(CKS-CKSKM): razão entre valores das opções de compra com preço de exercício igual amortização sênior (C KS) e preço de exercício amortização sênior e mezanino (C KSKM); CKSKM/(CKS-CKSKM): razão com mesmo denominador anterior, mas com numerador sendo valor da opção de compra com preço de exercício amortização sênior; Δ C KSKM: razão de hedge da opção de compra para calcular valor das cotas subordinadas; Ω C KSKM: elasticidade da opção de compra para calcular valor das cotas subordinadas; C KSKM: valor da opção de compra para calcular cotas subordinadas; R C KSKM: retorno opção de compra com preço de exercício igual amortização sênior e mezanino. Pela Equação (32), verificamos que no cálculo da rentabilidade das cotas mezanino deve-se considerar: a rentabilidade da opção de compra com preço de exercício igual ao valor da cotas seniores (RcKS); a rentabilidade da opção de compra com preço de exercício igual ao valor das cotas seniores e mezanino (RcKSKM na Tabela 10 acima), e as proporções CKS/(CKSCKSKM) e CKSKM/(CKS – CKSKM). Como se pode perceber na Tabela 10, as rentabilidades das opções CKSKM aumentam de forma lenta, se comparadas à velocidade com que as rentabilidades das opções CKS diminuem. Ambos os efeitos causam redução na rentabilidade final das cotas mezanino e isso explica a tendência de queda nos spreads para essas cotas. Entretanto, a redução na razão CKSKM/(CKS-CKSKM) é mais acelerada do que a da razão CKS/(CKS-CKSKM). Em alguns momentos essa redução exerce maior influência do que a 103 redução na rentabilidade RcKS e isso faz com que a rentabilidade final da cota mezanino se eleve. Em resumo, pode-se concluir da discussão acima que a oferta de novas séries de cotas mezanino ao longo da vida do FIDC não necessariamente contribui para redução dos spreads das cotas seniores, se essas cotas mezanino forem amortizadas ao longo do tempo de duração do FIDC. O efeito sobre a rentabilidade será sempre positivo para cotas subordinadas e imprevisto para cotas mezanino. COTAS SUBORDINADAS A Tabela 11 abaixo mostra o comportamento das rentabilidades das cotas de um FIDC diante de um aumento no nível de subordinação causado pela elevação da quantidade de cotas subordinadas. Tabela 11 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores a serem amortizados de cotas subordinadas, alterando o nível de subordinação Valor Total dos Ativos (R$) Principal a ser Amortizado 96.000 1.000 98.000 Cotas Seniores Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 70.477,07 8,85 1,26 118,0 3.000 71.270,09 8,81 1,22 100.000 5.000 72.035,53 8,80 102.000 7.000 72.764,54 104.000 9.000 106.000 Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI 14.453,61 9,08 1,47 121,1 117,5 14.617,43 8,89 1,29 1,21 117,3 14.762,23 8,68 8,74 1,15 116,5 14.900,61 73.458,44 8,72 1,13 116,2 11.000 74.116,90 8,61 1,04 108.000 13.000 74.727,41 8,57 110.000 15.000 75.293,49 112.000 17.000 115.000 20.000 Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 11.069,32 18,51 10,25 246,9 118,5 12.112,49 18,32 10,06 244,3 1,10 115,7 13.202,24 18,02 9,79 240,3 8,72 1,14 116,3 14.334,85 17,72 9,51 236,3 15.031,55 8,49 0,92 113,2 15.510,02 17,54 9,34 233,8 114,9 15.157,27 8,72 1,14 116,3 16.725,83 17,30 9,11 230,6 1,00 114,3 15.293,16 8,69 1,10 115,8 17.979,42 17,05 8,88 227,3 8,51 0,94 113,4 15.437,44 8,78 1,19 117,1 19.269,08 16,82 8,67 224,2 75.822,61 8,42 0,85 112,2 15.583,57 8,98 1,37 119,7 20.593,82 16,60 8,47 221,4 76.556,65 8,42 0,86 112,3 15.798,61 8,53 0,96 113,7 22.644,74 16,36 8,24 218,1 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Diferente do que ocorreu com o aumento do nível de subordinação causado pelo aumento de cotas mezanino, a elevação do nível de subordinação causada pelo aumento das cotas subordinadas mostra efeito de redução nos spreads das cotas seniores, justamente em decorrência da redução de risco causada pelo aumento no valor dos ativos e pelo fato de essas cotas estarem sendo amortizadas somente ao final do prazo de duração do FIDC. Pela mesma razão, a elevação da quantidade de cotas subordinadas também possui influência na redução dos spreads das cotas mezanino. No entanto, o aumento dos ativos pela elevação na própria quantidade de cotas subordinadas diminui a elasticidade da opção de compra usada para avaliar essas cotas. Interessante notar que esse comportamento da elasticidade é oposto ao que ocorre quando o aumento na quantidade de ativos é promovido por aumento em outras classes de cotas. 104 CUSTO DE CAPITAL A Tabela 12 mostra os resultados obtidos para elevação do custo de capital, que corresponde a uma composição da taxa de cessão utilizada pelos FIDCs como desconto na aquisição de direitos creditórios e da taxa de remuneração dos títulos públicos. Tabela 12 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores de custo de capital Cotas Seniores Custo de Capital Valor (R$) 7,50% Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 72.035,53 7,50 0,00 100,0 8,00% 72.035,53 7,76 0,24 8,50% 72.035,53 8,02 9,00% 72.035,53 10,00% Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI 14.762,23 7,50 0,00 100,0 103,5 14.762,23 7,74 0,22 0,48 106,9 14.762,23 7,97 8,28 0,73 110,4 14.762,23 72.035,53 8,80 1,21 117,3 11,00% 72.035,53 9,32 1,69 12,00% 72.035,53 9,84 13,00% 72.035,53 14,00% 15,00% Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 13.202,24 7,50 0,00 100,0 103,1 13.202,24 9,60 1,96 128,1 0,44 106,3 13.202,24 11,71 3,91 156,1 8,21 0,66 109,4 13.202,24 13,81 5,87 184,2 14.762,23 8,68 1,10 115,7 13.202,24 18,02 9,79 240,3 124,3 14.762,23 9,15 1,53 122,0 13.202,24 22,23 13,70 296,4 2,18 131,2 14.762,23 9,62 1,97 128,3 13.202,24 26,44 17,62 352,5 10,36 2,66 138,2 14.762,23 10,09 2,41 134,6 13.202,24 30,65 21,53 408,6 72.035,53 10,88 3,15 145,1 14.762,23 10,56 2,85 140,9 13.202,24 34,86 25,45 464,7 72.035,53 11,40 3,63 152,0 14.762,23 11,04 3,29 147,1 13.202,24 39,06 29,36 520,9 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Valor total dos ativos R$100.000,00. O aumento nos spreads exigidos para todas as classes de cotistas em decorrência do aumento do custo de capital já era esperado, pois, como se observa nas fórmulas da Tabela 1, um valor de custo de capital maior corresponde a um maior valor na rentabilidade das opções de compra e um menor valor na opção de venda.23 Entretanto, destaca-se o forte efeito nas rentabilidades das cotas subordinadas. Enquanto que o crescimento nos spreads é da ordem de 0,5% a.a. para cotistas seniores e mezanino para cada aumento de 1% a.a. no custo de capital, esse crescimento foi da ordem de 5% a.a. para cotistas subordinados para cada 1% a.a. de acréscimo no custo de capital, em decorrência da maior elasticidade dessas cotas. TAXA LIVRE DE RISCO Observando as fórmulas da Tabela 1 e a Equação (33), pode-se verificar que o efeito de uma elevação na taxa livre de risco (r) está associado a vários fatores, alguns com efeitos opostos no resultado da rentabilidade. Assim, não é possível determinar o resultado final sobre a rentabilidade das cotas. 23 No caso da opção de venda, essa rentabilidade é reduzida, pois Ω (ver Tabela 1) possui valor negativo, o que resulta em aumento na rentabilidade das cotas seniores. 105 Procurou-se verificar então o efeito nas rentabilidades das cotas, resultantes do aumento da taxa livre de risco no caso do custo de capital com spread fixo em relação à taxa livre de risco (considerou-se spread de 100% a.a.). Os resultados estão na Tabela 13 a seguir. Tabela 13 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores de taxas de juros livre de risco, mantendo proporção da taxa de custo de capital como o dobro do valor da taxa livre de risco, isto é, spread entre essas taxas fixado em 100% Taxa de juros livre de risco Cotas Seniores Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 7,50% 72.035,53 11,40 3,63 152,0 14.762,23 11,04 3,29 147,1 13.202,24 39,06 29,36 520,9 8,00% 72.056,64 12,01 3,72 150,2 14.802,31 12,44 4,11 155,5 13.141,04 41,86 31,35 523,3 8,50% 72.092,05 12,57 3,75 147,9 14.830,21 14,17 5,23 166,7 13.077,74 44,62 33,29 524,9 9,00% 72.157,13 13,34 3,98 148,2 14.829,49 14,87 5,38 165,2 13.013,38 47,41 35,24 526,8 10,00% 72.361,92 14,54 4,13 145,4 14.753,90 17,94 7,22 179,4 12.884,18 53,02 39,11 530,2 11,00% 72.530,55 16,26 4,74 147,8 14.716,26 18,52 6,77 168,4 12.753,19 58,65 42,93 533,2 12,00% 72.626,62 18,08 5,43 150,7 14.755,81 18,34 5,66 152,9 12.617,57 64,69 47,04 539,1 13,00% 72.671,48 19,76 5,98 152,0 14.859,79 18,61 4,96 143,1 12.468,73 71,19 51,50 547,6 14,00% 72.754,74 20,97 6,11 149,8 14.947,74 20,90 6,05 149,3 12.297,51 78,22 56,34 558,7 15,00% 72.945,47 21,65 5,78 144,3 14.954,74 25,84 9,43 172,3 12.099,79 85,48 61,28 569,9 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Valor total dos ativos R$100.000,00. A tabela acima mostra que, para o caso em que o spread entre o custo de capital e a taxa livre de risco é mantido constante, o aumento da taxa livre de risco corresponde a um aumento nos spreads exigidos para as cotas seniores. Esse efeito é, portanto, contrário ao encontrado para o caso em que o custo de capital é mantido constante. A fórmula na Tabela 1 para a rentabilidade da opção de venda associada ao cálculo da rentabilidade da cota sênior mostra que essa rentabilidade é cada vez mais negativa com o aumento da diferença entre o custo de capital (Rs) e taxa de juros livre de risco (r), já que sua elasticidade é negativa. Rentabilidades da opção de venda mais negativas contribuem positivamente para o aumento da rentabilidade das cotas seniores, conforme Equação (33). Por motivos similares, a diferença entre Rs e r também resulta em aumento de spreads para as cotas subordinadas, pois contribui diretamente para o aumento da rentabilidade da opção de compra que caracteriza esse investimento. Já o efeito nas cotas mezanino é variável, justamente porque o cálculo da rentabilidade nessas cotas resulta da diferença entre duas opções de compra. Às vezes o efeito da taxa de juros livre de risco é maior em uma opção, às vezes é maior na outra. VOLATILIDADE Inicialmente, considerou-se a volatilidade constante ao longo de todo o prazo de duração do FIDC. Conforme Tabela 14 a seguir, pode-se perceber que o aumento da volatilidade nos valores dos ativos que compõem o FIDC possui forte impacto nas rentabilidades das cotas subordinadas, causando redução no spread. Isso ocorre, pois o valor 106 da opção de compra que representa as cotas subordinadas se eleva, contribuindo para redução da elasticidade da opção. Tabela 14 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores de volatilidade. Volatilidade constante ao longo de toda a duração do FIDC. Cotas Seniores Volatilidade Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 5,00% 82.558,91 8,83 1,24 117,8 16.653,49 10,46 2,75 139,5 787,60 122,70 107,16 1636,0 10,00% 78.467,68 8,77 1,18 116,9 16.047,82 9,13 1,51 121,7 5.484,51 30,14 21,06 401,8 15,00% 75.213,08 8,80 1,21 117,3 15.367,51 8,87 1,27 118,3 9.419,41 21,45 12,98 286,0 20,00% 72.035,53 8,80 1,21 117,3 14.762,23 8,68 1,10 115,7 13.202,24 18,02 9,79 240,3 25,00% 68.967,31 8,76 1,17 116,8 14.113,06 8,81 1,22 117,5 16.919,63 16,05 7,95 214,0 30,00% 66.079,18 8,61 1,04 114,8 13.355,24 9,60 1,95 128,0 20.565,59 14,72 6,71 196,2 35,00% 63.576,45 8,64 1,06 115,2 12.282,37 9,46 1,82 126,1 24.141,18 13,87 5,92 184,9 40,00% 60.842,87 8,83 1,24 117,8 11.510,15 8,45 0,88 112,7 27.646,97 13,21 5,31 176,1 45,00% 57.886,53 8,90 1,30 118,7 11.031,75 8,07 0,53 107,5 31.081,72 12,73 4,87 169,8 50,00% 54.950,57 8,85 1,26 118,0 10.606,52 8,30 0,74 110,7 34.442,91 12,36 4,52 164,8 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Valor total dos ativos R$100.000,00. Já os spreads para as cotas seniores e mezanino apresentam oscilações, algumas vezes chegando a valores menores de spread exigido pelos cotistas. No caso das cotas seniores, pode-se verificar na Tabela 15 abaixo que, apesar de a volatilidade implicar aumento nos valores da opção de venda e na rentabilidade dessa opção, a relação B/(B-P) também se eleva, havendo compensação. Variáveis Tabela 15 – Valores de variáveis necessárias para cálculo das rentabilidades Volatilidades 10% 20% 30% 40% 50% -0,399 -0,375 -0,294 -0,325 -0,297 Ω put -6,524 -2,987 -1,590 -1,368 -1,002 R put -8,81% 0,03% 3,53% 4,08% 4,99% P 6.115 12.548 18.504 23.740 29.632 B/(B-P) 1,08 1,17 1,28 1,39 1,54 Δ put P/(B-P) 0,08 0,17 0,28 0,39 0,54 Δ C KSKM 0,497 0,556 0,594 0,632 0,669 Ω C KSKM 9,055 4,209 2,887 2,284 1,943 C KSKM 5.485 13.202 20.566 27.647 34.443 Δ put: razão de hedge referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização;; Ω put: elasticidade referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização; R put: rendimento referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização; P: somatório das opções de venda de cada período de amortização; B: valor presente da dívida sem risco das cotas seniores; Δ C KSKM: razão de hedge da opção de compra para calcular valor das cotas subordinadas;; Ω C KSKM: elasticidade da opção de compra para calcular valor das cotas subordinadas; C KSKM: valor da opção de compra para calcular cotas subordinadas. Na Tabela 14 anterior se considerou a volatilidade constante ao longo de todo o prazo de duração do FIDC. Na Tabela 16 a seguir são apresentados resultados considerando hipóteses quanto à alteração dessa volatilidade ao longo da duração do fundo. Foram consideradas três situações: (i) volatilidade constante em 30% a.a.; (ii) volatilidade crescente, começando em 10% a.a. no início e sendo esse valor incrementado de 10% a.a. a cada 107 amortização até chegar a 50% a.a. no pagamento da penúltima amortização; e (iii) volatilidade crescente, começando em 50% a.a. no início e sendo esse valor incrementado negativamente de 10% a.a. a cada amortização até chegar a 10% a.a. no pagamento da penúltima amortização. Para essa comparação, foi desconsiderado o período de carência e as amortizações passaram a ser anuais. Tabela 16 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores de volatilidade, considerando casos constante, crescente e decrescente. Cotas Seniores Volatilidade Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Constante 70.190,92 8,69 1,11 115,9 13.493,80 8,90 1,30 118,7 16.315,28 16,53 8,40 220,4 Crescente 74.804,23 8,61 1,03 114,8 14.491,13 9,01 1,40 120,1 10.704,64 21,07 12,62 280,9 Decrescente 64.210,19 8,72 1,14 116,3 12.144,81 8,83 1,23 117,7 23.645,00 14,07 6,12 187,7 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Volatilidade constante em 30% a.a., crescente de 10% a.a. a 50% a.a. Com incremento de 10% a.a. a cada amortização. Volatilidade decrescente de 50% a.a. a 10% a.a., com incrementos negativos de 10% a.a. a cada amortização. Valor total dos ativos = 100.000. Observa-se que, da mesma forma como foi comentado a respeito dos resultados da Tabela 14, os maiores efeitos ocorrem nas rentabilidades das cotas subordinadas. Para essa classe de cotas, assim como para as cotas mezanino, em comparação com o regime de volatilidade constante, o regime de volatilidade crescente resultou em aumento no nível dos spreads, decorrente do aumento do valor da opção de compra, enquanto que o regime de volatilidade decrescente teve efeito oposto. INADIMPLÊNCIA NOS DIREITOS CREDITÓRIOS A inadimplência no pagamento das dívidas relacionadas aos direitos creditórios cedidos ao FIDC será considerada no modelo como uma taxa contínua, que corresponde, no modelo de Merton, ao pagamento de dividendos por um ativo. Dessa forma, o efeito da inadimplência contribuirá para redução no valor do ativo, da mesma forma como ocorre com o pagamento dos dividendos. A tabela 17 apresenta as rentabilidades esperadas calculadas para diversos valores de percentual de inadimplência. 108 Tabela 17 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores de default nos direitos creditórios % inadimplência nos direitos creditórios Valor Total dos Ativos (R$) 0,00% 100.000 0,50% Cotas Seniores Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 72.035,53 8,80 1,21 117,3 98.149 71.368,29 8,84 1,25 1,00% 96.357 70.692,97 8,89 1,50% 94.623 70.010,58 2,00% 92.944 2,50% Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI 14.762,23 8,68 1,10 115,7 117,9 14.607,99 8,71 1,13 1,29 118,5 14.452,67 8,75 8,93 1,33 119,1 14.296,50 69.322,11 8,97 1,37 119,6 91.317 68.628,52 9,01 1,41 3,00% 89.741 67.930,77 9,05 5,00% 83.900 65.116,08 7,50% 77.511 10,00% 71.955 Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 13.202,24 18,02 9,79 240,3 116,2 12.172,44 18,22 9,97 242,9 1,16 116,6 11.211,55 18,41 10,15 245,5 8,78 1,19 117,1 10.315,88 18,61 10,34 248,2 14.139,66 8,81 1,22 117,5 9.481,87 18,81 10,52 250,8 120,2 13.982,35 8,84 1,25 117,9 8.706,10 19,01 10,71 253,5 1,44 120,7 13.824,75 8,88 1,28 118,3 7.985,27 19,21 10,90 256,2 9,19 1,57 122,5 13.194,63 9,00 1,40 120,0 5.589,77 20,03 11,66 267,1 61.605,04 9,33 1,71 124,5 12.417,58 9,17 1,55 122,3 3.487,91 21,08 12,64 281,1 58.180,78 9,44 1,80 125,8 11.663,27 9,36 1,73 124,7 2.110,49 22,16 13,64 295,5 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Para os cotistas seniores e mezanino, o aumento na taxa de default dos ativos está associado a uma rentabilidade maior exigida por esses cotistas para compensar a redução no valor do ativo. Já, no caso dos cotistas subordinados, a princípio, o aumento nos valores dos spreads parece não fazer sentido, uma vez que o aumento da rentabilidade dessas cotas está associado a valores de ativos maiores após o pagamento dos compromissos do fundo para com os cotistas seniores e mezanino. Entretanto, o modelo de Black, Scholes e Merton considera que os acionistas detentores do ativo recebem os dividendos pagos. Portanto, uma interpretação mais correta a respeito das rentabilidades das cotas subordinadas é que essas rentabilidades representam o que esses cotistas ganharão, caso: (i) não ocorra o default previsto; ou (ii) ocorra recuperação nos valores em default. Cabe ressaltar aqui outra questão. Como visto, o efeito da volatilidade nos spreads das cotas seniores é oscilatório, podendo algumas vezes reduzir o nível de spread exigido pelos cotistas. Ao mesmo tempo, diversos trabalhos acadêmicos (por exemplo, Firla-Cuchra [2005] e Vink e Thibeault [2008]) mostram que taxas de default são fundamentais no apreçamento de operações de securitização e tendem a provocar elevação no nível de spreads. Esse efeito também foi identificado nos FIDCs, na análise realizada durante o Ensaio 1. Assim, a representação de taxas de inadimplência na forma de uma taxa equivalente ao pagamento de dividendos, conforme Modelo de Merton, permite representar de forma mais apropriada o efeito da inadimplência nas rentabilidades das cotas. PRAZO DE VENCIMENTO DA OFERTA Conforme Merton (1974), o prazo de vencimento possui efeito ambíguo sobre o valor de uma opção de venda, pois ao mesmo tempo em que um prazo maior amplifica os efeitos da volatilidade, ele também reduz o valor presente da dívida. Dessa forma, uma vez que o risco das cotas seniores é representado por uma opção de venda, não há como se prever o 109 comportamento dos spreads para essa classe de cotas. A Tabela 18 abaixo mostra justamente esse entendimento. O prazo do fundo foi aumentado a partir de acréscimos no prazo de carência, mantendo-se os prazos entre as amortizações constantes. Pode-se verificar que os spreads das cotas seniores oscilam com o aumento do prazo. Tabela 18 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores de prazo de duração do FIDC, por meio de acréscimo na carência. Acréscimos no prazo de carência em relação ao original 0,5 ano Cotas Seniores Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 71.391,30 8,72 1,14 116,3 1 ano 71.034,71 8,80 1,21 1,5 ano 70.480,56 8,90 2 anos 69.828,05 2,5 anos 3 anos Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) Valor (R$) a.a. CDI + CDI 14.918,16 9,18 1,56 122,4 117,3 14.842,74 8,97 1,37 1,30 118,6 14.992,64 8,69 8,69 1,11 115,8 15.250,25 69.931,19 8,59 1,01 114,5 69.656,25 8,99 1,38 119,8 Rentabilidade (%) Valor (R$) a.a. CDI + % CDI 13.690,54 17,55 9,35 234,0 119,6 14.122,55 17,13 8,96 228,4 1,11 115,9 14.526,80 16,70 8,56 222,7 9,80 2,14 130,7 14.921,71 16,34 8,22 217,9 14.765,01 10,39 2,69 138,6 15.303,80 16,08 7,98 214,4 14.693,20 8,37 0,81 111,7 15.650,54 16,03 7,94 213,8 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Valor total dos ativos R$ 100.000. Já os valores das cotas subordinadas estão relacionados com os valores de uma opção de compra. Conforme Merton (1974), aumento no prazo de vencimento dessas opções corresponde ao aumento no valor da opção e, por conseguinte, redução na rentabilidade. Esse comportamento também está caracterizado na Tabela 18. As cotas mezanino também apresentaram oscilação nos spreads com o aumento do prazo. Como já citado anteriormente, os valores dessas cotas resultam da diferença entre duas opções de compra, e o efeito nos spreads dependerá de qual opção terá maior influência. PRAZO ENTRE AMORTIZAÇÕES Os diversos resultados encontrados para rentabilidades das cotas, conforme aumento do prazo entre amortizações, são apresentados na Tabela 19 abaixo. Tabela 19 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes valores de prazos entre amortizações, mantendo-se o mesmo prazo final. Acréscimos no prazo entre amortizações Cotas Seniores Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 0,5 ano 72.035,53 8,80 1,21 117,3 14.762,23 8,68 1,10 115,7 13.202,24 18,02 9,79 240,3 0,625 ano 72.712,19 8,70 1,12 116,0 14.615,85 9,10 1,49 121,4 12.671,96 18,47 10,21 246,3 0,75 ano 73.332,55 8,74 1,15 116,5 14.569,91 8,94 1,34 119,2 12.097,54 18,94 10,64 252,5 0,875 ano 73.992,89 8,71 1,13 116,1 14.523,25 9,01 1,40 120,1 11.483,87 19,57 11,22 260,9 1 ano 74.661,30 8,65 1,07 115,3 14.506,05 9,20 1,58 122,6 10.832,66 20,39 11,99 271,9 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de r na Tabela 6. Número de passos utilizados 40. Valor total dos ativos R$ 100.000. 110 O aumento do prazo entre as amortizações implicou aumento nos spreads a serem recebidos pelos cotistas subordinados, em decorrência do aumento da elasticidade da opção composta de compra que caracteriza o valor dessas cotas, ocasionado pela redução no valor dessa opção. A dilatação do prazo entre as amortizações aumenta o pagamento dos juros sobre cada amortização. Esse aumento reduz o valor das diversas opções que integram a opção composta, que por sua vez terá seu valor também reduzido. Para avaliação do comportamento das cotas seniores, deve-se observar a Tabela 20. Tabela 20 – Valores de variáveis necessárias para cálculo das rentabilidades Prazo entre amortizações Variáveis 0,5 ano 0,75 ano 1 ano Δ put -0,375 -0,362 Ω put -2,987 -3,432 -0,343 -3,978 R put 0,03% -1,08% -2,45% P 12548 10560 8621 B/(B-P) 1,17 1,14 1,12 P/(B-P) 0,17 0,14 0,12 Δ put: razão de hedge referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização; Ω put: elasticidade referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização; R put: rendimento referente ao somatório das opções de venda de cada período de amortização; P: somatório das opções de venda de cada período de amortização; B: valor presente da dívida sem risco das cotas seniores. O aumento no prazo entre as amortizações também causou redução no valor da opção de venda e em sua rentabilidade, o que é favorável ao aumento da rentabilidade dessas cotas. Ao mesmo tempo, houve redução na relação B/(B – P), que multiplica o valor da taxa livre de risco, a qual é maior que a rentabilidade da opção de venda. Por isso ocorrem oscilações no valor dos spreads das cotas seniores, embora predomine o efeito de redução nas rentabilidades. Para as cotas mezanino, houve certa oscilação nos spreads, embora com tendência de alta, também decorrente de efeitos distintos nas opções de compra utilizadas em seu cálculo. QUANTIDADE DE AMORTIZAÇÕES Verificar o efeito da alteração na quantidade de amortizações representa um problema, pois não é possível alterar essa quantidade sem alterar outras características como aumento do prazo de vencimento, ou alteração nos prazos entre amortizações. Optou-se por analisar o efeito da mudança na quantidade de amortizações mantendo-se prazo final constante e prazos entre amortizações alterados, pois se entende que, no momento da estruturação do fundo, é mais fácil alterar os prazos das amortizações do que o prazo de resgate das cotas. A Tabela 21 a seguir apresenta os resultados obtidos. 111 Tabela 21 – Rentabilidades nas cotas seniores, mezanino e subordinadas para diferentes quantidades de amortizações, mantendo-se o mesmo prazo final. Cotas Seniores Número de amortizações Valor (R$) Cotas Mezanino Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI Valor (R$) Cotas Subordinadas Rentabilidade (%) a.a. CDI + CDI Valor (R$) Rentabilidade (%) a.a. CDI + % CDI 5 74.702,32 8,66 1,08 115,4 14.506,22 9,12 1,51 121,6 10.791,46 20,48 12,08 273,1 6 74.752,12 8,68 1,10 115,7 14.640,53 8,95 1,34 119,3 10.607,36 20,76 12,34 276,9 7 74.810,33 8,65 1,07 115,4 14.732,22 9,02 1,42 120,3 10.457,45 21,01 12,57 280,1 8 74.846,49 8,69 1,10 115,8 14.792,20 8,85 1,25 118,0 10.361,31 21,13 12,68 281,7 9 74.873,99 8,68 1,10 115,7 14.840,28 8,86 1,26 118,1 10.285,73 21,26 12,80 283,4 10 74.916,32 8,68 1,10 115,7 14.880,95 8,83 1,24 117,8 10.202,73 21,41 12,94 285,5 Valor e rentabilidade das classes de cotas seniores, mezanino e subordinadas calculadas conforme o modelo binomial para FIDC. Demais características do FIDC descritas na Tabela 6. Valor do CDI usado = valor de Rd na tabela 6. Número de passos utilizados 20. Não foi considerada carência. O efeito nas rentabilidades das cotas seniores é muito pequeno. No caso das cotas mezanino, assim como no caso da análise para alteração dos prazos das amortizações, há oscilação, embora com tendência de baixa em virtude de o aumento da quantidade de amortizações estar relacionado à redução no prazo entre as amortizações. No entanto, é interessante notar que o efeito nas cotas subordinadas seguiu comportamento distinto do já examinado na alteração dos prazos entre amortizações mantendo-se mesma quantidade de amortizações. O aumento no número de amortizações com a consequente redução do prazo entre essas observações representou aumento nas rentabilidades das cotas subordinadas. Ocorre que o aumento na quantidade de amortizações, apesar de implicar redução de prazo, também reduz o valor de cada amortização a ser paga em cada período e isso contribuiu para o aumento da elasticidade da opção de compra composta. 112 5 CONCLUSÃO DO ENSAIO 2 Este trabalho teve por objetivo a construção de um modelo capaz de apreçar as diferentes classes de cotas que compõem um FIDC e, com isso, analisar o efeito das diversas características presentes na emissão dessas cotas em suas rentabilidades. A construção do modelo tomou por base três outros modelos conhecidos da literatura acadêmica: o modelo de Merton (1974), o modelo opções compostas de Geske (1977 e 1979a) e o modelo binomial de Cox, Ross e Rubinstein (1979). O modelo binomial para apreçamento de FIDCs tem como vantagem o fato de permitir facilmente considerar o fluxo de caixa real do fundo, ou seja, as amortizações são consideradas nas datas em que efetivamente ocorrem, diferentemente, por exemplo, de modelos analíticos. Esse fato, aliás, inviabiliza a utilização do modelo de Geske no apreçamento de FIDCs. Outra vantagem do modelo binomial é que, para um determinado número de passos, ele sempre gera um mesmo valor como solução, diferentemente de modelos por simulação, os quais sempre oferecem um valor médio dentre os obtidos em várias simulações. Cada sequência de simulações gera um valor médio diferente como resultado, dificultando, por exemplo, uma análise de sensibilidade a mudanças de valores nas variáveis. Às vezes essas mudanças provocam pequenas, mas importantes alterações e o modelo de simulação não seria apropriado para esse tipo de análise. O modelo binomial implementado por meio de programação VBA para Excel possui, no entanto, algumas limitações, como quantidade máxima de amortizações. Primeiramente os resultados do modelo binomial para FIDC foram aferidos, sendo comparados aos de um modelo baseado em simulação, além de comparações com os modelos de Black e Scholes e de Geske. Os resultados alcançados foram considerados satisfatórios. A seguir, então, passou-se a utilizar o modelo binomial para apreçamento de FIDCs com o intuito de analisar o efeito de diversos fatores nas rentabilidades das diferentes classes de cotas que compõem o FIDC (seniores, mezanino e subordinadas). A aplicação do modelo a um FIDC com perfil construído a partir de características tiradas da base de dados do Ensaio 1 permitiu algumas conclusões. O aumento nos valores a serem amortizados de cotas seniores, mantidas as demais características do FIDC constantes, é benéfico para cotistas subordinados e possui influência 113 positiva nas cotas seniores, quando os valores das cotas seniores estiverem proporcionalmente baixos em relação ao total de ativos, não tendo muita influência quando essa proporção de cotas seniores for elevada. Pode haver, no entanto, efeito negativo sobre a rentabilidade das cotas mezanino. Essa conclusão é relevante na medida em que é prática comum um FIDC emitir novas séries de cotas seniores, mesmo com as séries iniciais ainda não tendo sido completamente amortizadas. A oferta de novas séries de cotas mezanino ao longo da vida do FIDC não necessariamente representa uma proteção para cotas seniores, podendo mesmo contribuir para o aumento dos spreads dessas cotas, se as cotas mezanino forem amortizadas ao longo do tempo de duração do FIDC. O efeito será sempre positivo nas rentabilidades das cotas subordinadas e imprevisto para cotas mezanino. Já o aumento no total de cotas subordinadas, mantidas as demais classes de cotas constantes, é efetivo na proteção de cotistas seniores e mezanino, pois reduz o spread exigido nessas cotas. Com relação à taxa livre de risco, o seu aumento, mantendo-se o custo de capital constante, resulta em redução no nível de spreads das rentabilidades em todas as classes de cotas. No entanto, se o aumento da taxa de risco for acompanhado de um aumento proporcional no custo de capital, então os spreads se elevam para cotas seniores e subordinadas e oscilam para cotas mezanino. O aumento da volatilidade provoca forte redução nos spreads das cotas subordinadas, mas possui pouca influência nos spreads das cotas seniores, às vezes levando ao um aumento, às vezes levando a uma redução. Portanto, incluir o efeito de inadimplência nos direitos creditórios na volatilidade não necessariamente trará o efeito de redução dos spreads das cotas seniores, conforme é apontado na literatura acadêmica internacional. Uma forma mais apropriada, e que produz resultados que corroboram o que é observado no mercado (elevação nos spreads), é considerar a taxa de default como tendo o mesmo papel do pagamento de dividendos no caso do modelo de Merton. O aumento no prazo de duração do FIDC, por meio do aumento do prazo de carência para amortização das cotas, produz redução nos spreads das cotas subordinadas e oscilação nos spreads das cotas seniores e mezanino, o que confirma as conclusões de Merton. No entanto, o aumento do prazo entre as amortizações, mantendo-se o prazo final de duração do FIDC o mesmo, implicou aumento nos spreads a serem recebidos pelos cotistas subordinados. Também há nesse caso oscilação na rentabilidade das cotas seniores e mezanino. 114 As conclusões acima são importantes, pois estão relacionadas a situações que podem, de fato, ocorrer na operação de um FIDC. Estar ciente do efeito de como certos fatores influenciam nas rentabilidades das diversas classes de cotas em um FIDC é essencial tanto para investidores como para gestores e reguladores dessa indústria. Esse fato aponta a relevância deste estudo, já que este é o primeiro trabalho sobre FIDCs a propor um modelo não baseado em simulação que permite apreçar as cotas e com isso fazer uma análise mais aprofundada da influência de diversos efeitos sobre essas cotas. Como foi visto, os resultados obtidos pelo modelo binomial para apreçamento de FIDCs foram aferidos com os resultados obtidos por outros modelos e considerados satisfatórios, o que permitiu sua utilização na análise de diversos fatores que influenciam nas rentabilidades das cotas. No entanto, essa não deixa de ser uma análise teórica. Seria interessante verificar a aplicação do modelo em situações reais. Esse será o objetivo do Ensaio 3. 115 ENSAIO 3 Aplicação do Modelo Binomial para Apreçamento de FIDCs em Casos Reais 116 RESUMO Este trabalho apresenta duas aplicações do modelo de apreçamento de cotas de FIDC desenvolvido no Ensaio 2. As aplicações ocorreram em fundos existentes na época em que este estudo foi elaborado. O primeiro caso analisado foi o do Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. Foram comparados os resultados de valores das cotas seniores, mezanino e subordinadas calculados com o modelo e os valores contábeis informados pelo fundo. Como praticamente não há negociações de cotas de FIDC no mercado secundário, não pôde ser realizada comparação com valores de mercado. O segundo caso analisado foi o do RB Capital Agre FII. Apesar de ser um fundo imobiliário, o RB Capital Agre possui uma estrutura semelhante a um FIDC, com a vantagem de ter mais negociações de cotas seniores no mercado secundário. Assim, para esse fundo, os resultados alcançados com o modelo de apreçamento puderam ser comparados com os valores contábeis e com os de mercado. Os resultados indicam que, devido ao elevado grau de proteção às cotas seniores, bem como à estrutura do fluxo de caixa, os valores calculados para essas cotas utilizando o modelo e os contábeis ficaram próximos para o caso do FIDC. No caso do FII, os valores calculados com o modelo ficaram próximos dos valores contábeis corrigidos pelo índice de referência (IPCA). Identificou-se também que os valores de mercado das cotas do RB Capital Agre FII estavam muito altos comparados com os registros contábeis. ABSTRACT This paper presents two actual applications of the FIDC quotes pricing model developed in Essay 2. The model was applied in existing funds at the time this study was conducted. The first case studied was the Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. We compared the results of the values of senior, mezzanine and subordinated quotas calculated with the model and the book values reported by the fund. Due to the absence of secondary market trading of the fund quotas, no analysis comparing with market values could be performed. The second case studied was the RB Capital Agre FII. Despite being a real estate fund, the RB Capital has a structure similar to a FIDC, with the advantage of having more trades in the secondary market. Thus, for this case, the results achieved with the pricing model could be compared with the book and market values. The results indicate that, due to the high degree of protection to senior quotas, as well as the cash flow structure, the book and the pricing model values were close for the FIDC case. In the case of the FII, the values calculated with the pricing model were close to the book values adjusted by the reference index (IPCA). It was also identified that the market values of the RB Capital Agre FII quotas were too high compared to the book values. 117 1 INTRODUÇÃO No Ensaio 1, procura-se identificar características dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) que possuem influência nos spreads das rentabilidades-alvo das cotas seniores definidas no momento da emissão. Ao longo do referido ensaio, por meio de um modelo de regressão linear, observa-se que variáveis representativas de risco (ratings e natureza do ativo-lastro), vida média, nível da taxa de juros livre de risco (CDI), bem como a estrutura de subordinação do FIDC, podem explicar esses spreads. No Ensaio 2, baseado nas conclusões do Ensaio 1, é desenvolvido um modelo para apreçamento de cotas de FIDCs, que utiliza o conceito de opções compostas. Nesse ensaio é analisado um FIDC composto por três classes de cotas (subordinada, mezanino e sênior). O modelo permite a análise de diversos fatores que influenciam no apreçamento dessas classes, tais como nível de subordinação, volatilidade, taxas de juros, custo de capital, taxas de inadimplência, prazo de duração do fundo, bem como características relacionadas ao fluxo de caixa das amortizações. A proposta deste Ensaio 3 é aplicar o modelo desenvolvido no Ensaio 2 em fundos de investimento existentes no mercado, para a determinação do valor de cada classe de cotas que o compõe e comparação com o valor de mercado. A ideia inicial era aplicar o modelo em um FIDC, cuja escolha seria baseada nos seguintes critérios: a) o fundo deveria ter três classes de cotas (sênior, mezanino e subordinada), de forma a que o modelo pudesse ser testado integralmente; b) informações necessárias à aplicação do modelo, tais como: características da estrutura do fundo; fluxo de caixa; evolução ao longo do tempo do patrimônio líquido e inadimplência; bem como evolução dos valores das cotas, deveriam estar disponibilizadas no prospecto da oferta das cotas e no site da CVM; c) o fundo deveria possuir apenas uma série de cotas emitida, dessa forma se evitaria que o balancete do fundo incluísse valores pertencentes a mais de uma série de cotas, o que inviabilizaria a análise dos resultados para comparação; d) o fundo deveria possuir cotas, cuja quantidade de negócios registrados na Cetip, ou na BM&FBovespa, fosse a maior possível, com objetivo de que a liquidez refletisse a percepção do mercado sobre o valor da cota. 118 A quantidade de negócios e demais características dos FIDCs foram obtidas a partir do banco de dados construído conforme descrito no Ensaio 1. O FIDC com maior quantidade de negócios envolvendo cotas seniores registrados na Cetip, existente no banco de dados, é o Multi Recebíveis II – série 1, com 183 operações entre 9/9/1998 e 27/4/2010, seguido do FIDC da Indústria Exodus I – série 13, com 57 operações entre 25/7/2011 e 28/3/2013 e do Chemical V FIDC Indústria Petroquímica, com 24 operações entre 3/11/2010 e 6/12/2011. No entanto, no caso do Multi Recebíveis II, verificou-se que a série 2 de cotas seniores foi lançada enquanto as cotas da série 1 ainda não haviam sido resgatadas, o que afetaria as informações do balanço do fundo, que passaria a incluir o efeito das duas cotas. Situação semelhante ocorre também com a série 13 do FIDC da Indústria Exodus, cujo balanço incluía informação de séries anteriormente emitidas. Assim, o fundo escolhido para o modelo ser aplicado foi o Chemical V. Entretanto, ao observar-se a quantidade de negócios para as cotas de FIDCs, pode-se concluir que praticamente não há mercado secundário, e, por conseguinte, não há como se verificar a percepção do mercado para o valor das cotas. Dessa forma, buscou-se também aplicar o modelo em um Fundo de Investimento Imobiliário (FII), pois possui características semelhantes ao FIDC, mas com existência de mais negociações de cotas seniores no mercado secundário. Por outro lado, não foi encontrado FII que possuísse estrutura com três classes de cotas, como ocorre com os FIDC. O RB Capital Agre foi o FII encontrado com estrutura mais próxima a um FIDC. Possui duas classes de cotas (sênior e subordinada), sendo que a média mensal de negócios para cotas seniores desse fundo entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 foi de aproximadamente 45, conforme dados do site da BM&FBovespa.24 Este trabalho está dividido da seguinte forma. Na Seção 2 será realizada a descrição do Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica, bem como a descrição da análise feita para a avaliação dos resultados obtidos com a aplicação do modelo de apreçamento. A Seção 3 possui a mesma sequência de objetivos da Seção 2, exceto que o modelo será aplicado no RB Capital Agre FII. A Seção 4 conclui. 24 Disponível em <http://www.bmfbovespa.com.br/SIG/FormConsultaNegociacoes.asp?strTipoResumo=RES_NEGOCIACOE S&strSocEmissora=RBAG&strDtReferencia=12/2012&strIdioma=P&intCodNivel=1&intCodCtrl=100> 119 2 CHEMICAL V FIDC – INDÚSTRIA PETROQUÍMICA O objetivo desta seção é analisar a aplicação do modelo de apreçamento de FIDC desenvolvido no Ensaio 2 na avaliação dos valores de cotas do Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. Inicialmente será feita uma descrição sucinta do FIDC, em seguida serão mostrados os procedimentos para se obter os valores a serem utilizados no modelo de apreçamento. Por fim, serão avaliados os resultados obtidos com o modelo, comparando-os com valores contábeis divulgados pelo fundo de investimento. 2.1 DESCRIÇÃO DO FUNDO O Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica é um fundo fechado, portanto sem resgate antecipado das cotas, registrado na CVM em 29 de junho de 2010. O fundo possui três classes de cotas. A emissão de cotas pelo fundo, realizada também em junho/2010, totalizou R$300.000.000,00, dos quais R$272.400.000,00 correspondiam a 272.400 cotas seniores, R$21.600.000,00 correspondiam a 21.600 cotas mezanino e o restante, a 6.000 cotas subordinadas. O objetivo do fundo é a aquisição de direitos creditórios advindos de operações de venda mercantil a prazo de produtos da empresa Braskem, já fabricados e/ou comercializados e despachados aos clientes, representadas por notas fiscais e faturas do segmento industrial. Esses direitos creditórios devem compor, após 90 dias do início das atividades, no mínimo 50% do patrimônio líquido do fundo, conforme exigência regulamentar.25 Para fins de atender à necessidade de liquidez, o fundo pode também investir em títulos públicos de emissão do Tesouro Nacional ou do Bacen, fundos de investimento classificados como referenciados ou de renda fixa. A rentabilidade-alvo das cotas seniores é de CDI + 1,25% a.a., enquanto que para as cotas mezanino é de CDI + 5,8% a.a. O valor de cada cota subordinada é calculado deduzindo do patrimônio líquido do fundo o valor total das cotas seniores e mezanino e dividindo esse resultado pelo número de cotas subordinadas. As cotas seniores foram classificadas com 25 Instrução CVM 393, de 22 de julho de 2003 120 rating Aa1 pela agência de avaliação de risco de crédito Moody’s, enquanto as cotas mezanino foram classificadas como Ba1. O fundo tem prazo de duração de três anos. O cronograma inicialmente previsto para amortização das cotas seniores e mezanino é apresentado na Tabela 1 a seguir. Após cinco amortizações semestrais, onde são distribuídas a esses cotistas somente as remunerações decorrentes de juros, o fundo procede à amortização das cotas em seis parcelas mensais. Tabela 1- Cronograma esperado para amortização do valor da emissão das cotas seniores e mezanino do Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. Prazo da amortização Amortização (% do valor da (meses) emissão) 6 12 - 18 - 24 - 30 - 31 16,66% 32 16,66% 33 16,66% 34 16,66% 35 16,66% 36 16,70% Fonte: Prospecto de oferta das cotas 2.2 METODOLOGIA PARA A ANÁLISE Os valores das cotas seniores, mezanino e subordinadas, calculados com o modelo de apreçamento, serão comparados aos valores contábeis divulgados pelo fundo de investimento por meio do Informe Mensal, o qual pode ser obtido no site da CVM.26 Escolheu-se o prazo de 33 meses contados da emissão das cotas como aquele para o qual será feita a comparação, pois nesse prazo as cotas seniores se encontravam amortizadas em 50% do seu valor inicial. As informações sobre valores de mercado das cotas seniores, mezanino e subordinada podem ser obtidas também no Informe Mensal. Entretanto, em virtude de praticamente não haver negociações de cotas de FIDCs no mercado secundário, não é possível realizar uma comparação com valores de mercado. Os valores das cotas seniores e mezanino que constam no site da CVM representam apenas uma atualização do valor inicial da cota, de acordo com a 26 Disponível em <http://cvmweb.cvm.gov.br/SWB/defaultCPublica.asp> 121 rentabilidade-alvo pré-determinada e o pagamento das amortizações. Já os valores das cotas subordinadas estão relacionados com a variação do patrimônio líquido do fundo. Para utilização do modelo de apreçamento, são necessários os valores correspondentes às seguintes variáveis: valor total do fundo; valor a ser amortizado para cotas seniores; valor a ser amortizado para cotas mezanino; fluxo de caixa do fundo até o vencimento da oferta; rentabilidades-alvo das cotas seniores e mezanino; taxa de juros livre de risco; percentual de inadimplência; e volatilidade. As rentabilidades-alvo para as cotas seniores e mezanino permanecem constantes ao longo da emissão. Essas rentabilidades foram obtidas no prospecto da oferta de emissão de cotas do fundo, sendo a rentabilidade-alvo das cotas seniores igual a CDI + 1,25% a.a. e a rentabilidade-alvo das cotas mezanino igual a CDI + 5,8% a.a. Outra variável que será considerada constante ao longo da vida do FIDC é a volatilidade. Como mencionado, apenas os valores das cotas subordinadas não são prédeterminados. Dessa forma, decidiu-se por aplicar o modelo para a data de registro na CVM e obter a volatilidade implícita necessária para que essas cotas subordinadas tenham o valor na data de emissão, isto é, R$1.000,00. Para essa estimativa da volatilidade, obteve-se, do prospecto de oferta da emissão das cotas, o valor total do fundo (R$300.000.000,00), valor de amortização das cotas seniores (R$272.400.000,00) e valor de amortização das cotas mezanino (R$21.600.000,00). Do relatório de risco, o qual faz também parte do prospecto, obteve-se a estimativa de inadimplência nos direitos creditórios de 0,21% a.m., equivalentes a 2,55% a.a.. A taxa livre de risco (CDI) para a data de registro do fundo na CVM no dia 29/6/2010 é de 10,13% a.a., e foi obtida no site do Banco Central do Brasil.27 O cronograma de amortização das cotas seniores e mezanino estimado até o vencimento foi informado em termos percentuais na Tabela 1. As Tabelas 2A e 2B abaixo detalham os valores que serão considerados no fluxo de caixa do modelo de apreçamento para essas cotas. 27 Disponível em <https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries> 122 Tabela 2A – Fluxo de caixa e cálculo do valor presente da dívida sem risco das cotas seniores. Prazo para amortização contado a partir da data da emissão (junho/2010). Remuneração calculada da seguinte forma: (saldo devedor)*((1 + CDI)*(1+1,25%)prazo/12 – 1). Valor do CDI para 29/6/2010 utilizado é 10,13% a.a. Prazo para Fluxo de caixa cotas Amortização Fluxo de caixa Fluxo de caixa amortização seniores (valor presente em (principal em R$) (remuneração em R$) (total em R$) (meses) R$) 6 15.245.403,69 15.245.403,69 14.527.340,28 12 - 15.245.403,69 15.245.403,69 13.843.097,88 18 - 15.245.403,69 15.245.403,69 13.191.083,52 24 - 15.245.403,69 15.245.403,69 12.569.779,24 30 - 15.245.403,69 15.245.403,69 11.977.738,60 31 45.400.000,00 2.483.597,42 47.883.597,42 37.319.046,26 32 45.400.000,00 2.069.664,52 47.469.664,52 36.700.145,93 33 45.400.000,00 1.655.731,62 47.055.731,62 36.088.765,17 34 45.400.000,00 1.241.798,71 46.641.798,71 35.484.823,21 35 45.400.000,00 827.865,81 46.227.865,81 34.888.240,13 36 45.400.000,00 413.932,90 45.813.932,90 34.298.936,78 Total 280.888.997,00 Tabela 2B – Fluxo de caixa das cotas mezanino. Prazo para amortização contado a partir da data da emissão (junho/2010). Remuneração calculada da seguinte forma: (saldo devedor)*((1 + CDI)*(1+5,80%) prazo/12 – 1). Valor do CDI para 29/6/2010 utilizado é 10,13% a.a. Prazo para amortização Amortização Fluxo de caixa (remuneração Fluxo de caixa (total em R$) (meses) (principal em R$) em R$) 6 1.715.750,78 1.715.750,78 12 - 1.715.750,78 1.715.750,78 18 - 1.715.750,78 1.715.750,78 24 - 1.715.750,78 1.715.750,78 30 - 1.715.750,78 1.715.750,78 31 3.600.000,00 276.929,14 3.876.929,14 32 3.600.000,00 230.774,28 3.830.774,28 33 3.600.000,00 184.619,42 3.784.619,42 34 3.600.000,00 138.464,57 3.738.464,57 35 3.600.000,00 92.309,71 3.692.309,71 36 3.600.000,00 46.154,86 3.646.154,86 Fonte: Prospecto de oferta das cotas e própria Com base nas informações acima, de forma iterativa, calculou-se, utilizando o modelo de apreçamento, o valor da volatilidade que faria com que o valor das cotas subordinadas fosse igual a R$1.000,00, correspondente ao valor na data da emissão. O valor encontrado para a volatilidade foi de 10,34% a.a. Esse valor será considerado constante ao longo da vida da emissão. É interessante destacar a identificação pelo modelo desse nível de volatilidade presente no momento da emissão das cotas. Essa volatilidade reflete a percepção pelos cotistas subordinados da existência de riscos de taxa de juros, crédito, liquidez e outros inerentes ao processo de securitização. 123 2.3 APLICAÇÃO DO MODELO DE APREÇAMENTO E ANÁLISE DOS RESULTADOS Após se obter as informações necessárias, aplicou-se o modelo para o momento em que 50% das amortizações já tivessem sido realizadas. Esse ponto corresponde ao mês 33 das Tabelas 2A e 2B (março/2013). Os fluxos de caixa considerados nessa nova data para as cotas seniores e mezanino encontram-se nas Tabelas 3A e 3B. O novo valor do CDI utilizado (7,01% a.a.) refere-se à data de 28/3/2013, uma vez que as informações são disponibilizadas no site da CVM com data-base no último dia útil de cada mês. Tabela 3A – Fluxo de caixa e cálculo do valor presente da dívida sem risco das cotas seniores. Prazo para amortização contado a partir de março/2013. Remuneração calculada da seguinte forma: (saldo devedor)*((1 + CDI)*(1+1,25%) prazo/12 – 1). Valor do CDI para 28/3/2013 utilizado é 7,01% a.a. Prazo para Fluxo de caixa cotas Amortização Fluxo de caixa Fluxo de caixa amortização seniores (valor presente em (principal em R$) (remuneração em R$) (total em R$) (meses) R$) 1 45.400.000,00 913.028,64 46.313.028,64 46.052.281,66 2 45.400.000,00 608.685,76 46.008.685,76 45.492.077,16 3 45.400.000,00 304.342,88 45.704.342,88 44.936.720,91 Total 136.481.079,73 Tabela 3B – Fluxo de caixa das cotas mezanino. Prazo para amortização contado a partir de março/2013. Remuneração calculada da seguinte forma: (saldo devedor)*((1 + CDI)*(1+5,80%) prazo/12 – 1). Valor do CDI para 28/3/2013 utilizado é 7,01% a.a. Prazo para amortização Amortização Fluxo de caixa (remuneração Fluxo de caixa (total em R$) (meses) (principal em R$) em R$) 1 3.600.000,00 112.299,02 3.712.299,02 2 3.600.000,00 74.866,01 3.674.866,01 3 3.600.000,00 37.433,01 3.637.433,01 Fonte: Prospecto de oferta das cotas e própria Outros valores utilizados no modelo também foram alterados em virtude da nova data considerada. O valor total do fundo passou a ser R$153.000.000,00, enquanto que o valor total para ser amortizado das cotas seniores e mezanino passaram a ser R$136.200.000,00 e R$10.800.000,00, respectivamente. Com relação ao percentual de inadimplência, o comportamento dos créditos vencidos e não pagos a mais de 90 dias foi acompanhado desde fevereiro de 2011, quando essa informação passou a ser também discriminada no informe mensal. Esses valores só deixaram de ser iguais à zero em dois meses e, mesmo assim, foram considerados muito baixos em relação ao total existente na carteira de direitos creditórios. 124 Dessa forma, decidiu-se por manter a taxa de inadimplência de 2,55% a.m., como inicialmente estimado. A Tabela 4 traz os valores encontrados para as cotas seniores, mezanino e subordinadas utilizando-se o modelo de apreçamento, bem como os valores para essas mesmas cotas divulgados no Informe Mensal do fundo disponibilizado no site da CVM, para a data 28/3/2013. Tabela 4 - Comparação entre os valores das cotas seniores, mezanino e subordinadas encontradas pelo modelo de apreçamento e divulgadas no Informe Mensal disponível no site da CVM. Data 28/3/2013. Valor (R$) obtido com o Valor (R$) divulgado Cotas Diferença modelo de apreçamento pelo FIDC Sênior 500,54 500,20 -0,0679% Mezanino 484,51 500,20 3,2383% Subordinada 923,26 895,47 -3,0100% Fonte: CVM e própria Como se pode perceber na tabela acima, a comparação entre os valores do modelo de apreçamento e os divulgados no Informe Mensal mostra que ficaram próximos, sendo que as cotas seniores foram as que tiveram valores mais próximos. Ao se investigar os cálculos utilizados pelo modelo para se chegar ao valor das cotas, verifica-se que a opção de venda, a qual corresponde no modelo a uma medida de risco para os cotistas seniores, apresentou valor pequeno (R$135 mil) se comparado ao valor sem risco das cotas (R$ 136,5 milhões). Ainda a respeito da Tabela 4, verifica-se que quando a volatilidade é incluída utilizando-se o modelo, há distribuição de valores entre as cotas mezanino e subordinadas, com os cotistas mezanino requerendo um valor inferior da cota. A Tabela 5 mostra uma análise de sensibilidade com objetivo de detectar a influência do nível de subordinação, volatilidade, e taxa de inadimplência nos valores das cotas seniores. 125 Tabela 5 - Análise de sensibilidade do valor das cotas seniores calculados pelo modelo de apreçamento, para a data 28/3/2013, variando-se os valores da volatilidade, inadimplência e existência de cotas mezanino e subordinadas. Quando cotas mezanino e subordinadas são consideradas, seus valores são, respectivamente, R$10.800.000,00 e R$6.000.000,00 e o fluxo de caixa das amortizações ocorre como descrito nas Tabelas 3A e 3B. Inadimplência 2,55% a.a. Inadimplência 0% Volatilidade com mezanino e subordinas sem mezanino e subordinadas com mezanino e subordinas sem mezanino e subordinadas 10,34% a.a. R$500,54 R$491,94 R$500,65 R$493,05 50,00% a.a. R$475,90 R$463,49 R$476,63 R$464,41 A tabela mostra que um aumento de 5 vezes no valor da volatilidade provoca uma redução nos valores das cotas seniores de apenas cerca de 5%, enquanto que a retirada da proteção causada pela subordinação das cotas mezanino e subordinadas provoca redução também pequena, de cerca de 3%. A taxa de inadimplência contribuiu pouco nesse caso. A pouca influência dessas variáveis pode ser atribuída ao fato de o vencimento estar a um prazo próximo da data analisada. Além disso, a liquidação obrigatória do fundo no momento em que as cotas subordinadas são totalmente amortizadas em decorrência de inadimplências nos direitos creditórios é outro importante fator a ser considerado na pouca alteração dos valores das cotas seniores. 126 3 RB CAPITAL AGRE FII 3.1 DESCRIÇÃO DO FUNDO O RB Capital Agre FII é um fundo imobiliário fechado, que foi registrado na CVM em 8 de junho de 2010. A emissão das cotas foi também realizada em junho/2010. O fundo possui duas classes de cotas. A emissão de cotas pelo fundo totalizou R$68.750.000,00, dos quais R$55.000.000,00 correspondiam a 550.000 cotas seniores e o restante, a 137.500 cotas subordinadas. Após a emissão, as cotas passaram a ser negociadas na BM&FBovespa. O objetivo do fundo é investir indiretamente em diversos empreendimentos imobiliários residenciais, por meio da participação em até 50% do controle da Agra Maligawa, sociedade empresária limitada, a qual possui participação nesses empreendimentos. Sobre tais empreendimentos, tratam-se de 11 imóveis, localizados em diversas regiões do país, adquiridos na fase de construção, para posterior revenda. Para fins de atender à necessidade de liquidez, o fundo pode também investir em títulos públicos ou privados e em valores mobiliários. A rentabilidade-alvo oferecida aos cotistas seniores é IPCA + 9,5% a.a. Conforme informação no prospecto de oferta das cotas, o valor de cada cota sênior ao longo da vida do fundo será o menor entre:28 a) A + B, onde A é o valor da cota sênior após as amortizações anteriores e B é a remuneração esperada com base no benchmark (IPCA + 9,5% a.a.) acumulado desde a data do pagamento anterior; e b) Patrimônio líquido do fundo dividido pelo número de cotas. O valor de cada cota subordinada é calculado deduzindo-se do patrimônio líquido do fundo o valor total das cotas seniores e dividindo-se esse resultado pelo número de cotas subordinadas. O fundo tem prazo de duração de três anos. O cronograma inicialmente previsto para amortização das cotas seniores é apresentado na Tabela 6 a seguir. Após seis meses de carência, onde serão distribuídas mensalmente aos cotistas seniores somente as remunerações decorrentes de juros, o fundo procederá à amortização das cotas em 18 parcelas mensais. 28 Esses procedimentos para cálculo dos valores das cotas seniores e subordinadas estão de acordo com o modelo de apreçamento. 127 Conforme informado no prospecto de oferta das cotas, para a estimativa dos valores da remuneração, foi utilizado o spread da rentabilidade-alvo (9,5% a.a.). Os pagamentos são realizados no quinto dia útil de cada mês. Tabela 6 - Cronograma esperado para amortização das cotas seniores do RB Capital Agre FII. Remuneração calculada usando o spread da rentabilidade-alvo das cotas seniores (9,5% a.a.). Prazo da amortização (meses) Remuneração (R$) Amortização (R$) 1 417.534,39 - 2 417.534,39 - 3 417.534,39 - 4 417.534,39 - 5 417.534,39 - 6 417.534,39 - 7 417.534,39 1.500.000,00 8 406.147,08 1.500.000,00 9 394.759,78 1.500.000,00 10 383.372,48 1.500.000,00 11 371.985,18 3.500.000,00 12 345.414,81 3.500.000,00 13 318.844,44 3.500.000,00 14 292.274,07 3.000.000,00 15 269.499,47 3.000.000,00 16 246.724,86 3.000.000,00 17 223.950,26 3.500.000,00 18 197.379,89 3.500.000,00 19 170.809,52 3.500.000,00 20 144.239,15 4.000.000,00 21 113.873,01 4.000.000,00 22 83.506,88 4.000.000,00 23 53.140,74 4.000.000,00 24 22.774,60 3.000.000,00 Fonte: Prospecto de oferta das cotas 3.2 METODOLOGIA PARA ANÁLISE No caso do RB Capital Agre FII, existem informações sobre os valores das cotas seniores negociadas no mercado para comparação com os valores encontrados utilizando-se o modelo de apreçamento. Decidiu-se por fazer essa comparação em três momentos distintos, de acordo com o percentual do total de amortização realizado. Dessa forma, escolheu-se três 128 datas em que aproximadamente 25%, 50% e 75%, respectivamente, do total amortizado tenha sido efetivamente realizado. Não serão analisadas as cotas subordinadas, pois não se identificou negociação no mercado para essas cotas. Para aplicação do modelo de apreçamento são necessários os valores correspondentes às mesmas variáveis mencionadas no item 2.2, para o caso do FIDC, exceto o valor a ser amortizado para cotas mezanino, uma vez que o RB Capital Agre FII não possui essa classe de cotas. Da mesma forma como foi realizado no caso do FIDC descrito na Seção 2, primeiramente será determinado o valor da volatilidade implícita, na data da emissão das cotas, o qual será considerado constante ao longo da vida do fundo. Na data da emissão das cotas do FII, de acordo com o prospecto da oferta, o valor total do fundo era de R$68.750.000,00 e o valor de amortização das cotas seniores era de R$55.000.000,00. O fluxo de caixa utilizado foi o da Tabela 6. A rentabilidade-alvo das cotas seniores também é informada no prospecto. No entanto, diferentemente do caso do Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica, que estabelece a rentabilidade-alvo das cotas na forma taxa de juros + spread, o RB Capital Agre FII remunera suas cotas utilizando como benchmark um índice atrelado à inflação (IPCA + 9,5% a.a.). Essa diferença irá acarretar um tratamento diferente para se calcular o valor da dívida sem risco. Para tal cálculo, inicialmente, obteve-se os valores da curva DI x cupom futuro do IPCA, por meio do site da BM&FBovespa, em diversos vértices, para a data de registro do fundo na CVM (8/6/2010).29 Com a intenção de diminuir o tempo de execução do programa em VBA para obtenção dos resultados, além de aproveitar o fato de que o modelo de apreçamento já estava implementado para 12 amortizações, decidiu-se por agrupar as 18 amortizações mostradas na Tabela 6, duas a duas, totalizando nove amortizações. Essa alteração traz pouca diferença no resultado final. As amortizações incluem o valor do principal adicionado da remuneração calculada com o spread da rentabilidade-alvo (9,5% a.a.). Em seguida, os valores das amortizações das cotas seniores são trazidos a valor presente, utilizando-se os cupons do IPCA. Destaca-se que, uma vez que tanto a remuneração quanto a taxa utilizada para descontar os fluxos de caixa a valor presente (obtidos da curva DI x cupom IPCA) estão atrelados ao IPCA, não há necessidade de se obter a estimativa do IPCA futuro para cada amortização. Isso equivale a dizer que os valores das amortizações estão referenciados em IPCA, na data da emissão. Dessa forma, quando se desejar determinar 29 Disponível em <http://www.bmfbovespa.com.br/shared/iframeBoletim.aspx?altura=3800&idioma=ptbr&url=www2.bmf.com.br/pages/portal/BM&FBovespa/boletim1/TxRef1.asp> 129 valores de cotas para datas futuras em relação à data de emissão, devem-se corrigir os valores das amortizações pelo acumulado do IPCA para o período compreendido entre a data da emissão e a data desejada. A Tabela 7 abaixo apresenta os valores correspondentes ao procedimento mencionado. Tabela 7 – Cálculo do valor presente da dívida sem risco das cotas seniores. Prazo para amortização contado a partir da data da emissão (junho/2010). Remuneração calculada com a taxa de 9,5% a.a. da seguinte forma: (saldo devedor)*((1+9,5%)prazo/12 – 1). Dados da curva DI x cupom de IPCA, de 8/6/2010. Prazo para Amortização Fluxo de caixa Dados curva DI Fluxo de caixa Fluxo de caixa amortização (principal em (remuneração x cupom IPCA (valor presente (total em R$) (meses) R$) em R$) (a.a.) em R$) 8 3.000.000,00 3.430.387,83 6.430.387,83 6,56% 6.163.693,38 10 3.000.000,00 792.516,40 3.792.516,40 6,32% 3.603.697,49 12 7.000.000,00 746.794,30 7.746.794,30 6,12% 7.300.032,32 14 6.500.000,00 640.109,40 7.140.109,40 6,20% 6.656.198,47 16 6.000.000,00 541.044,85 6.541.044,85 6,27% 6.031.604,91 18 7.000.000,00 449.600,65 7.449.600,65 6,31% 6.796.288,64 20 7.500.000,00 342.915,75 7.842.915,75 6,35% 7.078.073,36 22 8.000.000,00 228.610,50 8.228.610,50 6,39% 7.345.280,00 24 7.000.000,00 106.684,90 7.106.684,90 6,41% 6.276.278,02 Total 57.251.146,59 Fonte: Prospecto de oferta das cotas, BM&FBovespa. Para se determinar a taxa de juros livre de risco a ser usada no modelo de apreçamento, determinamos a taxa interna de retorno usada para descontar o fluxo de caixa da Tabela 7 acima, de modo a que o somatório fosse equivalente a R$57.251.146,59. O valor encontrado para essa taxa, por meio de processo iterativo, foi de 6,32% a.a. Com relação à taxa de inadimplência, considerou-se o fato de que o fundo adquiriu os imóveis já na etapa de construção, sendo que, de acordo com o prospecto, os imóveis possuíam em média, em abril de 2010, portanto quatro meses antes do registro na CVM, cerca de 96% das unidades vendidas. Tendo em vista que, conforme esclarece o prospecto de oferta das cotas, a inadimplência do comprador do imóvel resulta na resolução do contrato, com o imóvel alienado sendo retomado pela incorporadora, a qual, por conseguinte, poderá vendê-lo novamente, considerou-se a taxa de inadimplência igual à zero. A Tabela 8 resume os valores a serem utilizados no modelo de apreçamento para determinação da volatilidade. 130 Tabela 8 – Valores a serem utilizados no modelo de apreçamento para determinação do valor de uma cota sênior em 8/6/2010. Característica Valor Valor total dos ativos R$68.750.000,00 Valor (principal) a ser amortizado das cotas seniores R$55.000.000,00 Taxa de juros livre de risco (252 d.u.)* 6,32% Taxa de inadimplência 0% Número de passos Fluxo de caixa 18 Ver Tabela 7 acima Fonte: Prospecto do fundo de investimento, Relatório de rentabilidade, BM&FBovespa, própria. Por meio de um processo iterativo, encontramos o valor da volatilidade que fizesse com que o valor da cota sênior fosse igual àquele no momento da emissão, isto é, R$100,00. O valor encontrado para essa volatilidade foi de 23,35% a.a. Esse valor será considerado constante e será utilizado para apreçar as cotas ao longo da vida do FII. Assim como ocorreu com o caso do Chemical V FIDC, destaca-se o nível da volatilidade percebida pelos cotistas seniores no momento da emissão das cotas. Nele estão incluídos tanto o risco de taxa de juros, como os risco inerentes ao investimento no próprio fundo, tais como o risco de liquidez das cotas e o risco de atraso na conclusão das obras. A estimativa de fluxo de caixa mostrada na Tabela 7 foi necessária para se determinar o valor da volatilidade. Entretanto, verificou-se que as amortizações, efetivamente, ocorreram de forma diferente do estimado. A Tabela 9 a seguir, obtida a partir do relatório de rentabilidade do fundo de investimento disponível no site da BM&FBovespa, apresenta como de fato ocorreram as amortizações das cotas seniores. 30 30 Disponível em <http://www.bmfbovespa.com.br/rendavariavel/ResumoFundoImobiliarioCodigoDetalhe.aspx?Codigo=RBAG11&idioma=pt-br> 131 Tabela 9 - Cronograma efetivamente ocorrido da amortização das cotas seniores do RB Capital Agre FII. Prazo da amortização (meses) Amortização (R$) 1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 1.500.000,00 8 1.523.934,00 9 4.976.066,00 10 5.000.000,00 11 5.000.000,00 12 3.500.000,00 13 3.500.000,00 14 3.000.000,00 15 3.000.000,00 16 3.000.000,00 17 1.000.000,00 18 2.000.000,00 19 2.000.000,00 20 2.000.000,00 21 1.000.000,00 28 1.000.000,00 29 1.000.000,00 30 1.000.000,00 31 10.000.000,00 Fonte: Relatório de rentabilidade do fundo de investimento As datas para as quais será aplicado o modelo foram escolhidas a partir dos dados da Tabela 9. Assim, 25% do total do principal a ser amortizado em cotas seniores (R$55.000.000,00) correspondem a R$13.750.000,00. O prazo de 10 meses é aquele que possui o total amortizado mais próximo desse valor (R$13.000.000,00). Contando a partir de junho/2010, esse prazo corresponde a abril/2011. Como as amortizações são realizadas no quinto dia útil de cada mês, escolheu-se a data 7/4/2011 para avaliação do valor da cota calculada pelo modelo, comparando-a com o valor de mercado. Repetindo o procedimento para 50% e 75% do valor total a ser amortizado, as outras duas datas escolhidas foram 8/8/2011 e 7/2/2012. 132 Deve-se notar que, na época, em cada uma dessas datas, sabia-se que as amortizações anteriores haviam ocorrido de forma diferente do que constava no cronograma estimado (Tabela 6), mas não se sabia como as amortizações futuras ocorreriam. Optou-se então por ajustar os valores futuros a serem amortizados, igualmente para cada parcela, de forma a que no vencimento o valor total ficasse amortizado. Esse procedimento será melhor detalhado no item 3.3. 3.3 APLICAÇÃO DO MODELO DE APREÇAMENTO E ANÁLISE DOS RESULTADOS O modelo de apreçamento desenvolvido no Ensaio 2 foi aplicado para se determinar os valores das cotas seniores em 7/4/2011, 8/8/2011 e 7/2/2012, datas correspondentes ao quinto dia útil do 10o, 14o e 20o meses, respectivamente, contados a partir da data da emissão (junho/2010). Como visto, essas datas correspondem aos momentos em que aproximadamente 25%, 50% e 75% das amortizações haviam sido efetivamente realizadas. Entretanto, conforme esclarecido no item 3.2, os valores em reais devem ser corrigidos pelo IPCA acumulado entre a época da emissão e as datas mencionadas acima. Entre junho/2010 e abril/2011, o IPCA acumulado foi de 6,05%, enquanto que para os períodos junho/2010 a agosto/2011 e junho/2010 a fevereiro/2012, o IPCA acumulado foi de 7,28% e 10,53%, respectivamente. Para cada uma dessas datas, foram obtidos os valores das variáveis a serem utilizadas no modelo. As Tabelas 10A e 10B apresentam esses valores para a data 7/4/2011. Tabela 10A – Fluxo de caixa e cálculo do valor presente da dívida sem risco das cotas seniores. Prazo para amortização contado a partir de abril/2011. Remuneração calculada com taxa de 9,5% a.a. da seguinte forma: (saldo devedor)*((1+9,5%)prazo/12 – 1). Dados da curva DI x cupom de IPCA de 7/4/2011. Valores de amortização corrigidos pelo IPCA acumulado entre junho/2010 e abril/2011 de 6,05%. Prazo para Amortização Dados curva DI Fluxo de caixa Fluxo de caixa Fluxo de caixa amortização (principal em x cupom IPCA (remuneração) (total) (valor presente) (meses) R$) (a.a.) 1,73% 2 6.363.258,99 678.863,65 7.042.122,63 7.022.020,23 4 5.832.987,40 581.883,13 6.414.870,53 3,97% 6.332.160,01 6 5.302.715,82 492.984,32 5.795.700,14 4,84% 5.660.338,47 8 6.363.258,99 412.167,21 6.775.426,20 5,40% 6.541.985,02 10 6.893.530,57 315.186,69 7.208.717,26 5,62% 6.887.625,46 12 7.423.802,15 210.124,46 7.633.926,61 5,70% 7.222.257,91 14 6.363.258,99 96.980,52 6.460.239,51 5,59% 6.063.015,77 Total 45.729.402,88 133 Tabela 10B – Valores a serem utilizados no modelo de apreçamento para determinação do valor de uma cota sênior em 7/4/2011. Valores em R$ corrigidos pelo IPCA acumulado entre junho/2010 e abril/2011 de 6,05%. Característica Valor Valor total dos ativos R$59.125.281,42 Valor (principal) a ser amortizado das cotas seniores R$44.542.812,91 Taxa de juros livre de risco (252 d.u.)* 5,26% Taxa de inadimplência 0% Volatilidade 23,35% Número de passos 18 Fluxo de caixa Ver Tabela 10A acima Fonte: Prospecto de oferta das cotas, Relatório de rentabilidade, BM&FBovespa, própria. * O valor da taxa de juros foi calculado seguindo o mesmo procedimento descrito no item 3.2 para determinação da taxa de juros na data da emissão. Na Tabela 10A acima, os prazos de 2, 4, 6, 8, 10, 12 e 14 meses contados de abril/2011 correspondem, na Tabela 6, aos prazos de 12, 14, 16, 18, 20, 22 e 24 meses contados de junho/2010. Entretanto, na Tabela 6, o cronograma de amortização era estimado. Até abril/2011 (mês 10), segundo esse cronograma estimado, deveriam ter sido amortizados R$6 milhões, mas, conforme mostrado na Tabela 9, efetivamente foram amortizados R$ 13milhões. A diferença, R$ 7milhões, foi deduzida, em parcelas iguais, das 14 parcelas de amortização seguintes, isto é, cada amortização estimada na Tabela 6 a partir do mês 10, foi reduzida em R$ 500 mil e em seguida corrigida pelo IPCA acumulado para o período junho/2010 e abril/2011. Assim como ocorreu na construção da Tabela 7, as amortizações foram agrupadas duas a duas. As Tabelas 11A e 11B apresentam informações equivalentes às das Tabelas 10A e 10B, só que com referência à 8/8/2011. Tabela 11A – Fluxo de caixa e cálculo do valor presente da dívida sem risco das cotas seniores. Prazo para amortização contado a partir de agosto/2011. Remuneração calculada com taxa de 9,5% a.a. da seguinte forma: (saldo devedor)*((1+9,5%)prazo/12 – 1). Dados da curva DI x cupom de IPCA de 8/8/2011. Valores de amortização corrigidos pelo IPCA acumulado entre junho/2010 e agosto/2011 de 7,28%. Prazo para Dados curva DI Amortização Fluxo de caixa Fluxo de caixa Fluxo de caixa amortização x cupom IPCA (principal) (remuneração) (total) (valor presente) (meses) (a.a.) 2 4.612.988,81 441.451,12 5.054.439,93 10,41% 4.971.700,64 4 5.685.776,90 371.145,94 6.056.922,84 7,73% 5.908.444,42 6 6.222.170,95 284.490,72 6.506.661,67 7,16% 6.285.529,55 8 6.758.564,99 189.660,48 6.948.225,47 6,78% 6.650.903,18 10 5.685.776,90 86.655,22 5.772.432,12 6,54% 5.475.598,44 Total 29.292.176,23 134 Tabela 11B – Valores a serem utilizados no modelo de apreçamento para determinação do valor de uma cota sênior em 8/8/2011. Valores em R$ corrigidos pelo IPCA acumulado entre junho/2010 e agosto/2011 de 7,28% Característica Valor Valor total dos ativos R$43.716.114,84 Valor (principal) a ser amortizado das cotas seniores R$28.965.278,54 Taxa de juros livre de risco (252 d.u.)* 7,11% Taxa de inadimplência 0% Volatilidade 23,35% Número de passos 18 Fluxo de caixa Ver Tabela 11A acima Fonte: Prospecto de oferta das cotas, Relatório de rentabilidade, BM&FBovespa, própria. * O valor da taxa de juros foi calculado seguindo o mesmo procedimento descrito no item 3.2 para determinação da taxa de juros na data da emissão. Finalmente, as Tabelas 12A e 12B apresentam informações equivalentes às das Tabelas 10A, 10B, 11A e 11B, só que com referência à 7/2/2012. Tabela 12A – Fluxo de caixa e cálculo do valor presente da dívida sem risco das cotas seniores. Prazo para amortização contado a partir de fevereiro/2012. Remuneração calculada com taxa de 9,5% a.a. da seguinte forma: (saldo devedor)*((1+9,5%)prazo/12 – 1). Dados da curva DI x cupom de IPCA de 7/2/2012. Valores de amortização corrigidos pelo IPCA acumulado entre junho/2010 e fevereiro/2012 de 10,53%. Prazo para Dados curva DI Amortização Fluxo de caixa Fluxo de caixa Fluxo de caixa amortização x cupom IPCA (principal) (remuneração) (total) (valor presente) (meses) (a.a.) 2 8.289.495,52 235.830,40 8.525.325,92 3,95% 8.470.458,30 4 7.184.229,45 109.492,69 7.293.722,14 3,61% Total 7.208.009,05 15.678.467,35 Tabela 12B – Valores a serem utilizados no modelo de apreçamento para determinação do valor de uma cota sênior em 7/2/2011. Valores em R$ corrigidos pelo IPCA acumulado entre junho/2010 e fevereiro/2012 de 10,53% Característica Valor Valor total dos ativos R$30.671.133,42 Valor (principal) a ser amortizado das cotas seniores R$15.473.724,97 Taxa de juros livre de risco (252 d.u.)* Taxa de inadimplência Volatilidade Número de passos Fluxo de caixa 3,74% 0% 23,35% 18 Ver Tabela 8A acima Fonte: Prospecto de oferta de cotas, Relatório de rentabilidade, BM&FBovespa, própria. * O valor da taxa de juros foi calculado seguindo o mesmo procedimento descrito no item 3.2 para determinação da taxa de juros na data da emissão. 135 O modelo de apreçamento foi aplicado para as três situações acima. A Tabela 13 a seguir traz os resultados encontrados, bem como os valores de mercado e os valores contábeis para as cotas seniores nas três datas analisadas. Tabela 13 – Comparação dos valores de cotas seniores obtidos pelo modelo de apreçamento, valor contábil examortização e juros e valor de mercado nas datas 7/4/2011, 8/8/2011 e 7/2/2012. O modelo de apreçamento utilizado foi o desenvolvido no Ensaio 2. O valor de mercado foi obtido pelo site do BM&FBovespa. O Valor contábil foi obtido do relatório de rentabilidade divulgado pelo fundo e disponível no site da BM&FBovespa. Valores da cota sênior (R$) Datas Valor contábil exModelo de apreçamento Valor de mercado amortização e juros 7/4/2011 82,76 76,36 110,00 8/8/2011 53,25 49,09 53,00 7/2/2012 28,51 25,45 32,80 Fonte: Relatório de rentabilidade do fundo, BM&FBovespa, própria. A Tabela 13 mostra que os valores encontrados pelo modelo de apreçamento estão acima dos valores contábeis para as situações analisadas, sendo essa diferença de 8,4%, 8,5% e 12,0%, respectivamente, para os dias 7/4/2011, 8/8/2011 e 7/2/2012. Entretanto, relativamente aos valores de mercado, há maior variação percentual dos valores encontrados pelo modelo de apreçamento. Enquanto que para as datas 7/4/2011 e 7/2/2012, os valores obtidos com o modelo eram inferiores aos valores de mercado em 24,8% e 13,1%, respectivamente, para o dia 8/8/2011, os valores foram praticamente iguais. Nem mesmo considerando-se cupons da curva DI x IPCA iguais a zero conseguiu-se que os valores do modelo se aproximassem dos valores de mercado. De fato, nesse caso, para as datas 7/4/2011, 8/8/2011 e 7/2/2012, os valores calculados foram, respectivamente, 85,68; 55,15; e 28,76. A Figura 1 a seguir, amplia o horizonte de tempo analisado, incluindo o período entre dezembro/2010 e dezembro/2012. 136 Fonte: Relatório de rentabilidade do fundo de investimento, BM&FBovespa, própria. Figura 1 – Comparação dos valores de cotas seniores obtidos pelo modelo de apreçamento, valor contábil examortização e juros, valor contábil com amortização e juros e valor de mercado entre dez/2010 e dez/2012. O modelo de apreçamento utilizado foi o desenvolvido no Ensaio 2. Os valores de mercado foram obtidos pelo site do BM&FBovespa. Os valores contábeis foram obtidos do relatório de rentabilidade divulgado pelo fundo e disponível no site da BM&FBovespa. Na figura acima, os valores de mercado são representados por marcadores em forma de losango. Os valores calculados com o modelo de apreçamento correspondem aos marcadores em forma quadrada, sem preenchimento. A linha contínua representa o contorno formado pelos valores contábeis deduzidos das amortizações e juros. A linha tracejada representa o contorno formado pelos valores contábeis, mas antes da dedução das amortizações e juros. A linha pontilhada possui o mesmo significado da linha tracejada, mas considera a situação hipotética do IPCA ter sido cinco vezes maior do que o efetivamente ocorrido. A ideia dessa última linha é verificar se choques na expectativa dos valores de IPCA poderiam elevar a curva de modo a essa ficar acima dos valores de mercado. No entanto, como se pode observar na figura, os valores de mercado das cotas permaneceram também elevados em relação a essa linha. Uma possível explicação para a valorização dessas cotas pelo mercado pode ser encontrada no estudo apresentado pela Anbima (2011). De acordo com esse estudo, realizado para o período compreendido entre 2009 e 2011, o valor de mercado das cotas possui forte correlação (96%) com rendimentos distribuídos. Além disso, o trabalho da Anbima mostra também que retornos de cotas de fundos imobiliários e retornos de NTN-B possuem baixa correlação (15%).31 Tal trabalho foi mencionado pelo próprio diretor executivo do RB Capital, em entrevista concedida ao Jornal 31 NTN-B: Notas do Tesouro Nacional – série B, cuja remuneração, assim como a remuneração dos FIIs, é atrelada ao IPCA. 137 Valor Econômico (Belloto, 2011), para afirmar, ao se referir às cotas de fundos imobiliários, que: (i) “o valor das cotas no mercado secundário não reflete de maneira precisa a qualidade e o preço dos ativos imobiliários nas carteiras”; e (ii) “a análise baseada apenas no rendimento pode tanto prejudicar um fundo como criar valorizações excessivas, contaminando as avaliações do mercado”. Assim, o fato de o RB Capital Agre estar pagando rendimentos altos (IPCA + 9,5% a.a.) à época, em comparação com os cupons pagos por títulos públicos com rendimento atrelado ao IPCA (ver Tabelas 10A, 11A, 12A), podem estar causando os altos valores de mercado das cotas do FII. Deve-se ressaltar que as conclusões do estudo do Anbima são válidas somente para o período analisado, o qual inclui o período de existência do FII analisado, e não podem ser estendidas. Além disso trata-se de um período em que não houve forte elevação das taxas de juros. Já os valores obtidos com o modelo de apreçamento nas três situações analisadas mostram que o comportamento desses valores segue a forma da curva que representa os valores contábeis adicionados da remuneração. Os valores calculados são um pouco inferiores aos correspondentes a essa curva na mesma data. Esse fato pode estar associado ao pouco risco envolvido nessas cotas. Ao se verificar os resultados gerados pelo modelo, pode-se identificar que o valor da opção de venda, a qual representa o risco dos cotistas seniores, para cada situação, é pequeno se comparado ao valor total dessas cotas sem o risco. Para as datas 7/4/2011, 8/8/2011 e 7/2/2012, os valores das opções de venda calculados foram, respectivamente, R$209,5 mil, R$3,6 mil e zero, enquanto que, para essas mesmas datas, os valores das cotas seniores eram, respectivamente, R$45,7 milhões, R$ 29,3 milhões e R$ 15,7 milhões. Além disso, as cotas subordinadas representam para os cotistas seniores do RB Capital Agre FII uma boa proteção, apesar da volatilidade de 23,35% a.a., uma vez que a liquidação obrigatória do fundo no momento em que as cotas subordinadas são totalmente amortizadas em decorrência de inadimplências nos direitos creditórios. A Tabela 14 abaixo mostra análise de sensibilidade referente às cotas seniores e subordinadas para a data de 8/8/2011 (50% das amortizações realizadas). 138 Tabela 14 - Análise de sensibilidade do valor das cotas seniores e subordinadas calculados pelo modelo de apreçamento, para a data 8/8/2011, variando-se os valores da volatilidade e da taxa de inadimplência. Inadimplência 0,0% a.a. Volatilidade Cotas seniores Cotas subordinadas Inadimplência 2,5% a.a. Cotas seniores Inadimplência 5,0% a.a. Cotas subordinadas Cotas seniores Cotas subordinadas 15% a.a. 53,26 104,90 53,26 100,12 53,26 95,56 30% a.a. 53,19 105,17 53,18 100,44 53,17 95,94 45% a.a. 52,62 107,45 52,56 102,90 52,50 98,58 Os valores acima corroboram os resultados encontrados nas análises de sensibilidade descritas no Ensaio 2. Os efeitos de inadimplência e da volatilidade são mais pronunciados nas cotas subordinadas, havendo pouca influência sobre as cotas seniores. Inclusive, para o presente caso, com a volatilidade mais baixa, de 15% a.a., o efeito da inadimplência nas cotas seniores foi nulo. 139 4 CONCLUSÃO DO ENSAIO 3 Este trabalho teve por objetivo apresentar a aplicação do modelo de apreçamento de cotas de FIDC em dois casos reais e comparar os resultados gerados por esse modelo com valores contábeis e de mercado dessas cotas. O primeiro caso escolhido foi o Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. Esse fundo foi escolhido (i) por possuir três classes de cotas, permitindo testar o modelo de apreçamento de forma completa, (ii) por possuir informação acessível, além de (iii) ser um dos FIDCs existentes com mais cotas seniores negociadas no mercado secundário, embora o total de negócios registrados tenha sido muito baixo. Em virtude da quase inexistência de mercado secundário para essas cotas, a comparação dos resultados obtidos com auxílio do modelo de apreçamento só pôde ser realizada com os valores contábeis divulgados. A comparação entre esses resultados mostrou que os valores ficaram bem próximos entre si, com diferenças inferiores a 3,5% para as três classes de cotas, sendo que as cotas seniores foram as que tiveram valores mais próximos. Esse comportamento pode ter decorrido do fato de o vencimento estar próximo da data analisada, além da obrigatoriedade na liquidação do fundo no momento em que as cotas subordinadas são totalmente amortizadas em decorrência de inadimplências nos direitos creditórios. Tendo em vista a impossibilidade de comparação dos resultados gerados pelo modelo de apreçamento com valores de mercado das cotas de FIDC, decidiu-se por fazer essa comparação usando cotas de um fundo de investimento imobiliário com estrutura similar a de FIDCs. O fundo escolhido foi o RB Capital Agre FII. Esse fundo possui duas classes de cotas (seniores e subordinadas) em vez de três. Os valores gerados pelo modelo de apreçamento para as cotas seniores ficaram próximos e um pouco abaixo dos valores contábeis antes da dedução da remuneração a ser paga às cotas. Em relação aos valores de mercado, para uma das datas analisadas, o valor calculado com o modelo foi praticamente idêntico ao valor de mercado, enquanto que para as outras duas datas, os valores calculados com o modelo ficaram abaixo. De fato, os valores de mercado das cotas seniores durante boa parte da duração do FII se mostraram elevados. Essa discrepância pode ser em decorrência do fato de os preços de mercado das cotas serem influenciados pelos rendimentos distribuídos, e não pela qualidade da carteira que compõe os ativos. 140 A análise dos resultados, entretanto, requer cautela. Para ambos os fundos analisados, os valores de volatilidade utilizados foram determinados por meio de volatilidades implícitas, calculadas na data de emissão das cotas, sendo que esses valores foram mantidos constantes ao longo de toda a vida dos fundos. Esse critério adotado pode não ser uma aproximação ideal. De fato, conforme mencionado no Ensaio 1, Riddiough (1997) conclui que à medida que o tempo passa, a qualidade dos ativos securitizados vai se revelando e assim, avaliações de crédito na emissão tendem a melhorar na média ao longo do tempo, com a velocidade da melhoria sendo negativamente relacionada com a qualidade com que o ativo securitizado é percebido na época da emissão. Ou seja, a não ocorrência de um evento indesejado, pode resultar em melhoria na percepção do risco, ajudando na redução da variação dos preços das cotas e, por conseguinte, da volatilidade. A análise dos valores das cotas de FIDC, utilizando diferentes perfis de volatilidade pode fazer parte de um estudo futuro. A comparação de valores das cotas com valores de mercado ficou um pouco comprometida neste estudo, devido a pouca liquidez existente, mesmo no caso das cotas seniores de fundos de investimento imobiliários. Seria interessante refazer esse estudo no futuro, quando, talvez, as cotas de FII, ou mesmo de FIDC, possam estar fazendo parte de um mercado secundário mais ativo. Nesse caso, a utilização de mais exemplos de fundos estruturados poderia auxiliar na análise do comportamento dos valores das cotas. 141 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE OS TRÊS ENSAIOS Este trabalho teve por objetivo apresentar três ensaios a respeito de apreçamento de cotas de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios. No Ensaio 1, denominado “A Influência de Características da Emissão de Cotas de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) nos Spreads das Rentabilidades-Alvo de Cotas Seniores”, procurou-se identificar fatores presentes nas emissões de FIDCs fechados que podem explicar o nível dos spreads que compõem a rentabilidade-alvo de cotas seniores. Que é de nosso conhecimento, este é o primeiro estudo que analisa o spread da rentabilidadealvo das cotas seniores de um FIDC. Para tanto se construiu um banco de dados que reúne informações provenientes de três instituições: Cetip, BM&FBovespa e CVM. Em virtude da existência de duas formas distintas de expressão da rentabilidade-alvo, os FIDCs que compuseram a amostra tiveram que ser divididos em dois grupos: um com rentabilidade-alvo expressa na forma spread % CDI e outro com rentabilidade na forma CDI + spread. A análise foi realizada por meio da construção de um modelo de regressão linear a partir de variáveis-chave que poderiam explicar os spreads. Verificou-se que emissões mais recentes se mostraram associadas à maior quantidade de emissões de FIDCs, em termos proporcionais, com spreads expressos na forma CDI +; a spreads mais altos; a taxas de juros CDI over mais baixas; a maior quantidade de emissões de fundos com estrutura de tranche mezanino; e a menor quantidade de emissões com rating A. Para o grupo de FIDCs % CDI, além da época de emissão, foram significantes, de acordo com o modelo empregado, as variáveis rating, mezanino, coobrigação, vida média e nível da taxa CDI. Os sinais dos coeficientes das variáveis rating, vida média e nível da taxa CDI foram de acordo com o esperado. Melhores ratings, vida média mais longa e nível da taxa CDI mais alto estão relacionados com menores spreads. Já a existência de tranche mezanino e de coobrigação da cedente se mostraram relacionadas com o aumento do spread. Para o grupo de FIDCs CDI+, além da variável época de emissão, apenas outra se mostrou significante, a existência de bookbuilding. O sinal dessa variável estava de acordo com o esperado, isto é, a existência de procedimento bookbuilding para se definir o spread está relacionada com spreads mais baixos. O baixo número de variáveis significantes para esse grupo pode estar relacionado com o pequeno número de observações. 142 No Ensaio 1 foi possível identificar características que possuem influência no apreçamento de cotas seniores de FIDCs. O passo seguinte foi a construção de um modelo apropriado que permitisse compreender melhor como esse processo ocorre, e que, a partir dessas características, pudesse oferecer um valor de apreçamento para um FIDC. Esse foi o objeto do Ensaio 2, intitulado “Modelo Para Apreçamento de FIDCs”. A construção desse modelo tomou por base três outros modelos conhecidos da literatura acadêmica: o modelo de Merton (1974), o modelo opções compostas de Geske (1977 e 1979a) e o modelo binomial de Cox, Ross e Rubinstein (1979). O modelo binomial para apreçamento de FIDCs tem como vantagem o fato de permitir facilmente considerar o fluxo de caixa real do fundo, ou seja, as amortizações são consideradas nas datas em que efetivamente ocorrem, diferentemente, por exemplo, de modelos analíticos. Esse fato, aliás, inviabiliza a utilização do modelo de Geske no apreçamento de FIDCs. Outra vantagem do modelo binomial é que, para um determinado número de passos, ele sempre gera um mesmo valor como solução, diferentemente de modelos por simulação, os quais sempre oferecem um valor médio dentre os obtidos em várias simulações. Cada sequência de simulações gera um valor médio diferente como resultado, dificultando, por exemplo, uma análise de sensibilidade a mudanças de valores nas variáveis. Às vezes essas mudanças provocam pequenas, mas importantes alterações e o modelo de simulação não seria apropriado para esse tipo de análise. Após aferição dos resultados obtidos pelo modelo, considerada satisfatória, utilizou-se o modelo binomial para apreçamento de FIDCs com o intuito de analisar o efeito de diversos fatores nas rentabilidades das diferentes classes de cotas que compõem o FIDC (seniores, mezanino e subordinadas). A aplicação do modelo a um FIDC com perfil construído a partir de características tiradas da base de dados do Ensaio 1 permitiu as seguintes conclusões: a) o aumento nos valores a serem amortizados de cotas seniores, mantidas as demais características do FIDC constantes, é benéfico para cotistas subordinados e possui influência positiva nas cotas seniores, quando os valores das cotas seniores estiverem proporcionalmente baixos em relação ao total de ativos, podendo haver, no entanto, efeito negativo sobre a rentabilidade das cotas mezanino. Essa conclusão é relevante na medida em que é prática comum um FIDC emitir novas séries de cotas seniores, mesmo com as séries iniciais ainda não tendo sido completamente amortizadas; b) oferta de novas séries de cotas mezanino ao longo da vida do FIDC não necessariamente representa uma proteção para cotas seniores, podendo mesmo contribuir para o aumento dos spreads dessas cotas, se as cotas mezanino forem amortizadas ao longo do tempo de duração do FIDC. O efeito será sempre positivo nas 143 rentabilidades das cotas subordinadas e imprevisto para cotas mezanino. Já o aumento no total de cotas subordinadas, mantidas as demais classes de cotas constantes, é efetivo na proteção de cotistas seniores e mezanino, pois reduz o spread exigido nessas cotas; c) com relação à taxa livre de risco, o seu aumento, mantendo-se o custo de capital constante, resulta em redução no nível de spreads das rentabilidades em todas as classes de cotas. No entanto, se o aumento da taxa de risco for acompanhado de um aumento proporcional no custo de capital, então os spreads se elevam para cotas seniores e subordinadas e oscilam para cotas mezanino; d) o aumento da volatilidade provoca forte redução nos spreads das cotas subordinadas, mas possui pouca influência nos spreads das cotas seniores, às vezes levando ao um aumento, às vezes levando a uma redução. Portanto, incluir o efeito de inadimplência nos direitos creditórios na volatilidade não necessariamente trará o efeito de redução dos spreads das cotas seniores, conforme é apontado na literatura acadêmica internacional. Uma forma mais apropriada, e que produz resultados que corroboram o que é observado no mercado (elevação nos spreads), é considerar a taxa de default como tendo o mesmo papel do pagamento de dividendos no caso do modelo de Merton; e) o aumento no prazo de duração do FIDC, por meio do aumento do prazo de carência para amortização das cotas, produz redução nos spreads das cotas subordinadas e oscilação nos spreads das cotas seniores e mezanino, o que confirma as conclusões de Merton. No entanto, o aumento do prazo entre as amortizações, mantendo-se o prazo final de duração do FIDC o mesmo, implicou aumento nos spreads a serem recebidos pelos cotistas subordinados. Também há nesse caso oscilação na rentabilidade das cotas seniores e mezanino. No entanto, esses resultados representam uma análise teórica. O objetivo do Ensaio 3, “Aplicação do Modelo Binomial para Apreçamento de FIDCs em Casos Reais” é o de justamente apresentar a aplicação do modelo de apreçamento de cotas de FIDC em dois casos reais e comparar os resultados gerados por esse modelo com valores contábeis e de mercado dessas cotas. O modelo foi aplicado, inicialmente sobre o Chemical V FIDC – Indústria Petroquímica. A comparação entre os resultados obtidos com o modelo e os valores contábeis das cotas mostrou que esses valores ficaram bem próximos entre si, com diferenças inferiores a 3,5% para as três classes de cotas, sendo que as cotas seniores foram as que tiveram valores mais próximos. Esse comportamento pode ter decorrido do fato de o vencimento estar 144 próximo da data analisada, além da obrigatoriedade na liquidação do fundo no momento em que as cotas subordinadas são totalmente amortizadas em decorrência de inadimplências nos direitos creditórios. Em virtude da quase inexistência de mercado secundário para as cotas de FIDCs, a comparação dos resultados obtidos com auxílio do modelo de apreçamento só pôde ser realizada com os valores contábeis divulgados. Por isso, decidiu-se também por aplicar o modelo em um fundo de investimento imobiliário com estrutura similar a de FIDCs. Fundos imobiliários possuem um mercado secundário mais ativo para negociação de cotas do que FIDCs, embora, mesmo assim, possuam ainda problemas com liquidez. O segundo fundo escolhido foi o RB Capital Agre FII. Esse fundo possui duas classes de cotas (seniores e subordinadas) em vez de três. Os valores gerados pelo modelo de apreçamento para as cotas seniores ficaram próximos e um pouco abaixo dos valores contábeis antes da dedução da remuneração a ser paga às cotas. Em relação aos valores de mercado, para uma das datas analisadas, o valor calculado com o modelo foi praticamente idêntico ao valor de mercado, enquanto que para as outras duas datas, os valores calculados com o modelo ficaram abaixo. A questão do apreçamento das cotas de um FIDC é de grande relevância. Particularmente em um mercado que vem apresentando forte crescimento, mas com pouca liquidez, torna-se essencial conhecer o real valor dessas cotas. Além disso, como visto, casos de insucesso recentes envolvendo FIDCs mostram a necessidade de se conhecer melhor esse fundo. Assim, tanto gestores, quanto investidores e reguladores, necessitam saber quanto vale esse tipo de investimento, para que cada um possa tomar medidas com vistas ao cumprimento do seu objetivo específico. No entanto, apesar da importância, há poucos trabalhos sobre o assunto. Os três ensaios desenvolvidos ao longo desta tese a respeito do apreçamento de cotas de FIDC visam a contribuir com a literatura acadêmica relacionada ao tema, bem como auxiliar os diversos participantes desse mercado em suas decisões. 145 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSOCIAÇÃO NACIONAL DAS INSTITUIÇÕES DO MERCADO FINANCEIRO; CÂMARA DE CUSTÓDIA E LIQUIDAÇÃO. Estudos especiais: produtos de captação. Rio de Janeiro, 2006. ANBIMA - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ENTIDADES DOS MERCADOS FINANCEIRO E DE CAPITAIS. Fundos de investimento imobiliário: Negociação mercado secundário. Maio, 2011. Disponível em: <http://www.anbima.com.br/eventos/arqs/eventos_anteriores/6-fundos1/workshop1_amachado.pdf>. Acesso em: 25 de março de 2013. ANBIMA - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ENTIDADES DOS MERCADOS FINANCEIRO E DE CAPITAIS. Fundos de investimento: balanço anual. Janeiro, 2012. Disponível em: <http://www.anbima.com.br/eventos/arqs/eventos_anteriores/coletiva_fi/coletiva_fundos_%2 02011.pdf>. 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São Paulo: Fundação Getulio Vargas, 2010. 153 ANEXO Sequência Nome do Fundo Série 1 ABN AMRO REAL FIDC AYMORE FINANCIAMENTO E ARRENDAMENTO MERCANTIL LEASING DE VEICULOS 1 2 ALFA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISSETORIAL 1 3 ASM FIDC - FCVS 1 4 ATICO FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS IMOBILIARIOS 1 5 BMG FI EM DIREITOS CREDITORIOS INSS - CREDITOS CONSIGNADOS IV 1 6 BMG FIDC CONSIGNADOS PUBLICOS VII 1 7 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 2 8 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 3 9 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 4 10 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 5 11 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 6 12 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 7 13 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 8 14 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 9 15 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 10 16 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 11 17 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 12 18 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 13 19 BMG FIDC CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 14 20 BMG FIDC CREDITOS CONSIGNADOS V 1 21 BMG FIDC CREDITOS CONSIGNADOS VI 1 22 BMG FIDC SERVIDORES PUBLICOS III 1 23 BMG FIDC VEICULOS 1 24 BMG FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITOS CONSIGNADOS IX 1 25 BMG FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITOS CONSIGNADOS VIII 1 26 BMG FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITOS CONSIGNADOS VIII 2 27 BMG FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITOS CONSIGNADOS VIII 3 28 BONSUCESSO FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITO CONSIGNADO 1 29 BONSUCESSO FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITO CONSIGNADO 2 30 BONSUCESSO FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITO CONSIGNADO II 1 31 BV FINANCEIRA - FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS IV 1 32 BV FINANCEIRA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS III 1 33 BVA FIDC - CREDITO FINANCEIRO CORPORATIVO 1 34 CELESC I - FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MERCANTIS 1 35 CEMIG FIDC CONTA CRC 1 36 CHEMICAL II FIDC 1 37 CHEMICAL III - FIDC - INDUSTRIA PETROQUIMICA 1 38 CHEMICAL IV - FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - INDUSTRIA PETROQUIMICA 1 39 CHEMICAL V - FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - INDUSTRIA PETROQUIMICA 1 40 CHEMICAL VI - FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - INDUSTRIA PETROQUIMICA 1 41 CJP FIDC NP CREDITOS JUDICIAIS E PRECATORIOS 1 42 COBRA FIDC COMERCIAIS III 1 43 COBRA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS COMERCIAIS 1 44 COBRA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS COMERCIAIS II 1 45 COMANCHE CLEAN ENERGY FIDC MERCANTIS 1 46 CORAL FIDC MULTISETORIAL 1 47 CREDIBEL FIDC II VEICULOS 1 48 CREDIBEL FIDC VEÍCULOS E INSS 1 49 CREDITO CORPORATIVO BRASIL FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 1 50 CREDITO UNIVERSITARIO FIDC 2 51 CREDITO UNIVERSITARIO FIDC 3 52 CREDITO UNIVERSITARIO FIDC 4 53 CREDITO UNIVERSITARIO FIDC 5 54 DAYCOVAL FIDC 1 Sequência Nome do Fundo Série 55 DAYCOVAL VEICULOS FIDC 1 56 DAYCOVAL VEICULOS FIDC 2 57 FAMCRED FIDC MULTISETORIAL 1 58 FATOR AUTOPAN FIDC - CDC VEICULOS 1 59 FCM FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MERCANTIS E SERVICOS 1 60 FDO BONSUCESSO DE INV EM D. C. INV EM CONS EM FOLHA 1 61 FDO BONSUCESSO DE INV EM D. C. INV EM CONS EM FOLHA 2 62 FDO BONSUCESSO DE INV EM D. C. INV EM CONS EM FOLHA 3 63 FENIX FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DO VAREJO 1 64 FI EM DIREITOS CREDITORIOS BANCOOP I 1 65 FI EM DIREITOS CREDITORIOS CAIUA 1 66 FICSA FIDC CREDITOS CONSIGNADOS INSS 1 67 FIDC - FORNECEDORES ODEBRECHT 1 68 FIDC BCSUL VERAX CREDITO CONSIGNADO II 1 69 FIDC BCSUL VERAX CREDITO CONSIGNADO II 2 70 FIDC BCSUL VERAX CREDITO CONSIGNADO II 3 71 FIDC BCSUL VERAX CREDITO CONSIGNADO II 4 72 FIDC BCSUL VERAX MULTICRED FINANCEIRO 2 73 FIDC BGN LIFE CREDITO CONSIGNADO 1 74 FIDC BGN LIFE CREDITO CONSIGNADO 2 75 FIDC BGN LIFE CREDITO CONSIGNADO 3 76 FIDC BGN PREMIUM I CREDITO CONSIGNADO 1 77 FIDC BGN PREMIUM I CREDITO CONSIGNADO 2 78 FIDC BGN PREMIUM I CREDITO CONSIGNADO 3 79 FIDC BGN PREMIUM I CREDITO CONSIGNADO 4 80 FIDC BICBANCO CREDITO CONSIGNADO 1 81 FIDC BICBANCO SAUDE GARANTIDA 1 82 FIDC BMC PREMIUM VEICULOS 1 83 FIDC BMC PREMIUM VEICULOS 2 84 FIDC CEEE 1 85 FIDC CESP II 1 86 FIDC CESP III 1 87 FIDC CESP IV 1 88 FIDC CONSIGNADOS JP MORGAN I 1 89 FIDC CONSIGNADOS PORTFOLIO I 1 90 FIDC CREDITO PRIVADO MULTISETORIAL 1 91 FIDC DA COMPANHIA ESTADUAL DE AGUAS E ESGOTOS-CEDAE 1 92 FIDC DA COMPANHIA ESTADUAL DE AGUAS E ESGOTOS-CEDAE 2 93 FIDC DA INDUSTRIA EXODUS III - BRZ 1 94 FIDC DACASA FINANCEIRA - GRUPO DADALTO 1 95 FIDC EMAE ENERGIA 1 96 FIDC EMPIRICA SIFRA PREMIUM 1 97 FIDC ENERGISA 1 98 FIDC FORNECEDORES PETROBRAS BR1 - INDUSTRIAL E SERVICOS 1 99 FIDC GP INSS I 1 100 FIDC INSS II 1 101 FIDC INTERMEDIUM CREDITOS CONSIGNADOS 1 102 FIDC INTERMEDIUM CREDITOS CONSIGNADOS 2 103 FIDC INTERMEDIUM CREDITOS CONSIGNADOS 3 104 FIDC LAVORO II 1 105 FIDC MARCOPOLO FINANCEIRO 1 106 FIDC MATONE EMPRESTIMOS CONSIGNADOS-SERVIDORES PUBLICOS 1 107 FIDC MERCANTIS ATHOS FARMA - DISTRIBUICAO FARMACEUTICA 1 108 FIDC MOTOROLA INDUSTRIAL 1 Sequência Nome do Fundo Série 109 FIDC MULTI RECEBIVEIS COMERCIAIS DE SERVICOS E INDUSTRIAIS 1 110 FIDC MULTISETORIAL ASIA LP 1 111 FIDC MULTISETORIAL ASIA LP 2 112 FIDC MULTISETORIAL DANIELE LP 1 113 FIDC MULTISETORIAL DELTA LP 1 114 FIDC MULTISETORIAL JCP-SUL LP 1 115 FIDC MULTISETORIAL LEGO II 1 116 FIDC MULTISETORIAL ODYSSEY CREDITÓRIO LP 1 117 FIDC MULTISETORIAL PROSPECTA LP 2 118 FIDC MULTISETORIAL SILVERADO FORNECEDORES DO SISTEMA PETROBRAS 1 119 FIDC MULTISETORIAL SILVERADO MAXIMUM 1 120 FIDC MULTISETORIAL SILVERADO MAXIMUM 2 121 FIDC MULTISETORIAL SILVERADO MAXIMUM 3 122 FIDC MULTISETORIAL SILVERADO MAXIMUM 4 123 FIDC MULTISETORIAL SM LP 1 124 FIDC MULTISETORIAL VALECRED LP 1 125 FIDC NP COMPANHIA PAULISTA DE TRENS METROPOLITANOS - CPTM 1 126 FIDC NP PRECATORIOS FEDERAIS DB I 1 127 FIDC OMNI VEICULOS - III 1 128 FIDC OMNI VEICULOS - III 2 129 FIDC OMNI VEICULOS - IV 1 130 FIDC OMNI VEICULOS V 1 131 FIDC OMNI VEICULOS V 2 132 FIDC OMNI VEICULOS VI 1 133 FIDC PANAMERICANO VEICULOS I 1 134 FIDC PARANA BANCO I 1 135 FIDC PARANA BANCO II 1 136 FIDC PCG - BRASIL MULTICARTEIRA 1 137 FIDC ROYALTIES SE 1 138 FIDC RURAL CONSIGNADOS 1 139 FIDC SABEMI FINANCEIRO 1 140 FIDC SABESP I 1 141 FIDC TRADEMAX PETROQUÍMICO 1 142 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS BRZ FICSA AUTO 1 143 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL SILVERADO MAXIMUM II 1 144 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS ABIMAQ 1 145 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS BANCO GMAC - FINANCIAMENTO A CONCESSIONARIAS 1 146 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS BANCO GMAC - FINANCIAMENTO A CONCESSIONARIAS 2 147 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS BARIGUI CREDITO CONSIGNADO 1 148 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS CADEIAS PRODUTIVAS DE MINAS GERAIS 1 149 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS CAIXA RB CAPITAL HABITACAO 1 150 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS CEEE III GT 1 151 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS CEEE IV-D 1 152 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS CONSIGNADOS PORTFOLIO II 1 153 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA COMPANHIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL DO DF - CAESB 1 154 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA INDUSTRIA - EXODUS I 10 155 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA INDUSTRIA - EXODUS I 11 156 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA INDUSTRIA - EXODUS I 12 157 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA INDUSTRIA - EXODUS I 13 158 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA INDUSTRIA EXODUS II 3 159 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA SANEAMENTO DE GOIAS S.A. - SANEAGO - INFRAESTRUTURA 1 160 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DA SANEAMENTO DE GOIAS S.A. - SANEAGO - INFRAESTRUTURA 2 161 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS DEDINI-DULCINI AGROINDUSTRIAL 1 162 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS ENERGISA 2008 1 Sequência Nome do Fundo Série 163 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS FICSA VEICULOS 1 164 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS FINANCEIROS CREDIPAR I 1 165 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS FINANCEIROS CREDIPAR MAIS 1 166 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS FINANCEIROS PINE CREDITO PRIVADO 1 167 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS FORNECEDORES PETROBRAS BR2 INDUSTRIAL E SERVICOS 1 168 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS INTERMEDIUM CREDITOS CONSIGNADOS II 1 169 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS LOJAS RENNER 1 170 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MERCANTIL CREDITO CONSIGNADO INSS 1 171 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MERCANTIL DO BRASIL FINANCEIRA VEICULOS I 1 172 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MERCANTIS MONSANTO 1 173 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MERCANTIS MONSANTO 2 174 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL BVA MASTER 1 175 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL BVA MASTER II 1 176 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL BVA MASTER III 1 177 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL ITALIA 1 178 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL REDFACTOR LP 3 179 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL REDFACTOR LP 4 180 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISETORIAL REDFACTOR LP 5 181 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MULTISSETORIAL VALOR 3 182 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS PAULISTA - VEICULOS 1 183 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS PAULISTA - VEICULOS II 1 184 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS PENSION TRUST II CREDITO CONSIGNADO 1 185 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS PETROFLEX II 1 186 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS PLURAL CAPITAL FORNECEDORES PETROBRAS 1 187 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS QUERO QUERO FINANCEIRO 1 188 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS-BICBANCO CREDITO CORPORATIVO II 1 189 FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS-INSUMOS BASICOS DA INDUSTRIA PETROQUIMICA 1 190 FUNDO DE INVESTIMENTOS EM DIREITOS CREDITORIOS - BICBANCO CREDITO CORPORATIVO 1 191 FUNDO MATONE DE IDC EMPRESTIMOS A SERVIDORES FEDERAIS 1 192 FUNDO MATONE DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS IV - EMPRESTIMOS CONSIGNADOS 1 193 FURNAS II FIDC 1 194 GLOBEX FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS-CREDITO MERCANTIL 1 195 GP AETATIS II FIDCI 1 196 GRUPO BRASIL FIDC DO SEGMENTO INDUSTRIAL 1 197 GRUPO BRASIL FIDC DO SEGMENTO INDUSTRIAL 2 198 IBITRUST FI EM DIREITOS CREDITORIOS FINANCEIROS 1 199 IDEIASNET FIDC-RECEBIVEIS COMERCIAIS E SERVICOS 1 200 KOBOLD FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 1 201 LECCA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 1 202 MAXCRED FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 3 203 MAXCRED II CREDITO CONSIGNADO FIDC 1 204 MAXIMA FIDC CREDITO CONSIGNADO I 1 205 MELLON FIDC ROYALTIES DE PETROLEO 1 206 MINERVA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - CREDITO MERCANTIL 1 207 MPD KC FIDC IMOBILIÁRIOS 1 208 MULTI RECEBIVEIS II FIDC 1 209 MULTI RECEBIVEIS II FIDC 2 210 MULTI RECEBIVEIS II FIDC 3 211 MULTI RECEBIVEIS II FIDC 4 212 NP ANTERA FIDC NAO PADRONIZADOS DE OPERACOES COMERCIAIS INDUSTRIAIS E OU DE PRESTACAO DE SERVICOS 1 213 NP BV FINANCEIRA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS V NAO-PADRONIZADO 1 214 NP FIDC CEEE II 1 215 NP FINANCIAL FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS NAO-PADRONIZADOS 1 216 NP FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS NAO-PADRONIZADOS PEARL 1 Sequência Nome do Fundo Série 217 NP ITAPEVA MULTICARTEIRA FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 1 218 NP LOGISTICA FI EM DIREITOS CREDITORIOS NAO PADRONIZADOS 1 219 NP POLO PRECATORIO FEDERAL FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 1 220 NUTRIPLANT FIDC DO SEGMENTO AGROINDUSTRIAL 1 221 OPPORTUNITY FIDC IMOBILIÁRIOS 1 222 PINE CREDITO CONSIGNADO I FIDC 1 223 POLO CREDITO CONSIGNADO FIDC I 1 224 POLO CREDITO CONSIGNADO FIDC I 2 225 RURAL FIDC - CREDITO CONSIGNADO PRIVADO I 1 226 RURAL FIDC - CREDITO FINANCEIRO CORPORATIVO I 1 227 RURAL FIDC - EMPRESTIMOS CONSIGNADOS 2 228 SATELITE FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS MERCANTIS 1 229 SCE FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 1 230 SUL INVEST FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - MULTISETORIAL 2 231 SUL INVEST FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS - MULTISETORIAL 3 232 TAVEX MODAL RECEBIVEIS PERFORMADOS II FIDC 1 233 TEUTO FIDC COMERCIAIS 1 234 TRENDBANK FOMENTO MULTISETORIAL 1 235 TRENDBANK FOMENTO FIDC CREDITMIX 1 236 TRIBANCO MATINS FIDC 1 237 TRIBANCO MATINS FIDC 2 238 TURIN CAPITAL LEASING FUNDO DE INVESTIMENTO EM DIREITOS CREDITORIOS 1 239 UNION NATIONAL AGRO FIDC FINANCEIROS AGROPECUARIOS 1 240 UNION NATIONAL FIDC FINANCEIROS E MERCANTIS 1 241 UNION NATIONAL FIDC FINANCEIROS E MERCANTIS 3 242 UNION NATIONAL FIDC FINANCEIROS E MERCANTIS 4 243 UNION NATIONAL FIDC FINANCEIROS E MERCANTIS 5 244 V1 FIDC AGRO 1 245 VISION BRAZIL FIDC AGRO - MULTICREDITO 1