PESQUISA E INTERVENÇÃO ASSISTENCIALISTA PSICOLÓGICA NA INSTITUIÇÃO Diante do fato de que no país a cultura do assistencialismo está cada vez mais consolidada, podemos constatar a criação de muitas instituições beneficentes que promovem a assistência como forma de garantir uma ajuda temporária às famílias carentes. Em Assis, município do interior paulista, há uma instituição desse tipo chamada CAPSA (Círculo de Amigos do Pão de Santo Antônio) na qual oferece cestas básicas, assistência jurídica, atendimento médico, entre outros. Porém, na prática, essa ajuda torna-se permanente e gera um problema social cada vez maior, pois as pessoas atendidas não conseguem sair da condição de miseráveis. Em meio a esse fato, o núcleo de estágio “Clinica e Cidadania em contexto social desfavorável” do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP), realizou um projeto de pesquisa, intervenção e extensão naquela instituição a fim de entender o motivo pelo qual esses usuários permanecem na situação de assistidos. Este projeto teve por objetivo promover um espaço de escuta e reflexão do usuário, a respeito da sua condição de vida. Nossa intervenção se fez por meio de pronto-atendimentos com questionários que continham perguntas específicas sobre o que eles entendem por subjetivo e como isto interfere na sua condição de assistido institucional que culmina na reprodução da pobreza. Utilizamos-nos do método psicanálitico durante a prática clínica de atendimento que incluiu entrevistas psicológicas e psicoterapia. Propusemos também e realizamos a formação de grupos de geração de renda para motivá-los a começarem uma atividade que desse a chance de se emanciparem do assistencialismo e se tornassem sujeitos autônomos na sociedade e detentores dos direitos de cidadania. Porém, os próprios usuários viam o assistencialismo como um direito adquirido e se mostravam inseguros em relação a deixar de receber os benefícios e não viam perspectiva de um futuro melhor. Palavras-chave: assistencialismo, reprodução da pobreza, subjetividade, atendimento psicológico. Vanessa Érika Rodrigues de Oliveira – discente do curso de psicologia da UNESPAssis- Avenida Dom Antônio, 2077, ap 23, Assis-SP, [email protected] Prof. Dr. Roberto Yutaka Sagawa – Orientador. Departamento de Psicologia Clinica Unesp/Assis Introdução No Brasil, a desigualdade social tem deixado muitas familias em condições precárias, sem oportunidades de terem uma vida digna e usufruindo dos direitos de cidadãos. Deste modo, as políticas públicas, que deveriam permitir que os mais pobres tivessem uma perspectiva de futuro, intervindo para garantir educação, condições de vida e moradia, com autonomia, acabam por escolher uma prática de assistencialismo de Estado, para solucionar problemas urgentes e os de longo prazo ficam comprometidos. Com o passar do tempo, essa população carente, que recebe ajuda de instituições públicas de saúde ou de assistência social, se acostuma e cobra o assistencialismo como um direito adquirido e se aliena do que realmente precisa cobrar e fazer para melhorar sua situação. Assim, esse modo de vida passa de geração em geração e a pobreza é sempre reproduzida. Muitas instituições assistencialistas, reforçam essa atitude dando cestas básicas, e tentando suprir outras necessidades. Porém, esta prática não garante autonomia e faz com que essas pessoas assistidas não consigam sair da condição de pobres e dependentes ou do governo, ou dessas instituições. Para entender o motivo pelo qual isso acontece e atender os questionamentos do diretor de uma instituição assistencialista chamada CAPSA (Círulo de Amigos do pão de Santo Antônio) no município de Assis, interior de São Paulo; o núcleo de estágio “Clinica e Cidadania em contexto social desfavorável” do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP), realizou um projeto de pesquisa, intervenção e extensão. O CAPSA é uma instituição beneficente, criada em 1958 para prestar assistência às famílias pobres nas áreas jurídica, da saúde (atendimento médico), alimentação (cestas básicas), educação, vestuário entre outros. Os objetivos do projeto foram de proporcionar saúde mental por meio dos atendimentos psicológicos e investigar, com as entrevistas, o que eles entendem por subjetivo, abrindo espaço de reflexão e escuta em relação às suas condições emocionais e sociais. Incluia também buscar a melhor maneira deles sairem da acomodação para obter uma vida autônoma, sem ajuda do governo ou de entidades. Foi utilizado o método psicanalítico de investigação e atendimento psicológico com as pessoas que não teriam acesso ao consultório particular. Com isso, nosso interesse em trabalhar com as famílias assistidas pelo CAPSA, com a intervenção psicológica ocorreu como forma de entender a realidade vivida por eles, e ajudá-los a sair da dependência assistencialista. A Psicanálise aplicada no campo social A investigação psicanalítica nasce a partir de uma prática que inclui o modo de se ter acesso à psique inconsciente. Segundo Sagawa, isso só é possivel por meio do instrumento utilizado pelo profissional, sua análise pessoal. A partir deste instrumento é possível, tanto investigar fenômenos psíquicos dos pacientes, quanto observar “fenômenos não clinicos com as lentes da psicanálise” (SAGAWA, 2009, p. 34). Essa prática é chamada por Freud de Psicanálise Aplicada, ou Psicanálise “extramuros”, como diz Laplanche. E utilizamos-nos dela para atuar na instituição assistencialista. Partindo do principio de que o inconsciente e o social caminham juntos, se interrelacionam e se complementam, podemos compreender os fenômenos psíquicos e sociais. Para Rosa (2004), “o sujeito contemporâneo incita uma crise produtiva para a psicanálise e nos convoca a refletir sobre a instituição, tanto como cenário da produção discursiva e de sintomas, como de seu tratamento”. Diz ainda que o pano de fundo dessa convocação esbarra na impropriedade da mera transposição de um modelo de tratamento para outros contextos ou para as problemáticas do sujeito contemporâneo. Ou seja, tais situações explicitam os limites do tratamento psicanalítico e nos incitam a propor novas formas de intervenção. E aqui quero diferenciar os limites do modelo de tratamento, tal como conduzido nos consultórios, dos limites da Psicanálise como teoria, método, prática e ética para a condução destas questões. O que está em debate são as estratégias de intervenção frente às atuais manifestações sintomáticas, assim como as modalidades de sua extensão na prática psicanalítica extramuros. Segundo Sagawa, a psicanálise aplicada não é uma extensão da psicanálise clínica e sim uma psicanálise porvir, ou seja, a ser descoberta. Busca-se encontrar até aonde esta intervenção pode chegar, e atender os sujeitos ou grupos envolvidos em um contexto social desfavorável. (...)fora do modelo da clínica tradicional, explicita-se que os dois lados (terapeuta e paciente) podem estar expressando o mesmo problema a ser superado por “apenas” um dos lados: o lidar com o paradoxo do eu-outro, psique-sociedade, pobre-rico, interior e exterior e assim por diante. (SAGAWA, 2009. p. 13) Assim, busca-se aprofundar o paradoxo existente no terapeuta, paciente, na relação interpessoal e, tanto em relação ao método/objeto,quanto em relação à psique/sociedade. Na intervenção psicossocial, há o problema do distanciamento entre o assistido e o assistidor, por causa da diferença de condições sociais, o primeiro pobre e o segundo mais abastado e isso faz com que a cultura assistencialista se prolongue. Mesmo com discursos anti-assistencialistas, permanece a prática do assistencialismo de Estado, pois tanto os pobres, quanto os assistidores acostumaram com essa situação. Nosso trabalho possibilitou também a aproximação entre terapeuta e paciente, ocorrido além do atendimento psicológico, por meio da formação de grupos de geração de renda, com o intuito de trabalhar o psíquico a partir de uma atividade concreta e garantir a integração social e uma melhor compreensão do ser humano. Metodologia A pesquisa e intervenção psicológica no CAPSA se fez de maneira a atender as famílias que frequentavam esta instituição apenas para buscarem cestas básicas, tomarem o sopão, e garantirem alguma ajuda a mais, que fizesse necessária. O atendimento psicológico englobava o pronto-atendimento e a psicoterapia. As pessoas que não tinham qualquer demanda de atendimento psicológico, segundo Sagawa, e demonstravam, às vezes, “um preconceito velado ou uma prevenção aberta contra o atendimento psicológico que é transformado em coisa de louco”, eram atendidas por meio de entrevistas avulsas. (SAGAWA, 2009. p. 12) Era uma forma de fazê-las entrar em contato com o terapeuta e despertar para a psicoterapia. Após os pronto-atendimentos, aqueles que optávamos por fazer psicoterapia, seguíamos com as entrevistas iniciais com o intuito de conhecer a história de vida do paciente, queixa e seu possível contato anterior com a clínica. Para Fabio Herrmann, as entrevistas iniciais se adequam à atividade diagnóstica. O terapeuta decide se a pessoa que o procura tem demanda para atendimento psicológico e se ele é o analista indicado. A partir daí, esclarece-se dúvidas e faz-se o contrato com o paciente para estabelecer os objetivos da psicoterapia e a sua forma de realização. No CAPSA, o atendimento se enquadrava na frequência semanal e com duração de trinta minutos. Havia dois fatores que interferiam nos padrões da psicoterapia. Um era o modo de ser psíquico dos pacientes mais pobres, o de concretude psíquica, conforme Sagawa (1998). O outro é o limite da psicoterapia em relação a outras formas de intervenção circunstanciais. As entrevistas com os usuários, assim como as atividades de geração de renda (Horta Comunitária na qual realizamos como uma atividade a mais para oferecer uma forma deles terem uma profissão remunerada e garantirem uma renda de forma autônoma), passou a ser uma forma deles receberem as cestas básicas, na tentativa de desvincular esta prática com o assistencialismo e assim possibilitar uma motivação para buscarem uma vida melhor. Os conteúdos das entrevistas foram analisados para conhecer melhor a população que frequentava a instituição. Resultados e Discussões A partir das entrevistas, pudemos observar que muitas das necessidades dos usuários estava além do atendimento psicológico e os grupos de geração de renda foi uma alternativa de trabalhar com a concretude psiquica dos entrevistados. As entrevistas foram realizadas no ano de 2008. A partir da análise do conteúdo das entrevistas, pudemos perceber que os usuários não veem perspectiva de mudança de vida, e que a ajuda que recebem do CAPSA é muito importante para sustentar suas famílias. As rendas das familias das pessoas entrevistadas, de maneira geral varia entre R$ 100,00 a R$ 800. Há mulheres desempregadas que recebem pensão do ex-marido. Uma das entrevistadas falava da filha que trabalhava e ajudava com as despesas em casa. Há familias que estavam sem nenhuma renda no momento da entrevista. As dívidas da maioria se referem ao aluguel que varia de R$ 600,00 a R$ 4.200,00. muitos relatam que fazem bicos ou já fizeram e agora dependem mais da cesta. Em relação às queixas psiquicas, muitos reclamavam que sofriam de depressão, ansiedade (devido a ter parado de ingerir bebidas alcóolicas), insônia. Tomavam remédios para estes problemas. Alguns pais de familia, reclamavam que estavam desempregados por problemas de saúde e que quando melhorassem procurariam um “bico” como faziam antes da doença (problemas de joelho, coluna, entre outros, nos quais faziam parte as queixas físicas. Muitas familias enfrentam problemas de drogas, com irmãos, filhos, e até mesmo de prisão destes por tráfico. Constatamos que, os entrevistados que recebiam as cestas básicas, por estarem desempregados, com problemas de saúde, ou devido a renda familiar baixa, e que começaram a participar dos grupos de geração de renda, falavam que sabiam que quando voltasse a trabalhar, ou quando os grupos dessem certo, eles deixariam de receber as cestas. Ou seja, há uma acomodação por parte deles que se veem no direito de receberem as cestas básicas e a instituição se empenha para ajudá-los. E quando surge uma forma deles se movimentarem e saírem da condição de assistidos, não conseguem ir muito longe. Assim, os grupos de geração de renda não deram certo e os pronto-atendimentos ainda continuaram, mas aos poucos, aumentaram a desistência. Geralmente, os filhos encontram emprego e ajuda as familias com um salário mínimo, e os pais encontram “bicos” por algum tempo. Subjetivamente, eles acreditam que é difícil ou impossível sair da condição em que estão e acabam por reproduzirem a pobreza, como única forma de vida possível. Eles tem muita dificuldade em entrar em contato com o próprio mundo interno, devido aos problemas concretos vividos diariamente. E a dependêndia por doações passam de pais para filhos. Considerações Finais Apesar da Psicanálise “extramuros” ser uma forma de se trabalhar no campo social e atender as pessoas inacessíveis a psicoterapia, concluimos que há uma dificuldade em manter o trabalho com eles, principalmente no que diz respeito a promover atividades que os tirem do assistencialismo. Porém, o discurso diz respeito a vontade por conseguirem trabalho, mas diante dos grupos de geração de renda, muitos desistiram. Quando os atendimentos psicológicos passaram a ser associados com o recebimento das cestas básicas, a imagem do psicólogo dentro da instituição passou a ser vista como algo imposto. Assim, se fez necessário a desmistificação da obrigatoriedade dos atendimentos pelos usuários e a ressignificação do papel do psicólogo no CAPSA. A apatia dos trabalhadores pode ser entendida como “reflexo da ausência de idealizações, uma vez que todo o grupo funciona a base de idealização, ilusão e crença”. (LEVY at al, 2001). Entendemos também, que o não cumprimento dos horários marcados pelos PA (pronto-atendimento) era uma forma de resistência ao tratamento ou desinteresse ao atendimento psicológico. Mesmo que a geração de renda seja uma atividade importante para “combater a pobreza e falta de oportunidades no mercado de trabalho”, só se consegue um bom resultado se o grupo estiver realmente interessado e com vontade de mudar suas vidas. (SAGAWA, 2009). Enfim, salientamos que o fato das instituições manterem a prática assistencialista é apenas consequencia da situação de exclusão em que vivem as familias pobres, como uma forma de não deixarem na miséria absoluta, visto que esta parcela da população é esquecida e deixada à margem da sociedade como um todo. Como consequencia, também influencia na subjetividade dessas pessoas que não conseguem mudar de vida, por mais que recebam ajuda. Porém, o sofrimento psiquico permanece, em meio a tantos problemas familiares e sociais e a intervenção psicológica se faz necessária por meio da metodologia da psicanálise aplicada, como forma de se aproximar o terapeuta do paciente inserido em um contexto social desfavorável, com o propósito de se produzir novas subjetividades que consigam ter perspectiva de um futuro melhor e autônomo. Referências Bibliográficas HERRMANN, F. Clínica Psicanalítica: A arte da interpretação. São Paulo, Editora Brasiliense, 1993 LAPLANCHE, J. Novos fundamentos para a psicanálise. São Paulo : Martins Fontes, 1987. LEVY. A. et. al. Psicossociologia: Análise Social e Intervenção. Belo Horizonte: Autêntica, 2001 ROSA, M. D. A psicanálise e as instituições: um enlace ético-político. 2004 http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?pid=MSC0000000032004000100045&scri pt=sci_arttext acesso em 28/10/10 SAGAWA, R. (org.) Psicologia e geração de renda, Assis, FCL Publicações, 2009. 78 p. SAGAWA, R. Y. Atender por atender na saúde mental pública. Ou: produtividade versus qualidade de atendimento psicológico em instituição pública de saúde mental. In. Rumos do Saber Psicológico. São Paulo: Arte e Ciência, 1998.