O PESO DA FAMÍLIA NOS CONSELHOS DE ADMINISTRAÇÃO: IMPACTO SOBRE O VALOR DAS COMPANHIAS QUE ABRIRAM CAPITAL ENTRE 2004 E 2007 Alexandre Di Miceli da Silveira Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) [email protected] Rafael Liza Santos Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) [email protected] Vinícius Nascimento Ramos Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) [email protected] Resumo Este artigo analisa o efeito da composição do conselho de administração sobre o valor empresarial utilizando uma variável não estudada previamente na literatura nacional: a proporção de conselheiros pertencentes à família controladora e com vínculos familiares entre si. A pesquisa foi feita junto a 96 companhias que listaram ações na BM&FBOVESPA durante o período 2004-2007. Como principal resultado, identificou-se uma relação negativa entre a proporção de familiares nos conselhos e o valor das empresas. Especificamente, empresas com maior proporção de familiares vinculados aos controladores nos conselhos apresentaram menor múltiplo price-to-book value e menor retorno acionário um ano após o IPO. No segundo ano após o IPO, entretanto, este efeito se reduz e torna-se inconclusivo para algumas das variáveis empregadas. No geral, os resultados corroboram a hipótese de que de que companhias de controle familiar com grande proporção de parentes nos conselhos têm maior dificuldade em separar as questões relacionadas à gestão da empresa das questões familiares. O resultado reforça a idéia de que tais companhias devem promover a criação dos chamados conselhos de família, em adição ao conselho de administração, como forma a separar as questões familiares das questões relativas à condução dos negócios da companhia. Palavras-chave: Conselho de Administração, empresas familiares, conselheiros familiares. Abstract This paper analyses the effect of board composition on firm value by using an original variable in the Brazilian corporate governance literature: the ratio of board members belonging to the family with shareholding control of the company. The research is carried out with 96 companies that listed their shares at BM&FBOVESPA stock market from 2004 to 2007. As the main result, we find a negative relation between the ratio of family board members and firm value. Specifically, firms whose boards have a higher ratio of relatives show a lower price-to-book value multiple and lower total stock returns one year after their IPO. Overall, the results corroborate the idea that companies under family control with higher ratio of family board members may face more trouble to separate family issues from managerial issues. This result reinforces the view that family-controlled companies could 1 establish the so-called “family councils” in addition to the board of directors in order to separate the family issues from those associated with the management of the business affairs. Key-words: Board of Directors, family firms, family board members, ownership structure, firm value. JEL Codes: G30, G34 1. Introdução Estudos empíricos realizados no Brasil apontam que a estrutura de propriedade das companhias abertas brasileiras é marcada pela presença de blocos de controle pertencentes a uma ou a múltiplas famílias (Silveira et al., 2007; Verne et al., 2009; e Guerra, 2009). Apesar de sua relevância e peculiaridades, que poderiam levá-las a diferentes políticas de gestão e controle, apenas recentemente o estudo das características de governança das companhias sob controle familiar passou a ganhar destaque em estudos quantitativos. Exemplos dessa linha de pesquisa podem ser encontrados em Anderson e Reeb (2003), que constataram um maior valor de mercado para empresas familiares pertencentes ao índice S&P 500 nos EUA. Resultado similar foi encontrado por Sraer e Thesmar (2007) para empresas listadas na França. Barontini e Caprio (2005), por sua vez, também obtiveram evidências de maior valor de mercado e melhor desempenho operacional em uma amostra com empresas de diversos países da Europa Continental. Por outro lado, diversos estudos obtiveram resultados em sentidos opostos. Morck et al. (2000), por exemplo, observaram uma influência negativa da propriedade familiar sobre o desempenho financeiro das empresas no Canadá. Pérez-Gonzales (2006), por sua vez, constata um forte declínio no desempenho de empresas familiares após a primeira sucessão de lideranças da companhia, lançando assim dúvidas sobre a capacidade destas companhias auferirem bons resultados no longo prazo. Segundo o autor, seus resultados evidenciam o fato de que o nepotismo tende a prejudicar o desempenho da empresa ao limitar o escopo da competição de mercado para os principais cargos executivos. Bennedsen et al. (2006) reforçam esta idéia, ao constarem um impacto negativo na rentabilidade operacional das companhias familiares após processos de sucessão na Dinamarca. No Brasil, apesar do peso relevante das companhias familiares, carecem estudos quantitativos que analisem o impacto do controle, propriedade e gestão familiar sobre as políticas e o desempenho das empresas. Historicamente, observam-se ensaios acadêmicos qualitativos, tais como os de Scheffer (1995), Gonçalves (2000), Estol e Ferreira (2006) e Waiandt e Davel (2008). Mais recentemente, alguns estudos quantitativos ligados às áreas de finanças, contabilidade e economia passaram a ser desenvolvidos. Zborowski (2009) investigou a presença familiar nas companhias que compõem o Índice Bovespa, constatando a presença de membros familiares nas diretorias executivas de 43% das empresas da amostra. Fernandes Junior e Barros (2010), por sua vez, não encontraram evidências robustas acerca de um impacto positivo do controle familiar sobre o desempenho de 229 empresas listadas brasileiras de sua amostra. No geral, raros foram os estudos na literatura internacional que avaliaram os efeitos da presença de conselheiros de administração familiarmente vinculados ao bloco de controle da companhia. Provavelmente isto se deve a problemas metodológicos decorrentes da 2 dificuldade para coleta manual de dados relativos à presença de familiares nos conselhos de administração. Esta é a lacuna que este artigo se propõe a preencher, e constitui a principal contribuição da pesquisa. Neste contexto, a presente pesquisa investiga os efeitos da participação de conselheiros vinculados aos acionistas controladores por meio de algum laço familiar. Foi analisada uma amostra de companhias que abriram capital entre 2004 e 2007, para a qual foi identificada a estrutura de propriedade e analisada manualmente a composição do conselho de administração. Após diferentes testes econométricos, os resultados sugerem que a participação de conselheiros vinculados à família controladora está negativamente relacionada ao valor de mercado da empresa, ceteris paribus. Entre os resultados, observa-se que companhias com 30% ou mais de membros do conselho relacionados à família controladora apresentam um retorno acionário médio 20% inferior àquelas companhias que não se enquadram nesta categoria, um ano após o IPO. Adicionalmente, constatou-se que companhias com elevada proporção de familiares em conselhos de administração apresentaram, um ano após seu IPO, um múltiplo “preço das ações sobre valor patrimonial” (price-to-book value) 17% inferior àquelas com conselhos onde havia menor grau de parentesco entre seus membros. Os resultados corroboram a hipótese de que conselheiros familiares tendem a ser menos imparciais e efetivos em suas decisões, resultando em uma percepção de valor inferior pelo mercado. É possível ainda que os laços familiares influenciem a percepção desses profissionais quanto aos negócios da empresa, comprometendo a qualidade de suas decisões, inclusive por questões ligadas a vieses cognitivos, tais como excesso de confiança ou otimismo gerencial. A governança corporativa em empresas de controle familiar é um tema relevante para a realidade empresarial brasileira, pautada por uma estrutura de propriedade em processo de desconcentração, porém ainda concentrada e detida por blocos acionários muitas vezes sob controle de famílias. Como resultado, este estudo contribui para a literatura acadêmica e para as discussões entre os agentes de mercado ao fornecer evidências de possíveis aprimoramentos na composição dos conselhos de administração. Uma possível implicação dos resultados é a de que as empresas familiares podem aprimorar sua alta gestão por meio da criação de um Conselho de Família em adição ao Conselho de Administração, destinando-o à discussão das questões familiares e desvinculando a gestão da companhia de turbulências nos relacionamentos pessoais que os membros da família controladora poderiam incorrer. 2. Revisão da Literatura A governança corporativa adquire uma complexidade ainda maior nas empresas familiares 1 . Além dos relacionamentos potencialmente conflituosos entre executivos, conselheiros e acionistas presentes em qualquer companhia, surge um fator complicador adicional: a família, incluindo os aspectos sentimentais do relacionamento entre parentes (Silveira, 2010). A existência de fortes envolvimentos afetivos entre os membros da alta gestão nessas empresas, gera riscos, oportunidades e desafios específicos. A governança em 1 Existem diversas definições para o conceito de empresa familiar. Na presente pesquisa, adotou-se a definição de que empresas familiares cujo controle é detido por um empreendedor ou por ao menos duas pessoas pertencentes à mesma família. 3 empresas familiares, portanto, lida com os relacionamentos e mecanismos para solução de conflitos nas três esferas de poder tradicionalmente associadas a elas: as esferas da propriedade, família e gestão. Na esfera acadêmica, os resultados de pesquisas realizadas em todo o mundo sobre empresas familiares ainda são inconclusivos. Entre os poucos resultados robustos encontrados, dois se destacam: o de que as empresas com fundadores ativos na gestão parecem ser negociadas a um prêmio (o chamado “founder premium”) e o de que o desempenho e valor das companhias tendem a cair após a primeira sucessão do líder-fundador da empresa, principalmente quando a gestão é passada para um herdeiro da família. Um dos principais trabalhos que exemplificam este resultado é o de Villalonga e Amit (2006). Nele, os pesquisadores observam que os resultados se tornam bem diferentes em função da forma de classificação das empresas familiares. Por um lado, os autores observaram que as empresas familiares criam valor apenas quando o fundador continua na ativa como CEO ou como presidente do conselho (neste caso, com um CEO não pertencente à família). Por outro, observaram um desempenho inferior em companhias dirigidas por familiares descendentes do fundador (mesmo quando este atuava como presidente do conselho), particularmente nas companhias da chamada “segunda geração” . Na linha de pesquisa específica do presente trabalho, relativa à composição dos conselhos de administração por membros familiares, foram conduzidos alguns artigos no exterior. Bru e Crespi-Cladera (2006) obtiveram evidências de que conselhos compostos por membros vinculados à família dos controladores apresentam alta incidência de diversificação dos negócios, sugerindo que os gostos pessoais desses profissionais poderiam conduzir a empresa a diferentes ramos de atividade, o que não necessariamente seria positivo para o valor da firma. Os autores também constataram o resultado inverso: conselhos compostos por gestores profissionais ou sem a participação de membros familiares apresentam menor diversificação dos negócios, com maior foco na competência essencial ou core business da empresa. Yeh e Woidtke (2004), por sua vez, concluem que conselhos dominados por alta proporção de membros familiares são associados a empresas com pior qualidade de governança, elevada separação entre direitos de voto e de fluxo de caixa e concomitância entre os cargos de diretor executivo e presidente do conselho. Adicionalmente, os resultados apontam que o valor relativo da empresa é menor para aquelas companhias com conselhos mais vinculados diretamente aos controladores familiares. De acordo com os autores, a proporção de conselheiros representantes da família controladora poderia inclusive ser entendida como uma proxy para baixa qualidade de governança. Por outro lado, efeitos positivos da propriedade e supervisão familiar também foram identificados em estudos empíricos. Barontini e Caprio (2005) obtêm evidências de maior valor de mercado e melhor desempenho operacional em uma amostra com empresas familiares de diversos países da Europa Continental. Segundo os autores, o valor de mercado e a rentabilidade em empresas controladas pelos co-fundadores são significantemente superiores às demais de sua amostra. Entretanto, os autores advertem que empresas de controle familiar são mais propensas a adotarem mecanismos de alavancagem de controle contrários às práticas recomendadas de governança, tais como uma maior separação entre direitos de voto e de fluxo de caixa. No Brasil, Guerra (2009) apresenta uma contribuição ao tema, ao estudar os papéis e funções dos conselhos de administração no Brasil. Após analisar 65 empresas de capital 4 aberto, por meio de questionários, a autora identificou que o papel de controle e monitoramento do conselho de administração é enfraquecido nas empresas em que o diretorpresidente e/ou o presidente do conselho de administração possuem laços de parentesco com os acionistas controladores. Adicionalmente, foi constatada uma elevada freqüência de administradores vinculados familiarmente aos acionistas controladores: 42,2% dos conselhos de administração analisados possuem um presidente que é familiar dos acionistas controladores. Para 26,6% das empresas, além do presidente do conselho, o diretor-presidente também possui vínculos familiares com os controladores. No geral, Guerra (2009) conclui que a ausência de um presidente do conselho vinculado à família dos controladores está positivamente associada a um conselho mais ativo, deliberativo e relevante para a companhia, quanto às suas decisões. Diante de evidências de que empresas familiares são mais suscetíveis a eventuais conflitos pessoais entre seus membros, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa recomenda, em seu código de melhores práticas, a criação de um Conselho de Família (IBGC, 2009). O objetivo do Conselho de Família é ser um órgão complementar à gestão da companhia, de modo a filtrar os interesses de membros da família e dos demais acionistas e gestores. Entre as principais atribuições do Conselho de Família constam a definição de limites entre interesses familiares e empresariais, a pactuação de critérios para proteção patrimonial, crescimento e diversificação dos bens de companhia, a definição de mecanismos societários que permitam a entrada e saída de membros da família, entre outros aspectos. Vale ressaltar que o Conselho de Família não substitui o conselho de administração, que é um órgão exigido por lei para as companhias abertas, cujos principais objetivos seriam a supervisão dos gestores e a deliberação sobre as estratégias de longo prazo da companhia (Fama e Jensen, 1983). Diante de tais evidências, pode-se concluir que existem potenciais efeitos positivos e negativos do controle e supervisão familiar em empresas de capital aberto: por um lado, o maior interesse e dedicação dos conselheiros familiares poderiam contribuir para a supervisão da empresa, devido a sua eventual participação acionária indireta. Por outro lado, é possível também que interesses pessoais ou vieses cognitivos ocasionados em função de laços familiares possam comprometer a qualidade das decisões desses profissionais, prejudicando, em última instância, o desempenho operacional e a percepção de valor da firma. 3. Amostra e metodologia Durante o período compreendido entre 2004 e 2007, 106 companhias brasileiras abriram capital na Bolsa de Valores de São Paulo. Para este estudo, foram excluídas da análise as empresas que abriram e fecharam capital no mesmo período, se fundiram (Submarino e Vivax, por exemplo) ou que não atuam no Brasil (Banco da Patagônia). Constituem a amostra final, portanto, 96 empresas com dados disponíveis para os testes econométricos, apresentadas no Apêndice 1 ao final do artigo. O banco de dados relativo à estrutura de propriedade e conselho de administração foi construído manualmente a partir do cruzamento de informações contidas nos prospectos de emissão pública de ações (seção relativa à estrutura de controle da empresa) e nos informativos anuais (IAN) registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no ano do IPO. A partir da identificação dos acionistas controladores de cada empresa e da composição do conselho, foi possível selecionar quais conselheiros apresentavam o mesmo sobrenome dos 5 controladores – proxy que foi adotada como critério de vínculo familiar2. Como critério de confirmação, consultou-se também as mini-biografias dos conselheiros disponibilizadas nos prospectos de emissão pública de ações. Os dados financeiros, as cotações acionárias, o valor do Índice Bovespa, o setor de atuação e os dados de valor de mercado das empresas foram obtidos junto ao banco de dados Economática®. A variável-chave de análise neste estudo é a porcentagem de conselheiros vinculados à família controladora da companhia. Para este estudo, foram consideradas “familiares” todas as pessoas relacionadas às famílias identificadas como “acionistas controladores” da companhia no IAN. Para os casos de controle compartilhado por mais de uma família, os chamados casos de empresas multi-familiares, em oposição às uni-familiares3, foram considerados todos os administradores das famílias envolvidas no controle. Adicionalmente, conselheiros que são, ao mesmo tempo, acionistas relevantes da empresa também foram considerados como pertencentes à família controladora. Do ponto de vista temporal, todas as variáveis foram coletadas para três períodos de tempo: o primeiro, segundo e terceiro ano após a data do IPO. A tabela abaixo elenca as variáveis utilizadas no estudo. Tabela 1: Lista das variáveis de estudo # Código Nome da Variável Definição Operacional 1 PBV Preço sobre valor patrimonial da ação (Priceto-book value) Valor de Mercado da companhia dividido por seu patrimônio líquido contábil um ano e dois anos após o IPO, respectivamente. 2 TSR Retorno Total para os Acionistas (Total Shareholder Return) Retorno acionário buy-and-hold (acumulado) até o final do primeiro e do segundo ano após o IPO, respectivamente. Inclui ganhos de capital e dividendos distribuídos no período. 3 ConsFamiliares Porcentagem de conselheiros vinculados aos controladores Total de conselheiros com vínculos familiares com o controlador dividido pelo total de conselheiros, na data do IPO e um ano após o IPO, respectivamente. 4 ConsMuitoFamiliar Conselho com 30% ou mais de conselheiros familiares 5 ConsMercado Conselho de Mercado 6 CEOChair Diretor Executivo é também o Presidente do Conselho Variável binária que identifica companhias cujo conselho de administração possui mais de 30% de seus membros com parentesco com os controladores na data do IPO e um ano após o IPO, respectivamente. Variável binária que identifica companhias cujo conselho de administração é totalmente composto por membros sem parentesco com os controladores na data do IPO e um anos após o IPO, respectivamente. Variável binária que distingue as empresas cujos cargos de CEO (diretor executivo) e Chairman (Presidente do Conselho) são ocupados pela mesma pessoa. 2 Vale ressaltar que foram analisadas eventuais estruturas de propriedade piramidais e arranjos societários intermediários a fim de se identificar os acionistas controladores em última instância. 3 Autores como Bernhoeft e Gallo (2003) classificam as empresas em uni ou multi-familiares. Para os autores, a empresa uni-familiar é aquela que se originou de um tronco familiar na figura de um único fundador, enquanto a multi-familiar é o produto de um grupo de pessoas que muitas vezes não possuem um vínculo familiar entre si, mas que legam aos seus herdeiros um vínculo societário. 6 7 IDADE Idade da empresa 8 NM Dummy para "Novo Mercado" 9 ROE Retorno sobre o patrimônio líquido (return on equity) 10 RETIBOV Retorno do Índice Bovespa 11 DIVIDA Nível de Endividamento Número de anos desde a fundação da empresa um ano e dois anos após o IPO, respectivamente. Variável binária que identifica as companhias listadas no Novo Mercado um ano e dois anos após o IPO, respectivamente. Lucro líquido sobre o valor patrimonial contábil um ano e dois anos após o IPO, respectivamente. Retorno acumulado do índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) entre a data do IPO e um ou dois anos depois, respectivamente. Razão entre o endividamento total e o ativo total da empresa um ano e dois anos após o IPO, respectivamente (ex,: se a empresa “A” realizou seu IPO em março de 2006, utilizam-se seus dados contábeis de março de 2007). Para cada um dos anos, foram estimados os seguintes modelos de regressão pelo método dos Mínimos Quadrados Ordinários: PBV ou TSR = α + β1ConsFamiliares + β2CEOChair + β3Idade + β4ROE + β5Dívida + β6NM +ε PBV ou TSR = α + β1ConsMuitoFamiliar + β2CEOChair + β3Idade + β5ROE + β5Dívida + β6NM + ε PBV ou TSR = α + β1ConsMercado+ β2CEOChair + β3Idade + β4ROE + β5Dívida + β6NM + ε Deve-se destacar que uma das limitações metodológicas do trabalho decorre da escassez de dados disponíveis. Neste sentido, a ausência de dados para um maior número de anos não permitiu a implementação de testes econométricos mais sofisticados, inviabilizando estimações em painel por meio de métodos como efeitos fixos, aleatórios ou método dos momentos generalizados. 4. Resultados 4.1 Estatísticas descritivas Primeiramente, apresenta-se um panorama das principais características das empresas da amostra em relação à sua estrutura de propriedade, características de gestão e aspectos operacionais e financeiros. Com relação à composição acionária, os controladores das companhias da amostra possuíam, em média, cerca de 70% das ações, antes da oferta pública de ações, somando-se as participações diretas e indiretas. Este valor caiu, em média, para cerca de 50% após a abertura de capital. 7 Gráfico 1 – Distribuição dos Tipos de Controle das empresas que realizaram IPOs na BM&FBOVESPA 100% 80% 14% 29% 13% 16% 29% 25% 60% 40% 4% 4% 57% 20% 57% 50% 21% 0% 2004 Familiar 2005 Estrangeiro 2006 2007 Sem controle definido Estatal Fonte: elaboração própria com base nos dados disponíveis nos prospectos de emissão pública e nos IANs (www.cvm.gov.br). O gráfico 1 apresenta a distribuição dos tipos de controle de acordo com o ano da listagem da companhia. Com relação ao tipo de controlador, destaca-se a participação de empresas familiares. O controle por capital estrangeiro também apresenta participação expressiva na amostra. A categoria “sem controle definido” engloba os casos em que a empresa possui uma estrutura de controle pulverizada, isso é, com mais de 50% das ações em circulação no mercado, ou que, segundo as informações disponíveis no informativo anual (IAN) da CVM, não apresenta controlador definido. A companhia sob controle estatal, por sua vez, é representada pelo Banco Nossa Caixa. Tabela 2: Características das empresas e de seus conselhos de administração. A tabela abaixo apresenta características dos conselhos de administração com relação aos vínculos familiares de seus membros com os acionistas controladores, considerando toda a amostra durante os 3 anos de análise. Amostra composta por 96 empresas. Porcentagem de membros Conselhos com Ano Número médio de familiares 30% ou mais de CEO é Presidente do Familiares no conselho membros familiares do Conselho? IPO 2004 2005 2006 2007 Média Global 2,7 3,1 2,8 2,9 28% 32% 29% 31% 50% 13% 17% 38% 17% 25% 39% 30% 2,8 30% 32% 31% Os resultados apontam que a média global da porcentagem de membros familiares no conselho e o número de conselheiros se situa em torno de 25%. Cerca de 35%, em média, das empresas se enquadram na categoria “Conselho Muito Familiar”, determinada quando 30% ou mais dos conselheiros é proveniente da mesma família que o controlador. Este resultado está em linha com pesquisas anteriores que apontam uma elevada predominância da representação de acionistas controladores no conselho de empresas brasileiras. Outro fator observado é que cerca de 30% das empresas da amostra apresentam uma sobreposição de cargos entre o diretor-executivo e o presidente do conselho de administração, ou seja, cargos ocupados pelo mesmo profissional. Tabela 3: Características dos retornos acionários e desempenho financeiro das companhias da amostra A tabela abaixo descreve a média, para cada ano, do retorno acionário das empresas e do mercado, um e dois anos após a abertura de capital. Também é apresentado o múltiplo price-to-book value (PBV) e a média da rentabilidade sobre o patrimônio líquido (ROE) e endividamento (Dívida Bruta/Total de Ativos). Amostra composta por 96 empresas. 8 Retorno acionário do mercado Retorno acionário do mercado Ano do IPO Retorno Acionário Retorno Acionário t+1 t+2 2004 2005 2006 2007 Média global t+1 t+2 33% 36% 38% -58% 75% 53% -30% -76% 25% 32% 35% -1% -22% -45% 12% PBV PBV t+1 t+2 ROE Médio t+1 e t+2 Endividamento Médio t+1 e t+2 54% 69% 24% -4% 4,2 3,3 3,7 2,1 6,0 2,5 1,7 1,1 28,4% 9,5% 22,7% 13,7% 15,2% 30,4% 18,7% 14,2% 12% 2,7 1,6 16,4% 16,6% Os resultados mostram uma queda acentuada do preço das ações no primeiro e segundo anos após a abertura de capital. O retorno de mercado, no mesmo período, entretanto, ainda é positivo. O PBV apresenta uma queda do primeiro para o segundo ano após a abertura de capital, possivelmente devido a deterioração do preço dos ativos em função da crise financeira mundial. Tanto a rentabilidade sobre patrimônio quanto o nível de endividamento médio das companhias se situa em torno de 16%. Com relação ao desempenho das ações das empresas da amostra, vale destacar que muitas companhias apresentaram um retorno pós-IPO inferior ao índice de mercado. Resultados similares são reportados para empresas de outros países (e.g.: Ritter e Welch, 2002). Já para o múltiplo PBV, destaca-se que as companhias apresentaram uma redução em seu valor relativo de mercado, possivelmente devido aos efeitos de crise financeira mundial de 2008, que reduziu sensivelmente o valor de múltiplos ativos. 4.2 Características e comparativos entre empresas familiares e não-familiares Primeiramente, buscou-se identificar quais características de governança seriam diferentes em companhias com controle familiar e não-familiar (ou seja, com controle por capital estrangeiro, estatal ou sem controle definido). Para as empresas em que o controle é compartilhado por acionistas pertencentes a múltiplas categorias simultaneamente (familiar e controle estrangeiro, por exemplo), prevaleceu na classificação o grupo detentor da maior porcentagem de capital. Para tanto, foram realizados testes de diferença de médias, utilizandose toda a amostra de empresas que abriram capital no período analisado. Para se identificar características societárias e de gestão das companhias, a amostra foi segmentada em três subcategorias, conforme a composição de seu conselho de administração: 1) empresas de controle não-familiar, ou seja, sem conselheiros familiares, 2) empresas com conselhos compostos por 1% a 30% de membros familiares e 3) empresas cujos conselhos são compostos por mais de 30% de familiares. A distribuição foi aproximadamente homogênea para estas três categorias, que englobam cerca de 30 empresas cada uma. Os principais resultados estão compilados na tabela abaixo: Tabela 4: Características dos conselhos e diretoria, estruturas piramidais de propriedade, idade da empresa e governança A tabela abaixo apresenta os valores médios para as variáveis-chave da pesquisa. Foram comparadas três categorias de empresas: aquelas cujo conselho é totalmente composto por profissionais sem vínculos familiares com os controladores, aquelas cujo conselho possui entre 1% e 30% de membros familiares e aquelas empresas cujo conselho possui mais de 30% de membros familiares. Amostra composta por 96 empresas. Empresa utiliza CEO é também o Estruturas Idade da Listada no Novo Categoria Presidente do Piramidais de empresa no IPO Mercado? Conselho? controle? Conselhos sem vínculos 45% 21% 24 64% familiares (empresas não 9 familiares) (n=33) Conselhos com familiares compondo até 30% do CA (empresas familiares) (n=32) Conselhos com familiares compondo acima de 30% do CA (empresas familiares) (n=31) Média Global 65% 35% 26 76% 70% 36% 31 81% 60% 31% 27 73% Os principais resultados apontam que empresas familiares são mais propensas a adotar estruturas societárias piramidais para o controle da empresa e usualmente incorrem na sobreposição de cargos entre o diretor-executivo e o presidente do conselho de administração. Para este estudo, segundo a metodologia proposta por MEOLI et alli (2008), considerou-se a existência de uma pirâmide nos casos em que a companhia analisada era controlada por outra empresa, de modo que o acionista controlador último detém a empresa por meio de outra(s) a qual ele não possui totalmente. Com relação às estruturas piramidais de controle, percebe-se que se trata de um arranjo societário mais freqüente em companhias de controle familiar, corroborando evidências internacionais como as de Yeh e Woidtke (2004), que afirmam que em empresas familiares as estruturas piramidais de controle são mais freqüentes. Esta observação é relevante, na medida em que estruturas piramidais estão freqüentemente associadas a mecanismos de alavancagem de controle por parte dos acionistas controladores, conforme evidências de Villalonga e Amit (2006). Na amostra utilizada neste estudo, 83% das empresas de controle familiar utilizavam alguma estrutura indireta de controle acionário, ao passo que para as empresas de controle não-familiar, este valor se reduz a 42%. Esta diferença apresenta um t-estatístico de -4,51, sendo estatisticamente significante a menor de 1%. Em relação à gestão da companhia, outro fator freqüente em companhias de controle familiar é que o diretor-executivo (CEO) da empresa é, em 43% dos casos, também o seu presidente do conselho de administração. Tal fator é comumente associado na literatura à pior qualidade da governança corporativa, na medida em que o efeito de supervisão do conselho pode ser comprometido pela presença do próprio diretor-executivo da companhia como sendo o presidente do conselho. As companhias de controle não-familiar, por sua vez, se utilizam da sobreposição de cargos entre CEO e presidente do conselho em apenas 22% dos casos. Esta diferença também é estatisticamente significante a 1%. Observou-se também que, em média, empresas familiares também abrem seu capital com idade mais tardiamente que as demais companhias não-familiares e quando o fazem, optam menos pelo segmento do Novo Mercado. Adicionalmente, observa-se que as empresas de controle familiar apresentam uma idade mais elevada, em média de quatro anos, quando vão a mercado para a abertura de capital, em relação às empresas de controle não-familiar. A listagem no Novo Mercado, por sua vez, é ligeiramente maior para empresas não-familiares. 4.3 Valor e desempenho operacional em empresas familiares e não-familiares A fim de se identificar o efeito do controle familiar sobre o desempenho, foram realizados testes de diferenças de média para os três subgrupos da amostra citados 10 anteriormente: empresas com alta e baixa proporção de conselheiros familiares e empresas com conselhos de mercado (sem vínculos familiares). Os resultados são apresentados nos gráficos abaixo: Gráfico 2 - Comparativo do Retorno acionário para companhias familiares e não-familiares TSR t+1 TSR t+2 0% -10% -6% -20% -30% -23% -40% -32% -35% -50% -48% -60% -59% -70% Conselho com familiares compondo acima de 30% do órgão Conselho com familiares compondo até 30% Conselhos sem vínculos familiares Conforme apresentado no gráfico 2, todos os grupos analisados apresentaram perdas no período posterior ao IPO. O retorno, entretanto, se mostrou substancialmente inferior no grupo de empresas com conselhos compostos por familiares em relação às empresas com conselhos “de mercado” ou sem vínculos familiares. Na comparação entre os conselhos de empresas familiares, observa-se um retorno pior dois anos após o IPO para as empresas com conselhos compostos por mais de 30% de familiares, em relação àquelas cujos conselhos são compostos por até 30% de familiares. No geral, portanto, as empresas com conselho compostos por até 30% de familiares apresentaram perdas intermediárias dois anos após o IPO em relação às demais categorias, o que demonstra certo grau de escalonamento das perdas. Estas diferenças mostram-se estatisticamente significantes, o que confere maior robustez aos resultados. Gráfico 3 - Comparativo do PBV para companhias familiares e não-familiares PBV t+1 PBV t+2 3,50 3,02 3,00 2,50 2,49 2,54 2,00 1,50 1,41 1,37 1,41 1,00 0,50 0,00 Conselho com familiares compondo acima de 30% do órgão Conselho com familiares compondo até 30% Conselhos sem vínculos familiares 11 Em relação ao múltiplo price-to-book value (PBV), percebe-se que companhias com conselhos sem vínculos familiares apresentam um valor relativo ligeiramente maior que as companhias que apresentam conselho com familiares um ano após o IPO. Enquanto as empresas com conselhos sem vínculos familiares apresentam um PBV médio de 3,02, aquelas com conselho com familiares acima e abaixo de 30% do órgão apresentam um múltiplo de 2,49 e 2,54, respectivamente. Para o segundo ano, ocorre uma convergência dos múltiplos, e diferença se torna insignificante estatisticamente, possivelmente devido ao impacto da crise financeiro internacional de 2008 sobre o mercado acionário brasileiro. Gráfico 4 - Comparativo do ROE e Endividamento para companhias familiares e não-familiares ROE t+1 Endividamento t+1 e t+2 25,0 20,0 19,2 30% 17,4 18,3 25% 22% 20% 15,0 15% 10,0 10% 5,0 0,0 25% 27% 5% Conselho com familiares compondo acima de 30% do órgão Conselho com familiares compondo até 30% Conselhos sem vínculos familiares 0% Conselho com familiares compondo acima de 30% do órgão Conselho com familiares compondo até 30% Conselhos sem vínculos familiares Com relação aos indicadores operacionais da empresa, vale observar que o retorno sobre patrimônio líquido (ROE) não apresenta uma tendência clara e a diferença de médias não é estatisticamente significante. Já com relação ao endividamento das companhias, medido pela razão Dívida Bruta sobre Ativos Totais, os dois grupos apresentam um indicador em torno de 25%, sendo ligeiramente superior para companhias de controle familiar que para as empresas de controle não-familiar. Sendo assim, cabe a observação de que, per se, o controle familiar não está associado a um múltiplo de valor estatisticamente diferente das demais companhias. Também não é possível afirmar, que o controle familiar, por si mesmo, é impactante sobre o desempenho operacional da empresa ou seu nível de endividamento. Por outro lado, pode-se afirmar que empresas de controle familiar adotam mecanismos de gestão e controle usualmente associados à práticas não recomendadas de governança que podem levar à deterioração do valor das companhias, tais como a sobreposição de cargos de diretor-executivo e presidente do conselho, a baixa utilização de conselheiros independentes e a utilização de estruturas piramidais de controle no arranjo societário. Buscando investigar uma possível relação de causalidade, a seção seguinte discorre sobre os testes econométricos que visam mensurar os efeitos de conselheiros familiares sobre o valor relativo da empresa e sobre seu retorno acionário. 5. Testes Econométricos A primeira série de testes é realizada com todas as empresas da amostra, isto é, aquelas de controle familiar e não-familiar. Foram aplicados testes de regressão múltiplia segundo o método dos mínimos quadrados ordinários (MQO) para 2 janelas temporais: 1 ano após o IPO e 2 anos após o IPO. Os resultados são apresentados na tabela a seguir: 12 Tabela 5: Resultados para amostra completa, analisando apenas o 1º ano após o IPO A tabela abaixo reporta os resultados de seis modelos de regressões por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) para uma amostra de 96 empresas com dados disponíveis que abriram capital entre 2004 e 2007, utilizando dados do primeiro ano após o IPO. O p-valor estatístico é apresentado abaixo dos coeficientes, em negrito, quando estatisticamente significantes. *** o coeficiente é significante a 1%; ** o coeficiente é significante a 5%; e * o coeficiente é significante a 10%. Os resultados apontam que a variável “ConsFamiliares”, que apresenta a porcentagem de membros familiares no conselho, está associada a um menor múltiplo de valor PBV e a um menor retorno acionário dois anos após o IPO. Já a dummy “ConsMuitoFamiliar” apresentou-se negativamente relacionada ao PBV um ano após o IPO, indicando uma redução do valor das empresas cujo conselho é composto por 30% ou mais de profissionais com vínculos familiares com os controladores. A variável “ConsMercado” apresentou um coeficiente positivo no modelo reportado na última coluna, indicando que empresas cujos conselhos não possuem membros vinculados aos controlares apresentam um maior retorno acionário total um ano após o IPO. ConsFamiliares PBV t+1 TSR t+1 -1,53 0,04** -0,47 0,09* ConsMuitoFamiliar PBV t+1 TSR t+1 -0,77 0,10* -0,12 0,47 Idade DIVIDA NM Constante R²-Ajustado Número de observações TSR t+1 +0,37 0,05** 0,08 0,72 0,00 0,31 0,01 0,42 0,34 0,23 -0,84 0,01*** 0,12 96 -0,36 0,47 -0,01 0,26 0,01 0,40 0,70 0,09* 2,13 0,001*** 0,03 0,87 0,00 0,29 0,01 0,35 0,29 0,30 -0,58 0,03** -0,35 0,48 -0,01 0,22 0,01 0,38 0,75 0,06* 1,94 0,01*** 0,03 0,88 0,00 0,41 0,01 0,35 0,30 0,29 -0,65 0,01*** +0,55 0,25 -0,31 0,53 -0,01 0,17 0,01 0,47 0,74 0,09* 1,59 0,01*** 0,45 96 0,12 96 0,44 96 0,08 96 0,43 96 ConsMercado CEOChair PBV t+1 Como se pode observar na tabela acima, para o primeiro modelo, que utiliza a porcentagem de conselheiros familiares (variável ConsFamiliares), tanto o múltiplo PBV quanto o retorno acionário um ano após o IPO são negativamente afetados pela maior participação de membros familiares no conselho. Trata-se de uma evidência de que os membros familiares poderiam estar sujeitos a maiores conflitos de interesse e que, eventualmente, certas divergências familiares poderiam impactar o grau de monitoramento e a efetividade de tais conselhos. Para o modelo dois, a variável de interesse é a dummy “ConsMuitoFamiliar”, que discrimina as companhias cujo conselho de administração é composto por 30% ou mais de membros familiares. Os testes indicaram um efeito negativo destes conselhos com elevada participação de familiares: o múltiplo PBV apresenta um coeficiente de -0,77, sendo estatisticamente significante ao nível de 10%. A interpretação econômica de tal resultado é que, para a amostra de empresas utilizada neste estudo, cujo PBV médio é de 2,73, uma companhia que se enquadrasse na categoria “ConsMuitoFamiliar” apresentaria um múltiplo de valor 27% menor que as demais empresas que se utilizam de conselheiros sem vínculos familiares com os controladores. Para a variável de retorno acionário, entretanto, embora o coeficiente possua sinal negativo, ele não apresenta significância estatística suficiente para conclusões mais robustas. O Modelo 3, por sua vez, testa justamente o oposto ao Modelo 2: a variável de interesse é a dummy “ConsMercado”, que discrimina as companhias cujo conselho de administração não possui nenhum membro com parentesco com os acionistas controladores. Trata-se de um conselho, portanto, supostamente isento de vínculos familiares e seus eventuais conflitos de interesse. Os resultados apontam que companhias cujo conselho se enquadra nessa categoria apresentam uma maior valorização de suas ações no primeiro ano 13 após o IPO, o que poderia ser uma evidência de que o mercado precifica positivamente a qualidade de tal órgão e suas decisões estratégicas e de monitoramento dos gestores. O múltiplo de valor PBV também apresenta coeficiente positivo, embora não estatisticamente significante, o que inviabiliza conclusões mais aprofundadas. A fim de analisar a persistência de tais resultados, foram realizados os mesmos testes para uma janela temporal maior: 2 anos após o IPO. Os resultados são reportados na tabela abaixo: Tabela 6: Resultados para amostra completa, analisando apenas o 2º ano após o IPO A tabela abaixo reporta os resultados de seis modelos de regressões por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) para uma amostra de 96 empresas com dados disponíveis que abriram capital entre 2004 e 2007, utilizando dados do segundo ano após o IPO. O p-valor estatístico é apresentado abaixo dos coeficientes, em negrito, quando estatisticamente significantes. *** o coeficiente é significante a 1%; ** o coeficiente é significante a 5%; e * o coeficiente é significante a 10%. Os resultados são pouco conclusivos a respeito do efeito dos conselheiros familiares sobre o valor relativo e retorno acionário da empresa. Em especial, a variável “ConsFamiliares”, que discrimina a porcentagem de membros familiares no conselho, está associada a um menor retorno acionário dois anos após o IPO. Já a variável “ConsMercado” apresentou um coeficiente positivo no modelo reportado na última coluna, indicando que empresas cujos conselhos não possuem membros vinculados aos controlares apresentam um maior retorno acionário total dois anos após o IPO. ConsFamiliares PBV t+2 TSR t+2 -0,54 0,20 -0,61 0,10* ConsMuitoFamiliar PBV t+2 TSR t+2 -0,03 0,89 -0,16 0,37 Idade ROE DIVIDA NM Constante R²-Ajustado Número de observações TSR t+2 +0,38 0,05** 0,42 0,03** 0,00 0,42 0,02 0,07* 0,00 0,40 -0,11 0,54 -0,81 0,00*** 0,15 96 0,16 0,46 0,00 0,69 0,02 0,04** -0,01 0,12 -0,17 0,57 1,76 0,00*** 0,37 0,06* 0,00 0,32 0,02 0,01*** 0,00 0,53 -0,14 0,44 -0,52 0,03** 0,14 0,52 0,00 0,53 0,03 0,02** -0,01 0,11 -0,19 0,52 1,66 0,00*** 0,36 0,07* 0,00 0,39 0,02 0,07* 0,00 0,45 -0,15 0,42 -0,59 0,02** 0,32 0,22 0,20 0,35 0,00 0,57 0,02 0,03** -0,01 0,07* -0,15 0,60 1,52 0,00*** 0,11 96 0,13 96 0,09 96 0,12 96 0,11 96 ConsMercado CEOChair PBV t+2 Para o segundo ano após o IPO, foram aplicados os mesmos modelos descritos anteriormente. Os resultados apontam uma redução do efeito do conselho familiar sobre o valor relativo da empresa e sobre seu retorno acionário. Para o Modelo 1, que testa o efeito da porcentagem de conselheiros familiares na empresa, as evidências apontam uma redução do retorno acionário da empresa para companhias com conselhos com maior participação de membros familiares. Para o múltiplo PBV, embora o coeficiente continue negativo, a baixa significância estatística não permite maiores conclusões. Já para o Modelo 2, a variável binária “ConsMuitoFamiliar” não apresentou significância estatística em nenhum modelo. Embora os coeficientes sejam negativos, em concordância com os testes para a janela temporal do primeiro ano após o IPO, não é possível extrair conclusões suficientemente robustas a respeito do efeito desta variável. O Modelo 3, por sua vez, cuja variável de interesse é a dummy de conselhos de mercado (sem membros familiares), as evidências indicam que companhias cujos conselhos 14 se enquadram nessa categoria apresentam um retorno acionário, em média, 38 pontos percentuais acima da média (de 45%) para o segundo ano após o IPO. Trata-se de um resultado que corrobora a hipótese de que conselhos com menor participação de parentes dos controladores são mais bem avaliados pelo mercado. 5.1 Testes Econométricos para sub-amostra de companhias familiares A fim de evitar a contaminação dos resultados por se utilizar, numa mesma amostra, companhias de controle familiar ou não, foram realizados os mesmos testes para uma subamostra de empresas controladas unicamente por famílias. Dessa forma, é possível isolar os efeitos de práticas de governança que sejam inerentes a companhias com outra categoria de controlador, como o governo, investidores estrangeiros ou companhias sem controle definido. Os resultados para esta sub-amosta, contendo apenas empresas de controle familiar, estão discriminados nas tabelas abaixo. Tabela 7: Efeitos sobre o primeiro ano após o IPO analisando apenas empresas de controle familiar A tabela abaixo reporta os resultados de seis modelos de regressões por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) para uma sub-amostra de 44 empresas de controle familiar com dados disponíveis. O p-valor estatístico é apresentado abaixo dos coeficientes, em negrito, quando estatisticamente significantes. *** o coeficiente é significante a 1%; ** o coeficiente é significante a 5%; e * o coeficiente é significante a 10%. ConsFamiliares PBV t+1 TSR t+1 -1,66 0,02** -0,66 0,06* ConsMuitoFamiliar PBV t+1 PBV t+2 -0,81 0,08* -0,22 0,30 Idade ROE DIVIDA NM Constante R²-Ajustado Número de observações PBV t+2 0,43 0,01*** 0,00 0,99 0,00 0,80 0,02 0,01*** 0,02 0,01*** 0,14 0,49 -0,93 0,01*** 0,35 44 -0,56 0,19 0,00 0,75 0,06 0,00*** 0,08 0,00*** 0,84 0,05** 1,75 0,01*** -0,10 0,63 0,00 0,57 0,02 0,01*** 0,03 0,01*** 0,16 0,43 -0,65 0,015** -0,55 0,19 0,00 0,78 0,07 0,00*** 0,08 0,00*** 0,75 0,07** 1,44 0,01** -0,08 0,72 0,00 0,69 0,02 0,01*** 0,03 0,01*** 0,15 0,47 -0,77 0,01*** 0,30 0,53 -0,37 0,44 0,00 0,96 0,06 0,00*** 0,08 0,00*** 0,92 0,05** 1,35 0,03** 0,45 44 0,34 44 0,43 44 0,30 44 0,40 44 ConsMercado CEOChair TSR t+2 Conforme apresentado na tabela acima, ao se utilizar uma sub-amostra de 44 empresas de controle familiar, os efeitos dos conselheiros com parentesco com os controladores se mantém, essencialmente, os mesmos que foram identificados para a amostra completa. Tanto para o múltiplo PBV quanto para o retorno acionário, a maior participação de conselheiros familiares na empresa está associada a uma deterioração de seu valor. Adicionalmente, conselhos com mais de 30% dos membros com parentes com os controladores também apresenta um múltiplo PBV inferior às demais companhias familiares que não se enquadram nesta categoria. Já para o Modelo 3, as companhias familiares cujos conselhos de administração não apresentam a participação de nenhum membro familiar estão associadas a uma maior valorização de suas ações no primeiro ano após o IPO. 15 Por fim, buscou-se avaliar os efeitos dos conselhos com alta proporção de membros familiares sobre o valor relativo da firma e seu retorno acionário no segundo ano após o IPO. Conforme apresentado na tabela abaixo, os coeficientes não apresentaram significância estatística, o que inviabiliza análises subseqüentes. Tal fato pode revelar que o impacto dos conselheiros familiares se atenua ao longo do tempo, sendo já imperceptível, isoladamente, no 2º ano após o IPO da empresa. Cabe também a ressalva de que o período de análise, por volta de 2008 a 2009, foi um período de alta do mercado acionário brasileiro, o que pode impactar os resultados, visto que muitos analistas acreditam que o mercado se encontrava precificado acima dos seus fundamentos. Tabela 8: Efeitos sobre o segundo ano após o IPO analisando apenas empresas de controle familiar A tabela abaixo reporta os resultados de seis modelos de regressões por Mínimos Quadrados Ordinários (MQO) para uma sub-amostra de 44 empresas de controle familiar com dados disponíveis, utilizando dados do segundo ano após o IPO. O pvalor estatístico é apresentado abaixo dos coeficientes, em negrito, quando estatisticamente significantes. ConsFamiliares Modelo 1 Modelo 2 Modelo 3 Modelo 4 Modelo 5 Modelo 6 PBV t+2 TSR t+2 PBV t+2 TSR t+2 PBV t+2 TSR t+2 -0,74 0,18 -0,21 0,54 0,09 0,73 0,11 0,65 0,45 0,38 -0,10 0,84 0,01 0,23 0,02 0,21 0,01 0,68 -0,72 0,26 1,27 0,01*** 0,16 44 0,12 0,63 0,19 0,48 0,02 0,01*** 0,03 0,14 0,01 0,26 -0,73 0,01*** -1,11 0,00*** 0,42 44 ConsMuitoFamiliar ConsMercado CEOChair Idade ROE DIVIDA NM Constante R²-Ajustado Número de observações -0,20 0,69 0,01 0,14 0,02 0,37 0,01 0,61 -0,78 0,25 1,60 0,02** 0,17 44 0,16 0,53 0,02 0,01*** 0,03 0,18 0,01 0,23 -0,75 0,01*** -1,01 0,00*** 0,43 44 -0,17 0,74 0,01 0,36 0,02 0,29 0,01 0,58 -0,91 0,22 1,42 0,02** 0,14 44 0,17 0,52 0,02 0,01*** 0,03 0,13 0,01 0,23 -0,82 0,01*** -1,07 0,00*** 0,42 44 *** o coeficiente é significante a 1%; ** o coeficiente é significante a 5%; e * o coeficiente é significante a 10%. 6. Conclusões Este artigo avaliou os efeitos de conselheiros de administração pertencentes à família dos acionistas controladores sobre o valor da empresa e seu retorno acionário. Os resultados mostram que cerca de 30% das companhias que abriram capital entre 2004 e 2007 possuíam conselhos de administração compostos por 30% ou mais de membros familiares, evidenciando o elevado peso de parentes nos conselhos brasileiros. Outros 30% de companhias que vieram a mercado no período possuíam conselhos com até 30% de familiares, enquanto o outro terço apresentava companhias de controle não-familiar e, portanto, com conselhos compostos por pessoas sem vínculos de parentesco entre si. Evidências indicaram que a participação de conselheiros familiares na companhia está associada à maior incidência de algumas práticas indesejadas de governança, tais como 16 estruturas de propriedade piramidais e maior freqüência da sobreposição de cargos entre diretor-presidente e a presidente do conselho de administração. Tais resultados estão em linha com evidências internacionais (Yeh e Woidtke (2004), por exemplo) e são similares a resultados obtidos no Brasil (Guerra, 2009). Alguns dos mecanismos associados à gestão familiar são fatores usualmente vinculados na literatura à menor qualidade da governança corporativa e qualidade das decisões, o que poderia comprometer o valor de longo prazo da empresa. Com relação aos testes contra as variáveis de desempenho e valor de mercado, os testes indicaram que empresas com maior porcentagem de conselheiros familiares são associadas a um menor múltiplo de valor relativo (price-to-book value), assim como a um retorno acionário inferior. Adicionalmente, empresas cujos conselhos não apresentam nenhum membro vinculado à família dos controladores se mostraram associadas a uma menor perda de valor de suas ações, tanto no primeiro, quanto no segundo ano após o IPO. Os resultados obtidos nesta pesquisa, portanto, apresentam evidências em linha com a hipótese de que a inclusão de membros familiares no conselho de administração pode induzir a eventuais conflitos de interesse, questões sentimentais ou litígios pessoais que comprometeriam a qualidade das decisões tomadas por tal órgão. Vale ressaltar, entretanto, duas limitações metodológicas que podem prejudicar a qualidade dos resultados: 1) a proxy para mensuração dos vínculos familiares foi restrita à comparação de sobrenomes e à leitura dos currículos dos conselheiros, o que pode não ser suficiente para identificar com clareza o grau de parentesco entre os profissionais; e, 2) utilizou apenas regressões por mínimos quadrados ordinários como testes econométricos, em função da ausência de dados disponíveis para a construção de um banco de dados em painel, o que pode levar a uma menor robustez dos resultados obtidos. Embora pesquisas anteriores apontem que a supervisão de acionistas familiares sobre a empresa pode ser um fator positivo para a geração de valor, outras evidências indicam que companhias de controle familiar são mais propensas a adotarem mecanismos de alavancagem de controle, como as estruturas societárias piramidais, resultado que também foi verificado neste artigo. Como resultado, este artigo fornece subsídios para ativistas das boas práticas de governança, ao indicar que, em companhias de controle familiar, a adoção de outros fóruns para a discussão de assuntos familiares e convergência de interesses na família controladora, como o Conselho de Família, pode ser benéfica à companhia. Tal organismo poderia estabelecer uma divisão mais clara de papéis e responsabilidades entre gestores, acionistas e membros da família controladora. 5 Referências bibliográficas ANDERSON, Ronald and David M. REEB, 2003, Founding family ownership and firm performance: Evidence from the S&P 500, Journal of Finance 58, 1301–1329. BARONTINI, Roberto, CAPRIO, Lorenzo, 2005, The Effect of Family Control on Firm Value and Performance. Evidence from Continental Europe, ECGI Working Paper 88. 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Apêndice 1 Companhias da amostra Conselho com familiares compondo acima de 30% do conselho de administração Abyara Lopes Brasil Bematech Marisa Bicbanco Medial Saude BR Brokers Metalfrio CC Des Imob Minerva Company Natura Cosan Ltd Parana CR2 Pine Conselho com familiares compondo até 30% do conselho de administração Agra Incorp MRV Agrenco Multiplan Amil Odontoprev Anhanguera Providencia Bovespa Holding Renar BR Malls Par Seb Cremer Springs Cruzeiro Sul Sul America Even Eztec Fer Heringer Gol Grendene Guarani Helbor Indusval JBS JHSF Part Localiza Dasa Estacio Gafisa Inpar S/A Invest Tur Klabinsegall Lupatech M. Diasbranco Marfrig MMX Miner MPX Energia Profarma Sao Martinho SLC Agricola Sofisa Trisul Triunfo Part Tecnisa Tegma Tempo Part Tenda Totvs Uol Conselhos sem vínculos familiares Abnote ALL Amer Lat BM&F BrasilAgro Copasa Cosan CPFL Energia CSU CardSystem Datasul Daycoval Dufrybras Ecodiesel Energias BR Equatorial Generalshop GP Invest* GVT Holding Iguatemi Kroton Laep Log-In Nossa Caixa OHL Brasil Panamericano PDG Realt Porto Seguro Positivo Inf Redecard Rodobensimob Santos Brasil Terna Part Wilson Sons 19