REQUERIMENTO (Do Sr. Deputado Evair de Melo) Requer o envio de Indicação ao Poder Executivo, relativa à inclusão do tema “Sucessão Familiar” no currículo da Educação Básica das escolas do campo. Senhor Presidente, Nos termos do art. 113, inciso I e § 1o, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, requeiro a V. Exª. seja encaminhada ao Ministro da Educação a Indicação em anexo, sugerindo a inclusão do tema “Sucessão Familiar” no currículo da Educação Básica das escolas do campo. Sala das Sessões, em de Deputado Evair de Melo 2015_457 de 2015. INDICAÇÃO No , DE 2015 (Do Sr. Deputado Evair de Melo) Sugere a inclusão do tema “Sucessão Familiar” no currículo da Educação Básica das escolas do campo. Senhor Ministro, Com fulcro no art. 113, inciso I e § 1o, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, venho, por meio desta Indicação, sugerir a Vossa Excelência a inclusão do tema “Sucessão Familiar” no currículo da Educação Básica das escolas do campo, pelas razões que passo a apresentar. O ensino nas áreas rurais teve seu início no final do II Império, mas não obteve grande atenção das políticas públicas de educação, uma vez que, diante da baixa complexidade do setor à época, os trabalhadores aprendiam o que precisavam na realização do próprio trabalho. Historicamente, a educação esteve presente em todas as Constituições brasileiras, entretanto, mesmo o país sendo essencialmente agrário, desde a sua origem, a educação rural não foi mencionada nos textos constitucionais de 1824 e 1891. Os grandes movimentos pela causa de uma educação do campo datam do início do século passado, quando o analfabetismo foi percebido como um problema que precisava ser eliminado. A partir deste momento, o Estado foi pressionado por grupos e movimentos sociais e começou a ter uma atenção maior para a educação destinada à população do campo, com a criação de programas específicos para a área rural. 2 O que se constatou, entretanto, exceto nas propostas do educador Paulo Freire e nas da Pedagogia da Alternância1, foi que se pensou uma educação para a população do campo que não passou de uma cópia daquela oferecida nas áreas urbanas, apenas transplantada para o meio rural, ainda que os conteúdos não fossem significativos para os campesinos. Como destacam as autoras Silva, Morais e Bof: Historicamente, foram os movimentos sociais e associações civis do campo, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), a Confederação Nacional do Trabalhador na Agricultura (Contag), a Pastoral da Terra da 2 Confederação (sic) Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a União Nacional das Escolas Família Agrícola do Brasil (Unefab), a Associação das Casas Familiares Rurais (Arcafar), entre outros, que têm enfaticamente reivindicado políticas especificas para a educação do campo, chamando a atenção para a inadequação da educação existente à realidade e aos interesses das populações do campo”. (SILVA, Lourdes H. da, MORAIS, Teresinha C. de; BOF, Alvana M, 2006. A educação no meio rural do Brasil : Revisão da literatura. In: BOF, A. M. org. A educação no Brasil Rural. Brasília; Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, p. 76-77). No atual Estado Social e Democrático de Direito, tanto a disciplina constitucional quanto a legislação de regência da educação impõem como responsabilidade do Estado, da sociedade e da família, assegurar uma educação de qualidade no campo, que considere suas especificidades culturais, sociais e econômicas. O Artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – a LDB –, Lei nº 9.394/96, com redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013, estabelece que o currículo escolar deve possuir uma parte diversificada que contemple as especificidades de cada região. Art. 26. Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. [grifos nossos] 1 Na Pedagogia da Alternância, criada por camponeses da França em 1935, implantada pela primeira vez em uma escola brasileira em 1968 no Estado do Espírito Santo, o aluno permanece duas semanas em sistema de internato, na sede da escola, e a outra quinzena do mês no meio em que vive. 2 O correto é “Conferência”, não “Confederação”. 3 Por sua vez, o artigo 28 dessa lei trata exclusivamente da educação rural – melhor seria dizer “do campo” –, preconizando que, na oferta de educação para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adequações necessárias às peculiaridades da vida rural e de cada região. Art. 28. Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente: I - conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; II - organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; III - adequação à natureza do trabalho na zona rural. Mesmo os Parâmetros Curriculares Nacionais, de 1997, dão ênfase ao ensino voltado para a realidade do aluno, ao estabelecer que: O ensino de qualidade que a sociedade demanda atualmente expressa-se aqui como a possibilidade de o sistema educacional vir a propor uma prática educativa adequada às necessidades sociais, políticas, econômicas e culturais da realidade brasileira, que considere os interesses e as motivações dos alunos e garanta as aprendizagens essenciais para a formação de cidadãos autônomos, críticos e participativos, capazes de atuar com competência, dignidade e responsabilidade na sociedade em que vivem (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1997, p.33). Assim, reiteradamente, os documentos voltados para a educação nacional preveem, não só a possibilidade, mas a necessidade mesmo, de uma educação que contemple as especificidades da realidade experienciada pela população que vive e trabalha no campo. É o que se verifica, por exemplo, nas Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, nas Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil, para o Ensino Fundamental e Médio, para a Educação de Jovens e Adultos, para a Educação Indígena e a Educação Especial, para a Educação Profissional de nível técnico e para a Formação de Professores. Não se busca, pois, uma educação no campo, mas uma educação do campo. Um movimento neste sentido foi a Resolução CNE/CEB nº 1, de 3 de Abril de 2002, que instituiu as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, onde a escola do campo é assim definida: 4 A identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por estas questões à qualidade social da vida coletiva no país (Resolução CNE/CEB nº 1/2002, p. 202). As Diretrizes determinam, ainda, que: Art. 5º As propostas pedagógicas das escolas do campo, respeitadas as diferenças e o direito à igualdade e cumprindo imediata e plenamente o estabelecido nos artigos 23, 26 e 28 da Lei 9.394, de 1996, contemplarão a diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia (Resolução CNE/CEB nº 1/2002, p. 203). Os índices educacionais nos mostram uma defasagem educacional da população que reside em áreas rurais em relação às pessoas que residem nas áreas urbanas. Uma das causas é que os jovens não veem relação entre os conteúdos abordados e a sua realidade de vida no campo. Desse modo, a introdução do tema “Sucessão Familiar” leva também a uma maior fixação do jovem na escola, pelo fato de ver temas de interesse do seu cotidiano retratados nela, colaborando para uma educação de qualidade no campo. Discutir a Sucessão Familiar no campo é colocar na pauta da escola um assunto vivo, um tema que permeia suas vidas e do qual depende a continuidade do negócio rural e sua consequente permanência no campo. De fato, o êxodo rural vem aumentando vertiginosamente, causando o esvaziamento e envelhecimento do campo, deixando grande parte das empresas familiares sem sucessores e, portanto, sem perspectivas de continuidade. O número de jovens de 15 a 24 anos já é inferior ao número de estabelecimentos, o que representa o comprometimento do futuro da agricultura familiar e dos pequenos municípios. Cada vez que uma propriedade rural da agricultura familiar não encontra um sucessor, transforma-se em agricultura patronal, caracterizada por grandes propriedades com emprego de mão de obra assalariada ou volante, ou então torna-se em área de lazer. Os prejuízos são claros para os municípios, que se mostram mais desenvolvidos justamente 5 onde a agricultura familiar é bem estabelecida3. As pesquisas demonstram que os agricultores familiares produzem mais do que o dobro da riqueza, por unidade de área, do que o agricultor patronal4. Também é certo que a manutenção da população no campo, o aumento da renda dos agricultores e uma melhor distribuição dessa renda podem ser elementos importantes de uma política de estímulo a atividades não agrícolas no ambiente rural, aumentando a riqueza e diversidade nos municípios envolvidos. O último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE –, realizado em 2006, revelou que os agricultores familiares representam 84,4% dos estabelecimentos do país, ocupam 24,3% da área cultivada e empregam 74,4% da mão de obra do setor agropecuário. A agricultura familiar representa 9% (R$ 173,47 bilhões) do Produto Interno Bruto (PIB) total do país, que foi naquele ano de R$ 1,94 trilhão. Logo, o PIB da agricultura familiar é responsável por 32% do PIB do agronegócio brasileiro, que, também em 2006, chegou a R$ 540,19 bilhões. Quando nos damos conta de que 70% dos alimentos produzidos no Brasil vêm da agricultura familiar, temos que reconhecer que a saída do jovem do campo é um problema de toda a sociedade. A estrutura produtiva da agricultura familiar contribui para o desenvolvimento de municípios de pequeno e médio porte em todas as regiões do Brasil. A sucessão familiar é apontada por diversos especialistas com uma das principais saídas para que a produção de alimentos não seja interrompida por falta de mão de obra no campo. Levar o tema da sucessão para a escola visa a colaborar, por meio do esclarecimento e do debate, para que os jovens que nasceram e cresceram no campo permaneçam nas terras, dando continuidade ao trabalho da família no campo. Renato Bernhoeft aponta que garantir a continuidade das empresas familiares, dentre as quais estão a maioria das propriedades rurais familiares, é fundamental para o desenvolvimento do país nos aspectos político, social e econômico: 3 EHLERS, E. Agricultura sustentável: origens e perspectivas de um novo paradigma. 2. ed. rev. e atual. Guaíba: Agropecuária, 1999, p. 38. 4 TEDESCO, J. C. Agrodiversidade, agroecologia e agricultura familiar: velhas e novas faces de um processo de desenvolvimento na região de Passo Fundo pós anos 90. Passo Fundo: UPF : Porto Alegre: EST edições, 2006, p. 65. 6 No campo político, deverá haver uma participação mais intensa do empresário através das associações de classe e outros mecanismos de pressão inerentes aos sistemas democráticos. Na perspectiva social, a empresa familiar representa uma das maiores geradoras de emprego, com a correspondente descentralização dos polos regionais de desenvolvimento. O aspecto econômico também recebe dela uma fundamental contribuição, uma vez que se produz um aumento do mercado consumidor e uma melhora da distribuição de renda. (BERNHOEFT, R. Empresa familiar: sucessão profissionalizada ou sobrevivência comprometida. 2. ed. São Paulo: Nobel, 1993, p. 24) Dirceu Gassen5 enfatiza que, nos países europeus e nos Estados Unidos, a idade média do agricultor aumenta quase um ano a cada ano, levando a um envelhecimento no setor, e os jovens não fazem a sucessão. O autor elenca como uma das causas do desinteresse dos jovens em permanecer no campo a baixa estima da profissão de agricultor. Há nos EUA uma grande dificuldade para envolver e motivar jovens na agricultura e raramente o agricultor faz o sucessor familiar. O problema da sucessão geracional no campo é ainda mais acentuado no Brasil, país com graves desigualdades regionais e desafios educacionais já superados pelos países desenvolvidos. De fato, segundo uma pesquisa da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), 54% dos homens e 74% das mulheres não pretendem continuar na zona rural. E, com isso, a falta de sucessores nas propriedades rurais preocupa. No Brasil, uma pesquisa recente conduzida em Cordilheira Alta/SC, mas que reflete situação similar no país inteiro, mostrou que 40% das propriedades não discutem a questão sucessória nas famílias e que 35% dos pais não estimulam mais a permanência dos filhos na propriedade. No entanto, quase metade dos jovens entrevistados, disseram que sim, querem construir o seu futuro profissional no meio rural e aí concretizar seus projetos de vida. Para Lansberg6, “o planejamento da sucessão familiar significa fazer as preparações necessárias para se assegurar a harmonia da família e a continuidade da empresa através das gerações. Essas preparações devem ser pensadas em termos de necessidades futuras, tanto dos negócios quanto da família”. 5 6 Revista Plantio Direto, edição nº 109, janeiro/fevereiro de 2009. LANSBERG, I. The succession conspiracy. Family Business Review, 1988. 7 Handler7 defende que a sucessão familiar deve ser planejada desde cedo e que a motivação dos sucessores é fundamental para uma sucessão geracional bem-sucedida. Os sucessores satisfeitos tendem a ter mais investimento pessoal, são mais entusiastas e mais aptos a assumirem responsabilidades. Eles também têm um sentido especial de identidade e se sentem bem em contribuir com o negócio pertencente à família. Essa satisfação é conseguida com o desfazimento, por meio do debate na escola, dos mitos e preconceitos que permeiam a vida no campo e as falsas promessas de grandes realizações ao fazer a migração para os centros urbanos. Hugron8 corrobora com a assertiva de ser a motivação do sucessor um aspecto fundamental. Um sucessor disposto e comprometido é vital para que o processo de sucessão tenha sucesso. A inserção do tema “Sucessão Familiar” no currículo das escolas do campo é de fundamental importância na preparação dos jovens para que entendam o que é sucessão familiar e como eles podem participar ou se envolver, sem que isso possa significar a exclusão da sucessão hereditária. É importante que entendam os fatores que levam ao esvaziamento rural e à não sucessão, para que sejam protagonistas da revitalização do campo e da valorização da sua cultura. A educação pode sensibilizar filhos de agricultores e de pecuaristas, para que possam visualizar as oportunidades de carreira relacionadas à cadeia produtiva. Obviamente, nem todos querem ou pretendem continuar a sua vida futura na propriedade agrícola. A questão de direitos e deveres de cada um dos envolvidos deve ficar muito bem esclarecida, assim como ficar claro que o desejo de assumir um outro tipo de vida em nada prejudicará no momento da sucessão hereditária. O importante é que a escolha seja livre e baseada em informações corretas, e não em preconceitos, e que possa assegurar ao jovem que queira permanecer no campo as melhores opções. As pesquisas demonstram que, em grande maioria, os jovens têm o desejo de permanecer no campo, se tivessem condições de evoluir, e que muitos jovens que vão para os grandes centros urbanos acabam em subempregos ou em condição de marginalização, pois os saberes aprendidos em toda a sua vida não são valorizados nas zonas urbanas. 7 HANDLER, W.C. 1990. Succession in family firms: a mutual role adjustment between entrepreneur and next generation family members. Entrepreneurship Theory & Practice. ET&P, 1990 8 HUGRON, P.; DUMAS, C. Modélisation du processus de succession des entreprises familiales québécoises, Montréal: HEC Montréal, 1993 8 Outro fator que dificulta a sucessão familiar no campo é o afastamento cada vez maior da mulher do meio rural, que, em parte, é explicado pelo tratamento diferenciado que a filha recebe, tanto da família quanto do grupo social. Ainda que a mulher tenha garantia constitucional de tratamento igualitário, de fato não é essa realidade que se apresenta, sobretudo no meio rural. A inserção do tema “Sucessão Familiar” no currículo das escolas do campo será propícia, desta forma, para que se possa debater as questões de gênero, como tema transversal. Podem emergir das aulas debates férteis que gerem conscientização. A maior parte dos emigrantes do campo para as cidades são moças, levando à respectiva masculinização do campo, além do já citado envelhecimento. As mulheres são até mesmo incentivadas pelos próprios pais a procurarem os centros urbanos, em busca das “luzes” da cidade. A predominância de mulheres migrando para a urbe não está relacionada a condições favoráveis para esse gênero no mercado de trabalho urbano, mas, sim, à desvalorização do seu trabalho no campo e à falta de perspectivas que elas encontram. Queiroz9 aponta como fatores de desestímulo à permanência no campo: docentes alheios à realidade rural; abandono da escola rural; ausência de infraestrutura adequada; carência de renovação pedagógica; currículo e calendário escolar alheios à realidade rural; escolas deslocadas das necessidades e das questões do mundo rural e alheia aos interesses dos trabalhadores rurais, de seus movimentos e organizações, e assim estimuladora do abandono do campo. Se a sucessão não se concretiza, são grandes as chances de que a atividade agrícola possa desaparecer daquela área territorial. Sem a sucessão, a agricultura familiar encontra-se comprometida. Discutir o tema na escola abre novas possibilidades de permanência no campo ao deflagrar a reelaboração de identidades sociais dos jovens agricultores, o que Antony Giddens10 descreveu como um processo de “formação reflexiva da auto-identidade”. 9 QUEIROZ, J.B.P. de. Os Centros Familiares de Educação em alternância no Brasil. Caderno Vozes – nº 6. 10 GIDDENS, Antony. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2002 9 Como se vê, o tema “Sucessão Familiar” no campo é complexo e multifacetado, e sua discussão deve ser feita na escola, desde cedo, embora o assunto já tenha dominado seminários, conferências e seja objeto de estudos por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento. Os pesquisadores Gasson e Errington11 esclarecem que a sucessão nos estabelecimentos agropecuários familiares envolve, necessariamente, a formação de novas gerações de agricultores e inclui: a) a sucessão profissional (passagem das responsabilidades sobre o negócio, do poder e da capacidade de utilização do patrimônio para a geração seguinte, assim como a qualificação necessária para que os novos agricultores consigam se integrar num mercado competitivo); b) a transferência legal da propriedade da terra e dos ativos existentes (pelo processo de sucessão patrimonial, com base na escolha de um, entre os possíveis herdeiros); c) a aposentadoria da geração atual (a transferência das responsabilidades e do poder sobre os ativos que compõem a unidade produtiva para a geração seguinte). A Educação do Campo tem sido historicamente marginalizada na elaboração de políticas públicas. É vista como política compensatória, suas demandas e suas especificidades raramente têm sido objeto de pesquisa e de formulação de currículos compatíveis nos diferentes níveis e modalidades de ensino, e geralmente é trabalhada a partir de um currículo essencialmente urbano, sem significação para a realidade do campo. A inserção no currículo do campo de toda essa problemática que envolve a questão sucessória irá colaborar para que o jovem desperte e reconheça a importância do seu papel na comunidade campesina, para que seja um jovem líder e atuante, e que possa construir seu projeto de vida no campo, onde seus saberes consolidados são úteis e valorizados. Mesmo cônscios de que a pouca preocupação com a questão no campo seja reflexo de um problema mais amplo de crise do próprio sistema capitalista e, dessa forma, só ações de longo prazo possam surtir efeitos duradouros, é necessário que ações específicas acerca da sucessão sejam tomadas desde logo, e uma delas é que se possa trazer para a escola a mediação dessa questão tão relevante, que pode comprometer a reprodução social da agricultura familiar. 11 GASSON, R.; ERRINGTON, A. The Farm Family Business. Wallingford: Cab International, 1993 10 O tema “Sucessão Familiar” poderia ser abordado nas escolas do campo segundo quatro eixos norteadores: humano, gestão, econômico e jurídico. No primeiro eixo, o humano, se abordariam as temáticas de valorização da cultura do campo, valores tradicionais, êxodo rural etc. Para o segundo eixo, gestão, os temas tratados seriam empreendedorismo, controle de qualidade, gestão de negócios, inovação etc. O terceiro eixo, o econômico, trataria da política de câmbio, das práticas do mercado, do desenvolvimento sustentável, dos investimentos, da educação financeira, das políticas de empréstimos etc. O quarto eixo, o jurídico, abordaria a sucessão hereditária, a partilha de bens, o regime previdenciário do campo, o uso e parcelamento do imóvel rural, a função social da propriedade rural, a legislação aplicada ao campo – como a Lei nº 5.878, de 12 de dezembro de 1972, que Cria o Sistema Nacional de Cadastro Rural – etc. Ao garantir a sucessão familiar, ganha o campo e o País, pois o jovem traz sua visão de futuro para se somar aos saberes tradicionais e, com sua inserção digital, interage entre o meio produtivo e o meio virtual. O jovem é a garantia de continuidade da pequena produção no campo. A entrada desse tema no currículo, antes de ser uma medida de permanência do jovem no campo, é uma medida de permanência do jovem na escola! Sala das Sessões, em de Deputado Evair de Melo 2015_457 de 2015.