Contribuições do Sector dos Transportes para a redução das Emissões dos Gases de Efeito de Estufa em Portugal1 Mário J. Alves Engenheiro Civil pelo Instituto Superior Técnico, especialista em transportes e mobilidade com o grau de mestre pelo Imperial College London. Trabalhou no Centro de Sistemas Urbanos e Regionais da Universidade Técnica de Lisboa e no Centre for Transport Studies of the University of London como Investigador Associado. Os seus temas de investigação académica versaram a Modelação e Análise de Cadeias de Actividades e padrões de mobilidade comparando Diários de Viagem de vários países, experiências em Preferência Declarada e métodos de inquérito para diários de viagem. Como consultor de transportes e gestão da mobilidade foi Coordenador Operacional do Plano de Mobilidade de Almada e é neste momento consultor em várias instituições nacionais e estrangeiras. Trabalhou nos projectos europeus MEST, TEST, LifeCycle e Active Access e é membro do painel de especialistas da Direcção-Geral de Energia e Transportes da Comissão Europeia. Recentemente foi convidado pelo EPFL, Ecole Polytechnique Federale de Lausanne, para fazer parte de um corpo permanente de consultores conselheiros das autoridades Suíças sobre Ordenamento do Território e Mobilidade (Spacewatch). Recentemente fez parte do Comité Internacional de Programação da conferência Walk21 em Toronto e é Coordenador Nacional do Projecto COST: Pedestrian Quality Needs. Escreveu artigos e fez numerosas comunicações e seminários em vários países europeus sobre diversas temáticas relacionadas com transportes e mobilidade sustentável. 1. Introdução Segundo o Plano Nacional de Atribuição de Licenças de Emissões (PNALE) II, o Sector dos Transportes implicará um crescimento de 110% nas emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE) entre 1990 e 2010. Contrariamente ao sector industrial, as emissões dos transportes são dispersas e dependem de microdecisões de consumo de uma parte significativa da população portuguesa. É também o sector que mais aumentou e muito provavelmente aumentará as emissões nos próximos anos. Existem sempre várias soluções para um problema. O conjunto de soluções escolhido depende sempre da forma como enquadramos o problema e os objectivos estratégicos que se pretende atingir. A questão das emissões de GEE no sector dos transportes, é um problema transversal e complexo e, como é frequente neste tipo de problemas, uma solução que possa responder de forma 1 Capitulo incluido no relatório “Portugal depois de Quioto”, Novembro de 2007. Uma análise pluridisciplinar do potencial e das medidas de luta contra as alterações climáticas no horizonte 2020 - estudo preparado para o Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional positiva num tipo de enquadramento reducionista, pode ser contraproducente caso se tenha objectivos estratégicos mais vastos. O volume total das emissões de GEE no sector dos transportes resulta essencialmente de três factores: Factor 1 – O volume total da actividade de transporte e (ou) ou a forma de repartição pelos diversos modos de transporte – depende do total das distâncias percorridas e da escolha modal do consumidor perante a diversidade da oferta. Factor 2 – A quantidade de energia necessária por cada veículo para desenvolver uma certa quantidade de actividade de transporte – depende do consumo energético do veículo por unidade de transporte. Factor 3 – As emissões de GEEs geradas pela produção, distribuição e uso de uma unidade de combustível – depende do conteúdo de carbono do tipo de fonte energética do veículo e a forma como é produzida e distribuída. Como se prevê que, no final desta década, 96% dos GEE produzidos no sector dos transportes em Portugal provirão do consumo pelo modo rodoviário de combustíveis derivados do petróleo, a fórmula de cálculo das emissões é aproximadamente esta: QUANTIDADE DE EMISSÕES DE GEE km percorridos Eficiência na mobilidade x litros de combustível km percorridos Eficiência do veículo x gramas de carbono litros de combustível Eficiência do combustível Para se reduzir as emissões com origem no primeiro factor, terá que adoptar-se políticas de gestão da procura para que a mobilidade se processe de forma mais eficiente. Este tipo de política tem como objectivo a diminuição global da mobilidade,,a substituição das distâncias percorridas por veículos menos poluentes por unidade de transporte (por exemplo a substituição de viagens em avião pela ferrovia) e a tranferência modal (substituição de viagens em Transporte Individual por Transporte Colectivo). No contexto do transporte de passageiros, este tipo de política visa essencialmente a redução do uso do Transporte Individual (TI). A maior parte deste tipo de politicas pode ser apelidada de “Gestão da Procura de Transporte” (GPT) porque dependem exclusivamente das opções do consumidor e têm como objectivo a modificação dos padrões de consumo da mobilidade. Um dos efeitos que este tipo de politica, para além da redução das emissões, é que também reduz os custos económicos do congestionamento dos veículos que continuam a circular na rede viária e todo o tipo de externalidades negativas associadas ao uso excessivo do Transporte Individual. Por outro lado, as emissões de CO2 diminuirão se melhorar a eficiência mecânica dos veículos ou a quantidade de emissões por litro de combustível consumido (factor 2 e 3). Este tipo de medidas, que incentivam o uso de veículos ou combustíveis mais eficientes, está dependente dos progressos tecnológicos da oferta de transporte. Isto é, da eficiência que se conseguirá atingir no futuro, tanto no que diz respeito aos veículos, como ao tipo de combustíveis (ver Anexo 3). O principal problema deste tipo de medidas é que, se forem aplicadas por si só, poderão anular ou ter um efeito menos significativo que o expectável2. A melhoria da eficiência no consumo dos veículos, sem agravamento do preço dos combustíveis, leva geralmente a que os condutores aumentem as distâncias percorridas, podendo diminuir as reduções expectáveis de emissões devido ao progresso tecnológico3. Acresce principalmente o facto de que, o aumento das distâncias percorridas, resultado deste tipo de soluções tecnológicas, mesmo que diminuam a emissão de GEE, aumenta outro tipo de externalidades extremamente penalizadoras para o ambiente e funcionamento das cidades4. 2 A ocorrência do Paradoxo de Jevon é particularmente importante em Transportes. Em economia caracteriza a observação feita por William Standley Jevons, que afirmou que à medida que há melhorias no aumento da eficiência de um recurso, o consumo total desse mesmo recurso pode aumentar e não diminuir. Apesar de conhecido como um “paradoxo”, este conceito também conhecido como efeito de “rebound” é bem conhecido e demonstrável em teoria económica. 3 Neste caso, o efeito de “rebound” tem sido calculado na realidade americana entre 10-30% a longo prazo (ver por exemplo Greene, D. (1991) “Vehicle Use and Fuel Economy: How Big is the ‘Rebound’ Effect,” Oak Ridge National Laboratory for the US, Department of Energy. Ou Kenneth Small and Kurt Van Dender (2005), The Effect of Improved Fuel Economy on Vehicle Miles Traveled: Estimating the Rebound Effect Using U.S. State Data, 1966-2001, University of California Energy Institute's (UCEI) Energy Policy and Economics Working Paper Series). No caso europeu e português, em que o preço do combustível é uma percentagem maior das despesas com um veículo, é possível que o efeito se aproxime dos valores mais altos. 4 Litman, Todd (2004), Transportation Cost and Benefit Analysis; Techniques, Estimates and Implications, Victoria Transport Policy Institute, estima e compara os custos económicos das externalidades do uso do automóvel e conclui que as externalidades associadas ao consumo de combustível, são relativamente pequenas quando comparadas com o conjunto de outro tipo custos sociais e ambientais, também não habitualmente contabilizados (por exemplo congestionamento, acidentes rodoviários, ruído, etc.) e que aumentam com o aumento das distancias percorridas, resultado da melhoria da eficiência tecnológica dos veículos. 2. Gestão da Mobilidade A opção por medidas de Gestão da Mobilidade, implica uma alteração profunda do paradigma que orientou as politicas de mobilidade das últimas décadas. Implica colocar como primeiro objectivo estratégico a melhoria da acessibilidade (facilidade de acesso) em vez do aumento da mobilidade (quantidade de movimento). De facto, medidas de gestão da procura neste contexto, poderão e deverão tender para a diminuição da mobilidade e consequentemente conseguir a diminuição de emissões. Tal não significa que a mobilidade em Transporte Individual não tem qualquer tipo de benefícios. Quer simplesmente dizer, que poderão existir estilos de vida mais cosmopolitas ou outras formas de nos movimentar, que são economicamente e ambientalmente mais eficientes. O uso do automóvel tem custos sociais e ambientais de tal forma elevados, para além das emissões dos GEE, que as políticas de eficiência no sector de transportes deverão concentrar-se na gestão da procura e não na eficiência tecnológica do veículos ou combustíveis. Dizendo de outra forma, um litro de combustível poupado pela redução no uso do automóvel, tem mais valor social e ambiental que um litro de gasolina poupado por eficiência em combustível, porque a redução da mobilidade tem inúmeros benefícios – redução do congestionamento, aumento da segurança rodoviária, saúde pública em geral, etc. A redução da mobilidade automóvel também tem como efeito secundário positivo – o aumento da segurança dos modos suaves e a melhoria da ocupação e uso do espaço público que em geral potencia transferências para modos menos poluentes que por sua vez também reduz as emissões. Tal não significa que outras formas de conservar energia no sector de transportes devam ser ignoradas, mas que os benefícios adicionais da gestão eficiente da procura, para além da redução das emissões, devem ser sempre reconhecidos quando avaliadas as diferentes opções disponíveis para a redução dos GEE no sector. A Gestão da Mobilidade engloba políticas de incentivo a padrões de mobilidade mais eficientes. Poderão muitas vezes ser consideradas pouco relevantes, quando avaliadas de forma isoladas, mas em conjunto desencadeiam sinergias que podem provocar consideráveis reduções das distâncias percorridas por veículo. Podem ser divididas em várias categorias, das quais se destacam5: Mecanismos de tarifação da mobilidade Oferta de modos alternativos Gestão do estacionamento Ordenamento do território … Os mecanismos de tarifação são habitualmente divididos em dois tipos: o aumento dos impostos sobre os combustíveis e a tarifação da quilometragem. O aumento dos combustíveis tem a vantagem de, não só contribuir para a redução 5 United States Department of Transportation (1998): Transportation and global climate change: a review and analysis of the literature; United States Department of Transportation, Federal Highway Administration. do uso do automóvel, mas contribuir também para o incentivo do uso de veículos e combustíveis mais eficientes. No entanto, o previsível aumento do preço do barril do petróleo nos próximos anos, poderá tornar este tipo de medida de difícil implementação politica6. A implementação de tarifações variáveis da quilometragem a nível nacional, tem a vantagem de se poder estabelecer preços diferenciados conforme onde e como se realizam as deslocações7. Esta característica torna possível o controlo de outro tipo de problemas, tão ou mais graves que as emissões dos GEE, como o congestionamento em zonas urbanas (portejamentos na entrada de cidades) e mais obviamente relacionados com problemas locais e por isso mesmo podendo tornar este tipo de medida mais aceitável politicamente. No entanto, é importante referir que parte do aumento da mobilidade automóvel nos últimos anos, teve lugar em zonas suburbanas dispersas, fora dos centros das cidades – uma politica de tarifação adicional da mobilidade em automóvel, para ter mais sucesso na redução das emissões, deveria ir para além dos portejamentos urbanos que, por si só, poderão provocar as deslocalização de actividades e viagens para fora dos meios urbanos, exacerbando a dispersão urbanística. Serão necessários estudos deste tipo de efeito à escala metropolitana, de forma a encontrar políticas de tarifação integradas e equilibradas8. Para além da redução da mobilidade, consequência dos mecanismos de tarifação, a melhor oferta de modos alternativos deverá constituir o elemento chave para a transferência modal para modos que emitam menos CO2. Para que seja possível consideráveis reduções de emissões, o aumento da oferta de transportes públicos, a integração tarifária e a gestão integrada de interfaces em zonas urbanas, deverá ser o desígnio principal das futuras autoridades metropolitanas de transportes. Igualmente dever-se-á procurar a implementação, tanto a nível local como nacional, de politicas de suporte aos modos suaves. A nível nacional é imprescindível a alteração do Código da Estrada de forma a pôlo a par com outros países europeus, onde os peões e os ciclistas têm mais elevados graus de protecção. A nível local é necessária a implementação de protocolos entre a administração local e central para que se implementem políticas de apoio, protecção e incentivo aos modos suaves. Este tipo de incentivo passa também pela alteração do paradigma e melhoria do desenho do espaço público e politicas de ordenamento do território que diminuam as distâncias entre actividades. A gestão do estacionamento é a mais simples e eficiente forma de restrição ao acesso automóvel aos centros urbanos e incentivo ao uso de modos alternativos. Este tipo de medida deverá desde já começar a ser implementada 6 Apesar de consequências semelhantes, o aumento do preço da matéria-prima, não permitirá os efeitos redistribuidores do aumento dos impostos, como por exemplo, fortes investimentos em transporte públicos. 7 Tarifação variável de motoristas de acordo com a distancia percorrida, hora do dia e quantidade de congestionamento na via em que se encontra. 8 Apesar de que a decisão de implementação final ter que ser tomada ao nível autárquico, o que pode ser um problema para chegar a tomadas de decisão acertadas e consertadas. em zonas urbanas densas e onde já existam Transportes Públicos. Para estes locais, os municípios e a administração central deverá usar e estabelecer índices máximos de estacionamento. Isto é, edifícios localizados em zonas com fácil acesso em TP ou modos suaves, não deverão ultrapassar um determinado número de lugares de estacionamento por metro quadrado. Igualmente, deverão existir politicas para que lugares de estacionamento sejam progressivamente retirados de zonas servidas por transporte público – primeiro à superfície de forma a tornar as deslocações em modos suaves mais confortáveis aumentando a qualidade do espaço público e de seguida transformando estacionamento subterrâneo noutro tipo de uso. Fazer com que a carga fiscal contemple a “oferta” de estacionamento ou automóvel por parte das empresas. Ou mesmo benefícios a trabalhadores que não usem estacionamento nos seus locais de emprego, poderá ser uma das políticas de gestão de estacionamento a incentivar. Um ordenamento do território que encoraje o estabelecimento de zonas urbanas mais compactas e plenas de diversidade funcional é um elemento fundamental para reduzir o uso do automóvel. A dispersão urbanística das últimas décadas tem sido uma das razões principais para o disparar das emissões de CO2 em Portugal. É imprescindível a integração de políticas de ordenamento do território com as consequências ambientais e económicas da dependência do automóvel. Políticas que sinalizem esta relação devem ser integradas na nova geração de planos de ordenamento, a exemplo da política ABC holandesa9 ou a densificação linear de Curitiba ou Portland. Outro tipo de medidas que poderão reduzir as necessidades de mobilidade, poderão incluir o incentivo ao tele-trabalho, a generalização das teleconferências e o aumento de compras pela Internet. No entanto, todos estes tipos de comportamentos poderão gerar outro tipo de viagens para outros motivos, uma vez que o consumidor terá a tendência de ocupar com mais viagem os “ganhos” de tempo permitidos pelas tecnologias de informação. No entanto, esta forma de paradoxo de Jevons aplicado ao tempo disponível, não deverá anular as reduções de CO2. Mais significativo será o estímulo à viagem pelo aumento das interacções comerciais e sociais, consequência do exacerbar de fluxos em rede. Nos últimos anos, o resto da Europa têm utilizado uma panóplia de ferramentas com o objectivo de levar os condutores a mudar de modo de transporte. Planos de Mobilidade para empresas, estabelecimentos de ensino e hospitais e outro tipo de organizações com elevado número de pendulares, podem constituir elementos importantes para auscultar as necessidades de mobilidade local e alterar a oferta de modos alternativos para formas mais apelativas. Deste modo, 9 Politica de integração do ordenamento do território e transportes, entretanto substituída por outros tipos de politica com mais especificidade geográfica. Dividia as empresas em perfis de mobilidade: A – Empresas onde menos de 20% dos movimentos pendulares seriam feitos de automóvel, eram localizadas em locais A de fácil acesso em Transporte Público e acesso em TI limitado. Nestes locais é permitida maior densificação e é estabelecido um máximo de 1 lugar de estacionamento por cada 10 empregados, C – Empresas onde mais de 30% dos empregados se deslocam de automóvel e eram localizadas em zonas C com boa acessibilidade automóvel, junto a nós de auto-estrada. Empresas com o perfil B seriam casos intermédios entre o o perfil A e C. procura satisfazer-se a acessibilidade quem necessita de se deslocar de, e para, estes locais. Campanhas tradicionais de divulgação de modos de transportes alternativos ao automóvel ou, mais recentemente, o “marketing individualizado” com soluções especificas para cada utente, são também frequentes no resto da Europa e ainda técnicas pouco usadas em Portugal. Deverá também existir apoios ao aparecimento de Clubes de Automóveis Partilhados (Car-Sharing), assim como, esquemas de partilha de boleias (Car-Pooling). É também fundamental informar o consumidor das externalidades das suas opções – esta informação pode inclusivamente ser transformada em obrigação legal no caso da publicidade e venda dos automóveis. Uma medida de fácil implementação, que pode ser classificada com Gestão da Procura de Transportes, mas com incidência na eficiência no uso dos veículos motores, é a redução das velocidades, quer através da fiscalização mais eficaz dos limites actuais, quer através da redução destes. Este tipo de medida tem óbvias e enormes vantagens na redução de outras externalidades, tais como a qualidade do ar e a redução dos acidentes de viação. 3. Opções tecnológicas A Tecnologia não pode ser a única forma de reduzir as emissões de CO2: Há ainda muitas dúvidas em relação ao nível de redução que pode ser conseguido em termos de tecnologia dos veículos, assim como assegurar combustíveis com baixas emissões de carbono em todo o seu ciclo de produção “well-to-wheel”10; Aumentos na eficiência são, em certa medida, reduzidos pelo aumento das distâncias percorridas; É essencial que as reduções de carbono sejam conseguidas o mais cedo possível, para atingir metas intermédias e sem ter que se depender de incertezas tecnológicas de que Portugal tem pouco controlo. Nas opções tecnológicas que conduzem directamente à redução de emissões de carbono na atmosfera, temos duas formas essenciais: a melhoria da eficiência do veículo (factor 2) e a redução das emissões por unidade de combustível (factor 3). Eficiência do veículo A melhoria dos veículos tradicionais através de alterações tecnológicas poderá trazer no futuro consideráveis aumentos na eficiência dos automóveis com motores de combustão e combustíveis tradicionais. Este tipo de tecnologia pode 10 O total das emissões do ciclo completo desde o “poço” petrolífero até ao “tanque” do automóvel. não envolver alterações de motor, por exemplo a redução do peso do veículo, melhoria dos pneus, tecnologias para reduzir a energia necessária para operar equipamentos de bordo. No entanto, os grandes saltos tecnológicos, mas também os mais incertos, serão na tecnologia do motor: a vulgarização de veículos híbridos, veículos com motores capazes de usar vários tipos de combustível (os flexi-fuel), veículos totalmente eléctricos ou mesmo movidos a células de combustível alimentadas a hidrogénio. Portugal não poderá directamente encorajar o fabrico de veículos mais eficientes, poderá no entanto adoptar políticas que encorajem a sua aquisição, acelerando a renovação da frota automóvel. No caso dos híbridos, a perspectiva de ultrapassar a barreira dos custos será mais fácil pela existência de vários graus de hibridação (full, mild, light) que são apropriados para diferentes classes de veículo. Este factor permite latitude no design e poderá ajudar a conter os preços. As baterias são responsáveis por uma porção do agravamento do preço de veículos híbridos. A melhoria da tecnologia das baterias pode ajudar a reduzir o custo e aumentar a difusão de híbridos plug-in, um das chaves possíveis para a electrificação dos sistemas de transportes. O hidrogénio, apesar do sector dos transportes apresentar dificuldades acrescidas ao seu uso, poderá constituir uma das grandes promessas de longo prazo. Será necessário ultrapassar barreiras tecnológicas (nomeadamente a distribuição e transportabilidade) que a sua utilização noutros sectores tem menos relevância. No entanto, não sendo uma fonte de energia, a quantidade de emissões de carbono estará sempre dependente da forma como é produzido. Este factor, e a concorrência com outro tipo de combustíveis e mesmo o carro eléctrico, poderão constituir elementos insuperáveis para que a tão propalada economia do hidrogénio tenha dificuldade em se concretizar antes de 2040. No entanto, os ganhos de eficiência dos veículos, se não forem acompanhadas de políticas de gestão da procura, implicarão sempre um aumento das distancias percorridas, anulando parte das reduções de emissões conseguidas e produzindo externalidades bem mais graves que os ganhos de eficiência entretanto conseguiram. Eficiência do combustível No que diz respeito à eficiência de carbono dos combustíveis, apesar de já existirem vários tipos de combustível mais eficientes que a gasolina e diesel tradicionais, continuam ainda a ser estes os combustíveis mais viáveis em termos económicos. O aumento do preço do barril do petróleo poderá no entanto a alterar consideravelmente a situação. Os agro-combustíveis apresentam graves problemas ambientais e, segundo a OCDE11 e FAO12, a procura crescente de matéria prima está a gerar alterações decisivas e estruturais nos mercados agrícolas que podem conduzir a uma pressão nos preços de muitos produtos agrícolas e dos bens alimentares no longo prazo. Estudos recentes parecem confirmar a ideia que os biocombustíveis produzidos à base da colza, muito usada na Europa para o biodiesel, e o milho, que nos EUA está na base do etanol, podem ser piores para as alterações climáticas do que os combustíveis fósseis13. A esperança recai agora nos biocombustíveis de segunda geração e na diversificação e controlo na produção de matérias-primas para biocombustíveis de primeira geração, que têm um balanço carbónico mais favorável que os combustíveis fósseis. O Etanol é particularmente eficiente e vários estudos têm comprovado a sua vantagem, restam porém os problemas relacionados com a biodiversidade e a necessidade de controlo na produção dos padrões de protecção ambiental. Os materiais celulósicos para a produção de etanol de segunda geração, apesar de promissores no balanço de emissões, poderão constituir uma ameaça no que diz respeito à erosão dos solos, se a sua recolha for feita de forma descontrolada. O hidrogénio terá que ser no futuro produzido essencialmente com energias renováveis de modo a ser verdadeiramente vantajoso em todo o seu ciclo energético. O uso do nuclear para a sua produção, apesar de evitar parte das emissões de carbono para a atmosfera, prosseguiria um paradigma de produção energética centralizada e de pouco rendimento, pouco consentâneo com o consumo necessariamente descentralizado do sector dos transportes. Quadro 1 – Evolução das tecnologias de energia centralizada até ao horizonte de 2020 Tecnologias Híbridos Eléctricos Células de combustível 11 Descrição Veículos mais eficientes (i) Veículo com motor de combustão interna combinado com um motor eléctrico. Poderá progredir para plug-in. (ii) Veículos com motor exclusivamente eléctrico. (iii) Veículos movidos a hidrogénio 2007 2010 2020 ? Doornbosch, R., Steenblik, R. Biofuels: is the cure worse than the disease? SG/SD/RT(2007)3. Round Table on Sustainable Development, Organisation for Economic Co-operation and Development, Paris, 2007. Recomenda que: “Governments should cease to create new mandates for biofuels and investigate ways to phase them out, preferably by replacing them with technology-neutral policies such as a carbon tax.”. 12 OECD-FAO Agricultural Outlook 2007-2016 13 Crutzen, P. J., Mosier, A. R., Smith, K. A., and Winiwarter, W. N2O release from agro-biofuel production negates global warming reduction by replacing fossil fuels, Atmos. Chem. Phys. Discuss., 7, 11191-11205, 2007 Tecnologias Biodieasel Bioetanol Gas Natural GPL Hidrogénio Descrição Combustíveis Alternativos (iv) O biodiesel é um combustível produzido a partir de óleos vegetais, compatível com a utilização em motores diesel convencionais. (v) Combustível produzido a partir da fracção bio-degradável de resíduos que contenham quantidades apreciáveis de açúcares ou outros materiais que possam ser convertidos em açúcares, como o amido, a inulina ou a celulose. (vi) Combustível fóssil gasoso com baixo teor de carbono (vii) Mistura de gases de hidrocarbonetos utilizado como combustível (viii) Combustível que poderá ser usado para alimentar pilhas de combustível 2007 2010 2020 ? Legenda: Tecnologia pré comercial Tecnologia comercial Tecnologia em expansão n.d. não disponível (i) Já comercializado em Portugal, mas com baixa penetração no mercado com tendência a aumentar. (ii) Apesar de já existirem no mercado alguns veículos totalmente eléctricos, têm ainda muitas desvantagens relativamente aos tradicionais e híbridos, sobretudo a nível do armazenamento, elevado custo e fraca durabilidade dos componentes. Comercialização sem relevância actualmente, com potencialidades de futuro. (iii) Grandes incertezas em relação ao futuro da tecnologia, com possibilidades de comercialização relevante a partir de 2020 (iv) Forte investimento da GALP para produção de biodiesel de segunda geração nos próximos anos em Portugal, mas com matéria-prima importada. (v) Atraso na publicação da portaria que regulamenta a produção e venda de etanol faz com que ainda não seja comercializado em Portugal. Existe a possibilidade de produção nacional de matéria prima a médio-prazo, sendo importante acautelar o balanço de carbono do ciclo completo e os impactos ambientais. (vi) Utilizado quase só em frotas de Transporte Público, mas ainda com pouca expressão. Incertezas relativas às instabilidades geopolíticas e à evolução dos preços. (vii) Utilizado e comercializado em Portugal, mas com pouca expressão. (viii) Não sendo uma fonte de energia, está sempre dependente das fontes de energia primárias que o produzem. Poderá não ser a tecnologia ideal para transportes, considerando os problemas de distribuição e transmutabilidade. A introdução do hidrogénio para alimentar pilhas de combustível implicará a reconversão da frota automóvel e o estabelecimento de todo um novo sistema de distribuição, ao contrário do que acontece com os biocombustíveis. 4. Politicas e medidas para o futuro Na escolha das medidas à disposição para o futuro há cada vez mais a necessidade de dar um maior ênfase ao uso de um pacote sinergético de medidas, para que cada uma se complemente e constitua um contrabalanço a quaisquer possíveis efeitos negativos. Numa realidade complexa como os transportes, é necessário ter em conta que todas as medidas têm efeitos cruzados e por vezes indesejados, mas também algumas com fortes capacidades de sinergia. Quadro 2 – Políticas e Medidas de carácter nacional e local para a redução das emissões Estratégia A –Mecanismos de tarifação Portejamentos Urbanos Objectivo principal Eficácia Observação Redução da mobilidade motorizada Média Efeitos secundários positivos elevados (aumento dos uso de TP e modos suaves, redução do congestionamento, aumento da qualidade do ar, etc.). Possível incentivo à dispersão urbanística Os mesmo efeitos positivos que a medida anterior, mas com efeitos mais abrangentes e com a possibilidade de equilibrar alguns dos efeitos negativos dos portejamentos urbanos. O previsível aumento do preço do barril de petróleo já terá um efeito semelhante sem no entanto permitir a possibilidade de reinvestir as receitas no sistema de transportes. Tarifação Nacional da Mobilidade Motorizada. Aumento dos combustíveis Estratégia B - Oferta de modos alternativos Investimento em PT Parques Dissuasores Faixas de Alta Ocupação Elevada Redução da mobilidade motorizada Elevada Objectivo principal Eficácia Observação Redução da mobilidade motorizada Elevada Deverá sempre ser acompanha de mecanismos de tarifação ou restrição ao TI. Gestão intermodal de interfaces e integração tarifária com o estacionamento Com o efeito secundário da redução de espaço rodoviário existente Média Estratégia C - Gestão do Estacionamento Normativas com limites máximos e não os habituais limites mínimos Aumentos de preço e diminuição da oferta nos centros urbanos Benefícios salariais pelo não-uso de estacionamento E – Outras Medidas de Gestão da Procura Incentivos ao Teletrabalho Incentivos ao CarSharing e Car-Pooling Planos de Acessibilidade e Transportes para Organizações (PATO) Campanhas e Marketing Individualizado Eficácia Observação Redução da mobilidade motorizada Média Publicação de manuais de Boas Práticas para utilização em planos municipais e obras públicas Publicação de manuais de Boas Práticas para utilização em planos municipais Ponderar políticas fiscais de forma a cobrir a oferta de estacionamento por parte de empresas Média Preferência por requalificação e reabilitação urbanística em cascos urbanos Áreas de expansão densas, próximas de TP e com bom desenho urbano propício à marcha a pé e uso da bicicleta Estratégia Objectivo principal Elevada Estratégia D - Ordenamento do Território Média Objectivo principal Eficácia Observação Redução da mobilidade motorizada Elevada Longo prazo com aumento do uso de modos de transportes mais eficientes Elevada Reconversão de brown-fields e tratar os o acesso do TP como qualquer outra infra-estrutura de serviço básico (agua, esgotos, etc.) Objectivo principal Eficácia Observação Redução da mobilidade motorizada Baixo Possibilidade de aumentar a mobilidade para outros fins Funcionam melhor quando aplicado em conjunto com medidas de restrição ao estacionamento Começar com Boas Práticas em organismos do estado Média Baixo Baixo Vantagem de escolher público-alvo e de acordo com as possibilidades de alteração de comportamento Estratégia F - Melhoria das condições de Tráfego Redução das velocidades pelo aumento da fiscalização ou redução dos limites Eco-condução Objectivo principal Eficácia Observação Poupança de Combustíveis Elevada Elevados impactos positivos na redução dos acidentes rodoviários, aumento do uso dos TP ferroviários inter-urbanos e melhoria da qualidade do ar. Introdução do conceito no currículo de aquisição de carta de condução, poderá levar ao aumento da mobilidade com os efeitos negativos associados. A utilização da telemática poderá levar ao aumento da mobilidade com os efeitos negativos associados. Baixa Melhoria da fluidez através da optimização das infraestruturas existentes. Estratégia G - Incentivos à compra de veículos mais eficientes Disseminação de informação relativa às externalidades Medidas fiscais de incentivo à aquisição de veículos mais eficientes Agravamento fiscal sobre veículos menos eficientes Baixa Objectivo principal Eficácia Observação Poupança de Combustíveis Média Com a vantagem adicional que contribui para a contenção da motorização Veículos mais eficientes contribuem para aumentar a mobilidade com os efeitos negativos associados Com o mesmo problema que a medida anterior pode também estimular a troca mais frequente de veículo Estimula a troca mais frequente de veículo. Deverá também contemplar a possibilidade de desistência de motorização, mantendo o incentivo, mesmo que não haja aquisição de novo veículo. Baixa Média Incentivo ao abate de veículos em fim de vida Estratégia H – Incentivo ao uso de combustíveis baixo teor de carbono Vantagens fiscais para a produção e comercialização de combustíveis alternativos Baixa Objectivo principal Eficácia Observação Menores emissões por unidade de combustível Média Subsídios indirectos à mobilidade. Competição com a industria alimentar e possibilidade de impactos ambientais significativos no caso dos bio-combutíveis. Do quadro resumo 2, podemos concluir que as medidas que se poderão apelidar de Gestão da Mobilidade (A, B, C, D e E), para além de terem todas um impacto positivo na redução das emissões dos gases de efeito de estufa, têm também um efeito positivo muito grande na melhoria da acessibilidade e equidade do sistema de transportes, com enormes vantagens ambientais e sociais. Este tipo de medidas, ao reduzir a mobilidade automóvel, quer por transferência para modos mais sustentáveis, quer por optimização do uso do solo, terão grandes impactos positivos não só no cumprimento das metas de emissões, como também na melhoria da qualidade de vida em especial dos meios urbanos. Em contrapartida as estratégias que visam a poupança de combustíveis (F e G) apesar de conseguirem, em algumas casos, importantes reduções de emissões de GEE a curto-médio prazo, estimularão também a mobilidade automóvel, pela redução dos custos associados, se ao mesmo tempo não forem implementadas medidas de Gestão da Mobilidade. Este aumento da quilometragem (“rebound”) poderá não ser muito significativo na perda de eficiência associada à redução de emissões, mas em algumas das medidas terá um grande impacto em todas as outras externalidades negativas associadas ao aumento das distancias percorridas pelo automóvel. Finalmente as medidas do tipo H, que visam incentivar o uso de combustíveis alternativos, poderão constituir subsídios indirectos à mobilidade motorizada que, no caso dos biocombustíveis, está em competição directa com a produção alimentar que poderá criar fortes tensões éticas e geopolíticas. Acresce que este estímulo à produção de biocombustíveis pode exacerbar os impactos ambientais associados ao cultivo das matérias-primas e falsear o custo de oportunidade caso certos recursos sejam desviados para a produção de combustíveis – por exemplo, comparado com o biodiesel, 3 a 10 vezes mais CO2 equivalentes podem ser poupados na produção de electricidade por biomassa14. Assim, recomenda-se que em vez de colocar o ênfase em soluções tecnológicas com eficácia duvidosa no plano global e estratégico e com incertezas crescentes quanto aos impactos ambientais e socio-económicos, se deveria enveredar por medidas de Gestão da Mobilidade, apoiadas pelo progresso tecnológico, mas ao serviço de objectivos estratégicos mais abrangentes e que incluam obviamente a redução das emissões de carbono15. É necessário a promoção de uma nova cultura de mobilidade onde o aumento da acessibilidade é valorizado e não o mero aumento da mobilidade. O aumento da acessibilidade consegue-se através de politicas de ordenamento do território que diminuam as distâncias entre actividades, políticas integradas que melhorem a acessibilidade aos transportes públicos, racionalizem a gestão do estacionamento e invistam fortemente no espaço público para que aumente o uso dos modos suaves. Se um sistema de transportes com baixas emissões de carbono for considerado restritivo, difícil de usar e caro, então será difícil de promover a necessária mudança. Por outro lado, uma nova cultura da mobilidade pode ser associada a estilos de vida mais atraentes e cosmopolitas, onde é possível deslocarmo-nos com menos stress, num ambiente mais limpo e mais seguro. Mário J Alves Novembro de 2007 14 Kampman, B.E. et al.. Biomass: for vehicle fuels or power generation? CE: Solutions for environment, economy and technology, Novembro, 2003 15 Bruxelas, 25.9.2007, COM(2007) 551 final, LIVRO VERDE: Por uma nova cultura de mobilidade urbana