TÍTULO: Casas de Farinha em Mataraca - Fortalecimento Cultural, Social e Econômico. AUTORES: Luiza Botelho Lima - [email protected]; Orientadoras: Ana Valéria Endres e Zulmira Nóbrega ÁREA TEMÁTICA: CULTURA INSTITUIÇÃO: UFPB Introdução A abrangência do projeto de extensão Planejamento Participativo e Comunicação: Contribuições para o Desenvolvimento Turístico de Mataraca-PB, de autoria das professoras Ana Valéria Endres e Zulmira Nóbrega, permitiu a elaboração, por parte dos estudantes extensionistas, de projetos paralelos mais específicos, sustentados pela vertente do “planejamento turístico participativo”. O projeto Casas de Farinha em Mataraca – Fortalecimento Cultural, Social e Econômico, ainda em fase inicial, consiste então em uma ramificação daquele, contribuindo para a consecução de seus objetivos. O município paraibano de Mataraca representa um destino turístico em desenvolvimento, impulsionado principalmente pelos seus atrativos naturais, dos quais se destaca a praia de Barra de Camaratuba. Para Beni (1998, p.271), um atrativo turístico corresponde a “todo lugar, objeto ou acontecimento de interesse turístico que motiva o deslocamento de grupos humanos para conhecê-los” e classifica-se em natural, histórico-cultural, manifestações e usos tradicionais e populares, realizações técnicas científicas e contemporâneas e acontecimentos programados. Além da riqueza natural, a cidade ainda apresenta uma grande vocação para o turismo cultural – dentre outras razões, pela presença de casas de farinha, potenciais atrativos histórico-culturais e sujeitos deste estudo. A relevância destes espaços configura-se nos aspectos histórico, cultural, econômico e social, tornando-os um poderoso instrumento para o município. Além de corresponderem a um potencial atrativo turístico, tais casas podem ser palco do resgate de costumes (recuperando a identidade e a memória locais), promover a auto- sustentabilidade quanto à farinha de mandioca e o lucro com a sua venda, e abrigar um grande exemplo de trabalho participativo eficaz. As casas de farinha são locais onde ainda se produz a farinha de mandioca, reuniam-se escravos e desenvolviam-se diversas manifestações culturais. Quanto à sua importância histórico-cultural, podem ainda ser citadas a manutenção da estrutura da casa e de alguns instrumentos utilizados no período colonial, o fortalecimento da linguagem de origem indígena usada para nomear fases e produtos do processo de fabricação da farinha e do canto executado durante o trabalho. A comercialização e o consumo da farinha e dos pratos que a utilizam como base ilustram o valor econômico destes espaços. Quanto ao caráter social, no processo produtivo das casas de farinha, observa-se uma forte cooperação nas relações sociais e a participação de todos na produção da riqueza, modelo que poderia transcender à extensão da casa, e fortalecer a cidadania e a capacidade participativa da população em âmbito geral. A cooperação, conclui Marx, consiste no modo fundamental da produção capitalista, pois proporciona, dentre outras vantagens, a realização da verdadeira força de trabalho social (CAFIERO, 1987). Conforme Molina e Rodríguez (2001), apenas com base em compromissos socialmente extensos, algumas questões que ameaçam a estabilidade e o progresso de nações poderão ser resolvidas. Um planejamento turístico participativo e sustentável, que valorizasse primordialmente as necessidades da população local, respeitando os limites da natureza, seria uma eficiente forma de atrair turistas, acelerando o processo de revitalização das casas de farinha, devido ao dinheiro advindo da atividade e da mobilização popular para reforçar seus costumes e práticas culturais. Referencial Teórico: Sustentabilidade, Turismo Cultural e Cidadania Os diversos âmbitos nos quais se insere a atividade turística tornam-na um fenômeno complexo, causador de vários impactos nas localidades receptoras. Estes não possuem necessariamente um caráter negativo; muitos benefícios podem advir da atividade, sobretudo se a sua implementação estiver atrelada a um eficiente planejamento dotado de consciência ética, responsabilidade, respeito e que enfatize a participação da comunidade autóctone. O lucro obtido com o turismo corresponde geralmente à maior preocupação do Estado e do profissional do ramo, prevalecendo sobre as questões ambientais, sociais e culturais inerentes a este processo (PAIVA,1995). Muitas mazelas sociais são decorrentes da ambição capitalista global, a qual apenas visa à melhoria nos setores lucrativos. A presença de inovações tecnológica, de estudos especializados e de capital, ainda não supriu a ausência de vontade ética e política. A atividade turística deve estar indissoluvelmente ligada ao conceito de sustentabilidade, garantindo o bem-estar das populações envolvidas, bem como o das gerações futuras (RODRIGUES, 2002). Voinov afirma que “um pré-requisito importante para a sustentabilidade é o balanço entre o desejo da sociedade e as capacidades ecológicas” (apud FARIA e CARNEIRO, 2001, p.14). Apesar do conceito de “desenvolvimento sustentável” constituir assunto largamente discutido, o mesmo ainda se mostra de difícil consecução. Após a Eco-92, esse conceito tornou-se um discurso fácil, um objetivo desejado por todos e, por isso, politicamente adotado e reproduzido sem que se avaliem seu significado e viabilidade. Segundo Swarbrooke (2000), o turismo cultural deve corresponder a um turismo sustentável, no entanto, diversos são os casos em que aquele nada contribui para a implantação deste. Por exemplo, alguns aspectos acarretados pela prática do turismo cultural como a má e a super-utilização de sítios culturais, a falta de envolvimento e de participação da comunidade local e a adaptação das manifestações culturais às exigências comerciais não condizem com os princípios de sustentabilidade. O turismo cultural deve lidar com dois elementos básicos: a identidade dos povos e a diversidade cultural, tendo como princípios a subsidiaridade – aderindo o turista à realidade local – e a alteridade – havendo o respeito às diferenças (IRVING e AZEVEDO, 2002). A motivação central desta modalidade de turismo concentra-se na busca do conhecimento, na troca de experiências e na vivência da alteridade por parte dos turistas e residentes. O contato entre estes não pode visar à substituição de identidades, mas à articulação entre elas (BANDUCCI e BARRETO, 2001). Demo (1999) considera a cultura um processo de identificação comunitária, sendo a motivação mais imediata à participação. Os integrantes de uma comunidade devem encontrar traços comuns entre si para que esta se materialize, organize e mobilize. “As vantagens comparativas da participação nos estágios iniciais de concepção de um projeto de desenvolvimento são inúmeras, a começar pelo saber compartilhado da problemática local e pela identificação de necessidades essenciais a serem incorporadas na visão de projeto” (IRVING e AZEVEDO, 2002, p. 43). A substituição dos modelos tradicionais de administração centralizada por processos participativos contribui para a sustentabilidade local, criando campos favoráveis para a justiça social, o fortalecimento do poder de reivindicação e a formação do cidadão. A cidadania é a qualidade de cidadão, qualidade de uma pessoa que possui, em uma determinada comunidade política, o conjunto dos direitos civis e políticos. O cidadão possui seus direitos e deveres, dentre eles respeitar e cuidar da comunidade e dos seres vivos e minimizar o esgotamento dos recursos não-renováveis, almejando uma melhor qualidade de vida para si e para seus descendentes. “A cidadania só se constrói com o reconhecimento e respeito pela muitas formas de se viver e de se pensar o mundo” (FUNARI e PINSKY, 200). A turistificação das casas de farinha de Mataraca poderá permitir aos visitantes a inserção em uma realidade peculiar, adquirindo novos conhecimentos e satisfazendo os seus desejos, e à comunidade local, um fortalecimento cultural, social e econômico, caso ocorra a implementação de um planejamento turístico participativo, baseado em princípios de sustentabilidade e desenvolvimento local. Considerações Finais Atualmente, as casas encontram-se subutilizadas e desvalorizadas. O objetivo deste projeto consiste em envolver a comunidade no processo de resgate e fortalecimento dos seus valores culturais, sociais e históricos, no contexto do uso da casa de farinha, investindo na sua revalorização e tornando, conseqüentemente, o local cada vez mais propício para a visitação turística e para a produção. Para tanto, será imprescindível a utilização da educação como dinamizadora de um processo de mudança, por meio de um método ativo, dialogal e participativo (FREIRE, 1979), abordando temas como a importância do ciclo da mandioca, seus derivados e o processo de fabricação da farinha, sobretudo com crianças, para que valorizem o trabalho do homem do campo; e do turismo como fator de desenvolvimento local e as condições para que isso ocorra (RODRIGUES, 2002). A metodologia adotada também se baseia na abordagem sistêmica do turismo (BENI, 1998), a qual permite uma visão concomitantemente detalhada e holística deste complexo fenômeno, e utiliza pesquisa bibliográfica, documental e pesquisa-ação (DUNCKER, 1998), atentando-se para a história da construção e usufruto das casas de farinha na região. A familiarização da comunidade com a realidade da colheita da mandioca, da fabricação da farinha e do preparo de receitas feitas com este produto – através de passeios, visitas e exposições alimentícias – e com os possíveis impactos positivos e negativos do turismo – por intermédio de debates e oficinas – dentre outras, corresponde a uma providência necessária para atrair a participação da comunidade no projeto. Participação esta que implica a existência de sujeitos autônomos, conscientes de suas capacidades. Por ainda encontrar-se em processo de execução, nem todas as etapas deste projeto foram efetuadas. Encontros com a comunidade local, conversas com a proprietária de uma casa de farinha em Mataraca, debates sobre as implicações do turismo, vivência do processo de fabricação da farinha de mandioca e da confecção do beiju já foram realizados. A população mostra-se até então entusiasmada com a possibilidade de desenvolvimento turístico local e convicta da sua potencialidade. A interferência na casa de farinha não pode visar apenas à atração de turistas; para Barretto (2000), a banalização de rituais e costumes e a adaptação da história para agradá-los prejudicaria o valoroso significado do patrimônio cultural, neste caso a casa de farinha, impedindo as novas gerações de conhecerem fatos fidedignos dos seus antepassados. De acordo com Mckean (1995, p.133): “O turismo pode ser visto não como sendo inteiramente uma busca de prazer banal ou escapismo, mas como um profundo, amplamente compartilhado desejo humano de conhecer ‘outros’, com a possibilidade recíproca de nós podermos vir a conhecer a nós mesmos”. A conscientização da população de que este projeto será importante para a melhoria da sua qualidade de vida, e que consistirá em um trabalho feito por e para eles, será um passo fundamental para a sua concretização. Como defendia Florestan Fernandes (apud LIMA, 1983), o estilo de pensar a realidade social pode ser um modo de iniciar a sua transformação. A relevância do estudo estaria na sua intenção de auxiliar no fortalecimento de um rico espaço, o qual pode proporcionar à população de Mataraca a melhoria da qualidade de vida, através da renda gerada pelo turismo e pela venda da farinha; o aumento da auto-estima, visto que terão sua memória e costumes valorizados; e a conscientização da importância do poder da participação e da cidadania na luta por um futuro coletivo mais justo e equânime (AMORIM, 2000). Referências Bibliográficas • AMORIM, Sônia Naves David. Ética na Esfera Pública: a Busca de Novas Relações Estado/Sociedade. Revista do Serviço Público, ano 51, número 2, abr-jun 2000. • BANDUCCI JR., Álvaro; BARRETTO, Margarita (orgs.). Turismo e Identidade Local – uma Visão Antropológica. Campinas, SP: Papirus, 2001. • BARRETTO, Margarita. Turismo e Legado Cultural. Campinas, SP: Papirus, 2000. • CAFIERO, Carlo. “O Capital”: uma Leitura Popular. Tradução Mario Curvello. São Paulo: Editora Polis, 1987. • BENI, Mário Carlos. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: Editora SENAC, 1998. • DEMO, Pedro. Participação é Conquista. Noções de Política Social Participativa. São Paulo: Cortez, 1999. • DENCKER, Ada de Freitas Maneti. Métodos e Técnicas de Pesquisa em Turismo. São Paulo: Futura, 1998. • FARIA, Dóris Santos de; CARNEIRO, Kátia de Saraiva. Sustentabilidade Ecológica no Turismo. Brasília: Editora Universitária de Brasília, 2001. • FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. • FUNARI, Pedro Paulo; PINSKY, Jaime (orgs.). Turismo e Patrimônio Cultural. São Paulo: Contexto, 2002. • IRVING, Maria de Azevedo; AZEVEDO, Júlia. Turismo – O Desafio da Sustentabilidade. São Paulo: Futura, 2002. • LIMA, Sandra Amêndola Barbosa. A Participação Social no Cotidiano. São Paulo: Editora Cortez, 1983. • MCKEAN, Philip Frick. Toward a Theoretical Analysis of Tourism. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1995, pp. 119-138. • MOLINA, Sergio; RODRÍGUEZ, Sergio. Planejamento Integral do Turismo: Um Enfoque para a América Latina. Tradução Carlos Valero. Bauru: EDUSC, 2001. • PAIVA, Maria das Graças de Menezes. Sociologia do Turismo. Campinas, SP: Papirus, 1995. • RODRIGUES, Adyr Balastreri (org.). Turismo e Desenvolvimento Local. São Paulo: Hucitec, 2002. • SWARBROOKE, John. Turismo Sustentável – Vol. V: Turismo Cultural, Ecoturismo e Ética. Tradução Saulo Krieger. São Paulo: Aleph, 2000 (Série “Turismo”).