UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU INSTITUTO A VEZ DO MESTRE BRINCADEIRA É COISA SÉRIA! O OLHAR DA PSICOMOTRICIDADE Por: Alessandra Regina de Oliveira Orientadora Prof.(a) Fabiane Muniz Rio de Janeiro 2009 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” PROJETO A VEZ DO MESTRE BRINCADEIRA É COISA SÉRIA! O OLHAR DA PSICOMOTRICIDADE Apresentação de Candido Mendes obtenção do monografia como grau à requisito de Universidade parcial para especialista em Psicomotricidade. Por: Alessandra Regina de Oliveira. 3 AGRADECIMENTOS A Deus, primeiramente, por ter me dado a oportunidade de viver nessa Terra. A minha família que me incentiva e comemora a cada conquista. Ao meu namorado e amigo Rafael que esteve sempre ao meu lado durante o processo de elaboração deste trabalho, agüentando a “barra”. A minha orientadora Fabiane Muniz que me acolheu atenciosamente. Aos meus amigos que fazem parte da minha história de vida, em especial, Natalí, Vilma, Danilo, Graham Bell, Silvana, Tássia, Cláudia, Paulo, Christie Campello, Andrea Mota e André Luiz. E finalmente a todos os meus alunos, que passaram e passam pela minha vida me tornando mais humana. 4 DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho ao meu pai Ubirajara, que não está mais entre nós aqui na Terra, mas continuo tendo a certeza que da onde está, torceu muito pela minha vitória. Muitas saudades... 5 EPÍGRAFE: “Não basta ensinar ao homem uma especialidade, porque se tornará assim uma máquina utilizável, mas não uma personalidade. É necessário que adquira um sentimento, um sensor prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto. A não ser assim, ele se assemelhará com seus conhecimentos profissionais, mais a um cão ensinado do que uma criatura harmoniosamente desenvolvida. Deve aprender a compreender as motivações dos homens, suas quimeras e suas angustias, para determinar com exatidão, seu lugar preciso em relação aos seus próximos e a comunidade”. Albert Einstein 6 RESUMO Esta monografia de pós-graduação é fruto da pesquisa referente a bibliografias que levam a reflexão da importância da integração teoria e prática para o melhor conhecimento do desenvolvimento do ser humano, dando continuidade ao estudo iniciado no curso de graduação. Tem como objetivo levar todos os interessados na constituição do indivíduo (educadores, psicomotricistas, pais,...) o conhecimento da brincadeira como uma atividade que faz parte naturalmente da vida, uma necessidade vital para a criança e em sua vida futura. Visando o desenvolvimento do ser integralmente, é preciso que a infância seja vivenciada e para isso deve-se permitir que a criança manifeste seu próprio brincar, seu jogo, sua história, criando vínculos, laços afetivos. Fazendo um profundo apoio para um melhor entendimento desse processo entra a Psicomotricidade, enxergando o homem como um sujeito desejante, com atitudes, fazendo refletir como um “simples” ato de brincar pode ser a base para uma vida adulta saudável. Neste presente trabalho, inicialmente será abordado o brincar. Em seguida, conceituada a Psicomotricidade e sua importância. Logo após, a brincadeira será relacionada com a Psicomotricidade como meio de oportunizar efetivas aprendizagens. E finalmente, uma pesquisa de campo, apresentando o brincar como fonte inesgotável da compreensão, da atuação, do sentido, do respeito, do afeto, do significado do mundo que se faz presente. 7 METODOLOGIA A metodologia utilizada neste trabalho monográfico baseia-se em um diverso campo bibliográfico. Embasado por meio da leitura de variados livros, sites, monografias, anais, programa de televisão, aulas do curso de pós-graduação e pesquisa de campo (através da coleta de dados vivenciados em uma unidade escolar). Refletindo sobre os estudos de vários autores, o brincar e a Psicomotricidade são definidos e relacionados. Dentre os estudiosos utilizados, destacam-se: Piaget, Vygotsky, Wallon, Winnicott, Lapierre, Levin, Elvira Lima, Diva Maranhão, Fátima Alves, entre outros. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................... 9 CAPÍTULO I O BRINCAR COM ALIADO NO PROCESSO ENSINO - APRENDIZAGEM .... 11 CAPÍTULO II CORPO VIVO: PSICOMOTRICIDADE............................................................. 16 CAPÍTULO III A PSICOMOTRICIDADE PROMOVENDO OPRTUNIDADES DE APRENDIZAGENS........................................................................................... 26 CAPÍTULO IV UM TRABALHO DE CAMPO: O RELATO DE UMA EDUCADORA................. 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 47 ÍNDICE ............................................................................................................. 50 FOLHA DE AVALIAÇÃO .................................................................................. 52 9 INTRODUÇÃO Este trabalho vem dar continuidade à pesquisa iniciada com a monografia apresentada na graduação, cujo tema foi Em Busca do Prazer em Aprender: O Brincar em Classes de Progressão, onde foram abordadas reflexões e questionamentos em torno de observações feitas durante o funcionamento de uma unidade escolar e com base em diversas leituras realizadas sobre o tema proposto. Unindo ao conhecimento obtido com o estudo anterior, o olhar da Psicomotricidade, observa-se que a brincadeira exerce um papel muito importante no desenvolvimento do ser. A forma utilizada pela criança para dar conta de sua evolução natural, para compreender-se e entender o mundo que está em sua volta é através do brincar. Entendendo o profundo significado que seu ato traz, pode-se trabalhar para a melhor formação de um indivíduo, sendo que quando não estudado, pode-se observar rupturas no processo de aquisição de conhecimentos, as rotuladas “deficiências”. A Psicomotricidade traz um olhar diferencial e para a compreensão do desenvolvimento das etapas da vida, conhecer sobre o brincar faz-se necessário. Com o intuito de explicitar o porquê da brincadeira ser uma atividade séria, que esta monografia foi desenvolvida e apresentada em quatro capítulos. O capítulo I aborda sobre o brincar, conceituando-o, discorrendo sobre sua influência na constituição do ser com base nos estudos de diferentes pesquisadores. O capítulo II vem relatando um breve histórico da Psicomotricidade e como sua atuação se faz de extrema importância no campo do movimento, do intelecto e do afeto. 10 Com o objetivo de mostrar a proposta psicomotricista como promotora de oportunidades de aprendizagem, através do brincar, vem referindo-se o capítulo III. E por fim, o capítulo IV, que como uma pesquisa de campo, discorre sobre uma prática pedagógica mostrando que é possível ensinar brincando. 11 CAPÍTULO I O BRINCAR COMO UM ALIADO NO PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM “Ludus est necessarius ad conversationem humana e vitae” “O brincar é necessário para (levar uma) a vida humana” (Tomás de Aquino, Suma Teológica II-II, 168, 3, ad 3) O processo educativo que se desenvolve na escola (e que vem tendo modificações), bem marcado pelo ensino tradicional, consiste na transmissão de conhecimentos e experiências acumuladas pelas gerações anteriores no decorrer do desenvolvimento histórico-social. Frequentemente, muitos alunos e alunas não correspondem aos processos esperados, aos tempos definidos, as expectativas, as cobranças externas. Pode-se dizer que existem nas salas de aula, crianças que não correspondem aos modelos de aprendizagem e desenvolvimento conhecidos há tempos e assim vão sendo percebidas, no cotidiano escolar, como crianças que “não aprendem”. Acreditando que o processo de aprendizagem efetivamente ocorre a partir do interesse do aluno, através de estímulos nessa caminhada, o professor assume um papel importante de facilitador, estimulador e provedor de oportunidades que possam gerar descobertas no progresso do educando. Levando e proporcionando o sorriso, o abraço, o toque, o olhar [...] o brincar para a sala de aula, novas oportunidades para a efetiva aprendizagem podem aparecer e mudanças começarem a acontecer. O ensino aliado ao brincar é notado desde o século IX d.c conforme carta dirigida ao primeiro imperador do sacro império romano, Carlos Magno: “Deve-se ensinar divertindo.”1 1 Disponível em: <http://www.hottopos.com/notand7/jeanludus.htm> Acesso em 08/01/2009. 12 Brincar, segundo o minidicionário Aurélio Século XXI é divertir-se infantilmente; entreter-se, fingindo-se de, e entreter é ocupar-se. Por meio da brincadeira as crianças desenvolvem suas potencialidades básicas, uma espontaneidade e individualidade de resposta à realidade, e, portanto, o autorespeito e um apetite saudável por experiências, conhecimentos e habilidades. Observando a criança brincando, se ocupando, pode-se descobrir quais as oportunidades de brincadeiras que devem ser oferecidas, para a liberdade de escolha de diferentes atividades. Como explicita Diva Maranhão (2007, p. 10): “Através da brincadeira, a criança cria uma ponte do imaginário para o real e manipula a realidade. É brincando de casinha que ela consegue entender as emoções que vivencia na realidade. Ao brincar, ela explora suas emoções, cria as hipóteses necessárias para o entendimento do que antes lhe parecia tão difícil.” Pelo brincar, no simbólico jogo de brincadeira, a criança experimenta situações que a faz compreender o mundo em sua volta. Assim ela dá asas a sua imaginação, testando habilidades sociais como ser enfermeiro (a), professor (a), motorista, além de trabalhar movimentos (correr, saltar, sentar, levantar, [...]) e de aprender as regras e limites, para entender o lado positivo e negativo de suas ações. Na brincadeira, a criança pode realizar os seus desejos não realizáveis, sendo este um processo psicológico novo, onde exterioriza através da ação. Chico Buarque2 em seu poema explicita um pouco desta questão: “Agora eu era o rei Era o bedel e era também o juiz E pela minha lei A gente era obrigado a ser feliz 2 Disponível em: <http://www.unilestemg.br/revistaonline/volumes/01/dowloads/artigo_06.doc> Acesso em 06/01/2009. 13 E você era a princesa Que eu fiz coroar E era tão linda de se admirar...” O brinquedo exerce grande influência no desenvolvimento da criança, pois conforme afirma Vygotsky (2008), o mesmo fornece um estágio de transição de percepção imaginária para de significado real, onde a ação sobre o brinquedo surge das idéias e não dos objetos, que de acordo com os estágios de desenvolvimento, hora ocorre de forma inconsciente, hora de maneira consciente. No início do desenvolvimento de um ser, os fatores biológicos são os que ditam o caminhar no processo de crescimento. Mas a influência exercida pelos costumes da cultura da qual faz parte, aos poucos mediará a relação da criança com o mundo e isso é de extrema importância no desenvolvimento do seu pensamento para a construção de sua personalidade, segundo Vygotsky (ibidem). Brincar é uma necessidade própria da infância, possibilitando o exercício da imaginação e da memória, como exemplifica Lima (2007): “[...] ao se apropriar dos ‘roteiros’ da seqüência da brincadeira a criança desenvolve a memória operacional e aprende, também, a organizar o comportamento segundo regras externas.” E assim a criança ensaia seus papéis e valores. “Ao brincar a criança está acima da própria idade, acima de seu comportamento diário, maior do que era a realidade.” Vygotsky (ibidem) Conforme Oliveira (2002, p. 26): “O brincar da criança combina corpo e símbolo numa inserção gradual e progressiva no universo históricocultural, que contém regras sociais e morais que ajudam a 14 manter-se no eixo maior do respeito de si, ao outro e à liberdade.” Segundo Piaget, a cognição da criança se desenvolve em sua relação com o mundo físico e social, construindo e reconstruindo suas hipóteses. Para aprender, a forma de raciocinar passa por estágios. De acordo com Bomtempo (In: KISHIMOTO, 2008, p. 59): “Para Piaget (1971), quando brinca, a criança assimila o mundo à sua maneira, sem compromisso com a realidade, pois sua interação com o objeto não depende da natureza do objeto, mas da função que a criança lhe atribui.” Resumidamente, os quatro estágios de desenvolvimentos criados por Piaget: No estágio sensório-motor (por volta dos dois anos), a ação da criança envolve órgãos sensoriais e os reflexos neurológicos básicos (como sugar a mamadeira), e através destes a criança se relaciona, adaptando o seu corpo ao meio que a cerca, como uma brincadeira. De dois a sete anos, caracterizando-se no estágio pré-operatório, com o início do pensamento sobre as coisas presentes na ação que a criança desenvolve. Ela se torna capaz de fazer uma coisa e imaginar outra, por exemplo, quando brinca de boneca e representa situações vividas em dias anteriores. Outra fase ocorre dos sete aos onze anos, quando a criança passa para o estágio operacional-concreto, denominada por Piaget como estágio prático do pensamento. Nessa fase a criança consegue refletir sobre o universo das coisas e dos fenômenos, levando em consideração as relações entre os objetos para concluir um raciocínio, sistematizando o conhecimento. O movimento do corpo nas brincadeiras, como nos jogos com regras, assume 15 uma importância na integração do mesmo com diferentes áreas do conhecimento. No estágio operatório-formal (de onze anos em diante), o já adolescente consegue pensar em coisas completamente abstratas, sem necessitar da relação direta com o concreto. O jovem nessa fase está buscando sua identidade. E atividades lúdicas que estimulem a curiosidade como a pesquisa, o trabalho com arte (que aguça a criatividade), os jogos com regras, são importantes para o desenvolvimento da consciência social. De acordo com Oliveira (2002, p. 17): “Aprender a agir, inclusive a brincar, só se dá em contato íntimo e significativo com o outro, que, via de regra, no início da vida é a mãe ou quem a substitua. Não há possibilidade de aprendizagem e consequentemente de humanização fora do convívio social, e, mais do que isso, sem vivenciar e sentir realmente um vínculo afetivo, estável e confiável, que no começo é muito mais sentido do que manifesto.” O brincar tem uma enorme importância, pois ultrapassa o simples ato de lazer, mediando relações, para o de fundamental no desenvolvimento do processo de diversas aprendizagens e da construção de referenciais de mundo. 16 CAPÍTULO II CORPO VIVO: PSICOMOTRICIDADE Neste capítulo foi abordado o conceito da Psicomotricidade como ciência que estuda a atuação do ser, utilizando o corpo em plena dinâmica como instrumento de trabalho no desenvolvimento do movimento, do intelecto e do afeto. 2.1 – Conceituando a Psicomotricidade Pensar em vida leva a refletir sobre o que poderia “dar conta” da sua complexidade. Assim podem surgir questionamentos sobre: Como o corpo se relaciona consigo mesmo e com o outro? Como evitar e/ou superar as fraquezas? Da onde surgem as debilidades? Para responder essas e outras questões surge a Psicomotricidade, como ciência que estuda o homem como Ser integral, que através do seu CORPO VIVO interage intensamente em suas relações inter e intra-pessoais no mundo que o cerca. O ser se constitui nas experiências que vivencia, revela a personalidade com base na sua história de vida. Como surgiu essa “nova” ciência? Resumidamente, vamos à história [...] Devido à necessidade de nomear as zonas do córtex cerebral situadas mais além das regiões motoras, a partir de um discurso médico/neurológico, surge o termo “psicomotricidade”. Buscando encontrar uma área para explicar certos fenômenos patológicos, surge a nomeação da palavra psicomotricidade, em 1870, para o estudo do campo motor. O neuropsiquiatra Dupré, em 1909, relata que nem toda debilidade motora é conseqüência de uma lesão cerebral, sendo de fundamental 17 importância para se começar a pensar, em que “outro” lugar poderia surgir, pois de início a psicomotricidade era vista como prescrição da medicina psiquiátrica. As contribuições de Piaget, que veio preparando o campo de estudo com sua teoria do conhecimento (onde, segundo ele, o movimento do corpo surge a partir de uma inteligência, que é determinada pela maturação do indivíduo – Epistemologia Genética) e com os estudiosos Wallon, Guilman, Ajuriaguerra, dentre outros, é incorporado o cunho da psicologia, unindo o psique com a função motora, diferenciando essa área de outras ciências. Com esta diferenciação, a ciência ganha a dimensão terapêutica e reeducativa. A psicanálise de Freud contribui com uma nova postura sendo inserida a educação e prevenção psicomotora, com a teoria de que o corpo tem uma história de vida, uma imagem corporal. Com esta contribuição o corpo “passa” a ser expressivo, um corpo que fala, que emite significados, que é afetivo. De acordo com Vitor da Fonseca e Rui Martins (2005/2006, p. 4)3: “A psicomotricidade constitui uma abordagem nova do corpo e da motricidade humana, o seu objeto é o sujeito humano total (e não o seu corpo) e as relações com o corpo, sejam elas integrativas, emocionais, simbólicas ou cognitivas, propondo-se desenvolver faculdades expressivas do sujeito, nas quais por esse contexto, assume uma dimensão educacional e terapêutica original, com objetivos e meios próprios.” A palavra Psicomotricidade, segundo a etimologia, é formada por dois termos de raízes diferentes: a palavra grega psyché, traduzida por “alma”, e a 3 Disponível em: <http://www.fmh.utl.pt/estruturaintena/pdf/pro_05/programa%20PM%20II%202005-061.pdf> Acesso em 09/01/2009. 18 palavra latina motorius, traduzida por “que tem movimento”. Conforme Lapierre (1984, p. 31): “A psicomotricidade é uma reação contra vinte séculos de cultura dualista, contra uma mística teológica que culpabilizou o corpo separando-o da alma, contra a fria lógica cartesiana que pensou poder fazer do homem um puro espírito racionalista.” A Sociedade Brasileira de Psicomotricidade em seu site4, afirma que: “É a ciência que tem como objetivo de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo”. De acordo com Fátima Alves (2008, p. 15): “[...] a Psicomotricidade envolve toda a ação realizada pelo indivíduo, que represente suas necessidades e permitem sua relação com os demais. É a integração psiquismo-motricidade.” Esse psiquismo é constituído por um conjunto de funcionamento mental, abarcando sensações, emoções, imagens, pensamentos, dentre outros. E a motricidade, sendo a capacidade de dar uma resposta, através de movimentos corporais sujeitos a um desenvolvimento e a uma maturação, conforme estimulações sensoriais. O desenvolvimento do ser não pára, é contínuo desde a gestação. Nesse processo se o sujeito não vivenciou oportunidades em diferentes áreas de relação com o mundo que o cerca, apresentará dificuldades futuras em alguns aspectos, sendo necessária uma intervenção para recuperar o seu melhor potencial. Segundo Bueno (1998, p. 51): “Observando o psicomotricidade 4 indivíduo faz - se de forma global, a necessária tanto para a Disponível em: <http://www.psicomotricidade.com.br> Acesso em 06/01/2009 19 prevenção e tratamento das dificuldades quanto para a exploração e tratamento do potencial ativo de cada um.” Bueno (1998) destaca os conceitos da Psicomotricidade em Funcionais e Relacionais. Onde, aqui serão citados. Os Conceitos Funcionais estão ligados ao conjunto de atividades que promovem a percepção para que possa ser percebido e medido o desenvolvimento da motricidade do sujeito. Dentre as quais fazem parte: Ø Coordenação dinâmica global; Ø Postura; Ø Tônus; Ø Equilíbrio; Ø Respiração; Ø Lateralidade; Ø Relaxamento; Ø Organização espacial; Ø Organização temporal; Ø Ritmo; Ø Estruturação espaço-temporal; Ø Percepções. Os Conceitos Relacionais estão ligados as relações que o corpo vivencia, que sente, se comunica, se mostra, que entra em contato com o outro. Onde fazem parte: Ø Expressão; Ø Comunicação; Ø Afetividade; 20 Ø Agressividade; Ø Limites; Ø Corporeidade. Vários estudiosos trilharam o caminho da teoria e da prática e outros continuam contribuindo para que a psicomotricidade possa ser estudada, melhor compreendida e aplicada. 2.2 – O movimento, o intelecto e o afeto Com as concepções de Piaget, em seu estudo sobre epistemologia genética, foi comprovado que a inteligência é constituída continuamente a partir da experiência motora vivenciada, respeitando a fase de maturação da criança segundo os estágios de desenvolvimento. Esse conhecimento foi de grande valia para os estudiosos da psicomotricidade, mas chegou-se a uma fase que foi percebido que essa concepção não dava conta da dinâmica do corpo como um todo. Crianças testadas respondiam aos estímulos dirigidos pelos pesquisadores de forma consciente de acordo com instruções redutoras. Mas em atividades livres demonstraram uma outra maneira de se relacionarem através do seu corpo, com as experiências que viviam, pois se apresentavam de uma forma bem diferente das posturas que foram estudadas diante dos direcionamentos. Lapierre (1984) relata essa questão, com base em seus estudos que essa forma “diferente” de comportamento era a expressão inconsciente do corpo, onde eram demonstrados de uma forma não racional, características sentimentais como: desejo, medo, fantasmas, angustia, sensualidade, entre outros. Realizadas situações de pesquisa em adultos, onde puderam participar de atividades parecidas, através do ato motor, exprimiram sentimentos relacionados a vida afetiva e emocional em seus corpos reprimidos. 21 Diante da reflexão da ação do consciente e do inconsciente sobre a história genética de cada ser, Lapierre (1984, p. 33) fala do dualismo que se estipulou: “Um psiquismo tem dois níveis: consciente e inconsciente; Um corpo tem dois níveis: estruturado e fantasmado; Uma atividade motora tem dois níveis: racional e projetiva;” Como afirma Heinsius (2008, p. 77): “O corpo que realiza as ações é um corpo subjetivado, não um simples com uma série de recursos e habilidades.” Para compreender as relações existentes entre a motricidade, mente e afetividade do ser, faz-se necessário o entendimento da relação entre o consciente e o inconsciente. De acordo com a professora Fabiane Muniz (2008)5, em aula dissertativa sobre a psicanálise de Freud, no inconsciente ficam registrados os arquivos vivenciados que agora não são mais “enxergados”; são os nossos terrores, fantasmas, os maiores desejos; nele também estão contidos sentimentos reprimidos socialmente. A psicanálise tem como objetivo tornar consciente o que está inconsciente. Segundo suas explicações, o inconsciente é caracterizado pelo ID, onde está a pulsão, a energia vital, os instintos, os temores, as emoções, os desejos de uma “criança inconseqüente”. O SUPEREGO é formado nas relações sociais, no âmbito familiar, educacional, das leis da sociedade, da moral e dos bons costumes, tomando a consciência da existência de limites dentro de um contexto histórico-social. O EGO é o consciente, é o responsável por decidir o que fazer em cada situação experimentada, mediante o ID e o SUPEREGO; onde é formada a personalidade. 5 Professora do curso de pós-graduação em Psicomotricidade, na disciplina Psicologia do Desenvolvimento, da faculdade Cândido Mendes – Instituto A Vez do Mestre. Cristie Campello (2008) 6 22 em uma de suas aulas sobre Educação Psicomotora, apresentou um quadro sobre os mundos imaginário, simbólico e real, segundo a terminologia Lacaniana. O imaginário seria o ID, os fantasmas, as idealizações, o inconsciente. O simbólico atuaria no EGO consciente, no eu, na atuação representativa entre o invisível inconsciente (ID) e o visível consciente (SUPEREGO). E o real seria o concreto, a realidade, a ação no cotidiano, o SUPEREGO. A Psicomotricidade atua no ser através do simbólico, que é o campo de equilíbrio, da elaboração, da ação no mundo ao redor, a pausa, o respeito do tempo de cada um. Segundo palavras de Campello: “Se só ficarmos no imaginário ou somente na realidade, a gente pira ou enlouquece.” O campo de ação da Psicomotricidade fica entre o real e o imaginário. Conforme a visão de Lapierre (1984): “A vivência do corpo, do objeto, do outro, da relação, é fundamentalmente diferente nestes dois níveis.” De acordo com os estudos sobre Wallon7, para entender a funcionalidade do corpo como todo, deve-se compreender que a motricidade, a cognição e a emoção estão vinculadas e se interagem continuamente. Sua teoria destaca ordens de fatores orgânicos e sociais. A existência de um ser vai sendo determinada de acordo com sua estrutura orgânica e fisiológica, adaptada na história social de sua época. Durante a existência, os comportamentos experimentados passam por uma seqüência de estágios: Ø Impulsivo Emocional; Ø Sensório Motor e Projetivo; Ø Personalismo; Ø Categorial; Ø Puberdade e adolescência. 6 Professora do curso de pós-graduação em Psicomotricidade, na disciplina Educação Psicomotora, da faculdade Candido Mendes – Instituto A Vez do Mestre. 7 No livro: Henri Wallon – Psicologia e Educação 23 Para permear os estágios citados, existem leis reguladoras: Ø Lei da alternância funcional (o movimento predominante ou é para dentro de si, ou para o conhecimento do mundo); Ø Lei da sucessão de predominância funcional (o amadurecimento, através das relações entre os estágios, mostra a predominância, do motor, do cognitivo ou do afetivo); Ø Lei da integração funcional (mostra a relação entre os estágios como sendo uma relação hierarquizada entre os conjuntos funcionais, que vão sendo dominados, integrados pelo ser de acordo com suas possibilidades no meio em que se encontra, das atividades mais simples para os mais complexos). O processo de desenvolvimento da criança se revela de forma aonde vão sendo adaptados os estímulos internos e externos, significando a relação entre o motor, o cognitivo e o afetivo. Como explicita Mahoney (2007, p. 15): “O motor, o afetivo, o cognitivo, a pessoa, embora cada um desses aspectos tenha identidade estrutural e funcional diferenciada, estão tão integrados que cada um é parte constitutiva dos outros.” Muniz em sua aula sobre Wallon, relatou sobre os quatro campos funcionais: Ø O movimento→expressivo →instrumental Ø As emoções→manifestações afetivas →interação com o meio Ø A inteligência: discursiva/ fala Ø Pessoa: consciência de si 24 O ser humano é organicamente social, tomando consciência de si conforme se relaciona consigo e com o outro, no decorrer de sua história. Conforme Cabral (2001, p.15): “É a partir da própria vivência corporal e das primeiras cenestesias e sensibilidades que se inscrevem psiquicamente que vai surgindo a noção do próprio corpo e de si mesmo.” O sujeito vai se constituindo em contato com o outro. Durante essa formação, o corpo é marcado pelas relações que vivenciou, podendo ser a sede de bloqueios para o ato motor, quando não conseguiu elaborar os desejos, representar as experiências vividas no campo simbólico. Segundo Levin (1992)8: “A Psicomotricidade tem existência porque entre o sujeito e o corpo há problemas, não funciona.” Ela atua auxiliando o sujeito para sua melhor organização, buscando o equilíbrio em relação ao seu mundo interno e externo. Ainda Levin (1992, p. 2): “Então a Psicomotricidade ocupa uma faixa intermediária entre o corpo e a representação do corpo, entre o esquema corporal e a imagem inconsciente do corpo, entre a postura e a representação da postura.” No real, a criança ao tomar consciência de seu corpo e das possibilidades que tem para explorá-lo, começa a ter o conhecimento que o mesmo possui características estruturadas fisicamente, internamente e fisiologicamente (o esquema corporal). Alves (2008, p. 50) afirma: 8 Nos Anais do V Congresso Brasileiro de Psicomotricidade/ II Encontro de Profissionais de Psicomotricidade que realizou na Bahia. “O desenvolvimento do esquema corporal 25 é a representação que cada pessoa tem de seu corpo, permitindo-lhe situar-se na realidade que o cerca. Esta representação, forma-se a partir de dados sensoriais múltiplos proprioceptivos, exteroceptivos e interceptivos.” Esquema e imagem corporal se complementam. Sendo a imagem formada inconscientemente pela percepção, o sentimento, a emoção, as experiências interiores, os desejos e pelas esperanças sociais. A história de vida de cada ser forma sua imagem corporal. Descobrindo a imagem corporal do indivíduo, como ele se sente, as potencialidades poderão ser trabalhadas e é aí que a Psicomotricidade busca oportunizar. 26 CAPÍTULO III A PSICOMOTRICIDADE PROMOVENDO OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGENS O presente capítulo discorre sobre como a Psicomotricidade, através do brincar, pode atuar como facilitadora no processo de aquisição e transformação de conhecimentos no contínuo desenvolvimento do indivíduo como um ser integral. 3.1 – Utilizando a Psicomotricidade como apoio pedagógico, através do brincar, no ambiente escolar Inicialmente, volta-se a reflexão sobre o brincar [...] De acordo com Lima (2007, p. 3): “Brincar é direito da infância. Essa é a primeira razão para que se defenda, em todas as instâncias da sociedade, que a criança, tenha tempo, espaço e liberdade para brincar.” O brincar é natural e universal, segundo Winnicott (1975, p. 63): “[...]o brincar facilita o crescimento e, portanto a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros.” 27 O brincar, independente de época, cultura e classe social, faz parte da vida da criança. Seu ato estimula o ser, a criatividade. Por meio do brincar, a criança explora o mundo, o absorvendo através de pequenos ensaios imaginários da realidade, compreendendo e assimilando gradativamente, conforme vivencia suas regras e padrões. Ela reinventa o mundo e libera suas atividades e fantasias formando assim, sua individualidade. Poucas são as pessoas que sabem da real importância do ato de brincar. A idéia difundida popularmente, limita-o a um momento de lazer. A criança não brinca simplesmente para “passar o tempo”, mas através dessa atividade, segundo Figueiredo9, “ela desenvolve potencialidades, descobre papéis sociais, limites, experimenta novas habilidades, forma um novo conceito de si mesma, aprende a viver e avança para novas etapas de domínio do mundo que a cerca.” Muitas brincadeiras tradicionais têm sua origem preservada, sendo passadas de gerações em gerações através da expressão e transmissão oral. Nas comunidades rurais, homens e mulheres parecem ser mais sábios, porque velhos ainda brincam: avós fazem roda, cantam e dançam. Ainda possuem “tempo e espaço” para a brincadeira. Há algum tempo atrás, as crianças brincavam de uma forma mais livre, tendo tempo e liberdade de escolha das brincadeiras que gostariam de realizar. Como explicita Lima (2007, p. 6): “Hoje, nos centros urbano, com o desenvolvimento complexo da sociedade e as mudanças que esse desenvolvimento acarreta nos modos de vida, a criança brinca cada vez menos. Além disso, a decisão da brincadeira muitas vezes é feita pelos adultos.” 9 Disponível em: < http://www.unilestemg.br/revistaonline/volumes/01/downloads/artigo06.doc.> Acesso em 06/01/2009. 28 No cotidiano das crianças é percebido cada vez menos tempo para as brincadeiras baseadas na criatividade, na construção em seu ato. Principalmente nas grandes cidades, devido à expansão da violência e as alterações nas relações sociais, reduziu o espaço físico urbano disponível para as crianças praticarem atividades coletivas livremente como piques, cantigas de roda, corda, elástico, brincadeiras com bola, entre outras. Os jogos eletrônicos, os celulares, a televisão, o shopping e o computador vão ocupando todos os espaços de tempo. Para comprovar isso, segundo a informação dada pelo Jornal da Noite da rede Bandeirantes de televisão, no dia 13 de janeiro de 2009, “a venda de jogos eletrônicos em 2008, superou quatro vezes o lucro da Petrobras”. A sociedade sofre transformações e estas são observadas diretamente na maneira em lidar com a vida. As mudanças tecnológicas mudaram as formas de brincadeiras e isso certamente implica na qualidade das interações sociais. De acordo com Dias (in KISHIMOTO, 2008, p. 50): “Hoje se faz necessário resgatar o caráter simbólico do homem, quanto à percepção consciente, que se vê cada dia mais reprimida, enrijecida e massificada, numa sociedade cuja filosofia de vida é racionalista e reducionista e que, muitas vezes, leva à alienação do próprio processo de criação e simbolização do sujeito, em que as crianças não tem mais espaço para viver a infância de maneira plena e enriquecedora.” Dias afirma que “é preciso resgatar o direito da criança a uma educação que respeite seu processo de construção do pensamento [...]” O pensamento, ligado com a capacidade de sonhar e imaginar, é 29 formado através das relações simbólicas recriadas pelo ser de acordo com as condições internas próprias e, através do brincar, é posto em ação. Por meio do exercício da fantasia, a criança na brincadeira trabalha a construção do real. A brincadeira tem efeitos positivos para o processo de aprendizagem e estimula o desenvolvimento de habilidades básicas para a aquisição de novos conhecimentos. Por exemplo, os jogos de construção (objetos manipulados pelas crianças onde constroem casas, cidades, bairros [...]) e as brincadeiras de fazde-conta, oportunizam as crianças expressarem seus sonhos e fantasias, com base em experiências vivenciadas, onde as regras implícitas do real são trabalhadas simbolicamente. Muito das fantasias expressadas pelas crianças, provêm da grande influência de suas vivências na escola. O brinquedo educativo nas escolas, compreendido como recurso que ensina, conforme a maneira que é utilizado pelo professor e/ou pela criança, assume a função lúdica e educativa definida por Kishimoto (2008, p. 37): “1. função lúdica: o brinquedo propicia diversão, prazer e até desprazer, quando escolhido voluntariamente; e 2. função educativa: o brinquedo ensina qualquer coisa que complete o indivíduo em seu saber, seus conhecimentos e sua apreensão do mundo.” É muito importante ter na escola um espaço, de diálogo, interações, de afetividade, para que as brincadeiras tanto as escolhidas/ decididas pelas crianças, quanto às apresentadas/ direcionadas pelo professor, possa efetivamente ampliar as possibilidades de aprendizagem, na busca de uma melhor ação do sujeito no mundo em que vive. Quando não há este espaço na escola e devido à correria do mundo moderno e a falta de conhecimento da importância do brincar em seu sentido 30 amplo, as crianças podem sofrer bloqueios e rupturas em seus processos de desenvolvimento. O brincar não deve ser encarado como estratégia ou recurso de ensino, mas segundo Rosa (2002) “como possibilidade de abertura de um campo onde aspectos da subjetividade se encontram com os elementos da realidade externa para possibilitar uma experiência criativa com o conhecimento.” Muitos pais para darem conta de seus afazeres diários, preenchem o tempo de seus filhos pensando entenderem o que seria melhor para eles. Os colocam, além das aulas formais da escola, em explicadoras, aulas de inglês, em casas de pessoas que tomem conta, chegando até ao ponto quando o filho mais velho fica com a obrigação de cuidar do mais novo. Essa sobrecarga de atividades direcionadas acarreta na “não vivência” da infância, aonde as crianças vão se tornando “adultos em miniatura”. Quando na presença dos pais, muitas crianças recebem uma superproteção, falta de limite ou rejeição, por motivos diversos, retardando a evolução necessária para o crescimento delas. Devido a situações como as supracitadas, cada vez mais as escolas vêm recebendo crianças com diversos atrasos de desenvolvimento: um relaxamento exagerado da musculatura, muito desajeitadas, não conseguindo ajustar o ritmo interno e o externo, dificuldade verbal, dificuldade de orientação espaço-temporal, de percepção visual, de esquema corporal e de lateralidade. Como afirma Lima (2007, p. 3): “É através do brincar que a criança desenvolve a perícia do movimento de braços, pernas e do corpo no espaço. Noções de em cima, embaixo, esquerda, direita, um lado, outro lado são formadas nas brincadeiras. Brincando a criança desenvolve a rotação em eixo do próprio corpo e a lateralidade.” 31 O professor, principalmente o de escolas com creches e de ensino fundamental, possui uma grande responsabilidade no crescimento da criança. Devido ser na infância a base e o foco do desenvolvimento de estruturas físicas, intelectuais e emocionais, pela qual a criança passa. Com conhecimentos acerca da Psicomotricidade, o professor melhor compreenderá e atuará nos processos de aprendizagem. Segundo Alves (2008) a Psicomotricidade “deixou de ser usada isoladamente e foi enriquecida com os estudos de outras áreas numa rede interdisciplinar, incluindo os profissionais da educação”. É necessário que as crianças sejam educadas de forma que seus sentimentos e desejos não sejam bloqueados e sim trabalhados. Suas diferenças e experiências individuais devem ter um espaço relevante sendo respeitadas nas relações com o adulto e com outras crianças. De acordo com a MultiEducação (1996) “O espaço escolar precisa abrir as janelas para o mundo. O mundo deve entrar: o mundo daqui, o mundo de lá, o mundo de cada um, o mundo de nós.” Um espaço onde envolva as crianças em atividades globais que fará funcionar a língua e o raciocínio em todas as suas dimensões. Maranhão (2008, p. 44 e 45) afirma que: ”O desenvolvimento infantil precisa acontecer de forma global, nas diferentes áreas, para que possa haver o equilíbrio entre elas. É necessário que se desenvolvam as áreas: Cognitiva, Psicomotora e Afetiva.” Deve-se garantir o direito a cada criança de se desenvolver integralmente e harmonicamente, dando-lhe espaço e oportunidades de crescimento. Com base com tudo que já foi citado anteriormente, a Psicomotricidade ajuda entender, trabalhar, prevenir e resolver diversas dificuldades que são 32 apresentadas pelas crianças e que comumente são tratadas pelos professores como distúrbios de aprendizagem. O professor deve proporcionar um clima de criatividade, gerar o interesse, a motivação para que ocorra efetivamente o processo de ensinoaprendizagem. Brincar é criar! Brincar é sentir, perceber, conhecer, afetar, criar vínculo! Lapierre (1984, p. 36) fala da Psicomotricidade em dois modos de trabalhos diferente, podendo ser praticados separadamente ou até juntos, mas em momentos diferentes: “– Uma PSICOMOTRICIDADE RACIONAL que se esforça para manter a vivência da criança dentro do Real, com – Uma objetivos pedagógicos de PSICOMOTRICIDADE aprendizagem. que eu chamo RELACIONAL que deixa livre curso para as projeções fantasmáticas da criança ou do adulto, para poder analisá-las, com objetivos de terapia ou prevenção”. A bola pode ser utilizada como exemplo desses trabalhos. Na Psicomotricidade Racional, na vivência real, os objetivos são claros e reconhecidos por todos. A bola pode ser definida pelo seu tamanho, cor, peso [...] Já na Psicomotricidade Relacional, no imaginário inconsciente, a vivência é subjetiva. A bola pode se tornar a representação fantasmada, de acordo com a experiência de cada um, de personagens que marcaram sua história. Este objeto pode representar a mãe, a gravidez, um bebê [...] Para ele, estas duas formas podem ser organizadas em três partes: Trabalho de Educação (se estruturando no real), Trabalho de Terapia (se estruturando no imaginário) e Trabalho de Reeducação (se estruturando entre o real e o imaginário). 33 Ainda Lapierre: “A EDUCAÇÃO no sentido amplo do termo não consiste apenas em fazer adquirir CONHECIMENTOS, ela deve também se preocupar com a formação da personalidade nos seus aspectos mais profundos.” O professor pode se utilizar do conhecimento dessas formas de trabalho, que são muito profundos e precisam ser bastante estudados, para ser o grande mediador/ facilitador no desenvolvimento da criança como um ser integral. Alves (2008, p. 136) afirma que: “Deve-se ressaltar, no trabalho da psicomotricidade, o papel do professor, que se ao invés de ensinar, de transmitir conhecimentos já estabelecidos, assumir o papel de facilitador do desenvolvimento da capacidade de aprender, dando a criança tempo para as suas próprias descobertas, oferecendo situações e estímulos cada vez mais variados, proporcionando experiências completas e plenamente vividas com o corpo inteiro; não deixar que sejam transmitidas apenas verbalmente, para que ela própria possa construir o seu desenvolvimento global.” Através do jogo psicomotor, do simbólico da brincadeira, a criança elabora sua vivência imaginária, prevenindo várias inadaptações, bloqueios e rupturas em seu processo. A criança que aprende brincando é motivada diante do conhecimento, o construindo através de atividades lúdicas, das histórias, dos debates sobre as dinâmicas e das brincadeiras. A brincadeira está presente em todas as fases da vida dos seres humanos. De alguma forma o lúdico (jogos, divertimentos e brinquedos) se faz presente e acrescenta um ingrediente indispensável no relacionamento entre as pessoas, possibilitando que a criatividade aflore, permitindo que as mesmas afetem e sejam afetadas. 34 A Psicomotricidade, através do brincar, pode ajudar na atividade pedagógica, permeando os conhecimentos a serem apresentados com momentos que induzam ao sonho, a fantasia e ao afeto. 3.2 – O PSICOMOTRICISTA, O PROFESSOR... O MEDIADOR “As pessoas se esquecerão do que você disse... Esquecerão o que você fez... Mas nunca esquecerão de como você as tratou.” (autor desconhecido)10 O mundo “parou” na cognição. O que “importa” para dar conta dos mais variados compromissos assumidos é a razão, o conhecimento, a lógica, os conceitos, os métodos, a teoria [...] Segundo Campello (2008)11, “as pessoas entram no piloto automático e vão!” Estar vivo é ter sensações. Para interagir no presente meio, desenvolvemos sentidos básicos: tato, paladar, audição, visão e olfato. Na correria do dia-a-dia limita-se cada vez mais esses sentidos. Campello nos seus discursos relata que somente tendo/ sentindo realmente as sensações, chega-se na percepção de si e do outro, adquirindo o conhecimento. Não se deve parar no conhecimento, pois quanto mais se sente, percebe-se e conhece maior é o grau de afeto. De acordo com seus estudos, o mundo precisa de afeto, de pessoas que afetem e que sejam afetadas. No movimento das relações intra e interpessoais o ser desenvolve o sentimento de afeição, sentindo e percebendo o corpo em toda sua amplitude e possibilidades. Como afirma a MultiEducação (1996, p. 135): 10 Citada pela professora Andrea Mota durante a aula de Psicomotricidade, no curso de pósgraduação da Faculdade Candido Mendes – Instituto A Vez do Mestre, no dia 10/01/2009. 11 Professora do curso de pós-graduação em Psicomotricidade, na disciplina Educação Psicomotora, da faculdade Candido Mendes – Instituto A Vez do Mestre. 35 “As pessoas, ao constituir sua singularidade são, ao mesmo tempo, elementos de vários grupos, o familiar, o escolar, o etário e assim por diante, criando-se uma dinâmica forte manifestada em relações variadas.” Difícil? Segundo estudiosos nesse assunto, sim, devido a vários fatores, mas nunca impossível! Deve-se querer, ter o desejo por mudança. Esse convite quem faz é o Psicomotricista, o Professor, dando a escuta, ouvindo a história do outro, mostrando, dando brechas da realidade, trabalhando com sua singularidade, no seu positivo, desatando nós que foram dados ao longo do processo de desenvolvimento. Cabe ao psicomotricista, ao professor, ao mediador, adquirir conhecimentos necessários para atuar. Pesquisar, avaliar, prevenir e tratar são suas atribuições. Oliveira (2002, p. 103) se refere sobre a responsabilidade do educador na fase da infância quando afirma: ”[...] a formação do educador infantil não se restringe a aspectos intelectuais e cognitivos, mas também aos psicológicos, com especial atenção aos afetivo- emocionais, já que, quanto menor a criança, menor consciência tem de si como um ser separado e, consequentemente, mais vulnerável e influenciável fica a estados de tensão, frustração e ansiedade, depressão, etc., por parte de quem convive com ela. A absorção desses estados desequilibrados, inconscientes em sua maior parte tanto pelo educador como pela criança, crialhe um grande mal-estar, que pode se traduzir por condutas inibidas, ou, ao contrário, agitadas, distúrbios de sono, alimentação, etc.” 36 Elucidando os estudos de Winnicott, Rosa (2002, p. 33) relata sobre um espaço potencial12 como uma área de experiência do ser que: “uma vez formado, esse território se torna parte do patrimônio individual do indivíduo [...] onde o indivíduo terá a oportunidade de viver criativamente ao longo de sua existência, bem com de ‘guardar’ o que for encontrando nos seus contatos com a cultura.” Na formação desse território há necessidade de que as experiências sejam vivenciadas, envolvendo contatos afetivos, da qualidade das relações humanas, do olhar de si, para o outro, do outro, com o outro e como o outro. Ter a consciência dos sentimentos próprios e alheios é de extrema importância para o trabalho com afetividade, para manter uma boa saúde mental e para melhor lidar com o mundo. O brincar como uma atividade humana deve ser vivenciado em um clima favorável de confiança, diálogo tranqüilo, sinceridade, afeto e respeito, estimulando a criatividade num espaço em que a brincadeira é levada a sério. 12 Essa idéia foi denominada por Winnicott e desenvolvida em seu trabalho sobre “A localização da experiência cultural”, In: O brincar e a realidade. 37 CAPÍTULO IV UM TRABALHO DE CAMPO: O RELATO DE UMA EDUCADORA Este relato tem como base o trabalho realizado em classe de Progressão, em uma escola municipal localizada na Cidade de Deus, zona oeste do Rio de Janeiro, no ano de 2004. Turma esta em que os alunos apresentavam muitas dificuldades na constituição de conhecimentos, conceitos e valores, que me possibilitou refletir sobre o processo ensino-aprendizagem no ambiente escolar, utilizando o brincar como instrumento facilitador de uma efetiva aprendizagem. A atividade lúdica é uma poderosa ferramenta para despertar o interesse do aluno em aprender, proporcionar o divertimento, a relação social. De acordo com Celso Antunes (2005, p. 36): “O jogo ajuda-o a construir suas novas descobertas, desenvolve e enriquece sua personalidade e simboliza um instrumento pedagógico que leva ao professor a condição de condutor, estimulador e avaliador da aprendizagem.” Um trabalho que traz o brincar como fonte de atuação e apropriação, faz renascer o interesse em aprender e consequentemente de assimilação das diferentes aprendizagens, que vai sendo perdido com o rótulo do fracasso escolar diante de fundamentos do conhecimento científico. Nas rodinhas de conversas, em diversos encontros (reuniões, palestras e cursos), com professores de diferentes lugares do Rio de Janeiro, observei que a brincadeira infelizmente continua sendo considerada uma perda de tempo, de acordo com algumas colocações que ouvi: “tenho alunos muito atrasados, se brincarem então [...] brincar é função do professor de educação 38 física!”. Como que a brincadeira pode ser tida como algo que atrapalha o desenvolvimento do educando? Falas como essas me incomodaram, pois percebo que não é dado o real valor ao potencial presente em cada indivíduo. Ainda não é conhecida e estudada, como deveria, a importância do brincar. Esse potencial criador tem sido utilizado e desenvolvido de maneira limitada, sendo bloqueado pela inexistência de estímulos, encorajamento, oportunidades e pela falta de um ambiente propício para os diferentes estágios de desenvolvimento, onde com base na experiência que possuo, vejo que isso ocorre tanto nas escolas quanto no ambiente familiar. Segundo Vygotsky (2008, p. 108): “[...] se ignorarmos as necessidades da criança e os incentivos que são eficazes para colocá-la em ação, nunca seremos capazes de entender seu avanço de um estágio de desenvolvimento para outro, porque todo avanço está conectado com uma mudança acentuada nas motivações, tendências e incentivos.” A escola é um espaço potencialmente dinâmico, onde é possível viver diversas experiências, mas vai depender da relação entre os que fazem parte dela, da capacidade que tiverem de brincar, de criar relações, para permear a tradição, o conhecimento científico, com criatividade, com sentido. Conforme Winnicott (1975, p. 79): “É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação”. No decorrer do ano letivo percebi que as atividades lúdicas, que sempre gostei de trabalhar, estavam ajudando no desenvolvimento da aprendizagem dos alunos. Na primeira semana com esta turma eu fiquei “atordoada”. Eles só conseguiam falar berrando, parecia que estávamos no meio de uma “feira”. Queria conhecer melhor os meus alunos e também, que eles me conhecessem. 39 Decidi, então, construir o cartaz “Nossa Turma”, logo nos primeiros dias de aula. E foi através de uma dinâmica, onde cada um, incluindo eu, teria que se desenhar, sem deixar que nenhum colega visse. Quando expliquei o primeiro passo da dinâmica, muitos me questionaram com certa estranheza: “Vô tê que desenhá eu? Como?!” Confesso que me espantei (como crianças e adolescentes de 9 a 15 anos poderiam não saber se desenhar?! Onde sei que desde bem pequenos crianças se desenham de alguma forma!), porém, continuei explicando que eles teriam que se desenhar em um quadrado de cartolina colorida do jeito que cada um se via, e que poderiam também desenhar alguma coisa que gostassem muito de fazer, de vestir, de comer, se caracterizando. Nesse momento todos ficaram me olhando, alguns disseram que não queriam fazer e outros fizeram (no final quase todos fizeram a atividade). Recolhi os desenhos e expliquei o último passo. Mostrei os desenhos e a turma teve que adivinhar quem era o (a) dono (a). Conforme a apresentação, cada um foi escrevendo o seu nome e colando o desenho no cartaz. Ficamos ansiosos durante a apresentação dos desenhos, onde pudemos nos conhecer melhor e apesar da estranheza inicial, foi divertido. No dia seguinte dessa dinâmica, senti a necessidade de montar um mural de boas vindas para a minha turma. Então, antes dos meus alunos entrarem na sala, eu o fiz. Nesse mural havia vários corações com o nome deles e com uma mensagem que dizia que era muito bom que eles estivessem ali, em nossa sala. Os olhos da maioria deles brilharam quando viram o mural. Senti que no momento o que mais precisavam era de acolhimento, carinho, uma relação que através da brincadeira estava começando a ser estabelecida, pois perante a escola eles eram rotulados como “a turma dos burros”. Comecei a trabalhar brinquedos cantados, sendo uma das atividades lúdicas mais aplicáveis à recreação das crianças, onde começou a existir entre todos os povos, através do cancioneiro folclórico infantil. 40 Trabalhei dentre outras a música “Casinha”, que utilizava o movimento de todo o corpo. Posso afirmar que eles adoraram! Fiquei impressionada com o comportamento de um aluno, de quinze anos completos, medindo quase um metro e setenta centímetros, quando eu cantava a música [...] de início, quando o olhava diretamente ele disfarçava, mas, com o passar dos dias passou a me pedir: “ Tia, vai ter a música da casinha hoje?” E enquanto isso, eu ouvia pela escola comentários “rotulados” sobre os alunos que eu havia pego e questionamentos sobre se eu tinha formação em educação física. Presenciei uma situação que mexeu muito comigo. Situação esta em que um dos meus alunos segurou o braço do outro, que falava grosseiramente comigo, e disse: “Não tá vendo que ela tá querendo ajudar a gente, respeita ela!”. Ele parou, olhou para mim e sentou. Isso me fez refletir [...] A minha reação foi de ficar parada e muda, e depois, foi de agradecer ao aluno que me ajudou. O que aconteceu com ele para ter parado, me olhado e ter sentado diante da fala de um colega? Em que momento um aluno percebe que seu professor está querendo ajudar, a partir de quando? Nos relatos da turma com relação às professoras dos anos anteriores, as colocações, em sua maioria, eram referentes ao tratamento que as mesmas, em especial uma, tinha com eles: “Ela beliscava a gente”, “deixava a gente se matar na sala”, “gritava muito”,” já fiquei um monte de dia fazendo cópia em pé”. Eu sentia que eram colocações comparativas, pois quando alguém “aprontava”, a turma logo se pronunciava: “Bota de castigo!”, “deixa sem recreio!”, “bate com o apagador no quadro e berra!” [...] A solução que eu via, era de expor o problema para a turma, me utilizando fundamentalmente do poder da palavra, do questionamento, da reflexão. Confesso que no início eram momentos desgastantes, pois para eles era muito difícil ouvir o outro, parar um momento para refletir sobre o que estava sendo dito, eles não possuíam limites, faltava vínculo. Comecei a trabalhar com grupos diversificados. De início eles abominavam a idéia, pois já possuíam grupos fechados (meninos com meninos, meninas com meninas) que vinham juntos em alguns casos, a mais 41 de anos. Sempre me utilizando do discurso, comecei a argumentar, questionando o porquê de não poderem trocar de grupos. Alguns me respondiam que não gostavam de determinadas crianças, outros se utilizavam de rótulos (chamando os colegas de “feios”, “burros”, “bebês”[...]) e outros, em sua maioria, me respondiam que não sabiam o porquê, o que me chamou bastante atenção. Chegamos a um acordo onde decidimos, depois de muita conversa, que faríamos um sorteio para montarmos os novos grupos. O sorteio foi preparado pela turma, onde alguns ficaram encarregados de escrever os nomes de todos, outros de conferir se todos os nomes estavam escritos corretamente, outros de dobrar os papéis, outros de sortear e eu de organizar. Como nossa turma era formada por trinta e um alunos, concordamos, pensando matematicamente, em montar cinco grupos com cinco alunos e um grupo de seis. Quando acabou o sorteio na turma, se instalaram alguns “bicos” e “caras feias”, mas como havia sido combinado antes e todos tinham se interessado, o sorteio havia sido justo. Com os grupos formados, pensei em trabalhar a articulação dentro dos mesmos, pois no decorrer do dia algumas mesas eram afastadas, alguns rostos se mantinham virados em direções opostas e alguns “bate-bocas” ocorriam. Começamos a disputa entre grupos! Nesse jogo, os grupos deveriam trabalhar em cima de um conteúdo que eu estaria lançando, e naquele momento, o meu principal foco era a comunicação. Eles me questionavam se ao final da disputa haveria alguma premiação, onde respondia que o grupo vencedor até poderia escolher um tipo de doce, que na próxima aula eu traria. Após essa minha colocação todos se alegraram e começaram a pedir para que eu começasse logo a atividade. Fizemos diversas disputas, trabalhando variadas disciplinas, como por exemplo, uma atividade em língua portuguesa, onde cada grupo deveria escrever a maior quantidade de palavras que começassem por vogal. Como foi grande a minha alegria em ver cada um, de cada grupo trabalhando, pensando, 42 falando da forma que sabiam, prestando atenção no outro que estava ao lado, para conseguirem ganhar. Com certeza houve discórdias, mas era o começo de uma longa caminhada. Certos dias em que saía da escola me sentindo totalmente “sugada”, sem energia. Mas ao mesmo tempo, sentia que mesmo em passos lentos, alguns comportamentos estavam se modificando, e melhor, eles estavam prestando atenção em si mesmos, se olhando nos olhos, e isso não ocorria. As disputas em grupos continuavam ocorrendo, mas comecei a estimular a realização das atividades em duplas. Quem acabasse sua atividade poderia escolher algum jogo entre os diferentes tipos (dominó, dama, jogo da memória, quebra-cabeça, boliche, piões, petecas [...]) que eu havia trazido para a nossa sala de aula, e brincarem. Sentia, mais uma vez, o entusiasmo em realizarem suas tarefas. Os dias passavam, até que certa vez comecei a ouvir com mais frequência falas do tipo: “Tia, ‘fulano’ não tá entendendo o trabalho”, “tia posso sentar com ‘sicrano’ pra ele poder me ajudar?”, “professora, me ajuda?” [...] Isso foi uma conquista para mim, eles haviam começado a se preocupar com o quê estavam aprendendo e com quem ainda não estava acompanhando, trocando experiências. A busca pela premiação de um determinado grupo havia acabado [...] Começou-se a busca do maior dos prêmios para a nossa turma, o conhecimento. Através dos jogos, das brincadeiras, eles aprenderam a se relacionarem, a respeitarem comportamentos diferentes, a criarem vínculos, laços com todos que estavam ali e que formavam a Classe de Progressão. Juntos começamos a pensar em variadas atividades e como poderíamos realizá-las nas diversas áreas do conhecimento. Podemos ajudar as crianças a gostarem de si mesmas, procurando comunicar-lhes claramente que são seres humanos, dignos de respeito e consideração, e que na convivência, na troca de conhecimentos, na 43 criação de vínculos, é que elas podem se perceberem como pessoas, cujos sentimentos e idéias têm importância. Crianças não têm referência clara de sua individualidade e são influenciadas com a maneira que são vistas e tratadas pelos adultos. Sendo assim, a maneira como a escola vê essas crianças, é de suma importância para que cada uma possa sentir o seu valor e conseqüente amor-próprio. Se uma criança não teve experiências satisfatórias no início da vida com seus pais, que é o caso da maioria dos alunos da comunidade em que a escola está inserida (onde é como achar “uma agulha no palheiro” para encontrar uma família constituída por pai, mãe e irmãos dos mesmos pais), poderá ser na escola, através de um professor e/ou de um colega, que ela constituirá uma auto-imagem positiva e de confiança em seu potencial. Meus alunos ainda não haviam tido oportunidades direcionadas, apesar de o aprendizado começar antes delas freqüentarem a escola como afirma Vygotsky (2008), de experimentarem situações em que as realizassem e que dessem margem para que descobertas fossem realizadas para se apropriarem efetivamente de diversas aprendizagens, atuando no mundo da qual fazem parte. De acordo com Vygotsky (ibidem) deve haver na escola um paralelo entre o complexo de conhecimentos a ser transmitidos e a brincadeira, criando na criança o que ele chama de “zona de desenvolvimento proximal”13 para que a mesma desenvolva habilidades trabalhando sua consciência para internalizar as bases de um sistema de conceitos. O sujeito do conhecimento para ele, não é apenas passivo regulado por forças externas que vão se moldando; não é somente ativo, regulado por forças internas; ele é interativo, que busca fazer, agir, utilizando as suas habilidades já construídas e dominadas, onde na troca de experiências, na interação com o outro, pode desenvolver outras. 13 Zona de desenvolvimento proximal - é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais experientes. 44 O aprendizado se dá de várias formas e uma delas é brincando, basta para isso ser estimulado, estar aberto, disponível, acessível e é nesse espaço que entra a Psicomotricidade estudando o ser e suas experiências vivenciadas, através da dinâmica do movimento do corpo nas relações inter e intrapessoais. 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS A brincadeira está na cultura de todos os povos, está na essência do crescer de todo ser. Dede os primeiros anos de vida, no contato com objetos, com a mãe ou com alguém que assuma esse papel, o bebê se relaciona, desenvolve estruturas orgânicas que só despertam na possibilidade de expressão e comunicação com o meio. E para representar a realidade do jeito que a criança a sente e vê, utiliza-se da brincadeira simbólica. Na medida em que a criança brinca, interage com objetos e com outras pessoas, ela constrói relações e conhecimentos a respeito do mundo. Na família, na escola, nos ambientes em que a criança vive, deve-se ter espaço e tempo para a brincadeira no seu sentido mais amplo, a incentivando e respeitando em seu desenvolvimento. Neste processo o afeto é muito importante durante as etapas de crescimento, sendo o responsável por desencadear a confiança nas relações estabelecidas. Quando não respeitado o ato que é natural ao ser, o brincar, bloqueios podem ser instalados, acarretando futuras deficiências e debilidades em áreas motoras, cognitivas e/ ou afetivas, comprometendo a boa saúde durante o ciclo de vida. O inter-relacionamento entre a Psicomotricidade e o brincar traz um conhecimento fundamental para todos que se preocupam na formação integral do sujeito. Abre brechas para a reflexão entre teoria e prática, sensibilizando os sentidos, o olhar em todas as suas dimensões. A família, o professor, o psicomotricista, o mediador, possuem um papel de extrema importância. Como lidar com os outros e consigo mesmo? O olhar da Psicomotricidade sobre os estudos já conhecidos leva à reflexão da ação no tempo presente para que o futuro seja melhor, realmente vivenciado. 46 As “deficiências” não precisam existir. Mas, devem ser trabalhadas as prevenções, dando a atenção devida na base do desenvolvimento de todo indivíduo, onde há compreensão do seu processo e acredita-se que brincadeira é coisa séria! O mundo não pára e cada ação na presença ou na ausência deixa muitas marcas [...] 47 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Fátima. Psicomotricidade: corpo, ação e emoção. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2008. KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 11ª. ed. São Paulo: Cortez, 2008. VIGOTSKI, Lev Semenovich. A formação social da mente. COLE, Michael; JOHN-STEINER, Vera; SCRIBNER, Sylvia; SOUBERMAN, Ellen (org.).7ª. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. ANTUNES, Celso. Jogos para estimulação das múltiplas inteligências. 13ª. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2005. FERREIRA, Carlos Alberto de Mattos; HEINSIUS, Ana Maria; BARROS, Darcymires do Rego. Psicomotricidade Escolar. Rio de Janeiro: Wak, 2008. OLIVEIRA, Vera Barros de (org.). 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Psicomotricidade Relacional: Prática Clínica e Escolar. Rio de Janeiro: Revinter, 2001. Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Multieducação: Núcleo Curricular Básico. Rio de Janeiro, 1996. Anais do II Congresso Brasileiro de Psicomotricidade. Belo Horizonte, 1984 – Por: André Lapierre. Anais do V Congresso Brasileiro de Psicomotricidade. II Encontro de profissionais de Psicomotricidade. Bahia, 1992 – Por: Esteban Levin. 49 OLIVEIRA, Alessandra Regina de. Em busca do prazer em aprender: O brincar em classes de progressão. 2004. 54 f. Monografia para a conclusão do Curso de Pedagogia: Magistério das Séries Iniciais do 1º grau – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004. Conteúdos das aulas ministradas no curso de pós-graduação em Psicomotricidade da Universidade Candido Mendes – Instituto A Vez do Mestre, pelo corpo docente: Fabiane Muniz, Christie Campello e Andrea Mota. 2008/2009. Programa da disciplina de Psicomotricidade II da Universidade Técnica de Lisboa. Disponível no site: <http//:www.fmh.utl.pt/estruturainterna/ pdf/pro_05/ programa%20pm%20II%202005-061.pdf>. Acesso em: 09/01/2009. <http://www.unilestemg.br/revistaonline/volumes/01/dowloads/artigo_06.doc> Acesso em: 06/01/2009. <http://www.psicomtricidade.com.br>. Acesso em: 06/01/2009 <http://www.hottopos.com/notand7/jeanludus.htm>. Acesso em: 08/01/2009 50 ÍNDICE FOLHA DE ROSTO............................................................................................ 2 AGRADECIMENTO............................................................................................ 3 DEDICATÓRIA................................................................................................... 4 EPÍGRAFE ......................................................................................................... 5 RESUMO............................................................................................................ 6 METODOLOGIA................................................................................................. 7 SUMÁRIO........................................................................................................... 8 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 9 CAPÍTULO I O BRINCAR COMO UM ALIADO NO PROCESSO ENSINO – APRENDIZAGEM ............................................................................................ 11 CAPÍTULO II CORPO VIVO: PSICOMOTRICIDADE............................................................. 16 2.1 – Conceituando a Psicomotricidade ........................................................... 16 2.2 – O movimento, o intelecto e o afeto .......................................................... 20 51 CAPÍTULO III A PSICOMOTRICIDADE PROMOVENDO OPORTUNIDADES DE APRENDIZAGENS........................................................................................... 26 3.1 – Utilizando a psicomotricidade como apoio pedagógico, através do brincar, no ambiente escolar ......................................................................................... 26 3.2 – O psicomotricista, o professor, o mediador ............................................. 34 CAPÍTULO IV UM TRABALHO DE CAMPO: O RELATO DE UMA EDUCADORA................. 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 47 ÍNDICE ............................................................................................................. 50 52 FOLHA DE AVALIAÇÃO Nome da Instituição: Universidade Candido Mendes – Instituto a Vez do Mestre. Título da Monografia: Brincadeira é coisa séria! O olhar da Psicomotricidade Autor: Alessandra Regina de Oliveira. Data da entrega: 14 de fevereiro de 2009. Avaliado por: Fabiane Muniz. Conceito: 53 ATIVIDADES CULTURAIS