JOSÉ PAULO PAES: POETA COMO NENHUM OUTRO por Marcos Estevão Gomes Pasche Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira). Orientador: Antonio Carlos Secchin. De acordo: Rio de Janeiro Agosto de 2009 José Paulo Paes: poeta como nenhum outro Marcos Estevão Gomes Pasche Orientador: Professor Doutor Antonio Carlos Secchin Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas. Examinada por: _______________________________ Presidente, Prof. Dr. Antonio Carlos Secchin - UFRJ _______________________________ Prof. Dr. Adriano Alcides Espínola - UFCE _______________________________ Prof. Dr. Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira - UFRJ _______________________________ Profª. Drª. Eleonora Ziller Caminietzki – UFRJ, Suplente _______________________________ Profª. Drª. Rosa Maria de Carvalho Gens – UFRJ, Suplente Rio de Janeiro Agosto de 2009 2 Para José Carlos Prioste, que ensina a andar sem os pés. 3 AGRADECIMENTOS A Ary Pimentel, pois foi ele o primeiro a me falar da existência de vida útil e interessante após a graduação (portanto, a ele o primeiro agradecimento); a Dau Bastos, que valiosamente me aconselhou a seguir o caminho da Literatura Brasileira; a Antonio Carlos Secchin, por ser orientador como nenhum outro; a meus pais, Giovani e Madalena, por todas as coisas que não cabem nesta página; a Santinha, por ter, num habitual prodígio, me apresentado a poesia de José Paulo Paes; a Ésio Macedo Ribeiro e a Dora Costa, por terem me apresentado ao Poeta, mesmo em sua ausência. À Fundação CAPES, pela concessão da bolsa de estudos. 4 ESCOLHA DE TÚMULO Onde os cavalos do sono batem cascos matinais. Onde o mundo se entreabre em casa, pomar e galo. Onde ao espelho duplicam-se as anêmonas do pranto. Onde um lúcido menino propõe uma nova infância. Ali repousa o poeta. Ali um voo termina, outro voo se inicia. 5 SUMÁRIO Introdução ........................................................................................................................ 7 Com os mestres, com carinho (O aluno) ....................................................................... 10 Amor, verbo infinitivo (Cúmplices) .............................................................................. 19 Nova velha história (Novas cartas chilenas) ................................................................. 25 Poemas reunidos, poeta reunidor (Epigramas) .............................................................. 39 No corpo da palavra (Anatomias) .................................................................................. 48 Na presença ou na ausência (Meia palavra) .................................................................. 53 Ao rés dos restos (Resíduo) ........................................................................................... 64 Normalidade ensandecida (Calendário perplexo) ....................................................... 71 No óbito constava nascimento (A poesia está morta mas juro que não fui eu) ............ 76 Do pouso como decolagem (Prosas seguidas de odes mínimas) .................................. 84 Dentro do todo de si (A meu esmo) ............................................................................... 94 Pretérito sem futuro (De ontem para hoje) ...................................................................101 Como mestre, com carinho (Socráticas) ..................................................................... 104 Um poeta no meio dos caminhos ................................................................................. 108 Referências .................................................................................................................. 119 6 INTRODUÇÃO O título deste trabalho pode denotar certa obviedade, pois afinal a obra de todo poeta (ou, no mínimo, a de todo grande poeta) é dotada de certas peculiaridades que a distinguem da de seus confrades. O caso José Paulo Paes não é diferente: trata-se de um nome singularíssimo no curso histórico da poesia brasileira, só que quando fora convidado por Vivina de Assis Viana (coordenadora da editora Atual) para escrever sua autobiografia, ele foi categórico: ―Quem, eu? Um poeta como outro qualquer!‖.1 Tais palavras terminaram por intitular o livro que ali começava a se desenhar, e servem-me agora como nomeação paródica deste trabalho. Explicado o título, cabe esclarecer a proposta deste estudo: interpretar a obra poética de José Paulo Paes de acordo com a ideia de que seus principais alicerces estão voltados para a confluência harmônica de aspectos tradicionais e modernos, estejam estes presentes na arquitetura ou no espírito dos poemas. Nossa leitura percorrerá livro a livro, seguindo a ordem cronológica de publicação. Talvez em alguns deles, como O aluno e Cúmplices, por exemplo, nossa hipótese interpretativa não apareça tão expressivamente, mas isso não significa sua inexistência. Nesses casos, destacaremos a relação que os conteúdos de alguns livros assumem com o tempo em que surgem, sobretudo para perceber que em épocas de forte tendência conservadora entre os poetas brasileiros José Paulo louvou a modernidade; de maneira semelhante, quando algumas atitudes transgressoras tornaram-se norma, numa aparente incessante renovação, ele impregnou suas páginas de elementos antigos. Isso o diferencia de outros poetas brasileiros – em especial Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo e Vinícius de Moraes – que em alguma medida recuperaram o tradicionalismo no auge de nossa literatura moderna. O caso de tais poetas é estilístico e consiste no uso de formas poéticas desprezadas pelos seus contemporâneos. O caso de José Paulo Paes é estrutural: diz respeito a uma ligação ideológica e espiritual (também poética) entre modernidade e tradição como resposta a alguns impasses da cultura ocidental que, hoje, desenha um quadro do mundo que é, nas palavras de Milton Santos, ―confuso e confusamente percebido‖ (2005, p. 17). 1 Quem, eu? Um poeta como outro qualquer. São Paulo: Atual, 1996. 7 Assim sendo, observaremos esta confluência (que por vezes também chamaremos conciliação) do novo e do tradicional em alguns dos seus sentidos possíveis, seja no campo da reflexão mais especificamente literária, seja no da ruminação de maior envergadura humana. E, ainda que ela não ―presida‖ o âmago de certos livros, como nos exemplos acima dados, será interessante verificá-la estabelecendo uma ligação entre toda a obra paesiana, dentro da qual nada é disperso ou fragmentário. Ainda não existem (ou, na melhor das hipóteses, não são de grande conhecimento) sólidos trabalhos críticos dedicados à poesia do autor de Anatomias, o que pode ser uma vantagem ou um prejuízo.2 De dedicação exclusiva, há apenas dois livros (indicados abaixo). Os outros são, na maioria, prefácios a coletâneas. Para este estudo, além dos trabalhos indicados ao final, serão trazidos, fundamentalmente, os textos específicos (e conhecidos) a respeito de José Paulo Paes, escritos por Alfredo Bosi (―O livro do alquimista‖), Antonio Carlos Secchin (―Um poeta em paz‖, ―O testamento poético de José Paulo Paes‖ e ―O lugar de José Paulo Paes‖), Davi Arrigucci Jr. (―Agora é tudo história‖), Henrique Duarte Neto (O humor cáustico no universo da meia palavra: sátira e ironia na poesia de José Paulo Paes), João Carlos Biella (Um ironismo como outro qualquer: a ironia na poesia de José Paulo Paes); Miguel Sanches Neto (―Primeiro caderno do aluno de poesia José Paulo Paes‖), Rodrigo Naves (―Um homem como outro qualquer: José Paulo Paes‖) e Sérgio Milliet (―A poesia não morreu‖). Portanto, quando fizermos menções aos críticos de José Paulo Paes, será principalmente nesses nomes que pensaremos. E quanto à citação de poemas paesianos, sua fonte será sempre a Poesia completa, publicada em 2008 pela Companhia das Letras. Cabe dizer que nosso estudo não abarcará a literatura, por mais polêmica que seja a definição, infantil de José Paulo Paes. Mas pretendemos avaliá-la num trabalho próximo. Além disso, não interpretaremos Bodas, de 1977. O livro, com tiragem de 2 Em nota do seu curto e preciso livro O humor cáustico no universo da meia palavra, Henrique Duarte Neto informa que ―afora alguns ensaios e trabalhos acadêmicos, não encontrei (pesquisando na internet) nenhum livro que se detivesse de maneira integral sobre a obra do autor de Socráticas. O trabalho crítico mais consistente encontrado em livro foi o extenso ensaio introdutório de Davi Arrigucci Jr. à edição dos melhores poemas do poeta paulista‖. p. 17. 8 apenas cinquenta exemplares, foi escrito para a celebração dos vinte e cinco anos de casamento do poeta com Dora Costa, e não teve circulação comercial. É nossa intenção estudar que significado assume esta poesia dentro do cenário poético brasileiro, demonstrando que desde o seu início ela negou filiar-se a linhas estéticas ou a movimentos vanguardistas, mas sem também negá-los; ao contrário, deles extraiu, inteligentemente, o que de melhor poderiam oferecer, num exercício muito próprio de quem soube, como nas palavras de Alfredo Bosi, ―reconhecer o sim e o não em todas as coisas‖.3 3 O ser e o tempo da poesia, p. 15. 9 COM OS MESTRES, COM CARINHO O aluno (1947) é o livro com que José Paulo Paes inicia a carreira literária. Dentre os (poucos) críticos que se debruçaram sobre a obra, quase nenhum confere a ela, com alguma razão, o status de grande estreia, principalmente por ser o livro (na verdade uma plaquete composta por nove poemas) excessivamente influenciado pelas principais figuras da poesia modernista brasileira que àquela altura já se consagravam, fato posteriormente admitido pelo próprio poeta.4 Curiosamente, o primeiro a emitir tal opinião (e que encontra fortes ecos ainda hoje) foi um dos homenageados pelo ―aluno‖ que se exibia aos ―mestres‖: Carlos Drummond de Andrade, que em carta datada de maio de 1947, escrevia a José Paulo: ―Você tem um sentimento poético indubitável, maneja o verso livre com bastante segurança rítmica, nunca resvala no mau gosto – mas você ainda não me parece você‖.5 Drummond tinha razão, justamente porque em sua crítica indica que o poeta iniciante ainda carece de um estilo próprio. Apesar disso, pode-se perceber que alguns traços da poética então inaugurada já começavam a se desenhar com alguns bons versos. Seja nos temas tratados pelos textos, seja pelas atitudes neles manifestadas, é de especial interesse para nós tentar observar o quanto O aluno já prenunciava uma das linhas mestras do trabalho de Paes: a vontade de conciliar tendências contrárias. Só que, preliminarmente, observaremos alguns outros aspectos que têm mais corpo no livro, a saber: a presença da opressão, verificada nas variadas passagens em que se notam dores do sujeito (lírico e humano) e a busca pela reversão de tal adversidade. Após essas explicações, falaremos da conciliação aludida no parágrafo anterior. O primeiro poema do livro, ―Canção do afogado‖, fala insistentemente dos incômodos ocasionados por uma corda de ferro que sufoca, prende, comprime: Esta corda de ferro me aperta a cabeça não deixa meus braços 4 Cf. Cult: revista brasileira de literatura, nº 22, pp 39-62. 5 Carta incluída na 2ª edição de O Aluno. Grifo meu. 10 se erguerem no ar. E o mar me rodeia, afoga meus olhos. [...] Algas flutuam por entre os cabelos, meus lábios de sangue palpitam na sombra e a voz esmagada não pode fugir. Maninha me salve não posso falar! E a rosa liberta a inefável rosa, vai longe, vai longe. Um gesto é inútil, meu grito e meu pranto inúteis também... Maninha me salve que eu vou naufragar! (p. 13-14). A carga algo dramática indicará a existência de certo tipo de opressão, predominante interna, a incomodar o espírito do indivíduo entendiado e deprimido frente aos passos tortos do mundo há pouco saído da segunda grande guerra, ainda cheio de incertezas e cicatrizes, e também frente às variadas situações antilíricas (no pior sentido do termo) pelas quais os artistas, com significativo amargor, passam. No caso de José Paulo Paes, deve-se considerar que naquele tempo sua circulação se dava em ambientes bastante provincianos, como a cidade de Taquaritinga, onde nasceu, e Curitiba, local para onde fora estudar química. A isso some-se o fato de contar apenas 21 anos de idade, ser militante comunista num país de desigualdades, e poeta num mundo que se revestia de tecnologia. Então a corda de ferro – bloqueadora de atos e sentimentos, infundindo fadiga no peito e na cabeça, desautorizando as possibilidades de fuga – faz alguns prolongamentos, entre os quais veem-se: a) a nauseabunda ―tarde cinzenta‖ no poema ―Balada‖, de teor menos duro, mas de semelhante mal-estar: Não sou lobo da estepe; amo a todos os homens 11 e suporto as mulheres. Contudo não posso falar com os lábios amar com o sexo, porque sinto a tortura da tarde cinzenta! (p. 18); b) o ambiente frio e esfriador em ―O homem no quarto‖: Teu protesto inútil tuas flores murchas teu violino fácil tua vontade escassa [...] Caminhas sem rumo por todas as ruas (p. 19); c) os desagradáveis ímpetos da vida e os descuidos dos viventes no ―Poema descontínuo‖: Mas a lei e o trilho levaram a dança e um cigarro triste me brotou nos dedos. [...] Lá fora, entretanto, mórbidos despojos lembram vagamente um tempo guerreiro. Mas o adolescente está tomando gin... Somente o lixeiro na fria madrugada sem espanto colhe com seu instrumento, as rosas e a música que boiam no vômito dos adolescentes (p. 22-23). Dentro desta cadeia de reveses, há uma voz contrariada, com angústia e revolta, às vezes recolhida à tristeza, às vezes apenas indiferente, como que desesperançosa pelo cansaço que murcha o protesto e esteriliza a sensibilidade. O teor depressivo desses poemas revela, na afirmação de Alfredo Bosi, ―o mal-estar que o escritor sensível e 12 diferenciado sente e ressente ao tomar consciência da sua posição de excluído, de ‗inútil‘, de esquerdo‖, fato perfeitamente compreensível em se tratando de um artista contemporâneo da Segunda Guerra Mundial.6 Paradoxalmente, há uma carga afetiva que também molda a face de variados textos, e a partir daí surgirão símbolos a funcionarem como instrumentos para reverter as situações opressoras. No conjunto de tais símbolos, aparecem com especial destaque: a) a literatura: Quando as amantes e o amigo te transformarem num trapo, faça um poema, faça um poema, Joaquim! (―Drummondiana‖, p. 15); b) a flor (e suas extensões semânticas): Teu bigode é a ponte que nos liga ao sonho e ao jardim tão perto (―O poeta e seu mestre‖, p. 27); c) a conjugação de literatura e flor: Até que outros braços, redentoras asas, venham colocar um lírio muito branco na página e no verso do teu melhor poeta... (―O homem no quarto‖, p. 20). Já em seus primeiros passos, o poeta traduziu em versos os ventos mais amargos que o mundo soprava de encontro ao peito e ao rosto do jovem lançado ao movimento da vida, sentindo aí os desencantos do ingresso na ―vida real‖, o que se exemplifica em ―Canção do afogado‖ e ―Poema descontínuo‖. 6 ―O livro do alquimista‖. In: Céu, inferno. p. 155-6. 13 Dentro do livro, porém, o movimento de ruptura com o bloco da tristeza e da desventura encontra um veio mais vigoroso, primeiramente nos poemas habitados pelo otimismo e pela esperança, como ―O engenheiro‖, ―O poeta e seu mestre‖, ―Muriliana‖ e ―O aluno‖; e, posteriormente, com maior beleza e comoção, nos textos em que convivem na mesma unidade tendências opostas e conflitivas – um embate entre o confinamento da treva e a libertação pela luz, em que a última, se não vence de fato a peleja, ao menos fica como sinal vivo de um possível caminho, uma terceira margem. São poemas a fazer com que os fatores de negatividade sejam revertidos em afirmações positivas de solidariedade e de amor: ―Drummondiana‖, ―Balada‖ e ―O homem no quarto‖. Diante dos impasses, é comum esperar de militantes partidários jovens, geralmente mais tocados pelo furor político, a proposição de soluções exclusivamente pelo viés ideológico. Nesse caso, José Paulo Paes teve mérito por não partilhar dessa atitude algo restrita. O ganho é ainda maior por conta das alternâncias, bem mais humanas, entre pessimismo e esperança: Agora sem crença, procuro no ar, no jardim inútil, qualquer borboleta que da chuva esconda suas asas... (―Poema descontínuo‖, p. 22). ............................................................................. Repito seus gestos de amor e renúncia de música ou luta, de solidariedade (―O poeta e seu mestre‖, p. 27). Cabe-nos observar como confluem os elementos contrários que estão presentes e são motrizes em O aluno. Pela publicação do livro datar de 1947, seu autor normalmente é inserido na Geração de 45, caracterizada como uma ação conservadora frente ao desapego modernista (sobretudo o de Oswald de Andrade) pelos formais textuais de feição tradicional. Dessa maneira, é surpreendente constatar o desejo do jovem poeta de reunir-se àquilo que lhe seria adverso (o Modernismo), como também surpreende ver seu afastamento do que, cronológica e culturalmente, seria o seu habitat natural – o grupo de 45. 14 Pelo título de alguns poemas – ―Drummondiana‖, ―Muriliana‖, ―O engenheiro‖, – já se nota o pedido deste aluno de inscrever-se no rol dos poetas modernos brasileiros que àquela altura tornavam-se, ou já se haviam tornado, consagrados, como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto (e também Oswald de Andrade, implicitamente, como esclarece Miguel Sanches Neto no prefácio à segunda edição do livro).7 Se estendermos essa observação aos livros futuros de José Paulo (em especial Resíduo, Meia palavra e Anatomias), não nos parece possível situá-lo confortavelmente na Geração de 45, uma vez que esta se notabilizou pela recusa à barulhenta inovação sistematizada a partir de 1922. Mesmo os poemas de feição tradicional por ele escritos apontarão mais para a escolha de um caminho pessoal (coincidente com algumas convenções da época) do que para a filiação a um grupo. É o que também será visto na década de 1950, dessa vez em relação ao Concretismo, o que analisaremos num capítulo à frente. Integrando O aluno à conjuntura histórica e estética na qual surgiu, vamos ratificar o juízo de Drummond, quando diz que José Paulo Paes ainda não parecia um poeta com dicção constituída. Mas de modo algum será acertado crer na falta de valor desse livro ou atribuir a ele a etiqueta progressista ou o estigma reacionário, razão de sua independência e originalidade. É mais justo vê-lo como agregador, contrário à tese do parricídio literário. Por um lado o poeta tenta inserir-se entre os modernos, mas não o faz de modo submisso aos autores por ele celebrados, pois os poemas são dotados de um trabalho formal (aparece inclusive um soneto) destoante do que àquela altura se poderia chamar de Modernismo ortodoxo, isto é, aquele que rejeitasse com veemência qualquer sinal de tradição. Num outro ponto, vemos essa poesia absorver a pedagogia formalista da época, sem (nesse momento) assumir uma feição modernista ao extremo. Não há em O aluno concessões ao texto mínimo, de poucos ou de um único verso, como também inexistem galhofas pelas vias do poema-piada. Além disso, a simplicidade com que o ―aluno‖ trata os seus assuntos não chega à esquina do prosaísmo. No entanto, as reverências desse aprendiz direcionam-se justamente aos que entortaram a poesia brasileira. 7 ―Primeiro caderno do aluno de poesia José Paulo Paes‖, p. 8. 15 Foi então negando o que lhe era mais apropriado (a postura ideológico-estética de sua suposta geração, a de 45) que ele se incluía numa aparente incoerência, ou seja, a linhagem modernista; uma vez construído o vínculo, ele rejeitou o que seria uma gratuita amostra de vanguardice: a destruição banal e infundada das formas consagradas. Conflui-se aqui o sábio dizer de Marshall Berman: ―Para ser inteiramente moderno é preciso ser antimoderno‖.8 Foi a maneira própria que José Paulo Paes elaborou para ser e não ser da esfera que lhe circundava, já desenvolvendo a peculiaridade mais significativa de sua obra até os momentos derradeiros; vê-se aí o autor tomar as primeiras lições para ingressar não num estilo, num movimento ou numa geração, e sim construir uma Obra. Residem no cerne do livro duas situações de simultânea afirmação e negação: a primeira, mais para o plano da existência do que para o especificamente literário, exprime-se no moço que, por intermédio da sua arte, quer se distinguir dos contemporâneos caracterizados pelas idéias e ações fúteis: os jovens dados irrestritamente à curtição de prazeres, que, por excessiva e alienada, torna-se vazia; é o adolescente do ―Poema descontínuo‖: Lá fora, entretanto, mórbidos despojos lembram vagamente um tempo guerreiro. Mas o adolescente está tomando gin... (p. 23), são os adolescentes incautos do mesmo texto, deixando valores seguirem para a indigência do lixo: Somente o lixeiro na fria madrugada sem espanto colhe com seu instrumento, as rosas e a música que boiam no vômito dos adolescentes (idem). 8 Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. p. 12. 16 Esse é o modo particular encontrado pelo homem para ser adulto nas ocasiões em que a adolescência tem conotação reprovável, quando a juventude, voluntária ou coercitivamente, não se dá conta das mazelas coletivas. A segunda situação, talvez mais clara, baseia-se nas concepções artísticas que poderiam ser motivo de dilaceramento, pois na época da escrita do livro, olhar para um lado, o da Geração de 45, era receber a sugestão de jogar-se para a tradição e para a consequente marca de conservador; e olhar para outro lado, o vanguardista, da estética triunfante e já acomodada, indicava lançar-se à frente, à perpetuação e ao desdobramento da modernização, o que poderia igualmente significar uma camisa-deforça. A reunião de forças tão paradoxais deu indubitavelmente a José Paulo possibilidade para construir uma via alternativa, longe da dicotomia entre tradicional e moderno. São meus todos os versos já cantados: A flor, a rua, as músicas da infância, O líquido momento e os azulados Horizontes perdidos na distância. Intacto me revejo nos mil lados De um só poema. Nas lâminas da estância Circulam a memória e a substância De palavras, de gestos isolados. São meus também, os líricos sapatos De Rimbaud, e no fundo dos meus atos Canta a doçura triste de Bandeira. Drummond me empresta sempre o seu bigode, Com Neruda, meu pobre verso explode E as borboletas dançam na algibeira (―O aluno‖, p. 31). O caminho poético de Paes – de mil lados e de gestos isolados – significou uma singularidade elaborada por uma dicção plural. Seus contemporâneos mais imediatos – Geir Campos, Marcos Konder Reis e Lêdo Ivo, entre outros – estavam certos em não varrer a tradição, mas equivocavam-se ao desprezar aspectos modernistas; no mesmo passo, os modernistas obtiveram êxito ao dar à arte (brasileira e ocidental) uma série de possibilidades novas, mas mostraram a fraqueza de algumas de suas verdades por pretenderem descartar o passado como um todo. 17 Coube a José Paulo Paes identificar as propriedades e as impropriedades destas concepções, delas colhendo as substâncias não confundidas com modismos, como exemplifica ―O aluno‖, um texto cheio de referências a poetas modernos postos em assembléia num tradicionalíssimo soneto, que não por acaso encerra o livro. Nesse sentido, ele deu novo significado à cópia, processando-a diferentemente, sem uma idolatria que conduzisse ao epigonismo. Uma leitura retrospectiva de sua obra tornará possível concordarmos com que em seu início faltava-lhe de fato uma linguagem própria, uma dicção que só se tornou claramente identificável anos e livros à frente, mas a mundividência que sua poesia viria a exprimir já se exibia com alguma força, conscientemente ou não. Tanto que o autor nunca renegou O aluno, nem deixou de incluí-lo nas edições de sua poesia completa. Ele, como distinto aluno, já dava também as primeiras lições. 18 AMOR, VERBO INFINITIVO Cúmplices (1951) é, da mesma forma que O aluno, uma plaquete composta por nove poemas. A diferença mais imediatamente perceptível reside na temática dominante do início ao fim do livro: a paixão declarada à mulher (quase sempre citada nominalmente) e ao relacionamento amoroso com ela construído, o que ao longo dos anos viria a resultar numa admirável união, tanto civil quanto literária (e sentimental também): Nossa vida Construímos A cada passo, A cada minuto, A cada esquina, De mãos unidas (―Carta de guia‖, p. 196). Como José Paulo Paes foi um poeta (além de tradutor e ensaísta) em sintonia com a cultura grega, não causa estranheza que aqui surja, da maneira mais forte e substantivamente lírica, a figura de sua musa: a bailarina Dora Costa – ou simplesmente Dora –, companheira desde o início da vida adulta (eles se casaram em 1952, quando então José Paulo contava 26 anos de idade); logo transformada em inspiração predileta deste aedo, e se fazendo presente tanto em poemas deste quanto de livros vindouros (quase todos, inclusive o póstumo Socráticas, dedicados a ela). Apesar da diferença temática em relação à peça de estreia, a crítica mais significativa da obra de Paes ainda concentra no livro enfoque especial (ou único) no aspecto da necessidade de dicção própria do poeta: há indícios (Davi Arrigucci Jr. e Alfredo Bosi) de que aqui ele já a havia alcançado; mais cauteloso, Henrique Duarte Neto diz apenas que o opúsculo configurava um passo mais firme do que o livro anterior, e João Carlos Biella, embora não o diga diretamente, parece partilhar dessa ideia, pois afirma que a linguagem paesiana, constituída sobretudo pelo veio da ironia, marcará seu território a partir de Novas cartas chilenas, de 1954 (embora em sua visão seja mais sólido o José Paulo Paes resumido e humorístico de Anatomias, de 1967, alcançando a plenitude em 1992, com Prosas seguidas de odes mínimas). Considerando as divergências analíticas e sobretudo as amostras que darão os escritos posteriores, não nos parece possível constatar com nitidez que José Paulo Paes 19 aqui já se exiba de maneira sólida, com a linguagem própria e elaborada do José Paulo Paes reconhecido na história literária brasileira. Acreditamos, sim, que Cúmplices é já um exemplo da diversidade temática e formal que singularizou o trabalho (ele preferia dizer ―vocação‖) do poeta de Taquaritinga. A nosso ver, são três os aspectos relevantes desenvolvidos no livro: um é a presença de Dora; outro, as incertezas da vida, causadoras de temor; o terceiro reunirá os dois anteriores para formar o significado maior da obra: a transmutação da atmosfera negativa em positiva, pela confiança no amor. E aí já se estabelece uma integração entre Cúmplices e O aluno. A figura de Dora aparece como mulher já conquistada, ou moça ainda por ser. Pintada em meio a paisagens e cortejada por galanteios nos versos de ―Canção sensata‖, ―Pequeno retrato‖, ―Carta de guia‖ e ―Ode pacífica‖, entre outros, ela assumirá diversas faces, mas em todas mantém o caráter de musa-guia do poeta e do homem, seja na opulência algo épica do ―Soneto quixotesco‖ – Uma espada qualquer, de qualquer aço, Um cavalo de flanco palpitante, Fortuna incerta, divagar constante, Sereno o rosto, sempre altivo o braço. No coração, em mui secreto espaço, A figura de Dora, tão distante, Mas tão perto, contudo, e tão reinante, Que a ela se dedique o menor passo. Desfeito o agravo, conjurado o mal, Novo caminho, que neste exercício Nenhum descanso cabe. E que afinal, Por luta valerosa ou alto feito, Eu ganhe reino e Dora, mas no peito Morem saudades do passado ofício (p. 191). – ou na humildade ricamente lírica de ―Madrigal‖: Meu amor é simples, Dora, Como a água e o pão. Como o céu refletido Nas pupilas de um cão (―Madrigal‖, p. 192). 20 Nestes e nos outros textos acima referidos, a mulher amada (no âmbito ficcional ou real, se a distinção entre os dois for realmente possível) recebe cortejos incessantes do sujeito valente, exibindo suas vantagens para impressioná-la; ao mesmo tempo, também receberá provas de uma alma sensível, sequiosa por lhe transmitir todo o afeto possível. É o que se constata ao percebermos que em ―Madrigal‖ o reino dá vez à simplicidade da água e do pão; o cavalo é afastado para o cão entrar em cena; o soneto cede lugar a um humilde epigrama. Outro aspecto a ser citado – dentre os que têm maior presença na plaquete – é a incerteza acerca dos caminhos futuros com que a vida forma ou deforma a trajetória dos amantes. Entre sonho e lucidez, as incertezas. Entre delírio e dever, as tempestades. Ai, para sempre serei teu prisioneiro Neste patíbulo amargo de saudades... (―Epigrama‖, p. 102). E também este exemplo de carpe diem, de acordo com a proposição de Alfredo Bosi (2003, p. 158): Dora, que importa O juiz que escreve Exemplos na areia, Se livres seguimos O rastro dos faunos, A voz das sereias? [...] De maior beleza É, pois, nada prever E à fina incerteza De amor ou viagem Abrir nossa porta. Dora, isso importa (―Canção sensata‖, p. 193-4). O provável impasse oriundo da velha peleja entre emoção e razão (o sonho e a lucidez simbolizados no epigrama), entre a indispensável ―cabeça nas nuvens‖ e o imprescindível ―pé no chão‖, tão necessários aos namorados, amantes ou esposos, é 21 resolvido pelo amor – a força mais substancialmente capaz de solucionar os problemas que dificultam e burocratizam a existência.9 Quando nos momentos incertos a pessoa certa está ao lado, o desgosto pelos reveses cede lugar a demonstrações de companheirismo, no mesmo passo em que a incerteza não angustia, podendo até, ao contrário, tornar-se um atrativo desviador de monotonias. Não são raros os casos (de amor) em que os sentimentos mais puros que trazemos conosco nos fazem superar obstáculos. Não há nisso nenhuma tola idealização; há, sim, uma bela contraposição à propagada idéia de que o amor não se casa com intempéries, além da lição de que não se devem desprezar todas as verdades românticas. É possível, portanto, designar o terceiro fator de relevância do livro (já de certa forma anunciado anteriormente), sendo que este está no topo: a transformação do adverso em benéfico, pela ação direta da confiança no amor. É o caso de ―Carta de guia‖: II Sempre teu rosto e o crepúsculo. Em teus olhos a viagem das nuvens É um estranho presságio Que evito decifrar. III Caminhemos Sem perguntas Como os suicidas Que jamais indagam A profundidade do abismo. IV Sob a chuva de verão, Contra as colunas da lei, Sobre o corpo do soldado, Com o estandarte rasgado De qualquer revolução. 9 Se o biografismo ajudar, José Paulo e Dora jamais gozaram de privilegiada situação econômica, fato geralmente causador de dificuldades para casais. Ver Quem, eu? Um poeta como outro qualquer. 22 V Vivemos, Dora, na certeza De sermos amanhã O que ontem não fomos (p. 196-197). Percorrendo as estrofes, as obstruções à alegria dispõem-se gradativamente: a) há ―um estranho presságio‖ nos olhos de Dora, gerando dúvidas típicas de um amante, como a necessidade de saber se é correspondido, o que certamente amedronta, daí a recusa à decifração; b) a fuga das indagações não se restringe apenas ao homem, agora corresponde à dupla – ―Caminhemos‖ –, e então o incômodo pela dúvida é avolumado, pois o sujeito a possui em sua particularidade (carregando-a consigo mesmo) e em seu conjunto (por ser uma parte do casal); c) as imagens seguintes engendram uma vereda terrível: as angústias já não têm uma raiz subjetiva, elas brotam de fatores externos – sob a chuva, contra colunas, sobre o corpo de um soldado; d) mas a esperança revela-se na certeza de um amanhã que trará outras possibilidades, negadas pelo passado. Destoando do que é mais comum (a fuga para o passado), aqui o escape das adversidades é lançado para o futuro. Em outro texto, esse ―escapismo‖ torna-se mais vivo, visto ser espacial: Atirei meu coração às areias do circo como se atira ao mar uma âncora aflita. Ninguém bateu palmas. O trapezista sorriu, o leão farejou-me desdenhosamente, o palhaço zombou de minha sombra fatídica. Só a pequena bailarina compreendeu. Em suas mãos de opala, meu coração refletia as nuvens de outono, os jogos de infância, as vozes populares. Depois de muitas quedas, aprendi. Sei agora vestir, com razoável destreza, os risos da hiena, a frágil polidez dos elefantes, a elegância marinha dos corcéis. Todavia, quando as luzes se apagam, readquiro antigos poderes e vôo. Vôo para um mundo sem espelhos falsos, onde o sol devolve a cada coisa a sombra natural e onde não há aplausos, porque tudo é justo, porque tudo é bom (―Poema circense‖, p. 198). A máquina do mundo, ruidosa e por vezes destrutiva, ignora os comuns e suas ações afirmativas. Nesse caso, a atenção provém da bailarina, e a única hipótese de 23 transcender uma realidade hostil é garantida pelo amor, que transporta – num vôo – para um plano onde as vaidades humanas são postas de lado; ao centro é situada a harmonia entre homens e coisas, porque, lá, ―tudo é justo, porque tudo é bom‖. Cúmplices, mesmo com seus encantadores textos, ainda não permite antever a envergadura da poética de José Paulo Paes em sua plenitude. Ao lado de O aluno, o livro cobre uma fase juvenil da trajetória do autor, visto que na estreia o sujeito lírico, ainda humanamente jovem, quer ser adulto, criticando boêmios juvenis para deles se diferenciar (―mas o adolescente está bebendo gin‖), ao passo que o já adulto de Cúmplices, arrebatado pela paixão, solta-se nos mais irrefreáveis impulsos característicos da adolescência: a despreocupação com o porvir e a esperança viva de dias e cenários melhores. E ainda que se dê o contrário – ―Atrás de mim ficou o espelho fútil. / Além de mim descubro céus inúteis‖ (p. 201). –, o amor presente dará as garantias necessárias: ―Mas que importa o caminho? Estamos juntos‖ (idem). 24 NOVA VELHA HISTÓRIA Novas cartas chilenas é um marco divisório na trajetória de José Paulo Paes. Embora escrita em 1954, a peça só foi publicada três anos depois, no sétimo número da Revista Brasiliense, célebre veículo da intelectualidade da esquerda brasileira. Isso já é um indício da importância desse livro, emblematicamente prefaciado por Sérgio Buarque de Hollanda. Na ocasião, a obra foi assinada por Doroteo Critilo, pseudônimo extraído de Cartas chilenas, (provavelmente) de Tomás Antônio Gonzaga, e resultante da fusão dos personagens Doroteu (a quem as cartas eram dirigidas) e Critilo, autor das mesmas. É uma obra da qual podemos fazer pelo menos três leituras, de contextos diversos, cujo agrupamento atestará sua potencialidade: a primeira aponta para a mudança da própria poesia paesiana, visto que a subjetividade dos livros anteriores – com o entusiasmo pela poesia e a paixão pela noiva – cede lugar à postura de quem se retira do centro de suas auto-reflexões para colocar-se na posição de observador de fenômenos gerais, no âmbito de uma coletividade (a História do Brasil). Além da substância artística, as Novas cartas trazem um crescimento no volume da produção de Paes, visto serem compostas por vinte poemas, no lugar dos nove que tanto O aluno quanto Cúmplices apresentavam (cada um). Uma segunda leitura pertence ao campo específico da poesia nacional, à época atravessada por experiências de vanguarda que a impregnaram de abstrações. Buscavase incessantemente a formulação de um ―ismo‖ nacional, não tributário de movimentos europeus, com o desejo de fortalecer entre os principais poetas brasileiros uma cultura transgressora. Nesse terreno, o grupo a hastear a mais alta bandeira foi o concretista, proclamando-se o primeiro movimento literário brasileiro a erguer, de dentro para fora, uma estética inovadora. Mas as referências teóricas de seus manifestos e muitos estudos recentes mostram que as cores da flâmula não foram tão verde-e-louras assim... Nesse caso, o livro de José Paulo Paes fornece ao conjunto de sua obra mais um fator de originalidade, justamente por recusar mais essa tendência de vanguarda, cuja influência para a cultura nacional não foi pequena. ―Literatos de truz, já vacinados / Contra a febre do vil engajamento, / À fenestra das torres de marfim‖ (p. 113), diz uma estrofe de ―Por que me ufano‖, derradeiro poema do livro. Entre redondilhas e sonetos, Novas cartas chilenas mostra o domínio gradativo que Paes tem do verso, mas não 25 somente isso opõe o livro às experimentações vanguardistas: ele prima pelo discurso e pelo conteúdo poético, mantendo-se na tradição dos escritos que pretendem dar ao leitor uma mudança de perspectiva sobre a realidade, não se contentando com a poesia teórica, ensimesmada na pesquisa sobre a palavra. Sobre essa atituade, assinala Davi Arrigucci Jr.: Era a fórmula pessoal que lhe permitia ao mesmo tempo reler a tradição, glosar lições do passado (como ao reassumir o tom satírico das Cartas chilenas para falar do presente), aceitar ou não procedimentos da vanguarda coetânea e inserir-se, com consciência irônica e carga crítica, munido de recusas necessárias e linguagem sob medida, na perspectiva do mundo contemporâneo (Arrigucci Jr., 2003, p. 16). A terceira leitura possível liga-se à intelligentsia nacional, visto que as possibilidades de interesse sobre o livro, cujo conteúdo abarca itens do discurso sociológico e historicista, não se esgotam no círculo específico da literatura, sempre com o objetivo de repensar a vida brasileira. As Novas cartas – assim como Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, e História do Brasil, de Murilo Mendes – estabelecem uma tensão entre história e historiografia, sem que neste livro haja o veio humorístico daqueles dois, e seu autor insere-se ativamente na primeira para negar as incoerências da segunda (aqui falamos de nossa historiografia tradicional). História, pastora Dos alfarrábios. Meretriz do rei, Matrona do sábio. [...] Musa, confusa Bola de cristal. Arena de luta Entre o bem e o mal (―Ode prévia‖, p. 71). Noutros poemas, veremos o quanto o poeta estava embasado de teorias desmistificadoras da História entendida como o conjunto de relatos celebradores dos grandes acontecimentos, realizados por grandes homens, pensamento sempre discutível e que teve entre seus expoentes a figura de Rocha Pombo (1857-1933). 26 Tomemos um breve exemplo: a questão do bandeirantes. Em História do Brasil (Curso superior), do famoso historiador, Raposo Tavares, Borba Gato e Domingos Jorge Velho são símbolos de bravura e de luta pelos interesses nacionais. Suas investidas pelos sertões são-nos apresentadas de forma épica, ao passo que sua representação iconográfica os mostra como homens de porte sobranceiro e de indumentária aprumada – e isso não só no livro de Rocha Pombo, mas em inúmeros livros didáticos que beberam em sua fonte e alimentaram-se da necessidade de nossa cultura de produzir santos, reis e mártires, todos com espírito elevado. Já para José Paulo Paes, a imagem dos desbravadores é degradada: Embora careça pólvora, Esquadra, falcões, mosquetes, E andemos sempre descalços, De arcabuz enferrujado, Na guerrilha sem quartel Contra inimigo ocupado. Embora em paga do sangue Derramado se nos deem Três magros vinténs, que mal Suprem a fome de quem, Longo tempo jejuado, As tripas falantes tem (―Os nativistas‖, p. 83-84), e suas ações, degradantes: Domingos Jorge, velho Chacal, a barba Sinistramente grave E o sangue Curtindo-lhe o couro Da alma mercenária. Domingos Jorge, velho Verdugo, qual A tua paga? [...] Um dia, em Palmares, No mesmo chão do crime, Terás teu mausoléu: Lápide enterrada Na areia e, sobre ela, A urina dos cães, 27 O vômito dos corvos E o desprezo eterno (―Palmares‖, p. 89-90). A originalidade da leitura do poeta equipado pela historiografia moderna para falar sobre esse grupo lendário (além de outros eventos de nossa história) pode ser atestada com palavras de Glória Kok: Altivos, imponentes, longas botas, chapéus e armas vistosas. Esqueça a imagem típica dos bandeirantes difundida pelos livros didáticos. A realidade era bem outra: as tropas caminhavam descalças por extensos territórios, sujeitas a todo tipo de desconforto, à mercê dos ataques de índios e de animais, fustigadas pela fome (Kok, 2008, p. 22). Dessa forma, José Paulo Paes passa a integrar o grupo de artistas (não só escritores) que deu ao século XX brasileiro a sua melhor linhagem intelectual, a que pensa as questões nacionais renovando com qualidade a composição, e da qual fazem parte desde o Euclides da Cunha de Os sertões até o Ferreira Gullar do Poema sujo. Mesmo com esse salto qualitativo, ainda não se vê aqui constituída a linguagem de José Paulo Paes, se aceitarmos as rotulações mais comuns que a ele se agregam (algo generalizantes, mas nunca desprezíveis), como o poeta da brevidade e do humor, sobre o que trataremos num capítulo adiante. Mas é inegável o seu ingresso numa fase madura, sobretudo porque a partir desse momento sua escrita alicerça-se na ironia, embora o livro não apresente comicidade. Para melhor compreensão, recorremos a ―Introdução à poética da ironia‖, de Ronaldes de Melo e Souza: ―Ironia, eironeia, quer dizer questionamento‖ (Souza, 2000, p. 30). Questionamento esse dirigido ao objeto representado e à voz que se lança a representar, no intuito de que o sujeito desconfie de suas próprias verdades e reconheça os limites do seu olhar, para, lucidamente, não reduzir à sua perspectiva a raiz dos fenômenos observados; (afinal, são comuns os casos em que interpretações intentam dar a si próprias uma exclusividade análoga à que possui a obra interpretada). As vozes que se alternam pelos poemas provam isso, e o exemplo máximo fica por conta do dramático e polifônico ―Os inconfidentes‖ (que citaremos à frente). 28 Do início ao fim do livro, são postos em revista os episódios mais famosos da existência do Brasil, desde sua descoberta até a rebelião tenentista, já no século 20. Efetua-se um exercício para ―passar a limpo‖ as ações de instituições ou homens destacados em nossa cultura, sempre movido pela vontade de vê-las (as ações) sob (ou sobre) uma nova ótica, geralmente a dos que viram e ouviram, mas tiveram as vozes abafadas durante a constituição da memória nacional.10 Houvemos e nos partimos, Erário, Corte e monarca, Deixando o povo no cais. Não há lugar para o povo Nas galeotas reais (―A fuga‖, p. 102). ...................................................... Vamos, com farda de gala, Proclamar os tempos novos, Mas cautelosos, furtivos, Para não acordar o povo (―Cem anos depois‖, p. 109). A recriação do discurso consagrado pela convenção talvez seja a mais forte baliza de Novas cartas chilenas, que herda do seu texto-matriz, o famoso poema Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, a dessintonia entre poeta e poder político instituído. Mas, ao passo que este tem um único alvo, o ―Fanfarrão Minésio‖, aquele disparará repreensões a todos os integrantes da antiga linhagem despótica e individualista que aflige território e habitantes.11 10 ―Muito antes que vingasse a recente proposta acadêmica de fazer História ‗pela ótica dos oprimidos‘‖, diz Alfredo Bosi (2003. p. 161). 11 ―A diferença aparentemente mais importante à primeira vista é a falta de Fanfarrão ou de algum personagem concreto que faça as suas vezes. Mas não estava já ele morto quando circularam aquelas outras cartas chilenas? Não, o Fanfarrão continua a existir e está presente em todas as páginas deste poema. Apenas em contraste com Doroteu e Critilo, que se fundiram num só personagem, o general do Chile ali subdividido, por sua vez e multiplicado, em mil fanfarrões, sempre cheios de audácia e pompa vã. E é ainda para narrar suas façanhas que comparece Doroteu Critilo, novo (e velho) exercício para charadistas‖. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. ―Nota explicativa sobre as Cartas chilenas‖. In: Revista Brasiliense, volume 7. São Paulo, setembro / outubro de 1957. p. 62. 29 A começar pelos expedicionários criadores do Brasil (o livro segue a disposição cronológica), Achar é nossa lida mais constante E lucro nosso empenho mais vezeiro: Hemos a gula vil do mercador Num coração febril de marinheiros (―Os navegantes‖, p. 73), são criticados os bandeirantes, Alfim, sob o da morte agro comando, Terminamos a dada, perdoando A nossos netos o serem bacharéis E ao bandeirismo mostrar revéis, Pois que no latifúndio e na finança Também se alcança, ao cabo, essa abastança Que apaga o crime e propicia a glória Do bronze, onde dormimos, pais da História (―O testamento‖, p. 86), é contestada a monarquia, Sejamos, na cozinha, escravocratas, Mas abolicionistas de salão: A dubiedade é-nos virtude grata (―O segundo império‖, p. 107), e desmerecidos os republicanos, Vamos fazer a República, Sem barulho, sem litígio, Sem nenhuma guilhotina, Sem qualquer barrete frígio (―Cem anos depois‖, p. 109), entre outros agentes dos quais remove-se a aura aristocrática, sendo-lhes também apontadas as consequências das empreitadas que ainda se mantêm em nossa estrutura social, as mesmas que ainda bloqueiam muitas possibilidades de progresso. O escravo das senzalas na favela Batucante, pitoresca, sonorosa, A musa castroalvina estando morta (―Por que me ufano‖, p. 112). 30 ..................................................................... O bandeirantes heris, continuados Em capitães de indústria, preterindo O sertanismo pela mais-valia (Idem, p. 113). Para enfatizar a recriação da história oficial empreendida por Paes, importa observar a carga parodista (evidente presença de Oswald de Andrade, tanto aqui quanto em muitos outros livros) com a qual o poeta, além de criticar os ―heróis nacionais‖, toma-lhes o discurso para nele inserir a confissão de intenções ou atos vis, agravandolhes a imagem de cinismo. Não houve fala deles, Senão comércio: dei Barrete e carapuça; mas ganhei Penas de papagaio, Senhor meu El-Rei (―A carta‖, p. 76). ............................................................... São bons de porte e finos de feição E logo sabem o que se lhes ensina, Mas têm o grave defeito de ser livres (―A mão-de-obra‖, p. 78). Os exemplos acima, apesar de originários de poemas diferentes, têm fonte comum: a Carta do achamento, de Pero Vaz de Caminha. Em ambos, a linguagem empregada nos dá a entender que é o próprio cronista a nos falar. Mas existem neles declarações que certamente os comandantes portugueses e seus porta-vozes, autoabsolvidos de seus crimes pela chancela de agentes do Reino e de Deus, jamais fariam (dar instrumentos de violência e violência aos índios, e perceber na sua informalidade e desprendimento um problema a ser enfrentado). É dessa forma que José Paulo Paes funde e confunde as referências, criando um sujeito lírico múltiplo, pondo num mesmo âmbito o discurso tradicional do dominador e uma visão dos fatos própria do outro, do dominado, anulando dessa forma a antiga oposição entre civilização e barbárie e seus precisos referenciais. Os historiadores atuais (como os modernos filósofos e poetas antigos, como o próprio José Paulo), sabiamente nos aconselham a não partilharmos dos maniqueísmos 31 que segregam em nítidos campos a verdade e a mentira, o opressor e o oprimido, o bem e o mal. Além disso, mostram ser importante tentar avaliar fatos passados com a mundividência dos que os realizaram, mas até mesmo a relativização precisa de limitações éticas, pois do contrário poderemos esquecer ou ignorar, nesse caso, as aldeias incendiadas, os índios escravizados, as índias violentadas por falos e por caules. O que José Paulo Paes nos diz é que a nossa barbárie era bem mais civilizada que a bárbara civilização portuguesa. Não são poucos os poemas dessa linha. Além dos citados acima, referentes ao princípio da fundação do Brasil, há referências a outras cenas do teatro histórico nacional, como a instituição das capitanias hereditárias: Por esta carta régia seja a terra Doada a quem, de largos cabedais E mor prosápia, a cuide e frutifique Ressalvados os dízimos reais. Daremos posse inteira, de bom grado, A fidalgo de estirpe, lavrador, Cabeça de casal com gado e escravos, Afilhados, soldados de valor. [...] Cative-se o gentio em guerra justa Para as lidas de roça e de moenda, Que o sangue do cativo faz o açúcar Mais saborosos e mor a nossa renda. Haja feitor e padres e chicotes E se converta o rude mameluco De maneira cristã, mas carecendo, Corda da forca e carga de trabuco (―A partilha‖, p. 79-80). o início do processo da independência nacional, ocasionado pela vinda da Corte: Abrimos os portos à Mercancia universal, Que a ceifa de impostos cobre E paga o luxo devido Ao nosso fausto de nobres (―A fuga‖, p. 103); a abolição da escravatura: 32 Considerando Com antecipação As muitas vantagens Da mais valia sobre O trabalho sem pão. Decidimos, com pena De ouro, chancelar Carta de alforria Ampla e universal A toda a escravaria (―A redenção‖, p. 108); e muitos outros episódios, reescritos em ―Os navegantes‖, ―O testamento‖, ―O segundo império‖, e ―Cem anos depois‖. São poemas-relato ou ―poemas-decreto‖ sempre proferidos em primeira pessoa, geralmente do plural, mas de forma alguma pela exteriorização da persona paesiana. Neles, os personagens se autodelatam, mas sem nenhum dramalhão de arrependimentos: há apenas a normalidade do falante branco, europeu (ou descendente) e cristão a justificar suas ações com a crença (ora verídica, ora vazia) de prestar um serviço à ordem divina – ―Que a nobreza é do Rei e o Rei é nome / Terrestre de Deus Todo-Poderoso‖, sentencia-se em ―A Partilha‖ –, cabendo a nós, seus ouvintes, avaliar as implicações de suas verdades. O exemplo maior de tal subversão (lembre-se, a de recriar a versão de um fato histórico a partir da paródia do discurso consagrado sobre ele) é inegavelmente ―A cristandade‖, fantástico resumo da profissão de fé dos colonizadores mais típicos, visto que não houve uniformidade colonial nas várias partes do território por onde passaram colonizadores.12 Padre açúcar, Que estais no céu Da monocultura, Santificado Seja o vosso lucro, Venha a nós o vosso reino De lúbricas mulatas E lídimas patacas, Seja feita A vossa vontade, Assim na casa-grande 12 A tese é de Alfredo Ellis Jr. Apud: CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 10ª ed. p. 614. 33 Como na senzala. O ouro nosso De cada dia Nos dai hoje E perdoai nossas dívidas Assim como perdoamos O escrava faltoso Depois de puni-lo. Não nos deixeis cair em tentação De liberalismo, Mas livrai-nos de todo Remorso, amém (p. 82). Em 1954, quando as Novas cartas chilenas foram escritas, já circulavam propostas de uma nova História, a se edificar pela perspectiva dos ―de baixo‖. Mais ainda hoje, no século 21, soa curiosa, por exemplo, a análise do período das grandes navegações a partir dos relatos de vassalo de navio, da mesma forma que causa surpresa um estudo sobre a escravidão tomando por base a biografia de um escravo. A modernidade não envelhece, até porque os arcaísmos não morrem. Assim sendo, além de quebrar a ideia da História como passarela ufanista, o terceiro livro de poesia de José Paulo Paes também enfoca supostas ―pequenices‖ dentro dos grandes fatos, o que se convencionou chamar de micro-história. O poema transcrito a seguir – ―O grito‖ –, sobre a declaração de nossa independência, é pleno dessas referências. Um tranquilo riacho suburbano, Uma choupana embaixo de um coqueiro, Uma junta de bois e um carreteiro: Eis o pano de fundo e, contra o pano, Figurantes — cavalos, cavaleiros, Ressaltando o motivo soberano, A quem foi reservado o meio plano Onde avulta, solene e sobranceiro. Complete-se a pintura mentalmente Com o grito famoso, postergando Qualquer simbologia irreverente. Nem se indague do artista, casto obreiro Fiel ao mecenato e ao seu comando, Quem o povo, se os bois, se o carreteiro (p. 105). 34 Opera-se uma inversão: o carreteiro que no quadro Independência ou morte, de Pedro Américo é um mero coadjuvante, marginalizado no canto da tela (lembrando que há um outro mais acima, bem mais distanciado, de costas para o acontecimento), olhando o gesto de Dom Pedro I, como se não soubesse o que se dava em tal ocasião, torna-se o personagem central, visto o próprio poema chamar os correligionários do iminente Imperador (que não tem seu nome citado) e seus animais de ―figurantes‖, e atribuir à situação o caráter de ―qualquer simbologia irreverente‖. Era a forma de a um só tempo: a) contestar a mal forjada independência brasileira; b) desmerecer a heroicidade de D. Pedro I; c) pôr a margem no centro e afastar os elementos centrais para a desimportância da margem, valorizando o homem comum brasileiro em detrimento dos aristocratas do Velho do Mundo; d) recriar a versão legitimada do ocorrido, desautorizando a contribuição do próprio Pedro Américo (―Fiel ao mecenato e ao seu comando‖), em sua subserviência a Pedro II, mentor e patrocinador de um projeto de construção da identidade nacional da época, e em sua alienação frente à nação pela qual se ―juntavam esforços‖. Some-se a isso o seguinte contraste: por um lado tem-se a enérgica movimentação da pintura (à frente de D. Pedro há cavalos algo revoltos, um deles a ponto de tombar), designando a virulência daqueles dias em que Portugal perderia sua maior colônia e simbolizando o furor nacionalista que fazia um príncipe português defender uma terra bastarda para seus antepassados. Por outro, temos o poema a presentificar o ato (a proclamação) e a representação do ato (o quadro de Pedro Américo). O texto, não por acaso, chama-se ―O grito‖, mas também não por acaso negará toda a azáfama característica do celebrado caso, as imagens evocadas denotam plácida lentidão: ―Um tranquilo riacho‖, ―Uma choupana embaixo do coqueiro‖, ―Uma junta de bois e um carreteiro‖, ou seja, sombra, água fresca e o vagaroso pastoreio das reses às margens do plácido soneto. Em seu referido estudo, Ronaldes de Melo e Souza diz ser a ironia mais que um recurso estilístico: ela é a própria constituição estrutural das obras que nela se fundam (2000, p. 27). Dessa forma, a reversibilidade de elementos contrários tem morada cativa nas peças irônicas, e seus paradoxos atestam o quanto elas são nutridas pela vida. E nesse livro combativo, pautado pelo desmanche de antigas verdades, há lugar para a 35 crença nos homens e pensamentos reformuladores, sem no entanto sublimá-los com o pior da ideologia socialista. E o reino de Ogum, Xangô, Olorum, Instala-se na terra E o negro sem dono, O negro sem feitor, Semeia seu milho, Espreme sua cana, Ensina seu filho A olhar para o céu Sem ódio ou temor. [...] Negra cidade Do velho enforcado, Da virgem violada, Do infame queimado, De Zumbi traído. Negra cidade Dos túmulos, Palmares (―Palmares‖, p. 88-9). É essa crença o motivo para o espaço concedido a alguns outros textos, minoritários, prestadores de homenagens (não encomiásticas) a homens que de fato demonstraram honra em suas ações, ainda que isso não lhes confira o título de heróis, aspecto certamente desimportante para um crítico tão lúcido. Nesse grupo, além de ―Palmares‖, canto solidário a Zumbi, incluem-se ―Calendário‖, no qual são destacados alguns rebeldes e rebeliões do tempo colonial ou após a Independência; ―Os tenentes‖, que indiretamente aplaude o líder comunista Luís Carlos Prestes; o dramático ―Os inconfidentes‖, no qual o movimento da insurreição é pensado por várias perspectivas, como a da Coroa que condena à morte: Saiba todo que ler este proclama, Embora poucos leiam na província, Sendo empenho do Rei conservar Em santa ignorância seus vassalos, Que Maria I, dita louca, Como se não bastara a muita argúcia Dos ministros, suprindo o desconcerto Dos miolos reais, houve por bem Esmagar a conjura que envenena O generoso povo desta Vila. 36 [...] Valendo-se do ensejo, oferecer Aos maus exemplo e aos bons espetáculo De circo, porque o pão sempre se adia, Ordena assim a todos assistirem Ao mais raro massacre deste século (p. 95). e a do tempo, que a matou sem condenação: Na cova do tempo jaz, Monturo de cinza e cal, Remorso, diamante, fezes, O mundo colonial. Mas reparai, cavalheiros Da Igreja como do Estado, Que um herói ficou de fora, Embora fosse enterrado. Tiradentes se recusa Ao vosso fácil museu, Panteon de compromissos, Olimpo de camafeus. [...] Esconjurai-o, Norbertos. Renegai-o, Capistranos. Tudo inútil, cavalheiros. O mito é o berço do humano (p. 98). Tantos desmandos administrativos, assassinatos e crimes contra a nacionalidade facilmente tornam os brasileiros, letrados ou não, descrentes em dias melhores ou em homens ou grupos confiáveis. Isso certamente aconteceu com José Paulo Paes (fato verificável em sua rápida passagem pelo Partido Comunista, quando o poeta desgastouse com a mecanização e insensibilidade da militância institucionalizada que contradiz seus próprios ideais).13 Diz a última estrofe de ―Ode prévia‖, poema-introdução do livro: 13 ―Alistado no partido, distribuí panfletos, colei cartazes, pintei paredes com os nomes de seus candidatos à eleição. Mas a rigidez de suas diretivas e palavras de ordem não tardou a incomodar-me. Incomodava-me, em especial, a insistência dos stalinistas de, em nome do suposto ‗realismo socialista‘, rebaixar a arte e a literatura a mero (sic) 37 Estrela da manhã, Mapa ainda obscuro. História, mãe e esposa De todo futuro (p.72). Mas, além da brevidade e do humor, ele é o poeta da conciliação dos antagonismos, portanto é justamente essa poética tão impregnada de desilusões e de ácidas manifestações que faz brotar uma esperança, tão lúcida quanto a revolta, sendo ela um refúgio das opressões e um contra-ataque às forças que nos subtraem a crença na solidariedade e nas transformações advindas da participação coletivas. E o último texto, o emblemático ―Por que me ufano‖, bela amostra da circularidade dessa obra (como também se faz cíclica a História), resume todos os períodos marcantes da vida nacional, e suas negativas consequências para o século XX. É o único poema de todo o livro aberto à subjetividade, dela nascendo o canto preciso, endurecido mas sem prescindir da ternura, do poeta crente em seus conterrâneos, transmitindo ao país fraterna esperança e à sua literatura uma de suas maiores obras, verdadeiramente histórica: Mas, sal da terra, reverso da medalha, Balaiadas, Praieiras, Sabinadas, Palmares, Itambés, Inconfidências. Tudo ajuizado e em boa aferição, O fruto podre, a rosa ainda em botão, O sol do grão, a esperança da raiz, Sob o signo do Cruzeiro insubornável, Tendo em conta passados e futuros, Sempre me ufano deste meu país (p. 113-114). veículos de propaganda partidária‖. PAES, José Paulo. Quem, eu? Um poeta como outro qualquer. p. 40. 38 POEMAS RENIDOS, POETA REUNIDOR Se a obra estudada no capítulo anterior divide as águas da poesia paesiana, a que avaliaremos agora as adensa e pluraliza, pois incorpora a principal novidade apresentada por sua antecessora (em comparação a O aluno e Cúmplices): a reflexão sobre problemas coletivos, alargando o horizonte artístico de Paes. Embora seja ainda o quarto volume de poemas lançado pelo poeta, Epigramas, de 1958, já pode antecipar a afirmação de Antonio Carlos Secchin, para quem essa poética é ―multifacetada, constantemente aberta ao risco e à renovação‖ (2003, p. 196). Cotejado às Novas cartas chilenas, Epigramas (essas duas coletâneas só saíram em livro, juntas, em Poemas reunidos, de 1961) é um volume em que as críticas de caráter sócio-político extrapolam as raias do âmbito nacional (apenas ―Gottschalk revisitado‖, paródia de nosso hino, apresenta assunto exclusivamente brasileiro) para atingirem um patamar universal, evidenciado já na epígrafe – em que é citada o fragmento de um hino de Ronsard – e nos títulos de diversos poemas: ―A Arthur Rimbaud‖, ―A Edgar Allan Poe‖, ―A Nazim Hikmet‖, além das fábulas e referências à liturgia cristã. A mais, haverá novo florescimento da subjetividade, quando o eu deseja falar como nós. No livro, ganham espaço itens que estarão (cada um com maior ou menor frequência) em todos os livros seguintes, sedimentando a base das ideias mais comuns que temos sobre o trabalho do poeta de Taquaritinga. Tais itens são a presença: a) da cultura grega, indicada no título do livro (o epigrama foi uma forma poética muito cultivada entre os helênicos) e nas fábulas em que ações humanas são representadas por animais: Ele vive Como um leão de circo. De manhã, alguém Deixa sobre o chão Da jaula, ainda suja De excremento e sonhos, O prato de ração. Nesse instante, ele pensa (Breve espaço sem grades) Um mundo mais justo, Onde o pão não custe 39 Essa cabeça baixa, Esse rubor ao insulto, Esse olhar melancólico A todas as escadas. [...] De noite, ele volta À rua de sempre, À lua de sempre, Ao sono de sempre Sob cobertores E dorme, no consolo De que, neste mundo, Apesar de tudo, Há sempre mais leões Do que domadores (―Do mecenato‖, p. 137-8); b) do discurso político mais marcadamente influenciado pelo marxismo, do qual o poeta era partidário: Homem, não sejas Pássaro nostálgico, Cão ou boi servil. Levanta o fuzil Contra o outro homem Que te quer escravo. Só depois disso morre (―Baladilha‖, p. 136); c) da confluência das ideologias socialista e cristã. Não sei palavras dúbias. Meu sermão Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. Com duas mãos fraternas, cumplicio A ilha prometida à proa do navio. A posse é-me aventura sem sentido. Só compreendo o pão se dividido. Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. Aceito meu inferno, mas falo do meu céu (―Poética‖, p. 121). É sabido que o marxistas ortodoxos, em sua fundamentação materialista, costumaram ver as religiões de modo negativo, a elas imputando caráter alienante, como 40 condutoras do homem à conformação diante dos mecanismos que lhe exploravam a força de trabalho e negligenciavam seus direitos básicos para viver dignamente. Por sua vez, os religiosos conservadores encararam o comunismo como uma subversão danosa aos preceitos morais e legais. Num fato contemporâneo do livro, João Goulart, recémempossado presidente do Brasil, pressionado pela oposição ao seu governo, teve de jurar, na tribuna da Câmara, com a mão sobre a Bíblia, que não era aliado do líder comunista Luís Carlos Prestes. ―Poética‖ serve então como o instrumento conciliador dessas duas verdades que pregam a justiça, uma em qualidade espiritual, a outra, social. O título do texto não poderia ser mais preciso: ele vai indicar que a arte poética de José Paulo Paes não se desgarra da vida e nem afasta o motivo humano de seu centro. A subjetividade do poema, primeiro do livro, fortifica o desejo de fraternidade com que o poeta pretende tocar os homens, alertando-os, como crente e militante, para os enganos do individualismo. Essa espécie de sacerdócio político, ou engajamento religioso, rendeu ao poeta reprovações que ele não recebia desde a carta de Carlos Drummond de Andrade a respeito de O aluno. No mais longo ensaio debruçado sobre a obra de Paes – Um ironismo como outro qualquer –, João Carlos Biella vê acertadamente em Epigramas prejuízo do literário para o lucro da ideologia, algo evidente no poema ―Ressalva‖. E, ao julgar a poesia de Paes com a perspectiva crítica predominante atualmente – a que valoriza no artesanato poético a consciência do trabalho com a linguagem e teorizações sobre a própria poesia –, o crítico tacha de panfletários os poemas de conotação social.14 Há nisso um equívoco, pois panfletária não é a expressão com teor político, e sim a propaganda partidária apoiada na forma artística. Em nossos casos mais famosos, Jorge Amado e Ferreira Gullar (penso sobretudo nos livros Cacau, do romancista baiano, e nos romances de cordel do poeta maranhense) compuseram nítidos apelos à ―causa revolucionária‖, sempre fazendo com que os enredos comprovassem a ideia de que fora do comunismo não haveria salvação para a humanidade. O caso de José Paulo Paes é diferente, apesar das pequenas semelhanças. Há poemas contestadores de 14 Em especial no subcapítulo ―Ironias e a condição irônica‖. pp. 40-56. Sobre perspectiva crítica de Biella, leia-se o último parágrafo da tese, a soar destoante do todo: ―Lendo alguns poetas contemporâneos, sinto que alguns, como Carlos Vogt, Carlos Felipe Moisés e Fábio Weintraub, parecem alargar certas metáforas de expansão, as quais não foram completadas pelo poeta José Paulo Paes‖. p. 154. 41 pouquíssimo alcance, mas sua derrapagem no panfleto não ocorre neste livro, aparecendo, unicamente, na ―Cartilha‖, de Anatomias (1967). Neste contexto, é proveitoso discutir a posição dessa poesia e para quem ela se dirige. José Paulo certamente não nutriria, até mesmo por sua conhecida aversão ao deslumbramento (e também porque, sendo editor, sabia da diminuta comercialização da poesia), algum projeto de atingir as massas; mas isso não fez com que para ele o leitor fosse algo desprezível. À época da escrita de Epigramas, o estatuto concretista já vigorava com larga repercussão, e sabe-se que em decorrência disso a poesia brasileira enclausurou-se na tenda dos leitores especializados, cheios dos imprescindíveis esquemas teóricos para a decodificação do literário. Paes nega essa tendência, e a sua formação intelectual extra-universitária explica a manutenção de seu vínculo com o leitor e a resistência a algumas propostas da vanguarda do século XX, as quais, sob a chancela da novidade, deram à história da arte ocidental incontáveis páginas histéricas e estéreis.15 Ainda sobre a crítica de João Biella, ―Poética‖, citado acima, é por ele visto como um poema que não se coaduna com a autêntica estética paesiana. Ao comentar a persona poética que fala através dos versos, diz que ela ―acredita em dualidade e não sabe a ambiguidade‖ (2008, p. 43). Também aqui uma observação é necessária. O pensamento maniqueísta, esse, sim, muito presente nos panfletos, concebe uma divisão entre mal e bem de maneira dificilmente aplicável à vida com tanta precisão. Como falamos de questões políticas, entre marxistas (e quaisquer outros ―istas‖) ortodoxos, é regra atribuir a si e a seus correligionários a estampa do bem, da virtude e da correção, ao passo que o outro, o capitalista (ou o a ele simpatizante) é o retrógrado, deficiente de compreensão e de caráter, nocivo à humanidade. Seguindo a lógica, os arautos da sociedade igualitária acreditam ser a sua via a única pela qual a reforma coletiva terá trajetória viável e autêntica. Presenciando um recital de poesia durante a comemoração do aniversário de um jornal comunista carioca em 2001, o qual fora aberto por Moacyr Félix, pude perceber que em todas as manifestações havia a ideia de um mundo doente a mortificar as classes pobres, mas uma reversão era possível, e ela emergiria da revolução empreendida pelo proletariado, 15 ―[...] eu sempre tive em mente o leitor e procurei, na medida do possível, chegar a um grau, não digo de clareza, mas de acessibilidade que pudesse para a poesia o leitor não-poeta‖, diz o poeta em entrevista a Carlos Felipe Moisés. ―Meia palavra inteira‖. In: http://www.revista.agulha.nom.br/cfmo01.html. 42 fazendo então nascer uma felicidade que a todos abraçaria. Como se tudo ocorresse dentro de uma cadeia logicamente infalível. Mas não é isso o que se lê no poema de Paes. Ao finalizar-se com o verso ―Aceito meu inferno, mas falo do meu céu‖, vemos, sim, a compreensão da ambiguidade em que convivem a brisa e o mormaço da trajetória humana. A capacidade de contestação e de desconfiança frente aos avanços da ordem mundial é imprescindível a qualquer intelectual, mas a partir do momento em que ela se torna palavra de ordem, aquele que a profere, além de ficar enfadonho, reduz a existência a uma perspectiva negativa, e tudo passa a ser produto da mais-valia, da opressão e do individualismo. Sabe-se que o sorriso em demasia pode significar alheamento, mas sua ausência produz atmosferas insuportáveis. Um equilíbrio entre as duas pontas da balança é mais do que necessário, e o sujeito lírico de ―Poética‖ o alcança na medida em que não vê o mundo como desgraça ou ventura, e sim como o palco sobre o qual esses e outros atores bailam, ora com amizade, ora com repulsa. A poética de José Paulo Paes, que não se afina ao concerto dicotômico, reúne tais elementos com a lucidez irônica de quem confia desconfiando de suas crenças. Epigramas observa o desconcerto do mundo moderno. O pior impacto do poder regulador do mercado, meteoricamente crescido no século XX, foi tornar o homem uma peça convicta de sua engrenagem. A deformação da natureza, o degradante cotidiano das grandes cidades, a banalização perda de direitos coletivos básicos e a proliferação de sangrentos regimes ditatoriais decorrem por ter-se postulado que o homem é o sujeito num cenário em que tudo lhe é objeto, inclusive os outros homens. Para o bem do progresso, da prosperidade coletiva e para a notabilização pessoal, a vida deve ser submetida à ordem racional, sendo as disposições em contrário revogadas em nome da tranquilidade comum. Persistia a desordem. Era inútil A tática cristã. Então usamos A parede e o fuzil (―Volta à legalidade‖, p. 139). ―Ivan Ilitch, 1958‖ demonstra a atualidade do personagem de Leon Tolstói, cuja ascensão profissional edificou-se sobre o declínio do espírito. Lar, esposa, Filhos, pijama, 43 Janta, living, Jornal, cismares, Tricô, vagares, Hiato, ausências, Bocejo, escada, Adeus, adeus. Quarto, cama, Glândulas, êxtase, Dois em um, Dois em nada, Dever cumprido, Luz apagada, Adeus, adeus. Horas, dias, Meses, anos, Cãs, enganos, Desenganos, Vácuo, náusea, Indiferença, Cipreste, olvido, Há Deus? adeus (p. 141-2). Recorde-se que para o Ivan Ilitch russo a morte iminente tornou-se a porta de um novo nascer; já para o do poema, protótipo do homem urbano mergulhado em seus afazeres, a caminhada não é cíclica, encerrando-se de fato ao fim da linha reta, sem crenças ou qualquer nota emotiva. Noutro texto, ―Novo soneto quixotesco‖, o ingresso na fase adulta, quando esta significa exclusão da meninice, representa a esterilidade e a alienação que a vida ―normal‖ exige dos que atingem a madura idade. Quixotescos nascemos. Certo dia, Viramos bacharéis ou almocreves, E nesse dia, Herói, morres conosco (p. 148). Mas seria o poeta conformado com o que para muitos ainda representa um mal a ser sanado (ou seja, o afastamento do homem de si mesmo)? O próprio poema citado acima mostra-se resignado ao dizer: ―O mundo é assim, meu cavaleiro / De tristonha figura, e há que aceitar / A lógica prudente dos alcaides / (Ou fingir aceitá-la, pelo menos)‖. Retomando a pergunta, podemos afirmar que não, pois ele mesmo, o soneto, 44 vai se encarregar de responder: ―Mas teu exemplo fica e é sobre ele / Que me debruço agora e me revejo‖. É válido refletirmos sobre o sentido do título do livro. Geralmente quando falamos em epigramas, vêm-nos à mente poemas de forma curta, com tendência ao provérbio. O popular dicionário Aurélio define-os como ―poesia breve, satírica‖, definição aliás muito difundida sobre a obra de José Paulo Paes. A conceituação, apesar de sintética, não é enganosa. Mas por que seria chamado Epigramas um livro que de um total de vinte e dois poemas apresenta apenas três de forma breve, com o número de versos variando entre três e quatro? E dentre eles – ―A Nazim Hikmet‖ (quatro versos), ―Bucólica‖ (quatro) e ―A Clawsewitz‖ (três) – apenas o último apresenta comicidade: ―O marechal-de-campo / Sonha um universo / Sem paz nem hemorróidas‖ (p.144). Em Epitáfios gregos, Rita Codá explica a razão originária dos epigramas, na Grécia, que nasceram justamente para manter viva a memória dos mortos, ora para fazer com que as habitações fúnebres, com as devidas inscrições nas estelas, reparasse a invisibilidade dos que viveram anonimamente, ora para, no caso dos notabilizados em vida, sua ações dignas fossem sempre lembradas.16 Como nem só de mortos vive a memória dos vivos, o gênero epigramático absorveu outros materiais e assumiu variadas vertentes conteudísticas: Assim, de breves inscrições tumulares e dedicatórias, os epigramas passaram a versar, mormente a partir da época helenística, sobre temas novos e vários, produzindo-se, além dos funerários e dos votivos, também os de cunho simpótico, satírico, descritivo, amoroso, entre outros temas. Assim, a temática dos epigramas não se restringe a nenhuma esfera determinada, mas abrange motivos diversos (2005, p. 33. Grifo meu). Talvez aí tenhamos a chave para a explicação do nome da obra. Observando o quanto a alienação enraizou-se entre os seus semelhantes, José Paulo Paes constrói o seu livro com a intenção de que ele mantenha a lembrança de que determinados valores não podem ser perdidos nem degradados, como se vê em ―Cena legislativa‖. 16 Epitáfios gregos – A função conativa no epigrama fúnebre: o apelo à eternidade. Rio de Janeiro: HP Comunicação, 2005. 45 Primeiramente condenou-se a pomba Por amar uma paz entorpecente Onde o leão perde a juba e a hiena os dentes. Depois, condenou-se o cordeiro A perigosa dúvida que o anima. O rio dos lobos corre sempre para cima. Condenou-se a cigarra, finalmente, Pelo crime de cantar nas horas vagas. Que a faina das formigas não tem paga. Consolidada a ordem, festejou-se. E o leão rugindo, a hiena rindo, Os trabalhos foram dados por bem findos (p. 140). Por isso a presença de um sólido bloco de poemas políticos, extraídos da ideologia revolucionária ainda não desfigurada pelo partidarismo. E também por isso a não menos sólida aparição de poemas com fundo bíblico, sempre em tom de advertência, como ―A uns políticos‖, ―Primeiro tema bíblico‖, ―Segundo tema bíblico‖ e ―Il poverello‖, sobre São Francisco de Assis: Desgrenhado e meigo, andava na floresta. Os pássaros dormiam em seus cabelos. As feras o seguiam mansamente. Os peixes bebiam-lhe as palavras. Dentro dele todo o caos se resolvera Numa ingênua certeza: - ―Preguei a paz, Mostrei o erro, domei a força, curei o mal. Antes de mim, o crime. Depois de mim, o amor.‖ Mas a floresta esqueceu, no outro dia, O bíblico sermão e, novamente, O lobo comeu a ovelha, a águia comeu a pomba, Como se nunca houvera santos nem sermões (p. 134). Epigramas é, portanto, um livro-contra-ataque do poeta contemporâneo das doenças humanas mais letais do século XX, estejam elas na forma do poder instituído pelas nações, ou como poder diluído entre os cidadãos. Nessa ocasião, o poeta ergue-se para denunciar as hipocrisias da república da qual todos somos expulsos em alguma medida. Para negar a vida mortificadora, contrária à essência humana, ele forma a dicção lírica somando a seriedade firme do 46 rebelde, a brandura terna do religioso e o encantamento puro do menino. O resultado da soma? Um poeta que com seus poemas nos faz lembrar das lições de bondade (―A Arthur Rimbaud‖), da necessária palavra paz (―Ode‖) e da possibilidade do amor (―Matinata‖, encerrando o livro). Um poeta que não fugiu à luta nem à poesia, e, como tal, agiu onde esteve: em sério confinamento sobre o chão do escritório E, no meio da rua, Sob seu chapéu, Sob o azul do céu, O poeta sorri, Completo, Feliz (―A pequena revolução de Jacques Prévert‖, p. 126). 47 NO CORPO DA PALAVRA Até agora vimos o quanto a obra de José Paulo Paes tem processado, livro a livro, uma constante metamorfose. Desde O aluno até Epigramas foram onze anos e quatro publicações com que o poeta se mostrou aberto a diversas maneiras de estruturação do texto poético, atestando sólido conhecimento de formas consagradas pela tradição, sem se fixar (ou se asfixiar) em nenhuma delas. Ao lado disso, houve pluralização dos temas, sempre com manifesta sensibilidade e com o patente objetivo de colocar o homem – com seus sabores e conflitos – no centro, sendo por ele e para ele a justificativa de sua arte poética. Na esteira dessa ―metamorfose ambulante‖, como diria Raul Seixas, emerge sua mais ostensiva inovação: Anatomias, lançado em 1967, no lapso do maior intervalo entre um livro e outro de José Paulo Paes (nove anos, considerando que o anterior, Epigramas, foi escrito em 1958). É com esse livro que veremos o início de um exercício peculiar de José Paulo, fundindo em seus poemas o dizer conciso e a intenção jocosa, sempre com expressiva carga irônica, tratando de maneira humorística assuntos de grave atmosfera. Ao longo dos vinte e quatro textos, todos sem pontuação formal e sem obediência ao critério convencional da grafia de letras maiúsculas e minúsculas, salta-nos aos olhos o patamar especial concedido ao elemento básico: a palavra. a emoção a ideia a palavra a ideia a palavra a palavra a palavra a palavra A PALAVRA (―Pavloviana‖, p. 164). A essa altura o Concretismo já se havia consolidado como movimento e também como estilo, influenciando poetas e outros artistas de dentro e fora do Brasil. Paes absorveu substantivamente as inovações concretistas (há no livro um poema chamado 48 ―Os lanceiros‖, em cuja dedicatória se lê: ―para augusto haroldo décio‖, referência direta aos poetas Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, próceres dessa vanguarda), mas sempre injetando nelas o seu teor particular, ora pela via humorística: A. C. D. C. W. C. (―Cronologia‖, p. 177), ora pela política: a missa a miss o míssil (―Ocidental‖, p. 170). De uma ou de outra forma, mesmo no momento em que a linguagem é posta em contínua recriação, os entraves do caminhar humano nunca saem do alvo dessa poesia combativa. Nos poemas, lemos indiretamente o poeta declarar que o seu papel é desconfiar das promessas de avanço social e prosperidade humana tidos como realização, apontando nelas as contradições mais nocivas, em especial a do século moderno, que estampou na humanidade a sua vocação para o totalitarismo, o assassinato e a destruição.17 É o míssil, convivendo com o culto à beleza e com os apelos religiosos, o ícone da época que investiu mais ideias para destruir mais vidas em menos tempo, a época que caminha para a latrina da História, nos cenários escatológicos das duas grandes guerras (que se estendem aos dias atuais). O olhar crítico de Paes não se direciona apenas ao Ocidente, conforme a proposta do livro anterior. Anatomias pertence à época (foi lançado um ano antes de 1968) em que se começou a pintar no Brasil uma das mais manchadas telas de sua existência, quando também ao lado dos termos desenvolvimento e milagre (será mera coincidência?), puseram-se mordaças, empunharam-se fuzis e apagaram-se lâmpadas, fossem elétricas ou mentais. Nessa ocasião, a contrariedade não se volta somente para os ―de cima‖; ela também denuncia o alheamento voluntário dos que estão em todas as partes da pirâmide social vibrando com o Brasil ―salve salve‖. 17 Ver ―A era da guerra total‖, em A era dos extremos, de Eric Hobsbawn. p. 29-60. 49 feijoada marmelada goleada quartelada (―À moda da casa‖, p. 173). A reverberação ideológica de Paes tropeça em Anatomias numa malsucedida tentativa de ataque à atuação diplomática dos Estados Unidos da América em relação a Cuba. Buscando uma disposição gráfica das palavras de modo que ―USA‖ e ―ILHA‖ ganhassem maior visibilidade (a primeira com associações negativas, e a segunda, virtuosas), o poema ―Cartilha‖ é o único exemplo de explícito panfletarismo em toda a poética paesiana. a MATilha contra a Ilha Ilha recUSA? Ilha reclUSA USA e abUSA América LATina AméRICA ladina LATe a MATilha Ilha trILHA cartILHA (p. 167). Noutros lances, Paes fará uma guinada para as reflexões de cunho individual, quando então o sujeito lírico falará em tom subjetivamente geral, manifestando o eu de cada um: ser ou não ser? er ou não er? r ou não r? ou não? onã? (―Anatomia do monólogo‖, p. 158), ou exteriorizando o ―eu‖ do próprio poeta, no feito mais interessante do livro: 50 o rito do dia o ríctus do dia o risco do dia EU? UE? [...] mas a barba feita a máscara refeita mais um dia aceita EU EU (―O poeta ao espelho, barbeando-se‖, p. 175-176). Independente do tema tratado, os poemas citados mostram que a distribuição gráfica das palavras presidirá a escrita. Tanto no primeiro (finalizado com a sugestão de que algumas discussões filosóficas podem ser reduzidas a infrutíferas discussões bizantinas, como se fossem um enfadonho ato onanístico) quanto no segundo, percebese que a decomposição de uma frase – ―ser ou não ser‖ – ou a inversão das letras de uma dada palavra – ―EU UE‖ – serão peças fundamentais para a construção de um determinado significado. Se em ―Anatomia do monólogo‖ a exclusão das letras forma o significado do descaminho intelectual, em ―O poeta ao espelho, barbeando-se‖ a extensão discursiva mostrará que em determinados momentos o sujeito parece não se reconhecer ao ver-se numa perspectiva contrária, especular, cujo reflexo também pode conotar uma surpresa: ―Eu, ué?!‖, indicando ao final que ele de fato atestará sua presença e essência ao aceitar as falsas verdades da vida cotidiana: ―EU EU‖. A construção pela corrosão a ser tratada com ainda mais ênfase nos vindouros Meia palavra e Resíduo, com os quais este Anatomias formará uma tríade bastante homogênea, foi buscada na própria face da vida urbana, com seus signos e diretrizes ferozes e ocos. O capitalismo, deus e diabo da modernidade, é contemplado num poema em que a sua ânsia pela soma revelará o seu ímpeto de subtração, (e como que 51 confirmando a profecia de Marx de que tal sistema destruiria a si próprio) chegando à aniquilação total do número zero, que no poema também é a nota que o poeta atribui à vida gerida pelas finanças mundiais. negócio ego ócio cio 0 (―Epitáfio para um banqueiro‖, p. 160). Mas José Paulo Paes não foi poeta concretista. A absorção de técnicas de nossa última grande vanguarda não deixou sua poesia estéril, como é comum aos grupos que labutam primordialmente em busca de transgressões apenas formais, minimizando na obra o teor conteudístico. Ainda que seja dado um grande espaço para a teia formal, a sua proposta de celebrar a vida pela via artística não se anula ou esgota, como está em ―A Maiakóvski‖: ―uns te querem suicida // eu te quero pela vida / que celebraste na flauta / de uma vértebra patética / molhada no sangue rubro / de um crepúsculo de outubro‖ (p. 171). Sabedor de sua indiscernibilidade, ele afirma numa autoanálise bastante esclarecedora. se me decifrarem recifro se me desrecifrarem rerrecifro se me desrerrecifrarem então meus correrrerrecifradores serão (―Trova do poeta de vanguarda ou the medium is the massage‖, p. 165). Mesmo nesse livro, de crescimento qualitativo menos patente que os anteriores, Paes demonstra consciência autocrítica e capacidade de observar a(s) natureza(s) de sua escrita, dando com ―Trova de vanguarda‖ mais uma demonstração categórica da empresa confluente que buscou e realizou, fórmula com a qual ele foi poeta como nenhum outro, e que será melhor observada noutro corpus. 52 NA PRESENÇA OU NA AUSÊNCIA Meia palavra, de 1973, é um lance quase no meio do caminho poético de José Paulo Paes, visto ocupar o sexto lugar de um rol de treze peças. É também o livro central de uma trilogia formada por ele, por Anatomias (seu antecessor), e por Resíduo, o sucessor. Tal tríade não se estabelece apenas pelo conjunto que formulam de acordo com a ordem sequencial da bibliografia poética do autor, mas porque nenhum outro grupo de livros dele apresentará, em caráter de vizinhança, a uniformidade desse. A despeito da semelhança, eles não se repetem, e parecem uma única peça tripartida. O que mais aproxima as referidas obras são os poemas de feição bastante antitradicional, os quais nos fazem hesitar até em chamá-los de poemas.18 Refiro-me aos arranjos de página, desenhos e sobretudo às fotografias que José Paulo espalhou pelas páginas desses três livros. Não falamos especificamente das ilustrações, muito presentes nos livros do poeta (as primeiras edições de Cúmplices e Anatomias são grandes exemplos, sem falar dos livros para o público infantil), mas das imagens que figuram como textos independentes, com título e registro no sumário, fatores de sua autonomia. Em Anatomias tal forma de expressão aparecerá uma única vez, com ―Anatomia da musa‖, que retrata em preto e branco um manequim feminino (com uma réplica em miniatura) cercado por humorísticas inscrições latinas; em Resíduo serão dois os lances: ―Projeto de mausoléu civilista e/ou foetus intellectualis brasiliensis‖, fotografia de uma pequena escultura representando Rui Barbosa sentado numa cadeira, e ―Outdoor para igreja e/ou consultório de psicanalista‖, também uma foto, dessa vez de uma despedaçada placa de propaganda de pneus; em Meia palavra são quatro peças de tal natureza (a serem descritas a seguir): ―Sick transit‖, ―Epitalâmio‖, ―O espaço é curvo‖ e ―Pascal prêt-à-porter e/ou le tombeau de Mallarmé‖. Pelo quantitativo e pelo qualitativo (os poemas mais famosos e expressivos dessa vertente são os de Meia palavra), pode-se observar que em Anatomias ocorre ainda uma tentativa, algo tímida, uma procura por um possível espaço para se 18 ―Pode haver poesia sem versos, o que é obvio [...]; admitimos que possa haver poesia sem sintaxe, ou sem mais coisas, mas sem palavras, sem letras, não [...]. Tudo isso pode pertencer à artes visuais, pode ser brilhante, pode ser qualquer coisa, mas nada tem a ver com literatura‖, diz um aguerrido Alexei Bueno em Uma história da poesia brasileira (p. 13-4), referindo-se claramente à poesia concreta e seus derivados. 53 desenvolver; como em Meia palavra o número é de quatro e em Resíduo será de dois, nota-se, no livro do centro, uma consolidação do exercício, chegando à plenitude, e a redução posterior sinaliza o esgotamento da prática, percebendo-se sua total extinção nos livros seguintes. Se buscarmos uma expressão para sintetizar tais poemas, talvez alcancemos melhor fatura com o emprego de ―poemas visuais‖, mais para serem vistos do que propriamente lidos, e que no Brasil foram produzidos à larga pelo Concretismo e, em especial, pelo Poema Processo. O exercício de Paes, apesar de abastecido pela referida vanguarda, reserva uma peculiaridade, pois sua poesia visual não se resume aos poemas em que a sintaxe convencional é rejeitada para que o arranjo com as palavras seja o indicativo máximo do sentido do texto (penso nos exempalres ―pós-tudo‖, de Augusto de Campos, e em ―beba coca cola‖, de Décio Pignatari). O que nos chama a atenção é que a inovação de José Paulo se acentua por serem inseridas nos livros fotografias de elementos ordinários da vida cotidiana, como escovas de dentes, objetos comercializados em feiras populares e placas de trânsito (a exceção fica por conta de ―Pascal prêt-à-porter e / ou le tombeau de Mallarmé‖, constituído por um arranjo em que uma página apresenta uma face branca e outra negra, com inscrições em francês).19 Em todos os casos, será nítida a matriz dadaísta do deslocamento de nossas noções comuns a respeito das formas e dos materiais que constituem uma determinada vertente artística. Só que, cotejados aos ready-made de Marcel Duchamp, os poemas visuais de José Paulo guardam uma peculiaridade. Enquanto o urinol, a roda de bicicleta e a pá de neve transferidos pelo francês de seus espaços ordinários para museus, constituindo apenas uma debochada rebeldia, as imagens que o poeta transpõe para as páginas de seu livro serão nutridas pelo contexto em que se inserem, pelo modo como os objetos são dispostos na retratação ou pelas palavras que apresentam. A mais famosa dessas peças é ―sick transit‖ (p. 189), uma placa de orientação do tráfego paulista. 19 Os concretistas ―clássicos‖ também foram adeptos, só que com menor frequência, dessa prática fotográfica, como exemplifica ―nada‖ (foto parcialmente frontal de um estabelecimento comercial), de Augusto de Campos. 54 O fato de o livro datar da década de 1970 alarga os horizontes de compreensão do ―fotopoema‖, pois o Brasil estava sufocado nos porões da ditadura militar. Isso já indicará não só o transporte de uma sinalização urbana para o espaço consagrado da legitimação da poesia, mas também o transporte do significado das palavras: o acesso inviabilizado a uma avenida – Liberdade – transmuta-se no significado, estampado no grito de uma placa com letras garrafais, de que no país as forças governamentais cerceavam o direito de ir e vir e de falar e ouvir dos que eram considerados perturbadores da ordem (e ainda insinuavam que vivíamos no ―Paraíso‖). O tempo era grave, e o olhar subversivo e denunciador do poeta faz da placa um alerta geral, não à toa ocupando a abertura do livro. Ironicamente, a mesma sinalização aponta uma alternativa, cuja carga semântica é antípoda da repressão. Quando não são expulsos diretamente da república, em muitos momentos os poetas buscam no exílio fontes para o revigorar das forças e ambientes para a efetivação de seus devaneios (foi assim com românticos, simbolistas, expressionistas...), alimentando a ideia de um possível espaço edênico. Mas, como se a peça em questão fosse construída pelo destino para ser flagrada por um artista, ela não se afirma como uma verdade definitiva. A direção a ser seguida é a direita (algo óbvio numa época de liberdade interditada), e a orientação provém de uma placa confeccionada e veiculada por um órgão governamental... Se a história humana é de fato cíclica, o chão em que os homens caminham também o será. É o que nos diz ―O espaço é curvo‖ (p. 205): 55 Conjugando esta placa com a anterior, veremos que José Paulo Paes captou as contradições do poder a partir de seu próprio discurso. É prática comum dos governos propagar seus feitos como garantidores de avanços e de bem-estar geral, o que não foi diferente com a linhagem ditatorial que se manteve, entre nós, de 1964 a 1985, cujo termo maior de autopromoção foi o ―milagre econômico‖ (plano, inclusive, contemporâneo da escrita do livro). Sendo assim, pela perspectiva dos ditadores, se crimes mais bárbaros foram por eles cometidos, havia a justificativa do resguardo da tranquilidade comum. Mantendo a ótica, a tirania, por ocultar hipocritamente o seu não para exibir-se como sim, ou mesmo por paranoicamente conceber positiva a negatividade desenvolvida, sempre nos tenta convencer de que é repleto de paz o espaço onde ela mesma espalha o terror. E o poeta percorre as ruas de sua cidade, a fim de confirmar a validade do que dizem os que a gerenciam. Ruas e páginas após a indicação do ―Paraíso‖ (―O espaço é curvo‖ é a décima quinta peça do livro, ao passo que ―sick transit‖, lembre-se, é a primeira), chega-se à grave constatação de que as passagens estão fechadas: duas outras placas indicam que não há saída. O trabalho vanguardista de José Paulo Paes (que, como já dissemos, não se confina à metapoesia) consistiu na absorção de avanços artísticos para denunciar os maiores retrocessos da política nacional. O poeta segue o percurso particular reinventando seus passos ao mesmo tempo em que trafega pelas ruas de seu território contestando a ordem do trânsito a que a comunidade é submetida. A ironia e a lucidez sempre fizeram-no sabedor das limitações do seu canto em meio à sociedade tecnicizada, mas ele não abandona o que entende por missão: denunciar a opressão e contrapor-se à hipocrisia dos que a empreendem. 56 A desconfiança de Paes frente aos valores nacionais também alcança símbolos consagrados. Membro da família dos poetas galhofeiros (é sempre muito viva a presença de Oswald de Andrade), a poesia paesiana imbui-se de uma linguagem corroída para também corroer o que a tradição pode ter de artificial. lá? ah! sabiá... papá... maná... sofá... sinhá... cá? bah! (―Canção do exílio facilitada‖, p. 194). Uma vez que ressaltamos a ideia de uma poesia irmanada ao passado e ao presente, a paródia do famoso poema de Gonçalves Dias indica que José Paulo não foi conservador no sentido habitual do termo, louvando o passado em si, apenas por contrapor-se ao presente. A ―Canção do exílio facilitada‖ reduz (com alguns fiapos do humor corrosivo) a estrutura do texto matriz, apontando ser inválida a imagem de um Brasil hiperbolicamente colorido, alegre em cada cacho de frutas e em cada chilrear de pássaros. O país faz o seu povo ou o povo faz o seu país? Dentre as inúmeras dicotomias que se nos apresentam, uma bastante forte reside no debate dos problemas das nações. A torta realidade brasileira é explicada por alguns a partir da ingerência da classe política (com gênese no tempo colonial), preferindo outros enxergarem no povo a raiz da culpa pelo desconcerto nacional. Mais uma vez o poeta de Taquaritinga recusa maniqueísmos, e, refletindo sobre a complexidade do assunto, estende sua crítica a todas as partes do todo. economiopia desenvolvimentir utopiada consumidoidos patriotários suicidadãos (―Seu metaléxico‖, p. 196). 57 Exemplo singularíssimo de precisão entre o que se quer dizer e a forma como se diz, esse grupo de neologismos desmerece o pão e o circo ofertados pelos ―de cima‖, e ridiculariza os que deles se servem acreditando-se adeptos de um modelo de vida admiravelmente moderno. Enquanto a cartilha publicitária do capitalismo leciona que o acúmulo material é sinônimo de prosperidade, ―Seu metaléxico‖ mostra somas a resultar em subtração. Todas as seis palavras do poemas são formadas pela adição de duas, que têm, primeiramente, um harmonioso encaixe morfológico, considerando que em nenhum vocábulo foi necessário acrescentar ou retirar alguma letra (são retiradas sílabas que convém descartar na formação de cada verso) para fazer a adaptação do vernáculo a ser escrito. Posteriormente, percebe-se que o encaixe se dá de modo ideológico em face do que se aponta: a) uma economia dita milagrosa, mas que não vê nem é vista como se deve, são cegos guiando cegos a um desenvolvimento enganoso;20 b) uma massa formada por ridículos utópicos, por desorientados que consomem de maneira perfunctória, por nacionalistas simplórios, na esteira de ―Noventa milhões em ação, / Pra frente Brasil / Do meu coração‖, e por cidadãos que caminham alheios pela prancha que conduz aos tubarões.21 É o ―povo marcado, povo feliz‖, da canção ―Admirável gado novo‖, de Zé Ramalho. Pensando em poemas como ―Epitáfio para um banqueiro‖ e ―À moda da casa‖, do livro anterior, e comparando-os aos dois poemas acima citados, veremos, pelo assunto tratado e pelas formas empregadas, o quanto Epigramas e Meia palavra têm em comum, o que se estenderá a Resíduo (tema do próximo capítulo), mostra de uma poética circular. Além disso, as reflexões de Paes sobre a civilização ocidental presentes em Meia palavra também formam um elo deste livro com o anterior, Anatomias. Em especial, 20 ―Nas eleições parlamentares de 1974, sob o impacto da crise econômica e uma sucessão de escândalos financeiros, o MDB consegue uma ampla vitória eleitoral. Os debates entre candidatos e a propaganda política, pela primeira vez expressa de forma livre, dão ciência à população de uma dívida externa de mais de US$ 100 bilhões e mostram a face oculta do milagre‖. SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. ―A modernização autoritária‖. p. 374. 21 Canção mista de hino e marchinha, de autoria de Miguel Gustavo, que se popularizou muito no Brasil durante a Copa do Mundo de futebol de 1970. 58 três poemas exibem a visão de alguns de nossos males, todos exemplificadores de que o Ocidente ainda não distingue com sapiência o que sua própria cultura diz ser benéfico ou danoso. Tal disfunção perceptiva causa reversão de signos e de princípios fundamentais da vida humana, e hoje, no século XXI, somos sabedores do quanto isso é forte entre nós ao vermos o crescente apelo à sensualidade das crianças, a manifesta admiração de jovens aos agentes da violência (sejam bandidos ou autoridades públicas) e a celebrização de personalidades absolutamente ocas. A inversão de valores é vista em: O VAGIDO DA SOCIEDADE DE CONSUMO consummatum est! (p. 195), no qual a dessintonia entre o vagido, primeiro choro do ser que nasce, e a expressão latina que significa ―findou-se‖, ilustra uma iconoclastia febril instalada entre nós. A modernidade do século XX quis nos fazer crer que tudo deve perecer para a ocorrência de incessantes substituições. Nesse embalo, até mesmo as artes absorveram uma mentalidade análoga à das vitrines de lojas de sapatos ou de eletrodomésticos, necessitadas da inovação semanal, mesmo que aquilo a ser retirado não esteja obsoleto. O próprio José Paulo ―presenciou‖ o decreto do encerramento do verso, o que ele ignorou e demonstrou ser um equívoco. É nítido constatarmos que caminhamos para o fim desde o nosso início, mas o texto diz que a vida regida pelo consumo é submetida à ordem da extinção para que se possibilite o ingresso do novo, mesmo desnecessário. Um outro poema, ―Auto-escola Vênus‖, aborda o problema no âmbito dos relacionamentos corporais: contato para trás (devagar) para frente (devagar) para trás (ACELERE) para frente (ACELERE) 59 pode desligar (p. 202). Durante séculos a carne foi reprimida em nome da pureza do espírito e dos ―bons costumes‖. O gosto pelo sexo teve de se submeter à discrição por vezes enclausurante do casamento, caso contrário, criava-se o estigma do libertino, de caráter desviado. O século passado também rompeu com tal costume, e engendrou a revolução sexual. Gradativamente, o sexo antes do casamento e a homossexualidade de homens e mulheres passaram a ser aceitas em escala considerável (mas seria ingênuo imaginar uma aceitação total). Para muitos, como seria de se esperar, casamento e total heterossexualidade tornaram-se sinônimo de opressão ou caretice (o próprio José Paulo publicou em 2001, no livro Socráticas, um poema chamado ―Anacronia‖, a ser comentado noutro capítulo e que tem o emblemático verso: ―– Desculpe: sou hétero‖), e essa radicalização em nome da libido conduziu o sexo à cultura fast food do consumo imediato e do instantâneo descarte. Não se trata de condenar o sexo livre, e sim reconhecer que o desconhecimento de limites esbarra nas gravidezes indesejadas (e suas más consequências sociais) e se enforca lentamente no patíbulo das doenças letais. O poema em prosa ―Necrológio do civil desconhecido‖ rumina sobre o fato de o anonimato assemelhar-se a uma condenação, um defeito a estigmatizar os que não se notabilizam, por mais que suas ações sejam dignas de reconhecimento.22 Outro mal a estar em nossa civilização. Nasceu em leito de Procusto, à luz da lanterna de Diógenes. Batizou-o um carabineiro de Offenbach, que lhe vestiu a túnica de Nessus. Na escola, não teve o estalo de Vieira, mas ganhou o anel de Polícrates tão logo aprendeu a dar a César o que fosse de César sem tirar para si nem um ovo de Colombo. Viveu a correr de Herodes e Pilatos, montado no asno de Buridan, que esporeava com calcanhar de Aquiles. Mal lhe sobrava tempo para um cochilo de Homero. Não 22 Ver as leituras do poema feitas por Alberto Lopes de Melo, na dissertação de mestrado José Paulo Paes e a anatomia do poema, defendida em maio de 2006, na Fundação Universidade Federal do Rio Grande [do Sul], Departamento de Letras e Artes. http://bdtd.furg.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=38 60 compareceu a festins de Baltazar, mas consolou-se com uma vitória de Pirro: o convite para ajudar os trabalhos de Sísifo. Durou o que duram as rosas de Malherbe. Foi sepultado nas estrebarias de Áugias sem que por ele se derramasse uma só lágrima de Xerxes. Seu nome? Ninguém lembra (p. 192). Consumo, prazer e fama: mais do que qualquer outro, o século XX viu tais aspectos, geralmente consequências de determinadas ações ou necessidades, tornaremse fins em si mesmos, a causa primeira do estabelecimento de uma vida feliz. Como se não bastasse somente ao primeiro, os outros dois (e tantos outros) acabaram por se tornar produtos de uma voraz industrialização. Mas nem só da falta de pão se alimenta a poesia. Em meio a tantos desmandos, no país e no mundo, seria de se esperar uma postura niilista. Porém a poesia pode ser uma luz a nos mostrar veredas fora da caverna, e isso se manifesta em ―Entropia‖: não que a chama não queime a luz perdesse razão de iluminar não que a boca não morda ao fruto falte o bíblico sabor (p. 207). Poemas dessa natureza são mais que peças literárias: são antes de tudo um apelo para que nós, homens, acerquemo-nos da vida para compreendê-la ou descompreendêla, e assim não nos imponhamos problemas inventados como necessidades. São textos típicos da obra de José Paulo, pois negam as restrições de acordo com as quais se conclui que, se algo foi mal conduzido, é sinal de que deve ser exterminado. Poemas com tal espírito descendem da estirpe da grande poesia: aquela que, a partir da aparente simplicidade das pequenas partes, nos conecta ou reconecta com a imensurabilidade do todo, da Vida em suas indescritíveis faces. Retomemos as peças fotográficas, voltando nosso olhar para a pequenice de objetos ordinários: duas escovas de dentes inseridas num copo, cujo título é ―Epitalâmio‖ (p. 199). 61 Num primeiro momento, o que vemos são dois objetos em estado de inutilidade, uma vez que o momento flagrado não é de higienização bucal. Mas, com um olhar mais detido, chama a atenção o fato de tais escovas estarem juntadas pelas cerdas (fruto do acaso ou do arranjo do poeta-fotógrafo? E se ele não as dispôs de tal maneira, será de fato acaso as escovas aparecerem assim diante de um poeta?). Associando o desenho formado ao título, sinônimo de ―canto nupcial‖, veremos que a um poeta como José Paulo Paes a poesia convencional não se pode separar da poeticidade do existir, nem deve impedir que esta entre no espaço de legitimação convencional (o livro, um objeto), apenas por aparecer com uma roupa distinta da que pede a festa. Nessa esteira, será (poeticamente) proveitoso reunir dois poetas-filósofos: Em Escritos da indiscernibilidade, Alberto Pucheu manisfesta o desejo de ―desalgemar o poético do poema, do que se convencionou chamar de poema; deixá-lo fugidio pela cidade, perigoso, arrastando o que lhe aparece pela frente‖ (2003, p. 40) ; em Ensaios radioativos, Márcio-André nos chama a atenção para a desinstrumentalização dos objetos: Aquele que menospreza as coisas não é ninguém mais que aquele que acredita na soberania do sujeito num mundo que subsiste para seu consumo. Ser poeta é escapar a esse círculo vicioso no qual fomos jogados e habitar o entreato das coisas, vivê-las na emergência de sua permanência. É ele quem dará duração maior aos objetos mais ordinários, fazendo-os luzir em seu instante sagrado (2008, p. 37). 62 A peça de José Paulo casa-se com essa transcendência dupla: a primeira, de reconhecer um corpo estranho ao espírito da poesia, trazendo algo ―de fora‖ para o interior de seu trabalho artístico; a segunda é de transferir a carga sublimadora peculiar da poesia a objetos condenados a um tempo determinado: enquanto servirem, durarão. O fato de a fotografia estar em preto e branco realçará o brilho das coisas em questão: elas reluzem por estarem unidas, irmanado-se uma à outra, reunindo a diversidade na harmonia da unidade. Elas estão resplandescentes para dizer que a mão humana ainda pode equiparar-se à do demiurgo universal, e mostram-se vivas por estarem impregnadas do amor que escorreu dos que delas se servem: duas pessoas; coisa e coisa; interação e luz: comunhão no copo, que é o leito, e na água, que é o sumo vibrante e o suco brindante do amor. A meia-palavra de José Paulo Paes não precisa se mostrar toda para ser inteira, porque, mesmo ao ceder espaço à ausência do discurso formal, permanece no silêncio o vigor de tudo o que se liga à dimensão sagrada dos fenômenos: a Vida. 63 AO RÉS DOS RESTOS Resíduo, de 1980, por sua unidade e pela posição que ocupa na bibliografia artística de José Paulo Paes, propicia ampla leitura da poética que estudamos. Como dissemos, ele constrói, junto a Anatomias e Meia palavra, um bloco homogêneo que, nos níveis da forma e dos conteúdos, não se repetiu sequencialmente nem com a mesma solidez noutros momentos. A crítica debruçada sobre a obra paesiana não raro explorou a questão da linguagem identitária do poeta, apontando, quase consensualmente, um momento inicial marcado pela imitação de alguns de seus ídolos; as divergências, nunca gritantes, manifestam-se quando da indicação do momento emancipatório. Antes de entrarmos na discussão, cabe perguntar o que caracteriza a aquisição da linguagem poética própria. O que a particulariza? Três hipóteses nos parecem prováveis, ainda mais se as contextualizarmos na obra de Paes. Consideremos inicialmente que um poeta adquire sua linguagem própria quando não mais imita seus mestres. Tal hipótese talvez seja, pela sua obviedade, a mais aplicável, mas não deixa de ser algo problemática, visto ser difícil identificar o momento em que o poeta deixa a cópia e alcança a originalidade. Um exemplo pode ser visto na obra de Francisco Alvim, muito semelhante à de Oswald de Andrade, sem que isso seja motivo para tachar o mineiro de epígono do paulista.23 O caso de José Paulo aguça o problema na medida em que, válida a nossa tese, o livro apontado por seus críticos como mimético – O aluno – já é uma mostra de sua verdade literária, a da congregação de antagonismos. Mais uma vez, não queremos dizer que a estreia de Paes seja um feito brilhante, no entanto é nítido que as opiniões dos que citam o livro ao analisar a linguagem do poeta (especialmente Davi Arrigucci Jr., João Carlos Biella e Henrique Duarte Neto) são muito marcadas pela carta que Drummond enviou a José Paulo, a qual indicava o tributo do então iniciante a seus referidos mestres. Pouquíssimos poetas conseguem alcançar uma escrita tão firme quanto um estigma. Nomes como Augusto dos Anjos, Oswald de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre poucos outros, formam o grupo de autores que, ao escreverem, imprimem na folha o seu brasão: mesmo o leitor não especializado pode reconhecer tais poetas lendo 23 Ver Poemas: (1968 – 2000), em especial o livro Elefante, do ano 2000. 64 um número reduzido de textos por eles escritos. A trajetória de José Paulo fornecerá a essa hipótese mais um ponto questionável, pois mesmo quando ele atinge a maturidade artística (novamente de acordo com os referidos críticos), dotando sua linguagem de brevidade e de humor, sua poesia assumirá uma feição bastante oswaldiana, o que ele próprio reconhece (na já citada entrevista – ―Meia palavra inteira‖ – concedida a Carlos Felipe Moisés): ―Meu contato pessoal com Oswald foi fecundo, porque eu achei, com ele, que era preciso retomar certas linhas do Modernismo de 22. Uma delas era justamente esse humor meio esculhambativo, gozador‖. Dessa forma, não é confortável aplicar a Paes a hipótese de uma dicção própria a partir do ―abandono‖ de outras, porque talvez ele tenha feito da ―cópia‖ um fator de originalidade. A quem chamava a si próprio de ―poeta como outro qualquer‖, mostrando antipatia por vaidades e celebrações do universo literário, não seria um problema, como não foi, presentificar outros poetas no espaço que era dele. A segunda hipótese consiste no fato de o poeta alcançar sua própria linguagem quando passa a escrever bons poemas, aspecto bastante discutível, visto que os valores em julgamento sempre atendem a determinações subjetivas. Mas, se aceitarmos os critérios mais comuns entre os estudos literários, de acordo com os quais uma obra relevante é a que conjuga envergadura técnica e força expressiva, com grau de originalidade, diremos que José Paulo Paes emancipa-se artisticamente com Novas cartas chilenas, seu terceiro livro, muitíssimo distinto dos dois anteriores. Mas não se pode desconsiderar que um imitador competente pode escrever grandes poemas com a caneta alheia... Finalizando a especulação, o provável terceiro fator de percepção de uma poesia peculiar ao poeta que a escreve é o surgimento frequente de uma mesma forma, ou de algumas formas semelhantes entre si. Isso é o que mais importa neste momento, em que nos debruçamos sobre Resíduo, pois esse livro, por si mesmo e pelo contexto em que se insere, consolida um tipo de linguagem empreendida enfaticamente por Paes e consagrada pela crítica: mais uma vez, o somatório de concisão e humor. A exemplo de João Cabral de Melo Neto, que parece ter-se colocado obsessivamente a serviço de um estilo só seu, José Paulo Paes chega a um impasse justamente porque se mostra, na sequência dos três últimos livros, completamente apegado a si próprio. E o grande feito de Resíduo é conter em si a sinalização do impasse e a guinada para uma reengrenagem. 65 Vamos a ele. Resíduo é um livro pendular, visto ser o sétimo de uma coleção de treze obras, composto por vinte e um poemas (também considerando poemas as duas fotografias presentes). Seu espírito chistoso anuncia-se na epígrafe, rememoração de uma célebre frase de Franz Kafka: ―Contra piadas não há argumentos‖. Sendo um livro mediano (nos sentidos literal e figurado do termo), e dotado de um número ímpar de textos, basearemos nossa leitura numa divisão tripartida dos textos: dez – um – dez. A primeira parte é insatisfatória, e quase compromete as outras. Forma-se totalmente por poemas cuja brevidade mostra mais dificuldade em ir além da exploração de uma ideia do que a precisão feliz que notabiliza textos epigramáticos. A mais, os primeiros dez textos tropeçam num humor malsucedido, satisfeito em formular um mínimo ar de graça. homem público mulher pública (―Lembrete cívico‖, p. 225). .................................................... BRINDE NO DIA DAS MÃES à tua (p. 228). É certo que ambos os casos apresentam distorções de nossa cultura (mas não só dela). A variação de gênero da palavra ―público‖ altera drasticamente sua conotação, pois o ―homem público‖ é o respeitável, distinto por sua fama ou pelo posto que ocupa no serviço estatal; já a ―mulher pública‖ é um eufemismo para a mulher que oferece à coletividade o que não é, convencionalmente, de natureza coletiva (o seu sexo). A hipocrisia é um forte alicerce social, e o poema parece querer atacá-la para mostrar que os homens condenam aquilo de que eles mesmos se servem. Mas o texto não logra maior alcance, como também não vai longe o gracejo do ―Brinde no dia das mães‖, porque a síntese, nos dois casos, não significou a contenção do excesso, e sim o aborto do incipiente. Caso semelhante ocorre nos poemas cuja proposição é fazer, à maneira dos 66 concretos, certos jogos de palavras contentados em apresentar derivações etimológicas sem largueza de significado. frei id freiid freud (―O libertador‖, p. 226). ............................................................ barroco barrococo rococó (―A evolução dos estilos‖, p. 227). Acrescentando a essa linha o ―fotopoema‖ ―Projeto de mausoléu civilista e / ou foetus intellectualis brasiliensis‖ (no qual se vê, dentro de um pequeno pote de vidro, uma estatueta de Rui Barbosa sentado numa cadeira), não por acaso seguido pelo poema ―Epitáfio para Rui‖ (―... e tenho dito / bravos! / (mas o que foi mesmo que ele disse?)‖), p. 233, veremos que a prática constante de uma dicção específica teve um viés negativo para o poeta, e isso já é um forte motivo para relativizar a etiqueta que se lhe atribui. Aqui a repetição fez com que a fala curta e jocosa se desgastasse, restringindo-se ao minimalismo (no sentido da opção estética e da fatura dos poemas), ao residual. E será um poema com temática sobre resíduos propriamente ditos que mudará o curso das águas do livro. Se de fato o absurdo for normal, não é espantoso perceber que a partir de um texto sobre o turvo Rio Tietê Resíduo terá seus primeiros sinais de brilho. pelo mesmo tietê onde outrora viajavam bandeirantes heris só viajam agora os dejetos: bandeira de seus filhos fabris (―Neopaulística‖, p. 239). Os bandeirantes já haviam figurado em dois poemas de Novas cartas chilenas, e o retorno agora tem o intuito de apontar o legado por eles deixado. O poeta, profundamente conectado ao seu tempo, identifica com clareza as causas de um problema gritante do século XXI: a degradação ambiental como consequência da 67 desordem social. O imaginário paulista gosta de ver os bandeirantes como seres lendários, símbolos de bravura e de proteção à terra local. A primeira estrofe, cujo adjetivo ―heris‖ inspira reverência, oculta a negação do ufanismo a ser feita em seguida. A mudança de tempo (passa-se do ―viajavam‖ para ―viajam agora‖, na segunda estrofe) altera a perspectiva sobre os desbravadores, destituindo-lhes de qualquer romantização, e o rio que ontem foi palco dos heróis é hoje a passarela do saldo das tortuosas empresas coloniais. A existência não se metamorfoseia tanto em se tratando das mãos detentoras do poder. Muitos dos ocupantes das maiores cadeiras dos setores público e privado brasileiros atualmente são herdeiros das primeiras capitanias. No específico caso paulista, os detritos bioquímicos que fazem a vida atolar no coração da cidade são crias da poluição histórica que mancha o País. Passado e presente, bandeira do desbravamento ontem e bandeira da industrialização hoje, são gerações que em nome do progresso avançam para o atraso: índios mortos, natureza agonizante, felicidade adiada. ―Neopaulística‖, poema pendular de Resíduo (o décimo-primeiro texto entre vinte e um), é exemplo da concisão que não obstrui o desenvolvimento do poema, pois o resultado final causa-nos a sensação de que não poderia ter dito menos nem se deveria dizer mais. A partir dele, o livro ganha vigor, e o poeta religa sua obra à ideia de que a arte será maior quanto mais extrapolar as suas fronteiras teóricas. Sem prescindir do exercício formal, a poesia de José Paulo Paes quer nos lembrar do que não se pode esquecer, como simples cuidados pessoais: sem a pequena morte de toda noite como sobreviver à vida de cada dia? (―Hino ao sono‖, p. 246), a negação da indiferença pelas aberrações: e levaram-no maniatado e despindo-o o cobriram com uma capa de escarlata e tecendo uma coroa d´espinhos puseram-lha na cabeça e 68 em sua mão direita uma cana e ajoelhando diante dele o escarneciam e cuspindo nele tiraram-lhe a cana e batiam-lhe com ela na cabeça e depois de o haverem escarnecido tiraram-lhe a capa vestiram-lhe os seus vestidos e o levaram a crucificar o secretário de segurança admitiu os excessos dos policiais e afirmou que já mandara abrir inquérito para punir os responsáveis (―Do novíssimo testamento‖, p. 249), o fato de a vida ser suja e dolorida: neste lugar solitário o homem toda manhã tem o porte estatuário de um pensador de rodin neste lugar solitário extravasa sem sursis como um confessionário o mais íntimo de si neste lugar solitário arúspice desentranha o aflito vocabulário de suas próprias entranhas neste lugar solitário faz a conta doída: em lançamentos diários a soma de sua vida (―Grafito‖, p. 250), mas que mantém sempre aberto o espaço para a esperança: partido: o que partiu rumo ao futuro mas no caminho esqueceu a razão da partida (só perdemos a viagem camaradas não a estrada nem a vida) (―Brecht revisitado‖, p. 240). 69 Resíduo tem então em si próprio uma queda e reascenção da escrita paesiana. O livro fecha a trilogia fortemente contaminada pela postura vanguardista, pelo humor zombeteiro e pela vida urbana, dentro da qual o poeta se põe como um catador de detritos reaproveitáveis. Foi um exercício proveitoso com o qual o poeta se reinventou, tendo depois, como vimos acima com os três poemas que saem do minimalismo, de se reinventar mais uma vez dentro da própria reinvenção. A sátira e o lance criativo exprimido em poucas palavras foram absorvidos pela crítica como os itens mais emblemáticos de José Paulo Paes, fato que livros futuros comprovarão, da mesma forma que comprovam outros fatores, não menos emblemáticos, da versatilidade do poeta. 70 A NORMALIDADE ENSANDECIDA O tempo é assunto básico entre as especulações dos pensadores ocidentais de todas as épocas. O século XX, com sua avalanche de modernizações em vários setores da vida humana, despertou enfaticamente a sensação de que o tempo padece de um encurtamento gradativo, embora os dispositivos para medi-lo mantenham seu processamento com a mesma velocidade. O desconforto e outras mazelas disso decorrentes (sempre espanta perceber o quanto as pessoas declaram, com alguma indiferença, não terem tempo para fazer as coisas que mais as satisfazem) conduz ao questionamento da artificialidade do tempo convencional, medido em anos, dias, horas, minutos e segundos, e a incoerência de sua aplicação com vistas à regulação da engrenagem social, que raramente se casa com a (falta de) engrenagem emotiva de cada ser. Desde sempre os poetas efetuam uma interessantíssima empresa de estarem dentro e fora de seu tempo, captando as suas principais características, mas confessando vez por outra alguma dessintonia com os que lhes são contemporâneos, ao modo de exilados na própria terra. É como expressão dessa ambiguidade que se pode ler Calendário perplexo, de 1983. Todos os vinte e um poemas do livro são associados a alguma data específica, seja de simbologia universal: 1º de maio ETIMOLOGIA no suor do rosto o gosto do nosso pão diário sal: salário (p. 263); nacional: 31 de março /1º de abril DÚVIDA REVOLUCIONÁRIA ontem foi hoje? 71 ou hoje é que é ontem? (p. 259); ou mesmo particular: 22 de julho ANIVERSÁRIO amigos abraços velas acesas velas apagadas obrigado adeus: ensaio de uma outra festa (próxima? Distante?) também com amigos com velas com adeuses sobretudo adeuses (p. 269). A disposição do calendário paesiano segue o molde do calendário cristão, inclusive na ordem progressiva das datas. E, com esse aparente ―sim‖ ao seu sistema cultural, o poeta negará a camuflagem romantizada de todo sorriso que se estampa ocultando as cáries. 19 de abril DIA DO ÍNDIO o dia dos que têm os seus dias contados (p. 269). ................................................... 25 de dezembro TIME IS MONEY ele nasceu... não ouvem o galo? Vamos correndo crucificá-lo! (p. 277). A perplexidade indicada no título do livro se casa bem com a distância que separa a aura da realidade a envolver índios e Cristo: o discurso sobre eles é no geral laudatório, e a eles se dirigem devoções de natureza diversa. Mas em muitas práticas a teoria é outra: o respeito pela memória indígena (para quem a mãe-pátria negligenciou gentilezas) e a afirmação de suas lições são mais figuras da retórica ―politicamente 72 correta‖ do que o resgate efetivo de valores éticos. A banalização de absurdos e a maneira com que somos levados a assumir uma postura refratária diante da mesma são formas de continuar assassinando valiosos símbolos humanos. Em ambos os casos, a brevidade extrema não apaga o vigor apresentado pelos poemas. Ao contrário, ela se torna um elemento fundamental para que os recebamos como obras exatas. E tal exatidão é marca forte de outros poemas, como o ―Dicionário de rimas‖, consagrado ao dia da poesia (14 de março) e composto por vinte e três estrofes, cada uma com três versos e correspondente a cada letra do alfabeto, dentre as quais se destacam bons exemplos: D de dever: fazer sem prazer .......................... H de heresia: não à miopia da ortodoxia .......................... P de poeta: profeta? pateta? ........................... Z de zero: o número mais fero e mais vero (p. 256-8). Como se percebe a partir de Epigramas, a mecanização do homem (em especial o urbano) é tema sempre presente na escrita de Paes. Em seu calendário, o dia dos finados é a data marcante dos que ―passaram pela vida‖ a caminho da morte. A precisão é notável: faz faz faz jaz (―Sic transit gloria mundi‖p. 274). 73 Não raro a modernidade deixa de cumprir as promessas de uma vida melhor, feitas a cada nova proposição teórica, política ou tecnológica. A consequência mais comum são os desenganos daqueles que vêem no futuro um embarque para novos dias. não era esta a independência que eu sonhava não era esta a república que eu sonhava não era este o socialismo que eu sonhava não era este o apocalipse que eu sonhava (―A marcha das utopias‖, p. 275). Já foi dito (e diremos até o final do estudo) que as dicotomias não têm morada cativa na poética paesiana, e até aqui nenhum livro pautou-se pelo total pessimismo ou pelo seu oposto. Assim sendo, num livro fortemente crítico como esse, no qual se passa em revista o tempo inventado pelos homens e alguns problemas dele derivados, pode-se entrever que dias melhores vêm de fato. Observando o primeiro e o último poemas de Calendário perplexo, perceberemos o quanto os extremos se tocam para se distinguirem. A abertura exibe algo esperável, um texto associado ao início do ano. ano novo: vida nova dívidas novas dúvidas novas ab ovo outra vez: do revés ao talvez (ou ao tanto faz como fez) hora zero: soma do velho? idade do novo? o nada: um ovo salve(-se) o ano novo! (―Brinde‖, p. 255). Mesmo (ou sobretudo) num momento de celebração geral, o poeta enche a sua taça com a desconfiança própria dos questionamentos feitos a partir de um ópio popular. O título e o início do poema fazem-nos acreditar que o sujeito lírico toma parte dos festejos pela chegada de um novo ano, partilhando da crença num momento 74 transformador: ―ano novo: vida / nova‖. Mas há no decorrer do texto um distanciamento tradutor da maneira como algumas vagas atribuições feitas à data são por ele vistas. Em especial os parênteses concentram as células irônicas que exprimem a concepção mais forte que o mesmo sujeito tem a respeito da virada de ano: ―(ou / ao tanto faz como tanto fez)‖, e principalmente, ―salve(-se) o ano novo!‖. O oculto faz-se óbvio. Encerra o livro um poema feito por encomenda para um jornal paulista. ―Como armar um presépio‖ (p. 277-8) já lembra, pelo nome, o famoso ―Receita para fazer um poema dadaísta‖, de Tristan Tzara. Toda a sua extensão revela o mecanicismo tão alvejado por José Paulo Paes, e que, no caso, despe a armação do símbolo natalino de suas reverberações sentimentais, impregnando-as de uma carga nada festiva: ―pegar uma paisagem qualquer / cortar todas as árvores e transformá-las em papel de imprensa / enviar para o matadouro mais próximo todos os animais (...)‖, tudo isso com vistas a ―(...) reduzir assim a paisagem à medida do homem‖. Mas em meio às palhas do grande estábulo da existência, algumas agulhas ainda se mantêm. É verdade que, em sua fragilidade, elas não significam uma redenção imediata. Mesmo mergulhadas no fundo dos fins, elas não podem garantir que tudo dará certo na hora derradeira. Mas são agulhas, e ainda que pelo espetar, empreendem sobretudo a abertura de passagens. E assim o poeta finaliza o seu perplexo livro com um furo na ordem: ―quem sabe um dia não nasce ali uma criança e a vida recomeça?‖. Talvez a poesia, à maneira dos meninos, saiba, e então anuncie uma nova boanova. 75 NO ÓBITO CONSTAVA NASCIMENTO A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988) desperta a atenção fundamentalmente por três aspectos: o título aparenta trazer uma crítica algo vociferante, passível, num primeiro momento, da classificação de ―reacionária‖, visto o alarde feito desde o final do século XIX sobre as supostas mortes da pintura, da escultura, da representação, da história etc.. Considerando o segundo período da expressão – ―mas juro que não fui eu‖ –, a aparência conservadora ganha força, mas ela não passa de uma máscara irônica com a qual o poeta escapa dos posicionamentos teórico-grupais. o concretismo está morto viva a poesia concreta (―Sucessão‖, p. 291). O prestígio alcançado pela poesia concreta no Brasil deu a ela muitos adeptos e admiradores, em especial pela sólida fundamentação teórica formulada por seus ícones, pelos acréscimos às miríades de experimentação da escrita poética no século XX, e, é claro, por ser uma novidade, algo que por si só a muitos fascina. Mas esses mesmos fatores foram alvo dos que a contestaram, visto ter sido expediente comum no referido século (como de forma mais discreta acontece ainda hoje) a polarização estética entre inovadores e tradicionalistas. Dessa forma, o primeiro verso indica um paradoxo, uma espécie de feitiço voltado ao feiticeiro, pois o nascimento do concretismo, lembre-se, foi anunciado com a morte do verso.24 O livro de Paes, publicado mais de trinta anos após o lançamento da vanguarda, daria nela um golpe equivalente ao que ela desferiu em toda a tradição. Posta numa estrofe exclusiva, a notícia do fim do concretismo ganha ares de definição. Mas os dois outros versos, estrategicamente situados noutra estrofe, desautorizam o dito anterior, e, mais do que isso, fazem nascer um sorridente ―viva‖ 24 ―Dando por encerrado o ciclo histórico do verso (unidade rítmico-forma), a poesia concreta começa por tomar conhecimento do espaço gráfico como agente estrutural‖, declaram Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. ―Plano-piloto para a poesia concreta‖, In: Teoria da poesia concreta. 4ª ed., p. 215. 76 onde pairava o cinzento ―está morto‖. A ironia toma a fala pejorativa (―o concretismo está morto‖) para desmerecê-la, pondo o sim (―via a poesia / concreta‖) a triunfar sobre o não. À altura da publicação do livro, o concretismo havia se esgotado como prática poética em sua busca por novas formulações (já no livro anterior o próprio José Paulo havia abandonado os recursos estritamente visuais), também como mentalidade hegemônica sobre as artes, mas isso não descarta todos os seus importantes feitos. A mais, o que se encerrou foi o ―ismo‖, a moda, a tendência que se julga exclusiva; a poesia é o feito, a realização, e por estar acima das convenções da época e das restrições habituais em tais circunstâncias, mantém-se indelével como as grandes expressões de outros tempos e lugares. José Paulo Paes nunca foi poeta concretista porque não carregou estandarte de qualquer movimento, mas fez poesia concreta porque sempre interessou à sua arte a pluralização de verdades. Sobre o poema, diz João Carlos Biella: ―Há a explicitação do ocorrido quando a poesia de Paes entrou em contato com o concretismo, ou seja, houve o interesse pela prática poética dos concretistas, e não pelo projeto poético deles‖ (2008, p. 69). O poeta é consciente de que é sucessor dos ícones vanguardistas, mas isso não o leva a tomar uma postura iconoclasta. Noutro poema – ―Acima de qualquer suspeita‖ –, do qual se extrai o nome do livro, a constituição de sua linguagem poética é tratada com maiores nitidez e ênfase, nela acentuando-se o caráter híbrido e, em relação ao poeta, o espírito de ironista. a poesia está morta mas juro que não fui eu eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos drummond de andrade manuel bandeira murilo mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto paul éluard oswald de andrade guillaume apolinaire sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos não adiantou nada em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada de ferro araraquarense porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro 77 araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece nunca ter existido nem eu (p. 287). Os críticos de Paes sempre apontam a imitação de seus mestres em O aluno, como vimos. No poema, décadas depois de sua estreia literária, a confissão se desdobra num jogo de máscaras líricas que aumenta a dúvida sobre quem fala, se o próprio poeta (sobretudo na quarta estrofe), se o sujeito lírico (as três últimas). A declaração da suposta morte da poesia seria um natural impasse para o poeta, pois, a valer a afirmação, as possibilidades de expressão ter-se-iam esgotado. No entanto, os outros dois aspectos que a nosso ver dão a A poesia está morta mas juro que não fui eu grande destaque revelarão a estrutura irônica do poema (em especial por ser o primeiro do livro): a quantidade de poemas (são cinquenta e dois ao todo, divididos em quatro partes, tornando-o o mais extenso livro poético do autor), e a qualidade dos mesmos. De acordo com nossas reflexões no capítulo ―Ao rés dos restos‖, aqui José Paulo Paes reforça a sua dicção por copiar a si mesmo. Os poemas curtos, na maioria de dois versos, alastram-se por todo o livro, e em nenhum há insuficiência de expressão ou labor. Lendo os poetas brasileiros adeptos do minimalismo (penso em Oswald de Andrade, Francisco Alvim, em alguns ―marginais‖ e no próprio Paes), é possível perceber que os seus lances menos felizes derivam de certo vezo pela escrita epigramática, pois é fato que um dito curto e preciso fascina pela capacidade de poder dizer muito com pouco. Mas nem sempre é possível exibir com acuidade significados distintos usando-se apenas vocábulos semelhantes, da mesma forma que versos econômicos podem ―emperrar‖ quando postos a dimensionar o sentido de um título sugestivo. Se tomado pelo maneirismo, ao poeta minimalista não interessa ir além de um ―raio‖ ralo de criatividade sintética. Mas as vestes curtas de Paes não espremem os textos. A parte ―Olho no umbigo‖, primeira do livro e da qual foram transpostos os dois poemas citados, é centrada em assuntos especificamente literários, pensados de forma geral: invenção co-invenção convenção (―ode aos diluidores‖, p. 288), 78 ou funcionando como indicação da estética prezada pelo poeta: conciso? com siso prolixo? pro lixo (―Poética‖, p. 289). A estética que funde economia discursiva a conteúdos profundos tem espaço cativo em ―Livro dos provérbios‖, segunda parte de A poesia está morta. A começar pela ironia, manifesta pela escolha da epígrafe – ―O provérbio é um dos mais terríveis meios de estagnação da humanidade‖, de Mário de Andrade – veremos a destreza do poeta que se autocopia e reinventa simultaneamente, passando pelo humor grave: quem cala consente (e no cu logo o sente) (―Pare olhe escute‖, p. 299) e chegando à economia extrema: O SILÊNCIO É DE OURO ^ ´ ! (p. 302). Além das características apontadas, os dois poemas exprimem a verve política tão presente na obra paesiana. Em 1988, o Brasil estava recém-saído do período ditatorial, que, por sua extensão e intensidade nas ações opressoras, deixou pesadas marcas na memória coletiva, mormente na dos que a ele se opuseram. Tanto ―Pare olhe escute‖ quanto ―O silêncio é de ouro‖ trazem reflexos de um estado de exceção, mas com perspectivas diferentes. Enquanto o segundo representa uma estratégia de sobrevivência em meio à perseguição generalizada aos subversivos, o primeiro é uma crítica aos que silenciam equivocadamente, ignorando ou desprezando o momento do necessário grito. Sem ceder, novamente, a dicotomias, Paes percebe com clareza problemas estruturais da civilização brasileira: a paralisia social ocasionada coercitiva ou voluntariamente. Da mesma forma que foi político negando a ortodoxia da militância partidária, José Paulo Paes foi religioso sem professar sua fé pela via institucional. Por isso teve tanta propriedade ao estender suas críticas ideológicas aos que distorcem o significado 79 de símbolos tradicionais por prezarem o continente em detrimento do conteúdo: devagar se vai ao longe mais perto de deus o ateu do que o monge (―Teoria da relatividade‖, p. 297). Como as demais verdades propagadas como absolutas, os provérbios não escapam da desconfiança do poeta, sendo submetidos à corrosão que lhes reordena ou implode os sentidos. Ação semelhante ocorrerá com toda a gama de significados relacionados às viagens, na parte ―Geográfica pessoal‖. Em tal seção do livro, a epígrafe tem grande precisão, funcionando como um ―pressuposto poético‖. ―As viagens se fazem para dentro‖, disse Henry Miller, o que se comprova pela conjugação de alguns itens da biografia de Paes ao poema ―Taquaritinga‖: cidade: nas ruas em pé eternas namoradas me espreitam eu é que não posso vê-las cidade: no jardim a fonte insiste em jorrar suas águas luminosas só que me falta a sede cidade: agora nem as pedras me conhecem (p. 317). Taquaritinga, cidade do interior de São Paulo, é a terra natal do poeta, de onde ele saiu ainda muito jovem para estudar (não à toa os dois poemas seguintes são dispostos de acordo com os rumos que ele tomou, em sequência: primeiro ―Araçatuba‖, onde fez os estudos ginasiais; depois ―Curitiba‖, local em que se formou técnico em química, e onde houve sua decisiva gênese intelectual). A partir de tais deslocamentos, a permanência de José Paulo em Taquaritinga foi curta, visto que em outubro de 1949 80 (contando então 23 anos) ele se instalou definitivamente em São Paulo, onde trabalhou como químico, casou-se e iniciou suas atividades literárias regularmente. ―Taquaritinga‖ já se afigura então como a memória de um filho ausente, ficando, por isso, nítida a dessintonia entre o sujeito e a cidade. E, se nos dois primeiros momentos o que a província oferece já não interessa mais ao desterrado, modificado pela passagem do tempo e pela vida urbana, ao fim aponta-se que a cidade também não mantém laços tão firmes com ele. O homem saiu da cidade, que, por sua vez, exilou-se do homem. ―Geográfica pessoal‖ é um conjunto edificado pelas poucas viagens internacionais que Paes fez, em especial à Europa. Na transformação do registro pessoal em expressão lírica, José Paulo afasta do seu diário de viagem qualquer tipo de deslumbramento pelo contato com famosas metrópoles do Ocidente. João Carlos Biella disse com precisão que, no livro, ―o olhar do viajante poético é o de um antiturista‖ (idem, p. 94), pois ele irá apontar que a grandeza dos países está alicerçada, muitas vezes, sobre a pequenez ética. É o que se vê em ―British Museum‖: voltem por favor dentro de alguns anos a essa altura deus todopoderoso já terá sido certamente incorporado à nossa coleção de antiguidades orientais (p. 325), e em ―Grécia: Acrópole de Atenas‖: 1. corroídas pela emanação das fábricas e automóveis de atenas as cariátides mal suportam agora o peso da eternidade 2. na calada da noite o poder público manda espalhar pelo recinto da acrópole uma boa provisão de cascalho para que no outro dia cada turista possa levar para casa um fragmento autêntico do propileu do partenon do templo de atenas ou do erectéion (p. 329). A hipocrisia da má publicidade turística, inescrupulosa em sua sede de lucros, não escapa do olhar arguto de Paes, que levou na bagagem a sua inseparável ironia, e 81 com ela faz uma denúncia zombeteira de algo que abriga um duplo escândalo: a Inglaterra mantém peças artísticas sabidamente roubadas da Grécia, com as quais impulsiona seu turismo cultural. Eis o primeiro absurdo; o segundo provém do elegante consentimento das nações que sabem disso, mas permanecem em silêncio diplomaticamente correto... Noutro poema, a explanação do crime é mais contundente: pela independência da grécia ele deixou a vida em missolongui mas a inglaterra acabou fazendo um bom negócio: levou em troca o friso do partenon (―Monumento a Byron‖, p. 330). Somados à crítica, os poemas de Paes consagrados às viagens recuperam a ideia do turismo como um ato de autêntico conhecimento, de nascimento conjunto, do homem que adentra o local, e do local que adentra o homem. Assim, uma marca de exotismo ganha significados pulsantemente poéticos: em vão te inclinas pedagogicamente o mundo jamais compreenderá a obliquidade dos bêbados ou o mergulho dos suicidas (―Pisa: a torre‖, p. 334). A negação do deleite burocratizado estende-se ao vazio que enche boa parte da existência, até mesmo por parte daqueles que nos falam da grandeza do viver. É esse o enfoque de ―Desistórias‖, quarta e última parte do livro. Já na abertura, as ―Duas elegias bibliográficas‖ (dois poemas agrupados num mesmo título) tratam de tipos de corrosão: primeiramente a que é resultado da dedicação obstinada a um projeto: morto sem filho nem árvore livros só enfim 82 a existência feita essência: pó (―a J.-P. Sartre‖, p. 346), e depois a que se liga ao louvor oco, encômio desconhecedor de que a maior homenagem a um ídolo é a absorção interna (sem necessariamente descambar para a imitação) de suas lições: agora por dá cá aquela palha muitos invocam o teu nome em vão sem nenhum amor e o que é pior: sem nenhum humor (―A Oswald de Andrade‖, p. 345). Voltando ao início, um poema chamado ―O último heterônimo‖ diz: ―o poema é o autor do poeta‖ (p. 290). Levando-o em consideração, e conjugando-o à realidade de A poesia está morta mas juro que não fui eu, percebe-se no livro a autoria definitiva de um poeta firme, manejador convicto de sua escrita, cônscio da capacidade que o levará a escrever, com brilho ímpar, o próximo Prosas seguidas de odes mínimas. Não vale para essa poética, portanto, o anúncio do óbito da poesia feito na abertura, pois no decorrer do livro a arte paesiana mostrou-se com a segurança da madureza, e com o frescor jovem da reinvenção. Se o poeta é cria do poema, José Paulo Paes, filho da ironia, é ele só a prole de ampla família. 83 DO POUSO COMO DECOLAGEM A muitos poetas a passagem do tempo costuma ser algo danosa, visto ser comum que eles se repitam, sem que as etapas da escrita abram espaço para a renovação formal ou para a reflexão sobre assuntos distintos, ocasionando, quase como regra, uma repetição pouco ou nada estimulante. Esse certamente não é o caso de José Paulo Paes, em especial pela consideração de seu décimo livro de poesia: Prosas seguidas de odes mínimas, lançado em 1992, e que parece ocupar consensualmente entre os críticos do poeta o posto de sua melhor obra (e que, a nosso, ver, só se emparelha a Socráticas). Trata-se de um livro completo: ao longo de seus trinta e três textos, percebemos um mosaico de temas e de modos de escrita que a um só tempo consagram e renovam o poeta, porque é a obra na qual ele está mais presente, tanto lírica quanto biograficamente, fazendo assim uma escrita visceral. O exercício da ressignificação das coisas mundanas é também, nesse livro, o mais bem realizado de toda sua trajetória. A mais, a comunhão de indivíduo, pessoas, eventos e coisas, em suas harmonias e contrastes, dará a Prosas seguidas de odes mínimas a sua mais bela característica. Nela vemos o menino, o rapaz, o homem formado; o ser que ri, padece, e se redime; o literato amante das letras, crítico da ordem mundial, e transcendendo à metafísica. Cada página aumenta a sensação de ser esse um livro circular, dotado de unidade do início ao fim/recomeço. Se mais bem olhardes notareis que as rugas umas são postiças outras literárias. Notareis ainda o que mais escondo: a descontinuidade do meu corpo híbrido. [...] Que força macabra misturou pedaços de criança e homem para me criar? (―Canção do adolescente‖, p. 362). 84 A primeira parte é intitulada ―Prosas‖, e antes da leitura do início propriamente dito do livro, convém prestar atenção na segunda das dedicatórias (a primeira, como de hábito, é dirigida à Dora): ―À memória de Fernando Góes, que um dia chamou de Poesias um livro seu de crônicas‖ (p. 359). Essa relativização da forma cativa do poético, que é o poema, será empreendida mais uma vez por Paes (lembrem-se das imagens de livros anteriores), e, dos vinte textos da seção inicial do livro, sete não são escritos em verso, o que de forma alguma os torna menos ―poéticos‖. Ademais, Antonio Carlos Secchin percebe haver nisso uma atitude que ―[...] pela utilização no plural [do nome da seção], remete de pronto à noção de conversa, de diálogo‖.25 A constatação é precisa, pois o livro é o mais intimista da poética paesiana. Se, como temos visto, o poeta nunca afastou o homem do centro de sua arte (da mesma forma que nunca ignorou o leitor), em Prosas seguidas de odes mínimas esse diálogo será responsável pelo estreitamento do contato entre escritor e espectador; entre o homem e sua linhagem genealógica; entre o sujeito e ele próprio. Os poemas e as prosas de ―Prosas‖ têm forte teor memorialístico. O passado do poeta é presentificado, mais vivamente, pela religação com os mortos de sua família. Acentua-se neles a interação de disparidades, invertendo as noções polarizadas de sim e não. Eu mal o conheci quando era vivo. Mas o que sabe um homem de outro homem? Houve sempre entre nós certa distância, um pouco maior que a desta mesa onde escrevo até esse retrato na parede de onde ele me olha o tempo todo. Para quê? [...] Até o dia em que tive de ajudar a descer-lhe o caixão à sepultura. Aí então eu o soube mais que ausência. Senti com minhas próprias mãos o peso do seu corpo, que era o peso imenso do mundo. Então o conheci. E conheci-me. 25 ―Um poeta em paz‖, p. 121. 85 Ergo os olhos para ele na parede. Sei agora, pai, o que é estar vivo (―Um retrato‖, p. 365-6). A morte, definitiva carta de despedida que chega ao destinatário a despeito de seu desejo, é aqui uma parede a dar passagem: eliminação total do pai, ela também usurpa do filho o que nele havia dos dois (ainda que o poema nos mostre uma relação rarefeita). Mas o silêncio pleno é o princípio do diálogo, tanto do pai com o filho (―Aí então eu o soube mais que ausência‖), quanto do filho consigo mesmo (―E conhecime‖). A distância total uniu os (tão próximos) antípodas, o depósito no subsolo os fez emergir à sublimação, e a morte ressuscita de seu velho estigma para deixar de ser o fim. A união pela separação é assunto de belíssimo poema, preciso em seus versos, só que com certa inversão de papéis, pois o filho de antes é agora o pai que canta a saída de sua filha da vida, antes mesmo que o ingresso se consolidasse. Dorme como quem porque nunca nascida dormisse no hiato entre a morte e a vida. Dorme como quem nem os olhos abrisse por saber desde sempre quanto o mundo é triste. Dorme como quem cedo achasse abrigo que nos meus desabrigos dormirei contigo (―Nana para Glaura‖, p. 379). Interessa notar que a ressignificação a que nos referimos se torna mais visível se percebermos o quanto essas elegias destoam das convencionais. Isentas de dramaticidade inflamada (é inevitável lembrar do ―Cântico do calvário‖, de Fagundes Varela), elas são também exemplos de uma concepção moderna de vida, retirando da morte a carga trágica que se lhe atribui. O canto fúnebre de Paes ganha tons e notas de uma doce cantiga de ninar. 86 A morte foi explorada por José Paulo em alguns livros anteriores, mas de forma ainda pouco frequente. À época da publicação de Prosas, já era o poeta um sexagenário, e isso o havia possibilitado acompanhar a transformação da sua Taquaritinga e da sua família em retratos na parede. Constam, nesse inventário, as figuras do pai, da mãe, do avô (o celebrado J.V, dono da tipografia onde o poeta nasceu), da avó, de tios, de primos e de um empregado familiar. Todos reunidos, não por acaso, num poema chamado ―A casa‖: corpo já mortificado em seus órgãos – ―Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas‖ – (p. 377), mas recuperado pela ação mais nobre da poesia: resgatar dos galpões do tempo o que se somou à roda da vida: ―E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos‖ (idem). Vê-se, dessa forma, que, quanto mais fala sobre as pessoas, mais o poeta faz declarações sobre si. As demarcações familiares de Paes não se restringem à sua árvore genealógica. Os companheiros de ofício são rememorados com similar frequência, ora com implícito amargor – Um dia foi fechado o Café Belas-Artes e os amigos não acharam outro lugar de encontro. Talvez porque já não tivessem (adeus Paris adeus) mais razões de encontrar-se mais nada a se dizer (―Balada do Belas-Artes‖, p. 385) – ora com explícita alegria: Ontem, treze anos depois de sua morte, voltei a me encontrar com Osman Lins. O encontro foi no porão de um antigo convento, sob cujo teto baixo ele encenava a primeira do seu Teatro do Infinito. A peça, Vitória da dignidade sobre a violência, não tinha palavras: ele já não precisava delas. 87 Tampouco disse coisa alguma quando o fui cumprimentar. Mas o seu sorriso era tão luminoso que eu acordei. (―Reencontro‖, p. 383). A presença maciça da morte não poderia ter outro significado: a louvação à vida (com todos os seus aparentes ou autênticos reveses), marca das mais expressivas em José Paulo Paes. Num outro texto, o poeta, ao diagnosticar o saldo de tantas perdas, reasfalta a rua (ou retira dela o asfalto, quando excessivo ou desnecessário) pela qual se efetua a travessia dos viventes: O amor: latejo de artéria entupida por onde o sangue se obstina em fluir. A morte: esquina ainda por virar quando já estava quase esquecido o gosto de virá-las (―Balancete‖, p. 380). ―Odes‖ é o nome da segunda parte do livro, e nela será mais visível a ubíqua ironia do autor. Pois no título do livro temos a indicação de que tais odes são mínimas, e isso nos leva a imaginar, numa quase conclusão, a presença de textos epigramáticos. Isso não se confirma, pois, em todo o livro, há somente um poema curto – À bengala –, constituído por apenas três versos (sem contar que, logo na abertura dessa parte, comparece o poema mais extenso de Paes: ―À minha perna esquerda‖). Não é confirmada também a expectativa de que tais poemas constituam verdadeiras odes, pois em alguns casos, especialmente nos de flagrante crítica social, a tradicional feição laudatória da ode é revertida para tratar de assuntos pouco ou nada elogiáveis. É o tributo que José Paulo presta aos modernistas, lembrando diretamente a ―Ode ao burguês‖, de Mário de Andrade. Pelos teus círculos vagamos sem rumo nós almas penadas do mundo do consumo. De elevador ao céu pela escada ao inferno: 88 os extremos se tocam no castigo eterno. Cada loja é um novo prego em nossa cruz. Por mais que compremos estamos sempre nus nós que por teus círculos vagamos sem perdão à espera (até quando?) da Grande Liquidação (―Ao shopping center‖, p. 403). Observando anúncios de planos funerários, de condomínios cada vez mais equipados, de sistemas de segurança particular, dentre tantos outros ―produtos‖, percebemos o quanto fatores básicos da vida humana têm sido mercantilizados. Até mesmo valores antigos e socialmente reconhecidos como importantes e a privacidade são postos nas prateleiras do grande supermercado gerido pelo capitalismo. O furor consumista propaga-se desenfreado, e a alegoria de Paes transfere para o templo pós-moderno uma carga simbólica das Sagradas Escrituras (reparem-se as iniciais maiúsculas de ―Grande Liquidação‖), evocando o caráter de inferno, purgatório e de um céu que nunca se alcança. Como já havia feito antes, no poema ―Seu metaléxico‖, de Meia palavra, ao chamar os consumidores de ―consumidoidos‖, o poema concebe a aquisição perfunctória de bens como um cárcere branco. Mas, diferentemente do poema aludido, aqui os eventos nos são apresentados por outra perspectiva, pois quem nos fala o faz de dentro, pertencendo ao grupo dos compradores incessantes. Numa aparente diferença das demais ―almas penadas‖, o sujeito lírico tem consciência do problema, mas a elas se iguala ao se ver engaiolado entre as lojas. A ode em nada enobrece o consumismo, e os viventes nela apresentados estão inegavelmente mais mortificados do que os mortos relatados em ―Prosas‖. A verve crítica de Paes manifesta-se como uma rosa-dos-ventos, percebendo com acuidade outros itens da alienação humana. Atento ao seu tempo, o poeta observa os paradoxos negativos que o caracterizam, sobretudo os que preconizam o progresso e contribuem para a paralisia da sociedade, bem como a sofisticação técnica justificada pelo conforto e pela facilitação dos afazeres dos cotidianos, mas que termina por aumentar a exclusão, tornando o homem submisso à engrenagem tecnológica. Dessa linha faz parte ―À televisão‖, um preciso apontamento de uma caverna 89 pós-moderna: Teu boletim meteorológico me diz aqui e agora se chove ou se faz sol. Para que ir lá fora? A comida suculenta que pões à minha frente como-a toda com os olhos. Aposentei os dentes. Nos dramalhões que encenas há tamanho poder de vida que eu próprio nem me canso em viver. Guerra, sexo, esporte – me dás tudo, tudo. Vou pregar minha porta: já não preciso do mundo (p. 402). Como temos insistido na coerência dos paradoxos na poética de José Paulo Paes, importa observar que a obra apontada por seus críticos como o mais expressivo é justamente aquela em que não aparece o José Paulo configurado pelos últimos livros. Já dissemos que a economia textual desponta num único texto. Além disso, o sarcasmo ridicularizador é um corpo estranho tanto nas prosas quanto nas odes. Inegavelmente há humor e ironia em Prosas seguidas de odes mínimas, mas o tom galhofeiro cede espaço à meditação centrada, mais serena e contida. O que não se perde no livro é a atenção dada às pequenas coisas do cotidiano. Causaria estranheza o fato de, num livro impregnado de metafísica, cingido por um fino lirismo em toda a extensão, notarmos poemas dedicados a um par de óculos, a um palito de fósforo ou a uma garrafa. Mas o poeta comum chama a atenção para os objetos comuns, primeiramente para censurar o desprezo a eles conferido: Piedosamente escondes obscenos rasgões. Com prender o molde ao pano uma roupa lhe impões. No idioma da ambição 90 só ao módico dás nome: ―Algum para os alfinetes‖ pede a mulher ao homem. Mas se cais ao chão ninguém se rebaixa em colher-te. Com um muxoxo de desdém diz: ―É um simples alfinete‖ (―Ao alfinete‖, p. 407), e depois para apontar entre eles e os homens uma relação recíproca de sublimação: Contigo me faço pastor do rebanho de meus próprios passos (―À bengala‖, p. 397). O indivíduo posto a observar a matéria de que é feito o existir faz interagir o banal com o atípico; reivindica na galeria das belezas um espaço digno para a feiúra; insere no cosmo as simplicidades condenadas ao perecimento. O mundo não está a serviço do homem: é algo a ser conhecido, amado e absorvido na totalidade de suas partículas. Num poema de A luta corporal – ―Galo galo‖ –, de Ferreira Gullar, um animal perplexo questiona: ―que faço entre coisas?‖ (2004, p. 11). Na poética de Paes, as coisas dizem que fazem entre e com os homens. Além do ordinário, o trágico também pode ser uma via para a elevação. É o caso de ―À minha perna esquerda‖, estupendo poema de carga lírica e dramática, composto quando o poeta teve uma perna amputada em consequência de uma necrose. Dividido em sete partes, o texto não se pauta pelo discurso da piedade nem do extremo lamento (por um motivo justificável). Ao contrário, impressiona, já desde o início, a resignação do amputado, capaz inclusive de pilheriar a desventura: Pernas para que vos quero? Se já não tenho por que dançar. Se já não pretendo ir a parte alguma. 91 Pernas? Basta uma (p. 391). Noutros momentos, o inconformismo se sobrepõe a qualquer sentimento, vindo para o texto carregado num grito: Por que me deixaste pé morto pé morto a sangrar no meio de tão grande sertão? não não N Ã O ! (p. 392). Por todo o poema alternam-se a aceitação pacífica do revés (―Nenhuma perna / é eterna‖) e a angústia, matizada pela ironia, por ele causada (―Chegou a hora / de nos despedirmos / um do outro, minha cara‖), exprimindo a antiga peleja entre razão e emoção, pois o dano é inevitável, mas ele trará o bem; mas, por outro lado, mesmo que traga um benefício, ele sempre será um dano. No entanto, as situações extremas possibilitam que passemos em revista tudo o que foi feito de nós até o momento. Tais ocasiões são propícias à retomada ou ao fortalecimento de vínculos afetivos. Em ―À minha perna esquerda‖, a cirurgia faz com que o sujeito pense a todo momento na morte, e isso dá ensejo a que o sujeito declare à sua parte arrancada uma comovente solidariedade, como se nela residisse a única chance de afugentar os medos de quem parte: Mas não te preocupes que no instante final estaremos juntos prontos para a sentença seja ela qual for contra nós lavrada: as perplexidades de ainda outro Lugar 92 ou a inconcebível paz do Nada! (p. 396). No citado texto ―Um poeta em paz‖, Antonio Carlos Secchin observou que as Prosas seguidas de odes mínimas se iniciam com o tema da morte (―Escolha de túmulo‖), e se encerram falando de nascimento (―A um recém-nascido‖). A disposição de tais poemas tem plena sintonia com o projeto artístico de José Paulo Paes, pela reordenação de signos e símbolos empreendida por sua poética, e também pelo conciliar de opostos. ―Escolha de túmulo‖ é exemplo perfeito disso, e a sua primazia no livro nos deixa perceber que ele funciona como uma súmula, podendo, inclusive, ser renomeado como ―Arte poética‖. Onde os cavalos do sono batem cascos matinais. Onde o mundo se entreabre em casa, pomar e galo. Onde ao espelho duplicam-se as anêmonas do pranto. Onde um lúcido menino propõe uma nova infância. Ali repousa o poeta. Ali um voo termina, outro voo se inicia (p. 361). O poeta deseja para a sua morada sepulcral um ambiente repleto de imagens plácidas, como que para garantir um verdadeiro descanso. E (a conjunção adversativa seria incoerente) no espaço consagrado ao fim, o menino, símbolo do início, conceberá de forma inovadora os passos a serem dados pelo caminho, ou mesmo fará com que nos perguntemos se de fato é necessária a caminhada. Neste mesmo espaço, em que repouso e movimento coabitam, o pouso será uma nova decolagem, porque a vida, se não imita a poesia, aprende com ela que é morrendo que se (re)nasce para o eterno. 93 DENTRO DO TODO DE SI Uma bifurcação se forma diante do escritor que lança um livro após outro que foi brilhante, pois os comentários tendem a tomar duas direções: ou se diz que o mais recente é um feito menor, ofuscado pelo antecessor, ou o crítico vê na peça lançada a confirmação da excelência da que a precedeu. É esse o caso de A meu esmo, publicado em 1995, depois do substantivo Prosas seguidas de odes mínimas. Muito pouco se disse sobre o livro, cujos comentários resumem-se aos de Henrique Duarte Neto e Davi Arrigucci Jr., que comprovam as hipóteses acima. O primeiro (também incluindo em seu comentário o livro De ontem para hoje, a ser analisado no próximo capítulo), disse, comparando-os a Prosas, que ―não parecem trazer grandes novidades‖ (2006, p. 24). Já o segundo foi otimista, dizendo ser o livro dotado de ―poemas de alta qualidade‖, situando-o na que acredita ser a melhor fase do poeta (2003, p. 19). Ambos estão corretos em seus juízos, que, apesar de distintos, formam uma unidade coerente: os temas tratados e as formas empregadas em A meu esmo estão presentes em outros livros de Paes, mas, aqui, a recorrência não é maneirismo. Ao contrário, ratifica o gabarito que o poeta alcançou. Em parte, o próprio subtítulo pode modular uma ideia prévia sobre a suposta desimportância da obra: ―quinze poemas desgarrados‖ indica sua natureza, visto ser o livro um volume de poemas escritos em épocas espaçadas, não constituindo unidade ou projeto. A pista dada não é falsa, mas ela não significa desleixo ou rebaixamento qualitativo. É necessário desconfiar do poeta, pois sua verdade é o fingimento, e a ironia de Paes também se direciona a si próprio quando se intitula um poeta como outro qualquer. Ao contrário da luminosidade de Prosas seguidas de odes mínimas, A meu esmo tem em suas extremidades imagens trevosas. O adendo a ―Dísticos para tempos difíceis‖ – ―(1964 - 1984)‖ –, poema da abertura do livro, não deixa margem a dúvidas: mais uma vez, trata-se da ditadura militar, que injeta chumbo nas possíveis brancas nuvens do Brasil. 1. 94 um horizonte de mordaças de viúvas e ídolos sem cor [...] 5. um morto sabe o que diz: um morto não diz nada (p. 417). No fim do livro, a política é tratada no âmbito particular, com o poeta refletindo sobre os impasses de sua militância, cujo término se deu pelas insuperáveis contradições do Partido Comunista Brasileiro. E agora – Mendonça, Battini –, que fazer? O trotskista puxou o cordão da campainha, o bonde parou, só ele desceu. Os demais companheiros, irresolutos, permaneceram em seus lugares. Enredado num espinheiro de questões de ordem, o comitê central não dá notícia de si há séculos. Quanto a mim, desisti de andar de bonde. Prefiro andar a pé, mesmo sem ter para onde ir. Nunca ajudei ninguém a erguer muros. Tampouco me chamo Josué. Não sei sequer tocar trombeta. Será isto o fim dos tempos ou foi apenas o relógio que parou? (―Quo vadis?‖, p. 433). O desregulamento social e suas piores consequências impulsionam os inconformados a reivindicar o bem-estar coletivo. Isso foi inclusive prática comum entre artistas do século XX, em especial no caso brasileiro, em que Modernismo e Partido Comunista surgiram no mesmo ano (1922). Para muitos, o ataque aos valores consagrados se irmanava à rebelião contra setores elitistas do País, por serem estes perpetuadores daqueles. Mas há foices que segam também os camponeses, e o centralismo democrático dos revolucionários instituídos restringe-se aos poucos que se encontram no centro das 95 instituições. Além das práticas antidemocráticas, os crimes contra a humanidade enegreceram a bandeira vermelha dos socialistas. Portanto, assim como se mobilizaram para ingressar correndo no ―partidão‖, quase todos os intelectuais voaram para dele sair. O caso de Paes não foi diferente, como assinala Rodrigo Naves em ―Um homem como outro qualquer: José Paulo Paes‖, prefácio à Poesia completa do poeta como nenhum outro: Foi nos tempos de Curitiba – quando se tornou amigo de Dalton Trevisan e de tantos outros literatos da cidade também importantes em sua formação – que ele se aproximou do Partido Comunista Brasileiro e passou a se envolver mais diretamente com as formas de organização do país. No entanto, as concepções estreitas do PC brasileiro, tanto em relação à arte quanto à própria sociedade – sem falar da restrita defesa dos descaminhos da União Soviética –, logo o afastaram de seus círculos (2008, p. 21). Com o desejo frustrado, a sensação de que não há mais possibilidade de um caminho a seguir se confunde com a própria estagnação da História: ―Será isto o fim dos tempos ou foi apenas o relógio que parou?‖. Tanto sujeito quanto poema não sabem responder, e mesmo o poeta, tão vigoroso em suas esperanças, tem o facho enfraquecido pelas dúvidas que se lhe antepõem, aqui estampadas no último verso e no título do poema: que caminho tomar? As diferenças entre A meu esmo e Prosas seguidas de odes mínimas não se circunscrevem ao contraste euforia/disforia (até porque em nenhum livro de José Paulo hegemoniza-se um tipo de emoção). Só que elas (as diferenças) aparecem nesse mesmo terreno em que o poeta mantém vínculos com escritos anteriores. Pode-se ver como item peculiar de A meu esmo a linguagem reticente, que em alguns poemas estabelece uma dicção mais pautada em imagens do que na lógica discursiva do princípio, meio e fim. Tomemos dois exemplos: o primeiro é uma parte do já citado ―Dísticos para tempos difíceis‖: 2. a paz dos eunucos a fibra dos moluscos 96 3. pela voz dos papiros: dinastia morta trono só ferrugem herói logo poeira 4. número a mais... número a menos... (p. 417). O fragmento é repleto de simbologias de subtração, como o ―eunuco‖, o trono enferrujado, o herói convertido em poeira e o ―número a menos‖. Como se fala de um sistema governamental que decepava as oposições, o poema absorve na linguagem esse sinal de corte, sem descrever ou sugerir mais diretamente os fatos representados. No entanto, tal linguagem se inscreve numa forma muito própria do expediente de Paes, visto ser alicerçada na economia das estrofes curtas. A segunda amostra é o nebuloso ―Anamnese‖, do qual se escavam algumas referências a um dos mais expressivos abalos mundiais do século XX – as bombas atômicas lançadas sobre Nagasaki e Hiroshima: Só souberam o que era após a queda. [...] Levaram-na mais tarde para os campos de cultivo e a colheita das vinhas. Sobre ela assentaram as colunas do templo. Com ela acenderam a pira dos sacrifícios. [...] Em meio à floresta das chaminés fabris e sobre a rede fluvial dos esgotos, subsistiu como grotesca nostalgia. Dizem que foi sob os escombros até agora fumegantes da Utopia que a sua fragílima semente pereceu enfim. Isso não muito depois de o gigantesco cogumelo de fogo, o mais sinistro arremedo da sua cornucópia, ter tornado supérfluo o próprio esforço de lembrar (p. 420. Grifos meus). O poeta não indica precisamente os termos sobre os quais reflete. Se a dicção de ―Dísticos para tempos difíceis‖ é cortada por falar de amputações (ocorre-me uma 97 correlação com Guernica, de Pablo Picasso), a de ―Anamnese‖ é esfumaçada como o hálito das bombas. E, se naquele texto tal inovação discursiva aparece numa forma já explorada (o poema curto), neste ocorre algo semelhante, uma vez que está escrito em prosa, modalidade belamente trabalhada em Prosas seguidas de odes mínimas. Dessa maneira, mantém-se a rejeição às dicotomias, e os textos conciliam manutenção e renovação. Outros elementos de A meu esmo somam-se para fortalecer a multifacetada escrita paesiana, como os sinais neoclássicos presentes em ―Orfeu‖ e, mais belamente, em ―Écloga‖: ―lentos bois / passam por mim / os dias‖ (p. 429). Nessa esteira, a consolidação de uma escrita conscientemente técnica, a fundir contenção e desenvolvimento, à maneira de João Cabral de Melo Neto, também se faz presente. É o caso de ―Os filisteus‖, soneto de versos eneassílabos, e ―Metamorfoses‖, com o qual o poeta reafirma seu entrelugar. sou o que sou: o silêncio após o mas e o ou fui o que fui: um ruído entre o constrói e o rui [...] ser o que seria: já crepúsculo mal começa o dia? (p. 430). Ainda dois poemas merecem destaque pelo lirismo, vigoroso e leve. Ambos tratam de temas já trabalhados por Paes alhures, mas a beleza que possuem lhes dá aparência e essência novas. Um é ―Revisitação‖, associável a ―Taquaritinga‖, de A poesia está morta mas juro que não fui eu, porque se caracteriza como ―diálogo‖ monológico do sujeito com sua cidade, quando, já separados, eles não conseguem se afastar de si. Cidade, por que me persegues? Ainda que eu pegasse o mesmo velho trem, ele não me levaria 98 a ti, que não és mais. As cidades, sabemos, são no tempo, não no espaço, e delas nos perdemos a cada longo esquecimento de nós mesmos. Se já não és e nem eu posso ser mais em ti, então que ao menos através do vidro através do sonho um menino e sua cidade saibam-se afinal intemporais, absolutos (p. 422). O deslocamento do sujeito (biolírico?), saído da provinciana Taquaritinga para se instalar no cosmopolitismo de São Paulo (passando antes pela mediana Curitiba), não é meramente geográfico: ele fragmenta o indivíduo moderno de modo a se sentir proscrito no local que lhe serviu de berço, fato instaurador de uma crise existencial. Mesmo ao final, o impasse não é desfeito. Mas uma alternativa é buscada na via do distanciamento – pelo vidro (da janela da condução que o leva embora?) e pelo sonho –, desde que o homem regresse para dentro de si, a fim de ameninar-se (e de amenizar-se) a si e à terra natal, para que ambos voltem ao estágio original do conjunto ―nascimento: conhecimento‖. No outro poema, ―Éluardiana‖, a figura infantil aparece como estandarte da liberdade (tão cantada pelo poeta homenageado): ―uma criança ri na clareira dos tempos‖. Entre os destroços de um local arrasado por alguma guerra – ―pelas ruas há vestígios de combate / grilhões sem prisioneiro crepúsculos no chão‖ –, coisas e seres pululam para que se instaure, mais do que a recomposição do espaço degradado, uma nova cosmogonia: a geometria irmã da liberdade ensina a árvore a pular o muro cansado de esperar revolta-se o relógio e começa a marcar as horas do futuro como o papel recuse confidências 99 a poesia liberta-se afinal do poeta e a nudez vencedora revoga a aporia do bem e do mal (p. 419). No capítulo anterior, em ―Escolha de túmulo‖, a imagem do menino corresponde à proposição de uma nova infância. Aqui, a magia infantil é associada à poesia, e esse espírito único (―a nudez vencedora‖), ao quebrar o velho apego às separações, constrói o corpo a ser por ele habitado: um mundo cercado de luz por todos os lados. Ao exibir poemas externos à sua carreira, o poeta se mostra completamente dentro de si, mesmo estando a seu esmo. 100 PRETÉRITO SEM FUTURO De ontem para hoje (1996) foi a última peça poética que José Paulo Paes publicou em vida. É livro à parte em sua bibliografia, pois a representatividade dele para sua obra é bastante pequena, praticamente nula. À semelhança de A meu esmo, do ano anterior, De ontem para hoje é um opúsculo de poemas desgarrados, com a simples diferença de que este foi formado por dez textos, ao passo que quinze integram aquele. Outra nítida dessemelhança se dá em âmbito qualitativo, pois todos os poemas desse livro situam-se abaixo da média da produção de Paes. Nenhum deles é desprezível, mas dificilmente algum causará maior comoção, tanto no crítico quanto no leitor comum (nos casos em que a diistinção é pertinente). A baixa tem justificativa: o opúsculo é um arranjo de poemas órfãos de morada cativa noutras obras de José Paulo Paes, e sua publicação em livro atendeu ao projeto ―Presente de amigo‖, da editora Boitempo. Do pouco que se pode extrair, destaca-se a inclinação neoclássica, proveniente do gosto particular do poeta – Em tronco de velho freixo exposto à lixa dos ventos ao vitríolo do tempo não gravo teu nome não: gravo-o no meu coração (―Gonzaguiana‖, p. 443). – e da convenção a que ele esteve relativamente ligado no início da carreira, a Geração de 45, como se como se vê em ―Soneto ao soneto‖, com epígrafe de Domingos Carvalho da Silva: Perdeste em Leoni o decadente enredo E essa perda afinal te enriqueceu: Deixaste de ser grato ao filisteu Que te queria digestivo e ledo. Fez-te Augusto dos Anjos atro e azedo 101 Resmungo de defunto. Míope Orfeu, Bandeira te tossiu e converteu-te Em tísico e lírico segredo. Sosígenes te deu pavões dementes, Cassiano ardor trocadilhesco e dentes Para mascar amêndoas concretistas. Pôs-te Vinícius mijos dissolventes. Mas isso no intramar; no ultra, entrementes, Deu-te Pessoa estrelas imprevistas (p. 453).26 Completam essa linha ―Ítaca‖ e ―Sísifo‖, sendo este um sonetilho de versos em redondilha maior, em que se exibe com alguma comicidade o eu todo retorcido do poeta: e eu sísifo tardotriste a tilintar as correntes de dilemas renitentes lá me vou sem vez nem voz rolar a pedra dos mudos pela montanha dos sós (p. 448). Mas, mesmo nesse livreto, de aparência marginal, Paes não deixou de imprimir sua marca conciliatória. A feição preponderantemente bucólica, plantada por gregos e colhida por árcades, que se anuncia já no texto de abertura – ―Baile na aldeia‖ –, encontra no fim do livro o oposto ao qual se atrai, o poema concreto ―Natureza-morta‖, fotografia verbal do cenário arquitetônico das urbes: pprédiosprédiosprédiosprédiosprédios prédiosaprédiosprédiosprédiosprédios prédiosprédiosiprédiosprédiosprédios prédiosprédiosprédiossprédiosprédios 26 ―Alguns [poemas] remontam aos anos 40‖, explica o autor no ―Recado prévio‖ que introduz o livro, à página 439. 102 prédiosprédiosprédiosprédiosaprédios prédiosprédiosprédiosprédiosprédiosg eprédiosprédiosprédiosprédiosprédios prédiosmprédiosprédiosprédiosprédios prédiosprédiosprédiosprédiosprédiosp (p. 454). No mais, pouco se elege para a análise ou para o espírito (ou para ambos, por que não?). Certamente o poeta sabia do pequeno alcance desses dez textos, os filhos retirados das cavernas do passado não teriam grande futuro, aparecidos apenas para o cumprimento de uma circunstância que os deu à luz. Um pouco turva, no entanto. O Sol nasce para todos, e as sombras também. 103 COMO MESTRE, COM CARINHO A lógica recomenda ver o último livro de um poeta como o encerramento de sua obra, a conclusão com a qual ele se despede, triunfante ou decadente, da trajetória biográfica de sua literatura. Mas tanto a arte quanto a existência gostam de entortar a lógica, de subvertê-la para mostrar as fragilidades de seu pretenso absolutismo. E, como nos melhores casos não se pode dissociar a obra da vida, Socráticas (2001) é mais que o encerramento do percurso poético de José Paulo Paes: vindo (vivo) a público quando o autor já estava morto (o falecimento ocorreu em 1998), o livro se encaixa como peça fundamental na estrutura cíclica da estética paesiana, ao colocar sentados à mesma mesa, ou na grama de um prado, arte, pensamento, vida e morte. Pleno de referências gregas (evidenciadas já no título), Socráticas possui três partes que dividem mas não segregam os textos: alpha, na qual aparecem poemas humorísticos e reflexivos, de caráter filosófico; beta, que registra a eternização de casos e coisas efêmeras; gamma, consagração da intimidade com a morte, iniciada em livros anteriores, retirando dela a imagem de ―indesejada das gentes‖. José Paulo foi admirador confesso da cultura helênica, algo perceptível no seu trabalho como tradutor de poetas antigos e modernos da Grécia. A partir disso, Paes efetuou uma junção muito particular entre o seu próprio modo de escrita e o que absorveu dos gregos, como se fosse um deles, sem ter deixado de ser ele próprio, como indica a abertura de alpha.27 ―Dois e dois são três‖ disse o louco. ―Não são não‖ berrou o tolo. ―Talvez sejam‖ resmungou o sábio (―Skepsis‖, p. 465). Na apresentação do livro, Alfredo Bosi diz que na barulhenta pólis pós-moderna, ―José Paulo Paes quis e soube ser uma espécie de Sócrates em tom menor: a consciência 27 ―A forma antiga, mas sempre renovável do epigrama e uma invenção modernista, o poema-piada, tornaram-se sua marca registrada, embora não única [...].‖, salienta Nelson Ascher em ―Socráticas de Paes traz altos e baixos do autor‖ (2001, p. E2). 104 vigilante que interroga e incomoda, ao encalço de uma verdade tão ácida que não poupa nada nem ninguém‖ (2008, p. 461). E toda cidade barulhenta tem seus não menos ruidosos arautos. Em nome da razão, grita-se para censurar o louco (o poeta?), transgressor da inércia do senso comum. A intervenção do sábio (um filósofo?) desfaz a peleja, pois com um ―talvez‖ ele ensina que conhecimento nem sempre é sinônimo de sabedoria, rejeita a bifurcação do certo e do errado e pela dúvida afirma que a consideração de possibilidades é o que pode nos retirar das trevas da norma, como propôs (sabiamente) Adorno: ―A liberdade não consiste em escolher entre branco e preto, mas em escapar a toda alternativa pré-estabelecida‖ (2001, p. 134). Ao sábio, portanto, liga-se a capacidade de ―ver criticamente‖, como diz o título do texto. Os críticos de Paes observaram corretamente que tanto o humor quanto a concisão se fazem presentes em Socráticas, atribuindo ao livro consonância com a produção mais sólida do poeta. A essa consonância pode-se somar a intenção que Paes teve, mesmo sendo um homem de pretensões lucidamente despretensiosas, de fazer de sua poesia uma maneira de pensar a realidade, acrescentando algo ao mundo e ao leitor. A essência grega desse livro não é apenas fruto do gosto do autor: aqui ele se torna um poeta-filósofo, e ladeia sua poesia à dos poetas gregos antigos, a qual não se dissociava da formação do homem, de acordo com Werner Jaeger: ―O poeta surge aos ouvintes como o filósofo da vida [...]. Na sua passagem do heróico ao humano individual, a poesia conserva a atitude educadora‖ (2001, p. 166). Impregnada por tais valores, a escrita de Paes contesta os excessos de uma modernidade que desfigurou o sentido da subversão – – Deus está morto, tudo é permitido! – Mas que chatice! (―Os filhos de Nietzsche‖, p. 466). .................................................................................. – Desculpe: sou hétero (―Anacronia‖, p. 469). – e, numa época ainda marcada por uma poética refratária ao antigo, propõe-se um novo contato com a tradição, para cuidar de questões artísticas e coletivas também. A arte de Paes alcança seu mais notável teor político, e sem a estridência do panfleto: formula a 105 expressão pelo silêncio, a ação a partir da parada, como se estampa em ―Fenomenologia da humildade‖: Se queres te sentir gigante, fica perto de um anão. Se queres te sentir anão, fica perto de um gigante. Se queres te sentir alguém, fica perto de ninguém. Se queres te sentir ninguém, fica perto de ti mesmo (p. 471). Talvez por ―socráticas‖ possam ser entendidas as lições que emanam dos poemas, ainda que o mestre (ou talvez por isso mesmo) se mantenha afastado de qualquer autopromoção – ―Eu sou o poeta mais importante / da minha rua. / (Mesmo porque a minha rua / é curta.)‖, diz em ―Celebridade‖ (p. 475). Os trinta e sete poemas que compõem o livro ampliam a imagem, aparecida especialmente em Prosas seguidas de odes mínimas, de uma poesia íntima da vida. Tal proximidade se efetua de diversas formas, seja no contato com o macro – ―NÃO TE AMAREI sobre todas as coisas, mas em cada uma delas, / por mínima que seja. É o que compete aos poetas fazer‖ (―Promissória ao bom Deus‖, p. 488-9) –, seja no relato de situações prosaicas: ―Mal saíra do casulo / para mostrar ao sol / o esplendor de suas asas / um pé distraído a pisou‖ (―Borboleta‖, p. 481). E é nessa esteira que se contemplam, com a mesma dignidade, vida e morte. Há em Socráticas uma série de poemas constatadores da efemeridade do existir, sentido na pele e na alma do homem já idoso a verificar sinais de sua própria transitoriedade: ―Talvez seja mais prudente continuar ouvindo o seu ganido abafado ao longo das noites que ainda me restem‖ (―Prudência‖, p. 502). Ao contrário do que se possa imaginar, a sensação do fim não traz inconformação ou um febril carpe diem. Traz, antes, uma incrível resignação – para quem pediu sempre tão pouco o nada é positivamente um exagero (―Auto-epitáfio nº 2‖, p. 506). – e o lúcido entendimento do término como fato necessário para o eterno recomeçar, matéria de ―De malas prontas‖: 106 O vivido e o sonhado se misturam agora sem lhe causar espécie. É como se anunciassem um estado de coisas cuja possível iminência não traz susto. Só curiosidade. E um estranho sentimento de justeza (p. 501). Todas essas belas lições vieram ao mundo quando José Paulo Paes já não o habitava mais. Antonio Carlos Secchin vê o livro como um ―testamento poético‖, uma herança que o poeta quis deixar para os que ficam num planeta ainda antipático à sensibilidade (2003, p. 195). Socráticas é o elo triunfante que se junta à poética circular de Paes, iniciada como aluno e consagrada como mestre, um Sócrates (algo que ele certamente não diria, mas nós podemos dizer por ele) de sermão modesto porém vigoroso. Tanto que o último poema do livro é nomeado ―Dúvida‖, e, à maneira dos sábios, prefere a pergunta à assertiva: Não há nada mais triste Do que um cão em guarda Ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? (p. 507). O livro registra que o poema foi escrito no dia oito de outubro de 1998, véspera da morte de José Paulo Paes. Como por toda sua vida ele nunca perdeu de vista a comunicação de sua arte com os homens, podemos responder que sim, que ele está vivo, como vivíssima foi, é e será a sua Poesia. 107 UM POETA NO MEIO DOS CAMINHOS A poesia brasileira do século XX não nasceu na Semana de Arte Moderna, mas a partir desse evento desenhou-se a ideologia mais comum entre poetas e poemas de nosso tempo: a proposição de uma estética surgir sobre o banimento da que lhe fosse anterior, numa hipotética escala evolutiva das artes em que a pior vanguarda nos quis fazer acreditar. Por terem tomado os parnasianos como alvo dileto, e a eles dirigir desmerecimento deletério, os modernistas contribuíram para formar um pensamento generalizante, de acordo com o qual a arte do passado seria sinônimo de arte ultrapassada. Não dizemos que os próprios modernistas pensavam assim (recorde-se da famosa viagem que o grupo ―radical‖ fez a Minas Gerais reverenciando a arte barroca, sem falar da erudição de Manuel Bandeira), mas a mentalidade criada a partir do barulho da inovação bebeu em sua fonte, como diz Silviano Santiago: Estamos acostumados a encarar o modernismo dentro da tradição da ruptura, para usar a expressão de Octavio Paz, ou dentro da estética do make-it-new, de Pound, ou ainda da tradição do novo, de Rosenberg, e assim no infinito. A nossa formação esteve sempre configurada por uma estética da ruptura, da quebra, por uma destruição consciente dos valores do passado.28 Aos nomes e proposições citados pelo ensaísta, acrescento a convulsão destrutiva de dadaístas e futuristas, estes assinalando em seu manifesto de 1909 a postura estatutária das vanguardas que associa todos os valores convencionais a aberrações: Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo [...]. Nós queremos 28 ―A permanência do discurso da tradição no modernismo‖. In: Nas malhas da letra. p. 108. No ensaio, Silviano aponta que a ruptura dos modernistas esteve obviamente longe de ser absoluta. 108 demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias [...]. É preciso destruir a sintaxe.29 Tais são as bases da arena estético-ideológica do século XX. O abandono de valores supostamente arcaicos não nasce aí, mas em nenhuma outra época se viu instituir com tanta força a abolição do antigo. No Brasil, a poesia absorveu esse espírito conflitivo mais do que qualquer outra vertente artística. Ao longo do século passado, houve cinco tendências poéticas consideráveis, estabelecidas como movimento (Modernismo e Concretismo), contramovimento (Geração de 45) ou simplesmente linha estética (como o que se tem convencionado chamar de experimentalismo, talvez numa tentativa de identificar um tipo de linguagem mais frequente hoje em dia). A essas tendências, que desenharam o painel de diversidade posto diante de nós atualmente, soma-se a poesia marginal, mais caracterizado pelo espírito rebelde e anticomercial da tríade contracultura-tropicalismohippie do que por uma proposição estilística, o que não impediu seus adeptos de intervirem na peleja poética nacional. Não há homogeneidade nesses campos de expressão, porém um ponto as assemelha ideologicamente: certa intolerância com as estéticas que se lhe avizinham, ou seja, a crença de que cada fundação corresponde a uma anulação (ou evolução). Seja biográfica ou poeticamente, José Paulo Paes atravessou todos esses caminhos poéticos, absorvendo-os ou não, extraindo de alguns o que possuem de melhor – a poesia como tradução ou invenção do idioma da vida – e rejeitando-lhes os excessos normativos, que nada possuem de artístico. Filhos do mosaico revolucionário da Europa, os modernistas apregoaram a expulsão de estilos antigos sem maiores distinções: aos novos caberia espaço; aos antigos, a condenação do não-lugar, como dizem dois de seus arautos – Menotti Del Picchia: ―Morra Hélade! Organizaremos um zé-pereira canalha para dar uma vaia definitiva e formidável nos deuses do Parnaso!‖30 – e Graça Aranha: Repilo os artifícios do Passado, deslocado nesta feliz magnificência sem 29 30 MARINETTI, F.P. ―Manifesto futurista‖. Apud: Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. p. 91-5. ―Arte moderna‖, idem, p. 290. 109 história, nem antiguidade humana. Destruo toda essa arquitetura de importação literária, grega, rococó, colonial, servil. Destruo toda esta escultura convencional e imbecil, esta pintura mofina. Destruo toda essa literatura acadêmica, romântica, literatura que só é literatura e não vida e energia.31 A poesia de Paes colheu bem algumas das propostas modernistas, convergindo para o piadístico (tão flagrante em sua escrita) – a bom entendedor meia palavra: bos- (―Cambronniana‖, p. 312) – e para a não menos flagrante economia discursiva, chegando a pontos culminantes da reinvenção do texto poético: ^ ´ ! (―O silêncio é de ouro!‖, p. 302). Mesmo sendo admirador confesso dos modernistas – em especial de Oswald de Andrade e de Manuel Bandeira –, Paes não se trancou no beco do humor nem nas cores do nacionalismo, também caro aos modernos. Toda a sua obra é marcada por textos em que se valorizam elementos tradicionais, sejam especificamente literários ou não. Quando despontava para a literatura, o poeta se encontrava em meio à Geração de 45, antipática aos transgressores de 22 e afeiçoada à recuperação da poesia ―aurática‖, como indica Domingos Carvalho da Silva em ―Há uma nova poesia no Brasil‖, de 1948: Não se trata de uma questão opinativa, mas de um fato verificável objetivamente. O modernismo foi ultrapassado. Cabe portanto aos poetas novos prosseguir o rumo que se anuncia, sem transigência com o passadismo e sem compromissos com a Semana de Arte Moderna.32 A ocasião poderia gerar um impasse, mas José Paulo não vê nenhuma incoerência em acender velas a neogregos e paulistanos. Já poeta feito, ele reverencia, 31 32 ―O espírito moderno‖, idem, p. 324. Apud Contramargem. p. 104. 110 em ―Prosa para Miramar‖, a figura de Oswald de Andrade, ao mesmo tempo em que se reconhece filiado aos de 45: O sorriso, os dentes de antropófago. A língua afiada nos ridículos de gregos e troianos. Não de pobres interioranos como eu, recruta da geração de 45 (inofensiva, apesar do nome de calibre de arma de fogo) [...] Para mim ele era o velho piaga (meninos eu vi) de uma tribo definitivamente morta mas cujos ossos haveremos de carregar conosco muito tempo queiram ou não os que só têm medo de suas próprias sombras (p. 382). E, num de seus primeiros passos, o poeta reúne na forma clássica nomes da empreitada anticlássica: São meus todos os versos já cantados: A flor, a rua, as músicas da infância, O líquido momento e os azulados Horizontes perdidos na distância. Intacto me revejo nos mil lados De um só poema. Nas lâminas da estância Circulam a memória e a substância De palavras, de gestos isolados. São meus também, os líricos sapatos De Rimbaud, e no fundo dos meus atos Canta a doçura triste de Bandeira. Drummond me empresta sempre o seu bigode, Com Neruda, meu pobre verso explode E as borboletas dançam na algibeira (―O aluno‖, p. 31). Aceitar sugestões sem se submeter a diretrizes. Foi com esse espírito que José Paulo Paes também se relacionou com o Concretismo, vanguarda brasileira de caráter 111 ambíguo, visto ser a de realizações mais radicais (chegando à poesia sem palavras) e a de maior penetração no ambiente acadêmico, uma vez que seus principais membros – eruditos – atuaram substantivamente nas áreas da teoria e da tradução. Ao marcarem posição, os concretos foram barulhentos. Num quase ―contra tudo e contra todos‖ do século XX brasileiro (exceção feita a Oswald, a João Cabral de Melo Neto e a uns poucos mais), as soberbas declarações do movimento sugerem ser esse um patamar maior da arte nacional, cujos objetivos se pautam ―pela liquidação da trôpega tradição expressionista da arte moderna brasileira (a abstrata inclusive)‖.33 O estampido do ciclo histórico do verso não perturbou os ouvidos de Paes, tanto que em 1954 e em 1958 ele compôs livros de alta voltagem política, preocupando-se mais com poesia do que com celeumas poéticas. Não sei palavras dúbias. Meu sermão Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. Com duas mãos fraternas, cumplicio A ilha prometida à proa do navio. A posse é-me aventura sem sentido. Só compreendo o pão se dividido. Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. Aceito meu inferno, mas falo do meu céu (―Poética‖, p. 121). A poesia é incansável em sua vocação para nos reeducar, principalmente por alterar as ―sólidas‖ noções frágeis em que nos apoiamos. No contexto envolvendo José Paulo e os concretistas, o poeta fez o que eles fizeram, sem fazer o que eles diziam. Foi assim que estampou em seus livros marcas de problematização do poder mimético do discurso convencional – águamolepedradura águaáolepedradura águaáglepedradura águaáguepedradura águaáguapedradura águaáguaáedradura 33 Teoria da poesia concreta, p. 89. 112 águaáguaágdradura águaáguaáguradura águaáguaáguaadura águaáguaáguaádura águaáguaáguaágura águaáguaáguaágura águaáguaáguaáguaa águaáguaáguaáguaá (―Elegia holandesa‖, 308). –, até chegar à a extrapolação da estrutura do discurso comum (vista, por exemplo, em ―sick transit‖, p. 189): À postura rígida e erudita do Concretismo opôs-se a poesia marginal, tendência mais despojada esteticamente e, num primeiro momento, anticomercial e antiacadêmica, assim definida por Heloisa Buarque de Hollanda: ―Merece atenção a retomada da contribuição mais rica do modernismo brasileiro, ou seja, a incorporação da poética do coloquial como fator de inovação e ruptura com o discurso nobre acadêmico‖.34 Os marginais não chegaram a constituir um movimento de fato, com manifestos ou eventos inauguradores. Mas nem por isso se abstiveram do embate comum aos poetas da modernidade nacional, como ilustram um poema de Cacaso – Estilos de época 34 26 poetas hoje, p. 11. 113 Havia os irmãos Concretos H. e A. consaguíneos e por afinidade D.P., um trio bem informado: dado é a palavra dado E foi assim que a poesia deu lugar à tautologia (e ao elogio à coisa dada) em sutil lance de dados: se o triângulo é concreto já sabemos: tem três lados. – e outro de Jorge Vanderley, que não se inclui entre os marginais, mas foi contemporâneo dos mesmos: um adepto da poesia concreta critica o crítico a pontapés e socos e dentadas – tudo sólido – dizendo da próxima vez vá criticar um poeta abstrato 35 É sempre importante que o crítico se previna do comentário mais apressado, estimulado por suposta obviedade. Foi justamente em livros lançados entre fins da década de 60 e a de 80 que José Paulo Paes passou a assinar seu nome com as tintas da comicidade, mas não se pode ver nisso um poeta desfigurado, desprovido de face por tomar parte das várias máscaras fornecidas pelas estéticas que lhe foram contemporâneas. Até mesmo porque o âmbito da poesia marginal restringiu-se praticamente ao Rio de Janeiro, e também porque esses mesmos livros (de Paes) são os que trazem maior contribuição dos concretistas, cujo movimento tem raízes em São Paulo. Nessas páginas há textos herdeiros do poema-piada, como ao gosto dos marginais – – a chuva me deixa triste... – a mim me deixa molhado (―Falso diálogo entre Pessoa e Caeiro‖, p. 213). 35 Ambos os poemas foram extraídos de Forças e formas, p. 44-5. 114 – e outros emblematicamente pró-concretos: o concretismo está morto viva a poesia concreta (―Sucessão‖, p. 291). A atual face da poesia brasileira é, paradoxalmente, tão perceptível quanto inclassificável, a ponto de unir na mesma ideia críticos de perspectivas bastante diversas, como Célia Pedrosa – ―O tempo presente, o nosso tempo, está longe de poder ser apreendido por uma única visada totalizante‖36 – e Alexei Bueno – ―O julgamento de qualquer arte sem distanciamento temporal é das ações mais problemáticas‖.37 A crítica em geral vê nela pluralidade, mas tal diversidade é bastante relativa, visto que o discurso dos próprios poetas tende a certa homogeneidade, pois ao falarem sobre suas obras, não raro se valem de termos como ―ruptura‖, ―transgressão‖, ―trabalho com a linguagem‖ e, com maior força, ―experimentalismo‖. Em ―Caminhos recentes da poesia brasileira‖, Antonio Carlos Secchin diz que a escrita de hoje ainda é muito tributária do Concretismo (1996, p. 93). A opinião de Secchin se confirma por haver entre os poetas hodiernos grande exploração do discurso, não especificamente isolando a palavra em sua autonomia corporal e semântica, como ao gosto concreto, mas pelo desapego à representação ou à expressão de conteúdo. Ademais, João Cabral de Melo Neto é uma referência tanto para os que se estabelecem hoje quanto para os que despontavam nos anos 50, sob o manto do antilirismo proposto pelo pernambucano. Ou seja, a poesia atual tem se dedicado, assim como as artes plásticas e visuais, à metalinguagem, preferindo o viés da contestação teórica e da desconstrução de verdades ao diálogo mais amplo com o receptor. Ela tem sido, no geral, uma poesia para especialistas, como observa Eric Hobsbawn: ―Mais perigosamente, a demanda acadêmica estimulou a produção de uma literatura de criação que se prestava à dissecação em seminários, e portanto se beneficiava da complexidade, se não incompreensibilidade‖.38 36 ―Considerações anacrônicas: lirismo, subjetividade, resistência‖. p. 10. Uma história da poesia brasielira, p. 396. 38 ―Morre a vanguarda‖, p. 492. 37 115 Muito do que se faz na poesia contemporânea do Brasil resulta de fatos ocorridos noutros espaços e tempos. Na metade do século, quando já era grande a vontade de transgredir parâmetros, a transferência da capital cultural do Ocidente de Paris para Nova Iorque foi decisiva para que o abstracionismo, numa empresa mais mercadológica que estética, fosse eleito a maior das novidades na arte mundial. A partir de um feito comercial, como aponta Giulio Carlo Argan em Arte Moderna – ―A vanguarda, que na Europa andava contra a corrente, nos Estados Unidos segue pari passu com o avanço tecnológico‖ (1992, p. 525) –, os americanos quiseram ingressar na história da arte ocidental com uma marca própria, e essa foi o expressionismo abstrato, tomada quase que imediatamente como ferramenta de propaganda internacional do americanismo durante a Guerra Fria. É o que revela Frances Stornor Saunders, em Quem pagou a conta?: ―Sendo não figurativo e politicamente silencioso, ele [o expressionismo abstrato] era a própria antítese do realismo socialista [...]. Nas palavras de seus apologistas, era uma intervenção explicitamente norte-americana no cânone modernista‖ (2008, p. 277. Grifo da autora). Torna-se difícil não acreditar numa nova construção do gosto (ao padrão político dos americanos), num modismo propagado como sinônimo de modernidade, rimando com liberdade (ou, nas entrelinhas, com normatividade), e que logrou muitos adeptos entre os nossos. A crença na sucessão gradativa das rupturas ganhava um novo episódio, e todo esse bolo ―antitradição‖ fermentou-se por anos, até chegar ao ponto de a arte prescindir de si própria. Ao fazer a cobertura jornalística da 27ª Bienal de São Paulo para o ―Segundo Caderno‖ do jornal O Globo, Luiz Camillo Osorio disse, sobre algumas obras, que ―não surgiram com a intenção de ser arte, nem tampouco passaram a ser pelo fato de estarem em uma bienal – ser ou não ser arte é o que menos interessa‖.39 Pode-se compreender que o crítico tenha absorvido em seu texto o ponto de vista dos artistas, que não necessariamente será o seu; o que não parece de fácil entendimento é o fato de num evento consagrado à exposição e à apreciação de obras de arte, a especificidade artística destas (o que dá a elas, ao menos em tese, o ingresso para a ocasião) ser algo de menor importância, revelando um raciocínio já desgastado e de efeito monótono e ineficaz, visto já serem centenários os movimentos de vanguarda. 39 ―Sem amarras‖. In: O Globo. Rio de Janeiro, 18 de outubro de 2006. Grifo meu. 116 José Paulo Paes esteve atento a esses fenômenos, e, em Socráticas, avaliou-os com irreverência – – Deus está morto, tudo é permitido! – Mas que chatice! (―Os filhos de Nietzsche‖, p. 466). – e com seriedade: Nada envelhece tão depressa quanto a novidade. Só o que já nasceu velho é que não envelhece (―Aporia da vanguarda‖, p. 473). A poética de Paes caminha pelo labirinto que se tornou a arte ocidental do século XX numa contramão autêntica, sem se deixar levar pela novidade oca, reivindicada quando a transgressão não faz sentido. O poeta nega a vocação do século para a destruição e para o separatismo, efetivando em sua escrita uma aglutinação ímpar em nossa literatura: ―Eu procurei dentro das orientações típicas de cada geração, de cada movimento literário, achar o meu próprio caminho‖.40 O caminho escolhido buscou no somatório do que havia de mais clássico e de mais moderno respostas às questões da arte e às questões humanas, em especial aos conflitos que adoecem o Ocidente. A poesia de Paes é fiel à vida na medida em que não nega seus movimentos para privilegiar palavras de ordem separatistas do que é uno em sua essência, como percebe Gerd Bornheim: Já os gregos perceberam que conceitos opostos costumam atrair-se, que eles formam de algum modo uma unidade, ainda que conflituada; mas os opostos se pertencem; e como que nascem de uma mesma raiz. Eles se reclamam, talvez para se destruírem. Ou avançam em sua oposição, e chegam a construir uma nova e harmoniosa unidade. Assim, toda realidade seria entendida a partir da oposição de contrários que, mesmo nunca 40 Biografia e criação literária. Vol.2: entrevistas com escritores de São Paulo. Niterói: NitPress, 2008. p.55-68. 117 definitivamente superáveis, seriam instauradores da dinamicidade do real.41 Partindo dessa relação harmoniosa com o passado, o poeta, já consagrado em Prosas seguidas de odes mínimas, manifesta também o desejo de se sintonizar aos vindouros, numa resposta direta aos que declaram a morte de todas as coisas: A pólvora já tinha sido inventada, a Bastilha posta abaixo e o czar fuzilado quando eu nasci. Embora não me restasse mais nada por fazer, cultivei ciosamente a minha miopia para poder investir contra moinhos de vento. Eles até que foram simpáticos comigo e os de minha geração. Fingiam de gigantes, davam berros horríveis só para nos animar a atacá-los. Faz muito tempo que os sei meros moinhos. Por isso os derrubei e construí em seu lugar uma nova Bastilha. Vou ver se escondo agora a fórmula da pólvora e arranjo um outro czar para o trono. Quero que meus filhos comecem bem a vida (―Sobre o fim da História‖, p. 387). Nem modernista, nem de 45, nem concreto, nem marginal, nem experimentalista. José Paulo Paes foi poeta: de muitos progenitores, sem ser epígono; desejando filhos, sem querer-se pai. Sua poesia interessou-se bem mais, desde o seu surgimento, pelo que interessa à grande arte: intervir no homem, no mundo, na vida. No tempo da indústria da inversão de valores, marcado pelos infartos e pelas depressões, a poesia de Paes opõe-se aos obstáculos da sensibilidade, como também sempre se faz presente para celebrar os possíveis e imprescindíveis sorrisos da vida. É por isso que deixamos a encargo dele a consideração triunfal, a fim de que a despedida tenha sabor de permanência: O funil da ampulheta apressa, retardando-a, a queda da areia. Nisso imita o jogo 41 ―O conceito de tradição‖, p. 15. 118 manhoso de certos momentos que se vão embora quando mais queríamos que ficassem (―Elogio da memória‖, p. 482). 119 REFERÊNCIAS De José Paulo Paes PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ______. Quem, eu? Um poeta como outro qualquer. 5ª ed. São Paulo: Atual, 1996. Sobre José Paulo Paes ARRIGUCCI JR., Davi. ―Agora é tudo história‖. In: PAES, José Paulo. Melhores poemas. 5ª ed. São Paulo: Global, 2003. ASCHER, Nelson. ―Socráticas de Paes traz altos e baixos do autor‖. In: Folha de São Paulo, 21 de abril de 2001. p. E2. BIELLA, João Carlos. Um ironismo como outro qualquer: a ironia na poesia de José Paulo Paes. São Paulo: UNESP, 2008. BOSI, Alfredo. ―Apresentação‖. In: PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. ______. ―O livro do alquimista‖. In: Céu, inferno. 2ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 2003. 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