1. Apresentação
Este Projeto de Dissertação de Mestrado dá continuidade ao trabalho
desenvolvido durante o estágio supervisionado em psicologia clínica Abordagem Psicodinâmica, na Clínica de Psicologia da Universidade Federal
do Pará. O estágio é requisito para a obtenção do título de Psicólogo, no curso
de Formação em Psicologia da UFPA. Estudar-se-á fragmentos de um caso
clínico, fundamentado em terapia de orientação analítica, sob supervisão. Dois
estágios curriculares, no Hospital Universitário, contribuíram também para o
desenvolvimento desse trabalho, em particular, o de atendimento a pacientes
portadores de SIDA, no qual surgiram os mais variados sintomas e que
oportunizaram a busca de uma compreensão mais profunda a respeito do
funcionamento psíquico humano.
Nesta pesquisa, pretendemos trabalhar com a problemática da
identificação na histeria de angústia, partindo de vários questionamentos
referentes à dinâmica de funcionamento psíquico nessa psicopatologia. Dentre
as questões apontadas ao longo deste trabalho, destacamos algumas que
desejamos aprofundar como objeto de investigação no decorrer do Mestrado,
como o papel das identificações e das fantasias na formação da histeria,
enquanto psicopatologia que comparece na clínica através do sofrimento
profundo. Que força pulsional é essa que suscitava na paciente uma fonte
inesgotável de (des)prazer, insatisfação, desânimo, desmotivação buscando
alcançar a realização de seus desejos? Que conflitos intrapsíquicos foram
vivenciados por Violeta que possam ter contribuído para a eclosão de seus
sintomas? Por que Violeta não concluía nada que começava?
1
Desejamos, portanto, através de um estudo teórico psicanaliticamente
orientado, investigar a suposição de que frente à Violeta, paciente cujo
encontro resultou em questões obscuras em nossas lembranças, estávamos
diante de um quadro de histeria no qual a mesma apresentava conflitos
identificatórios com as figuras da avó, da mãe e do pai. Prosseguir com um
olhar voltado para as noções de identificação, fantasia, conflito psíquico,
recalque e formação de sintomas, que nomearam o que emergiu na reflexão
sobre o atendimento desta paciente.
A importância da histeria no contexto psicanalítico e na obra de Freud
deve-se ao fato de que através de encontros terapêuticos com suas pacientes foi
fundada a psicanálise, através da escuta, dando voz a tantas e tantas histórias
que foram os primeiros acordes da chamada metapsicologia freudiana. Sem
dúvida alguma que se fazendo valer dos seus dons de exímio contador de
histórias, bem como do fato de ser um pensador aplicado e apaixonado sobre a
natureza humana, tudo isso impulsionou grandemente a evolução de suas idéias
e de seus pensamentos.
No encontro entre analista e analisando haverá um investimento no
sentido de identificar os sintomas e as possíveis causas de eclosão dessas
formações, diante dos fatos marcantes na vida do paciente que precipitaram o
aparecimento desses fenômenos. Enfim, desejamos refletir sobre o processo de
identificação na neurose de angústia, enquanto fenômeno primordial na
constituição dessa neurose.
Afirma Lucien Israel na obra “A histérica, o sexo e o médico”:
“A neurose é, portanto, uma produção do inconsciente, uma ramificação
do desejo. Algumas neuroses se traduzem por falas, ou por um sintoma
2
expresso por fala. Este é o caso das obsessões e fobias. A histeria, em
contrapartida, transforma a fala e a angústia em manifestações somáticas.”
(Israel, 1977, p.31)
A experiência vivenciada no atendimento à Violeta foi traduzida na
demanda da paciente que ressoava como um pedido angustiado de poder
minimizar os sintomas que a faziam sofrer e se apresentavam nas mais variadas
formas durante o tempo de atendimento clínico.
3
2.Introdução à concepção freudiana de histeria
Nesta etapa, pretendemos fazer uma breve incursão na literatura
psicanalítica sobre a histeria, na tentativa de compreender melhor a concepção
freudiana e, assim, poder problematizar as questões que em nós foram
suscitadas no atendimento de Violeta, cujo relato clínico segue adiante.
Como sabemos, com os “Estudos sobre a Histeria”, Freud vai
fundamentar os pilares da Psicanálise. A histeria, podemos dizer, é o começo
de toda a trajetória freudiana na teoria psicanalítica.
A palavra histeria tem sua origem na Grécia Antiga, e desde aquele
período possui uma íntima relação com o caráter sexual e o desejo. No século
XIX, muitos estudiosos se interessaram em estudar essa patologia. Em Paris,
Charcot, nos seus estudos sobre o fenômeno, irá formular uma “concepção da
histeria como doença do simulacro” (Berlinck, 1997, p. 22), que permitirá um
progressivo
reconhecimento
do
aspecto
psicológico
presente
nessa
psicopatologia:
“A influência de Charcot em seus trabalhos é reconhecida por Freud. No
entanto, não é a imitação dos sintomas orgânicos que importa a Freud, mas
o modo pelo qual tais sintomas se estruturavam e ocultam suas causas” .
(Ibidem)
Pierre Janet, que também foi discípulo de Charcot, concebia a histeria
como ocasionada por uma “alteração degenerativa do sistema nervoso,
4
manifestada através da fraqueza congênita do poder de síntese psíquica”
(Freud, 1909, p.23). Freud discorda deste ponto de vista ressaltando que ao
lado da fraqueza congênita da paciente, existiam também outros fatores que
revelavam que a mesma mantinha sua capacidade intelectual. Posteriormente,
ao se dar conta que não conseguia hipnotizar alguns doentes, Freud abandona
a hipnose ficando apenas com a utilização das técnicas da livre associação e
interpretação da fala do paciente durante o processo de análise. Freud
centralizava seu trabalho clínico deixando que o paciente falasse daquilo que
nunca dissera a ninguém, nem a si mesmo, assegurando com isso a relação
entre as cenas traumáticas recalcadas e seus resquícios - que seriam os
sintomas. Portanto, durante o processo de análise é oportunizada a emergência
das cenas traumáticas recalcadas e seus elos com os sintomas.
As cenas traumáticas, reproduzidas no relato do paciente, provocavam
neste uma energia afetiva que, até então inibida, ali se manifestava
intensamente quanto mais próxima de sua origem, para desaparecer quando
eram esclarecidas. Também, observou que esses relatos só surtiam o efeito
esperado quando havia manifestação afetiva dessas emoções, determinando
assim a cura da doença. Sobre as emoções aponta o pai da Psicanálise:
“Em parte ficavam estas com carga contínua da vida psíquica e fonte
permanente de excitação para a mesma, em parte se desviavam para
insólitas inervações e inibições somáticas, que se apresentavam como os
sintomas físicos do caso”. (Freud, 1909, p. 20)
5
e ele propõe o nome de “conversão histérica” para tal mecanismo. A conversão
seria a transposição de uma excitação puramente psíquica para o corpo, assim
permanecendo conservada. Foi pela primeira vez mencionada por Freud em
seu trabalho denominado “As neuropsicoses de defesa” (Freud, 1894, p.57).
Para ele, o fator característico da histeria não seria a divisão da consciência,
mas a capacidade de conversão, daí deduzir-se que esta compunha parte da
predisposição para a doença.
Sobre o sofrimento do sintoma de conversão, Nasio aponta-o como
equivalente de uma “satisfação masturbatória”. (Nasio, 1991, p.30).
Como aprendemos com Freud, o sentimento que direciona a menina ao
pai não é angústia face ao temor da castração, e sim o ressentimento pela
constatação de um fato consumado – saber-se castrada e que é a repetição de
um sentimento já vivenciado por ocasião da separação de seu primeiro objeto
de amor - a mãe.
Freud revela, no texto “Fragmentos de uma análise de um caso de
histeria”, que o trauma psíquico do paciente é a condição indispensável para a
origem do estado patológico histérico, mas enfatiza que “o trauma que sabemos
ter ocorrido na vida do paciente não basta para esclarecer a especificidade do
sintoma, para determiná-lo” (Freud, 1905, p.33). Constatando que:
“Já constatamos que, com bastante regularidade um sintoma corresponde
simultaneamente a diversos significados; acrescentemos agora que também
pode expressar diversos significados sucessivamente. No decorrer dos
anos, um sintoma pode alterar um de seus significados ou seu sentido
principal ou então o papel principal, pode passar de um significado para
outro” (Freud, 1905, p.56).
6
Um sintoma pode ter as mais diversas formas para ocultar seu
verdadeiro sentido.
Nasio, questionando sobre a atualidade do tema histeria, desde as
primeiras formulações elaboradas por Freud até a atualidade, vai falar na
modificação introduzida por este, em 1900, sobre a origem da histeria
apontando para tanto a fantasia inconsciente, como sua sede e não mais uma
idéia. Afirma ele:
“Para Freud - e para nós, atualmente - o termo trauma já não se referia
essencialmente à idéia de um evento externo, mas designava um
acontecimento psíquico carregado de afeto, um verdadeiro micro-trauma
local, centrado numa região erógena do corpo e consistindo na ficção de
uma cena traumática, a que a psicanálise deu o nome de fantasia.
Naturalmente “ o fato da fantasia ser um trauma não quer dizer que todos
os traumas sejam fantasias”. (1991, p.38)
Nasio conclui seu raciocínio afirmando que o afeto originado de trauma
real, recalcado ou não, ficará fixado na vida fantasística da
criança, e
respondendo à questão das fantasias enquanto defesas encontradas pelo ego,
sob ameaça de aniquilamento frente ao poder das pulsões sexuais e a sua
descarga, ele irá salientar que “no núcleo da fantasia que é o lugar erógeno,
jorra uma sexualidade excessiva, não genital (auto-erótica), automaticamente
submetida à pressão do recalcamento”. (Nasio, 1991, p.38)
Falar em sexualidade infantil é dizer que esta é fonte inconsciente de
sofrimento, por ser desmesurada em relação à capacidade tanto física quanto
emocional da criança em lidar com a carga libidinal que aflora em seu corpo.
7
Este corpo erógeno passa a ser a sede do desejo e a possibilidade de obter a
realização total de seus anseios, passa a ser insuportável para a criança, e por
isso a invenção de cenas e fábulas que servem como proteção dessas fantasias ,
sem que o sujeito se dê conta (por isso inconsciente).
A fantasia é utilizada pela criança como recurso para resguardar o ego
do temor de desintegração diante da intensidade das pulsões sexuais a si
impostas pelo id. Nasio ensina que “a angústia é o nome que o desejo e o gozo
assumem ao serem inscritos no âmbito da fantasia”. (Nasio, 1991, p.39)
Freud em “Fragmento da análise de um caso de histeria” observa:
“Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma
oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderantes
ou exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir
sintomas somáticos. Esclarecer o mecanismo dessa inversão de afetos é
uma das tarefas mais importantes e, ao mesmo tempo, uma das mais
difíceis da psicologia das neuroses”. (Freud, 1905, p.35)
Assim, “um sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação
pulsional que permaneceu em estado jacente; é uma conseqüência do processo
de recalque” (Freud, 1926, p.112). Esta se processa a partir de quando o ego se
recusa a associar-se a um investimento pulsional que foi provocado no id. Por
meio do recalque, a idéia é mantida afastada da consciência. O medo infantil
seria um representante disfarçado ou distorcido da idéia recalcada e faz parte
do desenvolvimento de uma criança.
É sempre a angústia, pela qual passa o ego, que põe em movimento o
recalque. A angústia é disparada como sinal frente às ameaças ao ego. É só
8
recordarmos sobre o medo da criança de estar só e o medo de estranhos, já
destacados por Freud no capítulo III dos “Três Ensaios sobre a Teoria da
Sexualidade” de 1905, e posteriormente na Conferência 32, das “Novas
Conferências Introdutórias sobre Psicanálise” de 1932, que apontam que a
angústia origina-se na mais tenra idade.
O desejo vem se presentificar no sintoma, uma vez que este foi posto de
lado, desalojado pelo recalque. Através do sintoma o desejo vai ser
reconhecido, assim como também pode desaparecer e voltar com uma nova
roupagem, daí Freud afirmar que a significação é diversa, mas o sentido é um
só.
Sobre a histeria assim se expressou Freud em “Análise de um caso de
fobia em um menino de cinco anos”:
“Uma característica essencial das histerias de angústia é muito facilmente
apontada. Uma histeria de angústia tende a desenvolver-se mais e mais
para uma ‘fobia’. No final o paciente pode ter-se livrado de toda a sua
angústia, mas somente ao preço de sujeitar-se a todos os tipos de inibições
e restrições.
(...) Nada lhe resta, a não ser cortar o acesso a todo possível motivo que
possa levar ao desenvolvimento de angústia, erigindo barreiras mentais da
natureza de precauções, inibições ou proibições; e são essas estruturas
protetoras que aparecem para nós sob a forma de fobias e que constituem
aos nossos olhos a essência da doença” . (Freud, 1909, p. 123-124)
Essa problemática na histeria de angústia nos remete ao fato que a
paciente tinha um sintoma que se repetia na busca incessante de empregos e no
9
abandono destes, o que lhe acarretava uma permanente insatisfação consigo
mesma. Além disso, Violeta tinha consigo um medo imenso de tudo que a
colocava diante da possibilidade de chegar ao fim na busca de seus objetivos,
tudo isso a entristecia e incomodava os que a cercavam. Como se essa inibição
tivesse a finalidade de impedir um desejo posto de lado, evitando com isso o
ego ameaçado pela angústia sem fim.
Nasio nos ensina que: “o histérico é fundamentalmente um ser de medo
que, para atenuar sua angústia, não encontrou outro recurso senão manter
incessantemente, em suas fantasias e em sua vida, o doloroso estado de
insatisfação”. (Nasio, 1991, p.15). A angústia ocasionaria esse medo que
impossibilita o desejo, porquanto paralisa o sujeito, no entanto, reafirma o
descontentamento histérico.
Freud destacara o sintoma como “o substituto e derivativo do desejo
recalcado, executa o papel do segundo continuamente renovando as exigências
de satisfação do id e, assim obrigando o ego a dar o sinal de desprazer e a
colocar-se em uma posição de defesa”. (Freud, 1909, p.122)
A partir de várias questões que são levantadas no texto “Fragmento de
uma análise de um caso de histeria”, o Caso Dora), tais como: a relação
amorosa de Dora com o pai, com a Sra. K e com a mãe, os sintomas, os ganhos
com a doença, bem como as questões de ordem sexuais. Sobre o novo
procedimento de atendimento terapêutico que descobria progressivamente,
Freud assim vai refletir:
“...omiti por completo a técnica, que nada tem de óbvia e unicamente
através da qual se pode extrair da matéria-prima das associações do
enfermo o metal puro dos valiosos pensamentos inconscientes”. (Freud,
1905, p.107)
10
Daí em diante, o trabalho de Freud passa a ser conduzido pela escuta do
paciente, e a partir dessa escuta vai fundamentar a teoria psicanalítica. Partindo
do estudo contínuo das psicopatologias, destacando o papel preponderante da
sexualidade infantil, Freud vai dar um novo estatuto ao tratamento não só da
histeria como de todo psiquismo humano.
No atendimento de Violeta, supomos que a paciente apresentou
inúmeros sinais de intensa angústia, resultantes de conflitos com as figuras
parentais, observados quando refere à figura paterna como distante dos
familiares; quando tece críticas à mãe por assumir uma atitude passiva diante
da ‘outra’, ao mesmo tempo que o pai é colocado como um figura de
admiração. A luta entre as duas mulheres pelo pai, sem que nenhuma delas
procure resolver a problemática conjugal, evidentemente, incomodava a
paciente e foi revelada em diversas sessões. Entretanto, o que também se
depreende é que a situação dos pais incomodava tão somente à paciente.
Pensamos que Violeta não se dá conta dos seus limites, daí achar que
ninguém se incomodava com o fato de o pai possuir duas mulheres, pois
quando revelou esse detalhe, a paciente parecia também estar conformada com
o destino da sua mãe, uma vez que todos (inclusive ela) já estavam
acostumados àquela vida.
Esse episódio reporta-nos ao trabalho “Fragmento de uma análise de
um caso de histeria”, no qual Dora, ao pedir ao pai que rompa com o Sr. e a
Sra. K, em virtude do incidente entre o marido da Sra. K e ela. Isso parece ter
feito com que associássemos aos relatos, nos quais Violeta diz que seus irmãos
também deveriam fazer alguma coisa para resolver o casamento fracassado dos
pais e em seguida revela que gostaria de saber dos negócios paternos. Mais
11
uma intromissão que nos parece acentuar a irresolução edípica ou quem sabe
expresse mais um conflito de Violeta.
Freud acentua que “o complexo de Édipo revela sua importância como
fenômeno central do período sexual da primeira infância” (Freud, 1924, p.217),
complementando esta formulação irá dizer que: “se o ego, na realidade, não
conseguiu muito mais do que um recalque do complexo, este persiste em
estado inconsciente no id e manifestará mais tarde seu efeito patogênico. A
resolução ou não desse conflito irá delimitar a fronteira tênue entre o normal e
o patológico”. (Ibidem, p.221)
Sabemos que a normalidade/anormalidade é um tema muito complexo e
que envolve uma série de questões que estão além do Édipo.
O Édipo, na menina, desenrola-se de maneira mais complexa do que no
menino. A menina além de se voltar para o sexo oposto em virtude da mãe
não poder dar-lhe um pênis, vê-se obrigada a abandonar seu primeiro objeto
amoroso. Por não possuir tal atributo, a filha tem sentimentos ambíguos de
amor e ódio relacionados à figura materna. A menina passa a se voltar ao
amor paterno muito mais por uma questão de rancor despertado pela mãe
diante da impossibilidade de não possuir o falo que tanto deseja para si. É essa
falta no outro que a menina tem que se defrontar. Nas palavras de Serge
André “o desejo no homem é tanto insatisfeito quanto é fundamentalmente
histérico” (André,1999, p.138), daí a histérica entregar-se a uma simbolização
desenfreada que incita a excitação psíquica nessa psicopatologia.
Aprendemos com Freud, que na fase que ele chamou de pré-história
do Édipo feminino, a menina estava inteiramente ligada à figura materna e que
essa ligação pode ser reatada quando do fracasso do complexo. O pai é
12
impotente no sentido de não poder dar o apoio que a menina necessita para
assentar uma identidade feminina.
A mãe é o primeiro objeto de amor tanto do menino como da menina. A
castração se impõe ao menino como o fim do Complexo de Édipo. Já na
menina, ela introduz o Édipo, uma vez que a angústia de castração não é
universal, pois é sentida apenas pelo menino. A seqüência temporal é inversa.
Para a menina, a mãe também se coloca como primeiro objeto de amor, daí a
dificuldade na troca desse objeto amoroso. Essa troca de objeto vai se dar num
clima de rivalidade e inveja entre mãe/filha. A menina não sofre da angústia
pela castração por já se perceber castrada, por saber que nunca teve. Daí dizerse que as conseqüências da castração no menino é o temor, a angústia diante da
possibilidade de se ver desprovido do seu mais honroso símbolo de poder,
enquanto à menina cabe a inveja deste membro, justamente por não possuí-lo.
Na
Conferência
19,
das
“Conferências
Introdutórias
sobre
Psicanálise”, Freud referindo-se ao processo de recalque irá esclarecer:
“consideramos o recalque responsável pela angústia na histeria e em outras
neuroses” (Freud, 1916-17, p.105), e separando o que acontece com a idéia
que tem de ser recalcada, daquilo que acontece à quota de libido vinculada a
ela, prossegue:
“É a idéia que submetida ao recalque, e que pode ser deformada a ponto de
ficar irreconhecível; sua quota de afeto, porém é regularmente
transformada em angústia - e isto é assim, qualquer que possa ser a
natureza do afeto, seja ele de agressividade ou de amor”. (Freud, 1916-17,
p.105)
13
Ressalta ainda que “a geração de angústia é o que surgiu primeiro, e a
formação dos sintomas, o que veio depois”, como se os sintomas fossem
criados a fim de evitar a irrupção do estado de angústia. Freud nos diz que o
sintoma se forma para evitar um estado de angústia, provocado pelo conflito.
(Freud, 1933, pp. 105-106). Entretanto, sabemos também que ao mesmo tempo
expressam a trama do conflito edípico.
A insegurança, o medo, o abandono de empregos, a não conclusão dos
empreendimentos e a eterna insatisfação, em Violeta, parecem significar os
sintomas se repetindo no discurso neurótico e que a fazem sofrer. Não nos
esqueçamos que essas queixas trouxeram Violeta à clínica. A escuta clínica
esteve voltada fundamentalmente para o sofrimento da paciente e qual seria a
origem desses conflitos que a atormentavam e que, contudo pareciam
repercutir como um certo prazer.
Esse modo de defesa que visa a amenizar o sofrimento, potencializa-se
no sintoma. Assim, podemos dizer que se dá a defesa do ego na neurose, em
suas formas diversas. Berlinck (1997, p. 29) ressalta que “uma das perspectivas
que a teoria psicanalítica abre para a sua clínica é o tratamento daquilo que se
repete na fala do sujeito”. (Berlinck,1997, p. 29)
Quanto aos personagens que Violeta se utiliza, apesar de sabermos que
a histérica recorre à teatralidade algumas vezes para expressar seu
descontentamento e insatisfação, eles evocam em nós questionamentos quanto
a sua veracidade ou se seriam apenas fruto de suas fantasias ou delírios
histéricos. Em Violeta, o sintoma retorna através do fracasso do recalque nos
freqüentes abandonos de empregos, não concluindo nada que começa, não se
permitindo o gozo total, característica fundamentalmente neurótica. Entretanto,
14
nos fundamentamos no fato dessa realidade fazer parte do psiquismo de
Violeta e estarem traduzidas na dor que estes sintomas produziam em sua vida.
Como Berlinck salienta:
“Ao psicanalista não cabe a determinação da veracidade do discurso do
sujeito”. Para ele ao “psicanalista cabe indagar sobre o estatuto
psicopatológico da fala do sujeito, ou seja, sobre os caminhos de
sofrimento que a libido percorre em direção à sua meta”.(Berlinck (1997,
p.40)
Reconhecemos uma contratransferência, no fato de as revelações de
Violeta terem evocado em nós uma questão quanto à veracidade ou não de seu
discurso. Nos questionávamos quanto a um possível prazer em revelar-nos que
mais uma vez havia falhado. Em suas queixas, dizia - nos que embora tentasse,
não conseguia ultrapassar essa impossibilidade.
Ferenczi já havia apontado para a importância da transferência durante
o processo terapêutico, em seus escritos de 1909, ressaltando na técnica o
caráter transferencial das relações neuróticas. No processo analítico, o paciente
através da introjeção toma para si como objeto, a figura do analista e lhe
transfere seus afetos recalcados.
Berlinck, em seu trabalho intitulado “A Contratransferência contra a
Transferência” observa:
“a dupla sedução que decorre da neurose transferencial manifestada no
processo analítico. Por um lado, a sedução do psicanalista que se oferece e,
por outro, a resposta do cliente que repete o que se articula à sedução.
Assim, cada psicanálise tem início quando o erótico dessas seduções se
manifesta” . Berlinck, 1988, p.111)
15
O que nos leva a refletir sobre como ressoavam os apelos da paciente,
algumas
vezes
muito
pouco
verídicos
que
objetivavam
nos
atrair
significativamente para sua coleção de troféus já abandonados.
Freud, em 1912, já apontara em “A Dinâmica da Transferência”, a
busca constante em satisfazer a necessidade de amor que o ser humano
empreende diante da vida, essa insatisfação vai ter eco na figura do analista
como liberação da pulsão sexual na transferência. Na relação transferencial
com Violeta emergiram sentimentos que nos envolviam, de parte a parte, que
impediam de que algumas questões de ordem sexual fossem verbalizadas. Que
sentimentos tão intensos seriam estes? O que haveria desencadeado o sintoma
histérico em Violeta e o que poderia ter interferido na nossa escuta?
Portanto, é procedente a observação freudiana sobre a importância não
só da teoria, mas da prática clínica e da análise pessoal como o tripé que vai
instrumentalizar aquele que objetiva o desenvolvimento da técnica
16
3.Violeta - Relato Clínico
A ficha de solicitação de atendimento psicoterápico preenchida por
Violeta já havia passado pelas mãos de grande parte dos estagiários daquele
semestre de 1995. Alguns haviam comentado que seria um caso muito
interessante, entretanto ninguém a escolheu, resolvemos então assumir a tarefa
de atendê-la. Marcamos a primeira entrevista e no horário combinado lá estava
ela, em companhia do namorado que nunca se furtava da tarefa de levá-la até a
Clínica.
Depois de nos identificarmos, solicitamos que nos acompanhasse até a
sala de atendimento. De início, Violeta disse que procurara a Clínica de
Psicologia por sentir-se muito insegura e não conseguir concluir as atividades a
que se propunha. A vida já lhe tinha apontado por diversas vezes este tipo de
percurso, por ser um comportamento repetido continuamente ao longo de sua
existência. Já tentara com o ballet, com a música, com o violão, com o
supletivo, enfim, estava exausta de perceber isso. A procura pela Clínica
também se devera a indicação da irmã de seu namorado, que era estudante de
Psicologia.
Desde a primeira entrevista e no decorrer dos seis meses de
atendimento, pudemos conhecer um pouco quem é Violeta e verificamos
quantas histórias sobre a sua vida ela tinha para contar.
Violeta tinha 23 anos, é era a caçula de uma prole de cinco irmãos, com
17
apenas um rapaz. Seu pai é corretor, sua mãe é doméstica - nome esse
entendido na concepção mais chula da palavra do lar, pois é tida e tratada como
tal na casa de sua avó paterna onde mora a família. A casa da avó, o pai só
freqüenta a passeio, nos finais de semana, pois na verdade vive maritalmente
com outra mulher, há bastante tempo e com quem tem filhos ainda pequenos.
Essa situação mantida pelo pai ocasionou muitas brigas, com ameaça de
agressão física à mãe e intervenção dos filhos para evitar isso.
Violeta começou a estudar muito tarde (nove anos) e diferentemente dos
irmãos, freqüentava uma professora particular perto de casa, antes de ser
matriculada na escola pública. Não gostava de estudar e sua mãe lhe batia,
quando tirava notas baixas. Lembrou que toda segunda-feira, a professora fazia
ditados e ela era a que mais errava, motivo pelo qual a professora a criticava
perante as outras crianças. Era muito sensível a críticas, isso foi ficando cada
vez mais claro e apresentou esse dado como queixa em várias ocasiões.
Contou que a avó sempre foi uma pessoa crítica, severa e autoritária.
Antes era tida como modelo de educação rigorosa, hoje já não é temida como
antes, uma vez que sofre de depressão, o que a faz tomar muitos remédios.
Disse que a avó aplicava castigos cruéis, não apenas a ela como a seus irmãos,
como pendurar as sandálias no pescoço de quem as deixasse fora do lugar ou
como fez com sua irmã, colocando uma lata na sua cabeça porque esta
esqueceu de fechá-la corretamente. As tarefas eram distribuídas pela avó que a
mandava encerar a casa com aqueles escovões pesados (anteriores às modernas
enceradeiras), quando Violeta tinha pouco mais de sete anos de idade.
Comandava a tudo e a todos com mão de ferro e ai daquele que a desrespeitasse
por alguma razão. O castigo era sempre com requinte de crueldade da parte
18
daquela senhora, assim pensava eu.
Da mãe, lembrava sempre que a mesma fazia tudo na casa e era tratada
pela avó como uma verdadeira empregada doméstica. A mãe alegava que a avó
tratava-a mal porque ‘não tinha estudo’. Para Violeta, sua mãe parecia uma
pessoa passiva e conformada com aquela condição, sempre alegando que não
tinha para onde ir, já que não possuía parentes em Belém. A fala de Violeta
evocava-nos a figura da gata borralheira para sua genitora. Na fala da paciente
sua mãe aparece como impotente, quando admite que o marido viva com outra
mulher e aceita o papel de vítima da história, buscando para isso toda sorte de
desculpas, como a de que não tem parentes, daí não ter para onde ir, não poder
deixar a avó sozinha, etc.
Violeta ficava muito a mercê, como nos sugere seu discurso, dessas
imagens de como é ser uma mulher: se mandona, igual à avó ou submissa
como a mãe. Contudo, a infelicidade das duas estava ali exposta no seu relato e
Violeta desde a primeira entrevista oscilava entre essas duas figuras femininas
que pontuavam sua fala. Pensávamos que dividindo conosco, parte desses
conflitos pareciam ficar mais leves, até porque esse questionamento
invariavelmente a remeteria a posições identificatórias de sua própria mãe com
relação à outra mulher.
Do pai, dizia não possuir boas lembranças infantis, queixava-se que o
mesmo era ausente, não era carinhoso com os filhos e nunca se dispôs a dividir
com a mulher a tarefa de educá-los. À avó cabia o papel de educar e
principalmente, punir os netos. Entretanto, sempre que se referia à figura
paterna também falava com admiração, de um homem que já fora muito bonito,
19
pois era descendente de espanhóis; que já havia cantado nos bares noturnos,
nos quais fazia sucesso. Dizia também que a mãe já se acostumara a condição
de ‘outra’ na vida do genitor, aceitando tudo resignadamente. Em casa,
ninguém comentava a situação do pai possuir duas casas e viver com duas
mulheres, nem tampouco havia qualquer tipo de atitude que viesse a pressionálo a resolver aquilo.
Violeta morava muito mais na casa do namorado do que em casa de sua
avó (da mesma forma que a mãe, também foi morar com a sogra).Questionada
se sua família não fazia nenhum tipo de comentário sobre o assunto, afirmava
que não, pois ela todo dia (a exemplo do pai, pensamos) ia a sua casa apenas
almoçar e pegar mais roupas, algumas vezes, ficando para dormir.
Do namorado, referia-se muito pouco. Dizia que estavam juntos há três
anos e que este era muito “paciente e compreensivo com ela”, diferentemente
dos outros rapazes que ela anteriormente tivera algum tipo de relação. Falar de
sexo? Nem pensar. Só se, para isso, tivéssemos de interrogá-la (ela mesma
proporia isso depois), pois caso contrário, ficava calada no decorrer da sessão.
Segundo alegava, sentia-se pouco à vontade para falar desses assuntos, pois na
sua casa isso não lhe era permitido.
Violeta dizia sentir-se inferiorizada frente à família do namorado,
sentimento este acentuado pelo fato de estar sob atendimento psicológico.
Todos da família deste gostavam muito dela e ela fazia o possível para não
desagradá-los. A paciente admirava a união dos membros daquela família, todo
mundo encaminhado, estudando, diferentemente da sua família, na qual
somente uma irmã estudava Direito, por tal motivo, o pai a elogiava algumas
vezes.
20
A irmã do meio havia resolvido mudar de curso e no momento tentaria
um novo vestibular. A terceira e última irmã ajudava o namorado na venda de
produtos paraguaios, fato esse que contrariava o pai, uma vez que o parceiro da
filha era pobre e segundo o pai ‘sem futuro’. O irmão, trabalhava como corretor
à frente de uma pequena corretora junto com o pai. Era com esse irmão que
Violeta repartia alguns de seus planos, como um curso livre de línguas na
universidade, terminar o 2º grau, e começar a ensaiar como cantora na banda na
qual o namorado tocava. Objetivos que no decorrer do seu atendimento tentou,
mas acabou abandonando. Dizia que não gostava de falar desses planos a
ninguém com medo das gozações que poderiam advir.
Contou-nos que usava vários “personagens” para se apresentar em
reuniões em casa de amigos, no trabalho, no colégio, etc. Um exemplo
ilustrativo de como esses personagens apareciam era “a espanhola” (o que
remete à sua ascendência paterna), criada com o objetivo de conseguir emprego
- uma garota bem educada, dócil e com traços infantis, que por todos era
querida e conhecida durante o período em que trabalhara naquele local como
fiscal do shopping. Alegava ter abandonado o emprego ‘por já ser muito
conhecida por todos’.
Com relação à expressão ‘já ser muito conhecida’ nos lugares, em que
abandonava os empregos, parece-nos que a possibilidade de ser conhecida
remetia Violeta à fantasia de prostituição – uma vez que a paciente possuía
renitente suspeita sobre o passado da avó. Talvez, assemelhar-lhe com a
imagem de uma prostituta fosse algo que ela não admitisse, mesmo que
21
desejasse isso, pois seus personagens pareciam ter sempre um toque de
sedução.
Como aprendemos, a problemática da mulher histérica é justamente essa
ambigüidade, essa hesitação identificatória entre ser menina e mulher que vai
desaguar no Édipo feminino. Para melhor ilustrar o que pretendemos,
passaremos a relatar fragmentos de sessões em que Violeta oscila entre essas
posições.
Algumas vezes, segundo dizia, representava uma mulher sexy, em
outras, atuava uma mulher completamente corajosa. O traço comum entre
esses personagens era a amabilidade, a meiguice, e acima de tudo a aceitação
de todos. Parece-nos que o fato da paciente ter forte vínculo com as figuras da
avó e da mãe, apesar de negar essa identificação, isto faz com que se acentue o
conflito identificatório em Violeta.
Certa vez, em uma reunião na casa de amigos do namorado, desafiou
um rapaz ali presente para jogar xadrez com ela. Nesse dia, acabou sendo
ridicularizada pelos amigos do namorado, pois conseguiu jogar apenas alguns
segundos. Na sessão em que a cliente relatava esse fato, pontuamos que a
personagem acabara por colocá-la numa situação vexatória. Repentinamente,
após essa observação, solicitou para ir até o banheiro alegando que não estava
se sentindo bem. Assinalamos que a sessão estava quase para terminar e que ela
esperasse um pouco, pois ainda continuaríamos falando daquele assunto.
Violeta concordou, retomando seu relato. Entretanto, logo em seguida, disse
que não podia esperar até o fim por estar ‘passando mal’, precisava lavar o
rosto para amenizar aquele mal estar. Abrimos a porta da sala e ela saiu em
desabalada carreira para o toalete. Fomos imediatamente atrás dela, para
22
perguntar como estava. Depois de alguns minutos, ela reapareceu dizendo que
havia melhorado. Que acordara muito cedo e viera juntamente com o namorado
para a universidade, a fim de inscrever-se em um curso de línguas. Na
universidade, comera um pouco antes do atendimento e que por ter ficado
muito tempo em jejum, sentira-se mal.
Ao voltar para sala de atendimento, questionamos se o assunto não se
relacionava com o fato de ter passado mal. Violeta negou definitivamente. Não
era fácil para ela lidar com suas angústias. Como supomos, quando confrontada
fugia como sua mãe, que não assume uma posição feminina diante da rival e se
esconde.
Os efeitos desta identificação histérica com a mãe são reproduzidos
quando Violeta não suportando a angústia provocada por nós, passa mal e foge
para o toalete. Como se ali, ao mesmo tempo, ocupássemos o lugar da madrasta
de quem a mãe de Violeta se esconde ou da mãe acusando-a de ter se
comportado mal sem respeitar a superioridade masculina. Violeta é suscetível à
crítica e ao insulto justamente como a mãe que fracassa diante da madrasta,
correndo para se esconder desta. Esse momento contratransferencial em que
questionamos o cerne da problemática histérica de maneira rigorosa demais
com Violeta e que ela confrontada, passa mal, é suscitado, pensamos, pela
irritação diante de todos esses fracassos relatados pela paciente, principalmente
pela impossibilidade de seguir em frente que fica muito claro nas suas falas
repetitivas.
Já de volta à sala de atendimento após o mal-estar, Violeta relata
orgulhosa, que havia procurado emprego e, que diferentemente das outras vezes
em que desistia, foi em busca, sem, contudo conseguir o lugar pretendido. O
23
papel de corajosa que, nesse caso resultou em humilhação, não lhe cabia, ela
que era de fato, tão medrosa que só dormia de luz acesa.
Além desse episódio, Violeta contou que freqüentemente acordava e
sentia enjôo quando ia escovar os dentes - o gosto do creme dental lhe
embrulhava o estômago. Questionada, relacionou o mal estar matinal, com o
barulho das conversas na hora do café, que ocorriam tanto em sua casa, como
na do namorado. Isso a incomodava bastante e a afastava do local das refeições
familiares. Parecia sempre buscar algum tipo de razão objetiva para seu malestar, ou melhor dizendo: ela racionalizava. O jogo histérico está aí, posto na
dificuldade de Violeta de assumir o desejo – que é uma mulher e que dorme
com o namorado, que vive com este e que todos sabem disso tanto na sua
como na família deste. Diante da dificuldade de assumir uma posição adulta, o
desejo se transforma em náuseas, enjôo, como um entrave que a impedem de
dirigir-se à figura masculina.
Na sessão seguinte, Violeta revelou que admirava o comediante Chico
Anísio, em razão de este fazer muitos personagens, até o dia que o assistiu em
uma entrevista, sem nenhum disfarce, em um programa de tevê. Daí em diante
passou a achá-lo ‘uma pessoa sem graça’, totalmente desinteressante.
Percebemos que, mirando-se no espelho do humorista, via seu próprio reflexo.
Os efeitos da sessão anterior persistiam. A seguir irá mergulhar um pouco mais
fundo em busca de significar essas vivências.
Violeta contava que não sabia explicar muito bem quando os
personagens apareciam. A certa altura, fui levada a supor que não se sentindo
percebida pelos demais, os personagens surgiam para tirá-la daquela situação
de esquecimento e irrelevância. Era assim que Violeta se via: “uma pessoa sem
24
graça”, sem qualquer atrativo pessoal que pudesse chamar a atenção de algum
dos amigos “importantes” do namorado. Entretanto, apontava um paradoxo:
sua avó dizia ser ela muito bonita, muito parecida consigo quando era mais
moça. A avó chegou a pedir, algumas vezes, que Violeta se arrumasse toda,
colocasse as suas (da avó) jóias e fosse visitar o avô, observando qual seria a
sua reação quando a visse tão semelhante a ela mesma quando jovem. Esse
convite, sempre recusado, para ocupar o lugar da avó em conflito com o
marido que há muito a abandonara, aparece para Violeta como mais uma fonte
de angústia, provavelmente tocando o nervo sensível de seu próprio conflito
edípico, com o qual ela evidentemente se debatia. Sobrava a leve suspeita de
que talvez fosse mesmo bonita, mas como se identificar como uma avó tão
sedutoramente perversa?
De fato, Violeta é uma bela garota, e sentimentos de piedade e
solidariedade emergiam em nosso espírito, diante da falta de iniciativa e de
recursos para reagir. A netinha desamparada diante do lobo mau travestido de
avó parece aqui uma imagem significativa.
Vale observar que o avô de Violeta, segundo lhe relatara a avó, era um
homem de posses, apesar de já haver perdido grande parte de sua fortuna,
ainda possuía um antigo hotel no centro da cidade. A exemplo de seu pai, o
avô abandonou a avó, e mantinha outra família de quem os netos só sabiam
notícias por outros parentes distantes. O avô estava muito doente, e
comentava-se que se viesse a falecer, haveria uma briga familiar para dividir o
restante dos bens.
Grande parte do material trazido às sessões fazia referência a
insegurança da cliente, seu medo do escuro, da avó, do pai. Vivendo em uma
25
família em que as mulheres pareciam destinadas ao abandono pelos maridos, à
traição de ver surgir uma outra família, outros irmãos e netos que permaneciam
na ameaçadora proximidade de vir a disputar a herança, Violeta parecia não
encontrar um lugar para si.
Na família do namorado - que admirava como modelo - Violeta parecia
encontrar a estrutura capaz de atender seus anseios de relacionamentos menos
conflituosos. A mãe deste constituía uma figura materna com especial
importância no desempenho dos filhos, amparando-os e estimulando-os.
Violeta era bem recebida nesta nova família que arranjou para si, e podia, não
só demonstrar sua gratidão, como usufruir desses benefícios que, afinal,
conquistara. Aqui surgem novos ideais: a nova família. Seria necessário
investigarmos melhor para precisar que valores, que sentido tem para ela o
novo que encontra nessa família. Sobre a relação com o namorado falava muito
pouco, bem como de outros relacionamentos amorosos anteriores. Até que
ponto o acolhimento dessa família é mais importante para ela do que o
namorado? Pensávamos que esse rapaz ‘paciente e compreensivo’ nos remetia à
genitora da paciente e que não era o homem que Violeta esperava para ela.
Certo dia, Violeta revelou temer procurar um novo emprego, com medo
de alguém lhe fazer críticas, por qualquer motivo, muitas vezes tentando
corrigir-lhe uma possível falha. Quando isso acontecia, Violeta largava o
trabalho e não voltava mais no dia seguinte. Esse dado foi significativo por se
tratar de um fato marcante em sua vida, que pensamos ter relação com as
críticas recebidas ao longo do tempo, tanto por parte do pai, como por parte da
avó. Era mais fácil fugir a situações desagradáveis, abandonando os empregos.
Os dois - pai e a avó - tinham papéis importantes no que se referem às
26
críticas constantes a sua pessoa, no que tange às desistências em
empreendimentos que tentava levar adiante. Parece evidente que longe de
constituírem ideais egóicos possíveis, retornavam, disfarçados, nos personagens
que criava.
Das atrizes de tevê, gostava muito da atriz Regina Duarte, a quem
imitava muito bem. Escondida do pai, lia algumas revistas, romances. Para
ele ‘filho era um investimento que deve ter retorno para os pais mais tarde’ e
certamente Violeta não dava o resultado desejado pelo genitor. Conforme
relatou Violeta, seu pai antes de dormir se queixava dos filhos à sua mãe e
dizia, em alto e bom tom, que seu irmão era o único filho que lhe dava
retorno. Dela, ele exigia que voltasse suas leituras para revistas de marketing
e livros de auto-ajuda.
Destacamos também outro aspecto significativo revelado pela
paciente, ligado ao fato de ter chegado a coordenar um grupo de dança na
escola. Entretanto, largou essa atividade quando percebeu que ‘já estava
muito conhecida de todos’ e que já tinha muitos ‘troféus’- todos os rapazes
que a admiravam bastante. O papel de sedutora, sugerido pela identificação
com a avó e o pai, também fora recusado.
No que se refere à vida sexual, Violeta expressava sua enorme
dificuldade em falar do assunto. Revelava que algumas vezes ensaiava antes
para contar um pouco das suas experiências, entretanto quando chegava na
sessão se deparava com a inibição. Supomos que o embaraço era originado
diante da impossibilidade de entrar nessas posições identificatórias. Falar
dessas questões sexuais seria assumir verdadeiramente o que deseja para si.
27
Essa questão foi trazida às sessões, no relato em que uma amiga
perguntou-lhe como faziam ela e o namorado, para evitar que engravidasse.
Violeta respondeu meio sem graça, que não tomava anticoncepcional, mas
para evitar uma gravidez, o namorado “gozava” fora dela, isto é, utilizavam o
coito interrompido em suas relações sexuais. Ela e o namorado dormiam na
sala da casa deste, pois a família dele era grande e o namorado dividia com o
irmão o mesmo quarto. Revelava que tinha que esperar todos na casa se
recolherem para que pudesse se acomodar na sala ou então, depender das
saídas do irmão para ocuparem o quarto deles.
A contínua queixa de sofrer porque abandonou o curso supletivo e não
conseguiu terminar o segundo grau, porque largou o ballet, a ginástica, enfim
todas esses fatos, sentíamo-nos impotente em ajudá-la frente a esses sintomas
tão arraigados, e além disso, com o passar do tempo, passamos a crer que a
insatisfação e o desprazer faziam parte de seus sintomas.
As resistências em abordar sua sexualidade eram em parte enfrentadas
com o recurso de introduzir a amiga em nossa conversa. Mais tarde, ela viria a
nos dizer, diretamente, que a questionássemos sobre sua sexualidade. Sabemos
que, Violeta deixou de ser virgem aos 17 anos, em uma situação que parece ter
tido resultado traumático. Segundo ela, foi até o motel por insistência do
namorado e com medo que alguém a descobrisse, foi “disfarçada”. Relatou ter
transado por pura curiosidade, sem prazer algum. Não tendo gostado, só
pensava em ir embora, solicitando ao rapaz que ao terminar lhe avisasse para
irem dali. Depois dessa noite, ficou com uma verdadeira aversão a este rapaz,
28
detestava ter que manter relações sexuais com ele. Sentia nojo, acabando por
terminar o namoro pouco tempo depois.
Aqui surgem questões das mais significativas na compreensão que
buscamos ter de Violeta. No seu relato, aparece sempre se submetendo ao
desejo do outro. Não teria sido seu desejo, ir ao motel manter relações sexuais
pela primeira vez com o namorado – alegava que tinha sido ele que insistira. Da
relação sexual nenhum sinal de prazer, de seu próprio desejo investido.
Segundo ela, o namorado era ‘preto’ e isso era motivo de muita gozação na sua
casa. Seria, talvez, um ótimo aliado para atacar essa família que é vista como
razão e fonte de todo seu sofrimento? Incapaz de reconhecer sua ambivalência
frente às figuras parentais perguntávamos o que restaria a Violeta?
Revelou-nos que em uma de suas tentativas de encontrar trabalho
pensou em entrar para uma rede de marketing. Segundo ela, empenhou-se a fim
de concretizar os seus sonhos, entretanto novamente acabou desistindo e ficou
‘mal de depressão’ - não saía da cama, não tinha vontade de tomar banho, não
tendo a mínima vontade para nada. Isso era mais um motivo de angústia, pois
dizia ela - se casasse acabaria igual à mãe desprezada ou poderia ficar
deprimida como a avó. Ambas sozinhas, relegadas pelos maridos, era um
destino que Violeta não desejava para si. O casamento e a gravidez eram
associados ao medo enorme de ser abandonada, voltar a engordar e ficar feia.
Essa dificuldade em avançar em seus investimentos certamente
interferia na nossa escuta, deixando-nos irritados com esse entrave em não dar
complemento ao que iniciava, em abandonar com medo de ser abandonada.
Nosso trabalho de atendimento era orientado para que Violeta valorizasse seus
próprios recursos freqüentemente negados, dissociados.
29
Parecia-nos que somente aos personagens cabiam os elogios e
pensávamos haver uma certa dose de prazer em revelar que ela os criara e que
os encarnava muito bem. Em várias sessões, tratamos da questão dos
personagens, mostrando que estes só surgiam quando ela não se sentia
percebida positivamente pelas pessoas, que, para ela eram significativas.
Trabalhávamos com a possibilidade de encontrar um sentido para tudo aquilo.
Outro aspecto de relevância em seu atendimento era a relação com a
mãe. Violeta parecia negar qualquer vestígio de identificação com esta. Apesar
de gostar dela, não conseguia ver nada de interessante naquela mulher, o que
nos permite justamente supor aqui a presença da negação. Sentia pena da
situação materna e queria estar longe da casa da avó, para não ver as
humilhações constantes que sua genitora passava, o que revela o seu afeto por
esta ou mesmo quando referia carinhosamente ao zelo que a genitora lhe
dispensava.
Entretanto, ambivalentemente, relatou que, certo dia, a mulher do pai
chegou na casa de sua avó e, sua mãe quando a viu, correu e se escondeu no
banheiro para não ter que se defrontar com aquela mulher. Esse fato foi contado
com naturalidade e uma certa frieza, como se aquela situação fosse normal
dentro do seu núcleo familiar. ‘Era sempre assim, sua mãe não reagia...’, dizia
Violeta. Parece-nos que o que fica de fora aqui é a hostilidade em relação a essa
figura tão diminuída a seus olhos.
Violeta tem uma mãe que não cria um campo de identificação para
filha, porque essa mãe não se autoriza. Não propiciando uma identificação, a
genitora desperta um campo de hesitação na filha. Daí porque Violeta passeia
sobre todas essas roupagens de espanhola, de sexy, ela não é nada, não é
30
ninguém, não se compromete. Com isso, abre-se espaço para a angústia
originada por essas fantasias inadmissíveis. Essas fantasias, inaceitáveis, são
recalcadas pela paciente e oportunizam essa hesitação diante do desejo.
A mãe de Violeta se coloca como impotente diante de sua própria
fantasia de ser mulher porque não assume, não enfrenta a rival, e foge. A
genitora só aparece para denunciar as infidelidades do marido se colocando no
papel de vítima. Ela é a santa que tudo aceita de todos, que se submete a todas
as humilhações pelos filhos.
Aliás, outro aspecto relevante é que Violeta se referia à atual mulher de
seu pai como a “amante”, o que fazia desta rival imaginária, também uma
mulher desvalorizada. Desta feita, indicamos que a situação se invertera
porque sua mãe é quem passara à condição de ‘outra’, já que aceitara
passivamente aquele papel. Parecendo perplexa, ao nosso comentário, seguiuse um longo silêncio. A enorme dificuldade de lidar com seus sentimentos
hostis e agressivos não podia encontrar expressão e a resistência emergia.
Depois de um certo período em atendimento, Violeta conseguiu esboçar
alguma tristeza, pois quando recordava de algumas situações ficava com os
olhos cheios de lágrimas, mas rapidamente pedia licença para apanhar um lenço
de papel e enxugava os olhos úmidos, refazendo-se do tom emocional dado ao
relato.
A partir dessa sessão, toda vez que ela entrava no consultório
perguntava se podia pegar um lenço na caixinha, como se resguardando da
tristeza que pudesse assaltá-la. Sua tristeza resvalava em nossos sentimentos de
piedade. Diante dessa dor contida ela administrava tudo isso revelando que seu
31
pai não tolerava demonstrações explícitas de afeto, pois eram alvo das críticas
mordazes deste, nos perguntávamos se era possível aquilo tudo acontecer com
uma mesma pessoa.
Depois dos dois primeiros meses, começou a atrasar-se. Assinalamos
que caso chegasse tarde, o prejuízo era seu. Daí em diante os atrasos ficaram
menos freqüentes. Durante o tempo que esteve em atendimento Violeta deixou
de comparecer a três sessões e, segundo explicou mais tarde, uma das causas
foi em decorrência das crises de asma que era acometida. Outra vez, deixou de
comparecer por estar com fortes dores menstruais. Os sintomas somáticos,
supunha ela, justificavam plenamente suas ausências.
A emergência de sintomas somáticos aqui, no lugar da possibilidade de
entrar em contato com seus próprios conflitos, que o processo terapêutico
permitia, coloca-nos questões que este projeto visa a justamente poder salientar.
Ao chegar no consultório sempre que lhe dávamos boa tarde, ela nos
perguntava se tudo estava bem conosco. Respondíamos-lhe que sim, e
ficávamos aguardando que iniciasse seu relato. Na transferência, pensávamos
que Violeta esperava que algum dia lhe disséssemos que estava tudo mal. Que
expressássemos a raiva e o aborrecimento que nos causavam a repetição
monótona de seus fracassos, o desfiar interminável das sempre mesmas
histórias de sofrimento e vitimização que aquele cumprimento inicial parecia
anunciar.
Uma ocasião Violeta contou que estava na casa do namorado e,
conversando com este, fez um gesto expressivo. Ressaltou que, na mesma hora,
este lhe chamara atenção sobre o quanto estava parecida com a terapeuta. Até
32
na maneira de olhar... Seu relato nos pareceu uma provocação. Para nós
parecia claro que Violeta procurava nos incorporar como mais um personagem
de sua coleção. E nessa tarefa ela gostaria que acreditássemos que era
fantástica. Na busca de uma identificação que lhe assentasse plenamente,
buscava traços tanto conosco como com os irmãos, que pudessem minimizar
seus conflitos.
Decorrido algum tempo que estava sob tratamento, Violeta revelou que
não estava freqüentando as reuniões dos amigos do namorado, com medo que
os personagens voltassem a aparecer. Nesse período, trabalhamos sua autoestima acentuando seus próprios recursos, ao mesmo tempo em que
incentivávamos a começar algum projeto que fosse voltado ao seu desejo, e não
ao desejo do outro. Parece ter tido resultado na continuação dos ensaios na
banda do namorado, os personagens foram espaçando a sua atuação, até
desaparecerem dos relatos.
Violeta começou a enxergar a mãe com outros olhos, menos críticos,
passando a ficar mais tempo na casa da avó, mesmo que fosse para fazer
companhia às duas senhoras que viviam muito sós. O tratamento foi
interrompido por limites institucionais, o estágio acabara.
Os sentimentos de raiva e desafio de que fomos tomadas pareciam
lançar-nos a nossos limites. Que tenhamos sido confrontadas em nosso desejo
de continuar ouvindo todas aquelas histórias, que pensávamos já saber o
suficiente, suscitam problemas teórico-metodológicos que necessitam maior
aprofundamento. E será, certamente, um longo percurso.
Pensamos que estamos nos inserindo no âmbito da Psicopatologia
33
Fundamental, a partir do momento que refletimos não só sobre o discurso de
nossa paciente com base na teoria psicanalítica, mas também quando
conjeturamos sobre os meios adequados para aliviá-la do sofrimento e da dor.
34
4.Sobre a noção de identificação histérica
Neste ponto partiremos para uma revisão bibliográfica desenvolvida ao
longo de nossa pesquisa, voltada mais diretamente ao processo de identificação
na histeria, cuja fundamentação encontrou sustentação na leitura dos trabalhos
de Freud, de alguns de seus comentadores, bem como da nossa reflexão sobre a
relação da metapsicologia freudiana com o caso clínico objeto de nosso projeto
de pesquisa.
Dentre os primeiros textos pesquisados estão os “Estudos sobre a
histeria” e “Inibições, Sintomas e Angústia”, nos quais pudemos nos defrontar
com algumas questões que o caso clínico provocou-nos. Além disso,
resolvemos estudar o material clínico que possuíamos, a fim de chegar mais
perto de detalhes do caso que ainda não haviam sido possíveis efetivar por certa
resistência nossa. Parte desse material não foi levantado por ocasião da redação
do anteprojeto, uma vez que este foi redigido a partir do que recordávamos de
mais importante do atendimento à Violeta.
Hoje, pensamos que esse estudo proporcionou-nos uma visão mais
ampla do caso clínico, tendo nos suscitado resistências mútuas no trato de
determinados assuntos, ambivalência de sentimentos vivenciados por ocasião
desse atendimento, que na medida do desenvolvimento deste trabalho de
dissertação certamente vão ter lugar.
Violeta, reiteradamente, alegava sentir medo, insegurança, o que nos
leva a pensar que
parte deste sintoma (o medo) é antigo, provavelmente
anterior à castração e ao complexo de Édipo, pois já se fazia presente desde
35
muito cedo, na infância da paciente quando não conseguia ficar sob hipótese
alguma sob a luz apagada. Daí, supormos que o conflito com as identificações
parentais originaram essa angústia que se difundia, de forma que tudo o que
ocorre com a paciente ou pode vir a lhe acontecer é antecedido por esse
sentimento de temor imenso. Esse medo é impreciso, não tem objeto.
Por outro lado, pensávamos que a busca de identificações se estenda à
relação analítica, na qual também vão aparecer a incorporação de personagens,
inclusive a terapeuta, e, que geralmente funcionava como tentativa de dar
relevo à própria Violeta, em ocasiões que se vê confrontada com o seu desejo.
Supomos, ainda, que o medo em Violeta concorria para a inibição que a
impedia de crescer.
Sobre o desejo, no trabalho “A histérica e o psicanalista”, Berlinck
reflete : “a vontade como se sabe, faz parte do ego e talvez seja mesmo a
principal expressão desta instância psíquica”, (Berlinck,1997, p.32) e,
prosseguindo ensina que “ a falta de vontade pode ser a expressão de um ego
extremamente frágil, praticamente inexistente”. Identicamente à paciente do
texto de Berlinck, Violeta parecia estar submetida ao desejo do outro por não
saber o que realmente queria para si. Essa é a questão crucial na histeria – o
desejo enquanto sintoma que se mantém insatisfeito.
Supomos que o impedimento de dar continuidade a planos que traçava
para si (seriam seus desejos próprios?), restringindo qualquer movimento do
ego em direção à realização desses desejos tais como: estudar ballet para ser
bailarina, fazer um curso de teatro para ser atriz ou ir em busca disso fora de
Belém, dedicar-se à música para tocar violão ou cantar, enfim, investimentos
que necessitariam dispêndio de energia para a obtenção de resultados e que
36
colocariam Violeta diante de mais uma problemática presente em sua dinâmica
- obter resultados a curto prazo com pouco ou quase nada de investimento
nestas empreitadas. Pensamos que a perspectiva de vir a sofrer críticas
posteriores diante dos fracassos, a colocavam diante da seguinte questão: não
seria elogiada por uma boa causa mas também não despertaria críticas que
remontariam a situações de desprazer já vivenciadas pela paciente.
Sobre as lembranças infantis, já nos “Estudos sobre a Histeria”, Freud
demonstrando surpresa afirma:
“A primeira vista parece extraordinário que fatos experimentados
há tanto tempo possam continuar a agir de forma tão intensa - que sua
lembrança não esteja sujeita ao processo de desgaste a que, afinal de
contas, vemos sucumbirem todas as nossas recordações”. (Freud, 1895, p.
45)
Ao
recordar
episódios
da
sua
infância
que
a
marcaram
significativamente, durante o processo terapêutico, a paciente revivia aqueles
eventos propiciando a emergência de sentimentos ambíguos, principalmente
com relação as figuras da avó e do pai. Rememorar esses fatos também
significava ter que enfrentar todas as suas dificuldades no trato com a
problemática identificatória com essas pessoas, visto que sentimentos de afeto e
hostilidade manifestavam-se gradativamente nessas sessões. Quanto mais
Violeta nos falava de suas identificações conturbadas, mas nos lançávamos à
compreensão de suas fantasias, dos seus conflitos, desses sentimentos
antagônicos que pareciam estar ali preenchidos mutuamente.
No Capítulo IV de “A Interpretação dos Sonhos”, intitulado “A
37
Deformação nos Sonhos”, Freud questionando sobre o sentido da identificação
histérica nos esclarece:
“a identificação é um fator altamente importante no mecanismo dos
sintomas histéricos. Ela permite aos pacientes expressarem em seus
sintomas não apenas suas próprias experiências, como também as de um
grande número de outras pessoas; permite-lhes, por assim dizer, sofrer em
nome de toda uma multidão de pessoas e desempenhar sozinhas todos os
papéis de uma peça. Dirão que isso não passa da conhecida imitação
histérica, da capacidade dos histéricos de imitarem quaisquer sintomas de
outras pessoas que possam ter despertado sua atenção - solidariedade, por
assim dizer, intensificada até o ponto de reprodução. Isso, porém, não faz
mais do que indicar-nos a trilha percorrida pelo processo psíquico na
imitação histérica”. (Freud, 1900, p.163-164)
Afora os seus próprios sintomas histéricos ainda cabiam os sintomas das
pessoas com quem a paciente se relacionava. Assim, Violeta sofria de crises
asmáticas, de aftas, de complicações menstruais e, mais o medo imenso de
acabar deprimida como a avó e ter ficar junto as duas infelizes mulheres.
Violeta muitas vezes se via identificada com sua mãe, contudo negava
tal evidência. Ela repetiu sintomas maternos já descritos por si mesma durante o
tratamento, que nos levam a pensar no que Freud chamou de ‘imitação
histérica’ e que é originada de uma semelhança de elementos conservados no
inconsciente do homem. (Freud, 1900, p.163)
Do pai, alegava ter herdado apenas o gosto pela música e o desejo de ser
cantora, apesar das queixas de pouco afetividade deste. Curiosamente, os
38
personagens tinham um leve toque da sedução paterna, o que nos fazia pensar
se esse pai não representava, de alguma modo, uma forma internalizada como
ideal de eu.
Do mesmo modo que aparece o pai, admirado e criticado por sua
maneira de agir com relação a manter o casamento fracassado surge a avó como
figura perversa. Contraditoriamente, a paciente se identificava com diversos
traços de comportamento desta, nas lembranças de bate-papos, em que a avó
lhe contava as artimanhas que usava para conseguir algo, muito parecidas com
as atitudes da própria paciente quando contava sobre as espertezas de suas
personagens.
No Rascunho B, Freud nos ensina que:
“No caso da histeria comum não é rara a ocorrência, em vez de um trauma
principal isolado, de vários traumas parciais que formam um grupo de
causas desencadeadoras. Essas causas só puderam exercer um efeito
traumático por adição e constituem um conjunto por serem em parte,
componentes de uma mesma história de sofrimento”.(Freud, 1893, p. 43)
Pensamos que em Violeta, a exemplo do que Freud já acentuara em suas
reflexões, diversos fatores
concorreram
para o aparecimento da neurose
histérica com os seus conflitos identificatórios. Ao lado de fatores traumáticos
relacionados às críticas contundentes, as quais era submetida pelo pai e a avó,
os gritos que esta costumava utilizar para se fazer temida, também concorriam
para acentuar os conflitos. Isso tudo pode ter favorecido ao aparecimento de
uma série de fantasias perversas, entre as quais a de que aquilo tudo acontecia e
39
que se ninguém dava certo naquela família era porque o avô fora um homem
muito mau e injusto no passado.
Nos parece que, a possibilidade de Violeta voltar-se à figura masculina
era ainda mais dificultada pelas lembranças desagradáveis do relacionamento
problemático dos genitores, pelos desencontros conjugais da avó. Contudo,
ainda assim, a paciente continuamente voltava sua feminilidade pelo viés
materno se identificando com o aspecto gata borralheira desta. Isso nos remete
a uma afirmação freudiana de que na origem da histeria e da neurose obsessiva
estaria a identificação com a pessoa amada. (Freud, 1899, p.384)
Além disso, pensamos que seu estado emocional contribuía para o
aparecimento dos sintomas somáticos já mencionados anteriormente e que
nestes períodos difíceis para ela pareciam se acentuar. Supomos, que essas
questões conflituosas se acirravam com a impossibilidade de enfrentamento da
problemática sexual, entretanto não podemos deixar de pensar que, concorriam
de alguma forma para a origem de seus conflitos, as censuras decorrentes dos
inúmeros fracassos, motivo de gozação em reuniões de amigos, em sua casa e
na do namorado.
A constatação de uma realidade exterior adversa - ver a mãe e a avó
sozinhas e abandonadas é dolorosa e quase insuportável, daí a fuga para a casa
do namorado onde os problemas são de outra ordem e não são seus. Na casa
dessa família, Violeta se protege da angústia incessante que parece colocá-la
sempre em um estado de prontidão a um perigo iminente. Tal como
aprendemos, as neuroses têm como tarefa o afastamento de percepções
perigosas. Nossa paciente defendia-se da angústia procurando manter-se longe
dos conflitos familiares.
40
Em “A Interpretação dos Sonhos”, Freud ressalta a intensificação do
uso da identificação na histeria, para expressar um elemento sexual comum. E
ensina:
“nas fantasias histéricas, tal como nos sonhos, é suficiente, para fins de
identificação, que o sujeito tenha pensamentos sobre relações sexuais, sem
que estas tenham necessariamente ocorrido na realidade”. (Freud, 1900, pp.
163-164).
Como sabemos, desde a infância, as fantasias têm como objetivo
proteger a criança de um medo, de um temor diante da possibilidade que os pais
possam adivinhar seus pensamentos. A cada fantasia recalcada corresponderia
um desejo sexual abafado, perigoso pelo fato de desencadear uma excitação
sexual. Na histeria de angústia, a excitação é psíquica, enquanto na conversão o
excesso de energia passa do estado psíquico para o somático. É no corpo que
vão se inscrever esses equivalentes de satisfações sexuais infantis.
No dizer de André: “a histérica foge da satisfação do desejo entregandose a uma simbolização desenfreada”. (André, 1998, p. 135). Na sua fantasia, o
sujeito passa a ser a causa do desejo do outro e com isso se ocupa contrito.
A identificação, segundo Freud no trabalho “Psicologia de Grupo e
Análise do Ego” poderia recair sobre um traço, não necessariamente, sobre
todo o objeto. Em sua constituição, o sujeito se identificaria com traços do
outro (mãe/pai) e a partir dessa identificação vai se originar o ideal de eu.
Essas identificações primeiras, ambivalentes desde a sua origem, são como
postulou seu criador “a forma mais primitiva e original do laço emocional”.
(Freud, 1921, p.135).
41
Violeta se identifica com seu genitor quando revela que conquistou
todos os rapazes da escola ou quando pretende dar asas a sua veia artística.
Entretanto, há uma ligação muito forte com sua mãe que acaba dificultando
suas outras identificações. A imagem dessa mãe, para nós é o oposto daquilo
que Violeta pode perceber nos outros elementos importantes na constituição do
seu eu – o pai e avó. Contudo,o afeto a si dispensado pela genitora é sempre
destacado positivamente, como se fosse possível não haver qualquer relação
com os sentimentos hostis que esta também suscitava-lhe.
A identificação com a mãe aparece no dia em que Violeta a ajudou na
festa de aniversário da avó e a paciente se percebe, assim dizendo:‘a doméstica
e da filha desta’. Porém, esta identificação é negada, pois Violeta se diz muito
diferente da mãe e não quer para si o mesmo destino. Em outra sessão, revela
que como ela, a mãe vivia para contentar os outros, a ponto de não fazer o que
mais gostava - costurar... e muda de assunto. Falar desses conflitos era muito
difícil, ela já acentuara. Nos compadecíamos de Violeta que, ao confrontar-se
com sua realidade representava mais insatisfação e menos ânimo na realização
do que desejava.
A respeito da questão da feminilidade assim se expressa André:
“Essa falta de identidade só deixa, como via possível à
identificação feminina, a identificação à mãe. Mas,
precisamente, maternidade não é feminilidade e, de resto, a
identificação à mãe é fundamentalmente ambivalente, já que a
mãe é também privada de pênis, e portanto essencialmente
desvalorizada pela filha”. (André, 1998, p.176)
42
O mundo histérico de Violeta parece se compor por antagonismos,
ambivalências, oposições que se presentificam nos fortes/fracos, bons/maus,
poderosos/impotentes e que aqui estão impressos neste movimento pendular
singular na dinâmica do tratamento de Violeta. Ao lado de uma revelação
animadora vinha oportunamente um mal presságio.
Quando trata da inibição, em “Análise de um caso de fobia em um
menino de cinco anos” - o Pequeno Hans, Freud acentua que “a inibição seria
uma restrição que o ego do menino impusera a si mesmo a fim de não despertar
o sintoma da angústia”. Em Violeta, o medo de se arriscar, investir no seu
desejo até sua conclusão, impediam-na de prosseguir, originando o que
supomos ser uma inibição do desejo, pois assim evitaria as críticas de um
possível fracasso sempre antecipado pelas figuras do pai e da avó. (Freud,
1926, p.108)
Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, Freud vai refletir:
“(...) as neuroses da infância têm a natureza de episódios regulares no
desenvolvimento de uma criança, embora muito pouca atenção ainda se
dispense às mesmas. Sinais de neuroses infantis podem ser detectadas em
todos os neuróticos adultos sem exceção, mas de modo algum todas as
crianças que revelam esses sinais se tornam neuróticas depois. Deve
acontecer, portanto, que certos determinantes da angústia sejam
abandonados e certas situações de perigo percam seu significado à medida
que o indivíduo se torna mais maduro. Além disso, algumas dessas
situações de perigo conseguem sobreviver, alcançando épocas posteriores,
e modificam seus determinantes de angústia a fim de atualizá-los”. (Freud,
1926, p.172)
43
Este ensinamento nos remete ao medo do escuro da paciente, uma
queixa sempre reiterada ao longo de seu relato e que pensamos ser um sintoma
infantil que se mantinha na idade adulta.
Françoise Dolto prefaciando o livro “A primeira entrevista em
psicanálise”, nos relata que “a criança pequena e a adolescente que são portavozes de seus pais”. Para ela, o que a criança manifesta em seus sintomas, é
ressonância às angústias ou aos sintomas das figuras fraternas. (Mannoni, 1981,
p. 13)
Analogamente à situação de sua mãe escorraçada pela avó, podemos
supor que aí se originariam seus desejos de não casar, não ter filhos, para não
ter que se tornar dona de casa tomando conta dos filhos. Imagem materna
internalizada como algo desmerecedor.
Violeta revela, quando questionada de seu amor pela mãe, que esta é
‘fantástica’ e que ‘não é bonita fisicamente, mas é bonita por dentro’, pois ela
sempre se preocupava se algo faltava à filha. Por outro lado, expressa seu
descontentamento com o casamento dos pais por não ver na relação destes, um
modelo apropriado para si mesma. A visão matrimonial de Violeta é
fundamentada na experiência de duas mulheres muito significativas - a mãe e a
avó - em que a situação de abandono e solidão se repetem, fato esse temido por
ela. Ambivalentemente a mãe é desvalorizada e fantástica.
No decorrer do atendimento, a paciente revelou explicitamente muito
pouco sobre o amor a si dispensado não só pelos pais como pelo namorado. As
demonstrações afetivas aparecem no relato clínico, sutilmente, quando revela
que sua mãe não sabe que a mesma está sob atendimento, pois do contrário
ficaria imediatamente preocupada se ela estaria sentindo alguma coisa ou se
44
algo lhe faltava. Violeta oscilava continuamente nesses diferentes sentimentos –
entre o amor e o ódio originado por esses entes queridos.
Na Conferência 33, das Novas Conferências Introdutórias sobre
Psicanálise, denominada por Freud “Feminilidade”, ele menciona sobre o
percurso da identificação da menina com a mãe em duas fases - pré e pósÉdipo e seus resquícios no desenvolvimento feminino. (Freud, 1932, p. 164)
Pensamos que os conflitos apontam para uma não resolução do conflito
edípico na paciente. Violeta identificava-se com o pai através da enorme
admiração por este, que ajudou, financeiramente, muitas pessoas que hoje estão
em situação melhor que eles. Para confessar em seguida - que ele era generoso,
mas muito duro nas palavras.
Como já nos referimos anteriormente, quando recorda esses episódios
vivenciados, a paciente deslizava na ambigüidade de sentimentos em relação as
figuras parentais, sem se dar conta disso. Ele é generoso, mas muito mesquinho
com relação a esposa. A não concordância com a separação da mulher implica
em não ter que dividir os bens comuns.
Essa problemática edipiana também comparece quando revela que das
filhas, somente ela tem interesse em saber dos negócios do pai. Conforme
Freud assinalara, “as meninas permanecem no complexo de Édipo por um
tempo indeterminado, destroem-no tardiamente e, ainda assim, de modo
incompleto”. (Freud, 1932, p.159)
Outro fator que aparece ao longo do atendimento clínico, diz respeito a
triangulação já observada por ocasião do desencadeamento do complexo de
Édipo. Nas relações estabelecidas pela paciente essas três figuras estão sempre
presentes, assim os triângulos são compostos: Violeta/avó/pai, avó/Violeta/mãe,
45
pai/Violeta/madrasta,
mãe/avó/madrasta
pai/mãe/madrasta,
pai/Violeta/namorado. Como observou Berlinck a respeito de triangulações
conflituosas num relato de uma paciente histérica:
“(...) à maneira como ela se insere no complexo edípico que se expressa na
sua constante referência a um triângulo materno-paterno (...) Maria está
inserida, portanto, sempre em relações triangulares que se caracterizam
pelo conflito”. (Berlinck, 1997, p.38-39)
A sexualidade vem aparecer no relato clínico através dos personagens
que fazem o que a paciente não consegue fazer na pele dela mesma - dizer para
o namorado que o ama ou externar seu amor pela mãe, beijando-a,
demonstrações que não eram permitidas em sua família. A sexualidade também
estava nos personagens desembaraçados e insinuantes que atraíam os rapazes
no colégio e que a afastavam de possíveis amigas que sabiam ser aquilo tudo
fingimento - como a espanhola, construída com o objetivo de conseguir
emprego num shopping.
Os personagens possuem traços singulares – são meigas, porém com
desenvoltura, sedução e têm desembaraço no trato das questões sexuais (o que
por certo faltava à paciente), o que era motivo de certo orgulho por parte de
Violeta. Pensamos que esses personagens manifestavam a sexualidade
recalcada durante sua vida inteira. Da vida sexual com o namorado depreendese que este não era o homem que a “caliente” espanhola desejava.
Pensávamos que papel teriam estas enigmáticas personagens de Violeta
que nos deixavam confusa, entretanto sem acreditar que houvesse um
comprometimento maior da psique de nossa paciente.
46
No trabalho “O Ego e o Id”, Freud fala de inúmeras identificações que
se apoderam do ego ocasionando conflitos nesta instância, assim observando:
“ Embora isto seja uma digressão de nosso objetivo, não podemos evitar
conceder nossa atenção, por um momento mais, às identificações objetais
do ego. Se elas levam a melhor e se tornam numerosas demais,
indevidamente poderosas e incompatíveis umas com as outras, um
resultado patológico não estará distante. Pode ocorrer uma ruptura do ego,
em conseqüência de as diferentes identificações se tornarem separadas
umas da outras através de resistências; talvez o segredo dos casos daquilo
que é descrito como ‘personalidade múltipla’ seja que as diferentes
identificações apoderam-se sucessivamente da consciência. Mesmo quando
as coisas não vão tão longe, permanece a questão dos conflitos entre as
diversas identificações em que o ego se separa, conflitos que, afinal de
contas, não podem ser descritos como inteiramente patológicos”. (Freud,
1923, p.45)
Violeta passava por conflitos relacionados com suas identificações,
dado ter dificuldades no enfrentamento desses conflitos. A ação do
recalcamento sobre as fantasias proporcionava a angústia traduzida na
impossibilidade de poder, da hesitação e do medo constantes.
No trabalho “Inibições, Sintoma e Angústia”, Freud esclarece, “a
angústia neurótica é a angústia por um perigo desconhecido. O perigo neurótico
é assim um perigo que tem ainda de ser descoberto”.(Freud, 1926, p. 190)
47
Prosseguindo em seu raciocínio conclui:
“a análise tem revelado que se trata de um perigo pulsional. Levando esse
perigo que não é conhecido do ego até a consciência, o analista faz com
que a angústia neurótica não seja diferente da angústia realística, de modo
que com ela se pode lidar da mesma maneira. (...) Existem duas reações ao
perigo real. Uma reação afetiva, uma irrupção de angústia. A outra é uma
ação protetora. O mesmo presumivelmente se aplicará ao perigo pulsional.
Sabemos que as duas reações podem cooperar de forma apropriada, uma
dando o sinal para que a outra surja (...) A angústia, por conseguinte, é, por
um lado, uma expectativa de um trauma e, por outra, uma repetição dele
em forma atenuada. Assim os dois traços de angústia que notamos têm uma
origem diferente. Sua vinculação com a expectativa pertence à situação de
perigo, ao passo que sua indefinição e falta de objeto pertencem à situação
traumática de desamparo - a situação que é prevista na situação de perigo”.
(Freud, 1926, p 190-191)
No bojo do que vimos até aqui, temos alguns questionamentos, tais
como: o medo sem objeto, ou melhor, pode a angústia ter sido suscitada pelo
recalcamento de seus desejos durante grande parte de sua infância? A inibição
seria causada pelo fato de a paciente ter abandonado diversas vezes os
empreendimentos que iniciava? Ou era mais de um desses fatores relacionados?
A baixa tolerância a críticas contribuiu para o desencadeamento desses
conflitos ? Qual foi o desejo que Violeta renunciou?
48
Como Freud tão bem formulou em “Inibições, Sintomas e Angústia”
sobre a sintomatologia do seu paciente Hans: “o inexplicável medo de ‘Little
Hans’ por cavalos era o sintoma e sua incapacidade de sair à rua era uma
inibição, uma restrição que o ego do menino impusera a si mesmo a fim de não
despertar o sintoma de angústia”. (Freud, 1926, p. 123). Pensamos o que
poderia ter concorrido para o aparecimento dessa sintomatologia em Violeta.
Nossa pesquisa bibliográfica em Freud sobre a identificação, na busca
do aprofundamento da reflexão sobre a problemática da identificação na
constituição do sujeito, teve continuidade com alguns trabalhos apontados no
“Vocabulário da Psicanálise”, tais como: “Totem e Tabu”, “Sobre o
Narcisismo:
uma
introdução”,
e
algumas
das
“Novas
Conferências
Introdutórias sobre a Psicanálise”, especialmente as Conferências 31 – “A
Dissecção da Personalidade Psíquica” e a 32 – “Angústia e Vida Pulsional”,
que pensamos contribuirem para o desenvolvimento deste tema.
Segundo Laplanche & Pontalis, a identificação:
“é o processo psicológico pelo qual o indivíduo assimila um aspecto, uma
propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente,
segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e diferencia-se
por uma série de identificações”. (Laplanche, 1998, p. 226)
Este conceito vai crescendo na obra de Freud, alcançando uma
importância fundamental que faz da identificação “mais do que um mecanismo
psicológico entre outros, a operação pela qual o indivíduo humano se
constitui”. Laplanche assim pontua:
49
“ Esta evolução é principalmente correlativa da colocação em primeiro
plano do Complexo de Édipo nos seus efeitos estruturais, e também da
remodelação introduzidas pela segunda teoria do aparelho psíquico, em
que as instâncias que se diferenciam a partir do id são especificadas pelas
identificações de que derivam. No entanto, a identificação tinha sido
desde muito cedo invocada por Freud, principalmente a propósito dos
sintomas histéricos”. (Laplanche, 1988, p.227)
O “Vocabulário da Psicanálise” vai ressaltar as diversas contribuições
ao conceito de identificação tais como: 1) a noção de incorporação oral no
período de 1912-15; 2) a dialética que liga a escolha narcísica de objeto à
identificação, através do relevo dado a noção de narcisismo; 3) os efeitos do
complexo de Édipo sobre a estruturação do indivíduo, em que os investimentos
nos pais são abandonados e substituídos por identificações - presença da
ambivalência relativa ao objeto, essencial a constituição de qualquer
identificação; e 4) enriquecimento e importância crescente da noção de
identificação, com a elaboração da segunda tópica - as instâncias “já não são
descritas como sistemas em que se inscrevem imagens, recordações,
‘conteúdos’ psíquicos, mas como resquícios, em diversas modalidades, das
relações de objeto”. (Laplanche, 1988, p.228)
Freud
já
ressaltara
que
as
identificações
“são
processos
insuficientemente conhecidos e difíceis de descrever”, até porque estas
descrevem as mais antigas expressões da relação emocional com outra pessoa, e
sua fundamental importância na origem do complexo de Édipo. Em
“Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921), debruçou-se sobre o tema da
identificação no Capítulo VII, desenhando-a desde as primeiras relações
50
parentais com toda a ambivalência que permeia essas relações, traduzidas pela
expressão tanto de amor e ternura quanto pelo ódio e rivalidade.
Neste trabalho, Freud aponta três formas de identificação: a primeira
identificação emocional com o objeto; a segunda identificação por introjeção do
objeto ao ego e a terceira, do surgimento com qualquer nova percepção.
Entendemos que na primeira identificação não exista diferenciação do ego e do
objeto, mãe e filho são objeto único de amor e realização de desejos mútuos de
complementaridade. Na segunda forma de identificação, a criança já passou
pelo complexo de Édipo e a castração,
os processos fundamentais na
constituição do ego. Frente ao limite dado pela autoridade paterna, da
impossibilidade de realização do desejo incestuoso e diante da angústia da
castração, vai se configurando pouco a pouco a constituição do sujeito. A partir
dos traços identificatórios com mãe e pai, vai originar-se o ideal de ego, como
forma de preservação do amor dessas figuras significativas, dentro do
indivíduo, introjetadas nessa instância.
A terceira e última forma seriam
aquelas vivenciadas ao longo da vida que não deixam de ser reminescentes
daquelas primeiras identificações.
Sabemos que as relações, desde os primórdios, estão fundamentadas nos
afetos e na forma como nos relacionamos com aqueles com quem convivemos,
as primeiras figuras que cuidaram de nós, que podem ser desde pai e mãe ou
aquelas pessoas que ocuparam o lugar destes. E o modelo para nossa vida
afetiva é sempre àquele correspondente ao que mais nos tocou pelo lado
afetivo, ou na identificação de traços comuns tanto fisicamente quanto
psíquicos.
Em Violeta, era mais fácil admitir a existência de traços identificatórios
51
com as figuras da avó e do pai, no que se refere às características
marcantemente perversas desses dois membros de sua família. Em algumas
situações relatadas no atendimento, a paciente ora ‘se divertia’ com as
maldades da avó, ora tinha a exata percepção do quanto estas a faziam sofrer.
Identificações, para Freud , são parte da dinâmica constitutiva do ego,
pois buscamos na identificação o reencontro com parte de nós que foi perdida.
Para que Violeta resolvesse a contento seu Édipo, ela precisaria se
desvincular da figura materna, da avó e do pai, ascendendo, assumiria seu
desejo por um objeto sexual. Seria ela mesma, independente das identificações
com os progenitores. Desvincular-se definitivamente dessas figuras, sem
contudo deixar de guardar perenemente muitos traços dessas importantíssimas
personagens fraternas.
Passaremos sucintamente pelas reflexões formuladas por Lacan, sobre
as identificações, em consonância com as transformações do pensamento
freudiano sobre esta noção.
A primeira identificação seria por “incorporação” com o Outro, de
quem se necessita algo, de quem demandamos amor, o que pressupõe um
necessidade de ser cuidado pelo outro. Seria uma identificação pré-edipiana, da
fase oral e que estava fundada na incorporação do objeto, devorando-o. Seria a
primeira forma de identificação, daí se efetivar através de ligação direta com os
pais. A segunda - identificação por regressão - é decorrente da dissolução do
complexo de Édipo. Neste caso, a identificação seria com parte do objeto
perdido. A terceira e última seria a identificação imaginária, chamada também
de identificação histérica, pois o sujeito deseja identificar-se com o desejo do
outro, o que lhe é garantido pela manutenção de um desejo permanentemente
insatisfeito. (Jean Florense, 1994, p.18)
52
Essas identificações com as instâncias parentais se repetem ao longo da
vida do indivíduo, Freud pontuara a ascendência dessa relação por toda a
existência humana, assim afirmando:
“a influência dos pais governa a criança, concedendo-lhes provas de amor e
ameaçando com castigos, os quais, para a criança, são sinais de perda de
amor e se farão temer por essa causa”. (Freud, 1932, p.80)
No livro “As identificações na clínica e na teoria psicanalítica”, no
capítulo intitulado “O real da identificação”, Julia Kristeva assim se expressa:
“O termo psicanalítico identificação engloba diversos estágios no
processo de subjetivação: identificação narcísica, identificação histérica,
identificação projetiva, identificação primária, ideal de ego...Se admito que
não sou nunca idealmente Um sob a Lei do Outro, toda a minha aventura
psíquica é feita de identificações falhas, de autonomias impossíveis nas
quais vêm se alojar o narcisismo, a perversão, a alienação”. (Kristeva,
1994, p. 48)
Pensávamos que as identificações parentais, em Violeta, ainda que
problemáticas, conflituosas, estavam ali colocadas exaustivamente em seu
relato clínico. Em sua fala, Violeta sempre ressaltava sua insatisfação com
quase tudo de sua vida, essa insatisfação também se presentifica na mãe que gostava de tantas coisas, entretanto só se ocupava em satisfazer os
desejos do pai, da avó, de todos os filhos, menos o seu desejo. Parecia não
haver tempo para se ocuparem delas mesmas.
53
Diante de todos esses aspectos, nosso interesse foi paulatinamente
sendo direcionado para a identificação histérica, em virtude de tudo que
nos era suscitado no decorrer do atendimento à paciente e nosso
entendimento do mesmo. Daí partilharmos do pensamento de Jean Florense
quando ressalta:
“a particularidade da identificação na histeria é estar a serviço de moções de
desejo contraditórias, ambivalentes, bissexuais. O sintoma representa ao
mesmo tempo algum traço da pessoa amada e do rival, imita a realização de
desejo do homem e da mulher, a atividade e a passividade. O jogo é
embaralhado e o eu, “tim-tim por tim-tim, perde o rumo e o seu latim”.
(Florense, 1994, p.119)
Aprendemos que uma forma de manter em nós, os antepassados,
desde as primeiras identificações é introjetando suas virtudes e
psicopatologias. Assim, é mantido o elo com estes e com suas doenças.
Freud já abordara esse tema desde 1897, no “Rascunho N”, reafirmando-o
mais tarde em 1917 com “Luto e Melancolia”, quando trata das pulsões
hostis contra os pais e o desejo de morte através de idéias obsessivas,
observando:
“(...) esses impulsos são recalcados quando a compaixão pelos pais é ativa
– nas épocas de sua doença ou morte . Em tais ocasiões é uma
manifestação de luto recriminar-se a si próprio pela morte deles (o que se
54
conhece como melancolia) ou punir-se a si mesmo de uma maneira
histérica (por intermédio da idéia de retribuição), com os mesmos estados
[de doença] que tenham tido”. (Freud, 1897, p. 272)
Assim se dá a identificação histérica, através da doença e dos
sintomas familiares. Mais tarde Freud ressaltará a relação entre a
melancolia e a neurose obsessiva, cuja investigação teve grande
importância, na posterior formulação da noção de identificação.
No trabalho que se ocupa da melancolia intitulado, “Dúvida
Melancólica, Dívida Melancólica, Vida Melancólica”, Urânia Tourinho
Peres assinala que:
“através das identificações que se estabelecem tanto no plano imaginário
como no plano simbólico, que o indivíduo se estrutura ao mesmo tempo
dentro de um padrão da espécie e se integra em uma imagem singular”.
(Peres, 1998 , p.38)
Segundo Peres, o olhar dos pais, o olhar que amorosamente acolhe
o bebê, dá-lhe reconhecimento, e, sem dúvida, é o que estabelece uma
imagem ideal tanto externa quanto internamente no psiquismo desse
indivíduo. Entretanto, sabemos que em muitos indivíduos que apresentam
problemas na esfera psíquica, freqüentemente, estes são decorrentes de
relações primordiais conturbadas.
Retomando a leitura de “As identificações na clínica e na
teoria psicanalítica”, Pierre Paul Lacas afirma:
55
“as identificações participam então do registro das comparações, das
imagens, das metáforas, na medida em que elas são sempre parciais,
dissociadas ou fragmentadas na expressão. Nunca podem atingir o ideal –
que seria assim uma fantasia – da identidade do ser como ele mesmo”.
(Lacas, 1994, p. 62).
Em Violeta, pensamos que coexistem traços identificatórios tanto
com o pai - de quem a paciente queixava-se de só receber críticas, quanto
da mãe e da avó. Nos apoiamos na hipótese freudiana de que as
identificações são ambivalentes desde a sua origem, daí se expressarem
tanto pela ternura como pelo desejo de afastamento de alguém. Violeta
percebia-os muito semelhantes, o que talvez fosse uma das razões porque
evitava o enfrentamento com eles. Isto se configurava quando nos revela
evitar levar sua única e verdadeira amiga à sua casa numa tentativa de
preservá-la dos ataques preconceituosos sobre a cor da pele desta.
Nos parecemos ou tomamos como modelo aqueles que admiramos
por alguma razão que, muitas vezes, desconhecemos conscientemente
quais. Repelimos e assimilamos inconscientemente virtudes, defeitos e
outros traços de nossos ancestrais e de pessoas com quem temos algum tipo
de relação.
Refletir sobre a identificação também propiciaria um retorno ao que
se compreende como ideal, e, que por se tratar de ideal está distante da
realidade, encontra-se a nível interno – da alma, do psíquico, no qual
também se aloja o desejo.
Falarmos das identificações de Violeta assume uma importância
muito maior, neste momento. Diríamos, neste caso, que o ato de escrever
56
está superinvestido por envolver sonhos, ideais e muitos outros afetos, daí
suscitar também o enfrentamento de resistências poderosas que insistiam
em obliterar nossas reflexões sobre a paciente.
Violeta não se negava a recordar, repetindo suas queixas, como que
repetindo, proporcionasse a ela uma compreensão mais adequada dessas
situações delicadas da dinâmica de sua família.
Como diz a canção de Djavan “recriar a luz que me trará você...”,
essa é uma das possibilidades que o desejo almeja – o alcance dos objetos
amados perdidos.
Piera
Aulagnier
no
seu
magnífico
trabalho
“Angústia
e
Identificação” revela:
“a angústia só pode ensinar-nos alguma coisa sobre sua natureza se a
considerarmos como conseqüência, como resultado de um impasse no
qual se encontra o ego, sinal para nós de um obstáculo surgido entre estas
duas linhas paralelas e fundamentais cujas relações formam a dobradiça
de toda estrutura humana: a identificação e a castração”. (Aulagnier,
1995, p.7)
É a partir da relação entre esses “dois pivôs estruturantes” – que a
autora irá buscar construir uma definição do que é a angústia .No próximo
capítulo desse trabalho, pretendemos focalizar a relação entre esses dois
fenômenos na histeria.
Um dos ensinamentos que Freud deixou com a teoria da castração
e do complexo de Édipo é que a resolução do Édipo implica em sobreviver
57
ao desapego dos ideais, abandonando algumas identificações já
estruturadas, incorporadas ao ego.
Para Ceccarelli, o mérito de Freud não está somente em ter
inaugurado uma teoria que desse conta apenas do inconsciente, mas
também a criação de preceitos que permitem a compreensão do psiquismo
humano, assim afirmando:
“dar sentido a certos fenômenos psíquicos até então obscuros, aliviando
assim o sofrimento – o sintoma que consome inutilmente a energia –
transformando o sofrimento neurótico na miséria humana cotidiana: sofrer
com o que é sofrível, e não sofrer para gozar”. (Ceccarelli, 1999, p. 52)
O
fracasso
e
a
contratransferencialmente
insatisfação
uma
da
paciente
nos
impunham
enfadonha
irritação
que
certamente
interferiu na escuta clínica .
Em “Totem e Tabu” (1912-13), Freud vai tratar especialmente de
dois temas: o totemismo e os tabus, bem como da origem da religião e da
moralidade. Freud vai falar do sistema de totemismo e da proibição de
relações sexuais entre os membros do mesmo totem, e o conseqüente
interdito de seus casamentos que, de alguma forma, asseguravam a
restrição ao incesto. (Freud, 1912, p.21)
Em seguida, vai se ocupar da criação dos costumes e das proibições
costumeiras – as chamadas “evitações entre parentes próximos” que tem
por objetivo maior a proteção contra o incesto entre esses grupos e que vão
regular as relações entre seus membros, dentre as quais as relações
ambivalentes entre um homem e sua sogra com todas as nuances
58
sentimentais que permeiam essa relação. E Freud prossegue, falando da
identificação da mãe com os filhos tornando suas as experiências
emocionais destes, e aponta que esse seria um ganho dos casais com filhos,
pois, assim, manter-se-iam no frescor da juventude. (Freud, 1912, p.3335)
Os pais desejam incessantemente que as experiências dos filhos
sejam melhor sucedidas de que suas próprias. Os filhos são, de alguma
forma, uma nova chance de tudo dar certo.
No segundo capítulo de “Totem e Tabu”, Freud irá dedicar-se ao
tabu - como sagrado, misterioso, perigoso, proibido, impuro, cujas
restrições são distintas das proibições religiosas ou morais. Em seguida,
aponta que a “identificação com o totem”, efetivada em ações e palavras
nas ocasiões cerimoniais do nascimento, da iniciação e do enterro. (Freud,
1912, p.130).
Freud irá concluir sua investigação insistindo que o resultado
mostra que as origens da religião, da moral, da sociedade e da arte estão
assentadas no complexo de Édipo, confirmando assim a premissa
psicanalítica de que ele é “o complexo nuclear das neuroses”.
Assim, o fortalecimento da identificação com o totem é o que
constitui a essência do totemismo. Sua importância reside ainda, na
hipótese do quarto ensaio quando trata da ordem primeva e da morte do pai
primitivo, e da origem posterior das instituições sociais, das restrições
morais e da religião. Neste momento da trajetória freudiana, a identificação
vai ser tomada: ‘como momento preliminar da escolha objetal ... a primeira
forma pela qual o eu escolhe um ‘objeto’, isto é, desejando incorporá-lo a
59
si, em seguimento a fase oral ou canibalista do desenvolvimento libidinal devorando-o. (Freud, 1917, p.273)
Adriana Leite, no trabalho intitulado “Em busca do sofrimento
histérico: a dimensão melancólica da histeria”, assim coloca:
“Na melancolia, o investimento objetal é abandonado, mas o amor por ele
não o é, levando o investimento para o refúgio de uma identificação
narcisista. Dessa forma, o ego satisfaz o seu sadismo contemplando seu
próprio sofrimento, ou melhor, contemplando o sofrimento da parte do
ego identificada com o objeto perdido” (Leite, 1999, p. 81)
Pensamos que o trabalho analítico também vai oportunizar a morte
do pai introjetado primitivamente, possibilitando uma vida menos
dependente dessas idealizações que tanto propiciam a ilusão passageira de
indivíduos felizes, afortunados, eternamente bem sucedidos, como acabam
por promover uma imobilidade bem característica da doença neurótica, ou
melhor dizendo, mantendo o sintoma a psicopatologia também se perpetua.
Retomando a Jean Florense no capítulo “As identificações” :
(...) “a identificação do sonho, a identificação do sintoma. Não são
imitação de outras pessoas: é preciso abandonar aqui uma descrição
psiquiátrica corrente dos “comportamentos” histéricos. As identificações
dependem dos processos primários, elas somente têm que criar “pessoas”:
se há personagens no romance histérico, são representantes da
representação pulsional: os significantes”. (Florense, 1994, p.122)
Em matéria da revista Veja, de 02.08.2000, denominada “O mais amado
60
e odiado do país”, cujo objeto é o repórter esportivo da Rede Globo, Galvão
Bueno e o seu jeito particular de narrar jogos, corridas de Fórmula 1, etc. e que
causa sentimentos ambivalentes em milhares de telespectadores que o ouvem
em todo Brasil. Dessa forma, os jornalistas responsáveis pela matéria traçam
comentários analisando e comparando-o a personalidades no mundo do rádio e
da tevê que fizeram história criando bordões ou que apelam para os efeitos de
voz nas transmissões para o público. Neste ponto, a matéria questiona “Por
que então, ele é querido por tantos torcedores e tão prestigiado pela Globo? A
resposta é: Galvão Bueno não narra. Ele torce. Igualzinho ao espectador na
frente da televisão. A identificação é inevitável”.
Pensamos ser este um exemplo atual e típico de identificação com parte
do objeto, neste caso de um lado a identificação do torcedor que gosta do jeito
característico que tem o jornalista não só de narrar, como sofrer junto com ele
(torcedor) quando o time está perdendo, e do outro, o torcedor que o odeia em
função de que por conta da emoção, ouve uma série de ‘abobrinhas’, que
muitas vezes não tem nada a ver.
Pensamos que a paciente vivenciava continuamente essa ambivalência
de sentimentos com relação a essas figuras femininas que como ela, não
podem, estão impossibilitadas porque não tem poder. E aí favorecem a essa
oscilação que na paciente se revela pela criação de uma identificação para si
mesma. Quando esta se dá conta que o pai não era o ideal de ego que ela
poderia tomar para si, e, que nas duas figuras femininas de quem ela poderia
introjetar tomando para si alguns aspectos positivos, pesava a questão da
solidão e do abandono das duas mulheres, por não terem sabido manter os
laços afetivos com os homens que amaram.
61
Ambas tinham histórias semelhantes, estavam sozinhas e isso era uma
das coisas que ela mais temia: Ter que ficar fazendo companhia às duas
mulheres solitárias... e juntar-se a elas de alguma forma.
Nossa suposição era de que, em Violeta, os laços identificatórios eram
muito tênues, denotavam fragilidade. Na identificação originavam-se parte de
seus conflitos, fantasias e recalques. Conflitos com a impossibilidade, com o
fracasso de poder ser ela mesma para vivenciar o que é verdadeiramente ser
uma mulher. As fantasias protegiam os desejos da ação do recalque, que por
sua vez desencadeavam nos sintomas.
62
5. A formulação da metapsicologia da angústia
Este texto sintetiza a pesquisa bibliográfica empreendida, no sentido de
estudar e conhecer os principais trabalhos de Freud, que fazem parte de seu
legado sobre a metapsicologia da angústia e à neurose de angústia. Procuramos
buscar os textos compreendidos, no período de 1892 e 1932, propostos por
Zeferino Rocha em “Os destinos da angústia na psicanálise freudiana”. (Rocha,
2000, p.10)
Desse período fazem parte: “Manuscrito E – Origem da angústia”
(1894); “Fobias e obsessões” (1895); “Sobre os critérios para destacar da
neurastenia uma síndrome particular intitulada “neurose de angústia” (1895);
“Resposta às críticas a meu artigo sobre a neurose de angústia” (1895);
“Rascunho N” (l897); “A sexualidade na etiologia das neuroses” (1898);
Conferência 23 - “Os caminhos da formação de sintomas”; Conferência 25 –
“A angústia” (1916-17); “Inibições, Sintomas e Angústia” (1926); Conferência
32 – “Angústia e vida pulsional” (1932) e Conferência 33 - Feminilidade.
A Conferência 32, bastante utilizada, na medida em que faz parte da
última fase, dos escritos de Freud, e sintetiza diversas idéias do autor sobre a
angústia e a neurose de angústia.
Utilizamos
também
para
melhor
ilustrar
nossas
idéias,
as
“Considerações teóricas de Breuer” (“Representações Inconscientes e
representações inadmissíveis à consciência – Divisão da Mente”), de 1899, por
fazer parte da primeira fase dos escritos de Freud sobre a histeria, em parceria
com Breuer. Finalmente, gostaríamos de ressaltar que parte desta pesquisa foi
63
mediada pelo trabalho de Zeferino Rocha em “Os destinos da angústia na
psicanálise freudiana”, além de textos apontados nas Obras Completas em cdrom, um recurso para levantar as referências freudianas sobre a noção de
angústia.
Como falar de um sentimento que aflora, que toma conta do sujeito
inesperadamente sem mesmo dar condições a este de conscientemente se
defender ou tentar livrar se de alguma maneira deste “ataque” sem que tenha
que fazer um sintoma neurótico? Dizemos isso porque Violeta tinha
dificuldades e não sabendo como lidar com essas, em situações em que se via
angustiada, criava um sintoma - seus personagens, que a tiravam do estado de
desprazer vivenciado naqueles momentos.
Freud já salientara em 1897, no seu artigo “Resposta às críticas do meu
artigo sobre neurose de angústia” que :
“os ataques de angústia ocorrem em ocasiões definidas; quando o paciente
evita essas ocasiões ou consegue paralisar sua influência por meio de
alguma precaução, fica isento dos ataques de angústia quer se entregue
regularmente ao coito interrompido ou à abstinência, quer goze de uma
vida sexual normal”. (Freud, 1895, p. 128)
Com base na fala da paciente, pensamos que ao criar um personagem
Violeta sentia-se menos angustiada, como se o sintoma (o personagem) lhe
conferisse um poder do qual ela não poderia abrir mão, caso contrário ficaria
totalmente desprotegida.
Repetindo o que já havia anunciado na Conferência 25 – “A angústia”,
64
das Conferências Indrodutórias sobre a Psicanálise, Freud na Conferência 32,
denominada “Angústia e Vida Pulsional”, descreve a angústia como:
“um estado afetivo – isto é, uma combinação de determinados sentimentos
da série prazer-desprazer, com as correspondentes inervações de descarga,
e uma percepção dos mesmos, mas, provavelmente, também como um,
precipitado de um determinado evento importante, incorporado por herança
– algo que pode, por conseguinte, ser assemelhado a um ataque histérico
individualmente adquirido”. (Freud, 1932, p.103)
A angústia funciona como se um alerta fosse disparado diante de uma
situação de perigo em que a pessoa tem duas alternativas: fugir ou defender-se.
A angústia tem como objetivo a defesa do ego diante dos perigos ameaçadores
de sua integridade. Todos nós, os humanos, somos assolados pela angústia
porém, é muito difícil falar dela, posto que é inespecífica , indecifrável,
enigmática, fugidia como que conspirando para que não pudéssemos
descortiná-la para aqueles que também a conhecem e a referem na clínica como
o seu “pior sofrimento”.
Freud demonstrou-nos que a angústia faz parte do desenvolvimento
humano, da constituição do sujeito. Ele já se deparara com ela no tratamento
das suas “geniais” histéricas.
No seu didático roteiro sobre “Os destinos da angústia na psicanálise
freudiana”, Rocha afirma que angústia subsiste a dois momentos: um em que se
inscreve no corpo (com a histeria) e outro em que além do corpo ela se insere
no psiquismo (com a neurose de angústia), denominando-a de “sombra do ser”,
assim refletindo suas idéias:
65
“Dir-se-ia que, na sua dimensão mais profunda, esta misteriosa e
enigmática sombra é um símbolo da experiência do “nada” que a angústia
nos revela, uma espécie de sombra que se destaca do ser, e, ao mesmo
tempo, o envolve com seu enigma. “Sombra do ser”, a angústia de tal
modo adere à nossa existência, que ninguém dela pode esquivar-se, da
mesma forma como ninguém pode saltar por cima de sua própria sombra”.
(Rocha, 2000, p.17)
No mesmo trabalho, Zeferino Rocha vai pontuar três momentos na
trajetória freudiana no trabalho com a angústia: no primeiro, um dos escritos
que compõem a primeira fase da metapsicologia, no qual se incluem os
“Manuscritos enviados a Fliess”, que abrange o período de 1892 a 1900. A
segunda etapa está situada no período da primeira sistematização da teoria
psicanalítica - de 1900 a 1920, e a terceira, que corresponde aos últimos
escritos : de 1920 a 1938. Nesta perspectiva, será a angústia que provocará o
recalque e não o recalque que ocasionaria a angústia como pensou Freud
anteriormente. No entender de alguns estudiosos, este período marca o trabalho
mais profícuo sobre a metapsicologia da angústia. Nesta final de sua trajetória,
Freud vai fazer uma reflexão sobre a angústia, após a 2ª Tópica – com a teoria
do eu e das instâncias ideais e vai expor suas idéias sobre a pulsão de morte.
Para a análise do caso clínico aqui proposto, trataremos da angústia de
castração, porta de entrada do Édipo feminino e que pensamos tem o objetivo
semelhante ao de um ritual de passagem para uma outra etapa do
desenvolvimento da mulher: a entrada no chamado mundo feminino
propriamente dito.
66
A angústia na concepção freudiana tem relação com o horror que é para
a criança ver-se diante de tão inominável ameaça que é perder o símbolo maior
de poder e de cobiça – o pênis. Isto porque para a menina o impacto é maior,
uma vez que constata aquilo que já suspeitava – ter nascido sem o que
representa esse poder e ainda mais, ter não só que abandonar como também
mudar de objeto de amor, deslizando da figura materna para a paterna.
Nasio ratificando o ensinamento freudiano, pontua que “o tratamento da
histérica consiste em levar o analisando a atravessar com êxito a prova da
angústia de castração”. A castração e a passagem pelo Édipo são primordiais,
juntemos a eles o recalque e teremos a origem não só a histeria, como também a
de outras manifestações neuróticas. (Nasio, 1991, p.85).
Na Conferência 32, “Angústia e Vida Pulsional”, das Novas
Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Freud proporá uma nova
orientação para a tese de que “o ego é a única sede da angústia” – e que apenas
nessa instância é possível produzir e sentir angústia, com isso acarretando um
direcionamento de vários pontos de vista por ele defendidos e consolidando
algumas idéias, entre as quais aquela que a angústia antecipa um perigo, na
análise de casos em que ocorrera o recalcamento de desejos decorrentes do
complexo de Édipo.
Assim, na neurose, os sintomas exerciam a função de serem
substitutivos desses desejos inconscientes recalcados. Os desejos, que
originaram sintomas sob a forma de afeto ou medos intensos, são as mesmas
idéias que retornam à consciência, desta feita disfarçados, a fim de não serem
alvo do recalque. Isso remete a Freud quando afirmou que “o perigo pulsional
interno se revelaria fator determinante e preparação para uma situação de
perigo externo, real”. (Freud, 1932, p.109)
67
Falaremos aqui da angústia neurótica que tanto traz o sofrimento quanto
a insatisfação e que tem relação com um perigo que precisamos desvendar.
Vivência que põe o homem frente ao seu desamparo constitucional, à limitação
dos seres humanos, entretanto permite que o homem questione sobre sua
existência, oportunizando uma melhoria em sua forma de encarar esses limites.
Para Freud “o desenvolvimento do ego consistiria em distanciar-se do
narcisismo primário perturbado pela castração” – reconhecimento de uma
incompletude que desperta o desejo de recuperar a perfeição narcísica –
fazendo-se amar para reconquistar seu amor.
Como aprendemos, a angústia tem uma relação muito especial com o
corpo, pois que este serve como expressão dos afetos. Foi assim desde os
primeiros escritos de Freud sobre os quadros de histeria de que se ocupou
Breuer, o próprio Freud e Charcot. O exemplo mais contumaz, de modo de
representação dessa psicopatologia, são as conversões histéricas em que a
linguagem afetiva se vê inscrita no corpo.
Wilson Klain ratifica essa premissa freudiana quando acrescenta “a
angústia emerge quando não há palavra para simbolizar”. (Klain, 1998, p. 13)
Quando o homem não dá conta de expressar a linguagem dos afetos, ele se
angustia.
Neste ponto de sua formulação teórica sobre a angústia, Freud falará
pela primeira vez em inconsciente, que ocupa dentre suas reflexões teóricas, o
mais polêmico e revolucionário de seus legados à humanidade.
É no inconsciente que se origina grande parte da vida psíquica dos
indivíduos. No psiquismo, vamos encontrar o espaço, no qual brotam suas
fantasias, medos e conflitos, em que a angústia e os dramas vivenciados pelo
68
homem vão se instalar. O perigo, a ameaça é tanto externa quanto interna.
A angústia é acionada, digamos assim, diante de uma perspectiva
ameaçadora. Na infância, essas ameaças são de várias ordens: medo da perda
do amor materno quando a criança não se comporta adequadamente de acordo
com o desejo dos pais ou da mãe principalmente; nos meninos; ameaça externa
ao visualizar a ausência do pênis nas mulheres e a perspectiva de vir a perder
efetivamente esse membro; ameaça concreta de amputação desse membro por
um adulto, face a prática masturbatória. A angústia também perpassa por uma
deficiência no narcisismo dos indivíduos que o impedem de se sentirem
amparados nas vicissitudes e perdas ao longo de suas existência.
Sabemos que durante o processo evolutivo, o ego vai sendo preparado
gradativamente para a castração, nas inúmeras vivências de perdas afetivas
continuamente vivenciadas desde a separação primeira, por ocasião do parto.
Desse medo da perda do amor dos pais, originário na infância, decorrem todos
os outros momentos que são revividos como situações de separação e que têm
relação, de alguma forma, com a dor e o luto que o momento da castração
representa.
A castração que insere a lei no psiquismo, relembra nos pais a perda do
objeto amado da infância distante. Freud ressaltara o perigo interno, como o
maior, de vez que o sujeito teme a confrontação com sua própria libido
enquanto energia, de tamanho e vigor incomensuráveis, que é preciso controlar.
A angústia seria “repetição da antiga experiência traumática”, a ponto
de Freud ainda na Conferência 32, comparar a experiência do nascimento a um
ataque histérico, assim refletindo:
69
“O evento que consideramos como tendo deixado atrás de si uma marca
dessa espécie é o processo do nascimento, ocasião em que os efeitos sobre
a ação do coração e sobre a respiração, característicos da angústia, foram
efeitos adequados”. (Freud, 1932, p.103-104)
A experiência do nascimento é considerada como vivência traumática
para o bebê. De acordo com essa reflexão, a angústia realística seria “uma
reação, que nos parecia compreensível, face a um perigo — isto é, reação a um
dano esperado, de fora, —
ao passo que esta, a angústia neurótica, é
completamente enigmática, e parece despropositada”. Seu objeto não é
visivelmente identificado. (Freud, 1932, p.104)
Freud vai explicando didaticamente que a angústia realística seria :
“ um estado de preparação para um estado de angústia, com possibilidade
de duas vertentes: a primeira quando acontece a repetição da antiga
experiência traumática, que é marcada por um sinal em que pode haver
uma adaptação, à nova ameaçadora ou resultarem fuga ou defesa”. (Freud,
1932, p. 104)
Segundo Freud, também pode acontecer o domínio de uma situação
anterior, caso em que o afeto vai tornar-se “paralisante e inadequado para os
propósitos atuais”.
A angústia, dizia Freud :
70
“é flutuante enquanto apreensão difusa, e, sob a forma de angústia
expectante, que pode ligar-se a determinadas idéias – como nas fobias em
que predomina um medo exagerado em demasia ou como nos casos de
histeria ou neuroses graves, acompanhada de sintomas durante os ataques,
caracterizados por não terem uma prova concreta de perigo externo”.
(Freud, 1932, p. 109)
A experiência clínica fez com que Freud observasse que a angústia
originava o recalque, exemplificando-a com os casos em que o que era
recalcado decorria dos impulsos do complexo de Édipo. O fato de o menino
estar apaixonado pela mãe significa um perigo interno que precisaria ser
dizimado. Para afastar da consciência este desejo, o menino renuncia ao objeto,
vez que este causa uma situação externa de perigo - a punição através da perda
do pênis. E Freud confessa “não estávamos preparados para constatar que o
perigo pulsional interno se revelaria fator determinante e preparação para uma
situação de perigo externo, real” (Freud, 1932, p.109).
Falar de angústia é sinônimo de falar de temor, de medo, de desamparo,
inquietação, agonia, palpitação, aperto, sufocação, preocupação, contudo é bom
que ressaltemos que, quando falamos de medo, referimo-nos a um afeto
específico, concretamente falando, porquanto tem um objeto. Falamos do medo
de alguma coisa, tal como: barata, rato, de avião, de altura, enquanto que o
aperto, a palpitação não têm relação aparente com algo que conhecemos. É o
que Freud chamou de “angústia neurótica” porque se refere a uma ameaça
indefinida, indecifrável, indeterminada. (Freud, 1932, p.104).
71
Desde 1893, já no Rascunho B, Freud assinalara que “a neurose de
angústia surge sob duas formas: como um estado crônico e como um ataque de
angústia”. As duas formas podem compatibilizar-se; de forma que, um ataque
de angústia nunca ocorre sem sintomas crônicos: hipocondria, agorafobia,
claustrofobia, vertigem de lugares altos, etc. (Freud, 1893, p 260)
Isso nos remete ao discurso de Violeta, no momento em que relatava
um medo intransponível. Poderíamos supor que esse tipo de angústia se origina
internamente, pois nas queixas da paciente era muito comum aparecer a
declaração de sua fragilidade quando dizia ser “muito difícil” livrar-se de seus
medos. Continuamente, ela se referia à sua dificuldade em confrontar-se com
suas limitações. Nas horas em que se deparava com suas identificações
conturbadas, Violeta se angustiava e em defesa do seu ego emergiam os
personagens, inventados por ela para se ver livre desses ataques iminentes.
Pensamos que os personagens eram sua alternativa de defesa. Nenhum
vestígio de tentar enfrentar a dificuldade, fazer com que o sentimento de
angústia não a dominasse ou mesmo fosse ventilada a possibilidade de vencêla. Será que Violeta conseguiria lidar melhor com suas limitações, insatisfações
ou com sua castração ? Nos questionávamos muito sobre tudo isso.
Essas questões também nos levaram a refletir sobre as fantasias, sonhos
e o que possuem em comum com os castelos de areia. Penso que deva existir
ponto comum entre os castelos de areia e os nossos sonhos, nossas fantasias,
com tudo que imaginamos sobre nossa vida, fazer planos. Muitos sonhos e
desejos, nós conseguimos realizar, mas muitos outros se perdem ao longo de
nosso caminho.
Visualizando a imagem de um castelo de areia, observamos que, à
72
medida que vamos acrescentando areia molhada e que o castelo vai ficando
maior, a possibilidade de ele ruir aumenta. Então, é preciso muita cautela na
ocasião que se acrescenta mais areia ou na melhor das alternativas, ter claro a
hora de parar, ou melhor dizendo: reprimir o desejo de ver o castelo cada vez
maior, partindo para a construção de outros castelos ou dar-se conta do risco
corrido, de ver a qualquer momento o castelo ruir e ter de refazê-lo.
Identicamente, nossos sonhos se desfazem, são refeitos, outros desistimos,
abandonamos, bem como alguns, perseguimos arduamente e a sensação de
sempre estar faltando um pedaço, como já disse Djavan, é nosso destino mais
que certo. Nossa única certeza é a morte, pensamos. É que a angústia também
denota um medo de aniquilamento, cujo precedente seria o medo da morte.
Freud, na Conferência 23, “Os caminhos da formação dos sintomas”,
das Conferências Introdutórias sobre Psicanálise observara que :
“Os sintomas — e, naturalmente, agora estamos tratando de sintomas
psíquicos (ou psicogênicos) e de doença psíquica — são atos, prejudiciais,
ou, pelo menos, inúteis à vida da pessoa, que por vez, deles se queixa como
sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal
dano que causam reside no dispêndio mental que acarretam, e no dispêndio
adicional que se torna necessário para se lutar contra eles. Onde existe
extensa formação de sintomas, esses dois tipos de dispêndio podem resultar
em extraordinário empobrecimento da pessoa no que se refere à energia
mental que lhe permanece disponível e, com isso, na paralisação da pessoa
para todas as tarefas importantes da vida”. (Freud, 1916-17, p.419)
73
Violeta queixava-se dos prejuízos a que estava submetida pelos
fracassos constitutivos de sua história, entre os quais a tristeza de revelar que
não havia concluído o segundo grau, o que dificultava ainda mais seus planos
de possuir independência financeira para dirigir os rumos de sua vida.
Ainda na Conferência 23, sobre as vivências infantis e sua interferência
no psiquismo posterior, Freud salienta:
“As neuroses de crianças são muito comuns, muito mais comuns do que se
supõe. Muitas vezes, elas deixam de ser notadas, são consideradas sinais de
uma criança má ou arteira, muitas vezes, também, são mantidas em estado
de sujeição pelas autoridades responsáveis pelas crianças; porém, sempre
podem ser reconhecidas, retrospectivamente, com facilidade. Em geral,
surgem sob a forma de histeria de angústia”.
E prosseguindo:
(...) “Se uma neurose emerge posteriormente na vida, a análise revela,
regularmente, que ela é continuação direta da doença infantil, que pode ter
aparecido como sendo apenas um indício velado. Entretanto, conforme eu
disse, há casos em que esses sinais de neurose na infância continuam
ininterruptamente numa doença que dura toda a vida”.( Freud, 1916-17, p.
425)
74
Pensamos que esses conflitos remontam às
primeiras fases do
desenvolvimento infantil da paciente, supomos que essas fases problemáticas
por sua fixação, localizam-se anteriormente à castração e ao complexo de
Édipo, e, que provavelmente passaram despercebidos de seus familiares, que
segundo ela, só se ocupavam em criticar suas falhas e derrotas.
Ainda permanecendo com a Conferência 23, Freud salienta:
“os mesmos processos pertencentes ao inconsciente têm seu desempenho
na formação dos sintomas, tal qual o fazem na formação dos sonhos – ou
seja, condensação e deslocamento. Um sintoma, tal qual um sonho,
representa algo como já tendo sido satisfeito: uma satisfação à maneira
infantil. Mediante uma condensação extrema, porém, essa satisfação pode
ser comprimida em uma só sensação ou inervação, e, por meio de um
deslocamento extremo, ela pode se restringir a apenas um pequeno detalhe
de todo o complexo libidinal. Não é de causar surpresa se também nós,
muitas vezes, temos dificuldade em reconhecer num sintoma a satisfação
libidinal, de cuja presença suspeitamos e que invariavelmente se
confirma”. (Freud, 1916-17, p. 428)
Também já ensinara desde 1914, em “A história do movimento
psicanalítico” que “a teoria do recalque é a pedra angular sobre a qual repousa
toda a estrutura da psicanálise”, tal sua importância na metapsicologia
freudiana. (Freud, 1914, p. 165). E um detalhe importantíssimo, geralmente o
recalque só tem efeito provisório, uma vez que a idéia, inadmissível à
consciência, é removida temporariamente, retornando imediatamente quando
possível, bastando que seu guardião se distraia no trabalho de contenção. O que
não é nem um pouco difícil.
Retornando à Conferência 32, Freud descreve o medo que estranhos
despertam nas crianças e que o processo de excitação que essas passam nestas
ocasiões, desperta nelas, a angústia. Estas crianças são acometidas por não
75
terem condições de controle da excitação libidinal transformando essa
excitação em angústia. E vai ser chamada de “angústia neurótica”, pelo fato de
que, neste caso, a libido enquanto energia, é transformada diretamente em
angústia. O afeto - tanto o amoroso, como o agressivo - não ligado a nenhuma
idéia desencadeará a angústia.
Estes processos que ocasionam a angústia neurótica decorreriam de três
fatores: a) tanto por imaturidade do ego na infância; b) devido a processos
somáticos da vida sexual, a exemplo da neurose de angústia
e, c) em
decorrência do papel do recalque na histeria. Vale ressaltar que Freud acentuou
os aspectos sexuais tanto na histeria quanto na neurose de angústia. (Freud,
1932, p.105-106)
Neste período constatou a relação entre angústia e a formação de sintomas,
assim expressando suas idéias tomadas da experiência terapêutica:
“Se impedimos um paciente de executar seu ritual de ablações, ele cai
num estado de ansiedade que acha difícil suportar e do qual,
evidentemente, se tinha protegido por meio de seu sintoma. E parece, com
efeito, que a geração da ansiedade é o que surgiu primeiro, e a formação
dos sintomas, o que veio depois, como se os sintomas fossem criados a fim
de evitar a irrupção do estado de ansiedade”. ( Freud, 1932, p.106)
Em Violeta, existia um sintoma
freqüente (náuseas na hora de
escovar os dentes e/ou na do café da manhã) que supomos serem decorrentes
das situações aflitivas que se via confrontada por ocasião das refeições tanto à
mesa de sua casa como na residência do namorado, pois dizem respeito a
assumir seu desejo sexual diante da família do namorado. Nessas situações as
famílias se reuniam e cobravam-na a conclusão de seus investimentos mais
recentes, como uma nova aula de dança, um novo curso por concluir etc, o que
a deixava muito “mal” perante todos, fazendo com que ela continuamente
evitasse esses encontros. Resolvia isso dormindo, sempre, até mais tarde e,
76
assim se defendia dos ataques externos. Todavia, os ataques internos
permaneciam.
Alguns sintomas em Violeta fizeram com que nos voltássemos para o
trabalho “Representações inconscientes e representações inadmissíveis à
consciência”, no qual Breuer reflete:
“Suponhamos, por exemplo, que alguém tenha experimentado um afeto
violento durante uma refeição e não o tenha “ab-reagido”. Ao tentar
comer, mais tarde, ele é dominado por engasgos e vômitos e estes lhe
parecem sintomas puramente somáticos (...) Não há dúvida que cada
tentativa de comer evocava a lembrança em causa (...) Essa lembrança deu
origem aos vômitos, mas não surgiu claramente na consciência “pois
estava então destituída do afeto, enquanto os vômitos absorviam a atenção
inteiramente”. (Breuer, 1899, p 228).
Isto nos leva a supor que, da mesma forma em Violeta, a sensação de
enjôo no horário matinal estaria relacionada a algo que lhe foi profundamente
desagradável, sem prazer e porque não dizer traumático, que fizeram com que
ela evitasse essas reuniões familiares tanto em sua família como na de seu
namorado, que aponta para não poder assumir seu desejo sexual perante os
familiares do namorado.
Em “Inibições, sintomas e angústia”, Freud nos remete a esse tipo de
sintoma, quando afirma “que toda inibição que o ego impõe a si próprio pode
ser denominada de sintoma”, visto que objetiva a satisfação do ego. Ou dito de
outra forma, quando o indivíduo produz um sintoma, ele também está
protegendo o ego de um estado gerador de angústia. (Freud, 1926, p.168). As
77
identificações conflituosas de Violeta
colocavam-na
em situações de
exacerbada aflição, por lhe faltarem nos momentos em que deveriam
justamente se presentificar.
Violeta
colocava
em
seus
personagens
uma
característica
marcantemente faltosa em seu psiquismo – a coragem para concluir coisas, para
enfrentar suas limitações pessoais. No entanto, apesar de extremamente
medrosa, não era humilde, como poderíamos supor. Pensamos que um forte
traço identificatório, certa arrogância vislumbrada na avó, era revelado em
certos momentos de rebeldia por não se submeter às regras impostas pela
mencionada senhora e o pai. Em algumas ocasiões que a enfrentava, logo em
seguida saía correndo com medo do que viesse a acontecer-lhe mais tarde. De
qualquer forma, não podemos deixar de pensar que ela enfrentava as regras de
moralidade impostas pela avó, quando se autorizava a viver em duas casas
diferentes como seu pai fazia. Sua auto imagem nem sempre era boa. Superavase quando falava de si através de seus personagens maravilhosos.
Os desejos têm sua origem nas primeiras relações, com as pessoas por
quem o sujeito foi acolhido quando nasceu. A relação parental oportuniza o
estabelecimento dos ideais, que são parte daquilo que constitui o sujeito.
Freud revela que suas buscas desaguaram na relação significativa entre
a angústia e a formação de sintomas, admitindo que na neurose de angústia o
medo é reconhecido, uma vez que atua como fator preponderante no processo
de castração. Observa também, que as fobias são conseqüência de uma situação
aflitiva, angustiante com características próprias em que ela funciona como que
impedindo a situação desagradável proporcionada pela angústia.
78
Isto nos remete aos casos de fobia de elevador, fobia de cachorro, e
como já citamos, Violeta tinha “verdadeiro pavor” de dormir no escuro, desde a
infância. Relatava que era praxe ir para cama dos pais naquela época. Adulta,
só dormia se tivesse uma lâmpada acesa. O medo a impedia de deparar com a
situação infantil causadora de angústia, ocasiões em que se aninhava na cama
dos genitores. A defesa atual era manter a luz acesa como forma de se proteger
da angústia infantil. Violeta recordava o medo do escuro, que a acompanhou
grande parte da infância e relação deste com a histórias de fantasmas e bruxas
que avó lhe contava para amedrontá-la. E dizia que seus irmãos também eram
medrosos como ela, evidenciando a busca de traços identificatórios com as
demais pessoas de sua família.
No terceiro capítulo dos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”,
no qual Freud trata das transformações na puberdade, ele assim se expressa:
“angústia das crianças não é, originariamente, nada além da expressão da
falta que sentem da pessoa amada; por isso elas se angustiam diante de
qualquer estranho; temem a escuridão porque nesta, não vêem a pessoa
amada, e se deixam acalmar quando podem segurar-lhe a mão na
obscuridade. Atribuir a todos os bichos-papões da infância e a todas as
histórias horripilantes contadas pelas babás a culpa por provocarem
nervosismo na criança é superestimar-lhes o efeito. Só as crianças
propensas ao estado de angústia é que acolhem essas histórias, que em
outras não causam nenhuma desmedida ou prematuramente desenvolvida,
ou que se tornou muito exigente em função dos mimos excessivo. Neste
79
aspecto, a criança porta-se como o adulto, na medida em que transforma
sua libido em angústia quando não pode satisfazê-la; e inversamente, o
adulto neurotizado pela libido insatisfeita comporta-se como uma criança
em sua angústia: começa a sentir medo tão logo fica sozinho, ou seja, sem
uma pessoa de cujo amor se acredita seguro, e a querer aplacar esse medo
através das medidas mais pueris” (Freud, 1905, p.211)
Pensamos que essa reflexão de Freud sobre os estados de angústia da
vida adulta e que são provenientes da infância enquadra-se, perfeitamente, com
o que pensamos sobre os conflitos de nossa paciente.
No trabalho intitulado “Resposta às críticas a meu artigo sobre a
neurose de angústia”, Freud ressalta os fatores de ordem sexual, tais como: a
prática regular do coito interrompido, a abstinência ou gozar de uma vida
sexual normal como significativos para a irrupção dos estados de angústia e
assinala “a tensão sexual é gerada pela excitação de idéias libidinais”.
Entretanto, assume ainda não poder elucidar a relação entre tensão e a teoria da
neurose de angústia. (Freud, 1895, p.127-128)
Freud bem soube destacar, na teoria de Rank,
o que de mais
interessante lhe pareceu dentre as contribuições legadas à psicanálise e que
vem a ser a base daquela reflexão. Para Rank, a experiência do nascimento é o
protótipo de todas as experiências posteriores de angústia, na medida em que
sinalizam um perigo ou mesmo a iminência de desamparo. Coloca assim, o
nascimento como situação fundadora de angústia, dado ser ele que inaugura a
separação mãe/bebê.
80
Foi baseado em sua experiência clínica que Freud apontou para as
situações de perigo e ressaltou que para cada etapa do desenvolvimento
corresponde um fato marcante que gera angústia, contribuindo dessa forma
para suplantar cada uma dessas etapas. Assim ele pontua :
“o perigo de desamparo psíquico ajusta-se ao estádio da imaturidade
inicial do ego; o perigo de perda de um objeto (ou perda do amor) ajusta-se
à falta de auto-suficiência dos primeiros anos da infância; o perigo de ser
castrado ajusta-se à fase fálica; e, finalmente, o temor ao superego, que
assume uma posição especial, ajusta-se ao período de latência.
E já não duvidando de suas premissas, ele ratifica o que pensa
caracterizar o indivíduo neurótico: “Não há dúvida de que as pessoas que
qualificamos como neuróticas, permanecem infantis em sua atitude relativa ao
perigo e não venceram as obsoletas causas determinantes de angústia”. (Freud,
1932, p.111-112)
Nesta época (1932), Freud concorda que existem duas formas
originárias da angústia: uma decorrente do momento do trauma original e a
outra que aponta para a ameaça de repetir-se a experiência desprazerosa..
Ele também observa a evidência que “as pulsões provenientes de uma
fonte ligam-se àqueles que provêm de outras fontes e compartilham de suas
vicissitudes, e que, de modo geral, uma satisfação pulsional pode ser
substituída por outra”. Aberto a discutir suas idéias, admite que existem pontos
a serem compartilhados com possíveis interlocutores. (Freud, 1932, p.121)
81
Prosseguindo na Conferência 32, ainda vai falar de instintos para
introduzir as noções de pulsões de vida e de morte; de ambigüidade de
sentimentos no homem desde a fase edípica; sua afetividade, seus amores, suas
relações com as pessoas ora amadas ora odiadas.
No seu esclarecedor “Dicionário Comentado do Alemão de Freud”,
Luiz Hanns vai nos auxiliar em diversos significados do termo alemão Trieb,
tanto na forma substantiva Trieb, como na forma verbal trieben. Trieb significa
força interna que impele ininterruptamente para a ação, ímpeto perene;
tendência, inclinação; instinto, força inata de origem biológica dirigida a certas
finalidades; ânsia, impulso no sentido de algo que toma o sujeito, vontade
intensa. Vale ressaltar que o sentido do termo sempre tem correlação com
“algo que “propulsiona”, “aguilhoa”, “coloca em movimento”. (Hanns, 1998,
p. 338-339).
Isso nos remete ao discurso de Violeta que dizia não poder controlar o
aparecimento “inesperado” de seus personagens. Supomos que não podendo
dominar a pulsão, lançava mão de seu sintoma mais imediato – os personagens
que eram tudo o que ela gostaria de ser. De alguma forma mantinha,
provisoriamente, suspensa a geração de angústia.
Para Hanns :
(...) “o trieb simplesmente existe, tal qual o “impulso de respirar”, ele é a
“base do próprio querer”, a base a partir da qual se gera a necessidade , a
ânsia, a vontade, o querer e o desejo. Não é de imediato percebido como
torturante ou desagradável, torna-se torturante se não o realizamos (ou não
o satisfazemos) – por exemplo, não respirar, não comer etc” (Hanns, 1998,
p.339-340)
82
Freud já antecipara desde 1915: “Uma pulsão nunca pode tornar-se
objeto da consciência – só a idéia que o representa pode” (Freud, 1915, p. 203).
Na Conferência 32, ele propõe um retrospecto, começando do ponto de
partida dessas reflexões sobre a teoria das pulsões, que é igual ao que o levou à
revisão sobre a importância prática e teórica do papel da punição no trabalho
clínico, e por ele designada de pior inimigo. Assim prossegue Freud:
“a necessidade de punição é o pior inimigo de nosso trabalho terapêutico.
Ela obtém satisfação no sofrimento que está vinculado à neurose, e por
essa razão aferra-se à condição de estar doente. Parece que esse fato, uma
necessidade inconsciente de punição, faz parte de toda doença neurótica”
(Freud,1932, p.135)
A resistência ao tratamento clínico não deixa de ser uma forma de
proteger o sintoma, pois ao conhecer aquilo que recalcou, o fator que
desencadeou o recalque deixa de ter o valor antes impresso àquele fato.
Berlinck também vai destacar no trabalho terapêutico, a construção de “uma
neurose de transferência suficientemente forte que possibilite, através de
interpretações oferecidas pelo psicanalista, uma dissolução do investimento
patológico no mecanismo neurotizante, isto é, o recalque” (Berlinck, 1997,
p.46).
Freud também aconselha no que tange à manutenção das
psicopatologias,
que
elogios
ao
paciente
podem
ocasionar
o
seu
desaparecimento do consultório, com isso ficando garantida a manutenção da
83
doença. Lembra também que na análise “as experiências recalcadas e
esquecidas da infância são reproduzidas, nos sonhos e nas reações,
particularmente
naquelas
ocorrentes
na
transferência,
embora
seu
revivescimento vá de encontro ao interesse do princípio do prazer”
e
prossegue:
(...) “as pulsões regem não só a vida mental, mas também a vida
vegetativa, e essas pulsões essenciais exibem uma característica que
merece o nosso mais profundo interesse” (...) o fato é que eles revelam
uma propensão a restaurar uma situação anterior. Podemos supor que,
desde o momento em que uma situação, tendo sido uma vez alcançada, é
desfeita, surge uma pulsão para criá-la novamente e ocasiona fenômenos
que podemos descrever como uma “compulsão à repetição”. (Freud, 1932,
p. 132)
Dessa trajetória efetuada por Freud, aprendemos que
a neurose é
nitidamente marcada pela compulsão à repetição e que o sintoma neurótico
viabiliza sua manutenção justamente no fato de que se repetindo, coexiste uma
ilusão passageira de alívio do sentimento de tensão que a angústia promove.
Um alívio ilusório, uma vez que ela sempre estará à espera, pronta para se ver
acionada sempre que o ego vier a sentir-se ameaçado. A satisfação do desejo
recalcado será buscada arduamente.
O trabalho analítico viabiliza desarmar essas defesas a fim de
possibilitar soluções mais saudáveis dos nossos conflitos. Em “Psicanálise
Silvestre”, Freud já ressaltara:
84
“a tarefa do tratamento está no combate a essas resistências. O informar
ao paciente aquilo que ele não sabe porque ele reprimiu é apenas um dos
preliminares
necessários ao tratamento” e adverte “se o
conhecimentoacerca do inconsciente fosse tão importante para o paciente
como as pessoas sem experiência de psicanálise imaginam, ouvir
conferências ou ler livros seria suficiente para curá-lo”. (Freud, 1910,
p.211)
Freud vai concluir a Conferência 32, relembrando que a cultura foi
assentada sob bases sexuais coibidas pela sociedade, entretanto recalcadas em
parte, sendo outras partes diversamente utilizadas. Diríamos, mais aceitas
pelas regras sociais. O ego, quase sempre, é o mais prejudicado em benefício
aos ditames estabelecidos pela sociedade. As restrições pulsionais impostas ao
ego acabam por sobrecarregar o psiquismo. As pulsões agressivas e destrutivas
trabalham objetivando o impiedoso recalcamento dos mais primitivos desejos,
conquanto essas pulsões são vistas como ameaçadoras à sobrevivência humana,
eis que obstaculizam a vida dos indivíduos em sociedade.
A angústia nos espreita sempre que ensejamos a satisfação de nossos
desejos. O medo do desconhecido é sempre fator gerador de angústia e o temor
das vivências desagradáveis já acontecidas como já referimos nas
“revivescências” infantis sobre o medo de Violeta. O que nos faz reconhecer
alguns sintomas como a sensação de aperto no peito, dificuldade para respirar,
asma e outros sinais relativos ao aparelho respiratório já apontados por Freud,
85
como característicos da histeria. Nossa preocupação está voltada para esses
sintomas que supomos terem se originado nos processos de recalcamento por
que passou a paciente, bem como para o sofrimento dele decorrente. O
entendimento desses conflitos identificatórios e sua relação com a angústia, em
Violeta, são nosso objetivo maior.
Dissemos que o ego está sempre atento as pulsões desenfreadas, pronto
para de alguma forma defender-se ou fugir do ataque. Essas são as duas
possibilidades que se apresentam ao ego para que ele saia desse impasse:
defendendo-se através do sintoma ou uma solução afetiva que seria o estado de
angústia - o vazio, buraco sem fundo que percebemos dentro de nós e que é
preciso que cuidemos do desamparo para lidar melhor com essas dificuldades.
Lembremos que Freud já apontara como o primeiro fator desencadeante de
angústia a perda da percepção do objeto, em seguida, “A perda do amor é um
novo perigo duradouro e determinante de angústia”. (Freud, 1926, p. 195)
Prosseguindo com Zeferino Rocha:
“O estado de desamparo, por um lado, lembra ao homem sua condição
existencial de finitude e seus limites. Esta condição é inexorável e, diante
dela, o homem tem que resignar-se, como, costumava dizer Freud. Mas por
outro lado, a angústia do desamparo tem também uma face positiva e
libertadora, pois é na medida em que o homem assume o desamparo, que
ele se liberta das ilusões que o alienam e escravizam”. (Rocha, 2000,
p.161)
A angústia levava Violeta a ficar em um estado de desamparo porque
lhe deixava à mercê de fantasias perversas diante da impossibilidade de
assumir a posição de mulher plena de desejos.
86
Pensamos ser este um processo característico dos seres humanos e
quem sabe o mais marcante deles – o estado de desamparo é constitutivo da
nossa espécie e se concordamos com Freud e Rank, nossa primeira experiência
marcante é, indiscutivelmente, por ocasião do nascimento. Esta primeira
vivência do estado de desamparo nos acompanha por toda a existência e
continuamente estamos nos deparando com o dar conta desse
estado
primordial de coisa que falta um pedaço, que precisa que o outro espelhe o seu
desejo para que através desse outro, reconheçamos parte destes desejos
insatisfeitos e a possibilidade de satisfazê-los.
É sempre bom lembrar que Freud em 1893, no Rascunho B, já
vaticinava que “as neuroses são inteiramente inevitáveis como também
incuráveis”
e que na impossibilidade
de superação “a sociedade parece
condenada a cair vítima de neuroses incuráveis, que reduzem a um mínimo o
gozo da vida, destroem a relação conjugal e trazem a ruína hereditária a toda a
geração seguinte”. (Freud, 1893, p. 262)
De qualquer forma, pensamos que coexistem formas de pulsões e que
essas pulsões são parte constitutiva da filogênese, tais como as polaridades
amor/ódio, alegria/tristeza, vida/morte. Essas pulsões, energias provenientes de
nossa porção que clama por prazer impõem-se a nós. Às vezes sem perceber
dizemos: fulano agiu impulsivamente, isto é, sem usar a razão, sem medir as
conseqüências ditas racionais e que a sociedade impõe como normais,
equilibradas. Nos agarramos às fantasias que o homem é capaz de sublimar sua
pulsão de morte em outros projetos mais saudáveis e mais reconhecidamente
aceitáveis pela sociedade, e, que estes projetos possam promover o bem estar e
87
quem sabe, sentimentos/afetos menos angustiantes para o seu ego.
É bom que lembremos que nos últimos trabalhos desenvolvidos, Freud
foi tomado por um certo ceticismo com relação à humanidade, fruto do
sofrimento pelo qual passou ao longo de todo o tempo que desenvolveu suas
teorias, bem como decorrente dos revezes familiares e da doença que o
acometeu imputando-lhe um sofrimento intenso que ele tão bem soube
enfrentar em silêncio. Entretanto, seu pensamento também foi resultado de
reflexões amadurecidas ao longo do extenso trabalho de elaboração da sua
metapsicologia. Uma reflexão contida no trabalho “Mal estar na civilização”
contempla perfeitamente o que desejamos salientar sobre o que pensava Freud
a respeito do sofrimento:
“A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporcionanos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportála, não podemos dispensar as medidas paliativas. ´Não podemos passar
sem construções auxiliares´, diz-nos Theodor Fontane. Existem talvez três
medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de
nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias
tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável”.
(Freud, 1930, p. 93)
Concluímos, ainda com a Conferência 32, das “Novas conferências
sobre a psicanálise” quando Freud estende a sua compreensão da neurose no
campo da cultura, assim dizendo:
88
“Há pessoas em cuja vida se repetem indefinidamente as mesmas reações
não corrigidas, em prejuízo delas próprias, assim como há outras pessoas,
que parecem perseguidas por um destino implacável, embora uma
investigação mais atenta nos mostre que tais pessoas, sem se aperceberem,
causam a si próprias esse destino. Em tais casos atribuímos um caráter
demoníaco à compulsão à repetição”. (Freud, 1932, p.133)
Penso que escolhemos as doenças de nossos pais para perpetuá-los de
alguma forma em nossas identificações com os traços que mais nos marcaram.
Assim, vamos elegendo muitas formas dinamicamente mutáveis para enfrentar
nossas dificuldades ou assustadoramente semelhantes e neste caso, a opção é
pela forma de sofrimento psíquico como destino implacável a si imposto, do
qual Freud já mencionara neste importante trabalho. Além disso, sempre é bom
não perder de vista o que Berlinck assinala em seu trabalho intitulado “A
histérica e o psicanalista”:
“a aplicação de categorias nosográficas na clínica sem uma escuta
cuidadosa e prolongada pode se constituir numa resistência do psicanalista
à sua própria escuta. Declarar que um sujeito é histérico, obsessivo,
perverso ou psicótico, serve muitas vezes para se evitar a confrontação
com o enigma que o outro é”. (Berlinck, 1997,p.35)
Nosso objetivo, neste trabalho de dissertação, é poder compreender a
dinâmica da psicopatologia chamada neurose de angústia e sua relação com as
89
identificações. Gostaríamos, de concluir por ora nosso estudo sobre a angústia
com o pensamento de Zeferino Rocha sobre a relação da angústia com o estado
de desamparo :
“(...) na ocasião do nascimento, a angústia originária do desamparo não
pode ainda ser representada pelo recém-nascido como uma angústia de
separação e só constitui, como tal, nas suas repetições sucessivas. É só
quando a criança constata, nas vivências de separação, que pode viver
separada da mãe sem correr o risco de ser aniquilada, que ela consegue
controlar a situação traumatizante do desamparo.
Uma vez controlada e representada, a angústia da separação torna-se
companheira inseparável do homem nas estradas da vida. Viver é estar
sempre fazendo a experiência da dor da separação. Na vida, estamos
sempre dizendo adeus aos lugares e às pessoas que encontramos em nossos
caminhos. Viver é estar continuamente desfazendo laços” (Rocha, 2000,
p.113-114).
Pensamos que a análise requer um longo percurso para um contato
fortalecido entre o paciente e o analista. Esse encontro oportuniza
primordialmente, o conhecimento de si e, cuja prática, invariavelmente, vai
levar o sujeito ao encontro de dois esteios de sua constituição – a
identificação e a castração. Lidar bem com essas questões, certamente
resultará em menos sofrimento e desprazer, favorecendo ao desperdício de
energia mental e ao decréscimo da qualidade de vida dos indivíduos.
90
Nossa perspectiva futura tem o objetivo de refletir sobre o processo de
identificação na neurose de angústia, enquanto fenômeno primordial na
constituição dessa neurose.
91
6. Relação existente entre a identificação e a angústia na histeria:
Tendo como escopo o entendimento da relação entre a angústia e a
identificação histérica, na busca da compreensão do caso clínico ao qual nos
dedicamos ao estudo, voltamos neste ponto para a releitura de nossas anotações
clínicas e para algumas leituras da primeira etapa dos “Estudos da histeria” em
Freud. Recorremos, também, a alguns escritos de Lacan, em especial aquele
destinado ao sonho da açougueira, constante do Seminário 5, e os trabalhos de
Joel Birman, Lucien Israel, Serge André e finalmente Piera Aulagnier, em
esclarecedor trabalho intitulado “Angústia e Identificação”.
Inicialmente faremos a transcrição de nosso primeiro encontro, aqui
denominado, Falando de suas dificuldades pessoais e familiares, que
proporcionará o aproveitamento melhor de fragmentos de sessões inseridos, os
quais consideramos ser grande valia para a compreensão do caso clínico. Após
um percurso de leitura e o retorno ao caso clínico, podemos compreender que
desde esse primeiro encontro já configuravam-se as figuras que pontilharam
grande parte do relato de Violeta. Lá aparecem o medo constante, a angústia, a
relação ambígua com as figuras femininas, os freqüentes estados
proporcionados pelas fantasias e a multiplicidade de tintas dos exuberantes
relatos.
Em uma nota de rodapé em “Notas sobre um caso de neurose
obsessiva”, Freud assim observara:
“O Dr. Adler, que inicialmente foi analista, certa vez chamou atenção,
em um artigo publicado em edição particular, para a peculiar importância
92
ligada às primeiras comunicações feitas por pacientes” (Freud 1909, p.165),
ressaltando seu valor, o que também foi sublinhado por Françoise Dolto no
prefácio do trabalho de Maud Mannoni, “A primeira entrevista em
psicanálise”, quando nomeia o encontro entre o sujeito e o psicanalista e todas
as implicações que este envolve. Quando Dolto nos ensina que o papel do
psicanalista é o “de uma presença humana que escuta”, sublinha a importância
da escuta do analista, uma vez que é através dela que nasce de comunicação
das angústias do paciente, até se chegar ao verdadeiro desejo a que está
subjugado o sujeito. Na visão de Dolto, por meio da sensibilidade receptiva o
psicanalista apreende todas as nuances dos fantasmas infantis que emergem do
discurso do sujeito, muitas vezes num único encontro com o analista.
Assim afirma Dolto:
“O que este livro também ensina é a descoberta, que para muitos leitores
será nova, de que durante uma única entrevista psicanalítica, já aparece
claramente a intricação das forças inconscientes entre genitores,
ascendentes e descendentes. O leitor compreenderá sem dificuldade como
um ser humano, desde a sua vida pré-natal, já esta marcado pela maneira
como é esperado, pelo que representa em seguida, pela sua existência real
diante das projeções inconscientes dos pais”. Maud Mannoni, 1981, pp 1213 )
93
DAS DIFICULDADES PESSOAIS E FAMILIARES: O SINTOMA.
Violeta chega às 14:20. Fui avisada que a paciente havia chegado e
dirigi-me ao local onde a mesma se encontrava para recebê-la. Ela se fazia
acompanhar por um rapaz que ficou aguardando-a até o término da sessão. Em
seguida solicitei que me acompanhasse até sala onde seria atendida. Violeta
entra, acomoda-se e pergunto-lhe o que a havia trazido até ali.
Respondeu-me que era uma pessoa muito insegura e medrosa, passando
a me relatar sobre sua vida. Disse que foi criada em uma casa na qual sua avó
era quem comandava a educação dela e de seus irmãos. O pai tinha duas
famílias e se ocupava da parte financeira (do sustento da casa), enquanto à mãe
cabiam os afazeres domésticos e à avó, dar educação a ela e aos irmãos.
Desde criança, Violeta foi uma menina medrosa, tinha medo de tudo —
do escuro principalmente — e de tudo o que fosse desconhecido. Disse que na
sua casa todos são inseguros e que em uma situação como aquela ficava
trêmula, mostrando-me as mãos. Depois contou que quando era pequena e tinha
que apagar a luz do quarto na hora de dormir, ficava com muito medo.
Perguntei-lhe se dormia só. Respondeu-me que dormia com os irmãos, mas que
sentia medo, chegando às vezes a ter que ir dormir no quarto da mãe, já que não
conseguia conciliar o sono no seu quarto.
Os irmãos faziam gozação do seu jeito, diziam que via muitos filmes de
terror, daí seu medo excessivo. Confessou que deixou de comparecer à primeira
chamada do atendimento por medo e insegurança.
94
Disse que o pai por ter duas famílias, não ficava muito tempo em casa,
pois seu tempo livre era dividido entre as duas casas. Pedi que falasse mais
sobre o fato de o pai ter duas famílias. Disse que ele morava nas duas casas. No
início havia muita briga e discussão entre os pais, depois a mãe se acomodou e
aceitou a situação. O pai ficava muito tempo fora em razão de ter com a outra
mulher filhos ainda pequenos, e costumava ficar na sua casa somente aos
domingos. Das brigas, recorda que a avó sempre interferia e gritava muito. Pedi
que falasse sobre essas brigas. Ela contou que muitas vezes ela e os irmãos se
metiam para evitar agressão física à sua mãe. A avó é quem comandava a
educação, sempre criticando e chamando atenção aos berros. Ela, Violeta não
gostava de ser criticada, resultando daí ser uma pessoa insegura, medrosa, com
medo de tudo. Os gritos da avó, segundo seu relato, faziam com que todos na
casa a temessem. As vezes, a avó, para lhe ameaçar, dizia que uma mulher toda
de preto viria para levá-la, caso não obedecesse suas ordens. A mãe, como não
tinha estudo, deixava tudo por conta da avó. Já o pai, que era muito ocupado,
preocupava-se exclusivamente com o sustento da casa.
Disse que, a princípio, a avó era o modelo de uma educação rígida e
autoritária, mas que hoje é uma pessoa que sofre de depressão , toma muitos
remédios e já não é temida como antigamente. Relatou que a avó diz a ela que
Violeta se parece muito com ela, tanto fisicamente como no jeito de ser.
Perguntei-lhe se concordava com isso. Ela diz concordar com a avó, pois se
acha parecida com esta fisicamente. A avó diz para a neta que ela (Violeta) é
uma garota bonita e que só deve dar atenção e casar com um homem bonito, os
que não forem que fiquem longe dela. A seguir disse que o pai era um homem
bonito e que hoje, devido a idade não é mais.
95
Relatou que sua infância foi praticamente em casa porque só saía para ir
à escola, o resto do tempo ficava dentro de casa, onde o portão sempre ficava
trancado. Não tinha contato com outras crianças pois a avó não deixava. Disse
que gostava muito de ver televisão de onde ‘tirava’ a personalidade de
personagens que gostava e assim ia formando sua personalidade. Intrigada com
seu relato, pedi que falasse como era ‘tirar a personalidade’ de alguém. Violeta
contou que quando via as novelas na
tevê, tomando como exemplo, um
personagem interpretado pela atriz Regina Duarte, tirava o jeito do personagem
e fazia igual a eles na sua vida. Revelou que essa era a razão por não possuir
amigas, pois estas diziam que ela mudava a voz e o jeito de falar quando
encontrava com rapazes. Pedi que falasse disso mais. Ela contou que via um
rapaz (bonito, é claro !), estudava o seu jeito de ser e então pegava um
personagem, interpretava igual a este, como estratégia de conquista.
Pedi que falasse dessa conquista. Revelou que conquistava sempre
rapazes bonitos, depois não queria mais saber deles. Explicou que fez no
colégio ginástica interpretativa e assim aprendeu a interpretar papéis. Disse
também que gostava de ler, e que depois de conquistar os rapazes não queria
mais saber deles. Era só para conquistar como um troféu. Assim fazia tirando a
personalidade de um e de outro para fazer a sua própria.
Em seguida, dado o adiantado da hora, falei de alguns detalhes do
atendimento na clínica, do horário, das faltas consecutivas que poderiam levar à
interrupção do tratamento e que nos veríamos duas vezes por semana até o
final do ano quando findaria o semestre letivo. Disse-lhe que no decorrer do
tratamento buscaríamos juntas refletir sobre essas questões que ela havia me
relatado, e que a reencontraria na próxima sessão.
96
A primeira impressão que Violeta me causou foi de uma pessoa
realmente muito insegura devido à rigidez e autoridade empregadas pela avó na
educação. Intrigou-me bastante a questão dos personagens. Eu desejava saber
muito mais sobre aquele poderosa avó, da vida dupla do pai, que apesar de
contribuir com o sustento da família era ausente nas questões familiares, bem
como o pouco apreço dado à figura materna, considerada como despreparada
para cuidar da educação da paciente e seus irmãos.
Um outro detalhe que vale salientar é que Violeta falava de seus medos
e temores desde a infância e no seu relato vão aparecendo: a mulher de preto
que poderia levá-la embora, vai associando preto/escuro com seu pavor do
escuro. Culminam essas associações com a descrição da avó paterna, cujo
retrato inicialmente era o de uma mulher autoritária e excessivamente rigorosa
na forma de educar os netos, e hoje é o de uma mulher deprimida, que passa o
dia sentada numa cadeira na sala de estar, enquanto a mãe fica lá dentro, na
cozinha, ocupando-se das tarefas domésticas.
Conforme mencionamos anteriormente, incluiremos neste ponto alguns
fragmentos clínicos que darão relevo ao que pensamos ter ocorrido nos nossos
encontros e em nossa compreensão da dinâmica psíquica de nossa paciente,
bem como ao fato de a angústia que permeou sua fala se relacionar, com o que
supomos ser a problemática da identificação histérica em Violeta.
97
O DESEJO INSATISFEITO ENQUANTO SINTOMA
Para falar do desejo insatisfeito na histeria, tomaremos de empréstimo
as idéias de Lacan no Seminário 5 — “As formações do inconsciente” — no
qual ratifica o que Freud já havia apontado na interpretação do “sonho da bela
açougueira”, no qual didaticamente vai interpretando o desejo no sonho da
histérica dividida entre
demanda e
desejo. “Ela deseja
algo que tem,
essencialmente, a função de não lhe ser dado”. (Lacan, 1999, p. 376)
No dizer de Serge André: “Se não pode obter um signo que assegure sua
identidade feminina, recusará pelo menos identificar-se ao objeto gozo do
Outro : aceitará suscitar seu desejo, mas se furtará à sua satisfação”. (André,
1998, p.119). E aí se encontra uma das importantes questões da histeria, tão
bem exploradas por seu criador tanto no caso Dora, quanto no atendimento de
Elisabeth von R e tem relação com a problemática do Édipo feminino.
Quando Violeta relata o episódio ocorrido durante seu trabalho como
fiscal de um shopping, revela-nos que arranjou um namorado conforme o
modelo determinado pela avó — bonito, rico, com carro, mesmo que nada mais
tivesse a oferecer no quesito virtudes menos palpáveis.
Como vimos anteriormente, para conseguir o emprego, Violeta se
utilizou dos dotes de sedução da personagem espanhola. Pois bem, a paciente
revela que uma ocasião, quando deu por si, estava num motel acompanhada do
novo par, por quem havia terminado o namoro com o rapaz que a acompanhava
na primeira sessão. Teve que explicar-se a este, dizendo que não tinha nada a
ver ela estar ali com ele para transar, felizmente este a compreendeu, não a
98
forçando a nada. Apenas teve que esperá-lo enquanto dormia (Pensei — não
seria mais um belo susto, mais um medo a ser passado por ela? ).
Violeta revela que ficou muito assustada e que, depois disso,
verdadeiramente pela primeira vez teve que se dedicar a algo: reconquistar o
namorado anterior que já possuía outra namorada. Mas que no final tudo deu
certo: não teve que transar e reatou o namoro.
Esta sessão coloca explicitamente a paciente diante do seu desejo e sua
renúncia a este, quando Violeta diz que explicou ao rapaz que não era bem
aquilo que ele havia entendido quando a levou ao motel e volta a refugiar-se
nos braços do namorado ‘paciente e compreensivo’, que não a cobrava de nada.
Confessava que, as vezes, sentia-se culpada pois a preocupação deste sempre
era satisfazê-la. O namorado pouco comparecia em sua fala, parecia não ser o
homem que ela desejava verdadeiramente. Por outro lado, quando se via
confrontada com este desejo, ficava impotente frente o que a realidade
demandava de si, uma vez que isso implicaria em ter que assumir seu anseio.
Isso, foi inúmeras vezes pontuado, era muito difícil para ela.
Como tão bem o expressa Aulagnier:
(...) “A angústia aparece no momento no qual o sujeito teme que ele possa
tornar-se um objeto de desejo. Pois a partir deste momento, o surgimento
de seu desejo implicaria, para ele, a necessidade de assumir o que chamei a
falta fundamental que o constitui. (...) O que provoca sua angústia é
exatamente o momento preciso no qual, face à irrupção de seu desejo, ele
(sujeito) se pergunta qual imagem dele próprio o espelho vai lhe devolver.
99
Sabe que esta imagem pode ser muito bem ser a falta, a do vazio, daquilo
que torna impossível qualquer reconhecimento recíproco. Nós,
espectadores e atores involuntários do drama, chamamos esta imagem de
angústia”. (Aulagnier, 1995, p. 14)
Observávamos que ao falar das dificuldades de sua família deixavam
Violeta extremamente angustiada, inquieta mesmo. Quando falava desses
incômodos em que invariavelmente vislumbravam a problemática familiar,
repuxava os cabelos, acelerava a voz, como que para concluir logo aquele
desagradável assunto, passando para outro tema mais ameno.
Acrescente-se ainda, mais um fato: quando falava sobre tentativas de
traçar planos futuros ainda nas primeiras sessões, Violeta chega dizendo-se
satisfeita com uma lista de planos e prioridades que traçou para sua vida, mas
logo em seguida recuava na sua animação anterior, dizendo que pensou que
essa felicidade poderia ser passageira e significar alguma tristeza próxima. O
temor e a insatisfação característicos da histeria estavam ali postos mais uma
vez. Questionada quem era ela ali no setting terapêutico, dizia que ali era ela
mesma sem disfarces, sem qualquer personagem, solicitando verbalmente que
disséssemos algo sobre sua pessoa.
Supomos que através do personagens, ao conquistar os homens bonitos,
conforme ensinara a avó, depois abandoná-los como troféus conquistados,
Violeta está abandonando o desejo de sua avó, de ser ela de novo na pele de
Violeta. A avó lhe ensinara a só namorar e casar com homens bonitos. Quando
a paciente abandona seus troféus, está também evitando ser abandonada como
100
as duas mulheres. Se ela realiza o desejo da avó, está fadada a ser mais uma
pessoa submissa aos desejos desta, tal como sua mãe e seu pai. Este último não
conseguiu se libertar, mesmo tendo outra mulher, ainda assim, não abandona a
casa daquela mãe exigente. Não consegue romper definitivamente com a
primeira mulher que vive sob o jugo da mãe dominadora. A desculpa da não
separação de fato, em função da divisão dos bens não convence....
A angústia se apodera de Violeta quando seu desejo vem à tona e ela
não tem palavras para nomear esses sentimentos avassaladores. Supomos que o
conflito esteja no fato de a paciente recusar identificar-se com essas figuras
femininas. Inconscientemente Violeta identifica-se com a mãe e a avó,
entretanto denega essa possibilidade mesmo que sua fala remeta-nos a várias
situações em que se vê identificada
com a mãe, quando, por exemplo,
referindo-se a si mesma e à esta denomina — ‘a empregada e a filha desta’ —
ou quando se esconde no banheiro para apaziguar sua tristeza, como a genitora
fazia para ocultar-se da atual mulher do seu marido, ou, ainda, quando permite
que a avó a identifique como aliada na arte da obtenção do que deseja.
Concordamos com a visão dada por Aulagnier quando pontua :
“A partir do momento no qual o homem coloca em palavras seus afetos, ele
justamente transforma-os em outra coisa: pela palavra, ele os torna um
meio de comunicação, os faz entrar no domínio da relação e da
intencionalidade; transforma em comunicável aquilo que foi vivido no
nível do corpo, e que, como tal, permanece em última análise na ordem
não-verbal”. (Aulagnier, 1995, p. 6)
Como era ‘difícil’ no dizer de Violeta sustentar suas posições e seus
101
desejos, conforme relatara em uma sessão que, quando a avó não queria que
ela saísse, dizia que a desobediência acarretaria o castigo de ficar ‘falada’. As
vezes, ela não proibia diretamente mas ficava dizendo coisas horríveis segundo
a paciente, principalmente quanto a questões relacionadas a sua sexualidade. A
avó a amedrontava, afirmando que se abrisse as pernas, acabaria grávida e aí ia
ver só...Nossa hipótese que a geração de angústia em nossa paciente decorresse
do retorno de todos esses fantasmas perseguidores.
Pensamos na relação do termo ‘ficar conhecida’ com a idéia de ser uma
prostituta, uma noção presente na literatura desde a tradição bíblica, onde
conhecer é metáfora de manter relações sexuais, palavra referenciada inúmeras
vezes pela paciente em várias sessões quando Violeta revela que, muito
superficialmente, ficou sabendo da desconfiança do avô de não ser o pai do
filho menor e que este foi o motivo real de tê-la abandonado. Ser conhecida
equivaleria a ser igual a avó, conhecida por muitos homens. Violeta dizia ter
sabido que avó teria possuído muitos homens, logo o termo foi substituído pelo
eufemismo ‘namorado’.
O trabalho de Aulagnier contempla perfeitamente nossas reflexões
sobre a
relação dessa expressão ‘ficar conhecida’ com a fantasia
prostituição feminina. Ensina Aulagnier:
“Se a palavra é a chave mágica e indispensável, a única que pode permitirnos entrar no mundo da simbolização, penso que justamente a angústia
responde a um momento no qual esta chave não abre mais porta alguma,
no qual o ego tem de enfrentar o que está atrás ou à frente de qualquer
simbolização; no qual o que aparece é o que não tem nome, “esta figura
misteriosa”, este lugar de onde surge um desejo que não se pode mais
aprender”.
102
de
É assim que pensamos a identificação em Violeta. Primeiramente como
recusa a identificação com as figuras da mãe e da avó, importantíssimas na sua
história de vida, figuras ambivalentes em virtude dos afetos que suscitam na
paciente. Elas representam figuras diametralmente opostas, daí supormos que a
denominação mais adequada às nossas reflexões para a suposta recusa de
Violeta, seja a palavra recalque no sentido de oprimir a “manifestação
ameaçadora” a nível do consciente, no dizer de Luiz Hanns (Hanns, 199
,p.358). Esses sintomas comparecem à cena personificadas nos personagens que
Violeta interpreta.
Retornemos ao texto de Aulagnier:
(...) “O simbólico se esvanece para deixar lugar ao fantasma enquanto tal, o
eu se dissolve nele, e é esta dissolução que chamamos angústia. O psicótico
seguramente não espera a análise para conhecer a angústia. Também é
certo que para qualquer pessoa a relação analítica e, neste domínio um
terreno privilegiado. Nada há de espantoso nisso, se admitirmos que a
angústia tem as mais estreitas relações com a identificação. Ora, se a
identificação tem a ver com algo que se passa no nível do desejo, desejo
do sujeito em relação ao desejo do Outro, torna-se evidente que a principal
fonte de angústia na análise vai se encontrar no que é a própria essência
desta última: o fato de que o Outro é, neste caso, alguém cujo desejo mais
fundamental é não desejar, alguém que por isso mesmo, ao permitir todas
as projeções possíveis, desvenda-as igualmente em sua subjetividade
103
fantasmática e obriga o sujeito a se perguntar periodicamente qual é o
desejo do analista, desejo sempre presumido, jamais definido, e que por
isso mesmo pode a qualquer instante tornar-se o lugar do Outro de onde
surge a angústia para o analisando”. (Aulagnier, 1995 , p. 6)
No
decorrer
deste
capítulo,
já
tratamos
de
um
episódio
contratransferencial no qual foi ilustrada a questão da angústia durante o
atendimento e que contemplou adequadamente as palavras de Aulagnier.
Nossa suposição encontra apoio na formulação do trabalho “A
problemática da identificação em Freud”, na qual Ribeiro defende a tese de que
foi com o surgimento do conceito de narcisismo na psicanálise e decorrendo
deste a negação da identificação precoce com a mãe, que o autor utiliza a
expressão — “recalcamento da idéia de identificação primária na teoria
psicanalítica do narcisismo, recalcamento que se confunde com aquele sofrido
pela concepção do narcisismo primário fundada sobre a identificação com o
outro”. (Ribeiro, 2000, p.18)
Defendemos aqui a suposição de que Violeta recalca essa identificação
primeira com essas figuras femininas, portanto não entraremos nos pormenores
da questão narcísica defendida pelo trabalho acima referido. Queremos
observar que mesmo demandando o desejo do outro, a paciente algumas vezes,
demonstra ser super investida quando por exemplo, a avó pede-lhe que coloque
uma roupa bonita e vá até a casa do avô mostrar o quanto parece com ela.
Violeta diz recusar-se o papel materno de só fazer o que as pessoas
querem, alegando que a genitora sempre lhe dizia que se tivesse que escolher de
104
novo, não mais seria um homem como seu pai. Questionada sobre o motivo de
tal afirmação materna, queixava-se que ‘a mãe tem que dividir um homem com
outra mulher e aceitar tudo’, em seguida, retruca que preferia sonhar em ser
uma cantora famosa, a pensar naqueles problemas familiares.
Aulagnier assim nomeia a angústia:
“é lugar escuro do qual se evaporou todo conteúdo nomeável , diante do
qual o ego não tem mais qualquer ponto de referência, pois a primeira coisa
que se pode dizer da angústia é que seu aparecimento é sinal do
desmoronamento momentâneo de qualquer referência identificatória
possível. (Aulagnier, 1995 , p.7)
Supomos que, inconscientemente, Violeta odeie essa avó má que a
trancava em casa quando criança, que dava castigos cruéis, amedrontava-a,
ameaçando com a mulher de preto que a levaria caso não obedecesse. Odeia e
faz com que sintamos por essa figura o mesmo sentimento de aversão diante de
tamanha crueldade. Por outro lado, sente-se atraída pelo poder desta mulher que
a todos comanda e até suspeita que ela esteja certa, pois com a avó Violeta se
identifica na arte de enganar, entretanto a figura dessa senhora também suscita
afetos desprazerosos relativos à sua infância.
Sua hesitação entre essas figuras femininas e os personagens, podemos
pensar serem originadas da imagem formada pela mãe frágil, relegada a
segundo plano, dessa mãe que sofria dos nervos e que não podia se aborrecer
para não ficar agoniada, porque é nervosa.
Entre suas mágoas havia a de que em sua casa todos gozavam dela,
dizendo que Violeta sempre quis ter status, fama e que, por ironia, seu nome
105
não era de origem espanhola, mas de uma caboclinha. Queixava-se que seu
nome era de uma pessoa comum, igual às outras e que não desejava ser comum.
Para isso fazia uso de um diminutivo de seu nome, como gostava de ser
chamada, frisando desde o início de nossos encontros que essa pessoa era outra
coisa, tinha nome de estrela, era mais tchan, mais desembaraçada, mais
conhecida. Falar desse pessoa, que pensamos ser outro personagem, trazia-lhe
certa inquietação que a deixavam muito agitada, durante essas ocasiões. Os
personagens, como já frisamos anteriormente, eram a expressão de sua
identificação tanto com a mulher — avó má, como também com a mãe
boazinha. Acreditava que os personagens eram mais ‘safos’.
Tendo revelado o prazer de se fazer notar à entrada em algum lugar,
tanto por causa da roupa como da maquilagem e questionada sobre o seu desejo
de não querer ser comum, Violeta defendia-se imediatamente com a alegação
de que as pessoas não gostam de gente comum, o que pode sugerir que ela
tenha sido remetida à identificação materna mais uma vez.
Em “Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade”, Freud
assinala que o “estudo da histeria leva ao interesse para as fantasias
inconscientes originárias do sintoma” e que a psicanálise tem como objetivo
tornar essas fantasias conscientes para o paciente, ressaltando que a expressão
dessas fantasias se dá através de seus sintomas. Essas fantasias originar-se-iam
de desejos provenientes de “privações e anelos”. (Freud, 1908, p.166).
Pensamos que tantos castigos e tantas ameaças vindas da avó, além da
proibição de ter um contato com outras crianças na infância, acabaram por
contribuir para que a mesma buscasse na televisão ou na leitura escondida de
romances essa identificação recusada com os progenitores, ou melhor, ao se
106
negar
identificar-se com figuras
tão díspares (mãe / avó), acabava
ocasionando essa oscilação identificatória.
Por outro lado há indícios de certa bissexualidade em Violeta que é
suscitada pela forte ligação com essas mulheres e pela dificuldade de assunção
dos desejos sexuais femininos.
Violeta é vitimada pela angústia toda vez que esse desejo vem à tona.
Única maneira de minimizar esse afeto desprazeroso é dar vida para as
personagens que ela acreditava serem melhores que ela mesma. Através destes
ela podia alguma coisa – dar vazão à sua sexualidade, ao desejo sentir-se
mulher e desejar jogar um jogo com um homem. Entretanto esse movimento de
buscar a satisfação é recalcado, é suspenso e aí ela desiste, não segue em
frente, quem sabe atormentada pelos fantasmas que a mantinham sob a sujeição
desses figuras.
No trabalho intitulado “Sexualidade Feminina”, assim se expressa
Freud:
(...) “na verdade, tínhamos que levar em conta a possibilidade de um certo
número de mulheres permanecerem detidas em sua ligação original à mãe
e nunca alcançarem uma verdadeira mudança em direção aos homens”.
(Freud, 1931, p.260)
O que acontece com Violeta ? Ela tem uma forte ligação com duas
figuras femininas: a mãe e avó. Como a mãe não tem poder, impossibilita a
criação de um campo de identificação para a filha. Não podendo, ela cria um
campo de hesitação para Violeta. Assim esta não tem forma definida, não se
107
compromete, uma hora é a espanhola, outra uma garota amável com traços
infantis.
Violeta perambula entre as personagens figuras femininas, porque não
aceita ser essa mulher má que a identificação com a avó suscita, tampouco essa
outra sem qualquer expressão que a identificação com a mãe leva-a ser.
Impedida de manter outros laços afetivos pelo portão trancado, ela vai buscar
na tevê, uma imagem que lhe seja favorável e que lhe caiba e aí dá asas as
fantasias.
Quando a avó solicita que ela se vista e coloque sua jóias para visitar o
avô, com o objetivo de evocar nele a lembrança da mulher por ele abandonada,
Violeta recusa o papel que a avó quer lhe oferecer, de ser ela (a avó) nas
lembranças do avô. Não lhe cabe o papel de sedutora, esse atributo era
característico da espanhola. Sua avó deseja que Violeta seja como ela, e a
paciente recusa este papel e se angustia quando se vê identificada com essa avó,
de quem ela guarda tanto ressentimento. Recusa o desejo da avó de interpretála, fazendo-se mulher perante o avô.
A questão de ser mulher em Violeta, a põe em confronto com a idéia de
que para ser mulher, ela deverá assumir sua parte desejante, capaz de ter
desejos e bancá-los em sua satisfação.
A angústia traz à tona fantasias inconscientes que em Violeta, fazem-na
confrontar-se com situações absolutamente impossíveis de enfrentar, porque
são inaceitáveis em seu psiquismo. Daí imprimir diferentes formas que ela
mesma não pode assumir. O recalque vai ter um papel preponderante nessa
deambulação desejante. Conforme Mannoni aponta:
108
“É porque, em determinado momento, toda referência de identificação
falha nesse ponto, que o sujeito busca numa ação um meio de sair de uma
angústia como se, em última análise, ele tivesse necessidade desse ato
brilhante, para poder em seguida falar e fazer intervir esse terceiro, que
parece ter sempre lhe faltado” . (Mannoni, 1981, p. 52)
A angústia em nossa paciente, é um medo por não poder, e assim está
intimamente relacionada à identificação, eis que a identificação é também um
sintoma originado para proteger o eu de um estado gerador de angústia e que
tem ainda uma característica incontestável ao objeto psicanalítico – como
sintoma se repete ao longo da existência do indivíduo. A formação do eu já
fora assinalada por Freud “como um precipitado de identificações”.
Em “Fragmento da análise de um caso de histeria”, o tão famoso Caso
Dora, Freud nos dá uma lição magnífica sobre a histeria, quando assim se
expressa:
“Nunca se pode calcular para que lado penderá a decisão no conflito entre
os motivos, se para a eliminação ou o reforço do recalcamento. A
incapacidade para o atendimento de uma demanda amorosa real é um dos
traços mais essenciais da neurose; os doentes são dominados pela oposição
entre a realidade e a fantasia. Aquilo que mais intensamente anseiam em
suas fantasias é justamente aquilo de que fogem quando lhes é apresentado
pela realidade, e com maior gosto se entregam a suas fantasias quando já
não precisam temer a realização delas”. ( Freud, l905, p.105-106)
109
A questão do poder é de suma importância na histeria porque se
relaciona à falta deste poder e toda a problemática daí decorrente pelo poder
atribuído ao falo. Em Violeta, por falhar a identificação inexiste poder, o que
abre espaço para emergir a angústia. Isso acontece quando ela se vê
confrontada com o desejo, conforme ocorreu na cena do motel. Ela hesita e
recusa.
Para aponta Birman em “Cartografias do feminino”:
(...) “a feminilidade não é um registro psíquico e erógeno que remeta
imediatamente para o universo das mulheres, em oposição ao dos homens.
Seria essa a outra novidade no uso da palavra sugerido ainda por Freud.
Isso porque, para ele, a oposição entre o masculino e o feminino, entre os
homens e as mulheres, seria constituída em torno da figura do falo. Ter ou
não ter o falo e os seus atributos, seria essa a questão que dividiria o
mundo dos sexos e dos gêneros. Ou, então, ser ou não ser o falo implicaria
a dimensão narcísica originária da tal diferença sexual.
Acredita-se portador de um poder de superioridade por ter o pênis como
atributo do falo seria a crença maior da arrogância masculina em relação às
mulheres. Em contrapartida, não ter o pênis como atributo do falo seria o
signo maior da inferioridade das mulheres e a fonte proverbial de sua
inveja” (Birman, 1999, p. 11)
É quando aparece o sintoma para minimizar ou solucionar o problema
do eu ameaçado, Violeta para se livrar da angústia, cria um sintoma – os
110
personagens com quem busca identificações, uma vez que as figuras femininas
familiares não lhe dão suporte identificatório que lhe bastem para o
enfrentamento desse afeto.
Violeta sem fantasias que lhe vistam adequadamente, acaba ficando a
mercê de toda sorte de forças pulsionais difíceis de controlar, por se tratarem de
pulsões originárias do terreno a que pertence o inconsciente.
O que ocorre em diversas sessões é que, Violeta tenta se justificar pela
via consciente, procurando respostas perfeitamente adequadas às suas próprias
resistências. Pensamos que a problemática da paciente repousa na recusa a
aceitar a castração.
Em “Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade”, referindose às fantasias inconscientes observa :
(...) “poderiam ser inconscientes ou conscientes e no primeiro caso, podem
tornar-se também patogênicas, isto é, podem expressar-se através de
sintomas e ataques.
(...) Dessa forma as fantasias inconscientes são os precursores psíquicos
imediatos de toda uma série de sintomas histéricos. Estes nada mais são do
que fantasias inconscientes exteriorizadas por meio da ‘conversão’; quando
os sintomas são somáticos, com freqüência são retirados do círculo das
mesmas sensações sexuais e inervações motoras que originalmente
acompanhavam as fantasias quando estas ainda eram inconscientes”.
(Freud, 1908, p.163/166)
111
Com relação a estes sintomas somáticos, próprios da histeria, em
Violeta são inúmeros, tais como: ataques de asma, aftas, irregularidade
menstrual, etc. A paciente queixava-se continuamente de falta de ar, das
‘bolinhas’ na boca, atribuindo a estes sintomas as suas faltas nas sessões. Além
disso, a paciente admitia o devaneio como alternativa mais apropriada a
minimizar o sofrimento com a problemática familiar.
A importância do Édipo, na formulação psicanalítica concebida por
Freud está assentada principalmente na demarcação que distingue o Eu e o
Outro. Assim afirma Lacan, no Seminário 5:
“O que estou dizendo é apenas uma maneira de exprimir o que foi ensinado
desde sempre, que é através do Édipo que o desejo genital é assumido e
vem tomar lugar na economia subjetiva. Mas aquilo para o qual espero
chamar-lhes a atenção é a função desse desejo do Outro, no que ele permite
que a verdadeira distinção entre o sujeito e o Outro se estabeleça de uma
vez por todas”.(Lacan, 1999, p.371)
Violeta é bonita tal qual o foi sua avó, sente-se atraída por homens
bonitos como seu pai o foi um dia, de tal forma que isso implica em uma
duplicação da não-resolução do conflito edípico ainda mais acentuada nas
figuras: avó/pai, ela e os homens parecidos com este pai na beleza, e, ainda, em
segundo plano — a mãe com quem Violeta nega identificar-se.
Ainda sobre a questão da problemática identificatória na histeria, o
trabalho de Aulagnier muito nos auxiliou na compreensão da angústia e
112
identificação histéricas. A angústia na visão da autora, aparece no momento no
qual ele (o sujeito) teme possa tornar-se um objeto de desejo. Nas suas
palavras: “a partir deste momento, o surgimento de seu desejo implicaria, para
ele, a necessidade de assumir o que chamei a falta fundamental que o
constitui”. (Aulagnier, 1995, p.13)
113
OS
AFETOS
SUSCITADOS
NA
TRANSFERÊNCIA
E
NA
CONTRANSFERÊNCIA.
Nos debruçaremos em um outro fato decorrente da transferência no
atendimento clínico ocorrido no relato sobre uma reunião de amigos que a
paciente compareceu juntamente com o namorado. Na festa estavam muitas
pessoas conhecidas e, num dado momento, Violeta sentiu-se muito só, ‘sem ser
notada por ninguém’. Para nós, essa é a expressão do exibicionismo histérico
que se contrapõe à outra idéia de ser conhecida de todos, tantas vezes utilizada
pela paciente.
Prosseguindo relatou que, neste momento,
afastou-se ficando
observando os demais, segundo suas palavras, ‘segurando-se para que não
aparecessem seus personagens’. De repente, as pessoas falavam de xadrez e ela
insinuou que sabia jogar xadrez; algumas pessoas se admiram e lhe
perguntaram com quem teria aprendido. Violeta mentiu que seu pai lhe havia
ensinado (diferentemente de sua queixa que o pai não lhe dava atenção na
infância). Supomos que ali ela coloca o seu desejo — de poder ter aprendido
com o pai a jogar com um homem, ter aprendido com ele a ser boa no jogo.
Neste momento um dos rapazes desafiou-a para uma partida.
Violeta revelou que, no momento que topou o desafio, suas mãos
começaram a tremer e que em poucos segundos perdeu o jogo. Questionada
porque havia feito aquilo de aceitar jogar sem nunca tê-lo feito, respondeu que
o motivo é que desejava ser notada. Digo-lhe calmamente, talvez com certa
ironia, que alguém que joga bem e topa um desafio, não perderia em menos de
cinco segundos, não ficaria trêmula como ela ficou. Violeta fica silenciosa
114
como que concordando com o que eu lhe dizia (na verdade era esse o meu
desejo). Em seguida,
muda de assunto relatando características de seus
personagens: meigas, dóceis, alguém que as pessoas gostam muito pela
amabilidade. Entretanto, observa ela, se preciso for, o personagem também
pode ser firme. É como se Violeta me dissesse que também não estava gostando
da maneira como intervimos no seu relato e nós, contratransferencialmente,
supomos que mudou de assunto para fugir da angústia suscitada naquele
momento.
Ainda no decorrer da sessão pontuamos que a personagem acabara por
colocá-la numa situação vexatória. Repentinamente, Violeta solicitou que
queria ao ir até o banheiro, para lavar o rosto pois sentia uma ‘quentura’.
Assinalamos que a sessão estava quase para terminar e que ela esperasse um
pouco, pois ainda continuaríamos falando daquele assunto. Violeta concordou,
retomando seu relato. Entretanto, logo em seguida, disse que não podia esperar
até o fim por estar ‘passando mal’. Abrimos a porta da sala e ela saiu em
desabalada carreira para o toilette.
Passado algum tempo, seguimo-la para saber como estava passando.
Depois de alguns minutos reapareceu dizendo que havia melhorado: que
acordara muito cedo e viera juntamente com o namorado para a universidade, a
fim de inscrever-se em um curso de línguas. Na universidade, comera um
pouco antes do atendimento e que por ter ficado muito tempo em jejum, sentirase mal. Ao voltar para sala de atendimento questionamos se o assunto não se
relacionava com o fato de ter passado mal. Violeta negou definitivamente. Não
era fácil para ela lidar com suas angústias. Como supomos, quando confrontada
fugia, passava mal.
115
Diante da intensa angústia Violeta recorre ao mesmo artificio materno –
correr ao banheiro para se esconder e chorar. Assim aconteceu, quando na
tentativa de reintegrar-se à família, volta para passar um fim de semana em
casa, entretanto ao se defrontar com a problemática familiar, foge para o
banheiro para não ter que enfrentar a realidade.
Pensamos
que
esta
passagem
vivenciada
durante
o
processo
psicoterápico, revela-nos como impossibilitada de assumir seus desejos, Violeta
expressa-os através desses estados de angústia. No dizer de Maud Mannoni “o
que não pode ser expresso em palavras é vivido como mal estar corporal”.
(Mannoni, 1981, p.59)
Os desejos de Violeta se transformam via angústia em enjôos, náuseas,
repúdio, vontade de vomitar, sintomas somáticos característicos da histeria. Em
nosso entendimento, caso Violeta assuma uma posição feminina, ela se oporá à
mãe e a avó, figuras femininas importantes para ela, mas também que lhe
suscitam sentimentos ambíguos, visto serem fracassadas sentimentalmente,
abandonadas pelos maridos.
Em “A interpretação dos sonhos”, no capítulo IV que se intitula “A
distorção nos sonhos”, Freud já ressaltara que a histérica coloca-se no lugar do
outro pelo sintoma, exatamente como o fez a mulher do açougueiro no sonho
interpretado por ele, em que a mulher renuncia ao desejo da amiga de engordar,
que era seu própria desejo (caso a amiga engordasse ficaria mais atraente aos
olhos do marido açougueiro). O sintoma é justamente o desejo renunciado, e a
manutenção deste sintoma suscita o eterno jogo histérico.
116
Os retrocessos que Violeta apresentava durante o tratamento faziam
sentirmo-nos impotentes frente a essas fantasias de achar que os personagens
eram a única coisa que na verdade ela sabia fazer bem. Mesmo envolvida por
nosso acolhimento às suas queixas, Violeta vinha expressando inúmeros atrasos
nas sessões, o que nos leva a acreditar na atuação de resistências ao tratamento.
Reclamava continuamente de alguns sintomas como asma e aftas. Dizia
saber que a asma era ‘psicológica’, em razão das confusões que se acentuaram
após a morte de seu avô e a pressão do tio para que a avó confessasse quem era
seu pai, já que este pretendia pleitear uma parte dos bens deixados pelo suposto
genitor (este filho não foi reconhecido pelo avô, antes do abandono da avó).
No trabalho denominado “A transferência na histeria – um estudo no
‘caso Dora’ de Freud” , assim se expressa Sérgio de Gouvêa Franco:
“a psicanálise permanece como uma relação onde um sujeito está diante de
outro sujeito. Paciente e analista relacionam-se e mutuamente influenciamse”. (...) É no caso Dora que Freud reconhece claramente que o analista
participa da transferência e não só o paciente . É com esta experiência que
fica claro para ele que sua escuta de Dora determina, ao menos em parte, o
que ela vai dizer. Suas atitudes e interpretações podem abrir ou fechar a
possibilidade de avanço da análise. Freud ainda não tinha tanta experiência
clínica e com este caso que percebe o fenômeno dual da transferência. Ele
reconhece ‘as severas exigências que a histeria faz ao médico e ao
investigador”. (Franco, 2000, p. 25)
Semelhantemente às queixas de Violeta de que era motivo de zombaria
117
dos amigos, assim me encontrava eu quando chegava para a supervisão de seu
caso clínico. Minhas colegas reclamavam do quanto cansativo era o relato de
seus proeminentes e repetitivos sintomas e a supervisão apontava para que eu
deixasse de me ver tão compadecida de seus queixumes e quimeras eternas.
Não tendo ela podido suportar suas angústias durante a sessão, pensei temerosa
de que ela poderia abandonar a terapia. Gostaria que Violeta pudesse ter
compreendido que eu apostava nela e que pensava que pudesse resignificar
esses personagens que tanto nos intrigavam.
PERSPECTIVAS PARA VIOLETA
Podemos pensar que o temor, contudo, não é de todo esmagador, pois no
jogo histérico Violeta sempre é levada pela identificação com a avó em direção
aos homens, topa jogar com um deles, mas no momento de assumir seu desejo
ela desiste, denega-o, foge, mantendo o desejo em suspenso. Aí novamente se
entrega às fantasias tão próprias da histérica.
O medo que sempre acompanha a problemática histérica, é verbalizado
no temor de que pudesse vir a terminar seus dias da mesma maneira que as duas
mulheres — abandonada e principalmente deprimida como a avó. Faz parte
ainda do elenco de suas fantasias, uma voltada ao tratamento terapêutico e o
que pudessem pensar dela enquanto paciente. Sua questão mais freqüente se dá
pelo temor de aniquilamento quando revela estar ficando conhecida.
Parece-nos que quanto mais buscávamos conhecê-la, mais Violeta nos
embrenhava em seus enigmáticos caminhos, como se nos presenteasse a cada
118
nova leitura de seus atendimentos com novos detalhes e (im)precisões sobre o
seu eu. A riqueza de imagens que esse encontro suscitou, não desaparecerá de
nossa lembrança por tudo que ele proporcionou.
119
7.Considerações Finais:
O que pretendemos refletir nesta pesquisa é a maneira como a
angústia e a identificação — fenômenos fundamentais na constituição do
sujeito — podem provocar os sintomas histéricos. Este estudo, pensamos,
pode contribuir um pouco mais para a compreensão do tema em questão.
Refletimos aqui sobre os conflitos identificatórios da paciente Violeta
com as figuras parentais. Fomos buscar no estudo da histeria juntamente com
a análise dos conflitos, da queixa de insegurança e medo, dos abandonos de
projetos e nas formas de como a psicopatologia se manifesta, o fundamento
para fortalecer nosso argumento, que em função de identificações
conturbadas, Violeta criava personagens objetivando apaziguar uma avalanche
de desejos libidinais e identificações incompatíveis no seu psiquismo.
Tratamos também das formações que podem ser atribuídas à histeria:
fantasias, recalques, sintomas e principalmente os fracassos no processo
identificatório apresentados por Violeta.
A idéia de ‘ser conhecida’ lhe remetia à fantasia de prostituição
sustentada pela suspeita do avô quanto à fidelidade da avó e seu posterior
abandono. Em contraste à recusa do desejo de ser conhecida, existe um certo
desejo de ser famosa e rica , cantando ou trabalhando como atriz. Essa busca
de identificação tem relação com a fantasia de que para ser alguém é
necessário ser reconhecido, ter poder e fama.
Violeta procurava de todas as maneiras se identificar com alguém – os
120
pais, a avó, os irmãos e conosco. O desejo de ser reconhecida se mantém
constantemente insatisfeito, pois no momento que a paciente tem a
oportunidade de realizá-lo, ela abandona os empregos que lhe possibilitariam
esse poder. Mesmo recusando ser igual as duas figuras marcantes para si — a
mãe e a avó, identifica-se com elas e aí está a origem de seus conflitos.
Por sua vez, suas escolhas de objeto foram sendo ressignificadas ao
longo de sua psicoterapia. Quais são os homens que ela escolhia? O primeiro é
buscado no modelo introjetado a partir de sua identificação com a avó —
bonito, com carro e com dinheiro — é aquele com quem a espanhola foi ao
motel e que lá chegando se arrependeu; o segundo é um negro, oposto aos
padrões familiares, com quem ela teve relações sexuais pela primeira vez; o
terceiro é o que tem poder porque sabe jogar — o que ela gostaria de ter
aprendido com o pai, e, finalmente, o último é o atual namorado,
compreensivo e paciente, tal qual sua mãe, que tudo aceita. E esse namorado é
uma garantia de manter o desejo insatisfeito, em função dos estreitos limites
em que se mantém a relação entre os dois.
Se pensarmos bem, qualquer dessas figuras masculinas representam o
poder de alguma forma, posto que para ter o poder é necessário que esse seja
atribuído por alguém.
Com os homens que desejava, Violeta hesitava, ficava imobilizada
mesmo que movida pelo desejo. E fugia como a mãe.
Vagueava pelos personagens, como o fazia pela casa dos familiares e
da sogra, onde acabava achando tudo muito moderno, diverso da casa da avó.
Violeta não era ninguém, não tinha forma, era oca, poderia ser qualquer
personagem que quisesse interpretar, menos ela mesma. Assim não se
121
comprometia com nada que pudesse significar a realização de seus próprios
desejos. Sabemos que Violeta, também por ter tido pouco contato com outras
crianças, entregava-se ao hábito de ficar horas a fio dando asas as suas
fantasias diante da televisão. Quando ela dizia que o comediante Chico Anísio
na pele dele mesmo era muito desinteressante, talvez fosse isso que ela
pensasse de si.
Contrastando com a expressão ‘ser conhecida’ está uma outra ‘sentirse despercebida’ que fazia com que os personagens aparecessem, a
identificação aí operando como uma defesa contra a angústia de que era
tomada e da qual não chegava a ter consciência. Pensamos que o desejo de
saber-se desejada quando chegava às reuniões dos amigos opõe-se ao sintoma
de abandono do que desejava. Toda vez que se via numa posição de destaque,
a paciente fugia, abandonava essa posição. Isso ocorreu quando largou o lugar
de coordenadora da dança e o emprego de fiscal do shopping.
Abandonava o lugar, por já possuir muitos troféus. Na língua
portuguesa, troféu diz respeito a “insígnia ou sinal que se expunha ao público
em comemoração de alguma vitória”. Tem relação com triunfo, com vitória. E
Violeta não queria ter troféus, ela se oferecia como troféu de alguém.
É justamente por ter conflitos com suas identificações que a paciente
foge do confronto, antagonicamente suas histórias eram sempre as mesmas —
de insatisfação, desânimo e da impossibilidade de poder desejar algo para si
melhor que todas àquelas queixas.
As relações estabelecidas entre Violeta, a avó e a mãe fazem parte de
um atormentado jogo histérico, no qual a insatisfação é a regra fundamental.
Aliás a histeria nos ensina vários aspectos com que o desejo se recobre,
122
mascara-se para enfrentar a realidade. A histeria ensina como o ego se
defende no enfrentamento com a idéia incompatível e a afasta pela ação do
recalcamento. Entretanto, a substituição dessa idéia, digamos assim, por outra
aceitável acaba impossibilitando o seu desaparecimento.
Aprendemos com a psicanálise que o desejo se presentifica no
sintoma, uma vez que foi desalojado pelo recalque e que a força do desejo
repousa justamente na pulsão sexual. O sujeito deve encontrar seu próprio
modo de lidar com o apelo desse desejo para libertar-se rumo à satisfação. O
trabalho do recalque, por isso, é o de lutar contra essas forças poderosas que
geram angústia, evocando afetos aflitivos de dor tanto física quanto mental,
dores essas que assim se reatualizam.
Talvez se possa dizer que sua psicoterapia também desnudou a ilusão
de comprometimento com o poder fálico, esse compromisso com a felicidade
e a perfeição tão presentes na histeria e que tem relação com a necessidade do
sujeito de reconhecer no outro um pouco de si mesmo : a identificação.
Sabemos que gerar um sintoma não resolve definitivamente um
conflito, conquanto a defesa se constitui num acordo para apaziguar as partes
em litígio através da supremacia do poder. O ser humano acaba surpreendendo
e a histérica sempre ensina algo sobre o caminho percorrido pelo desejo na
busca de satisfação.
O desejo para Violeta representa o risco de ter que enfrentar o gozo,
mas também a possibilidade de entrar em depressão ou ainda, dos fantasmas
que ficar conhecida significavam.
A psicanálise propõe, no tratamento da histeria, a possibilidade de
conceder ao pai, poder para ser portador de falhas e imperfeições e, a partir
123
dessa concessão, o analisando possa se autorizar os mesmos direitos. O que
representaria uma vida bem menos problematizada, diríamos, bem mais
curtida. A análise propõe justamente a tentativa de passar pela castração com
êxito. No dizer de Ceccarelli, sofrer com o sofrível e não escolher o
sofrimento para gozar.
Por isso, atribui-se à análise um estar para além da realidade aparente,
para além do desejo porque ao refletirmos sobre teorias, de alguma forma,
estamos nos permitindo recriá-las através do nosso olhar.
Pensamos que a terapia ajudou a paciente, na medida em que, a partir
desse momento, ela pôde ter para si uma visão mais apropriada e verdadeira
da problemática familiar, o que pode ter significado, quem sabe, uma visão
menos opaca de si mesma.
Enfim, concluímos que se a vida nos coloca em confronto com o
desembaraçar dessas identificações primeiras, em contrapartida, também pode
favorecer a um constante exercício na criação de outros laços, novas
identificações.
124
8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDRÉ, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: 1998.
AULAGNIER, P. Angústia e Identificação. Revista Percurso nº 14, São
Paulo, 1995
BERLINCK, M. Psicanálise da Clínica Cotidiana. São Paulo:Escuta,1988
__________ Histeria. São Paulo: Ed. Escuta, 1997
__________ O que é psicopatologia fundamental in Revista Latino
Americana de Psicopatologia Fundamental, Vol. II, nº 1, 1999
BIRMAN, J. Cartografias do feminino. São Paulo: Ed.34, 1999
CECCARELLI, P. Identidade e instituição psicanalítica in Pulsional Revista
de Psicanálise, Ano XII, nº 125, Sâo Paulo: Escuta, 1999.
__________ Transexualismo e identidade assexuada in Temas da Clínica
Psicanalítica. São Paulo: Experimento, 1998.
FLORENSE, J. Identificações, in As Identificações na clínica e na teoria
psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994
FRANCO, S. A transferência na histeria - um estudo do caso Dora de
Freud. Pulsional Revista de Psicanálise, São Paulo: Escuta, nº 132, 2000
FREUD, Sigmund. Obras Psicológicas de Sigmund Freud: Rio de Janeiro:
ESB, 1980.
- Rascunho E – Como se origina a angústia (1892-1899)
- Rascunho B – A Etiologia das neuroses (1893)
- Estudos sobre a Histeria (1893-1895)
- Obsessões e fobias (1895)
- Sobre os critérios para destacar da neurastenia uma síndrome particular
125
intitulada “neurose de angústia” (1895)
- Resposta às críticas do meu artigo sobre neurose de angústia (1895)
- A etiologia da histeria (1896)
- A sexualidade na etiologia das neuroses (1898)
- A interpretação dos sonhos (1900)
- Fragmento da análise de um caso de histeria. (1905).
- Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905)
- Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade (1908)
- Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (1909)
- Psicanálise silvestre (1910)
- Cinco lições de Psicanálise (1910)
- A Dinâmica da Transferência (1912)
- Totem e Tabu (1912)
- Sobre o narcisismo: uma introdução (1914)
- História do movimento psicanalítico (1914)
- O inconsciente (1915)
- Conferência 23 – Os caminhos na formação de sintomas (1916-1917)
- Conferência. 25 – A angústia (1916-17)
- Os caminhos na formação de sintomas (1916-1917)
- Teoria Geral das Neuroses. (1917)
- Psicologia de Grupo E Análise do Ego (1921)
- O Ego e o Id (1923)
- A Dissolução do Complexo de Ëdipo (1924).
- Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926)
- O Mal estar na Civilização (1930)
- A Dissecação da Personalidade Psíquica (1932)
- Conferência 32 – Angústia e Vida Pulsional (1932)
126
- Conferência 33 – Feminilidade (1932)
- Rascunho K – As neuroses de defesa (1892-1899)
HANNS, L. Dicionário Comentado do Alemão de Freud, Rio de Janeiro:
Imago, 1996.
ISRAEL, L. A histérica, o sexo e o médico. São Paulo: Escuta, 1995
KRISTEVA, J.O real da identificação, in As Identificações na clínica e na
teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994
LACAN, J. O Seminário. Livro 3. As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1985 .
LACAS, P. O real da identificação in As Identificações na clínica e na teoria
psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994
LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J-B. Vocabulário da Psicanálise. São
Paulo: Martins Fontes, 1988
LEITE, A. Em busca do sofrimento histérico: a dimensão melancólica da
Histeria. in Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental, nº
1, São Paulo, 1999
MANNONI, M. A primeira entrevista em psicanálise. Campus : Rio de
Janeiro, 1981
MEZAN, R. Freud: A trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1987
MICHAELLIS. Moderno Dicionário de Língua Portuguesa, São Paulo:
Companhia Melhoramentos, 1998
NASIO, Juan David. A Histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1991
127
_______ Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1989.
PERES, U. Dúvida Melancólica, Dívida melancólica, Vida Melancólica. São
Paulo: Mimeo, 1998
RIBEIRO, P. O Problema da identificação em Freud: recalcamento da
identificação feminina primária. São Paulo: Escuta 2000
ROCHA, Z. Os destinos da angústia na psicanálise freudiana. São Paulo:
Escuta 2000
KLAIN, W. A Herança do Desamparo, São Paulo: Mimeo, 1998
TAILANDIER, G. Resenha do seminário “ A Identificação” in As
Identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume
Dumará 1994
128
Download

1. Apresentação Este Projeto de Dissertação de Mestrado dá