1. Apresentação Este Projeto de Dissertação de Mestrado dá continuidade ao trabalho desenvolvido durante o estágio supervisionado em psicologia clínica Abordagem Psicodinâmica, na Clínica de Psicologia da Universidade Federal do Pará. O estágio é requisito para a obtenção do título de Psicólogo, no curso de Formação em Psicologia da UFPA. Estudar-se-á fragmentos de um caso clínico, fundamentado em terapia de orientação analítica, sob supervisão. Dois estágios curriculares, no Hospital Universitário, contribuíram também para o desenvolvimento desse trabalho, em particular, o de atendimento a pacientes portadores de SIDA, no qual surgiram os mais variados sintomas e que oportunizaram a busca de uma compreensão mais profunda a respeito do funcionamento psíquico humano. Nesta pesquisa, pretendemos trabalhar com a problemática da identificação na histeria de angústia, partindo de vários questionamentos referentes à dinâmica de funcionamento psíquico nessa psicopatologia. Dentre as questões apontadas ao longo deste trabalho, destacamos algumas que desejamos aprofundar como objeto de investigação no decorrer do Mestrado, como o papel das identificações e das fantasias na formação da histeria, enquanto psicopatologia que comparece na clínica através do sofrimento profundo. Que força pulsional é essa que suscitava na paciente uma fonte inesgotável de (des)prazer, insatisfação, desânimo, desmotivação buscando alcançar a realização de seus desejos? Que conflitos intrapsíquicos foram vivenciados por Violeta que possam ter contribuído para a eclosão de seus sintomas? Por que Violeta não concluía nada que começava? 1 Desejamos, portanto, através de um estudo teórico psicanaliticamente orientado, investigar a suposição de que frente à Violeta, paciente cujo encontro resultou em questões obscuras em nossas lembranças, estávamos diante de um quadro de histeria no qual a mesma apresentava conflitos identificatórios com as figuras da avó, da mãe e do pai. Prosseguir com um olhar voltado para as noções de identificação, fantasia, conflito psíquico, recalque e formação de sintomas, que nomearam o que emergiu na reflexão sobre o atendimento desta paciente. A importância da histeria no contexto psicanalítico e na obra de Freud deve-se ao fato de que através de encontros terapêuticos com suas pacientes foi fundada a psicanálise, através da escuta, dando voz a tantas e tantas histórias que foram os primeiros acordes da chamada metapsicologia freudiana. Sem dúvida alguma que se fazendo valer dos seus dons de exímio contador de histórias, bem como do fato de ser um pensador aplicado e apaixonado sobre a natureza humana, tudo isso impulsionou grandemente a evolução de suas idéias e de seus pensamentos. No encontro entre analista e analisando haverá um investimento no sentido de identificar os sintomas e as possíveis causas de eclosão dessas formações, diante dos fatos marcantes na vida do paciente que precipitaram o aparecimento desses fenômenos. Enfim, desejamos refletir sobre o processo de identificação na neurose de angústia, enquanto fenômeno primordial na constituição dessa neurose. Afirma Lucien Israel na obra “A histérica, o sexo e o médico”: “A neurose é, portanto, uma produção do inconsciente, uma ramificação do desejo. Algumas neuroses se traduzem por falas, ou por um sintoma 2 expresso por fala. Este é o caso das obsessões e fobias. A histeria, em contrapartida, transforma a fala e a angústia em manifestações somáticas.” (Israel, 1977, p.31) A experiência vivenciada no atendimento à Violeta foi traduzida na demanda da paciente que ressoava como um pedido angustiado de poder minimizar os sintomas que a faziam sofrer e se apresentavam nas mais variadas formas durante o tempo de atendimento clínico. 3 2.Introdução à concepção freudiana de histeria Nesta etapa, pretendemos fazer uma breve incursão na literatura psicanalítica sobre a histeria, na tentativa de compreender melhor a concepção freudiana e, assim, poder problematizar as questões que em nós foram suscitadas no atendimento de Violeta, cujo relato clínico segue adiante. Como sabemos, com os “Estudos sobre a Histeria”, Freud vai fundamentar os pilares da Psicanálise. A histeria, podemos dizer, é o começo de toda a trajetória freudiana na teoria psicanalítica. A palavra histeria tem sua origem na Grécia Antiga, e desde aquele período possui uma íntima relação com o caráter sexual e o desejo. No século XIX, muitos estudiosos se interessaram em estudar essa patologia. Em Paris, Charcot, nos seus estudos sobre o fenômeno, irá formular uma “concepção da histeria como doença do simulacro” (Berlinck, 1997, p. 22), que permitirá um progressivo reconhecimento do aspecto psicológico presente nessa psicopatologia: “A influência de Charcot em seus trabalhos é reconhecida por Freud. No entanto, não é a imitação dos sintomas orgânicos que importa a Freud, mas o modo pelo qual tais sintomas se estruturavam e ocultam suas causas” . (Ibidem) Pierre Janet, que também foi discípulo de Charcot, concebia a histeria como ocasionada por uma “alteração degenerativa do sistema nervoso, 4 manifestada através da fraqueza congênita do poder de síntese psíquica” (Freud, 1909, p.23). Freud discorda deste ponto de vista ressaltando que ao lado da fraqueza congênita da paciente, existiam também outros fatores que revelavam que a mesma mantinha sua capacidade intelectual. Posteriormente, ao se dar conta que não conseguia hipnotizar alguns doentes, Freud abandona a hipnose ficando apenas com a utilização das técnicas da livre associação e interpretação da fala do paciente durante o processo de análise. Freud centralizava seu trabalho clínico deixando que o paciente falasse daquilo que nunca dissera a ninguém, nem a si mesmo, assegurando com isso a relação entre as cenas traumáticas recalcadas e seus resquícios - que seriam os sintomas. Portanto, durante o processo de análise é oportunizada a emergência das cenas traumáticas recalcadas e seus elos com os sintomas. As cenas traumáticas, reproduzidas no relato do paciente, provocavam neste uma energia afetiva que, até então inibida, ali se manifestava intensamente quanto mais próxima de sua origem, para desaparecer quando eram esclarecidas. Também, observou que esses relatos só surtiam o efeito esperado quando havia manifestação afetiva dessas emoções, determinando assim a cura da doença. Sobre as emoções aponta o pai da Psicanálise: “Em parte ficavam estas com carga contínua da vida psíquica e fonte permanente de excitação para a mesma, em parte se desviavam para insólitas inervações e inibições somáticas, que se apresentavam como os sintomas físicos do caso”. (Freud, 1909, p. 20) 5 e ele propõe o nome de “conversão histérica” para tal mecanismo. A conversão seria a transposição de uma excitação puramente psíquica para o corpo, assim permanecendo conservada. Foi pela primeira vez mencionada por Freud em seu trabalho denominado “As neuropsicoses de defesa” (Freud, 1894, p.57). Para ele, o fator característico da histeria não seria a divisão da consciência, mas a capacidade de conversão, daí deduzir-se que esta compunha parte da predisposição para a doença. Sobre o sofrimento do sintoma de conversão, Nasio aponta-o como equivalente de uma “satisfação masturbatória”. (Nasio, 1991, p.30). Como aprendemos com Freud, o sentimento que direciona a menina ao pai não é angústia face ao temor da castração, e sim o ressentimento pela constatação de um fato consumado – saber-se castrada e que é a repetição de um sentimento já vivenciado por ocasião da separação de seu primeiro objeto de amor - a mãe. Freud revela, no texto “Fragmentos de uma análise de um caso de histeria”, que o trauma psíquico do paciente é a condição indispensável para a origem do estado patológico histérico, mas enfatiza que “o trauma que sabemos ter ocorrido na vida do paciente não basta para esclarecer a especificidade do sintoma, para determiná-lo” (Freud, 1905, p.33). Constatando que: “Já constatamos que, com bastante regularidade um sintoma corresponde simultaneamente a diversos significados; acrescentemos agora que também pode expressar diversos significados sucessivamente. No decorrer dos anos, um sintoma pode alterar um de seus significados ou seu sentido principal ou então o papel principal, pode passar de um significado para outro” (Freud, 1905, p.56). 6 Um sintoma pode ter as mais diversas formas para ocultar seu verdadeiro sentido. Nasio, questionando sobre a atualidade do tema histeria, desde as primeiras formulações elaboradas por Freud até a atualidade, vai falar na modificação introduzida por este, em 1900, sobre a origem da histeria apontando para tanto a fantasia inconsciente, como sua sede e não mais uma idéia. Afirma ele: “Para Freud - e para nós, atualmente - o termo trauma já não se referia essencialmente à idéia de um evento externo, mas designava um acontecimento psíquico carregado de afeto, um verdadeiro micro-trauma local, centrado numa região erógena do corpo e consistindo na ficção de uma cena traumática, a que a psicanálise deu o nome de fantasia. Naturalmente “ o fato da fantasia ser um trauma não quer dizer que todos os traumas sejam fantasias”. (1991, p.38) Nasio conclui seu raciocínio afirmando que o afeto originado de trauma real, recalcado ou não, ficará fixado na vida fantasística da criança, e respondendo à questão das fantasias enquanto defesas encontradas pelo ego, sob ameaça de aniquilamento frente ao poder das pulsões sexuais e a sua descarga, ele irá salientar que “no núcleo da fantasia que é o lugar erógeno, jorra uma sexualidade excessiva, não genital (auto-erótica), automaticamente submetida à pressão do recalcamento”. (Nasio, 1991, p.38) Falar em sexualidade infantil é dizer que esta é fonte inconsciente de sofrimento, por ser desmesurada em relação à capacidade tanto física quanto emocional da criança em lidar com a carga libidinal que aflora em seu corpo. 7 Este corpo erógeno passa a ser a sede do desejo e a possibilidade de obter a realização total de seus anseios, passa a ser insuportável para a criança, e por isso a invenção de cenas e fábulas que servem como proteção dessas fantasias , sem que o sujeito se dê conta (por isso inconsciente). A fantasia é utilizada pela criança como recurso para resguardar o ego do temor de desintegração diante da intensidade das pulsões sexuais a si impostas pelo id. Nasio ensina que “a angústia é o nome que o desejo e o gozo assumem ao serem inscritos no âmbito da fantasia”. (Nasio, 1991, p.39) Freud em “Fragmento da análise de um caso de histeria” observa: “Eu tomaria por histérica, sem hesitação, qualquer pessoa em quem uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderantes ou exclusivamente desprazerosos, fosse ela ou não capaz de produzir sintomas somáticos. Esclarecer o mecanismo dessa inversão de afetos é uma das tarefas mais importantes e, ao mesmo tempo, uma das mais difíceis da psicologia das neuroses”. (Freud, 1905, p.35) Assim, “um sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente; é uma conseqüência do processo de recalque” (Freud, 1926, p.112). Esta se processa a partir de quando o ego se recusa a associar-se a um investimento pulsional que foi provocado no id. Por meio do recalque, a idéia é mantida afastada da consciência. O medo infantil seria um representante disfarçado ou distorcido da idéia recalcada e faz parte do desenvolvimento de uma criança. É sempre a angústia, pela qual passa o ego, que põe em movimento o recalque. A angústia é disparada como sinal frente às ameaças ao ego. É só 8 recordarmos sobre o medo da criança de estar só e o medo de estranhos, já destacados por Freud no capítulo III dos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” de 1905, e posteriormente na Conferência 32, das “Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise” de 1932, que apontam que a angústia origina-se na mais tenra idade. O desejo vem se presentificar no sintoma, uma vez que este foi posto de lado, desalojado pelo recalque. Através do sintoma o desejo vai ser reconhecido, assim como também pode desaparecer e voltar com uma nova roupagem, daí Freud afirmar que a significação é diversa, mas o sentido é um só. Sobre a histeria assim se expressou Freud em “Análise de um caso de fobia em um menino de cinco anos”: “Uma característica essencial das histerias de angústia é muito facilmente apontada. Uma histeria de angústia tende a desenvolver-se mais e mais para uma ‘fobia’. No final o paciente pode ter-se livrado de toda a sua angústia, mas somente ao preço de sujeitar-se a todos os tipos de inibições e restrições. (...) Nada lhe resta, a não ser cortar o acesso a todo possível motivo que possa levar ao desenvolvimento de angústia, erigindo barreiras mentais da natureza de precauções, inibições ou proibições; e são essas estruturas protetoras que aparecem para nós sob a forma de fobias e que constituem aos nossos olhos a essência da doença” . (Freud, 1909, p. 123-124) Essa problemática na histeria de angústia nos remete ao fato que a paciente tinha um sintoma que se repetia na busca incessante de empregos e no 9 abandono destes, o que lhe acarretava uma permanente insatisfação consigo mesma. Além disso, Violeta tinha consigo um medo imenso de tudo que a colocava diante da possibilidade de chegar ao fim na busca de seus objetivos, tudo isso a entristecia e incomodava os que a cercavam. Como se essa inibição tivesse a finalidade de impedir um desejo posto de lado, evitando com isso o ego ameaçado pela angústia sem fim. Nasio nos ensina que: “o histérico é fundamentalmente um ser de medo que, para atenuar sua angústia, não encontrou outro recurso senão manter incessantemente, em suas fantasias e em sua vida, o doloroso estado de insatisfação”. (Nasio, 1991, p.15). A angústia ocasionaria esse medo que impossibilita o desejo, porquanto paralisa o sujeito, no entanto, reafirma o descontentamento histérico. Freud destacara o sintoma como “o substituto e derivativo do desejo recalcado, executa o papel do segundo continuamente renovando as exigências de satisfação do id e, assim obrigando o ego a dar o sinal de desprazer e a colocar-se em uma posição de defesa”. (Freud, 1909, p.122) A partir de várias questões que são levantadas no texto “Fragmento de uma análise de um caso de histeria”, o Caso Dora), tais como: a relação amorosa de Dora com o pai, com a Sra. K e com a mãe, os sintomas, os ganhos com a doença, bem como as questões de ordem sexuais. Sobre o novo procedimento de atendimento terapêutico que descobria progressivamente, Freud assim vai refletir: “...omiti por completo a técnica, que nada tem de óbvia e unicamente através da qual se pode extrair da matéria-prima das associações do enfermo o metal puro dos valiosos pensamentos inconscientes”. (Freud, 1905, p.107) 10 Daí em diante, o trabalho de Freud passa a ser conduzido pela escuta do paciente, e a partir dessa escuta vai fundamentar a teoria psicanalítica. Partindo do estudo contínuo das psicopatologias, destacando o papel preponderante da sexualidade infantil, Freud vai dar um novo estatuto ao tratamento não só da histeria como de todo psiquismo humano. No atendimento de Violeta, supomos que a paciente apresentou inúmeros sinais de intensa angústia, resultantes de conflitos com as figuras parentais, observados quando refere à figura paterna como distante dos familiares; quando tece críticas à mãe por assumir uma atitude passiva diante da ‘outra’, ao mesmo tempo que o pai é colocado como um figura de admiração. A luta entre as duas mulheres pelo pai, sem que nenhuma delas procure resolver a problemática conjugal, evidentemente, incomodava a paciente e foi revelada em diversas sessões. Entretanto, o que também se depreende é que a situação dos pais incomodava tão somente à paciente. Pensamos que Violeta não se dá conta dos seus limites, daí achar que ninguém se incomodava com o fato de o pai possuir duas mulheres, pois quando revelou esse detalhe, a paciente parecia também estar conformada com o destino da sua mãe, uma vez que todos (inclusive ela) já estavam acostumados àquela vida. Esse episódio reporta-nos ao trabalho “Fragmento de uma análise de um caso de histeria”, no qual Dora, ao pedir ao pai que rompa com o Sr. e a Sra. K, em virtude do incidente entre o marido da Sra. K e ela. Isso parece ter feito com que associássemos aos relatos, nos quais Violeta diz que seus irmãos também deveriam fazer alguma coisa para resolver o casamento fracassado dos pais e em seguida revela que gostaria de saber dos negócios paternos. Mais 11 uma intromissão que nos parece acentuar a irresolução edípica ou quem sabe expresse mais um conflito de Violeta. Freud acentua que “o complexo de Édipo revela sua importância como fenômeno central do período sexual da primeira infância” (Freud, 1924, p.217), complementando esta formulação irá dizer que: “se o ego, na realidade, não conseguiu muito mais do que um recalque do complexo, este persiste em estado inconsciente no id e manifestará mais tarde seu efeito patogênico. A resolução ou não desse conflito irá delimitar a fronteira tênue entre o normal e o patológico”. (Ibidem, p.221) Sabemos que a normalidade/anormalidade é um tema muito complexo e que envolve uma série de questões que estão além do Édipo. O Édipo, na menina, desenrola-se de maneira mais complexa do que no menino. A menina além de se voltar para o sexo oposto em virtude da mãe não poder dar-lhe um pênis, vê-se obrigada a abandonar seu primeiro objeto amoroso. Por não possuir tal atributo, a filha tem sentimentos ambíguos de amor e ódio relacionados à figura materna. A menina passa a se voltar ao amor paterno muito mais por uma questão de rancor despertado pela mãe diante da impossibilidade de não possuir o falo que tanto deseja para si. É essa falta no outro que a menina tem que se defrontar. Nas palavras de Serge André “o desejo no homem é tanto insatisfeito quanto é fundamentalmente histérico” (André,1999, p.138), daí a histérica entregar-se a uma simbolização desenfreada que incita a excitação psíquica nessa psicopatologia. Aprendemos com Freud, que na fase que ele chamou de pré-história do Édipo feminino, a menina estava inteiramente ligada à figura materna e que essa ligação pode ser reatada quando do fracasso do complexo. O pai é 12 impotente no sentido de não poder dar o apoio que a menina necessita para assentar uma identidade feminina. A mãe é o primeiro objeto de amor tanto do menino como da menina. A castração se impõe ao menino como o fim do Complexo de Édipo. Já na menina, ela introduz o Édipo, uma vez que a angústia de castração não é universal, pois é sentida apenas pelo menino. A seqüência temporal é inversa. Para a menina, a mãe também se coloca como primeiro objeto de amor, daí a dificuldade na troca desse objeto amoroso. Essa troca de objeto vai se dar num clima de rivalidade e inveja entre mãe/filha. A menina não sofre da angústia pela castração por já se perceber castrada, por saber que nunca teve. Daí dizerse que as conseqüências da castração no menino é o temor, a angústia diante da possibilidade de se ver desprovido do seu mais honroso símbolo de poder, enquanto à menina cabe a inveja deste membro, justamente por não possuí-lo. Na Conferência 19, das “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”, Freud referindo-se ao processo de recalque irá esclarecer: “consideramos o recalque responsável pela angústia na histeria e em outras neuroses” (Freud, 1916-17, p.105), e separando o que acontece com a idéia que tem de ser recalcada, daquilo que acontece à quota de libido vinculada a ela, prossegue: “É a idéia que submetida ao recalque, e que pode ser deformada a ponto de ficar irreconhecível; sua quota de afeto, porém é regularmente transformada em angústia - e isto é assim, qualquer que possa ser a natureza do afeto, seja ele de agressividade ou de amor”. (Freud, 1916-17, p.105) 13 Ressalta ainda que “a geração de angústia é o que surgiu primeiro, e a formação dos sintomas, o que veio depois”, como se os sintomas fossem criados a fim de evitar a irrupção do estado de angústia. Freud nos diz que o sintoma se forma para evitar um estado de angústia, provocado pelo conflito. (Freud, 1933, pp. 105-106). Entretanto, sabemos também que ao mesmo tempo expressam a trama do conflito edípico. A insegurança, o medo, o abandono de empregos, a não conclusão dos empreendimentos e a eterna insatisfação, em Violeta, parecem significar os sintomas se repetindo no discurso neurótico e que a fazem sofrer. Não nos esqueçamos que essas queixas trouxeram Violeta à clínica. A escuta clínica esteve voltada fundamentalmente para o sofrimento da paciente e qual seria a origem desses conflitos que a atormentavam e que, contudo pareciam repercutir como um certo prazer. Esse modo de defesa que visa a amenizar o sofrimento, potencializa-se no sintoma. Assim, podemos dizer que se dá a defesa do ego na neurose, em suas formas diversas. Berlinck (1997, p. 29) ressalta que “uma das perspectivas que a teoria psicanalítica abre para a sua clínica é o tratamento daquilo que se repete na fala do sujeito”. (Berlinck,1997, p. 29) Quanto aos personagens que Violeta se utiliza, apesar de sabermos que a histérica recorre à teatralidade algumas vezes para expressar seu descontentamento e insatisfação, eles evocam em nós questionamentos quanto a sua veracidade ou se seriam apenas fruto de suas fantasias ou delírios histéricos. Em Violeta, o sintoma retorna através do fracasso do recalque nos freqüentes abandonos de empregos, não concluindo nada que começa, não se permitindo o gozo total, característica fundamentalmente neurótica. Entretanto, 14 nos fundamentamos no fato dessa realidade fazer parte do psiquismo de Violeta e estarem traduzidas na dor que estes sintomas produziam em sua vida. Como Berlinck salienta: “Ao psicanalista não cabe a determinação da veracidade do discurso do sujeito”. Para ele ao “psicanalista cabe indagar sobre o estatuto psicopatológico da fala do sujeito, ou seja, sobre os caminhos de sofrimento que a libido percorre em direção à sua meta”.(Berlinck (1997, p.40) Reconhecemos uma contratransferência, no fato de as revelações de Violeta terem evocado em nós uma questão quanto à veracidade ou não de seu discurso. Nos questionávamos quanto a um possível prazer em revelar-nos que mais uma vez havia falhado. Em suas queixas, dizia - nos que embora tentasse, não conseguia ultrapassar essa impossibilidade. Ferenczi já havia apontado para a importância da transferência durante o processo terapêutico, em seus escritos de 1909, ressaltando na técnica o caráter transferencial das relações neuróticas. No processo analítico, o paciente através da introjeção toma para si como objeto, a figura do analista e lhe transfere seus afetos recalcados. Berlinck, em seu trabalho intitulado “A Contratransferência contra a Transferência” observa: “a dupla sedução que decorre da neurose transferencial manifestada no processo analítico. Por um lado, a sedução do psicanalista que se oferece e, por outro, a resposta do cliente que repete o que se articula à sedução. Assim, cada psicanálise tem início quando o erótico dessas seduções se manifesta” . Berlinck, 1988, p.111) 15 O que nos leva a refletir sobre como ressoavam os apelos da paciente, algumas vezes muito pouco verídicos que objetivavam nos atrair significativamente para sua coleção de troféus já abandonados. Freud, em 1912, já apontara em “A Dinâmica da Transferência”, a busca constante em satisfazer a necessidade de amor que o ser humano empreende diante da vida, essa insatisfação vai ter eco na figura do analista como liberação da pulsão sexual na transferência. Na relação transferencial com Violeta emergiram sentimentos que nos envolviam, de parte a parte, que impediam de que algumas questões de ordem sexual fossem verbalizadas. Que sentimentos tão intensos seriam estes? O que haveria desencadeado o sintoma histérico em Violeta e o que poderia ter interferido na nossa escuta? Portanto, é procedente a observação freudiana sobre a importância não só da teoria, mas da prática clínica e da análise pessoal como o tripé que vai instrumentalizar aquele que objetiva o desenvolvimento da técnica 16 3.Violeta - Relato Clínico A ficha de solicitação de atendimento psicoterápico preenchida por Violeta já havia passado pelas mãos de grande parte dos estagiários daquele semestre de 1995. Alguns haviam comentado que seria um caso muito interessante, entretanto ninguém a escolheu, resolvemos então assumir a tarefa de atendê-la. Marcamos a primeira entrevista e no horário combinado lá estava ela, em companhia do namorado que nunca se furtava da tarefa de levá-la até a Clínica. Depois de nos identificarmos, solicitamos que nos acompanhasse até a sala de atendimento. De início, Violeta disse que procurara a Clínica de Psicologia por sentir-se muito insegura e não conseguir concluir as atividades a que se propunha. A vida já lhe tinha apontado por diversas vezes este tipo de percurso, por ser um comportamento repetido continuamente ao longo de sua existência. Já tentara com o ballet, com a música, com o violão, com o supletivo, enfim, estava exausta de perceber isso. A procura pela Clínica também se devera a indicação da irmã de seu namorado, que era estudante de Psicologia. Desde a primeira entrevista e no decorrer dos seis meses de atendimento, pudemos conhecer um pouco quem é Violeta e verificamos quantas histórias sobre a sua vida ela tinha para contar. Violeta tinha 23 anos, é era a caçula de uma prole de cinco irmãos, com 17 apenas um rapaz. Seu pai é corretor, sua mãe é doméstica - nome esse entendido na concepção mais chula da palavra do lar, pois é tida e tratada como tal na casa de sua avó paterna onde mora a família. A casa da avó, o pai só freqüenta a passeio, nos finais de semana, pois na verdade vive maritalmente com outra mulher, há bastante tempo e com quem tem filhos ainda pequenos. Essa situação mantida pelo pai ocasionou muitas brigas, com ameaça de agressão física à mãe e intervenção dos filhos para evitar isso. Violeta começou a estudar muito tarde (nove anos) e diferentemente dos irmãos, freqüentava uma professora particular perto de casa, antes de ser matriculada na escola pública. Não gostava de estudar e sua mãe lhe batia, quando tirava notas baixas. Lembrou que toda segunda-feira, a professora fazia ditados e ela era a que mais errava, motivo pelo qual a professora a criticava perante as outras crianças. Era muito sensível a críticas, isso foi ficando cada vez mais claro e apresentou esse dado como queixa em várias ocasiões. Contou que a avó sempre foi uma pessoa crítica, severa e autoritária. Antes era tida como modelo de educação rigorosa, hoje já não é temida como antes, uma vez que sofre de depressão, o que a faz tomar muitos remédios. Disse que a avó aplicava castigos cruéis, não apenas a ela como a seus irmãos, como pendurar as sandálias no pescoço de quem as deixasse fora do lugar ou como fez com sua irmã, colocando uma lata na sua cabeça porque esta esqueceu de fechá-la corretamente. As tarefas eram distribuídas pela avó que a mandava encerar a casa com aqueles escovões pesados (anteriores às modernas enceradeiras), quando Violeta tinha pouco mais de sete anos de idade. Comandava a tudo e a todos com mão de ferro e ai daquele que a desrespeitasse por alguma razão. O castigo era sempre com requinte de crueldade da parte 18 daquela senhora, assim pensava eu. Da mãe, lembrava sempre que a mesma fazia tudo na casa e era tratada pela avó como uma verdadeira empregada doméstica. A mãe alegava que a avó tratava-a mal porque ‘não tinha estudo’. Para Violeta, sua mãe parecia uma pessoa passiva e conformada com aquela condição, sempre alegando que não tinha para onde ir, já que não possuía parentes em Belém. A fala de Violeta evocava-nos a figura da gata borralheira para sua genitora. Na fala da paciente sua mãe aparece como impotente, quando admite que o marido viva com outra mulher e aceita o papel de vítima da história, buscando para isso toda sorte de desculpas, como a de que não tem parentes, daí não ter para onde ir, não poder deixar a avó sozinha, etc. Violeta ficava muito a mercê, como nos sugere seu discurso, dessas imagens de como é ser uma mulher: se mandona, igual à avó ou submissa como a mãe. Contudo, a infelicidade das duas estava ali exposta no seu relato e Violeta desde a primeira entrevista oscilava entre essas duas figuras femininas que pontuavam sua fala. Pensávamos que dividindo conosco, parte desses conflitos pareciam ficar mais leves, até porque esse questionamento invariavelmente a remeteria a posições identificatórias de sua própria mãe com relação à outra mulher. Do pai, dizia não possuir boas lembranças infantis, queixava-se que o mesmo era ausente, não era carinhoso com os filhos e nunca se dispôs a dividir com a mulher a tarefa de educá-los. À avó cabia o papel de educar e principalmente, punir os netos. Entretanto, sempre que se referia à figura paterna também falava com admiração, de um homem que já fora muito bonito, 19 pois era descendente de espanhóis; que já havia cantado nos bares noturnos, nos quais fazia sucesso. Dizia também que a mãe já se acostumara a condição de ‘outra’ na vida do genitor, aceitando tudo resignadamente. Em casa, ninguém comentava a situação do pai possuir duas casas e viver com duas mulheres, nem tampouco havia qualquer tipo de atitude que viesse a pressionálo a resolver aquilo. Violeta morava muito mais na casa do namorado do que em casa de sua avó (da mesma forma que a mãe, também foi morar com a sogra).Questionada se sua família não fazia nenhum tipo de comentário sobre o assunto, afirmava que não, pois ela todo dia (a exemplo do pai, pensamos) ia a sua casa apenas almoçar e pegar mais roupas, algumas vezes, ficando para dormir. Do namorado, referia-se muito pouco. Dizia que estavam juntos há três anos e que este era muito “paciente e compreensivo com ela”, diferentemente dos outros rapazes que ela anteriormente tivera algum tipo de relação. Falar de sexo? Nem pensar. Só se, para isso, tivéssemos de interrogá-la (ela mesma proporia isso depois), pois caso contrário, ficava calada no decorrer da sessão. Segundo alegava, sentia-se pouco à vontade para falar desses assuntos, pois na sua casa isso não lhe era permitido. Violeta dizia sentir-se inferiorizada frente à família do namorado, sentimento este acentuado pelo fato de estar sob atendimento psicológico. Todos da família deste gostavam muito dela e ela fazia o possível para não desagradá-los. A paciente admirava a união dos membros daquela família, todo mundo encaminhado, estudando, diferentemente da sua família, na qual somente uma irmã estudava Direito, por tal motivo, o pai a elogiava algumas vezes. 20 A irmã do meio havia resolvido mudar de curso e no momento tentaria um novo vestibular. A terceira e última irmã ajudava o namorado na venda de produtos paraguaios, fato esse que contrariava o pai, uma vez que o parceiro da filha era pobre e segundo o pai ‘sem futuro’. O irmão, trabalhava como corretor à frente de uma pequena corretora junto com o pai. Era com esse irmão que Violeta repartia alguns de seus planos, como um curso livre de línguas na universidade, terminar o 2º grau, e começar a ensaiar como cantora na banda na qual o namorado tocava. Objetivos que no decorrer do seu atendimento tentou, mas acabou abandonando. Dizia que não gostava de falar desses planos a ninguém com medo das gozações que poderiam advir. Contou-nos que usava vários “personagens” para se apresentar em reuniões em casa de amigos, no trabalho, no colégio, etc. Um exemplo ilustrativo de como esses personagens apareciam era “a espanhola” (o que remete à sua ascendência paterna), criada com o objetivo de conseguir emprego - uma garota bem educada, dócil e com traços infantis, que por todos era querida e conhecida durante o período em que trabalhara naquele local como fiscal do shopping. Alegava ter abandonado o emprego ‘por já ser muito conhecida por todos’. Com relação à expressão ‘já ser muito conhecida’ nos lugares, em que abandonava os empregos, parece-nos que a possibilidade de ser conhecida remetia Violeta à fantasia de prostituição – uma vez que a paciente possuía renitente suspeita sobre o passado da avó. Talvez, assemelhar-lhe com a imagem de uma prostituta fosse algo que ela não admitisse, mesmo que 21 desejasse isso, pois seus personagens pareciam ter sempre um toque de sedução. Como aprendemos, a problemática da mulher histérica é justamente essa ambigüidade, essa hesitação identificatória entre ser menina e mulher que vai desaguar no Édipo feminino. Para melhor ilustrar o que pretendemos, passaremos a relatar fragmentos de sessões em que Violeta oscila entre essas posições. Algumas vezes, segundo dizia, representava uma mulher sexy, em outras, atuava uma mulher completamente corajosa. O traço comum entre esses personagens era a amabilidade, a meiguice, e acima de tudo a aceitação de todos. Parece-nos que o fato da paciente ter forte vínculo com as figuras da avó e da mãe, apesar de negar essa identificação, isto faz com que se acentue o conflito identificatório em Violeta. Certa vez, em uma reunião na casa de amigos do namorado, desafiou um rapaz ali presente para jogar xadrez com ela. Nesse dia, acabou sendo ridicularizada pelos amigos do namorado, pois conseguiu jogar apenas alguns segundos. Na sessão em que a cliente relatava esse fato, pontuamos que a personagem acabara por colocá-la numa situação vexatória. Repentinamente, após essa observação, solicitou para ir até o banheiro alegando que não estava se sentindo bem. Assinalamos que a sessão estava quase para terminar e que ela esperasse um pouco, pois ainda continuaríamos falando daquele assunto. Violeta concordou, retomando seu relato. Entretanto, logo em seguida, disse que não podia esperar até o fim por estar ‘passando mal’, precisava lavar o rosto para amenizar aquele mal estar. Abrimos a porta da sala e ela saiu em desabalada carreira para o toalete. Fomos imediatamente atrás dela, para 22 perguntar como estava. Depois de alguns minutos, ela reapareceu dizendo que havia melhorado. Que acordara muito cedo e viera juntamente com o namorado para a universidade, a fim de inscrever-se em um curso de línguas. Na universidade, comera um pouco antes do atendimento e que por ter ficado muito tempo em jejum, sentira-se mal. Ao voltar para sala de atendimento, questionamos se o assunto não se relacionava com o fato de ter passado mal. Violeta negou definitivamente. Não era fácil para ela lidar com suas angústias. Como supomos, quando confrontada fugia como sua mãe, que não assume uma posição feminina diante da rival e se esconde. Os efeitos desta identificação histérica com a mãe são reproduzidos quando Violeta não suportando a angústia provocada por nós, passa mal e foge para o toalete. Como se ali, ao mesmo tempo, ocupássemos o lugar da madrasta de quem a mãe de Violeta se esconde ou da mãe acusando-a de ter se comportado mal sem respeitar a superioridade masculina. Violeta é suscetível à crítica e ao insulto justamente como a mãe que fracassa diante da madrasta, correndo para se esconder desta. Esse momento contratransferencial em que questionamos o cerne da problemática histérica de maneira rigorosa demais com Violeta e que ela confrontada, passa mal, é suscitado, pensamos, pela irritação diante de todos esses fracassos relatados pela paciente, principalmente pela impossibilidade de seguir em frente que fica muito claro nas suas falas repetitivas. Já de volta à sala de atendimento após o mal-estar, Violeta relata orgulhosa, que havia procurado emprego e, que diferentemente das outras vezes em que desistia, foi em busca, sem, contudo conseguir o lugar pretendido. O 23 papel de corajosa que, nesse caso resultou em humilhação, não lhe cabia, ela que era de fato, tão medrosa que só dormia de luz acesa. Além desse episódio, Violeta contou que freqüentemente acordava e sentia enjôo quando ia escovar os dentes - o gosto do creme dental lhe embrulhava o estômago. Questionada, relacionou o mal estar matinal, com o barulho das conversas na hora do café, que ocorriam tanto em sua casa, como na do namorado. Isso a incomodava bastante e a afastava do local das refeições familiares. Parecia sempre buscar algum tipo de razão objetiva para seu malestar, ou melhor dizendo: ela racionalizava. O jogo histérico está aí, posto na dificuldade de Violeta de assumir o desejo – que é uma mulher e que dorme com o namorado, que vive com este e que todos sabem disso tanto na sua como na família deste. Diante da dificuldade de assumir uma posição adulta, o desejo se transforma em náuseas, enjôo, como um entrave que a impedem de dirigir-se à figura masculina. Na sessão seguinte, Violeta revelou que admirava o comediante Chico Anísio, em razão de este fazer muitos personagens, até o dia que o assistiu em uma entrevista, sem nenhum disfarce, em um programa de tevê. Daí em diante passou a achá-lo ‘uma pessoa sem graça’, totalmente desinteressante. Percebemos que, mirando-se no espelho do humorista, via seu próprio reflexo. Os efeitos da sessão anterior persistiam. A seguir irá mergulhar um pouco mais fundo em busca de significar essas vivências. Violeta contava que não sabia explicar muito bem quando os personagens apareciam. A certa altura, fui levada a supor que não se sentindo percebida pelos demais, os personagens surgiam para tirá-la daquela situação de esquecimento e irrelevância. Era assim que Violeta se via: “uma pessoa sem 24 graça”, sem qualquer atrativo pessoal que pudesse chamar a atenção de algum dos amigos “importantes” do namorado. Entretanto, apontava um paradoxo: sua avó dizia ser ela muito bonita, muito parecida consigo quando era mais moça. A avó chegou a pedir, algumas vezes, que Violeta se arrumasse toda, colocasse as suas (da avó) jóias e fosse visitar o avô, observando qual seria a sua reação quando a visse tão semelhante a ela mesma quando jovem. Esse convite, sempre recusado, para ocupar o lugar da avó em conflito com o marido que há muito a abandonara, aparece para Violeta como mais uma fonte de angústia, provavelmente tocando o nervo sensível de seu próprio conflito edípico, com o qual ela evidentemente se debatia. Sobrava a leve suspeita de que talvez fosse mesmo bonita, mas como se identificar como uma avó tão sedutoramente perversa? De fato, Violeta é uma bela garota, e sentimentos de piedade e solidariedade emergiam em nosso espírito, diante da falta de iniciativa e de recursos para reagir. A netinha desamparada diante do lobo mau travestido de avó parece aqui uma imagem significativa. Vale observar que o avô de Violeta, segundo lhe relatara a avó, era um homem de posses, apesar de já haver perdido grande parte de sua fortuna, ainda possuía um antigo hotel no centro da cidade. A exemplo de seu pai, o avô abandonou a avó, e mantinha outra família de quem os netos só sabiam notícias por outros parentes distantes. O avô estava muito doente, e comentava-se que se viesse a falecer, haveria uma briga familiar para dividir o restante dos bens. Grande parte do material trazido às sessões fazia referência a insegurança da cliente, seu medo do escuro, da avó, do pai. Vivendo em uma 25 família em que as mulheres pareciam destinadas ao abandono pelos maridos, à traição de ver surgir uma outra família, outros irmãos e netos que permaneciam na ameaçadora proximidade de vir a disputar a herança, Violeta parecia não encontrar um lugar para si. Na família do namorado - que admirava como modelo - Violeta parecia encontrar a estrutura capaz de atender seus anseios de relacionamentos menos conflituosos. A mãe deste constituía uma figura materna com especial importância no desempenho dos filhos, amparando-os e estimulando-os. Violeta era bem recebida nesta nova família que arranjou para si, e podia, não só demonstrar sua gratidão, como usufruir desses benefícios que, afinal, conquistara. Aqui surgem novos ideais: a nova família. Seria necessário investigarmos melhor para precisar que valores, que sentido tem para ela o novo que encontra nessa família. Sobre a relação com o namorado falava muito pouco, bem como de outros relacionamentos amorosos anteriores. Até que ponto o acolhimento dessa família é mais importante para ela do que o namorado? Pensávamos que esse rapaz ‘paciente e compreensivo’ nos remetia à genitora da paciente e que não era o homem que Violeta esperava para ela. Certo dia, Violeta revelou temer procurar um novo emprego, com medo de alguém lhe fazer críticas, por qualquer motivo, muitas vezes tentando corrigir-lhe uma possível falha. Quando isso acontecia, Violeta largava o trabalho e não voltava mais no dia seguinte. Esse dado foi significativo por se tratar de um fato marcante em sua vida, que pensamos ter relação com as críticas recebidas ao longo do tempo, tanto por parte do pai, como por parte da avó. Era mais fácil fugir a situações desagradáveis, abandonando os empregos. Os dois - pai e a avó - tinham papéis importantes no que se referem às 26 críticas constantes a sua pessoa, no que tange às desistências em empreendimentos que tentava levar adiante. Parece evidente que longe de constituírem ideais egóicos possíveis, retornavam, disfarçados, nos personagens que criava. Das atrizes de tevê, gostava muito da atriz Regina Duarte, a quem imitava muito bem. Escondida do pai, lia algumas revistas, romances. Para ele ‘filho era um investimento que deve ter retorno para os pais mais tarde’ e certamente Violeta não dava o resultado desejado pelo genitor. Conforme relatou Violeta, seu pai antes de dormir se queixava dos filhos à sua mãe e dizia, em alto e bom tom, que seu irmão era o único filho que lhe dava retorno. Dela, ele exigia que voltasse suas leituras para revistas de marketing e livros de auto-ajuda. Destacamos também outro aspecto significativo revelado pela paciente, ligado ao fato de ter chegado a coordenar um grupo de dança na escola. Entretanto, largou essa atividade quando percebeu que ‘já estava muito conhecida de todos’ e que já tinha muitos ‘troféus’- todos os rapazes que a admiravam bastante. O papel de sedutora, sugerido pela identificação com a avó e o pai, também fora recusado. No que se refere à vida sexual, Violeta expressava sua enorme dificuldade em falar do assunto. Revelava que algumas vezes ensaiava antes para contar um pouco das suas experiências, entretanto quando chegava na sessão se deparava com a inibição. Supomos que o embaraço era originado diante da impossibilidade de entrar nessas posições identificatórias. Falar dessas questões sexuais seria assumir verdadeiramente o que deseja para si. 27 Essa questão foi trazida às sessões, no relato em que uma amiga perguntou-lhe como faziam ela e o namorado, para evitar que engravidasse. Violeta respondeu meio sem graça, que não tomava anticoncepcional, mas para evitar uma gravidez, o namorado “gozava” fora dela, isto é, utilizavam o coito interrompido em suas relações sexuais. Ela e o namorado dormiam na sala da casa deste, pois a família dele era grande e o namorado dividia com o irmão o mesmo quarto. Revelava que tinha que esperar todos na casa se recolherem para que pudesse se acomodar na sala ou então, depender das saídas do irmão para ocuparem o quarto deles. A contínua queixa de sofrer porque abandonou o curso supletivo e não conseguiu terminar o segundo grau, porque largou o ballet, a ginástica, enfim todas esses fatos, sentíamo-nos impotente em ajudá-la frente a esses sintomas tão arraigados, e além disso, com o passar do tempo, passamos a crer que a insatisfação e o desprazer faziam parte de seus sintomas. As resistências em abordar sua sexualidade eram em parte enfrentadas com o recurso de introduzir a amiga em nossa conversa. Mais tarde, ela viria a nos dizer, diretamente, que a questionássemos sobre sua sexualidade. Sabemos que, Violeta deixou de ser virgem aos 17 anos, em uma situação que parece ter tido resultado traumático. Segundo ela, foi até o motel por insistência do namorado e com medo que alguém a descobrisse, foi “disfarçada”. Relatou ter transado por pura curiosidade, sem prazer algum. Não tendo gostado, só pensava em ir embora, solicitando ao rapaz que ao terminar lhe avisasse para irem dali. Depois dessa noite, ficou com uma verdadeira aversão a este rapaz, 28 detestava ter que manter relações sexuais com ele. Sentia nojo, acabando por terminar o namoro pouco tempo depois. Aqui surgem questões das mais significativas na compreensão que buscamos ter de Violeta. No seu relato, aparece sempre se submetendo ao desejo do outro. Não teria sido seu desejo, ir ao motel manter relações sexuais pela primeira vez com o namorado – alegava que tinha sido ele que insistira. Da relação sexual nenhum sinal de prazer, de seu próprio desejo investido. Segundo ela, o namorado era ‘preto’ e isso era motivo de muita gozação na sua casa. Seria, talvez, um ótimo aliado para atacar essa família que é vista como razão e fonte de todo seu sofrimento? Incapaz de reconhecer sua ambivalência frente às figuras parentais perguntávamos o que restaria a Violeta? Revelou-nos que em uma de suas tentativas de encontrar trabalho pensou em entrar para uma rede de marketing. Segundo ela, empenhou-se a fim de concretizar os seus sonhos, entretanto novamente acabou desistindo e ficou ‘mal de depressão’ - não saía da cama, não tinha vontade de tomar banho, não tendo a mínima vontade para nada. Isso era mais um motivo de angústia, pois dizia ela - se casasse acabaria igual à mãe desprezada ou poderia ficar deprimida como a avó. Ambas sozinhas, relegadas pelos maridos, era um destino que Violeta não desejava para si. O casamento e a gravidez eram associados ao medo enorme de ser abandonada, voltar a engordar e ficar feia. Essa dificuldade em avançar em seus investimentos certamente interferia na nossa escuta, deixando-nos irritados com esse entrave em não dar complemento ao que iniciava, em abandonar com medo de ser abandonada. Nosso trabalho de atendimento era orientado para que Violeta valorizasse seus próprios recursos freqüentemente negados, dissociados. 29 Parecia-nos que somente aos personagens cabiam os elogios e pensávamos haver uma certa dose de prazer em revelar que ela os criara e que os encarnava muito bem. Em várias sessões, tratamos da questão dos personagens, mostrando que estes só surgiam quando ela não se sentia percebida positivamente pelas pessoas, que, para ela eram significativas. Trabalhávamos com a possibilidade de encontrar um sentido para tudo aquilo. Outro aspecto de relevância em seu atendimento era a relação com a mãe. Violeta parecia negar qualquer vestígio de identificação com esta. Apesar de gostar dela, não conseguia ver nada de interessante naquela mulher, o que nos permite justamente supor aqui a presença da negação. Sentia pena da situação materna e queria estar longe da casa da avó, para não ver as humilhações constantes que sua genitora passava, o que revela o seu afeto por esta ou mesmo quando referia carinhosamente ao zelo que a genitora lhe dispensava. Entretanto, ambivalentemente, relatou que, certo dia, a mulher do pai chegou na casa de sua avó e, sua mãe quando a viu, correu e se escondeu no banheiro para não ter que se defrontar com aquela mulher. Esse fato foi contado com naturalidade e uma certa frieza, como se aquela situação fosse normal dentro do seu núcleo familiar. ‘Era sempre assim, sua mãe não reagia...’, dizia Violeta. Parece-nos que o que fica de fora aqui é a hostilidade em relação a essa figura tão diminuída a seus olhos. Violeta tem uma mãe que não cria um campo de identificação para filha, porque essa mãe não se autoriza. Não propiciando uma identificação, a genitora desperta um campo de hesitação na filha. Daí porque Violeta passeia sobre todas essas roupagens de espanhola, de sexy, ela não é nada, não é 30 ninguém, não se compromete. Com isso, abre-se espaço para a angústia originada por essas fantasias inadmissíveis. Essas fantasias, inaceitáveis, são recalcadas pela paciente e oportunizam essa hesitação diante do desejo. A mãe de Violeta se coloca como impotente diante de sua própria fantasia de ser mulher porque não assume, não enfrenta a rival, e foge. A genitora só aparece para denunciar as infidelidades do marido se colocando no papel de vítima. Ela é a santa que tudo aceita de todos, que se submete a todas as humilhações pelos filhos. Aliás, outro aspecto relevante é que Violeta se referia à atual mulher de seu pai como a “amante”, o que fazia desta rival imaginária, também uma mulher desvalorizada. Desta feita, indicamos que a situação se invertera porque sua mãe é quem passara à condição de ‘outra’, já que aceitara passivamente aquele papel. Parecendo perplexa, ao nosso comentário, seguiuse um longo silêncio. A enorme dificuldade de lidar com seus sentimentos hostis e agressivos não podia encontrar expressão e a resistência emergia. Depois de um certo período em atendimento, Violeta conseguiu esboçar alguma tristeza, pois quando recordava de algumas situações ficava com os olhos cheios de lágrimas, mas rapidamente pedia licença para apanhar um lenço de papel e enxugava os olhos úmidos, refazendo-se do tom emocional dado ao relato. A partir dessa sessão, toda vez que ela entrava no consultório perguntava se podia pegar um lenço na caixinha, como se resguardando da tristeza que pudesse assaltá-la. Sua tristeza resvalava em nossos sentimentos de piedade. Diante dessa dor contida ela administrava tudo isso revelando que seu 31 pai não tolerava demonstrações explícitas de afeto, pois eram alvo das críticas mordazes deste, nos perguntávamos se era possível aquilo tudo acontecer com uma mesma pessoa. Depois dos dois primeiros meses, começou a atrasar-se. Assinalamos que caso chegasse tarde, o prejuízo era seu. Daí em diante os atrasos ficaram menos freqüentes. Durante o tempo que esteve em atendimento Violeta deixou de comparecer a três sessões e, segundo explicou mais tarde, uma das causas foi em decorrência das crises de asma que era acometida. Outra vez, deixou de comparecer por estar com fortes dores menstruais. Os sintomas somáticos, supunha ela, justificavam plenamente suas ausências. A emergência de sintomas somáticos aqui, no lugar da possibilidade de entrar em contato com seus próprios conflitos, que o processo terapêutico permitia, coloca-nos questões que este projeto visa a justamente poder salientar. Ao chegar no consultório sempre que lhe dávamos boa tarde, ela nos perguntava se tudo estava bem conosco. Respondíamos-lhe que sim, e ficávamos aguardando que iniciasse seu relato. Na transferência, pensávamos que Violeta esperava que algum dia lhe disséssemos que estava tudo mal. Que expressássemos a raiva e o aborrecimento que nos causavam a repetição monótona de seus fracassos, o desfiar interminável das sempre mesmas histórias de sofrimento e vitimização que aquele cumprimento inicial parecia anunciar. Uma ocasião Violeta contou que estava na casa do namorado e, conversando com este, fez um gesto expressivo. Ressaltou que, na mesma hora, este lhe chamara atenção sobre o quanto estava parecida com a terapeuta. Até 32 na maneira de olhar... Seu relato nos pareceu uma provocação. Para nós parecia claro que Violeta procurava nos incorporar como mais um personagem de sua coleção. E nessa tarefa ela gostaria que acreditássemos que era fantástica. Na busca de uma identificação que lhe assentasse plenamente, buscava traços tanto conosco como com os irmãos, que pudessem minimizar seus conflitos. Decorrido algum tempo que estava sob tratamento, Violeta revelou que não estava freqüentando as reuniões dos amigos do namorado, com medo que os personagens voltassem a aparecer. Nesse período, trabalhamos sua autoestima acentuando seus próprios recursos, ao mesmo tempo em que incentivávamos a começar algum projeto que fosse voltado ao seu desejo, e não ao desejo do outro. Parece ter tido resultado na continuação dos ensaios na banda do namorado, os personagens foram espaçando a sua atuação, até desaparecerem dos relatos. Violeta começou a enxergar a mãe com outros olhos, menos críticos, passando a ficar mais tempo na casa da avó, mesmo que fosse para fazer companhia às duas senhoras que viviam muito sós. O tratamento foi interrompido por limites institucionais, o estágio acabara. Os sentimentos de raiva e desafio de que fomos tomadas pareciam lançar-nos a nossos limites. Que tenhamos sido confrontadas em nosso desejo de continuar ouvindo todas aquelas histórias, que pensávamos já saber o suficiente, suscitam problemas teórico-metodológicos que necessitam maior aprofundamento. E será, certamente, um longo percurso. Pensamos que estamos nos inserindo no âmbito da Psicopatologia 33 Fundamental, a partir do momento que refletimos não só sobre o discurso de nossa paciente com base na teoria psicanalítica, mas também quando conjeturamos sobre os meios adequados para aliviá-la do sofrimento e da dor. 34 4.Sobre a noção de identificação histérica Neste ponto partiremos para uma revisão bibliográfica desenvolvida ao longo de nossa pesquisa, voltada mais diretamente ao processo de identificação na histeria, cuja fundamentação encontrou sustentação na leitura dos trabalhos de Freud, de alguns de seus comentadores, bem como da nossa reflexão sobre a relação da metapsicologia freudiana com o caso clínico objeto de nosso projeto de pesquisa. Dentre os primeiros textos pesquisados estão os “Estudos sobre a histeria” e “Inibições, Sintomas e Angústia”, nos quais pudemos nos defrontar com algumas questões que o caso clínico provocou-nos. Além disso, resolvemos estudar o material clínico que possuíamos, a fim de chegar mais perto de detalhes do caso que ainda não haviam sido possíveis efetivar por certa resistência nossa. Parte desse material não foi levantado por ocasião da redação do anteprojeto, uma vez que este foi redigido a partir do que recordávamos de mais importante do atendimento à Violeta. Hoje, pensamos que esse estudo proporcionou-nos uma visão mais ampla do caso clínico, tendo nos suscitado resistências mútuas no trato de determinados assuntos, ambivalência de sentimentos vivenciados por ocasião desse atendimento, que na medida do desenvolvimento deste trabalho de dissertação certamente vão ter lugar. Violeta, reiteradamente, alegava sentir medo, insegurança, o que nos leva a pensar que parte deste sintoma (o medo) é antigo, provavelmente anterior à castração e ao complexo de Édipo, pois já se fazia presente desde 35 muito cedo, na infância da paciente quando não conseguia ficar sob hipótese alguma sob a luz apagada. Daí, supormos que o conflito com as identificações parentais originaram essa angústia que se difundia, de forma que tudo o que ocorre com a paciente ou pode vir a lhe acontecer é antecedido por esse sentimento de temor imenso. Esse medo é impreciso, não tem objeto. Por outro lado, pensávamos que a busca de identificações se estenda à relação analítica, na qual também vão aparecer a incorporação de personagens, inclusive a terapeuta, e, que geralmente funcionava como tentativa de dar relevo à própria Violeta, em ocasiões que se vê confrontada com o seu desejo. Supomos, ainda, que o medo em Violeta concorria para a inibição que a impedia de crescer. Sobre o desejo, no trabalho “A histérica e o psicanalista”, Berlinck reflete : “a vontade como se sabe, faz parte do ego e talvez seja mesmo a principal expressão desta instância psíquica”, (Berlinck,1997, p.32) e, prosseguindo ensina que “ a falta de vontade pode ser a expressão de um ego extremamente frágil, praticamente inexistente”. Identicamente à paciente do texto de Berlinck, Violeta parecia estar submetida ao desejo do outro por não saber o que realmente queria para si. Essa é a questão crucial na histeria – o desejo enquanto sintoma que se mantém insatisfeito. Supomos que o impedimento de dar continuidade a planos que traçava para si (seriam seus desejos próprios?), restringindo qualquer movimento do ego em direção à realização desses desejos tais como: estudar ballet para ser bailarina, fazer um curso de teatro para ser atriz ou ir em busca disso fora de Belém, dedicar-se à música para tocar violão ou cantar, enfim, investimentos que necessitariam dispêndio de energia para a obtenção de resultados e que 36 colocariam Violeta diante de mais uma problemática presente em sua dinâmica - obter resultados a curto prazo com pouco ou quase nada de investimento nestas empreitadas. Pensamos que a perspectiva de vir a sofrer críticas posteriores diante dos fracassos, a colocavam diante da seguinte questão: não seria elogiada por uma boa causa mas também não despertaria críticas que remontariam a situações de desprazer já vivenciadas pela paciente. Sobre as lembranças infantis, já nos “Estudos sobre a Histeria”, Freud demonstrando surpresa afirma: “A primeira vista parece extraordinário que fatos experimentados há tanto tempo possam continuar a agir de forma tão intensa - que sua lembrança não esteja sujeita ao processo de desgaste a que, afinal de contas, vemos sucumbirem todas as nossas recordações”. (Freud, 1895, p. 45) Ao recordar episódios da sua infância que a marcaram significativamente, durante o processo terapêutico, a paciente revivia aqueles eventos propiciando a emergência de sentimentos ambíguos, principalmente com relação as figuras da avó e do pai. Rememorar esses fatos também significava ter que enfrentar todas as suas dificuldades no trato com a problemática identificatória com essas pessoas, visto que sentimentos de afeto e hostilidade manifestavam-se gradativamente nessas sessões. Quanto mais Violeta nos falava de suas identificações conturbadas, mas nos lançávamos à compreensão de suas fantasias, dos seus conflitos, desses sentimentos antagônicos que pareciam estar ali preenchidos mutuamente. No Capítulo IV de “A Interpretação dos Sonhos”, intitulado “A 37 Deformação nos Sonhos”, Freud questionando sobre o sentido da identificação histérica nos esclarece: “a identificação é um fator altamente importante no mecanismo dos sintomas histéricos. Ela permite aos pacientes expressarem em seus sintomas não apenas suas próprias experiências, como também as de um grande número de outras pessoas; permite-lhes, por assim dizer, sofrer em nome de toda uma multidão de pessoas e desempenhar sozinhas todos os papéis de uma peça. Dirão que isso não passa da conhecida imitação histérica, da capacidade dos histéricos de imitarem quaisquer sintomas de outras pessoas que possam ter despertado sua atenção - solidariedade, por assim dizer, intensificada até o ponto de reprodução. Isso, porém, não faz mais do que indicar-nos a trilha percorrida pelo processo psíquico na imitação histérica”. (Freud, 1900, p.163-164) Afora os seus próprios sintomas histéricos ainda cabiam os sintomas das pessoas com quem a paciente se relacionava. Assim, Violeta sofria de crises asmáticas, de aftas, de complicações menstruais e, mais o medo imenso de acabar deprimida como a avó e ter ficar junto as duas infelizes mulheres. Violeta muitas vezes se via identificada com sua mãe, contudo negava tal evidência. Ela repetiu sintomas maternos já descritos por si mesma durante o tratamento, que nos levam a pensar no que Freud chamou de ‘imitação histérica’ e que é originada de uma semelhança de elementos conservados no inconsciente do homem. (Freud, 1900, p.163) Do pai, alegava ter herdado apenas o gosto pela música e o desejo de ser cantora, apesar das queixas de pouco afetividade deste. Curiosamente, os 38 personagens tinham um leve toque da sedução paterna, o que nos fazia pensar se esse pai não representava, de alguma modo, uma forma internalizada como ideal de eu. Do mesmo modo que aparece o pai, admirado e criticado por sua maneira de agir com relação a manter o casamento fracassado surge a avó como figura perversa. Contraditoriamente, a paciente se identificava com diversos traços de comportamento desta, nas lembranças de bate-papos, em que a avó lhe contava as artimanhas que usava para conseguir algo, muito parecidas com as atitudes da própria paciente quando contava sobre as espertezas de suas personagens. No Rascunho B, Freud nos ensina que: “No caso da histeria comum não é rara a ocorrência, em vez de um trauma principal isolado, de vários traumas parciais que formam um grupo de causas desencadeadoras. Essas causas só puderam exercer um efeito traumático por adição e constituem um conjunto por serem em parte, componentes de uma mesma história de sofrimento”.(Freud, 1893, p. 43) Pensamos que em Violeta, a exemplo do que Freud já acentuara em suas reflexões, diversos fatores concorreram para o aparecimento da neurose histérica com os seus conflitos identificatórios. Ao lado de fatores traumáticos relacionados às críticas contundentes, as quais era submetida pelo pai e a avó, os gritos que esta costumava utilizar para se fazer temida, também concorriam para acentuar os conflitos. Isso tudo pode ter favorecido ao aparecimento de uma série de fantasias perversas, entre as quais a de que aquilo tudo acontecia e 39 que se ninguém dava certo naquela família era porque o avô fora um homem muito mau e injusto no passado. Nos parece que, a possibilidade de Violeta voltar-se à figura masculina era ainda mais dificultada pelas lembranças desagradáveis do relacionamento problemático dos genitores, pelos desencontros conjugais da avó. Contudo, ainda assim, a paciente continuamente voltava sua feminilidade pelo viés materno se identificando com o aspecto gata borralheira desta. Isso nos remete a uma afirmação freudiana de que na origem da histeria e da neurose obsessiva estaria a identificação com a pessoa amada. (Freud, 1899, p.384) Além disso, pensamos que seu estado emocional contribuía para o aparecimento dos sintomas somáticos já mencionados anteriormente e que nestes períodos difíceis para ela pareciam se acentuar. Supomos, que essas questões conflituosas se acirravam com a impossibilidade de enfrentamento da problemática sexual, entretanto não podemos deixar de pensar que, concorriam de alguma forma para a origem de seus conflitos, as censuras decorrentes dos inúmeros fracassos, motivo de gozação em reuniões de amigos, em sua casa e na do namorado. A constatação de uma realidade exterior adversa - ver a mãe e a avó sozinhas e abandonadas é dolorosa e quase insuportável, daí a fuga para a casa do namorado onde os problemas são de outra ordem e não são seus. Na casa dessa família, Violeta se protege da angústia incessante que parece colocá-la sempre em um estado de prontidão a um perigo iminente. Tal como aprendemos, as neuroses têm como tarefa o afastamento de percepções perigosas. Nossa paciente defendia-se da angústia procurando manter-se longe dos conflitos familiares. 40 Em “A Interpretação dos Sonhos”, Freud ressalta a intensificação do uso da identificação na histeria, para expressar um elemento sexual comum. E ensina: “nas fantasias histéricas, tal como nos sonhos, é suficiente, para fins de identificação, que o sujeito tenha pensamentos sobre relações sexuais, sem que estas tenham necessariamente ocorrido na realidade”. (Freud, 1900, pp. 163-164). Como sabemos, desde a infância, as fantasias têm como objetivo proteger a criança de um medo, de um temor diante da possibilidade que os pais possam adivinhar seus pensamentos. A cada fantasia recalcada corresponderia um desejo sexual abafado, perigoso pelo fato de desencadear uma excitação sexual. Na histeria de angústia, a excitação é psíquica, enquanto na conversão o excesso de energia passa do estado psíquico para o somático. É no corpo que vão se inscrever esses equivalentes de satisfações sexuais infantis. No dizer de André: “a histérica foge da satisfação do desejo entregandose a uma simbolização desenfreada”. (André, 1998, p. 135). Na sua fantasia, o sujeito passa a ser a causa do desejo do outro e com isso se ocupa contrito. A identificação, segundo Freud no trabalho “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” poderia recair sobre um traço, não necessariamente, sobre todo o objeto. Em sua constituição, o sujeito se identificaria com traços do outro (mãe/pai) e a partir dessa identificação vai se originar o ideal de eu. Essas identificações primeiras, ambivalentes desde a sua origem, são como postulou seu criador “a forma mais primitiva e original do laço emocional”. (Freud, 1921, p.135). 41 Violeta se identifica com seu genitor quando revela que conquistou todos os rapazes da escola ou quando pretende dar asas a sua veia artística. Entretanto, há uma ligação muito forte com sua mãe que acaba dificultando suas outras identificações. A imagem dessa mãe, para nós é o oposto daquilo que Violeta pode perceber nos outros elementos importantes na constituição do seu eu – o pai e avó. Contudo,o afeto a si dispensado pela genitora é sempre destacado positivamente, como se fosse possível não haver qualquer relação com os sentimentos hostis que esta também suscitava-lhe. A identificação com a mãe aparece no dia em que Violeta a ajudou na festa de aniversário da avó e a paciente se percebe, assim dizendo:‘a doméstica e da filha desta’. Porém, esta identificação é negada, pois Violeta se diz muito diferente da mãe e não quer para si o mesmo destino. Em outra sessão, revela que como ela, a mãe vivia para contentar os outros, a ponto de não fazer o que mais gostava - costurar... e muda de assunto. Falar desses conflitos era muito difícil, ela já acentuara. Nos compadecíamos de Violeta que, ao confrontar-se com sua realidade representava mais insatisfação e menos ânimo na realização do que desejava. A respeito da questão da feminilidade assim se expressa André: “Essa falta de identidade só deixa, como via possível à identificação feminina, a identificação à mãe. Mas, precisamente, maternidade não é feminilidade e, de resto, a identificação à mãe é fundamentalmente ambivalente, já que a mãe é também privada de pênis, e portanto essencialmente desvalorizada pela filha”. (André, 1998, p.176) 42 O mundo histérico de Violeta parece se compor por antagonismos, ambivalências, oposições que se presentificam nos fortes/fracos, bons/maus, poderosos/impotentes e que aqui estão impressos neste movimento pendular singular na dinâmica do tratamento de Violeta. Ao lado de uma revelação animadora vinha oportunamente um mal presságio. Quando trata da inibição, em “Análise de um caso de fobia em um menino de cinco anos” - o Pequeno Hans, Freud acentua que “a inibição seria uma restrição que o ego do menino impusera a si mesmo a fim de não despertar o sintoma da angústia”. Em Violeta, o medo de se arriscar, investir no seu desejo até sua conclusão, impediam-na de prosseguir, originando o que supomos ser uma inibição do desejo, pois assim evitaria as críticas de um possível fracasso sempre antecipado pelas figuras do pai e da avó. (Freud, 1926, p.108) Em “Inibições, Sintomas e Angústia”, Freud vai refletir: “(...) as neuroses da infância têm a natureza de episódios regulares no desenvolvimento de uma criança, embora muito pouca atenção ainda se dispense às mesmas. Sinais de neuroses infantis podem ser detectadas em todos os neuróticos adultos sem exceção, mas de modo algum todas as crianças que revelam esses sinais se tornam neuróticas depois. Deve acontecer, portanto, que certos determinantes da angústia sejam abandonados e certas situações de perigo percam seu significado à medida que o indivíduo se torna mais maduro. Além disso, algumas dessas situações de perigo conseguem sobreviver, alcançando épocas posteriores, e modificam seus determinantes de angústia a fim de atualizá-los”. (Freud, 1926, p.172) 43 Este ensinamento nos remete ao medo do escuro da paciente, uma queixa sempre reiterada ao longo de seu relato e que pensamos ser um sintoma infantil que se mantinha na idade adulta. Françoise Dolto prefaciando o livro “A primeira entrevista em psicanálise”, nos relata que “a criança pequena e a adolescente que são portavozes de seus pais”. Para ela, o que a criança manifesta em seus sintomas, é ressonância às angústias ou aos sintomas das figuras fraternas. (Mannoni, 1981, p. 13) Analogamente à situação de sua mãe escorraçada pela avó, podemos supor que aí se originariam seus desejos de não casar, não ter filhos, para não ter que se tornar dona de casa tomando conta dos filhos. Imagem materna internalizada como algo desmerecedor. Violeta revela, quando questionada de seu amor pela mãe, que esta é ‘fantástica’ e que ‘não é bonita fisicamente, mas é bonita por dentro’, pois ela sempre se preocupava se algo faltava à filha. Por outro lado, expressa seu descontentamento com o casamento dos pais por não ver na relação destes, um modelo apropriado para si mesma. A visão matrimonial de Violeta é fundamentada na experiência de duas mulheres muito significativas - a mãe e a avó - em que a situação de abandono e solidão se repetem, fato esse temido por ela. Ambivalentemente a mãe é desvalorizada e fantástica. No decorrer do atendimento, a paciente revelou explicitamente muito pouco sobre o amor a si dispensado não só pelos pais como pelo namorado. As demonstrações afetivas aparecem no relato clínico, sutilmente, quando revela que sua mãe não sabe que a mesma está sob atendimento, pois do contrário ficaria imediatamente preocupada se ela estaria sentindo alguma coisa ou se 44 algo lhe faltava. Violeta oscilava continuamente nesses diferentes sentimentos – entre o amor e o ódio originado por esses entes queridos. Na Conferência 33, das Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, denominada por Freud “Feminilidade”, ele menciona sobre o percurso da identificação da menina com a mãe em duas fases - pré e pósÉdipo e seus resquícios no desenvolvimento feminino. (Freud, 1932, p. 164) Pensamos que os conflitos apontam para uma não resolução do conflito edípico na paciente. Violeta identificava-se com o pai através da enorme admiração por este, que ajudou, financeiramente, muitas pessoas que hoje estão em situação melhor que eles. Para confessar em seguida - que ele era generoso, mas muito duro nas palavras. Como já nos referimos anteriormente, quando recorda esses episódios vivenciados, a paciente deslizava na ambigüidade de sentimentos em relação as figuras parentais, sem se dar conta disso. Ele é generoso, mas muito mesquinho com relação a esposa. A não concordância com a separação da mulher implica em não ter que dividir os bens comuns. Essa problemática edipiana também comparece quando revela que das filhas, somente ela tem interesse em saber dos negócios do pai. Conforme Freud assinalara, “as meninas permanecem no complexo de Édipo por um tempo indeterminado, destroem-no tardiamente e, ainda assim, de modo incompleto”. (Freud, 1932, p.159) Outro fator que aparece ao longo do atendimento clínico, diz respeito a triangulação já observada por ocasião do desencadeamento do complexo de Édipo. Nas relações estabelecidas pela paciente essas três figuras estão sempre presentes, assim os triângulos são compostos: Violeta/avó/pai, avó/Violeta/mãe, 45 pai/Violeta/madrasta, mãe/avó/madrasta pai/mãe/madrasta, pai/Violeta/namorado. Como observou Berlinck a respeito de triangulações conflituosas num relato de uma paciente histérica: “(...) à maneira como ela se insere no complexo edípico que se expressa na sua constante referência a um triângulo materno-paterno (...) Maria está inserida, portanto, sempre em relações triangulares que se caracterizam pelo conflito”. (Berlinck, 1997, p.38-39) A sexualidade vem aparecer no relato clínico através dos personagens que fazem o que a paciente não consegue fazer na pele dela mesma - dizer para o namorado que o ama ou externar seu amor pela mãe, beijando-a, demonstrações que não eram permitidas em sua família. A sexualidade também estava nos personagens desembaraçados e insinuantes que atraíam os rapazes no colégio e que a afastavam de possíveis amigas que sabiam ser aquilo tudo fingimento - como a espanhola, construída com o objetivo de conseguir emprego num shopping. Os personagens possuem traços singulares – são meigas, porém com desenvoltura, sedução e têm desembaraço no trato das questões sexuais (o que por certo faltava à paciente), o que era motivo de certo orgulho por parte de Violeta. Pensamos que esses personagens manifestavam a sexualidade recalcada durante sua vida inteira. Da vida sexual com o namorado depreendese que este não era o homem que a “caliente” espanhola desejava. Pensávamos que papel teriam estas enigmáticas personagens de Violeta que nos deixavam confusa, entretanto sem acreditar que houvesse um comprometimento maior da psique de nossa paciente. 46 No trabalho “O Ego e o Id”, Freud fala de inúmeras identificações que se apoderam do ego ocasionando conflitos nesta instância, assim observando: “ Embora isto seja uma digressão de nosso objetivo, não podemos evitar conceder nossa atenção, por um momento mais, às identificações objetais do ego. Se elas levam a melhor e se tornam numerosas demais, indevidamente poderosas e incompatíveis umas com as outras, um resultado patológico não estará distante. Pode ocorrer uma ruptura do ego, em conseqüência de as diferentes identificações se tornarem separadas umas da outras através de resistências; talvez o segredo dos casos daquilo que é descrito como ‘personalidade múltipla’ seja que as diferentes identificações apoderam-se sucessivamente da consciência. Mesmo quando as coisas não vão tão longe, permanece a questão dos conflitos entre as diversas identificações em que o ego se separa, conflitos que, afinal de contas, não podem ser descritos como inteiramente patológicos”. (Freud, 1923, p.45) Violeta passava por conflitos relacionados com suas identificações, dado ter dificuldades no enfrentamento desses conflitos. A ação do recalcamento sobre as fantasias proporcionava a angústia traduzida na impossibilidade de poder, da hesitação e do medo constantes. No trabalho “Inibições, Sintoma e Angústia”, Freud esclarece, “a angústia neurótica é a angústia por um perigo desconhecido. O perigo neurótico é assim um perigo que tem ainda de ser descoberto”.(Freud, 1926, p. 190) 47 Prosseguindo em seu raciocínio conclui: “a análise tem revelado que se trata de um perigo pulsional. Levando esse perigo que não é conhecido do ego até a consciência, o analista faz com que a angústia neurótica não seja diferente da angústia realística, de modo que com ela se pode lidar da mesma maneira. (...) Existem duas reações ao perigo real. Uma reação afetiva, uma irrupção de angústia. A outra é uma ação protetora. O mesmo presumivelmente se aplicará ao perigo pulsional. Sabemos que as duas reações podem cooperar de forma apropriada, uma dando o sinal para que a outra surja (...) A angústia, por conseguinte, é, por um lado, uma expectativa de um trauma e, por outra, uma repetição dele em forma atenuada. Assim os dois traços de angústia que notamos têm uma origem diferente. Sua vinculação com a expectativa pertence à situação de perigo, ao passo que sua indefinição e falta de objeto pertencem à situação traumática de desamparo - a situação que é prevista na situação de perigo”. (Freud, 1926, p 190-191) No bojo do que vimos até aqui, temos alguns questionamentos, tais como: o medo sem objeto, ou melhor, pode a angústia ter sido suscitada pelo recalcamento de seus desejos durante grande parte de sua infância? A inibição seria causada pelo fato de a paciente ter abandonado diversas vezes os empreendimentos que iniciava? Ou era mais de um desses fatores relacionados? A baixa tolerância a críticas contribuiu para o desencadeamento desses conflitos ? Qual foi o desejo que Violeta renunciou? 48 Como Freud tão bem formulou em “Inibições, Sintomas e Angústia” sobre a sintomatologia do seu paciente Hans: “o inexplicável medo de ‘Little Hans’ por cavalos era o sintoma e sua incapacidade de sair à rua era uma inibição, uma restrição que o ego do menino impusera a si mesmo a fim de não despertar o sintoma de angústia”. (Freud, 1926, p. 123). Pensamos o que poderia ter concorrido para o aparecimento dessa sintomatologia em Violeta. Nossa pesquisa bibliográfica em Freud sobre a identificação, na busca do aprofundamento da reflexão sobre a problemática da identificação na constituição do sujeito, teve continuidade com alguns trabalhos apontados no “Vocabulário da Psicanálise”, tais como: “Totem e Tabu”, “Sobre o Narcisismo: uma introdução”, e algumas das “Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise”, especialmente as Conferências 31 – “A Dissecção da Personalidade Psíquica” e a 32 – “Angústia e Vida Pulsional”, que pensamos contribuirem para o desenvolvimento deste tema. Segundo Laplanche & Pontalis, a identificação: “é o processo psicológico pelo qual o indivíduo assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações”. (Laplanche, 1998, p. 226) Este conceito vai crescendo na obra de Freud, alcançando uma importância fundamental que faz da identificação “mais do que um mecanismo psicológico entre outros, a operação pela qual o indivíduo humano se constitui”. Laplanche assim pontua: 49 “ Esta evolução é principalmente correlativa da colocação em primeiro plano do Complexo de Édipo nos seus efeitos estruturais, e também da remodelação introduzidas pela segunda teoria do aparelho psíquico, em que as instâncias que se diferenciam a partir do id são especificadas pelas identificações de que derivam. No entanto, a identificação tinha sido desde muito cedo invocada por Freud, principalmente a propósito dos sintomas histéricos”. (Laplanche, 1988, p.227) O “Vocabulário da Psicanálise” vai ressaltar as diversas contribuições ao conceito de identificação tais como: 1) a noção de incorporação oral no período de 1912-15; 2) a dialética que liga a escolha narcísica de objeto à identificação, através do relevo dado a noção de narcisismo; 3) os efeitos do complexo de Édipo sobre a estruturação do indivíduo, em que os investimentos nos pais são abandonados e substituídos por identificações - presença da ambivalência relativa ao objeto, essencial a constituição de qualquer identificação; e 4) enriquecimento e importância crescente da noção de identificação, com a elaboração da segunda tópica - as instâncias “já não são descritas como sistemas em que se inscrevem imagens, recordações, ‘conteúdos’ psíquicos, mas como resquícios, em diversas modalidades, das relações de objeto”. (Laplanche, 1988, p.228) Freud já ressaltara que as identificações “são processos insuficientemente conhecidos e difíceis de descrever”, até porque estas descrevem as mais antigas expressões da relação emocional com outra pessoa, e sua fundamental importância na origem do complexo de Édipo. Em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921), debruçou-se sobre o tema da identificação no Capítulo VII, desenhando-a desde as primeiras relações 50 parentais com toda a ambivalência que permeia essas relações, traduzidas pela expressão tanto de amor e ternura quanto pelo ódio e rivalidade. Neste trabalho, Freud aponta três formas de identificação: a primeira identificação emocional com o objeto; a segunda identificação por introjeção do objeto ao ego e a terceira, do surgimento com qualquer nova percepção. Entendemos que na primeira identificação não exista diferenciação do ego e do objeto, mãe e filho são objeto único de amor e realização de desejos mútuos de complementaridade. Na segunda forma de identificação, a criança já passou pelo complexo de Édipo e a castração, os processos fundamentais na constituição do ego. Frente ao limite dado pela autoridade paterna, da impossibilidade de realização do desejo incestuoso e diante da angústia da castração, vai se configurando pouco a pouco a constituição do sujeito. A partir dos traços identificatórios com mãe e pai, vai originar-se o ideal de ego, como forma de preservação do amor dessas figuras significativas, dentro do indivíduo, introjetadas nessa instância. A terceira e última forma seriam aquelas vivenciadas ao longo da vida que não deixam de ser reminescentes daquelas primeiras identificações. Sabemos que as relações, desde os primórdios, estão fundamentadas nos afetos e na forma como nos relacionamos com aqueles com quem convivemos, as primeiras figuras que cuidaram de nós, que podem ser desde pai e mãe ou aquelas pessoas que ocuparam o lugar destes. E o modelo para nossa vida afetiva é sempre àquele correspondente ao que mais nos tocou pelo lado afetivo, ou na identificação de traços comuns tanto fisicamente quanto psíquicos. Em Violeta, era mais fácil admitir a existência de traços identificatórios 51 com as figuras da avó e do pai, no que se refere às características marcantemente perversas desses dois membros de sua família. Em algumas situações relatadas no atendimento, a paciente ora ‘se divertia’ com as maldades da avó, ora tinha a exata percepção do quanto estas a faziam sofrer. Identificações, para Freud , são parte da dinâmica constitutiva do ego, pois buscamos na identificação o reencontro com parte de nós que foi perdida. Para que Violeta resolvesse a contento seu Édipo, ela precisaria se desvincular da figura materna, da avó e do pai, ascendendo, assumiria seu desejo por um objeto sexual. Seria ela mesma, independente das identificações com os progenitores. Desvincular-se definitivamente dessas figuras, sem contudo deixar de guardar perenemente muitos traços dessas importantíssimas personagens fraternas. Passaremos sucintamente pelas reflexões formuladas por Lacan, sobre as identificações, em consonância com as transformações do pensamento freudiano sobre esta noção. A primeira identificação seria por “incorporação” com o Outro, de quem se necessita algo, de quem demandamos amor, o que pressupõe um necessidade de ser cuidado pelo outro. Seria uma identificação pré-edipiana, da fase oral e que estava fundada na incorporação do objeto, devorando-o. Seria a primeira forma de identificação, daí se efetivar através de ligação direta com os pais. A segunda - identificação por regressão - é decorrente da dissolução do complexo de Édipo. Neste caso, a identificação seria com parte do objeto perdido. A terceira e última seria a identificação imaginária, chamada também de identificação histérica, pois o sujeito deseja identificar-se com o desejo do outro, o que lhe é garantido pela manutenção de um desejo permanentemente insatisfeito. (Jean Florense, 1994, p.18) 52 Essas identificações com as instâncias parentais se repetem ao longo da vida do indivíduo, Freud pontuara a ascendência dessa relação por toda a existência humana, assim afirmando: “a influência dos pais governa a criança, concedendo-lhes provas de amor e ameaçando com castigos, os quais, para a criança, são sinais de perda de amor e se farão temer por essa causa”. (Freud, 1932, p.80) No livro “As identificações na clínica e na teoria psicanalítica”, no capítulo intitulado “O real da identificação”, Julia Kristeva assim se expressa: “O termo psicanalítico identificação engloba diversos estágios no processo de subjetivação: identificação narcísica, identificação histérica, identificação projetiva, identificação primária, ideal de ego...Se admito que não sou nunca idealmente Um sob a Lei do Outro, toda a minha aventura psíquica é feita de identificações falhas, de autonomias impossíveis nas quais vêm se alojar o narcisismo, a perversão, a alienação”. (Kristeva, 1994, p. 48) Pensávamos que as identificações parentais, em Violeta, ainda que problemáticas, conflituosas, estavam ali colocadas exaustivamente em seu relato clínico. Em sua fala, Violeta sempre ressaltava sua insatisfação com quase tudo de sua vida, essa insatisfação também se presentifica na mãe que gostava de tantas coisas, entretanto só se ocupava em satisfazer os desejos do pai, da avó, de todos os filhos, menos o seu desejo. Parecia não haver tempo para se ocuparem delas mesmas. 53 Diante de todos esses aspectos, nosso interesse foi paulatinamente sendo direcionado para a identificação histérica, em virtude de tudo que nos era suscitado no decorrer do atendimento à paciente e nosso entendimento do mesmo. Daí partilharmos do pensamento de Jean Florense quando ressalta: “a particularidade da identificação na histeria é estar a serviço de moções de desejo contraditórias, ambivalentes, bissexuais. O sintoma representa ao mesmo tempo algum traço da pessoa amada e do rival, imita a realização de desejo do homem e da mulher, a atividade e a passividade. O jogo é embaralhado e o eu, “tim-tim por tim-tim, perde o rumo e o seu latim”. (Florense, 1994, p.119) Aprendemos que uma forma de manter em nós, os antepassados, desde as primeiras identificações é introjetando suas virtudes e psicopatologias. Assim, é mantido o elo com estes e com suas doenças. Freud já abordara esse tema desde 1897, no “Rascunho N”, reafirmando-o mais tarde em 1917 com “Luto e Melancolia”, quando trata das pulsões hostis contra os pais e o desejo de morte através de idéias obsessivas, observando: “(...) esses impulsos são recalcados quando a compaixão pelos pais é ativa – nas épocas de sua doença ou morte . Em tais ocasiões é uma manifestação de luto recriminar-se a si próprio pela morte deles (o que se 54 conhece como melancolia) ou punir-se a si mesmo de uma maneira histérica (por intermédio da idéia de retribuição), com os mesmos estados [de doença] que tenham tido”. (Freud, 1897, p. 272) Assim se dá a identificação histérica, através da doença e dos sintomas familiares. Mais tarde Freud ressaltará a relação entre a melancolia e a neurose obsessiva, cuja investigação teve grande importância, na posterior formulação da noção de identificação. No trabalho que se ocupa da melancolia intitulado, “Dúvida Melancólica, Dívida Melancólica, Vida Melancólica”, Urânia Tourinho Peres assinala que: “através das identificações que se estabelecem tanto no plano imaginário como no plano simbólico, que o indivíduo se estrutura ao mesmo tempo dentro de um padrão da espécie e se integra em uma imagem singular”. (Peres, 1998 , p.38) Segundo Peres, o olhar dos pais, o olhar que amorosamente acolhe o bebê, dá-lhe reconhecimento, e, sem dúvida, é o que estabelece uma imagem ideal tanto externa quanto internamente no psiquismo desse indivíduo. Entretanto, sabemos que em muitos indivíduos que apresentam problemas na esfera psíquica, freqüentemente, estes são decorrentes de relações primordiais conturbadas. Retomando a leitura de “As identificações na clínica e na teoria psicanalítica”, Pierre Paul Lacas afirma: 55 “as identificações participam então do registro das comparações, das imagens, das metáforas, na medida em que elas são sempre parciais, dissociadas ou fragmentadas na expressão. Nunca podem atingir o ideal – que seria assim uma fantasia – da identidade do ser como ele mesmo”. (Lacas, 1994, p. 62). Em Violeta, pensamos que coexistem traços identificatórios tanto com o pai - de quem a paciente queixava-se de só receber críticas, quanto da mãe e da avó. Nos apoiamos na hipótese freudiana de que as identificações são ambivalentes desde a sua origem, daí se expressarem tanto pela ternura como pelo desejo de afastamento de alguém. Violeta percebia-os muito semelhantes, o que talvez fosse uma das razões porque evitava o enfrentamento com eles. Isto se configurava quando nos revela evitar levar sua única e verdadeira amiga à sua casa numa tentativa de preservá-la dos ataques preconceituosos sobre a cor da pele desta. Nos parecemos ou tomamos como modelo aqueles que admiramos por alguma razão que, muitas vezes, desconhecemos conscientemente quais. Repelimos e assimilamos inconscientemente virtudes, defeitos e outros traços de nossos ancestrais e de pessoas com quem temos algum tipo de relação. Refletir sobre a identificação também propiciaria um retorno ao que se compreende como ideal, e, que por se tratar de ideal está distante da realidade, encontra-se a nível interno – da alma, do psíquico, no qual também se aloja o desejo. Falarmos das identificações de Violeta assume uma importância muito maior, neste momento. Diríamos, neste caso, que o ato de escrever 56 está superinvestido por envolver sonhos, ideais e muitos outros afetos, daí suscitar também o enfrentamento de resistências poderosas que insistiam em obliterar nossas reflexões sobre a paciente. Violeta não se negava a recordar, repetindo suas queixas, como que repetindo, proporcionasse a ela uma compreensão mais adequada dessas situações delicadas da dinâmica de sua família. Como diz a canção de Djavan “recriar a luz que me trará você...”, essa é uma das possibilidades que o desejo almeja – o alcance dos objetos amados perdidos. Piera Aulagnier no seu magnífico trabalho “Angústia e Identificação” revela: “a angústia só pode ensinar-nos alguma coisa sobre sua natureza se a considerarmos como conseqüência, como resultado de um impasse no qual se encontra o ego, sinal para nós de um obstáculo surgido entre estas duas linhas paralelas e fundamentais cujas relações formam a dobradiça de toda estrutura humana: a identificação e a castração”. (Aulagnier, 1995, p.7) É a partir da relação entre esses “dois pivôs estruturantes” – que a autora irá buscar construir uma definição do que é a angústia .No próximo capítulo desse trabalho, pretendemos focalizar a relação entre esses dois fenômenos na histeria. Um dos ensinamentos que Freud deixou com a teoria da castração e do complexo de Édipo é que a resolução do Édipo implica em sobreviver 57 ao desapego dos ideais, abandonando algumas identificações já estruturadas, incorporadas ao ego. Para Ceccarelli, o mérito de Freud não está somente em ter inaugurado uma teoria que desse conta apenas do inconsciente, mas também a criação de preceitos que permitem a compreensão do psiquismo humano, assim afirmando: “dar sentido a certos fenômenos psíquicos até então obscuros, aliviando assim o sofrimento – o sintoma que consome inutilmente a energia – transformando o sofrimento neurótico na miséria humana cotidiana: sofrer com o que é sofrível, e não sofrer para gozar”. (Ceccarelli, 1999, p. 52) O fracasso e a contratransferencialmente insatisfação uma da paciente nos impunham enfadonha irritação que certamente interferiu na escuta clínica . Em “Totem e Tabu” (1912-13), Freud vai tratar especialmente de dois temas: o totemismo e os tabus, bem como da origem da religião e da moralidade. Freud vai falar do sistema de totemismo e da proibição de relações sexuais entre os membros do mesmo totem, e o conseqüente interdito de seus casamentos que, de alguma forma, asseguravam a restrição ao incesto. (Freud, 1912, p.21) Em seguida, vai se ocupar da criação dos costumes e das proibições costumeiras – as chamadas “evitações entre parentes próximos” que tem por objetivo maior a proteção contra o incesto entre esses grupos e que vão regular as relações entre seus membros, dentre as quais as relações ambivalentes entre um homem e sua sogra com todas as nuances 58 sentimentais que permeiam essa relação. E Freud prossegue, falando da identificação da mãe com os filhos tornando suas as experiências emocionais destes, e aponta que esse seria um ganho dos casais com filhos, pois, assim, manter-se-iam no frescor da juventude. (Freud, 1912, p.3335) Os pais desejam incessantemente que as experiências dos filhos sejam melhor sucedidas de que suas próprias. Os filhos são, de alguma forma, uma nova chance de tudo dar certo. No segundo capítulo de “Totem e Tabu”, Freud irá dedicar-se ao tabu - como sagrado, misterioso, perigoso, proibido, impuro, cujas restrições são distintas das proibições religiosas ou morais. Em seguida, aponta que a “identificação com o totem”, efetivada em ações e palavras nas ocasiões cerimoniais do nascimento, da iniciação e do enterro. (Freud, 1912, p.130). Freud irá concluir sua investigação insistindo que o resultado mostra que as origens da religião, da moral, da sociedade e da arte estão assentadas no complexo de Édipo, confirmando assim a premissa psicanalítica de que ele é “o complexo nuclear das neuroses”. Assim, o fortalecimento da identificação com o totem é o que constitui a essência do totemismo. Sua importância reside ainda, na hipótese do quarto ensaio quando trata da ordem primeva e da morte do pai primitivo, e da origem posterior das instituições sociais, das restrições morais e da religião. Neste momento da trajetória freudiana, a identificação vai ser tomada: ‘como momento preliminar da escolha objetal ... a primeira forma pela qual o eu escolhe um ‘objeto’, isto é, desejando incorporá-lo a 59 si, em seguimento a fase oral ou canibalista do desenvolvimento libidinal devorando-o. (Freud, 1917, p.273) Adriana Leite, no trabalho intitulado “Em busca do sofrimento histérico: a dimensão melancólica da histeria”, assim coloca: “Na melancolia, o investimento objetal é abandonado, mas o amor por ele não o é, levando o investimento para o refúgio de uma identificação narcisista. Dessa forma, o ego satisfaz o seu sadismo contemplando seu próprio sofrimento, ou melhor, contemplando o sofrimento da parte do ego identificada com o objeto perdido” (Leite, 1999, p. 81) Pensamos que o trabalho analítico também vai oportunizar a morte do pai introjetado primitivamente, possibilitando uma vida menos dependente dessas idealizações que tanto propiciam a ilusão passageira de indivíduos felizes, afortunados, eternamente bem sucedidos, como acabam por promover uma imobilidade bem característica da doença neurótica, ou melhor dizendo, mantendo o sintoma a psicopatologia também se perpetua. Retomando a Jean Florense no capítulo “As identificações” : (...) “a identificação do sonho, a identificação do sintoma. Não são imitação de outras pessoas: é preciso abandonar aqui uma descrição psiquiátrica corrente dos “comportamentos” histéricos. As identificações dependem dos processos primários, elas somente têm que criar “pessoas”: se há personagens no romance histérico, são representantes da representação pulsional: os significantes”. (Florense, 1994, p.122) Em matéria da revista Veja, de 02.08.2000, denominada “O mais amado 60 e odiado do país”, cujo objeto é o repórter esportivo da Rede Globo, Galvão Bueno e o seu jeito particular de narrar jogos, corridas de Fórmula 1, etc. e que causa sentimentos ambivalentes em milhares de telespectadores que o ouvem em todo Brasil. Dessa forma, os jornalistas responsáveis pela matéria traçam comentários analisando e comparando-o a personalidades no mundo do rádio e da tevê que fizeram história criando bordões ou que apelam para os efeitos de voz nas transmissões para o público. Neste ponto, a matéria questiona “Por que então, ele é querido por tantos torcedores e tão prestigiado pela Globo? A resposta é: Galvão Bueno não narra. Ele torce. Igualzinho ao espectador na frente da televisão. A identificação é inevitável”. Pensamos ser este um exemplo atual e típico de identificação com parte do objeto, neste caso de um lado a identificação do torcedor que gosta do jeito característico que tem o jornalista não só de narrar, como sofrer junto com ele (torcedor) quando o time está perdendo, e do outro, o torcedor que o odeia em função de que por conta da emoção, ouve uma série de ‘abobrinhas’, que muitas vezes não tem nada a ver. Pensamos que a paciente vivenciava continuamente essa ambivalência de sentimentos com relação a essas figuras femininas que como ela, não podem, estão impossibilitadas porque não tem poder. E aí favorecem a essa oscilação que na paciente se revela pela criação de uma identificação para si mesma. Quando esta se dá conta que o pai não era o ideal de ego que ela poderia tomar para si, e, que nas duas figuras femininas de quem ela poderia introjetar tomando para si alguns aspectos positivos, pesava a questão da solidão e do abandono das duas mulheres, por não terem sabido manter os laços afetivos com os homens que amaram. 61 Ambas tinham histórias semelhantes, estavam sozinhas e isso era uma das coisas que ela mais temia: Ter que ficar fazendo companhia às duas mulheres solitárias... e juntar-se a elas de alguma forma. Nossa suposição era de que, em Violeta, os laços identificatórios eram muito tênues, denotavam fragilidade. Na identificação originavam-se parte de seus conflitos, fantasias e recalques. Conflitos com a impossibilidade, com o fracasso de poder ser ela mesma para vivenciar o que é verdadeiramente ser uma mulher. As fantasias protegiam os desejos da ação do recalque, que por sua vez desencadeavam nos sintomas. 62 5. A formulação da metapsicologia da angústia Este texto sintetiza a pesquisa bibliográfica empreendida, no sentido de estudar e conhecer os principais trabalhos de Freud, que fazem parte de seu legado sobre a metapsicologia da angústia e à neurose de angústia. Procuramos buscar os textos compreendidos, no período de 1892 e 1932, propostos por Zeferino Rocha em “Os destinos da angústia na psicanálise freudiana”. (Rocha, 2000, p.10) Desse período fazem parte: “Manuscrito E – Origem da angústia” (1894); “Fobias e obsessões” (1895); “Sobre os critérios para destacar da neurastenia uma síndrome particular intitulada “neurose de angústia” (1895); “Resposta às críticas a meu artigo sobre a neurose de angústia” (1895); “Rascunho N” (l897); “A sexualidade na etiologia das neuroses” (1898); Conferência 23 - “Os caminhos da formação de sintomas”; Conferência 25 – “A angústia” (1916-17); “Inibições, Sintomas e Angústia” (1926); Conferência 32 – “Angústia e vida pulsional” (1932) e Conferência 33 - Feminilidade. A Conferência 32, bastante utilizada, na medida em que faz parte da última fase, dos escritos de Freud, e sintetiza diversas idéias do autor sobre a angústia e a neurose de angústia. Utilizamos também para melhor ilustrar nossas idéias, as “Considerações teóricas de Breuer” (“Representações Inconscientes e representações inadmissíveis à consciência – Divisão da Mente”), de 1899, por fazer parte da primeira fase dos escritos de Freud sobre a histeria, em parceria com Breuer. Finalmente, gostaríamos de ressaltar que parte desta pesquisa foi 63 mediada pelo trabalho de Zeferino Rocha em “Os destinos da angústia na psicanálise freudiana”, além de textos apontados nas Obras Completas em cdrom, um recurso para levantar as referências freudianas sobre a noção de angústia. Como falar de um sentimento que aflora, que toma conta do sujeito inesperadamente sem mesmo dar condições a este de conscientemente se defender ou tentar livrar se de alguma maneira deste “ataque” sem que tenha que fazer um sintoma neurótico? Dizemos isso porque Violeta tinha dificuldades e não sabendo como lidar com essas, em situações em que se via angustiada, criava um sintoma - seus personagens, que a tiravam do estado de desprazer vivenciado naqueles momentos. Freud já salientara em 1897, no seu artigo “Resposta às críticas do meu artigo sobre neurose de angústia” que : “os ataques de angústia ocorrem em ocasiões definidas; quando o paciente evita essas ocasiões ou consegue paralisar sua influência por meio de alguma precaução, fica isento dos ataques de angústia quer se entregue regularmente ao coito interrompido ou à abstinência, quer goze de uma vida sexual normal”. (Freud, 1895, p. 128) Com base na fala da paciente, pensamos que ao criar um personagem Violeta sentia-se menos angustiada, como se o sintoma (o personagem) lhe conferisse um poder do qual ela não poderia abrir mão, caso contrário ficaria totalmente desprotegida. Repetindo o que já havia anunciado na Conferência 25 – “A angústia”, 64 das Conferências Indrodutórias sobre a Psicanálise, Freud na Conferência 32, denominada “Angústia e Vida Pulsional”, descreve a angústia como: “um estado afetivo – isto é, uma combinação de determinados sentimentos da série prazer-desprazer, com as correspondentes inervações de descarga, e uma percepção dos mesmos, mas, provavelmente, também como um, precipitado de um determinado evento importante, incorporado por herança – algo que pode, por conseguinte, ser assemelhado a um ataque histérico individualmente adquirido”. (Freud, 1932, p.103) A angústia funciona como se um alerta fosse disparado diante de uma situação de perigo em que a pessoa tem duas alternativas: fugir ou defender-se. A angústia tem como objetivo a defesa do ego diante dos perigos ameaçadores de sua integridade. Todos nós, os humanos, somos assolados pela angústia porém, é muito difícil falar dela, posto que é inespecífica , indecifrável, enigmática, fugidia como que conspirando para que não pudéssemos descortiná-la para aqueles que também a conhecem e a referem na clínica como o seu “pior sofrimento”. Freud demonstrou-nos que a angústia faz parte do desenvolvimento humano, da constituição do sujeito. Ele já se deparara com ela no tratamento das suas “geniais” histéricas. No seu didático roteiro sobre “Os destinos da angústia na psicanálise freudiana”, Rocha afirma que angústia subsiste a dois momentos: um em que se inscreve no corpo (com a histeria) e outro em que além do corpo ela se insere no psiquismo (com a neurose de angústia), denominando-a de “sombra do ser”, assim refletindo suas idéias: 65 “Dir-se-ia que, na sua dimensão mais profunda, esta misteriosa e enigmática sombra é um símbolo da experiência do “nada” que a angústia nos revela, uma espécie de sombra que se destaca do ser, e, ao mesmo tempo, o envolve com seu enigma. “Sombra do ser”, a angústia de tal modo adere à nossa existência, que ninguém dela pode esquivar-se, da mesma forma como ninguém pode saltar por cima de sua própria sombra”. (Rocha, 2000, p.17) No mesmo trabalho, Zeferino Rocha vai pontuar três momentos na trajetória freudiana no trabalho com a angústia: no primeiro, um dos escritos que compõem a primeira fase da metapsicologia, no qual se incluem os “Manuscritos enviados a Fliess”, que abrange o período de 1892 a 1900. A segunda etapa está situada no período da primeira sistematização da teoria psicanalítica - de 1900 a 1920, e a terceira, que corresponde aos últimos escritos : de 1920 a 1938. Nesta perspectiva, será a angústia que provocará o recalque e não o recalque que ocasionaria a angústia como pensou Freud anteriormente. No entender de alguns estudiosos, este período marca o trabalho mais profícuo sobre a metapsicologia da angústia. Nesta final de sua trajetória, Freud vai fazer uma reflexão sobre a angústia, após a 2ª Tópica – com a teoria do eu e das instâncias ideais e vai expor suas idéias sobre a pulsão de morte. Para a análise do caso clínico aqui proposto, trataremos da angústia de castração, porta de entrada do Édipo feminino e que pensamos tem o objetivo semelhante ao de um ritual de passagem para uma outra etapa do desenvolvimento da mulher: a entrada no chamado mundo feminino propriamente dito. 66 A angústia na concepção freudiana tem relação com o horror que é para a criança ver-se diante de tão inominável ameaça que é perder o símbolo maior de poder e de cobiça – o pênis. Isto porque para a menina o impacto é maior, uma vez que constata aquilo que já suspeitava – ter nascido sem o que representa esse poder e ainda mais, ter não só que abandonar como também mudar de objeto de amor, deslizando da figura materna para a paterna. Nasio ratificando o ensinamento freudiano, pontua que “o tratamento da histérica consiste em levar o analisando a atravessar com êxito a prova da angústia de castração”. A castração e a passagem pelo Édipo são primordiais, juntemos a eles o recalque e teremos a origem não só a histeria, como também a de outras manifestações neuróticas. (Nasio, 1991, p.85). Na Conferência 32, “Angústia e Vida Pulsional”, das Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Freud proporá uma nova orientação para a tese de que “o ego é a única sede da angústia” – e que apenas nessa instância é possível produzir e sentir angústia, com isso acarretando um direcionamento de vários pontos de vista por ele defendidos e consolidando algumas idéias, entre as quais aquela que a angústia antecipa um perigo, na análise de casos em que ocorrera o recalcamento de desejos decorrentes do complexo de Édipo. Assim, na neurose, os sintomas exerciam a função de serem substitutivos desses desejos inconscientes recalcados. Os desejos, que originaram sintomas sob a forma de afeto ou medos intensos, são as mesmas idéias que retornam à consciência, desta feita disfarçados, a fim de não serem alvo do recalque. Isso remete a Freud quando afirmou que “o perigo pulsional interno se revelaria fator determinante e preparação para uma situação de perigo externo, real”. (Freud, 1932, p.109) 67 Falaremos aqui da angústia neurótica que tanto traz o sofrimento quanto a insatisfação e que tem relação com um perigo que precisamos desvendar. Vivência que põe o homem frente ao seu desamparo constitucional, à limitação dos seres humanos, entretanto permite que o homem questione sobre sua existência, oportunizando uma melhoria em sua forma de encarar esses limites. Para Freud “o desenvolvimento do ego consistiria em distanciar-se do narcisismo primário perturbado pela castração” – reconhecimento de uma incompletude que desperta o desejo de recuperar a perfeição narcísica – fazendo-se amar para reconquistar seu amor. Como aprendemos, a angústia tem uma relação muito especial com o corpo, pois que este serve como expressão dos afetos. Foi assim desde os primeiros escritos de Freud sobre os quadros de histeria de que se ocupou Breuer, o próprio Freud e Charcot. O exemplo mais contumaz, de modo de representação dessa psicopatologia, são as conversões histéricas em que a linguagem afetiva se vê inscrita no corpo. Wilson Klain ratifica essa premissa freudiana quando acrescenta “a angústia emerge quando não há palavra para simbolizar”. (Klain, 1998, p. 13) Quando o homem não dá conta de expressar a linguagem dos afetos, ele se angustia. Neste ponto de sua formulação teórica sobre a angústia, Freud falará pela primeira vez em inconsciente, que ocupa dentre suas reflexões teóricas, o mais polêmico e revolucionário de seus legados à humanidade. É no inconsciente que se origina grande parte da vida psíquica dos indivíduos. No psiquismo, vamos encontrar o espaço, no qual brotam suas fantasias, medos e conflitos, em que a angústia e os dramas vivenciados pelo 68 homem vão se instalar. O perigo, a ameaça é tanto externa quanto interna. A angústia é acionada, digamos assim, diante de uma perspectiva ameaçadora. Na infância, essas ameaças são de várias ordens: medo da perda do amor materno quando a criança não se comporta adequadamente de acordo com o desejo dos pais ou da mãe principalmente; nos meninos; ameaça externa ao visualizar a ausência do pênis nas mulheres e a perspectiva de vir a perder efetivamente esse membro; ameaça concreta de amputação desse membro por um adulto, face a prática masturbatória. A angústia também perpassa por uma deficiência no narcisismo dos indivíduos que o impedem de se sentirem amparados nas vicissitudes e perdas ao longo de suas existência. Sabemos que durante o processo evolutivo, o ego vai sendo preparado gradativamente para a castração, nas inúmeras vivências de perdas afetivas continuamente vivenciadas desde a separação primeira, por ocasião do parto. Desse medo da perda do amor dos pais, originário na infância, decorrem todos os outros momentos que são revividos como situações de separação e que têm relação, de alguma forma, com a dor e o luto que o momento da castração representa. A castração que insere a lei no psiquismo, relembra nos pais a perda do objeto amado da infância distante. Freud ressaltara o perigo interno, como o maior, de vez que o sujeito teme a confrontação com sua própria libido enquanto energia, de tamanho e vigor incomensuráveis, que é preciso controlar. A angústia seria “repetição da antiga experiência traumática”, a ponto de Freud ainda na Conferência 32, comparar a experiência do nascimento a um ataque histérico, assim refletindo: 69 “O evento que consideramos como tendo deixado atrás de si uma marca dessa espécie é o processo do nascimento, ocasião em que os efeitos sobre a ação do coração e sobre a respiração, característicos da angústia, foram efeitos adequados”. (Freud, 1932, p.103-104) A experiência do nascimento é considerada como vivência traumática para o bebê. De acordo com essa reflexão, a angústia realística seria “uma reação, que nos parecia compreensível, face a um perigo — isto é, reação a um dano esperado, de fora, — ao passo que esta, a angústia neurótica, é completamente enigmática, e parece despropositada”. Seu objeto não é visivelmente identificado. (Freud, 1932, p.104) Freud vai explicando didaticamente que a angústia realística seria : “ um estado de preparação para um estado de angústia, com possibilidade de duas vertentes: a primeira quando acontece a repetição da antiga experiência traumática, que é marcada por um sinal em que pode haver uma adaptação, à nova ameaçadora ou resultarem fuga ou defesa”. (Freud, 1932, p. 104) Segundo Freud, também pode acontecer o domínio de uma situação anterior, caso em que o afeto vai tornar-se “paralisante e inadequado para os propósitos atuais”. A angústia, dizia Freud : 70 “é flutuante enquanto apreensão difusa, e, sob a forma de angústia expectante, que pode ligar-se a determinadas idéias – como nas fobias em que predomina um medo exagerado em demasia ou como nos casos de histeria ou neuroses graves, acompanhada de sintomas durante os ataques, caracterizados por não terem uma prova concreta de perigo externo”. (Freud, 1932, p. 109) A experiência clínica fez com que Freud observasse que a angústia originava o recalque, exemplificando-a com os casos em que o que era recalcado decorria dos impulsos do complexo de Édipo. O fato de o menino estar apaixonado pela mãe significa um perigo interno que precisaria ser dizimado. Para afastar da consciência este desejo, o menino renuncia ao objeto, vez que este causa uma situação externa de perigo - a punição através da perda do pênis. E Freud confessa “não estávamos preparados para constatar que o perigo pulsional interno se revelaria fator determinante e preparação para uma situação de perigo externo, real” (Freud, 1932, p.109). Falar de angústia é sinônimo de falar de temor, de medo, de desamparo, inquietação, agonia, palpitação, aperto, sufocação, preocupação, contudo é bom que ressaltemos que, quando falamos de medo, referimo-nos a um afeto específico, concretamente falando, porquanto tem um objeto. Falamos do medo de alguma coisa, tal como: barata, rato, de avião, de altura, enquanto que o aperto, a palpitação não têm relação aparente com algo que conhecemos. É o que Freud chamou de “angústia neurótica” porque se refere a uma ameaça indefinida, indecifrável, indeterminada. (Freud, 1932, p.104). 71 Desde 1893, já no Rascunho B, Freud assinalara que “a neurose de angústia surge sob duas formas: como um estado crônico e como um ataque de angústia”. As duas formas podem compatibilizar-se; de forma que, um ataque de angústia nunca ocorre sem sintomas crônicos: hipocondria, agorafobia, claustrofobia, vertigem de lugares altos, etc. (Freud, 1893, p 260) Isso nos remete ao discurso de Violeta, no momento em que relatava um medo intransponível. Poderíamos supor que esse tipo de angústia se origina internamente, pois nas queixas da paciente era muito comum aparecer a declaração de sua fragilidade quando dizia ser “muito difícil” livrar-se de seus medos. Continuamente, ela se referia à sua dificuldade em confrontar-se com suas limitações. Nas horas em que se deparava com suas identificações conturbadas, Violeta se angustiava e em defesa do seu ego emergiam os personagens, inventados por ela para se ver livre desses ataques iminentes. Pensamos que os personagens eram sua alternativa de defesa. Nenhum vestígio de tentar enfrentar a dificuldade, fazer com que o sentimento de angústia não a dominasse ou mesmo fosse ventilada a possibilidade de vencêla. Será que Violeta conseguiria lidar melhor com suas limitações, insatisfações ou com sua castração ? Nos questionávamos muito sobre tudo isso. Essas questões também nos levaram a refletir sobre as fantasias, sonhos e o que possuem em comum com os castelos de areia. Penso que deva existir ponto comum entre os castelos de areia e os nossos sonhos, nossas fantasias, com tudo que imaginamos sobre nossa vida, fazer planos. Muitos sonhos e desejos, nós conseguimos realizar, mas muitos outros se perdem ao longo de nosso caminho. Visualizando a imagem de um castelo de areia, observamos que, à 72 medida que vamos acrescentando areia molhada e que o castelo vai ficando maior, a possibilidade de ele ruir aumenta. Então, é preciso muita cautela na ocasião que se acrescenta mais areia ou na melhor das alternativas, ter claro a hora de parar, ou melhor dizendo: reprimir o desejo de ver o castelo cada vez maior, partindo para a construção de outros castelos ou dar-se conta do risco corrido, de ver a qualquer momento o castelo ruir e ter de refazê-lo. Identicamente, nossos sonhos se desfazem, são refeitos, outros desistimos, abandonamos, bem como alguns, perseguimos arduamente e a sensação de sempre estar faltando um pedaço, como já disse Djavan, é nosso destino mais que certo. Nossa única certeza é a morte, pensamos. É que a angústia também denota um medo de aniquilamento, cujo precedente seria o medo da morte. Freud, na Conferência 23, “Os caminhos da formação dos sintomas”, das Conferências Introdutórias sobre Psicanálise observara que : “Os sintomas — e, naturalmente, agora estamos tratando de sintomas psíquicos (ou psicogênicos) e de doença psíquica — são atos, prejudiciais, ou, pelo menos, inúteis à vida da pessoa, que por vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de desprazer ou sofrimento. O principal dano que causam reside no dispêndio mental que acarretam, e no dispêndio adicional que se torna necessário para se lutar contra eles. Onde existe extensa formação de sintomas, esses dois tipos de dispêndio podem resultar em extraordinário empobrecimento da pessoa no que se refere à energia mental que lhe permanece disponível e, com isso, na paralisação da pessoa para todas as tarefas importantes da vida”. (Freud, 1916-17, p.419) 73 Violeta queixava-se dos prejuízos a que estava submetida pelos fracassos constitutivos de sua história, entre os quais a tristeza de revelar que não havia concluído o segundo grau, o que dificultava ainda mais seus planos de possuir independência financeira para dirigir os rumos de sua vida. Ainda na Conferência 23, sobre as vivências infantis e sua interferência no psiquismo posterior, Freud salienta: “As neuroses de crianças são muito comuns, muito mais comuns do que se supõe. Muitas vezes, elas deixam de ser notadas, são consideradas sinais de uma criança má ou arteira, muitas vezes, também, são mantidas em estado de sujeição pelas autoridades responsáveis pelas crianças; porém, sempre podem ser reconhecidas, retrospectivamente, com facilidade. Em geral, surgem sob a forma de histeria de angústia”. E prosseguindo: (...) “Se uma neurose emerge posteriormente na vida, a análise revela, regularmente, que ela é continuação direta da doença infantil, que pode ter aparecido como sendo apenas um indício velado. Entretanto, conforme eu disse, há casos em que esses sinais de neurose na infância continuam ininterruptamente numa doença que dura toda a vida”.( Freud, 1916-17, p. 425) 74 Pensamos que esses conflitos remontam às primeiras fases do desenvolvimento infantil da paciente, supomos que essas fases problemáticas por sua fixação, localizam-se anteriormente à castração e ao complexo de Édipo, e, que provavelmente passaram despercebidos de seus familiares, que segundo ela, só se ocupavam em criticar suas falhas e derrotas. Ainda permanecendo com a Conferência 23, Freud salienta: “os mesmos processos pertencentes ao inconsciente têm seu desempenho na formação dos sintomas, tal qual o fazem na formação dos sonhos – ou seja, condensação e deslocamento. Um sintoma, tal qual um sonho, representa algo como já tendo sido satisfeito: uma satisfação à maneira infantil. Mediante uma condensação extrema, porém, essa satisfação pode ser comprimida em uma só sensação ou inervação, e, por meio de um deslocamento extremo, ela pode se restringir a apenas um pequeno detalhe de todo o complexo libidinal. Não é de causar surpresa se também nós, muitas vezes, temos dificuldade em reconhecer num sintoma a satisfação libidinal, de cuja presença suspeitamos e que invariavelmente se confirma”. (Freud, 1916-17, p. 428) Também já ensinara desde 1914, em “A história do movimento psicanalítico” que “a teoria do recalque é a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise”, tal sua importância na metapsicologia freudiana. (Freud, 1914, p. 165). E um detalhe importantíssimo, geralmente o recalque só tem efeito provisório, uma vez que a idéia, inadmissível à consciência, é removida temporariamente, retornando imediatamente quando possível, bastando que seu guardião se distraia no trabalho de contenção. O que não é nem um pouco difícil. Retornando à Conferência 32, Freud descreve o medo que estranhos despertam nas crianças e que o processo de excitação que essas passam nestas ocasiões, desperta nelas, a angústia. Estas crianças são acometidas por não 75 terem condições de controle da excitação libidinal transformando essa excitação em angústia. E vai ser chamada de “angústia neurótica”, pelo fato de que, neste caso, a libido enquanto energia, é transformada diretamente em angústia. O afeto - tanto o amoroso, como o agressivo - não ligado a nenhuma idéia desencadeará a angústia. Estes processos que ocasionam a angústia neurótica decorreriam de três fatores: a) tanto por imaturidade do ego na infância; b) devido a processos somáticos da vida sexual, a exemplo da neurose de angústia e, c) em decorrência do papel do recalque na histeria. Vale ressaltar que Freud acentuou os aspectos sexuais tanto na histeria quanto na neurose de angústia. (Freud, 1932, p.105-106) Neste período constatou a relação entre angústia e a formação de sintomas, assim expressando suas idéias tomadas da experiência terapêutica: “Se impedimos um paciente de executar seu ritual de ablações, ele cai num estado de ansiedade que acha difícil suportar e do qual, evidentemente, se tinha protegido por meio de seu sintoma. E parece, com efeito, que a geração da ansiedade é o que surgiu primeiro, e a formação dos sintomas, o que veio depois, como se os sintomas fossem criados a fim de evitar a irrupção do estado de ansiedade”. ( Freud, 1932, p.106) Em Violeta, existia um sintoma freqüente (náuseas na hora de escovar os dentes e/ou na do café da manhã) que supomos serem decorrentes das situações aflitivas que se via confrontada por ocasião das refeições tanto à mesa de sua casa como na residência do namorado, pois dizem respeito a assumir seu desejo sexual diante da família do namorado. Nessas situações as famílias se reuniam e cobravam-na a conclusão de seus investimentos mais recentes, como uma nova aula de dança, um novo curso por concluir etc, o que a deixava muito “mal” perante todos, fazendo com que ela continuamente evitasse esses encontros. Resolvia isso dormindo, sempre, até mais tarde e, 76 assim se defendia dos ataques externos. Todavia, os ataques internos permaneciam. Alguns sintomas em Violeta fizeram com que nos voltássemos para o trabalho “Representações inconscientes e representações inadmissíveis à consciência”, no qual Breuer reflete: “Suponhamos, por exemplo, que alguém tenha experimentado um afeto violento durante uma refeição e não o tenha “ab-reagido”. Ao tentar comer, mais tarde, ele é dominado por engasgos e vômitos e estes lhe parecem sintomas puramente somáticos (...) Não há dúvida que cada tentativa de comer evocava a lembrança em causa (...) Essa lembrança deu origem aos vômitos, mas não surgiu claramente na consciência “pois estava então destituída do afeto, enquanto os vômitos absorviam a atenção inteiramente”. (Breuer, 1899, p 228). Isto nos leva a supor que, da mesma forma em Violeta, a sensação de enjôo no horário matinal estaria relacionada a algo que lhe foi profundamente desagradável, sem prazer e porque não dizer traumático, que fizeram com que ela evitasse essas reuniões familiares tanto em sua família como na de seu namorado, que aponta para não poder assumir seu desejo sexual perante os familiares do namorado. Em “Inibições, sintomas e angústia”, Freud nos remete a esse tipo de sintoma, quando afirma “que toda inibição que o ego impõe a si próprio pode ser denominada de sintoma”, visto que objetiva a satisfação do ego. Ou dito de outra forma, quando o indivíduo produz um sintoma, ele também está protegendo o ego de um estado gerador de angústia. (Freud, 1926, p.168). As 77 identificações conflituosas de Violeta colocavam-na em situações de exacerbada aflição, por lhe faltarem nos momentos em que deveriam justamente se presentificar. Violeta colocava em seus personagens uma característica marcantemente faltosa em seu psiquismo – a coragem para concluir coisas, para enfrentar suas limitações pessoais. No entanto, apesar de extremamente medrosa, não era humilde, como poderíamos supor. Pensamos que um forte traço identificatório, certa arrogância vislumbrada na avó, era revelado em certos momentos de rebeldia por não se submeter às regras impostas pela mencionada senhora e o pai. Em algumas ocasiões que a enfrentava, logo em seguida saía correndo com medo do que viesse a acontecer-lhe mais tarde. De qualquer forma, não podemos deixar de pensar que ela enfrentava as regras de moralidade impostas pela avó, quando se autorizava a viver em duas casas diferentes como seu pai fazia. Sua auto imagem nem sempre era boa. Superavase quando falava de si através de seus personagens maravilhosos. Os desejos têm sua origem nas primeiras relações, com as pessoas por quem o sujeito foi acolhido quando nasceu. A relação parental oportuniza o estabelecimento dos ideais, que são parte daquilo que constitui o sujeito. Freud revela que suas buscas desaguaram na relação significativa entre a angústia e a formação de sintomas, admitindo que na neurose de angústia o medo é reconhecido, uma vez que atua como fator preponderante no processo de castração. Observa também, que as fobias são conseqüência de uma situação aflitiva, angustiante com características próprias em que ela funciona como que impedindo a situação desagradável proporcionada pela angústia. 78 Isto nos remete aos casos de fobia de elevador, fobia de cachorro, e como já citamos, Violeta tinha “verdadeiro pavor” de dormir no escuro, desde a infância. Relatava que era praxe ir para cama dos pais naquela época. Adulta, só dormia se tivesse uma lâmpada acesa. O medo a impedia de deparar com a situação infantil causadora de angústia, ocasiões em que se aninhava na cama dos genitores. A defesa atual era manter a luz acesa como forma de se proteger da angústia infantil. Violeta recordava o medo do escuro, que a acompanhou grande parte da infância e relação deste com a histórias de fantasmas e bruxas que avó lhe contava para amedrontá-la. E dizia que seus irmãos também eram medrosos como ela, evidenciando a busca de traços identificatórios com as demais pessoas de sua família. No terceiro capítulo dos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, no qual Freud trata das transformações na puberdade, ele assim se expressa: “angústia das crianças não é, originariamente, nada além da expressão da falta que sentem da pessoa amada; por isso elas se angustiam diante de qualquer estranho; temem a escuridão porque nesta, não vêem a pessoa amada, e se deixam acalmar quando podem segurar-lhe a mão na obscuridade. Atribuir a todos os bichos-papões da infância e a todas as histórias horripilantes contadas pelas babás a culpa por provocarem nervosismo na criança é superestimar-lhes o efeito. Só as crianças propensas ao estado de angústia é que acolhem essas histórias, que em outras não causam nenhuma desmedida ou prematuramente desenvolvida, ou que se tornou muito exigente em função dos mimos excessivo. Neste 79 aspecto, a criança porta-se como o adulto, na medida em que transforma sua libido em angústia quando não pode satisfazê-la; e inversamente, o adulto neurotizado pela libido insatisfeita comporta-se como uma criança em sua angústia: começa a sentir medo tão logo fica sozinho, ou seja, sem uma pessoa de cujo amor se acredita seguro, e a querer aplacar esse medo através das medidas mais pueris” (Freud, 1905, p.211) Pensamos que essa reflexão de Freud sobre os estados de angústia da vida adulta e que são provenientes da infância enquadra-se, perfeitamente, com o que pensamos sobre os conflitos de nossa paciente. No trabalho intitulado “Resposta às críticas a meu artigo sobre a neurose de angústia”, Freud ressalta os fatores de ordem sexual, tais como: a prática regular do coito interrompido, a abstinência ou gozar de uma vida sexual normal como significativos para a irrupção dos estados de angústia e assinala “a tensão sexual é gerada pela excitação de idéias libidinais”. Entretanto, assume ainda não poder elucidar a relação entre tensão e a teoria da neurose de angústia. (Freud, 1895, p.127-128) Freud bem soube destacar, na teoria de Rank, o que de mais interessante lhe pareceu dentre as contribuições legadas à psicanálise e que vem a ser a base daquela reflexão. Para Rank, a experiência do nascimento é o protótipo de todas as experiências posteriores de angústia, na medida em que sinalizam um perigo ou mesmo a iminência de desamparo. Coloca assim, o nascimento como situação fundadora de angústia, dado ser ele que inaugura a separação mãe/bebê. 80 Foi baseado em sua experiência clínica que Freud apontou para as situações de perigo e ressaltou que para cada etapa do desenvolvimento corresponde um fato marcante que gera angústia, contribuindo dessa forma para suplantar cada uma dessas etapas. Assim ele pontua : “o perigo de desamparo psíquico ajusta-se ao estádio da imaturidade inicial do ego; o perigo de perda de um objeto (ou perda do amor) ajusta-se à falta de auto-suficiência dos primeiros anos da infância; o perigo de ser castrado ajusta-se à fase fálica; e, finalmente, o temor ao superego, que assume uma posição especial, ajusta-se ao período de latência. E já não duvidando de suas premissas, ele ratifica o que pensa caracterizar o indivíduo neurótico: “Não há dúvida de que as pessoas que qualificamos como neuróticas, permanecem infantis em sua atitude relativa ao perigo e não venceram as obsoletas causas determinantes de angústia”. (Freud, 1932, p.111-112) Nesta época (1932), Freud concorda que existem duas formas originárias da angústia: uma decorrente do momento do trauma original e a outra que aponta para a ameaça de repetir-se a experiência desprazerosa.. Ele também observa a evidência que “as pulsões provenientes de uma fonte ligam-se àqueles que provêm de outras fontes e compartilham de suas vicissitudes, e que, de modo geral, uma satisfação pulsional pode ser substituída por outra”. Aberto a discutir suas idéias, admite que existem pontos a serem compartilhados com possíveis interlocutores. (Freud, 1932, p.121) 81 Prosseguindo na Conferência 32, ainda vai falar de instintos para introduzir as noções de pulsões de vida e de morte; de ambigüidade de sentimentos no homem desde a fase edípica; sua afetividade, seus amores, suas relações com as pessoas ora amadas ora odiadas. No seu esclarecedor “Dicionário Comentado do Alemão de Freud”, Luiz Hanns vai nos auxiliar em diversos significados do termo alemão Trieb, tanto na forma substantiva Trieb, como na forma verbal trieben. Trieb significa força interna que impele ininterruptamente para a ação, ímpeto perene; tendência, inclinação; instinto, força inata de origem biológica dirigida a certas finalidades; ânsia, impulso no sentido de algo que toma o sujeito, vontade intensa. Vale ressaltar que o sentido do termo sempre tem correlação com “algo que “propulsiona”, “aguilhoa”, “coloca em movimento”. (Hanns, 1998, p. 338-339). Isso nos remete ao discurso de Violeta que dizia não poder controlar o aparecimento “inesperado” de seus personagens. Supomos que não podendo dominar a pulsão, lançava mão de seu sintoma mais imediato – os personagens que eram tudo o que ela gostaria de ser. De alguma forma mantinha, provisoriamente, suspensa a geração de angústia. Para Hanns : (...) “o trieb simplesmente existe, tal qual o “impulso de respirar”, ele é a “base do próprio querer”, a base a partir da qual se gera a necessidade , a ânsia, a vontade, o querer e o desejo. Não é de imediato percebido como torturante ou desagradável, torna-se torturante se não o realizamos (ou não o satisfazemos) – por exemplo, não respirar, não comer etc” (Hanns, 1998, p.339-340) 82 Freud já antecipara desde 1915: “Uma pulsão nunca pode tornar-se objeto da consciência – só a idéia que o representa pode” (Freud, 1915, p. 203). Na Conferência 32, ele propõe um retrospecto, começando do ponto de partida dessas reflexões sobre a teoria das pulsões, que é igual ao que o levou à revisão sobre a importância prática e teórica do papel da punição no trabalho clínico, e por ele designada de pior inimigo. Assim prossegue Freud: “a necessidade de punição é o pior inimigo de nosso trabalho terapêutico. Ela obtém satisfação no sofrimento que está vinculado à neurose, e por essa razão aferra-se à condição de estar doente. Parece que esse fato, uma necessidade inconsciente de punição, faz parte de toda doença neurótica” (Freud,1932, p.135) A resistência ao tratamento clínico não deixa de ser uma forma de proteger o sintoma, pois ao conhecer aquilo que recalcou, o fator que desencadeou o recalque deixa de ter o valor antes impresso àquele fato. Berlinck também vai destacar no trabalho terapêutico, a construção de “uma neurose de transferência suficientemente forte que possibilite, através de interpretações oferecidas pelo psicanalista, uma dissolução do investimento patológico no mecanismo neurotizante, isto é, o recalque” (Berlinck, 1997, p.46). Freud também aconselha no que tange à manutenção das psicopatologias, que elogios ao paciente podem ocasionar o seu desaparecimento do consultório, com isso ficando garantida a manutenção da 83 doença. Lembra também que na análise “as experiências recalcadas e esquecidas da infância são reproduzidas, nos sonhos e nas reações, particularmente naquelas ocorrentes na transferência, embora seu revivescimento vá de encontro ao interesse do princípio do prazer” e prossegue: (...) “as pulsões regem não só a vida mental, mas também a vida vegetativa, e essas pulsões essenciais exibem uma característica que merece o nosso mais profundo interesse” (...) o fato é que eles revelam uma propensão a restaurar uma situação anterior. Podemos supor que, desde o momento em que uma situação, tendo sido uma vez alcançada, é desfeita, surge uma pulsão para criá-la novamente e ocasiona fenômenos que podemos descrever como uma “compulsão à repetição”. (Freud, 1932, p. 132) Dessa trajetória efetuada por Freud, aprendemos que a neurose é nitidamente marcada pela compulsão à repetição e que o sintoma neurótico viabiliza sua manutenção justamente no fato de que se repetindo, coexiste uma ilusão passageira de alívio do sentimento de tensão que a angústia promove. Um alívio ilusório, uma vez que ela sempre estará à espera, pronta para se ver acionada sempre que o ego vier a sentir-se ameaçado. A satisfação do desejo recalcado será buscada arduamente. O trabalho analítico viabiliza desarmar essas defesas a fim de possibilitar soluções mais saudáveis dos nossos conflitos. Em “Psicanálise Silvestre”, Freud já ressaltara: 84 “a tarefa do tratamento está no combate a essas resistências. O informar ao paciente aquilo que ele não sabe porque ele reprimiu é apenas um dos preliminares necessários ao tratamento” e adverte “se o conhecimentoacerca do inconsciente fosse tão importante para o paciente como as pessoas sem experiência de psicanálise imaginam, ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-lo”. (Freud, 1910, p.211) Freud vai concluir a Conferência 32, relembrando que a cultura foi assentada sob bases sexuais coibidas pela sociedade, entretanto recalcadas em parte, sendo outras partes diversamente utilizadas. Diríamos, mais aceitas pelas regras sociais. O ego, quase sempre, é o mais prejudicado em benefício aos ditames estabelecidos pela sociedade. As restrições pulsionais impostas ao ego acabam por sobrecarregar o psiquismo. As pulsões agressivas e destrutivas trabalham objetivando o impiedoso recalcamento dos mais primitivos desejos, conquanto essas pulsões são vistas como ameaçadoras à sobrevivência humana, eis que obstaculizam a vida dos indivíduos em sociedade. A angústia nos espreita sempre que ensejamos a satisfação de nossos desejos. O medo do desconhecido é sempre fator gerador de angústia e o temor das vivências desagradáveis já acontecidas como já referimos nas “revivescências” infantis sobre o medo de Violeta. O que nos faz reconhecer alguns sintomas como a sensação de aperto no peito, dificuldade para respirar, asma e outros sinais relativos ao aparelho respiratório já apontados por Freud, 85 como característicos da histeria. Nossa preocupação está voltada para esses sintomas que supomos terem se originado nos processos de recalcamento por que passou a paciente, bem como para o sofrimento dele decorrente. O entendimento desses conflitos identificatórios e sua relação com a angústia, em Violeta, são nosso objetivo maior. Dissemos que o ego está sempre atento as pulsões desenfreadas, pronto para de alguma forma defender-se ou fugir do ataque. Essas são as duas possibilidades que se apresentam ao ego para que ele saia desse impasse: defendendo-se através do sintoma ou uma solução afetiva que seria o estado de angústia - o vazio, buraco sem fundo que percebemos dentro de nós e que é preciso que cuidemos do desamparo para lidar melhor com essas dificuldades. Lembremos que Freud já apontara como o primeiro fator desencadeante de angústia a perda da percepção do objeto, em seguida, “A perda do amor é um novo perigo duradouro e determinante de angústia”. (Freud, 1926, p. 195) Prosseguindo com Zeferino Rocha: “O estado de desamparo, por um lado, lembra ao homem sua condição existencial de finitude e seus limites. Esta condição é inexorável e, diante dela, o homem tem que resignar-se, como, costumava dizer Freud. Mas por outro lado, a angústia do desamparo tem também uma face positiva e libertadora, pois é na medida em que o homem assume o desamparo, que ele se liberta das ilusões que o alienam e escravizam”. (Rocha, 2000, p.161) A angústia levava Violeta a ficar em um estado de desamparo porque lhe deixava à mercê de fantasias perversas diante da impossibilidade de assumir a posição de mulher plena de desejos. 86 Pensamos ser este um processo característico dos seres humanos e quem sabe o mais marcante deles – o estado de desamparo é constitutivo da nossa espécie e se concordamos com Freud e Rank, nossa primeira experiência marcante é, indiscutivelmente, por ocasião do nascimento. Esta primeira vivência do estado de desamparo nos acompanha por toda a existência e continuamente estamos nos deparando com o dar conta desse estado primordial de coisa que falta um pedaço, que precisa que o outro espelhe o seu desejo para que através desse outro, reconheçamos parte destes desejos insatisfeitos e a possibilidade de satisfazê-los. É sempre bom lembrar que Freud em 1893, no Rascunho B, já vaticinava que “as neuroses são inteiramente inevitáveis como também incuráveis” e que na impossibilidade de superação “a sociedade parece condenada a cair vítima de neuroses incuráveis, que reduzem a um mínimo o gozo da vida, destroem a relação conjugal e trazem a ruína hereditária a toda a geração seguinte”. (Freud, 1893, p. 262) De qualquer forma, pensamos que coexistem formas de pulsões e que essas pulsões são parte constitutiva da filogênese, tais como as polaridades amor/ódio, alegria/tristeza, vida/morte. Essas pulsões, energias provenientes de nossa porção que clama por prazer impõem-se a nós. Às vezes sem perceber dizemos: fulano agiu impulsivamente, isto é, sem usar a razão, sem medir as conseqüências ditas racionais e que a sociedade impõe como normais, equilibradas. Nos agarramos às fantasias que o homem é capaz de sublimar sua pulsão de morte em outros projetos mais saudáveis e mais reconhecidamente aceitáveis pela sociedade, e, que estes projetos possam promover o bem estar e 87 quem sabe, sentimentos/afetos menos angustiantes para o seu ego. É bom que lembremos que nos últimos trabalhos desenvolvidos, Freud foi tomado por um certo ceticismo com relação à humanidade, fruto do sofrimento pelo qual passou ao longo de todo o tempo que desenvolveu suas teorias, bem como decorrente dos revezes familiares e da doença que o acometeu imputando-lhe um sofrimento intenso que ele tão bem soube enfrentar em silêncio. Entretanto, seu pensamento também foi resultado de reflexões amadurecidas ao longo do extenso trabalho de elaboração da sua metapsicologia. Uma reflexão contida no trabalho “Mal estar na civilização” contempla perfeitamente o que desejamos salientar sobre o que pensava Freud a respeito do sofrimento: “A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporcionanos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportála, não podemos dispensar as medidas paliativas. ´Não podemos passar sem construções auxiliares´, diz-nos Theodor Fontane. Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável”. (Freud, 1930, p. 93) Concluímos, ainda com a Conferência 32, das “Novas conferências sobre a psicanálise” quando Freud estende a sua compreensão da neurose no campo da cultura, assim dizendo: 88 “Há pessoas em cuja vida se repetem indefinidamente as mesmas reações não corrigidas, em prejuízo delas próprias, assim como há outras pessoas, que parecem perseguidas por um destino implacável, embora uma investigação mais atenta nos mostre que tais pessoas, sem se aperceberem, causam a si próprias esse destino. Em tais casos atribuímos um caráter demoníaco à compulsão à repetição”. (Freud, 1932, p.133) Penso que escolhemos as doenças de nossos pais para perpetuá-los de alguma forma em nossas identificações com os traços que mais nos marcaram. Assim, vamos elegendo muitas formas dinamicamente mutáveis para enfrentar nossas dificuldades ou assustadoramente semelhantes e neste caso, a opção é pela forma de sofrimento psíquico como destino implacável a si imposto, do qual Freud já mencionara neste importante trabalho. Além disso, sempre é bom não perder de vista o que Berlinck assinala em seu trabalho intitulado “A histérica e o psicanalista”: “a aplicação de categorias nosográficas na clínica sem uma escuta cuidadosa e prolongada pode se constituir numa resistência do psicanalista à sua própria escuta. Declarar que um sujeito é histérico, obsessivo, perverso ou psicótico, serve muitas vezes para se evitar a confrontação com o enigma que o outro é”. (Berlinck, 1997,p.35) Nosso objetivo, neste trabalho de dissertação, é poder compreender a dinâmica da psicopatologia chamada neurose de angústia e sua relação com as 89 identificações. Gostaríamos, de concluir por ora nosso estudo sobre a angústia com o pensamento de Zeferino Rocha sobre a relação da angústia com o estado de desamparo : “(...) na ocasião do nascimento, a angústia originária do desamparo não pode ainda ser representada pelo recém-nascido como uma angústia de separação e só constitui, como tal, nas suas repetições sucessivas. É só quando a criança constata, nas vivências de separação, que pode viver separada da mãe sem correr o risco de ser aniquilada, que ela consegue controlar a situação traumatizante do desamparo. Uma vez controlada e representada, a angústia da separação torna-se companheira inseparável do homem nas estradas da vida. Viver é estar sempre fazendo a experiência da dor da separação. Na vida, estamos sempre dizendo adeus aos lugares e às pessoas que encontramos em nossos caminhos. Viver é estar continuamente desfazendo laços” (Rocha, 2000, p.113-114). Pensamos que a análise requer um longo percurso para um contato fortalecido entre o paciente e o analista. Esse encontro oportuniza primordialmente, o conhecimento de si e, cuja prática, invariavelmente, vai levar o sujeito ao encontro de dois esteios de sua constituição – a identificação e a castração. Lidar bem com essas questões, certamente resultará em menos sofrimento e desprazer, favorecendo ao desperdício de energia mental e ao decréscimo da qualidade de vida dos indivíduos. 90 Nossa perspectiva futura tem o objetivo de refletir sobre o processo de identificação na neurose de angústia, enquanto fenômeno primordial na constituição dessa neurose. 91 6. Relação existente entre a identificação e a angústia na histeria: Tendo como escopo o entendimento da relação entre a angústia e a identificação histérica, na busca da compreensão do caso clínico ao qual nos dedicamos ao estudo, voltamos neste ponto para a releitura de nossas anotações clínicas e para algumas leituras da primeira etapa dos “Estudos da histeria” em Freud. Recorremos, também, a alguns escritos de Lacan, em especial aquele destinado ao sonho da açougueira, constante do Seminário 5, e os trabalhos de Joel Birman, Lucien Israel, Serge André e finalmente Piera Aulagnier, em esclarecedor trabalho intitulado “Angústia e Identificação”. Inicialmente faremos a transcrição de nosso primeiro encontro, aqui denominado, Falando de suas dificuldades pessoais e familiares, que proporcionará o aproveitamento melhor de fragmentos de sessões inseridos, os quais consideramos ser grande valia para a compreensão do caso clínico. Após um percurso de leitura e o retorno ao caso clínico, podemos compreender que desde esse primeiro encontro já configuravam-se as figuras que pontilharam grande parte do relato de Violeta. Lá aparecem o medo constante, a angústia, a relação ambígua com as figuras femininas, os freqüentes estados proporcionados pelas fantasias e a multiplicidade de tintas dos exuberantes relatos. Em uma nota de rodapé em “Notas sobre um caso de neurose obsessiva”, Freud assim observara: “O Dr. Adler, que inicialmente foi analista, certa vez chamou atenção, em um artigo publicado em edição particular, para a peculiar importância 92 ligada às primeiras comunicações feitas por pacientes” (Freud 1909, p.165), ressaltando seu valor, o que também foi sublinhado por Françoise Dolto no prefácio do trabalho de Maud Mannoni, “A primeira entrevista em psicanálise”, quando nomeia o encontro entre o sujeito e o psicanalista e todas as implicações que este envolve. Quando Dolto nos ensina que o papel do psicanalista é o “de uma presença humana que escuta”, sublinha a importância da escuta do analista, uma vez que é através dela que nasce de comunicação das angústias do paciente, até se chegar ao verdadeiro desejo a que está subjugado o sujeito. Na visão de Dolto, por meio da sensibilidade receptiva o psicanalista apreende todas as nuances dos fantasmas infantis que emergem do discurso do sujeito, muitas vezes num único encontro com o analista. Assim afirma Dolto: “O que este livro também ensina é a descoberta, que para muitos leitores será nova, de que durante uma única entrevista psicanalítica, já aparece claramente a intricação das forças inconscientes entre genitores, ascendentes e descendentes. O leitor compreenderá sem dificuldade como um ser humano, desde a sua vida pré-natal, já esta marcado pela maneira como é esperado, pelo que representa em seguida, pela sua existência real diante das projeções inconscientes dos pais”. Maud Mannoni, 1981, pp 1213 ) 93 DAS DIFICULDADES PESSOAIS E FAMILIARES: O SINTOMA. Violeta chega às 14:20. Fui avisada que a paciente havia chegado e dirigi-me ao local onde a mesma se encontrava para recebê-la. Ela se fazia acompanhar por um rapaz que ficou aguardando-a até o término da sessão. Em seguida solicitei que me acompanhasse até sala onde seria atendida. Violeta entra, acomoda-se e pergunto-lhe o que a havia trazido até ali. Respondeu-me que era uma pessoa muito insegura e medrosa, passando a me relatar sobre sua vida. Disse que foi criada em uma casa na qual sua avó era quem comandava a educação dela e de seus irmãos. O pai tinha duas famílias e se ocupava da parte financeira (do sustento da casa), enquanto à mãe cabiam os afazeres domésticos e à avó, dar educação a ela e aos irmãos. Desde criança, Violeta foi uma menina medrosa, tinha medo de tudo — do escuro principalmente — e de tudo o que fosse desconhecido. Disse que na sua casa todos são inseguros e que em uma situação como aquela ficava trêmula, mostrando-me as mãos. Depois contou que quando era pequena e tinha que apagar a luz do quarto na hora de dormir, ficava com muito medo. Perguntei-lhe se dormia só. Respondeu-me que dormia com os irmãos, mas que sentia medo, chegando às vezes a ter que ir dormir no quarto da mãe, já que não conseguia conciliar o sono no seu quarto. Os irmãos faziam gozação do seu jeito, diziam que via muitos filmes de terror, daí seu medo excessivo. Confessou que deixou de comparecer à primeira chamada do atendimento por medo e insegurança. 94 Disse que o pai por ter duas famílias, não ficava muito tempo em casa, pois seu tempo livre era dividido entre as duas casas. Pedi que falasse mais sobre o fato de o pai ter duas famílias. Disse que ele morava nas duas casas. No início havia muita briga e discussão entre os pais, depois a mãe se acomodou e aceitou a situação. O pai ficava muito tempo fora em razão de ter com a outra mulher filhos ainda pequenos, e costumava ficar na sua casa somente aos domingos. Das brigas, recorda que a avó sempre interferia e gritava muito. Pedi que falasse sobre essas brigas. Ela contou que muitas vezes ela e os irmãos se metiam para evitar agressão física à sua mãe. A avó é quem comandava a educação, sempre criticando e chamando atenção aos berros. Ela, Violeta não gostava de ser criticada, resultando daí ser uma pessoa insegura, medrosa, com medo de tudo. Os gritos da avó, segundo seu relato, faziam com que todos na casa a temessem. As vezes, a avó, para lhe ameaçar, dizia que uma mulher toda de preto viria para levá-la, caso não obedecesse suas ordens. A mãe, como não tinha estudo, deixava tudo por conta da avó. Já o pai, que era muito ocupado, preocupava-se exclusivamente com o sustento da casa. Disse que, a princípio, a avó era o modelo de uma educação rígida e autoritária, mas que hoje é uma pessoa que sofre de depressão , toma muitos remédios e já não é temida como antigamente. Relatou que a avó diz a ela que Violeta se parece muito com ela, tanto fisicamente como no jeito de ser. Perguntei-lhe se concordava com isso. Ela diz concordar com a avó, pois se acha parecida com esta fisicamente. A avó diz para a neta que ela (Violeta) é uma garota bonita e que só deve dar atenção e casar com um homem bonito, os que não forem que fiquem longe dela. A seguir disse que o pai era um homem bonito e que hoje, devido a idade não é mais. 95 Relatou que sua infância foi praticamente em casa porque só saía para ir à escola, o resto do tempo ficava dentro de casa, onde o portão sempre ficava trancado. Não tinha contato com outras crianças pois a avó não deixava. Disse que gostava muito de ver televisão de onde ‘tirava’ a personalidade de personagens que gostava e assim ia formando sua personalidade. Intrigada com seu relato, pedi que falasse como era ‘tirar a personalidade’ de alguém. Violeta contou que quando via as novelas na tevê, tomando como exemplo, um personagem interpretado pela atriz Regina Duarte, tirava o jeito do personagem e fazia igual a eles na sua vida. Revelou que essa era a razão por não possuir amigas, pois estas diziam que ela mudava a voz e o jeito de falar quando encontrava com rapazes. Pedi que falasse disso mais. Ela contou que via um rapaz (bonito, é claro !), estudava o seu jeito de ser e então pegava um personagem, interpretava igual a este, como estratégia de conquista. Pedi que falasse dessa conquista. Revelou que conquistava sempre rapazes bonitos, depois não queria mais saber deles. Explicou que fez no colégio ginástica interpretativa e assim aprendeu a interpretar papéis. Disse também que gostava de ler, e que depois de conquistar os rapazes não queria mais saber deles. Era só para conquistar como um troféu. Assim fazia tirando a personalidade de um e de outro para fazer a sua própria. Em seguida, dado o adiantado da hora, falei de alguns detalhes do atendimento na clínica, do horário, das faltas consecutivas que poderiam levar à interrupção do tratamento e que nos veríamos duas vezes por semana até o final do ano quando findaria o semestre letivo. Disse-lhe que no decorrer do tratamento buscaríamos juntas refletir sobre essas questões que ela havia me relatado, e que a reencontraria na próxima sessão. 96 A primeira impressão que Violeta me causou foi de uma pessoa realmente muito insegura devido à rigidez e autoridade empregadas pela avó na educação. Intrigou-me bastante a questão dos personagens. Eu desejava saber muito mais sobre aquele poderosa avó, da vida dupla do pai, que apesar de contribuir com o sustento da família era ausente nas questões familiares, bem como o pouco apreço dado à figura materna, considerada como despreparada para cuidar da educação da paciente e seus irmãos. Um outro detalhe que vale salientar é que Violeta falava de seus medos e temores desde a infância e no seu relato vão aparecendo: a mulher de preto que poderia levá-la embora, vai associando preto/escuro com seu pavor do escuro. Culminam essas associações com a descrição da avó paterna, cujo retrato inicialmente era o de uma mulher autoritária e excessivamente rigorosa na forma de educar os netos, e hoje é o de uma mulher deprimida, que passa o dia sentada numa cadeira na sala de estar, enquanto a mãe fica lá dentro, na cozinha, ocupando-se das tarefas domésticas. Conforme mencionamos anteriormente, incluiremos neste ponto alguns fragmentos clínicos que darão relevo ao que pensamos ter ocorrido nos nossos encontros e em nossa compreensão da dinâmica psíquica de nossa paciente, bem como ao fato de a angústia que permeou sua fala se relacionar, com o que supomos ser a problemática da identificação histérica em Violeta. 97 O DESEJO INSATISFEITO ENQUANTO SINTOMA Para falar do desejo insatisfeito na histeria, tomaremos de empréstimo as idéias de Lacan no Seminário 5 — “As formações do inconsciente” — no qual ratifica o que Freud já havia apontado na interpretação do “sonho da bela açougueira”, no qual didaticamente vai interpretando o desejo no sonho da histérica dividida entre demanda e desejo. “Ela deseja algo que tem, essencialmente, a função de não lhe ser dado”. (Lacan, 1999, p. 376) No dizer de Serge André: “Se não pode obter um signo que assegure sua identidade feminina, recusará pelo menos identificar-se ao objeto gozo do Outro : aceitará suscitar seu desejo, mas se furtará à sua satisfação”. (André, 1998, p.119). E aí se encontra uma das importantes questões da histeria, tão bem exploradas por seu criador tanto no caso Dora, quanto no atendimento de Elisabeth von R e tem relação com a problemática do Édipo feminino. Quando Violeta relata o episódio ocorrido durante seu trabalho como fiscal de um shopping, revela-nos que arranjou um namorado conforme o modelo determinado pela avó — bonito, rico, com carro, mesmo que nada mais tivesse a oferecer no quesito virtudes menos palpáveis. Como vimos anteriormente, para conseguir o emprego, Violeta se utilizou dos dotes de sedução da personagem espanhola. Pois bem, a paciente revela que uma ocasião, quando deu por si, estava num motel acompanhada do novo par, por quem havia terminado o namoro com o rapaz que a acompanhava na primeira sessão. Teve que explicar-se a este, dizendo que não tinha nada a ver ela estar ali com ele para transar, felizmente este a compreendeu, não a 98 forçando a nada. Apenas teve que esperá-lo enquanto dormia (Pensei — não seria mais um belo susto, mais um medo a ser passado por ela? ). Violeta revela que ficou muito assustada e que, depois disso, verdadeiramente pela primeira vez teve que se dedicar a algo: reconquistar o namorado anterior que já possuía outra namorada. Mas que no final tudo deu certo: não teve que transar e reatou o namoro. Esta sessão coloca explicitamente a paciente diante do seu desejo e sua renúncia a este, quando Violeta diz que explicou ao rapaz que não era bem aquilo que ele havia entendido quando a levou ao motel e volta a refugiar-se nos braços do namorado ‘paciente e compreensivo’, que não a cobrava de nada. Confessava que, as vezes, sentia-se culpada pois a preocupação deste sempre era satisfazê-la. O namorado pouco comparecia em sua fala, parecia não ser o homem que ela desejava verdadeiramente. Por outro lado, quando se via confrontada com este desejo, ficava impotente frente o que a realidade demandava de si, uma vez que isso implicaria em ter que assumir seu anseio. Isso, foi inúmeras vezes pontuado, era muito difícil para ela. Como tão bem o expressa Aulagnier: (...) “A angústia aparece no momento no qual o sujeito teme que ele possa tornar-se um objeto de desejo. Pois a partir deste momento, o surgimento de seu desejo implicaria, para ele, a necessidade de assumir o que chamei a falta fundamental que o constitui. (...) O que provoca sua angústia é exatamente o momento preciso no qual, face à irrupção de seu desejo, ele (sujeito) se pergunta qual imagem dele próprio o espelho vai lhe devolver. 99 Sabe que esta imagem pode ser muito bem ser a falta, a do vazio, daquilo que torna impossível qualquer reconhecimento recíproco. Nós, espectadores e atores involuntários do drama, chamamos esta imagem de angústia”. (Aulagnier, 1995, p. 14) Observávamos que ao falar das dificuldades de sua família deixavam Violeta extremamente angustiada, inquieta mesmo. Quando falava desses incômodos em que invariavelmente vislumbravam a problemática familiar, repuxava os cabelos, acelerava a voz, como que para concluir logo aquele desagradável assunto, passando para outro tema mais ameno. Acrescente-se ainda, mais um fato: quando falava sobre tentativas de traçar planos futuros ainda nas primeiras sessões, Violeta chega dizendo-se satisfeita com uma lista de planos e prioridades que traçou para sua vida, mas logo em seguida recuava na sua animação anterior, dizendo que pensou que essa felicidade poderia ser passageira e significar alguma tristeza próxima. O temor e a insatisfação característicos da histeria estavam ali postos mais uma vez. Questionada quem era ela ali no setting terapêutico, dizia que ali era ela mesma sem disfarces, sem qualquer personagem, solicitando verbalmente que disséssemos algo sobre sua pessoa. Supomos que através do personagens, ao conquistar os homens bonitos, conforme ensinara a avó, depois abandoná-los como troféus conquistados, Violeta está abandonando o desejo de sua avó, de ser ela de novo na pele de Violeta. A avó lhe ensinara a só namorar e casar com homens bonitos. Quando a paciente abandona seus troféus, está também evitando ser abandonada como 100 as duas mulheres. Se ela realiza o desejo da avó, está fadada a ser mais uma pessoa submissa aos desejos desta, tal como sua mãe e seu pai. Este último não conseguiu se libertar, mesmo tendo outra mulher, ainda assim, não abandona a casa daquela mãe exigente. Não consegue romper definitivamente com a primeira mulher que vive sob o jugo da mãe dominadora. A desculpa da não separação de fato, em função da divisão dos bens não convence.... A angústia se apodera de Violeta quando seu desejo vem à tona e ela não tem palavras para nomear esses sentimentos avassaladores. Supomos que o conflito esteja no fato de a paciente recusar identificar-se com essas figuras femininas. Inconscientemente Violeta identifica-se com a mãe e a avó, entretanto denega essa possibilidade mesmo que sua fala remeta-nos a várias situações em que se vê identificada com a mãe, quando, por exemplo, referindo-se a si mesma e à esta denomina — ‘a empregada e a filha desta’ — ou quando se esconde no banheiro para apaziguar sua tristeza, como a genitora fazia para ocultar-se da atual mulher do seu marido, ou, ainda, quando permite que a avó a identifique como aliada na arte da obtenção do que deseja. Concordamos com a visão dada por Aulagnier quando pontua : “A partir do momento no qual o homem coloca em palavras seus afetos, ele justamente transforma-os em outra coisa: pela palavra, ele os torna um meio de comunicação, os faz entrar no domínio da relação e da intencionalidade; transforma em comunicável aquilo que foi vivido no nível do corpo, e que, como tal, permanece em última análise na ordem não-verbal”. (Aulagnier, 1995, p. 6) Como era ‘difícil’ no dizer de Violeta sustentar suas posições e seus 101 desejos, conforme relatara em uma sessão que, quando a avó não queria que ela saísse, dizia que a desobediência acarretaria o castigo de ficar ‘falada’. As vezes, ela não proibia diretamente mas ficava dizendo coisas horríveis segundo a paciente, principalmente quanto a questões relacionadas a sua sexualidade. A avó a amedrontava, afirmando que se abrisse as pernas, acabaria grávida e aí ia ver só...Nossa hipótese que a geração de angústia em nossa paciente decorresse do retorno de todos esses fantasmas perseguidores. Pensamos na relação do termo ‘ficar conhecida’ com a idéia de ser uma prostituta, uma noção presente na literatura desde a tradição bíblica, onde conhecer é metáfora de manter relações sexuais, palavra referenciada inúmeras vezes pela paciente em várias sessões quando Violeta revela que, muito superficialmente, ficou sabendo da desconfiança do avô de não ser o pai do filho menor e que este foi o motivo real de tê-la abandonado. Ser conhecida equivaleria a ser igual a avó, conhecida por muitos homens. Violeta dizia ter sabido que avó teria possuído muitos homens, logo o termo foi substituído pelo eufemismo ‘namorado’. O trabalho de Aulagnier contempla perfeitamente nossas reflexões sobre a relação dessa expressão ‘ficar conhecida’ com a fantasia prostituição feminina. Ensina Aulagnier: “Se a palavra é a chave mágica e indispensável, a única que pode permitirnos entrar no mundo da simbolização, penso que justamente a angústia responde a um momento no qual esta chave não abre mais porta alguma, no qual o ego tem de enfrentar o que está atrás ou à frente de qualquer simbolização; no qual o que aparece é o que não tem nome, “esta figura misteriosa”, este lugar de onde surge um desejo que não se pode mais aprender”. 102 de É assim que pensamos a identificação em Violeta. Primeiramente como recusa a identificação com as figuras da mãe e da avó, importantíssimas na sua história de vida, figuras ambivalentes em virtude dos afetos que suscitam na paciente. Elas representam figuras diametralmente opostas, daí supormos que a denominação mais adequada às nossas reflexões para a suposta recusa de Violeta, seja a palavra recalque no sentido de oprimir a “manifestação ameaçadora” a nível do consciente, no dizer de Luiz Hanns (Hanns, 199 ,p.358). Esses sintomas comparecem à cena personificadas nos personagens que Violeta interpreta. Retornemos ao texto de Aulagnier: (...) “O simbólico se esvanece para deixar lugar ao fantasma enquanto tal, o eu se dissolve nele, e é esta dissolução que chamamos angústia. O psicótico seguramente não espera a análise para conhecer a angústia. Também é certo que para qualquer pessoa a relação analítica e, neste domínio um terreno privilegiado. Nada há de espantoso nisso, se admitirmos que a angústia tem as mais estreitas relações com a identificação. Ora, se a identificação tem a ver com algo que se passa no nível do desejo, desejo do sujeito em relação ao desejo do Outro, torna-se evidente que a principal fonte de angústia na análise vai se encontrar no que é a própria essência desta última: o fato de que o Outro é, neste caso, alguém cujo desejo mais fundamental é não desejar, alguém que por isso mesmo, ao permitir todas as projeções possíveis, desvenda-as igualmente em sua subjetividade 103 fantasmática e obriga o sujeito a se perguntar periodicamente qual é o desejo do analista, desejo sempre presumido, jamais definido, e que por isso mesmo pode a qualquer instante tornar-se o lugar do Outro de onde surge a angústia para o analisando”. (Aulagnier, 1995 , p. 6) No decorrer deste capítulo, já tratamos de um episódio contratransferencial no qual foi ilustrada a questão da angústia durante o atendimento e que contemplou adequadamente as palavras de Aulagnier. Nossa suposição encontra apoio na formulação do trabalho “A problemática da identificação em Freud”, na qual Ribeiro defende a tese de que foi com o surgimento do conceito de narcisismo na psicanálise e decorrendo deste a negação da identificação precoce com a mãe, que o autor utiliza a expressão — “recalcamento da idéia de identificação primária na teoria psicanalítica do narcisismo, recalcamento que se confunde com aquele sofrido pela concepção do narcisismo primário fundada sobre a identificação com o outro”. (Ribeiro, 2000, p.18) Defendemos aqui a suposição de que Violeta recalca essa identificação primeira com essas figuras femininas, portanto não entraremos nos pormenores da questão narcísica defendida pelo trabalho acima referido. Queremos observar que mesmo demandando o desejo do outro, a paciente algumas vezes, demonstra ser super investida quando por exemplo, a avó pede-lhe que coloque uma roupa bonita e vá até a casa do avô mostrar o quanto parece com ela. Violeta diz recusar-se o papel materno de só fazer o que as pessoas querem, alegando que a genitora sempre lhe dizia que se tivesse que escolher de 104 novo, não mais seria um homem como seu pai. Questionada sobre o motivo de tal afirmação materna, queixava-se que ‘a mãe tem que dividir um homem com outra mulher e aceitar tudo’, em seguida, retruca que preferia sonhar em ser uma cantora famosa, a pensar naqueles problemas familiares. Aulagnier assim nomeia a angústia: “é lugar escuro do qual se evaporou todo conteúdo nomeável , diante do qual o ego não tem mais qualquer ponto de referência, pois a primeira coisa que se pode dizer da angústia é que seu aparecimento é sinal do desmoronamento momentâneo de qualquer referência identificatória possível. (Aulagnier, 1995 , p.7) Supomos que, inconscientemente, Violeta odeie essa avó má que a trancava em casa quando criança, que dava castigos cruéis, amedrontava-a, ameaçando com a mulher de preto que a levaria caso não obedecesse. Odeia e faz com que sintamos por essa figura o mesmo sentimento de aversão diante de tamanha crueldade. Por outro lado, sente-se atraída pelo poder desta mulher que a todos comanda e até suspeita que ela esteja certa, pois com a avó Violeta se identifica na arte de enganar, entretanto a figura dessa senhora também suscita afetos desprazerosos relativos à sua infância. Sua hesitação entre essas figuras femininas e os personagens, podemos pensar serem originadas da imagem formada pela mãe frágil, relegada a segundo plano, dessa mãe que sofria dos nervos e que não podia se aborrecer para não ficar agoniada, porque é nervosa. Entre suas mágoas havia a de que em sua casa todos gozavam dela, dizendo que Violeta sempre quis ter status, fama e que, por ironia, seu nome 105 não era de origem espanhola, mas de uma caboclinha. Queixava-se que seu nome era de uma pessoa comum, igual às outras e que não desejava ser comum. Para isso fazia uso de um diminutivo de seu nome, como gostava de ser chamada, frisando desde o início de nossos encontros que essa pessoa era outra coisa, tinha nome de estrela, era mais tchan, mais desembaraçada, mais conhecida. Falar desse pessoa, que pensamos ser outro personagem, trazia-lhe certa inquietação que a deixavam muito agitada, durante essas ocasiões. Os personagens, como já frisamos anteriormente, eram a expressão de sua identificação tanto com a mulher — avó má, como também com a mãe boazinha. Acreditava que os personagens eram mais ‘safos’. Tendo revelado o prazer de se fazer notar à entrada em algum lugar, tanto por causa da roupa como da maquilagem e questionada sobre o seu desejo de não querer ser comum, Violeta defendia-se imediatamente com a alegação de que as pessoas não gostam de gente comum, o que pode sugerir que ela tenha sido remetida à identificação materna mais uma vez. Em “Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade”, Freud assinala que o “estudo da histeria leva ao interesse para as fantasias inconscientes originárias do sintoma” e que a psicanálise tem como objetivo tornar essas fantasias conscientes para o paciente, ressaltando que a expressão dessas fantasias se dá através de seus sintomas. Essas fantasias originar-se-iam de desejos provenientes de “privações e anelos”. (Freud, 1908, p.166). Pensamos que tantos castigos e tantas ameaças vindas da avó, além da proibição de ter um contato com outras crianças na infância, acabaram por contribuir para que a mesma buscasse na televisão ou na leitura escondida de romances essa identificação recusada com os progenitores, ou melhor, ao se 106 negar identificar-se com figuras tão díspares (mãe / avó), acabava ocasionando essa oscilação identificatória. Por outro lado há indícios de certa bissexualidade em Violeta que é suscitada pela forte ligação com essas mulheres e pela dificuldade de assunção dos desejos sexuais femininos. Violeta é vitimada pela angústia toda vez que esse desejo vem à tona. Única maneira de minimizar esse afeto desprazeroso é dar vida para as personagens que ela acreditava serem melhores que ela mesma. Através destes ela podia alguma coisa – dar vazão à sua sexualidade, ao desejo sentir-se mulher e desejar jogar um jogo com um homem. Entretanto esse movimento de buscar a satisfação é recalcado, é suspenso e aí ela desiste, não segue em frente, quem sabe atormentada pelos fantasmas que a mantinham sob a sujeição desses figuras. No trabalho intitulado “Sexualidade Feminina”, assim se expressa Freud: (...) “na verdade, tínhamos que levar em conta a possibilidade de um certo número de mulheres permanecerem detidas em sua ligação original à mãe e nunca alcançarem uma verdadeira mudança em direção aos homens”. (Freud, 1931, p.260) O que acontece com Violeta ? Ela tem uma forte ligação com duas figuras femininas: a mãe e avó. Como a mãe não tem poder, impossibilita a criação de um campo de identificação para a filha. Não podendo, ela cria um campo de hesitação para Violeta. Assim esta não tem forma definida, não se 107 compromete, uma hora é a espanhola, outra uma garota amável com traços infantis. Violeta perambula entre as personagens figuras femininas, porque não aceita ser essa mulher má que a identificação com a avó suscita, tampouco essa outra sem qualquer expressão que a identificação com a mãe leva-a ser. Impedida de manter outros laços afetivos pelo portão trancado, ela vai buscar na tevê, uma imagem que lhe seja favorável e que lhe caiba e aí dá asas as fantasias. Quando a avó solicita que ela se vista e coloque sua jóias para visitar o avô, com o objetivo de evocar nele a lembrança da mulher por ele abandonada, Violeta recusa o papel que a avó quer lhe oferecer, de ser ela (a avó) nas lembranças do avô. Não lhe cabe o papel de sedutora, esse atributo era característico da espanhola. Sua avó deseja que Violeta seja como ela, e a paciente recusa este papel e se angustia quando se vê identificada com essa avó, de quem ela guarda tanto ressentimento. Recusa o desejo da avó de interpretála, fazendo-se mulher perante o avô. A questão de ser mulher em Violeta, a põe em confronto com a idéia de que para ser mulher, ela deverá assumir sua parte desejante, capaz de ter desejos e bancá-los em sua satisfação. A angústia traz à tona fantasias inconscientes que em Violeta, fazem-na confrontar-se com situações absolutamente impossíveis de enfrentar, porque são inaceitáveis em seu psiquismo. Daí imprimir diferentes formas que ela mesma não pode assumir. O recalque vai ter um papel preponderante nessa deambulação desejante. Conforme Mannoni aponta: 108 “É porque, em determinado momento, toda referência de identificação falha nesse ponto, que o sujeito busca numa ação um meio de sair de uma angústia como se, em última análise, ele tivesse necessidade desse ato brilhante, para poder em seguida falar e fazer intervir esse terceiro, que parece ter sempre lhe faltado” . (Mannoni, 1981, p. 52) A angústia em nossa paciente, é um medo por não poder, e assim está intimamente relacionada à identificação, eis que a identificação é também um sintoma originado para proteger o eu de um estado gerador de angústia e que tem ainda uma característica incontestável ao objeto psicanalítico – como sintoma se repete ao longo da existência do indivíduo. A formação do eu já fora assinalada por Freud “como um precipitado de identificações”. Em “Fragmento da análise de um caso de histeria”, o tão famoso Caso Dora, Freud nos dá uma lição magnífica sobre a histeria, quando assim se expressa: “Nunca se pode calcular para que lado penderá a decisão no conflito entre os motivos, se para a eliminação ou o reforço do recalcamento. A incapacidade para o atendimento de uma demanda amorosa real é um dos traços mais essenciais da neurose; os doentes são dominados pela oposição entre a realidade e a fantasia. Aquilo que mais intensamente anseiam em suas fantasias é justamente aquilo de que fogem quando lhes é apresentado pela realidade, e com maior gosto se entregam a suas fantasias quando já não precisam temer a realização delas”. ( Freud, l905, p.105-106) 109 A questão do poder é de suma importância na histeria porque se relaciona à falta deste poder e toda a problemática daí decorrente pelo poder atribuído ao falo. Em Violeta, por falhar a identificação inexiste poder, o que abre espaço para emergir a angústia. Isso acontece quando ela se vê confrontada com o desejo, conforme ocorreu na cena do motel. Ela hesita e recusa. Para aponta Birman em “Cartografias do feminino”: (...) “a feminilidade não é um registro psíquico e erógeno que remeta imediatamente para o universo das mulheres, em oposição ao dos homens. Seria essa a outra novidade no uso da palavra sugerido ainda por Freud. Isso porque, para ele, a oposição entre o masculino e o feminino, entre os homens e as mulheres, seria constituída em torno da figura do falo. Ter ou não ter o falo e os seus atributos, seria essa a questão que dividiria o mundo dos sexos e dos gêneros. Ou, então, ser ou não ser o falo implicaria a dimensão narcísica originária da tal diferença sexual. Acredita-se portador de um poder de superioridade por ter o pênis como atributo do falo seria a crença maior da arrogância masculina em relação às mulheres. Em contrapartida, não ter o pênis como atributo do falo seria o signo maior da inferioridade das mulheres e a fonte proverbial de sua inveja” (Birman, 1999, p. 11) É quando aparece o sintoma para minimizar ou solucionar o problema do eu ameaçado, Violeta para se livrar da angústia, cria um sintoma – os 110 personagens com quem busca identificações, uma vez que as figuras femininas familiares não lhe dão suporte identificatório que lhe bastem para o enfrentamento desse afeto. Violeta sem fantasias que lhe vistam adequadamente, acaba ficando a mercê de toda sorte de forças pulsionais difíceis de controlar, por se tratarem de pulsões originárias do terreno a que pertence o inconsciente. O que ocorre em diversas sessões é que, Violeta tenta se justificar pela via consciente, procurando respostas perfeitamente adequadas às suas próprias resistências. Pensamos que a problemática da paciente repousa na recusa a aceitar a castração. Em “Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade”, referindose às fantasias inconscientes observa : (...) “poderiam ser inconscientes ou conscientes e no primeiro caso, podem tornar-se também patogênicas, isto é, podem expressar-se através de sintomas e ataques. (...) Dessa forma as fantasias inconscientes são os precursores psíquicos imediatos de toda uma série de sintomas histéricos. Estes nada mais são do que fantasias inconscientes exteriorizadas por meio da ‘conversão’; quando os sintomas são somáticos, com freqüência são retirados do círculo das mesmas sensações sexuais e inervações motoras que originalmente acompanhavam as fantasias quando estas ainda eram inconscientes”. (Freud, 1908, p.163/166) 111 Com relação a estes sintomas somáticos, próprios da histeria, em Violeta são inúmeros, tais como: ataques de asma, aftas, irregularidade menstrual, etc. A paciente queixava-se continuamente de falta de ar, das ‘bolinhas’ na boca, atribuindo a estes sintomas as suas faltas nas sessões. Além disso, a paciente admitia o devaneio como alternativa mais apropriada a minimizar o sofrimento com a problemática familiar. A importância do Édipo, na formulação psicanalítica concebida por Freud está assentada principalmente na demarcação que distingue o Eu e o Outro. Assim afirma Lacan, no Seminário 5: “O que estou dizendo é apenas uma maneira de exprimir o que foi ensinado desde sempre, que é através do Édipo que o desejo genital é assumido e vem tomar lugar na economia subjetiva. Mas aquilo para o qual espero chamar-lhes a atenção é a função desse desejo do Outro, no que ele permite que a verdadeira distinção entre o sujeito e o Outro se estabeleça de uma vez por todas”.(Lacan, 1999, p.371) Violeta é bonita tal qual o foi sua avó, sente-se atraída por homens bonitos como seu pai o foi um dia, de tal forma que isso implica em uma duplicação da não-resolução do conflito edípico ainda mais acentuada nas figuras: avó/pai, ela e os homens parecidos com este pai na beleza, e, ainda, em segundo plano — a mãe com quem Violeta nega identificar-se. Ainda sobre a questão da problemática identificatória na histeria, o trabalho de Aulagnier muito nos auxiliou na compreensão da angústia e 112 identificação histéricas. A angústia na visão da autora, aparece no momento no qual ele (o sujeito) teme possa tornar-se um objeto de desejo. Nas suas palavras: “a partir deste momento, o surgimento de seu desejo implicaria, para ele, a necessidade de assumir o que chamei a falta fundamental que o constitui”. (Aulagnier, 1995, p.13) 113 OS AFETOS SUSCITADOS NA TRANSFERÊNCIA E NA CONTRANSFERÊNCIA. Nos debruçaremos em um outro fato decorrente da transferência no atendimento clínico ocorrido no relato sobre uma reunião de amigos que a paciente compareceu juntamente com o namorado. Na festa estavam muitas pessoas conhecidas e, num dado momento, Violeta sentiu-se muito só, ‘sem ser notada por ninguém’. Para nós, essa é a expressão do exibicionismo histérico que se contrapõe à outra idéia de ser conhecida de todos, tantas vezes utilizada pela paciente. Prosseguindo relatou que, neste momento, afastou-se ficando observando os demais, segundo suas palavras, ‘segurando-se para que não aparecessem seus personagens’. De repente, as pessoas falavam de xadrez e ela insinuou que sabia jogar xadrez; algumas pessoas se admiram e lhe perguntaram com quem teria aprendido. Violeta mentiu que seu pai lhe havia ensinado (diferentemente de sua queixa que o pai não lhe dava atenção na infância). Supomos que ali ela coloca o seu desejo — de poder ter aprendido com o pai a jogar com um homem, ter aprendido com ele a ser boa no jogo. Neste momento um dos rapazes desafiou-a para uma partida. Violeta revelou que, no momento que topou o desafio, suas mãos começaram a tremer e que em poucos segundos perdeu o jogo. Questionada porque havia feito aquilo de aceitar jogar sem nunca tê-lo feito, respondeu que o motivo é que desejava ser notada. Digo-lhe calmamente, talvez com certa ironia, que alguém que joga bem e topa um desafio, não perderia em menos de cinco segundos, não ficaria trêmula como ela ficou. Violeta fica silenciosa 114 como que concordando com o que eu lhe dizia (na verdade era esse o meu desejo). Em seguida, muda de assunto relatando características de seus personagens: meigas, dóceis, alguém que as pessoas gostam muito pela amabilidade. Entretanto, observa ela, se preciso for, o personagem também pode ser firme. É como se Violeta me dissesse que também não estava gostando da maneira como intervimos no seu relato e nós, contratransferencialmente, supomos que mudou de assunto para fugir da angústia suscitada naquele momento. Ainda no decorrer da sessão pontuamos que a personagem acabara por colocá-la numa situação vexatória. Repentinamente, Violeta solicitou que queria ao ir até o banheiro, para lavar o rosto pois sentia uma ‘quentura’. Assinalamos que a sessão estava quase para terminar e que ela esperasse um pouco, pois ainda continuaríamos falando daquele assunto. Violeta concordou, retomando seu relato. Entretanto, logo em seguida, disse que não podia esperar até o fim por estar ‘passando mal’. Abrimos a porta da sala e ela saiu em desabalada carreira para o toilette. Passado algum tempo, seguimo-la para saber como estava passando. Depois de alguns minutos reapareceu dizendo que havia melhorado: que acordara muito cedo e viera juntamente com o namorado para a universidade, a fim de inscrever-se em um curso de línguas. Na universidade, comera um pouco antes do atendimento e que por ter ficado muito tempo em jejum, sentirase mal. Ao voltar para sala de atendimento questionamos se o assunto não se relacionava com o fato de ter passado mal. Violeta negou definitivamente. Não era fácil para ela lidar com suas angústias. Como supomos, quando confrontada fugia, passava mal. 115 Diante da intensa angústia Violeta recorre ao mesmo artificio materno – correr ao banheiro para se esconder e chorar. Assim aconteceu, quando na tentativa de reintegrar-se à família, volta para passar um fim de semana em casa, entretanto ao se defrontar com a problemática familiar, foge para o banheiro para não ter que enfrentar a realidade. Pensamos que esta passagem vivenciada durante o processo psicoterápico, revela-nos como impossibilitada de assumir seus desejos, Violeta expressa-os através desses estados de angústia. No dizer de Maud Mannoni “o que não pode ser expresso em palavras é vivido como mal estar corporal”. (Mannoni, 1981, p.59) Os desejos de Violeta se transformam via angústia em enjôos, náuseas, repúdio, vontade de vomitar, sintomas somáticos característicos da histeria. Em nosso entendimento, caso Violeta assuma uma posição feminina, ela se oporá à mãe e a avó, figuras femininas importantes para ela, mas também que lhe suscitam sentimentos ambíguos, visto serem fracassadas sentimentalmente, abandonadas pelos maridos. Em “A interpretação dos sonhos”, no capítulo IV que se intitula “A distorção nos sonhos”, Freud já ressaltara que a histérica coloca-se no lugar do outro pelo sintoma, exatamente como o fez a mulher do açougueiro no sonho interpretado por ele, em que a mulher renuncia ao desejo da amiga de engordar, que era seu própria desejo (caso a amiga engordasse ficaria mais atraente aos olhos do marido açougueiro). O sintoma é justamente o desejo renunciado, e a manutenção deste sintoma suscita o eterno jogo histérico. 116 Os retrocessos que Violeta apresentava durante o tratamento faziam sentirmo-nos impotentes frente a essas fantasias de achar que os personagens eram a única coisa que na verdade ela sabia fazer bem. Mesmo envolvida por nosso acolhimento às suas queixas, Violeta vinha expressando inúmeros atrasos nas sessões, o que nos leva a acreditar na atuação de resistências ao tratamento. Reclamava continuamente de alguns sintomas como asma e aftas. Dizia saber que a asma era ‘psicológica’, em razão das confusões que se acentuaram após a morte de seu avô e a pressão do tio para que a avó confessasse quem era seu pai, já que este pretendia pleitear uma parte dos bens deixados pelo suposto genitor (este filho não foi reconhecido pelo avô, antes do abandono da avó). No trabalho denominado “A transferência na histeria – um estudo no ‘caso Dora’ de Freud” , assim se expressa Sérgio de Gouvêa Franco: “a psicanálise permanece como uma relação onde um sujeito está diante de outro sujeito. Paciente e analista relacionam-se e mutuamente influenciamse”. (...) É no caso Dora que Freud reconhece claramente que o analista participa da transferência e não só o paciente . É com esta experiência que fica claro para ele que sua escuta de Dora determina, ao menos em parte, o que ela vai dizer. Suas atitudes e interpretações podem abrir ou fechar a possibilidade de avanço da análise. Freud ainda não tinha tanta experiência clínica e com este caso que percebe o fenômeno dual da transferência. Ele reconhece ‘as severas exigências que a histeria faz ao médico e ao investigador”. (Franco, 2000, p. 25) Semelhantemente às queixas de Violeta de que era motivo de zombaria 117 dos amigos, assim me encontrava eu quando chegava para a supervisão de seu caso clínico. Minhas colegas reclamavam do quanto cansativo era o relato de seus proeminentes e repetitivos sintomas e a supervisão apontava para que eu deixasse de me ver tão compadecida de seus queixumes e quimeras eternas. Não tendo ela podido suportar suas angústias durante a sessão, pensei temerosa de que ela poderia abandonar a terapia. Gostaria que Violeta pudesse ter compreendido que eu apostava nela e que pensava que pudesse resignificar esses personagens que tanto nos intrigavam. PERSPECTIVAS PARA VIOLETA Podemos pensar que o temor, contudo, não é de todo esmagador, pois no jogo histérico Violeta sempre é levada pela identificação com a avó em direção aos homens, topa jogar com um deles, mas no momento de assumir seu desejo ela desiste, denega-o, foge, mantendo o desejo em suspenso. Aí novamente se entrega às fantasias tão próprias da histérica. O medo que sempre acompanha a problemática histérica, é verbalizado no temor de que pudesse vir a terminar seus dias da mesma maneira que as duas mulheres — abandonada e principalmente deprimida como a avó. Faz parte ainda do elenco de suas fantasias, uma voltada ao tratamento terapêutico e o que pudessem pensar dela enquanto paciente. Sua questão mais freqüente se dá pelo temor de aniquilamento quando revela estar ficando conhecida. Parece-nos que quanto mais buscávamos conhecê-la, mais Violeta nos embrenhava em seus enigmáticos caminhos, como se nos presenteasse a cada 118 nova leitura de seus atendimentos com novos detalhes e (im)precisões sobre o seu eu. A riqueza de imagens que esse encontro suscitou, não desaparecerá de nossa lembrança por tudo que ele proporcionou. 119 7.Considerações Finais: O que pretendemos refletir nesta pesquisa é a maneira como a angústia e a identificação — fenômenos fundamentais na constituição do sujeito — podem provocar os sintomas histéricos. Este estudo, pensamos, pode contribuir um pouco mais para a compreensão do tema em questão. Refletimos aqui sobre os conflitos identificatórios da paciente Violeta com as figuras parentais. Fomos buscar no estudo da histeria juntamente com a análise dos conflitos, da queixa de insegurança e medo, dos abandonos de projetos e nas formas de como a psicopatologia se manifesta, o fundamento para fortalecer nosso argumento, que em função de identificações conturbadas, Violeta criava personagens objetivando apaziguar uma avalanche de desejos libidinais e identificações incompatíveis no seu psiquismo. Tratamos também das formações que podem ser atribuídas à histeria: fantasias, recalques, sintomas e principalmente os fracassos no processo identificatório apresentados por Violeta. A idéia de ‘ser conhecida’ lhe remetia à fantasia de prostituição sustentada pela suspeita do avô quanto à fidelidade da avó e seu posterior abandono. Em contraste à recusa do desejo de ser conhecida, existe um certo desejo de ser famosa e rica , cantando ou trabalhando como atriz. Essa busca de identificação tem relação com a fantasia de que para ser alguém é necessário ser reconhecido, ter poder e fama. Violeta procurava de todas as maneiras se identificar com alguém – os 120 pais, a avó, os irmãos e conosco. O desejo de ser reconhecida se mantém constantemente insatisfeito, pois no momento que a paciente tem a oportunidade de realizá-lo, ela abandona os empregos que lhe possibilitariam esse poder. Mesmo recusando ser igual as duas figuras marcantes para si — a mãe e a avó, identifica-se com elas e aí está a origem de seus conflitos. Por sua vez, suas escolhas de objeto foram sendo ressignificadas ao longo de sua psicoterapia. Quais são os homens que ela escolhia? O primeiro é buscado no modelo introjetado a partir de sua identificação com a avó — bonito, com carro e com dinheiro — é aquele com quem a espanhola foi ao motel e que lá chegando se arrependeu; o segundo é um negro, oposto aos padrões familiares, com quem ela teve relações sexuais pela primeira vez; o terceiro é o que tem poder porque sabe jogar — o que ela gostaria de ter aprendido com o pai, e, finalmente, o último é o atual namorado, compreensivo e paciente, tal qual sua mãe, que tudo aceita. E esse namorado é uma garantia de manter o desejo insatisfeito, em função dos estreitos limites em que se mantém a relação entre os dois. Se pensarmos bem, qualquer dessas figuras masculinas representam o poder de alguma forma, posto que para ter o poder é necessário que esse seja atribuído por alguém. Com os homens que desejava, Violeta hesitava, ficava imobilizada mesmo que movida pelo desejo. E fugia como a mãe. Vagueava pelos personagens, como o fazia pela casa dos familiares e da sogra, onde acabava achando tudo muito moderno, diverso da casa da avó. Violeta não era ninguém, não tinha forma, era oca, poderia ser qualquer personagem que quisesse interpretar, menos ela mesma. Assim não se 121 comprometia com nada que pudesse significar a realização de seus próprios desejos. Sabemos que Violeta, também por ter tido pouco contato com outras crianças, entregava-se ao hábito de ficar horas a fio dando asas as suas fantasias diante da televisão. Quando ela dizia que o comediante Chico Anísio na pele dele mesmo era muito desinteressante, talvez fosse isso que ela pensasse de si. Contrastando com a expressão ‘ser conhecida’ está uma outra ‘sentirse despercebida’ que fazia com que os personagens aparecessem, a identificação aí operando como uma defesa contra a angústia de que era tomada e da qual não chegava a ter consciência. Pensamos que o desejo de saber-se desejada quando chegava às reuniões dos amigos opõe-se ao sintoma de abandono do que desejava. Toda vez que se via numa posição de destaque, a paciente fugia, abandonava essa posição. Isso ocorreu quando largou o lugar de coordenadora da dança e o emprego de fiscal do shopping. Abandonava o lugar, por já possuir muitos troféus. Na língua portuguesa, troféu diz respeito a “insígnia ou sinal que se expunha ao público em comemoração de alguma vitória”. Tem relação com triunfo, com vitória. E Violeta não queria ter troféus, ela se oferecia como troféu de alguém. É justamente por ter conflitos com suas identificações que a paciente foge do confronto, antagonicamente suas histórias eram sempre as mesmas — de insatisfação, desânimo e da impossibilidade de poder desejar algo para si melhor que todas àquelas queixas. As relações estabelecidas entre Violeta, a avó e a mãe fazem parte de um atormentado jogo histérico, no qual a insatisfação é a regra fundamental. Aliás a histeria nos ensina vários aspectos com que o desejo se recobre, 122 mascara-se para enfrentar a realidade. A histeria ensina como o ego se defende no enfrentamento com a idéia incompatível e a afasta pela ação do recalcamento. Entretanto, a substituição dessa idéia, digamos assim, por outra aceitável acaba impossibilitando o seu desaparecimento. Aprendemos com a psicanálise que o desejo se presentifica no sintoma, uma vez que foi desalojado pelo recalque e que a força do desejo repousa justamente na pulsão sexual. O sujeito deve encontrar seu próprio modo de lidar com o apelo desse desejo para libertar-se rumo à satisfação. O trabalho do recalque, por isso, é o de lutar contra essas forças poderosas que geram angústia, evocando afetos aflitivos de dor tanto física quanto mental, dores essas que assim se reatualizam. Talvez se possa dizer que sua psicoterapia também desnudou a ilusão de comprometimento com o poder fálico, esse compromisso com a felicidade e a perfeição tão presentes na histeria e que tem relação com a necessidade do sujeito de reconhecer no outro um pouco de si mesmo : a identificação. Sabemos que gerar um sintoma não resolve definitivamente um conflito, conquanto a defesa se constitui num acordo para apaziguar as partes em litígio através da supremacia do poder. O ser humano acaba surpreendendo e a histérica sempre ensina algo sobre o caminho percorrido pelo desejo na busca de satisfação. O desejo para Violeta representa o risco de ter que enfrentar o gozo, mas também a possibilidade de entrar em depressão ou ainda, dos fantasmas que ficar conhecida significavam. A psicanálise propõe, no tratamento da histeria, a possibilidade de conceder ao pai, poder para ser portador de falhas e imperfeições e, a partir 123 dessa concessão, o analisando possa se autorizar os mesmos direitos. O que representaria uma vida bem menos problematizada, diríamos, bem mais curtida. A análise propõe justamente a tentativa de passar pela castração com êxito. No dizer de Ceccarelli, sofrer com o sofrível e não escolher o sofrimento para gozar. Por isso, atribui-se à análise um estar para além da realidade aparente, para além do desejo porque ao refletirmos sobre teorias, de alguma forma, estamos nos permitindo recriá-las através do nosso olhar. Pensamos que a terapia ajudou a paciente, na medida em que, a partir desse momento, ela pôde ter para si uma visão mais apropriada e verdadeira da problemática familiar, o que pode ter significado, quem sabe, uma visão menos opaca de si mesma. Enfim, concluímos que se a vida nos coloca em confronto com o desembaraçar dessas identificações primeiras, em contrapartida, também pode favorecer a um constante exercício na criação de outros laços, novas identificações. 124 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRÉ, S. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: 1998. AULAGNIER, P. Angústia e Identificação. Revista Percurso nº 14, São Paulo, 1995 BERLINCK, M. Psicanálise da Clínica Cotidiana. São Paulo:Escuta,1988 __________ Histeria. São Paulo: Ed. Escuta, 1997 __________ O que é psicopatologia fundamental in Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental, Vol. II, nº 1, 1999 BIRMAN, J. Cartografias do feminino. São Paulo: Ed.34, 1999 CECCARELLI, P. Identidade e instituição psicanalítica in Pulsional Revista de Psicanálise, Ano XII, nº 125, Sâo Paulo: Escuta, 1999. __________ Transexualismo e identidade assexuada in Temas da Clínica Psicanalítica. São Paulo: Experimento, 1998. FLORENSE, J. Identificações, in As Identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994 FRANCO, S. A transferência na histeria - um estudo do caso Dora de Freud. Pulsional Revista de Psicanálise, São Paulo: Escuta, nº 132, 2000 FREUD, Sigmund. Obras Psicológicas de Sigmund Freud: Rio de Janeiro: ESB, 1980. - Rascunho E – Como se origina a angústia (1892-1899) - Rascunho B – A Etiologia das neuroses (1893) - Estudos sobre a Histeria (1893-1895) - Obsessões e fobias (1895) - Sobre os critérios para destacar da neurastenia uma síndrome particular 125 intitulada “neurose de angústia” (1895) - Resposta às críticas do meu artigo sobre neurose de angústia (1895) - A etiologia da histeria (1896) - A sexualidade na etiologia das neuroses (1898) - A interpretação dos sonhos (1900) - Fragmento da análise de um caso de histeria. (1905). - Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) - Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade (1908) - Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (1909) - Psicanálise silvestre (1910) - Cinco lições de Psicanálise (1910) - A Dinâmica da Transferência (1912) - Totem e Tabu (1912) - Sobre o narcisismo: uma introdução (1914) - História do movimento psicanalítico (1914) - O inconsciente (1915) - Conferência 23 – Os caminhos na formação de sintomas (1916-1917) - Conferência. 25 – A angústia (1916-17) - Os caminhos na formação de sintomas (1916-1917) - Teoria Geral das Neuroses. (1917) - Psicologia de Grupo E Análise do Ego (1921) - O Ego e o Id (1923) - A Dissolução do Complexo de Ëdipo (1924). - Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) - O Mal estar na Civilização (1930) - A Dissecação da Personalidade Psíquica (1932) - Conferência 32 – Angústia e Vida Pulsional (1932) 126 - Conferência 33 – Feminilidade (1932) - Rascunho K – As neuroses de defesa (1892-1899) HANNS, L. Dicionário Comentado do Alemão de Freud, Rio de Janeiro: Imago, 1996. ISRAEL, L. A histérica, o sexo e o médico. São Paulo: Escuta, 1995 KRISTEVA, J.O real da identificação, in As Identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994 LACAN, J. O Seminário. Livro 3. As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985 . LACAS, P. O real da identificação in As Identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994 LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J-B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1988 LEITE, A. Em busca do sofrimento histérico: a dimensão melancólica da Histeria. in Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental, nº 1, São Paulo, 1999 MANNONI, M. A primeira entrevista em psicanálise. Campus : Rio de Janeiro, 1981 MEZAN, R. Freud: A trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1987 MICHAELLIS. Moderno Dicionário de Língua Portuguesa, São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998 NASIO, Juan David. A Histeria: teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991 127 _______ Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. PERES, U. Dúvida Melancólica, Dívida melancólica, Vida Melancólica. São Paulo: Mimeo, 1998 RIBEIRO, P. O Problema da identificação em Freud: recalcamento da identificação feminina primária. São Paulo: Escuta 2000 ROCHA, Z. Os destinos da angústia na psicanálise freudiana. São Paulo: Escuta 2000 KLAIN, W. A Herança do Desamparo, São Paulo: Mimeo, 1998 TAILANDIER, G. Resenha do seminário “ A Identificação” in As Identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará 1994 128