Violência entre pares adolescentes no contexto escolar Muriel Rodrigues Vieira 1 Roberta Patrícia C. Siqueira 2 Jaileila de Araújo 3 RESUMO A violência nas escolas é um grande problema e tem ocupado os mais diversos atores sociais. Buscamos neste trabalho entender como os marcadores sociais que permitem a localização dos indivíduos quanto ao gênero, raça, religião, orientação sexual e padrão estético, estão presentes nos episódios de violência entre pares no contexto escolar. Sendo esta uma pesquisa de natureza qualitativa o registro das informações ocorreu através da técnica de observação de uma turma da sexta série do Ensino Fundamental e de entrevistas semi-estruturadas com alunos e professores. A análise dos dados permitiu concluir que estes marcadores estão bastantes presentes nessas cenas de violência, destacando-se o marcador estético, como sendo de fundamental importância no momento do posicionamento dos envolvidos entre vítimas ou agressores. Palavras-chaves: Violência entre pares. Marcadores sociais. Contexto escolar 1. Introdução Após experiências proporcionadas pela disciplina de Pesquisa e Prática Pedagógica, que permitiu um contato maior com o contexto escolar e participações em seminários sobre a temática da violência nas escolas, percebemos ser de grande importância estudos nessa área. Chamou-nos particularmente atenção a violência que atinge e também é utilizada pelos adolescentes, dado sua associação com marcadores que estabelecem uma definição e diferenciação segregatória entre grupos sociais. Apesar da gravidade e da necessidade de reflexões sobre esse tema, são poucos os estudos existentes. Até em nosso próprio curso notamos que freqüentemente questões do cotidiano das escolas como a indisciplina, a violência e os preconceitos são 1 Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. [email protected] Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. [email protected] ³ Professora do Departamento de Psicologia e Orientações Educacionais – Centro de Educação – [email protected] 2 pouco abordado, sendo dada grande atenção a assuntos estritamente pedagógicos como os planejamentos ou teorias da educação, deixando os futuros educadores sem o conhecimento necessário para saber agir nesses casos. Consideramos essa pesquisa de grande relevância para todos os educadores, educandos e atores que compõe o corpo escolar, pois aborda justamente formas de expressão sutil da violência que por serem travestidas de brincadeiras são banalizadas e consideradas como algo próprio à idade adolescente. Durante nossos estudos, buscamos compreender como os episódios de violência entre pares no contexto escolar expressam a influencia dos marcadores sociais no posicionamento das vítimas e agressores, utilizando como campo de pesquisa uma turma do Ensino Fundamental de uma instituição Estadual da Cidade do Recife. Buscamos definir as modalidades de violência entre pares que aparecem na escola, observando os marcadores sociais que se fazem presentes nesses episódios, bem como analisar a concepção dos adolescentes e professores a respeito desse assunto. Na nossa sociedade a ocorrência de violência nas escolas ganha visibilidade na década de 80, conforme estudo realizado por Mary Castro (2003). No entanto, atualmente tem se constituído um grande problema social, pois, cotidianamente, presenciamos diversos episódios envolvendo agressões físicas, verbais e simbólicas4 aos atores do contexto escolar, pois isso ocorre uma vez que “a escola não tem cumprido seu papel de harmonizar, porque sua função socializadora não se tem evidenciado, provocando, assim, um espaço onde o aluno tem construído uma experiência de violência”. (Dubert, 1991 apud Camacho, 2001, p. 8). Esse grande índice de violência escolar, no entanto, pode ser atribuído tanto à fatores externos ao espaço escolar, tais como o contexto social baseado no tráfico de drogas e uso de armas que torna a sociedade cada vez mais violenta, refletindo dessa forma na instituição educacional; quanto à fatores internos, sendo estes relativos ao clima escolar baseado em relações de poder. 4 Violência que se caracteriza pelo estabelecimento de uma relação pautada na superioridade de um em detrimento do outro, reproduzindo a lógica da desigualdade social (Chauí, 1999). 2 Pesquisas realizadas nessa área vêm crescendo desde 2002 e atualmente têm apontado alguns tipos de violência que acontecem entre os alunos como sendo as mais freqüentes. Entre essas violências, podemos citar o bullying que de acordo com Fante, “É um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra outro(s), causando dor, angústia e sofrimento”. (2005, p.28). Apesar de esse tipo de violência ser mais comum na Europa (daí o motivo de ter sido investigado primeiramente lá), já encontramos diversos relatos de sua ocorrência no Brasil. Outro tipo de violência entre alunos, muito disseminada nas escolas brasileiras, é a violência que tem servido de objeto para nosso estudo – a violência entre pares e que tem como atores principais alunos adolescentes, pela dificuldade típica da idade de se lidar com as diferenças. Orientadas por uma perspectiva psicossocial consideramos que esse tipo de violência é bastante influenciado por marcadores sociais (quer sejam eles de gênero, de raça, padrão estético, de classe social ou de crença), à medida que suas vítimas, na maioria das vezes apresentam alguns desses marcadores como responsáveis pela sua não aceitação no grupo dos iguais. Partimos assim da compreensão de que os valores sociais adentram o espaço escolar, de modo que, através da indiferença a esse tema, reproduz-se a exclusão e discriminação de determinados indivíduos e grupos sociais. A escola perde assim a oportunidade de ser uma instituição que combate a lógica da desigualdade social, principalmente entre adolescentes que estão vivenciam a oportunidade de reconstruir seus valores morais e reformular seus projetos ético-políticos de posicionamento perante os dilemas da vida social. 2. Marco teórico 2.1. A Violência e suas múltiplas definições Para compreendermos os episódios da violência entre pares dentro do contexto escolar é imprescindível conceituar o termo violência. Esse termo é muito complexo e apresenta diferentes sentidos, variando com o contexto onde for inserido. Ao estudá-lo nos deparamos com uma grande dificuldade, a 3 multiplicidade de compreensões a seu respeito, evidenciando a fragilidade das suas fronteiras. A violência se confunde, se interpenetra, se inter-relaciona com a agressão de modo geral e/ou com a indisciplina, quando ocorre na esfera escolar. O termo violência5 deriva do latim violentia (que por sua vez define qualquer comportamento ou conjunto de vis, (força, vigor); aplicação de força, vigor, contra qualquer coisa ou ente. E é definida como “um comportamento que causa dano a outra pessoa, ser vivo ou objeto. Nega-se autonomia, integridade física ou psicológica e mesmo a vida de outro. É o uso excessivo de força, além do necessário ou esperado”. Temos um conceito bem amplo de violência quando conceituamos a partir de uma enciclopédia, especificando todas as possibilidades das práticas violentas de forma bem concreta. De acordo com Fante (2005), no setor Jurídico, sucintamente, violência é, em relação às pessoas, “agressão”, em relação a objeto, “roubo”. Este setor preocupa-se em estudar a prática do ato, seja ele contra qualquer coisa ou ente para a aplicação da punição de acordo com as normas morais e sociais estabelecidas por nossa sociedade. Para a psicologia, a violência é uma agressividade gratuita e cruel, que denigre e causa danos, tanto ao agressor como a vítima. Nesta área percebemos um estudo mais detalhado abrangendo todos os envolvidos nesta violência e temos também uma preocupação para o que levam os mesmos a estas práticas. Na visão de filósofos, sublinhados por Fante (2005), a violência deve ser algo evitado, pois que obstaculiza a auto-realização humana. Esta percepção ampla e subjetiva permite várias interpretações sobre o tema. Na base social, temos, segundo Fante, “que os atos de violência apresentam-se hoje na consciência social não apenas como crimes, homicídios, roubos ou delinqüência, mas nas relações familiares, nas relações de gênero, na escola e nos diversos aspectos da vida social” (2005, p. 156). Com essa definição percebemos que o conceito de violência não se refere apenas as agressões físicas, mas também aos preconceitos, as intimidações e 5 Na enciclopédia on-line Wikipédia, disponível em <http:pt.wikipedia.org/wiki/viol%c3%aancia> acesso em: 21/11/2007 4 humilhações que devem ser estudadas em seu contexto sócio-histórico e cultural. Abramovay mostra que um dos pioneiros dos estudos sobre a paz, Johan Galtung, possui um conceito bem mais amplo e complexo do termo violência, pois o entende como “tudo o que causa a diferença entre o potencial e o atual, entre o que foi e o que é. Nesse sentido uma definição possível de violência é toda ação que impede ou dificulta o desenvolvimento” (2001, p. 22). Essa conceituação nos leva a pensar nas conseqüências da violência para o desenvolvimento humano, enquanto um fator que constrange o desenvolvimento pleno, comprometendo as potencialidades dos sujeitos. Se pensarmos que em alguns bairros das grandes cidades brasileiras crianças são impedidas de ir à escola por conta da “guerra” entre os traficantes e também se lembrarmos de alguns relatos de adolescentes e jovens que se evadiram da escola porque não agüentavam mais ser alvo de gozações pelos colegas conseguiremos visualizar as limitações impostas pela violência que retira o direito de ir e vir, que subsume o direito à diferença. Após essa explanação das definições desse termo, pudemos perceber a amplitude do conceito de violência, em suas variadas áreas de estudo, ficando clara a fragilidade de suas fronteiras e a complexidade de estudar esse assunto. Ao iniciarmos nossa pesquisa nos depararmos com a diversidade de caminhos que poderíamos seguir para trabalhar a violência na escola. Num primeiro momento nosso interesse foi investigar casos de bullying, que segundo Fante “acarreta enorme prejuízo a formação psicológica, emocional e sócio-educacional do indivíduo que é vitimizado por esse fenômeno” (2005, p. 9). O bullying repercutiu no Brasil há poucos anos, porém já foram desenvolvidos vários programas anti-bullying buscando combater e intervir nesta violência. A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA) tem um projeto patrocinado e apoiado pela Petrobrás que tenta combater essa violência em 11 escolas do Município do Rio de Janeiro, das quais 09 são públicas e 02 particulares. O projeto observou que a forma como ele é praticado varia de uma escola para outra. Nas particulares, por exemplo, valorizam-se muito os bens materiais, como: carro, 5 tênis importado, marcas de roupas, etc. Nessas instituições, não possuir algum desses bens pode ser motivo para perseguição, somada também as diversas formas de violência explicita na sociedade de classe média em que estes estão inseridos. Já nas escolas públicas, a principal razão é a própria violência vivenciada cotidianamente pela comunidade (não descartando a perseguição causada pelos bens materiais), pois como esses alunos estão mais expostos a diversos tipos de violência acabam por internalizar estes comportamentos e disseminá-los no ambiente escolar. Investigar o bullying exigiria de nós uma abordagem clínica de acompanhamento de alguns casos, pois ele circunscreve características psicológicas tanto da vítima quanto do seu agressor. Sem dizer que teríamos de despender um tempo considerável para localizar esses casos, uma vez que quando perguntávamos aos professores ou diretores das escolas sobre o bullying muitos não sabiam o que era. Optando por uma linha menos clínica e mais psicossocial e resolvemos investigar a violência entre pares adolescentes definida como a expressão de relações inter-pessoais onde os adolescentes / alunos impõe algo sobre seus iguais (outro adolescente) de forma que este ato possa ferir, magoar, constranger, humilhar, ou mesmo causar danos a alguém. (Fante, 2005; Abramovay, 2004; Guimarães, 1996; Colombier, 1989; Levisky, 2001). A violência entre pares acontece entre pessoas da mesma faixa etária, que dividem os mesmos espaços, e estão num nível de desenvolvimento cognitivo semelhante, e por isso também pode ser chamada de “violência entre os iguais”. Que tem como atores principais alunos adolescentes, pela dificuldade típica da idade de lidar com as diferenças. E, contudo promovendo a constituição de tribos, galeras ou gangues dentro das escolas, juntando-se em grupos de iguais, podendo gerar, assim, mais violência. Os adolescentes por estarem vivenciando o processo psíquico de construção identitária, pautado nos mecanismos de identificação e diferenciação tornam-se bastante influenciados pelos marcadores sociais de gênero, raça, classe, crença, padrão estético, orientação sexual. Com base nesses marcadores elegem, são eleitos ou excluídos dos grupos que passam, nesse segmento etário, a ser a principal referência de identidade. 6 2.2 Violência entre pares no contexto escolar A adolescência é uma fase de transição, período de transformações, na qual a criança recebe subsídios para tornar-se um adulto. Para alguns autores a adolescência é definida como o correspondente psicossocial da puberdade que, por sua vez, corresponde às mudanças anátomo-fisiológicas vivenciadas por homens e mulheres da espécie humana. A puberdade, segundo Becker “é apenas um fenômeno que ocorre durante a adolescência e tem limites bem mais precisos e estreitos. É o período da vida em que o individuo se torna apto para a procriação” (2003, p.18). As alterações físicas propiciam alterações psicológicas sob a forma de novos comportamentos, atitudes e pensamentos, moldados conforme os contextos sócio-culturais de participação dos adolescentes. Em nossa sociedade ainda predomina uma visão de adolescência correlacionada a: aborrecimentos, indisciplina, agressividade e muita rebeldia. Essa visão faz com que sejam atribuídos, precocemente, características muito generalizadoras e errôneas aos adolescentes, causando grandes conseqüências ao desenvolvimento psicológico dos mesmos. Levisky (2001) relata que a rebeldia, própria do desenvolvimento adolescente, geralmente é uma busca de auto-afirmação. Incrementada pela cultura atual, esta irreverência pode gerar violência e transgressão. Diante dessa análise, percebemos como o meio social interfere no desenvolvimento desses adolescentes. Muitos autores defendem que a rebeldia de um adolescente é conseqüência da falta de algo, seja de ética dentro das escolas, seja de atenção e carinho na família. Interessa-nos particularmente uma outra característica da adolescência que é a necessidade de agrupar-se, ou seja, de estabelecer relações sociais com seus iguais. Muitas vezes, para serem aceitos, em um determinado grupo os adolescentes modificam seus pensamentos, inibem atitudes e reformulam sua identidade. Segundo Enderle, “o processo adolescente visa, fundamentalmente, a conquista de si mesmo, isto é, afirmar-se numa identidade própria, resultado de uma longa e penosa revisão das vivências infantis e das identificações estabelecidas anteriormente” (1988, p. 23). Este período de revisão e reformulação de conceitos, de muita turbulência nas idéias deve ser superado 7 para o estabelecimento de sua identidade. Para ser estabelecido a identidade é imprescindível esse processo de um afastamento do modo de funcionamento infantil, uma vez que, por razões tanto internas quanto externas, uma outra dinâmica afetivo-cognitiva deve se estabelecer. O adolescente, nesta fase, pode estabelecer certa distância da família e passa a privilegiar a sociabilidade dos iguais, esse grupo assume o papel de matriz identitária. Porém o grupo pode ao invés de contribuir para a conquista da autonomia, ter o papel inverso e contribuir no processo de submissão, de modo que o adolescente passa a fazer tudo o que o grupo quer, sem nenhuma possibilidade de análise crítica, por medo de perder essa referência dos iguais. Como os adolescentes passam a maior parte do seu tempo dentro das escolas, ela se torna um espaço propício à construção desses grupos, possibilitando a formação de galeras, tribos ou gangues, sendo as duas primeiras, na maioria das vezes, boas influências para auxiliar no desenvolvimento da autonomia. No entanto, quando o adolescente decide se referenciar nas gangues, fica vulnerável a transgressões e criminalidade propriamente dita. Contudo, é percebível a facilidade com que esses adolescentes são influenciados, por isso faz-se necessário que as instituições de ensino dediquem-se à humanização das relações sociais, questione as desigualdades sociais, respeite e incentive a multiculturalidade existente em nosso país, para que consiga desenvolver adultos sociáveis, compreensivos e bem menos hostis. Nossa sociedade vive de acordo com o sistema capitalista que consequentemente trás para a sala de aula suas características, sendo estas influenciadoras dos nossos jovens que ficam expostos ao individualismo competitivo. Nesse regime social incentiva-se a hostilidade, o desprezo, o desrespeito com aqueles que são diferentes, que não se enquadram nas expectativas sociais, repercutindo nas escolas sob a forma da violência simbólica endereçada ao pobre, negro, tímido, que mora na periferia, que não usa o tênis da marca da moda, só para citar algumas discriminações. Nos dias atuais, percebemos ser o clima escolar um propiciador da violência dentro deste espaço, pois a escola não tem cumprido sua função de equidade entre os alunos, e acaba confundindo equidade com homogeneidade, 8 fechando assim os olhos para a individualidade ao tratar todos como iguais, sem levar em conta as diferenças pessoais. Disso já decorre outro agravante dessa violência, que são as relações interpessoais vividas dentro da escola, pois para se ter um ambiente agradável e amistoso, é preciso que cada pessoa tenha seu espaço preservado e respeitado pelos demais, ou seja, tenha boas relações com os outros, e quando isso não acontece ou por parte dos alunos, ou dos professores, ou dos demais que compõe a equipe pedagógica, contribui para que todos, principalmente os alunos, tornem esse ambiente violento, pois de acordo com Fante, “Todo esse clima gerado pela escola recai sobre os alunos, desenvolvendo um conglomerado de sentimentos, que se apresenta desde a apatia até a explosão de agressividade e violência...”. (2005, pág.187). Os alunos envolvidos em episódios de violência na escola estão na faixa etária que varia dos 11 aos 18 anos, compreendendo assim o período da adolescência. Já os fatores externos à escola que podem contribuir para que essa se torne um espaço violento, estão o contexto social, os meios de comunicação e a família, todos carregados por fatores que tornam tanto a sociedade como a escola violenta, pois segundo Camacho “Onde ocorre a ausência de proposta educativa, a escola não funciona como uma retradutora dos valores sociais e termina por permitir que os valores sociais predominantes invadam o seu ambiente sem nenhum filtro educativo.” (2001, p.9) Dentre esses valores sociais de que estamos falando, podemos citar no nosso contexto social, o preconceito de gênero, que a sociedade fortalece ao excluir tanto mulheres como homossexuais por julgarem os mesmos inferiores aos homens; o preconceito de raça, onde os brancos são tidos como melhores; o preconceito de credo, ao fortalecer o catolicismo e desmerecer as demais religiões; o preconceito de classe ao favorecer uma minoria que tem condições de bem “sobreviver” ao mundo capitalista do consumismo; e o preconceito estético, que despreza todos que não fazem parte do padrão de beleza socialmente valorizado. Os meios de comunicação, por sua vez, alimentam o preconceito e a discriminação ao veicularem situações onde “os diferentes” são destratados, menosprezados, ou alvo de gozações e brincadeiras com teor pejorativo. Com esse viés de atuação a televisão [meio de comunicação mais utilizado no 9 Brasil] perde a perspectiva educativa criticamente orientada e acaba contribuindo para o aumento da violência simbólica na sociedade e na escola. Segundo Fante, “Existe uma grande relação entre a televisão e a construção da identidade e do comportamento não só dos adolescentes, mas de toda a sociedade”. (2005, p.171) A família, pela via de uma atitude explicitamente preconceituosa ou através da sutileza das brincadeiras, gozações, acaba repassando o viés preconceituoso e excludente. Mesmo quando não é preconceituosa, mas se omite da tarefa educativa pela indisponibilidade ao diálogo e atribuição dessa tarefa a mídia / escola acaba contribuindo para uma sociabilidade violenta, pautada na reprodução das relações de domínio e submissão. Então como podemos perceber, os marcadores sociais estão amplamente enraizados nos fatores externos, que adentram nas escolas, tornando esta cada vez mais hostil, pois segundo Abramoway, “Os fatores externos referem-se à explicação de ordem socioeconômica, ao agravamento das exclusões sociais, raciais de gênero, à perda de referência entre os jovens, ao surgimento das galeras, gangues, tráficos de drogas, desestruturação familiar, à perda do espaço de sociabilidade” (2004, p. 182), fazendo com que estes, ao invés de serem eliminados, perpassem por todos os setores da sociedade, inclusive a instituição escolar. Os marcadores sociais são um dos grandes e possíveis inspiradores da violência entre pares, surgidas no contexto social e que adentram o contexto escolar e encontram nos adolescentes o suporte para sua reprodução. Considerando o marcador relações de gênero, apesar de todas as transformações acionadas pelo movimento feminista, ainda predomina uma relação hierarquizada entre homens e mulheres, muitas vezes alimentada pelo sistema educacional que reproduz estruturas de poder, de privilégio de um sexo sobre outro e veicula através dos livros didáticos (Aquino, 1998). No caso do preconceito racial, percebemos claramente que a separação entre brancos e negros (sendo estes considerados de nível inferior) é amplamente disseminada em nossa sociedade, que reserva os melhores colégios para os brancos e que cria leis de cotas para os negros. Quanto à discriminação social, observamos que esta já começa na própria separação das escolas, ou seja, escola para ricos (privada) e para 10 pobres (pública). Entre os alunos, observa-se a influência da sociedade de consumo que valoriza o ter em detrimento do ser. Os códigos de aproximação e distância são estabelecidos em função do acesso a bens e serviços, tais como tênis, roupas, aparelhos eletrônicos, atividades de lazer que podem ou não compartilhar. As manifestações de intolerância religiosa, por sua vez, estão entre os mais antigos e complexos conflitos (Aquino, 1998), dada a valorização da religião católica que foi, inclusive, a responsável pelo início do processo de escolarização na sociedade brasileira. Disso resultou uma história de preconceito com relação aos demais credos e crenças. O paradigma estético da atualidade valoriza corpos magros, sarados, cabelos loiros e lisos. A adolescência é um momento onde meninos e meninas têm que se refazer em termos de imagem corporal. A exigência pela perfeição estética tem gerado um profundo sentimento de inadequação para muitos adolescentes que acabam por se envolver em situações limites produzindo quadros de anorexia e bulimia, ou se submetendo à técnicas invasivas de transformação corporal, como o uso de anabolizantes para bem responder ao que as revistas de moda, novelas e propagandas veiculam como sendo o modelo de beleza. São esses os marcadores sociais que consideramos como balizadores dos preconceitos e discriminações expressos no contexto escolar no campo das relações entre adolescentes e que circunscrevem a violência sutil entre pares causando dor e angústia em quem sofre tal violência. Para que possamos acabar com esse quadro, cabe a escola proporcionar aos seus alunos um modelo de relação respeitosa e pautada no questionamento das desigualdades sociais. Acreditamos que só questionando essas desigualdades e agindo em prol da justiça social que uma nova sociedade e uma nova escola podem ser vislumbradas. 3. Delimitação de objetivos Em torno desse tema de investigação, estabelecemos como objetivo geral de nossa pesquisa compreender como os episódios de violência entre pares no contexto escolar expressam a influência dos marcadores sociais no 11 posicionamento das vítimas e agressores. E como objetivos específicos: 1) Analisar a compreensão dos professores e adolescentes sobre a violência no contexto escolar, considerando as modalidades de violência física, verbal e simbólica; 2) Localizar os marcadores sociais que se fazem presentes nos episódios de violência entre pares (racial, religioso, econômico, cultural, sexual, de gênero, estético); 3) Identificar, segundo a concepção de professores e alunos, estratégias de combate e redução dos episódios de violência no contexto escolar. 4. Metodologia Para atender ao objetivo de compreender como os marcadores sociais participam da dinâmica da violência entre pares adolescentes no contexto escolar optamos por uma pesquisa do tipo qualitativa, pois de acordo com Cervo (1996, pág.49) “as pesquisas que se utilizam da abordagem qualitativa possuem a facilidade de poder descrever a complexidade de um determinado problema”. Recorremos a duas técnicas para o registro de informações: a observação, que segundo Ludke (1986) é o principal método de investigação que possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno pesquisado; e a entrevista que propicia o estabelecimento de uma interação, uma atmosfera de influências recíprocas entre quem pergunta e quem responde (Ludke, op.cit.). Para a efetivação de nossa pesquisa entramos em contato com uma Escola Pública da Rede Estadual do Recife, localizada na RPA3, situada nos entorno da comunidade de Sítio dos Pintos. A turma observada é bastante heterogênea (composta tanto por adultos quanto por adolescentes), com aproximadamente 26 alunos, todos moradores dos arredores da escola. Neste espaço nos foi concedida autorização para observarmos (durante um mês) e entrevistarmos alunos e professores pertencentes a 6ª série do ensino fundamental. Dentre esses selecionamos 10 alunos (escolhidos através das observações, prevalecendo os mais envolvidos com atitudes violentas, seja como vítimas ou como agressores) e 04 professores (escolhidos por serem os mais presentes na escola) para serem entrevistados. 12 As observações aconteceram tanto na sala de aula quanto no pátio (durante intervalos / aulas vagas), já as entrevistas foram feitas em momentos acordados por nós (pesquisadoras e atores da escola). As entrevistas foram gravadas e transcritas para análise utilizando as observações como suporte para a seleção dos professores e alunos a serem entrevistados. Os roteiros das entrevistas encontram-se no apêndice I e II. Ressaltamos que no contato com o campo de investigação encontramos nos discursos de alunos e professores referência à modalidade de violência doméstica, o que sugerimos para aprofundamento em estudos futuros. Procederemos agora à apresentação e análise dos dados registrados. O procedimento de análise está pautado na perspectiva compreensiva do fenômeno social e visa estabelecer uma relação entre a empiria e a teoria pautada nas categorias de análise: modalidades de violência entre pares (verbal, física, simbólica) e marcadores sociais presentes na violência simbólica entre pares. 4. Análise de resultados 4.1. Analisando as questões dos professores Nessas entrevistas foram analisados os seguintes pontos: percepção do local de trabalho, conceito de violência, percepção sobre os alunos, marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares e seu posicionamento diante do fenômeno. Ressaltamos que em cada um destes pontos foram feitas várias perguntas que serviram de base para alcançarmos nossos objetivos, e que tais perguntas foram sendo adaptadas conforme o desenvolvimento das entrevistas. Perfil do professor: Perguntas Idade Sexo P1 43 anos Masculino P2 45 anos Feminino P3 42 anos Masculino Função Prof. Matemática Prof. Geografia Prof. Português Formação Matemática Geografia / especialização Tempo de ensino 3 anos 25 anos Letras / especialização / bacharelado 14 anos P4 49 anos Feminino Prof. Física / Química Química 22 anos 13 Tempo que ensina nessa escola 3 anos 5 anos 10 anos 18 anos Turmas que leciona 6ª série e Ensino Médio Ensino Fundamental e Médio Ensino Fundamental e Médio Ensino Fundamental e Médio Entrevistamos todos os professores que tinham contato com os alunos adolescentes. Destes professores apenas metade lecionavam na turma observada, pois muitas disciplinas estavam ainda sem professores. Percepção do local de trabalho Todos dos professores afirmaram que a escola não é violenta e se justificam fazendo a relação entre essa escola e outra que apresenta um maior índice de violência, como podemos localizar na fala de P2 “em relação as outras escolas, essa escola não é violenta não.” Destacamos o fato do professor exercer uma comparação entre a sua escola e outra de nível mais baixo, deixando assim de ter como referência uma escola de qualidade melhor e que inclusive pudesse inspirar mudanças na sua. Percebemos um pouco de incomodo por parte do docente em assumir que trabalha em um lugar violento e certa conformidade à situação. Conceito de violência A maioria dos professores conceituam a violência como sendo um ato físico e verbal, e apenas uma pequena porcentagem conseguem associar essas duas modalidades de violência e ainda acrescenta a violência simbólica, que na fala de P4 associa violência simbólica a gestos quando diz, “até uma cara feita pode ofender alguém”. Apesar de todos dos professores considerarem apelidos, intimidações, humilhações (A. verbal) como uma forma de violência, apenas metade relataram já terem presenciado estes episódios. No entanto de acordo com as nossas observações esse tipo de violência foi a que mais predominou durante o tempo em que estivemos na escola, onde fica claro que a violência simbólica geralmente vem travestida de brincadeiras e acaba sendo banalizada. Durante as observações percebemos cotidianamente que os alunos se agrediam com palavras, de forma natural, sendo as mães o alvo das gozações e apesar de alguns ficarem chateados essas ações eram tidas como brincadeiras. 14 Percepção sobre os alunos Todos os professores asseguram que seus alunos não são violentos, porém relatam que existem muitas brincadeiras agressivas e xingamentos entre eles, fazendo muitas vezes uma ligação entre essas brincadeiras e a fase etária em que os alunos se encontram (adolescência). Pois muitos professores associam a fase da vida em que estão com a busca da auto-afirmação. O relato abaixo exemplifica essa situação: “quando os alunos chegam, eles não se cumprimentam com um “boa noite”, mas sim com tapas e chutes ou com apelidos grosseiros...” (professor P1). Marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares Em conversas informais com os professores, todos afirmam haver uma relação entre os marcadores sociais e a violência estudada, sendo o marcador estético o mais citado, no entanto quando fomos para as entrevistas propriamente dita apenas metade reafirmam essa relação e dizem que ela interfere no momento de selecionar quem será vítima, e os demais afirmam que essa violência tem causas banais. Posicionamento dos professores diante do fenômeno Quanto à intervenção dos professores nos momentos das agressões, a maioria destes diz interferir só nas ocasiões de agressão verbal, recorrendo ao diretor nos casos de agressões físicas. O restante dos professores não se envolve nessas ocasiões. Quanto às sugestões citadas pelos professores para reduzir e combater essa violência aparece, em maior proporção, investimentos em educação ligados a esse assunto e uma maior parceria com a família destes adolescentes, seguidos pela presença de psicólogos nas escolas. 4.2. Analisando as questões dos alunos Perfil dos alunos: os 10 alunos entrevistados têm uma faixa etária que varia dos 12 aos 18 anos (adolescentes), sendo 06 meninos e 04 meninas, que estão cursando a 6ª série do Ensino Fundamental no turno da noite. Nas entrevistas realizadas com os alunos foram analisados os seguintes tópicos: conceito de violência, posicionamentos nos episódios de violência, marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares e estratégias para combater e reduzir essa violência dentro da escola. 15 Salientamos que para cada um destes tópicos foram feitas várias perguntas que serviram para introduzir perguntas posteriores, fazendo com que estas não ficassem soltas. Conceito de violência Quanto ao conceito que os alunos possuem sobre violência, percebemos que 60% (Gráfico 1) relacionam esta apenas com agressões do tipo física, considerando as outras formas (verbal e simbólica) como brincadeiras. No entanto quanto ao conceito de violência física, foi unânime a resposta que caracteriza esta como “ato de agredir com pancadas”. Conceito de violência na percepção dos alunos Violência = A. verbal / física / simbólica 10% 60% 30% Violência = A. verbal / física Violência = A. física Gráfico 1 – Conceito de violência na percepção dos alunos Apesar dos alunos em sua maioria não reconhecerem a violência verbal (apelidos, xingamentos ou ameaças) como uma forma de violência, 90% dos alunos dizem já ter sido apelidados, xingado ou ameaçado por outros colegas e afirmam não ter gostado da situação, caracterizando-a como violência. Posicionamentos nos episódios de violência Percebemos que a violência simbólica apesar de não ser notada por muitos (pois a maioria dos alunos pensa só ter violência em cenas de agressões física) está bastante presente no cotidiano da escola, pois 60% dos alunos afirmam ter presenciado no mês da observação (Março / 2008), cenas de violência entre seus colegas. Como, por exemplo, apelidos que levam em consideração um paradigma estético em alguns casos levam à violência física. Podemos notar isto no seguinte relato: “o moleque ficava me zoando de orelha de abano, até que um dia só dei uma no meio da cara dele, nunca mais ele me zoou, até da escola saiu...” (Aluno F.F.R., 15 anos). 16 Um ponto que nos chamou bastante atenção foi o fato dos alunos em sua maioria se identificarem como vítimas das cenas de violência, nunca assumindo a posição de agressor, pois 70% dos alunos relatam já terem sido vitimas de agressões dentro das escolas. No entanto, quando perguntamos aos alunos entrevistados se eles já se comportaram como agressores nesses episódios, todos (100%) disseram que não. Quanto à visão que os alunos têm da interferência de professores e funcionários nessas cenas de violência, 70% dos alunos afirmam que estes atores interferem quando a violência acontece na sala prejudicando a aula. Os alunos ainda afirmam que cenas desse tipo acontecem em qualquer lugar (Gráfico 2), pois nem a presença do professor intimida mais os alunos. A seguinte fala retrata esse aspecto “ninguém tem mais medo de professor e diretor não, se eles tirarem onda, é capaz de entrar no cacete também...” (aluno R. S., 17 anos). Locais onde ocorrem cenas de violência Pátio 20% 40% Sala de aula Ambos 40% Gráfico 2 – Locais onde ocorrem cenas de violência Marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares Podemos identificar, de acordo com as entrevistas dos alunos, que estes possuem uma clara percepção de que por trás dessas cenas de violência, estão os marcadores sociais que contribuem para sua disseminação, pois 90% dos entrevistados dizem que essa violência tem relação com características (marcadores sociais) presentes nas vítimas. Dentre as características (Gráfico 3) mais mencionadas pelos alunos, que faz com que uma pessoa se torne vítima da violência entre pares, podemos citar o marcador estético (modo de se vestir, deficiência, tipo de cabelo, etc.) como sendo o principal. 17 Marcadores sociais mais comuns nas vítimas 10% 10% Econômico Religioso 50% 30% Racial Estético Gráfico 3 – Marcadores sociais mais comuns nas vítimas. Tais características (os marcadores sociais) fazem também com que os alunos incluam ou excluam membros nos seus grupos, pois de acordo com os entrevistados 60% deles possui grupos dentro da escola, que são escolhidos mediante afinidades (características) de cada um. As falas abaixo reafirmam esse ponto: “eu acho que o aluno se torna vítima pelo jeito dele ser, dele se vestir...” (Aluno J. M., 15 anos). “eu acho que se a pessoa anda com tabacudos, e só fala besteiras e é feio todo mundo vai zoar ele...” (aluno G. P., 17 anos). “se o cara for feio, preto e crente já era meu velho... vão pegar no pé dele...” (alunos P. S. M., 14 anos). Estratégias para combater e reduzir essa violência dentro da escola O último ponto destacado são estratégias citadas pelos alunos para reduzir e combater essa violência entre pares na escola, que conforme gráfico 4, teve o seguinte resultado: Estratégias para redizuir e combater a violência na escola 10% 20% 40% 30% Conversas sobre o tema Psicólogos na escola Projetos de ocupação p/ os alunos Policiamento e câmera Gráfico 4 – Estratégias para reduzir e combater a violência na escola. 18 5. Considerações finais A temática dessa pesquisa versa sobre uma problemática, a relação dos marcadores sociais com a violência entre pares adolescentes que se desenvolve atualmente no contexto escolar. Com o intuito de analisar essa relação e a concepção que os atores escolares têm desse assunto, realizamos observação de uma turma da 6ª série e entrevistas com professores e alunos. Confirmando os dados da literatura (Camacho 2001, Abramovay 2004, Fante 2005, entre outros) que estabelecem uma ligação entre os adolescentes, a violência escolar e os marcadores sociais e a necessidade de um maior debate, a nossa pesquisa ratifica a banalização da violência simbólica no espaço escolar, pois é considerada como algo próprio à adolescência. A violência travestida de brincadeira reproduz a exclusão de adolescentes que não se enquadram no padrão estético estabelecido pelo grupo de pares. De acordo com Camacho (2001), a forma perversa com que o preconceito e a discriminação circulam entre os adolescentes é justamente pela via da brincadeira, o que os torna insensíveis à dor e à angustia daquele que é alvo de gozação. As concepções dos entrevistados acerca do conceito de violência diferem bastante, pois enquanto a maioria dos alunos define a violência apenas como agressões físicas, os professores já percebem uma outra modalidade de violência que é a verbal. A violência simbólica por ser sutil e facilmente travestida pouco foi citada tanto por alunos quanto por professores. Percebemos por parte dos alunos que as diversas formas de violência, por já serem tão normais em seu cotidiano, não são levadas a sério, só sendo percebida quando praticada na sua forma mais expressiva, que é a violência física. Já por parte dos professores percebemos uma maior compreensão do assunto abordado, pois para eles violência não é apenas agressão física, mas também agressões verbais que humilham e intimidam e que, no entanto, só são conhecidas por muitos, como brincadeiras indisciplinadas. Mesmo tendo essa conceituação mais ampliada os docentes não intervêm no sentido de trabalhar esses temas em sala de aula com seus alunos. Não há o devido aproveitamento das situações de violência sutil no sentido de levar os adolescentes e jovens a repensarem os seus regimes de sociabilidade, as suas posturas preconceituosas e práticas discriminatórias. 19 Outro ponto destacado e que nos chamou bastante atenção na relação professor-aluno é quanto à interferência dos professores nas cenas de violência dentro das escolas. Enquanto a maioria dos docentes afirma intervirem nos episódios de agressões físicas, os alunos os contradizem relatando que os professores só interferem quando estas cenas acontecem dentro da sala aula atrapalhando o desenvolvimento da aprendizagem. Percebemos com isso a indiferença da escola no que diz respeito a esse assunto, pois não vemos na sua proposta pedagógica metodologia adequada para se trabalhar o assunto, permitindo que cada vez mais essa violência adentre nas escolas como afirma Camacho “onde ocorre a ausência de proposta educativa, a escola não funciona como retradutora dos valores sociais e termina por permitir que os valores sociais predominantes invadam o seu ambiente sem nenhum filtro educativo” (2001, p. 09). Também queremos ressaltar a posição que os alunos se colocam diante dos episódios de violência, afirmando serem sempre vítima, sentindo incomodo em assumir a posição de agressor, o que também é percebido na fala dos professores quando relatam não haver alunos agressores na escola e dizem que o que existe entre eles são brincadeiras agressivas típicas da idade em que se encontram, confirmando “Que esses alunos, por estarem num processo de busca da afirmação da identidade, tendem a rejeitar aqueles que não pertencem ao seu grupo e que apresentam características diferentes das suas” (Erickson 1987, apud Camacho 2001, p.10). Ao chegarmos à escola julgamos precipitadamente ser um lugar calmo, pois apesar de nosso foco ser a violência sutil pensávamos que iríamos encontrar a violência explicita logo de inicio. Ao longo do período de observação e na ocasião das entrevistas podemos presenciar e escutar relatos que dizem de uma linha tênue entre a violência verbal e a física. Localizamos também alguns adolescentes que podem ser localizados como vítimas, pois estão claramente em situação de exclusão dos grupos. Como ninguém liga mesmo para o que está acontecendo com eles, como ninguém vem em seu socorro passam a considerar a sua exclusão natural, por vezes ate merecedora, embora geralmente essa aceitação ou resignação não represente um aplacamento do seu sofrimento por estar à margem. Eis a dinâmica psíquica de uma vítima da violência simbólica entre pares. 20 Interessante notar dentro do conceito de violência que todos os professores no inicio das entrevistas afirmavam que a escola não era violenta, no entanto relataram no decorrer destas, vários momentos de violência dentro da escola, mostrando dessa forma que ainda há certo incômodo em assumir explicitamente que a relação escola x violência faz parte do seu cotidiano profissional. Em relação aos marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares podemos notar que todos os professores durante conversas informais afirmam ser realmente os marcadores sociais uma das causas da violência entre pares, no entanto durante as entrevistas constatamos que apenas metade destes faz essa ligação. Apesar de falarem da presença de vários marcadores sociais percebemos que estes dão grande ênfase ao marcador estético, pois afirmam que estes podem ser os grandes responsáveis na hora de apelidar ou xingar, o que trás quase sempre conseqüências mais sérias, como agressões do tipo física. Já na percepção dos alunos, por estarem diretamente envolvidos na violência observada por nós, a grande maioria afirma que os diversos tipos de agressões estão amplamente associados com os marcadores sociais, uma vez que todas as vítimas relatam possuir alguma característica que os deixam nessa posição. Confirmando o que ressalta Abramovay “que os fatores externos referem-se à explicação de ordem socioeconômica, ao agravamento das exclusões sociais, raciais e de gênero, a perda da referencia entre os jovens, ao surgimento de galeras, gangues, trafico de drogas, desestruturação familiar, a perda do espaço de sociabilidade” (2004, p. 182). Como já citamos anteriormente o marcador social que prevaleceu foi o marcador estético que mostrou ser responsável por grande parte das violências ocorridas, mostrando dessa forma que há certo preconceito em relação ao diferente (aqui se entende por diferente quem não segue o mesmo padrão estético exigido na sociedade, que seja ele de corpo, de moda, etc.) o que é afirmado por Lourdes Bandeira (2002) “o preconceito implica sempre uma relação social. Aparece como um modo de relacionar-se com “o outro” diferente, a partir da negação ou desvalorização da identidade do outro e da supervalorização ou afirmação da própria identificação” (p. 131). Dessa forma, é percebido que essa afirmação da identidade, típica do momento em que 21 estes alunos encontram-se, faz com que os mesmo incluam ou excluam membros do seu grupo. Já o marcador econômico que pensávamos ser bastante significativo nesse processo mostrou-se pouco presente, uma vez que os alunos residiam na mesma comunidade e pertenciam à mesma classe social. Em última análise, resolvemos solicitar tanto dos alunos quanto professores a indicação de praticas que consideram eficazes para reduzir e combater a violência entre pares. Eles sugeriram como principal medida um maior investimento na educação associada à área da violência, como palestras sobre o assunto e psicólogos presentes nas escolas. Essas sugestões também são citadas por Camacho, quando afirma que “é preciso repensar a escola, analisar seu currículo e redirecionar as suas ações para que sejam superadas essas crises de socialização” (2001, p. 15). Os alunos sugerem em menor proporção projetos de ocupação para adolescentes, policiamento e câmeras, deixando transparecer dessa forma que precisam de mecanismos de repressão para agir com ética dentro da sociedade. Já os professores sentem a necessidade de uma maior interação entre a família e a escola, trabalhando desde a base familiar até o setor educacional. Para ajudar nesse quadro vários programas de combate a violência escolar vem sendo desenvolvido nos últimos anos, como o programa Educar para a paz, o programa de Redução do comportamento agressivo entre estudantes (ABRAPIA e Petrobrás) entre outros. Diante do que foi exposto verificamos ser mesmo a violência entre pares no contexto escola influenciada pelos marcadores sociais, tanto nos posicionamentos das vítimas quanto dos agressores e que por estes marcadores sociais que explicitam fatores trazidos da sociedade para dentro da escola é necessário para o seu combate, que a escola se torne um espaço aberto para constante reflexão e discussões de questões importantes para a formação dos alunos, integrando a comunidade nesse processo de debate educativo, já que é nela que estes marcadores aparecem e se fortalecem. 22 6. BIBLIOGRAFIA ABRAMOVAY, M., Violência nas escola. 4ª Ed. Brasília: Unesco, 2004. AQUINO, J. G. Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas. Ed. 2ª São Paulo: Summus, 1998. BANDEIRA, L., BATISTA, A. S. Preconceito e discriminação como expressões de violência. Em Estudos Feministas, em Abril de 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br>. Acesso em: 14/04/2008. BECKER, D. O que é adolescência. 10 Ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. BULLYING. Disponível em: <www.bullying.com.br> acesso em 10/09/07. CAMACHO, L. As sutilezas das fases da violência nas práticas escolares de adolescentes. Educação e Pesquisa, São Paulo, vol. 27, n.1, jan./jun. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br>. Acesso em: 12/09/2007. CASTRO, M. et.al. Cultivando vida, desarmando violência: experiência em educação, cultura, lazer, esporte e cidadania com jovens em situação de pobreza.Brasília: Unesco, Brasil Telecon, Fundação Kellogg, 2001. CERVO, A. L. Metodologia cientifica. São Paulo: Makron Books, 1996. CHAUÍ, M. Uma ideologia perversa. In: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 14 de março de 1999. COLOMBIER, C. et.al. A violência nas escolas.2 Ed. São Paulo: Summus, 1989. ENCICLOPÉDIA WIKIPÉDIA. Disponível <http:pt.wikipedia.org/wiki/viol%c3%aancia>. Acesso em: 21/11/2007. em: ENDERLE, C. Psicologia da adolescência: uma abordagem pluridimensional. 5 Ed. Porto Alegre, MG: Arte Médicas, 1988. ERICKSON, E. H. Identidade: juventude e crise. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. FANTE, C. Fenômeno Bullying: como previnir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. Ed rev. e ample. Campinas, SP: Versus Editora, 2005. GUIMARÃES, A. M. A Dinâmica da violência escolar: conflito e ambigüidade. Campinas, SP: Contemporânea, 1996. GODOY, A. S. Pesquisa qualitativa: tipos de fundamentos. Revista de administração, São Paulo, vol. 35, n. 3, 1995. 23 LEVISKY, D. W. (Org.). Adolescência e violência: ações comunitárias na prevenção “conhecendo, articulando, integrando e multiplicando”. São Paulo: Casa do Psicólogo / Hebraica, 2001. LUDKE, M. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: E.P.U., 1986. ODÁLIA, N. Que é violência. São Paulo: Brasiliense, 1983. BY PLENÁRIO VIRTUAL IN EDUCAÇÃO PUBLISHED. Disponível em: <http://saladeaula.terapad.com>. Acesso em 10/09/07. SANTOS, J. V. T. A violência na escola: conflitualidade social e ações civilizatórias. Educação e pesquisa, São Paulo, vol.27, n.1, jan./jun.2001. Disponível em: <http://www.scielo.br>. Acesso em: 16/01/2008. SPOSITO, M. A instituição escolar e a violência. Cadernos de pesquisa, São Paulo: Fundação Carlos Chagas / Cortez n. 104, 1998. APÊNDICE I Roteiro de entrevista do aluno 1. Iniciais do nome / idade / sexo / tempo nessa escola I. Conceito de violência 2. O que é violência para você? 3. O que entende por violência física? 4. Você já foi xingado ou apelidado pelos seus colegas? Você considera isso violência? 5. E você já se sentiu constrangido, ameaçado ou humilhado pelos seus colegas? Porque você acha que eles fizeram isso com você? II. Posicionamento nos episódios de violência 6. Neste último mês teve algum momento de violência entre seus colegas, na hora do recreio ou no horário da aula, que você tenha presenciado? Como agiu? O que sentiu? 7. Você já foi vítima de violência por algum colega? Por quê? 8. Você já agrediu, brigou com algum colega? Por quê? 9. Os professores ou algum funcionário da escola interferem quando as brigas começam? E nas situações de xingamentos o que eles fazem? 24 10. Onde geralmente acontecem essas cenas no recreio ou na sala de aula? 11. O que você faria para combater e reduzir essa violência dentro dessa escola? III. Marcadores sociais e violência entre pares 12. Você acha que seus colegas lhe agridem ou lhe humilha por alguma característica física ou pelo seu jeito de ser? 13. Você lembra-se de algum colega que acaba sendo vítima das brincadeiras ou até das agressões? Quais as características dele? 14. Você possui grupo ou turma dentro da sala? Como costuma escolher as pessoas para fazerem parte de sua turma? 15. Se pudesse se descrever, quais principais características você mencionava? APÊNDICE II Roteiro de entrevista do professor 1. Iniciais do nome / idade / sexo / tempo que ensina nessa escola / quanto tempo leciona / formação / quais turmas que ensina I. Percepção do local de trabalho 2. Essa escola é violenta? II. Conceito de violência 3. O que é violência? 4. Você já presenciou situações de humilhação ou intimidação entre seus alunos? 5. Você considera essas situações como violência? III. Percepção sobre os alunos 6. Nas turmas da 6ª série, os alunos costumam ser violentos? 7. Os atos de violência podem está relacionados a fase (adolescência) que estes se encontram? 8. Quais as características da adolescência? 25 IV. Marcadores sociais e violência 9. Na sua concepção estes alunos que sofrem humilhações e/ou agressões têm alguma característica que chama atenção? 10. Que características você acha que mais chama atenção dos alunos na hora de escolherem as vítimas para as cenas de violência que muitas vezes são encaradas como brincadeiras? 11. Nos episódios de violência que você costuma, os envolvidos são geralmente meninos, meninas ou os dois na mesma proporção? V. Posicionamento do professor diante do fenômeno 12. Qual sua atitude diante de episódios de interações sociais marcados por humilhações ou intimidações entre seus alunos adolescentes? 13. Você tem alguma sugestão para combater ou reduzir a violência dentro dessa escola? 26