Violência entre pares adolescentes no contexto escolar
Muriel Rodrigues Vieira 1
Roberta Patrícia C. Siqueira 2
Jaileila de Araújo 3
RESUMO
A violência nas escolas é um grande problema e tem ocupado os mais diversos atores
sociais. Buscamos neste trabalho entender como os marcadores sociais que permitem
a localização dos indivíduos quanto ao gênero, raça, religião, orientação sexual e
padrão estético, estão presentes nos episódios de violência entre pares no contexto
escolar. Sendo esta uma pesquisa de natureza qualitativa o registro das informações
ocorreu através da técnica de observação de uma turma da sexta série do Ensino
Fundamental e de entrevistas semi-estruturadas com alunos e professores. A análise
dos dados permitiu concluir que estes marcadores estão bastantes presentes nessas
cenas de violência, destacando-se o marcador estético, como sendo de fundamental
importância no momento do posicionamento dos envolvidos entre vítimas ou
agressores.
Palavras-chaves: Violência entre pares. Marcadores sociais. Contexto escolar
1. Introdução
Após experiências proporcionadas pela disciplina de Pesquisa e Prática
Pedagógica, que permitiu um contato maior com o contexto escolar e
participações em seminários sobre a temática da violência nas escolas,
percebemos ser de grande importância estudos nessa área. Chamou-nos
particularmente atenção a violência que atinge e também é utilizada pelos
adolescentes, dado sua associação com marcadores que estabelecem uma
definição e diferenciação segregatória entre grupos sociais. Apesar da
gravidade e da necessidade de reflexões sobre esse tema, são poucos os
estudos existentes.
Até em nosso próprio curso notamos que freqüentemente questões do
cotidiano das escolas como a indisciplina, a violência e os preconceitos são
1
Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. [email protected]
Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. [email protected]
³ Professora do Departamento de Psicologia e Orientações Educacionais – Centro de
Educação – [email protected]
2
pouco abordado, sendo dada grande atenção a assuntos estritamente
pedagógicos como os planejamentos ou teorias da educação, deixando os
futuros educadores sem o conhecimento necessário para saber agir nesses
casos. Consideramos essa pesquisa de grande relevância para todos os
educadores, educandos e atores que compõe o corpo escolar, pois aborda
justamente formas de expressão sutil da violência que por serem travestidas de
brincadeiras são banalizadas e consideradas como algo próprio à idade
adolescente.
Durante nossos estudos, buscamos compreender como os episódios de
violência entre pares no contexto escolar expressam a influencia dos
marcadores sociais no posicionamento das vítimas e agressores, utilizando
como campo de pesquisa uma turma do Ensino Fundamental de uma
instituição Estadual da Cidade do Recife. Buscamos definir as modalidades de
violência entre pares que aparecem na escola, observando os marcadores
sociais que se fazem presentes nesses episódios, bem como analisar a
concepção dos adolescentes e professores a respeito desse assunto.
Na nossa sociedade a ocorrência de violência nas escolas ganha
visibilidade na década de 80, conforme estudo realizado por Mary Castro
(2003). No entanto, atualmente tem se constituído um grande problema social,
pois, cotidianamente, presenciamos diversos episódios envolvendo agressões
físicas, verbais e simbólicas4 aos atores do contexto escolar, pois isso ocorre
uma vez que “a escola não tem cumprido seu papel de harmonizar, porque sua
função socializadora não se tem evidenciado, provocando, assim, um espaço
onde o aluno tem construído uma experiência de violência”. (Dubert, 1991
apud Camacho, 2001, p. 8).
Esse grande índice de violência escolar, no entanto, pode ser atribuído
tanto à fatores externos ao espaço escolar, tais como o contexto social
baseado no tráfico de drogas e uso de armas que torna a sociedade cada vez
mais violenta, refletindo dessa forma na instituição educacional; quanto à
fatores internos, sendo estes relativos ao clima escolar baseado em relações
de poder.
4
Violência que se caracteriza pelo estabelecimento de uma relação pautada na superioridade de um em
detrimento do outro, reproduzindo a lógica da desigualdade social (Chauí, 1999).
2
Pesquisas realizadas nessa área vêm crescendo desde 2002 e
atualmente têm apontado alguns tipos de violência que acontecem entre os
alunos como sendo as mais freqüentes. Entre essas violências, podemos citar
o bullying que de acordo com Fante, “É um conjunto de atitudes agressivas,
intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por
um ou mais alunos contra outro(s), causando dor, angústia e sofrimento”.
(2005, p.28). Apesar de esse tipo de violência ser mais comum na Europa (daí
o motivo de ter sido investigado primeiramente lá), já encontramos diversos
relatos de sua ocorrência no Brasil.
Outro tipo de violência entre alunos, muito disseminada nas escolas
brasileiras, é a violência que tem servido de objeto para nosso estudo – a
violência entre pares e que tem como atores principais alunos adolescentes,
pela dificuldade típica da idade de se lidar com as diferenças. Orientadas por
uma perspectiva psicossocial consideramos que esse tipo de violência é
bastante influenciado por marcadores sociais (quer sejam eles de gênero, de
raça, padrão estético, de classe social ou de crença), à medida que suas
vítimas, na maioria das vezes apresentam alguns desses marcadores como
responsáveis pela sua não aceitação no grupo dos iguais.
Partimos assim da compreensão de que os valores sociais adentram o
espaço escolar, de modo que, através da indiferença a esse tema, reproduz-se
a exclusão e discriminação de determinados indivíduos e grupos sociais. A
escola perde assim a oportunidade de ser uma instituição que combate a lógica
da desigualdade social, principalmente entre adolescentes que estão vivenciam
a oportunidade de reconstruir seus valores morais e reformular seus projetos
ético-políticos de posicionamento perante os dilemas da vida social.
2. Marco teórico
2.1. A Violência e suas múltiplas definições
Para compreendermos os episódios da violência entre pares dentro do
contexto escolar é imprescindível conceituar o termo violência. Esse termo é
muito complexo e apresenta diferentes sentidos, variando com o contexto onde
for inserido. Ao estudá-lo nos deparamos com uma grande dificuldade, a
3
multiplicidade de compreensões a seu respeito, evidenciando a fragilidade das
suas fronteiras. A violência se confunde, se interpenetra, se inter-relaciona com
a agressão de modo geral e/ou com a indisciplina, quando ocorre na esfera
escolar.
O termo violência5 deriva do latim violentia (que por sua vez define
qualquer comportamento ou conjunto de vis, (força, vigor); aplicação de força,
vigor, contra qualquer coisa ou ente. E é definida como “um comportamento
que causa dano a outra pessoa, ser vivo ou objeto. Nega-se autonomia,
integridade física ou psicológica e mesmo a vida de outro. É o uso excessivo
de força, além do necessário ou esperado”. Temos um conceito bem amplo de
violência quando conceituamos a partir de uma enciclopédia, especificando
todas as possibilidades das práticas violentas de forma bem concreta.
De acordo com Fante (2005), no setor Jurídico, sucintamente, violência
é, em relação às pessoas, “agressão”, em relação a objeto, “roubo”. Este setor
preocupa-se em estudar a prática do ato, seja ele contra qualquer coisa ou
ente para a aplicação da punição de acordo com as normas morais e sociais
estabelecidas por nossa sociedade.
Para a psicologia, a violência é uma agressividade gratuita e cruel, que
denigre e causa danos, tanto ao agressor como a vítima. Nesta área
percebemos um estudo mais detalhado abrangendo todos os envolvidos nesta
violência e temos também uma preocupação para o que levam os mesmos a
estas práticas.
Na visão de filósofos, sublinhados por Fante (2005), a violência deve ser
algo evitado, pois que obstaculiza a auto-realização humana. Esta percepção
ampla e subjetiva permite várias interpretações sobre o tema.
Na base social, temos, segundo Fante, “que os atos de violência
apresentam-se hoje na consciência social não apenas como crimes,
homicídios, roubos ou delinqüência, mas nas relações familiares, nas relações
de gênero, na escola e nos diversos aspectos da vida social” (2005, p. 156).
Com essa definição percebemos que o conceito de violência não se refere
apenas as agressões físicas, mas também aos preconceitos, as intimidações e
5
Na enciclopédia on-line Wikipédia, disponível em <http:pt.wikipedia.org/wiki/viol%c3%aancia>
acesso em: 21/11/2007
4
humilhações que devem ser estudadas em seu contexto sócio-histórico e
cultural.
Abramovay mostra que um dos pioneiros dos estudos sobre a paz,
Johan Galtung, possui um conceito bem mais amplo e complexo do termo
violência, pois o entende como “tudo o que causa a diferença entre o potencial
e o atual, entre o que foi e o que é. Nesse sentido uma definição possível de
violência é toda ação que impede ou dificulta o desenvolvimento” (2001, p. 22).
Essa conceituação nos leva a pensar nas conseqüências da violência para o
desenvolvimento
humano,
enquanto
um
fator
que
constrange
o
desenvolvimento pleno, comprometendo as potencialidades dos sujeitos. Se
pensarmos que em alguns bairros das grandes cidades brasileiras crianças são
impedidas de ir à escola por conta da “guerra” entre os traficantes e também se
lembrarmos de alguns relatos de adolescentes e jovens que se evadiram da
escola porque não agüentavam mais ser alvo de gozações pelos colegas
conseguiremos visualizar as limitações impostas pela violência que retira o
direito de ir e vir, que subsume o direito à diferença.
Após essa explanação das definições desse termo, pudemos perceber a
amplitude do conceito de violência, em suas variadas áreas de estudo, ficando
clara a fragilidade de suas fronteiras e a complexidade de estudar esse
assunto.
Ao iniciarmos nossa pesquisa nos depararmos com a diversidade de
caminhos que poderíamos seguir para trabalhar a violência na escola. Num
primeiro momento nosso interesse foi investigar casos de bullying, que
segundo Fante “acarreta enorme prejuízo a formação psicológica, emocional e
sócio-educacional do indivíduo que é vitimizado por esse fenômeno” (2005, p.
9).
O bullying repercutiu no Brasil há poucos anos, porém já foram
desenvolvidos vários programas anti-bullying buscando combater e intervir
nesta violência. A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância
e Adolescência (ABRAPIA) tem um projeto patrocinado e apoiado pela
Petrobrás que tenta combater essa violência em 11 escolas do Município do
Rio de Janeiro, das quais 09 são públicas e 02 particulares. O projeto observou
que a forma como ele é praticado varia de uma escola para outra. Nas
particulares, por exemplo, valorizam-se muito os bens materiais, como: carro,
5
tênis importado, marcas de roupas, etc. Nessas instituições, não possuir algum
desses bens pode ser motivo para perseguição, somada também as diversas
formas de violência explicita na sociedade de classe média em que estes estão
inseridos. Já nas escolas públicas, a principal razão é a própria violência
vivenciada cotidianamente pela comunidade (não descartando a perseguição
causada pelos bens materiais), pois como esses alunos estão mais expostos a
diversos tipos de violência acabam por internalizar estes comportamentos e
disseminá-los no ambiente escolar.
Investigar o bullying exigiria de nós uma abordagem clínica de
acompanhamento de alguns casos, pois ele circunscreve características
psicológicas tanto da vítima quanto do seu agressor. Sem dizer que teríamos
de despender um tempo considerável para localizar esses casos, uma vez que
quando perguntávamos aos professores ou diretores das escolas sobre o
bullying muitos não sabiam o que era. Optando por uma linha menos clínica e
mais psicossocial e resolvemos investigar a violência entre pares adolescentes
definida como a expressão de relações inter-pessoais onde os adolescentes /
alunos impõe algo sobre seus iguais (outro adolescente) de forma que este ato
possa ferir, magoar, constranger, humilhar, ou mesmo causar danos a alguém.
(Fante, 2005; Abramovay, 2004; Guimarães, 1996; Colombier, 1989; Levisky,
2001).
A violência entre pares acontece entre pessoas da mesma faixa etária,
que dividem os mesmos espaços, e estão num nível de desenvolvimento
cognitivo semelhante, e por isso também pode ser chamada de “violência entre
os iguais”. Que tem como atores principais alunos adolescentes, pela
dificuldade típica da idade de lidar com as diferenças. E, contudo promovendo
a constituição de tribos, galeras ou gangues dentro das escolas, juntando-se
em grupos de iguais, podendo gerar, assim, mais violência.
Os adolescentes por estarem vivenciando o processo psíquico de
construção
identitária,
pautado
nos
mecanismos
de
identificação
e
diferenciação tornam-se bastante influenciados pelos marcadores sociais de
gênero, raça, classe, crença, padrão estético, orientação sexual. Com base
nesses marcadores elegem, são eleitos ou excluídos dos grupos que passam,
nesse segmento etário, a ser a principal referência de identidade.
6
2.2 Violência entre pares no contexto escolar
A adolescência é uma fase de transição, período de transformações, na
qual a criança recebe subsídios para tornar-se um adulto. Para alguns autores
a adolescência é definida como o correspondente psicossocial da puberdade
que, por sua vez, corresponde às mudanças anátomo-fisiológicas vivenciadas
por homens e mulheres da espécie humana.
A puberdade, segundo Becker “é apenas um fenômeno que ocorre
durante a adolescência e tem limites bem mais precisos e estreitos. É o
período da vida em que o individuo se torna apto para a procriação” (2003,
p.18). As alterações físicas propiciam alterações psicológicas sob a forma de
novos comportamentos, atitudes e pensamentos, moldados conforme os
contextos sócio-culturais de participação dos adolescentes.
Em nossa sociedade ainda predomina uma visão de adolescência
correlacionada a: aborrecimentos, indisciplina, agressividade e muita rebeldia.
Essa visão faz com que sejam atribuídos, precocemente, características muito
generalizadoras
e
errôneas
aos
adolescentes,
causando
grandes
conseqüências ao desenvolvimento psicológico dos mesmos.
Levisky (2001) relata que a rebeldia, própria do desenvolvimento
adolescente, geralmente é uma busca de auto-afirmação. Incrementada pela
cultura atual, esta irreverência pode gerar violência e transgressão. Diante
dessa análise, percebemos como o meio social interfere no desenvolvimento
desses adolescentes. Muitos autores defendem que a rebeldia de um
adolescente é conseqüência da falta de algo, seja de ética dentro das escolas,
seja de atenção e carinho na família.
Interessa-nos particularmente uma outra característica da adolescência
que é a necessidade de agrupar-se, ou seja, de estabelecer relações sociais
com seus iguais. Muitas vezes, para serem aceitos, em um determinado grupo
os adolescentes modificam seus pensamentos, inibem atitudes e reformulam
sua identidade.
Segundo Enderle, “o processo adolescente visa, fundamentalmente, a
conquista de si mesmo, isto é, afirmar-se numa identidade própria, resultado de
uma longa e penosa revisão das vivências infantis e das identificações
estabelecidas anteriormente” (1988, p. 23). Este período de revisão e
reformulação de conceitos, de muita turbulência nas idéias deve ser superado
7
para o estabelecimento de sua identidade. Para ser estabelecido a identidade é
imprescindível esse processo de um afastamento do modo de funcionamento
infantil, uma vez que, por razões tanto internas quanto externas, uma outra
dinâmica afetivo-cognitiva deve se estabelecer.
O adolescente, nesta fase, pode estabelecer certa distância da família e
passa a privilegiar a sociabilidade dos iguais, esse grupo assume o papel de
matriz identitária. Porém o grupo pode ao invés de contribuir para a conquista
da autonomia, ter o papel inverso e contribuir no processo de submissão, de
modo que o adolescente passa a fazer tudo o que o grupo quer, sem nenhuma
possibilidade de análise crítica, por medo de perder essa referência dos iguais.
Como os adolescentes passam a maior parte do seu tempo dentro das
escolas, ela se torna um espaço propício à construção desses grupos,
possibilitando a formação de galeras, tribos ou gangues, sendo as duas
primeiras, na maioria
das vezes,
boas influências
para auxiliar no
desenvolvimento da autonomia. No entanto, quando o adolescente decide se
referenciar nas gangues, fica vulnerável a transgressões e criminalidade
propriamente dita.
Contudo, é percebível a facilidade com que esses adolescentes são
influenciados, por isso faz-se necessário que as instituições de ensino
dediquem-se à humanização das relações sociais, questione as desigualdades
sociais, respeite e incentive a multiculturalidade existente em nosso país, para
que consiga desenvolver adultos sociáveis, compreensivos e bem menos
hostis.
Nossa sociedade vive de acordo com o sistema capitalista que
consequentemente trás para a sala de aula suas características, sendo estas
influenciadoras dos nossos jovens que ficam expostos ao individualismo
competitivo. Nesse regime social incentiva-se a hostilidade, o desprezo, o
desrespeito com aqueles que são diferentes, que não se enquadram nas
expectativas sociais, repercutindo nas escolas sob a forma da violência
simbólica endereçada ao pobre, negro, tímido, que mora na periferia, que não
usa o tênis da marca da moda, só para citar algumas discriminações.
Nos dias atuais, percebemos ser o clima escolar um propiciador da
violência dentro deste espaço, pois a escola não tem cumprido sua função de
equidade entre os alunos, e acaba confundindo equidade com homogeneidade,
8
fechando assim os olhos para a individualidade ao tratar todos como iguais,
sem levar em conta as diferenças pessoais.
Disso já decorre outro agravante dessa violência, que são as relações
interpessoais vividas dentro da escola, pois para se ter um ambiente agradável
e amistoso, é preciso que cada pessoa tenha seu espaço preservado e
respeitado pelos demais, ou seja, tenha boas relações com os outros, e
quando isso não acontece ou por parte dos alunos, ou dos professores, ou dos
demais que compõe a equipe pedagógica, contribui para que todos,
principalmente os alunos, tornem esse ambiente violento, pois de acordo com
Fante, “Todo esse clima gerado pela escola recai sobre os alunos,
desenvolvendo um conglomerado de sentimentos, que se apresenta desde a
apatia até a explosão de agressividade e violência...”. (2005, pág.187).
Os alunos envolvidos em episódios de violência na escola estão na faixa
etária que varia dos 11 aos 18 anos, compreendendo assim o período da
adolescência. Já os fatores externos à escola que podem contribuir para que
essa se torne um espaço violento, estão o contexto social, os meios de
comunicação e a família, todos carregados por fatores que tornam tanto a
sociedade como a escola violenta, pois segundo Camacho “Onde ocorre a
ausência de proposta educativa, a escola não funciona como uma retradutora
dos valores sociais e termina por permitir que os valores sociais predominantes
invadam o seu ambiente sem nenhum filtro educativo.” (2001, p.9)
Dentre esses valores sociais de que estamos falando, podemos citar no
nosso contexto social, o preconceito de gênero, que a sociedade fortalece ao
excluir tanto mulheres como homossexuais por julgarem os mesmos inferiores
aos homens; o preconceito de raça, onde os brancos são tidos como melhores;
o preconceito de credo, ao fortalecer o catolicismo e desmerecer as demais
religiões; o preconceito de classe ao favorecer uma minoria que tem condições
de bem “sobreviver” ao mundo capitalista do consumismo; e o preconceito
estético, que despreza todos que não fazem parte do padrão de beleza
socialmente valorizado.
Os meios de comunicação, por sua vez, alimentam o preconceito e a
discriminação ao veicularem situações onde “os diferentes” são destratados,
menosprezados, ou alvo de gozações e brincadeiras com teor pejorativo. Com
esse viés de atuação a televisão [meio de comunicação mais utilizado no
9
Brasil] perde a perspectiva educativa criticamente orientada e acaba
contribuindo para o aumento da violência simbólica na sociedade e na escola.
Segundo Fante, “Existe uma grande relação entre a televisão e a construção
da identidade e do comportamento não só dos adolescentes, mas de toda a
sociedade”. (2005, p.171)
A família, pela via de uma atitude explicitamente preconceituosa ou
através da sutileza das brincadeiras, gozações, acaba repassando o viés
preconceituoso e excludente. Mesmo quando não é preconceituosa, mas se
omite da tarefa educativa pela indisponibilidade ao diálogo e atribuição dessa
tarefa a mídia / escola acaba contribuindo para uma sociabilidade violenta,
pautada na reprodução das relações de domínio e submissão.
Então
como
podemos
perceber,
os
marcadores
sociais
estão
amplamente enraizados nos fatores externos, que adentram nas escolas,
tornando esta cada vez mais hostil, pois segundo Abramoway, “Os fatores
externos referem-se à explicação de ordem socioeconômica, ao agravamento
das exclusões sociais, raciais de gênero, à perda de referência entre os jovens,
ao surgimento das galeras, gangues, tráficos de drogas, desestruturação
familiar, à perda do espaço de sociabilidade” (2004, p. 182), fazendo com que
estes, ao invés de serem eliminados, perpassem por todos os setores da
sociedade, inclusive a instituição escolar. Os marcadores sociais são um dos
grandes e possíveis inspiradores da violência entre pares, surgidas no contexto
social e que adentram o contexto escolar e encontram nos adolescentes o
suporte para sua reprodução.
Considerando o marcador relações de gênero, apesar de todas as
transformações acionadas pelo movimento feminista, ainda predomina uma
relação hierarquizada entre homens e mulheres, muitas vezes alimentada pelo
sistema educacional que reproduz estruturas de poder, de privilégio de um
sexo sobre outro e veicula através dos livros didáticos (Aquino, 1998).
No caso do preconceito racial, percebemos claramente que a separação
entre brancos e negros (sendo estes considerados de nível inferior) é
amplamente disseminada em nossa sociedade, que reserva os melhores
colégios para os brancos e que cria leis de cotas para os negros.
Quanto à discriminação social, observamos que esta já começa na
própria separação das escolas, ou seja, escola para ricos (privada) e para
10
pobres (pública). Entre os alunos, observa-se a influência da sociedade de
consumo que valoriza o ter em detrimento do ser. Os códigos de aproximação
e distância são estabelecidos em função do acesso a bens e serviços, tais
como tênis, roupas, aparelhos eletrônicos, atividades de lazer que podem ou
não compartilhar.
As manifestações de intolerância religiosa, por sua vez, estão entre os
mais antigos e complexos conflitos (Aquino, 1998), dada a valorização da
religião católica que foi, inclusive, a responsável pelo início do processo de
escolarização na sociedade brasileira. Disso resultou uma história de
preconceito com relação aos demais credos e crenças.
O paradigma estético da atualidade valoriza corpos magros, sarados,
cabelos loiros e lisos. A adolescência é um momento onde meninos e meninas
têm que se refazer em termos de imagem corporal. A exigência pela perfeição
estética tem gerado um profundo sentimento de inadequação para muitos
adolescentes que acabam por se envolver em situações limites produzindo
quadros de anorexia e bulimia, ou se submetendo à técnicas invasivas de
transformação corporal, como o uso de anabolizantes para bem responder ao
que as revistas de moda, novelas e propagandas veiculam como sendo o
modelo de beleza.
São esses os marcadores sociais que consideramos como balizadores
dos preconceitos e discriminações expressos no contexto escolar no campo
das relações entre adolescentes e que circunscrevem a violência sutil entre
pares causando dor e angústia em quem sofre tal violência.
Para que possamos acabar com esse quadro, cabe a escola
proporcionar aos seus alunos um modelo de relação respeitosa e pautada no
questionamento das desigualdades sociais. Acreditamos que só questionando
essas desigualdades e agindo em prol da justiça social que uma nova
sociedade e uma nova escola podem ser vislumbradas.
3. Delimitação de objetivos
Em torno desse tema de investigação, estabelecemos como objetivo
geral de nossa pesquisa compreender como os episódios de violência entre
pares no contexto escolar expressam a influência dos marcadores sociais no
11
posicionamento das vítimas e agressores. E como objetivos específicos: 1)
Analisar a compreensão dos professores e adolescentes sobre a violência no
contexto escolar, considerando as modalidades de violência física, verbal e
simbólica; 2) Localizar os marcadores sociais que se fazem presentes nos
episódios de violência entre pares (racial, religioso, econômico, cultural, sexual,
de gênero, estético); 3) Identificar, segundo a concepção de professores e
alunos, estratégias de combate e redução dos episódios de violência no
contexto escolar.
4. Metodologia
Para atender ao objetivo de compreender como os marcadores
sociais participam da dinâmica da violência entre pares adolescentes no
contexto escolar optamos por uma pesquisa do tipo qualitativa, pois de acordo
com Cervo (1996, pág.49) “as pesquisas que se utilizam da abordagem
qualitativa possuem a facilidade de poder descrever a complexidade de um
determinado problema”.
Recorremos a duas técnicas para o registro de informações: a
observação, que segundo Ludke (1986) é o principal método de investigação
que possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno
pesquisado; e a entrevista que propicia o estabelecimento de uma interação,
uma atmosfera de influências recíprocas entre quem pergunta e quem
responde (Ludke, op.cit.).
Para a efetivação de nossa pesquisa entramos em contato com uma
Escola Pública da Rede Estadual do Recife, localizada na RPA3, situada nos
entorno da comunidade de Sítio dos Pintos. A turma observada é bastante
heterogênea (composta tanto por adultos quanto por adolescentes), com
aproximadamente 26 alunos, todos moradores dos arredores da escola. Neste
espaço nos foi concedida autorização para observarmos (durante um mês) e
entrevistarmos alunos e professores pertencentes a 6ª série do ensino
fundamental. Dentre esses selecionamos 10 alunos (escolhidos através das
observações, prevalecendo os mais envolvidos com atitudes violentas, seja
como vítimas ou como agressores) e 04 professores (escolhidos por serem os
mais presentes na escola) para serem entrevistados.
12
As observações aconteceram tanto na sala de aula quanto no pátio
(durante intervalos / aulas vagas), já as entrevistas foram feitas em momentos
acordados por nós (pesquisadoras e atores da escola). As entrevistas foram
gravadas e transcritas para análise utilizando as observações como suporte
para a seleção dos professores e alunos a serem entrevistados.
Os roteiros das entrevistas encontram-se no apêndice I e II.
Ressaltamos que no contato com o campo de investigação encontramos nos
discursos de alunos e professores referência à modalidade de violência
doméstica, o que sugerimos para aprofundamento em estudos futuros.
Procederemos agora à apresentação e análise dos dados registrados. O
procedimento de análise está pautado na perspectiva compreensiva do
fenômeno social e visa estabelecer uma relação entre a empiria e a teoria
pautada nas categorias de análise: modalidades de violência entre pares
(verbal, física, simbólica) e marcadores sociais presentes na violência simbólica
entre pares.
4. Análise de resultados
4.1. Analisando as questões dos professores
Nessas entrevistas foram analisados os seguintes pontos: percepção do
local de trabalho, conceito de violência, percepção sobre os alunos,
marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares e seu
posicionamento diante do fenômeno. Ressaltamos que em cada um destes
pontos foram feitas várias perguntas que serviram de base para alcançarmos
nossos objetivos, e que tais perguntas foram sendo adaptadas conforme o
desenvolvimento das entrevistas.
Perfil do professor:
Perguntas
Idade
Sexo
P1
43 anos
Masculino
P2
45 anos
Feminino
P3
42 anos
Masculino
Função
Prof. Matemática
Prof. Geografia
Prof. Português
Formação
Matemática
Geografia /
especialização
Tempo de ensino
3 anos
25 anos
Letras /
especialização
/ bacharelado
14 anos
P4
49 anos
Feminino
Prof. Física /
Química
Química
22 anos
13
Tempo que ensina
nessa escola
3 anos
5 anos
10 anos
18 anos
Turmas que leciona
6ª série e Ensino
Médio
Ensino
Fundamental e
Médio
Ensino
Fundamental e
Médio
Ensino
Fundamental
e Médio
Entrevistamos todos os professores que tinham contato com os alunos
adolescentes. Destes professores apenas metade lecionavam na turma
observada, pois muitas disciplinas estavam ainda sem professores.
Percepção do local de trabalho
Todos dos professores afirmaram que a escola não é violenta e se
justificam fazendo a relação entre essa escola e outra que apresenta um maior
índice de violência, como podemos localizar na fala de P2 “em relação as
outras escolas, essa escola não é violenta não.”
Destacamos o fato do
professor exercer uma comparação entre a sua escola e outra de nível mais
baixo, deixando assim de ter como referência uma escola de qualidade melhor
e que inclusive pudesse inspirar mudanças na sua. Percebemos um pouco de
incomodo por parte do docente em assumir que trabalha em um lugar violento
e certa conformidade à situação.
Conceito de violência
A maioria dos professores conceituam a violência como sendo um ato
físico e verbal, e apenas uma pequena porcentagem conseguem associar
essas duas modalidades de violência e ainda acrescenta a violência simbólica,
que na fala de P4 associa violência simbólica a gestos quando diz, “até uma
cara feita pode ofender alguém”.
Apesar de todos dos professores considerarem apelidos, intimidações,
humilhações (A. verbal) como uma forma de violência, apenas metade
relataram já terem presenciado estes episódios. No entanto de acordo com as
nossas observações esse tipo de violência foi a que mais predominou durante
o tempo em que estivemos na escola, onde fica claro que a violência simbólica
geralmente vem travestida de brincadeiras e acaba sendo banalizada. Durante
as observações percebemos cotidianamente que os alunos se agrediam com
palavras, de forma natural, sendo as mães o alvo das gozações e apesar de
alguns ficarem chateados essas ações eram tidas como brincadeiras.
14
Percepção sobre os alunos
Todos os professores asseguram que seus alunos não são violentos,
porém relatam que existem muitas brincadeiras agressivas e xingamentos
entre eles, fazendo muitas vezes uma ligação entre essas brincadeiras e a fase
etária em que os alunos se encontram (adolescência). Pois muitos professores
associam a fase da vida em que estão com a busca da auto-afirmação. O
relato abaixo exemplifica essa situação:
“quando os alunos chegam, eles não se cumprimentam com um “boa noite”,
mas sim com tapas e chutes ou com apelidos grosseiros...” (professor P1).
Marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares
Em conversas informais com os professores, todos afirmam haver uma
relação entre os marcadores sociais e a violência estudada, sendo o marcador
estético o mais citado, no entanto quando fomos para as entrevistas
propriamente dita apenas metade reafirmam essa relação e dizem que ela
interfere no momento de selecionar quem será vítima, e os demais afirmam
que essa violência tem causas banais.
Posicionamento dos professores diante do fenômeno
Quanto à intervenção dos professores nos momentos das agressões, a
maioria destes diz interferir só nas ocasiões de agressão verbal, recorrendo ao
diretor nos casos de agressões físicas. O restante dos professores não se
envolve nessas ocasiões.
Quanto às sugestões citadas pelos professores para reduzir e combater
essa violência aparece, em maior proporção, investimentos em educação
ligados a esse assunto e uma maior parceria com a família destes
adolescentes, seguidos pela presença de psicólogos nas escolas.
4.2. Analisando as questões dos alunos
Perfil dos alunos: os 10 alunos entrevistados têm uma faixa etária que
varia dos 12 aos 18 anos (adolescentes), sendo 06 meninos e 04 meninas, que
estão cursando a 6ª série do Ensino Fundamental no turno da noite.
Nas entrevistas realizadas com os alunos foram analisados os seguintes
tópicos: conceito de violência, posicionamentos nos episódios de violência,
marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares e estratégias
para combater e reduzir essa violência dentro da escola.
15
Salientamos que para cada um destes tópicos foram feitas várias
perguntas que serviram para introduzir perguntas posteriores, fazendo com que
estas não ficassem soltas.
Conceito de violência
Quanto ao conceito que
os alunos possuem
sobre
violência,
percebemos que 60% (Gráfico 1) relacionam esta apenas com agressões do
tipo física, considerando as outras formas (verbal e simbólica) como
brincadeiras. No entanto quanto ao conceito de violência física, foi unânime a
resposta que caracteriza esta como “ato de agredir com pancadas”.
Conceito de violência na percepção dos alunos
Violência = A.
verbal / física /
simbólica
10%
60%
30%
Violência = A.
verbal / física
Violência = A.
física
Gráfico 1 – Conceito de violência na percepção dos alunos
Apesar dos alunos em sua maioria não reconhecerem a violência verbal
(apelidos, xingamentos ou ameaças) como uma forma de violência, 90% dos
alunos dizem já ter sido apelidados, xingado ou ameaçado por outros colegas e
afirmam não ter gostado da situação, caracterizando-a como violência.
Posicionamentos nos episódios de violência
Percebemos que a violência simbólica apesar de não ser notada por
muitos (pois a maioria dos alunos pensa só ter violência em cenas de
agressões física) está bastante presente no cotidiano da escola, pois 60% dos
alunos afirmam ter presenciado no mês da observação (Março / 2008), cenas
de violência entre seus colegas. Como, por exemplo, apelidos que levam em
consideração um paradigma estético em alguns casos levam à violência física.
Podemos notar isto no seguinte relato: “o moleque ficava me zoando de orelha
de abano, até que um dia só dei uma no meio da cara dele, nunca mais ele me
zoou, até da escola saiu...” (Aluno F.F.R., 15 anos).
16
Um ponto que nos chamou bastante atenção foi o fato dos alunos em
sua maioria se identificarem como vítimas das cenas de violência, nunca
assumindo a posição de agressor, pois 70% dos alunos relatam já terem sido
vitimas de agressões dentro das escolas. No entanto, quando perguntamos aos
alunos entrevistados se eles já se comportaram como agressores nesses
episódios, todos (100%) disseram que não.
Quanto à visão que os alunos têm da interferência de professores e
funcionários nessas cenas de violência, 70% dos alunos afirmam que estes
atores interferem quando a violência acontece na sala prejudicando a aula. Os
alunos ainda afirmam que cenas desse tipo acontecem em qualquer lugar
(Gráfico 2), pois nem a presença do professor intimida mais os alunos. A
seguinte fala retrata esse aspecto “ninguém tem mais medo de professor e
diretor não, se eles tirarem onda, é capaz de entrar no cacete também...”
(aluno R. S., 17 anos).
Locais onde ocorrem cenas de violência
Pátio
20%
40%
Sala de aula
Ambos
40%
Gráfico 2 – Locais onde ocorrem cenas de violência
Marcadores sociais e sua relação com a violência entre pares
Podemos identificar, de acordo com as entrevistas dos alunos, que estes
possuem uma clara percepção de que por trás dessas cenas de violência,
estão os marcadores sociais que contribuem para sua disseminação, pois 90%
dos entrevistados dizem que essa violência tem relação com características
(marcadores sociais) presentes nas vítimas.
Dentre as características (Gráfico 3) mais mencionadas pelos alunos,
que faz com que uma pessoa se torne vítima da violência entre pares,
podemos citar o marcador estético (modo de se vestir, deficiência, tipo de
cabelo, etc.) como sendo o principal.
17
Marcadores sociais mais comuns nas vítimas
10%
10%
Econômico
Religioso
50%
30%
Racial
Estético
Gráfico 3 – Marcadores sociais mais comuns nas vítimas.
Tais características (os marcadores sociais) fazem também com que os
alunos incluam ou excluam membros nos seus grupos, pois de acordo com os
entrevistados 60% deles possui grupos dentro da escola, que são escolhidos
mediante afinidades (características) de cada um. As falas abaixo reafirmam
esse ponto:
“eu acho que o aluno se torna vítima pelo jeito dele ser, dele se vestir...” (Aluno
J. M., 15 anos).
“eu acho que se a pessoa anda com tabacudos, e só fala besteiras e é feio
todo mundo vai zoar ele...” (aluno G. P., 17 anos).
“se o cara for feio, preto e crente já era meu velho... vão pegar no pé dele...”
(alunos P. S. M., 14 anos).
Estratégias para combater e reduzir essa violência dentro da escola
O último ponto destacado são estratégias citadas pelos alunos para
reduzir e combater essa violência entre pares na escola, que conforme gráfico
4, teve o seguinte resultado:
Estratégias para redizuir e combater a violência na escola
10%
20%
40%
30%
Conversas sobre o
tema
Psicólogos na escola
Projetos de ocupação
p/ os alunos
Policiamento e
câmera
Gráfico 4 – Estratégias para reduzir e combater a violência na escola.
18
5. Considerações finais
A temática dessa pesquisa versa sobre uma problemática, a relação dos
marcadores sociais com a violência entre pares adolescentes que se
desenvolve atualmente no contexto escolar. Com o intuito de analisar essa
relação e a concepção que os atores escolares têm desse assunto, realizamos
observação de uma turma da 6ª série e entrevistas com professores e alunos.
Confirmando os dados da literatura (Camacho 2001, Abramovay 2004,
Fante 2005, entre outros) que estabelecem uma ligação entre os adolescentes,
a violência escolar e os marcadores sociais e a necessidade de um maior
debate, a nossa pesquisa ratifica a banalização da violência simbólica no
espaço escolar, pois é considerada como algo próprio à adolescência. A
violência travestida de brincadeira reproduz a exclusão de adolescentes que
não se enquadram no padrão estético estabelecido pelo grupo de pares.
De acordo com Camacho (2001), a forma perversa com que o
preconceito e a discriminação circulam entre os adolescentes é justamente
pela via da brincadeira, o que os torna insensíveis à dor e à angustia daquele
que é alvo de gozação.
As concepções dos entrevistados acerca do conceito de violência
diferem bastante, pois enquanto a maioria dos alunos define a violência apenas
como agressões físicas, os professores já percebem uma outra modalidade de
violência que é a verbal. A violência simbólica por ser sutil e facilmente
travestida pouco foi citada tanto por alunos quanto por professores.
Percebemos por parte dos alunos que as diversas formas de violência,
por já serem tão normais em seu cotidiano, não são levadas a sério, só sendo
percebida quando praticada na sua forma mais expressiva, que é a violência
física. Já por parte dos professores percebemos uma maior compreensão do
assunto abordado, pois para eles violência não é apenas agressão física, mas
também agressões verbais que humilham e intimidam e que, no entanto, só
são conhecidas por muitos, como brincadeiras indisciplinadas.
Mesmo tendo essa conceituação mais ampliada os docentes não
intervêm no sentido de trabalhar esses temas em sala de aula com seus
alunos. Não há o devido aproveitamento das situações de violência sutil no
sentido de levar os adolescentes e jovens a repensarem os seus regimes de
sociabilidade, as suas posturas preconceituosas e práticas discriminatórias.
19
Outro ponto destacado e que nos chamou bastante atenção na relação
professor-aluno é quanto à interferência dos professores nas cenas de
violência dentro das escolas. Enquanto a maioria dos docentes afirma
intervirem nos episódios de agressões físicas, os alunos os contradizem
relatando que os professores só interferem quando estas cenas acontecem
dentro da sala aula atrapalhando o desenvolvimento da aprendizagem.
Percebemos com isso a indiferença da escola no que diz respeito a esse
assunto, pois não vemos na sua proposta pedagógica metodologia adequada
para se trabalhar o assunto, permitindo que cada vez mais essa violência
adentre nas escolas como afirma Camacho “onde ocorre a ausência de
proposta educativa, a escola não funciona como retradutora dos valores sociais
e termina por permitir que os valores sociais predominantes invadam o seu
ambiente sem nenhum filtro educativo” (2001, p. 09).
Também queremos ressaltar a posição que os alunos se colocam diante
dos episódios de violência, afirmando serem sempre vítima, sentindo incomodo
em assumir a posição de agressor, o que também é percebido na fala dos
professores quando relatam não haver alunos agressores na escola e dizem
que o que existe entre eles são brincadeiras agressivas típicas da idade em
que se encontram, confirmando “Que esses alunos, por estarem num processo
de busca da afirmação da identidade, tendem a rejeitar aqueles que não
pertencem ao seu grupo e que apresentam características diferentes das suas”
(Erickson 1987, apud Camacho 2001, p.10).
Ao chegarmos à escola julgamos precipitadamente ser um lugar calmo,
pois apesar de nosso foco ser a violência sutil pensávamos que iríamos
encontrar a violência explicita logo de inicio. Ao longo do período de
observação e na ocasião das entrevistas podemos presenciar e escutar relatos
que dizem de uma linha tênue entre a violência verbal e a física. Localizamos
também alguns adolescentes que podem ser localizados como vítimas, pois
estão claramente em situação de exclusão dos grupos. Como ninguém liga
mesmo para o que está acontecendo com eles, como ninguém vem em seu
socorro passam a considerar a sua exclusão natural, por vezes ate
merecedora, embora geralmente essa aceitação ou resignação não represente
um aplacamento do seu sofrimento por estar à margem. Eis a dinâmica
psíquica de uma vítima da violência simbólica entre pares.
20
Interessante notar dentro do conceito de violência que todos os
professores no inicio das entrevistas afirmavam que a escola não era violenta,
no entanto relataram no decorrer destas, vários momentos de violência dentro
da escola, mostrando dessa forma que ainda há certo incômodo em assumir
explicitamente que a relação escola x violência faz parte do seu cotidiano
profissional.
Em relação aos marcadores sociais e sua relação com a violência entre
pares podemos notar que todos os professores durante conversas informais
afirmam ser realmente os marcadores sociais uma das causas da violência
entre pares, no entanto durante as entrevistas constatamos que apenas
metade destes faz essa ligação. Apesar de falarem da presença de vários
marcadores sociais percebemos que estes dão grande ênfase ao marcador
estético, pois afirmam que estes podem ser os grandes responsáveis na hora
de apelidar ou xingar, o que trás quase sempre conseqüências mais sérias,
como agressões do tipo física. Já na percepção dos alunos, por estarem
diretamente envolvidos na violência observada por nós, a grande maioria
afirma que os diversos tipos de agressões estão amplamente associados com
os marcadores sociais, uma vez que todas as vítimas relatam possuir alguma
característica que os deixam nessa posição. Confirmando o que ressalta
Abramovay “que os fatores externos referem-se à explicação de ordem
socioeconômica, ao agravamento das exclusões sociais, raciais e de gênero, a
perda da referencia entre os jovens, ao surgimento de galeras, gangues, trafico
de drogas, desestruturação familiar, a perda do espaço de sociabilidade” (2004,
p. 182).
Como já citamos anteriormente o marcador social que prevaleceu foi o
marcador estético que mostrou ser responsável por grande parte das violências
ocorridas, mostrando dessa forma que há certo preconceito em relação ao
diferente (aqui se entende por diferente quem não segue o mesmo padrão
estético exigido na sociedade, que seja ele de corpo, de moda, etc.) o que é
afirmado por Lourdes Bandeira (2002) “o preconceito implica sempre uma
relação social. Aparece como um modo de relacionar-se com “o outro”
diferente, a partir da negação ou desvalorização da identidade do outro e da
supervalorização ou afirmação da própria identificação” (p. 131). Dessa forma,
é percebido que essa afirmação da identidade, típica do momento em que
21
estes alunos encontram-se, faz com que os mesmo incluam ou excluam
membros do seu grupo.
Já o marcador econômico que pensávamos ser bastante significativo
nesse processo mostrou-se pouco presente, uma vez que os alunos residiam
na mesma comunidade e pertenciam à mesma classe social.
Em última análise, resolvemos solicitar tanto dos alunos quanto
professores a indicação de praticas que consideram eficazes para reduzir e
combater a violência entre pares. Eles sugeriram como principal medida um
maior investimento na educação associada à área da violência, como palestras
sobre o assunto e psicólogos presentes nas escolas. Essas sugestões também
são citadas por Camacho, quando afirma que “é preciso repensar a escola,
analisar seu currículo e redirecionar as suas ações para que sejam superadas
essas crises de socialização” (2001, p. 15). Os alunos sugerem em menor
proporção projetos de ocupação para adolescentes, policiamento e câmeras,
deixando transparecer dessa forma que precisam de mecanismos de repressão
para agir com ética dentro da sociedade. Já os professores sentem a
necessidade de uma maior interação entre a família e a escola, trabalhando
desde a base familiar até o setor educacional.
Para ajudar nesse quadro vários programas de combate a violência
escolar vem sendo desenvolvido nos últimos anos, como o programa Educar
para a paz, o programa de Redução do comportamento agressivo entre
estudantes (ABRAPIA e Petrobrás) entre outros.
Diante do que foi exposto verificamos ser mesmo a violência entre pares
no contexto escola influenciada pelos marcadores sociais, tanto nos
posicionamentos das vítimas quanto dos agressores e que por estes
marcadores sociais que explicitam fatores trazidos da sociedade para dentro da
escola é necessário para o seu combate, que a escola se torne um espaço
aberto para constante reflexão e discussões de questões importantes para a
formação dos alunos, integrando a comunidade nesse processo de debate
educativo, já que é nela que estes marcadores aparecem e se fortalecem.
22
6. BIBLIOGRAFIA
ABRAMOVAY, M., Violência nas escola. 4ª Ed. Brasília: Unesco, 2004.
AQUINO, J. G. Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas.
Ed. 2ª São Paulo: Summus, 1998.
BANDEIRA, L., BATISTA, A. S. Preconceito e discriminação como expressões de
violência. Em Estudos Feministas, em Abril de 2002. Disponível em:
<http://www.scielo.br>. Acesso em: 14/04/2008.
BECKER, D. O que é adolescência. 10 Ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.
BULLYING. Disponível em: <www.bullying.com.br> acesso em 10/09/07.
CAMACHO, L. As sutilezas das fases da violência nas práticas escolares de
adolescentes. Educação e Pesquisa, São Paulo, vol. 27, n.1, jan./jun. 2001. Disponível
em: <http://www.scielo.br>. Acesso em: 12/09/2007.
CASTRO, M. et.al. Cultivando vida, desarmando violência: experiência em educação,
cultura, lazer, esporte e cidadania com jovens em situação de pobreza.Brasília: Unesco,
Brasil Telecon, Fundação Kellogg, 2001.
CERVO, A. L. Metodologia cientifica. São Paulo: Makron Books, 1996.
CHAUÍ, M. Uma ideologia perversa. In: Folha de S. Paulo, Caderno Mais, 14 de março
de 1999.
COLOMBIER, C. et.al. A violência nas escolas.2 Ed. São Paulo: Summus, 1989.
ENCICLOPÉDIA
WIKIPÉDIA.
Disponível
<http:pt.wikipedia.org/wiki/viol%c3%aancia>. Acesso em: 21/11/2007.
em:
ENDERLE, C. Psicologia da adolescência: uma abordagem pluridimensional. 5 Ed.
Porto Alegre, MG: Arte Médicas, 1988.
ERICKSON, E. H. Identidade: juventude e crise. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.
FANTE, C. Fenômeno Bullying: como previnir a violência nas escolas e educar para a
paz. 2. Ed rev. e ample. Campinas, SP: Versus Editora, 2005.
GUIMARÃES, A. M. A Dinâmica da violência escolar: conflito e ambigüidade.
Campinas, SP: Contemporânea, 1996.
GODOY, A. S. Pesquisa qualitativa: tipos de fundamentos. Revista de administração,
São Paulo, vol. 35, n. 3, 1995.
23
LEVISKY, D. W. (Org.). Adolescência e violência: ações comunitárias na prevenção
“conhecendo, articulando, integrando e multiplicando”. São Paulo: Casa do Psicólogo /
Hebraica, 2001.
LUDKE, M. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: E.P.U.,
1986.
ODÁLIA, N. Que é violência. São Paulo: Brasiliense, 1983.
BY PLENÁRIO VIRTUAL IN EDUCAÇÃO PUBLISHED. Disponível em:
<http://saladeaula.terapad.com>. Acesso em 10/09/07.
SANTOS, J. V. T. A violência na escola: conflitualidade social e ações civilizatórias.
Educação e pesquisa, São Paulo, vol.27, n.1, jan./jun.2001. Disponível em:
<http://www.scielo.br>. Acesso em: 16/01/2008.
SPOSITO, M. A instituição escolar e a violência. Cadernos de pesquisa, São Paulo:
Fundação Carlos Chagas / Cortez n. 104, 1998.
APÊNDICE I
Roteiro de entrevista do aluno
1. Iniciais do nome / idade / sexo / tempo nessa escola
I. Conceito de violência
2. O que é violência para você?
3. O que entende por violência física?
4. Você já foi xingado ou apelidado pelos seus colegas? Você considera isso violência?
5. E você já se sentiu constrangido, ameaçado ou humilhado pelos seus colegas? Porque
você acha que eles fizeram isso com você?
II. Posicionamento nos episódios de violência
6. Neste último mês teve algum momento de violência entre seus colegas, na hora do
recreio ou no horário da aula, que você tenha presenciado? Como agiu? O que sentiu?
7. Você já foi vítima de violência por algum colega? Por quê?
8. Você já agrediu, brigou com algum colega? Por quê?
9. Os professores ou algum funcionário da escola interferem quando as brigas
começam? E nas situações de xingamentos o que eles fazem?
24
10. Onde geralmente acontecem essas cenas no recreio ou na sala de aula?
11. O que você faria para combater e reduzir essa violência dentro dessa escola?
III. Marcadores sociais e violência entre pares
12. Você acha que seus colegas lhe agridem ou lhe humilha por alguma característica
física ou pelo seu jeito de ser?
13. Você lembra-se de algum colega que acaba sendo vítima das brincadeiras ou até das
agressões? Quais as características dele?
14. Você possui grupo ou turma dentro da sala? Como costuma escolher as pessoas para
fazerem parte de sua turma?
15. Se pudesse se descrever, quais principais características você mencionava?
APÊNDICE II
Roteiro de entrevista do professor
1. Iniciais do nome / idade / sexo / tempo que ensina nessa escola / quanto tempo
leciona / formação / quais turmas que ensina
I. Percepção do local de trabalho
2. Essa escola é violenta?
II. Conceito de violência
3. O que é violência?
4. Você já presenciou situações de humilhação ou intimidação entre seus alunos?
5. Você considera essas situações como violência?
III. Percepção sobre os alunos
6. Nas turmas da 6ª série, os alunos costumam ser violentos?
7. Os atos de violência podem está relacionados a fase (adolescência) que estes se
encontram?
8. Quais as características da adolescência?
25
IV. Marcadores sociais e violência
9. Na sua concepção estes alunos que sofrem humilhações e/ou agressões têm
alguma característica que chama atenção?
10. Que características você acha que mais chama atenção dos alunos na hora de
escolherem as vítimas para as cenas de violência que muitas vezes são encaradas
como brincadeiras?
11. Nos episódios de violência que você costuma, os envolvidos são geralmente
meninos, meninas ou os dois na mesma proporção?
V. Posicionamento do professor diante do fenômeno
12. Qual sua atitude diante de episódios de interações sociais marcados por
humilhações ou intimidações entre seus alunos adolescentes?
13. Você tem alguma sugestão para combater ou reduzir a violência dentro dessa
escola?
26
Download

Violência entre pares adolescentes no contexto escolar