O DISCURSO DO PROFESSOR: UM ESPAÇO HETEROGÊNEO1 EDUCAÇÃO E LINGUAGEM Carlos Eduardo Machado – PUCPR2 RESUMO O discurso do professor apresenta marcas que podem identificar suas concepções de ensino e, conseqüentemente, seu trabalho em sala de aula. Assim, por meio de pesquisas com profissionais de Língua Portuguesa da área de ensino Superior e Médio, obteremos algumas respostas e apontaremos características importantes sob o olhar da análise do discurso. Analisaremos o corpus por meio das concepções vindas da Análise do Discurso de linha francesa, especificamente sob o foco da formação discursiva heterogênea, faremos a exposição das características mais encontradas, tais como Polifonia, Pressuposição, Negação, Discurso Relatado Direto, bem como os Efeitos de Sentidos que podem ser estabelecidos. Baseados nas considerações realizadas por Maingueneau, apresentaremos as noções teóricas de Interdiscurso, Memória Discursiva e dos demais elementos necessários para as análises. Para a realização da pesquisa de campo, os questionários permitiram o posicionamento aberto e, talvez, bastante pessoal por parte dos docentes, para que tanto a análise, quanto as entrevistas, não fossem direcionadas e pudessem estabelecer o máximo de fidelidade de pensamento com os discursos coletados. Por meio da linguagem, o homem dialoga com a realidade e faz seu discurso o discurso alheio. Portanto, segundo esse princípio de dialogismo, verificaremos a presença constante do outro na constituição de uma formação discursiva. Com a análise realizada, destacaremos a presença de marcas distintivas, nos discursos dos professores que seguem as correntes Tradicional e Estruturalista, de ensino de Língua, propondo a distinção e a regularidade discursiva entre os profissionais das duas correntes. Mesmo apontando os traços distintivos, nosso objetivo maior é desvendar o entrelaçamento de vozes na construção dos discursos. Para tanto, exibiremos fragmentos das respostas obtidas para comprovar a heterogeneidade discursiva. Palavras Chave: Discurso, Heterogeneidade, Interdiscurso e Formação Discursiva O objetivo deste trabalho é analisar a heterogeneidade na formação discursiva do profissional de ensino de Língua Portuguesa. Para tanto, tomaremos como base os dois planos apresentados por Maingueneau: a heterogeneidade mostrada e a constitutiva. 1 O presente artigo é fruto de pesquisa elaborada na disciplina de Análise do Discurso, orientado pelas Professoras Ms. Sandra Batista da Costa e Ms. Rosane de Mello Santo Nicola. 2 Acadêmico do Curso de Letras, 8º Período. 2 Segundo Courtine, a Análise do Discurso trabalha com dois tipos de corpus: o corpus de arquivo, composto por textos pré-existentes, e o corpus experimental, produzido a partir de enquetes empíricas. Neste trabalho, utilizaremos o corpus experimental, uma vez que foram realizadas pesquisas a respeito do significado do Ensino de Língua Portuguesa, bem como do que é ler e escrever, sob a forma de um questionário, destinado a professores de Ensino Médio da Rede Pública de Curitiba e Professores Universitários. Dentre esses, incluem-se lingüistas, profissionais da área de literatura e ensino de língua. É importante ressaltar que as perguntas não foram elaboradas de modo a restringir as respostas dos entrevistados, mas sim, com objetivo de permitir o posicionamento aberto e, talvez, bastante pessoal, para que tanto a análise, quanto as entrevistas, não sejam direcionadas e possam estabelecer o máximo de fidelidade de pensamento com os discursos coletados. Delimitaremos nossa pesquisa ao campo da escrita, percebendo a dificuldade que encontraríamos para realizar a coleta dos questionários, tendo em vista que os entrevistados não dispunham de tempo para realizá-la a pronto momento. Os dados coletados serão analisados utilizando concepções vindas da Análise do Discurso de linha francesa. Por sermos sujeitos de linguagem e constituídos por discursos, tomaremos como ponto de maior relevância nesta pesquisa, verificar as posições identitárias, frutos dos movimentos de identificação, bem como as interpelações dos discursos de outros sobre os discursos analisados. Faremos, portanto, a análise dos discursos, observando os aspectos da formação discursiva, a questão do sujeito, do discurso e ideologia, a presença do interdiscurso e da memória discursiva. NOÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS Primeiramente, entendemos como heterogeneidade discursiva o discurso que não fala sozinho, mas se relaciona com outros. Segundo Sírio Possenti, é aquele no qual se começa a perceber mais claramente a existência da polifonia como marca característica desse discurso. Trata-se, na verdade, do interdiscurso, 2 3 constituído por um complexo de formações discursivas. E será a relação interdiscursiva que estruturará a identidade das Formações Discursivas (doravante FD). Sobre a relação interdiscursiva, Maingueneau (1984) afirma que existe primazia do interdiscurso sobre o discurso, sendo aquele, “um espaço de trocas entre vários discursos convenientemente escolhidos”. O interdiscurso é o domínio do dizível que constitui as formações discursivas. Ou seja, o que pode ser dito em cada formação discursiva depende daquilo que é ideologicamente formulável no espaço do interdiscurso. É no interdiscurso que se constitui o sentido, embora seja próprio de toda formação discursiva dissimular sua dependência do interdiscurso, como se os sentidos fossem sempre nascidos no momento da enunciação. Orlandi (1992) afirma que “o interdiscurso é o conjunto do dizível, histórica e lingüisticamente definido. Pelo conceito de interdiscurso, Pêcheux nos indica que sempre já há discurso, ou seja, que o enunciável (o dizível) já está aí e é exterior ao sujeito enunciador. Ele se apresenta como séries de formulações que derivam de enunciações distintas e dispersas que formam em seu conjunto o domínio da memória. Esse domínio constitui a exterioridade discursiva para o sujeito do discurso”. A Construção da heterogeneidade se dá por meio da memória discursiva, que é o conjunto de discursos que conhecemos, aceitos ou não por nosso pensamento consciente, mas que no momento de produção de um discurso, aparece como forma de representação ideológica e de um pensamento que aproveita diferentes concepções dessas variações discursivas. Helena Nagamine Brandão afirma que “é a memória discursiva que torna possível a toda formação discursiva fazer circular formulações anteriores, já enunciadas. É ela que permite, na rede de formulações que constitui o intradiscurso de uma Formação Discursiva, o aparecimento, a rejeição ou a transformação de enunciados pertencentes a formações discursivas historicamente contíguas. Não se trata, portanto, de uma memória psicológica, mas de uma memória que supõe o enunciado inscrito na história”. Segundo Maingueneau (1983, 1984), “enunciar é se situar sempre em relação a um já dito que se constitui no outro do discurso”. Portanto, percebe-se 3 4 que, numa formação discursiva, é a presença do outro que confere ao discurso o caráter de ser heterogêneo. Segundo Courtine e Marandin, a análise do discurso deve promover ou ressaltar as diferenças existentes em todo discurso, trabalhando com a “heterogeneidade como elemento constitutivo de práticas discursivas que se dominam, se aliam, ou se afrontam em certo estado de luta ideológica e política no seio de uma formação social em uma conjuntura histórica determinada”. Dessa forma, deve-se reconhecer em uma dada formação discursiva, a coexistência de várias linguagens. Ao veicular concepções de mundo, a linguagem torna-se um lugar de confrontos ideológicos. Mikhail Bakhtin, pensador da segunda metade do século XX, afirma que o homem dialoga com a realidade por meio da linguagem, ou seja, é o homem, o mundo e a linguagem interagindo num mesmo processo dialético. Fazendo uma crítica à concepção de língua monológica de Saussure, aquele estudioso considera que, a verdadeira substância da língua é constituída pelo fenômeno social, da interação verbal e que o ser humano é inconcebível fora das relações que o ligam um ao outro. Baseada nesse princípio de dialogismo, AlthierRevuz (1990) apresenta algumas formas de heterogeneidade mostrada que, diferentemente da constitutiva, que pressupõe a presença constante do outro na constituição de uma formação discursiva, utiliza-se de marcas que determinam a voz do outro no discurso. Maingueneau define heterogeneidade mostrada como aquela que “incide sobre as manifestações explícitas recuperáveis a partir de uma diversidade de fontes de enunciação”, enquanto que a heterogeneidade constitutiva é definida por ele como aquela que “aborda uma heterogeneidade que não é marcada em superfície, mas que a análise do discurso pode definir, formulando hipóteses, através do interdiscurso, a propósito da constituição de uma formulação discursiva”. Ainda sobre heterogeneidade, ele afirma que “os múltiplos fenômenos da heterogeneidade mostrada vão bem além da noção tradicional de citação e mesmo daquela, mais lingüística, de discurso relatado (direto, indireto, indireto livre)”. 4 5 Por meio de um agrupamento empírico, Maingueneau apresenta o conjunto de mecanismos que constituem a heterogeneidade mostrada. Citaremos aqueles que são necessários para a análise do nosso corpus: Polifonia, pressuposição, negação, discurso relatado e as palavras entre aspas. Segundo Nagamine Brandão (2004), polifonia “refere-se à qualidade de todo discurso estar tecido pelo discurso do outro, de toda a fala estar atravessada pela fala do outro”. Pressuposição é a marca pela qual percebemos que, na ocorrência de um discurso, uma determinada idéia pré-existe, ou seja, o enunciador supõe que o receptor detenha um conhecimento para que seu discurso seja compreendido. A pressuposição nunca pode ser falsa em relação ao que é dito. Quanto à negação, Maingueneau (1987) afirma ser preciso fazer a distinção de duas proposições em um enunciado negativo: uma proposição primeira e uma outra que a nega. Nela, os enunciados negativos compõem-se normalmente de atitudes antagônicas e atribuídas a dois enunciadores diferentes, em que um assume o ponto de vista rejeitado e o outro, a rejeição desse ponto de vista. Segundo Maingueneau (1987), normalmente distinguem-se três tipos de negação: a metalingüística, a polêmica e a descritiva. O discurso relatado direto caracteriza-se, segundo Maingueneau (1989), “pela aparição de um segundo ‘locutor’ no enunciado atribuído a um primeiro ‘locutor’...Os enunciados relatados em discurso direto são postos entre aspas para marcar sua alteridade. A expressão aspeada é, ao mesmo tempo usada e mencionada, dependendo, conseqüentemente, da conotação autonímica”. Para dar início ao trabalho de análise prática, um último conceito referente ao de discurso heterogêneo é o de sujeito heterogêneo, o qual possui um discurso marcado por várias vozes, não é consciente, nem controla o que diz. O sentido torna-se bastante relevante, quando, percebendo essa heterogeneidade, pode-se concluir que, em princípio, um enunciado não aceita um só sentido. Assim, cabe lembrar que os efeitos de sentido ou as possibilidades de leituras de um enunciado serão de grande importância para que se possa estabelecer as posições identitárias dos profissionais entrevistados, bem como o conceito de 5 6 formação discursiva, definido por Freda Insdursky como o lugar de constituição do sentido. ANÁLISE DO CORPUS Com o objetivo de encontrar elementos e marcas que denotam heterogeneidade no discurso dos professores de Língua Portuguesa, realizamos o seguinte questionário: 1) O que é e qual a importância do ensino de Língua Portuguesa? 2) O que é ler? 3) O que é escrever?. A partir das respostas obtidas dos sete questionários, sendo quatro de professores Universitários e três de Ensino Médio, verificamos que todos os discursos possuem marcas de heterogeneidade. Assim, existe um entrelaçamento de vozes na construção dos discursos. Apresentaremos, então, fragmentos das respostas obtidas, para comprovar esse discurso heterogêneo. É válido salientar que, logicamente, a análise do discurso é realizada a partir de discursos e que, um discurso, não é formado por um único texto, mas por um conjunto de textos. Pêcheux (1990) afirma que “é impossível analisar um discurso como um texto, isto é, como uma seqüência lingüística fechada sobre si mesma, mas que é necessário referi-lo ao conjunto de textos possíveis a partir de um estado definido das condições de produção”. Já Sírio Possenti (2003) afirma que “um discurso nunca equivale a um texto, seja porque pode ‘haver’ mais de um discurso em um mesmo texto, seja, principalmente, porque um discurso se materializa em uma dispersão de textos”. Mesmo assim, pela dificuldade de coleta de um corpus maior para cada professor e desejando realizar uma análise comparada, decidimos considerar a análise discurso por meio de um só texto para cada professor. Contudo, temos como certo que nossas afirmações não serão passíveis de contestação (especialmente se for realizada a mesma pesquisa de modo mais particular a cada professor entrevistado). Dessa forma, destacaremos os elementos que possibilitam uma determinada aproximação e, assim, faremos nossas considerações. POLIFONIA 6 7 “Ler é uma atividade complexa de interação entre autor e leitor, e que se estabelece uma conversa entre mestre e aprendiz”. Esse é um exemplo claro em que há a mistura da voz do locutor com a do outro. Tende, essa afirmação, à concepção sócio-interacionista de linguagem como lugar de ação ou interação, pois, segundo o grande pensador dessa corrente, Lev Vygotsky, o aprendizado é essencial para o desenvolvimento do ser humano e se dá sobretudo pela interação social. Vale lembrar a fala de Bakhtin (1979), “...é um sujeito social, histórica e ideologicamente situado, que se constitui na interação com o outro. Eu sou na medida em que interajo com o outro. É o outro que dá a medida do que sou. A identidade se constrói nessa relação dinâmica com a alteridade”. “Ler é decodificar o mundo, pode ser um texto verbal ou não (pintura, gráfico, charge, etc.)” Nesse caso, podemos perceber a heterogeneidade no momento em que se apresentam elementos que têm inclinação para duas diferentes concepções de linguagens: Tecnicista e Sócio-interacionista. A primeira, ao afirmar que ler é meramente decodificar, pois, para essa concepção o texto é um simples produto da codificação de um emissor a ser decodificado pelo leitor/ouvinte. A segunda, quando cita o trabalho com os diferentes gêneros textuais, pensando que, para os sócio-interacionistas, esse trabalho com diferentes gêneros leva ao letramento. PRESSUPOSIÇÃO “Pode-se dizer que o ensino de língua portuguesa hoje é bastante equivocado. O importante, na verdade, é ensinar a língua portuguesa falada no Brasil, que em muito, difere do português de Portugal“. Ao afirmar que “hoje” o ensino de Língua Portuguesa é equivocado, podemos pressupor que o locutor imaginava que o mesmo não acontecia no passado. Da mesma forma, a expressão “na verdade” possibilita pressupor que 7 8 alguns consideram mais importante a língua que se assemelha à de Portugal , portanto, a linguagem arcaica ou as normas da gramática tradicional. NEGAÇÃO “O ato de ler apresenta um sentido bastante amplo. Antigamente acreditava-se que a leitura era o mero decodificar de signos verbais. Era um conceito muito ligado à noção de alfabetização. Bastava ao indivíduo saber soletrar as palavras e pronto. ... Hoje, está claro que a leitura é um processo. A fase mínima é a decodificação. Percebe-se a necessidade de identificar por que a leitura é feita, com que intenção, quando, como, onde, por quem etc.” Nesse exemplo, a negação é metalingüística, pois, contradiz os termos do enunciado oposto. O locutor assume o enunciado negado e o contexto está explícito (antes e hoje). Essa negação permite a inscrição do discurso no seu exterior. “Ler não é decodificar símbolos, é muito mais do que isso.” Esse fragmento representa bem a negação polêmica, na qual, o enunciador rejeita o que é construído no interior da própria enunciação que o contesta. Faz, dessa forma, a negação do discurso que retoma a concepção de linguagem como instrumento (ferramenta) de comunicação. DISCURSO RELATADO DIRETO “Como dizia Paulo Francis: ‘quem não lê, não sabe. Quem não sabe é um eterno servo’”. Percebe-se que o locutor utiliza o discurso de um terceiro, ao invés de garantir pessoalmente com uma simples afirmação, a verdade do que afirma. De acordo com C. Kerbrat-Orecchioni, “ocultar-se por traz de um terceiro é, freqüentemente, uma maneira hábil por ser indireta de sugerir o que se pensa, 8 9 sem necessitar responsabilizar-se por isso”. Percebe-se, também, que ao citar Paulo Francis, o locutor está protegendo a asserção e dando maior validade a ela. EFEITOS DE SENTIDO Efeito de sentido, como afirmamos anteriormente, é uma possibilidade de leitura e interpretação de um discurso. Portanto, para se chegar ao sentido do texto, percebemos que podem ser plurais essas interpretações. Assim, um discurso possuiria efeitos de sentido, que nos permitem destacar o caráter indentitário dos professores entrevistados. Vejamos alguns exemplos: PROFESSOR 1: “O ensino de Língua Portuguesa é importante porque: a) investiga as potencialidades de escrita e sentidos que a língua dispõe e que não usamos com freqüência; b) investiga as diferentes línguas faladas e escritas existentes no mesmo idioma; c) aperfeiçoa nosso conhecimento de língua padrão; auxilia a compreensão e desenvolve a consciência de uma identidade como povo e nação. Ler é ser capaz de escolher e construir sentidos para os mais diversos textos e linguagens existentes na sociedade. Escrever é organizar, após seleção consciente, o pensamento por meio de palavras e textos, para as mais deferentes funções da língua: comunicação, descoberta, criação, expressão, questionamento, dúvidas, etc”. Por meio da análise do discurso desta professora universitária, podemos afirmar que sua enunciação é marcada por outros discursos. Quando afirma que o ensino de língua portuguesa é importante porque investiga as potencialidades de escrita e sentidos, as diferentes línguas faladas e escritas, o aperfeiçoamento da língua padrão, bem como a compreensão e desenvolvimento da consciência como indivíduo, recorre a sua memória discursiva, mais especificamente tende a pertencer aos conhecimentos e concepções interacionistas de ensino de língua. Afirma, também, que o sentido não é algo pronto, acabado no texto, mas é 9 10 conferido pelo leitor que age no texto. A concepção interacionista destaca o aprendizado pelo trabalho entre os diferentes gêneros textuais. Esses conceitos marcam com clareza o discurso analisado. Contudo, verificamos a presença interdiscursiva, quando percebemos que existe a possibilidade de haver a inclusão das marcas discursivas das correntes Tradicional e Estruturalista de ensino de Língua. A primeira, vê a linguagem como expressão do pensamento. Para isso temos o recorte: “escrever é organizar o pensamento para a expressão”. Já para a corrente estruturalista, a linguagem é instrumento de comunicação, código capaz de transmitir uma mensagem certa ao receptor. Temos a afirmação: “escrever é organizar o pensamento de comunicação”. Percebemos, então, um discurso heterogêneo, com a possibilidade de entendimentos de diferentes efeitos de sentido. Ainda assim, mais fortemente, o discurso é marcado pela concepção interacionista de ensino de Língua. PROFESSOR 2 “O ensino de Língua Portuguesa é uma prática pedagógica de interação em domínio escolar. O valor dessa atividade está na própria interação entre professores e aluno, na influência de um sobre o outro e, portanto, depende de inúmeras variáveis. Ler é uma atividade complexa de interação entre autor e leitor, em que se estabelece uma conversa entre mestre e aprendiz. Escrever é uma atividade de interação que depende da interação comunicativa e, portanto, exige um exercício de constante busca de eficiência na materialização do texto, quanto às condições de produção”. Percebemos que, pelo discurso apresentado, a concepção de ensino de Língua é exclusivamente Interacionista. Contudo, são diversos os efeitos de sentidos apresentados, pois, percebemos que se pretende afirmar que, primeiramente, é uma atividade dependente de conhecimentos pedagógicos, ou talvez que, se fazem necessários para o melhor desenvolvimento da prática. Trata-se de uma atividade que depende do papel individual do professor, do aluno 10 11 e mesmo a interação entre eles. Dentro da concepção interacionista, Geraldi cita que “mais do que possibilitar uma transmissão de informações de um emissor a um receptor, a linguagem é vista como um lugar de interação humana...”. Outro ponto a ser percebido é o de que, em todas as definições, a palavra “interação” é recorrente, para marcar de modo claro e preciso a concepção que se pretende adotar. Afirma, também, que para produzir um texto de modo eficaz é necessário fornecer as condições de produção. Destacamos aqui que, o discurso do outro está tão materializado ou integrado ao da professora entrevistada que não são realizadas citações. Contudo, a voz de pensadores da corrente interacionista está presente, é reconhecível mesmo sem marcas de identificação. Cabe salientar que, essa professora entrevistada realizou o questionário em nossa presença e que, mesmo que não transcritos, seus comentários afirmavam os pensadores responsáveis pelas mesmas idéias e dessa forma, ratificava seu próprio discurso. CONSIDERAÇÕES FINAIS Acreditamos que a realização deste trabalho proporcionou maior segurança para continuar o complexo, porém fascinante aprendizado de Analise do Discurso. Percebemos, de fato, que todos os discursos são marcados pela heterogeneidade de vozes, mesmo que em maior ou menor proporção, ou ainda, marcada ou constitutivamente. A análise do discurso despertou-nos, então, para as diversas vozes que podem compor e se mesclar em um texto e para as enunciações que a partir daí são criadas. Como disse João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos”. Portanto, o discurso homogêneo também não é viável, ou melhor, não é possível, pois, atrás de cada fala já haverá um discurso anterior. Certamente, esta é apenas uma contribuição para o estudo do papel do professor na prática docente, sob o olhar da análise do discurso. É preciso refletir ainda, sobre a concordância do discurso apresentado pelos profissionais e o trabalho realizado em sala de aula. Cabem novos estudos que possam verificar se 11 12 um discurso desdobra-se em atos que condizem com o pensamento apresentado, ou se, equivocadamente, um discurso é tomado no lugar de outro, o que torna incoerente a palavra com a prática docente. Sob o ponto de vista da heterogeneidade, cabem também novas reflexões: quais são os efeitos dessa heterogeneidade de concepções na prática docente? Qual o papel adequado do professor diante dessa variedade discursiva? Esperamos que, com essa pesquisa, algumas perguntas tenham sido respondidas, porém, antes de soluções, deixamos novos questionamentos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ORLANDI, E. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da Unicamp, 1992. MUSSALIM, Fernanda e BENTES, Ana Cristina. Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2001. BRANDÃO, Helena H. 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