FAMÍLIA E SEXUALIDADE: ITINERÁRIOS SECULARES
Jarles Lopes de Medeiros1
Universidade Estadual do Ceará
E-mail: [email protected].
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo discutir as inter-relações entre família, sexualidade e
educação, considerando os aspectos sociais e históricos que perpassam tais relações.
Abordar a temática requer uma contextualização sociocultural, uma vez que a família,
assim como a sociedade, é fundamentada nas interações entre os indivíduos. Utilizamos
como metodologia a pesquisa bibliográfica, com discussões teóricas fundamentadas em
autores como Durkheim (2012), Freyre (2004), Foucault (2011) e Sayão (2011), dentre
outros, o que nos permitiu fazer um percurso histórico acerca da sexualidade humana e
refletir sobre suas implicações no conceito de família. Os resultados indicam que a
compreensão sobre as novas configurações familiares demanda um olhar múltiplo sobre
os indivíduos, considerando suas sexualidades como parte de suas identidades.
Palavras-chaves: Família; Sexualidade; Sociedade.
1. INTRODUÇÃO
A família contemporânea brasileira atravessa uma crise. São inúmeras as
discussões a respeito dessa instituição, envolvendo questões sociológicas, jurídicas,
científicas, dentre outras. Existe uma corrente conservadora que prima pela
configuração clássica de família estritamente patriarcal, formada por pai, mãe e filhos.
Para esses saudosistas, as mulheres se limitariam aos afazeres domésticos enquanto que
os homens, sob o manto do machismo, transitariam livremente por todos os setores
sociais, até mesmo pelas casas de prostituição. Tal configuração familiar tem como
principal função a procriação.
1
Graduado em Pedagogia (UECE) e especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica (FALC).
Professor de Educação Básica na Prefeitura Municipal de Maracanaú. E-mail: [email protected].
Numa sociedade constituída por princípios machistas, os quais são resgatados e
reforçados a cada instante, não se permite olhar as questões sociais e familiares pela
ótica da diversidade. Nessa concepção, resgatar os valores da família é reafirmar o
machismo, violentando as mulheres e as diversidades sexuais.
Até o próprio homem sofre com esse modelo, uma vez que ele tem que
conservar e, muitas vezes, forjar uma virilidade excessiva que o impede de se
emocionar diante dos fatos da vida. Nessa sociedade nos é apresentado um modelo
binário de gênero, em que existe apenas uma forma de ser homem e uma forma de ser
mulher. As diversidades sexuais, tais como as travestis, os transgêneros, os transexuais,
dentre outros, não são consideras nessa demarcação de gênero. A principal característica
que difere o masculino e o feminino ainda é a genitália, o sexo biológico. No entanto,
esquece-se que o conceito de gênero é plural e envolve questões culturais e até mesmo
políticas. Em nossa sociedade, as relações de gênero estão fortemente relacionadas a um
território de disputa entre o masculino e o feminino.
É importante reafirmar que gênero é uma obra cultural, o que implica em
variações históricas e espaciais, e que há a impressão de marcas sociais. A superação do
determinismo biológico é essencial para que possamos pluralizar o conceito de
masculino e feminino, e falar em masculinidades e feminilidades, uma vez que existem
várias formas de ser homem e várias formas de ser mulher. Numa cultura
heteromachista, quando pensamos no ser feminino, imediatamente nos vem à mente, de
uma forma geral, uma mulher de cabelos longos, que utiliza maquiagem
frequentemente, que uma de suas principais características seria a sensibilidade, tendo
na vocação quase que divina de ser mãe a realização suprema.
Nesse contexto, a discussão em torno da família se torna uma questão central
para compreender o atual panorama social brasileiro. Em primeiro lugar, precisamos
pluralizar esse conceito, deixando-o sempre em aberto. Atualmente, fala-se em novas
configurações familiares.
Em tal conceito, não existem mais os papéis tradicionais do pai e da
mãe, legitimados por um pacto público, mas simplesmente os papéis
genéricos de partner, que podem ser varão e mulher, e também,
inclusive, aprovados por um pacto público, porém não
necessariamente. Em suma, estamos diante de uma crescente
pluralização das formas familiares, com forte ataque à família e por
trás do qual vejo delinear-se um dos problemas mais cadentes das
nossas sociedades complexas (BELARDINELLI, 2007, p. 23).
Essa discussão perpassa diversas questões referentes à sexualidade humana,
portanto, é um debate amplo e polimorfo. Para compreendermos as relações familiares
devemos considerar as relações sociais e a forma como lidamos com as gerações
diferentes da nossa. Como veremos adiante, os espaços familiares trazem as marcas
sociais a que pertencem, possuindo um movimento histórico. Assim como a sociedade
muda de séculos em séculos, a família também está em constante movimento. Existe
uma resistência em aceitar algumas mudanças às quais a instituição familiar vem
apresentando nos últimos anos, uma vez que o modelo de família clássico permanece
cristalizado nas mentalidades dos indivíduos.
2. FAMÍLIA: PRIMEIRO ESPAÇO SOCIAL
A turbulência por que passa a família brasileira é reflexo de uma crise social
generalizada. Atualmente, as relações entre os indivíduos estão cada vez mais
comprometidas e o sentimento de pertencimento mútuo a um mesmo grupo social vai se
perdendo de vista. Vivemos na sociedade da competição, do lucro, à qual predomina a
ideologia do egoísmo. Estamos o tempo todo à procura de uma boa qualificação
profissional, de dinheiro para comprar e acumular coisas que descartaremos na primeira
oportunidade.
De acordo com Durkheim (2012a) as relações enriquecem os indivíduos, uma
vez que, juntos, eles compõem a sociedade, formando o ser social. O autor destaca que
esse ser é muito mais do que a mera soma das partes isoladas, que a sociedade é um ser
superior à soma dos indivíduos que a compõem. Sociedade e indivíduo são seres
distintos, não sendo possível falar em sociedade quando não há essa integração. O ser
social objetiva fins morais.
A família é o primeiro espaço social o qual frequentamos, bem como,
posteriormente, a pátria e a humanidade. Essas etapas ou progressões sociais nos
preparam para a fase seguinte, que é a vida em sociedade, o ser social (DURKHEIM,
2012a). Dessa forma, a família, em sua essência, constitui-se como instituição
educativa, de repasse da norma e da cultura, não podendo ser restringida a única função
de procriação.
Sayão (2011) nos chama a atenção para o fato de que na atualidade a construção
de uma família passa pelos princípios consumistas e que um dos sonhos de consumo da
contemporaneidade é ter uma família. No entanto, queremos construí-la mais para exibila para os outros do que para vivenciá-la em sua plenitude. Já não dedicamos tempo
suficiente para o cuidado dos nossos filhos, uma vez que temos que cuidar de nós
mesmos. Não abdicamos dos nossos afazeres em função dos filhos.
A autora aponta que vivemos numa constante busca, não sabemos mais lidar
com sentimentos ruins, o mercado de consumo nos fez acreditar na felicidade constante
e estamos dispostos a pagar o preço que for por isso. Construímos uma família e
mostramos o quanto somos felizes, porém, acabamos por abandoná-la de forma
simbólica. Educar, nesse contexto consumista, aproxima-se mais de uma concessão, da
realização dos desejos. Não queremos desagradar nossos filhos, preferimos realizar suas
vontades e protegê-los dos conflitos urbanos. A família deixa de lado a sua função de
educar, de preparar a criança para o convívio em sociedade. Dessa forma, são os adultos
que não mais sabem a importância das suas funções educativas.
2.1. O diálogo entre gerações e o processo educativo
Com o desenvolvimento cultural e tecnológico houve um incremento do bem
estar social, o que implicou no aumento da qualidade de vida e, gradualmente, a
população foi envelhecendo. Atualmente, para que se haja uma valorização e
compreensão do nosso passado, é fundamental desenvolvermos a capacidade de
relacionamento entre as gerações. No entanto, dificilmente há esse diálogo de forma
consistente, tendo no silêncio e na segregação os seus principais caminhos.
A falta de diálogo entre as gerações reforça a incompreensão generalizada a qual
enfrentamos. Em nossa cultura o envelhecer não é visto como algo positivo e não
valorizamos os saberes experienciais acumulados e aprendidos ao longo da vida. Tais
saberes acabam se perdendo, tornam-se esquecidos ou acabam ficando represados pelo
preconceito e pouco caso que algumas pessoas fazem das pessoas mais experientes. Os
mais jovens se consideram superiores, talvez utilizando como referencia para tal juízo
de valor os seus corpos saudáveis.
Os idosos já não são apenas os nossos avós, doces ou ranzinzas,
exilados num quarto atropelado de “bagulhos” ou “velharias”. Hoje
são muitos, “fazem número”, movimentam-se fora de casa, têm-se
tornado mais e mais visíveis; entretanto, precisam ser considerados
não apenas como alegres e dançantes grupos de “terceira idade”, mas
também como atores coletivos, como segmento populacional que pode
pesar politicamente (MOTTA, 2007, p. 113).
Existe um processo educativo muito rico nesse contato entre as gerações.
Durkheim (2012a) destaca tal importância ao considerar como essencial o repasse
cultural, moral e ideológico assegurado pela família. O autor compara os indivíduos ao
nascerem a uma espécie de tabula quase rasa, considera-os seres associais, que apesar
de alguns repasses garantidos pela hereditariedade, é nesse primeiro espaço familiar que
o sujeito social é constituído lentamente, tornando-se capaz de assimilar a cultura e a
moral vigente. Durante todo o nosso processo de desenvolvimento, do nascimento à
morte, estamos sujeitos às influencias educativas das gerações anteriores.
A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que
ainda não estão maturas para a vida social. Ela tem como objetivo
suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos,
intelectuais e morais exigidos tanto pelo conjunto da sociedade
política quanto pelo meio específico ao qual ela está destinada em
participar (DURKHEIM, 2012b, p. 53-54).
Compreendemos a educação como um fenômeno para além dos espaços
escolares e da sistematização científica, podendo ser realizada nos mais diversos
espaços sociais. Com isso, encontramos no intercâmbio de gerações, iniciado e
assegurado pelas relações familiares, um dos mais preciosos caminhos para que o
processo educativo seja realizado de maneira consistente e relacionado ao movimento
histórico e social, o que proporciona o reconhecimento do sujeito que aprende no sujeito
ensinante.
3. SEXUALIDADE EM DISCURSO: DO MATRIMONIALISMO ÀS NOVAS
CONFIGURAÇÕES FAMILIARES
Para se discutir as relações entre família e sociedade na atualidade é fundamental
que se faça uma reflexão do ponto de vista da sexualidade humana. Vivemos uma
pluralidade nos arranjos familiares. No entanto, de uma forma geral, a sexualidade ainda
define a configuração de família “saudável”. Em pleno século XXI o modelo
matrimonialista, com fins reprodutivos, ou seja, a família heterossexual formada por
homem, mulher e filhos, ainda é o único aceito universalmente.
Tal concepção de família é fruto de uma sociedade machista, que alimenta
preconceitos acumulados ao longo dos séculos, em que as diversidades sexuais ainda
são consideras como desvios e que as mulheres têm como única função a procriação e
os cuidados do lar. É possível que atribuíssemos esse pensamento a uma repressão
velada da sexualidade, uma vez que não temos o hábito de discutir tais assuntos, e
quando isso ocorre é de forma bastante fragmentada, restringindo-se aos aspectos
biológicos, tais como gravidez, meios contraceptivos e Doenças Sexualmente
Transmissíveis (DSTs). Apesar da sexualidade também possuir uma dimensão
biológica, não podemos restringi-la a tais aspectos. A questão biológica é apenas uma
das partes que a compõe, uma vez que existe toda uma teia, uma trama de relações que
constrói a sexualidade humana, manifestando-se em diversas dimensões do nosso
desenvolvimento: física, psicológica, espiritual, social, política e histórica.
Discutir o conceito de família implica considerar as relações dos indivíduos com
suas sexualidades. Foucault (2011) analisa a história da sexualidade durante os séculos e
questiona a ideia de que atualmente vivemos uma repressão sexual. Pelo contrário, a
partir do século XVI vivemos uma crescente liberação sexual e ampliação do termo. Tal
abordagem é realizada a partir de uma análise discursiva, em que a fala das pessoas é o
elemento revelador de seus comportamentos. Durante séculos, as pessoas foram
convidadas a falar, a confessarem suas práticas sexuais.
De acordo com o autor, a história da sexualidade é dividida em dois períodos:
um religioso, vigente principalmente na Idade Média, conhecido como Dispositivo da
Aliança; e o outro científico, o Dispositivo da Sexualidade, que ganhou força a partir do
século XVI até os dias atuais, com o desenvolvimento das ciências modernas. Em
ambas as fases, a sexualidade é compreendida a partir da fala e da confissão das
pessoas.
No primeiro momento, tal revelação se deu dentro do confessionário na Igreja,
no período medieval. O Dispositivo da Aliança vigorou até o final da Idade Média e
tinha um caráter de cunho religioso e moral. Por meio do ato de confissão eclesiástico as
pessoas eram convidadas a falarem de si, do próprio sexo. Dessa forma, era possível
conhecer o comportamento sexual das pessoas a partir da confissão para o padre, ao
mesmo tempo em que a conduta sexual ora exposta era reprimida com punições. Ao
ouvir os fiéis, a Igreja exercia forte poder de controle sobre a população. O sexo era
visto como pecado, e por meio dos rituais de confissões eclesiásticos se buscava uma
verdade moralista, purificadora do corpo e da alma, produzindo, assim, um discurso
moralizante em torno do sexo. Tal discurso visava à preservação dos bons costumes. O
conceito de família se resumia a relação matrimonialista com fins reprodutivos,
condenando, com isso, qualquer diversidade sexual que não tivesse por fim a união
heterossexual e monogâmica destinada à procriação.
É feita uma distinção entre formas de expressão sexual legítimas e
ilegítimas que é organizada em torno de pelo menos três noções
interligadas: casamento, monogamia e procriação. A conduta sexual
que combina com sucesso esses três elementos é compreendida como
legítima e aceita dentro da visão católica do mundo. O comportamento
que não consegue unir esses três elementos fica fora dos limites da
legitimidade e da virtude. É aqui que normalmente entra em jogo a
noção de pecado. (PARKER, 1991, p.116).
Na modernidade, com o aperfeiçoamento e o surgimento de ciências outrora
inexistentes, tem início uma nova concepção a respeito das questões sexuais. Através do
desenvolvimento científico, buscou-se compreender o sexo das pessoas, sistematizandoo, analisando-o a partir de confissões médicas e científicas, desta vez não mais na
Igreja, e sim na confissão nos consultórios médicos, no divã. Houve uma coleta de
dados e análises, a partir do ato de confessar para o médico, na psiquiatria, na pedagogia
e medicina, fazendo surgir uma verdadeira análise das confissões. Nesse contexto, foi
possível criar uma série de discursos em torno do sexo, fazendo surgir o que Foucault
(2011) chamou de Dispositivo da Sexualidade. A partir de então se falava sobre algo
que historicamente foi marcado pelo silêncio e pela repressão: a sexualidade das
pessoas.
Ao falar, ao discursar, o conceito de sexualidade se amplia em diversas áreas.
Sujeitos antes considerados obscuros, inexistentes ou invisíveis vieram à tona se
confessar. O homossexual surge e reivindica respeito, e há uma necessidade de que ele
confesse a sua sexualidade para existir com dignidade. O sádico, as prostitutas, as
travestis, os pedófilos, as histéricas, dentre outros, todos são convidados a confessar
suas sexualidades, emergindo como categorias. O autor afirma que vivemos numa
sociedade discursiva e confessional. Essas ciências possuíam um caráter investigativo
que se utilizava da confissão de seus pacientes para se chegar a uma verdade em torno
do sexo, coletando e arquivando relatos, dados, seja para o controle sexual e
demográfico, para a higienização ou para o melhor entendimento das práticas desviantes
como o sadismo e a pedofilia. A ciência elaborou “[...] um grande arquivo dos prazeres
do sexo [...] assim as sociedades ocidentais começaram a manter o registro infinito de
seus prazeres.” (FOUCAULT, p. 73, 2011).
A partir do século XVIII, para se discutir a heterossexualidade teve que se
levarem em conta as sexualidades circundantes. O sexo não mais pertencia unicamente
à relação matrimonial reprodutora, passando a manifestar suas diversidades, ganhando
um sentido mais amplo. Fala-se, a partir então, numa sexualidade polimorfa, vista de
vários ângulos. O surgimento desse conceito, mais amplo e diverso, está ligado aos
discursos sobre o sexo. Com o advento das ciências no campo sexual, cada vez mais as
sexualidades consideradas desviantes vieram à tona, com relatos considerados outrora
ínfimos e impuros e que se tornaram objeto de análise, de observação, longe de
avaliações de cunho moral, pelo menos no campo científico.
Esse desenvolvimento científico assegurou uma maior compreensão do
conceito de sexualidade, o que acabou refletindo num maior controle sobre os corpos. A
ciência se debruçou sobre as questões sexuais a fim de entendê-las, de sistematizá-las. A
saúde sexual passou a ser um fundamento vital para a perpetuação da espécie humana,
garantida por uma hereditariedade saudável, sem transmissão de doenças, possibilitando
mais longevidade às pessoas. A sexualidade começou a ser desvelada, apresentando
complexidades, enraizada no indivíduo desde os primeiros tempos de vida, tendo na
família os seus primeiros ensaios, como apontou a psicanálise, mostrando sua influência
não só no âmbito das sensações físicas e mentais, mas também na política e no social.
A família burguesa buscava respostas para seus males sexuais: a infertilidade, o
que dificultava a perpetuação de suas riquezas; os transtornos femininos na fase adulta,
tais como os calores e as histerias; o vício da masturbação nos adolescentes; a
sexualidade das crianças; as perversões, etc. Em torno dessa ânsia, dessa obsessão
investigativa, desenvolveram-se uma série de discursos em forma de receitas, respostas,
recatos, silêncios e angústias proferidas por diversos setores sociais e científicos
(FOUCAULT, 2011).
A burguesia construiu, a partir do Dispositivo da Sexualidade, o que Foucault
(2011) chamou de “corpo de classe”, a autovalorização do corpo e do sexo como
caminhos para a longevidade social e econômica, garantida não só pela saúde e,
consequentemente, prolongamento da vida, mas pela transmissão econômica garantida
pela hereditariedade e pela herança. Foi necessário assegurar um mecanismo similar ao
sistema de castas da aristocracia medieval, no qual a nobreza era garantida pela
preservação da pureza do sangue azul. Nesse período, o sangue era garantidor de
nobreza, de diferenciação de classe. No sistema capitalista, a burguesia assegurou a sua
“nobreza”, sua saúde e economia, controlando a saúde sexual e a sexualidade das
pessoas, “[...] o ‘sangue’ da burguesia foi o seu próprio sexo [...] a preocupação
genealógica se tornou preocupação com o legado [...]” (FOUCAULT, p. 136, 2011).
3.1 A família patriarcal no Brasil Colônia
A história da sexualidade e da família no Brasil está ligada ao processo de
colonização. Possui fortes influências europeias, principalmente no que diz respeito à
repressão e à moralidade. A influência religiosa católica, por meio da catequese, tentou
exorcizar os hábitos sexuais dos nativos do Brasil Colônia. Na escravidão, teve-se,
paralelamente à exploração física, moral e social da população negra, sua exploração
sexual. Em meio a essas relações de submissão e exploração, entre colonizador e
colonizado, a sociedade aristocrática brasileira constituiu, lentamente, a sua sexualidade
e suas configurações familiares.
Durante a colonização, os europeus exploraram os povos indígenas que aqui se
encontravam, usurpando suas memórias e culturas. Apesar de serem considerados
selvagens e bárbaros, os índios serviram de base para a construção da sociedade e da
família luso-brasileira com “[...] o aproveitamento da gente nativa, principalmente da
mulher, não só como instrumento de trabalho, mas como elemento de formação da
família” (FREYRE, 2004, p.79).
Como destaca Freyre (2004), a família brasileira se constitui sob as sombras das
plantações de açúcar, nas casas dos grandes fazendeiros. Essa forte base econômica da
riqueza agrícola e do trabalho escravo, solidificou a família patriarcal que surgia nas
primeiras décadas de colonização portuguesa, formada por um grande número de
pessoas, dentre elas os dependentes dos patriarcas, filhos bastardos e escravos. O
Senhor de Engenho era a representação máxima do patriarcado brasileiro.
De acordo com o autor, na escravatura, os negros eram considerados
desprovidos de alma, muitas vezes um animal possuía mais valor. Embora servisse de
alicerce para a acumulação de riquezas no Brasil Colônia, o negro foi violentado física,
espírita e sexualmente pela sociedade da época, o que marcou a constituição da família
brasileira.
A iniciação sexual dos garotos brancos se dava com as mulheres negras e, até
mesmo, com outros meninos negros, mas eram com as mulheres brancas que eles se
casavam. Era comum, na época, o nascimento de filhos bastardos dos grandes
fazendeiros com as escravas. As mulheres dos grandes fazendeiros cometiam
verdadeiras atrocidades com as negras que tinham casos sexuais com seus maridos,
acabando por praticarem torturas e até assassinados impulsionados pelo ciúme. O autor
destaca que o processo de constituição da família brasileira foi marcado pela poligamia.
À “preferência” pelas mulheres negras se juntou uma questão de domínio, de
poder, de violência e humilhação. Tanto pelo fato da escravidão e toda a violência que
tal prática exerceu na história do Brasil, com a subjugação dos negros aos interesses
econômicos e sociais (e sexuais) dos colonizadores, como por parte do machismo
exercido sobre as mulheres que dominava a moralidade da época. A mulher não possuía
direitos equiparados aos dos homens, nem liberdade de escolha, tinha basicamente a
função reprodutora, de satisfazer os maridos, tendo que ser casta e comportada “[...] a
esposa não devia demonstrar nenhum conhecimento sobre sexo. Somente casta e pura
ela seria desejada. Sua ingenuidade seria prova de sua honradez” (PRIORE, 2011, p.
42).
Essa herança do patriarcado resiste e persiste nos dias atuais. Importante
destacar que nesse discurso não estão inclusas as mulheres negras, uma vez que essas
eram consideradas objetos. Ao mesmo tempo em que o povo negro não era visto na
sociedade colonial como ser humano, ele dividia, clandestina e forçadamente, o leito do
casal aristocrático do período. Essa relação de excitação e ódio impregnou a sexualidade
e a vida familiar da época.
3.2 Dispositivo da Aliança no Brasil
No Brasil Colônia, o Dispositivo da Aliança se apresentava em consonância com
os demais países da Europa, seguindo os preceitos gerais, embora se manifestasse de
maneira mais específica, levando em conta os condicionantes locais. A noção de pecado
rondava a sexualidade do povo, e a mulher (não a negra, que era considerada objeto,
portanto fora do discurso oficial) era o alvo principal dos discursos da Igreja em relação
ao sexo. Nesse período, a Igreja reprimia a sensualidade feminina. A mulher,
considerada possuidora de um corpo com latência pecaminosa, tinha que escondê-lo.
Mostrá-lo significava provocar o desejo sexual nos homens, infringindo os princípios
cristãos. Esse excesso de pudor só alimentava o imaginário sexual dessa sociedade.
Criou-se, com isso, uma obsessão em torno do que não se mostrava. A mulher, nessa
sociedade à qual vigorava o Dispositivo da Aliança, tinha função estritamente
reprodutora.
A vagina só podia ser reconhecida como órgão de reprodução, como
espaço sagrado dos “tesouros da natureza” relativos à maternidade.
Nada de prazer. As pessoas consideradas “decentes” costumavam se
depilar ou raspar as partes pudendas para destituí-las de qualquer valor
erótico. Frisar, pentear ou cachear os pelos púbicos eram apanágios
das prostitutas. Tal lugar geográfico só podia estar associado a uma
coisa: à procriação (PRIORE, 2011, p.32).
A noção civilizadora e moralizante a partir de princípios cristãos guiou a
sociedade brasileira durante muito tempo. A sexualidade do povo trouxe as implicações
dessa concepção cristã, do pecado, da repressão, comum nas sociedades em que vigorou
o Dispositivo da Aliança. No entanto, a sexualidade masculina não era negada ao
homem. Para sustentá-la, para garantir-lhe o direito de exercê-la, ele recorria às escravas
e às prostitutas. Ao mesmo tempo em que a mulher tinha que ser recata e com a função
exclusivamente de reproduzir, não demonstrando afeições pelo sexo, as escravas e as
prostitutas saciavam a sede masculina de desejo. Marilena Chauí (1984) diz que as casas
de prostituição são necessárias para as sociedades machistas, em que as mulheres não
podem gostar de sexo, onde têm que casar virgens.
3.3 As novas configurações familiares
No modelo de família clássica, que predominou até meados do século XX,
existia uma dedicação quase que exclusiva aos filhos. Porém, esse modelo nuclear de
família, com funções bem delimitadas de educação e criação, não comporta mais a
complexidade da família contemporânea. Existem várias configurações familiares na
atualidade: mãe e filho, pai e filho, famílias constituídas por pais ou mães do mesmo
sexo, filhos criados somente por avós ou tios, família sem filhos, etc.
O desenvolvimento das ciências modernas e os estudos que contribuíram para a
ampliação do conceito de sexualidade implicaram no surgimento e na compreensão das
diversas concepções de família que temos na atualidade. Com o advento da pílula
anticoncepcional, as mulheres, oficialmente, consolidaram suas sexualidades como
fonte de prazer, e não mais destinadas somente aos fins reprodutivos.
Com o
aprimoramento dos meios de fertilização assistida, tais como a inseminação artificial, a
figura masculina deixou, lentamente, de ser essencial para a constituição da família. Os
idosos, por meio dos tratamentos e orientações com sexólogos, prolongaram suas vidas
sexuais, o que implicou na paternidade considerada tardia, na terceira idade, assegurada
pelo uso de pílulas que estimulam a libido e a excitação sexual. Esses exemplos são
frutos do desenvolvimento da tecnologia sexual, que vem sendo desenvolvida desde a
modernidade e que influencia na constituição da família contemporânea.
Qual o impacto dessas novas configurações na educação das crianças e jovens?
Estariam os laços familiares comprometidos em função dos novos arranjos? Responder
a tais questionamentos apontando supostas fragilidades em relação às diversidades
familiares, cultuando um saudosismo em relação ao modelo de família clássica, com a
mulher sob o domínio do machismo e confinada aos afazeres domésticos, seria não
somente uma atitude preconceituosa, mas sim um reforço à ideologia dominante de
gênero: o masculino em primeiro lugar.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A sexualidade está sobrecarregada de estigmas, esses sustentados historicamente
por preceitos machistas, homofóbicos e religiosos. Ainda vivemos numa sociedade
fundamenta pelas marcas do patriarcado, cheia de pudores, a qual as mulheres e as
pessoas LGBTs2 não são respeitadas em sua integridade, onde não há espaços para se
viver as diversidades. Ainda temos muito presente em nosso país as marcas históricas e
culturais da sexualidade pecaminosa, do machismo, da homofobia, da violência e da
repressão dos séculos passados. Atualmente, vivemos numa sociedade sexual, mas não
discutimos o assunto. O tema está presente em todos os lugares, na família, na escola,
na igreja, nas ruas, na televisão, nas brincadeiras de crianças. Subentende-se que as
pessoas sabem cada vez mais sobre a sexualidade humana, que as crianças estão cada
2
Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
vez mais sexualizadas. Contudo, ao mesmo tempo não se discute tais assuntos, ficando
tudo no âmbito do subentendido.
As funções de educar e criar foram compartilhadas com diversos especialistas:
psicólogos, pedagogos, pediatras e até mesmo com a escola. Já não sabemos mais lidar
com a criança. Compartilhamos e fragmentamos o seu processo educativo, não temos
mais autonomia para tomar as decisões, estamos sempre a consultar os especialistas. No
entanto, esses especialistas não dominam a complexidade do real, deveríamos entendêlos apenas como especuladores (SAYÃO, 2011).
Essa cultura, tão em voga na atualidade, coloca em cheque o real sentido do que
significa ter uma família e vivê-la em sua plenitude. As novas configurações familiares
não enfraquecem o sentimento de família, o problema não é esse, e sim que não se
dedicamos por completo à família.
5. Referências
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insubstituível “capital social”. In: BORGES, Ângela; CASTRO, Mary Garcia. Família,
gênero e gerações: desafios para as políticas sociais. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 2343.
CHAUÍ, Marilena. Repressão sexual: essa nossa (des) conhecida. 7.ed. São Paulo:
Brasiliense, 1984.
DURKHEIM, Émile. A educação moral. Tradução: Raquel Weiss. 2º ed.
Petrópolis,RJ: Vozes. 2012a.
______. Educação e Sociologia. Tradução: Stephania Matousek. 3ª ed. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2012b.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. 21° ed. Rio de
Janeiro: Graal, 2011.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o
regime da economia patriarcal. 49º Ed. São Paulo: Global, 2004.
MOTTA, Alda Brito da. Família e gerações: atuação dos idosos hoje. In: BORGES,
Ângela; CASTRO, Mary Garcia. Família, gênero e gerações: desafios para as políticas
sociais. São Paulo: Paulinas, 2007. p. 113-134.
PARKER, Richard G. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil
contemporâneo. São Paulo: Best Seller, 1991.
PRIORE, Mary Del. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil.
São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011.
SAYÃO, Rosely. Filhos...melhor não tê-los? (In: AQUINO, Groppa; RIZZO, Sérgio;
SAYÃO, Rosely; TAILLE, Yves de La. Família e educação: quatro olhares.
Campinas, SP: Papirus, 2011. p. 17-48.)
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