UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM NUTRIÇÃO MESTRADO EM NUTRIÇÃO DEFICIÊNCIA DE VITAMINA A EM PRÉ-ESCOLARES DA CIDADE DO RECIFE, NORDESTE DO BRASIL Maria Magdala Sales de Azevedo - RECIFE 2009 – UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM NUTRIÇÃO MESTRADO EM NUTRIÇÃO Deficiência de vitamina A em pré-escolares da cidade do Recife, Nordeste do Brasil Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, como parte dos requisitos para obtenção do grau de mestre. Área de concentração: Bases Experimentais. Aluna: Maria Magdala Sales de Azevedo Orientadora: Profª Drª. Ilma Kruze Grande de Arruda Co-Orientadora: Profa Dra Poliana Coelho Cabral - Recife 2009 – Azevedo, Maria Magdala Sales de Deficiência de vitamina A em pré-escolares da cidade do Recife, nordeste do Brasil / Maria Magdala Sales de Azevedo. – Recife: O Autor, 2009. 67 folhas: il., tab., fig., quadros. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CCS. Nutrição, 2009. Inclui bibliografia e anexos. 1. Deficiência de vitamina A. 2. Consumo alimentar – pré-escolares. 3. Retinol sérico – pré-escolares. I. Título. 615.322 613.22 CDU (2.ed.) CDD (20.ed.) UFPE CCS2010-023 DEDICATÓRIA Em especial à minha mãe, que me transformou numa pessoa melhor. À minha família, pelo amor e apoio nas horas mais difíceis. À Poliana Cabral e Ilma Kruze, que sem o apoio delas eu não teria conseguido. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a Deus por está dentro de mim e me amando incondicionalmente. Ao meu pai, por suas orientações e amor. À minha mãe, que estará para sempre dentro de mim. À Poliana Cabral e Ilma Kruze por tudo. Às minha amigas de mestrado, Patrícia Brazil, Denise Lima, Janaína, Simone Fraga e Flávia Nunes, pelas muitas risadas mesmo nos momentos de muita luta. Ao Professor Raul Manhães e à Professora Carol Leandro, por fazerem parte do meu crescimento. A tantos outros que mesmo indiretamente fizeram parte da minha história no mestrado. Muito Obrigada!! RESUMO Introdução: Dentre as deficiências nutricionais de maior relevância, a deficiência de vitamina A (DVA) está presente como um grande problema de saúde pública no Brasil. E crianças em idade pré-escolar estão entre os grupos de risco para o desenvolvimento da DVA. Objetivo: Avaliar o consumo e o retinol sérico em crianças em idade pré-escolar, de ambos os sexos, de creches públicas da cidade do Recife/PE - Brasil. Métodos: Estudo de corte transversal, envolvendo 344 crianças, de 24 a 60 meses de idade selecionadas por amostragem do tipo aleatório sistemático de 18 creches públicas do Recife, em 2007. O consumo alimentar foi avaliado pelo Recordatório de 24h e pela pesagem direta, e comparado com os valores da Dietary Reference Intakes (DRI’s). O status de vitamina A foi avaliado pelo retinol sérico. Resultados: A prevalência de níveis inadequados de retinol sérico (<0,70µmol/L) foi de 7,7% (IC 95% 4,88 – 11,81), caracterizando a DVA como problema de saúde pública do tipo leve, segundo critérios da Organização Mundial de Saúde. Por outro lado, 29,6% (IC 95% 24,22 – 35,63) das crianças apresentaram níveis aceitáveis ou marginais (0,70 a 1,04µmol/L) de retinol. Em relação ao consumo de vitamina A, os valores abaixo da EAR (Estimated Average Requirement), de 210µg/dia para crianças de 1 a 3 anos e de 275µg/dia para crianças de 4 a 8 anos de idade foi de 8,1% e 21,3%, respectivamente. As prevalências de déficits antropométricos (<-2 escores –Z) nos pré-escolares foram de 2,5% para o indicador P/I, de 8,6% quanto ao A/I e de 1,5% em relação ao P/A. Não houve diferença estatística entre as variáveis sexo e idade. Conclusão: O consumo alimentar e o retinol sérico encontravam-se dentro do recomendado, demonstrando a importância da institucionalização para o adequado estado nutricional das crianças e manutenção dos estoques adequados de vitamina A. Todavia, são necessários mais estudos enfocando pré-escolares não institucionalizados, ou seja, crianças que vivem fora do ambiente privilegiado das creches. Palavras Chaves: Consumo alimentar, pré-escolares, vitamina A, deficiência de vitamina A, retinol sérico. ABSTRACT Introduction: Among the nutritional deficiencies of greater relevance, the vitamin A deficiency (VAD) is present as a major public health problem in Brazil. Children of preschool age are among the risk groups for developing the VAD. Objective: To evaluate the consumption and serum retinol in children of preschool age in public kindergartens in the city of Recife / PE - Brazil. Methods: A cross-sectional study involving 344 children (2-5 years) selected by systematic random sampling of 18 public kindergartens of Recife in 2007. Food consumption was assessed by 24-hour recall and by direct weighing, and compared with the values of the Dietary Reference Intakes (DRI's). The status of A vitamin was assessed by serum retinol. Results: The prevalence of inadequate serum retinol (<0.70 µmol / L) was 7.7% (IC95% 4.88 - 11.81) featuring a AVD as a light-type public health problem, according to the World Health Organization. Furthermore, 29.6% (IC95% 24.22 - 35.63) of the children had acceptable or marginal levels (0.70 to 1.04 µmol / L) of retinol. Regarding the consumption of A vitamin, values below the EAR (Estimated Average Requirement) - 210 µg / day for children of 1 to 3 years old and 275 µg / day for children of 4 to 8 years old were 8.1% and 21.3%, respectively. The prevalence of anthropometrical deficits (<-2 scores Z) in pre-school children were 2.5% for the W/A indicator, 8.6% concerning the H / A and 1.5% to the W/H. Conclusion: The dietary intake and serum retinol were within the recommended demonstrating the importance of institutionalization for the proper nutritional status of children and maintenance of adequate stocks of A vitamin. However, more studies are needed focusing on non-institutionalized pre-school, that means children living outside the privileged environment of public kindergartens. Keywords: Food intake, preschool children, A vitamin, vitamin A deficiency, serum retinol. Lista de quadros Quadro 1 - Pontos de corte para classificação do estado nutricional de crianças segundo o escore Z 30 Lista de ilustrações Figura 1 - Níveis de retinol sérico em crianças de 6 a 59 meses de idade de creches públicas do município do Recife, PE, 2007 59 Lista de tabelas Tabela 1 - Ingestão de vitamina A de pré-escolares regulamente matriculados em creches públicas da cidade do Recife- PE 60 Tabela 2 – Estado nutricional segundo índices antropométricos (peso/idade, altura/idade e peso/altura) em crianças de 24 a 60 meses de idade de creches do município de Recife, PE, 2007 61 Lista de abreviaturas e siglas ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas A/I - Altura para idade CIC - Citologia de impressão conjuntival CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico DRI - Dietary Reference Intakes DVA - Deficiência de vitamina A EAR - Estimated Average Requirement FNB - Food and Nutrition Board HPLC - High Pressure Liquid Chromatography IVACG - International Vitamin A Consultative Group MI - Iniciativa Micronutriente MS - Ministério da Saúde OMS - Organização Mundial de Saúde OPAS - Organización Panamericana de La Salud P/A - Peso para altura P/I - Peso para idade QFA - Questionário de Frequência Alimentar R24 - Recordatório de 24 horas RBP - Proteína Carreadora de Retinol RDR - Resposta a uma dose de retinol SPSS - Stattistical Package for the Social Sciences TACO - Tabela Brasileira de Composição de Alimentos UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância UNIFESP_EPM - Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo X1A - Xerose da conjuntiva X1B - Manchas de Bitot X2 - Xerose da córnea X3A - Ulceração de córnea X3B - Ceratomalácia XF - Xeroftalmia XN - Cegueira noturna Sumário 1.0 APRESENTAÇÃO........................................................................................... 14 1.1 Considerações Gerais.................................................................................... 14 1.2 Justificativa................................................................................................... 16 1.3 Objetivos....................................................................................................... 17 1.3.1 Geral....................................................................................................... 17 1.3.2 Específicos.............................................................................................. 17 1.4 Estruturação da Dissertação.......................................................................... 18 2.0 REVISÃO DA LITERATURA....................................................................... 19 2.1 Aspectos fisiológicos e metabólicos da vitamina A...................................... 19 2.2 Quadro clínico da Hipovitaminose A............................................................ 20 2.3 Limitações quanto ao diagnóstico da hipovitaminose A.............................. 21 2.3.1 Indicadores Clínicos................................................................................... 21 2.3.2 Indicadores Bioquímicos............................................................................ 21 2.3.3 Consumo Alimentar................................................................................... 23 2.4 Situação da hipovitaminose A....................................................................... 25 3.0 MÉTODOS....................................................................................................... 26 3.1 Local do Estudo............................................................................................ 26 3.2 Desenho e população de estudo.................................................................... 26 3.3 Amostragem.................................................................................................. 26 3.4 Métodos e Técnicas de avaliação.................................................................. 27 3.4.1 Retinol sérico....................................................................................... 27 3.4.2 Inquérito de consumo alimentar.......................................................... 28 3.4.3 Antropometria..................................................................................... 29 3.4.3.1 Peso.................................................................................................. 29 3.4.3.2 Altura................................................................................................ 29 3.5 Processamento e análise dos dados........................................................ 30 3.6 Considerações Éticas.............................................................................. 31 4.0 Referências Bibliográficas............................................................................... 32 Artigo................................................................................................................. 39 RESUMO............................................................................................................. 41 ABSTRACT.......................................................................................................... 42 INTRODUÇÃO..................................................................................................... 43 MATERIAL E MÉTODOS..................................................................................... 45 RESULTADOS...................................................................................................... 49 DISCUSSÃO......................................................................................................... 51 AGRADECIMENTOS............................................................................................ 54 REFERÊNCIAS.................................................................................................... 55 5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................... 61 Anexos..................................................................................................................... 62 1.0 APRESENTAÇÃO 1.1 Considerações Gerais Dentre as deficiências nutricionais de maior relevância, a deficiência de vitamina A (DVA) está presente como um grande problema de saúde pública no Brasil, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste (GRAEBNER et al, 2007; SILVA et al, 2005; SARNI et al, 2002). A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que mais de 250 milhões de crianças em todo mundo têm reservas diminuídas de vitamina A. Quanto ao Brasil, a magnitude e o impacto social da morbimortalidade é pouco conhecida (GERALDO et al, 2003; SOUZA & BOAS, 2002) e a DVA aparece principalmente entre os grupos de baixo nível socioeconômico (GRAEBNER et al, 2007; PAIVA et al, 2006; SOUZA & BOAS, 2002). Ramalho et al (2002) relataram que levantamentos isolados e dispersos nas diferentes regiões do Brasil sugerem que 20 a 40% da população apresenta carência subclínica, isto é, baixo nível plasmático de vitamina A (< 20 µg/dL ou 0,70 µmol/L) sem sintomatologia, sugerindo que esses dados estejam supostamente ligados à aversão aos alimentos fontes de vitamina A. Paiva et al (2006) avaliaram a prevalência e os fatores associados à DVA em pré-escolares institucionalizados e observaram uma tendência a diminuição da prevalência dos níveis baixos de retinol sérico (10 – 19µg/dL ou 0,35 – 0,69µmol/L) com o aumento da idade. Sugerindo que essa carência estaria mais associada à ingestão inadequada de alimentos fonte de vitamina A, por questões culturais ou por hábitos alimentares característicos da idade, do que propriamente a fatores econômicos. Quanto aos estudos que utilizam os inquéritos dietéticos, muitas vezes eles não estão de acordo com os indicadores bioquímicos não coincidindo com os resultados dos estudos clínicos. A ingestão de vitamina A recomendado pela FAO/OMS não é alcançado pela maioria das crianças nos países pobres, estimando que os carotenóides contribuam com aproximadamente 68% da vitamina A da dieta em nível mundial (SOUZA & BOAS, 2002). Sendo assim, o aumento da ingestão de alimentos fonte de vitamina A pode ser usado como a 14 principal estratégia, a longo prazo, no combate à DVA em nível mundial (SARNI et al, 2002). O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) tem implementado medidas de controle para combater a DVA, a curto prazo ela tem atuado em parceria com a OMS e órgãos internacionais através de programas de suplementação de vitamina A para crianças de 6 a 59 meses de idade e mulheres no pós-parto imediato; a longo prazo a UNICEF adota outras estratégias, como incentivar a diversificação e fortificação de alimentos (UNICEF, 2005). O International Vitamin A Consultative Group (IVACG), também enfatiza a fortificação de alimentos, como um método de combate a DVA, assim como a educação nutricional e o incentivo a estudos relativos ao aumento da biodisponibilidade da vitamina A em alimentos (IVACG, 2004). Mulheres em idade fértil, crianças em idade pré-escolar e adolescentes estão entre os grupos de risco para o desenvolvimento da DVA, devido ao seu estado de crescimento e desenvolvimento, e conseqüentemente, aumento das necessidades da vitamina, principalmente em menores de seis anos de idade, que estão expostos às parasitoses, que estão frequentemente associadas com a diarréia, e às infecções respiratórias. Nas mulheres, a DVA pode levar a complicações obstétricas e nos pré-escolares e adolescentes pode resultar no comprometimento do crescimento, além de prejudicar o desempenho na escola e a maturação sexual nos adolescentes (SILVA et al, 2005; RAMALHO et al, 2004; RAMALHO et al, 2002). A carência de vitamina A está envolvida no comprometimento da visão e na morbimortalidade por doenças infecciosas próprias da infância, como as infecções respiratórias, que aumentam a necessidade para esta vitamina e são apontadas como as principais responsáveis pelas altas taxas de sua carência em crianças mais jovens devido ao seu papel no sistema imunológico (PAIVA et al, 2006; SARNI et al, 2002; RAMALHO et al, 2001). VelasquezMelendez et al (1996) ao avaliarem o estado nutricional de crianças entre 1 e 10 anos de idade encontraram que a diarréia é um forte preditor dos níveis plasmáticos de vitamina A e de proteína carreadora de retinol (RBP). As alterações oculares, principalmente a xeroftalmia, constituem as manifestações tardias do quadro de hipovitaminose A (RAMALHO et al, 2002). Segundo a Iniciativa Micronutriente (MI) e a UNICEF, o sistema imune está prejudicado na presença de DVA em aproximadamente 40% dos pré-escolares em países em desenvolvimento (MI/UNICEF, 2005). 15 Quanto à possível associação com a desnutrição energético-protéica, Assis et al (1997) não verificaram associação definida entre desnutrição e níveis de retinol, enquanto que a OMS (2000) relata que a criança desnutrida grave, encontra-se em maior risco de desenvolver DVA. Fernandes et al (2005) apesar de encontrarem em 78% dos pré-escolares institucionalizados 100% de adequação da vitamina A segundo a RDA, as concentrações de retinol sérico não mostraram correlação com o consumo nem com os índices peso/idade, altura/idade e peso/altura. Em outro estudo, os desnutridos diagnosticados pelo Índice de Massa Corporal para estatura a DVA foi tão elevada quanto em eutróficos (SARNI et al, 2002). Sarni et al (2002) estudaram crianças e adolescentes entre 4 e 14 anos de idade e não encontraram influência do estado nutricional no nível sérico de carotenóides, entretanto, sua função no crescimento ainda não está completamente estabelecida devido a um número reduzido de estudos que relacionam a DVA com o déficit estatural em crianças e adolescentes. 1.2 Justificativa Pelo exposto acima, verifica-se a grande importância de analisar o estado nutricional da vitamina A em crianças, visto a grande vulnerabilidade deste grupo a infecções e alterações oculares. Além disso, o número de trabalhos relacionados com a DVA neste grupo etário são escassos e muitas vezes desatualizados. Assim justifica-se a realização deste trabalho para uma informação mais atualizada do perfil da DVA em pré-escolares do estado de Pernambuco, uma vez que tais resultados contribuirão para um base de referência a ser utilizada na avaliação de futuros programas de intervenção. E com isso, contribuindo para um melhor manejo da situação e redução da morbimortalidade de crianças em idade pré-escolar. 16 1.3 Objetivos 1.3.1 Geral § Avaliar o estado nutricional de vitamina A em Pré-escolares da cidade do Recife, Nordeste do Brasil. 1.3.2 Específicos § Estimar a prevalência de hipovitaminose A em pré-escolares da cidade do Recife-PE, através das concentrações do retinol sérico. § Avaliar o estado nutricional dos pré-escolares utilizando indicadores antropométricos: peso /idade, altura /idade, peso /altura. 17 1.4 Estruturação da Dissertação A dissertação foi composta por um capítulo de revisão da literatura e um artigo original. O capítulo de revisão da literatura aborda a importância da vitamina A no organismo e o seu metabolismo, ressaltando suas principais fontes alimentares e os fatores que interferem na sua biodisponibilidade, bem como as conseqüências da DVA, e ressaltando as limitações quanto ao diagnóstico desta deficiência e sua situação no país. Esses dados foram coletados de artigos publicados em revistas científicas e livros textos e foram organizados segundo as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT. O artigo original: “Deficiência de vitamina A (DVA) em pré-escolares da cidade do Recife, Nordeste do Brasil”, que será submetido à publicação na revista Archivos Latinoamericanos de Nutrición, descreve o consumo quantitativo de vitamina A, além da sua dosagem bioquímica através do retinol sérico, em crianças pré-escolares de creches públicas da cidade do Recife, demonstrando que o consumo alimentar e o retinol sérico encontravam-se dentro do recomendado, e a institucionalização dos pré-escolares parece contribuir para a promoção de estilos de vida e alimentação saudáveis. 18 2.0 REVISÃO DA LITERATURA 2.1 Aspectos fisiológicos e metabólicos da vitamina A Vitamina A é um termo genérico utilizado, de forma correta, para designar todos os retinóides com estrutura cíclica da β-ionona com atividade biológica de retinol, exceto os carotenóides (BEITUNE et al, 2003). Os carotenóides devem possuir pelo menos um anel de β-ionona insubstituível para serem coletivamente denominados de carotenóides pró-vitamínicos A e dentre os que possuem ação biológica de vitamina A, o β-caroteno é o de maior atividade in vivo, além dos α e γ carotenos e criptoxantina (COZZOLINO, 2007; AMBRÓSIO et al, 2006). No organismo a vitamina A exerce inúmeras funções metabólicas, ela tem papel vital nos processos de diferenciação e manutenção epitelial, no ciclo visual, está ligada à reprodução, ao desenvolvimento fetal, ao sistema imunológico e à regulação da proliferação e diferenciação celular (GRAEBNER et al, 2007; FERNANDES et al, 2005; SILVA et al, 2005; BEITUNE et al, 2003; RAMALHO et al, 2001). Suas principais fontes são os alimentos de origem animal que fornecem a vitamina A préformada (fígado, óleo de fígado de peixe, leite integral, ovos e aves) e os alimentos de origem vegetal que contêm a pró-vitamina A, presente nos vegetais de cor amarelo alaranjados (manga, mamão, cenoura, milho e jerimum) (BEITUNE et al, 2003; SOUZA & BOAS, 2002). No processo digestivo, o retinol é mais eficientemente absorvido do que os carotenóides, com biodisponibilidade de 70-90%, enquanto que a dos carotenóides varia de 20-50% (SIVAKUMAR & REDDY, 1972). À medida que a ingestão aumenta, a eficiência de absorção do retinol permanece elevada, enquanto que a de carotenóides decresce significativamente, atingindo cerca de 10% (DINIZ & SANTOS, 2000). A necessidade da vitamina A varia de acordo com a fase da vida, além de condições externas, ingestão de lipídios e exposições a doenças como parasitoses intestinais e diarréias decorrentes (SOUZA & BOAS, 2002, RAMALHO et al, 2001). 19 A DVA tem como principais causas (1) a ingestão inadequada de vitamina A devido ao consumo insuficiente de alimentos de origem animal e frutas e hortaliças ricas em próvitamina A e (2) a relacionada ao sinergismo entre episódios infecciosos e a carência de vitamina A. Existindo também as causas pela má absorção devido à insuficiência dietética de lipídeos, insuficiência pancreática e biliar e de transporte prejudicado por desnutrição energético-protéico (MILAGRES et al, 2007; BEITUNE et al, 2003). 2.2 Quadro clínico da Hipovitaminose A As manifestações oculares da DVA envolvem retina, conjuntiva e córnea. O acometimento da retina pode ocorrer em nível bioquímico/funcional ou estrutural, resultando em cegueira noturna e xeroftalmia, respectivamente (DINIZ & SANTOS, 2000). Xeroftalmia é o termo usado para designar os sinais e sintomas oculares, com estágios evolutivos decorrentes da DVA e são classificados em (SAUNDERS et al, 2007; MCLAREN & FRIGG, 2001): Cegueira noturna (estágio XN): caracteriza o primeiro estágio da síndrome xeroftálmica, é um sintoma em que o indivíduo apresenta dificuldade de enxergar em ambientes com baixa luminosidade. Xerose da conjuntiva (estágio X1A): traduz-se por comprometimento do epitélio com secura, perda da transparência com mascaramento parcial do sistema vascular, aparecimento de pregas, acúmulo de resíduos e pigmentação fina e difusa. Manchas de Bitot (estágio X1B): manchas superficiais localizadas sobre a conjuntiva bulbar temporal. Classicamente essas manchas são triangulares, mas podem assumir formas variáveis. Xerose da córnea (estágio X2): segue-se à xerose conjuntival. A ceratite pontual é mais freqüentemente observada no quadrante nasal inferior da córnea. Caso não tratada, a ceratite evolui e a córnea assume aspecto rugoso e granuloso, comparável ao da casca de laranja. Ulceração de córnea e a ceratomalácia (estágios X3A e X3B): alterações irreversíveis. A formação ulcerosa favorece a liberação de enzimas proteolíticas, que promovem a necrose liquefativa do estroma corneano, caracterizando a ceratomalácia. 20 Xeroftalmia (estágio XF): pequenas lesões brancas disseminadas ao longo dos vasos retinianos. 2.3 Limitações quanto ao diagnóstico da hipovitaminose A Há um amplo espectro de indicadores para a avaliação do estado nutricional de vitamina A (DINIZ & SANTOS, 2000), podendo ser diagnosticada através de indicadores clínicos ou bioquímicos e do consumo dietético (SOARES et al, 2008). 2.3.1 Indicadores Clínicos O diagnóstico clínico, baseado no comprometimento da visão, é o indicador mais fidedigno para diagnosticar a hipovitaminose A. O diagnóstico da cegueira noturna é muito difícil em crianças muito jovens e tem sido baseado na história referida pela mãe. A adaptometria, teste objetivo para estimar a curva de adaptação à variação de luminosidade, pode ser utilizado. A xerose conjuntival não é considerada isoladamente como critério diagnóstico, devido à subjetividade na identificação (DINIZ & SANTOS, 2000). A citologia de impressão conjuntival (CIC) consiste na avaliação histológica das células caliciformes da conjuntiva ocular, que são removidas pela aplicação de um papel de filtro de acetato de celulose. Apesar de seu alto grau de reprodutibilidade, apresenta como limitação a dificuldade de execução em crianças menores de 3 anos. As prevalências de CIC superiores a 40% indicam grave problema de saúde pública (SBP, 2007). 2.3.2 Indicadores Bioquímicos As alterações subclínicas da DVA acontecem de forma mais precoce, devido a anomalias nos epitélios de revestimento dos sistemas orgânicos (CARLIER et al, 1993). Além disso, na deficiência subclínica de vitamina A, o risco de evoluir para a deficiência clínica é muito grande (SBP, 2007). Há de se considerar, que a deficiência subclínica de vitamina A em crianças em idade pré-escolar, é definida pelos níveis de retinol sérico < 0,20µg/dL ou 0,70µmol/L (GERALDO et al, 2003). Estima-se que o número de crianças com carência marginal de vitamina A seja entre 5-10 vezes maior do que as que apresentam manifestações clínicas da deficiência (RAMALHO et al, 2001). 21 A dosagem de retinol sérico tem sido um dos testes bioquímicos mais utilizados no diagnóstico da DVA (DINIZ e SANTOS, 2000; OLSON et al, 1984), porém, os processos infecciosos são capazes de promover rapidamente depleção das reservas hepáticas de vitamina A e queda nos níveis de retinol circulante, tornando sua sensibilidade baixa (SOARES et al 2008; SBP, 2007). Silva et al (2005) mostrou que crianças pré-escolares apresentavam níveis de retinol sérico mais baixos durante a fase aguda da pneumonia, do que no período de resolução da doença. Entretanto, é um bom indicador em situações nas quais as concentrações de vitamina A estão muito baixas ou em excesso (SOARES et al 2008; BEITUNE et al, 2003; OLSON et al, 1984). A maioria dos estudos que avaliam a prevalência de DVA no Brasil utiliza os pontos de corte recomendados pela OMS (1996): § Deficiente: < 0,35µmol/L, nível associado aos sinais da xeroftalmia; § Baixo: 0,35 a 0,69µmol/L, que caracteriza a DVA; § Aceitável: 0,70 a 1,04µmol/L, o mais adequado para identificação da DVA subclínica em pré-escolares, gestantes e puérperas; § Normal: > 1,05µmol/L. Quando as reservas hepáticas da vitamina A diminuem para níveis críticos, o retinol sérico também diminui, portanto, ele também pode ser usado como um sinal de deposição hepática (SILVA et al, 2005). Entretanto, Sarni et al (2002) observaram que o nível sérico não reflete os estoques hepáticos que podem estar reduzidos na população estudada, tendo em vista a baixa ingestão encontrada. A vitamina A é estocada no fígado e transportada para os tecidos periféricos via sanguínea ligada à proteína carreadora de retinol (RBP). Quando os estoques hepáticos encontram-se reduzidos, a síntese de RBP não pára, resultando em acúmulo intra-hepático dessa proteína (STEPHENSEN et al, 2002). O teste de resposta a uma dose de retinol (RDR) foi desenvolvido para uma identificação mais realista de indivíduos com estoques marginais de vitamina A (LOERCH et al, 1979). O teste RDR avalia as concentrações séricas de retinol antes e 5 horas após a administração de uma dose de vitamina A (palmitato de retinila - 450 a 1000 µg). Neste período de 5 horas, a vitamina A é absorvida e transportada via quilomícrons (como ésteres de retinil) para o fígado (SBP, 2007, STEPHENSEN et al, 2002). Se os 22 estoques hepáticos são inadequados para uma concentração normal, toda ou parte dessa dose oral poderá ser liberada do fígado como éster de retinol-RBP, aumentando a concentração sérica de retinol (STEPHENSEN et al, 2002). A RDR é calculada pela fórmula (DINIZ & SANTOS, 2000): RDR = (vit A 5h – vit A jejum) x 100 / vit A 5h A resposta será positiva se RDR > 20%, indicando que a reserva hepática está comprometida (STEPHENSEN et al, 2002). O RDR pode estar alterado na presença de infecção, pois a RBP é uma proteína negativa de fase aguda, e nessa condição o fígado prioriza a síntese de proteínas positiva de fase aguda (DINIZ e SANTOS, 2000). A dosagem hepática de vitamina A é a melhor forma de avaliar o estado nutricional deste nutriente, pois ela é o método direto que avalia os estoques de vitamina A. Valores de vitamina A 20µg/g de fígado indicam uma boa reserva capaz de manter as funções orgânicas que necessitam dessa vitamina e manter os níveis séricos adequados por pelo menos 3 meses em situações de baixo consumo de alimentos fonte de vitamina A (SOARES et al, 2008). Entretanto, ela não é um método viável para este fim diagnóstico pela possibilidade de complicações inerentes ao procedimento (DINIZ & SANTOS, 2000). 2.3.3 Consumo Alimentar O principal fator determinante da Hipovitaminose A, segundo estudos epidemiológicos, é a inadequação da ingestão alimentar (MS, 1990; OPAS, 1990; IVACG, 1989) que corresponde ao primeiro estágio da deficiência nutricional e pode ser detectada pelo inquérito dietético. Sendo este considerado um indicador precoce, pré-patológico da carência de vitamina A (HORNER et al, 1981). Os inquéritos de consumo são ferramentas fundamentais nos estudos nutricionais em comunidades (MORÓN, 1997; MENCHÚ, 1993), permitindo identificar e quantificar deficiências e excessos dietéticos, conhecer os hábitos e padrões alimentares da população (MENCHÚ, 1993). Os métodos de avaliação de consumo alimentar mais utilizados são recordatório de 24h (R24), registro alimentar e questionário de freqüência alimentar (QFA) (MAIA, 2006). Embora pouco onerosos e exeqüíveis em trabalhos de campo, tem sofrido 23 pesadas críticas no que diz respeito a sua precisão (UNDERWOOD, 1990) devido às formas de vitamina A consideradas em cada alimento (retinol, β-caroteno e outros carotenóides) e a omissão das tabelas de composição quanto aos critérios adotados para a obtenção do valor da vitamina A expresso em mgRE (SAUNDERS et al, 2000). Não existe método de avaliação do consumo alimentar que seja considerado padrão-ouro, contudo, a associação de distintos tipos de inquéritos contribui para a exatidão (SALES et al, 2006; FALCÃO-GOMES et al, 2006; SALVO & GIMENO, 2002; DINIZ e SANTOS, 2000). O R24 é utilizado principalmente em estudos observacionais e o QFA é a primeira opção de escolha em estudos epidemiológicos (FISBERG et al, 2008). O recomendado pelo IVACG é o QFA, cuja qualidade do resultado é diretamente proporcional à seleção adequada dos alimentos incluídos e à estimativa das porções (FALCÃO-GOMES et al, 2006). A principal característica do QFA em comparação com o R24 é que ele é o de maior acurácia, por capturar a probabilidade de ingestão de mais alimentos num período de tempo precedente, usualmente o ano anterior. Assim, permitindo uma avaliação da dieta habitual, que é de grande importância para estimar a medida de exposição a fatores dietéticos e investigar a potencial associação com resultados de interesse (FISBERG et al, 2008). O R24 fornece dados sobre a ingestão média das populações, apresentando boa acurácia desde que seja repetido 2-4 vezes em dias não-consecutivos, em função da variabilidade intra-individual da dieta. Os métodos menos usados para avaliação do consumo alimentar em pré-escolares são a análise química, a história dietética e a observação direta (FALCÃO-GOMES et al, 2006). Quanto aos diferentes programas de análise nutricional dos alimentos, as principais fontes de dados utilizadas atualmente são antigas e desatualizadas, além de incompletas quanto aos nutrientes (RIBEIRO et al, 2003). Segundo esse mesmo autor, ao avaliar a concordância entre os valores nutricionais dos alimentos analisados em laboratório com os dados apresentados em tabelas de composição de alimentos e nos softwares Virtual Nutri e NUT, encontrou que os softwares tenderam a superestimar os valores reais, mostrando a importância do cuidado durante a sua utilização. Vale ressaltar o fato da vitamina A ser armazenada no fígado de forma cumulativa, desse modo se o individuo come fígado dois dias antes da realização do R24h, ele pode ser erroneamente enquadrado na condição de déficit. Isso porque não foi avaliado o dia em que o 24 indivíduo teve um consumo muito elevado de vitamina A, que servirá como reserva durante um longo tempo. 2.4 Situação da deficiência de vitamina A (DVA): De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é considerado como área de carência subclínica grave (OPAS/OMS, 1999). E isso ganhou importância devido a sua associação com o aumento do risco de morbimortalidade, principalmente em crianças (GERALDO et al, 2003). No que se refere a situação atual da DVA no Brasil, os dados dos últimos anos indicam que essa deficiência é um problema de saúde pública e a maior prevalência se encontra nos estados da região Nordeste nas classes sociais pobres. E se deve principalmente aos hábitos alimentares, em que o consumo de alimentos fonte de vitamina A é reduzido (SOUZA & VILAS BOAS, 2002). Ainda que os inquéritos nacionais sejam escassos no Brasil, a prevalência de DVA está estimada entre 16 e 74% em crianças menores de seis anos, e entre 16 a 55% da população infantil do Nordeste apresentou níveis séricos de retinol abaixo de 20µg/dL, tornando-se estas crianças as mais vulneráveis ao problema (MILAGRES et al, 2007). Em grupos populacionais de nível socioeconômico mais alto, o número de trabalhos relacionados é mínimo (GERALDO et al, 2003). 25 3.0 MÉTODOS 3.1 Local do Estudo O estudo foi realizado em creches públicas do município de Recife/PE, Nordeste do Brasil, no período de outubro a dezembro de 2007. 3.2 Desenho e População do Estudo Essa pesquisa foi desenvolvida no âmbito do estudo transversal, multicêntrico intitulado: “Estimativa da prevalência de inadequação de nutrientes em crianças de diferentes Regiões do Brasil” coordenada pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP_EPM). Esse estudo multicêntrico avaliou, em 09 cidades brasileiras (Brasília, Cuiabá, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Viçosa) o consumo alimentar de 3.111 crianças de 24 a 60 meses de idade, de creches públicas (n=2357) e privadas (n=754). Para a cidade de Recife foram avaliadas 329 crianças de creches públicas e 25 crianças de creches privadas. Sendo considerados os seguintes critérios de exclusão: § Crianças que referirem a ingestão de suplementos vitamínicos e/ou minerais, 30 dias antes da coleta de dados. § Crianças portadoras de patologias infecciosas como diarréia, febre e etc § Crianças que não obtiverem o consentimento por escrito dos pais ou responsáveis para a participação na pesquisa 3.3 Amostragem Durante a elaboração do desenho do estudo multicêntrico, as cidades foram incentivadas a incorporar uma outra linha de pesquisa, cabendo ao Recife a coleta de dados bioquímicos para análise do problema da DVA. Com esse objetivo adicional, uma sub-amostra de creches públicas foi calculada para a coleta de sangue e avaliação dos níveis séricos de retinol. A 26 amostra do tipo aleatório sistemático, segundo a técnica de BERQUÓ et al, (1981), foi estimada tendo como base uma prevalência de 20% de deficiência de vitamina A, com precisão de 5%, confiabilidade de 95% e um percentual de perda de 10%. O tamanho amostral mínimo previsto foi de 271 crianças para a dosagem de retinol sérico. Para o inquérito do consumo de alimentos, estimou-se uma prevalência de 50% de ingestão abaixo das recomendações, com uma precisão de 10%; prevendo-se uma perda de 15%, o tamanho amostral mínimo previsto para o estudo foi de 106 inquéritos do consumo de alimentos. 3.4 Métodos e Técnicas de avaliação 3.4.1 Retinol sérico Coleta A coleta foi realizada nas creches sendo colhido 1 ml de sangue por punção venosa cubital, pela manhã. O sangue foi colocado em tubos previamente identificados, e protegidos da luz, imediatamente após a coleta. Após uma hora de decantação, as amostras foram centrifugadas a 3000 rpm (rotação por minuto) durante 10 minutos, separado o soro e acondicionado em tubos eppendorf e armazenado no freezer à temperatura de - 20°C. Em seguida, as amostras foram transportadas para o laboratório, em caixas de isopor com gelo, para posterior análise. Processamento Após o descongelamento, foram pipetados 100µL de soro de cada amostra, e colocados em tubos cônicos de vidro identificados, e adicionados 100µL de etanol absoluto (C2H5OH), para promover a precipitação das proteínas, e 200µL de hexano (C6H14), responsável pela extração do retinol. Em seguida, as amostras foram agitadas por 30 segundos no agitador de tubos em velocidade contínua, e centrifugados à velocidade de 3000 rpm por 5 minutos. Posteriormente, foram extraídos 100µL do sobrenadante, colocados em tubos de vidro pequeno e evaporados com nitrogênio, por aproximadamente 1 minuto. O resíduo da amostra foi redissolvido com 50µL de metanol e deste retirados 20µL para leitura (ARAÚJO & FLORES, 1978; BESSEY et al, 1946). 27 Análise Os níveis séricos de vitamina A foram determinados pelo método cromatográfico, utilizando-se a Cromatografia Líquida de Alta Resolução (High Pressure Liquid Chromatography - HPLC) (FURR, TANUMIHARDJO & OSLON, 1992). Para categorizar os níveis séricos de retinol foram considerados os pontos de corte de 10µg/dl (0,35µMol/L) para teores deficientes, 20µg/dl (0,70µMol/L) para valores baixos (WHO, 1996). 3.4.2 Inquérito de consumo alimentar O consumo alimentar foi avaliado por meio do método da pesagem direta, realizado por nutricionistas treinadas. Para determinação do peso dos alimentos servidos foi realizada 3 pesagens, para que se obtivesse um valor médio da quantidade oferecida pela creche, sendo utilizado nesse procedimento uma balança digital com capacidade de 3Kg, marca Plenna devidamente tarada. Os alimentos quando sólidos foram pesados diretamente na balança e quando de consistência líquida (sopas, sucos), utilizou-se copos plásticos. A avaliação do consumo alimentar pelo método das pesadas se restringiu a um dia das refeições oferecidas pela creche: desjejum, lanche, almoço, lanche da tarde e jantar (Anexo 1). Para determinação da “sobra alimentar individual” foi considerado a quantidade de alimento que cada criança deixou no prato (Anexo 2). Os restos foram coletados em sacos plásticos identificados para cada criança, sendo pesados sem separação dos alimentos. A repetição das refeições respeitou a solicitação infantil (Anexo 2). Para completar o dia alimentar da criança os pais ou responsáveis receberam um formulário (Anexo 3) para anotar na forma de medidas caseiras os alimentos consumidos fora do período da creche. Os nutricionistas foram orientados para conferência desse formulário e questionar o responsável pela criança em caso de dúvida. Posteriormente, os resultados foram transformados em gramas utilizando o Guia prático para estimativa de consumo alimentar (MAGALHÃES et al, 2000). A análise do conteúdo de vitamina A na alimentação da criança foi realizada através do software de apoio a Nutrição da Escola Paulista de Medicina (1993) (NUT, 1993). A tabela base deste programa é a do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, ano 1976-1986. 28 Desse modo, em virtude da ocorrência de inúmeros produtos de consumo regional, alguns alimentos tiveram que ser acrescidos, sendo utilizada a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos - TACO (2006). Para estimar a prevalência de inadequação das dietas em relação a vitamina A foi considerado o valor da Dietary Reference Intakes (DRIs) proposto pelo Food and Nutrition Board – FNB (IM & FNB, 2001). Com o objetivo de determinar a variação intrapessoal do consumo alimentar foi aplicado mais um Recordatório de 24h em 20% dos pré-escolares, sorteados aleatoriamente. Estes novos inquéritos foram realizados com intervalo de pelo menos quinze dias entre as coletas, repetindo o procedimento adotado no primeiro dia de Recordatório de 24h. O ajuste da distribuição da ingestão de vitamina A foi realizado com a remoção do efeito da variabilidade intra-individual, pelo método proposto pelo Iowa State University (CARRIQUIRI, 1999; GUENTHER et al, 1997). A prevalência de inadequação da ingestão de vitamina A correspondeu à proporção de indivíduos cujo consumo estava abaixo da Estimated Average Requirement (EAR) estabelecido para esse nutriente (TRUMBO et al, 2001). 3.4.3 Antropometria As medidas antropométricas (peso e altura) foram tomadas e registradas em formulário específico (Anexo 4). 3.4.3.1 Peso Na tomada do peso, utilizou-se uma balança digital eletrônica, de marca Filizola, modelo Personal Line E-150 com capacidade de até 150kg e precisão de 100g. As crianças foram pesadas descalças e portando indumentária mínima. 3.4.3.2 Altura A altura das crianças, foi determinada com fita métrica de 150cm marca Stanley-milimetrada, com precisão de 1 mm e exatidão de 0,5cm. A fita foi fixada na parede e as crianças 29 colocadas em posição ereta, descalças, com os membros superiores pendentes ao longo do corpo, os calcanhares, o dorso e a cabeça tocando a parede (JELLIFFE, 1968). Na avaliação do estado nutricional, foram utilizados três índices antropométricos: § Peso para idade (P/I) – relação entre o peso observado e o peso considerado normal ou de referência para a idade. § Altura para idade (A/I) – relação entre a altura observada e altura de referência para a idade. § Peso para altura (P/A) – relação entre o peso observado e a altura de referência. O padrão de referência utilizado para avaliar a adequação dos índices P/I, A/I e P/A foi o novo padrão da OMS, lançado em 2006 (OMS, 2006), e os resultados foram estratificados em escores z segundo pontos de corte descritos no quadro 1 (DE ONIS et al, 2007). Quadro 1 – Pontos de corte para classificação do estado nutricional de crianças segundo o escore Z. CLASSIFICAÇÃO NUTRICIONAL Escore Z Peso/Altura Peso/Idade Altura/Idade <-2 Desnutrição Desnutrição Desnutrição > -2 a <-1 Risco Risco Risco de baixa estatura > -1 a <1 Eutrófico Eutrófico Eutrófico > 1 a <2 Risco de sobrepeso Risco de sobrepeso Altura elevada >2 Obesidade Obesidade Altura elevada Fonte: WHO-2006 (DE ONIS et al, 2007). 3.5 Processamento e análise dos dados O algorítimo de análise proposto para o estudo envolveu, inicialmente, a observação do comportamento das variáveis segundo o critério de normalidade da distribuição. Quando as variáveis não apresentaram distribuição normal ou simétrica, procedeu-se a devida transformação logarítima, visando-se o uso preferencial da estatística paramétrica. A distribuição binomial das variáveis foi aproximada à distribuição normal pelo intervalo de confiança. As proporções foram comparadas utilizando-se teste de Fisher. As médias foram 30 comparadas pelo teste t de Student (2 médias) e as medianas pelo testes U-Mann whitney (2 medianas). Foi utilizado o nível de significância de 5% para o teste de normalidade das variáveis, bem como, para a rejeição da hipótese de nulidade. A construção do banco de dados e a análise estatística foram desenvolvidos no programa estatístico Statistical Package for Social Sciences Versão 12.0 (SPSS Inc., Chicago, IL, USA). 3.6 Considerações Éticas A pesquisa foi aprovada no comitê de ética do Instituto de Medicina Integral Prof Fernando Figueira, processo n° 1135 de 07 de março de 2008 (Anexo 5). 31 4.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMBRÓSIO CLB, CAMPOS FACS, FARO ZP. Carotenóides como alternativa contra a hipovitaminose A. Rev Nutr 2006; 19 (2): 117-22. ARAÚJO C, FLORES H. Improved spectrophotometric vitamin A assay. Clin Chem 1978; 24:38. ARCHANA DWIVEDI. Eliminating Vitamin A deficiency. UNICEF 2005 [acessado 2009 Fev 27]. 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E-mail: [email protected] 40 RESUMO: O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de deficiência de vitamina A (DVA) em pré-escolares da cidade do Recife, Nordeste Brasileiro. A amostra foi composta por 344 crianças, de 24 a 60 meses, de ambos os sexos, em 18 creches públicas da cidade do Recife, em 2007. O estado nutricional de vitamina A foi avaliado pelos indicadores bioquímico (retinol sérico) e dietético (inquérito de consumo alimentar) e o status pondoestatural através dos índices antropométricos peso/idade (P/I), altura/idade (A/I) e peso/altura (P/A). A prevalência de níveis inadequados de retinol sérico (<0,70µmol/L) foi de 7,7% (IC 95% 4,88 – 11,81), caracterizando a DVA como problema de saúde pública do tipo leve, segundo critérios da Organização Mundial de Saúde. Por outro lado, 29,6% (IC 95% 24,22 – 35,63) das crianças apresentaram níveis aceitáveis ou marginais (0,70 a 1,04µmol/L) de retinol. Em relação ao consumo de vitamina A, os valores abaixo da EAR (Estimated Average Requirement), de 210µg/dia para crianças de 24 a 47 meses e de 275µg/dia para crianças de 48 a 96 meses de idade foi de 8,1% e 21,3%, respectivamente. As prevalências de déficits antropométricos (<-2 escores –Z) nos pré-escolares foram de 2,5% para o indicador P/I, de 8,6% quanto ao A/I e de 1,5% em relação ao P/A. Os dados acima evidenciam a importância da institucionalização para o adequado estado nutricional das crianças e manutenção dos estoques adequados de vitamina A. Todavia, são necessários mais estudos enfocando préescolares não institucionalizados, ou seja, crianças que vivem fora do ambiente privilegiado das creches. Palavras-chave: Consumo alimentar, pré-escolares, vitamina A, deficiência de vitamina A, retinol sérico. 41 ABSTRACT: The aim of this study was to evaluate the prevalence of A vitamin deficiency (AVD) in pre-school children in the city of Recife, Northeastern Brazil. The sample comprised 344 children, 2 to 5 years old, both sexes, in 18 public kindergartens in the city of Recife in 2007. The nutritional status of A vitamin was assessed by biochemical (serum retinol) and dietary (survey of food consumption) indicators and the pondo-stature status through anthropometric indices of weight/age (W/A), height/age (H/A) and weight/height (W/H). The prevalence of inadequate serum retinol (<0.70 µmol / L) was 7.7% (95% CI 4.88 to 11.81), featuring a AVD as a light-type public health problem, according to the criteria of the World Health Organization. Furthermore, 29.6% (95% CI 24.22 to 35.63) of children had acceptable or marginal levels (0.70 to 1.04 µmol / L) of retinol. Regarding the consumption of A vitamin, values below the EAR (Estimated Average Requirement) - 210 µg/day for children of 1 to 3 years old and 275 µg/day for children of 4 to 8 years old - were 8.1% and 21.3% respectively. The prevalence of anthropometrical deficits (<-2 scores -Z) in pre-school children were 2.5% for W/A indicator, 8.6% for the H/A and 1.5% for the W/H. The above data highlight the importance of institutionalization for the proper nutritional status of children and maintenance of adequate stocks of A vitamin. However, more studies are needed focusing on non-institutionalized pre-school, or children living outside the privileged environment of public kindergartens. Key words: Food intake, preschool children, A vitamin, A vitamin deficiency, serum retinol. 42 INTRODUÇÃO Dentre as deficiências nutricionais de maior relevância, a deficiência de vitamina A (DVA) está presente como um grande problema de saúde pública no Brasil, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, em que se destacam os grupos de baixo nível socioeconômico (1,2,3). A Organização Mundial de Saúde (OMS) estimou que mais de 250 milhões de crianças em todo mundo têm reservas diminuídas de vitamina A (4). Crianças em idade pré-escolar estão entre os grupos de risco para o desenvolvimento da DVA, devido ao seu rápido crescimento e desenvolvimento, e conseqüentemente, aumento das necessidades da vitamina, além da exposição desse grupo etário às parasitoses, que estão frequentemente associadas com a diarréia (5, 6). Há um amplo espectro de indicadores para a avaliação do estado nutricional de vitamina A (7) e tem sido diagnosticada a partir de indicadores clínicos ou bioquímicos e do consumo dietético (4). As alterações subclínicas da DVA acontecem de forma mais precoce8 e há de se considerar, que em pré-escolares, é definida pelos níveis de retinol sérico < 0,20µg/dL ou 0,70µmol/L (4). Estima-se que o número de crianças com carência marginal de vitamina A seja entre 5-10 vezes maior do que as que apresentam manifestações clínicas da deficiência (9). O principal fator determinante da DVA, segundo estudos epidemiológicos, é a inadequação da ingestão alimentar (10, 11, 12) que corresponde ao primeiro estágio da deficiência nutricional e pode ser detectada pelo inquérito dietético. Sendo este considerado um indicador precoce, pré-patológico da carência de vitamina A (13). Pelo exposto acima, verifica-se a grande importância de analisar o estado nutricional da vitamina A em crianças em idade pré-escolar, visto a grande vulnerabilidade deste grupo a infecções e alterações oculares. Portanto, este estudo objetivou identificar o estado nutricional 43 de vitamina A em pré-escolares matriculados em creches públicas da cidade do Recife/PE, Nordeste do Brasil. MATERIAL E MÉTODOS Estudo de caráter transversal desenvolvido no âmbito do estudo multicêntrico intitulado: “Estimativa da prevalência de inadequação de nutrientes em crianças de diferentes Regiões do Brasil” coordenada pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP_EPM). Participaram do estudo crianças na idade pré-escolar (24 a 60 meses), de ambos sexos, matriculadas em creches da prefeitura municipal da Cidade do Recife, Pernambuco, no ano 2007. Foram considerados como critérios de exclusão crianças que referiram a ingestão de suplementos vitamínicos e/ou minerais, 30 dias antes da coleta de dados, que não obtiveram o consentimento por escrito dos pais ou responsáveis para a participação na pesquisa e que apresentaram algum tipo de infecção. O tamanho amostral foi determinado levando-se em consideração a prevalência de níveis inadequados de retinol sérico relatada na literatura para o estado de Pernambuco que é de 19,3% (14) a qual é inferior a prevalência de inadequação de consumo de vitamina A que fica em torno de 22 a 60% para Pernambuco e o Nordeste de um modo geral (2, 15, 16). Desse modo, com base nas fórmulas de Lwanga & Tye 1987 (17), adotando-se uma prevalência estimada de DVA de 20%, com uma margem de erro aceitável de 5%, uma confiabilidade de 95% e uma população em torno de 4000 pré-escolares, o tamanho amostral ficou em torno de 271 crianças. Para repor eventuais perdas, esse valor foi corrigido em 10%, totalizando uma amostra em torno de 271 indivíduos. A coleta de dados obedeceu a uma agenda com datas pré-estabelecidas para as diferentes etapas de identificação, realização de exames antropométricos (peso, altura), bioquímicos (retinol sérico), bem como para o inquérito dietético (consumo alimentar). 44 A coleta para a análise do retinol sérico foi realizada nas creches sendo colhido 1ml de sangue por punção venosa cubital, pela manhã. O sangue foi colocado em tubos previamente identificados, e protegidos da luz, imediatamente após coleta. Após uma hora de decantação, as amostras foram centrifugadas a 3000 rpm (rotação por minuto) durante 10 minutos, separado o soro e acondicionado em tubos eppendorf e armazenado no freezer à temperatura de - 20°C. Em seguida, as amostras foram transportadas para o laboratório, em caixas de isopor com gelo, para análise pelo método cromatográfico, utilizando-se a Cromatografia Líquida de Alta Resolução (High Pressure Liquid Chromatography - HPLC) (18). Para categorizar os níveis séricos de retinol foram considerados os pontos de corte de 10µg/dl (0,35µMol/L) para teores deficientes, 20µg/dl (0,70µMol/L) para valores baixos (19). A análise do consumo alimentar foi realizada mediante inquérito recordatório de 24horas realizado com a mãe ou responsável pela condução da criança à creche. Foram registradas em formulário específico, informações sobre todos os alimentos ingeridos pela criança pela manhã, antes de ir para a creche, e na noite do dia anterior, anotando-se em medidas caseiras. Posteriormente, os resultados foram transformados em gramas utilizando o Guia prático para estimativa de consumo alimentar (20). Quanto às refeições realizadas na creche, foi utilizado o método de pesagem direta, no qual foram pesados todos os alimentos oferecidos à criança, bem como o rejeito de cada porção. Esses dados subsidiaram o cálculo da quantidade ingerida de cada alimento por criança. Esses resultados foram somados ao do recordatório de 24h e analisados pelo Sistema de Apoio e Decisão em Nutrição (NUT) (21), para a determinação do conteúdo de vitamina A na alimentação da criança. Para estimar a prevalência de inadequação das dietas em relação a vitamina A foi considerado o valor da Dietary Reference Intakes (DRIs) proposto pelo Food and Nutrition Board – FND (22). Com o objetivo de determinar a variação intrapessoal do consumo alimentar foi aplicado mais um Recordatório de 24h em 20% dos pré-escolares, sorteados 45 aleatoriamente. Estes novos inquéritos foram realizados com intervalo de pelo menos quinze dias entre as coletas, repetindo o procedimento adotado no primeiro dia de Recordatório de 24h. O ajuste da distribuição da ingestão de vitamina A foi realizado com a remoção do efeito da variabilidade intra-individual, pelo método proposto pelo Iowa State University (23, 24). A prevalência de inadequação da ingestão de vitamina A correspondeu à proporção de indivíduos cujo consumo estava abaixo da Estimated Average Requirement (EAR) estabelecido para esse nutriente (22). As medidas antropométricas (peso e altura) foram tomadas e registradas em formulário específico. Na tomada do peso, utilizou-se uma balança digital eletrônica, de marca Filizola, modelo Personal Line E-150 com capacidade de até 150kg e precisão de 100g. As crianças foram pesadas descalças e portando indumentária mínima. A altura das crianças, foi determinada com fita métrica de 150 cm marca Stanley-milimetrada, com precisão de 1 mm e exatidão de 0,5cm. A fita foi fixada na parede e as crianças colocadas em posição ereta, descalças, com os membros superiores pendentes ao longo do corpo, os calcanhares, o dorso e a cabeça tocando a parede (25). A avaliação do estado nutricional foi realizada utilizando-se os índices antropométricos peso/idade (P/I), altura/idade (A/I) e peso/altura (P/A); e o padrão de referência utilizado para avaliar a adequação dos índices foi o novo padrão da OMS, lançado em 2006 (26). Como estimativa de condição socioeconômica, utilizou-se o Critério de Classificação Econômica do Brasil proposto pela associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (27), que se baseia numa pontuação em função do grau de instrução do chefe de família e pela posse e quantidade de determinados itens. As classes econômicas são, então, estabelecidas em cinco níveis: A, B, C, D e E. O algorítimo de análise proposto para o estudo envolveu, inicialmente, a observação do comportamento das variáveis segundo o critério de normalidade da distribuição. Quando as 46 variáveis não apresentaram distribuição normal ou simétrica, procedeu-se a devida transformação logarítima, visando-se o uso preferencial da estatística paramétrica. A distribuição binomial das variáveis foi aproximada à distribuição normal pelo intervalo de confiança. As proporções foram comparadas utilizando-se teste de Fisher. As médias foram comparadas pelo teste t de Student (2 médias) e as medianas pelo teste U-Mann Whitney (2 medianas). Foi utilizado o nível de significância de 5% para o teste de normalidade das variáveis, bem como, para a rejeição da hipótese de nulidade. A construção do banco de dados e a análise estatística foram desenvolvidos no programa estatístico Statistical Package for Social Sciences Versão 12.0 (28). A pesquisa foi aprovada no comitê de ética do Instituto de Medicina Integral Prof Fernando Figueira, processo n° 1135 de 07 de março de 2008. 47 RESULTADOS Foram estudados 344 pré-escolares de 24 a 60 meses de idade, precedentes de creches públicas do município de Recife, sendo 180 do sexo masculino (52,3%) e 164 do sexo feminino (47,7%). Em 333 crianças, procedeu-se a avaliação antropométrica, em 260, avaliação bioquímica e em 342, avaliação dietética. Em 6 crianças foram descartadas as tomadas de peso e altura, por inconsistência dos resultados, e em 5 crianças essas variáveis não foram aferidas. Em 11 crianças não foi possível a determinação dos níveis séricos de retinol por recusa da criança e/ou responsável, ou por fatores de ordem técnica inerentes ao método de análise; e em 2 delas não foi possível realizar o inquérito dietético, em virtude do não comparecimento da criança à creche no dia da coleta de dados. Segundo o nível socioeconômico, 32,5% das crianças pertenciam a famílias da classe econômica C, 57,5% da classe D e o restante ficaram entre as classes B (1,2%) e E (8,8%). As concentrações de retinol sérico apresentaram distribuição normal, com média de 1,16µmol/L (33,1µg/dL) e desvio-padrão de 0,33µmol/L (9,5µg/dL). A prevalência dos níveis inadequados de retinol sérico (<0,70µmol/L) foi de 7,7% (IC 95% 4,88 – 11,81), enquanto 29,6% (IC 95% 24,22 – 35,63) das crianças apresentaram níveis aceitáveis ou marginais (0,70 a 1,04µmol/L) de retinol (Figura 1). Os níveis de retinol sérico mostraram comportamento distributivo homogêneo com relação às variáveis sexo (p=0,9309) e idade (p=0,5100). Em relação aos níveis médios de consumo da vitamina A, foi evidenciada a não normalidade da distribuição. Então esses dados foram convertidos para o seu logaritmo natural e testados novamente não atingindo a normalidade. Desse modo, a mediana para as crianças de 24 a 47 meses foi de 704µg/d e os percentis 25 e 75 foram de 415,25 e 1445,00µg/d, respectivamente. E para as crianças acima de 47 meses a mediana foi de 595,00µg/d e os percentis 25 e 75 foram de 296,5 e 1040,50µg/d, respectivamente. Não foi possível avaliar a prevalência de inadequação, sendo avaliado apenas se o valor encontrado 48 estava abaixo da EAR estabelecida para a vitamina A (210µg/dia para crianças de 24 a 47 meses e de 275µg/dia para crianças de 48 a 96 meses de idade) que foi de 8,1% (24 a 47 meses) e 21,3% (48 a 60 meses). Quanto à relação do consumo de vitamina A com as variáveis sexo e idade, não houve diferencial estatisticamente significante (p =0,2639 e p=0,2756, respectivamente). As prevalências de déficits antropométricos (<-2 escores –Z) nos pré-escolares foram de 2,5% em relação ao índice Peso/Idade, de 8,6% quanto ao índice Altura/Idade e de 1,5% em relação ao índice Peso/Altura (Tabela 1). Na tabela 2 estão apresentados os níveis séricos de retinol segundo o consumo de vitamina A dos pré-escolares. Não sendo encontrado diferencial estatisticamente significante destes níveis entre as crianças com ingestão de vitamina A acima ou abaixo da EAR de referência. 49 DISCUSSÃO A deficiência de vitamina A continua sendo a causa principal de cegueira noturna evitável no mundo e está associada a 23% de mortalidade por diarréia em crianças (1). Os dados referentes ao nível socioeconômico das crianças do presente estudo, em que 32,5% foram de classe C e 57,5% de classe D, estão de acordo com os apresentados pela ABEP (28) em que 34,1% da população da Região Metropolitana do Recife foram de classe C e 40,7% de classe D. Segundo Castro et al. (29) variáveis como renda familiar e escolaridade, refletem na produção e na aquisição de alimentos e, conseqüentemente, no estado nutricional. Segundo os critérios adotados pela OMS para classificar a magnitude da DVA (19), a prevalência desta deficiência em crianças de creches públicas encontrada no presente estudo (7,7%), configura a hipovitaminose A na cidade do Recife como um problema de saúde pública do tipo leve. Fernandes et al. (15) em 1999 pesquisou a mesma população de estudo e seus resultados foram semelhantes aos nossos, em que sua prevalência de inadequação do retinol sérico foi de 7,0%. Em outros estudos a prevalência de inadequação do retinol sérico encontra-se elevada (1, 9), entretanto o ponto de corte utilizado para definir a DVA foi o retinol sérico abaixo de 1,05µmol/L. Este valor já foi intervalidado com outros indicadores bioquímicos, onde crianças com retinol sérico abaixo de 1,05µmol/L apresentaram resposta positiva a suplementação de vitamina A e está sendo cada vez mais utilizado, contudo, ainda não está totalmente elucidado (30). E alguns pesquisadores (3, 15) continuam utilizando o ponto de corte recomendando pela OMS (19). Além disso, se formos comparar os resultados do nosso estudo com os de Ramalho et al. (9), utilizando o retinol sérico abaixo de 1,05µmol/L para classificar inadequação, a DVA encontrada nas duas pesquisas foi semelhante (37,3 e 34,7%, respectivamente). A análise do consumo de vitamina A dos pré-escolares do presente estudo quando comparados aos padrões de recomendações para a ingestão média, mostrou adequação do 50 consumo. De um modo geral, nossos resultados contradizem os da literatura referentes a estudos regionais e nacionais sobre o estado nutricional de vitamina A das crianças. Marinho & Roncada (16) ao estudarem a ingestão alimentar em pré-escolares institucionalizados da Amazônia, encontraram que a ingestão média de vitamina A estava deficiente, sugerindo que a avaliação do consumo de vitamina A através da freqüência indicaria com mais segurança a ingestão da vitamina. Fernandes et al. (15) observou em 78% das crianças em idade pré-escolar 100% de adequação da ingestão dessa vitamina, porém o critério utilizado para classificar a adequação do consumo foi a RDA. Do mesmo modo, tendo em vista a metodologia utilizada e o fato desses estudos terem sido realizados antes da utilização das DRIs, que foram liberadas em 2001 (22). Portanto, não foi possível comparar os nossos dados com os demais abordados pela literatura. Havendo a necessidade de mais estudos em nossa região para o diagnóstico mais recente da situação de inadequação do consumo de vitamina A segundo a EAR. É importante lembrar que no Brasil, com ênfase na região Nordeste, o déficit de ingestão energética ainda persiste como problema nutricional e repercute negativamente no seu potencial de crescimento (31). Sendo a fase pré-escolar de rápido crescimento e desenvolvimento, é de grande importância a adequação de energia e nutrientes (6). Tendo em vista que as crianças passam um período do dia na creche, destaca-se que esse ambiente é privilegiado para a promoção de estilos de vida e alimentação saudáveis (31), sugerindo a importância do papel das instituições na alimentação infantil. O fato de freqüentar creches proporcionaria acesso a uma alimentação regular e equilibrada, que vem reforçar o papel da instituição no suprimento dos requerimentos nutricionais. Essa mudança de comportamento é observada por Santos et al. (2) que encontrou em crianças não institucionalizadas que viviam na zona rural de Minas Gerais 63% de inadequação no consumo de alimentos fonte de vitamina A. 51 Não podemos deixar de chamar a atenção para as limitações do método de inquérito alimentar. Deve-se ter cautela para avaliar a DVA através de inquéritos dietéticos em virtude de que a biodisponibilidade de vitamina A em alimentos de origem animal é maior que em alimentos de origem vegetal, além da ausência de informações sobre sua absorção e utilização biológica. Adicionado a isto, as diferentes tabelas de composição de alimentos apresentam uma multiplicidade de informações e muitas vezes os dados da composição química dos alimentos regionais estão ausentes (15). A baixa prevalência de desnutrição aguda (1,5%) foi semelhante ao encontrado por Fernandes et al. (15) que foi de 1,9% das crianças avaliadas em idade pré-escolar matriculadas em creches públicas da cidade do Recife-PE no ano de 1999. E a baixa prevalência de baixo peso (2,5%) foi inferior aos valores encontrados pela III Pesquisa Estadual de Nutrição e Saúde (PENS) (30) que foi de 8%. Segundo esta III PENS, o estado nutricional das crianças menores de cinco anos melhorou substancialmente em relação à II PENS em 1997 (14), desde que o retardo estatural baixou para 8% em todo o Estado, redução de aproximadamente 50%. E segundo os indicadores utilizados nesta pesquisa estadual (P/I, A/I e P/A), a desnutrição infantil encontra-se controlada. Em síntese, embora os dados desse estudo apontem a DVA como um problema de saúde pública do tipo leve, 29,6% das crianças avaliadas apresentaram níveis marginais de retinol sérico (0,70 µmol/L a 1,04µmol/L), o que as torna vulneráveis a infecções devido ao comprometimento do sistema imune que já pode ocorrer nesses níveis. Desse modo, são necessárias ações a curto, médio e longo prazos com o objetivo de restaurar os níveis séricos e proteger as crianças em idade pré-escolar dos efeitos adversos da DVA. 52 AGRADECIMENTOS Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo aporte financeiro e concessão de bolsa de estudo, a Secretaria de Educação do município, pelo apoio logístico e aos estagiários pela importante contribuição na coleta dos dados. 53 REFERÊNCIAS 1. Sarni RS, Kochi C, Ramalho RA, Schoeps DO, Sato K, Mattoso LCQ, Ximenes CF, Souza FIS, Damiani FM. Rev Assoc Méd Bras 2002; 48(1): 48-53. 2. Santos MA, Rezende EG, Lamounier JÁ, Galvão MAM, Bonomo E, Leite RC. Hipovitaminose A em escolares da zona rural de Minas Gerais. Rev Nutr 2005; 18(3): 331-339. 3. Paiva AA, Rondó PHC, Gonçalves-Carvalho CMR, Illison VK, Pereira JA, Vaz-de-Lima LRA, Oliveira CA, Ueda M, Bergamaschi DP. 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Índices Antropométricos (escore z) Peso/idade < - 2 DP > -2 a < -1 DP > -1 a < 1 DP > 1 a < 2 DP > 2 DP Altura/idade < - 2 DP > -2 a < -1 DP > -1 a < 1 DP > 1 a < 2 DP > 2 DP Peso/altura < - 2 DP > -2 a < -1 DP > -1 a < 1 DP > 1 a < 2 DP > 2 DP n % IC* 8 53 219 29 15 2,5 16,4 67,6 9,0 4,6 1,15 - 5,00 12,59 - 20,94 62,16 – 72,60 6,18 – 12,73 2,71 – 7,68 28 73 190 23 10 8,6 22,5 58,6 7,1 3,1 5,92 – 12,38 18,18 – 27,55 53,05 – 64,02 4,65 – 10,61 1,58 – 5,78 5 30 224 61 13 1,5 9,0 67,3 18,3 3,9 0,57 – 3,77 6,43 – 13,09 63,75 – 74,06 14,81 – 23,61 2,24 – 6,93 * Intervalo de Confiança de 95% 59 Tabela 2 – Níveis séricos de retinol segundo o consumo de vitamina A em crianças de 24 a 60 meses de idade de creches do município de Recife, PE, 2007. Consumo vitamina A Níveis séricos de retinol 1 a 3 anos* 4 a 8 anos** de < 0,70µmol/L ≥ 0,70µmol/L < 0,70µmol/L ≥ 0,70µmol/L Abaixo da EAR Acima da EAR Total n 02 13 15 *Teste de Fisher p= 0,6315 % 13,3 86,7 100 n 14 146 160 % 8,8 91,2 100 n 02 03 05 % 40 60 100 n 16 63 79 % 20,2 79,8 100 **Teste de Fisher p= 0,2903 60 5.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS § A DVA encontrada em crianças institucionalizadas da cidade do Recife foi de 7,7%, considerada como um problema de saúde pública do tipo leve. § É importante que mais estudos sejam feitos em nossa região para o diagnóstico mais recente da situação de inadequação do consumo de vitamina A utilizando-se a EAR como critério de avaliação. § O retardo do crescimento linear foi a forma de desnutrição predominante entre as crianças estudadas. 61 62 Anexo I 63 Anexo II 64 Anexo III 65 Anexo IV 66 Anexo V 67