Ensaio sobre contribuições dos pensamentos Freudiano e Reichiano à Epistemologia Nicolau Maluf jr RESUMO Neste ensaio, tópicos relativos a conceitos freudianos e reichianos são examinados, e uma apreciação é feita sobre como essas idéias podem contribuir para a questão da epistemologia. Central neste estudo é a noção de que fenômenos como percepção e cognição , longe de serem somente de natureza psíquica, podem ser melhor compreendidos quando consideramos algumas de suas contrapartidas somáticas, assim como as dinâmicas funcionais somatopsíquicas. Palavras –chave: epistemologia, percepção ,cognição. 1 ABSTRACT In this essay, topics related do freudian and reichian concepts are examined, and a appraisal is made related to how this ideias can contribute to the field of epistemology. Central in this study is the notion that phenomenon as perception and cognition, far from being of a psyquic nature only, can be better understood when we consider some somatic counterparts of them, as well as the somatic –psyquic functional dynamics. Key words: epistemology, perception, cognition. 1 1 Introdução: O que é conhecer? É possível um conhecimento “verdadeiro’? Esse parece ser um tema inesgotável, que tem ocupado pensadores por séculos. Com a revolução científica, e o abandono do “revelado” como pensamento único, a experiência passa a ocupar um lugar principal nos métodos e formas de se tentar conhecer as coisas e o mundo. Materialismo, idealismo, positivismo, etc. são noções que definem posturas e diferentes posicionamentos nas questões epistemológicas. Neste trabalho , pretendemos abordar um ângulo particular deste problema. Tratase de examinar o SUJEITO que percebe , na sua constituição, e as implicações disto para a questão do conhecimento . Queremos dizer com isso que, antes de lidar com questões relativas ã cognição, quando está já está presente, nos ocuparemos aqui de temas ligados ao desenvolvimento dessa capacidade nos sujeitos humanos, e de suas vicissitudes. Isso será feito através da utilização de um referencial freudiano. Em continuação, faremos também uma abordagem sobre o entendimento de como a dimensão perceptiva está estreitamente vinculada aos processos corporais, e de como estes moldam e participam da determinação destas percepções. Aqui, as contribuições do pensamento reichiano serão fundamentais. Com isso, esperamos conseguir apresentar ao fim deste trabalho, alguns elementos inusitados naquilo que se refere ao campo da epistemologia. FREUD, O CONSCIENTE E O INCONSCIENTE De forma geral, nos textos sobre epistemologia das ciências a que temos tido acesso, a consciência á tratada como um atributo pré estabelecido, igualmente distribuída pelos sujeitos humanos, e inquestionável. Uma exceção se encontra em Searle,(Searle, 2000) que trata de processos mentais inconscientes( inconscientes não 2 no sentido freudiano, mas no sentido mais literal do termo, no de não estar acessível à consciência). Damásio , ( Damásio, 2000) paralelamente, contribui a essa questão descrevendo casos como os de uma pessoa que, com uma determinada lesão cerebral , por exemplo, no hemisfério esquerdo do cérebro, tem a capacidade de linguagem afetada, e reage à uma colher apresentada ao seu olho direito dizendo nada ver, embora sua mão direita se dirigira e pegue a mesma colher. Cognição e consciência, portanto , são tratados como sinônimos, e sempre do ponto de vista de um sujeito adulto, plenamente desenvolvido. Mas a capacidade de apreender impressões e pensar sobre o mundo não e’ concomitante com o nascimento do indivíduo, é algo que se forma e se desenvolve com o tempo, passa por transformações. A linguagem, a capacidade de lidar com as palavras, a abstração, são possibilidades que surgem só depois de vários meses passados do nascimento. E mesmo a individualidade, a noção de um “eu” diferenciado do resto do mundo, não é algo que se dê de imediato acompanhando a existência da criança. Há concordância geral a esse respeito. Será isso pouco relevante ao se tratar do campo da epistemologia? Vamos desenvolver aqui algumas idéias quanto a isso. Para tanto, faremos uma apresentação despretensiosa de algumas noções freudianas quanto ao desenvolvimento do psiquismo . Para Freud, podemos falar das primeiras experiências da criança como certos registros mnêmicos( uma analogia seria a formação de ligações entre neurônios), acompanhando a existência de satisfação de necessidades. A criança sente fome, é amamentada, e com isso se reduz o nível de pressão interna trazendo alívio e satisfação. Nessa perspectiva, na próxima vez em que a criança sentir fome, será este traço mnêmico que será ativado, numa espécie de busca alucinatória de satisfação. Evidentemente, com o crescimento da tensão interna, este mecanismo não será suficiente, o desconforto sendo somente eliminado pela ação do mamar de fato. Este processo continuado seria o responsável pelo estabelecimento , finalmente, de uma capacidade na criança de reconhecer a diferença entre o fora e o dentro. Mas seria também responsável pela inauguração das possibilidades de representar internamente objetos do mundo. Portanto, podemos falar do representar objetos como produto , ou algo inexoravelmente ligado, a um encontro entre a necessidade e objetos do mundo, toda atividade psíquica sendo marcada e constituída por isso. Assim, toda percepção seria ,ao mesmo tempo, projeção e reconhecimento, variando , claro , de indivíduo para indivíduo. Desta forma, um acontecimento simples, como por exemplo , ver uma mesa, seria uma mescla entre ver e reconhecer. Experiências simples como mostrar um objeto , retirado depois, e pedir a 3 um grupo de pessoas que faça uma descrição deste mostra a extrema variação de respostas obtidas, apontando na direção da validade desta noção. Mas o exemplo da mesa, que serve aqui apenas como ilustração, deixa de fora o mais importante, na discussão da formação do psiquismo numa ótica freudiana. Lembrando do exemplo da criança, veremos que há uma vinculação entre a relação com o objeto e a experiência de satisfação que merece atenção especial. A criança não é um receptáculo passivo dos acontecimentos do mundo, a existência da necessidade implica numa atividade que se dirige para fora, em direção ao mundo( mesmo que tomemos aqui o “para fora” no sentido de atividade motora). Por isso dissemos que o psiquismo resulta de um encontro. E daí em diante, há uma busca permanente por objetos, objetos de satisfação. E nessa busca permanente, podese entender o desenvolvimento da capacidade de apreensão do mundo como uma espécie de derivado de uma atividade somática e emocionalmente significativa, por exemplo, o mesmo mamar apresentado antes. ”Fome de conhecimento” é uma expressão comum, e isto nos ajuda mais uma vez a explicitar a idéia da relação entre o vivido( desde que seja emocionalmente significativo) e relação com o mundo e seus objetos. Pelo que foi apresentado até agora, fica claro a imbricação entre formação de uma identidade, ( um “eu”),surgimento de um psiquismo, e relação com objetos. Essa noção permite formular a idéia de que há uma “pessoalidade” presente naquele que percebe, formada e definida por elementos de sua história pessoal, de um ponto de vista do desenvolvimento emocional. Assim, essas percepções , longe de serem impressões puras, recebem qualificações que se somam à aquilo que advém do objeto, a percepção final, sendo uma mescla, como dissemos antes, da junção destes elementos. Mas isso não significa dizer que o mundo que percebemos é produto de nossas projeções, nem implica em afirmar um solipsismo radical, longe disso. Como partimos da idéia da existência de uma combinação , uma somatória de elementos constituindo a percepção, é fácil ver que existe aqui um fenômeno cuja compreensão envolve transitar por vários territórios, mas todos eles passíveis de organização e objetivação. Pensar na relação existente entre a necessidade( fome) , atividade do organismo e apreensão subjetiva de objetos, como uma forma de se entender as origens da aquisição das capacidades de percepção, percepção consciente e abstração, implica em se considerar um processo que tem início em acontecimentos biofisiológicos,( a excitação corporal percebida como fome , por ex.), e esses processos são objetivos .Além disso, no pensamento freudiano, entendese a existência de fases de desenvolvimento na criança, períodos definidos de tempo onde a observação permite relacionar as formas como ela , criança, lida com o mundo a sua volta, com a existência de processos internos de desenvolvimento desenrolandose. Estes processos são vistos como somatopsíquicos, quer dizer, envolvem zonas específicas do 4 corpo ligadas a modos particulares de funcionamento mental. Para continuar nos exemplos que utilizamos, isso é como dizer que, para uma criança de uma certa idade, o mundo é percebido numa referência oral, ou seja, se é bom ou ruim de se por na boca .Existem outras fases além da oralidade, e esses períodos, ou fases de desenvolvimento, são entendidos como universais, ou seja, uma experiência necessária de todo ser humano, relativo à espécie. Assim, se de um lado existe a noção de “pessoalidade” presente nas formas de perceber o mundo, existem também estes universais e sua relação com processos definitivamente objetivos , como as excitações corporais ligadas à sensação de fome. O trazer para o interior das questões da epistemologia ,de uma noção que afirma a presença de fatores objetivos num lugar central do fenômeno percepção, leva a duas afirmações polêmicas: 1 A personalidade de alguém marca a forma e a qualidade daquilo que é percebido por esse alguém 2 Como existem processos objetivos presentes na constituição da personalidade, podese ter acesso parcial ao mundo subjetivo de um sujeito...podese saber COMO ele pensa. - Há ainda uma terceira afirmação, essa sim radicalmente polêmica: a de que é possível algo como um “conhecer” verdadeiro....através da identidade entre sujeito e objeto Essa afirmação será examinada num momento posterior, após uma abordagem das duas afirmações iniciais. Mas para que possamos examinalas, é necessário discorrer antes sobre algumas concepções reichianas REICH, CORPO E ENERGIA Fugiria aos objetivos desse trabalho uma apresentação rigorosa do pensamento reichiano, por isso tentaremos evitar a linguagem técnica e buscaremos uma apresentação com o máximo de clareza possível, mesmo que para isso tenhamos que abusar das simplificações. Reich foi um psicanalista contemporâneo de Freud que muito contribuiu ao movimento psicanalítico , mas depois divergiu deste . Entendeu a necessidade de enraizar a compreensão dos fenômenos da vida emocional nas ciências naturais, mas afastouse do reducionismo e do mecanicismo ( mecanicismo materialista). Como no pensamento freudiano há uma postulação de base energética ( a noção de libido), Reich desenvolveu pesquisas ( basicamente na física e na biologia) que indicavam a existência de uma forma de energia que ele, Reich, inicialmente entendeu como sendo fundamentalmente biológica para mais tarde definila como universal, ou não somente referente aos fenômenos biológicos. Mas não vamos nos estender nessa direção. O que nos interessa agora , retomando as duas afirmações mencionadas acima, é desenvolver uma apresentação das noções reichianas, fruto dos seus desenvolvimentos clínicos, que corroborem estas afirmações. 5 A primeira delas é a noção de “caráter”. Este nada tem a ver com a conotação moral usualmente relacionada ao termo. Caráter, no pensamento reichiano, é quase sinônimo de personalidade, diz respeito à padrões, modos repetitivos e característicos de atitude e comportamento frente a diferentes situações. O caráter é entendido como decorrente da história de vida do indivíduo, história do ponto de vista do seu desenvolvimento emocional, sendo o produto dos modos como esse indivíduo “resolveu” seus principais conflitos libidinais. Esse “jeito” de estar no mundo tem também uma função defensiva( a noção de defesa, no pensamento freudiano, diz respeito a funcionamentos mentais inconscientes que tem a função de impedir que determinados impulsos ou desejos, associados a proibições, cheguem até a consciência e encontrem expressão) Assim, e colocado de forma simples, o caráter tem como finalidade construir uma determinada estabilidade, mantendo em cheque determinados impulsos. Como deve estar claro agora, tem também a função de intermediar as relações entre o mundo externo e o mundo interno. Lembrando o que foi dito antes, quando falamos sobre o encontro entre a necessidade ( agora , desejo)e objetos do mundo, a noção de busca contínua de objetos de satisfação permanece, e essa é só uma maneira de apontar aqui para a presença da subjetividade. Podemos dizer agora, sem risco de exagero, que nossas relações com o mundo são sempre emocionais, carregadas de significado, embora isso não implique, é claro, que possamos reduzir nosso entendimento das relações mencionadas a isso. Este seria um fator presente, não único e nem necessariamente determinante. Mas a noção de caráter coloca questões referentes à epistemologia no sentido em que define as possibilidades de vivência do mundo num determinado referencial. Certas estruturas de caráter tem limitações intrínsecas quanto ao que estas podem ver e perceber. Se essa idéia parece polêmica, basta lembrar a questão, na epistemologia, sobre a existência de uma teoria já presente no observador que se ocupa em definir uma determinado campo de fenômenos. E de como essa teoria existente à priori valoriza certos elementos da percepção e elimina ou coloca num plano secundário outros., e tudo isso se passando de forma silenciosa nos processos mentais. Uma extensão desta questão envolve justamente o domínio dos funcionamentos emocionais. Uma personalidade mais dinâmica e agressiva( lembremos que tentamos aqui evitar termos técnicos) , de um pensador ou pesquisador, pode determinar construções mentais que sejam vanguardistas ou revolucionárias(no sentido de transformação) quanto às idéias vigentes , enquanto um outro, de personalidade mais comedida, pode ser levado a posições sempre conservadoras .Alguém mais extrovertido pode produzir visões de mundo onde noções ligadas a forças e processos estejam presentes, enquanto um outro mais introspectivo pode pensar justamente de forma oposta a esta. Claro, esses exemplos não pretendem ser mais 6 do que são, exemplos, e não regras fixas e definitivas de análise e avaliação, o que seria uma simplificação absurda. O que queremos aqui é apresentar como dinâmicas emocionais podem estar presentes na definição de uma determinada visão de mundo. Reich costumava dizer que o caráter( personalidade) de alguém devia ser levado em conta tanto quanto a validade científica de suas idéias, numa avaliação das mesmas. Vamos examinar agora a segunda afirmação, a de que existem processos objetivos presentes na constituição da personalidade, e a idéia de que se pode ter acesso parcial ao chamado “mundo subjetivo “ de alguém. Essa passagem será importante para podermos trabalhar a terceira afirmação. Num certo momento de seu trabalho clínico, Reich percebe que dinâmicas e funcionamentos corporais estavam diretamente ligados a questões da personalidade. Essa noção, revolucionária a princípio, hoje em dia começa a ter aceitação mais ampla. Se em termos de caráter ou personalidade podese falar em padrões e modos típicos de comportamento, do ponto de vista somático existem posturas corporais, tensões musculares crônicas , além de ritmos fisiológicos como os da respiração, etc., que no seu conjunto são os correlatos físicos da personalidade. O modo de ser de alguém , portanto compõemse tanto destas atitudes de caráter quanto dos funcionamentos somáticos envolvidos. Se, às vezes ,existem nuances sutis envolvidas, outras , a composição é tão gritante que não é necessário nenhum conhecimento especializado para se dar conta disso . Um militar prussiano, com sua atitude moral rígida, e peito inchado ( inspiração crônica) , nuca e queixo endurecidos é um exemplo fácil disso, assim como o é uma personalidade sofrendo de inibição crônica, com uma postura encurvada, olhar sempre voltado para baixo e evitando os olhos do interlocutor. Como dissemos antes não vamos nos estender nisso. O que importa aqui e’ apresentar a noção de um funcionamento unitário somapsique. Ou, numa linguagem reichiana, a de uma unidade funcional constituída de uma antítese complementar. (Niels Bohr, o físico que postulou a natureza complementar da dualidade onda partícula na mecânica quântica certamente não teria dificuldades com este entendimento .) Os processos somáticos como grupos de músculos com tonus diferenciado, postura corporal, ritmos respiratórios, cardíacos, etc., são elementos objetivos, diretamente observáveis. A forma como se organizam esses elementos corresponde a uma certa personalidade. Tem uma história e assim como o caráter, formamse em função de eventos significativos no desenvolvimento emocional de um sujeito. E isso implica na possibilidade de, ao se observar alguém, fisicamente falando, poderse ter uma idéia de como pensa ,age, vive, em linhas gerais. Um experimento realizado nos anos trinta ajuda no aprofundamento desta questão. 7 Baseado na concepção freudiana de que as vivências de prazer e desprazer eram centrais na constituição do psiquismo, Reich, pensando na identidade somapsique, elabora o seguinte experimento: registrase a variação em mvlts na pele de voluntários aos quais são apresentados estímulos, grosseiramente definidos à priori como prazerosos ou não ( açúcar na língua, uma carícia leve, ou então um som elevado súbito, ou vinagre, etc.).Numa sala ao lado, um oscilógrafo registra essas variações. Inevitavelmente, cada vez que um sujeito dizia estar percebendo um estímulo agradável, o aparelho registrava uma elevação da curva, e somente aí. Ao mesmo tempo, sinais corporais como cor da pele, calor na superfície do corpo, vasodilatação, que acompanhavam essa elevação da curva , permitiam pensar em outra equivalência: a da existência de uma relação entre a percepção( subjetiva) de prazer e uma direção centroperiferia das excitações corporais. Outros detalhes do experimento não importam agora. O que ficou patente nesse caso foi a ligação entre estímulo objetivo e percepção subjetiva. Uma não podia se dar sem o outro. Como também na concepção freudiana, a sexualidade tem um papel fundamental na personalidade, e existe na metapsicologia freudiana um referencial energético( libido),Reich afirmava que essa postulação freudiana permitia, pela primeira vez ,trazer o exame dos fenômenos emocionais para dentro do campo das ciências naturais: quantidades de excitação corporal correspondem a intensidades de sensação. Como dissemos antes, temos que fazer simplificações na apresentação de certas idéias para podermos alcançar o objetivo proposto. Em síntese, com o que vimos até agora, este objetivo referese à possibilidade de pensar questões da epistemologia a partir das noções sobre a constituição da subjetividade, suas relações com elementos da vida emocional, e a importância da corporalidade , num funcionamento conjunto. Pudemos com isso examinar a noção de que, quando há um sujeito que percebe, esse perceber constituise tanto de singularidades, uma “pessoalidade”, quanto de universais como uma estrutura de personalidade estável formada a partir de fases de desenvolvimento, e funcionamentos corporais fundados na fisiologia e biologia. Lembrando novamente: apresentamos aqui questões relativas aos funcionamentos intrínsecos da percepção humana de uma perspectiva emocional, não reduzimos a percepção a eles. Uma apreensão de impressões sobre o mundo, seria, como dissemos antes, uma mescla de como as coisas do mundo afetam um sujeito que existe e funciona como descrito anteriormente. Mas já é hora de abordar a terceira afirmação, a da identidade entre sujeito e objeto, e a questão do conhecimento verdadeiro. SOMOS FEITOS DA MESMA MATÉRIA QUE AS ESTRELAS, OU A QUESTÃO DA IDENTIDADE FUNCIONAL SUJEITO OBJETO 8 Além da importância da consciência e da cognição, quando se trata do campo da epistemologia, um outro elemento chama a nossa atenção : tratase da presença insidiosa, silenciosa, da noção de que há um ‘EU” aqui e um mundo “ lá fora”, nos textos e autores que tratam da questão do conhecer. O pensamento cartesiano parece estar de tal forma entranhado nos nossos modos de ser e pensar que usualmente tomamos isso como um apriori dado, na verdade sequer chegamos a questionálo. Se existem inúmeras questões quanto à possibilidade do conhecer a “coisa em si”, há também o fato de que somos objetos do mundo e no mundo. E não há razão alguma para não se tratar a cognição e percepção como fenômenos naturais ( o que não quer dizer reduzilas à explicações materialistas mecanicistas) Se é verdade que há’ processos eletromagnéticos, químicos e neuronais envolvidos no ato de ver um objeto, por sua vez, a existência de transduções e a possibilidade de se conhecer os mecanismos destas não implica em que um objeto existente de fato não esteja sendo visto, como bem coloca Lacey.(Lacey,1998) Se, de um lado, somos sujeitos históricos, marcados pela cultura de um tempo e lugar, nas páginas anteriores procurei descrever noções de como nossa psicologia, nossa subjetividade, que exprimem uma “pessoalidade”, se entrelaçam inevitavelmente a processos fisiológicos e biológicos, processos materiais, objetivos. E quanto mais “descemos” em escalas na nossa análise, mais encontramos elementos que configuram a presença do universal . Será que podemos traçar uma separação tão absoluta entre a reação de um organismo unicelular que reage a um meio tóxico, e a maneira como somos afetados por um objeto do mundo? Aqui entramos num território polêmico e delicado. Uma ameba contraise ou se expande afastandose ou se aproximando de uma partícula de alimento. Isso quer dizer que seu protoplasma movimentase internamente. Num microscópio, podese ver pequenas ondas de excitação percorrendo o sentido centro periferia ou vice –versa. Se consideramos a ameba um organismo vivo, temos a possibilidade de entender que esta, ao moverse, movese em reação à ( como no exemplo do meio tóxico) . quer dizer, percebe e se move. Nela, movimento e uma forma primitiva de percepção estão interligados. Vamos retornar agora ao experimento bio elétrico mencionado antes . Nele, vimos que, ao mesmo tempo em que um sujeito do experimento se percebia tendo uma sensação que qualificava como prazerosa, havia um registro do aumento do potencial elétrico da pele. Por sua vez, este mesmo acontecimento tinha uma implicação, uma reação fisiológica basicamente expansiva, o que permitia inferir um movimento organizado centro periferia dandose no organismo. 9 Percepção e reação fisiológica ( movimento) como concomitantes. Claro, há situações onde se pode encontrar experimentalmente a existência de uma reação fisiológica desse tipo sem o acompanhamento da consciência do fato( permanece aqui a vinculação entre movimento e percepção, mesmo que esta não aconteça de forma consciente) Mas isso quando há alterações do tecido nervoso provocadas por lesão, ou mesmo em situações neuróticas posteriormente reversíveis, como mostra a experiência clínica. De qualquer forma, os elementos apresentados aqui permitem uma generalização que afirma a cognição como fenômeno somatopsíquico, e não apenas psíquico. Se retornamos também ao início do texto e ao exame da constituição do psiquismo numa ótica freudiana, vamos também encontrar um novo sentido não presente anteriormente na descrição que fizemos. Falamos do encontro entre necessidade e objeto, a fome como exemplo de crescimento de tensão interna que busca alívio e satisfação através do objeto. Agora, podemos equiparar organismo unicelular e organismo de um mamífero superior quanto ao movimento protoplasmático presente em ambos. Podemos também pensar a ligação entre percepção e movimento, vendo o movimento como um “moverse em direção a” Não por acaso, emoção, “ex movere”, significa moverse em direção... Sabemos que parece altamente especulativo o que estamos apresentando, mas isso se dá mais em função de não podermos nos estender aqui em fatos clínicos, observações e mesmo dados de experiências no campo da física e da biologia, extensamente mencionados por Reich e na nossa própria experiência. Temos limites aqui para isso, só podemos cobrir um território definido, e temos feito isso aos saltos. Neste trabalho , passamos por noções que percorrem domínios da psicologia, da fisiologia e biologia, mas com uma ênfase na tentativa de apresentação de uma perspectiva de interligação coerente entre eles, o que nos coloca numa dimensão sistêmica ao tratar dessas questões agora. Falta agregar aqui uma concepção energética. Na metapsicologia freudiana há um referencial energético, tratase da libido. Esta seria um produto do metabolismo corporal, estando na interface do somático e do psíquico. Seria a energia que pressionaria o aparelho psíquico a realizar trabalho. A libido , por sua vez , manteria um estreito vínculo com a sexualidade, a satisfação pulsional implicando em experiências de prazer. Já que é sempre problemático apresentar de forma sintética noções que não são nada simples, vamos apenas seguir em frente sem nos deter demasiado nessas noções. 10 Como foi apresentado anteriormente, o somático está implicado nos funcionamentos emocionais E mencionar o somático conduz à noção de processos objetivos, e processos quantitativos também envolvidos. E estes, à uma noção de uma energia...que se move. .As pesquisas reichianas, e isso quer dizer as referentes não só ao exercício da clínica, permitem conceber a idéia de uma interligação entre todos os fenômenos. Concordamos com sua noção de que não há barreiras, demarcações absolutas entre os fenômenos da natureza, estas só existindo nas produções de conhecimento sobre ela. Talvez o exemplo da química com o surgimento da mecânica quântica seja um boa referência. E do ponto de vista desta concepção, já que existe uma ligação de algum tipo ,um denominador comum entre todos os fenômenos, então, existe também uma identidade passível de ser explorada e conhecida entre sujeito e objeto, já que o próprio ato de “conhecer” e’ visto como funcionalmente idêntico a um movimento, um movimento “em busca de”... Não temos como evitar uma linguagem finalista e até animista muitas vezes na descrição desses processos. Na concepção reichiana, e nossa experiência concorda com isso ,há uma identidade entre funções energéticas dentro e fora do organismo, e uma identidade entre as manifestações físicas essenciais dessa energia, e funções associadas com a vida e as emoções. Sob certas condições, saber pode ser idêntico a ....sentir. Coincidentemente ou não, Damásio, no seu livro “O Erro de Descartes”( Damásio, 1996), onde entre outras coisas examina a questão da consciência, faz uma substituição do famoso” penso, logo existo”, pelo “ sinto...logo existo”. Certamente leu algo sobre isso em Reich. DISCUSSÃO E CONCLUSÃO Examinar o ato de conhecer leva inexoravelmente à questão da natureza da consciência. Nos últimos anos, tentativas tem sido feitas de explicála a partir de modelos oriundos da biologia, das neurociências, computação, etc., além claro, daqueles que remontam ao plano da psicologia e psicanálise. Infelizmente, um preconceito quase sempre presente envolve a noção de que o mental é análogo ao cerebral, a dimensão organísmica, ausente ou ignorada. Ora, não está aqui sendo posto em questão se a existência do tecido nervoso é necessária para a presença da consciência , mas sim se essa condição, além de necessária, é suficiente. 11 Um outro tipo de problema é encontrado nos modelos que adotam uma perspectiva mais global: se por um lado as soluções definidas são mais abrangentes e a fórmula mentalcerebral é superada, por outro frequentemente lançase mão do recurso fácil de se tratar a consciência como propriedade emergente de um sistema, sem diferenciar porque sistemas biológicos possuemnas, justamente na sua especificidade enquanto organismos( caso contrário, esta seria uma propriedade de todo e qualquer sistema com um certo grau de complexidade) Assim, no nosso entender, o pensamento reichiano apresentase como extremamente promissor para o lidar com um problema como o da consciência, por desenvolver um modelo que pode incluir desde elementos supostamente únicos da experiência humana, como o desejo e a linguagem, de um lado, e influências devidas a uma existência no tempo e no espaço, por outro. O conhecer “verdadeiro” parece envolver não só a análise de categorias como sensação , percepção, etc., e a difícil tarefa de se localizar fronteiras entre estas. Pelo que foi apresentado antes, remete igualmente à existência do soma pulsante e capaz de excitação, delimitado por uma membrana. E inclui especialmente o principal trajeto das excitações corporais, alongando a forma e dobrandose sobre si mesmo. No texto “The Rooting of Reason in Nature”, Reich elabora analogias entre o movimento do orgone livre de massa, a forma do orgonome, e a das sementes, embriões e localização de órgãos no corpo, entre eles, os dos sentidos. Nessa analogia, movimento , vida e apreensão física e mental do mundo guardam uma relação de identidade entre si. Podese chamar isto de mera especulação, mas toda teoria do conhecimento surgiu a partir da observação de regularidades e relações entre fenômenos. É o sucesso ou não nas predições, no aprofundamento da compreensão, no desenvolvimento de ações eficazes e até de tecnologias que distingue as teorias quanto a correção na explicação dessas relações e regularidades. A identidade entre diferentes funções como excitação protoplasmática, e apreensão do mundo, produz uma curiosa configuração: o vivo é capaz de conhecimento, e conhecer sobre o conhecimento implica em se explorar a dimensão do vivente. O fato de sermos organismos. Corpos. O dimensionamento e atenção à relação entre corpo e conhecimento não é prerrogativa exclusiva das premissas e metodologia do pensamento funcional reichiano. Numa abordagem até certo ponto , 12 próxima, Searle ( 1998) comenta: “É necessário pensarmos a experiência de nosso próprio corpo como o ponto de referência central para todas as formas de consciência .A importância teórica dessa afirmação , acredito, está no fato de toda teoria da consciência ter de levar em consideração que toda consciência nasce com a consciência do próprio corpo..” A fenomenologia da percepção, de M.Ponty, atravessa o mesmo território: “O verdadeiro Cogito não define a existência do sujeito pelo pensamento de existir que ele tem, não converte a certeza do mundo em certeza do pensamento do mundo, e, enfim, não substitui o próprio mundo pela significação do mundo...” O enfoque de M. Ponty parece ir de encontro ao da psicanálise e à noção de sujeito dividido( cliva gem do ego) Mas entendemos que a aceitação da hipótese freudiana sobre a constituição do aparelho psíquico não implica na impossibilidade do conhecimento objetivo. A impregnação do consciente pelo inconsciente não conduz automaticamente às mesmas conclusões do autor e psicanalista Joel Dor ,que afirma, na psicanálise “a irredutibilidade da divisão do sujeito e de seus efeitos consequentes” e que ela assim “lança o impossível desafio acerca do sujeito cognoscente” Tal formulação só faz sentido quando e’ mantido o caráter misterioso, inacessível, intocável atribuído ao inconsciente no pensamento psicanalítico. A perspectiva energético econômica adotada por Reich na clínica permitiu vislumbrar a natureza dialógica do pulsional, corporificandoo também e preenchendo significativas extensões do conceito de inconsciente com o conhecimento sobre as dinâmicas somáticas da vida emocional. O inconsciente é tangível, pelo menos em parte. É do mundo. Visto desta maneira, a perspectiva sistêmica que assim surge permite uma articulação com diferentes disciplinas que tem se ocupado com fenômenos que escapam ao referencial reducionista, por suas características globais e holísticas. Crescem as possibilidades de entendimento sobre o que é o conhecimento. Permanace o desafio. Mas não mais impossível. Num texto citado por Damásio, Einstein comenta que as palavras e a linguagem não pareciam desempenhar qualquer papel em seus processos de pensamento, que se dariam em termos de 13 imagens visuais e sensações musculares, para só depois, arduamente, chegar a conceitos associados pela lógica. Damásio afirma que estas, as imagens, são o principal conteúdo dos pensamentos, independente destas serem sobre coisas , processos ou palavras. Por trás disso, haveria numerosos mecanismos, raramente alcançando a consciência, que orientariam a formação destas imagens, mecanismos que utilizariam regras e estratégias incorporadas em representações dispositivas. Eles seriam essenciais para o pensar, mas não constituiriam o conteúdo do pensamento. Arranjos neuronais, correlatos de imagens corporais, tem seu lugar nos modelos que equiparam mente e cérebro. Mas Einstein parece relatar uma experiência qualitativamente diferente, um pensar com o corpo, um processo onde o corporal não e’ apenas substrato para o mental, o sentirconhecer ocorrendo no momento em que o pensar constitui o conteúdo do pensamento, no instante em que o corpo é , ao mesmo tempo, sujeito e objeto, numa dimensão préverbal onde a experiência remete a primórdios que talvez sequer possam ser chamados de pensamentos. Se nem toda consciência é consciência sobre o corpo, mas toda consciência começa com a experiência do corpo, numa perspectiva reichiana podemos afirmar que toda experiência do corpo é, originalmente , uma experiência sobre o ( do) mundo, e portando, toda consciência pode, potencialmente, encontrar o mundo em si mesma. Assim, e concluindo, essa é uma epistemologia que transborda para além da noção clássica de cognição, apoiandose num referencial onde processos físicos e mentais encontramse dialeticamente ligados por um denominador comum. Um referencial que , ao mesmo tempo em que afirma a noção de inconsciente freudiano, através do pensamento reichiano supera a fomulação do sujeito divido e a concomitante impossibilidade de um conhecimento objetivo decorrente desta. Uma epistemologia de um sujeito da natureza. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS: DAMÁSIO, Antônio R. O Erro de Descartes: São Paulo, Compania das Letras, 1996. O Mistério da Consciência: São Paulo, Compania das Letras, 2000. DOR, J. Acientificidade da Psicanálise :Porto Alegre, Artes Médicas, 1993. 14 FREUD, S. Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, 1981. LACEY,H. Valores e Atividade Científica. São Paulo: Discurso Editorial, 1998. MALUF JR., N. “ Orgonomia e Ciência Contemporânea”, em Arquivos Brasileiros de Psicologia: Rio de janeiro, Imago Ufrj, 1997. MerleauPonty, M. Fenomenologia da Percepção: São Paulo, Martins Fontes, 1999. REICH, W. Selected Writings. New York: Farrar,Straux and Giroux,1973. SEARLE, Jonh R. Mente , Linguagem e Sociedade: Rio de Janeiro, Rocco, 2000. o Mistério da Consciência: São Paulo, Paz e Terra,1998. 15 16