1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA MONITORIZAÇÃO DE INSTALAÇÕES PECUÁRIAS TENDO EM VISTA O BEM ESTAR ANIMAL Vasco Fitas da Cruz1,4, Alfredo Pereira2,4 e Fernando Capela e Silva3,4 Departamento de Engenharia Rural1, Departamento de Zootecnia2, Departamento de Biologia3, Instituto de Ciências Agrárias Mediterrânicas4 Universidade de Évora, Apartado 94, 7002-554 Évora, Portugal Telefone: 266740800, fax: 266760911; e-mail: [email protected] Resumo A correcta planificação de instalações pecuárias, quer ao nível de condicionamento espacial (arquitectura), quer ao nível de condicionamento ambiental (climatização), é fundamental para que as regras do bem estar animal sejam cumpridas. Esta planificação é influenciada por múltiplos factores, dos quais se destacam as condições climáticas exteriores e os sistemas de produção (meios e objectivos). Planificar correctamente implica quantificar objectivamente as necessidades dos animais e ajustar em tempo real as características dos alojamentos a essas necessidades. A definição dos requerimentos animais compreenderá recolha de informação relativa à avaliação da ritmicidade circadiana dos comportamentos alimentar, social e termorregulador. Esta informação é fundamental pois permite a identificação de estereótipos assegurando a monitorização efectiva do bem estar social dos indivíduos. Considerando que um dos mecanismos de defesa a ambientes adversos é a resposta celular, a qual é quantificada pelo aumento da expressão das chamadas “proteínas de stress”, das quais as proteínas de choque térmico constituem um subgrupo, haverá todo o interesse em monitorizar a sua expressão, conjuntamente com outros indicadores comportamentais e fisiológicos de bem estar animal. Destes destacam-se os níveis de oxitocina, de cortisol, a ingestão alimentar, a temperatura corporal e os ritmos cardíaco e respiratório. A monitorização daqueles bioindicadores permitirá, assim, a análise integrada dos dados e actuar em tempo real. Para o efeito desenvolveram-se equipamentos que permitem estimar a resposta dos animais às condições ambientais de stress. O LSM (“Livestock Safety Monitor”) é um exemplo deste tipo de equipamento. Recolhe dados de estações meteorológicas (temperatura, humidade relativa, etc.) e, em função destes, estima o ritmo respiratório dos animais. O grande desafio é encontrar metodologias de monitorização fisiológica que contemplem as variações individuais em função dos seus valores basais. A informação recolhida a partir destas variações individuais será incorporada em software de análise que desencadeie as respostas adequadas (por ex., diminuição da temperatura ambiental, aumento do caudal de ventilação etc.) em mecanismos controlados por feed-back negativo. No presente artigo pretende-se apresentar um modelo de controle das instalações pecuárias baseado na informação recolhida nos animais, com uma ligação sincrónica aos equipamentos de climatização existentes nas instalações. Palavras-chave: bem estar animal, bioindicadores de stress, monitorização, alojamentos 1. Introdução A correcta planificação de instalações pecuárias, quer ao nível do condicionamento espacial (arquitectura) quer ao nível do condicionamento ambiental (climatização), é fundamental para que as regras de bem estar animal sejam cumpridas (Cruz et al., 2002). Estas regras baseiam-se nas 5 liberdades ou ausências (the Five Freedoms, Webster, 1995)) as quais dizem, resumidamente, que o animal 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA deve estar livre de qualquer situação de stress. Stress pode ser definido como uma resposta biológica desencadeada quando um indivíduo recebe uma ameaça para a sua homeostasia (Moberg, 2000); se essa ameaça se prolonga a permanência em estado de alterta pode conduzir à exaustão. Se um animal se encontra alojado em instalações mal planificadas está frequentemente sujeito a situações de stress, não só stress social mas também stress térmico quer por frio quer por calor excessivos. Revela-se assim interessante saber como medir os níveis de stress dos animais e qual a influência que o clima, através das alterações que provoca nos parâmetros de condicionamento ambiental, tem sobre a intensidade de stress. Interessante é também saber como integrar objectivamente a informação recolhida nos animais e relacionar os desvios com as suas necessidades, de modo a actuar, em tempo real, sobre a climatização das instalações pecuárias. Constituem assim objectivos deste trabalho a recolha de informação relativa aos aspectos anteriormente mencionados e a apresentação de um modelo de controlo da climatização das instalações pecuárias baseado na informação recolhida nos animais, com uma ligação sincrónica aos sistemas de condicionamento ambiental existentes nas instalações. 2. Monitorização das condições climáticas Para a adequada climatização de uma determinada instalação pecuária é necessário e fundamental dispor de dados meteorológicos da zona onde esta se localiza. Para esse fim os dados mais importantes são a temperatura de bolbo seco (tbs), a temperatura de bolbo húmido (tw), a temperatura de globo negro (tgn), a temperatura do bolbo negro revestido (tgnh), a humidade relativa, a radiação solar e a velocidade e direcção do vento. Neste momento encontram-se disponíveis no mercado estações meteorológicas automáticas, equipadas com sistemas de leitura e armazenamento de dados (data-logger) que permitem recolher, armazenar e transferir a informação através das sondas e dos sensores que integram essas estações. Com base nessa informação podem-se construir índices (Lucas et al., 2000), tais como o THI (índice de temperatura e humidade) apresentado pelo NWSCR em 1976; ou WBET (Silva, 2000) THI = 0,72 (tbs + tw) + 40,6 WBET = 0,7 Tgnh + 0,2 tgn + 0,1 tbs O THI pode evoluir para a determinação do número de horas em que ele se encontra acima, abaixo ou no intervalo dos valores considerados aceitáveis, de acordo com o LWSI (Livestock Weather Safety Index, LCI, 1970). Consequentemente, podem-se criar sistemas de alerta, os quais permitirão aos produtores activar as técnicas de maneio de condicionamento ambiental de modo a salvaguardar os seus animais de condições ambientais adversas. Por outro lado, o WBET tem mais aplicação na monitorização das condições ambientais numa instalação concreta Os dados recolhidos através das estações automáticas podem, por sua vez, ser tratados por software de controle das condições ambientais no interior da instalação, executando os cálculos relativos aos balanços de massa e de energia, nos quais se baseia a climatização das instalações. Os valores então calculados são comparados com os valores de referência, podendo conduzir a correções por feedback no caso dos desvios serem acima de determinada magnitude, o qual está dependo do tipo, da idade e da intensidade produtiva do animal 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA 3.Monitorização ao nível dos animais A resposta ao stress começa quando o sistema nervoso central (SNC) do animal recebe uma ameaça potencial à homeostasia. Nesse momento é desenvolvida uma acção que consiste na combinação de até quatro respostas ou defesas biológicas (ver figura 1). Estimulo - Reconhecimento de uma ameaça à homeostasia SNC Organização da defesa biológica Resposta ao stress + Resposta biológica Alteração das funções biológicas Consequências do stress Estado pré patológico Desenvolvimento da patologia Figura 1 – Modelo de respostas biológicas do animal ao stress (adaptado de Morberg, 1999) Estas respostas podem ser comportamentais, associadas ao sistema nervoso autónomo, neuroendócrinas e imunitárias. Quando a intensidade do estímulo recebido é pouco acentuada, a resposta inicial é do tipo comportamental. Esta resposta pode não ser apropriada para todas as situações (Ladewig, 2000), necessitando o animal de procurar outro tipo de respostas principalmente quando as acções comportamentais são limitadas ou até impedidas. Esta situação é muito frequente quando os animais estão confinados. Com o aumento da intensidade do desconforto e a sua duração, a resposta neuroendócrina assume um papel determinante. A segunda linha de defesa é o sistema nervoso autónomo (Morberg, 2000). Este afecta um diverso número de sistemas biológicos, incluindo os sistemas 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA cardiovascular e gastrointestinal, as glândulas exócrinas e a medula adrenal. Neste caso as respostas são relativamente rápidas (por ex. alteração do ritmo cardíaco ou da pressão arterial). Pelo contrário as hormonas segregadas pelo sistema neuroendócrino hipotálamo-hipófise têm um efeito persistente e duradouro, alterando o metabolismo (Elsasser, 2000), as competências imunológicas (Blecha, 2000) e o comportamento. Aumentos na circulação de glucocorticoides adrenais (cortisol e corticosterona) e de outros metabolitos estão desde há muito relacionados com situações de stress. Hoje pensa-se o mesmo relativamente à secreção de prolactina e de somatotrofina ou hormona do crescimento. Também a hormona estimulante da tiróide (TSH) e as gonadotropinas (hormonas luteinizante, LH e folículo estimulante, FSH) podem ser directa ou indirectamente modeladas pelo stress (Morberg, 2000). Outro dos mecanismos de defesa dos organismos é a resposta celular a situações de stress, que assegura a protecção das células e dos tecidos das alterações ambientais agudas e muitas vezes tóxicas. Esta resposta é dada pelo aumento da expressão de genes específicos, cujo produto compreende uma família de proteínas conhecidas como proteínas de stress, e cuja função é proteger a célula e restabelecer a homeostasia, podendo ser considerado como um mecanismo universal de defesa contra todas as formas de agressão. O termo “proteínas de stress” (Goering, 1995) é hoje usado relativamente a um conjunto de proteínas, das quais as proteínas de choque térmico “heat shock protein (hsp)” são apenas um subconjunto (David.e Grongnet, 2001). Outras proteínas, tais como a ubiquitina, também ela uma hsp, as metalotioneínas, a trombospondina, a osteonectina, a calreticulina, a NO sintase (Néri et al., 1992; De Maio ,1999) ou a hemoxigenase e as p-glicoproteínas (Sanders e Dayer, 1994) são também consideradas proteínas de stress (Del Razo et al., 2001). De acordo com David e Grongnet (2001), o conhecimento da expressão das proteínas de stress durante o desenvolvimento do animal, nas diversas condições do seu ambiente, pode permitir a optimização da produção animal. Desde há muito tempo que o aumento da incidência de doenças é atribuído à supressão das competências imunológicas durante as situações de stress. Dunn, (1998) apreciou que o SNC desempenha um papel directo na regulação da actividade do sistema imunitário durante o stress. Baseado na importância destes quatro tipos de respostas ao stress, parece lógico concluir que será útil a monitorização destas respostas. No entanto a busca de soluções técnicas que permitam a medição de parâmetros sem criar condições de stress nos animais, tem atrasado este processo. Realmente a monitorização das respostas comportamentais e/ou fisiológicas pode implicar a recolha de amostras de sangue, a preparação para alguns testes (electrocardiogramas, por ex.) ou a implantação cirúrgica de sistemas de acumulação de dados (Cook et al., 2000). Tal pode implicar ainda a retirada e posterior recolocação dos animais do seu habitat. Existem ainda dois tipos de dificuldades adicionais que complicam o uso destas medidas. A primeira, ainda que os quatro tipos de resposta estejam disponíveis no animal para responder a situações de stress, é que elas não são todas utilizadas, em conjunto, para defender a homestasia. A outra prende-se com as variações que possam ocorrer de animal para animal. Estas relacionam-se com experiências anteriores, com as relações sociais (de dominância e hierarquias) existentes e com a predisposição genética. Deve-se ainda realçar que não é o tipo de resposta que o animal utiliza que é importante para o seu bem estar, mas sim as alterações das funções biológicas. Ou seja, todas as defesas biológicas usadas para fazer face a uma situação de stress alteram as funções biológicas. São estas alterações das funções biológicas que são importantes para o bem estar animal e não o mecanismo que as induz. Concluir-se-á assim que são estas alterações que devem ser monitorizadas. 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA Vários indicadores de stress são utilizadas em animais: o ritmo e volume respiratório, o ritmo cardíaco, a pressão arterial, a temperatura corporal, a temperatura da pele, o nível de actividade, a ingestão alimentar e de água, as características da pelagem, a expressão de proteínas de stress, a concentração de certas hormonas (adrenalina, corticosterona, cortisol, FSH, LH, oxitocina, prolactina, somatotropina e TSH) e a concentração de metabolitos circulantes tal como a glucose. Recentemente têm sido desenvolvidos equipamentos que permitem recolher informações sobre estes indicadores. Existe no entanto a necessidade de desenvolver equipamentos que permitam recolher a informação sem criar condições adicionais de stress para os animais i.e. sem que se verifique qualquer manipulação no momento da recolha da informação. Este equipamento deve ser concebido tendo em atenção determinadas características (Cook et al, 2000). Deve ser à prova de água e robusto, podendo também ser utilizado no exterior. Os sinais emitidos por um sensor colocado num animal não devem interferir com os sinais emitidos por outros sensores localizados noutros animais. O equipamento não deve impedir que os animais expressem o seu comportamento normal. Além disso os valores da expressão normal dos parâmetros e o tempo requerido para os alcançar devem ser calibrados. Deve-se também prever situações inesperadas e a presença de alarmes que as evidenciam e permitem uma resposta rápida. Relativamente à recolha de informação sobre os aspectos comportamentais a técnica mais utilizada e disseminada tem sido a utilização de video-camaras que filmam permanentemente e gravam o comportamento dos animais. Para a recolha de informação no animal, com um mínimo de stress têm sido desenvolvidas uma série de técnicas e de equipamentos. Estas incluem a sedação (Monfort et al., 1993), a habituação à recolha de sangue (Bubenik et al., 1983) ou técnicas que reduzem ou eliminam o contacto com os animais. Dentro destas destacam-se a análise de corticosteroides em substâncias (Verkerk et al., 1983) que não o sangue (saliva, leite, urina e fezes), o uso de cateteres que se auto-retiram (Monfort et al., 1993) ou o uso de recipientes portáteis para recolha de sangue (Ingram et al., 1994). Vários grupos de investigadores têm utilizado sistemas de registo telemétrico em estudos de comportamento animal. Estes sistemas telemétricos foram inicialmente desenhados para seguir os animais desenvolvendo-se posteriormente sistemas que permitem o registo de alguns parâmetros fisiológicos tais como a temperatura nuclear e o ritmo cardíaco. O ritmo respiratório pode ser instantaneamente observado em todos os animais através da contagem dos movimentos dos flancos. Para estudo mais prolongados desenvolveu-se um monitor (Eingenberg et al., 2002) para vacas e para suínos o que permite aumentar a frequência das medidas como avaliação de uma resposta dinâmica, uma melhor transferência de dados para técnicas de séries temporais, uma maior consistência de dados e diminuição de mão-de-obra. O esquema de constituição deste monitor encontra-se na figura 2. a) M i c r o f one Amplificador Rectificador de sinal Filtro e Amplificador Datalogger 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA b) Amplificador e compensador de sinal Amplificador Datalogger S Figura 2 – Diagrama de monitor de ritmo respiratório para porcos (a) e para vacas (b) Para suínos a medição efectua-se através de um microfone que digitaliza os padrões dos batimentos. Em vacas utiliza-se um pneumógrafo constituído por uma banda elástica de pequeno diâmetro que transfere os movimentos dos flancos para um transdutor de pressão. Os outputs digitais são registados electrónicamente num pequeno data-logger, durante 1 minuto em periodos de 15 minutos. A informação recolhida é posteriormente tratada por software concebido para o efeito. Com o objectivo de contornar o problema do manuseamento dos animais, possibilitando também a recolha de múltiplos parâmetros, desenvolveu-se equipamento do qual o FRPM (Free Range Physiological Monitor) é um exemplo (Cook et al., 2000). Este equipamento permite a medição de vários parâmetros em animais alojados ou em pastoreio, durante longos períodos de tempo. Tem ainda a capacidade de integrar novas e originais tecnologias de medida tais como pequenos microfones para medir a actividade ruminal, biosensores para cortisol ou GPS. Regista e analisa vários tipos de dados como por ex. electrocardiogramas, os quais implicam grande volume de informação ou a temperatura corporal que é medida em curtos intervalos de tempo. Outra característica a considerar é a monitorização simultânea de vários animais e a sua capacidade de actualização traduzida que não implica intervir fisicamente no animal para medir os novos parâmetros. Este monitor incorpora um sistema de aquisição de dados e de hardware que pode ser alimentado a energia solar ou a pilhas. Inclui ainda uma ligação via radio para controlo e aquisição de dados provenientes de múltiplas unidades. A monitorização do SNC pode ser adaptada a animais conscientes alojados em condições normais de produção. Estudos efectuados em humanos (Koepp et al., 1998) usando neuroimagens combinadas com radioquimica específica contribuíram para um melhor conhecimento entre a actividade química e o processamento mental. Infelizmente estas técnicas implicam a manipulação dos animais e resultam bastante caras para serem aplicadas em biologia animal. Espera-se que a tecnologia de polímeros permita, dentro em pouco, o desenvolvimento de microsondas mais eficazes na recolha de amostras de tecidos e de metabolitos com aplicação em electrofisiologia. Tal permitiria um interface com o FRPM. O futuro reserva ainda espaço para a incorporação de sensores em microchips de identificação, os quais serão aplicados nos animais. Estes sensores além de recolherem informação sobre a temperatura, ritmo respiratório devem ainda permitir obter informação acerca da concentração de hormonas, proteínas e metabolitos. Estes 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA sensores passivos são descodificados para um tradutor de pequena dimensão que o animal transporta e que serve também como data-logger (Tito, 2004). Este equipamento colocado no exterior do animal, transmitirá, via radio as informação para um software de apoio o qual integra e analisa os dados em tempo real. 3. Automatização dos sistemas de condicionamento ambiental As condições ambientais no interior de uma instalação pecuária geralmente temperatura e humidade relativa são influenciadas quer pelas condições climáticas exteriores quer pelos balanços de massa (vapor de água e gases) e de energia (calor). De acordo com as equações 2 e 3 (Cruz et al. 2003). Eq. 2 onde MVaguao + PV.agua – CVagua = MVaguai MVaguao, é a massa de vapor de água que entra na instalação PVagua é a massa de vapor de água produzida nas instalação CVagua è a massa de vapor de água condensada no interior da instalação Mvaguai é a massa de vapor de água existente na instalação Eq. 3 ti = to + Qs/(B + V) onde ti é a temperatura interior to é a temperatura exterior Qs é o calor sensível produzido pelos animais B são as trocas de calor através da envolvente V são as trocas de calor devidas à ventilação A humidade relativa do ar depende da massa de vapor água presente na instalação e da temperatura interior. A temperatura ambiental depende da temperatura exterior, do nível de isolamento térmico, dos caudais de ventilação e da existência ou não de sistema de aquecimento e/ou de arrefecimento. Os caudais de ventilação quer natural (Meneses, 1985) quer dinâmica podem ser facilmente controlados através da dimensão da aberturas disponíveis para as trocas de ar ou através da velocidade de funcionamento dos ventiladores. A operacionalidade deste mecanismos (controle das aberturas de entrada e de saída de ar e dos ventiladores e também dos sistemas de aquecimento e de arrefecimento pode ser controlada através de software especifico para o efeito. Este tem em conta as valores adequados para os parâmetros interiores, as condições exteriores e os balanços de massa e de energia. Este software está igualmente concebido para a accionar os mecanismos electromecânicos dos sistemas de condicionamento ambiental. Esta prática já se encontra bastante divulgada em instalações pecuárias. 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA 4. Integração da informação Nos capítulos anteriores demonstraram-se hipóteses de monitorizar as condições ambientais exteriores e interiores, a resposta dos animais a situações de stress e de automatizar os sistemas de condicionamento ambiental. Será interessante efectuar uma gestão integrada e em tempo real de toda esta informação. Esta integração pode seguir o modelo apresentado na figura 3. Condições climáticas exteriores Animal (indicadores de bem estar) Controle automático e gestão do sistema (sistema automático de controle ambiental em tempo real) Sistema de condicionamento ambiental Condições ambientais interiores Figura 3-Modelo para integração da informação Todos os componentes do sistema estarão ligados a um sistema de gestão de dados que dispões de um software que integra informações de várias fontes: (i) das condições climáticas exteriores, através das estações meteorológicas automáticas; (ii) dos animais, quer no que respeita a indicadores de bem estar quer no que respeita à sua produção de calor e de vapor de água, através de monitores de radio frequência, da digitalização de imagens das videocamaras ou dos chips colocados nos animais; e (iii) das condições ambientais interiores através de sondas de temperatura e de humidade. Com base nestas informações o sistema efectuará os cálculos relativos aos balanços de massa e de energia e em função das necessidades dos animais (seus indicadores) efectuará a correcção adequada das condições interiores através de ajustes nos sistemas de condicionamento ambiental (ventilação, aquecimento ou arrefecimento). Espera-se, assim, através de um sistema interactivo e dinâmico, conseguir criar, em tempo real, as condições de alojamento que permitam aos animais atingir bons níveis produtivos respeitando as regras de bem estar animal. 1º CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NA AGRO-PECUÁRIA 5. Implicações e desafios Ficou aqui demonstrada a possibilidade de construir um sistema integrado de monitorização e controlo da climatização das instalações pecuárias com base na informação obtida em tempo real, a partir do próprio animal. Na planificação deste sistema deve estar implicada uma equipa multidisciplinar constituída por especialistas de biologia e fisiologia animal (biólogos, veterinários e zootécnicos) e também por engenheiros (de automação, de climatização, de electrotécnia e de informática). Para que este sistema se torne uma realidade e para que funcione de um modo eficaz há ainda um longo caminho a percorrer, no qual se destacam os seguintes passos: - Identificação de novos factores e indicadores objectivos de situações de stress em animais - Desenvolvimento de sistemas ou técnicas de recolha de informação sobre este indicadores sem provocar situações de stress nos animais - Avaliar a fiabilidade destes sistemas ou técnicas - Validação dos dados obtidos - Obtenção de dados actualizados sobre a produção de calor e de vapor de água pelos animais, principalmente em zonas de climas quentes e monitorizar estes dados - Desenvolvimento de software que permita a gestão integrada de toda a informação recolhida. 6. Referências bibliográficas Blecha, F. (2000) Imune System Response to Stress in The Biology of Animal Stress : Basic Principles and Implications for Animal Welfare. G. Moberg and J.A. Mench (Eds.) CAB Publishers. 387 p. 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