GESTÃO DE PROJETOS COMO PARTE DO SISTEMA DE GESTÃO
AMBIENTAL
Resumo
Este relato técnico tem como objetivo propor estratégias para uso de ferramentas de gestão de
projetos na gestão estratégica de sistemas de gestão ambiental ISO 14001. O trabalho reflete
dados coletados por observação direta participante em um conjunto de empresas que
implementaram sistemas de gestão ambiental ISO 14001 certificados. O modelo propõe que
atividades estratégicas do sistema de gestão e atividades operacionais não-rotineiras sejam
gerenciadas como pacotes de serviço dentro de um projeto de manutenção do sistema, e que o
ciclo anual seja definido de forma a coincidir com o ciclo de orçamento da organização.
Palavras-Chave: ISO 14001, certificação, sistema de gestão, gestão de projetos
Abstract
This technical report aims at proposing strategies for the use of project management tools into
the strategic management of ISO 14001 environmental management systems. The work
reflects data collected via direct participant observation in a set of companies that have
implemented certified ISO 14001 environmental management systems. The model proposes
that management system’s strategic activities and non-routine operational activities are
managed as service packs inside a project for system’s maintenance, and that the annual cycle
is defined to fit to the organization’s budget cycle.
Keywords: ISO 14001, certification, management systems, project management.
INTRODUÇÃO
O sistema de gestão ambiental ISO 14001 é uma das ferramentas disponíveis para que as
empresas enfrentem suas questões ambientais. Muitas vezes a implantação desse sistema se dá
por exigências do mercado ou como política corporativa, o que leva a implantação em
empresas em diferentes graus de desenvolvimento de sua cultura e estrutura para tratar da
gestão ambiental.
Por um lado, a própria norma pede que a organização estabeleça objetivos e metas ambientais,
e programas para atingi-los (ABNT, 2004). Esses programas são, na verdade, projetos de
melhorias a serem implantados. Mas não são esses os projetos de que se trata nesse relato
técnico. Os projetos que são tratados nesse artigo são os relacionados ao gerenciamento
estratégico de atividades pontuais (porém concentradas) do sistema de gestão, como
auditorias, avaliação de conformidade legal, renovação de licenças ambientais, entre outras. A
necessidade dessas atividades, aliada ao cotidiano de cada vez mais trabalho e menos recursos
humanos, torna difícil o gerenciamento da carga de trabalho e do estresse na equipe de gestão
ambiental, provocando períodos de sobrecarga e possivelmente baixo desempenho.
Este relato técnico tem como objetivo propor, com base em experiência profissional, uma
estrutura para gerenciamento de atividades estratégicas não-rotineiras que contribua para
facilitar a operação de sistemas de gestão ambiental certificados ISO 14001.
1
REFERENCIAL TEÓRICO
O referencial teórico inclui os seguintes componentes básicos: a questão ambiental nas
empresas; o sistema de gestão certificado ISO 14001 como resposta a questão ambiental; e o
potencial da gestão de projetos como ferramenta para balancear os recursos humanos em um
sistema de gestão ambiental.
A questão ambiental nas empresas
A questão ambiental faz parte do dia-a-dia das empresas, embora o grau de envolvimento
varie de acordo com o tipo de negócio, o mercado, o contexto social, o porte e as origens e
cultura das empresas. Esse envolvimento é o resultado de uma evolução histórica. Ao longo
das décadas de 1960 e 70 as indústrias passaram a ampliar a aplicação de tecnologias de
tratamento para suas emissões de poluentes, e hoje são conhecidas por tecnologias de fim de
tubo, porque se preocupam em eliminar os poluentes depois de gerados pelos processos.
No final da década de 70 e ao longo da década de 80, diversos acidentes industriais mostraram
que os problemas ainda não estavam resolvidos. Ao final da década de 80, impulsionadas
pelos problemas que os acidentes mostravam, pelos crescentes custos do controle da poluição
e pelo aumento das pressões sociais via movimentos ambientalistas, muitas empresas
internacionais iniciaram programas de prevenção. Conceitos como “tecnologias limpas” e
“segurança inerente”, que denotam preocupação com as características ambientais e de
segurança dos processos, começaram a ser difundidos, e uma das soluções emergentes foram
os sistemas de gestão ambiental. Em 1996, a Organização Internacional de Normas (ISO)
lançou a primeira versão da norma ISO 14001, que propunha requisitos para um sistema de
gestão ambiental (Aguiar, 2004).
A evolução da postura das empresas em relação a questão ambiental obviamente não é
uniforme e depende fortemente do contexto em que atuam. Hunt e Auster (1990)
categorizaram as empresas em cinco graus diferentes de evolução de sua postura ambiental:
 Excelente: a empresa tem desempenho ambiental excelente, com foco tanto
nos seus processos quanto nos seus produtos. A gestão ambiental é parte da
gestão estratégica da empresa;
 Pró-ativo: a empresa tem um sistema de gestão ambiental estruturado e seu
desempenho ambiental é monitorado com uso de indicadores;
 Cidadão consciente: a empresa conhece suas questões ambientais e está
voltada fundamentalmente ao cumprimento reativo da legislação;
 Bombeiro: a empresa resolve os problemas ambientais conforme as partes
interessadas pressionam;
 Iniciante: a empresa ignora suas questões ambientais
A certificação ISO 14001 como resposta a questão ambiental e seus resultados
Quando criada, a norma ISO 14001 tinha em vista uma série de benefícios potenciais a serem
atingidos pelas organizações que implementassem sistemas de gestão ambiental de acordo
com suas diretrizes, como a maior competitividade devido a sinergia entre desempenho
ambiental e redução de custos, melhoria da imagem de mercado, entre outros.
Do ponto de vista prático, devido a exigência de conhecimento e cumprimento da legislação,
as empresas certificadas ISO 14001 deviam estar no mínimo no estágio de “cidadão
2
consciente” na escala de Hunt e Auster (1990), podendo estar em estágios acima dependendo
da cultura e da realidade da empresa. Até em função dessa variação, tem sido notado que os
resultados reais após a implantação de sistemas de gestão ambiental ISO 14001 varia muito de
empresa para empresa.
Ao longo do tempo, tais benefícios vem sendo por um lado questionados e por outro
confirmados por diversos autores. Epelbaum (2004) confirmou a ocorrência de reduções de
custos pela redução da poluição e consumo de materiais; o atendimento de critérios de clientes e
investidores; melhoria da gestão global e auxilio a melhoria da imagem. Para Darnall, Henriques,
e Sadorsky (2008) os resultados são influenciados positivamente pela motivação para
implantação e de aspectos internos para um sistema de gestão ambiental mais abrangente, tais
como compromisso dos empregados e envolvimento em pesquisa e desenvolvimento.
Franchetti (2011) relatou que empresas certificadas ISO 14001 geraram menos resíduos
perigosos que empresas não certificadas. Potoski e Prakash (2005a) concluíram que empresas
certificadas ISO 14001 tinham melhor desempenho no cumprimento dos requisitos legais.
Potoski e Prakash (2005b) disseram que empresas certificadas reduziam suas emissões de
poluentes mais do que as empresas não-certificadas. Babakri, Bennett, e Rao (2004)
demonstraram que o desempenho em reciclagem de resíduos era melhor em empresas
certificadas que em não certificadas.
Yin e Schmeidler (2009) buscaram identificar as razões pelas quais os resultados dos sistemas
de gestão baseados numa mesma norma eram tão diferentes. Uma das conclusões importantes
foi de que empresas que incluíam a gestão ambiental nas atividades do dia-a-dia relatavam
melhor desempenho ambiental. Link e Haifa (2006) concluíram que quando as atividades
ambientais são incluídas no dia-a-dia, o desempenho ambiental melhora, mas não
encontraram evidência de melhor desempenho global dos negócios. Jabbour (2010)
categorizou as empresas certificadas de acordo com a norma ISO 14001 em dois grupos de
evolução da gestão ambiental: um grupo em um estágio de sinergia para eco-eficiência, e
outro grupo com uma visão mais voltada a legislação ambiental. De acordo com o autor, a
evolução ocorreu de uma maneira não-linear.
Oliveira, Serra, e Salgado (2010) fizeram um survey com empresas certificadas no Brasil, e
detectaram as principais dificuldades para manutenção do sistema estavam na relação com os
órgãos públicos, envolvendo prazos longos e processos burocráticos, mas também com o
custo e a falta de competição no mercado de soluções ambientais. Cabe aqui lembrar que
essas dificuldades, em princípio, independem da empresa ser certificada, pois teria que estar
regularizada de qualquer forma. Isso revelou que muitas empresas ainda associam o
cumprimento da legislação como um dos elementos mais presentes na certificação. O survey
também mostrou que gerentes de empresas certificadas percebem a melhoria no desempenho
em itens como consumo de água e energia e geração de resíduos, bem como na intensificação
de ações preventivas, como benefício efetivo da implantação e certificação do sistema de
gestão ISO 14001.
Gerenciamento de projetos
Para esse estudo, três aspectos do gerenciamento de projetos são destacados:
 Definição do escopo: PMI (2004) recomendou que o escopo do projeto deve definir objetivos,
produtos, limites, requisitos, restrições, limitações, pressupostos, marcos (milestones),
estrutura analítica inicial e ordem de grandeza dos custos.
 Gerenciamento de recursos humanos: de acordo com PMI (2004), o gerenciamento de
recursos humanos inclui o planejamento, a montagem, o desenvolvimento e o gerenciamento
3
da equipe. Trata-se de definir quais as competências e habilidades necessárias das pessoas a
serem envolvidas, bem como a carga horária, e também definir as responsabilidades e
autoridades.
 Gerenciamento do tempo: tem que levar em conta a definição das atividades, o
sequenciamento e os recursos necessários (PMI, 2004). No caso da gestão ambiental, muitas
vezes as atividades relacionadas a órgãos públicos tem um sequenciamento já definido. Por
outro lado, o sequenciamento de atividades do sistema de gestão dá mais liberdade para as
empresas.
METODOLOGIA DO RELATO TÉCNICO
Este relato técnico deriva da experiência de profissionais da área de consultoria e auditoria de
sistemas de gestão. Esses profissionais trabalham há mais de quinze anos ajudando empresas
a implantar e manter sistemas de gestão ambiental ISO 14001, principalmente dos setores
industriais siderúrgico, metalúrgico, químico, farmacêutico, mineração, celulose e papel,
vidro, plástico e borracha.
A coleta de dados foi feita, portanto, por observação direta participante, não em uma única
empresa-caso, mas em um conjunto de empresas.
A análise e a elaboração da proposta de ação levaram em conta:
 Expectativas em relação ao desempenho dos sistemas de gestão ambiental ISO 14001;
 Necessidades das empresas quanto ao atendimento da norma ISO 14001 e da legislação
brasileira;
 Os elementos da realidade do dia-a-dia dos profissionais envolvidos.
ASPECTOS PRÁTICOS DA CERTIFICAÇÃO ISO 14001
Antes de se implantar um sistema de gestão ambiental, o perfil típico de atividade e
envolvimento da gestão ambiental em empresas é o perfil tipo “serrote”, que reflete a postura
classificada como “bombeiro” por Hunt e Auster (1990), conforme mostra a Figura 1. A
expectativa, com a implantação de um sistema de gestão ambiental, é de que o perfil do
esforço se torne mais constante, embora sujeito a variações, tornando também os resultados
mais consistentes.
Figura 1 – Perfil das empresas antes e depois de implantar um Sistema de Gestão Ambiental
Fonte: Adaptado de Hunt e Auster (1990)
O processo de certificação em si tem um ritual que é regulado internacionalmente, no
contexto de acordos voluntários, pelo Fórum Internacional de Acreditação (IAF), formado por
4
organismos acreditadores de diversos países, que regulam e monitoram a atuação dos
organismos certificadores. Por isso, o processo de certificação de sistemas de gestão ISO
14001 tem um perfil geral bastante parecido que é praticado pelos diversos organismos
certificadores. A certificação inicial do sistema envolve obrigatoriamente dois estágios de
auditoria, e as auditorias de manutenção são tipicamente semestrais ou anuais.
A implantação e certificação de um sistema de gestão ambiental envolve um esforço
específico, geralmente uma carga de trabalho adicional para funcionários-chave da empresa.
Tipicamente é um esforço que pode durar de alguns meses a um ano e meio. Um cronograma
típico para um projeto de um ano pode ser visto na Figura 2.
PACOTES DE SERVIÇOS
Marco de mobilização inicial
Treinamento da equipe
Levantamento de requisitos e pendências legais
Solução das pendências legais
Identificação e classificação de aspectos e impactos ambientais
Definição da política ambiental
Definição de objetivos e metas ambientais
Elaboração de procedimentos
Implantação dos procedimentos
Esforço de treinamento e conscientização de toda a organização
Auditoria interna
Revisão gerencial
Ações corretivas
Auditoria de certificação - estágio 1 (fase documental)
Auditoria de certificação - estágio 1 (fase presencial)
Ações corretivas
Auditoria de certificação - estágio 2
1
X X
2
3
4
5
MESES
6
7
8
9
10
11
12
X
X X X
X X X X X X X X X X X X X
X X X
X
X
X X X X X
X X X X
X X X
X X
X
X X
X
X
X X
X
Figura 2. Exemplo de cronograma típico de projeto de implantação de sistema de gestão ambiental ISO
14001.
Fonte: Os autores.
Após a certificação de um sistema de gestão ambiental, a equipe envolvida com frequência
diminui a intensidade da dedicação a esse sistema. Às vésperas da certificação, é frequente
que haja uma sobrecarga de dedicação e por isso outras atividades acabam ficando
postergadas, e então cada membro tem que “tirar o atraso”. Além disso, notou-se nas
empresas cada vez mais uma redução do quadro de pessoal e um aumento das
responsabilidades e atividades. É muito frequente que os clientes, tanto de consultoria quanto
de auditoria, se queixem da sobrecarga e da impossibilidade de atender a todas as demandas
de clientes internos, clientes externos e dos níveis superiores de gestão.
Muitas vezes, atividades críticas da gestão ambiental são deixadas para épocas próximas da
auditoria externa, devido aos seguintes fatores importantes: (a) a crença de que dessa forma o
sistema estará mais protegido do apontamento de não-conformidades pelos organismos
certificadores e (b) o gerenciamento da sobrecarga de trabalho pelas urgências; e c) excessiva
concentração das atividades de gestão na área funcional de meio ambiente. A execução de
avaliação de conformidade legal, auditorias internas, registro, execução e acompanhamento de
não-conformidades, sejam de auditoria ou não, acabam ficando para as vésperas da
certificação. O resultado é um sistema de gestão que não segue a regularidade dos esforços
que se esperaria, mas que tem mais o aspecto da Figura 3. Obviamente, é normal que em
épocas de auditorias haja um certo estresse e um pouco mais de esforço, mas na prática tem
sido notado um excesso.
5
Figura 3. Representação esquemátia do esforço de gestão ambiental em função das
auditorias de certificação
Fonte: Os autores.
Em muitas empresas, o trabalho de técnicos e de pessoal em nível de supervisão vem sendo
gerenciado com base quase que exclusivamente em urgências. Isso dificulta a manutenção do
sistema, e apenas quando ele se torna urgente, ou seja, próximo da auditoria de manutenção
da certificação, ou de recertificação, é que se concentram esforços no sistema.
Isso leva a um sistema de gestão que funciona em ciclos de alta e baixa muito pronunciados, e
como consequência passam a ser gerenciados como ciclos de projetos “passar na auditoria”.
Muitas empresas planejam suas auditorias internas em datas próximas da auditoria de
certificação, a fim de garantir que eventuais problemas sejam detectados a tempo de serem
eliminados, mas de modo que o intervalo seja curto o suficiente para que novos problemas
não surjam. Esse intervalo típico é entre 30 e 45 dias de antecedência da auditoria de
certificação.
A questão é que sem uma ferramenta de gerenciamento adequada, fica muito difícil de
gerenciar as sobrecargas e de conseguir realizar as atividades nos prazos legais, no caso de
requisitos de legislação, ou propostos para o sistema de gestão, levando a atrasos constantes e
perda de oportunidades.
Uma das razões menos desejada do ponto de vista do discurso é a concentração das atividades
nas mãos dos especialistas ambientais, que acabam por assumir atividades e responsabilidades
de outras áreas que não foram cumpridas no devido prazo.
FERRAMENTAS DE GESTÃO DE PROJETO PARA MANUTENÇÃO DO SISTEMA
DE GESTÃO AMBIENTAL
Na prática, os sistemas de gestão ambiental ainda enfrentam dificuldades como falta de
aderência entre procedimentos documentados e prática; falta de hábito e coragem para tratar
não-conformidades e ações corretivas com a profundidade necessária, falta de
acompanhamento gerencial tático e estratégico, concentração de atividades nos especialistas
ambientais, o que leva ao desempenho irregular e a necessidade de sobrecarga de trabalho em
épocas de auditoria. O ideal seria que as atividades do sistema de gestão ambiental
acontecessem naturalmente após sua implantação, e que as auditorias externas de certificação
fossem encaradas de maneira natural e sem necessidade de gerenciamento específico de
esforços.
6
Reconhecer essas limitações e antecipar as ferramentas de gestão que podem contribuir para
facilitar o trabalho pode trazer benefícios tais como:
a) garantir a eficácia do sistema de gestão,
b)
tornar a gestão menos estressante, por facilitar a distribuição mais racional dos
esforços ao longo dos ciclos de preparação para auditorias externas; e
c) ao tornar o sistema menos estressante, trazer mais funcionários que colaborem com
ideias e atitudes positivas, levando a resultados melhores.
Portanto, a proposta é de que seja formalizado um projeto, adicional ao programa de melhoria,
cujo objetivo seria “manter o sistema de gestão ambiental”, tendo como fundamento a gestão
ambiental, e como bússola temporal o orçamento anual. Esse projeto não substitui o sistema
de gestão ambiental em si, mas tem como objetivo organizar certas atividades gerenciais
estratégicas que demandam esforços específicos e que costumam trazer estresse para o
sistema de gestão, e tornar o sistema mais integrado à gestão empresarial como um todo.
SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL
ATIVIDADES OPERACIONAIS DE ROTINA
manuseio de resíduos
manejo de produtos químicos
atividades normais de produção
manutenção corretiva e preventiva
operação de equipamentos de controle
treinamento de funcionários
comunicação ambiental
atualização dos requisitos legais
controle de equipamentos de emergência
Monitoramentos periódicos
etc.....
ATIVIDADES GERENCIAIS ESTRATÉGICAS
Avaliação de conformidade legal
Definição de objetivos e metas
Auditoria interna
Revisão gerencial
Auditoria externa
Acompanhamento de objetivos e metas
Acompanhamento de programas de gestão
Levantamento de necessidades de treinamento
ATIVIDADES OPERACIONAIS DE BAIXA
FREQUÊNCIA
Relatório IBAMA
Inventário de resíduos
Licenciamento ambiental
Avaliação ambiental em novos projetos
Figura 4. Classificação e exemplos de tipos de atividades do Sistema de Gestão Ambiental
Fonte: Os autores.
Para melhor definição do escopo e da estrutura analítica do projeto, propõe-se que as
atividades do sistema de gestão ambiental sejam divididas em três categorias, conforme
ilustrado na Figura 4.
a) Atividades operacionais de rotina: são atividades realizadas no dia-a-dia da empresa,
em franca e direta interação com as atividades-fim.
b) Atividades gerenciais estratégicas: são atividades de gestão em alto nível, realizadas
com pouca frequência e que demandam esforços e competências de áreas específicas,
mas que são chave para o sistema. Elas podem ser claramente definidas como pacotes
de serviços e, portanto, gerenciadas numa estrutura de gerenciamento de projetos.
Tipicamente, essas atividades incluem: auditoria interna; avaliação de conformidade
legal; revisão gerencial do sistema; definição e acompanhamento de objetivos, metas e
programas de gestão; acompanhamento de ações corretivas e preventivas; levantamento
de necessidades de treinamentos.
c) Atividades operacionais de baixa periodicidade: são atividades que requerem atenção
a prazos e a esforços concentrados sendo, portanto, apropriadas para serem gerenciadas
do ponto de vista de projetos. Como exemplos podem ser citados: relatórios periódicos
para órgãos ambientais, tais como relatórios anuais de atividades (IBAMA) e inventário
de resíduos; obtenção ou renovação de licenças ambientais.
A definição das atividades a serem incluídas e os pacotes de serviço tem como base, portanto,
a própria norma ISO 14001 e os procedimentos estabelecidos pela empresa; os requisitos
7
legais que exigem atividades específicas; e os planos estabelecidos pela empresa para atingir
seus objetivos e metas.
O encadeamento e sequenciamento das atividades deve levar em conta:
a)
o período de elaboração e revisão de orçamento da empresa. A prática mostra
que colocar o mês de dezembro como final ou a auditoria externa como final não produz
os melhores resultados. Levar em conta o período de elaboração do orçamento ajuda a
integrar a gestão ambiental na gestão empresarial como um todo. A época varia, em
multinacionais muitas vezes acompanhando o ano fiscal da matriz;
b) os prazos especificados em legislação, regulamentos e licenças; e
c) o balanceamento de recursos humanos para equilibrar as atividades ao longo do ano,
incluindo a interação com outras atividades da empresa, como atividades ligadas ao
sistema de gestão da qualidade, atividades e visitas de clientes, lançamentos de
produtos, e outros picos que podem influenciar a gestão ambiental.
Um elemento muito importante é a revisão gerencial (“análise crítica”) que com frequência é
feita anualmente. Isso acaba por limitar o tempo de reação do sistema de gestão. Numa visão
do gerenciamento de projetos, a revisão gerencial exerce o papel de monitoramento de
desempenho, e por isso é necessário fazer com mais assiduidade. Análises parciais, com base
nos indicadores de desempenho, com frequência podem ser feitas mensalmente e devem ser
levadas em conta.
A Figura 5 mostra um exercício feito para uma empresa que tem um ciclo de auditorias
externas anual, indicando as categorias de atividades-não-rotineiras e os pacotes de serviços a
serem levados em conta.
PACOTES DE SERVIÇOS
ATIVIDADES ESTRATÉGICAS "DE SISTEMA"
Período de budget anual
Auditoria externa
Auditoria interna
Avaliação de conformidade
Revisão gerencial ("Análise Crítica")
Avaliação e revisão de objetivos e metas
Reuniões da equipe
Elaboração de plano de treinamento
ATIVIDADES OPERACIONAIS PERIÓDICAS
Inventário de resíduos (anual)
Relatório de Atividades IBAMA (anual)
Laudo de Instalações Elétricas (anual)
Renovação de licença ambiental (trienal)
Renovação de licença municipal (anual)
Renovação de documentação - corpo de bombeiros (trienal)
Levantamento de necessidades de treinamento
PROJETOS DE MELHORIAS PARA OBJETIVOS E METAS
DIMINUIÇÃO DO CONSUMO DE ENERGIA ELÉTRICA
Pacote 1
Pacote 2
DIMINUIÇÃO NO CONSUMO DE ÁGUA
Pacote 1
Pacote 2
DIMINUIÇÃO NA GERAÇÃO DE RESÍDUOS PERIGOSOS
Pacote 1
Pacote 2
Responsabilidade
Alta Administração
Rep. Administração
Auditores internos
Espec. Ambiental
Alta Administração
Alta Administração
Rep. Administração
RH
M1 M2 M3 M4 M5 M6 M7 M8 M9 M10 M11 M12
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
Figura 5. Proposta de cronograma para pacotes de Serviços com Atividades Não Rotineiras de um sistema
de gestão ambiental.
Fonte: Os autores.
8
Notou-se que há uma série de eventos sobre os quais a empresa terá pouco controle sobre as
datas em que devem ser cumpridos, tais como as auditorias externas de certificação e datas de
entrega de relatórios para órgãos ambientais. Por isso as atividades sobre as quais a empresa
tem total autonomia, como auditorias internas, avaliação de conformidade legal e revisão
gerencial devem ser manejadas de forma a fazer uma certa compensação da carga de trabalho,
tornando-a o mais uniforme possível ao longo do sistema.
Um dos elementos-chave é que, embora não seja um requisito da norma, há um
sequenciamento natural que coloca a revisão gerencial como dependente da realização da
auditoria interna e da avaliação de conformidade legal. O erro mais comum, nesse caso,
parece ser aproximar demais essas atividades, gerando então parte do estresse da equipe.
Note-se que, na proposta, a auditoria externa deixa de ser o final do projeto, para ser apenas
mais uma das etapas. Como orientação temporal da gestão está a revisão e elaboração do
orçamento da empresa, de modo que os resultados da gestão ambiental possam ser avaliadas
nesse contexto e, na época propícia, sejam definidos recursos para o próximo período.
Algumas atividades estratégicas foram inseridas no cronograma com uma frequência maior
que anual. Essa estratégia é essencial também para antecipar tendências e acelerar ações
corretivas, caso necessário.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para que a gestão ambiental seja eficaz, o sistema de gestão ambiental não pode ser visto
como uma “tarefa extra” e sim como parte do dia-a-dia da empresa. Certas empresas têm mais
dificuldades, e para isso é preciso usar a criatividade e aplicar novas ferramentas, ou
ferramentas conhecidas em contextos diferentes. Esse é o caso do usa das ferramentas de
gerenciamento de projetos para facilitar o sistema de gestão ambiental.
Além disso, a realidade do dia-a-dia das empresas mostra que a qualidade dos resultados de
desempenho ambiental depende essencialmente das pessoas incluírem a gestão ambiental em
suas atividades diárias. Uma vez que a sobrecarga de trabalho é um dos fatores que impede
que as atividades não-rotineiras sejam feitas de maneira a agregar valor no sistema, o balanço
de recursos humanos distribuídos por toda a empresa, não somente na área de meio ambiente,
é um dos critérios-chave para a distribuição dos esforços ao longo do ciclo.
Se, por um lado, o mero uso de ferramentas de gestão não garante por si só o sucesso do
sistema de gestão e o desempenho ambiental, por outro lado se as pessoas se sentirem mais
confortáveis para trabalhar no sistema é mais provável que se disponham a um trabalho de
mais qualidade.
Por tudo isso, usar as ferramentas de gestão de projetos pode contribuir para o sucesso de um
sistema de gestão ambiental.
REFERÊNCIAS
ABNT - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. (2004). NBR ISO 14001
Sistemas da gestão ambiental - Requisitos com orientações para uso. ABNT: Rio de Janeiro.
___________. (2011). ABNT NBR ISO/IEC 17021 – Avaliação de conformidade – Requisitos
para organismos que fornecem auditoria e certificação de sistemas de gestão. ABNT: Rio de
Janeiro.
Aguiar, A. O. (2004). Sistemas de Gestão Ambiental na Indústria Química: desempenho,
avaliação e benefícios. (Tese de doutorado, Universidade de São Paulo – Faculdade de Saúde
9
Pública). Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6134/tde-22032012171328/pt-br.php. Acesso em: 12 Jul 2013.
Babakri, K. A., Bennett, R. A. & Rao, M. F. S. (2004). Recycling performance of firms before
and after adoption of the ISO 14001 standard. Journal of Cleaner Production, v. 12, n. 6, pp.
633-637. DOI: 10.1016/S0959-6526(03)00118-5.
Darnall, N., Henriques, I. & Sadorsky, P. (2008). Do environmental management systems
improve business performance in an international setting? Journal of International
Management. v. 14, n. 4, p. 364-376. DOI: 10.1016/j.intman.2007.09.006.
Epelbaum, M. A influência A influência da gestão ambiental na competitividade e no sucesso
empresarial. (Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo – Escola Politécnica).
Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/3/3136/tde-02072004-190334/ptbr.php. Acesso em: 16 Set 2013.
Franchetti, M. (2011). ISO 14001 and solid waste generation rates in US manufacturing
organizations: an analysis of relationship. Journal of Cleaner Production, v. 19, n. 9, pp.
1104-1109.
Hunt, C. B. & Auster, E. R. (1990). Proactive Environmental Management: Avoiding the
Toxic Trap. MIT Sloan Management Review, v. 31, n. 2, pp. 7-18.
Jabbour, C. J. C. (2010). Non-linear pathways of corporate environmental management: a
survey of ISO 14001-certified companies in Brazil. Journal Of Cleaner Production [serial
online]. v. 18, n. 12, p. 1222-1225.
Link, S. & Haifa, N. E. (2006). Standardization and Discretion: Does the Environmental
Standard ISO 14001 Lead to Performance Benefits? Engineering Management. v. 53, n. 4, pp.
508-19.
Oliveira, O. J., Serra, J. R. & Salgado, M. H. (2010). Does ISO 14001 work in Brazil? Journal
of Cleaner Production, v. 18, n. 18, pp. 1797-1806.
PMI – Project Management Institute. (2004). A guide to the project management body of
knowledge: PMBOK guide. 3rd ed. Newton Square, USA: PMI.
Potoski, M. & Prakash, A. (2005a). Green Clubs and Voluntary Governance: ISO 14001 and
Firms' Regulatory Compliance. American Journal of Political Science. v. 49, n. 2, pp. 15405907. Doi: 10.1111/j.0092-5853.2005.00120.x
Potoski, M. & Prakash, A. (2005b). Covenants with weak swords: ISO 14001 and facilities'
environmental performance. Journal of Policy Analysis and Management. v. 24, n. 4, pp.
1520-6688. DOI: 10.1002/pam.20136
Yin, H. & Schmeidler, P. J. (2009). Why Do Standardized ISO 14001 Environmental
Management Systems Lead to Heterogeneous Environmental Outcomes? Business Strategy
and the Environment v. 18, pp. 469–486. DOI: 10.1002/bse.629.
10
Download

1 GESTÃO DE PROJETOS COMO PARTE DO