IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. Cooperativismo como alternativa de solidariedade: da fadiga ao vigor dos oprimidos na sociedade capitalista Fernanda Mosseline Josende Coan (UNEMAT) [email protected] Tatiana Assmann Meinerz (UNEMAT) [email protected] Resumo Este artigo traz uma reflexão sobre a presença da solidariedade no Cooperativismo, levando em conta que o ponto de partida para a inclusão do espírito solidário no Cooperativismo se dá pela fadiga dos mais oprimidos. Para isso, rebusca a fatos expressivos ocorridos na trajetória do Cooperativismo e, nestes, salienta momentos em que se identificou maior grandeza de solidariedade. As reflexões contidas neste estudo fundamentam-se em leituras efetuadas nas obras de autores que abordam esse tema, como é o caso de GAIGER (2009), SCHNEIDER (2003), LAVILLE (2009), SINGER (1999, 2003) e CATTANI (2009). A solidariedade é fortemente utilizada e sinaliza uma inflexão dentro do Capitalismo. No caso de iniciativas como o Cooperativismo, por exemplo, a solidariedade se apresenta como gesto em prol da dignidade humana. Palavras-chave: Cooperativismo; Solidariedade; Associação de Pessoas. 1. Breve introdução Diante do mundo capitalista torna-se importante destacar ações de união como o cooperativismo, nas quais podemos encontrar a solidariedade, o que demonstra que, mesmo com esse capitalismo exarcebado, ainda existe a preocupação para com o outro. Para pontuar a presença da solidariedade no Cooperativismo, torna-se necessário, irrefutavelmente, buscar a compreensão dessa relação no percurso dos séculos. Considera-se, conforme Gaiger (2009), que a solidariedade no campo econômico volta à cena no limiar do século XXI, causada pela necessidade de mudanças sociais que levasse a um bem-estar do sujeito em todos os campos. No século XX via-se um panorama em que as pessoas que tinham trabalho, tinhamno em condições desumanas, com jornadas excessivas; salários miseráveis; emprego abusivo, tanto para mulheres como para crianças, ou seja, o padrão de vida dos trabalhadores era o pior possível. Havia um apelo à mudança na maneira de pensar e no comportamento da atividade econômica e social, que poderia levar a uma sociedade e a um sistema econômico alternativo, mais solidário, justo, autônomo, democrático e participativo. De maneira geral, procurava-se uma reforma social que levasse a atingir aos anseios de justiça, a um novo sistema social, a uma nova ordem moral fundada na razão, na vontade esclarecida e na ação conjunta dos seres humanos. O Cooperativismo surge, então, como resposta a essa necessidade, considerado uma ação rápida para geração de trabalho, para a distribuição de renda como meio e não como fim e passa a ser compreendido como solução social aos problemas enfrentados pelas classes menos favorecidas. O Cooperativismo, pelo aspecto altruísta, identifica-se fortemente com a solidariedade, pois no cerne desse sistema está a reintegração da atividade econômica nas 1 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. relações sociais, a qual ocorre sempre que os indivíduos trabalham juntos, intencionalmente, para um bem-estar mais amplo e mais extenso. Assim, os indivíduos atuam de forma inteligente e simpática no grupo, em prol de seu próprio desenvolvimento e de terceiros, onde quer que se encontrem, mas de maneira a não servir a seu interesse pessoal, a não ser, por intermédio geral de todos os associados (SCHNEIDER, 2003). 2. O cooperativismo redentor Com a revolução industrial, o homem acelerou seu processo de migração do campo ou das pequenas cidades ou vilas para viver nas cidades maiores. Contudo, a primeira transferência do homem do campo para a cidade foi por volta de 1750, com a chegada do capitalismo industrial, cuja migração se deu por atração ou de forma forçosa, ou seja, muitas famílias migravam espontaneamente em busca de uma vida melhor; outras eram expulsas pelos proprietários de terras, pois, com a introdução da máquina a vapor, viram aí a oportunidade de criar ovelhas e, desse modo, não mais necessitavam de possuir tantas pessoas trabalhando no campo. Então, ao final do século XVIII e início do século XIX, aconteceram grandes modificações nos setores econômico e social, motivadas em parte por avanços tecnológicos que transformaram o sistema de produção. A introdução de máquinas originou a denominada revolução industrial, iniciada na Inglaterra a partir de 1780, o que fez surgir a indústria de grande escala, a qual exigia grande concentração de capital, custosas instalações e maquinários. Assim, foram fechadas inúmeras pequenas organizações que empregavam grande número de artesões. Tal ação desencadeou excesso de oferta de mão de obra nas cidades, inclusive de antigos artesões e trabalhadores rurais que foram para as cidades atraídos pelas ofertas de trabalho nas enormes fábricas. Por consequência, habitavam lugares insalubres, a alimentação era insuficiente, além de inúmeros outros problemas, o que causou uma grande desordem social. Entretanto, não havia interesse dos poderes públicos em intervir no chamado mercado livre. Os pequenos e médios produtores como artesões, agricultores e outros eram forçados a vender seus produtos a preços baixos e pagar preços altos por sementes, ferramentas e outros materiais para dar continuidade a sua produção. Naquele período, o Cooperativismo surge como forma de reação do mundo camponês e operário à grave situação de exploração trazida pela revolução industrial. Ou seja, surgem manifestações da sociedade retratadas pela grande onda de greve e desemprego, o que leva ao florescimento da solidariedade como condicionante do princípio organizador de resistência contra o capitalismo e a força detentora do poder que não obedecia à justiça do trabalho. Buscando um sistema de trabalho em que a honestidade, a ajuda mútua, a cooperação, o esforço coletivo e a própria solidariedade fossem o elo, a principal ideia era promover uma mudança estrutural para oferecer melhores condições de vida a essa população. Quando surgiu, o cooperativismo já propunha dois elementos fundamentais: a dimensão social unida à dimensão econômica. Na social, é forte a premissa de que a autoajuda reforçada pela ajuda mútua são as bases essenciais de toda entidade cooperativa. Assim, o cooperativismo contribuiu para as mutações sociais. Por meio dele, constata-se a primazia do trabalho sobre o capital; a ênfase numa economia de serviços; a condução democrática e 2 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. participativa de empreendimentos, além de um real compromisso com o bem-estar da comunidade local e regional, como nos afirma Perius (2001, p. 281): mais do que nunca, na relação capital e trabalho, o trabalhador se tornou a parte mais fraca e mais vulnerável. Cabe ao trabalhador do campo e da cidade buscar a integração, pela parceria coletiva e pela ação conjunta, para superar essa marginalização na qual ele foi jogado. Ao tratar o cooperativismo como forma de solidariedade, esse autor dialoga com Schneider (2003), quando esse sociólogo aponta que, nesse sistema, todos participam da vida econômica, política e cultural de modo a superar o individualismo, proteger a pessoa humana, as comunidades locais e os grupos intermédios do perigo de perderem sua legítima autonomia. Este pensamento regeu a formação da primeira cooperativa do mundo, fundada em 1844, na região de Rochdale, na Inglaterra, quando 16 operários demitidos tomaram a iniciativa de se unir para comprar mercadorias e revendê-las. Unindo-se a outros fundadores, compuseram-se em 28 pessoas, todos trabalhadores de ofício. Segundo Singer (1999, p. 100), a sociedade dos pioneiros tinha por objetivos: fundar um armazém para abastecer os sócios, construir casas para os mesmos, manufaturar artigos para dar ocupação a sócios desempregados ou com a mesma finalidade e criar uma comunidade auto-sustentada pelo trabalho de seus membros, além de um hotel de temperança. Em paralelo a essa criação, as ideias sobre cooperativismo provocaram mudanças significativas em vários países da Europa como, por exemplo, na França, onde as cooperativas operárias de produção trouxeram vantagens consideráreis para a classe operária. O bem sucedido resultado alcançado pelos tecelões de Rochdale propulsionou a criação de muitas outras cooperativas. Os movimentos, através de seus inúmeros adeptos e seguidores, fortaleceram as doutrinas cooperativistas. O doutrinador Gide defendia no espírito cooperativista a ideia de melhoria das condições de vida dos associados, eliminação de intermediários na cadeia produtiva, a educação e o acesso à propriedade. O cooperativismo tornou-se mundialmente fortalecido após 1895 com a criação da Aliança Cooperativista Internacional (ACI), tendo como finalidade organizar e proteger o movimento no mundo (SANTOS, GOUVEIA e VIEIRA, 2008). O legado deixado pelos pioneiros para o cooperativismo através de suas práticas, princípios, normas e estatutos é a base da doutrina seguida pelas cooperativas até os dias atuais. Essa influência estende-se aos mais diversos setores econômicos abrangidos pelas cooperativas. Para Bogo (2001, p. 56): os pioneiros de Rochdale desenvolveram várias outras cooperativas, como de habitação e de produção de vários produtos, e abriram várias filiais da cooperativa de consumo. A Sociedade dos Pioneiros de Rochdale mostrou enorme capacidade de adaptação às oportunidades e aos riscos da economia de mercado, e fez isso sem 3 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. abrir mão dos princípios cooperativistas. Pelo contrário, foi exatamente a harmonização destes dois fatores que possibilitou seu crescimento, tornando-a um modelo das cooperativas futuras. A história remonta à força adquirida através da associação de pessoas que tenham um objetivo em comum. Isolados, os trabalhadores não obteriam sucesso, mas, se unidos, conquistaram seus ideais, esse é o cerne do cooperativismo, que se solidificou através de suas próprias experiências. Singer (2003) demonstra, em seus estudos, como o cooperativismo, de fato, tornouse um grande movimento social e potente modo de produção inserido em um sistema social em que o capitalismo se tornava cada vez mais dominante. Desse modo, um sistema contrapunha-se ao outro e o cooperativismo passa, pela necessidade de mudanças, a se fortalecer diante do capitalismo. 3. Experiência brasileira do cooperativismo solidário No Brasil, já se encontrava, em meados do século XVII, com o trabalho dos jesuítas, traços do cooperativismo ao remontar no tempo. Em 1610, com a fundação das primeiras reduções jesuíticas no Brasil, deu-se o início da construção de um estado cooperativo em bases integrais. Por mais de 150 anos, esse modelo deu exemplo de sociedade solidária fundamentada no trabalho coletivo em que o bem-estar do indivíduo e da família se sobrepunha ao interesse econômico da produção. A ação dos padres jesuítas baseava-se na persuasão, movidos pelo amor cristão e pelo princípio do auxílio mútuo (mutirão). Prática encontrada entre os indígenas brasileiros e em quase todos os povos primitivos, desde os primeiros tempos da humanidade - essas ações já demonstravam traços de solidariedade. Porém, dois séculos mais tarde, já em 1847, tem-se o início do movimento cooperativista no Brasil, com o médico francês Jean Maurice Faivre, com um grupo de europeus, nos sertões do Paraná, chamada Colônia Tereza Cristina, organizada em bases cooperativas. Essa Organização, apesar de sua breve existência, contribuiu na memória coletiva como elemento formador do florescente cooperativismo brasileiro. Contudo, daquele período até o início do século XX, outras cooperativas surgiram. Fato que perdurou até 1929, ano da crise econômica mundial, quando o governo brasileiro incentivou o cooperativismo, pois, durante a Crise de 1929, este servia como fortalecedor das políticas agrícolas. À época, mesmo com essa intenção, o sistema cooperativista não foi despersonificado, pois em seu corpo permaneciam suas características iniciais, bem como permanecem até hoje: o social em estreito diálogo com o econômico. Nas últimas décadas, encontra-se um cenário um pouco diferente, de acordo com Gaiger (2000), ao afirmar que os projetos alternativos comunitários, cooperativas e empresas autogestionárias, embora não sejam novidade, inovam no crescimento dos atores em rede e pelas perspectivas que se somam ao debate e à experimentação de projetos de economia solidária. Atualmente, as manifestações solidárias na economia podem ser exemplificadas pela organização de cooperativas de assentados pelo movimento sem-terra, pelas incubadoras de cooperativas populares, entre diversas outras iniciativas. No mesmo contexto, complementa Gaiger (2003), o aparecimento de empreendimentos populares baseados na livre associação, no trabalho cooperativo e na 4 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. autogestão fazem parte notoriamente da paisagem social brasileira e de muitos outros países e se tornam uma alternativa aceitável para que as classes menos favorecidas possam buscar melhores condições de vida e dignidade social. Ou seja, anteriormente pessoas se uniam e formavam cooperativas, criando associações de pessoas. Afinal, as cooperativas surgiram não somente como empresas normais, mas também como instrumento para utilização de seus fins (PERIUS, 2001). Todavia, atualmente, existe a presença frequente de redes de cooperativas, por conseguinte, o que se mantém é o objetivo pelo qual a união acontece, ou seja, a busca pela dignidade humana, em que as dinâmicas sociais e econômicas estão interligadas. Polonio (2004) concorda com Perius (2001, p. 281) “a sociedade cooperativa pode ser tomada como uma sociedade genuinamente de pessoas, e nem precisaria de lei para classificá-la como tal, uma vez que tem como fundamento a solidariedade, a igualdade e a comunhão de interesses dos associados”. É preciso ressaltar que para atender aos objetivos da sociedade, as cooperativas podem relacionar-se com os associados ou com demais empresas. Como nos diz Polonio (2004, p. 25), “as sociedades cooperativas, visando finalidades sociais, realizam diversas atividades, interagindo ora com o associado cooperado, ora com terceiro, isoladamente, ou com ambos, em um mesmo ciclo operacional” e dentro das finalidades sociais está a solidariedade presente nas cooperativas e que se expande e externaliza, como Gaiger (2008) nos endossa ao dizer que há chances consideráveis de transferir os princípios já internalizados para as condutas no espaço público. Assim, as afirmações citadas alertam para o princípio de que se deve prezar pela continuidade da solidariedade na cooperativa, ou seja, a solidariedade não pode estar presente somente no momento da abertura da cooperativa, mas durante toda a sua trajetória. A partir dessa informação, define-se as atividades dentro da cooperativa, como atos cooperativos e atos não cooperativos, segundo Polonio (2004). Para esse autor, os atos cooperativos são aqueles realizados entre os associados e a cooperativa, isto é, são os de entrega dos produtos ou serviços para que se alcance os objetivos da sociedade. A Lei 5.764 de 1971, das Cooperativas, em seu Art. 79,define esses atos da seguinte maneira: “denominam-se atos cooperativos os aplicados entre as cooperativas e seus associados, entre estes e aqueles e pelas cooperativas entre si quando associados, para a consecução dos objetivos sociais”. E ainda consta em seu Parágrafo único: “O ato cooperativo não implica operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria”. O Parágrafo Único da lei deixa claro que as operações realizadas pela sociedade com os associados não se controvertem de operações mercantis, mas de transferência de mercadorias entre a sociedade e os associados. Ou seja, a entrega da produção pra a cooperativa significa lhe conceder poderes para a comercialização visando benefício geral. Visualiza-se, assim, como a solidariedade é fundamental para que um ato cooperativo ocorra, pois há uma busca pela consecução do objetivo social imbuída de um pensar social muito forte. Já os atos não cooperativos ou atos cooperativos auxiliares, como são defendidos por alguns autores, são as atividades realizadas entre as cooperativas com terceiros ou com não associados, com o objetivo de auferir resultados para a empresa e com as cooperativas em rede, a solidariedade estará presente em seus atos, pois quando a rede existe confirma-se de 5 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. fato a externalização da solidariedade. Diante do exposto, percebe-se que o sistema de cooperativas no Brasil, por meio dos estudos, principalmente de Gaiger (2003), tem-se, ao longo dos tempos, solidificado-se e constituído como base para a construção de uma sociedade solidária, a Lei das Cooperativas deixa também claro este fim, em seu Art. 86: “As cooperativas poderão fornecer bens e serviços a não associados, desde que tal faculdade atenda aos objetivos sociais e estejam de conformidade com a presente lei”. Dessa forma, os atos não cooperativos podem ser realizados pelas cooperativas quando seguem a mesma linha do seu objeto social, muitos autores defendem, ainda, que há a necessidade de existir essa relação externa para possibilitar o desenvolvimento normal de suas atividades, ou seja, para a realização dos atos cooperativos. Sobre os resultados auferidos através dos atos não cooperativos, Santos, Gouveia e Vieira (2008) ressaltam que seu tratamento será diverso aos atos cooperativos, que serão denominados de lucros ou prejuízos e quando os resultados forem positivos serão destinados para fundo específico e indivisível, não podendo ser distribuído aos seus cooperados. Essa diferenciação é justificada por tais transações serem consideradas parte da economia da cooperativa e não da relação da cooperativa com seus cooperados. Nesse sentido, é ponderável nas cooperativas e empresas autogestionárias o fato de que os ganhos são socializados entre seus membros, pois essa ação permite que os mesmos ja admitido mais facilmente com as perdas (GAIGER, 2003). O associativismo garante o sucesso desse sistema, em que todos os envolvidos trabalharam em prol da evolução da atividade econômica da cooperativa, não deixando de lado seu foco no cunho social. 3.1 Desenvolvimento dos principais ramos cooperativistas do Brasil O movimento cooperativista, como muitos poucos movimentos, é livre da influência do Estado. A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) aponta que a cultura cooperativista no Brasil esteve presente desde à colonização portuguesa. O movimento tomou força e teve maior repercussão no final do século XIX, por influência principalmente de funcionários públicos, militares, profissionais liberais e operários, cujos principais objetivos centravam-se na busca por condições de suprirem suas necessidades primárias. Dentre as cooperativas brasileiras, em 1889, foi criada a primeira cooperativa de consumo na cidade de Ouro Preto (MG). O movimento funcionou muito bem, sendo acolhido em outros estados como Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, além de se espalhar em Minas Gerais. Polonio (2004, p. 69) argumenta que as cooperativas de consumo “têm por atividade principal as operações de compras de produtos de primeira necessidade para vendê-los aos cooperados, no atacado ou no varejo”. Esse tipo de cooperativa permeia a realidade brasileira na busca por preços adequados em variados produtos para repassá-los aos cooperados sem intermediações. Permitindo, assim, acesso aos mais diversos gêneros de produtos às pessoas que, sem o intermédio da cooperativa, não teriam condições de adquiri-los. Outro segmento de destaque no cooperativismo brasileiro é o de crédito. O surgimento das cooperativas de crédito é registrado em 1902, no Rio Grande do Sul, incentivado pelo padre suíço Theodor Amstadt, (OCB). As cooperativas de crédito têm a finalidade de proporcionar aos seus associados 6 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. crédito em moeda por meio da mutualidade e da economia mediante taxa de juros suave de juros, auxiliando, o pequeno trabalhador em qualquer tipo de atividade, seja esta agrícola, industrial, profissional ou comercial, podendo também interagir com pessoas estranhas à associação (POLONIO, 2004). Esse ramo cooperativista está entre os que mais se desenvolve, sua aceitação é amplamente anunciada. Através do trabalho que vem sendo realizado, os cooperados buscam em sua cooperativa apoio financeiro para desenvolvimento de suas atividades, por meio do acesso ao crédito com taxas financeiras menos onerosas. De acordo com a OCB, a partir de 1906, nasceram e se desenvolveram cooperativas no meio rural, pensadas por produtores agropecuários. Grande parte deles tinha origem alemã e italiana. Esses imigrantes trouxeram de seus países a bagagem cultural, bases do trabalho associativo e a experiência de atividades familiares comunitárias que possibilitou sua organização em cooperativas. O ramo agropecuário reúne cooperativas de produtores rurais, agropastoris e de pesca, sendo os meios de produção pertencentes aos associados. Caracteriza-se pelos serviços prestados aos seus membros, como o recebimento e/ou comercialização da produção conjunta, armazenamento e industrialização, bem como assistência técnica, educacional e até social. No Brasil, esse ramo se destaca por uma significativa participação no PIB, número de cooperativas e empregos gerados. (SANTOS, GOUVEIA e VIEIRA, 2008, p. 29) Embora as primeiras cooperativas agropecuárias tenham sido criadas em Minas Gerais, esse segmento possui muita representatividade na região sul do país, onde o movimento cooperativista foi incorporado pela sociedade, não se limitando apenas ao setor agropecuário, como já fora citado. Nessa região, também se desenvolveram cooperativas em diversos outros ramos. A Organização das Cooperativas de São Paulo divulgou que existe registro desde 1938 da Cooperativa de Trabalho dos Carregadores e Transportadores de Bagagens do Porto de Santos. Contudo, as cooperativas de trabalho apenas se solidificaram após a década de 1990 acompanhando o desenvolvimento do cooperativismo. Xavier (2002, p. 08) confirma essa ideia ao afirmar que: foi a partir da década 90 que verificou-se um aumento significativo de cooperativas de trabalho no Brasil fruto não só do desenvolvimento do "movimento cooperativista", mas também das idéias de flexibilização das relações de trabalho e de terceirização visando a economia de recursos e a simplificação administrativa. Neste quadro é que as cooperativas vêem ganhando espaço como alternativa para o desemprego e instrumento que visa por princípio o aprimoramento social, educacional e o bem-estar de seus sócios. Conforme o exposto, é possível perceber que as cooperativas de trabalho se desenvolveram exaltando o anseio dos trabalhadores por condições humanas de trabalho, remuneração adequada e suficiente à sua subsistência. Em suma, almejam alcançar o bemestar para si e sua família. A OCB argumenta que as cooperativas de trabalho são constituídas por pessoas ligadas a uma determinada ocupação profissional com a finalidade de melhorar a remuneração 7 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. e as condições de trabalho, de forma autônoma. Esse é um segmento extremamente abrangente, pois os integrantes de qualquer profissão podem se organizar em cooperativas de trabalho. Ainda, segundo a Organização as Cooperativas de Trabalho, estas podem ser divididas três grupos, sendo eles: artesanal, cultura e diversos. No Brasil desenvolveram-se, além dos ramos cooperativistas citados, muitos outros, a ideologia seguida é em essência a mesma, respeitando sempre os princípios e as doutrinas cooperativistas, o que as diferencia é a finalidade econômica através da atividade que é desenvolvida. 3.1 Cooperativismo brasileiro em números Dados divulgados pela OCB (tabela 1) retratam a realidade cooperativista brasileira em dezembro de 2009. Segundo essa fonte, as cooperativas estão distribuídas em 13 ramos de atividades, sendo eles: agropecuário, consumo, crédito, educacional, especial, habitacional, infra-estrutura, mineral, produção, saúde, trabalho, turismo e transporte e lazer. Analisando esses dados, nota-se que os setores com maior número de cooperativas são o agropecuário, seguido do segmento do trabalho, crédito e transporte. Em relação ao número de associados, destacam-se com quantidade bastante elevada as cooperativas de crédito e consumo e quando ao número de empregados, o setor que mais emprega é o agropecuário. Tabela 1 - Ramos de atividade das cooperativas Dez./2009. Ramo Agropecuário Consumo Crédito Educacional Cooperativas 1.615 Associados 942.147 Empregados 138.829 128 2.304.830 9.702 1.100 3.497.735 42.802 304 55.838 3.716 Especial 15 469 9 Habitacional 253 108.695 1.406 Infraestrutura 154 715.800 6.045 Mineral 58 20.031 103 Produção 226 11.396 2.936 Saúde 871 225.980 55.709 Trabalho 1.408 260.891 4.243 Transporte 1.100 107.109 8.660 29 1.489 30 Turismo e Lazer Total 7.261 8.252.410 Fonte: OCEs e OCB; elaboração: Gemerc/OCB. 274.190 É possível visualizar a expressiva participação do movimento cooperativista no Brasil, país com aproximadamente 190 milhões de habitantes. Em torno de 4,5% de sua população está inserida na ótica cooperativista, repercutindo e interferindo na ideologia capitalista, através da ampliação dos aspectos solidários que embutem o contexto das cooperativas. 8 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. Essa grandeza também pode ser vislumbrada através da tabela 2 pela movimentação econômico-financeira das cooperativas. Entre 2008 e 2009, o movimento registrado foi em torno de 88,5 bilhões de reais, com redução de 0,26% na movimentação do último ano resultante da crise que abalou o mundo nesse período. Tabela 2 - Movimentação econômico-financeira das cooperativas. Movimentação econômico-financeira das cooperativas ANOS Brasil 2006 2007 2008 2009 R$ BI % 68,02 72,2 88,73 88,5 11,62 6,15 22,9 -0,26 Fonte: OCEs e OCB; elaboração: Gemerc/OCB Confirmando essas informações, o cooperativismo brasileiro fechou 2009 mantendo seu processo de amadurecimento, em curso há alguns anos. Comprova este comportamento o aumento de associados (4,62%) e de empregos gerados (7,71%). No mesmo período, houve redução no número de cooperativas (-5,48%). Os indicadores mostraram a dinâmica do cooperativismo e sua visão em buscar alternativas e oportunidades num período pós-crise, (OCB). A grandeza das riquezas geradas reflete direta ou indiretamente no cotidiano dos associados das cooperativas. O sucesso da cooperativa da qual fazem parte reflete no sucesso de sua própria vida. Essa é a resposta do cooperativismo, um movimento que pode ser tido como solidário frente ao capitalismo desenfreado no qual se encontra inserido o Brasil. 4. Conclusão Ao finalizar este artigo, preponderantemente, observa-se que os vitimados pelo sistema capitalista acabam por se revestirem da solidariedade, pois, por meio dela, torna-se possível vencer as barreiras desse sistema e buscar a concretude de um empreendimento econômico que necessita ser solidário para vencer. Tem-se, então, a busca pelo cooperativismo. A solidariedade é à base da cooperação, como Gaiger (2009) nos afirma. Para ele, a solidariedade diz respeito à cooperação na atividade econômica, à disposição para uso em comum dos meios de produção e à autogestão exercida na condução dos empreendimentos. Por isso, o autor afirma que os empreendimentos em comum exigem pessoas solidárias; indivíduos independentes, dispostos a estabelecer vínculos entre si baseados no apoio mútuo, no sentido recíproco de união e de responsabilidade conjuntas. Por essas razões, a solidariedade é considerada um objetivo civilizatório e um caminho para o alcance do bemestar social, no século XXI. Ao serem revistos alguns momentos da trajetória do cooperativismo, verifica-se a presença da solidariedade como gesto mais humanitário e essa característica é encontrada graças a sua ética que, segundo Lisboa (2003), é a ética do amor, incluindo, no extremo, o difícil amor aos inimigos. Apesar de, no passado, a solidariedade muitas vezes estar voltada à proteção do trabalho assalariado, atualmente seu sentido é mais amplo, pois procura acolher a 9 IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda. Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010. solidariedade filantrópica e democrática. Ou, parafraseando Laville (2009), no cooperativismo está presente a solidariedade democrática que resulta de ações coletivas em que há igualdade de direitos entre as pessoas que nela se engajam e nela se empenham em aprofundar a democracia política mediante uma democracia econômica e social. Pode-se afirmar, por fim, que, no sistema de cooperativa, onde existir solidariedade existirá solidez e ela não será vazia, mas consistente por que baseada na aliança entre cooperados. Aliança esta que os fazem atuar com eficiência e eficácia para resolver problemas internos e vencer as pressões externas, juntos, numa ação solidária. Referências BECKER, Howard S. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo: Hutitec, 1997. BRASIL. Organização das cooperativas do Brasil. Lei n. 5.764, de 12 de dezembro de 1971: Lei do Cooperativismo. Disponível em < http://www.ocb.org.br. >. Acesso em: 12 jul. 2004. BOGO, Vicente Joaquim. O cooperativismo gaúcho. Porto Alegre, OCERGS, 2001. CATTANI, Antonio et al. (Orgs.) Dicionário internacional da outra economia. Coimbra: Almedina, 2009. GAIGER, Luiz Inácio. Sentido e possibilidades da Economia Solidária hoje. In: Kraychete, G. et. Al. (org). Economia dos setores populares: entre a realidade e a utopia. 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