IV CICLO DE PALESTRAS EM CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
Oportunidades e desafios nas ciências sociais aplicadas: relações interorganizacionais, trabalho e renda.
Sinop, MT, Brasil, 18 a 22 de outubro de 2010.
Cooperativismo como alternativa de solidariedade: da fadiga ao vigor
dos oprimidos na sociedade capitalista
Fernanda Mosseline Josende Coan (UNEMAT) [email protected]
Tatiana Assmann Meinerz (UNEMAT) [email protected]
Resumo
Este artigo traz uma reflexão sobre a presença da solidariedade no Cooperativismo, levando
em conta que o ponto de partida para a inclusão do espírito solidário no Cooperativismo se
dá pela fadiga dos mais oprimidos. Para isso, rebusca a fatos expressivos ocorridos na
trajetória do Cooperativismo e, nestes, salienta momentos em que se identificou maior
grandeza de solidariedade. As reflexões contidas neste estudo fundamentam-se em leituras
efetuadas nas obras de autores que abordam esse tema, como é o caso de GAIGER (2009),
SCHNEIDER (2003), LAVILLE (2009), SINGER (1999, 2003) e CATTANI (2009). A
solidariedade é fortemente utilizada e sinaliza uma inflexão dentro do Capitalismo. No caso
de iniciativas como o Cooperativismo, por exemplo, a solidariedade se apresenta como gesto
em prol da dignidade humana.
Palavras-chave: Cooperativismo; Solidariedade; Associação de Pessoas.
1. Breve introdução
Diante do mundo capitalista torna-se importante destacar ações de união como o
cooperativismo, nas quais podemos encontrar a solidariedade, o que demonstra que, mesmo
com esse capitalismo exarcebado, ainda existe a preocupação para com o outro.
Para pontuar a presença da solidariedade no Cooperativismo, torna-se necessário,
irrefutavelmente, buscar a compreensão dessa relação no percurso dos séculos. Considera-se,
conforme Gaiger (2009), que a solidariedade no campo econômico volta à cena no limiar do
século XXI, causada pela necessidade de mudanças sociais que levasse a um bem-estar do
sujeito em todos os campos.
No século XX via-se um panorama em que as pessoas que tinham trabalho, tinhamno em condições desumanas, com jornadas excessivas; salários miseráveis; emprego abusivo,
tanto para mulheres como para crianças, ou seja, o padrão de vida dos trabalhadores era o pior
possível. Havia um apelo à mudança na maneira de pensar e no comportamento da atividade
econômica e social, que poderia levar a uma sociedade e a um sistema econômico alternativo,
mais solidário, justo, autônomo, democrático e participativo.
De maneira geral, procurava-se uma reforma social que levasse a atingir aos anseios
de justiça, a um novo sistema social, a uma nova ordem moral fundada na razão, na vontade
esclarecida e na ação conjunta dos seres humanos. O Cooperativismo surge, então, como
resposta a essa necessidade, considerado uma ação rápida para geração de trabalho, para a
distribuição de renda como meio e não como fim e passa a ser compreendido como solução
social aos problemas enfrentados pelas classes menos favorecidas.
O Cooperativismo, pelo aspecto altruísta, identifica-se fortemente com a
solidariedade, pois no cerne desse sistema está a reintegração da atividade econômica nas
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relações sociais, a qual ocorre sempre que os indivíduos trabalham juntos, intencionalmente,
para um bem-estar mais amplo e mais extenso. Assim, os indivíduos atuam de forma
inteligente e simpática no grupo, em prol de seu próprio desenvolvimento e de terceiros, onde
quer que se encontrem, mas de maneira a não servir a seu interesse pessoal, a não ser, por
intermédio geral de todos os associados (SCHNEIDER, 2003).
2. O cooperativismo redentor
Com a revolução industrial, o homem acelerou seu processo de migração do campo
ou das pequenas cidades ou vilas para viver nas cidades maiores. Contudo, a primeira
transferência do homem do campo para a cidade foi por volta de 1750, com a chegada do
capitalismo industrial, cuja migração se deu por atração ou de forma forçosa, ou seja, muitas
famílias migravam espontaneamente em busca de uma vida melhor; outras eram expulsas
pelos proprietários de terras, pois, com a introdução da máquina a vapor, viram aí a
oportunidade de criar ovelhas e, desse modo, não mais necessitavam de possuir tantas pessoas
trabalhando no campo.
Então, ao final do século XVIII e início do século XIX, aconteceram grandes
modificações nos setores econômico e social, motivadas em parte por avanços tecnológicos
que transformaram o sistema de produção.
A introdução de máquinas originou a denominada revolução industrial, iniciada na
Inglaterra a partir de 1780, o que fez surgir a indústria de grande escala, a qual exigia grande
concentração de capital, custosas instalações e maquinários. Assim, foram fechadas inúmeras
pequenas organizações que empregavam grande número de artesões. Tal ação desencadeou
excesso de oferta de mão de obra nas cidades, inclusive de antigos artesões e trabalhadores
rurais que foram para as cidades atraídos pelas ofertas de trabalho nas enormes fábricas. Por
consequência, habitavam lugares insalubres, a alimentação era insuficiente, além de inúmeros
outros problemas, o que causou uma grande desordem social.
Entretanto, não havia interesse dos poderes públicos em intervir no chamado
mercado livre. Os pequenos e médios produtores como artesões, agricultores e outros eram
forçados a vender seus produtos a preços baixos e pagar preços altos por sementes,
ferramentas e outros materiais para dar continuidade a sua produção.
Naquele período, o Cooperativismo surge como forma de reação do mundo
camponês e operário à grave situação de exploração trazida pela revolução industrial. Ou seja,
surgem manifestações da sociedade retratadas pela grande onda de greve e desemprego, o que
leva ao florescimento da solidariedade como condicionante do princípio organizador de
resistência contra o capitalismo e a força detentora do poder que não obedecia à justiça do
trabalho.
Buscando um sistema de trabalho em que a honestidade, a ajuda mútua, a
cooperação, o esforço coletivo e a própria solidariedade fossem o elo, a principal ideia era
promover uma mudança estrutural para oferecer melhores condições de vida a essa população.
Quando surgiu, o cooperativismo já propunha dois elementos fundamentais: a
dimensão social unida à dimensão econômica. Na social, é forte a premissa de que a autoajuda
reforçada pela ajuda mútua são as bases essenciais de toda entidade cooperativa. Assim, o
cooperativismo contribuiu para as mutações sociais. Por meio dele, constata-se a primazia do
trabalho sobre o capital; a ênfase numa economia de serviços; a condução democrática e
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participativa de empreendimentos, além de um real compromisso com o bem-estar da
comunidade local e regional, como nos afirma Perius (2001, p. 281):
mais do que nunca, na relação capital e trabalho, o trabalhador se tornou a parte
mais fraca e mais vulnerável. Cabe ao trabalhador do campo e da cidade buscar a
integração, pela parceria coletiva e pela ação conjunta, para superar essa
marginalização na qual ele foi jogado.
Ao tratar o cooperativismo como forma de solidariedade, esse autor dialoga com
Schneider (2003), quando esse sociólogo aponta que, nesse sistema, todos participam da vida
econômica, política e cultural de modo a superar o individualismo, proteger a pessoa humana,
as comunidades locais e os grupos intermédios do perigo de perderem sua legítima
autonomia.
Este pensamento regeu a formação da primeira cooperativa do mundo, fundada em
1844, na região de Rochdale, na Inglaterra, quando 16 operários demitidos tomaram a
iniciativa de se unir para comprar mercadorias e revendê-las. Unindo-se a outros fundadores,
compuseram-se em 28 pessoas, todos trabalhadores de ofício. Segundo Singer (1999, p. 100),
a sociedade dos pioneiros tinha por objetivos:
fundar um armazém para abastecer os sócios, construir casas para os mesmos,
manufaturar artigos para dar ocupação a sócios desempregados ou com a mesma
finalidade e criar uma comunidade auto-sustentada pelo trabalho de seus membros,
além de um hotel de temperança.
Em paralelo a essa criação, as ideias sobre cooperativismo provocaram mudanças
significativas em vários países da Europa como, por exemplo, na França, onde as cooperativas
operárias de produção trouxeram vantagens consideráreis para a classe operária.
O bem sucedido resultado alcançado pelos tecelões de Rochdale propulsionou a
criação de muitas outras cooperativas. Os movimentos, através de seus inúmeros adeptos e
seguidores, fortaleceram as doutrinas cooperativistas. O doutrinador Gide defendia no espírito
cooperativista a ideia de melhoria das condições de vida dos associados, eliminação de
intermediários na cadeia produtiva, a educação e o acesso à propriedade. O cooperativismo
tornou-se mundialmente fortalecido após 1895 com a criação da Aliança Cooperativista
Internacional (ACI), tendo como finalidade organizar e proteger o movimento no mundo
(SANTOS, GOUVEIA e VIEIRA, 2008).
O legado deixado pelos pioneiros para o cooperativismo através de suas práticas,
princípios, normas e estatutos é a base da doutrina seguida pelas cooperativas até os dias
atuais. Essa influência estende-se aos mais diversos setores econômicos abrangidos pelas
cooperativas. Para Bogo (2001, p. 56):
os pioneiros de Rochdale desenvolveram várias outras cooperativas, como de
habitação e de produção de vários produtos, e abriram várias filiais da cooperativa
de consumo. A Sociedade dos Pioneiros de Rochdale mostrou enorme capacidade de
adaptação às oportunidades e aos riscos da economia de mercado, e fez isso sem
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abrir mão dos princípios cooperativistas. Pelo contrário, foi exatamente a
harmonização destes dois fatores que possibilitou seu crescimento, tornando-a um
modelo das cooperativas futuras.
A história remonta à força adquirida através da associação de pessoas que tenham um
objetivo em comum. Isolados, os trabalhadores não obteriam sucesso, mas, se unidos,
conquistaram seus ideais, esse é o cerne do cooperativismo, que se solidificou através de suas
próprias experiências.
Singer (2003) demonstra, em seus estudos, como o cooperativismo, de fato, tornouse um grande movimento social e potente modo de produção inserido em um sistema social
em que o capitalismo se tornava cada vez mais dominante. Desse modo, um sistema
contrapunha-se ao outro e o cooperativismo passa, pela necessidade de mudanças, a se
fortalecer diante do capitalismo.
3. Experiência brasileira do cooperativismo solidário
No Brasil, já se encontrava, em meados do século XVII, com o trabalho dos jesuítas,
traços do cooperativismo ao remontar no tempo. Em 1610, com a fundação das primeiras
reduções jesuíticas no Brasil, deu-se o início da construção de um estado cooperativo em
bases integrais. Por mais de 150 anos, esse modelo deu exemplo de sociedade solidária
fundamentada no trabalho coletivo em que o bem-estar do indivíduo e da família se
sobrepunha ao interesse econômico da produção. A ação dos padres jesuítas baseava-se na
persuasão, movidos pelo amor cristão e pelo princípio do auxílio mútuo (mutirão). Prática
encontrada entre os indígenas brasileiros e em quase todos os povos primitivos, desde os
primeiros tempos da humanidade - essas ações já demonstravam traços de solidariedade.
Porém, dois séculos mais tarde, já em 1847, tem-se o início do movimento
cooperativista no Brasil, com o médico francês Jean Maurice Faivre, com um grupo de
europeus, nos sertões do Paraná, chamada Colônia Tereza Cristina, organizada em bases
cooperativas. Essa Organização, apesar de sua breve existência, contribuiu na memória
coletiva como elemento formador do florescente cooperativismo brasileiro. Contudo, daquele
período até o início do século XX, outras cooperativas surgiram. Fato que perdurou até 1929,
ano da crise econômica mundial, quando o governo brasileiro incentivou o cooperativismo,
pois, durante a Crise de 1929, este servia como fortalecedor das políticas agrícolas. À época,
mesmo com essa intenção, o sistema cooperativista não foi despersonificado, pois em seu
corpo permaneciam suas características iniciais, bem como permanecem até hoje: o social em
estreito diálogo com o econômico.
Nas últimas décadas, encontra-se um cenário um pouco diferente, de acordo com
Gaiger (2000), ao afirmar que os projetos alternativos comunitários, cooperativas e empresas
autogestionárias, embora não sejam novidade, inovam no crescimento dos atores em rede e
pelas perspectivas que se somam ao debate e à experimentação de projetos de economia
solidária. Atualmente, as manifestações solidárias na economia podem ser exemplificadas
pela organização de cooperativas de assentados pelo movimento sem-terra, pelas incubadoras
de cooperativas populares, entre diversas outras iniciativas.
No mesmo contexto, complementa Gaiger (2003), o aparecimento de
empreendimentos populares baseados na livre associação, no trabalho cooperativo e na
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autogestão fazem parte notoriamente da paisagem social brasileira e de muitos outros países e
se tornam uma alternativa aceitável para que as classes menos favorecidas possam buscar
melhores condições de vida e dignidade social.
Ou seja, anteriormente pessoas se uniam e formavam cooperativas, criando
associações de pessoas. Afinal, as cooperativas surgiram não somente como empresas
normais, mas também como instrumento para utilização de seus fins (PERIUS, 2001).
Todavia, atualmente, existe a presença frequente de redes de cooperativas, por conseguinte, o
que se mantém é o objetivo pelo qual a união acontece, ou seja, a busca pela dignidade
humana, em que as dinâmicas sociais e econômicas estão interligadas.
Polonio (2004) concorda com Perius (2001, p. 281) “a sociedade cooperativa pode
ser tomada como uma sociedade genuinamente de pessoas, e nem precisaria de lei para
classificá-la como tal, uma vez que tem como fundamento a solidariedade, a igualdade e a
comunhão de interesses dos associados”.
É preciso ressaltar que para atender aos objetivos da sociedade, as cooperativas
podem relacionar-se com os associados ou com demais empresas. Como nos diz Polonio
(2004, p. 25), “as sociedades cooperativas, visando finalidades sociais, realizam diversas
atividades, interagindo ora com o associado cooperado, ora com terceiro, isoladamente, ou
com ambos, em um mesmo ciclo operacional” e dentro das finalidades sociais está a
solidariedade presente nas cooperativas e que se expande e externaliza, como Gaiger (2008)
nos endossa ao dizer que há chances consideráveis de transferir os princípios já internalizados
para as condutas no espaço público.
Assim, as afirmações citadas alertam para o princípio de que se deve prezar pela
continuidade da solidariedade na cooperativa, ou seja, a solidariedade não pode estar presente
somente no momento da abertura da cooperativa, mas durante toda a sua trajetória. A partir
dessa informação, define-se as atividades dentro da cooperativa, como atos cooperativos e
atos não cooperativos, segundo Polonio (2004).
Para esse autor, os atos cooperativos são aqueles realizados entre os associados e a
cooperativa, isto é, são os de entrega dos produtos ou serviços para que se alcance os
objetivos da sociedade.
A Lei 5.764 de 1971, das Cooperativas, em seu Art. 79,define esses atos da seguinte
maneira: “denominam-se atos cooperativos os aplicados entre as cooperativas e seus
associados, entre estes e aqueles e pelas cooperativas entre si quando associados, para a
consecução dos objetivos sociais”.
E ainda consta em seu Parágrafo único: “O ato cooperativo não implica operação de
mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria”.
O Parágrafo Único da lei deixa claro que as operações realizadas pela sociedade com
os associados não se controvertem de operações mercantis, mas de transferência de
mercadorias entre a sociedade e os associados. Ou seja, a entrega da produção pra a
cooperativa significa lhe conceder poderes para a comercialização visando benefício geral.
Visualiza-se, assim, como a solidariedade é fundamental para que um ato cooperativo ocorra,
pois há uma busca pela consecução do objetivo social imbuída de um pensar social muito
forte.
Já os atos não cooperativos ou atos cooperativos auxiliares, como são defendidos por
alguns autores, são as atividades realizadas entre as cooperativas com terceiros ou com não
associados, com o objetivo de auferir resultados para a empresa e com as cooperativas em
rede, a solidariedade estará presente em seus atos, pois quando a rede existe confirma-se de
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fato a externalização da solidariedade.
Diante do exposto, percebe-se que o sistema de cooperativas no Brasil, por meio dos
estudos, principalmente de Gaiger (2003), tem-se, ao longo dos tempos, solidificado-se e
constituído como base para a construção de uma sociedade solidária, a Lei das Cooperativas
deixa também claro este fim, em seu Art. 86: “As cooperativas poderão fornecer bens e
serviços a não associados, desde que tal faculdade atenda aos objetivos sociais e estejam de
conformidade com a presente lei”.
Dessa forma, os atos não cooperativos podem ser realizados pelas cooperativas
quando seguem a mesma linha do seu objeto social, muitos autores defendem, ainda, que há a
necessidade de existir essa relação externa para possibilitar o desenvolvimento normal de suas
atividades, ou seja, para a realização dos atos cooperativos.
Sobre os resultados auferidos através dos atos não cooperativos, Santos, Gouveia e
Vieira (2008) ressaltam que seu tratamento será diverso aos atos cooperativos, que serão
denominados de lucros ou prejuízos e quando os resultados forem positivos serão destinados
para fundo específico e indivisível, não podendo ser distribuído aos seus cooperados. Essa
diferenciação é justificada por tais transações serem consideradas parte da economia da
cooperativa e não da relação da cooperativa com seus cooperados.
Nesse sentido, é ponderável nas cooperativas e empresas autogestionárias o fato de
que os ganhos são socializados entre seus membros, pois essa ação permite que os mesmos ja
admitido mais facilmente com as perdas (GAIGER, 2003). O associativismo garante o
sucesso desse sistema, em que todos os envolvidos trabalharam em prol da evolução da
atividade econômica da cooperativa, não deixando de lado seu foco no cunho social.
3.1 Desenvolvimento dos principais ramos cooperativistas do Brasil
O movimento cooperativista, como muitos poucos movimentos, é livre da influência
do Estado. A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) aponta que a cultura
cooperativista no Brasil esteve presente desde à colonização portuguesa. O movimento tomou
força e teve maior repercussão no final do século XIX, por influência principalmente de
funcionários públicos, militares, profissionais liberais e operários, cujos principais objetivos
centravam-se na busca por condições de suprirem suas necessidades primárias.
Dentre as cooperativas brasileiras, em 1889, foi criada a primeira cooperativa de
consumo na cidade de Ouro Preto (MG). O movimento funcionou muito bem, sendo acolhido
em outros estados como Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, além de
se espalhar em Minas Gerais.
Polonio (2004, p. 69) argumenta que as cooperativas de consumo “têm por atividade
principal as operações de compras de produtos de primeira necessidade para vendê-los aos
cooperados, no atacado ou no varejo”. Esse tipo de cooperativa permeia a realidade brasileira
na busca por preços adequados em variados produtos para repassá-los aos cooperados sem
intermediações. Permitindo, assim, acesso aos mais diversos gêneros de produtos às pessoas
que, sem o intermédio da cooperativa, não teriam condições de adquiri-los.
Outro segmento de destaque no cooperativismo brasileiro é o de crédito. O
surgimento das cooperativas de crédito é registrado em 1902, no Rio Grande do Sul,
incentivado pelo padre suíço Theodor Amstadt, (OCB).
As cooperativas de crédito têm a finalidade de proporcionar aos seus associados
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crédito em moeda por meio da mutualidade e da economia mediante taxa de juros suave de
juros, auxiliando, o pequeno trabalhador em qualquer tipo de atividade, seja esta agrícola,
industrial, profissional ou comercial, podendo também interagir com pessoas estranhas à
associação (POLONIO, 2004).
Esse ramo cooperativista está entre os que mais se desenvolve, sua aceitação é
amplamente anunciada. Através do trabalho que vem sendo realizado, os cooperados buscam
em sua cooperativa apoio financeiro para desenvolvimento de suas atividades, por meio do
acesso ao crédito com taxas financeiras menos onerosas.
De acordo com a OCB, a partir de 1906, nasceram e se desenvolveram cooperativas
no meio rural, pensadas por produtores agropecuários. Grande parte deles tinha origem alemã
e italiana. Esses imigrantes trouxeram de seus países a bagagem cultural, bases do trabalho
associativo e a experiência de atividades familiares comunitárias que possibilitou sua
organização em cooperativas.
O ramo agropecuário reúne cooperativas de produtores rurais, agropastoris e de
pesca, sendo os meios de produção pertencentes aos associados. Caracteriza-se pelos
serviços prestados aos seus membros, como o recebimento e/ou comercialização da
produção conjunta, armazenamento e industrialização, bem como assistência
técnica, educacional e até social. No Brasil, esse ramo se destaca por uma
significativa participação no PIB, número de cooperativas e empregos gerados.
(SANTOS, GOUVEIA e VIEIRA, 2008, p. 29)
Embora as primeiras cooperativas agropecuárias tenham sido criadas em Minas
Gerais, esse segmento possui muita representatividade na região sul do país, onde o
movimento cooperativista foi incorporado pela sociedade, não se limitando apenas ao setor
agropecuário, como já fora citado. Nessa região, também se desenvolveram cooperativas em
diversos outros ramos.
A Organização das Cooperativas de São Paulo divulgou que existe registro desde
1938 da Cooperativa de Trabalho dos Carregadores e Transportadores de Bagagens do Porto
de Santos. Contudo, as cooperativas de trabalho apenas se solidificaram após a década de
1990 acompanhando o desenvolvimento do cooperativismo.
Xavier (2002, p. 08) confirma essa ideia ao afirmar que:
foi a partir da década 90 que verificou-se um aumento significativo de cooperativas
de trabalho no Brasil fruto não só do desenvolvimento do "movimento
cooperativista", mas também das idéias de flexibilização das relações de trabalho e
de terceirização visando a economia de recursos e a simplificação administrativa.
Neste quadro é que as cooperativas vêem ganhando espaço como alternativa para o
desemprego e instrumento que visa por princípio o aprimoramento social,
educacional e o bem-estar de seus sócios.
Conforme o exposto, é possível perceber que as cooperativas de trabalho se
desenvolveram exaltando o anseio dos trabalhadores por condições humanas de trabalho,
remuneração adequada e suficiente à sua subsistência. Em suma, almejam alcançar o bemestar para si e sua família.
A OCB argumenta que as cooperativas de trabalho são constituídas por pessoas
ligadas a uma determinada ocupação profissional com a finalidade de melhorar a remuneração
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e as condições de trabalho, de forma autônoma. Esse é um segmento extremamente
abrangente, pois os integrantes de qualquer profissão podem se organizar em cooperativas de
trabalho. Ainda, segundo a Organização as Cooperativas de Trabalho, estas podem ser
divididas três grupos, sendo eles: artesanal, cultura e diversos.
No Brasil desenvolveram-se, além dos ramos cooperativistas citados, muitos outros,
a ideologia seguida é em essência a mesma, respeitando sempre os princípios e as doutrinas
cooperativistas, o que as diferencia é a finalidade econômica através da atividade que é
desenvolvida.
3.1 Cooperativismo brasileiro em números
Dados divulgados pela OCB (tabela 1) retratam a realidade cooperativista brasileira
em dezembro de 2009. Segundo essa fonte, as cooperativas estão distribuídas em 13 ramos de
atividades, sendo eles: agropecuário, consumo, crédito, educacional, especial, habitacional,
infra-estrutura, mineral, produção, saúde, trabalho, turismo e transporte e lazer.
Analisando esses dados, nota-se que os setores com maior número de cooperativas
são o agropecuário, seguido do segmento do trabalho, crédito e transporte. Em relação ao
número de associados, destacam-se com quantidade bastante elevada as cooperativas de
crédito e consumo e quando ao número de empregados, o setor que mais emprega é o
agropecuário.
Tabela 1 - Ramos de atividade das cooperativas Dez./2009.
Ramo
Agropecuário
Consumo
Crédito
Educacional
Cooperativas
1.615
Associados
942.147
Empregados
138.829
128
2.304.830
9.702
1.100
3.497.735
42.802
304
55.838
3.716
Especial
15
469
9
Habitacional
253
108.695
1.406
Infraestrutura
154
715.800
6.045
Mineral
58
20.031
103
Produção
226
11.396
2.936
Saúde
871
225.980
55.709
Trabalho
1.408
260.891
4.243
Transporte
1.100
107.109
8.660
29
1.489
30
Turismo e Lazer
Total
7.261
8.252.410
Fonte: OCEs e OCB; elaboração: Gemerc/OCB.
274.190
É possível visualizar a expressiva participação do movimento cooperativista no
Brasil, país com aproximadamente 190 milhões de habitantes. Em torno de 4,5% de sua
população está inserida na ótica cooperativista, repercutindo e interferindo na ideologia
capitalista, através da ampliação dos aspectos solidários que embutem o contexto das
cooperativas.
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Essa grandeza também pode ser vislumbrada através da tabela 2 pela movimentação
econômico-financeira das cooperativas. Entre 2008 e 2009, o movimento registrado foi em
torno de 88,5 bilhões de reais, com redução de 0,26% na movimentação do último ano
resultante da crise que abalou o mundo nesse período.
Tabela 2 - Movimentação econômico-financeira das cooperativas.
Movimentação econômico-financeira das cooperativas
ANOS
Brasil
2006
2007
2008
2009
R$ BI
%
68,02
72,2
88,73
88,5
11,62
6,15
22,9
-0,26
Fonte: OCEs e OCB; elaboração: Gemerc/OCB
Confirmando essas informações, o cooperativismo brasileiro fechou 2009 mantendo
seu processo de amadurecimento, em curso há alguns anos. Comprova este comportamento o
aumento de associados (4,62%) e de empregos gerados (7,71%). No mesmo período, houve
redução no número de cooperativas (-5,48%). Os indicadores mostraram a dinâmica do
cooperativismo e sua visão em buscar alternativas e oportunidades num período pós-crise,
(OCB).
A grandeza das riquezas geradas reflete direta ou indiretamente no cotidiano dos
associados das cooperativas. O sucesso da cooperativa da qual fazem parte reflete no sucesso
de sua própria vida. Essa é a resposta do cooperativismo, um movimento que pode ser tido
como solidário frente ao capitalismo desenfreado no qual se encontra inserido o Brasil.
4. Conclusão
Ao finalizar este artigo, preponderantemente, observa-se que os vitimados pelo
sistema capitalista acabam por se revestirem da solidariedade, pois, por meio dela, torna-se
possível vencer as barreiras desse sistema e buscar a concretude de um empreendimento
econômico que necessita ser solidário para vencer. Tem-se, então, a busca pelo
cooperativismo.
A solidariedade é à base da cooperação, como Gaiger (2009) nos afirma. Para ele, a
solidariedade diz respeito à cooperação na atividade econômica, à disposição para uso em
comum dos meios de produção e à autogestão exercida na condução dos empreendimentos.
Por isso, o autor afirma que os empreendimentos em comum exigem pessoas solidárias;
indivíduos independentes, dispostos a estabelecer vínculos entre si baseados no apoio mútuo,
no sentido recíproco de união e de responsabilidade conjuntas. Por essas razões, a
solidariedade é considerada um objetivo civilizatório e um caminho para o alcance do bemestar social, no século XXI.
Ao serem revistos alguns momentos da trajetória do cooperativismo, verifica-se a
presença da solidariedade como gesto mais humanitário e essa característica é encontrada
graças a sua ética que, segundo Lisboa (2003), é a ética do amor, incluindo, no extremo, o
difícil amor aos inimigos. Apesar de, no passado, a solidariedade muitas vezes estar voltada à
proteção do trabalho assalariado, atualmente seu sentido é mais amplo, pois procura acolher a
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solidariedade filantrópica e democrática. Ou, parafraseando Laville (2009), no cooperativismo
está presente a solidariedade democrática que resulta de ações coletivas em que há igualdade
de direitos entre as pessoas que nela se engajam e nela se empenham em aprofundar a
democracia política mediante uma democracia econômica e social.
Pode-se afirmar, por fim, que, no sistema de cooperativa, onde existir solidariedade
existirá solidez e ela não será vazia, mas consistente por que baseada na aliança entre
cooperados. Aliança esta que os fazem atuar com eficiência e eficácia para resolver problemas
internos e vencer as pressões externas, juntos, numa ação solidária.
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da fadiga ao vigor dos oprimidos na sociedade capitalista