UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM AGROECOSSISTEMAS COOPERATIVA DE CRÉDITO RURAL: AGENTE DE DESENVOLVIMENTO LOCAL OU BANCO COMERCIAL DE PEQUENO PORTE ? FÁBIO LUIZ BÚRIGO FLORIANÓPOLIS - SC, SETEMBRO DE 1999 COOPERATIVA DE CRÉDITO RURAL: AGENTE DE DESENVOLVIMENTO LOCAL OU BANCO COMERCIAL DE PEQUENO PORTE ? Dissertação apresentada ao Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Agroecossistemas. AUTOR: Fábio Luiz Búrigo ORIENTADOR: Prof. Wilson Schmidt CO-ORIENTADOR: Prof. Ary Cesar Minella FLORIANÓPOLIS - SC, SETEMBRO DE 1999 iii UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM AGROECOSSISTEMAS Dissertação submetida por Fábio Luiz Búrigo ao Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do Grau de MESTRE EM AGROECOSSISTEMAS. Núcleo Temático: Gerenciamento da Unidade Familiar de Produção. Aprovada em: 03 / 09 / 1999. ___________________________ Prof. Wilson Schmidt Orientador _____________________________________ Prof.a . Marília T. Sangoi Padilha Coordenadora _________________________ Prof. Ary Cesar Minella Co-orientador BANCA EXAMINADORA: ________________________________ Prof. Paulo Emílio Lovato (Dr.) CCA/Ufsc _____________________________ Prof. Ary Cesar Minella (Dr.) CFH/Ufsc ________________________________ Sérgio Leite Guimarães Pinheiro (Dr.) Epagri _______________________________ Mônica Schröder (M.Sc) Unicamp iv À Magda e ao Gabriel dedico. v Agradecimentos Gostaria de agradecer, em primeiro lugar, aos amigos do Cepagro, que souberam compreender a importância do Mestrado, proporcionando condições para a realização do Curso; Desejo agradecer também aos meus familiares pela força e o apoio sempre recebido; Aos meus orientadores, Prof. Wilson Schmidt e Prof. Ary Cesar Minella, que além da amizade, revelaram uma grande capacidade de educar; Ao Vandré A. Búrigo pela revisão do texto e pelo empréstimo de seu lap-top; Ao Giovanni Daré pelo empréstimo de seu computador; Às famílias Lancelin, Cazella e especial, Marie France e Yves Arnaud pela calorosa acolhida durante minha permanência na França; Aos amigos da Rede Estrela que viabilizaram meu estágio na França; Às todas pessoas entrevistadas e entidades visitadas pela atenção dispensada às minhas interrogações; Aos professores e colegas do Curso pelos momentos de aprendizagem e de descontração compartilhados; Para realizar este trabalho recebi o apoio das seguintes entidades, a quem manifesto minha gratidão: Apaco, Centro Vianei, Cepagri, Crediseara, Credicontestado, Crediquilombo, Crediaraucária, Credicolônia, Trentocredi, Crediluz, Credicaru, Valcredi, Credicaçador e Credineve, Cresol, Sicoob/SC, Fetaesc, Ocesc, Gabinete do Deputado Federal Coroliano Sales, Pnfc, Idelis e Crédit Mutuel. vi Sumário 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 10 2 A COOPERAÇÃO COOPERATIVISTA...................................................................... 16 2.1 A cooperação ......................................................................................................... 16 2.2 As cooperativas - forma elaborada de cooperação .............................................. 19 2.3 O cooperativismo de crédito e a sua expansão ..................................................... 24 2.3.1 O cooperativismo de crédito no Brasil .............................................................. 28 2.4.1.1 A criação do Bancoob.................................................................................... 34 2.4 As diferentes correntes do cooperativismo de crédito rural em Santa Catarina 38 2.4.1 Das credis ligadas às coopers e ao Bancoob . .................................................... 38 2.4.2 Das credis “alternativas” à proposta do sistema Acreditar ................................. 40 2.4.2.1 A criação do Sistema Acreditar .......................................................................... 44 2.4.3 O sistema Cresol............................................................................................... 47 3 O CRÉDITO RURAL E AS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS ............................... 50 3.1 O crédito rural no Brasil: da criação do Sncr ao Pronaf..................................... 50 3.1.1 O Pronaf ........................................................................................................... 58 3.2 A globalização e o Sistema Financeiro Nacional (SFN) ....................................... 64 3.3 Os microfinanciamentos e o cooperativismo de crédito....................................... 69 4 O DESENVOLVIMENTO RURAL E AS COOPERATIVAS DE CRÉDITO ............ 79 4.1 Novas funções do espaço rural e da agricultura ......................................................... 79 4.2 Potenciais e limites da credi como agente de desenvolvimento local................... 83 4.2.1 O Bancoob e o desenvolvimento local .............................................................. 93 5 CONCLUSÕES............................................................................................................... 99 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 107 vii Lista de Quadros Quadro 1 - O cooperativismo no Brasil * e em Santa Catarina **. ................................. 23 Quadro 2 - Principais modelos cooperativos de crédito ................................................... 26 Quadro 3 - Dados sobre o cooperativismo de crédito, em alguns países (1999) .............. 27 Quadro 4 - Cooperativas de Crédito no Brasil - de 1940 a 1980. ..................................... 32 Quadro 5 - Cooperativas singulares de crédito no Brasil - 1999...................................... 34 Quadro 6 - Principais elementos da Resolução 2.608 (maio de 1999). ............................. 37 Quadro 7 - Cooperativas singulares de crédito de Santa Catarina.................................. 39 Quadro 8 - Principais diferenças entre as credis e os bancos comerciais * ..................... 32 Quadro 9 - Etapas da metodologia Cepagro de constituição de credis............................ 43 Quadro 10 - Cooperativas constituídas com o apoio do Cepagro e entidades parceiras. 44 Quadro 11 - Demonstrativos do Sistema Cresol *. ........................................................... 48 Quadro 12 - Composição do Sistema Financeiro Nacional (SFN).................................... 67 Quadro 13 - Projetos de Santa Catarina aprovados pelo Ceade...................................... 74 Quadro 14 - Principais dificuldades entre os tomadores de crédito e o setor financeiro 76 Quadro 15 - Objetivos do modelo de agricultura sustentável .......................................... 82 Quadro 16 - Estruturação do espaço dos sistemas de poupança e crédito rural ............. 85 Quadro 17 - Elementos de êxito das cooperativas de crédito. .......................................... 91 viii Resumo O cooperativismo de crédito não encontrou no Brasil a mesma expressão social e econômica obtida em outros países. Em nosso país, as cooperativas de crédito rural (credis) (re) nasceram no início dos anos 1980, primeiramente junto às cooperativas agropecuárias (coopers) em função da abertura política e das transformações ocorridas no crédito rural nesse período e, posteriormente, a partir da ação de movimentos ligados à agricultura familiar. Este trabalho discute o papel das credis dentro de processos de desenvolvimento rural, apoiando-se na análise das correntes de pensamento que atuam em torno destas organizações. Inicialmente, o trabalho apresenta uma breve retrospectiva histórica da cooperação cooperativista e, em especial, da trajetória das credis, no Brasil e em Santa Catarina. Observou-se que as credis integrantes da corrente “tradicional” vivem um processo de verticalização e centralização, desencadeado a partir da criação dos bancos cooperativos, em 1996. As credis “alternativas” e as do Sistema Cresol, criadas de forma autônoma das coopers, preocupam-se em valorizar a presença de agricultores familiares, ampliar a democratização do uso do crédito rural e fortalecer o desenvolvimento local. Para embasar a discussão sobre o papel das credis, o trabalho analisa, em seguida, a evolução do financiamento rural no Brasil e sua relação com o cooperativismo de crédito rural. Verificou-se também que, ao lado da globalização do sistema financeiro, ocorre uma ampliação de programas de microfinanciamento destinado às camadas mais carentes da população. No Brasil, os microfinanciamentos ainda não ganharam destaque no meio rural, tendo se desenvolvido, principalmente, nos conglomerados urbanos. Aponta depois, certos fatores que afetam a ação das credis nos processos de desenvolvimento rural, bem como descreve algumas vantagens e desvantagens da ligação das credis com os bancos cooperativos. De um modo geral, as credis podem se desenvolver em duas direções: se voltarem para atividades que as transformarão em “bancos de pequeno porte”, com interesses essencialmente comerciais, ou serem protagonistas de programas de desenvolvimento local. Conclui-se que esta última vocação somente poderá ser generalizada através do apoio de políticas públicas. . ix Abstract Cooperative credit did not reach in Brazil the same social and economical relevance that in other countries. In this country, rural credit cooperatives (credis), were created at the beginning of 1980s. At first, they were together with agricultural cooperatives (coopers), as a result of changes in the political and in rural credit rules in that period and, later, from the action based on small-farmer organizations. The aim of this work is to discuss the role of credis on rural development, analyzing the different perspectives relaxed to credis in those organizations. Firstly, this study presents a brief historic retrospective of agricultural cooperativism, especially the trajectory of credis in Brazil and in Santa Catarina. It was observed that the credis linked to the “traditional” viewpoints are in a process of verticalization and centralization unleashed by the creation cooperative banks in 1996. The “alternative” credis and Cresol, created with autonomy from the coopers, sought to support family agriculture, to spread democratization in the use of rural credit and to strengthen local development. In order to base the discussion about the credis, this work analyses its evolution with rural credit cooperativism. It could be seen that along with globalization of the financial system, there was a widening of micro- financing programs directed to the poorest sectors of society. In Brazil, the micro financing did not reach the rural areas, since it was developed originally in urban areas. Factors, which effect the action of credis on the process of rural development, are highlighted, as well as the advantages and disadvantages of linking credis with cooperative banks. In general, credis can develop in two directions: towards small banking and commercial interests, or towards a main role in local development programs. It is concluded that the second option can only be implemented with appropriate government policy support 10 1 Introdução Nos últimos quarenta anos, a agricultura de diversos países viveu um processo de modernização sem que isso representasse saltos significativos na qualidade de vida dos homens e das mulheres que viviam no campo. Ao contrário, em muitos casos o padrão modernizante, que orientava essas transformações no sentido de “industrializar” a agricultura, colaborou para aumentar ainda mais a concentração de recursos naturais, econômicos e financeiros. Por isso, existe um diagnóstico de que há uma crise desse setor, o que abre uma série de oportunidades para se pensar um novo padrão de desenvolvimento do meio rural. Se no padrão moderno a cooperação já desempenhou um papel de destaque, sua importância não diminui dentro de um novo contexto. Para discutir a importância da cooperação dentro deste novo cenário é fundamental conhecer as diferentes “estratégias” de auto-ajuda criadas entre os agricultores e, principalmente, a vertente mais “formal” de cooperação rural, que se traduziu na constituição das cooperativas. O sistema cooperativista moderno floresceu e ganhou expressão econômica no século XX, sobretudo a partir de seu “sucesso”, observado no meio rural de muitos países. Além de ser o porta-voz dos processos de modernização da agricultura da maioria dos países europeus, em especial na França, na Itália e na Alemanha, o cooperativismo expandiu-se a várias regiões do globo, ramificando-se em diversas modalidades e envolvendo pessoas de distintos níveis sociais e econômicos1. É importante ressaltar também que existem importantes estratégias de cooperação ligada à área financeira. Há experiências consideradas do setor informal - como a dos banqueiros ambulantes e das caixas populares africanas - e do setor semiformal - como as cooperativas de crédito e de poupança, existentes em vários países. Entretanto, em alguns casos, as experiências de cooperação financeira chegaram a assumir um caráter formal, adquirindo grande destaque econômico. Talvez o exemplo mais conhecido de cooperação financeira venha da França: o Crédit Agricole, um banco cooperativista, sustentado por 56 caixas regionais, que englobam cerca de 2.800 caixas locais (cooperativas de crédito). Juntas elas possuem mais de 8.200 agências de atendimento. Com ativos superiores a US$ 455 1 Nos Países Baixos, por exemplo, as cooperativas agropecuárias dominam grande parcela do mercado agroindustrial. Na França, as 3.800 cooperativas de produção agrícolas controlam mais da metade da produção do país (Nouyrit, 1998). 11 bilhões e o patrimônio liquido de US$ 26 bilhões, o banco ocupa os primeiros lugares dentro do “ranking” dos grupos financeiros da França (Nouyrit, 1998)2. Na atualidade, as cooperativas de crédito diversificaram seus serviços. Em alguns países, além de atender o meio rural e realizar pequenos empréstimos pessoais, elas financiam empreendimentos na área da saúde, de seguros, de habitação, inversões, imobilizações e investimentos (Souza, 1996). No Brasil, o segmento das cooperativas de crédito experimentou avanços e retrocessos ao longo da história. A tímida presença no território nacional deve-se, entre outros, ao fato de que as cooperativas de crédito ficaram praticamente proibidas de funcionar durante muitos anos. Somente na década de 1980 o cooperativismo de crédito rural encontrou novamente espaços para se estabelecer no Brasil3.. Ele (re)nasceu, especialmente, dentro das cooperativas agropecuárias (coopers) das regiões Sul e Sudeste do país, em função da abertura política e das transformações ocorridas no crédito rural nesse período. A discussão sobre a importância das cooperativas de crédito rural (credis) para o desenvolvimento da agricultura e do meio rural evoluiu e ganhou novos ingredientes durante este processo de renascimento. Se na década de 1980 o cooperativismo de crédito rural colocou-se apenas a serviço das coopers, no início dos anos 1990 ele passou a ser encarado também como um meio alternativo de organização do público da agricultura familiar4, 2 Esta pujança se traduz também na presença do Crédit Agricole em todo continente europeu e por agressiva política de aquisição de bancos em outros continentes, notadamente em países do Mercosul (Gazeta Mercantil, 19992). 3 A legislação brasileira atualmente autoriza o funcionamento de três modelos de cooperativas de crédito: as cooperativas de economia e crédito mútuo (urbanas), as cooperativas Luzzatti e as cooperativas de crédito rural (aqui denominada de credis). O presente trabalho dará especial atenção as credis, embora se reportará também aos demais modelo, em alguns momentos. 4 Embora com ressalvas feitas pelo autor quanto as dificuldades de precisar o termo, Lamarche (1993) assim explica o que é agricultura familiar: A exploração familiar, tal como a concebemos, corresponde a uma unidade de produção agrícola onde propriedade e trabalho estão intimamente ligados à família. A interdependência desses três fatores no funcionamento da exploração engendra necessariamente noções mais abstratas e complexas, tais como a transmissão do patrimônio e a reprodução da exploração. Outra definição mais simplificada é empregada em Abramovay et al. (1998) na qual a agricultura familiar é denominada como o setor da agricultura em que os gerentes ou administradores dos estabelecimentos rurais são também os próprios trabalhadores rurais. Contudo, a definição que ganhou força nos últimos anos é aquela defendida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais na Agricultura (Contag) que assim caracteriza a agricultura familiar: proprietários, arrendatários, parceiros, ocupantes, pescadores artesanais, extrativistas, agregados, pequenos garimpeiros e comodatários que tenham os seguintes requisitos: a) utilizam trabalho direto e pessoal da família, sem concurso do emprego permanente, utilizando apenas o trabalho eventual de terceiros; b) que não tenham, a qualquer título, área superior a quatro módulos fiscais; c) que, no mínimo, 80% da renda familiar seja originária da exploração agropecuária; d) que o produtor resida na propriedade ou em aglomerado rural ou urbano próprio próximo e, e) no caso de pequeno produtor cuja propriedade não atingir a um módulo fiscal, a exigência de renda da exploração será, no mínimo, de 40% (Soares & Sauer, 1998). O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), em vigor desde 1996, adotou os critérios da Contag, com exceção dos itens “a” e “e”. No caso do item “a” o governo considera agricultor familiar o 12 permitindo às comunidades ampliar e democratizar a utilização de recursos do crédito rural oficial. Posteriormente, as cooperativas de crédito rural começaram a ser vista por algumas correntes como entidades que podem assumir um relevante papel no desenvolvimento local, sobretudo de regiões em que há o predomínio de comunidades rurais. Em Santa Catarina, estas diferentes concepções sobre o papel do cooperativismo de crédito estão gerando, inclusive, a organização de novos sistemas - ou redes, aumentando a complexidade do setor e criando um vasto campo de pesquisa quanto ao potencial destas organizações. Neste contexto, o intuito deste trabalho é discutir as possibilidades e limites das cooperativas de crédito rural dentro de processos de desenvolvimento rural, baseado na trajetória recente do cooperativismo de crédito rural em Santa Catarina. Deste modo, para facilitar este estudo, as cooperativas de crédito rural (já em funcionamento ou processo de constituição) foram “enquadradas” em três “correntes” de pensamento sobre o tema, a saber: a) A primeira corrente é vinculada ao sistema “tradicional” de cooperativas de crédito rural, ligadas ao Sistema de Cooperativas de Crédito Integrantes do Bancoob (Sicoob/SC). Neste grupo está a grande maioria das cooperativas de crédito existentes no estado. Grande parte das filiadas deste sistema foram criadas durante a década de 1980 e ainda estão atreladas às coopers. Vale dizer que, inicialmente, as coopers fomentaram a criação das cooperativas de crédito rural com objetivo de estabelecer um “braço financeiro” às suas organizações. Se antes as credis eram vistas apenas como instrumento de fortalecimento às ações das cooperativas agropecuárias, atualmente este objetivo se amplia. O Sistema Sicoob/SC está envolvido, agora, na consolidação do Banco Cooperativo do Brasil S.A (Bancoob), um banco cooperativo que congrega diversas centrais de crédito mútuo e de crédito rural, de alguns estados da União. b) A segunda corrente advém de um programa de animação à constituição de cooperativas de crédito rural, criado no início dos anos 1990 e que está em andamento até o momento.. Este movimento, coordenado pelo Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro) atua com uma lógica diferente daquela que motivou a criação de cooperativas de crédito rurais “por dentro” das cooperativas agropecuárias. As cooperativas de crédito rural constituídas através desta iniciativa serão aqui chamadas de “alternativas”. Elas são criadas a partir de um processo de discussão e reflexão comunitária prévia à sua fundação, devem ser controladas pelos agricultores familiares e estar desvinculadas gerencial e politicamente das cooperativas de produção agropecuárias (Cazella et al., 1994). Desde o produtor que utiliza até dois empregados permanentes. 13 início, fruto de um “acordo de cavalheiros”, formulado entre os mentores deste Programa e a Central existente, as credis “alternativas” passaram a integrar o sistema “tradicional” após entrar em funcionamento. Mais recentemente, com a mudança de postura do Sicoob/SC, os atores desta experiência elaboraram novas estratégias de atuação do Programa, face às dificuldades para manter os princípios que orientavam os seus trabalhos via o acordo até então existente. Como não estão ainda constituídos num sistema de credis, serão levados em conta na presente pesquisa os argumentos e referências teóricas que orientam as novas estratégias desta corrente. c) A terceira corrente origina-se no estado do Paraná, onde foi constituído o Sistema de Cooperativas de Crédito Rural de Interação Solidária (Cresol). O Sistema Cresol nasceu em 1995 na regiões Sudoeste e Centro-Oeste daquele estado, fruto do trabalho de entidades de agricultores familiares, tais como organizações não governamentais (ongs), sindicatos de trabalhadores rurais, movimentos populares, pastorais, associações de pequenos agricultores, etc. (Couto, 1998). Nos últimos anos, a Cresol estabeleceu um plano de expansão, definindo uma ação de caráter regional que prevê sua presença em outros estados do Sul e do Centro Oeste do Brasil. Durante o ano de 1998, duas credis de Santa Catarina, recém criadas, ligaram-se a este Sistema. Em 1999, três que já estavam em funcionamento desligaram-se do Sicoob/SC e passaram a articular-se com a Cresol. Cabe frisar que a discussão em relação às referidas correntes será estabelecida a partir de parâmetros de análise diferentes entre si, face às dificuldades de se levantar e cotejar todos os indicadores necessários para se efetuar uma análise ampla do tipo “comparativo”. Pretende-se fazer aqui, portanto, uma reflexão de cunho mais geral, ressaltando características dos sistemas e das cooperativas que têm relevância para o tema do desenvolvimento local. Para apoiar esta reflexão serão feitas também referências a sistemas cooperativistas de outros países. A realização da pesquisa foi baseada nos seguintes recursos metodológicos: a) análise de documentação produzida pelas cooperativas, sistemas de cooperativas de crédito e entidades de apoio. As principais fontes foram os relatórios, as atas das reuniões das diretorias, os textos públicos e as informações das entidades que prestam algum tipo de assessoria às credis; b) análise de abordagens bibliográficas e de dados censitários disponíveis, sobre crédito, desenvolvimento, cooperativismo, e outros; c) entrevistas semidiretivas e depoimentos, coletados no Brasil e na França, com agricultores (associados e não associados das credis), dirigentes das credis, lideranças políticas, técnicos e estudiosos dos 14 temas em questão. Foram analisados as entrevistas e os depoimentos de um total de vinte e oito pessoas. Importante ressaltar que a presente investigação não pretende aprofundar estudos em torno dos resultados econômicos das cooperativas e nem dos seus sistemas de apoio. Embora mereça importância, em função das limitações e dos objetivos deste trabalho também não será analisado o desempenho gerencial das credis ou dos sistemas. Da mesma forma, não serão avaliados os impactos de natureza técnica e econômica resultantes do emprego de recursos de crédito junto às propriedades dos associados das credis5. As reflexões sobre as concepções que norteiam cada experiência são, portanto, de ordem “qualitativa”, o que não impede que se recorra a dados quantitativos, quando necessário. Para facilitar a investigação optou-se pela divisão do texto em temas e subtemas. Assim, cada tema compõe um capítulo do trabalho. O primeiro campo de reflexão refere-se à cooperação cooperativista. Após delinear alguns aspectos da cooperação e discutir a sua importância na agricultura, tratar-se-á brevemente da relação entre o cooperativismo e o Estado brasileiro, especialmente no que diz respeito ao seu papel no contexto das ações de “modernização” do campo. A seguir, procurar-se-á analisar a origem e a evolução do cooperativismo de crédito, levando-se em conta as diferenças políticas e doutrinárias contidas nos sistemas existentes em Santa Catarina. O segundo campo de análise refere-se à questão do crédito rural e as instituições financeiras. Num primeiro momento, resgatar-se-ão alguns estudos em torno do impacto do crédito rural na agricultura brasileira, bem como os programas criados pela política agrícola oficial recente. Uma vez que muitas credis efetuam empréstimos de verbas públicas, a análise da trajetória das políticas creditícias dirigidas ao setor rural é fundamental para que se possa compreender o processo de consolidação do cooperativismo de crédito no país. Essas considerações adquirem maior relevância no momento em que está em andamento um amplo programa governamental de apoio a agricultura familiar: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Este Programa, que será discutido a parte no referido capítulo, tem destinado recursos creditícios aos agricultores e estimulado as comunidades na elaboração e aplicação de Planos Municipais de Desenvolvimento Rural. Na segunda parte do capítulo serão discutidos aspectos relacionados ao papel do 5 As análises de impacto econômico no uso do crédito rural dentro de uma unidade de produção agrícola familiar apresentam dificuldades para serem processadas, devido as características de “fungibilidade” do crédito, isto é, como o crédito se “dilui” dentro das propriedades dos agricultores, torna-se complicado identificar com precisão 15 cooperativismo de crédito dentro do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Dentro do contexto econômico e social atual, o SFN é entendido como um espaço estratégico de poder em que, muitas vezes, manifestam-se diferentes conflitos de interesses. Será feita, ainda, uma breve análise do capitalismo financeiro dentro dos cenários internacional e nacional, para no final avaliar-se, também, as possíveis conexões existentes entre o cooperativismo de crédito e os programas de microfinanciamento, que estão em expansão no Brasil e em todas as partes do mundo. O terceiro campo de análise está ligado à temática do desenvolvimento rural e o cooperativismo de crédito. Ele serve como pano de fundo à maior parte das observações tratadas nas seções anteriores. Interessa discutir neste ponto os espaços que pode ocupar o cooperativismo de crédito dentro do debate sobre as novas funções da agricultura e do “novo mundo rural” (Graziano da Silva, 1997 e Brasil, 1998). A segunda parte do capítulo abordará os limites e os potenciais das credis como organizações financeiras locais dentro do contexto do desenvolvimento local. Isto é, procurarse-á avaliar quais fatores influenciam a atuação das credis junto ao público beneficiário e de que maneira elas podem reforçar as políticas públicas voltadas a valorizar o potencial de renda no meio rural e nos municípios (Abramovay, 1998). Neste tópico serão analisadas também as perspectivas dos bancos cooperativos em termos de desenvolvimento rural. Ao final, pretende-se levantar alguns elementos conclusivos que possam ajudar a responder a seguinte questão: face à realidade brasileira atual e às características dos sistemas cooperativos existentes em Santa Catarina, até que ponto pode-se considerar uma cooperativa de crédito rural uma instância local de desenvolvimento (Schröder, 1997)? Ou estaria ela se tornando mais uma instituição bancária com interesses essencialmente comerciais? quais os ganhos específicos trazido pelo seu uso em determinado período (Gentil & Nieuwkerk, 1998). 16 2 A cooperação cooperativista 2.1 A cooperação A “chama” da cooperação continua presente na sociedade contemporânea, muito embora o individualismo também tem sido lembrado como um dos ideais culturais de mais forte expressão nos últimos anos. A participação comunitária, ou ajuda mútua, pode ser observada desde a simples colaboração entre vizinhos de uma comunidade ou via manifestações coletivas que sustentam grandes empreendimentos portadores de objetivos econômicos e comerciais. A cooperação acompanhou o avanço das sociedades. Ela se cria, consolida-se, e se transforma em novas formas de colaboração - e também de conflitos - na mesma medida em que as relações entre os homens tornam-se econômica e socialmente mais complexas. As primeiras manifestações de cooperação entre os seres humanos ocorreram há milhares de anos atrás, com objetivo de facilitar a obtenção de alimentos (Childe, 1986). Desde o início da revolução neolítica e, por séculos, a agricultura foi o ramo produtivo mais desenvolvido da economia e na qual a cooperação mais se destacava. Verifica-se que, ao longo da História, a cooperação esteve presente em vários momentos: na Palestina, nos primeiros séculos da era cristã, os mercadores organizavam associações mútuas para o seguro do gado, o que pode ser considerada a forma embrionária de uma cooperativa; os primeiros cristãos articulavam-se em primitivas cooperativas de consumo; os agricultores da Idade Antiga criaram associações de drenagem, de irrigação, de corte e de beneficiamento de madeira, dentre outras; no período feudal tanto nas comunas, unidade econômica da Idade Média, que era explorada em comum pelos seus habitantes, como em quase todos os mosteiros religiosos criaram-se espécies de cooperativas, que viabilizavam a produção e o consumo de alimentos (Minas Gerais, 1994). Na França do século XII era comum a prática dos “fruitières”, em que agricultores das montanhas alpinas fabricavam coletivamente os queijos e os armazenavam na forma de “grandes rodas”, como técnica de conservação. Ao descer às suas vilas durante o inverno, o “fruto” do trabalho era dividido entre os membros do grupo (Nouyrit, 1998). Diferentes modalidades de cooperação também podiam ser observadas nas tribos africanas, nos sistemas econômicos desenvolvidos pelo povos da Polinésia, da China e em diversas culturas ameríndias. Durante o século XX observa-se o crescimento e a sofisticação das formas de 17 cooperação, principalmente através da constituição de cooperativas. Importante frisar, que não é objetivo deste estudo investigar o processo de expansão da cooperação, nem analisar as suas conquistas econômicas e financeiras. Vale dizer, todavia, que as formas associativas colaboraram decisivamente para que muitas nações reduzissem os custos globais da atividade agrícola, viabilizando economicamente as unidades produtivas, especialmente as de tipo familiar. Na França, as cooperativas de utilização de material agrícolas (cumas) são um bom exemplo dessa estratégia. Elas são constituídas e administradas pelos próprios agricultores, e são úteis no trabalho de corte de forragens, além de facilitar a gestão coletiva de equipamentos. Juntamente com os grupos de agricultores de produção em comum (gaec) e outras formas menos importantes, as cumas foram um dos instrumentos encontrados pelos franceses para que a modernização da sua agricultura associasse crescimento da produção com uma distribuição mais equilibrada da renda6. As cumas permitiram aos agricultores familiares dispor de avançadas tecnologias, evitando que essas se tornassem privilégio das grandes unidades de produção capitalizadas. É importante observar também que em certas regiões da França, marcadas pelo alto grau de sofisticação das tarefas agrícolas, ainda é possível perceber a continuidade de antigas formas de cooperação. Ainda está em uso entre os agricultores, por exemplo, um sistema de bancos de trabalho que colabora na troca de serviços7. Durante as últimas décadas nasceram, ou foram recriadas, algumas formas de 6 As cumas já somavam, em 1998, mais de 13 mil em toda a França. Fornecendo serviços de boa qualidade e facilitando a compra de insumos e de equipamentos (Fanfani & Pecci, 1991), os agricultores franceses puderam acessar, através delas, equipamentos ultra-eficientes em termos de produtividade (muitos deles detentores de tecnologias sofisticadas). Atualmente certas cumas já contratam assalariados para conduzir os equipamentos comuns, e outras têm sido importantes para viabilizar a instalação de jovens agricultores em zonas dinâmicas. Nestas regiões, a sucessão se caracteriza como um problema devido ao grande volume de investimentos necessários. Através da participação numa cuma, os jovens sentem uma segurança maior para se iniciarem na atividade (Retière, 1998). 7 O banco de trabalho (ou banco de horas) é uma re-invenção das cumas e de grupos informais de agricultores franceses que impressiona pela sua simplicidade e grau de eficácia. Este sistema funciona da seguinte forma: quando um agricultor associado necessita de ajuda em sua propriedade, ele procura apoio entre os membros integrantes de sua cuma. A colaboração solicitada pode ser tanto de mão de obra para executar determinada tarefa, quanto do empréstimo de certos equipamentos, quanto pelas duas formas conjuntas. As trocas de serviço são transformadas em número de horas, na qual uma hora de trabalho equivale a uma unidade (calculado em 1997 em 50 Francos). O mesmo vale para cada operação efetuada com as máquinas e equipamentos emprestados, já que cada tipo de atividade também é transformado em um valor equivalente em unidades de trabalho. Assim, por exemplo, uma hora de trator equivale a 1,75 unidades (sendo o combustível fornecido pelo proprietário). Periodicamente, a direção da cuma prepara uma tabela geral identificando o total de unidades a pagar ou receber de cada societário. Assim, os agricultores podem equilibrar suas “contas”, prestando ou recebendo horas de serviço aos demais, conforme sua posição na tabela. Esse mecanismo funciona essencialmente na base da confiança, no senso de justiça e na troca de informações (Retière, 1998). 18 cooperação entre os agricultores familiares brasileiros. Contudo, se no caso francês e de outros países desenvolvidos a cooperação foi, a um só tempo, vetor de modernização e um instrumento garantidor de uma maior distribuição de ganhos econômicos, no Brasil, ela nunca foi encarada da mesma forma pelo Estado. Aqui, as políticas governamentais de modernização da agricultura não se traduziram em incentivos à empreendimentos associativos de natureza econômica, que fortalecessem a base econômica da agricultura familiar. Essa opção (ou a falta de) estratégica do governo colaborou para a criação de vários movimentos associativos rurais de cunho essencialmente “reivindicatórios”.. Tais movimentos representavam, sobretudo, tentativas de organização de uma camada excluída dos benefícios econômicos e sociais advindos do processo de transformação conservadora da agricultura e do meio rural. Entre os anos 1970 e 1990, as iniciativas associativas reivindicatórias foram estimuladas, principalmente, por setores da Igreja Católica e por outras organizações da sociedade civil (ongs, sindicatos, agências de cooperação internacional etc.), e, em certos casos, pelo poder público local. Vários grupos surgidos no Sul do país neste período ganharam, posteriormente, expressão nacional, podendo-se destacar neste sentido, entre outros, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento de Mulheres Agricultoras (MMA), o Movimento dos Atingidos pelas Barragens, etc. Já durante os anos 1990, várias dessas iniciativas de agricultores incorporaram novas dimensões. Muitas delas formalizaram-se em novas entidades com caráter econômico fazendo surgir diversas associações, condomínios, grupos familiares, microempresas, pequenas cooperativas etc. Em vários casos, estas “unidades de cooperação” congregaram famílias interessadas em organizar indústrias rurais de pequeno porte, como uma alternativa de agregar valor à produção primária de seus estabelecimentos8. No final da década de 1990 surge um novo debate em torno da cooperação na agricultura9. Começa a ganhar força neste momento a noção de “capital social”10, como um 8 Para maiores detalhes deste processo ver, entre outros, Prezotto (1997). Em 1997, uma Federação de agricultores francesa (La Fédération des Geda d’Auvergne) publicou um texto destacando os valores do trabalho em grupo dentro da agricultura atual. O texto aponta cinco razões para que os agricultores levem em conjunto suas reflexões e os seus projetos: a) Força e segurança: devido à incerteza que representa a necessidade de evoluir para se adaptar e se preparar para o futuro, o grupo permite romper o isolamento, de viver uma solidariedade entre as pessoas, de dividir suas preocupações...; b) Adesão voluntária: o grupo é um espaço onde as pessoas aderem livremente com, como colorário, o reconhecimento mútuo de pessoas dentro de sua diversidade. O grupo cria um elo fundamental entre as pessoas. O grupo está centrado sobre o homem e, por conseqüência, à exploração agrícola; c) Intercâmbio e confrontação: o grupo é um lugar de trocas de competências profissionais e de “saber fazer”. Ao aderir ao grupo, o primeiro intercâmbio é de informações. Falar e intercambiar, é uma garantia mútua quando se trata de desenvolver um projeto. Os consensos do grupo trazem segurança e a solidariedade está sempre presente. d) Inovação e experimentação: o grupo está aberto a inovação. Ele faz a ligação entre a pesquisa e a prática. Ele experimenta a campo, para 9 19 novo propulsor de programas de desenvolvimento, na qual a cooperação aparece como elemento fundante. Este conceito emerge como um instrumento para a solução dos dilemas da ação coletiva (Abramovay, s/d1). Nesta ótica pode-se conseguir, por exemplo, ampliar o poder de barganha de agricultores familiares perante o sistema bancário. Através do “capital social” que se materializa, por exemplo, em cooperativas de crédito, de fundos de aval e de formas de caução solidária11, criam-se novas possibilidades de obtenção de crédito na sociedade, substituindo garantias reais - que os interessados nos recursos geralmente não possuem - por garantias não materiais (Abramovay, s/d1), demonstrando que capital patrimonial pode ser substituído por “organização”. Ao lado das novas formas de cooperação, mantém-se atuante, entretanto, a cooperação cooperativista. Neste modelo, os membros envolvidos cooperam a luz de certos valores, princípios12, normas e metodologias que caracterizam a entidade cooperativa (Bang, 1998). É sobre a evolução do cooperativismo “tradicional” e o surgimento do “novo” cooperativismo que se discutirá a seguir. 2.2 As cooperativas - forma elaborada de cooperação As cooperativas são a herança de um movimento secular de organização social e de cooperação, que ganham novas facetas no debate contemporâneo sobre o desenvolvimento. As cooperativas modernas originaram-se na Europa, no início do século XIX, através da mobilização dos trabalhadores e intelectuais daquela época13. Elas nasceram como alternativa verificar o interesse e a pertinência da inovação, com toda objetividade e neutralidade. e) Controle de sua “trajetória”: dentro do grupo, as pessoas controlam seu próprio progresso. O grupo constrói seu próprio programa. Ele parte das experiências que assimilou e adapta seu programa permanentemente para responder aos problemas práticos do dia a dia, como também às perspectivas de médio e de longo prazo (Deplaude, 1998). (tradução do autor). 10 A idéia de “capital social”, segundo Abramovay (s/d1) aparece quando se começa a colocar ênfase nas condições institucionais que podem levar uma sociedade, ou território, a atingir maior grau de desenvolvimento. 11 A caução solidária é o mecanismo em que os membros do grupo se responsabilizam pelos empréstimos individuais de cada um de seus integrantes (fiança coletiva). 12 Os princípios cooperativistas são os seguintes: adesão voluntária e livre; gestão democrática pelos membros; participação econômica dos membros; autonomia e independência; educação - formação e informação; intercooperação; e interesse pela comunidade(OCB, 1997) 13 Os grandes pensadores do cooperativismo em sua fase inicial foram: Robert Owen (1771-1858), considerado o pai da cooperação moderna; Francois Marie Charles Fourier (1772-1837), que criou os falanstérios, unidades de produção auto-suficientes e que visavam reformar toda a sociedade; Philipe B. Buchez (1796-1865), que defendia a criação de associações operárias e Hermann Schulze (1808-1883). Raiffeisen (1818-1888) e Luzzatti (1841-1927) são os precursores do cooperativismo de crédito. Outros divulgadores dos ideais do cooperativismo foram os Pioneiros de Rochdale (1843), criadores das cooperativas de consumo e dos princípios cooperativistas; William King (1786-1865), criador da primeira cooperativa de consumo e que inspirou os Pioneiros de Rochdale; Jonh Bellers (1654-1725), influenciador de Owen e Louis Blanc (1812-1882), que também era defensor das associações de operários (Pinho, 1984). 20 de organização social, face à dura realidade social e econômica que estava se fazendo sentir naquele continente. Sua base foi forjada nos diferentes processos de resistência criados pelos trabalhadores, em função do crescimento “selvagem” do sistema capitalista e para fazer frente à crescente exploração advinda com a expansão da Revolução Industrial. No final do século XIX, surgiram também os primeiros críticos da real capacidade transformadora do cooperativismo dentro da ordem social. Para dois importantes marxistas, Kautsky e Rosa de Luxemburgo, as cooperativas construíam estruturas que, inevitavelmente, seguiriam as leis do capitalismo. Por isto elas eram inadequadas à formação da sociedade socialista que eles almejavam. Mais tarde, já no início do século XX, apareceram novas correntes que procuravam estabelecer uma visão teórica e ideológica ao fenômeno cooperativista. Naquele momento, formaram-se duas correntes em torno cooperativismo: uma que procurou seguir desenvolvendo a chamada “doutrina cooperativista”, outra que passou a se preocupar com o impacto socioeconômico das cooperativas no seio da sociedade14. Ao longo do século XX, o cooperativismo alcançou os cinco continentes e passou a englobar diferentes atividades. Mesmo não fazendo parte dos objetivos deste trabalho a análise detalhada da inserção do cooperativismo no mundo atual, não se pode deixar de registrar alguns questionamentos sobre sua evolução durante as últimas décadas. Na prática há críticas que partem de dois planos opostos. De um lado estão os grupos que vêem as cooperativas como um espaço de desenvolvimento de empreendimentos comerciais dentro dos pressupostos da sociedade capitalista; por isso, estes grupos desejam alterar os princípios do estatuto cooperativista, permitindo uma ampliação da base econômica das empresas cooperativas. De outro lado, estão grupos que consideram que o mais importante é resgatar os verdadeiros valores do cooperativismo, que estão se “perdendo” dentro do mundo atual; estes acreditam no potencial transformador da cooperação cooperativista, sob o ponto de vista social; por isso eles lutam para que o cooperativismo não vire uma mera figura jurídica, destinada apenas à facilitar a acumulação capitalista15. 14 Surgiu, por exemplo, a Escola de Nimes, coordenada por Charles Gide (1847-1932) que pregava a criação da República Cooperativista; Georges Fouquet, que contestou Gide defendendo que o cooperativismo se aplicava apenas a determinado setor da economia; e Prof. Bernard Lavergne, que reafirmou a tese de Gide apregoando a uma nova ordem mundial sob bases cooperativistas. (Minas Gerais, 1994). 15 Um exemplo destas diferenças de entendimento quanto ao papel social das cooperativas expressou-se em 1995, durante o Congresso Internacional do Cooperativismo, ocorrido na cidade de Manchester. Neste Encontro foram debatidos a filosofia e os princípios cooperativistas. O princípio do controle democrático das cooperativas, baseado na idéia de “um sócio, um voto” foi bastante questionado por aqueles que desejavam aumentar o poder dos associados que detêm maior peso econômico dentro da sociedade cooperativista. Entretanto, apesar das 21 No Brasil, as cooperativas surgiram no final do século XIX, a partir de duas vertentes distintas. Uma das iniciativas ocorreu no Sudeste e no Nordeste do país estimulando a formação de cooperativas de consumo. O outro movimento surgiu no Rio Grande do Sul, inicialmente via a constituição de cooperativas de crédito e em seguida via as cooperativas de produção [agropecuária] (Minas Gerais, 1994). O movimento sulista, coordenado por religiosos, foi responsável pela criação de dezenas de cooperativas de crédito e de produção agrícola nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Mas foi somente no decorrer da década de 1930 que o movimento cooperativista ganhou certa força no Brasil. Estimativas de Aguirre (1987) indicam que no fim da República Velha existiam apenas 175 cooperativas no Brasil, distribuídas, em sua maioria, entre cooperativas de crédito e de produção agropecuária, muito embora os decretos oficiais já classificassem 16 tipos de cooperativas (Fleury 1983). Através de medidas de fortalecimento do Estado no cenário econômico (Junqueira, 1975), o cooperativismo começou a expandir-se no Estado Novo. Ele cresceu regulado por leis e regulamentos que refletiam diretamente três tendências existentes na época: Por um lado [as leis criadas pelo Estado Novo para regulamentar as cooperativas], se inserem na preocupação de transformação da sociedade ao se voltar especificamente para o amparo e fortalecimento da agricultura. Em segundo, reflete o espírito corporativista que prevaleceu durante o período que vai de 1930 a 1945. E, em terceiro, ainda não incorpora o caráter autoritário do Estado, pois este estava em fase de consolidação (Aguirre, 1987). As análises de Fleury apontam que neste período consolidou-se no Brasil, uma dupla fonte de estímulo à expansão do cooperativismo. Algumas surgiram por necessidade e iniciativa dos produtores, enquanto que outras foram criadas em resposta aos incentivos estatais (Fleury, 1983). Estas últimas tiveram vida curta, pois nasciam sem representar uma demanda real dos produtores. Isto fez com que entre os anos 1940 e 1960 as cooperativas de crédito, e especialmente as de consumo, estivessem relativamente implantadas nas cidades brasileiras. Elas contavam, inclusive, com mais associados do que as cooperativas agrícolas, apesar da maioria da pressões por mudanças, as principais diretrizes oriundas dos pioneiros de Rochdale do século XIX foram preservadas, assumindo apenas novas redações. A linha baseada na idéia de “um por todos e todos por um” ficou mantida na doutrina cooperativista, junto com outros valores como o apego aos ideais de justiça, de ajuda mútua, de igualdade, de equidade e de solidariedade. Ficaram resguardados, assim, os atributos éticos de liberdade, de honestidade, de responsabilidade social e de cuidado recíproco (Sales, 1998). Como se vê, a doutrina cooperativista permanece fiel aos seus pioneiros, muito embora a sua experiência prática possa mostrar o 22 população ainda se concentrar no meio rural. Esta realidade se inverteu nos anos seguintes: as cooperativas de crédito e de consumo - que eram majoritariamente de origem urbana - entraram em declínio. As cooperativas de consumo passaram a sofrer a concorrência dos grandes supermercados e, como se verá mais adiante, uma série de medidas jurídicas começaram a inibir o segmento das cooperativas de crédito16. Ao longo dos anos 1960 e 1970 foram as cooperativas agropecuárias que receberam os maiores estímulos para se consolidar. Este processo ocorreu via apoio governamental, já que as coopers foram passaram a ser encaradas como peças importantes dentro das estratégias da modernização da agricultura brasileira, em voga no período. O processo de expansão do cooperativismo agropecuário ocorreu, portanto, com forte apoio do Estado, que atuou como agente político, jurídico e financeiro (Benetti, 1982 e Ferreira, 1989). Com o interesse de se fortalecer um sistema cooperativista ligado ao Estado e vinculado hegemonicamente ao setor rural, foi criada em 1969 a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), unificando as centrais cooperativistas até então existentes. Quase ao mesmo tempo foi formulada uma nova Lei do Cooperativismo (Lei 5.764), promulgada em 1971. Esta Lei atendeu às aspirações de setores do cooperativismo agropecuário, principalmente em relação aos aspectos comerciais, pois seus preceitos estavam em consonância com o processo de modernização empresarial da agricultura em curso no país (Pinho & Pinho, 1980). Este processo criou fortes transformações no segmento das coopers. Segundo Panzutti (1997), as cooperativas agropecuárias brasileiras passaram por mudanças nos últimos anos, mas quase sempre seguindo uma lógica de adaptação ao padrão dominante da agricultura brasileira. Embora não tenha ocorrido homogeneamente em todas as regiões, observou-se uma estreita ligação entre as cooperativas agrícolas e as políticas do Estado de apoiar a criação de complexos agro-industriais. Foi deste modo que muitas cooperativas se agigantaram no país e transformaram-se de empresas comerciais em empresas agroindustriais. Para Cazella & Turnes (1993) as cooperativas agropecuárias seguiram um padrão de desenvolvimento rural que foi incapaz de beneficiar as unidades de produção familiar, pois este modelo pressupunha contrário. 16 As cooperativas de consumo não se recuperaram nem após o fim da ditadura militar. Se em 1960 havia cerca de 2.400 cooperativas de consumo, atualmente restam apenas 239 (ver Quadro 1). As restrições, que inibiram o funcionamento das cooperativas de crédito durante os anos 1960 e 1970, serão discutidas no item 2.3 deste trabalho. 23 a adoção de um nível de tecnologia incompatível com as condições da maioria deste público. Esta lógica de subordinação das cooperativas às políticas e às benesses do Estado (ou às dos seus governantes) não sofreu modificações significativas nem mesmo no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, quando entrou em cena a ótica neoliberal, como orientadora da política econômica do país. Muitas delas continuaram a gestionar subsídios oficiais, já que não estavam conseguindo adaptar-se às novas regras da economia. Este esforço resultou, inclusive, na criação, em 1997, de um programa especial de reestruturação e recapitalização das cooperativas agropecuárias, que passou a ser conhecido pelo nome de Recoop17. Atualmente, as cooperativas agropecuárias são o segmento cooperativo mais expressivo do país, embora outras modalidades ganhando expressão nos últimos anos (ver Quadro 1). Quadro 1 - O cooperativismo no Brasil * e em Santa Catarina ** (1999) Número de Cooperativas Número de Associados Segmentos Brasil Santa Catarina Brasil Santa Catarina Agropecuário 1.408 46 1,028 milhão 53,1 mil 1.128 ***** 50 825 mil 62,1 mil Trabalho 1334 88 227 mil 15,1 mil Saúde 585 36 288 mil 5,7 mil Consumo 239 12 1,4 milhão 46,7 mil Serviços 207 29 479 mil 131,5 mil Habitacional 202 6 46 mil 2,8 mil Educacional 193 16 65 mil 9,7 mil Produção *** 91 0 4,3 mil - Especial **** 4 0 1,9 mil - Mineral 15 2 4 mil 0,4 mil 2870 285 4,368 milhões 327, 5 mil Crédito Total (*) Os dados são aproximados, pois existem cooperativas que não estão filiadas as organizações nacionais e estaduais existentes (**). Os dados são aproximados, pois indicam apenas as cooperativas filiadas à centrais e algumasdas cooperativas “independentes”. (***) Atuam principalmente no setor metal - mecânico e de confecções. (**** ) Formada por índios ou pessoas com alguma deficiência física ou mental. (*****) Dado do Banco Central (19.05.1999). Filiadas a OCB existiam, em 31.12.98, cerca de 890 cooperativas de crédito. Fontes: Detec/OCB (31.12.1998), Banco Central (1999) e Ocesc (08.10.1997). Cabe frisar que a modalidade cooperativista que mais cresce no Brasil é a de trabalho. Diante dos altos níveis de desemprego que o país enfrenta, este tipo de cooperativa está sendo utilizada como alternativa encontrada pelos trabalhadores em sua luta por garantir postos de 17 O Programa prevê a liberação de empréstimos subsidiados para sanar as dificuldades financeiras das grandes cooperativas e ampliar a competitividade de seus produtos agroindustriais. 24 trabalho, constituindo-se em importantes agentes em processos de privatização, terceirização e resgate de empresas em estágio pré - falimentar (Brasil, 1999). Contudo, verifica-se que a maior parte destas cooperativas é, na prática, um mecanismo imposto aos trabalhadores por setores empresariais, como forma disfarçada de fugir das obrigações trabalhistas do emprego tradicional (Gazeta Mercantil, 19995). Em Santa Catarina as coopers foram as primeiras a se estabelecer18. Posteriormente, elas tornaram-se o segmento cooperativista mais importante do estado. Apesar da considerável posição alcançada em Santa Catarina, cabe registrar a queda observada nos últimos anos no número de organizações e de cooperados ligados a este segmento. Segundo dados da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc), somente entre 1997 e 1998, o segmento perdeu oito cooperativas e sete mil associados. Acompanhando um fenômeno nacional, as cooperativas de trabalho ocupam atualmente o primeiro lugar do ranking catarinense quanto ao número de entidades. No quesito número de associados, este lugar cabe às cooperativas de serviços (ver Quadro 1). Contudo, apesar da expansão registrada nas últimas décadas em alguns segmentos, os dados atuais indicam que a presença do cooperativismo em Santa Catarina é relativamente pequena, atingindo apenas 10% da população aproximadamente. 2.3 O cooperativismo de crédito e a sua expansão De acordo com Matcon (1990), a idéia das primeiras cooperativas de crédito surgiu na Alemanha a partir do ano 1846, como resultado do fracasso das colheitas e da subsequente carência de alimentos. Um funcionário do governo, Hermann Schulze, da cidade de Delitzch, organizou um moinho e uma padaria na forma de cooperativa. Com o tempo ele se convenceu da necessidade das cooperativas de crédito, estabelecendo a primeira em 1850. No modelo concebido em Delitzch, os sócios tinham que pagar uma cota de ingresso e provar que poderiam comprar, ao menos, uma cota a prazo. Eles depositavam poupanças como capital de trabalho (dinheiro para operar a cooperativa) sobre as quais se pagavam dividendos. Quando necessitavam de mais fundos, pediam empréstimos, que eram concedidos a baixo custo e através do princípio de responsabilidade ilimitada19.. As cooperativas de poupança e crédito de Schulze-Delitzsch logo se tornaram populares. Em 1859, nove anos 18 Imigrantes e descendentes italianos fundaram a primeira Cooperativa Agrícola do estado, em 1908, na vila Rio Maior, no município de Urussanga (OCB, 1997). 19 Isto quer dizer que cada membro é igualmente responsável pelas obrigações totais da cooperativa. 25 depois que se abriu a primeira cooperativa, já existiam cento e oitenta e três “bancos do povo” (como passaram a ser conhecidas), com 18.000 sócios. Na mesma época, um prefeito na província de Rin (Alemanha), Friedrich Wilhelm Raiffeisen, preocupado com a população campesina mais pobre, formou uma “cooperativa de pão” para vender farinha a baixo preço. Nos anos seguintes ele organizou várias empresas para conceder crédito aos agricultores, que pudessem levá-los a escapar dos agiotas da região. Estas iniciativas não foram, entretanto, cooperativas verdadeiras, porque eram organizadas com o apoio de capital dos ricos empresários da zona. Estes tipos de instituições de caridade não sobreviveram por falta de solidariedade entre os sócios e os beneficiários. Raiffeisen estudou então a estrutura econômica do modelo Schulze-Delitzsch e formou uma cooperativa de crédito similar em 1864, inserindo muitos dos princípios presentes nas cooperativas de crédito modernas. Segundo Sales (1998), Raiffeisen, preocupado com a participação dos mais necessitados e daqueles que não tinham o hábito da poupança, recomendou não se criar cotas de entrada muito elevadas. Esta proposta era diferente do que pensava Schulze-Delitzsch, que pregava a constituição de um capital próprio da cooperativa o mais alto possível. Portanto, as primeiras cooperativas de crédito Raiffeisen não tinham capital social considerável. Elas obtiveram a maior parte de seus fundos emprestando mediante à responsabilidade ilimitada (coletiva) de seus sócios. Raiffeisen enfatizava o trabalho voluntário em todas suas cooperativas (Matcon, 1994). Todos os sócios participavam na assembléia geral com um voto cada um e elegiam o comitê para aprovar os empréstimos e manejar os negócios cotidianos. Como foi assinalado anteriormente, apesar de sua aparente preocupação social, já naquela época alguns estudiosos marxistas, como Kautsky, teciam críticas ao papel das cooperativas, enquanto ferramenta de transformação social. Segundo Fleury (1983) Kautsky já constatava que as Caixas de crédito Raiffeisen só podiam servir a uma pequena parte dos camponeses. Para a autora, Kautsky argumentava que as cooperativas, além de se constituir num poderoso instrumento de avanço da industrialização da agricultura, não impediam que os mais necessitados caíssem nas mãos do usurário. Não obstante as opiniões discordantes, no final do século XIX o cooperativismo se expandiu rapidamente em vários países da Europa, muitas vezes com o apoio de sindicatos dos trabalhadores. Em 1888, já existiam 425 cooperativas de crédito do tipo Raiffeisen na Alemanha. Ele foi o primeiro a desenhar e implementar organizações regionais e nacionais para servir às cooperativas de crédito (Matcon, 1994). O italiano Luigi Luzzatti organizou seu primeiro banco cooperativo em 1865, que se 26 diferenciava de outros modelos porque funcionava sob o princípio de responsabilidade limitada dos sócios. Em 1909 havia 735 cooperativas como estas na Itália. Outra iniciativa na Itália, coordenada por Leon Wollemborg (1859-1932), estabeleceu várias pequenas cooperativas de crédito (40-60 associados) em Loreggia, em 1883 (Matcon, 1994). Estas cooperativas preocupavam-se, sobretudo, pelo aspecto financeiro da empresa, embora admitissem algumas premissas do modelo raiffeiseano. Já Wilhelm Haas incentivou a expansão econômica das cooperativas, representando uma transição entre os tipos Raiffeisen e Schulze-Delitzsch. O Quadro 2 resume as principais características dos diferentes modelos de cooperativas de crédito. Quadro 2 - Principais modelos cooperativos de crédito Características SchulzeRaiffeisen Luzzatti Predominantes Delitzsch Atividades econômicas dos Classe média Agricultura Diversas cooperados urbana Base ajuda mútua Sim Sim Sim Auxílio: Estatal / Supletivo* empresarial Retorno Sim Sim Responsabilidade Ilimitada Ilimitada Limitada Área de ação Ampla Restrita Restrita Inspiração Ética, Ética, Cristã, Cristã, Econômica Econômica Econômica * Recebe apoio complementar Fonte: Pinho (1984), adaptado pelo autor. Haas Wollemborg Desjardins Agricultura Agricultura Agricultura Sim Supletivo Sim Supletivo Sim - Sim Limitada Restrita Limitada Restrita Econômica Econômica Limitada Restrita Ética, Cristã, Econômica A idéia das cooperativas de crédito foi levada à Quebec, Canadá, por um repórter parlamentar chamado Alphonse Desjardins. Em dezembro de 1901 estabeleceu “La Caisse Populaire de Levis” (A Caixa Popular de Levis), baseada nos modelos europeus. O mesmo Desjardins organizaria a primeira cooperativa de crédito nos Estados Unidos em 1909. Durante o século XX, o cooperativismo de crédito viveu duas fases distintas. Até 1950, as duas Guerras Mundiais dificultaram sua expansão em vários países. Após 1950 e, principalmente, depois dos anos 1960 o movimento observa grande evolução (Souza, 1996). Em 1970, foi criado o Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito (World Council of Credit Unions (Woccu) . Em 1995, o Woccu representava as confederações da África, Ásia, América Latina (inclusive o Brasil) e Caribe, Áustria, Canadá e Estados Unidos e ligas independentes de Fidji, Grã Bretanha, Irlanda e Nova Zelândia. Aglutinava cerca de 37.000 cooperativas de crédito oriundas de oitenta e sete países e somando mais de noventa milhões de cooperados em todo mundo. 27 Em alguns países, o cooperativismo de crédito alcançou enorme prestígio, a ponto de ocupar um papel de destaque dentro do sistema financeiro e, em outros, ele tornou-se até mesmo o principal agente bancário da nação. Entre os vinte maiores bancos do mundo da atualidade existem três que foram constituídos a partir das cooperativas de crédito: na França o “Crédit Agricole”, na Alemanha o “DG Bank” e na Holanda o “Rabobank” (Bancoob, 1999). O Quadro 3 dá uma visão parcial sobre a posição atual do cooperativismo de crédito em alguns países. Quadro 3 - Dados sobre o cooperativismo de crédito, em alguns países (1999) Item / País Alemanha França Holanda* Itália Canadá EUA Japão Portugal Patrimônio** 800 bi 600 bi 220 bi Nd 75 bi 370 bi 800 bi 7 bi Empréstimos 350 bi 350 bi 110 bi Nd Nd Nd Nd Nd Associados 15 mi 14 mi Nd Nd 10,5 mi Nd Nd Nd Clientes 25 mi 22 mi Nd 97 mi Nd 75 mi Nd Nd Agências 51 mil 13.800 1.800 Nd 4.150 11.800 Nd 500 postos Responde por 28 % do mercado financeiro país Nd Nd Nd Nd R e S-D. R L DeR Nd Importância econômica*** Inspiração **** Atende Responde Movimenta 90% da por 14% 7% dos população dos recursos ; rural recursos e atende 35% 70% das da pop. ; agências gera 50 mil do país empregos R R D * Somente os dados do Rabobank ** Valores em dólares *** Dados aproximados **** Baseados nos modelos Raiffeisen (R), Schulze - Delitzch (S-D), Desjardins (D) e Luzzatti (L). Nd - Dado não disponível Fonte: Sales (1998) e Gabinete do Deputado Federal Coroliano Sales (PDT - BA), adaptado pelo autor. Em muitos países pobres da África e da Ásia, o cooperativismo de crédito foi empregado por programas sociais, como um instrumento voltado ao desenvolvimento rural. Na maioria das vezes na origem destas experiências, estavam os agentes externos ou as igrejas, que buscavam criar alternativas frente às necessidades insatisfeitas dos agricultores (Gentil & Fournier, s/d). No Brasil, o cooperativismo de crédito, que também se originou de iniciativas de agentes religiosos da Europa, tem assumido novas feições nos anos recentes. É o que se verá no tópico seguinte. 28 2.3.1 O cooperativismo de crédito no Brasil O cooperativismo de crédito rural chegou no Brasil no início do século XX. O processo mais importante e significativo ocorreu através do trabalho de religiosos de origem européia, que atuavam no Sul do país (Franco, 1989). Em 1902 nasceu a primeira cooperativa de crédito rural do Brasil: a Caixa Rural de Nova Petrópolis20 foi constituída no Rio Grande do Sul por inspiração do jesuíta suíço Theodor Amstadt (Souza, 1996). Entre 1923 e 1938 foram fundadas mais de 55 cooperativas de crédito nesse estado, todas seguindo o modelo Raiffeisen (Minas Gerais, 1994). Este movimento cresceu na época a ponto de criar, em Porto Alegre, a Cooperativa Central das Caixas Populares, um órgão de segundo grau21 de apoio às cooperativas existentes. Em 1908 surgiu a primeira Caixa Rural Raiffeisen no estado do Rio de Janeiro. Em Santa Catarina o cooperativismo de crédito nasceu em 1932, com a fundação da Cooperativa de Crédito Rural de Itapiranga Ltda., no município de mesmo nome. Após Itapiranga, foram criadas diversas cooperativas de crédito em cidades catarinenses, com a orientação de agentes do clero. Nas primeiras décadas do século foram constituídas várias cooperativas de crédito no Sul e Sudeste do País. Este processo refletiu-se na legislação estabelecida pelo governo para controlar o setor. O primeiro ordenamento jurídico, normatizando o funcionamento das cooperativas de crédito, foi realizado em 1907 (Lei n. 1.637). Em 1926, a promulgação do Decreto n.17.399 demonstra que as cooperativas de crédito tipo Caixas Rurais Raiffeisen e Bancos Luzzatti já possuíam uma importância na sociedade que não podia ser desconsiderada (Aguirre, 1987). Em 1932, o Decreto-Lei 22.239 deu um novo quadro legal ao funcionamento das cooperativas de crédito e das seções de crédito. Este Decreto demonstrava o interesse do Estado Novo em expandir o cooperativismo de crédito no Brasil, embora sem lhe proporcionar autonomia total. Este impulso fez com que as cooperativas de crédito ficassem relativamente bem conhecidas dos brasileiros durante os anos 1940 e 1950. Em 1943 foi criada a Caixa de Crédito Cooperativo, destinada incentivar o fomento do cooperativismo no país. Acompanhando a política governamental da época, esta iniciativa não significava, contudo, o interesse oficial em estimular a autonomia do cooperativismo em 20 Esta cooperativa está em atividade até os dias atuais. O termo segundo grau refere-se as cooperativas centrais ou outros órgãos que exercem a função de congregar as cooperativas singulares (de primeiro grau). 21 29 relação ao Estado. Segundo Bulgarelli (1974) a fundação da Caixa de Crédito Cooperativo visava ...criar um órgão cooperativista governamental de financiamento e fomento, em vez de propriamente situá-la como órgão de cúpula do sistema de crédito cooperativo. Cabe destacar, porém, que foram as cooperativas de tipo Luzzatti (e não as Raiffeisen) que obtiveram mais receptividade com o decorrer do tempo, principalmente na região Sul/Sudeste (Pinho, 1984), talvez por também exigir um pequeno capital inicial no momento de admissão do cooperado e aceitar a filiação de um público diversificado: assalariados artesãos, pequenos empresários, comerciantes, etc. (Bang, 1998). Em 1951, a Caixa de Crédito Cooperativo foi transformada no Banco Nacional de Crédito Cooperativo (Bncc). O Bncc teve a participação da União em 60% em seu capital inicial sendo os 40% restantes subscritos pelas sociedades cooperativistas (Panzutti, 1977). Todavia, o Bncc jamais tornou-se um banco comercial. Ele atuou somente no apoio às cooperativas agropecuárias, devido as limitações estatutárias e pelas restrições impostas pela legislação bancária. No final do anos 1950, a maioria das cooperativas de crédito estavam localizadas no Sudeste/Sul, embora elas começassem ganhar certa expressão no Nordeste do país (ver Quadro 4). Até aquele momento, as cooperativas de crédito chegaram a organizar-se em Federações ou Centrais, denominadas de Bancos Centrais Populares e Bancos Centrais Agrícolas, sem, no entanto, atingir uma integração de nível nacional (Souza, 1996). Em 1961, aparece no Brasil um terceiro modelo de cooperativas de crédito, que veio se somar aos modelos tipo Raiffeisen e Luzzatti. São as “cooperativas de economia e de crédito mútuo”, inspiradas no modelo Desjardins (ver Quadro 2). Este tipo de cooperativa vinha ganhando muito destaque nos EUA e no Canadá desde o início do século. As primeiras cooperativas de crédito mútuo foram organizadas nas regiões Sudeste e Nordeste, sendo montada ao mesmo tempo uma entidade de segundo grau, com o objetivo de controlar o novo sistema (Souza, 1996). Mas o governo federal começou a implantar medidas restritivas à expansão do cooperativismo de crédito no país, mesmo antes do golpe militar de 1964. Em 1962, através do Decreto n. 1.503, o governo suspendeu a concessão de autorizações para novas cooperativas de crédito ou cooperativas com seção de crédito (Oliveira, 1996), quebrando assim uma orientação de estímulo ao setor, que vinha sendo praticada desde de 193222. 22 Seria interessante investigar mais profundamente esta questão, o que foge dos limites deste trabalho. Um ponto 30 Após o Golpe de Estado, o governo estabeleceu novas regras limitando o funcionamento das cooperativas de crédito rural. Em 1964, a Lei da Reforma Bancária (Lei n. 4.595), abriu novamente a possibilidade de se criar cooperativas que o Decreto n. 1.503 havia proibido, mas estabeleceu uma série de exigências burocráticas para autorizar o seu funcionamento, que tornou o processo quase impossível. A Emenda Constitucional n.18/65 e a nova Lei Tributária (n. 5.892/66) também prejudicavam as cooperativas. Ressalte-se que o governo militar também modificou o Bncc, via o Decreto-Lei n.60 (1966). Este Decreto transformou o Bncc em uma “Sociedade Anônima”, mas manteve a tutela do Estado sobre a sua gestão. Em 1967, foi editado o Decreto-Lei n. 60.597 que, na prática, visava à destruição das cooperativas de crédito [pois] proibia as operações com terceiros, impedindo assim o recebimento de depósito destes (Souza, 1996).. A partir daí, muitas cooperativas de crédito foram fechadas, sob a alegação que eram entidades sem “viabilidade financeira e administrativa”. Deve-se ressaltar que ao mesmo tempo em que criava duras exigências à continuidade das cooperativas de crédito, o governo era complacente com os bancos privados, que podiam se adaptar às exigências do novo sistema sem sofrer grandes traumas (Souza, 1996). A decisão de impor restrições operacionais às cooperativas de crédito ocorreu, provavelmente por três razões: a) para o governo, as cooperativas de crédito não mostravam sinais de capacidade administrativa, ou seja, elas não estavam preparadas para participar do novo sistema financeiro do país, que estava em fase de (re) estruturação; b) o governo também não estava interessado em fortalecer, e nem mesmo permitir, o funcionamento de iniciativas associativas que pudessem representar um núcleo de oposição ao regime autoritário em vigor; e, c) o governo cedeu à pressão dos bancos comerciais, pois estes não estavam interessados na consolidação de instituições que poderiam aumentar a concorrência dentro do setor financeiro do país. Diante das dificuldades para continuar operando, a Central das Caixas Rurais de Porto Alegre e mais da metade das cooperativas do tipo raiffeiseanas foram extintas no Sul do país. De um total de sessenta e duas cooperativas deste tipo restaram apenas duas em 1980 (Pinho, 1984)23.. Em Santa Catarina, a única cooperativa que conseguiu se manter em funcionamento entre os anos 1960 e o início da década de 1980, foi justamente a Creditapiranga (a mais que precisa ser compreendido melhor se refere aos mecanismos de pressão empregados pelos bancos comerciais, que levaram o governo a adotar esta posição. 23 Souza (1996) afirma, entretanto, que apesar da novas regras do governo militar terem limitado o funcionamento das cooperativas de crédito, no início dos anos 1980 haviam ainda cerca de 15 caixas do tipo 31 antiga cooperativa de crédito do estado)24. As cooperativas do tipo Luzzatti também foram duramente atingidas neste período, o que significou a liquidação da maioria das organizações existentes e a proibição à constituição de novas (impedimento este que perdura até os dias atuais). Foi principalmente através de uma vertente do cooperativismo de crédito urbano que o sistema permaneceu vivo no Brasil durante os anos da ditadura, já que as novas cooperativas Luzzatti estavam impedidas de atuar e as cooperativas de crédito rural enfrentavam sérios problemas políticos e administrativos para se adaptar às novas regras. Como forma de driblar as dificuldades, as cooperativas de crédito mútuo resolveram seguir um modelo existente nos EUA e no Canadá.. Por este modelo, as cooperativas, embora seguindo os princípios de Desjardins, podiam atender exclusivamente os trabalhadores urbanos ligados às grandes empresas. Com esta alternativa, o movimento cooperativista obteve certo espaço para funcionar25. Nesta época, muitas cooperativas de crédito mútuo foram abertas, ao mesmo tempo em que outras foram fechadas, sendo a maioria por falta de condições para suportar as exigências legais ou então por falta de profissionalismo de seus dirigentes. Com certo apoio de entidades cooperativistas dos EUA e do Canadá chegou-se a criar, inclusive, uma federação regional das cooperativas (Feleme), que mais tarde foi dividida em quatro federações estaduais. Em 1975, a Feleme contava com 203 filiadas. Segundo Souza (1996), este movimento de organização das cooperativas de crédito mútuo no Brasil ganhou destaque internacional devido a combatividade de seus idealizadores perante as dificuldades legais aplicadas pelas autoridades. A investigação sobre a história do cooperativismo no Brasil demonstra informações divergentes quanto ao número de cooperativas de crédito existentes. Segundo Bang (1998), o modelo Luzzatti ganhou tanta expressão no País que foram criadas cerca de 1.200 cooperativas deste tipo entre os anos 1930 e 1950. Já Souza (1996) afirma que o Brasil chegou a possuir mais de 1.500 bancos cooperativos Luzzatti, de ação urbana, sem nunca ter conseguido estruturar uma entidade de segundo grau (que articulasse os bancos individuais). Raiffeisen no sul do Brasil. 24 Este fato é assim narrado por um técnico que trabalha no setor de crédito rural no estado de Santa Catarina: (...) com a nova sistemática criada pelo governo da época, quase todas as cooperativas de crédito foram fechadas pelo Banco Central (...) . Houve uma parada total no sistema. Apenas a de Itapiranga não foi liquidada, segundo dizem, por que os técnicos do governo não conseguiram chegar à cidade, devido à precariedade das estradas (entrevista de técnico de empresa pública de assistência técnica). 25 O movimento liderado no final dos anos 1950 pela assistente social Maria Thereza Rosália T. Mendes, recém egressa do Canadá, contou desde o início com ajuda da Igreja Católica, especialmente através do Arcebispo D. Hélder Câmara, que via nas cooperativas mútuas uma forma de ajudar o trabalhador (Souza, 1996). 32 A autora afirma também que no final da década de 1980 existiam apenas 19 desses bancos, número que se reduziu ainda mais até o final dos anos 1990. Pinho (1984), por sua vez, confirma as oscilações existentes ao longo das décadas, mas apresenta dados mais modestos quanto ao número de cooperativas de crédito no Brasil (ver Quadro 4): Quadro 4 - Cooperativas de crédito no Brasil - de 1940 a 1980. Regiões Sudeste/Sul Nordeste Norte/Centro Oeste Brasil Fonte : Pinho (1984) 1940 135 102 2 239 1950 176 139 5 320 1960 269 217 8 494 1970 330 40 7 377 1980 359 62 9 430 O cooperativismo de crédito vai voltar a se expandir somente no final dos anos 1970, quando o seu segmento rural passa a recuperar sua força. Em 1981, surge a Cooperativa Central de Crédito Rural do Rio Grande do Sul (Cocecrer/RS), depois de muitos anos de oposição do Banco Central. Esta Cooperativa Central foi criada, com apoio das coopers, para se tornar uma espécie de agente financeiro acoplado. Seu objetivo era dinamizar o cooperativismo de crédito, como alternativa diante da redução do crédito rural oficial e das dificuldades causadas pela intermediação abusiva dos bancos comerciais (Pinho, 1984). Durante os anos 1980, seguindo o exemplo do Rio Grande do Sul, as cooperativas agropecuárias do Paraná, de Santa Catarina e de outros estados constituíram suas cooperativas de crédito rural (credis) e as respectivas centrais estaduais. Nesta época, em função das restrições legais e de sua pequena escala, as cooperativas de crédito rural dependiam de acordos com os bancos, para efetuar operações vitais para o seu funcionamento como, por exemplo, a compensação de cheques. Percebeu-se, com efeito, que as credis podiam oferecer, com vantagens, serviços financeiros antes apenas atribuídos aos bancos tais como: contas de depósito à vista e à prazo, empréstimos pessoais e coletivos, cobranças, informações financeiras e agrícolas, seguros, pagamentos de faturas (luz, água, telefone, impostos, etc.). Podiam funcionar também como agentes de programas oficiais de crédito. Uma comparação resumida entre as cooperativas de crédito rural e os bancos comerciais está descrita no Quadro 5: Quadro 5 - Principais diferenças entre as credis e os bancos comerciais * 33 Item Renda Agrícola Direção Programas de Crédito Crédito Rural Credi Retém e aplica no meio rural do município ( por lei, 60% dos depósitos) Pelos próprios agricultores Pode participar dos programas do governo Banco Comercial Transfere grande parte dos recursos para o meio urbano industrial. Pelos donos do Banco ou pelo governo Também participa de programas oficiais Financia de acordo com as necessidades e Preferência por poucos e grandes projetos capacidade dos agricultores Juros Abaixo da taxa de mercado (no caso de De mercado recursos próprios) Lucros (sobras) Podem ser repartidos entre os sócios ou Vão para os donos reinvestidos Custo Operacional Menor Maior Serviços Presta quase todos tipos de serviços Cobra taxas de mercado, em geral mais financeiros, de forma gratuita, ou por elevadas do que das Credis pequena taxa Atendimento Pessoal e igual para todos os associados Impessoal e de acordo com a reciprocidade * Não entram nesta análise os bancos cooperativos, recém criados. Fonte: (Búrigo, 19982). Sob o ponto de vista jurídico, o cooperativismo de crédito operou ao longo dos anos 1980 sob normas pontuais, já que as antigas regras estavam desatualizadas. O governo, embora já aceitasse a criação das credis, não estabeleceu um novo ordenamento jurídico para o setor, cuja indefinição acarretou uma série de problemas, tanto na conduta contábil quanto no seu gerenciamento. Em 1992, com a Resolução n.1.914, o Banco Central resolveu criar um novo regulamento para normatizar o funcionamento das cooperativas de crédito. Esta Resolução estabeleceu novas regras e consolidou alguns procedimentos operacionais que já vinham sendo praticados. Ao longo dos anos 1990 observou-se um novo ciclo de expansão do cooperativismo de crédito no país. Embora este processo também tenha ocorrido no meio rural, o maior crescimento do número de cooperativas e de associados verificou-se nos centros urbanos. Tornaram-se bem conhecidas, por exemplo, as cooperativas de crédito mútuo ligado às profissões liberais, notadamente a de médicos e a de dentistas (Unicredi e Odontocredi), ou ainda, a Cooperativa de Crédito Mútuo dos funcionários do Banco do Brasil (Crediforte), que, aliás, é uma das maiores do país. Além dessas, receberam aprovação oficial as cooperativas de crédito mútuo compostas por micro-empresários. Normalmente, estas cooperativas nascem com o objetivo de ampliar as possibilidades de obtenção de crédito às empresas dos associados e são organizadas com o suporte legal de uma associação empresarial municipal. 34 Este novo ciclo fez com que as cooperativas de crédito mútuo vêm se configurando como o mais importante setor da modalidade. Atualmente, elas já somam 63% do total de cooperativas de crédito existente no país, havendo uma tendência de ampliação deste percentual nos próximos anos, devido a distribuição populacional e a situação da economia favoráveis à circulação monetária nos circuitos urbanos (ver Quadro 6). Quadro 6 - Cooperativas singulares de crédito no Brasil - 1999. Modalidade Luzzatti Rural Mútuo Total Fonte: Banco Central (19.05.99) Em funcionamento 13 377 711 1101 Paralisadas 2 35 24 61 Canceladas 2 111 0 113 A grande maioria das cooperativas de crédito singulares do Brasil está filiada a uma das 27 cooperativas centrais existentes. Em alguns estados, as cooperativas mútuas unem-se às cooperativas de crédito rural, formando um só sistema; já em outras regiões cada modalidade possui sua própria central. Este processo de integração entre o segmento mútuo e o rural ampliou-se após a criação dos bancos cooperativos. Durante muitos anos, o governo brasileiro não se mostrou sensível às solicitações das maiores cooperativas, no sentido de permitir a criação de bancos cooperativos. Segundo algumas lideranças do setor, o Banco Central ainda mantinha uma imagem equivocada da capacidade gerencial das cooperativas. Na lógica governamental, formada desde a época da reforma bancária de 1965, o cooperativismo de crédito deveria ser (re)erguido sob novas bases, de forma a elevar a sua credibilidade social e a sua competência administrativa. Era preciso evitar a repetição dos problemas de insolvência, que levaram à liquidação de muitas cooperativas de crédito na década de 1960. Além disso, uma fase de “crescimento equilibrado” do sistema seria fundamental como instrumento de aprendizagem para a constituição de instituições financeiras mais complexas, como são os bancos (depoimento de técnico do sistema cooperativista “tradicional”). 2.4.1.1 A criação do Bancoob Em 1995, através da Resolução n. 2.193, o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central autorizam a organização de bancos cooperativos no Brasil. Diferentemente do Bncc que era controlado pelo governo, os novos bancos cooperativos devem ser privados e com fins comerciais (sociedades anônimas fechadas), mas integrados apenas por cooperativas de crédito, pois eles têm como acionistas, exclusivamente, as cooperativas de crédito.[Além 35 disso] sua atuação é restrita às unidades da federação onde estão situadas as sedes das cooperativas controladoras (Bancoob, 1999). Com a autorização do CMN, os sistemas estaduais de cooperativas de crédito começaram a se articular, com o objetivo de constituir os bancos cooperativos. Fruto desta ação conjunta, no mesmo ano, já estava em funcionamento o Banco Cooperativo Sicredi S.A.(Bansicredi), com sede no Rio Grande do Sul. Ele conta com a participação de cooperativas de crédito daquele estado, do Paraná, do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. E, em 1997 foi constituído o Banco Cooperativo do Brasil S.A.(Bancoob), envolvendo os sistemas dos estados de São Paulo, Goiás, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Distrito Federal, Pará, Paraíba e Minas Gerais (Gazeta Mercantil, 19993). O estatuto do Bancoob prevê que as cooperativas centrais são detentoras das ações ordinárias e as cooperativas singulares, das preferenciais. Segundo seus próprios administradores, o Bancoob trará uma série de vantagens pois: os produtos e serviços que o banco oferece chegam aos associados/clientes através das cooperativas singulares; por outro lado, as cooperativas de crédito têm acesso ao Mercado Interfinanceiro e a novos produtos e serviços através do Bancoob.(...). além de permitir o acesso das cooperativas de crédito a programas de repasses de recursos governamentais, a futuros parceiros internacionais e prestar, aos seus associados, a gama de serviços bancários de que eles necessitam (Bancoob, 1999). Em março de 1999 já existiam 706 cooperativas de crédito acionistas do Bancoob, reunindo 648 mil associados em todo o país (Santa Catarina, 1999). O seu rápido crescimento dentro do mercado financeiro brasileiro já o coloca como um dos principais nomes entre os chamados “pequenos bancos”.. Sua rentabilidade em 1998 foi de 17%, apresentando um resultado de 110 milhões de reais de 1998 (Gazeta Mercantil, 19993). A criação dos bancos cooperativos abre uma nova página para o cooperativismo de crédito no Brasil, na medida em que se tornam novos atores nos debates e nas definições legais referentes ao setor. Em fevereiro de 1999, um Grupo de Trabalho (GT) foi criado com o objetivo de propor alterações na Resolução n.1.914. O GT foi formado por técnicos do Banco Central, OCB, Associação Nacional das Cooperativas de Crédito (Ancoob), Bansicredi, Bancoob, Unicredi e Frente do Cooperativismo (Frencoop), sem contar, no entanto, com nenhum representante das cooperativas “alternativas” de Santa Catarina ou da Cresol do Paraná. As principais sugestões do GT foram as seguintes: 36 a) Revogar a Norma que proíbe a constituição de cooperativas do tipo Luzzatti. Segundo o GT, esta idéia transformou-se depois na proposta de criação de “cooperativas regionais”. Para funcionar as “cooperativas regionais” deveriam deter um patrimônio superior a quatro milhões de reais e possuir mais de dois anos de existência. Este tipo de cooperativa seria aberto a toda a população de uma determinada região; b) Permitir aos bancos cooperativos o acesso direto aos recursos de fundos institucionais e os de origem externa, para atender a cadeia do "agrobusiness"; c) Permitir aos bancos cooperativos captar recursos sob a modalidade de caderneta de poupança rural; Contudo, no início de maio de 1999, dirigentes do Bancoob afirmaram que tais sugestões, apesar de tecnicamente aprovados pelos funcionários do Banco Central, dificilmente seriam efetivadas, pois a direção da referida instituição se colocava contra o que poderia representar as propostas em termos de descontrole do sistema cooperativista. As restrições residiam, principalmente, em relação à permissão para o funcionamento de cooperativas de crédito abertas a toda a população (cooperativas Luzzatti ou cooperativas regionais). Recorde-se que o Banco Central sempre se manifestava seu receio quanto a volta de cooperativas de crédito sem viabilidade econômica ou sem capacidade gerencial. Embora o governo não manifestasse publicamente o interesse de modificar a legislação cooperativista, no dia 27.05.99 o Conselho Monetário Nacional aprovou a Resolução n. 2.608, criando uma nova regulamentação para a constituição e funcionamento das cooperativas de crédito no país. A referida Resolução, além de revogar várias normas anteriores (como a Resolução n. 1.914) estabelece mudanças importantes no setor (ver Quadro 7). 37 Quadro 7 - Principais elementos da Resolução 2.608 (maio de 1999). Reafirma a autorização de funcionamento apenas às cooperativas de crédito mútuo e rural, e proíbe a criação e continuidade das cooperativas tipo Luzzatti. Estabelece um prazo de dois anos para as Luzzatti existentes modificar seus estatutos e se adequar às regras vigentes; Amplia as possibilidades de associação nas cooperativas de crédito mútuo que podem envolver, além de empregados de entidades públicas e privado, pessoas jurídicas que desenvolvam atividades idênticas, ou estritamente correlacionadas (é o caso das cooperativas de crédito de micro empresários); Restringe a possibilidade de filiação de pessoas (jurídicas) sem fins lucrativos e que não exerçam atividades rurais nas cooperativas de crédito rural, mas abre a possibilidade de associação de aposentados e parentes diretos de sócios falecidos; Extingue os limites de atuação (abrangência geográfica) da cooperativa; Outorga poderes de auditoria e fiscalização e amplia a responsabilidade das centrais em relação as cooperativas singulares; Estabelece capital realizado e patrimônio líquido ajustado (PLA) mínimo de R$ 50.000,00 para a constituição de novas cooperativas. Dá prazo de dois anos para que todas as cooperativas existentes elevem este patamar à R$ 100.000,00. No caso de cooperativas singulares vinculadas a uma central estes valores têm redução de 30 % e o prazo ampliado para três anos. Estabelece que o capital realizado e o PLA das centrais deverão ser, no mínimo, oito vezes os valores básicos estipulados acima, respeitando os mesmos prazos fixados; Permite as cooperativas de crédito captar recursos de instituições estrangeiras; Limita as operações passivas e ativas apenas aos associados; Exige que se informe aos depositantes que a cooperativa não participa do FCG – Fundo Garantidor de Depósito; Autoriza as cooperativas realizar prestação de serviços para outras instituições financeiras (seguros, captações especiais, etc.); Reduz a capacidade de endividamento passivo das cooperativas de crédito para cinco vezes o valor de seu PLA*. Limita a diversificação de risco para 5% do PLA, estabelecendo um acréscimo de 100% neste valor para as centrais e as singulares a elas associadas; Exige a realização de auditoria anual nas cooperativas não filiadas à centrais. Esta auditoria deve ser efetuada por auditores registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). * Anteriormente este limite era de quinze vezes para as operações normais e vinte vezes no caso de repasses do crédito do Pronaf. Fonte : Banco Central (1999), adaptação do autor. Como pode se observar, a Resolução n. 2.608 prejudica as cooperativas de crédito que não desejam ou não tenham condições de se filiar à uma central, já que a não filiação, em tese, pode ocorrer por várias razões, como o isolamento geográfico da nova cooperativa, a existência de divergências doutrinárias ou qualquer outro impedimento. As novas regras induzem também a verticalização, pois exige vínculos maiores entre os diferentes níveis do sistema. As medidas aprovadas na Resolução 2.608 dão uma amostra do jogo de interesses que vem se estabelecendo dentro do aparelho de governo. Merece destaque, neste sentido, a demonstração de força dos órgãos de representação dos setores cooperativos. Esta força ficou clara, em especial, nos itens da nova Lei que limitam a constituição e o funcionamento das cooperativas “independentes” das centrais de crédito. Em Santa Catarina, as novas regras vem causando efeitos diferenciados nas credis, em razão das características particulares que o cooperativismo de crédito assumiu no estado. Uma 38 análise das diferentes correntes existentes neste segmento cooperativista será o tema tratado a seguir. 2.4 As diferentes correntes do cooperativismo de crédito rural em Santa Catarina 2.4.1 Das credis ligadas às coopers e ao Bancoob . Como se viu anteriormente, o processo de (re)criação de cooperativas de crédito rural (credis) em Santa Catarina foi desencadeado na década de 1980, a partir da iniciativa das lideranças das coopers mais importantes do estado. Fruto deste processo, até 1990 foram criadas dezoito credis no estado, a maioria delas pelas coopers das regiões Oeste e Extremo Oeste. Em 1986 foi criada a Central das Cooperativas de Crédito de Santa Catarina (Cocecrer), nos moldes da sua similar gaúcha. Por razões estratégicas gerenciais, desde o início do seu funcionamento até 1997, a Cocecrer estabeleceu um acordo com o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) como forma de viabilizar seu vínculo com o sistema financeiro. Nos outros estados, o convênio era, geralmente, firmado com o Banco do Brasil. As credis “tradicionais” acompanham as mesmas estratégias das coopers. Ou seja, selecionam o público beneficiado (normalmente, os agricultores mais capitalizados da comunidade), e a forma de gestão (são conduzidas, geralmente, por técnicos). Até 1999, além de englobar a grande maioria das cooperativas de crédito de Santa Catarina, o Sicoob/SC dobrou o número de filiadas (ver o Quadro 8). 39 Quadro 8 - Cooperativas singulares de crédito de Santa Catarina. Cooperativa Município Sede Sistema 1. Sicoob-SC Braço do Norte Braço do Norte Sicoob 2. Sicoob-SC Campos Novos Campos Novos Sicoob 3. Sicoob-SC Credialfa Chapecó Sicoob 4. Sicoob-SC Crediarco Palmitos Sicoob 5. Sicoob-SC Crediauc Concórdia Sicoob 6. Sicoob-SC Credicaçador Caçador Sicoob 7. Sicoob-SC Credicanoas Abdon Batista Sicoob 8. Sicoob-SC Credicanoinhas Canoinhas Sicoob 9. Sicoob-SC Credicaslo São Lorenço Sicoob 10. Sicoob-SC Credicontestado Curitibanos Sicoob 11. Sicoob-SC Credicravil Rio do Sul Sicoob 12. Sicoob-SC Crediger Timbó Sicoob 13. Sicoob-SC Credija Jacinto Machado Sicoob 14. Sicoob-SC Credilucia Descanso Sicoob 15. Sicoob-SC Credimoc Xanxerê Sicoob 16. Sicoob-SC Credinorte Mafra Sicoob 17. Sicoob-SC Credisãomiguel São Miguel do Oeste Sicoob 18. Sicoob-SC Credisulca Turvo Sicoob 19. Sicoob-SC Creditapiranga Itapiranga Sicoob 20. Sicoob-SC Credivil Videira Sicoob 21. Sicoob-SC Credtec Florianópolis Sicoob 22. Sicoob-SC Cunha Porã Cunha Porã Sicoob 23. Sicoob-SC Joaçaba Joaçaba Sicoob 24. Sicoob-SC Papanduva Papanduva Sicoob 25. Sicoob-SC Pinhalzinho Pinhalzinho Sicoob 26. Sicoob-SC São José do Cerrito São José do Cerrito Sicoob 27. Sicoob-SC Trentocredi Nova Trento Sicoob 28. Sicoob Coopercred Joinville Sicoob 29. Sicoob Crediaraucária Urubici Sicoob 30. Sicoob Credifiesc Florianópolis Sicoob 31. Sicoob Crediserra Urupema Sicoob 32. Sicoob Crediunião Rio Rufino Sicoob 33. Sicoob Valcredi Passos Maia Sicoob 34. Unicred Blumenau Blumenau Unicredi 35. Unicred Lages Lages Unicredi 36. Unicred São Miguel do Oeste São Miguel do Oeste Unicredi 37. Unicred Chapecó Chapecó Unicredi 38. Unicred Joinville Joinville Unicredi 39. Unicred Litoral Balneário Camboriú Unicredi 40. Unicred Criciúma Criciúma Unicredi 41. Unicred Planalto Norte São Bento do Sul Unicredi 42. Unicred Florianópolis Florianópolis Unicredi 43. Unicred Tubarão Tubarão Unicredi 44. Cresol Dionísio Cerqueira Dionísio Cerqueira Cresol 45. Crediluz Aberlado Luz Cresol 46. Crediseara Seara Cresol 47. Crediquilombo Quilombo Cresol 48. Credineve São Joaquim Cresol Fonte: Cazella (1996), Ocesc, Unicredicentral e Sicoob/SC, adaptado pelo autor. Rural / Mútuo Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Rural Mútuo Rural Rural Rural Rural Rural Rural Mútuo Rural Mútuo Rural Rural Rural Mútuo Mútuo Mútuo Mútuo Mútuo Mútuo Mútuo Mútuo Mútuo Mútuo Rural Rural Rural Rural Rural Ao longo do ano de 1998, o Sistema Sicoob/SC contratou R$ 55,4 milhões em operações de crédito, dos quais cerca de R$ 43 milhões eram de crédito rural. Conta 40 atualmente com um capital social de R$ 12,9 milhões, somando um patrimônio líquido de R$ 16,4 milhões e depósitos a prazo de R$ 33,5 milhões. Seus ativos atingem R$ 106 milhões e mantém um volume de depósitos a vista de R$ 8,9 milhões. Seu resultado no final de 1998 foi de R$ 514 mil (Santa Catarina, 1999). Depois que o Sicoob/SC passou a integrar o Bancoob, em 1997, entrou em cena um novo modelo de gestão da organização. Estas transformações fizeram o Sicoob mudar, por exemplo, sua estratégia de crescimento. Aumentam, por um lado, as perspectivas para as cooperativas de crédito mútuo26, que passam a ser estimuladas pelo Sistema, através de parceria com a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) e com outros órgãos que atuam no meio urbano27. Revertem, por outro, a antiga política de acolhimento de pequenas cooperativas de crédito rural. Agora, apenas aquelas credis com alto potencial econômico estão sendo estimuladas e aceitas pelo Sistema. Comunidades com menor poderio de renda são desaconselhadas a criar sua própria entidade. Em função dessa mudança de postura da Central, até mesmo cooperativas já constituídas perante o Banco Central não chegaram a funcionar, como foi o caso de uma credi criada no município de Anita Garibaldi. As cooperativas menores, já em funcionamento, também começam a ser pressionadas para se fundir com outras de maior porte, sob o argumento que isso é necessário dentro da atual conjuntura econômica, como forma de reduzir os custos das credis e dar viabilidade ao Sistema. Ao mesmo tempo em que as novas orientações do Sistema eram repassadas às credis associadas, cresceram as divergências internas, principalmente quanto aos rumos adotados pela organização. Este quadro fez com que, em janeiro de 1999, três credis solicitassem desligamento da Central28 e levasse ao surgimento, em março de 1999, de um inédito movimento de oposição durante as eleições dos seus Conselhos Administrativo e Fiscal. Na oportunidade a chapa de oposição foi derrotada por apenas dois votos, dentro de um universo de vinte oito cooperativas votantes. 2.4.2 Das credis “alternativas” à proposta do sistema Acreditar 26 Cabe lembrar que há outra central de cooperativas de crédito mútuo em Santa Catarina, ligada ao sistema Unimed (ver Quadro 8). Apesar de tentativas de aproximação e da existência de algumas cooperativas de médicos que se incorporaram ao Sicoob, não houve uma fusão dos dois sistemas. 27 Estas aproximações já resultaram na criação de duas cooperativas de crédito, uma em Joinville (Coopercred) e outra em Florianópolis (Credifiesc) 28 As credis que solicitaram seu afastamento foram a Crediseara, a Crediquilombo e a Crediluz 41 Como se viu nos tópicos anteriores, as cooperativas agropecuárias tornaram-se, em certos casos, grandes empresas agro-industriais. Este processo acabou impondo níveis tecnológicos não compatíveis com a realidade da maioria das unidades familiares de produção agrícola, além de levar a uma seleção dos tomadores de crédito, já que este estava disponível somente aos que adotassem o padrão tecnológico recomendado. Recorde-se que, naquele mesmo período, entidades de representação de agricultores familiares, como sindicatos de trabalhadores rurais, associações de pequenos agricultores e outras organizações de apoio às organizações populares rurais, formulavam comentários negativos quanto à gestão e às diretrizes que orientavam as organizações cooperativistas existentes. Estas críticas consideravam as cooperativas como entidades “conservadoras”, tanto por apresentarem modelos de gerenciamento julgados centralizadores - por restringir a participação e o controle democrático dos associados na administração da sociedade - quanto por reproduzirem e recomendarem práticas agronômicas que vinham sendo questionadas por aquelas organizações. Além do mais, o gigantismo de algumas cooperativas, resultante da estratégia de fusão e incorporação das pequenas pelas cada vez maiores, também contribuiu para este distanciamento. Como podem ser observados em muitas regiões, estes fatos acabaram colaborando para que parcelas significativas dos agricultores familiares abandonassem o sistema cooperativista, gerando descrédito em torno do potencial social dessas organizações (Búrigo, 19973). Assim, como as credis existentes estavam atreladas às cooperativas de produção agropecuárias, a exclusão do associado destas últimas acarretava a sua eliminação dos quadros da primeira. Este vínculo das credis às coopers, além de trazer impedimentos à expansão do sistema de cooperativismo de crédito, ... em alguns casos, [se] constituiu em impedimentos ao princípio do livre associativismo. Ou seja, muitas credis só associam os agricultores membros das cooperativas de produtores rurais. Esta exigência é ilegal, pois fere a lei cooperativa e, sobretudo, a Constituição. Além da questão legal, este vínculo, quando extremado, leva ao sombreamento de diretorias e dificulta a ocorrência de competição nos preços dos insumos agropecuários. As credis que repassam o maior volume de recursos do custeio agrícola às cooperativas de produtores e limitam essa modalidade de crédito ao agricultor individualmente forçam a aquisição dos insumos naqueles estabelecimentos e, com isso, impedem a salutar concorrência de preços (Cazella & Búrigo, 1996). No início dos anos 1990, surgiram em Santa Catarina novas reflexões sobre a 42 importância de criação de cooperativas de crédito diferente do modelo tradicional. Este movimento resultou na criação, em 1992, de um programa de estímulo à constituição de cooperativas de crédito rural “alternativas”, junto ao Cepagro29. Segundo Schröder (19971) a fundação dessas credis representou um movimento diferente daquele observado da década de 1980, pois demonstrou a tentativa de estabelecer um processo mais democrático de acesso aos recursos oficiais para os agricultores familiares. Pela proposta do referido programa, as novas credis deveriam funcionar de maneira desvinculada das cooperativas agropecuárias existentes. A experiência também procurava valorizar a gestão social da entidade, que devia se dar através de um processo mais participativo e mais democrático. A orientação política deste programa baseava-se também no esforço em resgatar os princípios universais do cooperativismo, freqüentemente desrespeitados em diversas cooperativas (Cazella, 1996). No início, este programa contou com a participação do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina (CCA/Ufsc), da Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (Apaco), da Associação Estadual dos Condomínios de Suinocultores (Aecos), do Centro Vianei de Educação Popular (Vianei) e do Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores Rurais (Cepagri). A primeira cooperativa foi implantada na região Oeste do estado, que apresentava condições favoráveis para a implantação da proposta. Como frisa Cazella (1996): ...a região do município de Quilombo, situado no oeste do estado [foi] considerada ideal para os propósitos do Programa: predomínio da agricultura familiar, forte organização sindical, existência de grupos de cooperação agrícola assessoradas pela Apaco e Aecos, Movimento das Mulheres Agricultoras e participação do poder público local. A partir da experiência positiva da Crediquilombo o Programa ganhou impulso, consolidando uma série de procedimentos para a criação de uma credi (Cazella & Búrigo, 1996). Estes procedimentos acabaram se revelando como em um conjunto de procedimentos metodológicos inovadores para a constituição de credis. Este processo pode ser resumido em treze passos (ver Quadro 9): 29 Sediado junto ao Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina (CCA/Ufsc), o Cepagro é uma ong criada em 1990 por organizações de pequenos agricultores e técnicos ligados a entidades públicas e não governamentais. Através de convênios de cooperação com agências nacionais e internacionais, universidades e órgãos públicos, desenvolve programas técnicos visando a introdução de alternativas socioeconômicas de interesse da agricultura familiar. Além disso, o Cepagro participa de discussões e negociações de políticas públicas voltadas ao meio rural. 43 Quadro 9 - Etapas da “metodologia” empregada pelo Cepagro na constituição de credis 1. Reuniões de motivação, envolvendo lideranças comunitárias; 2. Encontros para definição de uma Comissão Provisória, envolvendo diferentes segmentos da sociedade local; 3. Elaboração de estudo sobre a viabilidade financeira da futura credi, no município e na região; 4. Visitas às comunidades para a discussão da idéia junto aos agricultores; 5. Excursão da Comissão Provisória e dos demais interessados a uma credi em funcionamento; 6. Reuniões e Seminários Municipais com dirigentes e técnicos de outras credis, enfocando aspectos práticos do cooperativismo de crédito; 7. Discussões sobre o Estatuto da nova entidade junto às comunidades e à Comissão Provisória; 8. Definição da lista de sócios fundadores, do valor das cotas-partes, da sede, da área de abrangência e do nomes para a primeira diretoria da cooperativa; 9. Realização da Assembléia Geral de Constituição; 10. Legalização e registro dos documentos da nova instituição; 11. Montagem da infra-estrutura, da sede, contratação e treinamento dos primeiros funcionários; 12. Solenidade de “abertura de portas”; 13. Nova campanha nas comunidades para a filiação dos demais interessados na credi Fonte : Búrigo (19972) A iniciativa do Cepagro e de seus parceiros contou, desde seu início, com o apoio do Sistema Sicoob/SC. Deste modo, as credis após constituídas estabeleciam um convênio de apoio técnico e administrativo com a referida Central. Este acordo previa ainda que, depois de um período de adaptação e observação, a credi poderia solicitar sua filiação definitiva, tornando-se associada do Sistema. Na medida em que novas credis eram constituídas, o Programa ampliava o leque de parceiros30 e tornava-se responsável pelo mais importante movimento de criação de novas credis em Santa Catarina. Até o início de 1999, o Programa assessorou a montagem de onze cooperativas de crédito rural em Santa Catarina. Estas organizações já envolvem mais de 4.500 associados ( ver Quadro 10): 30 As entidades que mais colaboraram com este Programa são: Associação de Desenvolvimento e Incentivo da Pequena Agricultura de Grupo (Adipagru), Associação Estadual dos Condomínios de Suinocultores (Aecos), Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense (Apaco), Cooperativa Central dos Assentamentos (CCA), Centro Vianei de Educação Popular, Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores Rurais (Cepagri), Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs), Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Santa Catarina (Fetaesc), Misereor (Entidade de Cooperação da Igreja Católica Alemã), Sicoob/SC, Centro Ecumênico de Apoio ao Desenvolvimento (Ceade), CCA/Ufsc, Empresa de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Projeto Novas Fronteiras da Cooperação Para o Desenvolvimento Sustentável (Pnfc), Departamento Nacional do Cooperativismo e Associativismo (Denacoop), Ministério da Agricultura e do Abastecimento, Administrações Municipais e diversos Movimentos religiosos. 44 Quadro 10 - Cooperativas constituídas com o apoio do Cepagro e entidades parceiras Credis Crediquilombo Crediseara Credicaçador Credicaru Credicanoas Crediluz Credicontestado N.º de Sócios 512 668 840 520 436 485 602 Data de Fundação 03/03/93 25/04/94 17/12/93 07/12/94 09/12/94 30/09/95 15/12/95 Data de Inauguração 28/10/93 04/01/95 18/03/94 16/08/95 16/08/95 18/03/96 06/05/96 Quilombo Seara Caçador São José do Cerrito Abdon Batista Abelardo Luz Curitibanos 22/03/97 06/12/97 15/05/98 12/03/99 04/10/97 10/08/98 15/09/98 Em implantação Passos Maia Urubici Nova Trento Santa Rosa de Lima Valcredi 385 Crediaraucária 67 Trentocredi 39 Credicolônia 23* * apenas sócios fundadores Fonte: Cepagro, março de 1999. Município Sede Municípios com Posto de Serviço Formosa do Sul e Irati Ipumirim / Seara Macieira Vargem Ouro Verde F. Rogério e Brunópolis Vargeão A experiência adquirida no processo de criação de credis bem como as dificuldades de manter a parceria com o Sicoob/SC - que se intensificaram depois da criação dos bancos cooperativos - levaram os mentores do Programa a propor a criação de um sistema próprio. Desde o início de 1999, a idéia do novo sistema (que assume um nome provisório de Sistema Acreditar) vem sendo discutida por diversas organizações catarinenses ligadas ao setor rural. Deste modo, embora o Acreditar ainda não esteja em funcionamento, pode-se constatar que ele representa, no momento, um corrente de pensamento sobre a temática das cooperativas de crédito rural. O tópico a seguir, descreve resumidamente as concepções e as regras operacionais do Acreditar31. 2.4.2.1 A criação do Sistema Acreditar O Sistema Acreditar nasceu com desejo de reforçar a constituição de organizações financeiras locais - que se articulariam sob os princípios da descentralização - conjugada com a maior participação dos societários no controle e gestão. Vê-se nisso um passo importante para fortalecer o papel “desenvolvimentista” das cooperativas de crédito rural. Ou seja, o Acreditar procura ressaltar uma visão na qual as credis devem assumir um papel estratégico no desenvolvimento rural como agentes locais de desenvolvimento e não se tornar uma organização com uma visão “bancária”32. 31 32 Cabe ressaltar que este esforço contou com a participação direta do autor do presente trabalho. Segundo Gentil & Nieuwkerk (1998) os serviços financeiros ficaram restritos por muito tempo à idéia da 45 Apesar de certos aspectos positivos da experiência de parceria entre as credis “alternativas” e o sistema Sicoob, esta integração parece não ser mais possível na atual conjuntura33.. Principalmente depois da criação do banco cooperativo em nível federal ocorre uma diminuição dos espaços institucionais para as “pequenas cooperativas rurais”, pois este tipo de organização parece dificultar a implementação de estratégias nacionais e das cooperativas de crédito de maior porte, voltado à ampliação da escala financeira e à redução dos custos de transação do Sistema. Deve-se ressaltar ainda, que aos bancos cooperativos articulam-se também as cooperativas de crédito mútuo. Estas são, inclusive, a maioria no Brasil tanto em número quanto em movimentação financeira. Apesar de serem importantes dentro do contexto social e econômico do país - por reforçarem a importância de programas de microfinanciamento e democratização do sistema financeiro - as “cooperativas urbanas” têm interesses distantes das necessidades e das aspirações dos agricultores familiares. Por isso, é provável que a hegemonia destas nos bancos cooperativos tenda a diminuir o espaço das cooperativas de crédito rural. Sempre respeitando a ação de outros sistemas, o Acreditar pretende aglutinar as credis de Santa Catarina, que buscam se inserir na lógica do desenvolvimento local e se preocupam em integrar as camadas da população rural excluída. Para isso é necessária a organização de uma rede própria das credis “alternativas”, congregando estes organismos num segundo nível. O Acreditar deverá ampliar também as possibilidades de atuação e a visibilidade política das credis dos agricultores familiares nas esferas estadual e nacional. distribuição de crédito. Além disso, quase sempre se observou a existência duas tendências que atuavam neste setor: a) Dentro da tendência bancária clássica, o crédito é uma operação financeira “séria”. Ele deve ser reembolsado e o risco deve ser coberto por garantias materiais. A taxa de juros deve cobrir os custos de gestão e os riscos e, se possível, proporcionar um lucro; b) Dentro da visão desenvolvimentista tradicional, o crédito é, sobretudo, um meio usado para se atingir outros objetivos. Nesta linha, o essencial é distribuir o crédito, rapidamente e para o máximo de explorações agrícolas, pois ele tem efeito positivo sobre a adoção de inovações tecnológicas, sobre a produção e sobre a diversificação de produtos e de serviços. Dentro dessas condições, para os desenvolvimentistas clássicos, a taxa de reembolso não é um problema prioritário e a taxa de juros deve ser a mais baixa possível. Ainda segundo os referidos autores, estas tendências encontram-se, atualmente, num impasse. De um lado observa-se dentro da visão bancária, que os bancos comerciais estão reticentes para emprestar à agricultura, salvo às propriedades modernizadas; normalmente, os créditos são de difícil acesso pois os custo para a sua dispersão são elevados, os riscos da atividade agrícola são considerados muito grandes e os agricultores não podem oferecer garantias suficientes. De outro lado, as propostas desenvolvimentistas tradicionais mostraram-se como soluções temporárias, pois eram muito dependentes de financiamentos externos. Os efeitos desta dependência mostraram-se graves e se fizeram sentir por muitos anos, introduzindo uma cultura da inadimplência e dificultando a emergência de sistemas financeiros com uma vocação perene. 33 Estes aspectos referem-se, sobretudo, a aprendizagem gerencial e administrativa que o Sistema proporcionava às credis “alternativas” e a obtenção de recursos de repasse para o financiamento de projetos dos associados. Cabe frisar também que diversos eventos de capacitação e de divulgação organizados pelas credis e pelas entidades de assessoria contavam com o apoio do Sicoob/SC. 46 O Sistema Acreditar está baseado numa série de princípios, que servem como instrumentos norteadores do trabalho de suas filiadas e da própria rede. A lógica de estruturação do Sistema, parte, prioritariamente, do fortalecimento de credis singulares, para depois englobar os demais níveis. O Acreditar valoriza a noção de “proximidade” das instituições financeiras, que pode ocorrer em diferentes dimensões: no aspecto espacial, pela existência de organizações que atuem o mais próximo possível do local onde vivem os associados; no aspecto social pela inserção dos próprios beneficiários como agentes de controle das organizações; no aspecto gerencial pela criação de estruturas de decisão democráticas e participativas dentro das credis e do Sistema; e, finalmente, no aspecto político, pelo incentivo à descentralização das políticas públicas e de desenvolvimento rural34. O Sistema Acreditar pretende estabelecer-se como uma rede de cooperativas singulares de crédito rural, que estão articuladas em bases de serviços regionais. Estas integram-se, por sua vez, numa base estadual. Estas bases organizam-se, juridicamente, como uma cooperativa de serviços. Por não se caracterizarem como uma “central de crédito”, as bases de serviço evitam a concentração de recursos monetários em instâncias superiores do sistema, mantendo a circulação financeira na esfera local e atuando mais próximo das demandas. Este mecanismo não impede, contudo, a negociação conjunta de projetos e de recursos de repasses, oriundos de programas de crédito, nem a criação conjunta de fundos de reserva35. As bases regionais prestarão serviços às credis de uma mesma região sócio-política fortalecendo a descentralização das políticas de atendimento financeiro e contribuindo para o desenvolvimento local e regional. Para organizar uma base regional de serviços é necessária a participação de, no mínimo, três cooperativas de crédito rural. Do mesmo modo que as bases regionais, a base estadual não deverá se constituir numa instância centralizadora de recursos financeiros, mas numa central de serviços e de apoio técnico. Contará com recursos humanos e materiais, todos voltados para o funcionamento das 34 Entre os princípios do Acreditar podem-se citar: a) apoio às iniciativas voltadas ao desenvolvimento local sustentável; b) democratização de programas de crédito rural e de microcrédito; c) apoio a expansão de organizações financeiras locais; d)participação dos agricultores familiares na gestão e instituições financeiras voltadas ao seu atendimento; e) captação e re-investimento local da poupança; f) envolvimento de diferentes segmentos da sociedade local enquanto agentes colaboradores; g) estímulo à cooperação e à vinculação solidária entre associados e entre outras cooperativas; h) autonomia político-administrativa das organizações cooperativas em relação as cooperativas agropecuárias e a outras organizações financeiras; i) fortalecimento da noção de “proximidade” entre agentes financeiros e beneficiários; j) respeito e valorização dos princípios cooperativistas e a formação permanente dos seus membros (Acreditar, 1999). 35 Cabe frisar que as propostas de funcionamento do Acreditar foram elaboradas antes do Governo Federal emitir a Resolução 2.608 (anteriormente citada). É provável que as estratégias administrativas e gerenciais do 47 credis e das bases regionais. 2.4.3 O sistema Cresol Durante os anos 1990, a criação de credis “alternativas” em Santa Catarina acabou repercutindo junto a grupos de agricultores familiares do Paraná.. Foi a partir da experiência catarinense que surgiu, em 1996, o Sistema Integrado de Cooperativas de Crédito Rural com Interação Solidária (Cresol). Segundo documento oficial do sistema, as Cresol são instituições destinadas a acessar, canalizar e desburocratizar os créditos rurais com o objetivo de fortalecer uma agricultura social, ecológica e economicamente sustentável (Revista Cresol, 1998). Para viabilizar a sua constituição, as Cresol tiveram o apoio de organizações paranaenses que manejavam fundos rotativos e outros mecanismos de apoio creditícios aos agricultores36. Além desses apoios, outros fatores auxiliaram a criação do Sistema, entre os quais se pode citar: o surgimento do Pronaf, a constituição e ampliação dos Fundos Municipais de Desenvolvimento Rural, as lutas populares por mais crédito rural à agricultura familiar e o incentivo financeiro e técnico de organizações de cooperação nacionais e internacionais (depoimento de dirigente da Cresol). No seu início, os mentores da proposta resolveram seguir a estratégia das credis “alternativas” de Santa Catarina, fazendo tentativas de aproximação com a Central das Cooperativas de Crédito do Paraná.. Diferentemente do caso de Santa Catarina, estas aproximações foram frustradas, pois a Central paranaense aceitava somente novas credis que estivessem ligadas às coopers. Como as cooperativas Cresol desejavam preservar sua autonomia institucional em relação as coopers, as entidades ligadas ao movimento resolveram organizar não apenas cooperativas singulares, mas um “sistema de crédito cooperativo alternativo”. O Sistema Cresol acabou rompendo uma regra do Banco Central, segunda a qual não era permitido às credis estabelecerem limitações estatutárias quanto ao tamanho da propriedade e da renda máxima dos agricultores associados. A Cresol obteve autorização legal para apenas aceitar a filiação às suas cooperativas de agricultores familiares que possuam Acreditar sofrerão modificações com as novas regras impostas pelo Banco Central. 36 As experiências com os fundo rotativos paranaenses também enfrentaram limites legais e políticos semelhantes aos observados por organizações catarinenses, apesar de sido mais exitosas quanto ao número de agricultores atingidos e no nível de adimplência das operações efetuadas. 48 renda bruta inferior a R$ 27.000,00 anuais. De fato, as cooperativas do sistema Cresol têm preferido atender os agricultores familiares menos capitalizados. Em 1998, cerca de 44% dos associados das Cresol possuíam entre 10 e 20 ha de terra e 31% menos de 10 ha ( depoimento de dirigente da Cresol). Chama a atenção a velocidade de expansão do Sistema. Embora nem todas estivessem em funcionamento, no final de 1998, a Cresol já congregava vinte e quatro cooperativas, sendo duas em Santa Catarina37, cinco no Rio Grande do Sul e as demais no Paraná. As treze cooperativas que estavam operando plenamente durante 1998 já possuíam no seu total quase 5.900 associados (ver o Quadro 11). O seus demonstrativos demonstram que houve perdas no exercício de 1998, o que indica certa dificuldade em manter um equilíbrio financeiro do Sistema. Quadro 11 - Demonstrativos do Sistema Cresol *. Item Valor (R$) Número de Sócios 5.898 Capital Social 686.576,00 Depósitos à Vista 842.594,00 Depósitos a Prazo 2.083.101,00 Repasse Pronaf – Custeio 5.778.153,00 Repasse Pronaf – Investimentos 703.644,00 Total de Créditos ** 8.794.977,00 Número de Contratos ** 5.952 Média por Contrato ** 1.376,00 Receitas 1.336.946,82 Despesas 1.363.009,75 *** Sobras - 27.695,09 * Dados consolidados de 31.12.1998 referentes a posição de 13 cooperativas filiadas ao Sistema. ** Dados operacionalizados durante 1998. *** À despesa deve-se incluir os fundos de reserva. Fonte : Revista Cresol (1998). Atualmente, para operacionalizar a compensação de documentos a Cresol mantém convênios com o Banco do Brasil. Este convênio também prevê o repasse de recursos do crédito rural (especialmente do Pronaf). As atividades de contabilidade gerencial, fiscalização, informática, comunicação e marketing é coordenada pela base central (também conhecida como Baser). Para realizar capacitação e treinamento, projetos de crédito rural, a Cresol estabelece convênios com os órgãos públicos de assistência técnica, com ongs de assessoria e 37 Embora documentos falem que existam um total de oito cooperativas catarinenses ligadas à Cresol (Revista Cresol, 1998), apenas cinco cooperativas estavam integradas ao Sistema até maio de 1999. 49 com uma cooperativa de técnicos. Segundo seus dirigentes o Sistema Cresol pretende estabelecer no futuro uma estrutura administrativa semelhante àquela defendida pelo sistema Acreditar. Nesta concepção, as cooperativas de crédito rurais singulares são formadas a partir dos grupos de base. Estas cooperativas articulam-se em bases de serviço regionais que por sua vez estão ligadas à uma central das bases, que também se constitui, ela própria, numa entidade prestadora de serviços. A central de serviços do Sistema Cresol também não deve se transformar numa “central de crédito”, pois seus mentores não desejam concentrar os recursos das cooperativas singulares, mas apenas prestar serviços de seu interesse. Os recursos excedentes de cada cooperativa devem ser aplicados nas agências bancárias locais, mantendo o poder de barganha das cooperativas e o capital no próprio município. A Cresol defende a existência de cooperativas de pequena escala. Eles já realizaram, inclusive, desmembramentos de suas filiadas visando preservar este princípio. Além disso, duas cooperativas de crédito rurais, vinculadas ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) desligaram-se da Cresol recentemente. Como este processo ocorreu de comum acordo, as referidas cooperativas passaram a integrar o Sistema de cooperativas de crédito que o MST está organizando com o apoio da Cresol (depoimento de dirigente da Cresol). Como se viu, além das forças sociais ligadas ao setor rural, a evolução do cooperativismo de crédito rural de Santa Catarina foi condicionada por medidas oficiais ligadas ao crédito rural e o sistema financeiro nacional. A análise destes setores é fundamental para se avaliar o papel do cooperativismo de crédito nos programas de desenvolvimento rural e em que condições ele pode operar. Este é o tema do próximo capítulo. 50 3 3.1 O crédito rural e as instituições financeiras O crédito rural no Brasil: da criação do Sncr ao Pronaf As políticas públicas no Brasil quase sempre encararam recursos do governo ou de empréstimos de agentes externos como os únicos existentes e capazes de impulsionar o desenvolvimento do meio rural. Nem junto às camadas mais capitalizadas do setor, houve o desenvolvimento de instrumentos de financiamento de longo prazo, nas quais a poupança financeira dos agricultores tivesse papel de destaque. Até as cooperativas de crédito rural reproduzem, de certa maneira, a mesma cultura, pois as principais fontes dos recursos empregadas nos financiamentos rurais realizados por elas são as verbas repassadas a cada safra pelo Tesouro Nacional e pelos demais agentes oficiais de crédito rural (Benetti, 1994). Para se deslindar quais as relações existentes entre o cooperativismo e as políticas do crédito rural é importante, em primeiro lugar, verificar qual a importância atribuída aos mecanismos creditícios dentro dos diferentes planos governamentais de desenvolvimento rural formulados no Brasil. Em 1937, o Banco do Brasil criou a Carteira do Crédito Rural, que passou a administrar os financiamentos rurais efetuados com recursos estatais. Embora esta Carteira ganhasse mais espaços nos anos seguintes, somente em 1949 a política agrícola brasileira começou a reconhecer a importância do crédito, como instrumento de fomento e de transformação da agricultura e do meio rural (Castro, 1984). Em trabalhos como o relatório da Comibeu38, o Plano de Metas (1956 - 1960), o Plano Trienal (1963 -1965), o Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg) (1964-1966), o crédito rural passou a ser encarado como peça chave nas políticas de desenvolvimento do País. O Paeg, por exemplo, previa como necessária, entre outras medidas, a criação de uma “coordenação de crédito rural e de um fundo nacional de refinanciamento rural”, com apoio externo e interno. Não obstante as constantes recomendações inseridas nos estudos e planos voltados ao desenvolvimento do País a partir da década de 1950 e o aparecimento de alguns programas de financiamento criados em alguns estados da União39foi, sobretudo, a partir de 1967 que a proposta de empregar o crédito na agricultura foi institucionalizada pelo Estado brasileiro. 38 Além disso, este programa ressaltava a importância de se destinar recursos para os “small farmers”.. Estes recursos deveriam ser subsidiados pelo Estado (pela sociedade), pois é deste grupo de produtores que se esperava que originasse um processo de crescimento da produção de alimentos. Ver as recomendações inseridas no relatório da Missão Abbink (Comissão Técnica Mista Brasil - Estados Unidos). 51 Naquele ano colocou-se em prática o Sistema Nacional de Crédito Rural (Sncr), tornando o crédito rural um instrumento permanente, e com função estratégica dentro das políticas oficiais de promoção da agricultura brasileira. Com o Sncr, o governo pretendia criar mecanismos que garantissem o financiamento da atividade agrícola com taxas subsidiadas e com prazos mais longos (Schröder, 1998). Interessante constatar que os objetivos do crédito rural contidos nos documentos oficiais ainda permanecem praticamente os mesmos. Nem as transformações sociais ocorridas no meio rural, nem as mudanças do padrão produtivista e, mais recentemente, nem as novas fontes de recursos foram capazes de alterar os objetivos originais do Sncr40. Outro aspecto a ressaltar é que a consolidação do Sncr se deu quase ao mesmo tempo em que entravam em vigor legislações que prejudicavam o funcionamento e a expansão do cooperativismo de crédito, o que permite afirmar que as políticas governamentais daquele período apresentavam elementos contraditórios. De um lado, o Estado brasileiro resolvia impulsionar o setor agrícola, criando e destinando mais recursos ao Sncr, com objetivo de organizar um novo arcabouço institucional que proporcionasse suporte aos financiamentos voltados ao meio rural. Mas, de outro, o governo limitava o espaço institucional das cooperativas de crédito, que poderiam ser fundamentais na popularização, consolidação e perenização dos objetivos estratégicos propostos pela mesma iniciativa, como frisa Souza (1996): Não houve qualquer esforço das autoridades no sentido de ajustar as cooperativas ao Sncr, instituído pela Lei 4.829, de 1965, uma vez que ao Bncc não foram destinados recursos para os programas especiais de financiamento: Pesac, Propec, Pronazem, Procal, Pronap, Prodepe e outros aos níveis da rede bancária privada(...).Assim, as cooperativas ficaram como meras repassadoras de pequenas operações feitas junto aos bancos oficiais e particulares. Esta dubiedade de estratégia apontava que as medidas governamentais direcionadas ao campo caracterizavam-se pelo fortalecimento de intervenções exógenas, pouco preocupadas 39 Como foi o caso da Associação de Credito e Assistência Rural de Santa Catarina (Acaresc) Os objetivos do emprego do crédito rural previstos no Manual do Crédito Rural que regulamenta o Sncr são os seguintes: a) estimular o incremento ordenado dos investimentos rurais, inclusive para armazenamento, beneficiamento e industrialização de produtos agropecuários, quando efetuado por cooperativas ou pelo produtor em sua propriedade; b) favorecer o custeio oportuno e adequado da produção e comercialização de produtos agropecuários; c) possibilitar o fortalecimento dos produtores rurais, notadamente pequenos e médios; d) incentivar a introdução de métodos racionais de produção [grifo meu], visando o aumento da produtividade e a melhoria do padrão de vida das populações rurais, e a adequada defesa do solo (Banco Central , 1999). 40 52 com a consolidação de instituições financeiras locais41. Após a sua institucionalização, os recursos movimentados pelo Sncr observaram uma fase de crescimento constante, atingindo seu auge no início dos anos 1980, quando o Brasil chegou a aplicar mais de 30 bilhões de dólares anualmente no crédito rural (ver o Gráfico 1). No período inicial, que corresponde ao movimento de implantação e consolidação do padrão modernizante da agricultura brasileira, a disponibilidade de crédito cresceu 329% em termos reais (Bianco, 1995). As análises sobre o papel do crédito rural mostram que desde o seu início o Sncr esteve inclinado a fortalecer um modelo produtivista, atrelado a uma lógica de incentivo à subordinação da agricultura ao setor industrial. Como retratam Kageyama et al. (1990), a partir dos anos 1960 a agricultura brasileira tornou-se um elo de uma cadeia que consolidou, de um lado, a implantação da indústria de insumos voltada ao processo produtivo, e de outro, a estruturação das agroindústrias processadoras. Para que parte da agricultura brasileira passasse a se estruturar sob a forma de complexos agroindustriais foi fundamental a existência de um sistema financeiro organizado, que pudesse servir como suporte ao crescimento do setor. Todavia, como o Estado brasileiro não “apostava” no potencial das organizações financeiras locais, acabou-se privilegiando os bancos estatais como os gestores das políticas do crédito rural destinada à modernização da agricultura. Estas políticas, por serem baseadas em programas subsidiados, além de disponibilizar crédito barato aos produtores, criaram condições para a internalização das indústrias de fertilizantes, agrotóxicos, máquinas agrícolas e das indústrias de transformação e comercialização dos produtos agrícolas. Este atrelamento resultou num movimento heterogêneo e multideterminado de integração intersetorial, estabelecendo relações com as indústrias a montante e a jusante da agricultura (Kageyama et al., 1990 e Schröder, 1998). Portanto, o crédito rural oficial ao invés de estar a serviço de políticas de desenvolvimento “rural” atendeu apenas os objetivos da política de modernização, aumentando a utilização de insumos industriais no setor agrícola (Simon, 1992). As conseqüências desta estratégia se fizeram sentir logo no campo. Segundo Pinto (1981), a política agrícola brasileira dos anos 1970 foi triplamente concentradora, pois 41 Através das instituições financeiras locais o emprego de recursos público poderia estar articulado com o recolhimento da poupança da região, contribuindo para que o aumento da produção agrícola se transformasse em recursos financeiros sob o controle da comunidade local. Com esta estratégia se estaria, estabelecendo um 53 privilegiou: produtos (destinados à exportação e à transformação agroindustrial), áreas (regiões Sul e Sudeste) e produtores (médios e grandes agricultores). Naquele período, o meio rural era visto como um setor atrasado que precisava de intervenção externa, tanto em tecnologias quanto de recursos financeiros. As prioridades determinadas nos programas estatais desconsideravam os reflexos excludentes das medidas e era dada pouca importância aos recursos tecnológicos e financeiros locais. Pode-se assim afirmar que as medidas governamentais foram socialmente ineficazes. Ao priorizar apenas o setor agrícola modernizado, promoveu-se um crescimento desuniforme do interior do país, alcançando progressos limitados na qualidade de vida da maioria dos habitantes do meio rural e sem garantir a segurança alimentar para o conjunto da população (Schröder, 1998) Vale mencionar que apesar das políticas de emprego do crédito rural oficial terem sido seletivas e excludentes nos primeiros anos, elas não eliminaram totalmente o atendimento aos pequenos agricultores, principalmente em regiões onde este apoio significava o reforço das estratégias de industrialização da agricultura (Graziano da Silva, 1984). Principalmente em estados do Sul, ressalta Schröder (19972), a política modernizante não visou a eliminação dos pequenos agricultores, pelo contrário,(...)buscou a transformação ‘qualitativa’ das características destes produtores para que os mesmos fossem integrados de forma compulsória às necessidades de acumulação de capital mais geral. Não se deve esquecer, porém, que, mesmo na região Sul, onde a presença da agricultura familiar é majoritária, o volume de recursos destinados aos pequenos agricultores mostrou-se pouco expressivo em relação à soma total aplicada pelo crédito rural, pois os grandes produtores (agricultura patronal) sempre ficaram com a maior parte do capital (Deser, 1997). A partir dos anos 1980, os fortes traços modernizantes do crédito continuaram em vigor, mas acabaram esbarrando na diminuição dos recursos direcionados pelo governo ao setor agrícola (ver o Gráfico 1)42. processo de desenvolvimento mais endógeno das zonas rurais do país. 42 Em Santa Catarina a diminuição dos recursos de investimento assumiu um caráter particular, em razão do interesse do governo estadual em manter a estratégia de modernização da agricultura com o apoio do crédito rural. Via o programa “Troca-Troca”, o poder público de Santa Catarina incentivou a aquisição de sementes, máquinas e equipamentos, reprodutores, corretivos, fertilizantes, terra (crédito fundiário) e instrumentos de pesca junto aos pequenos agricultores. O referido Programa foi mais intenso no período de 1983 a 1985 (Governo de Santa Catarina, 1987 apud Mussoi, 1998). Um dado sobre a venda de tratores ilustra bem o alcance dessas medidas: tomando como base as vendas do ano de 1984 e aplicando um índice 100, em 1985 o estado do Rio Grande do Sul comercializou 63 tratores, o Paraná 83 e Santa Catarina 152 veículos. A compra de grande parte destes tratores foi subsidiada via o Troca-Troca, gerando um novo ciclo de movimentação do setor do crédito 54 Gráfico 1 - Evolução dos recursos de crédito rural aplicados no Brasil 35.000,0 VALOR-R$ MIL 30.000,0 25.000,0 20.000,0 15.000,0 10.000,0 5.000,0 1995 1993 1991 1989 1987 1985 1983 1981 1979 1977 1975 1973 1971 1969 - Fonte : Banco Central Embora os recursos de crédito ainda fossem relativamente expressivos, já no início da década de 1980 havia diversos fatores indicativos de que o Brasil entraria num quadro econômico recessivo. A volta da inflação e os primeiros reflexos negativos decorrentes do grande endividamento do país, contraído em anos anteriores, fizeram com que o governo mudasse de posição em relação a condução da política agrícola. Começou a retirar os subsídios via taxa de juros, que passaram a ser indexadas aos índices inflacionários. O crédito de investimento oriundo de fontes federais foi então diretamente atingido com a retirada dos subsídios aos financiamentos para aquisição de máquinas, tratores e equipamentos (Schröder, 1998). Ao lado de uma oferta decrescente de crédito público, o governo apostou na política de preços mínimos, conduzida de forma a evitar uma grave crise no abastecimento. Neste sentido, ao lado dos cortes nos recursos de investimentos ocorreu uma certa ampliação das verbas de custeio, visando incentivar o plantio de culturas alimentares, através de mini e de pequenos agricultores. Se as medidas representaram o começo do fim do período de fortes subsídios agrícolas, agravaram, por outro, o perfil conservador da intervenção estatal na agricultura. De fato, embora rural junto aos agentes financeiros (Icepa/SC – Acaresc, 1986 apud Mussoi, 1998). 55 a agricultura estivesse abalada pelo quadro recessivo da economia, observou-se o reforço de privilégios para algumas agroindústrias e cooperativas agropecuárias que trabalhavam com produtos voltados à exportação, beneficiando-os em determinados momentos através de subsídios fiscais e de financiamentos com juros reais negativos (Delgado, 1985 e Martine, 1991). Como o crédito rural oficial perdia a força que lhe permitia atuar como grande agente articulador das ações governamentais na agricultura, ao longo da década os recursos do Sncr passaram a ser vistos, progressivamente, como um componente a mais dentro das políticas gerais de crédito. Este processo significou um novo ciclo de subordinação da agricultura à política monetária do Estado e ao mercado financeiro (Schröder, 1998). As características acima foram modificadas apenas em 1986. Durante o Plano Cruzado, o governo da Nova República tentou retomar a antiga política dos anos 1970, oferecendo mais crédito subsidiado ao setor rural. Esta medida, contudo, mostrou-se inviável logo a seguir, com o retorno da inflação e da escalada dos juros dos empréstimos, que voltaram a se desvincular dos preços pagos aos produtos agrícolas. No ano de 1988, o governo mudou substancialmente de rota, em função da crise inflacionária e da reforma (parcial) da estrutura administrativa e fiscal, trazida com a promulgação da nova Constituição. O crédito rural passou, então, a ser incorporado ao orçamento geral do Estado, fazendo com que a sua liberação dependesse de rodadas de negociações e de acordos entre os Poderes Executivo e Legislativo. O crédito rural viveu, assim, o período em que predominaram as políticas de curto prazo, caracterizadas por estratégias de negociação que visavam fortalecer uma política de “acomodação de interesses” do setor. Os grupos mais capitalizados do meio rural procuravam alternativas para financiar a agricultura, uma vez que esta vinha perdendo suas fontes principais de recursos, como a conta movimento do Banco do Brasil43 e as exigibilidades oriundas dos depósitos à vista dos bancos comerciais (que foram drasticamente reduzidos com a elevação da inflação). Quanto aos pequenos agricultores, as dificuldades se ampliaram neste período porque o aumento da inflação refletia diretamente no custo dos financiamentos. Houve, inclusive, campanhas promovidas por organizações de representação dos agricultores desaconselhando o emprego do crédito rural, pois os financiamentos eram de difícil pagamento. 43 Durante os anos 1970 e início dos anos 1980, o grande gerenciador dos programas oficiais da área agrícola era o Banco do Brasil. Este possuía, inclusive, uma vinculação especial com o Tesouro Nacional, através de uma conta chamada movimento, pela qual os recursos eram simplesmente debitados desta rubrica, na medida em que eram solicitados pelas agências bancárias. O referido mecanismo foi abolido em 1985 pois significava uma válvula de descontrole monetário que tornava quase impossível a adoção de uma forte disciplina fiscal e monetária (Buainain, 1997). 56 Numa tentativa de atacar o problema de falta de verbas do crédito rural, em 1986 foi lançada a Poupança Verde e, em 1988, os Fundos Constitucionais de Desenvolvimento Regional. Essas fontes, posteriormente, também se mostraram incapazes de manter os mesmos níveis de recursos antes aplicados. A partir do Plano Real em 1994, houve transformações significativas na política de financiamento da agricultura. O controle da inflação e o fim dos mecanismos de correção monetária, que oneravam muitas vezes de forma imprevisível as dívidas, fizeram com que os movimentos sociais do campo passassem a lutar para dispor de mais recursos para o crédito rural. Depois de vários anos de ausência, o crédito voltou a se fazer presente nas pautas de reivindicações das organizações dos agricultores familiares44. Todavia, as políticas fiscais que afetavam o meio rural ainda apresentavam sérias distorções em prejuízo dos pequenos agricultores, como retrata os estudos do Banco Mundial citado por Vilela (1997): Distorções importantes em favor do capital foram dadas pelas leis do imposto de renda e através de maciços créditos subsidiados para compensar a tributação indireta. As distorções fiscais e os subsídios aumentaram os investimentos em grandes fazendas e auxiliaram na substituição da mão-de-obra pelo capital. Os agricultores de pequena escala, mão-de-obra intensiva, foram colocados em desvantagem, já que as distorções são capitalizadas no preço da terra. (....) Os pequenos fazendeiros são muito pobres para se beneficiarem das isenções do imposto de renda e não têm acesso ao crédito subsidiado, eles não podem pagar pela compra de terra com os lucros da agricultura. (...) Tais políticas (...) reduziram o emprego na agricultura e a atividade autônoma, acelerando a migração da área rural para a urbana”(Vilela, 1997). Apesar desses problemas, com a estabilidade monetária o setor agrícola voltou a dispor gradualmente de recursos originários do setor financeiro privado. Todavia, estas linhas de crédito eram, geralmente, direcionadas aos agricultores mais capitalizados45. Com a entrada das novas fontes e a manutenção de algumas já existentes, os recursos destinados ao meio rural ficaram genericamente assim divididos: Exigibilidade Bancária (que voltou a crescer com a estabilidade monetária), Poupança Verde, Fundos Constitucionais, Fundo de 44 Não se pode esquecer que a mudança de postura se deu também em função das discussões que passaram a ocorrer, entre os agricultores familiares (e suas entidades), sobre a necessidade de se propor um novo modelo de desenvolvimento rural, no qual o crédito assumiria papel central na viabilização da proposta. 45 Como afirmam Gasques & Villa Verde (1996) as novas fontes de recursos [do Sncr], especialmente os títulos, estão voltadas basicamente para agricultura comercial, uma vez que envolve recursos captados no mercado a custos elevados. Além disso, essas operações exigem grandes quantidades de produtos [maior escala], excluindo, desta feita, as pequenas unidades de produção. 57 Amparo ao Trabalhador (FAT), Commodities e Recursos Externos46. Por outro lado, um novo quadro começa entrar em cena após o Plano Real. Percebe-se que os grandes proprietários não vêm absorvendo os recursos do Sncr na mesma intensidade que em períodos anteriores. É provável que a oferta de novos produtos financeiros disponibilizados no mercado pelos bancos comerciais e outros agentes financeiros, embora não enquadrados no Sncr, acabem sendo atraentes aos produtores mais capitalizados47. Esta mudança de perfil dos emprestadores do crédito rural oficial pode estar calcada, portanto, mais nas radicais transformações observadas no sistema financeiro brasileiro, que age em busca de novas oportunidades de negócios, do que no resultado de medidas concretas que possam sinalizar um novo ambiente de políticas favoráveis ao pequeno agricultor48. Notese que as análises internacionais indicam que no Brasil não há um ambiente socioeconômico favorável à reprodução da agricultura familiar. Segundo o estudo de Vilela (1997), o Banco Mundial49 aponta alguns elementos que comprovam esta tese: O programa Finame [linha de crédito estatal voltada a compra de máquinas e equipamentos ](...) estimula a agricultura mecanizada de grande escala; [As]linhas de crédito subsidiado para capital de giro sob o Sncr vão exclusivamente para os grandes fazendeiros porque têm menor risco; as isenções do imposto de renda para a agricultura estimulou a aquisição de terra como um paraíso fiscal (...); inflação rápida estimulou a compra de terra como uma forma segura de estocar riqueza (...);a contribuição para a previdência social na agricultura e outros impostos trabalhistas são tão pesados que estimulam a substituição da mão-de-obra pelo capital; a legislação para proteger o trabalhador rural que vive em grandes propriedades assegura-lhes direitos à terra dando aos proprietários fortes incentivos a não usarem mão-de-obra residente (Banco Mundial, 1993 apud. em Vilela, 1997). Por outro lado, é preciso ressaltar que nos primeiros anos da década de 1990 cresceram as pressões da sociedade civil, exigindo que o Governo Federal modificasse suas 46 Para compreender melhor o funcionamento e as características de cada uma dessas modalidades de financiamento, ver os estudos de Gasques & Villa Verde (1996), Cardoso (1997) e Buainain (1997). 47 É importante perceber como as próprias carteiras de crédito em geral estão perdendo expressão junto aos bancos. Muitas destas instituições, em função da globalização e do crescimento da chamada “economia virtual”, estão cada vez mais interessadas na comercialização de produtos financeiros sofisticados do que em realizar operações de crédito nos moldes tradicionais. Para compreender melhor algumas destas mudanças, ver também Búrigo (1996). 48 Um exemplo desses novos produtos financeiros é o crédito privado dirigido à aquisição de máquinas e equipamentos. O empréstimo é realizado, a exemplo das montadoras de automóveis, por instituições bancárias controladas pelas próprias indústrias. 49 O principal relatório deste estudo é o de N.11738-BR de 27 de maio de 1993, “Brasil. O gerenciamento da agricultura, do desenvolvimento rural e dos recursos naturais”(Vilela, 1997). 58 políticas de apoio ao meio rural. O movimento sindical do campo, por exemplo, passou a cobrar do governo que os recursos oficiais de crédito rural fossem direcionados exclusivamente aos setores mais empobrecidos do campo. Reforçava-se neste momento a convicção de que os recursos com taxas subvencionadas devem ser orientados para a agricultura familiar (Cardoso, 1997). Até mesmo as agências internacionais, como o Banco Mundial, começavam a apontar a urgência de algumas iniciativas oficiais de apoio aos pequenos agricultores, face à importância de se cobrir as graves crises que o meio rural vinha atravessando. Embora seja difícil precisar até que ponto o governo agiu pela pressão da sociedade civil ou pelas posições de agências multilaterais, o fato é que o governo passou a formular programas de crédito subsidiado aos agricultores familiares. É neste contexto que surgiu, em 1995, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), tema do próximo tópico. 3.1.1 O Pronaf Ainda em 1993, pressionado por manifestações sociais o governo federal lançou o Programa de Valorização da Pequena Produção Rural (Provap). Este programa, que se limitava a oferecer uma linha de crédito destinado aos pequenos agricultores (com juros de 4% a.a., sem correção monetária), teve pouca repercussão e baixos impactos sociais, principalmente pelas rigorosas exigências impostas pelos agentes financeiros (Silva, 1999). Além do mais, o Provap nunca foi visto pelo governo como um programa estratégico e que estivesse inter-relacionado à outras ações voltadas ao desenvolvimento rural. Com ambições maiores do que o Provap, em 1995, nasceu o Pronaf. Este tencionava construir um conjunto de medidas integradas, que proporcionasse melhores condições para o desenvolvimento dos pequenos municípios do país, sobretudo daqueles que dependem intensamente da agricultura para a geração de renda e de oportunidades de emprego50. Segundo os seus proponentes, o Pronaf partiu da constatação de que a grande maioria dos agricultores familiares tem sido historicamente excluída do processo de desenvolvimento nacional, e de que os pequenos municípios não têm figurado nas estratégias de desenvolvimento das últimas décadas (Brasil, 1998). Como o governo indicava que desejava inovar na política agrícola nacional, o Pronaf se voltaria então, aos agricultores considerados 50 ver Brasil (1998). 59 de “transição” e os “periféricos”51, que detinham condições mínimas de viabilizar uma atividade econômica. Além do mais, o Pronaf não queria ser confundindo com políticas sociais compensatórias (Brasil, 1998), pois desejava representar o reconhecimento governamental da capacidade da agricultura familiar em absorver mão de obra, transformando-se em opção privilegiada para combater parte dos problemas sociais urbanos provocados pelo desemprego rural (Silva, 1999). O Pronaf divide-se em quatro linhas de ação52, todas voltadas a valorizar o meio rural e os espaços menos densamente povoados do País, mas que no seu conjunto podem representar até um terço da população brasileira (Brasil, 1996). Para financiar suas ações estão envolvidos, principalmente, os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), do Tesouro Nacional, das exigibilidades bancárias53 e dos Fundos Constitucionais. Como se viu, o Pronaf veio acompanhado de grande expectativa por vários segmentos e entidades de representação dos agricultores familiares. Para setores do sindicalismo, inclusive, o Pronaf representava mais uma conquista dos trabalhadores rurais do que uma resposta do governo aos “gritos do campo”. Outras análises indicam que ele podia ser uma resposta às críticas formuladas por órgãos internacionais, sobre o modelo excludente de desenvolvimento adotado no Brasil. Para outro ainda, ele estava em consonância com os interesses do capitalismo mais avançado, para quem a agricultura familiar já mostrou em diversos países ser o modelo mais adaptado para a sua expansão54. Sejam quais forem as condições que engendraram a criação do Pronaf e os fatores que levaram a sua transformação em uma dos programas estratégicos do Governo Federal, ele carrega o mérito de inserir nas análises e nos procedimentos oficiais direcionados ao meio rural um recorte inédito. A novidade do Pronaf manifesta-se no fato de que os programas governamentais sempre classificaram a agricultura brasileira com critérios “quantitativos”. Seguindo essas normas, a “pequena agricultura” que é explorada, em sua maioria, pelas unidades familiares de produção deteria basicamente as mesmas características e necessidades - somente que em escala menor - da “grande agricultura”. Deste modo, o Pronaf deseja romper com o modelo de tratamento dado à “pequena” e à “grande” agricultura, criando 51 Para maior compreensão desta tipologia ver FAO/Incra (1994). As quatro linhas de ação são as seguintes: financiamento da produção da agricultura familiar; financiamento da infra-estrutura aos municípios pilotos; geração de políticas públicas favoráveis a agricultura familiar e apoio a assistência técnica e a pesquisa direcionada ao público alvo. 53 Percentual dos depósitos dos clientes que os bancos são obrigados a aplicar, por exigência do Banco Central, em determinado setor da economia (por exemplo, na agricultura). 54 Para compreender melhor as razões que originaram o Pronaf ver Vilela (1998), Brasil (1996), Brasil (1998), 52 60 novas regras de enquadramento que incorporam critérios “qualitativos”. Os problemas do enquadramento anteriores expressavam-se, principalmente, nas políticas de financiamento das safras, nas quais a pequena agricultura, embora majoritária, sempre foi discriminada. Portanto, ao estabelecer uma nova tipologia social da agricultura brasileira, “dividindo” o campo em agricultura familiar e em agricultura patronal, o Pronaf tenta qualificar as intervenções oficiais, inovando em termos de política pública, pois agora os pequenos agricultores não precisariam disputar as mesmas fontes de recursos diretamente com os grandes proprietários. É importante mencionar também que os recursos de crédito rural destinado a projetos de investimento foram outra novidade positiva trazida pelo Pronaf, uma vez que este tipo de empréstimo estava praticamente ausente das políticas governamentais desde 1983 (especialmente na região Sul do país). Não se pode esquecer, no entanto, que a criação de mais instrumentos de política pública direcionados aos agricultores familiares, embora alvissareira sob o ponto de vista social, esbarra, muitas vezes, em entraves burocráticos e na atuação de setores da sociedade que pressionam o governo no sentido contrário, visando à manutenção de privilégios. Em seus estudos, Delgado (1994) retrata muito bem o problema da defasagem entre o discurso do governo e as suas ações práticas, que se traduzem, por exemplo, na definição das dotações orçamentárias. Muitas vezes existe um vácuo institucional de parte do Estado (brasileiro) para decidir e discriminar recursos às suas prioridades (Delgado, 1994). Em várias ocasiões, funcionários do próprio governo reforçam ser este um dos maiores obstáculos de programas sociais considerados “sérios”. Muitas vezes, as intenções e propostas de alguns programas oficiais são contraditórias com outras iniciativas governamentais55. Além do mais, as propostas originais acabam sendo alteradas nas disputas exercidas pelos atores sociais em sua luta cotidiana por obter verbas públicas. Embora esta pressão envolva os diferentes segmentos da sociedade, ela é efetuada de maneira mais contundente pelos setores da elite, que utilizam instrumentos cada vez mais sofisticados de organização (via suas entidades de representação corporativas e extracorporativas) visando obter vantagens fiscais e mais acesso direto ao dinheiro público. Convém lembrar, todavia, que pode haver conflitos de interesses entre os diferentes entre outros. 55 A “queda” de grande parte da equipe de governo que formulou o Pronaf e outras iniciativas de apoio à agricultura familiar dentro do Ministério da Agricultura e do Abastecimento, ocorrida no inicio do mês de maio 61 setores da iniciativa privada e entre as alas do próprio governo, fatos que, as vezes, acirram ainda mais a disputa. Deste modo, sob o ponto de vista do desenvolvimento, a criação de programas, como o Pronaf, só faz sentido se estiver integrada com outras ações correlacionadas (Gasques e Villa Verde, 1997). Assim, programas de reforma agrária e de proteção social (como o Programa de Geração e Renda, o Comunidade Solidária56, a Previdência Social Rural57, etc.) necessitam ser reforçados, como também novos precisam ser criados (como, por exemplo, os que garantam meios para a instalação de agricultores jovens). Embora não seja objetivo do presente trabalho avaliar os resultados alcançados pelo Pronaf, os primeiros números de sua linha de ação “financiamento da produção” espelham, ao menos em parte, as dificuldades acima apontadas. Embora se reconheça que o Programa vem conseguindo canalizar mais recursos financeiros aos agricultores familiares, a maioria das verbas ainda está sendo direcionada para os estados do Sul. Esta região já dispõe de maior tradição no uso do crédito rural, de agentes financeiros dispostos a operacionalizar o Programa e de empresas integradoras que avalizam os financiamentos, oferecendo maiores garantias aos bancos. Estes elementos reforçam a idéia da necessidade de um ambiente institucional favorável para se implantar programas sociais58. Os dados demonstram que a linha Pronaf - custeio está financiando projetos que, tradicionalmente, já obtém apoio dos agentes financeiros. Embora o Pronaf tenha custeado dezenas de atividades diferentes, na região Sul do Brasil chama atenção, por exemplo, a preferência pela cultura do fumo, que foi responsável por cerca de 32,7 %, 30% e 26,6% dos recursos aplicados pelo Programa em 1996, 1997 e 1998, respectivamente. Em segundo e terceiro lugar estão a soja e o milho, que junto com o fumo abocanharam mais de 75% dos recursos disponibilizados (Silva, 1999). Isto se explica, em parte, pela agilidade das empresas integradoras em acertar acordos globais com os agentes financeiros responsáveis pelo Programa. Além disso, devido aos tipos de contrato firmados entre os agentes financeiros, agroindústrias e os agricultores familiares, os recursos de crédito foram utilizados, em certos casos, pelas empresas como alternativa de ampliação de seu capital de giro. de 1999, é um indicador destas contradições da máquina governamental. (Ver Correio Brasiliense, 1999). 56 Segundo Silva (1999), existe elevada similitude entre o universo dos municípios do Pronaf - Infra-estrutura e da Comunidade Solidária, cabendo um maior esforço governamental para integrar os dois programas. 57 A reforma da Previdência afetou também a aposentadoria rural, criando novos obstáculos na concessão dos benefícios aos trabalhadores do campo (Soares & Sauer, 1998). 58 Como assinala Cardoso (1997) nos últimos anos, as regiões Sul e Sudeste usaram cerca de 65% dos recursos destinados ao crédito rural, em geral. 62 Por outro lado, este “privilégio” ao Sul do país, vem se modificando ano a ano. Em 1996 a região Sul absorveu cerca de 79% do total de recursos disponibilizados, em 1997 este valor baixou para 69% aproximadamente, e em 1998, para mais ou menos 43%. A queda da participação da Região Sul deveu-se ao crescimento do Nordeste como região tomadora de crédito de investimento, que passou de 6% à 37% dos recursos em três anos. Este aumento deu-se especialmente na linha Pronaf - investimento, em que o Nordeste aplicou cerca de 77% dos recursos, sendo a maior parte resultado pela pressão dos agricultores familiares da região e pela iniciativa do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), via seu Programa de Agentes Municipais de Desenvolvimento (Silva, 1999). Cabe frisar que as linhas de crédito do Pronaf ainda carecem de instrumentos técnicos e de medidas de suporte ao Programa. Faltam, por exemplo, mecanismos (inovadores) que permitam resolver o problema da falta de garantias patrimoniais exigidas pelas instituições financeiras (Silva, 1999). Os próprios responsáveis governamentais pelo Pronaf assinalam estes estrangulamentos: a intermediação bancária na concessão do crédito é um limite objetivo a que sua base social se amplie, mas o Governo não pretende solucionar o problema criando uma agência financeira própria, que elimine o risco envolvido na concessão dos financiamentos, o que daria lugar a uma prática paternalista, que ninguém deseja, e sim estimulando a formação local e regional de organizações que podem aumentar a confiança entre os agricultores e o sistema bancário (Brasil, 1998). Se não solucionar estes entraves, o Pronaf corre o risco de se tornar mais um programa pontual, que não consegue se diferenciar de outras políticas sociais compensatórias que visam, simplesmente, reduzir as pressões oriundas de segmentos mais organizados do campo. Por não ser capaz de transformar o ambiente institucional em sua volta, estas políticas tornamse ineficazes sob o ponto de vista do desenvolvimento rural. Isto é, não conseguem alterar o conjunto de políticas oficiais, que deste modo continuam alinhadas ao setor patronal agroexportador e a um modelo de produção que leva a exclusão de milhares de agricultores familiares do campo59 (Soares & Sauer, 1998). É preciso assim, evitar a repetição de erros do 59 Esta mesma tese, de que é preciso dar maior coerência as ações públicas pode ser aplicada em relação aos programas direcionados ao meio rural pelo Banco Interamericano (BID) e pelo Banco Mundial (Bird). Alguns autores mostram que estas agências defendem reformas das políticas voltadas ao meio rural, reorientando-as aos produtores em situação “precária”. Neste sentido, o Banco Mundial afirma que o governo deveria se preocupar apenas com a miséria rural, deixando ao “mercado” a solução dos problemas econômicos da agricultura (Vilela, 1997). Ou seja, de um lado estes órgãos apoiam programas sociais e projetos com medidas de caráter compensatório, mas, de outro, eles argumentam que é preciso aumentar a “competitividade” da agricultura brasileira através de políticas que têm se mostrado, historicamente, geradoras de mais circuitos de miséria e de 63 passado em que o crédito foi concentrador em regiões, categorias de agricultores apoiados e tipos de culturas financiadas. A vontade de reverter este processo passa, entre outras medidas, por uma intervenção ativa das políticas públicas no setor, ampliando a inserção de fundos de aval e das cooperativas de crédito rural (Silva, 1999). Isto pode indicar também um caminho promissor para um modelo de cooperativismo de crédito que esteja interessado em impulsionar a agricultura familiar e o desenvolvimento local. Cabe refletir de que modo poder-se-á fortalecer o processo dentro do jogo social e econômico em que as cooperativas estão inseridas. Do mesmo modo, é importante verificar em que medida os diferentes sistemas de cooperativas de crédito estão dispostos a assumir este tipo de prioridade. Para isso, além da compreensão histórica das políticas de crédito rural no país, tornase fundamental entender melhor quais são as características do sistema financeiro na atualidade. Como um dos segmentos mais dinâmicos e expressivos da economia mundial, o setor financeiro acaba exercendo influência direta e indireta na atuação e no funcionamento das cooperativas de crédito rural, principalmente com a intensificação do seu processo de globalização. Este e outros temas serão discutidos no próximo tópico. exclusão no campo. Ocorre que, como indica Soares & Sauer (1998), as iniciativas apoiadas pelo BID e pelo Bird ao mesmo tempo que levam a modernização do setor produtivo, reforçam práticas destruidoras do meio ambiente e mantêm uma estrutura autoritária e sem a participação dos beneficiários. 64 3.2 A globalização e o Sistema Financeiro Nacional (SFN) A abertura da economia brasileira ao capital estrangeiro também chegou ao setor financeiro nacional. Este fenômeno, embora tenha se dado tardiamente em relação a outros setores da economia nacional, ganhou velocidade após a estabilidade monetária trazida pelo Plano Real. Se na década de 1980 mais de 90% dos ativos bancários do Brasil estavam nas mãos de instituições nacionais, no ano de 1999 este número cai para menos de 75%. Além disso, dezenas de instituições bancárias nacionais tornaram-se insolventes, gerando enormes custos financeiros e sociais no seu controle (Banco Central, 1999). Para se compreender as mudanças do setor financeiro nacional é preciso relacioná-las com as transformações mundiais que afetam o setor. Em primeiro lugar percebe-se que o sistema financeiro é um dos segmentos mais globalizados da economia mundial. Esta “marca” do capitalismo contemporâneo tem levado muitos cientistas sociais a direcionar seus estudos para o setor. Estes estudos objetivam ampliar a compreensão sobre o impacto do sistema financeiro na sociedade mundial. Pesquisas procuram analisar a importância econômica e social que o setor vem assumindo nas últimas décadas, como também avaliar a magnitude e as reais conseqüências que acarretam a ampliação da dependência dos demais segmentos da sociedade ao mercado financeiro. Em várias regiões fala-se nos riscos de haver uma nova crise econômica de escala mundial, causada pela instabilidade que este processo vem gerando. As sucessivas reviravoltas nas Bolsas de Valores, que abalaram as finanças de muitos países durante os últimos meses - fato especialmente grave para vários países asiáticos, para Rússia e para o próprio Brasil - espelham bem o grau desta dependência e os riscos sistêmicos em que a maior parte das sociedades capitalistas está envolvida. É preciso ter em conta que alguns fatores estão acelerando o desenvolvimento do setor financeiro em diversas regiões do mundo. A expansão da informática, o avanço tecnológico das comunicações e o processo geral de desregulamentação do setor bancário, entre outros, têm permitido a geração de produtos financeiros sofisticados. Muitos desses novos serviços financeiros, que têm criado oportunidades de negócios lucrativos aos bancos, se dá em atividades bem diferentes daquelas que, por séculos, marcaram o setor. Este processo de expansão exponencial das transações dentro do mercado financeiro faz o mundo assistir o surgimento e o desenvolvimento da chamada “economia virtual”. Impulsionada pelo capital “volátil”, dentro deste circuito eletrônico giram cifras superiores a vinte, ou até mesmo, a cinqüenta vezes ao que é transacionado pela economia real (Kurtzman, 1994). De acordo com 65 Banco Central (1997), a transformação dos mercados financeiros levou à criação de uma espécie de “moeda global” sem destino e sem vínculos com as atividades econômicas concretas. Cerca de US$ 11 trilhões circulam, incessantemente, de um lado para o outro do planeta, em busca de bons lucros. Além do mais, muitas destas organizações estão sob a tutela de administradores executivos, geralmente integrantes das “redes transcorporativas”, que não possuem mais quaisquer laços locais, tendo preferência pelos negócios de grande porte, visando obter uma rentabilidade elevada60. Para acompanhar e intervir neste novo esquema financeiro muitas empresas que atuam em outros ramos de atividades criam instituições financeiras próprias (bancos, seguradoras, etc.), ou se associam às existentes, formando novos agentes econômicos. Estas alianças levam, muitas vezes, a um redirecionamento radical nas áreas tradicionais de atuação das próprias empresas. Muitos destes grupos econômicos surgidos na globalização financeira61 acabam ocupando novos espaços e transformando a economia mundial (Gonçalves, 1996). Além do mais, a engenharia financeira cria novos produtos e sofisticados mecanismos de administrar os recursos monetários. Esta “revolução tecnológica” desafia, permanentemente, as instituições financeiras que precisam reformular-se continuamente, sob pena de perderem viabilidade econômica dentro do mercado. Ao estudar o surgimento do novo capitalismo financeiro, Alcorta (1992) afirma que este processo tem impulsionado, seja a fusão entre empresas e bancos, seja a criação de novos grupos financeiros. O autor argüi que muitos destes grupos, por contar com a participação de instituições financeiras, se transformam em agentes econômicos “superiores” dentro do mercado. Isto ocorre por que os novos agentes: a) conseguem reunir em torno de si mais capital financeiro; b) necessitam de menos capital para suas transações, pois podem explorar as sinergias e o potencial dos recursos específicos envolvidos no conjunto das empresas; c) acabam recolhendo menos impostos, por diversos mecanismos administrativos e contábeis, 60 Com a expansão dos grupos financeiros e com o processo de globalização, a função dos altos executivos no controle da maior parte das empresas é profundamente modificada, como ilustra Lasch (1995) : O movimento de dinheiro e gente cruzando as fronteiras nacionais transformou “toda noção de território”. As classes privilegiadas de Los Angeles sentem mais afinidades com seus parceiros no Japão, em Singapura e na Coréia do que com a maioria de seus compatriotas. 61 É bom frisar que este processo, que se manifesta nas políticas de fusões e de associações entre instituições financeiras, atinge também os bancos cooperativos de diferentes países. No caso do Crédit Agricole da França estes processos estão em pleno andamento, tanto no mercado interno quanto no exterior. Depois da compra Banco Indusuez, o Crédit Agricole assumiu participações em dois bancos Italianos. Em outros países da América Latina, o Crédit Agricole também está presente: Na Argentina, ele já controla 65% do banco Bisel - que atua na região norte do país, no Chile ele possui 18% do capital do Banco de Desarrollo, no Uruguai detém 30% do Banco Acac (com 30 agências) e, finalmente, no Brasil adquiriu, recentemente, 38% do Banco Boavista (Gazeta Mercantil, 19996). 66 que muitas vezes escapam do poder de regulamentação e fiscalização do Estado (Alcorta, 1992). Pesquisas nesta mesma direção (Minella, 1988 e Minella, 1993) mostram o comportamento ativo das associações de banqueiros na condução das políticas do setor financeiro brasileiro. Além do mais, as articulações do setor financeiro com as demais empresas no país levam, muitas vezes, à criação de pequenas instituições bancárias, mais adaptadas às brechas da legislação permitindo a estas empresas “driblar” a fiscalização e ampliar seus lucros. É inegável que o processo de transformação por que passa o setor financeiro está modificando o ofício dos bancos na sociedade. As conseqüências deste processo, além de alterar especificamente o setor, acabam atingindo a população em geral. Pois, com as mudanças em seu papel, os banqueiros: ...abandonaram uma parte de seu trabalho tradicional(...) não desejam financiar mais os pequenos projetos [e] procuram fugir dos pequenos clientes. Eles não querem mais assumir os riscos sobre a criação de empresas. Eles ignoram, além do mais, a iniciativa econômica que se manifesta na fronteira entre o “mundo dos negócios” tradicional, o serviço social e o serviço público. Eles estimam que os riscos de perda são muito importantes; eles constatam (...) que os custos de transação são muito mais elevados que dentro de outros domínios de atividade. Então eles preferem abandonar una franja de seus clientes e seus negócios, e se concentrar sobre as novas atividades muito mais rentáveis, como a gestão de ativos (Granger & Inaise, 1998). Estas estratégias dos banqueiros, muitas vezes se expressam no controle geral do Sistema Financeiro Nacional (SFN), transformando-o num espaço de disputas entre os grupos econômicos e outros conflitos de interesse. Não se pode esquecer que é neste ambiente que se decidem os rumos do cooperativismo de crédito. Atualmente o SFN é controlado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), tendo como órgãos de apoio no processo de regulação e fiscalização o Banco Central (BCB), a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Superintendência de Seguros Privados (Susep) e a Secretária de Previdência Complementar. Conforme pode ser observado no Quadro 12 as instituições financeiras estão agrupadas em seis blocos, divididos de acordo com suas principais atividades. Percebe-se que as cooperativas integram o bloco das instituições captadoras de depósitos a vista: 67 Quadro 12 - Composição do Sistema Financeiro Nacional (SFN) Modalidades Instituições Financeiras Captadoras de Depósitos à Vista Demais Instituições Financeiras Tipos de Instituições Bancos Múltiplos com Carteira Comercial Bancos Comerciais Caixas Econômicas Cooperativas de Crédito Bancos Múltiplos sem Carteira Comercial Bancos de Investimentos Bancos de Desenvolvimento Sociedades de Crédito, Financiamento e Investimento Outros Intermediários ou Auxiliares Financeiros Entidades Ligadas aos Sistemas de Previdência e Seguros Entidades Administradoras de Recursos de Terceiros Sistemas de Liquidação e Custódia Sociedades de Crédito Imobiliário Companhias Hipotecárias Associações de Poupança e Empréstimo Bolsas de Mercadorias e de Futuros Bolsas de Valores Sociedades Corretoras de Títulos e Valores Mobiliários Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários Sociedades de Arrendamento Mercantil Sociedades Corretoras de Câmbio Agentes Autônomos de Investimento Entidades Fechadas de Previdência Privada Entidades Abertas de Previdência Privada Sociedades Seguradoras Sociedades de Capitalização Sociedades Administradoras de Seguro-Saúde Fundos Mútuos Clubes de Investimentos Carteiras de Investidores Estrangeiros Administradoras de Consórcios Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip) Caixas de Liquidação e Custódia Órgãos de Regulação e Fiscalização BCB * BCB BCB BCB BCB BCB e CVM** BCB BCB BCB BCB BCB BCB e CVM CVM BCB e CVM BCB e CVM BCB BCB BCB e CVM SPC SUSEP SUSEP SUSEP SUSEP BCB e CVM CVM BCB e CVM BCB BCB BCB CVM Fonte: Banco Central (1999) Note-se que o Governo Federal, apesar de se mostrar no centro das decisões do SFN, acaba sofrendo a pressão constante dos grupos privados mais articulados. Um exemplo desse processo de embate se dá em torno da regulamentação do Artigo 192 da Constituição Federal62, o qual prevê que o Congresso Nacional aprovará uma nova legislação, estabelecendo parâmetros de funcionamento das instituições que integram o SFN (inclusive das cooperativas de crédito). O processo de regulamentação deste dispositivo está há vários anos nas mãos de uma Comissão de Deputados Federais, especialmente criada para examinar os diferentes projetos 62 Promulgada em 05.10.88, portanto há 10 anos. 68 que versam sobre o assunto. Entretanto, nota-se que esta lentidão para aprovar a regulamentação não ocorre por acaso. Fala-se tanto no desinteresse do governo em criar mecanismos mais transparentes para o controle do sistema, quanto no lobby de algumas instituições financeiras, que preferem que o processo de regulamentação não se conclua tão cedo63. Um dos textos mais debatidos na referida Comissão é um Substitutivo ao Projeto n. 47 de 1991, apresentado pelo Deputado Relator Saulo Queiroz (Câmara dos Deputados, 1997). O art. 78 deste Substitutivo trata especificamente do funcionamento das cooperativas de crédito. Ele mantém pontos polêmicos, como o que autoriza as cooperativas efetuar operações de crédito apenas com seus associados, e não à toda a população como é o desejo dos bancos cooperativos (art. 78, inciso III). O projeto também não faz distinção entre cooperativas de crédito “rural” e “mútuo”, o que poderia representar uma abertura para o Conselho Monetário Nacional autorizar a associação tanto de residentes do meio urbano quanto do meio rural na mesma cooperativa. Além disso, o referido Substituto não trata dos bancos cooperativos, ponto que certamente deverá ser incluído no texto final64. Como se viu, a globalização financeira e outros fatores vem acarretando uma série de transformações nas funções tradicionais dos bancos. Ao lado desse processo ganham destaque os programas de microfinanciamentos. Em muitos locais estes programas estão estruturandose como uma resposta aos problemas verificados nos sistemas financeiros convencionais. As possíveis relações entre os programas de microfinanciamentos e o cooperativismo de crédito serão discutidas em seguida. 63 Ver mais a respeito desta estratégia, que envolve a chamada “teoria da não-decisão”, em Neiva (1995). Além dos projetos que visam regulamentar o art. 192 da Lei Magna, existem outras iniciativas de deputados no sentido de criar leis, especificamente voltadas às cooperativas de crédito. Basicamente, estes projetos visam criar fundos de apoio às cooperativas e permitir maior liberdade ao setor. O Deputado Coralino Sales (PDT BA) - um dos parlamentares que mais discute o tema do cooperativismo de crédito no Congresso Nacional - já apresentou diversos Projetos de Lei sobre a questão. Um deles propõe a criação de um Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (Projeto de Lei n. 153/97). Em outro projeto ele procura oferecer maior liberdade de atuação às cooperativas de crédito, incluindo a possibilidade delas administrarem fundos públicos (Projeto de Lei n. 159/97). Noutro, o Deputado sugere a criação de um Fundo Nacional Garantidor de Depósito direcionado às cooperativas de crédito, visto que as mesmas não participam do fundo já existente junto aos bancos comerciais (Projeto de Lei 154/97). Nenhum dos projetos citados foi ainda aprovado. 64 69 3.3 Os microfinanciamentos e o cooperativismo de crédito Assim como no passado se descrevia o camponês europeu como o homem sem nenhum poder, hoje se pode definir o pobre como aquele que não tem acesso algum aos bancos (Rubens Ricúpero) Os sistemas de microfinanciamentos são um dos instrumentos associados às políticas de desenvolvimento que mais crescem em todo mundo65. Em sua nova versão, eles surgiram em reação às disfunções e às debilidades das instituições financeiras centralizadas e fortemente subvencionadas (Lapenu & Wampfler, 1997), que vêm se mostrando incapazes de gerenciar programas sociais de combate a miséria, tanto de populações das zonas rurais como de moradores de centros urbanos. Vale frisar que as cooperativas de crédito dos países desenvolvidos foram as primeiras a atuar com a gestão de pequenos financiamentos. Todavia, com o passar dos anos eles tornaram-se raros até mesmo junto a estas entidades. Mesmo nas cooperativas de crédito dos países pobres são poucas as experiências bem sucedidas neste ramo66. Os programas de pequenos créditos assumem novas roupagens e ganham novos atores na atualidade. Em certas localidades, se anteriormente os pobres eram contemplados apenas por programas de caráter beneficente, agora eles podem “participar” do mercado financeiro, via as agências de microcrédito. As experiências com microfinanciamento ganharam maior destaque a partir da experiência do Grameen Bank de Bangladesh e da conferência The Microcredit Summit, ocorrida em Washington em fevereiro de 1997. Esta reunião, promovida pela ONU, pelo Banco Mundial e por outras instituições multilaterais, da qual participaram mais de dois mil representantes de todos continentes, discutiu o papel do microcrédito como peça central na 65 Segundo Gentil & Nieuwkerk (1998) os microfinanciamentos se definem por dois critérios: o atendimento de uma população relativamente pobre, normalmente excluída do sistema bancário clássico e a realização de operações de poupança e de crédito com quantias pequenas (em torno de U$ 1.000,00). Cabe destacar que os programas de microcrédito no Brasil geralmente trabalham com tetos um pouco superiores (em torno de R$ 5.000,00). 66 Lapenu & Wampfler (1997) descrevem uma variante dos sistemas mutualistas desenvolvidos em Mali e Burkina-Faso (África). São as caixas villageoises de poupança e de crédito autogeridas. Elas funcionaram na escala rural, autogeridas pelos agricultores (villageons). Baseiam-se em parte com apoio de voluntários e de assalariados locais, o que limita seus custos de funcionamento. A autonomia das unidades de base é preservada fazendo que os trabalhos de intermediação sejam limitados a escala de uma vila ou de uma pequena zona. Cabe frisar ainda, segundo os autores, que as caixas têm recursos de financiamentos dos bancos nacionais devido à debilidade da poupança local. As caixas e as associações de segundo grau são apoiadas via outras organizações em serviços como controle, de aconselhamento, de formação, etc. 70 erradicação da pobreza mundial. Em seu preâmbulo, o documento preparatório da Conferência destacava que o movimento de microfinanciamento pretendia levar, até 2005, recursos de microcrédito para, aproximadamente, 100 milhões de famílias pobres em todo o planeta, sendo destinado grande parte especialmente às mulheres (Microcredit Summit, 1996). O modelo de caução solidária desenvolvido pelo Grameen Bank fez a entidade tornarse uma organização de grande porte e estar presente em 37 mil aldeias das 68 mil de Bangladesh. Em suas 1.100 agências, os 12 mil funcionários emprestam, em média, US$ 160,00 por contrato. Apesar de praticar taxas de 20% ao ano (taxa real), possui 2,2 milhões de clientes (94% de mulheres), que tomam mais de U$ 2 bilhões emprestados. Os beneficiários conseguem o suficiente para comprar animais, sementes e outros objetos de primeira necessidade ou para pequenos negócios (Ricúpero, 19982). O debate sobre a replicabilidade do Grameen Bank está em voga. Existem análises indicando que o sucesso da experiência deveu-se a fatores específicos como a forte densidade populacional, a oferta de mão de obra qualificada e pouco custosa sobre o mercado do trabalho e o acesso a fundos nacionais ou internacionais de boa qualidade (Lapenu & Wampfler, 1997). Todavia, com ou sem adaptações, o êxito da experiência de Bangladesh despertou o interesse mundial sobre si e sobre outras experiências similares. Estas iniciativas estão atualmente espalhadas pela própria Ásia, América do Sul, África e até mesmo pelos países desenvolvidos da Europa - como a França (Lapenu & Wampfler, 1997), e Estados Unidos, fazendo com que já existam mais de 7 mil microbancos em 60 países, gerando milhões de postos de trabalho (Ricúpero, 19982). Constata-se que as diferentes experiências de microfinanciamento estão formando diferentes linhas de atuação e de pensamento sobre o tema. De um lado, há um grupo de programas de microfinanças que se organizam em torno da idéia de que “pobre também pode e deve ter acesso ao crédito” para sair da linha de exclusão social; discute-se neste campo se o crédito é um simples instrumento a serviço de outras iniciativas de desenvolvimento ou se é preciso pensar como organizar sistemas financeiros permanentes (Gentil & Nieuwkerk, 1998). Por outro lado, percebe-se a criação de programas de microcrédito patrocinados por segmentos que já atuam no setor de crédito bancário. Este interesse se deve ao sucesso comprovado da metodologia da caução solidária, como forma de garantir os créditos. Estas experiências mostraram que, contrariando o pensamento econômico tradicional, existem boas possibilidades de trabalhar com crédito junto às camadas mais carentes da população. Isto reforçou a tese que “emprestar para pobre pode ser um bom negócio”. Assim, algumas 71 instituições bancárias privadas e públicas vislumbraram uma nova oportunidade comercial no uso do microcrédito. Sabe-se, inclusive, que alguns desses bancos estão apresentando resultados muito positivos, sob o ponto de vista financeiro (Ricúpero, 19981)67.. O crescimento dos programas de microfinanciamento já leva, inclusive, a criação de uma “concorrência” por este “segmento de mercado”. Nestes casos, muitas vezes os créditos concedidos adquirem finalidades essencialmente comerciais, pois as instituições apresentam pequena preocupação com as conseqüências socioeconômicas dos seus financiamentos68. Em alguns países, os sistemas bancários públicos voltados ao desenvolvimento também têm investido nos microfinanciamentos, incorporando as lições trazidas por instituições como o Grameen Bank e em cima de seus próprios erros69. Este sistemas sob novas bases demonstram que mesmo dentro de estruturas bancárias clássicas foi possível estabelecer serviços financeiros aos micro-empresários em países em desenvolvimento. Estas novas estruturas bancárias se baseiam em geral por uma estrutura simples, onde as unidades de base funcionam de maneira relativamente autônoma e responsável como centro gerador de benefícios. Seus clientes são incitados a agir em favor da instituição (interessados nos resultados, estímulos para o pagamento dos créditos, poupança...) (Lapenu & Wampfler, 1997). Oportuno frisar também que, durante os anos 1970 e 1980, uma modalidade de microcrédito, chamada de fundo rotativo, obteve certo destaque em algumas regiões rurais do Brasil. Esta modalidade previa que após a devolução dos primeiros contratos, os recursos eram re-emprestados à outros tomadores, criando um processo contínuo. Normalmente, os fundos rotativos eram administrados por ongs ligadas ao setor rural, que atuavam em parceria com entidades representativas dos tomadores do crédito. Eles funcionavam com recursos oriundos de agências financiadoras do exterior ou de ongs de âmbito nacional. Segundo Oliveira (1997) estes fundos se caracterizam como: ...uma experiência muito interessante tanto pela possibilidade de capitalização do pequeno produtor, quanto pela facilidade de acesso 67 A experiência do Kaunlaran Agricultural das Filipinas demonstra este sucesso. Especializado em microcrédito, o banco apresentou um lucro líquido de US$ 294 mil sobre as aplicações de US$ 1,6 milhão, com empréstimos médios de US$ 604,00 por cem dias, com juros de 10%. A taxa de reembolso também é muita elevada: 99,6% (Ricúpero, 19981). Outra experiência bem sucedida de gestão bancária voltada ao microfinanciamento vem dos bancos rurais privados da Indonésia. Aproveitando-se de brechas legais e mostrando forte poder de organização mais de 900 bancos rurais privados foram criados entre 1988 e 1994 naquele país. Para sobreviver, estes bancos adotaram uma política conservadora de distribuição de créditos e mobilizaram fortemente a poupança local. 68 É o caso das linhas de crédito da financeira Fininvest localizadas nas favelas do Rio de Janeiro. 69 Equívocos que levaram a liquidação de um grande número de instituições bancárias estatais e privadas voltadas ao desenvolvimento rural, durante os anos 1970 e 1980. 72 deste a um crédito alternativo, quanto pela possibilidade de capacitação que se estabelece através desse contato mais direto com o processo de financiamento inclusive com o uso de mecanismos que facilitam o entendimento do processo no seu conjunto e do acompanhamento da correção desses recursos através da paridade com um produto da região, o que se convencionou chamar de correção pela equivalência produto. Dessa forma, o produtor tem como planejar o pagamento da sua dívida. Todavia, apesar de alguns exemplos positivos, a maioria dos programas de fundos rotativa existentes naufragou no Brasil. Estes insucessos se deram por diferentes razões. Entre elas estava a alta inflação, que complicava a manutenção do recursos e a falta de um gerenciamento eficiente, já que os fundos eram, geralmente, administrados por entidades sem vocação na área financeira. Em função de seus problemas em algumas regiões, os organizadores dos fundos rotativos resolveram optar pela criação de cooperativas de crédito, como uma forma de atuar mais “profissionalmente” no setor. Este foi o caso de algumas credis “alternativas” de Santa Catarina e a Cresol do Paraná. Nos últimos anos surgiram no Brasil novas experiências de microcrédito que se tornaram conhecidas como “bancos do povo”. Dispondo, geralmente, do apoio de Administrações municipais, estas organizações estão se desenvolvendo, principalmente, em grandes centros urbanos. Através de um sistema de atendimento do tipo “balcão”, a população dispõe, de maneira desburocratizada e relativamente rápida, de pequenos empréstimos para apoiar seus negócios. Os emprestadores pagam juros de mercado. São taxas altas, mas que estão abaixo daquelas cobradas por agiotas, que eram, na maioria das vezes, a sua única fonte para pequenos empréstimos. Já existem experiências de microcrédito sendo introduzidas pelas prefeituras dos municípios de Juiz de Fora (MG), Londrina (PR), Blumenau (SC) e Porto Alegre (RS), entre outras. O governo do estado de São Paulo pretende abrir até o final de 1999 cerca de 40 agências, em parcerias com prefeituras do interior que devem participar com 10% dos recursos. Na prática as agências paulistas funcionam como uma ong e cobram atualmente juros de 1% ao mês, destinando linhas de crédito de até R$ 5 mil para pessoas físicas e jurídicas, e de até R$ 25 mil para cooperativas (Gazeta Mercantil, 19994). O Portosol, criado em Porto Alegre em 1996, já emprestou até o início de 1998 cerca de R$ 7,24 milhões para 4.559 clientes. Depois de alguns ajustes, a carteira ativa foi reduzida para pouco mais de 1.500 beneficiários, que já tomaram R$1,7 milhão, com 4,5% de inadimplência (Gazeta Mercantil, 19994). Em 1997, o Governo Federal criou através de iniciativa do Programa Comunidade 73 Solidária e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes), um fundo de microcrédito. O Programa de Crédito Produtivo divide-se em duas vertentes: o Bndes Trabalhador, que pretende apoiar estados e municípios que desejem criar um fundo especial de desenvolvimento, e o Bndes Solidário, que visa apoiar ongs que estejam dedicadas ao crédito popular produtivo. Deve-se salientar que devido às exigências burocráticas e às altas taxas de juros praticadas, estas iniciativas ainda não ganharam expressão junto as ongs populares. Elas estão sendo mais acionadas no momento por estruturas maiores, como os bancos do povo, criados pelos órgãos públicos. Note-se que a maioria dos novos programas brasileira de microcrédito está concentrando-se nos meios urbanos. Uma das raras experiências de atuação no meio rural é a do Centro Ecumênico de Apoio ao Desenvolvimento (Ceade), ligado ao Conselho Mundial das Igrejas e localizado na cidade de Salvador (BA), mas com atuação em todo país. Sua ação se dá, em geral, em colaboração com outras organizações. No Sul do país, o Cepagro (e sua rede de parceiros) é o seu principal interlocutor. Fruto desta experiência, já foram aprovados vários projetos de grupos de Santa Catarina (ver o Quadro 13). 74 Quadro 13 - Projetos de Santa Catarina aprovados pelo Ceade Organização Crediquilombo Credicaru Município Quilombo Objetivo do Projeto Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de matrizes leiteira e açudes Ano 1993 Valor (R$) 4.558,00 1995 4.685,00 1995 4.685,00 1996 4.700,00 1996 4.850,00 1996 5.000,00 Compra de equipamentos de costura 1996 5.000,00 Saudades Capital de Giro para criação de suínos 1996 4.800,00 Serra Alta Capital de giro para produção de laticínios 1996 4.500,00 Quilombo Otacílio Costa Financiamento de cotas partes dos associados Capital de giro produção de leite pasteurizado 1997 1997 35.000,00 10.000,00 Urupema Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Financiamento de cotas partes dos associados Capital de custeio administrativo Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de materiais Compra de Barracão para o Conselho Comunitário do Cedro Compra de Barracão para o Conselho Comunitário do Cedrinho Compra de Barracão para o Conselho Comunitário da sede Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Compra de equipamento para comercialização alternativa Compra de equipamentos para estruturação da Cooperativa Capital de Giro para confecção Compra de novos equipamentos para estruturação da Cooperativa 1997 6.700,00 1997 10.000,00 1997 1997 1997 10.000,00 10.000,00 6.700,00 1997 1998 10.000,00 10.000,00 1998 10.000,00 1998 10.000,00 1998 5.100,00 1998 6.000,00 1998 8.000,00 1998 1988 5.000,00 9.150,00 Credicanoas São José do Cerrito Abdon Batista Crediluz Aberlado Luz Credicontestado Curitibanos Grupo Baptistella Dionísio Cerqueira Saudades Fábrica rural de Jeans Assoc. Sempre Unidos Grupo Tena Confecções Crediquilombo Assoc. Agrícola Otacílio Costa Crediserra Valcredi Passos Maia Crediluz Centro Vianei Crediaraucária Aberlado Luz Lages Urubici Cooperfamiliar Conselho Comunitário Conselho Comunitário Conselho Comunitário Trentocredi Chapecó Urupema Nova Trento Assoc. Sto. Antônio dos Pinhos Credineve São José do Cerrito São Joaquim Indústria Piu Bello Crediserra Quilombo Urupema Urupema Urupema Total Fonte: Cepagro, adaptado pelo autor 204.428,00 Convém mencionar que no Brasil o valor médio dos empréstimos efetuados pelos programas de microcrédito assemelha-se aos patamares defendidos pelos pequenos agricultores em suas campanhas reivindicatórias, junto ao programas oficiais de crédito rural 75 oficial70. A diferença existente está, principalmente, nas taxas de juros praticadas. Enquanto nos programas de microcrédito urbanos os índices variam de 1% a 5% ao mês, nos programas oficias, como o Pronaf-custeio estas taxa estão no momento em 5,75% ao ano. Por isso, é possível se associar de algum modo a luta dos agricultores familiares por mais crédito rural à luta por mais recursos de microcrédito. Essa consideração adquire maior clareza quando se imagina o papel que podem assumir as credis para melhorar a gestão financeira destes programas. Todavia, constata-se que apesar das possibilidades abertas com os novos programas de microcrédito e as experiências das cooperativas de crédito rural voltadas aos agricultores familiares, este processo ainda não conseguiu estabelecer uma mentalidade diferente no país, ampliando as perspectivas de emprego em larga escala dessas novas formas de financiamento71. Em Santa Catarina, algumas entidades que atuam na área do apoio financeiro procuraram identificar as causas principais das dificuldades de se popularizar o crédito (ver Quadro 14 ). Percebe-se que, geralmente, os problemas ligados ao crédito estão relacionados ao distanciamento existente entre as necessidades e capacidade de pagamento dos tomadores e as estruturas dos agentes financeiros (mesmo quando estas são organizações públicas como, por exemplo, os bancos de desenvolvimento). É preciso ter em conta neste ponto as observações de Lapenu & Wampfler (1997) distinguindo os sistemas de microfinanciamentos “descentralizados”, dos sistemas de “proximidade”, também bastante discutido na atualidade. Para os referidos autores, o primeiro ocorre em situações em que as instituições financeiras (privadas, sobretudo) pulverizam suas ações sobre a população alvo, através de estratégias comerciais clássicas (exigência de garantias materiais nos créditos, uso de taxas de juros do mercado, etc.). Já os sistemas de proximidade procuram atender as populações excluídas das formas tradicionais de financiamento, adaptando-se às necessidades e às capacidades de seus “clientes”. Na verdade, estes programas podem ser baseados em princípios mutualistas (cooperativistas), de caução solidária ou até mesmo “bancário”, mas eles são conhecidos pela “proximidade” geográfica, temporal e social com seu público, pela liberdade de utilização dos 70 Segundo Silva (1999), as médias nacionais dos contratos concedidos no Pronaf-custeio e no Pronafinvestimento, por exemplo, não ultrapassaram, em 1998, a R$ 2.100,00 (dois mil e cem reais) e a R$ 5.400,00 (cinco mil e quatrocentos reais) respectivamente. 71 Cogitou-se que o Pronaf criaria uma nova linha de financiamento destinada ao microcrédito. Esta nova linha seria incluída no Plano de Safra 1999/2000. No primeiro ano, esta linha de crédito estaria a disposição dos agricultores familiares nordestinos com menor renda e poderia ser aplicado em qualquer atividade de interesse do tomador. Esta proposta acabou não sendo incluída no lançamento do referido Plano, em junho de 1999. 76 fundos em fins produtivos, pela simplicidade dos procedimentos para liberar crédito, o uso de novas formas de garantias (caução solidária, poupança prévia,...), e pela vontade de se responder de forma duradoura às demandas ao mesmo tempo em que se busca atingir pouco a pouco seu equilíbrio financeiro. Quadro 14 - Principais dificuldades entre os tomadores de crédito e o setor financeiro Linhas de crédito não contemplam as necessidades reais dos tomadores; Ausência de programas de micro crédito; Instituições financeiras pouco sensíveis as necessidades; Falta de linhas de crédito permanentes; As análise de solicitações crédito são baseadas na ótica do lucro, que permeia a cultura do sistema financeiro; Dificuldades operacionais dos agentes financeiros; Distância (geográfica) entre os tomadores e as fontes de crédito; Restrições setoriais por parte dos agentes, dificultam a obtenção de crédito para determinadas atividades; Custos operacionais elevados para lidar com pequenos empréstimos; Descompasso entre os prazos e condições existentes nas linhas de crédito e as atividades financiadas; Despreparo dos tomadores em lidar com o crédito; Gestão e acompanhamento insuficientes nos empreendimentos; Falta de articulação em programas de crédito e de capacitação; e Mentalidade individualista dos tomadores. Fonte : Fórum Catarinense de Desenvolvimento (1997), adaptado pelo autor. Uma constatação importante que os diferentes programas de microfinanciamento voltados ao desenvolvimento estejam demonstrando é que “não existem soluções ideais ou modelos definitivos”, que possam ser reaplicados diretamente em outras regiões. Pode-se identificar, todavia, certos aspectos que estão se tornando freqüentes nas iniciativas em curso. Neste sentido, apoiando-se nos estudos de Gentil & Nieuwkerk (1998) e nas experiências brasileiras, pode-se apontar alguns elementos que têm marcado as discussões sobre as perspectivas dos programas de microfinanciamentos: a) Cresce a importância da poupança: a experiência internacional tem demonstrado que a fórmula de associar os empréstimos concedidos com medidas de recolhimento de fundos próprios (poupança), traz maior segurança e liquidez aos sistemas e, para certas camadas da população, exerce função educativa. Recorde-se que pela legislação brasileira somente os bancos e as cooperativas de crédito são autorizadas a recolher depósitos. Isto pode ser uma poderosa arma para segurar os recursos econômicos de uma região, principalmente dentro do contexto atual de globalização e transferência do capital financeiro. Deve-se salientar que o fraco desempenho de certos programas de crédito ocorre, porque eles estão baseados essencialmente em recursos exógenos. Gentil & Fournier (s/d) argumentam que uma das principais razões para o insucesso é que o dinheiro que vem do exterior é um dinheiro 77 “frio”. Por isso que os reembolsos deixam, as vezes, a desejar. Ou seja, como os tomadores não possuem responsabilidade durante a captação do dinheiro, desconhecendo muitas vezes a sua origem, a pressão “moral” para o pagamento dos empréstimos é menor do que naquelas situações em que os recursos são “quentes”, pois são oriundos da poupança local. Com o dinheiro “frio”, segundo os mesmos autores, aumentam as chances do não reembolso e deste comportamento tornar-se rapidamente “contagioso”, fazendo fracassar as iniciativas; b) A expansão das garantias não materiais: as experiências bem sucedidas de aval solidário utilizado pelo Grameen Bank e por outros bancos populares reforçaram as vantagens de se emprestar para grupos nos quais valores éticos e de honradez entram em cena. As experiências solidárias dentro das credis “alternativas” e os fundos de aval criados em alguns municípios, para viabilizar mais recursos dentro do Pronaf, reforçam esta tendência; c) Os pobres podem tornar-se um “bom risco”: como se viu na experiência de Bangladesh, é possível obter taxas de reembolso de 98% dos pequenos empréstimos quando se trabalha com técnicas sociais e bancárias adaptadas ao atendimento do público mais pobre; d) A descoberta do setor financeiro informal: embora a agiotagem (com suas conseqüências negativas para a sociedade) seja uma “instituição” de longa data, consolidamse fórmulas mais éticas de trabalhar com crédito e poupança junto às camadas de pequenos emprestadores e de pequenos poupadores afastados do mercado financeiro formal. No Brasil pode-se citar, como exemplos neste sentido, a experiência das “caixas”72, usadas para obtenção de capital de giro, os fundos rotativos rurais, entre outros. Em países em que o mercado financeiro é menos regulamentado que no Brasil, nota-se a existência de um grande número de mecanismos de financiamento informal. Pode-se citar nesta linha as tontines73, os guardas moedas, as caixas de solidariedade, os banqueiros ambulantes74, entre outros; 72 Mecanismo encontrado por pequenos comerciantes da cidade de Salvador, na qual um grupo de quatro ou cinco vizinhos de uma mesma feira empresta recursos entre si para formar a cada dia um “caixa”. Com o dinheiro disponível cada membro pode adquirir, de forma rotativa, uma quantidade maior de mercadorias e por um melhor preço. 73 As tontines africanas funcionam dentro dos mesmos princípios do que as caixas de Salvador, embora sejam mais antigas e um pouco mais complexas. Nas tontines os recursos depositados podem ser empregados para diferentes finalidades, o que não ocorre nas caixas que são destinadas exclusivamente para a ampliação de capital de giro. 74 Os banqueiros ambulantes são encontrados em países da África e da Ásia. Os depositantes (normalmente pequenos comerciantes informais) fazem um acordo com uma pessoa (o banqueiro) para que este recolha diariamente uma quantia pré-determinada de seu dinheiro. Ao final de um período, o poupador recebe os recursos depositados menos o valor de uma comissão já estipulada (3% ao mês), que fica para o “banqueiro”. As vantagens são a segurança e a comodidade para quem não têm acesso aos bancos tradicionais. Os banqueiros ambulantes se consolidam na medida que transmitem responsabilidade e segurança aos depositantes no manejo de recursos a eles confiados. Funcionam ao contrário de um banco convencional, pois a pessoa “paga” para poupar, quebrando a concepção tradicional do pensamento econômico de que a taxa de juros é a única forma de 78 e) A ampliação dos objetivos do crédito e do público: percebe-se que se modificam as necessidades de microcrédito na sociedade. Isto ocorre tanto em função das novas relações que se estabelecem entre o meio rural e o setor urbano como pelas transformações das atividades exercidas pelos habitantes das zonas rurais (que passam a exercer pluriatividades agrícolas e não agrícolas). Torna-se cada vez mais importante, quando se pensa em desenvolver as pequenas comunidades do interior, que o crédito disponível seja menos “agrícola” para se transformar cada vez mais em crédito “rural”; f) Aumenta o debate sobre a viabilidade e perenidade dos programas de crédito: cresce a constatação de que os serviços financeiros colocados à disposição das populações precisam ter qualidade, estar adaptados às suas necessidades e ser estruturado para que funcione de forma permanente. Por isso, as instituições que atuam no setor precisam ter uma vocação perene e ser regulamentadas por políticas governamentais de proteção e de controle. Como se viu, o teor deste capítulo procurou mostrar a trajetória do Sistema Nacional de Crédito Rural e de outros mecanismos públicos de financiamento rural. Observou-se que, historicamente, as políticas públicas de crédito favoreceram à exclusão dos agricultores familiares. Se o Pronaf vem se apresentando como um programa promissor em termos de desenvolvimento rural, uma das suas debilidades ainda reside na falta de mais instâncias financeiras locais, como as credis, comprometidas com a proposta. Estas dificuldades ampliaram-se com o recente processo de globalização financeira observado no país e em todo mundo. Procurou-se frisar também que ao lado deste processo de internacionalização do sistema financeiro mundial, constata-se o crescimento de programas de microfinanciamento destinados às camadas mais carentes da população. Por fim, verificou-se que, no Brasil, os microfinanciamentos têm se desenvolvido principalmente nos grandes conglomerados urbanos. Nota-se a existência de poucas experiências de microcrédito direcionados ao meio rural. Certamente, os elementos acima nortearão as futuras reflexões dos que pretendem associar programas de desenvolvimento rural com a participação das cooperativas de crédito. Este é o tema que se discutirá na seção seguinte. se estabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda financeira. Ver a respeito, entre outros, Gentil & Fournier (s/d) e Gentil & Nieuwkerk (1998). 79 4 O desenvolvimento rural e as cooperativas de crédito A análise sobre o potencial das cooperativas de crédito nos processos de desenvolvimento rural pressupõe uma avaliação sobre a dinâmica que afeta o meio rural e a agricultura dentro da sociedade. Nesta parte do trabalho, primeiramente é efetuada uma reflexão sobre os aspectos que estão condicionando o desenvolvimento da agricultura e do espaço rural na atualidade. Em seguida discorre-se sobre fatores que interferem no ambiente interno e externo das credis, bem como a ação dos bancos cooperativos. 4.1 Novas funções do espaço rural e da agricultura O primeiro aspecto está relacionado às causas do insucesso de muitos programas de desenvolvimento rural. Como frisam vários autores (Yaron & Benjamim, 1997, Veiga 1991 e Graziano da Silva, 1997), o desenvolvimento rural tem sido retardado em quase todos os países em desenvolvimento pela adoção de políticas que privilegiam à indústria frente à agricultura e as áreas urbanas frente às rurais. Os investimentos públicos que favorecem as áreas urbanas são os mais conhecidos e largamente difundidos nestes países, pois o desenvolvimento foi (e ainda é) visto como sinônimo de rápida industrialização. Além do mais, muitos governos sucumbiram às pressões articuladas das populações urbanas e reduziram sistematicamente os preços dos alimentos, o que acabou deprimindo a renda do meio rural e dificultando o seu desenvolvimento75. Esta ótica fragmentada ou parcial dos problemas do campo, também conhecida como viés urbano do desenvolvimento (Abramovay, 1998), vem deixando grande parte das populações rurais sem opções econômicas e sem a valorização de sua cultura. Isto acabou reforçando a pobreza rural, mesmo em regiões onde a produção e a produtividade agrícola cresceram. Dentro desta lógica, o “viés urbano” das políticas públicas apóiam-se de maneira geral em oito pilares, a saber: 1) taxas de câmbios sobrevalorizada; 2) preços baixos, controlados e sem variação sazonal para os produtos agrícolas; 3) elevadas taxas de proteção para a indústria interna, cuja produção é usada como 75 Como assinala (Souza, 1997) no processo de desenvolvimento econômico, a agricultura transfere renda aos demais setores da economia. Ela gera produções crescentes para alimentar a também crescente população urbana, a preços declinantes. Dada esta característica inexorável, os países desenvolvidos desde a década de 1950, promovem ações que transferem renda para o setor rural, o que minimiza os efeitos desta tendência e oferece uma certa sustentação à renda agrícola. 80 insumos agrícolas; 4) impostos excessivos sobre as exportações agrícolas; 5) alocações orçamentárias desproporcionalmente altas para a infra-estrutura urbana, em prejuízo da rural; 6) investimentos desproporcionalmente alto em recursos humanos ( por exemplo, saúde e educação ) nas áreas urbanas, em prejuízo daquelas rurais; 7) legislação sobre a usura que impossibilita os tipos de empréstimos pequenos, arriscados e de alto custo que são típicos das áreas rurais; e 8) disposições legais e regulamentadoras sobre títulos de propriedade e garantia para ativos típicos rurais (terra, safra, e implementos agrícolas) subdesenvolvidas em relação àquelas sobre os ativos urbanos (carros, outros bens duráveis e casas) (Yaron & Benjamin, 1997). Outro aspecto importante na abordagem sobre o desenvolvimento rural na atualidade está relacionado às novas definições sobre o que se entende por “meio rural”. Diversos autores (Carneiro, 1997; Graziano da Silva, 1997; Wanderley, 1994 e Wanderley, 1997) destacam que, mais do que o aspecto geográfico é necessário somar aspectos jurídicos, sociais e culturais para distinguir o que é exatamente um setor “rural” ou “urbano” na sociedade. Nos Estados Unidos, por exemplo, é rural o que não reside em aglomerado com mais de 10 mil habitantes ou nos limites externos de uma cidade de mais de 50 mil com uma densidade populacional inferior a 100 habitantes por milha quadrada. Na Alemanha, as áreas rurais são aquelas que têm uma densidade inferior a 100 habitantes por km2. Na França, a população rural engloba todos os habitantes das pequenas aglomerações, quaisquer que sejam as atividades que exerçam. No Brasil é urbano quem habita as sedes urbanas dos municípios, independentemente do tamanho destas e das profissões desempenhadas (Wanderley, 1994). Um terceiro aspecto que precisa ser analisado é o freqüente equívoco de vincular o meio rural exclusivamente à atividade primária (agricultura e pecuária). Esta visão precisa ser modificada para se aumentar as opções aos habitantes do meio rural. Pois, o espaço rural precisa ser transformado num local de atividades econômicas múltiplas e dinâmicas, que permitam aos moradores que ali vivem acesso a condições dignas de vida, semelhante àquelas das áreas urbanas (Turnes, 1996)76. A partir deste ponto de vista é necessário compreender que a agricultura familiar pode dedicar-se à exploração de atividades diversificadas de forma coletiva ou individual, que vai muito além da tradicional produção primária. Pode-se identificar atualmente o crescimento de novas opções econômicas para os agricultores familiares, ampliando suas possibilidades de 76 Atualmente, já existem quatro milhões de brasileiros que residem no meio rural mas que não dependem economicamente de atividades ligadas à produção agrícola (Gazeta Mercantil, 19995). 81 reprodução no ambiente rural77. Além do mais se recorde que vários autores contemporâneos têm ressaltado peculiaridades da exploração familiar que são importantes à toda a sociedade e que extrapola a sua clássica função de produtor de alimentos in natura. Jean (1994), por exemplo, alerta para a necessidade de (re) valorizar a função de ocupação do território desempenhada pela produção agrícola familiar, assim como o seu papel na manutenção dos valores culturais e históricos. O agroturismo, as agroindústrias de transformação em pequena escala representam também um grande potencial para este tipo de unidade econômica. Em algumas partes do mundo, em que este processo está mais adiantado, já se observa a criação de novas possibilidades profissionais aos habitantes do setor rural78. Como assinala Carneiro (1997) há uma significativa redução de pessoas ocupadas na agricultura, dado que se associa ao aumento do número de pessoas residentes no campo exercendo atividades não agrícolas e ao aparecimento de uma camada relevante de pequenos agricultores que combinam a agricultura com outras fontes de financiamento. Um aspecto importante que surge como um novo componente da dinâmica social e nas políticas de proteção e de geração de oportunidades aos habitantes do meio rural está relacionado ao conceito de território. Ou seja, quando se discute que o novo mundo rural (Brasil, 1998) deve dispor de um rol mais amplo de funções do que apenas abrigar atividades agrícolas, na verdade se está discutindo a visão de território, e por conseqüência qual é o “lugar” da agricultura familiar neste novo contexto79. Outro aspecto a se considerar é que, embora a inserção de novas atividades represente opções alvissareiras ao meio rural, obviamente, este não deixará de lado a produção agrícola. No que se refere ao modelo futuro da produção alimentar, observa-se a existência de movimentos contrários, justapostos e complementares em curso. De um lado, existe uma tendência de simples “evolução” do padrão moderno atual, processo que poderia levar ao que alguns autores chamam de “revolução duplamente verde”. Neste modelo seriam apenas executados alguns “ajustes” dentro do esquema dominante, no sentido de abrandar os seus 77 A noção de cooperação também é um elemento importante neste processo. Nos últimos anos, já pode ser observado também no Brasil o deslocamento crescente de moradores da cidade à zonas rurais. Embora muito menor do que aquele ocorrido nas décadas passadas, que levou grande parte da população rural brasileira aos centros urbanos, o “retorno” pode estar indicando uma tendência permanente e que permite se pensar na criação de um novo ambiente rural. Em áreas próximas às grandes cidades do estado de São Paulo, por exemplo, este fenômeno já é comum (Abramovay, s/d1). Isso é semelhante ao que está ocorrendo em alguns países europeus, onde muitas pessoas estão escolhendo o meio rural, com local de moradia, além de buscar desenvolver ali outras atividades profissionais. 79 Além dos aspectos temporais e setoriais, a dimensão territorial do desenvolvimento merece destaque pois aponta que mais que simples base física para as relações entre indivíduos e empresas, (o território) possui um tecido social, uma organização complexa feita por laços que vão muito além de seus atributos naturais e dos 78 82 impactos mais negativos. Esta linha parte do pressuposto que é preciso produzir mais, a fim de satisfazer às necessidades alimentares de centenas de milhões de pessoas que ainda têm fome no mundo. Ao mesmo tempo, para sanar esta deficiência e dar conta do crescimento demográfico, as nações precisarão produzir alimentos para mais 100 milhões de pessoas que nascem no planeta a cada ano. Devido aos interesses mercantis das grandes corporações (agro) industriais que dominam as pesquisas agrícolas, nesse grupo está inserido a maioria das conquistas recentes no campo da biotecnologia. De outro lado, observa-se o crescimento da participação dos consumidores, que buscam produtos mais “naturais” e que causem menor degradação ambiental80. A tendência de consumo acaba somando-se aos setores que defendem um novo padrão social, econômico, tecnológico e ambiental na agricultura, baseados em princípios considerados mais “sustentáveis” (ver Quadro 15). Quadro 15 - Objetivos do modelo de agricultura sustentável Uma incorporação mais completa de processos naturais como os ciclos de nutrientes, fixação de nitrogênio e relações peste-predador nos processos de produção agrícola; Uma redução no uso do que vem de “fora da propriedade” e de ingressos não renováveis com grande potencial para destruir o meio ambiente ou afetar a saúde dos agricultores e consumidores, e mais incentivo ao uso de insumos renováveis usados com a visão de minimizar custos variáveis; Uma maior equidade no acesso aos recursos produtivos e as oportunidades, e progresso através de modelos de agricultura mais justos socialmente; Um aumento no uso produtivo de potencial biológico e genético de espécies de plantas e de animais; Um aumento no uso produtivo de conhecimento e de práticas locais, incluindo inovações acessíveis mas não recomendadas e entendidas totalmente por cientistas ou largamente adotadas pelos agricultores; Um incremento da aliança entre os agricultores e as pessoas do meio rural; Melhoria na luta entre padrões de produção e o potencial produtivo e meio ambiente, do clima e da paisagem para incluir a sustentabilidade a longo prazo no níveis produtivos correntes; e Produção útil e eficiente, com uma ênfase em gerenciamento integrado da propriedade, e a conservação do solo, água e recursos biológicos. Fonte: Pretty (1995), traduzido e adaptado pelo autor A busca de um novo sentida à atividade agrícola e ao território rural desafia os agentes que neles atuam no sentido de enxergar os problemas do campo através de uma visão sistêmica, que permita a proposição de soluções integradas. As credis podem representar um poderoso suporte para programas de desenvolvimento rural. Todavia, isto somente se materializará com um novo entendimento sobre os limites e potenciais destas instituições. Este é o tema do próximo tópico. custos de transportes e de comunicações (Abramovay, s/d). 80 Cabe lembrar que o crescimento da demanda por alimentos oriundos de produção “orgânica” ou “biológica” também aumenta a pressão sobre as autoridades européias para que elas alterem suas políticas de incentivo financeiro e técnico à agricultura “convencional”. A produção “bio” receberão, inclusive, mais incentivos dentro da nova Lei da Política Agrícola Européia, que está sendo implantada a partir de 1999, dentro das negociações 83 4.2 Potenciais e limites da credi como agente de desenvolvimento local Em primeiro lugar é importante relembrar que as cooperativas de crédito são consideradas instituições semiformais dentro do rol das organizações que atuam no setor financeiro. Como uma “sociedade de pessoas” elas precisam seguir os seus estatutos (no caso o de uma organização cooperativista) e ao mesmo tempo respeitar as regras impostas às organizações financeiras, que atuam dentro do mercado formal. Por outro lado, observa-se que em muitos países onde não há políticas de repasse de verbas públicas às cooperativas de crédito (como as que existem no Brasil), os empréstimos são formulados exclusivamente à partir da capacidade de coleta de recursos entre os próprios associados. Esta característica outorga às cooperativas de crédito um papel de destaque dentro dos programas de crédito aplicados ao desenvolvimento rural, pois elas: ... mostram que é possível mobilizar a poupança no meio popular, em geral por razões de segurança e de liquidez mais do que pela remuneração, e que dentro de certas condições a motivação dos agricultores pelo reembolso do crédito que provém de sua própria poupança é mais forte que se os fundos vêem do exterior (Gentil & Nieuwkerk, 1998) (tradução livre do autor). Todavia, em vários países este potencial “desenvolvimentista” das cooperativas de crédito não se configurou em resultados de impacto, em termos socioeconômicos. Lapenu & Wampfler (1997) sintetizam bem as críticas que os sistemas cooperativos têm recebido em regiões pouco desenvolvidas, quanto ao alcance de suas ações face às camadas mais necessitadas da população rural. Essa críticas: ...repousam sobre os limites que impõe às operações a necessidade de uma mobilização prévia da poupança. Com esta seleção de clientes arrisca-se de fato, a excluir dos sistemas de trocas (operações) os mais pobres ou engajados dentro de um processo de descapitalização, comuns, por exemplo, em zonas áridas (...) Por outro lado, os índices de liquidez necessários para uma boa gestão dos riscos impõem que os sistemas mutualistas redistribuam, sob a forma de empréstimos, apenas uma parte da poupança coletada, drenando freqüentemente a poupança rural para o sistema bancário urbano [grifo do autor]. Finalmente, a estrutura clássica em três níveis: caixas locais, regionais, (federação nacional) conduzem muitas vezes a uma certa centralização das decisões e das medidas administrativas [grifo do autor] (tradução livre do autor). da chamada Agenda 2.000. 84 Sob o ângulo do desenvolvimento rural, além das deficiências observadas em sua gestão prática, as credis apresentam também algumas limitações de ordem institucional, que variam conforme a legislação de cada país. Estas limitações podem ficar mais claras se verificadas com o auxílio de uma classificação, que relacione os programas de desenvolvimento rural com o grau de formalização do setor financeiro. O esquema a seguir oferece um panorama das instituições financeiras dentro do contexto do desenvolvimento. Proposto inicialmente por Gentil & Nieuwkerk (1998) com base na realidade de países africanos, ele pode ser adaptado às condições brasileiras. Observa-se, em primeiro lugar, a divisão das instituições de acordo com normas aplicadas (voltadas ao desenvolvimento ou voltadas às normas bancárias). Perpendicularmente há outra separação ordenando as experiências de crédito, de acordo com a relação que podem se estabelecer entre os beneficiários e as instituições emprestadoras. No esquema, as organizações estão agrupadas em quatro segmentos, de acordo com o grau de formalização da entidade. Abaixo estão as organizações que preservam a autonomia dos tomadores em decidir o funcionamento do sistema e, acima, as que criam maior dependência de decisões exteriores. Como afirma Gentil & Nieuwkerk (1998) o enquadramento dos sistemas dependerá da forma como se operacionalizam os diferentes tipos de crédito, suas modalidades de pagamento, as taxas de juros de remuneração dos depósitos e dos empréstimos, etc. 85 Quadro 16 - Estruturação do espaço dos sistemas de poupança e crédito rural Dependência 1 Bancos comerciais Bancos de desenvolvimento Bancos nacionais de desenvolvimento agrícola Caixa nacional de crédito agrícola 2 Projetos de comercialização artesanal Projetos de desenvolvimento rural 2 Projetos de crédito a microempresas Fundos de desenvolvimento Normas de desenvolvimento Normas bancárias 3 Federações e organizações campesinas Fundos rotativos (via as organizações não governamentais) 4 Guardas moedas Caixas de solidariedade Empréstimos pessoais sem taxa de juros Alcancia 3 Banco do Povo (crédito solidário) Cooperativas de crédito e poupança Caixas locais 4 Banqueiros ambulantes Tontines Empréstimos pessoais com altas taxas de juros Autonomia 1 Organismos bancários 3 Setor intermediário 2 Projetos de desenvolvimento 4 Setor autônomo ou informal Fonte: Gentil & Fourier (s/d), adaptado pelo autor O esquema acima assinala no seu quadrante superior direito as instituições bancárias “clássicas”. Está localizada neste quadrante a maioria das instituições bancárias comerciais e, com menor grau de dependência, os bancos de desenvolvimento e as caixas nacionais (ou bancos cooperativos). Estas instituições estão, geralmente, mais interessadas em raciocinar sobre o valor das taxas de juros dos empréstimos, o valor do spread que irão receber para operacionalizar verbas públicas e os outros custos dessa intermediação, o equilíbrio financeiro 86 da instituição e o profissionalismo dos seus agentes. No quadrante superior esquerdo localizam-se aquelas iniciativas que visam intensificar a agricultura, promovendo o incremento das atividades comerciais a ela relacionadas. Não apresentam preocupação quanto à autonomia dos tomadores de crédito ou das instituições intermediárias. São comuns neste campo, os programas coordenados por agencias multilaterais, como o Banco Mundial. No quadrante inferior esquerdo podem-se inserir os fundos rotativos e as diversas experiências informais de manejo do crédito que se expandem no Brasil e em diversos países. Seu foco principal é tentar promover o atendimento sem burocracia das necessidades dos tomadores e uma menor dependência de decisões exógenas. No quadrante inferior direito estão localizadas as organizações que procuram criar menor dependência aos tomadores de crédito seguindo, porém, certas regras bancárias. Neste campo estão as cooperativas de crédito e os bancos do povo. Pelo esquema, nota-se que as cooperativas de crédito atuam, geralmente, sob normas de caráter bancário, o que pode acarretar certa limitação para seu envolvimento nos programas de desenvolvimento, principalmente em países em que há uma legislação financeira rígida, como é o caso do Brasil. Vale dizer que o “enquadramento” das credis numa posição mais a direita ou a mais a esquerda, e superior ou inferior dentro do esquema no Quadro 16, dependerá das “opções estratégicas” adotadas em cada sistema cooperativista. Neste sentido, a análise dos sistemas em funcionamento em Santa Catarina demonstra que as credis do sistema “tradicional” tendem a situar-se em um espaço mais a direita e mais acima dentro do nível 3. Isto se dá em função da chegada dos bancos cooperativos que deverá reforçar a tendência “bancária” (mais a direita) dessas cooperativas, visto o crescente grau de formalização e de padronização das suas operações. Pelo mesmo esquema, ainda que dentro do nível 3, as cooperativas “alternativas” e a Cresol colocam-se numa posição mais a esquerda e mais abaixo em relação às credis “tradicionais”, visto o interesse das primeiras em fortalecer projetos de desenvolvimento e a autonomia de suas operações em relação às centrais de crédito e aos bancos cooperativos. O Quadro 16 auxilia também na visualização da posição ocupada pelo Bancoob. Acredita-se que ele fica situado melhor ao lado dos bancos comerciais, descritos no nível 1. Isto ocorre, em primeiro lugar, por que se forma uma expectativa reduzida em termos de 87 fortalecimento da autonomia dos beneficiários, quando estes estão atrelados a bancos cooperativos comerciais, (já que a Resolução que autorizou o funcionamento dos bancos cooperativos no Brasil fala que estas instituições deveriam possuir esta finalidade). Em segundo lugar, a hegemonia dos setores “urbanos” e das cooperativas ligadas à agricultura empresarial indicam pouca sintonia do Bancoob, com as estratégias nas quais a agricultura familiar ocupe papel preponderante. Este fato deverá reforçar uma aplicação de normas “bancárias” em detrimento de normas “desenvolvimentistas”. Vale ressaltar que se deve agregar outros fatores à classificação proposta no Quadro 16 quando se almeja analisar o papel das credis no desenvolvimento rural. Estes fatores são tanto de origem externa quanto os relacionados à sua organização interna. O primeiro fator externo está ligado ao conjunto de medidas legais e de políticas públicas que possam se mostrar favoráveis ao setor, principalmente no sentido de propiciar recursos financeiros, humanos e materiais às credis via projetos de desenvolvimento, seja da esfera federal, estadual ou municipal. Um exemplo prático disso encontra-se na necessidade de modificar a legislação para se ampliar o acesso das cooperativas aos recursos de crédito público. Diferente do que ocorre na América do Norte e na Europa, as leis brasileiras impedem, por exemplo, que as cooperativas de crédito tomem recursos diretamente do Tesouro Nacional, mesmo em programas oficiais destinados aos seus associados. As credis ficam, por isso, dependentes da intermediação de outros agentes financeiros (Banco do Brasil, Bndes, etc.), o que é, em geral, bastante conflituoso e oneroso. Um segundo exemplo neste sentido refere-se à proibição de captar recursos de terceiros. Mesmo em pequenos municípios onde a economia está centrada nas atividades primárias, as cooperativas de crédito rural estão impedidas legalmente de captar depósitos de pessoas não associadas, o que dificulta a sua maior presença junto aos demais setores dessas comunidades. Este fato impede um maior envolvimento da instituição com a população, o que limita a entrada de recursos locais na cooperativa (que poderiam retornar aos munícipes na forma de mais crédito para investimentos e de outros serviços financeiros) 81. Outro exemplo refere-se à necessidade de campanhas de popularização do 81 As limitações em captar recursos de terceiros devem permanecer mais algum tempo. Pois o presidente do Banco Central, falando a respeito do assunto no último Congresso Cooperativista Brasileiro (novembro de 1997), afirmou que prefere que as cooperativas se expandam verticalmente em vez de horizontalmente. Ou seja, segundo ele as cooperativas de crédito devem ater-se ao público alvo e ocupar maior espaço enquanto prestadora 88 cooperativismo de crédito em todo país. Estas campanhas precisam contar com apoio oficial e da sociedade civil para alcançar resultados satisfatórios. Mesmo no estado de Santa Catarina, onde existem diferentes iniciativas voltadas à criação novas cooperativas, o número de entidades ainda é pequeno, haja vista a população rural do estado82. O segundo fator externo está relacionado ao grau de organização da sociedade local e ao tipo de debate que se estabelece no município ou na região sobre a importância sócio política da cooperativa de crédito. Neste sentido é importante a construção de indicadores que possam auxiliar na compreensão do grau de sintonia existente entre os interesses da organização e os anseios da comunidade local. Deve ser observado também se o conjunto de agricultores que dá sustentação política à credi sente-se representado pela entidade e quer que esta ocupe, de fato, um papel de agente de desenvolvimento local. Ainda no ambiente externo é importante precisar quais são as expectativas da sociedade em relação às unidades de produção familiar. É difícil imaginar um futuro promissor para as credis comprometidas com o desenvolvimento rural sem a existência de um ambiente institucional favorável à agricultura familiar. Outro aspecto externo é a “qualidade” das relações que a credi estabelece com o mercado financeiro. Como se viu anteriormente, as constantes transformações do setor financeiro estão modificando rapidamente a capacidade operativa das cooperativas e das demais instituições bancárias. Estas “inovações” do setor financeiro exigem alta capacidade administrativa das credis. O seu desafio é, portanto, o de acompanhar estas mudanças sem deixar de atender as necessidades e aos interesses locais. Deve-se considerar, no entanto, que se de um lado as recentes transformações do sistema financeiro atuam no sentido de “fechar as portas” às organizações financeiras locais, de outro os responsáveis pelos programas de desenvolvimento vêm percebendo a importância destas entidades na operacionalidade a seus projetos83, especialmente em iniciativas em que o instrumento (micro) crédito esteja presente. Entre os fatores internos que influenciam o potencial das cooperativas de crédito rural de pequenos serviços financeiros, ao invés de disputar o mercado dominado pelos bancos. 82 Os números indicam que nos quase 300 municípios existentes em Santa Catarina, o número de cooperativas de crédito rural chega a apenas a 35. Para um universo aproximado de 180 mil estabelecimentos de menos de 50 ha (que podem ser associados a um regime de exploração familiar), conta-se em torno de 42.000 associados às cooperativas de crédito rural existentes, ou seja, grosso modo as organizações atuais atendem menos de 25% do seu público potencial. 83 Pode-se citar como exemplo, o envolvimento da Crediseara, da Crediluz e da Crediquilombo no Programa Desenvolver, que está em fase de execução em Santa Catarina. Este programa foi viabilizado pelo acordo de cooperação técnica entre o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq) e a Fundação Catarinense de Ciência e Tecnologia (Funcitec). 89 está o grau de legitimidade social que a mesma adquire na comunidade. Como, em tese, sua base está representada por diferentes segmentos políticos que compõem o tecido social local, a sua relação com estas forças não se dá sem conflitos e tensões. Para poder viabilizar-se, a credi deve saber atender diferentes interesses existentes na sociedade local. A “qualidade” destas relações locais é que vai determinar o volume de negócios que ela será capaz de gerar. Se a credi não for capaz de sensibilizar a sua comunidade, grande parte da poupança será carreada, por exemplo, a instituições externas, o que pode significar a transferência desses recursos a outras regiões. Tendo sucesso na estratégia de aplicação dos recursos locais no seu próprio desenvolvimento, as credis estarão resgatando fórmulas utilizadas por muitos países para garantir sua equidade social e econômica. Vale dizer que a história dos Estados Unidos do século passado está repleta destes exemplos: ....muitos progressos internos da economia norte americana, tais como canais, estradas, escolas e industrias locais foram financiados com as poupanças dos agricultores, conhecidos por sua frugalidade e pelo cuidado com que faziam seus pequenos mas significativos investimentos locais (Guimarães, 1974). Um fator interno importante para as cooperativas de crédito diz respeito à valorização de conhecimento acumulado na própria localidade84. Uma das preocupações que condicionam o funcionamento das cooperativas de crédito, sem dúvida, é como compatibilizar um processo participativo de decisões, em que os associados definam os seus destinos, com a necessidade de eficiência gerencial das instituições financeiras. Ou seja, a força das cooperativas está na capacidade de superar os dois desafios simultaneamente: A empresa cooperativa terá que combinar a eficiência associativa e a eficiência econômica para não perder sua finalidade social. ... É na esfera social que é assegurada aos seus associados uma condição de sujeito de todo processo decisório na empresa; através da participação na operacionalização e reuniões nas cooperativas... através da participação ativa dos associados, da utilização dos serviços, é que a cooperativa se torna mais forte e apta a oferecer mais e melhores recursos (Panzutti 1997). Se garantir o poder de participação dos associados é um desafio permanente nas 84 Um movimento de (re)valorização dos saberes e conhecimentos locais deve evitar o erro de idealizar os conhecimentos endógenos e rechaçar o conhecimento técnico-científico. Um conhecimento “sustentável” deve ser necessariamente híbrido, precisa envolver diferentes combinações entre o conhecimento local e o científico (Guivant, 1996). 90 cooperativas e nas centrais de crédito do Brasil85, este envolvimento deve ser encarado no seu sentido amplo. Em outras palavras, as credis devem ter a sensibilidade, por exemplo, para captar as demandas e projetos que sejam de interesse para o desenvolvimento da comunidade, fazendo-a uma instituição financeira “colada” nas necessidades locais. Uma amostra desta “proximidade” pode ser ilustrada pelo “antigo” e pelo “atual” comportamento de um gerente de banco, como relembra Dowbor (1998): Voltando um pouco ao passado, o gerente de um banco local era uma pessoa que conhecia a sua cidade, sabia na mão de quem as iniciativas econômicas prosperam, ainda que o projeto não estivesse bem redigido e os papéis nem sempre em ordem. E terminava por conhecer as oportunidades econômicas da cidade, tornando-se um importante orientador do uso produtivo da poupança local. Hoje, o gerente local é apenas um captador de recursos que busca maximizar o seu salário atingindo uma série de “pontuações” definidas pela matriz, e que nada têm a ver com as necessidades de desenvolvimento da comunidade que confiou o seu dinheiro ao banco. Outro fator interno primordial para o sucesso das credis como agentes de desenvolvimento local refere-se à gestão profissional da entidade. As organizações que se propõem trabalhar com as camadas mais carentes da população rural também devem tomar precauções com a qualidade de seus negócios. Contrariando o senso comum, o perigo da inadimplência existe junto aos pequenos agricultores, principalmente quando o projeto de utilização dos recursos não está bem elaborado e bem discutido. A implantação de sistemas cooperativos em países em desenvolvimento mostrou vários ensinamentos neste sentido. O Quadro 17 resume os elementos mais observados nos sistemas que foram bem sucedidos. 85 Supõe-se que as unidades regionais ou nacionais estão a serviço das caixas locais, ou controladas por estas. A realidade é, entretanto, muito diferente. Em geral, as centrais estão dirigidas por quadros superiores - ou por assistentes técnicos - que tendem a duvidar da competência e do sentido de responsabilidade dos dirigentes locais. Eles preferem centralizar as decisões, uniformizar os procedimentos, reforçar as inspeções e os controles (Gentil & Fournier, s/d). Neste mesmo sentido vale lembrar as reflexões de um dirigente cooperativista sobre as dificuldade de se criar uma nova cooperativa em Santa Catarina: Uma das questões mais frisada pelos futuros associados durante a fase de constituição de uma cooperativa de crédito rural “alternativa” é que a mesma não podia deixar de privilegiar a democracia interna, já que nas organizações cooperativas “tradicionais” os agricultores sentem-se pouco valorizados (entrevista de dirigente cooperativista). Dentro das cooperativas do Sistema Cresol, por exemplo, os dirigentes podem integrar os conselhos diretivos apenas por dois mandatos consecutivos. Esta regra existe para estimular a rotação dos dirigentes e ampliar a participação. 91 Quadro 17 - Elementos de êxito das cooperativas de crédito. Dinâmica conjunta entre poupança e crédito: a necessidade do crédito incita a poupança; mas a poupança se freia se o outorgamento de crédito é demasiadamente prudente; Liberdade para fixar as taxas de juros da poupança e do crédito, com forte diferença entre elas; Grande cuidado para limitar os gastos de operações: salários, gastos de transporte, de escritório ou de recepções. O pessoal selecionado e suas formas de remuneração são aspectos cruciais. O trabalho voluntário se esgota rapidamente. Os que possuem mais diplomas nem sempre são os mais eficazes. Mais vale, as vezes, recrutar quadros médios ou campesinos alfabetizados, eleitos pelos administradores a partir de critérios que não são puramente técnicos. Mais tarde estes podem receber uma formação técnica adaptada; Rigor absoluto e transparência na distribuição do crédito. Responder a diversidade de necessidades dos associados atuais ou potenciais, identificar garantias adaptadas e manter-se firmes sobre a necessidade de reembolsos de 100%, bloqueando os novos créditos se este resultado não é alcançado; Existência de união regionais e nacionais de cooperativas que se limitam ao exercício de funções indispensáveis e se mantém sob o controle dos representantes de caixas locais. Lamentavelmente a tendência natural é inversa: os níveis superiores crescem ao mesmo tempo em que se queixam de padecer de insuficiência de meios e se autonomizam com relação a sua base. Uma dicotomia costuma aparecer no discurso dos associados que falam de “nós” para se referir às caixas locais e de “eles” para os níveis superiores. Fonte: Gentil & Fournier (s/d), tradução e adaptação pelo autor. Outra questão gerencial relacionada ao trabalho com as camadas mais pobres da população refere-se aos “limites” das operações de crédito. Note-se que para certas condições socioeconômicas a melhor saída é mesclar programas de crédito, com outros que prevêem auxílios a fundo perdido ou juros negativos86, como assinala Oliveira (1997): Há que estar claro a limitação de tal instrumento [do crédito]. Instrumento este que é financeiro e que, portanto nem sempre é acessível àqueles que não dispõem de terras ou mesmo àqueles cujas terras não tenham condição de responder á demanda de investimento. Pelo menos para aqueles fundos cujo caráter de rotatividade esteja pautado no retorno dos investimentos feitos com uma taxa de correção que pode até ser abaixo do mercado, mas que não pode incorrer em doações. Para esses casos o caminho teria que ser outro, investimento a fundo perdido, cuja fonte é, em princípio, diferente. Tais diferenciações são necessárias no sentido de garantir um maior tempo de sobrevivência aos fundos independentes de novas injeções externas. Outro fator de cunho interno refere-se ao estímulo que as credis proporcionam a um novo modelo de produção agrícola. Isto é, em que medida ela incentiva a criação de um padrão tecnológico da agricultura e de gestão do meio rural, resgatando princípios diferentes do tradicional/moderno e voltando-se para um modelo mais “sustentável”.. O crédito disponível precisa ser direcionado para atividades que fortaleçam um novo modelo de 86 Pode-se citar como exemplo neste sentido o Fundo de Miniprojetos que atua nos três estados do sul do país, com o apoio de ongs, movimentos comunitários e de pastorais. Ele destina pequenas somas a iniciativas 92 produção baseado em princípios agroecológicos e para tecnologias que levem à “inclusão” dos produtores do meio rural: ... dentro de uma concepção mais ampla de desenvolvimento rural, vale ressaltar outras diretrizes que também devem nortear as iniciativas das credis. O conceito de sustentabilidade, englobando ações de reconversão do modelo tradicional para um modelo agroecológico, precisa ser considerado como elemento integrante da intervenção das cooperativas (Schröder, 19972). Como se vê, a cooperativa necessita agir de forma propositiva e articulada no uso do crédito, seja ele oriundo da poupança local ou de recursos obtidos de fontes externas87. De maneira resumida o crédito rural deve: a) estar disponível na quantidade e no tempo adequado às necessidades dos tomadores; b) ser disponibilizado à partir de projetos que apresentem viabilidade econômica e que tenham seus impactos sociais e ambientais conhecidos e coerentes com um projeto de desenvolvimento local; c) ser diversificado, contemplando atividades inovadoras, tanto na produção primária quanto na agregação de valor e em atividades não agrícolas É preciso romper, portanto, as amarras normativas e burocráticas que façam o “crédito rural” ser confundido com o “crédito agrícola”, por estar destinado apenas aos cultivos e as criações. É necessário que ele esteja disponível para financiar necessidades econômicas de interesse da população do campo. d) estimular a cooperação entre os tomadores, incentivando o uso eficiente dos equipamentos e dos conhecimentos tecnológicos; e) ser democratizado, estando disponível também às camadas mais necessitadas da comunidade (programas de microcrédito solidário); f) apoiar a reconversão ou a transformação do padrão de produção, sob princípios sustentáveis, estabelecendo, por exemplo, linhas de financiamento para empreendimentos agroecológicos; g) ser disponibilizado para projetos integrados e não para atividades isoladas. Sempre que possível, o crédito deve vir acompanhado por um plano de gestão da propriedade como coletivas com o objetivo de estimular a organização das camadas excluídas da população. 87 Já existem experiências nas credis “alternativas” de Santa Catarina procurando desenvolver projetos “sustentáveis”. Entre estas se pode citar algumas iniciativas dentro do Pronaf, do Proger, e do “Fundo Rotativo Novas Fronteiras” (Búrigo, 19973). 93 um todo (o projeto deve estimular os agricultores a realizar programas de contabilidade e administração). O último fator a se destacar refere-se à qualidade das parcerias que a credi consegue estabelecer. Estes apoios são vitais para credis que não visam atuar com fins estritamente comerciais. Elas precisam do apoio de outras organizações que possam colaborar no desenvolvimento de políticas complementares de capacitação, de assistência técnica, etc. Estes desafios em relação as credis e os programas de desenvolvimento serão fortalecidos ou enfraquecidos pelos bancos cooperativos? O item seguinte aborda esta questão. 4.2.1 O Bancoob e o desenvolvimento local Como se observou anteriormente, para muitos dirigentes cooperativistas, a maior dificuldade para a expansão das cooperativas de crédito no Brasil, era a inexistência de banco(s) cooperativo(s), que funcionassem como “órgãos de cúpula do sistema”. O banco próprio colocaria os sistemas cooperativistas no mesmo patamar de competitividade dos demais bancos, ampliando também a visibilidade destas organizações junto ao seu público potencial (depoimento de dirigente de cooperativa “tradicional”). Do mesmo modo que este estudo não pretende investigar os ganhos ou prejuízos econômicos de cada sistema atuante de Santa Catarina e nem de cada cooperativa individualmente, ele também não investigará o impacto econômico dos bancos cooperativos. Porém, quando se almeja refletir sobre o papel das credis nos processos de desenvolvimento local, a presença de um banco gerenciador do sistema representa, certamente, uma série de implicações, tanto às cooperativas singulares quanto às centrais filiadas. Para se analisar essas implicações sob o ponto de vista do desenvolvimento rural, é preciso separar as cooperativas de acordo com a “missão” de cada modelo88. As cooperativas de crédito mútuo e as credis estão, neste sentido, em posições bem diferentes. Enquanto aquelas possuem objetivos essencialmente econômico-financeiros para os seus associados, estas trabalham na direção de captar mais para o setor rural. Além disso, mesmo dentro do Bancoob, é provável que as cooperativas ligadas às coopers tenham expectativas diferentes das credis autônomas . 88 É importante lembrar, conforme o que demonstra o ocupar espaços diferentes no circuito financeiro. Quadro 16, que as organizações financeiras podem 94 Têm se claro que estas implicações dependem do “ambiente” que circunda cada cooperativa em cada estado da União e em cada município. Levando em conta a realidade das cooperativas de crédito rural de Santa Catarina pode-se apontar algumas vantagens e algumas desvantagens da ligação das cooperativas com o Bancoob. As principais vantagens são: a) Redução dos custos de transação: integrar um banco amplia as possibilidades de elevar as receitas e os rendimentos financeiros das credis. Via o Bancoob, as credis podem participar, de “circuitos financeiros” apenas autorizados às instituições bancárias89. Por outro lado, as despesas das cooperativas com a aquisição de materiais, equipamentos de serviços e outros gastos podem ser menores, pela grande demanda que se aglutina em torno do banco. Se for bem administrado este ganho de escala pode reduzir os custos das cooperativas filiadas. b)Mais serviços financeiros: com o banco próprio, as cooperativas podem oferecer uma gama maior de serviços aos seus “clientes”, o que tende a aumentar o leque de negócios disponíveis e o interesse pela entidade dos segmentos mais capitalizados da população. Esta procura pode elevar os níveis das captações criando um ciclo positivo de movimentação financeira. c)Menos impostos para as cooperativas e entidades a elas articuladas (cooperativas agropecuárias): amplia-se a possibilidade de reduzir as despesas tributárias, devido as novas estratégias contábeis e legais adotadas pelas empresas bancárias dentro do processo de globalização financeira. d) Maior poder de barganha: o banco cooperativo pode aumentar a visibilidade e a capacidade de divulgação das cooperativas filiadas, transmitindo uma maior noção de segurança e de credibilidade aos associados. Certamente, o aumento da representatividade advinda com a criação de um banco cooperativo, que envolve centenas de cooperativas, significa também maior poder político do Sistema. Este fato poderá elevar a capacidade de negociação junto às autoridades do setor econômico. As principais desvantagens para credis em se ligar ao Bancoob são: a) Perda de autonomia financeira: para as cooperativas que desejam assumir um papel “desenvolvimentista”, a participação no banco pode representar a perda do poder de barganha local. Como se viu, as aplicações via banco próprio pode representar a obtenção de mais dividendos financeiros aos depositantes, mas este mecanismo limitará a autonomia das 89 Pela legislação brasileira, as cooperativas de crédito não podem participar diretamente de câmaras de compensação de cheques e de títulos, efetuar depósitos e empréstimos interfinanceiros, etc. 95 cooperativas na realização de operações locais. b) Menor autonomia administrativa: ao participarem de um banco, as cooperativas serão “estimuladas” a padronizar as operações e os procedimentos internos, inclusive na sua política de recursos humanos. Este fato poderá afastar a comunidade local da gestão da entidade. O risco, neste caso, é que ocorra o mesmo processo que aconteceu nos sistemas cooperativos franceses. Lá, a gestão das cooperativas de crédito acabou sendo entregue aos assalariados90, cabendo aos dirigentes (agricultores) apenas uma participação honorária e de caráter eminentemente “simbólico” (Gentil & Fournier (s/d). No caso do Brasil, entende-se que este fato seria mais danoso, face ao desnível de escolaridade existente entre o corpo técnico das cooperativas e seus associados e dirigentes91. Diante de uma cultura autoritária e clientelista que marca a tradição brasileira, a ação dos assalariados pode gerar um “desvio” das finalidades e dos compromissos da cooperativa com a sua base. Portanto, a perda de autonomia gerencial local, face às crescentes exigências de qualificação e de padronização requeridas por uma estrutura bancária nacional, deve representar um obstáculo ao potencial “desenvolvimentista” das credis ligadas ao banco. c)Coopers controlam as credis: no modelo “tradicional” do cooperativismo de crédito os associados não conseguem fazer muita distinção entre as credis e as coopers. A presença do Bancoob pouco auxiliará neste sentido, pois os seus controladores são os mesmos. Nestes casos, as credis continuam com poucas possibilidades de tornarem-se agentes de desenvolvimento local, pois elas estão a serviço de uma parcela dos agricultores e não do 90 O Sistema Crédit Mutuel da França adotou há vários anos atrás uma estratégia de fusão de cooperativas e de profissionalização na administração, como forma de aumentar a sua eficácia dentro do disputado mercado financeiro daquele país. Segundo um técnico da própria instituição, a complexidade das operações financeiras não permitia mais “deixar” a gestão das cooperativas nas mãos de associados, que não são “especializados” no ramo. Contudo, este mesmo técnico reconhece os riscos do Sistema perder, a longo prazo, os seus princípios mutualistas e deixar de valorizar as pequenas comunidades (a “marca” do Crédit Mutuel é a “proximidade” com seus clientes) . Ele explica que no início da estruturação do banco, os funcionários eram recrutados nas bases das cooperativas filiadas. Assim, seus quadros eram originários, em sua maioria, de pequenas comunidades rurais, com longa tradição na gestão de cooperativas locais. Deste modo, a opção de contar apenas com assalariados técnicos na gestão do sistema era compensada pelo grau de respeito e de valorização de interesses das pequenas comunidades que estas pessoas carregavam ao longo de sua carreira profissional. Entretanto, a cultura de “pertencer” à alguma comunidade local e, portanto, conhecer e respeitar as necessidades dos pequenos clientes está se perdendo rapidamente dentro do sistema. Este fenômeno se dá em função da aposentadoria dos funcionários, que viveram a época das pequenas cooperativas autônomas, e a política de contratação de jovens, que são oriundos, em sua maioria, dos grandes centros urbanos e portando “descompromissados” com as pequenas comunidades. 91 É preciso entender que a cultura francesa neste sentido é bastante diferente da brasileira. Além do grau de escolaridade e de cidadania presente em toda sociedade, o respeito às tradições mutualistas que permeiam as instituições cooperativas francesas indica que as manipulações por técnicos alheios aos interesses reais dos associados - tão freqüentes na cultura organizacional brasileira - são menos vistas por lá. Por isso, mesmo que detenha uma posição “simbólica” no gerenciamento das cooperativas, o dirigente francês carrega um conjunto de 96 conjunto dos habitantes do meio rural. d)Menos recursos aplicados ao desenvolvimento rural: é pouco provável que as cooperativas de crédito preocupadas com questões locais e com demandas de cunho social, que provavelmente representam atividades de menor margem de lucro, possam conquistar espaço dentro de um sistema bancário com finalidades comerciais. e)Menos crédito “rural”: dentro do Bancoob estabelecer-se-á um conflito de interesses das cooperativas de crédito mútuo e as aspirações das cooperativas de crédito rural. Se imperarem as “leis do mercado”, é provável que as credis concentrem seus serviços em atividades que representem maior margem de lucro, o que significa trabalhar, provavelmente, em projetos distantes dos reais interesses da agricultura familiar. Essas considerações adquirem maior clareza quando se verifica qual o peso de cada segmento dentro dos Bancoob. Mantendo-se as atuais condições econômicas e políticas e considerando-se que a grande maioria da população brasileira vive nos grandes centros, a presença das cooperativas “urbanas” tende a aumentar dentro do Bancoob nos próximos anos. Se no início em 1999, o Bancoob destinava apenas 28% dos seus negócios à agricultura e à pecuária, este percentual tende a cair no futuro. A distância entre os objetivos traçados pelo banco cooperativo e as “lutas” dos agricultores familiares pode ser medida pela pequena força de pressão que o Sistema vem mostrando em negociações relativas ao crédito oficial voltado à agricultura familiar. Esta posição demonstra o pequeno grau de articulação política dos seus controladores com as entidades de representação dos agricultores familiares (como, por exemplo, a Contag). Merece registro também, neste sentido, a posição do Banco do Brasil, gestor legal dos recursos oficiais de crédito rural, que encarou a entrada dos bancos cooperativos como a chegada de mais um “concorrente no mercado”. Esta desarmonia entre estes dois bancos causou um afastamento entre as cooperativas de crédito rural e os recursos públicos de crédito rural, destinado ao seu público. Isto fez que, em 1998, praticamente nenhuma cooperativa de crédito rural de Santa Catarina conseguisse recursos do Pronaf-custeio, via o repasse do Banco do Brasil. Se os bancos cooperativos não se empenharem mais para conseguir dobrar as resistências e o lobby dos bancos oficiais na obtenção dos recursos do Pronaf, corre-se o risco da credi afastar-se de sua função social primordial que é atender os pequenos do setor rural. valores éticos e morais, que exerce grande influência, ainda que indireta, na gestão da cooperativa. 97 O crédito rural destinado aos agricultores familiares perde espaço nas pautas de negociações dos sistemas de cooperativas de crédito por razões semelhantes àquelas alegadas pelos outros bancos comerciais: as “complicações burocráticas” existentes no manejo do crédito rural, aliado ao pequeno retorno econômico gerado para o agente financeiro92. Fica, portanto, claro que o Bancoob tende a se afastar do referido Programa, em função da alta relação custo/benefício observada em sua operacionalização. Mesmo porque, mantendo-se o quadro econômico atual, os recursos captados pelo banco junto aos depositantes “urbanos” somente poderão ser carreados ao setor rural mediante uma política de equalização, que subsidie as taxas de juros. Isto impõe a participação do governo, como parceiro repassador dos recursos de equalização. f) Menor número de credis e afastamentos dos pequenos “clientes”: quando se entra numa lógica bancária, é provável que se repitam os mesmos processos de enxugamento das “agências” e o afastamento dos “clientes” mais carentes, tão comuns nos bancos brasileiros. A análise custo/benefício que orienta as redes bancárias comerciais na decisão de manter ou não uma agência deverá ser incorporada também pelo Bancoob. Assim, participar do Bancoob significa, provavelmente, render-se à política de fusão ou incorporação de cooperativas de crédito que será adotada por esta instituição93. Sob o argumento de falta de viabilidade financeira das pequenas cooperativas, a chegada do banco cooperativo contribui para a diminuição do número de cooperativas de crédito, principalmente daquelas regiões com uma dinâmica econômica menor94.. Como as pequenas credis, mesmo não apresentando perdas, não conseguem gerar grandes sobras dentro do Sistema, estas poderão ser forçadas a aceitar sua incorporação pelas credis de maior porte. Este fato pode também desestimular as comunidades a formar suas credis, reduzindo a capilaridade do Sistema, sem que ele tenha ainda alcançado a maior parte de sua base potencial; g) Poucos projetos inovadores. Não existem, por exemplo, linhas de crédito destinado à agricultura biológica e nem de estímulo aos jovens agricultores nas credis associadas ao 92 Para entender esta situação basta verificar a diferença existente entre as taxas de juros praticadas nas operações tradicionais (empréstimos, cheque especial, etc.), com as taxas do crédito rural do Pronaf (que no caso do custeio é igual a 5,75% ao ano). 93 O Bansicredi, por exemplo, adotou uma campanha de fusões a partir de 1997. Partindo de 63 cooperativas então existentes este número caiu para 46 em 1999. Neste caso, as menores cooperativas são transformadas em filiais das maiores. 94 A política de fusão de cooperativas de crédito que aumenta as chances de isolamento das comunidades mais carentes parece bastante destoante das constatações trazidas pelas primeiras avaliações oficiais do Pronaf, indicando que é preciso aumentar as relações de confiança entre os agricultores e o sistema bancário (Brasil, 98 sistema “bancário”.. Ocorre que a transformação do modelo da agricultura exige investimentos de risco nos quais os bancos não estão, normalmente, interessados; h) Baixa legitimidade social: não se tem notícia de campanhas de esclarecimento junto aos meios formadores de opinião pública sobre a importância social da criação do Bancoob. Esta falta reflete-se no baixo grau de informação da sociedade sobre a importância dos bancos cooperativos no Brasil. Além do mais, o “descolamento” do cooperativismo tradicional da maioria dos agricultores familiares permite também um questionamento sobre a legitimidade do Bancoob no estabelecimento de parcerias com os programas direcionados ao desenvolvimento rural. Os elementos apontados no capítulo demonstram um quadro de tendências aparentemente antagônicas: de um lado, o cooperativismo de crédito rural vive uma fase de ampliação de sua legitimação social no país, face à crescente consciência quanto à sua importância estratégica para o desenvolvimento de um novo modelo de agricultura e de gestão do espaço rural. E, de outro, forma-se um cenário desfavorável para a expansão de organizações que pretendem atuar numa linha “desenvolvimentista” dentro do segmento cooperativista devido a crescente “bancarização” dos modelos de gestão das credis - como se verificou na análise das estratégias de implantação e de consolidação adotadas pelo sistema Bancoob. 1998). 99 5 Conclusões O presente trabalho procurou mostrar que no Brasil o cooperativismo sempre esteve atrelado de alguma forma às políticas do Estado. Nos anos 1930, alguns segmentos de cooperativas (de crédito, agropecuário e de consumo) foram empregados pelo governo como uma estratégia para ampliar a intervenção estatal na economia e, em certos momentos, como uma alternativa para aumentar a organização social das classes menos favorecidas (devido às políticas reformistas em voga na época). Entre os anos 1960 e 1970, as cooperativas agrícolas serviram para modernizar o campo, de acordo com as estratégias do Estado autoritário do período. Como se viu, durante os últimos trinta anos, muitos cooperativas agropecuárias assumiram um perfil empresarial, tornando-se um instrumento de expansão do capitalismo no campo (Loureiro, 1981). Convém destacar que o cooperativismo agropecuário seguiu estratégias semelhantes às adotadas pelas políticas oficiais de crédito rural no período. Basta verificar que as coopers se concentraram em determinadas regiões (Sul/Sudeste), no atendimento de certos tipos de agricultores (médios e grandes) e em algumas atividades e/ou produtos (culturas modernas e “Commodities” voltados à exportação). São poucas as experiências de cooperativas que se consolidaram fora desse modelo no referido período. Observou-se também, que ao longo das últimas décadas, os recursos controlados pelo Sistema Nacional de Crédito Rural (Sncr) foram direcionados, sobretudo, à ampliação da produção e da produtividade de alguns produtos agropecuários, sem vinculação estratégica com outras políticas de desenvolvimento voltadas à melhoria do padrão de vida das populações rurais. O crédito rural foi visto como um instrumento da modernização “conservadora” e tornou-se um “fim em si mesmo”. Mais recentemente, além das características acima, os recursos do crédito rural começaram a receber pressões oriundas das transformações por que passa o setor financeiro brasileiro. Com efeito, as mudanças no setor financeiro têm ampliado as dificuldades dos pequenos tomadores de crédito rural dentro do mercado bancário tradicional. Percebe-se que as novas fontes de crédito, surgidas no sistema financeiro comercial após o Plano Real, não estão representando uma alternativa concreta à agricultura familiar. Com exceção do Pronaf, que depende principalmente de recursos do Tesouro Nacional e do FAT, as novas linhas de crédito surgidas no mercado financeiro destinam-se a um público já tradicionalmente 100 favorecido. Por outro lado, embora o Pronaf represente um novo marco em relação à concepção de desenvolvimento rural em voga nas políticas públicas, a sua implementação prática vem demonstrando que o mesmo sofre muitas resistências institucionais. Os seus recursos de crédito, por exemplo, ainda estão sendo dirigidos prioritariamente aos segmentos mais capitalizados da agricultura familiar. Isto demonstra que o Pronaf ainda enfrenta dificuldades operacionais semelhantes às encontradas em programas governamentais anteriores, causadas, sobretudo, pela falta de preparo (ou de opção política) do aparelho estatal e do setor financeiro em lidar com políticas de desenvolvimento com base nos setores mais carentes do meio rural. Ressalta-se que, do mesmo modo que o Pronaf, as políticas de financiamentos rurais oriundos de agentes multilaterais, como o Banco Mundial, também têm mostrado limites e contradições: ao mesmo tempo em que elas criam linhas de crédito com objetivo de aliviar a pobreza, recomendam ao governo brasileiro a adoção de medidas liberalizantes na condução da economia, o que acaba gerando novos mecanismos de aumento da miséria rural (Soares & Sauer, 1998). Problemas como esses demonstram que são necessárias reformulações na legislação do crédito rural no país. Para se propor um novo padrão de financiamento do setor é indispensável, em primeiro lugar, romper com as políticas que fazem com que os habitantes do campo sejam considerados, muitas vezes, cidadãos de segunda categoria (Wanderley, 1997) e alterem a compreensão da sociedade brasileira, que ainda atribui um papel secundário ao meio rural (Brasil, 1998).Em segundo lugar, é preciso levar em conta, também, a heterogeneidade de tipos de agriculturas e de atividades desenvolvidas nas diferentes regiões, rompendo com a rigidez das regras atuais, que limitam o aparecimento de novas demandas de financiamento. É fundamental fazer valer a real concepção de “crédito rural”, ao invés daquela que faz do Sncr um sistema ainda voltado essencialmente para o “crédito agrícola”. Outro aspecto importante a destacar na discussão sobre o papel das cooperativas de crédito rural e políticas de desenvolvimento local está relacionado à expansão vertiginosa do capital financeiro dentro das sociedades contemporâneas. Como se viu, os bancos tradicionais tornam-se instituições cada vez mais “internacionalizadas”, fato que leva à crescente transferência de seus centros de decisão para esferas mais distantes das pequenas agências, dificultando normalmente o atendimento de demandas e de interesses localizados, principalmente, em pequenas e médias cidades e em regiões rurais. Neste final de século, as 101 grandes empresas financeiras (privadas ou estatais) estão interessadas, particularmente, em patrocinar atividades que elevem ao máximo a rentabilidade de seus acionistas e controladores. A globalização - que acarreta à formação de novos grupos econômicos, a transformação no papel social dos bancos públicos e um vertiginoso crescimento e sofisticação do setor - está fazendo das instituições bancárias organizações menos “sensíveis” às demandas localizadas em pequenos municípios e em zonas rurais, sobretudo naquelas desprovidas de grande movimentação financeira criada pelos complexos agroindustriais. Esta tendência está levando ao fechamento de muitas agências bancárias nas pequenas cidades, o que se torna mais grave devido aos processos de privatizações dos bancos estatais95. Em função das restrições do sistema bancário brasileiro, observa-se uma maior compreensão das entidades oficiais e dos movimentos sociais do campo sobre a importância do cooperativismo de crédito para o desenvolvimento do meio rural. Para esse quadro favorável vêm colaborando as experiências de credis que procuram desenvolver um modelo participativo e mais democrático de gestão. Como assinala Abramovay (1996) as cooperativas de crédito são parte importante da construção de uma nova relação entre os agricultores e a sociedade. Elas representam, antes de tudo, uma transferência de iniciativas públicas da esfera federal para os níveis locais, com base na participação ativa dos agricultores. Como grande parte dos municípios brasileiros ainda sobrevive de atividades rurais ou que giram em torno destas, percebe-se o potencial das cooperativas de crédito como instituições que podem estar “enredadas” às necessidades locais e regionais. A “distância” entre os agentes financeiros e os tomadores de recursos precisa ser diminuída, valorizando as instituições financeiras locais como as cooperativas de crédito rural, aumentando a articulação entre os pequenos tomadores de crédito e o circuito financeiro e governamental. Buscou-se neste trabalho compreender a evolução dos sistemas cooperativistas em outros países. A análise sobre a origem e o desenvolvimento do cooperativismo de crédito da Europa - especialmente da França - demonstra a “proximidade” destas organizações em relação aos interesses das populações locais. De um lado, tal “proximidade” fez das cooperativas de crédito da Alemanha, da França e da Holanda peças fundamentais na viabilização de políticas de financiamento voltadas ao desenvolvimento do meio rural. De 95 Segundo informações extra-oficiais repassadas por um dirigente cooperativista já existem atualmente mais de 2.000 municípios brasileiros sem nenhuma agência bancária. 102 outro, o nível de abrangência alcançado junto às pequenas comunidades pelos sistemas cooperativistas mantém-se no presente, em que pese as políticas de concentração vividas pelo sistema financeiro e cooperativistas desses países. O cooperativismo de crédito ainda não possui no Brasil estes níveis de abrangência com a população rural. Em outro tópico, o presente trabalho discutiu o processo de expansão do sistema cooperativista de crédito em Santa Catarina. Percebeu-se que ele sofreu influências de diferentes correntes de pensamento. O primeiro grupo de cooperativas de crédito rural foi constituído principalmente durante os anos 1980, a partir do interesse das coopers existentes no estado. Esta corrente vem mudando de prioridade nos últimos anos, principalmente depois da fundação de seu banco comercial. Vale dizer que, nos anos 1980 e início dos anos 1990, essa corrente demonstrava certo interesse em irradiar o seu sistema horizontalmente, abrindo espaços, por isso, para a incorporação de cooperativas de crédito oriundas de municípios pequenos e com baixa renda. Esta “abertura” político institucional permitiu que credis “alternativas” de Santa Catarina, criadas com apoio do Cepagro, incorporassem-se ao Sistema. Adotando uma visão “bancária”, o Sistema parece estar, agora, mais preocupado em consolidar uma estratégia nacional de “conquista de mercado financeiro” e o atendimento de necessidades dos setores em que prevalece a agricultura comercial. Dentro desta corrente cresce também, via o Bancoob, a associação das cooperativas de crédito rural” ao cooperativismo de crédito “mútuo”, este constituído nos setores urbanos da sociedade. Deve-se ressaltar que no meio urbano estão localizadas as maiores possibilidades de expansão financeira do cooperativismo de crédito no Brasil. Prevê-se que essa associação, aliada às motivações de mercado, poderá fazer o banco cooperativo se afastar ainda mais das pequenas comunidades rurais, principalmente de regiões de menor renda pois passa a prevalecer, sobretudo, a ótica da relação custo/benefício. As outras duas correntes aqui analisadas (Acreditar e Cresol) foram criadas através de programas que as apresentam como organizações coordenadas pelos agricultores familiares e que procuram agir de maneira participativa e autônoma das coopers. Constatou-se que as credis “alternativas” e a Cresol representam um esforço de cooperação financeira, que nasce de organizações populares e de setores que defendem a agricultura familiar Muitas destas cooperativas são desdobramentos de movimentos locais apoiados por ongs, igrejas e parte do sindicalismo do campo, que contestava o padrão dominante na agricultura. Eles pretendiam construir um processo “alternativo”, que levasse ao campo um modelo de desenvolvimento diferente daquele apregoado pela modernização. Somam-se a estas motivações, as 103 dificuldades crescentes que estes agricultores menos capitalizados têm enfrentado junto aos bancos comerciais para obter apoio a suas demandas de financiamento. Por isso, cabe aqui a observação de Schröder (1998), indicando que a ação das cooperativas de crédito rural “alternativas” é de caráter econômico, mas seu discurso acaba ganhando um conteúdo mais ideologizado em função da aproximação a outros tipos de organização de tipo reivindicativo. As duas correntes (Acreditar e Cresol) assumem que não estão interessadas neste momento em organizar um banco cooperativo e nem participar dos já existentes. Preferem preocupar-se em ampliar a base social do seu sistema, estimulando a criação de novas cooperativas em localidades em que elas não existam, mesmo que isto represente um custo de transação maior do sistema. Para estas correntes, as cooperativas devem ser assumidas pelas comunidades, deste modo, os custos de manutenção das cooperativas de crédito precisam ser compartilhados com as entidades públicas e privadas locais e pelo maior número possível de associados. Procurou-se apontar alguns fatores que condicionam a transformação das credis em agentes de desenvolvimento rural. Neste sentido, as credis “alternativas” de Santa Catarina e o sistema Cresol possuem mais elementos que convergem para esta direção, do que as cooperativas do sistema “tradicional”. Os desafios dos sistemas considerados “desenvolvimentistas”, como o Cresol e o Acreditar, são em certa medida mais amplos que aqueles assumidos por cooperativas ligadas ao Bancoob. Para os primeiros não basta combinar a gestão eficiente dos recursos de crédito com uma maior participação nas decisões, pois eles são “cobrados” também quanto aos impactos sociais de suas ações. Apesar do seu esforço, os sistemas “desenvolvimentistas” do Sul devem ser entendidos como “projetos pilotos”, pois eles não podem garantir o atendimento das necessidades de todo o país nesta área. Pensando em escala nacional, este tipo de processo serve mais como referência às políticas públicas, pois o ambiente institucional e a cultura do sistema econômico e financeiro brasileiro não estão ao seu lado. A diferença doutrinária entre a Cresol e o movimento das credis “alternativo” de Santa Catarina reside, sobretudo, no destaque maior dado pela segunda à fase preparatória, que ocorre antes da fundação das organizações. O Programa que cria as cooperativas “alternativas” em Santa Catarina procura consolidar previamente os laços da futura entidade, articulando-as ao maior número de agricultores e aos mais diversos setores da comunidade. Esta estratégia, além de ampliar o leque de parcerias da credi, pode fortalecer a compreensão da sociedade local quanto ao papel da entidade dentro de processos de desenvolvimento local. 104 Cabe frisar, todavia, que em função dos objetivos e dos limites do presente trabalho, as diferenças entre os três sistemas precisarão ser verificadas através de outras investigações realizadas junto a cada cooperativa. Outras pesquisas deverão analisar também em que medida as cooperativas que possuem uma visão desenvolvimentista estão conseguindo atuar de maneira diferente das cooperativas “tradicionais” (atualmente coordenadas por uma visão “bancária”). É preciso observar, por exemplo, de que modo cada credi posiciona-se quanto às questões ligadas à política de democratização do crédito rural e do desenvolvimento de sua comunidade. Em outro ponto, o trabalho aponta que a legislação que rege o setor do cooperativismo de crédito no Brasil precisa de modificações mais profundas para que as credis possam atuar como agentes financeiros voltados ao desenvolvimento local. É imprescindível se criar um novo marco legal e político que leve à consolidação de um ambiente institucional favorável ao cooperativismo de crédito. Constata-se que tiveram pouco sucesso os projetos que manejavam crédito voltado ao meio rural nos quais os próprios protagonistas não estivessem diretamente envolvidos na sua gestão (Gentil & Fournier, s/d). O crédito pressupõe um compromisso de longo prazo da instituição financeira com a comunidade. Por isso, ao se investir em projetos descentralizados e coordenados por instâncias financeiras locais, as políticas públicas elevam suas chances de alcançar bons resultados. Para fazer da cooperativa de crédito rural um agente mais atuante no cotidiano dos municípios brasileiros, é necessário que haja espaço para a atuação das diferentes correntes de pensamento que estão envolvidas no segmento. Esta autonomia começa pela obrigatoriedade ou não de vinculação das cooperativas singulares e centrais aos bancos cooperativos. Uma vez que os bancos cooperativos não englobam a totalidade das correntes de pensamento que atuam no setor, os diferentes setores do Governo Federal, desde da área agrícola e do desenvolvimento rural até o Banco Central, precisam estar sensibilizados para esta questão. É preciso que o governo não diminua as possibilidades de atuação de cooperativas que não querem constituir centrais de crédito como órgão de cúpula, garantindo a pluralidade e destinando recursos de crédito rural para as organizações “independentes”. Somente desta forma poderão sobreviver sistemas como o da Cresol e do Acreditar e poderão ser estimuladas outras redes cooperativas, que preferirem atuar ligadas de alguma forma aos sistemas tradicionais. Uma boa oportunidade de discutir este assunto se dará quando o processo de regulamentação do art. 192 da Constituição Federal, que está em discussão no Congresso 105 Nacional desde 1988, entrar novamente na pauta das prioridades nacionais. Se o governo brasileiro deseja seguir o exemplo de outros países desenvolvidos, ele deve estimular a criação de cooperativas locais de crédito, e não restringi-la, como fez através da recente Resolução n. 2.608 do Banco Central. As credis precisam recuperar novamente o direito de iniciar suas atividades compondo um capital social que esteja coerente com a realidade econômica local. Ou seja, é preciso modificar as atuais regras, que estabelecem um capital social de R$ 50.000,00 para se iniciar uma cooperativa de crédito “independente” e R$ 35.000,00 para se constituir uma cooperativa vinculada a uma central de crédito. Do contrário, muitos municípios não conseguirão organizar suas cooperativas, em razão das dificuldades de recolher previamente a soma exigida pelo novo Regulamento. Esta exigência parece despropositada mesmo em termos econômicos, pois as experiências das credis “alternativas” de Santa Catarina e da Cresol demonstraram ser possível, mesmo com um pequeno valor inicial de Capital Social, ajustar as receitas e as despesas em pequenas cooperativas em um ou em dois anos. Vale dizer que nenhuma delas foi liquidada pelo Banco Central, por conta de problemas de gestão administrativa ou de inviabilidade financeira. As recentes restrições à criação das novas cooperativas de crédito demonstram que os bancos cooperativos já estão influenciando nos destinos do setor. Na esfera legal, percebe-se, inclusive que as associações representativas das cooperativas de crédito e dos bancos cooperativos começam a pressionar para que os projetos de regulamentação do setor financeiro e do cooperativismo sejam mais restritivos às pequenas cooperativas e aos sistemas alternativos. Outro ponto a destacar, no debate entre crédito e desenvolvimento rural, refere-se ao potencial dos programas de microfinanciamento. Verificou-se nesta investigação que são reduzidas as experiências bem sucedidas de mesclar o cooperativismo de crédito com microfinanciamento solidário, como também são raros os programas de microcrédito dirigido ao meio rural brasileiro. Sem dúvida, um dos grandes potenciais das políticas públicas e das credis que queiram assumir um papel desenvolvimentista será o de combinar as vantagens do cooperativismo de crédito com as novas estratégias dos programas de microfinanciamento solidário. As experiências da Cresol e das cooperativas “alternativas” de Santa Catarina são ainda relativamente recentes. Este período de tempo é insuficiente para garantir se estas iniciativas alcançarão perenidade e poderá mostrar-se um agente de desenvolvimento local. Recorde-se que Gentil & Fournier, (s/d) afirmam que são necessários ao redor de cinco anos 106 apenas para equilibrar financeiramente uma caixa local, dez para a união regional e quinze para o conjunto da rede nacional. Este raciocínio vale também para as novas estratégias bancárias do sistema “tradicional” de cooperativas. Para o caso de Santa Catarina, as primeiras cooperativas singulares desta corrente completam dezoito anos em 1999. A Central Estadual possui cerca de doze anos e o banco cooperativo nacional apenas dois. A trajetória social e política do Bancoob indicam que ele está articulado ao setor patronal da agricultura e aos setores urbanos. Por estas razões, dificilmente essa organização assumirá um papel de representação dos pequenos agricultores e de credis que desejam irradiar programas com objetivo de favorecer camadas mais desfavorecidas da população rural. Para que o Bancoob se apresente como gestor de programas voltados ao desenvolvimento rural, ele deveria deixar de inspirar-se apenas nas estratégias comerciais dos sistemas cooperativistas de países centrais, como nos casos da França e da Alemanha. Espelhar-se nos rumos atuais destes sistemas parece ajudar pouco para quem deseja atacar os problemas sociais, econômicos e políticos do Brasil. É mais oportuno, neste sentido, compreender como os sistemas cooperativistas europeus estabeleceram suas trajetórias de compromisso com as comunidades rurais, investiram na capilaridade e criaram maior “proximidade” com o seu público potencial. Ou seja, as experiências dos países do Norte não devem ser ignoradas, mas assimiladas, principalmente no que elas podem mostrar em termos de responsabilidade social e de conquista de legitimidade. Assume particular relevância a criação de políticas de estímulo ao cooperativismo de crédito rural. Somente deste modo estas instituições podem preencher o espaço institucional que a sociedade pode lhe oferecer. Estas políticas necessitam garantir a legitimidade e a representatividade social das credis, fortalecendo-as tanto no sentido horizontal quanto vertical. Mais do que disputar espaços no mercado bancário nacional, o cooperativismo de crédito rural deveria fazer novos pactos com as comunidades do interior do país, sobretudo em torno da população do campo, refazendo a confiança dos agricultores em torno dos potenciais da cooperação cooperativista, mostrando a importância de se construir instituições financeiras locais legitimamente instaladas junto a sua base social. Isto faz parte dos desafios dos atores sociais que pretendem transformar o cooperativismo de crédito num agenciador de desenvolvimento rural sustentável no Brasil. 107 6 Referências Bibliográficas ABRAMOVAY, R. O Capital Social dos Territórios: Repensando o Desenvolvimento Rural. Porto Alegre, In: IV Encontro da Sociedade Brasileiro de Economia Política. Ufrgs. s/d1. ______________ (2). Agricultura Familiar e Desenvolvimento Territorial s/d2 (mimeo.). ABRAMOVAY, R. In: CAZELLA A. A. & BÚRIGO F. L. Crédito Rural Cooperativo: Perspectivas e Desafios. 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