1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC/SP
Maristela dos Reis Souza
A influência do peso corporal sobre o ato de
vestir-se
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
São Paulo
2011
2 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC/SP
Maristela dos Reis Souza
A influência do peso corporal sobre o ato de
vestir-se
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
Dissertação apresentada à Banca
Examinadora da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, como exigência
parcial para obtenção do título de
MESTRE em Psicologia Clínica, sob a
orientação da Profa. Dra. Denise
Gimenez Ramos.
São Paulo
2011
3 Banca Examinadora:
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_______________________________________
4 AGRADECIMENTOS
Aos meus pais, Adriano e Vanda, por acreditarem e apoiarem o
desenvolvimento do meu potencial acadêmico, inicialmente, muito mais do que
eu. À minha filha Maria Luiza, por ter pacientemente dividido a minha atenção,
minha preocupação e o meu carinho com o presente trabalho.
À minha orientadora Denise Gimenez Ramos, pela coragem em acreditar e
apoiar o desenvolvimento de um tema tão delicado e complexo, sempre com
muita alegria, curiosidade e prazer em pesquisar as diversas nuances da alma
humana.
Às professoras Cristiane Mesquita e Liliana Liviano Wahba, pela
disponibilidade para se aventurarem comigo e com minha orientadora na
compreensão de um objeto de estudo que exigiu de todas nós dividir o saber, e
ao mesmo tempo, suportar o não saber.
À minha amiga Clarissa de Franco pela parceria e inspiração constantes,
ao ler, refletir e trabalhar junto, tornando muitas vezes meu próprio trabalho mais
inteligível para mim mesma.
Às minhas amigas e companheiras de jornada – Denise Mathias, Lara
Caldas, Talita Baltazar, Priscila Torolho, Gisele Azanuma, Monalisa Dibo – pelos
diálogos sempre estimulantes, divertidos e reconfortantes.
À minha amiga Iraci Suzart, por acreditar e apoiar a pesquisa com
participantes, cedendo pacientemente seu espaço de trabalho devido à sua sábia
convicção de que o conhecimento é um dos mais importantes alimentos da alma.
Á Tatiana Suzart e Salomão de Abreu, por me aproximarem da Iraci, bem
como dividirem observações, orientações e dicas inesquecíveis a respeito da
interação humana.
À Anita Costa Maluf e Erotilde de Franco, pela disponibilidade ao
ensinarem, corrigirem e me tranquilizarem na dura tarefa de conciliar gramática,
ortografia, coerência e um quase desespero em ser compreendida através da
escrita.
À Wolney Martini, pelo diálogo sempre estimulante e provocativo tanto dos
conceitos quanto das pré-concepções da teoria psicológica junguiana.
À CAPES, pelo financiamento de parte da presente pesquisa.
5 DEDICATÓRIA
Em 10 de junho de 2006, estava cursando o último ano da graduação em
Psicologia. Há meses eu sonhava diariamente com roupas de todo tipo. Ao
mesmo tempo, eu trabalhava o embrião da presente dissertação – isto é, meu
trabalho de conclusão de curso. Nesta data, eu fui dormir com uma pergunta
angustiante da cabeça: “Para onde eu vou seguir com minha carreira
profissional?”. Em resposta, tive o seguinte sonho.
“(...)Minha casa está desmoronando e corro com a minha companheira do
trabalho de conclusão de curso rumo ao desconhecido. Andando pelos fundos de
várias casas, escolhemos uma e entramos. Nos fundos desta casa havia muitas
crianças órfãs e desabrigadas. Estavam naquele cômodo a espera de cuidados.
Tinha mais de 100 crianças entre 5 e 12 anos naquele quarto. A minha
companheira tentou me sensibilizar para cuidar das crianças ou ter meus próprios
filhos. Eu respondi que não os teria nunca porque não tinha dinheiro para sustentálos. Logo em seguida, atravessamos para a parte da frente da casa e chegamos à
sala de estar. Era enorme, luxuosa e percebemos que a casa pertencia a alguém.
Entrou na sala uma senhora. Ela tinha entre 50 e 60 anos. Cabelos brancos, curtos,
bem vestida e de porte elegante. Ela me disse: “Se não pode ter filhos, agora você
vai poder”. Ela estendeu as mãos e me deu um saco transparente com uma
pequena fortuna em dinheiro e alguns documentos para assegurar que a doação
não tivesse problemas. Ela prosseguiu dizendo: “O dinheiro será suficiente para
cuidar dos seus filhos e das crianças que estão nos fundos. Eu estou esgotada,
cansada, logo eu não terei mais forças para cuidar deles. Tenho herdeiros que
querem o dinheiro, mas que não querem cuidar das crianças”. Então, neste
momento, eu ganhei a casa, mais de 100 crianças para cuidar, uma pequena
fortuna em dinheiro, mas não sabia por onde começar.”
Assim, esta dissertação representa o início de uma jornada pessoal.
Dedico este trabalho aos aspectos psicológicos desamparados
e que esperam por cuidado dentro de cada um de nós.
6 RESUMO
SOUZA, Maristela dos Reis. A influência do peso corporal sobre o ato de vestirse. 2011. 134f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, 2011.
Possuir índice de massa corporal “obesidade” e ser cuidadoso com sua
aparência física podem ser características pessoais inconciliáveis para os
indivíduos gordos. Assim, o objetivo geral da pesquisa foi compreender qual é o
tipo de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e a aquisição e uso
de roupas. A pesquisa utiliza o conceito de “persona” – provindo na Psicologia
Junguiana – a fim de compreender esta relação dentro do ponto de vista
psicológico. O método da pesquisa consiste na entrevista semi-aberta e na
mensuração do “índice de massa corporal” de 40 homens e 40 mulheres
distribuídos entre cinco categorias do IMC: normal, sobrepeso, e obesidade
classes I, II e III. Os dados foram analisados a partir do cruzamento entre as
questões fechadas que mais destacaram percentualmente e o discurso emitido
pelos participantes ao justificar sua escolha. Encontramos uma relação linear
entre o IMC e as três variáveis: sentimento de exclusão, dificuldade para achar
roupas de tamanhos adequados e insatisfação com o peso corporal. A
preocupação com o peso corporal no ato de vestir-se gera sofrimento não só para
os participantes com IMC obesidade, mas também para os participantes com IMC
normal e IMC sobrepeso.
Palavras-chave: persona, IMC, obesidade, roupa, psicologia Analítica.
7 ABSTRACT
SOUZA, Maristela dos Reis. The influence of body weight in the act of clothing.
2011. 134l. Dissertation (Master in Clinical Psychology). Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, 2011.
Possessing a Body Mass Index (BMI) categorized as “obese” and taking
care of physical appearance may be two irreconcilable characteristics among fat
individuals. Therefore, the overall objective of this research is to understand what
type of relation exists between the body weight of these individuals and the act of
acquiring and wearing clothes. This research uses the concept of “persona” – from
Jungian Psychology – to understand this issue in a psychological perspective. The
methodology used involves semi-structured interviews and the measurement of
the Body Mass Index of 40 males and 40 females, distributed between five BMI
categories: normal range, overweight and obesity classes I, II and III. The data
was analyzed by crossing the closed questions that stood out in terms of
percentage with the verbalizations of the participants aimed at justifying their
choices. We have found a linear relation between the BMI and the following
variables: the feeling of exclusion, difficulty in finding clothes of adequate size and
dissatisfaction with body weight. Worrying about body weight causes suffering not
only in participants with “obese” BMI, but also in participants with normal BMI and
“overweight” BMI.
Keywords: persona, BMI, obesity, clothing, Analytical Psychology.
8 SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ................................................................................................
10
CAPÍTULO I ....................................................................................................
17
1. PERSONA
E
SOMBRA:
ADAPTAÇÃO
SOCIAL
RUMO
À
EXPRESSÃO DO SI-MESMO ..............................................................
17
1.1.
Ego ............................................................................................
17
1.2.
Sombra ......................................................................................
18
1.3.
Persona .....................................................................................
19
1.4.
O Processo de Individuação .....................................................
21
1.5.
A Dinâmica Psicológica que Subjaz ao ato de vestir-se ...........
24
CAPÍTULO II ...................................................................................................
28
2. ROUPA E CORPO: INTERAÇÃO ENTRE A FORMATAÇÃO SOCIAL
E O CONFORTO INDIVIDUAL .............................................................
28
2.1.
A percepção cultural do peso corporal .....................................
28
2.2.
A interação entre roupa e corpo ...............................................
33
2.3.
A necessidade de conforto corporal .........................................
34
CAPÍTULO III ..................................................................................................
38
3. MÉTODO ..............................................................................................
38
3.1.
Objetivos ...................................................................................
38
3.2.
O plano inicial de pesquisa .......................................................
38
3.3.
IMC como critério de escolha ....................................................
39
3.4.
As características dos participantes ..........................................
41
3.5.
Instrumentos utilizado ...............................................................
42
3.6.
A coleta de dados .....................................................................
43
3.7.
Método estatístico aplicado na análise dos dados ....................
47
CAPÍTULO IV .................................................................................................
49
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS ...........................................................
49
4.1.
Q1: “No seu dia a dia, você se sente bem vestido?” ................
4.2.
Q2: “Você acha que poderia estar melhor vestido do que você
está agora?” ..............................................................................
49
55
9 4.2.1. Q2A1B: Opção – falta dinheiro para nos sentirmos
melhor vestidos ..............................................................
58
4.2.2. Q2A2B: Opção – Orientação profissional sobre o que
vestir ..............................................................................
60
4.2.3. Q2A3B: Opção – Faltam roupas de modelos e estilos
variados .........................................................................
64
4.2.4. Q2A4B: Opção – ter mais imagens de pessoas com o
mesmo corpo..................................................................
70
4.2.5. Q2A5B: Opção – outros motivos não citados pela
pesquisadora, mas que o participante considera
importante.......................................................................
4.3.
75
Q3: “Você tem dificuldade para achar roupas de tamanhos
adequados para você?” .......................................
79
4.3.1. Q3A: Opção – Sim, eu tenho dificuldade para achar
roupas de tamanhos adequados ...................................
81
4.3.2. Q3B: Opção – “Agora não. Eu já tive, mas hoje não
tenho mais dificuldade para achar roupas de tamanhos
4.4.
adequados.”....................................................................
88
Q4: “Você está satisfeito com seu peso corporal?”...................
91
4.4.1. Análise da satisfação e da insatisfação com o peso
corporal...........................................................................
4.5.
92
Q5: “Você já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por
conta da necessidade de se vestir?...........................................
103
4.5.1. Q5a: “Por que você sentiu vontade de ganhar/perder
peso?” ............................................................................
106
4.5.2. Q5aA: “Como você se sentiu diante da vontade de
ganhar/perder peso?” ....................................................
113
4.5.3. Q5aB: “O que você fez para solucionar o dilema que
provocou a vontade de ganhar/perder peso?” ...............
115
CONCLUSÃO .................................................................................................
120
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..............................................................
129
ANEXOS .........................................................................................................
132
10 INTRODUÇÃO
O presente trabalho surgiu da necessidade de compreender qual é o tipo
de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e o uso que eles fazem
de suas roupas. Mais precisamente, buscamos compreender esta relação dentro
do ponto de vista psicológico – isto é, recortando os sentimentos experimentados
pelos indivíduos durante o comportamento de vestir-se.
A escolha do recorte afetivo se deve tanto a um incômodo pessoal da
pesquisadora quanto à sua formação profissional. Quanto ao incômodo pessoal, a
pesquisadora conviveu com muitas pessoas que possuem índices de massa
corporal (IMC) sobrepeso e obesidade. Ela observou que estar com IMC acima do
normal pode tornar mais difícil a execução de algumas tarefas do dia a dia. Uma
destas tarefas chamou a atenção da pesquisadora: cuidar da aparência física. A
imagem corporal total de uma pessoa – isto é, sua aparência física – é resultante
da interação entre corpo humano, roupa e modificações corporais visualmente
perceptíveis, tais como estilo de cabelo, tatuagem, maquiagem, entre outros.
Contudo estar com IMC acima do normal e ser cuidadoso com sua
aparência parecem ser características pessoais inconciliáveis. Especialmente se
observarmos mais atentamente a aquisição e o uso de roupas – isto é, o ato de
vestir-se. Diante de uma ocasião festiva, de uma entrevista de emprego, de um
encontro romântico, ou mesmo para ficar em casa, o indivíduo com IMC acima do
normal se depara com a falta de roupa adequada. Este desconforto pode ser
vivido por indivíduos de qualquer IMC, mas é possível que esta vivência seja mais
frequente e dolorosa para aqueles com IMC sobrepeso e obesidade. Uma vez
que ao tentar compor uma bela aparência física, vários fatores culturais e
individuais inerentes ao excesso de peso podem dificultar o alcance desse
objetivo.
A presente pesquisa parte do pressuposto que o ato de se vestir ocorre em
dois níveis: a vivência material e a vivência emocional. Tais vivências ocorrem
simultaneamente e se complementam durante a aquisição e uso das roupas.
Chamamos de vivência material a relação que o indivíduo estabelece com
todos os elementos tangíveis envolvidos no ato de se vestir, tais como: a
modelagem e o estilo de roupas disponíveis nas lojas; roupas feitas sob medida
11 ou produzidas pelo próprio indivíduo; recursos financeiros disponíveis para
comprar roupa; gênero sexual; as dimensões corporais de cada indivíduo, como
tamanho e formas; entre outros.
A vivência emocional refere-se aos sentimentos que o indivíduo pode
experimentar durante a aquisição e uso de roupas, tais como: tristeza, frustração,
irritação, constrangimento, satisfação, entre outros. É justamente a vivência
afetiva que permeia o ato de vestir-se que nos interessa compreender, bem como
a dinâmica emocional que a caracteriza. Como as vivências emocionais e
materiais ocorrem em paralelo, não podemos realizar uma separação de fato
entre elas. Assim, propomos esta separação didática a fim de delimitar nosso
objeto de estudo. Contudo na pesquisa com participantes, observamos também a
importância da vivência material.
Sabemos pouco sobre como os indivíduos de cada categoria do IMC lidam
com a tarefa social de vestir-se. O presente trabalho visa preencher parte desta
lacuna através da compreensão dos comportamentos e sentimentos vividos por
40 homens e 40 mulheres distribuídos em cinco categorias do IMC – normal,
sobrepeso, obesidade I, obesidade II e obesidade III – que participaram da
presente pesquisa.
Estabelecemos como primeiro objetivo específico do estudo observar se a
variável índice de massa corporal (IMC) interfere nas vivências emocionais e
materiais da aquisição e/ou uso de roupas. Ao mesmo tempo, o excesso de peso
corporal é percebido de modo diferente nos corpos masculinos e femininos. Deste
modo, definimos como segundo objetivo específico identificar se a variável gênero
interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas.
Ao ler as reflexões teóricas de alguns autores e os discursos dos
participantes, podemos encontrar o uso da expressão “acima do peso”. No
presente trabalho consideramos as expressões “acima do peso”, “acima do IMC
normal” e “acima do IMC esperado para sua idade e altura” como sinônimas. Uma
vez que nos três casos a palavra “acima” parte do mesmo referencial: o índice de
massa corporal ou IMC. Este índice estabelece qual é o peso adequado para
cada altura corporal. Caso o peso de uma pessoa esteja acima do adequado para
sua altura, ela será considerada acima do IMC normal e fará parte de outras
quatro categorias do IMC: sobrepeso, obesidade classe I, obesidade classe II e
12 obesidade classe III. A definição deste índice, bem como sua importância e
categorias estão descritas no capítulo três.
Ao ler as reflexões de alguns autores, encontramos o uso dos termos
“acima do peso” e “gordo” como sinônimos. Assim, optamos por manter o uso
original dos termos em nossa dissertação a fim de facilitar a compreensão do
conteúdo apresentado.
Utilizamos o conceito de IMC ao invés do peso corporal em nosso estudo
por
três
motivos.
Primeiro,
porque
este
índice
considera
o
peso
proporcionalmente à altura. Isto é, dois indivíduos com o mesmo peso, mas com
alturas diferentes, possuem tipos físicos diferentes. Assim, mensurar não só o
peso, mas também a altura permite o agrupamento de participantes com tipos
físicos semelhantes. Segundo, a “Organização Mundial de Saúde” considera este
índice o método mais simples, barato e eficaz para calcular a quantidade de
gordura existente no corpo humano. Terceiro não existem outros procedimentos
antropométricos mais adequados para pesquisas com participantes realizadas em
locais públicos.
Os principais referenciais teóricos utilizados nesta dissertação são a
Psicologia Analítica, as reflexões teóricas a respeito da relação entre roupa e
corpo, e as pesquisas com participantes relatadas em artigos científicos.
Utilizamos alguns conceitos da Psicologia Analítica a fim de compreender a
dinâmica psicológica que subjaz ao ato de vestir-se. A principal contribuição desta
teoria psicológica para o entendimento do nosso objeto de estudo é o conceito de
“persona”. Posto que tanto a inevitabilidade das relações sociais quanto a
inserção – mesmo que involuntária – dos indivíduos na vida social e cultural estão
implícitas nesse conceito. Dito de outro modo, o conceito de “persona” pressupõe
que todos os indivíduos devem lidar com as diversas exigências da cultura e da
vida em sociedade. Usar roupas é uma dessas exigências.
Por outro lado, a teoria psicológica junguiana também considera inevitável
ser quem se é, isto é, conviver com as próprias características físicas e
psicológicas mais singulares. Diante dessa interação entre a coletividade e a
individualidade, cabe ao “ego” esforçar-se para equilibrar essas exigências caso a
caso, dentro das particularidades da vivência de cada indivíduo. A definição e a
relação entre os conceitos junguianos – ego, sombra, persona e processo de
13 individuação – bem como a dinâmica psicológica que subjaz ao ato de vestir-se,
encontram-se no primeiro capítulo.
Encontramos inúmeras reflexões teóricas a respeito da relação entre roupa
e corpo. Contudo o nosso interesse pelo corpo gordo limitou nossas opções de
bibliografia e autores. Os principais autores utilizados foram Castilho e Vicentini
(2008), Fischler (2005), Flügel (1966), Kaiser (1998) e Pope (2000). De um modo
geral, tais pesquisadores propõem que a aparência corporal é formatada de
acordo com as expectativas sociais. Tal formatação parece garantir a inserção
social dos indivíduos. O excesso de gordura corporal tem significados sociais
diferentes nos corpos masculinos e femininos. Esta diferença pode ser
determinante na qualidade da relação que homens e mulheres com IMC
sobrepeso e obesidade têm com seus corpos. É importante enfatizar que este
agrupamento de reflexões é heterogêneo – isto é, não apresenta um consenso
teórico – posto que tal heterogeneidade é fruto da complexidade do objeto
pesquisado. Estas reflexões foram relatadas no capítulo dois.
Utilizamos as seguintes palavras-chave durante a revisão bibliográfica de
artigos:
roupa/clothing
e
sentimentos/feelings
e
sobrepeso/overweight
e
mulher/woman.
A palavra “roupa/clothing” é um termo de uso popular. Interessava-nos
obter qualquer tipo de produção científica que fizesse menção ao vestuário. Não
importando se a roupa é o objeto principal da pesquisa, ou se ela aparece como
um dado relevante na análise de resultados. Outras palavras como vestuário,
indumentária, apparel, garment e clothes são termos mais técnicos. Eles se
restringem os artigos encontrados no campo de estudo da disciplina “Moda” e
excluem aqueles que pertencem a outras disciplinas.
A palavra “sentimentos/feelings” é outro termo de uso popular e cotidiano.
Geralmente é utilizado para expressar algo que experimentamos individualmente.
Os termos “sentimentos/feelings” têm um uso bem específico na disciplina
“Psicologia”. Não obstante, em outras disciplinas ligadas à saúde e ao vestuário, o
termo pode indicar uma vivência emocional que surgiu em algum momento da
pesquisa relatada. Mesmo que esta vivência seja secundária dentro dos
interesses do pesquisador. Selecionamos artigos que fizessem alguma referência
aos sentimentos relativos ao ato de se vestir, tais como sensações corporais
(desconforto, pressão, dor), emoções (raiva, frustração, revolta, alegria,
14 tranquilidade) ou qualquer outra vivência mais íntima relatada pelo participante
em relação às suas roupas.
A palavra “sobrepeso/overweight” pode ter um ou dois significados
dependendo do idioma. Em inglês, overweight pode significar “acima do peso” ou
se referir à terceira categoria do IMC. Em português, o termo “sobrepeso” se
refere exclusivamente à terceira categoria do IMC. O termo foi utilizado na
pesquisa porque os dois significados são compatíveis com nossos propósitos.
Ao realizarmos uma busca com a palavra “mulher/woman” encontramos
estudos realizados com homens e mulheres, bem como somente com mulheres.
No entanto, não encontramos estudos realizados somente com homens.
Não encontramos artigos de pesquisas que tinham por objetivo estudar a
relação entre o comportamento de vestir-se e o IMC dos indivíduos. Contudo, a
relação entre estas duas variáveis surgiu durante a análise de resultados de três
estudos onde a dimensão corporal individual – como o peso corporal e o tamanho
da mama – era uma das variáveis controladas pelos pesquisadores. Tais estudos
mostram que os participantes se preocupavam com o conforto e o bem-estar
corporal ao adquirir uma roupa. Tal preocupação parece se traduzir na
preferência dos indivíduos por roupas adequadas às suas formas corporais.
A fim de compreender a relação entre o IMC e o ato de vestir-se, optamos
por utilizar parte do método de pesquisa do estudo realizado por Baturka et al.
(2000). Estes pesquisadores entrevistaram 24 participantes do sexo feminino
distribuídas entre as seguintes categorias do IMC: normal, sobrepeso e
obesidade. Os resultados do estudo norte-americano apontam que o ato de se
vestir influencia o modo como o indivíduo sente-se a respeito do seu peso
corporal. O contrário também pode ser verdadeiro. A descrição completa dessa
pesquisa encontra-se no capítulo dois. Contudo o estudo não deixa claro qual é a
importância dos elementos envolvidos nesta relação, tampouco a dinâmica
psicológica que se dá entre eles. Como o estudo foi realizado somente com
mulheres, também não é possível saber se tal influência ocorre também entre os
homens.
Frente
aos
resultados
apresentados
por
Baturka
et
al.
(2000),
estabelecemos nosso terceiro objetivo específico: observar se há relação entre a
aquisição e/ou uso de roupas e a satisfação com o peso corporal. Em nossa
pesquisa, utilizamos o mesmo método de distribuição da amostra por IMC.
15 Os participantes de nossa pesquisa foram os transeuntes de três locais da
cidade de São Paulo: Rua Teodoro Sampaio, Rua Domingos de Moraes e
campus universitário SENAC Santo Amaro. No momento em que as pessoas
passavam por estes locais, elas eram convidadas a participar da pesquisa. Ao
aceitarem, estes participantes passavam por duas etapas. A primeira consistia na
mensuração de seu peso corporal numa balança digital, bem como na
mensuração de sua altura numa fita métrica presa à parede ao lado da balança. A
segunda etapa consistia em responder a uma entrevista semiaberta com duração
aproximada de dois minutos.
Contudo, alguns procedimentos inicialmente planejados para a pesquisa
foram alterados ao longo da atividade a fim de se adequar a duas dificuldades
encontradas. Uma delas foi o receio dos participantes em subir na balança em um
local público. A outra dificuldade encontrada foi a recusa dos transeuntes do
gênero masculino em concederem uma entrevista sobre roupas.
Mesmo diante de tais dificuldades, preferimos realizar a coleta de dados
num local público a fim de garantir que as respostas se aproximem ao máximo da
vivência cotidiana. Uma vez que grande parte dos participantes passaram em
frente a vitrines de lojas de roupas alguns instantes antes de serem entrevistados.
O relato completo do perfil dos participantes, os instrumentos utilizados, os locais
de pesquisa, bem como os procedimentos utilizados para realizar a coleta de
dados estão descritos no capítulo três.
O método de análise dos resultados consiste em estabelecer um paralelo
entre as alternativas escolhidas na entrevista (ANEXO II) que mais se destacaram
percentualmente e o discurso emitido pelos participantes ao justificar sua escolha.
Os discursos selecionados contêm as palavras citadas com mais frequência em
cada grupo de respostas.
De um modo geral, encontramos que o peso corporal interfere e provoca
sofrimento no ato de vestir-se tanto para os participantes mais leves – com IMC
normal e sobrepeso – quanto para os participantes mais pesados – com IMC
obesidade I, II e III – só que por motivos diferentes. Os resultados obtidos e sua
análise encontram-se descritos no capítulo quatro.
A dissertação foi dividida em quatro capítulos, além de um uma reflexão
inicial introdutória. No capítulo um, propomos o diálogo da Psicologia Analítica
com o objeto de estudo. No capítulo dois, apresentamos a bibliografia encontrada,
16 incluindo as pesquisas com participantes e as reflexões teóricas. No capítulo três,
descrevemos o método utilizado na pesquisa com participantes. Já no capítulo
quatro, relatamos e analisamos os resultados obtidos. Por fim, posteriormente
apresentamos as conclusões resultantes do estudo.
17 CAPÍTULO I
1. PERSONA E SOMBRA: ADAPTAÇÃO SOCIAL RUMO À
EXPRESSÃO DO SI-MESMO
O presente trabalho se propõe a compreender a dinâmica psicológica que
subjaz à relação entre o peso corporal e o ato de vestir-se. Este primeiro capítulo
apresenta alguns conceitos relativos ao tema sob o enfoque da Psicologia
Analítica.
Nos quatro primeiros tópicos do capítulo, abordamos os conceitos de ego,
sombra, persona e processo de individuação. No quinto tópico, apresentamos
nossa hipótese a respeito da dinâmica psicológica que subjaz ao ato de vestir-se,
principiando o diálogo entre a teoria e o objeto de estudo.
Iniciar o capítulo com um conteúdo básico visa atender a dois objetivos.
Primeiro, construir uma base conceitual que nos permita realizar o diálogo da
teoria psicológica junguiana com nosso objeto de estudo no decorrer de todo o
trabalho. Segundo, facilitar a compreensão dos leitores poucos familiarizados com
essa teoria.
1.1 – Ego
A psicologia junguiana parte do pressuposto que a psique é composta de
conteúdos conscientes e inconscientes. Os conteúdos conscientes são aqueles
cuja existência reconhecemos. Já os conteúdos inconscientes são aqueles que
estão no limiar da consciência ou não a alcançaram, porém constituem a semente
de futuros conteúdos conscientes (JUNG, VII/2, 2008).
Estes conteúdos podem ter duas origens: pessoal e coletiva. Conteúdos
pessoais são aqueles adquiridos durante a existência individual, ou que
reconhecemos como provindos de um ponto específico da nossa história
pregressa. Os conteúdos coletivos são aqueles impessoais, que surgem sob a
forma de arquétipos (JUNG, VII/2, 2008).
A mediação entre consciência e inconsciente, bem como entre o individual
e o coletivo, é realizada pelo ego. O ego é um complexo funcional que constitui o
18 centro do campo da consciência (PIERI, 2002). Ele contém as características que
o indivíduo reconhece como “eu”. “(...) dado que este campo inclui também a
personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa”
(JUNG, IX/2, 2008, §1). Mas este eu
(...) alcança sempre o seu limite, todas as vezes que toca o âmbito do
desconhecido. Este desconhecido é constituído por tudo quanto
ignoramos, por tudo aquilo que não possui qualquer relação com o eu
enquanto centro da consciência”
(JUNG, IX/2, 2008, §2).
1.2 – Sombra
No instante em que o ego toca o desconhecido no mundo interior, ele
encontra o “mundo das sombras. Ali o ego se torna ligeiramente obscuro, não
enxergamos e tornamo-nos um enigma aos nossos próprios olhos” (JUNG,
XVIII/1, 2008, §38). O termo sombra refere-se a um campo da psique que contém
características de personalidade – como tendências, atitudes, desejos, entre
outros – que o ego desconhece ou rejeita. Tais características se encontram em
estado indiferenciado ou fracamente diferenciado, porém constituem o germe de
futuras qualidades do ego (JUNG, XVIII/1, 2008).
Os traços que estão na sombra podem ser considerados “inadmissíveis,
injustos ou imperfeitos” segundo os valores morais aceitos pelo ego (JUNG,
XVIII/1, 2008, §40). Quando tais características se aproximam do campo da
consciência, o indivíduo sofre com a possibilidade destes traços pouco lisonjeiros
serem seus. Assim, o ego pode reprimir e/ou projetar estes conteúdos. Entendase reprimir como não permitir que eles permaneçam no campo da consciência.
Entenda-se projetar como deslocar estes conteúdos para algo diferente de si,
como outra pessoa, um objeto, entre outros. Se na repressão um conteúdo
psicológico é removido da consciência, na projeção tal conteúdo não alcança a
consciência (PIERI, 2002). A repressão tem por objetivo evitar o sofrimento, bem
como constituir uma personalidade consciente aceitável moralmente.
Contudo, reprimir os conteúdos da sombra implica também interromper o
desenvolvimento de futuras qualidades individuais. Dado que
19 Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não
haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é
simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma
malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de
algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o
homem se choca contra as regras consagradas pela tradição.
(JUNG, XI/1, 1987, §134)
O ego pode integrar parte da sombra – isto é, reconhecer e aceitar
algumas destas qualidades pouco diferenciadas como parte do que o indivíduo
conhece como eu. Este movimento de integração da sombra ocorre a partir dos
esforços do ego para adaptar-se aos conteúdos psíquicos desconhecidos (JUNG,
IX/2, 2008, §11 §16).
1.3 – Persona
O ego também é responsável por mediar a relação entre o indivíduo e a
sociedade. Entenda-se sociedade como: pessoas e situações através das quais
operam os valores e formas de vida guardados e veiculados pela cultura. Para
realizar tal mediação, o ego utiliza o mecanismo de adaptação social da persona.
Persona é o mecanismo psicológico relativo a atitudes que satisfazem
alternadamente às aspirações sociais do indivíduo e às exigências e opiniões do
meio ambiente. O produto deste mecanismo é uma “máscara”, ou seja, uma
atitude momentânea ajustada às circunstâncias e expectativas do ambiente social
(JUNG, VI, 2009, §754). Tamanha capacidade de adaptação se deve ao fato da
persona conter todas as modalidades expressivas que jazem na psique coletiva.
Estas modalidades são, ao mesmo tempo, veiculadas pela psique coletiva
consciente e inconsciente (JUNG, VII/2, 2008, §245; PIERI, 2002).
“Cada meio ambiente requer uma atitude especial. Quanto mais for exigida
esta atitude pelo respectivo ambiente, mais rapidamente ela se tornará habitual”
(JUNG, VI, 2009, §753). Esta atitude habitual corresponde à definição de persona
enquanto papel social desempenhado pelos indivíduos em situações coletivas.
Posto que a persona
(...) representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca
daquilo que ‘alguém aparenta ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo’.
De certo modo, tais dados são reais; mas em relação à individualidade
20 essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que
resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma cota maior
do que a do indivíduo em questão. (JUNG, VII/2, 2008, §246)
A teoria junguiana parte do pressuposto que a psique individual é
intimamente associada a psique coletiva: “Do mesmo modo que o indivíduo não é
apenas um ser singular e separado, mas também um ser social, a psique humana
também não é algo isolado e totalmente individual, mas também um fenômeno
coletivo” (JUNG, VII/2, 2008, §235).
Ego e persona surgem ao mesmo tempo no decorrer do desenvolvimento
psicológico individual. Desde as primeiras experiências infantis, parte do que é
experimentado como “eu” é determinado pelo coletivo. Exemplos disso são o
nome, o sobrenome e o gênero sexual1, bem como outros predicados sociais que
são atribuídos ao indivíduo por conta de suas características biológicas e das
expectativas parentais (WHITMONT, 1990).
Deste modo, o ego e os atributos sociais tendem a ser percebidos como
uma coisa só no início da vida do indivíduo (JUNG, VII/2, 2008, §247). Esta
identificação faz com que o ego desempenhe uma persona, mas não tenha
consciência dela. Isto é, o indivíduo não sabe quais valores e formas de vida ele
propaga. Ao adquirir consciência da persona exercida, o indivíduo poderá
escolher quais valores e formas de vida ele deseja propagar através das suas
atitudes habituais. Em todo caso, ele não estará desobrigado de atuar na vida
coletiva, posto que o ser humano não pode prescindir da inter-relação social e
cultural. A soma da inconsciência da persona à inevitabilidade da interação social
tende a colocar o indivíduo numa posição passiva frente à cultura (PIERI, 2002).
A
inconsciência
da
própria
persona
implica
também
obliterar
o
desenvolvimento de uma noção de “eu” mais ampla, para além das expectativas
sociais.
Seria incorreto, porém, encerrar o assunto, sem reconhecer que subjaz
algo de individual na escolha e na definição da persona; embora a
consciência do ego possa identificar-se com ela de modo exclusivo, o simesmo inconsciente, a verdadeira individualidade, não deixa de estar
sempre presente, fazendo-se sentir de forma indireta. Assim, apesar da
consciência do ego identificar-se inicialmente com a persona – essa
1
Como veremos ao longo do texto, “sexo” refere-se às diferenças biológicas entre macho e fêmea,
enquanto, “gênero” é uma construção social a respeito do que é masculino e feminino (KAISER,
1998).
21 figura de compromisso que representamos diante da coletividade, o simesmo inconsciente não pode ser reprimido a ponto de extinguir-se.
(JUNG, VII/2, 2008, §247)
Dito de outro modo, se o indivíduo permanece identificado com as
atribuições e expectativas sociais, ele sofre. Este sofrimento pode ter dois
motivos. Primeiro, porque o não reconhecimento de certas características
individuais – que estão reprimidas na sombra – resulta numa vivência incompleta
do si-mesmo, da verdadeira individualidade. Segundo, porque ele tende a repetir
certos padrões de comportamento que não permitem a expressão adequada da
sua individualidade nas relações interpessoais.
A fim de reduzir tal sofrimento, o indivíduo pode conscientizar-se
minimamente da persona exercida. Isto é, distinguir quais atitudes habituais são
compatíveis ou não com sua individualidade. Neste momento, o ego poderá optar
por não exercer algumas atitudes. Ao mesmo tempo, poderá optar por começar a
exercer outras que expressem melhor sua individualidade. Este processo de
escolha consciente das atitudes habituais frente ao mundo permite uma postura
mais ativa, legítima e consciente do indivíduo frente à sociedade. Para que o
sujeito possa compor uma ou várias personas mais autênticas, é necessário que
ele amplie o campo do ego. Tal ampliação ocorre no processo de individuação.
1.4 – O Processo de Individuação
A psique humana possui uma meta: o caminho da individuação.
Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por
‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e
incomparável, significando também que ‘nos tornamos nosso próprio simesmo’. (JUNG, VII/2, 2008, §266)
Jung considera uma série de aspectos como importantes e influentes no
processo de individuação. Para manter o foco da pesquisa – isto é, a dinâmica
psicológica do comportamento de vestir-se – vamos considerar somente três
deles: ego, sombra e persona.
O processo de individuação se dá em dois domínios. De um lado, constitui
um processo de integração interna e subjetiva. Onde o ego esforça-se para
22 reconhecer e aceitar alguns traços desconhecidos da psique, a fim de compor
uma individualidade mais legítima. De outro lado, constitui um processo de
relacionamento externo e objetivo com o meio ambiente e as pessoas que o
habitam. Nesse segundo contexto, o ego esforça-se para diferenciar o eu da
cultura, e ao mesmo tempo, adequar a expressão desta individualidade às
exigências da cultura (BLOMEYER, 1976). Este processo de relacionamento
externo pode exigir o contato com o inconsciente. O que facilita, e de certo modo
estimula, o processo de individuação.
O ego comporta todos os valores morais da cultura aceitos pelo indivíduo
conscientemente (PIERI, 2002). Devido a esta identificação com as exigências
culturais, o ego tende a utilizar os traços da sua individualidade que são
socialmente adequados para compor – consciente ou inconscientemente – a
persona. As características individuais que podem ser consideradas inadequadas
ao convívio social tendem a ser ocultadas do mundo, consciente ou
inconscientemente.
Se o ego estiver suficientemente diferenciado das expectativas sociais, o
indivíduo pode ocultar traços da sua individualidade conscientemente. Isto é, pode
reconhecer e aceitar algumas características individuais como parte do ego, mas
optar por ocultá-las na sua vida pública devido à inadequação social destes
traços. Neste caso a característica ocultada da sociedade não constitui uma
sombra, uma vez que não foi ocultada sem o indivíduo conscientizar-se desta
porção da individualidade. Foi antes uma escolha estratégica do ego a fim de
preservar tanto sua singularidade quanto sua adaptação social.
Embora as características individuais não sejam negativas ou positivas em
si, a persona e a sombra formam um par de opostos se avaliados a partir das
expectativas sociais. Por um lado, a formação da persona é orientada a partir do
ideal social, posto que ela contém aquilo que gostaríamos de ser ou deveríamos
ser. Por outro lado, a formação da sombra é orientada a partir das características
singulares do indivíduo “que não combinam com o ideal” – isto é, aquelas que não
gostaríamos de ser ou não deveríamos ser (BLOMEYER, 1974, p.18).
Esta polarização entre persona e sombra tende a ser conflituosa, uma vez
que ela tende a desorganizar o ego. Caso o indivíduo permaneça identificado com
as expectativas sociais, ele pode paralisar seu processo de individuação. Por
exemplo, o ego pode se fundir com a persona a ponto do indivíduo considerar
23 como eu somente seus traços psicológicos e atribuições sociais mais lisonjeiros.
As outras características individuais menos lisonjeiras, que não são reconhecidas,
ficam na sombra e podem ser projetadas. Tal identificação faz com que o
indivíduo exerça uma persona sem vitalidade, bem como critique duramente
qualquer atitude alheia mais espontânea. Nesta dinâmica, os conteúdos que
estão na sombra e na persona são vividos como cindidos e incompatíveis pelo
indivíduo.
Não obstante, a consciência deste conflito entre persona e sombra é
desejável e positivo no âmbito individual. Posto que este conflito estimula a
diferenciação e o desenvolvimento de uma singularidade autêntica (BLOMEYER,
1976). A consciência de tal conflito pode fazer com que o indivíduo sinta a
necessidade de desenvolver um “senso de responsabilidade e uma capacidade
de julgamento” – a respeito de si mesmo e de suas atitudes – “não
necessariamente idênticos aos padrões e expectativas externos e coletivos”
(WHITMONT, 1991, p.31).
Dito de outro modo, ele pode reconhecer que as características pessoais
que estão distribuídas entre a sombra e a persona são na verdade partes de um
todo mais amplo: o si-mesmo. No entanto, os conteúdos da persona e da sombra
eram tratados como inconciliáveis por conta de sua adesão – sem consciência e
reflexão – às expectativas e exigências do coletivo. Diante do conflito entre a
persona e a sombra, cabe ao ego se apropriar do desenvolvimento pessoal a fim
de reduzir este conflito interno. Pois em geral, tal conflito é vivido com sofrimento.
Ao adquirir consciência deste conflito, o indivíduo pode relativizar a
importância dada a certas normas e padrões ao escolher qual conjunto de
atitudes ele deve tomar frente à sociedade – isto é, qual persona assumir. Dito de
outro modo, o indivíduo pode desejar manifestar uma atitude inerente à sua
singularidade que não é socialmente desejável. Frente à necessidade de autoexpressão, o ego pode esforçar-se para encontrar um modo de expressão e/ou
ambiente social onde tal atitude seja adequada e desejável.
Assim, a persona – enquanto mecanismo psicológico de adaptação – pode
ser comparada à pele por conta de três características. Primeiro: ela se localiza
na fronteira entre o externo e o interno da psique individual, assim como a pele se
localiza na fronteira entre o interior e exterior do corpo (BLOMEYER, 1974). Tal
localização permite que ela exerça o papel de mediadora entre os conteúdos
24 psíquicos internos e as exigências ambientais. Segundo: mesmo que se queira ou
se deva ocultar partes do si-mesmo, sempre há “algo de individual na escolha e
na definição da persona” (JUNG, VII/2, 2008, §247) que não se deixa retirar como
se fosse apenas uma máscara social (BLOMEYER, 1974). Terceiro: no decorrer
do processo de individuação bem sucedido, a persona pode se tornar um “órgão
de expressão (comunicação) da personalidade total” frente à sociedade e à
cultura (BLOMEYER, 1974, p.19). Uma vez que ela é capaz também de adaptarse às necessidades do indivíduo. Tal capacidade permite que ela negocie
constantemente com o coletivo a ampliação da cota de expressão individual nos
papéis sociais exercidos. Esta negociação garante tanto vitalidade ao papel social
assumido quanto saúde e equilíbrio psíquico ao indivíduo.
Em resumo, a dinâmica psicológica conflituosa entre persona e sombra
subjaz todos os momentos em que o indivíduo tem de lidar com as exigências da
cultura. Cabe ao ego, primeiramente, apropriar-se de parte das características
que estão na sombra. Deste modo, o ego pode obter a energia psíquica
necessária para utilizar a persona. Esta ampliação do ego permite ao indivíduo
escolher conscientemente quais atitudes habituais tomar, a fim de atender ou não
tanto as exigências da cultura quanto às da sua própria individualidade.
1.5 – A Dinâmica Psicológica que Subjaz ao ato de vestir-se
Na presente reflexão, pressupomos que vestir-se é uma tarefa social.
Desde o nascimento, o indivíduo é vestido por outros de acordo com os trajes
próprios de sua cultura. Ao longo de seu crescimento, ele vai aprendendo que
deve se apropriar da tarefa de vestir-se caso queira conviver em harmonia com o
grupo social.
Por outro lado, o indivíduo tem a necessidade de ser quem ele é – isto é,
ser e expressar sua singularidade. Portanto, torna-se inevitável que o ego esteja
em contato com as necessidades, sentimentos, preferências e traços que
compõem a individualidade. Este conflito entre as exigências da cultura e as
exigências da singularidade apresenta duas limitações ao ego.
A primeira: cabe ao ego aceitar que ele não pode se livrar da limitação
social e cultural em que se encontra (PIERI, 2002). Isto é, o indivíduo não pode
25 deixar de usar roupas, mas pode conscientizar-se da “possibilidade de assumir
criticamente a cultura em que se encontra e de ser ele próprio produtor de cultura”
(PIERI, 2002, p.379).
Dito de outro modo, o indivíduo pode se apropriar do uso das roupas a fim
de exercer e favorecer sua ação pública e prática na vida social. Dependendo de
suas ambições pessoais, ele pode optar por vestir uma roupa ou outra a fim de
gerenciar as expectativas e opiniões dos outros sobre quem ele é. Sem, no
entanto, sentir-se violentado na sua singularidade, pois tem consciência de que o
ego vai para além da atitude psicológica e da vestimenta que determinado
ambiente social lhe exige. Em resumo, o si-mesmo necessita das roupas e de
determinadas atitudes psicológicas para expressar-se nos domínios público e
concreto.
Se o indivíduo vivencia o vestir-se como uma tarefa que atende somente
às expectativas e exigências do coletivo, ele pode sofrer com a sensação de
imposição social (PIERI, 2002). Por exemplo, a profissão que ele exerce exige o
uso de um modelo de uniforme que não o agrada. Ele o veste, mas faz queixas e
sente-se desconfortável todas às vezes que o utiliza.
Por outro lado, se o indivíduo tem consciência de que o vestir-se pode ser
um veículo de participação no mundo, o ego e o coletivo viverão em constante
atrito. Entretanto, o ego poderá desempenhar uma atitude social mais coerente
com o si-mesmo (PIERI, 2002). Por exemplo, o indivíduo poderá desejar
pequenas reformas no uniforme que não o agrada, a fim de ter mais conforto e
adequação às suas necessidades. Feita a reforma, o indivíduo pode continuar um
tanto insatisfeito e limitado com essa roupa. No entanto, ele agiu a fim de
minimamente adaptar a vestimenta coletiva às suas necessidades e preferências
singulares. Numa situação de insatisfação mais significativa, o indivíduo pode
criar outro modelo de uniforme que seja mais coerente com suas necessidades e
que atenda também às exigências do ambiente profissional. Caso não seja
possível realizar qualquer ajuste ou reforma – como um uniforme militar, por
exemplo – o ego tende a rever constantemente o quanto a carreira militar é
compatível com a individualidade. Caso seja compatível, o ego pode suportar o
desconforto corporal imposto por essa vestimenta. Uma vez que tal uniforme
permite a expressão da individualidade na carreira escolhida.
26 A segunda limitação: cabe ao ego aceitar que ele não pode se livrar da
limitação individual e particular em que se encontra. Dito de outro modo, um
indivíduo não pode deixar de ser quem ele é. Por exemplo, uma pessoa não pode
usar roupas de qualquer tamanho, modelo ou preço. Dado que a aquisição e uso
de roupas será limitada por seu tipo físico, recursos financeiros disponíveis,
preferência por determinadas cores, entre outras características individuais. Deste
modo, o ego pode se identificar com as características mais peculiares do simesmo, e posteriormente se reconhecer responsável pelo modo como elas são
expressas no ato de vestir-se (PIERI, 2002).
Se o indivíduo entende o vestir-se como uma tarefa que deve atender
somente às expectativas e exigências do coletivo, ele pode sofrer com a
sensação de estar inadequado socialmente. Por exemplo, suponhamos que um
novo modelo de blusa socialmente desejável chegou recentemente às lojas. O
indivíduo prova a roupa, mas sente que ela não é confortável e nem fica bonita
em seu corpo. O descompasso de tamanho entre a blusa socialmente desejável e
suas dimensões corporais amplas pode provocar uma rejeição das formas físicas.
Esta rejeição pode ser notada em pensamentos como: “Gostaria de ser mais
magro” ou “Preciso fechar a boca e fazer matrícula na academia amanhã
mesmo”.
Ao passo que se o indivíduo entende o vestir-se como uma tarefa
inicialmente limitada por suas características singulares, ele pode aceitar seus
traços físicos e utilizá-los como a principal referência na aquisição e uso de
roupas. Por exemplo, ao perceber que essa blusa não é compatível com seus
atributos físicos, ele pode procurar outros modelos de roupa menos populares e
mais adequados ao seu tipo físico. A roupa menos popular pode fazer com que
ele se sinta bonito e confortável, tal como ele esperava se sentir ao provar a blusa
que no momento goza de maior prestígio social. Uma vez que o sentimento de
satisfação não é provocado pela roupa em si, mas pelo equilíbrio entre suas
características pessoais – sejam elas físicas e/ou psicológicas – e a roupa que é
possível vestir.
Em resumo, ao aceitar as limitações do si-mesmo e da cultura, o ego pode
se reconhecer responsável pelo comportamento de vestir-se. Ele pode usar os
traços físicos e características psicológicas mais marcantes como referência ao
escolher, adquirir e usar as roupas. Ao mesmo tempo, o uso de cada roupa
27 poderá ser estrategicamente escolhido segundo cada ambiente social. Dado que
a roupa é um dos elementos que compõem a aparência física mais adequada às
ambições sociais do indivíduo.
No presente trabalho, consideramos que a roupa simboliza o conflito
psicológico caracterizado pela necessidade de adaptação do ego tanto às
exigências sociais quanto às exigências do si-mesmo. No momento em que cada
indivíduo se vê obrigado a vestir-se a fim de conviver em grupo, este conflito
tende a vir à tona. A intensidade, a importância e os sentimentos que
caracterizam a necessidade de adaptação do ego a tais exigências variam de
pessoa para pessoa. Assim, fica um ensinamento: não se pode estar despido
numa situação coletiva. Simbolicamente falando, não é possível abster-se de
assumir uma posição perante o outro. Dado que em muitas ocasiões sociais, o
indivíduo deverá vestir algo que nada tem a ver com sua personalidade. Em
outras ele pode se trocar e vestir algo mais confortável. Em momentos de
intimidade, ele pode ficar nu (WHITMONT, 1991). Portanto a roupa é o símbolo da
persona enquanto papel social – isto é, enquanto a máscara que corresponde à
atitude momentânea do indivíduo e que possibilita a sua participação adequada
na vida social.
No presente capítulo, apresentamos a dinâmica psicológica que subjaz à
interação entre o indivíduo e a exigência cultural e social de vestir-se. No capítulo
seguinte, vamos observar como esta dinâmica se manifesta na composição da
aparência física na sociedade contemporânea. 28 CAPÍTULO II
2. ROUPA E CORPO: INTERAÇÃO ENTRE A FORMATAÇÃO
SOCIAL E O CONFORTO INDIVIDUAL
O título deste capítulo trabalha com as duas instâncias fundamentais no
processo de gerenciamento da aparência: as expectativas sociais e a
personalidade individual. De um lado, as expectativas sociais estabelecem
critérios que definem a aparência física mais adequada para os indivíduos. De
outro, cabe a cada indivíduo negociar a satisfação destes critérios segundo os
limites das suas singularidades físicas e psicológicas. Dessa maneira, o ato de
vestir-se parece ser um comportamento cotidiano que envolve variáveis sociais e
individuais.
Flϋgel (1966) nos lembra que os vários fatores psicológicos que
influenciam o ato de vestir-se não têm todos a mesma importância para cada
indivíduo. Os motivos pelos quais as roupas são utilizadas parecem ser
semelhantes entre eles, mas a atitude que cada um tem em relação às roupas
pode se distinguir de várias maneiras.
De acordo com os autores encontrados, três elementos parecem ser
relevantes na distinção da atitude dos indivíduos: a percepção cultural do peso
corporal, a interação entre a roupa e o corpo, e a necessidade de conforto
corporal.
No presente capítulo, vamos compreender a importância destes três
elementos psicológicos na relação entre o peso corporal e o ato de vestir-se.
2.1 – A percepção cultural do peso corporal
A percepção corporal é aqui compreendida como o modo como o indivíduo
avalia o seu corpo. Esta auto-avaliação depende de quais critérios o indivíduo
utiliza para se avaliar, bem como o significado que seu corpo tem, tanto para ele
quanto para a cultura que ele compartilha. Se o seu corpo satisfaz estes critérios,
predominam sentimentos positivos a respeito de si e do próprio corpo. Caso seu
corpo não os satisfaça, predominam sentimentos negativos (KAISER, 1998).
29 Esses critérios que o indivíduo utiliza para se avaliar fisicamente não são
criados exclusivamente por ele. Eles provêm do contexto cultural em que ele se
encontra. Entenda-se contexto cultural como um “conjunto de significados
construídos e partilhados” por um agrupamento social a fim de dar sentido à
realidade (SOUSA, 2009, p.02). Cabe ao indivíduo partilhar destes significados e
valores culturais a respeito da aparência corporal a fim de adaptar o próprio corpo
às exigências do convívio social.
Como vimos no capítulo anterior, o indivíduo deve atender não só às
exigências do convívio social, mas também às da sua individualidade. Posto que
atender a ambas as exigências garante o seu equilíbrio psicológico. A fim de
atender às exigências de expressão da sua singularidade no corpo, uma pessoa
pode criar seus próprios critérios de auto-avaliação corporal. Assim, ao se avaliar,
ela utilizará tanto os critérios individuais quanto os critérios coletivos. O que torna
bastante difícil identificar quando um determinado critério de avaliação corporal é
uma construção social ou individual.
Essa mescla de critérios resulta na composição de uma percepção singular
a respeito do próprio corpo. Portanto, vamos considerar no presente capítulo,
somente os critérios de avaliação corporal que parecem ser mais relevantes
segundo autores que estudam o comportamento de vestir-se. Uma vez que os
critérios de percepção corporal individualmente construídos podem ser tão únicos
e variados quanto a singularidade própria de cada ser humano.
O principal critério de percepção corporal que nos interessa compreender é
o de peso corporal. O peso ou a densidade é uma das características materiais
que ajudam a formatar o que se reconhece como corpo humano. Portanto, este
traço corporal também evoca um conjunto de significados sociais a seu respeito.
O significado social do peso corporal pode variar de acordo com o gênero sexual
do corpo que possui tal característica. Sexo refere-se às diferenças biológicas
entre macho e fêmea. Já o gênero é um conjunto de características a respeito do
que é masculino ou feminino. As características de um gênero são determinadas,
mantidas e/ou alteradas segundo o contexto social e histórico de cada grupo
social (FLÜGEL, 1966; KAISER, 1998). Deste modo, o peso corporal tem um
significado diferente na percepção cultural dos corpos masculinos e femininos.
Antes, é necessário pontuar as diferenças entre homens e mulheres quanto aos
critérios de avaliação corporal, atratividade e aptidão física.
30 Segundo Kaiser (1998) a construção da percepção corporal é diferenciada
– entre outras características – de acordo com o gênero. Tanto os homens quanto
as mulheres sentem-se bem a respeito de si quando veem seus próprios corpos
de forma favorável. No entanto, homens e mulheres variam quanto ao critério que
utilizam ao se avaliarem tanto física quanto psicologicamente. A autoavaliação do
homem é baseada na sua eficácia física, bem como em traços de personalidade
como assertividade e realização. A autoavaliação da mulher é baseada na sua
atratividade física, bem como em traços de personalidade como sensualidade e
aconchego.
Em síntese, culturalmente a aptidão física é associada ao gênero
masculino, enquanto que a atratividade física é associada ao gênero feminino.
Contudo, nas últimas décadas, ambos acumularam a preocupação em
desenvolver estes dois atributos. Desde a década de 1980, é esperado que a
mulher também pratique alguma atividade física que promova força e definição
muscular. Enquanto que as cirurgias plásticas e os implantes de próteses de
silicone em homens triplicaram nos últimos cinco anos (BIDERMAN, 2010;
KAISER, 1998; POPE, 2000).
Quanto à percepção do peso corporal, há uma diferença entre homens e
mulheres. Segundo Kaiser (1998) e Pope (2000) os músculos evidentes são
culturalmente valorizados no corpo masculino. Homens que veem a si mesmos
como magros e ossudos tendem a se sentir pouco atraentes. Estar envolvido em
programas de treinamento físico para ganho de peso e força parece levar boa
parte dos homens a experimentar sentimentos positivos sobre seu corpo e
aparência física.
Segundo Fischler (2005) a percepção cultural a respeito do homem gordo é
ambivalente, posto que a sociedade partilha dois estereótipos a respeito dele. O
primeiro é o do indivíduo extrovertido, habilidoso nas relações interpessoais, mas
sofredor por conta do excesso de peso. O segundo é o indivíduo doente ou
depressivo, dotado de uma voracidade incontrolável – nos sentidos físico e
psicológico – capaz de aniquilar seus vínculos sociais. Sejam inocentes ou
culpados por serem gordos, os homens acima do peso tendem a ser percebidos
como transgressores da ordem social. Uma vez que o tamanho do seu corpo
parece resultar da violação constante das regras que governam o comer, o
prazer, o trabalho, o esforço, a vontade e o controle de si.
31 Fischler (2005) afirma que o corpo de um homem acima do peso, que
participa de atividades corporais e ambientes sociais onde a força física é
valorizada, tende a ser percebido como forte e não como gordo. Portanto, o corpo
masculino acima do peso pode ser associado ao sucesso social principalmente no
contexto esportivo. Em especial ao praticar esportes ou exercícios físicos que
exijam resistência e dimensões corporais maiores – tais como rugby, futebol
americano, musculação, entre outros (KAISER, 1998). Mesmo o homem acima do
peso que exerce uma profissão dotada de pouco prestígio social pode ser
percebido como forte, caso esta atividade exija força física. Posto que seu porte
físico e seu apetite serão justificados pelo esforço físico que lhe é exigido
(FISCHLER, 2005).
Kaiser (1998) afirma que as mulheres magras em geral tendem a se
perceber como mais pesadas do que elas realmente são. A autora apresenta os
dados de um experimento sobre percepção corporal a fim de apoiar esta hipótese.
Durante o experimento, quando comparada com um homem abaixo do peso, era
mais provável que a mulher abaixo do peso considerasse a si mesma com peso
normal. Da mesma forma, a mulher com peso normal, quando comparada ao
homem com peso normal, tendia a ver a si mesma como acima do peso.
Kaiser (1998) também afirma que a percepção cultural do corpo feminino
acima do peso é complexa, dado que envolve inúmeros fatores. Ela aponta três
que se destacam. O primeiro fator é a incapacidade de atrair sexualmente um
homem. A mulher acima do peso tende a ser culturalmente percebida como
dotada de capacidade de aconchego, porém portadora de uma sexualidade
excessiva ou reprimida. O segundo fator é o descontrole aparente. Estar acima do
peso faz com que a mulher pareça incapaz de se controlar – e de controlar seu
corpo, seja através da alimentação regrada ou de atividade física regular. O
terceiro fator é a fantasia recorrente de como o seu corpo e a sua vida seriam
melhores se ela perdesse peso. Tal fantasia é sugerida nas propagandas de
produtos e serviços que se propõem a mudar as formas corporais ao serem
utilizados.
Segundo Kaiser (1998) tanto a mulher com peso normal quanto a mulher
acima do peso tendem a experimentar insatisfação com o seu peso corporal. Uma
das causas desta insatisfação pode ser o significado cultural da gordura. Pois “(...)
32 uma das características de nossa época é sua lipofobia, sua obsessão pela
magreza, sua rejeição quase maníaca à obesidade” (FISCHLER, 2005, p.69).
Essa preferência cultural pelo corpo “magro” parece ser mais expressiva
em relação ao corpo feminino. Segundo Kaiser (1998) 69% dos corpos femininos
e 17% dos corpos masculinos expostos na mídia americana podem ser
considerados magros. Não encontramos um estudo estatístico similar em relação
aos tipos físicos expostos nas propagandas brasileiras. Entretanto, parece que
esta preferência cultural se propaga através das imagens corporais veiculadas
nos meios de comunicação.
Em resumo, tanto os homens quanto as mulheres acima do peso tendem a
ser percebidos culturalmente como pessoas aconchegantes e receptivas ao
relacionamento interpessoal. No entanto, tendem a ser vistos simultaneamente
como incapazes de controlar a si mesmos e aos seus corpos.
Além disso, o rigor da cultura com o excesso de peso corporal parece
afetar mais as mulheres do que os homens. Tanto o homem com peso normal
quanto o que está acima do peso pode sentir-se bem com seu corpo através da
prática esportiva. Tal atividade permite que ele satisfaça o critério aptidão física
associado ao seu gênero. Caso um homem seja realmente magro – ou se sinta
magro – ele pode aderir ao treino muscular a fim de ganhar dimensões corporais
maiores. Caso o homem esteja acima do peso, ele pode participar de atividades
esportivas onde este seja visto como forte.
Supomos que o homem muito acima do peso possa ser uma exceção a
essa regra. Ele pode sentir-se mal com seu corpo logo que o peso comece a
diminuir sua eficácia física, isto é, quando o excesso de peso o impedir de realizar
algumas funções corporais cotidianas com facilidade – tais como andar, subir
escadas ou abaixar-se.
Quanto às mulheres de todos os pesos corporais, elas sentem-se bem
quando percebem que seus corpos satisfazem o critério de atratividade física. As
características corporais que são consideradas atraentes – isto é, desejáveis –
variam de uma cultura para outra. Em nosso atual contexto cultural, é desejável
que o corpo feminino esteja dentro do IMC normal. Portanto, estar acima do peso
corporal esperado para sua idade e altura é estigmatizante – isto é, um atributo
indesejável ou que desqualifica socialmente um indivíduo (KAISER, 1998). Deste
modo, o corpo feminino acima do peso não satisfaz o critério cultural de
33 atratividade. O que pode fazer com que a mulher acima do peso sinta-se pouco
atraente, pouco feminina e insatisfeita com seu corpo.
No entanto, chama a atenção o fato das mulheres com peso normal
manifestarem uma tendência a considerar seu corpo como acima do peso real.
Não encontramos entre os autores uma justificativa coerente para este fenômeno.
Mas supomos que esta tendência feminina à insatisfação com peso corporal se
deva à inexistência de uma prática e/ou ambiente social capaz de acolher o corpo
feminino acima do peso, tal como ocorre na relação entre homens acima do peso
normal e a prática esportiva. Ao mesmo tempo, parece não haver ainda uma
prática e/ou ambiente social capaz de psicologicamente proteger as mulheres
com peso normal da influência da lipofobia cultural.
Após definirmos a percepção do peso corporal, o passo seguinte é
compreender de que modo a roupa interage com esta percepção. Contudo, não
encontramos considerações teóricas a respeito desta interação. Assim, vamos
tentar nos aproximar do nosso objeto de estudo de dois modos. Primeiro,
apresentamos dois conceitos que relacionam o corpo e a roupa no tópico 2.2.
Segundo, observamos como os indivíduos interagem com a roupa conforme suas
dimensões corporais e necessidades pessoais. Tal observação foi feita através
dos resultados das pesquisas com participantes relatadas no tópico 2.3.
2.2 – A interação entre roupa e corpo
Encontramos duas definições pertinentes a respeito do que é a roupa. Na
primeira, Kaiser (1998) define o termo roupa como os objetos tangíveis que
cobrem e/ou se atam aos nossos corpos a fim de construir a aparência corporal.
Entenda-se aparência corporal como a imagem total criada pela interação entre a
roupa, o corpo humano, e quaisquer modificações corporais que são visualmente
perceptíveis. Essas modificações corporais podem incluir: dietas, estilos de
cabelo, usos de cosméticos, tatuagens, piercings, entre outros.
A segunda definição encontrada amplia o entendimento a respeito do modo
como a roupa produz uma aparência corporal. Castilho e Vicentini (2008)
pressupõem que uma dinâmica social permeia e determina a interação entre
roupa e corpo.
34 A roupa é uma arquitetura têxtil que marca o papel do sujeito na
sociedade. Entendido como um conjunto de trajes e acessórios que se
articula com o corpo, o vestuário revela, então, as formas que o corpo
assume no decorrer da História, definindo estilos de época, que também
definem modelos de corpo. (CASTILHO E VICENTINI, 2008, p.135)
Dito de outro modo, a roupa cobre o corpo a fim não só de adequá-lo ao
convívio social – isto é, não mostrar-se nu – mas também de definir seus
contornos. Esta formatação do corpo tem por finalidade adequá-lo às concepções
que a sociedade partilha a seu respeito em certo período histórico.
Em resumo, a interação entre roupa e corpo produz uma aparência
coerente com as expectativas sociais. A ponto de a roupa adequar não só a
superfície do corpo, mas também seus contornos. Portanto, usar uma roupa pode
ser muito mais invasivo do que parece num primeiro momento.
2.3 – A necessidade de conforto corporal
Encontramos quatro artigos que apresentam pesquisas com participantes
relacionadas à aquisição e/ou uso de roupas. Dois destes artigos mensuraram o
peso corporal dos participantes, e um se atentou às dimensões corporais deles.
Itens como conforto, bem-estar, sensualidade e adequação parecem ser
importantes no ato de vestir-se das mulheres. Tal importância se reflete na
escolha de uma marca de roupa. Miranda (2007) entrevistou 24 mulheres com
idades entre 16 e 55 anos, residentes em São Paulo, pertencentes às classes
sociais A, B e C. A pesquisadora desejava saber quais os motivos que levavam
as mulheres a consumir ou não marcas da moda. Na análise de resultados, a
pesquisadora identificou nove tipos de marcas preferidas pelas participantes. A
marca com maior grau de significância foi a que atendia somente aspectos
funcionais. Os aspectos mais importantes ao escolher a marca preferida são:
bem-estar, conforto, durabilidade e qualidade. Logo depois, as mulheres passam
a dar mais importância aos aspectos simbólicos como sensualidade e adequação,
respectivamente. Este estudo não especifica qual o peso corporal das
participantes.
35 Para homens e mulheres muito acima do peso, o ajuste adequado das
roupas às suas formas corporais proporciona melhor qualidade de vida. Duval et
al. (2006) relatam um estudo organizado por médicos no Canadá. Eles
entrevistaram 100 pessoas obesas classe III candidatas a cirurgia bariátrica2. O
objetivo da pesquisa era conhecer quais eram os 10 setores da qualidade de vida
mais afetados por um grau de obesidade tão avançado. O 6º. setor mais afetado –
segundo ambos os gêneros – é o de “vestuário e higiene pessoal”. A principal
queixa é a “dificuldade de encontrar roupas apropriadas”. Os participantes relatam
que têm dificuldades para encontrar roupas que se ajustem às suas formas
corporais adequadamente. Elas se percebem com uma tendência a vestir roupas
que escondam algo em sua aparência.
Encontramos uma pesquisa que faz pensar até que ponto os indivíduos
têm treino suficiente para adquirir e usar roupas de tamanhos adequados ao seu
corpo. Wood et al. (2008) pesquisaram se há alguma relação entre as dores nas
costas relatadas por mulheres entre 18 e 26 anos nulíparas e o tamanho de seus
seios. Os pesquisadores não encontraram relação entre tamanho da mama e
dores nas costas. Mulheres com mamas menores muitas vezes relatavam mais
dor do que mulheres com mamas proporcionalmente maiores. No entanto, 80%
das mulheres usavam sutiãs de dimensões incorretas para seus corpos: 70%
delas usavam sutiãs muito pequenos, enquanto 10% usavam sutiãs muito
grandes. As autoras afirmam que este erro deve ocorrer por vários motivos,
contudo dois deles se destacam. O primeiro é que as mulheres não são treinadas
para dimensionar seus sutiãs corretamente ao comprá-los. Segundo, elas não são
orientadas a trocá-los periodicamente. As pesquisadoras consideram o ajuste do
sutiã um problema em particular para as mulheres com IMC sobrepeso e
obesidade.
Em resumo, mostramos no tópico 2.2 que a roupa adapta não só a
superfície do corpo, mas também seus contornos às expectativas sociais. Por
outro lado, os participantes das pesquisas relatadas se preocupam com seu
conforto e bem-estar corporal ao adquirir uma roupa. Tal preocupação parece se
traduzir na preferência dos indivíduos por roupas adequadas às suas formas
corporais. Portanto esta interação entre a roupa e o corpo tende a ser marcada
2
Cirurgia que reduz o tamanho do estômago e/ou realiza um pequeno desvio no sistema
gastrointestinal, a fim de diminuir o consumo e/ou a absorção dos alimentos.
36 pelo conflito entre as formas corporais socialmente desejadas e as formas
corporais possuídas por cada indivíduo. O que faz pensar que todos os indivíduos
tendem a vivenciar algum nível de desconforto na hora de vestir-se.
Quando somamos a percepção cultural do corpo acima do peso a essa
dinâmica conflituosa, o desconforto pode ser ainda maior para os indivíduos com
IMC acima do normal. Posto que se as roupas perpetuam um modelo de corpo,
elas tendem a perpetuar o modelo compatível com o peso considerado normal na
sociedade contemporânea. Caso o indivíduo esteja muito acima do peso, ele
pode ter sua qualidade de vida comprometida pelo descompasso entre suas
formas corporais e as roupas disponíveis.
Encontramos uma pesquisa que parece abranger todas as preocupações
relatadas naquelas anteriormente apresentadas. Ela dá indícios de que há uma
relação entre a satisfação com o peso corporal e a aquisição e/ou uso de roupas.
Baturka et al. (2000) relatam um estudo de campo que explora as atitudes
e crenças sobre imagem corporal e peso das mulheres afro-americanas que
residem na zona rural sulista dos EUA. Nesta região, se encontram as maiores
taxas de obesidade do país. Os pesquisadores desejavam compreender por que
as mulheres negras perdem menos peso ao realizar dietas alimentares e
abandonam mais os programas para perda de peso, quando comparadas às
mulheres brancas. Foram entrevistadas 24 mulheres de 21 a 47 anos divididas
em três categorias de IMC3: normal (12,5% das participantes), sobrepeso (37,5%)
e obesidade (50%; classes I, II e III não foram especificadas).
Através de uma entrevista semiaberta foram feitas perguntas sobre sua
imagem corporal, seu peso e fatores que poderiam afetá-los. As mulheres se
referiram às suas roupas em dois grandes temas: “insatisfação com o peso
corporal” e “flutuação dos níveis de satisfação”. No tema “insatisfação com o
peso” a maioria das respondentes inicialmente expressaram algum grau de
insatisfação com seu peso ou medidas corporais. Ao explicarem por que queriam
perder peso, um dos quatro motivos citados foi a insatisfação com a roupa. Elas
relatam desconforto, indisponibilidade de roupas atraentes e roupas de medidas
maiores. Nas outras categorias, citam que o seu peso as inibe de fazer coisas de
que gostam – como comprar roupas. No tema “flutuação dos níveis de
3
Índice de Massa Corporal: para definição, ver capítulo 3
37 satisfação”, a satisfação com peso depende de três circunstâncias ligadas às
roupas: a crença de que qualquer um pode parecer bem dependendo da roupa
que vestir; a percepção do outro afeta sua própria satisfação, mesmo que o seu
peso não tenha mudado; e a satisfação com seu peso depende do tamanho
corporal médio das pessoas ao redor.
A pesquisa realizada por Baturka et al. (2000) chamou a atenção por dois
motivos. Primeiro: a separação da amostra por índice de massa corporal permite
uma avaliação das respostas dos participantes de acordo com esta variável.
Segundo: o método de entrevista semiaberta permite uma avaliação quantitativa e
qualitativa das respostas emitidas. Devido à adequação deste método aos nossos
objetivos, optamos por utilizar em parte este estudo na presente dissertação.
Os objetivos, o perfil dos participantes, os instrumentos, os procedimentos
de coleta e análise dos dados da presente pesquisa encontram-se no capítulo a
seguir.
38 CAPÍTULO III
3. MÉTODO
3.1 – Objetivos
O objetivo geral desta pesquisa é compreender qual é o tipo de relação
existente entre o peso corporal dos indivíduos e a aquisição e/ou uso que eles
fazem de suas roupas.
A fim de nos concentrarmos em certas variáveis inerentes a esta relação,
estabelecemos três objetivos específicos:
•
Observar se a variável IMC interfere nas vivências emocionais e materiais
da aquisição e/ou uso de roupas;
•
Identificar se a variável gênero interfere nas vivências emocionais e
materiais da aquisição e/ou uso de roupas;
•
Observar se há relação entre a satisfação com o peso corporal e a
aquisição e/ou uso de roupas.
3.2 – O plano inicial de pesquisa
A pesquisadora se posiciona num lugar público, como a entrada de uma
loja ou uma praça de alimentação. Ela observa um transeunte e se aproxima. Ela
se identifica, informa que está fazendo uma pesquisa sobre roupa e pergunta se o
sujeito gostaria de participar. Ela avisa que o experimento será feito em duas
etapas. A primeira etapa consiste na mensuração do seu peso e altura. A
segunda etapa consiste numa entrevista que dura aproximadamente 2 minutos.
Caso o participante aceite, a pesquisadora realizará a mensuração do seu peso
corporal e de sua altura.
No início da segunda etapa, o participante recebe o “Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido” (ANEXO I). A pesquisadora explica o
procedimento, riscos, possibilidade de desistir a qualquer momento e pede para o
participante ler o documento. Caso haja dúvidas, a pesquisadora esclarece os
devidos pontos. Caso o participante concorde, ele assina uma via e recebe outra.
39 Há um número preestabelecido de participantes para cada categoria de
IMC. Caso o participante tenha um IMC equivale a uma categoria não preenchida,
ele participará da segunda etapa da pesquisa. Caso sua categoria de IMC tenha
sido preenchida, ele não será submetido à segunda etapa. Nesse momento, a
pesquisadora informa o IMC do indivíduo, avisa que a categoria correspondente
ao seu tipo físico está completa e agradece sua participação.
Na segunda etapa, a pesquisadora liga o gravador e inicia-se a entrevista
seguindo o “roteiro de entrevista” (ANEXO II) previamente definido. Ao término da
entrevista, a pesquisadora desliga o gravador e pergunta como o participante está
se sentindo. Este procedimento visa minimizar possíveis danos emocionais
decorrentes da lembrança de sentimentos e sensações negativas decorrentes do
ato de responder a entrevista.
3.3 – IMC como critério de escolha
O principal critério utilizado na seleção dos participantes da pesquisa foi o
índice de massa corporal (IMC). Este índice é uma medida antropométrica que
costuma ser utilizada na mensuração lipídica indireta – isto é, para medir a
quantidade de gordura corporal, sem necessidade de ter contato com ela ou
mesmo
visualizá-la
diretamente
(CONSENSO,
1998).
Esta
mensuração
antropométrica consiste no uso da seguinte fórmula: peso/altura² = IMC. Esta
fórmula pode ser usada com diversas finalidades na prática profissional de
médicos, nutricionistas, educadores físicos, entre outros. Não obstante, a
“Organização Mundial de Saúde” recomenda o uso deste índice para realizar a
mensuração lipídica por dois motivos. Primeiro, há um associação significativa
entre IMC elevado – a partir de IMC 30 – e o aumento de doenças
cardiovasculares, diabetes mellitus, doenças biliares e alguns tipos de câncer, por
exemplo. Segundo, é um método de fácil manipulação e de baixo custo para
avaliar a obesidade, distinguir categorias de obesidade, prever os níveis de
gordura corporal e estimar o risco relativo de doenças associadas.
De acordo com o IMC, os indivíduos são classificados entre seis
categorias: abaixo do peso, peso normal, sobrepeso, obesidade classe I,
obesidade classe II e obesidade classe III. Um indivíduo pertence a uma categoria
40 de acordo com o valor resultante do cálculo da relação entre seu peso e altura.
Na amostra da presente pesquisa, homens e mulheres foram igualmente
distribuídos entre cinco categorias do índice de massa corporal (IMC): peso
normal, sobrepeso, obesidade classes I, II e III. Excluímos a categoria abaixo de
peso porque nos interessa estudar os indivíduos com peso acima do normal. As
categorias peso normal, sobrepeso e obesidade classe I possuem 10 homens e
10 mulheres cada. As categorias obesidade classe II e III possuem cinco homens
e cinco mulheres cada. O menor número de indivíduos nas duas últimas
categorias se deve à dificuldade da pesquisadora em encontrar indivíduos muito
acima do peso. Os valores correspondentes a cada categoria de IMC, bem como
a quantidade de participantes distribuídos em cada uma, podem ser visualizados
na tabela 1.
TABELA 1
Valores de IMC e distribuição da amostra
Categorias
IMC (Kg/m²)
Homens
Mulheres
Baixo peso
< de 18,5
0
0
Peso normal
18,5 - 24,9
10
10
Sobrepeso
25 – 29,9
10
10
Obesidade Classe I
30 – 34,9
10
10
Obesidade Classe II
35 – 39,9
5
5
Obesidade Classe III
≥ 40
5
5
Fonte: Consenso Latino Americano sobre obesidade (1998)
Em resumo, não vamos utilizar o IMC para avaliar o estado de saúde dos
participantes. As categorias deste índice servirão somente para padronizar os
tipos físicos deles. Tal padronização permite o agrupamento das respostas
emitidas segundo as semelhanças físicas que tendem a existir entre indivíduos
com mesmo IMC.
O “Consenso Latino Americano sobre obesidade” (1998) ressalta que
sobrepeso e obesidade são conceitos diferentes. Estar com IMC sobrepeso é
estar exclusivamente acima do peso corporal esperado para sua idade e altura,
posto que a composição do corpo humano é dividida em massa corporal magra e
41 massa corporal gorda. A massa magra é a porção corporal isenta de gordura,
constituída por ossos, músculos e vísceras. A massa gorda é a soma da gordura
armazenada (localizada no tecido subcutâneo4) e da gordura essencial
(encontrada nas vísceras, responsável pelo funcionamento fisiológico normal). A
soma das massas gorda e magra compõe o peso corporal final de um indivíduo.
Caso, por exemplo, um indivíduo possua massa magra maior do que o esperado
e uma quantidade de massa gorda adequada, ele pode ser classificado como
sobrepeso.
Não obstante, estar com IMC obesidade é ter gordura corporal acima do
esperado para sua idade e altura (CONSENSO, 1998). Neste caso, por exemplo,
o indivíduo possui uma quantidade de massa magra adequada e uma quantidade
de massa gorda maior do que o esperado. Este excesso de massa gorda
aumenta o risco de desenvolvimento de doenças que comprometem a qualidade
de vida e a saúde em geral. Em resumo, ter IMC sobrepeso não é patológico, mas
ter IMC obesidade sim.
3.4 – As características dos participantes
Entrevistamos 40 homens e 40 mulheres com idades entre 18 e 60 anos,
em sua maior parte solteiros (61,3%). Contudo, há indivíduos casados (26,3%),
divorciados (10%) e viúvos (2%) na amostra. Grande parte dos participantes não
possui filhos (61,3%). Embora o restante possua um (16,3%), dois (15%), três
(6,3%) ou quatro (1,3%) filhos.
As ocupações dos participantes variam bastante. A ocupação mais
expressiva na amostra é a de estudante (15%). Contudo, podemos encontrar:
aposentados; donas de casa; funcionários públicos; ocupantes de cargos
operacionais (atendente, segurança, balconista, taxista, entre outros); ocupantes
de cargos gerenciais (administrador, comerciante, produtor de teatro, professor,
chef de cozinha, entre outros); e profissionais liberais (advogado, psicólogo,
engenheiro, entre outros).
4
Uma das camadas internas da pele que cobre o corpo humano.
42 3.5 – Instrumentos utilizados
•
Balança digital com plataforma de vidro transparente e capacidade para
suportar 180 kg;
•
Fita métrica com 2 metros de comprimento;
•
Prancheta contendo dois itens: a tabela de amostra distribuída entre as
categorias de IMC e cópias do termo de consentimento livre e esclarecido
(ANEXO I);
•
Gravador de voz digital;
•
Roteiro de entrevista (ANEXO II).
O instrumento “roteiro de entrevista” pode conter alguma fragilidade. Este
roteiro
é
composto
por
cinco
perguntas
semiabertas
elaboradas
pela
pesquisadora. Tal processo de elaboração se deu a partir de duas referências. A
primeira foi o estudo de Baturka et al. (2000), bem como os temas principais que
eles se dedicaram a investigar. Contudo, o roteiro de entrevista utilizado por eles
não estava anexo ao artigo que apresenta a pesquisa. Mas algumas das
perguntas feitas aos participantes foram citadas de forma textual no próprio corpo
do artigo. A segunda referência foi o conhecimento teórico reunido no capítulo
dois da presente dissertação. As perguntas, bem como as alternativas oferecidas
para respondê-las, buscam contemplar itens que parecem ser influentes na
vivência emocional do uso de roupas.
Após a elaboração do roteiro de perguntas, esse instrumento foi submetido
a um estudo-piloto. Este último teve por objetivo verificar: a capacidade de
compreensão das questões, o tempo de duração da entrevista, algum tipo de
confusão nas perguntas, bem como a viabilidade da aplicação do instrumento ao
contexto escolhido. Foram entrevistadas 19 pessoas. Enquanto os participantes
respondiam a entrevista-piloto, a pesquisadora anotava todas as dificuldades de
compreensão, bem como as respostas dadas que fugiam às categorias
preestabelecidas. Ao final da entrevista-piloto, era questionado ao participante se
alguma pergunta não ficou clara, ou mesmo se alguma o incomodou e ele
desejaria não ter respondido.
A partir dos resultados do estudo-piloto, fizemos algumas alterações.
Reduzimos o número de alternativas, e trocamos termos mais sofisticados por
43 expressões mais simples. Ao mesmo tempo, as respostas que não se
encaixavam às alternativas oferecidas mas que apareceram com frequência, se
transformaram numa nova alternativa de resposta.
Em resumo, uma fragilidade do instrumento é não ter como parâmetro um
questionário previamente avaliado por outros estudos. Contudo, o estudo-piloto
nos permitiu minimizar possíveis inadequações do instrumento. Ao mesmo tempo
em que tornou possível o desenvolvimento de perguntas que atendessem ao
escopo do trabalho de forma simples, rápida e adequada ao dinamismo exigido
pelo ambiente da coleta de dados.
3.6 – A coleta de dados
Durante a coleta de dados, enfrentamos duas dificuldades. A primeira foi a
recusa dos homens em conceder entrevistas. O que demandou uma alteração
sistemática do local de coleta de dados. A segunda dificuldade foi a recusa dos
indivíduos que aceitavam participar da pesquisa em subir na balança. Nesse
caso, foram necessárias alterações no procedimento de mensuração previamente
estabelecido.
As entrevistas foram concedidas por transeuntes de três locais públicos na
cidade de São Paulo. O primeiro é uma loja de roupas femininas de tamanhos
grandes, localizada na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros. O segundo
local é uma loja de roupas masculinas e femininas de tamanhos grandes,
localizada na Rua Domingos de Moraes, no bairro Vila Mariana. O terceiro local é
a praça de alimentação localizada dentro do campus do Centro Universitário
SENAC – SP, localizado no bairro Jurubatuba. Todas as entrevistas foram
realizadas entre meio-dia e seis horas da tarde, de segunda a sábado.
O plano inicial era entrevistar somente transeuntes da Rua Teodoro
Sampaio. A proprietária da loja foi previamente contatada pela pesquisadora. Ela
permitiu que o espaço interno da loja fosse utilizado para mensurar o peso e a
altura dos participantes. Após esta autorização, as entrevistas-piloto foram
realizadas
no
local.
Durante
o
estudo-piloto,
percebemos
disponibilidade das mulheres para conceder entrevistas.
uma
maior
44 Após os ajustes do roteiro, iniciamos as entrevistas válidas. À medida que
tais entrevistas avançavam, a amostra feminina foi se completando rapidamente.
Quando a amostra feminina chegou a 85% do necessário, a amostra masculina
não havia chegado a 50%. Atribuímos esta discrepância a dois motivos.
Primeiro, os homens em geral eram abordados pela pesquisadora, mas se
recusavam a parar para conceder uma entrevista. Nos dias úteis da semana, eles
alegavam ter um curto horário de almoço para participar de uma entrevista que
seria muito longa. Outras vezes, alguns continuavam andando e diziam:
“Pesquisa de roupa? Vai entrevistar mulher. Olha, tem um monte por aqui!” A fim
de superar o obstáculo da falta de tempo, intensificamos a abordagem aos
sábados. Contudo, nos finais de semana os homens passavam acompanhados
de mãos dadas com uma parceira e/ou acompanhados de seus filhos e amigos.
Nestes casos, eles rejeitavam o convite da pesquisadora e se irritavam com a
abordagem.
O segundo motivo pode ter sido o contexto da abordagem. Talvez
conceder uma entrevista sobre roupas a uma mulher parada em frente a uma loja
feminina seja percebido como algo pouco masculino.
A falta de participantes do sexo masculino era mais grave nas categorias
de obesidade classes II e III. Deste modo, começamos a procurar por lojas de rua
especializadas em roupas masculinas de tamanhos grandes. Encontramos dois
tipos de lojas: as populares localizadas na região central de São Paulo, e as de
alto padrão localizadas em bairros nobres da cidade. Mas nenhum destes locais
era próprio para uma pesquisa. As lojas populares não possuíam espaço
suficiente na calçada, nem ofereciam segurança à pesquisadora. As lojas de alto
padrão possuíam estacionamento ao redor delas, na sua própria calçada, não
deixando espaço suficiente para permitir a abordagem dos clientes, que entravam
e saíam sem a autorização dos lojistas.
Por fim, encontramos uma loja de roupas localizada na Rua Domingos de
Moraes. Ela atende ambos os sexos. A rua era tranquila e o segurança das lojas
tolerou a permanência da pesquisadora no local. Nesta rua, conseguimos
entrevistar alguns homens. Ainda assim, não foram em número suficiente, posto
que era raro ver homens comprando roupas nas lojas durante os dias úteis. Os
poucos que apareceram, estavam aproveitando seu horário de almoço para trocar
uma peça de roupa comprada anteriormente. Deste modo, justificavam a falta de
45 tempo para participar do estudo. Optamos novamente por realizar entrevistas aos
sábados. Contudo, os homens que apareciam para fazer compras, estavam
acompanhados de suas parceiras. Elas os ajudavam a escolher roupas.
Tentamos convidar os homens acompanhados. Todavia, como ocorreu na Rua
Teodoro Sampaio, os homens ficaram irritados ou se mostraram hostis ao serem
abordados. Em resumo, mesmo após as entrevistas na frente desta loja, o
número insuficiente de homens com obesidade classes II e III ainda era um
problema.
A fim de completar a amostra, precisávamos de um local onde as pessoas
do sexo masculino fossem numerosas, confiassem na pesquisadora e tivessem
tempo disponível para se dedicar à entrevista. Assim, optamos por entrevistar os
consumidores da praça de alimentação localizada dentro do campus do centro
universitário SENAC – SP. Este local oferecia duas vantagens. A primeira é o
grande número de homens que permanecem neste espaço no horário de almoço.
O campus está localizado no pólo industrial do bairro Jurubatuba. Portanto, ele é
rodeado por fábricas, indústrias e transportadoras. Como não há restaurantes por
perto, muitos trabalhadores que não possuem relação com o centro universitário
almoçam no local.
A segunda vantagem era o vínculo da pesquisadora com a instituição. Este
vínculo parece ter dado mais credibilidade à abordagem. A pesquisadora
observava as pessoas até identificar um indivíduo com o perfil desejado. Ela se
aproximava identificando-se como pesquisadora e professora da instituição,
portando inclusive o seu crachá de identificação institucional. Ao mesmo tempo,
ela esclarecia que a pesquisa nada tinha a ver com a instituição. Deste modo, o
indivíduo estava livre para aceitar ou recusar o convite, sem ser em nada
prejudicado. As pessoas do sexo masculino prontamente se dispunham a
participar da pesquisa. Diante desta maior adesão, conseguimos completar a
quantidade de participantes necessária.
Em resumo, a principal diferença entre as entrevistas feitas na rua e as
feitas na praça de alimentação foi o clima emocional. Na rua – desde a
abordagem e as explicações até o movimento corporal e a fala dos indivíduos –
tudo acontecia muito rápido. Pois a qualquer momento, o participante poderia sair
andando sem completar a entrevista. Na praça de alimentação, todo o
46 procedimento foi mais tranquilo. Mesmo aqueles que se recusaram a participar,
não demonstraram irritação ou agressividade de nenhuma ordem.
A mensuração do peso corporal encontrou muita resistência por parte dos
participantes. Durante as entrevistas realizadas na Rua Teodoro Sampaio, a
balança e a fita métrica estavam sempre adequadamente posicionadas na parte
interna da loja. A fita métrica ficava colada na parede de tal modo que a altura
fosse medida no momento em que o participante subisse na balança.
A
pesquisadora abordava um transeunte convidando-o para participar de uma
pesquisa sobre roupas. Quando ele aceitava participar da entrevista, logo em
seguida este era convidado a pesar-se. Contudo, grande parte dos indivíduos –
participantes ou não da pesquisa – se recusaram a subir na balança.
Nas primeiras entrevistas, quando as pessoas se recusavam, a
pesquisadora insistia na importância da fidedignidade desta informação para o
estudo. Não obstante, as respostas a esta insistência foram as mais variadas.
Alguns indivíduos falavam “deixa para depois então” ou “não tenho tempo,
isso vai ser muito longo” e iam embora. Outros respondiam: “não precisa, eu sei
qual é o meu peso porque eu acabei de me pesar” ou “eu me pesei uns X dias
atrás”. Neste caso, tanto os homens quanto as mulheres disseram ter subido
numa balança até 15 dias antes da presente mensuração. Alguns indivíduos
queriam participar, porém se recusaram a subir na balança. Eles tinham como
justificativa a submissão a um tratamento médico para perder peso. Portanto,
preferiam seguir a recomendação médica de pesar-se somente nas consultas
realizadas com o profissional.
Alguns indivíduos aceitavam subir na balança e diziam: “Sabe que eu não
sei qual é o meu peso?”. No entanto, ao subir na balança e ver o número
resultante, pulavam para fora dela e diziam: “Sua balança está errada. Acabei de
me pesar ou me pesei há X dias atrás. Ela está dando uns dois quilos a mais”.
Diante desta suspeita, a balança digital utilizada foi testada com pesos não
humanos e mensurou corretamente os quilogramas dos objetos colocados sobre
ela.
Grande parte dos indivíduos sabia aproximadamente qual era o seu peso
corporal. Espontaneamente, ao subir na balança, era comum os participantes
dizerem: “Acho que eu peso X kg”. Em geral, havia uma diferença de dois quilos,
47 para mais ou para menos, entre o peso que os indivíduos imaginavam ter e
aquele que a balança indicava que eles tinham.
A fim de evitar o constante constrangimento e desgaste – vivido tanto pela
pesquisadora quanto pelos indivíduos participantes ou não – a estratégia de
obtenção do peso corporal foi modificada. Se antes a pesquisadora pedia
diretamente para a pessoa subir na balança, agora ela passa a perguntar: “Você
sabe qual é o seu peso e a sua altura?”. Caso o indivíduo respondesse que sim, a
pesquisadora perguntava: “Você tem certeza?”. Quando a pessoa tinha certeza, a
pesquisadora anotava o peso e a altura citados. Quando o indivíduo tinha ou
parecia ter alguma dúvida, a pesquisadora dizia: “Eu tenho uma balança e a uma
fita métrica disponível. Vamos pesar para ter certeza?” Deste modo, os indivíduos
subiam na balança de bom grado, não faziam queixas ou reclamações sobre a
necessidade do procedimento.
As entrevistas realizadas na Rua Domingos de Moraes e na praça de
alimentação não contaram com a fita métrica para mensurar a altura dos
indivíduos. Posto que não era possível contar com uma parede onde fosse
possível posicionar os instrumentos. Nesse caso, a medida de altura foi dada pelo
sujeito. Contudo, a balança pôde ser utilizada por ser fina, transparente e
pequena o bastante para ser guardada na mochila da pesquisadora. A aparência
discreta da balança permitiu também que os indivíduos se sentissem menos
constrangidos ao se submeterem à mensuração.
Em resumo, o processo de mensuração do IMC foi feito de três modos:
peso e altura calculados pelos instrumentos; peso e altura fornecidos pelo
participante; e peso mensurado pela balança e altura fornecida pelo participante.
Apesar das dificuldades, o critério de escolha dos participantes de acordo com o
IMC foi mantido, uma vez que este índice é o norteador desta pesquisa.
3.7 – Método estatístico aplicado na análise dos dados
Esta pesquisa foi realizada a partir de uma amostra de 80 participantes
formando quotas distribuídas por gênero (40 homens e 40 mulheres). O roteiro de
entrevista (ANEXO II) foi composto por perguntas fechadas e abertas. A partir das
respostas obtidas junto à amostra, foram construídos dois bancos de dados. Um
48 banco de dados no programa “SPSS 15.0” para as questões fechadas, outro no
programa “Microsoft Office Word” para as abertas. As respostas às perguntas
fechadas foram processadas no programa “SPSS”.
Foram construídas tabelas que cruzaram as variáveis demográficas gênero
e idade e o Índice de Massa Corporal (IMC) com as questões que medem as
opiniões a respeito do ato de vestir-se e do peso corporal. O programa “SPAD.t”
foi utilizado para trabalhar com as respostas dadas para as perguntas abertas,
bem como seu cruzamento com as fechadas. Este software seleciona as falas
mais características dos participantes por grupos constituídos para as questões
fechadas. Por exemplo, perguntamos aos participantes o que faltava para eles se
sentirem melhor vestidos. Todos aqueles que responderam “dinheiro” formaram
um grupo. Dentre as justificativas dos participantes a respeito desta escolha, o
“SPAD.t” destacou as falas mais características deste grupo.
A partir das tabelas de dados quantitativos, foi possível estabelecermos um
paralelo entre as alternativas que mais se destacaram e o discurso emitido pelo
participante ao justificar sua escolha.
No capítulo a seguir vamos apresentar os resultados da pesquisa com
participantes, bem como analisá-los.
49 CAPÍTULO IV
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
No presente capítulo, vamos apresentar os resultados obtidos em cada
uma das cinco questões do roteiro de entrevista. Devido à complexidade dos
dados, vamos analisar os resultados de cada questão ao final de cada tópico em
que eles são apresentados. No início de cada um deles, estará escrito de forma
abreviada qual questão vamos analisar. Por exemplo, “Q1” refere-se à pergunta
número 1 do roteiro de entrevista (ANEXO II). Já Q2A1B, por exemplo, refere-se
às justificativas dadas para a alternativa “(1) dinheiro” da questão 2. Ao lado
destas siglas, escrevemos as perguntas feitas aos participantes.
4.1 - Q1: “No seu dia a dia, você se sente bem vestido?”
Na questão 1 perguntamos: “No seu dia a dia, você se sente bem
vestido(a): sempre, quase sempre, às vezes, raramente ou nunca?” No dia a dia,
a maioria dos participantes sente-se bem vestida quase sempre (41,3%) e às
vezes (31,3%), como demonstra a tabela 2.
TABELA 2
Sente-se bem vestido (a) no dia a dia * Sexo Crosstabulation
Sente-se
bem vestido
(a) no dia a
dia
Sempre
Quase sempre
Às vezes
Raramente
Nunca
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
10
6
25,0%
15,0%
18
15
45,0%
37,5%
9
16
22,5%
40,0%
2
1
5,0%
2,5%
1
2
2,5%
5,0%
40
40
100,0%
100,0%
Total
16
20,0%
33
41,3%
25
31,3%
3
3,8%
3
3,8%
80
100,0%
50 Ao observar os participantes segundo seu IMC (TABELA 3), em todas as
categorias, há participantes que declaram se sentir sempre bem vestidos. Os
participantes que se sentem raramente bem vestidos estão distribuídos entre as
categorias: sobrepeso e obesidades I e II. Os participantes que nunca se sentem
bem vestidos estão distribuídos entre as categorias: normal e sobrepeso. Nas
categorias de IMC normal, sobrepeso e obesidade I predomina o sentir-se quase
sempre bem vestido. Nas categorias obesidade II e III diminui o sentimento de
satisfação, pois a maioria sente-se bem vestida apenas às vezes.
TABELA 03
Sente-se bem vestido (a) no dia a dia * Peso Crosstabulation
Normal
Sente-se
bem vestido
(a) no dia a
dia
Sempre
Quase sempre
Às vezes
Raramente
Nunca
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
3
15,0%
10
50,0%
6
30,0%
1
5,0%
20
100,0%
Sobrepeso
6
30,0%
7
35,0%
4
20,0%
1
5,0%
2
10,0%
20
100,0%
Peso
Obesidade I
4
20,0%
9
45,0%
6
30,0%
1
5,0%
Obesidade II
2
20,0%
3
30,0%
4
40,0%
1
10,0%
Obesidade III
1
10,0%
4
40,0%
5
50,0%
20
100,0%
10
100,0%
10
100,0%
Total
16
20,0%
33
41,3%
25
31,3%
3
3,8%
3
3,8%
80
100,0%
Como veremos adiante, indivíduos que escolheram as mesmas alternativas
certamente o fizeram por motivos diferentes e particulares. Contudo, esta primeira
questão isoladamente não fornece condições para se compreender tais
motivações. Assim, optamos por compreender por quais motivos ocorrem as
referidas diferenças de satisfação entre as categorias de IMC através do
cruzamento das alternativas escolhidas com as justificativas obtidas nas questões
2, 3, 4 e 5, posto que estas quatro questões foram formuladas a fim de explorar
as motivações com maior profundidade.
Por hora, vamos analisar por quais motivos os participantes declaram-se
satisfeitos ou não com as roupas que eles vestem.
Pela
análise
do
discurso,
observamos
que
os
participantes,
independentemente do IMC, que se declaram sempre bem vestidos consideramse satisfeitos com as roupas que usam. Esta satisfação se deve a dois motivos.
Primeiro, porque as roupas expressam sua individualidade. Segundo, porque os
51 participantes estão bem adaptados ao tipo de vestuário que lhes é exigido. Alguns
exemplos:
“Sempre. Porque eu sou diferente das outras pessoas. Eu gosto de me vestir bem
exótica. Não gosto de me vestir no padrão certinha. Eu gosto de, além de uma calça
jeans, eu gosto de extravasar usando pulseira, maquiagem, brinco. Nunca estou igual às
outras pessoas. Raramente eu repito roupa.”
Mulher IMC sobrepeso
“Sempre. Porque eu gosto do meu corpo e do meu estilo.”
Homem IMC normal
“Sempre. Porque eu tenho um perfil de me vestir. Eu sigo um preceito evangélico.
Então eu sempre me sinto bem dentro daquilo que eu uso no meu cotidiano.”
Mulher obesidade I
“Sempre, porque eu estou sempre de uniforme e me sinto bem assim.”
Mulher obesidade II
“Sempre. Porque eu compro só as roupas que ficam bem. Se não ficou bem, eu
não compro.”
Mulher IMC sobrepeso
Os participantes, independentemente do IMC, declaram-se quase sempre
bem vestidos quando, na maior parte do tempo e/ou das ocasiões, eles usam
uma roupa que atende às exigências do ambiente social em que eles se
encontram. Este ambiente pode ser o local de trabalho, uma ocasião festiva, um
encontro romântico, um grupo religioso, entre outros. Os participantes consideram
que a roupa exigida nestas ocasiões é mais formal. Sentem que o uso de roupas
nestas ocasiões exige maior dedicação e maior energia psicológica, a fim de
sustentar a postura esperada. O uso do traje formal faz com que o participante se
avalie como bem vestido devido ao prestígio social que seu uso proporciona. As
afirmações abaixo exemplificam esta vivência:
52 “Quase sempre. Porque normalmente eu uso traje social que veste bem.
Quase porque quando você está em casa, você fica relaxado”.
Homem IMC sobrepeso
“Tem momentos em que eu me sinto inadequada em roupa social, ela é
sempre ligada a uma postura de muito respeito, muita classe, e eu não tenho
muita paciência para bancar isso por muito tempo”.
mulher IMC normal
“Quase sempre. O se vestir bem é complicado. É bem o estilo. Se você
está vestido de acordo com a ocasião e num estilo que você se sente bem, você
está quase sempre bem vestido. Você está formal para a situação e está legal
num estilo que você curte”.
Homem IMC normal
“Quase sempre. Porque eu não gosto de roupa social e eu tenho que
trabalhar de roupa social”.
Homem IMC obesidade III
Esses mesmos participantes, na menor parte do tempo e/ou na sua vida
doméstica, vestem uma roupa em função do conforto que ela oferece. Como, por
exemplo, a roupa que está mais adequada ao clima do dia e à expressão da sua
individualidade. Os participantes declaram que vestem tal roupa porque gostam,
porém se avaliam como mal vestidos nas ocasiões em que as vestem. As peças
mais citadas como confortáveis, de uso informal e que são associadas a estar mal
vestido são o chinelo, a camiseta regata e a bermuda. Veja alguns exemplos:
“Quase sempre. No trabalho, eu me visto bem, mas em casa, eu fico de
uma forma mais confortável. Eu uso um shorts, uma camiseta regata. O lado
confortável. Eu não estou confortável nessa roupa de trabalho, mas tem
formalidades, né? Eu estou com calor agora.”
Homem IMC normal
53 “Quase sempre. Porque tem vezes que eu uso uma roupa mais largada,
não social”.
Homem IMC normal
“Quase sempre. Porque de vez em quando você quer ficar meio largado de
bermudão”.
Homem IMC obesidade I
“Quase sempre. Depende da roupa que eu estou vestindo. Tipo, em casa
eu fico mais despojada. Quando eu saio, fico mais arrumadinha”.
Mulher IMC sobrepeso
Os participantes que se declaram às vezes bem vestidos sentem que na
maior parte do tempo lhes falta algo para compor uma aparência física
satisfatória. Pode faltar dinheiro, roupa de tamanho adequado, atenção com a
aparência, orientação sobre o que vestir, entre outros. Em geral, estes
participantes manifestaram boa percepção a respeito do que é socialmente
adequado.
Contudo,
sentem
que
não
conseguem
nem
expressar
sua
individualidade nem atender às exigências sociais. Portanto, sentimentos de
incompetência e fracasso parecem marcar a autoavaliação do indivíduo frente ao
ato de vestir-se. Veja alguns exemplos:
“Às vezes. Porque a gente nunca está do jeito que quer, com o que gostaria de
estar vestindo. Às vezes tem a roupa, mas não tem o sapato que você gostaria de
combinar. Tem o sapato mas não tem a roupa”.
Homem IMC normal
“Às vezes. Porque eu não tenho dinheiro para comprar uma roupa que eu quero.
Então eu compro uma que não é tão legal”.
Mulher IMC normal
“Às vezes. Normalmente porque às vezes você sente que a roupa não está bem
adequada ao tipo físico. Como eu não sou muito preocupado com a aparência, e não que
me incomode, mas às vezes posso não estar bem vestido”.
54 “Às vezes. Porque às vezes eu tenho preguiça de me arrumar para a faculdade,
mas para sair eu me arrumo”.
Homem IMC obesidade I
“Às vezes. Eu acho que eu não tenho muito feeling para me vestir. Até gostaria de
saber combinar roupas que se adequam mais. Eu sou mais moleca para me vestir, e o
meu trabalho é mais formal”.
Mulher IMC obesidade I
“Às vezes. Porque como eu estou meio gordo, às vezes a roupa incomoda. Fica
justa, apertando, não fica legal. A calça fica com a barriga para fora.”
Homem IMC obesidade II
“Às vezes. Por ser gordo, às vezes eu acho que tem roupa que não me cai bem.
Tem dia que você acorda e a roupa te incomoda. Nem todo o meu guarda roupa é de
roupas que eu gosto.”
Homem IMC obesidade III
Os participantes que se declaram raramente bem vestidos parecem não
encontrar um equilíbrio entre a roupa e o corpo. O ato de vestir-se é uma
experiência negativa, onde o corpo parece ser o “vilão”.
“Raramente. Porque sou gordo, claro. E não se acha roupa para gordo. Agora
com os novos índices de medida, acredito que a coisa vai melhorar. É muito difícil
encontrar roupas de tamanho adequado.”
Homem IMC obesidade II
Os participantes que declaram nunca estar bem vestidos tendem a delegar
às outras pessoas a função de avaliar a adequação da sua própria aparência.
“Nunca. Eu não ligo para onde eu vou. Eu não paro para pensar que roupa vou
usar. As pessoas sempre falam que estou mal vestido, mas eu me sinto bem vestido.
Então, eu vou pelo que as pessoas falam.”
Homem IMC sobrepeso
55 “Nunca. Eu não acerto nas roupas que eu compro para mim, que fiquem bem no
meu corpo. Então eu acabo não me sentindo bem. Eu tenho dificuldade para comprar e
escolher certos tecidos. Aí chega em casa meu marido reclama.”
mulher IMC normal
Em resumo, parece haver uma gradação da posição do ego. Quanto mais
o participante se apropria da tarefa cotidiana de vestir-se, maior é o sentimento de
satisfação com a própria aparência. Os participantes que responderam “quase
sempre” tendem a fazer uma diferenciação psicologicamente saudável entre o eu,
a necessidade pessoal de conforto e as exigências coletivas no ato de vestir-se.
Os participantes que responderam “às vezes” parecem sofrer devido à
dificuldade de equilibrar todos os fatores materiais e psicológicos envolvidos no
vestir-se, sinalizando a necessidade de maior esforço consciente e/ou
fortalecimento do ego a fim de gerenciar a tarefa cotidiana de vestir-se de modo
satisfatório.
4.2 – Q2: “Você acha que poderia estar melhor vestido do que você está
agora?”
Na questão 2 perguntamos: “Você acha que poderia estar melhor vestido
(a) do que você está agora?”. Os participantes podiam responder “sim” ou “não”.
Quando respondiam “sim”, fazíamos a seguinte pergunta: “O que falta para você
se sentir melhor vestido(a) do que você está agora?” Oferecemos cinco
alternativas: (1) dinheiro, (2) orientação profissional sobre o que vestir, (3) roupas
de modelos e estilos variados, (4) ter mais imagens de pessoas com o mesmo
corpo que o seu nas propagandas de roupa e (5) outros motivos não citados que
são relevantes para o participante.
A maioria afirmou que falta dinheiro (58%) para que eles se sintam melhor
vestidos. Por ordem decrescente, falta também: ter mais roupas de modelos e
estilos variados (42%), ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o
seu nas propagandas de roupa (34,8%), ter uma orientação profissional sobre o
que vestir (26,1%) e outros motivos que não foram citados nas alternativas, mas
56 que o participante considera importante (18,8%). Estes dados foram obtidos
através do cruzamento de dados das tabelas 04, 06, 08, 10,12 e 14.
A maioria dos participantes (86,3%) considerou que poderia estar melhor
vestido do que estava no momento da entrevista (TABELA 04).
TABELA 04
Acredito que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora * Sexo
Crosstabulation
Acredito que poderia
estar melhor vestido(a)
do que você está agora
Sim
Não
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
34
35
85,0%
87,5%
6
5
15,0%
12,5%
40
40
100,0%
100,0%
Total
69
86,3%
11
13,8%
80
100,0%
A maioria dos participantes de todas as categorias de IMC respondeu que
poderia estar melhor vestida do que estava no momento da entrevista. Houve
uma leve variação entre os participantes com IMC normal (80%) e os
participantes com IMC obesidade III (90%), como demonstra a tabela 05.
Através do cruzamento de dados das tabelas 05, 07, 09, 11, 13 e 15,
identificamos o que falta para que os participantes de cada categoria do IMC
sintam-se melhor vestidos em ordem de importância decrescente.
Para a categoria IMC normal, falta dinheiro (81,3%), roupas de modelos e
estilos variados (37,5%), orientação profissional sobre o que vestir (31,3%), ter
mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu (18,8%) e outros
motivos não citados (12,5%).
Para a categoria IMC sobrepeso, falta dinheiro (50%), roupas de modelos e
estilos variados (44,4%), orientação profissional sobre o que vestir (38,9%), outros
motivos não citados (27,8%) e ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo
que o seu (22,2%).
Para a categoria IMC obesidade I, falta dinheiro (52,9%), roupas de
modelos e estilos variados (41,2%), ter mais imagens de pessoas com o mesmo
corpo que o seu (35,3%), e com a mesma importância temos orientação
profissional sobre o que vestir (17,6%) e outros motivos não citados (17,6%).
57 Para a categoria IMC obesidade II, o que mais falta é tanto dinheiro
(44,4%) quanto imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas
propagandas de roupa (44,4%). Depois, aparecem outros motivos não citados
(33,3%), e na mesma ordem de importância falta orientação profissional sobre o
que vestir (22,2%) e roupas de modelos e estilos variados (22,2%).
Para a categoria IMC obesidade III, o que mais falta é imagens de pessoas
com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa (77,8%), seguida da
falta de roupas de modelos e estilos variados (66,7%), dinheiro (55,6%) e
orientação profissional sobre o que vestir (11,1%). Esta categoria não citou outros
motivos.
Pela análise do discurso, observamos que os fatores citados nas
alternativas são importantes para todas as categorias de IMC, mas por motivos
diferentes. Nos cinco tópicos a seguir, vamos identificar as motivações que mais
se destacam em cada categoria de IMC. Deste modo, podemos identificar quais
as motivações comuns e/ou divergentes entre os participantes ao escolher uma
alternativa segundo o seu IMC.
TABELA 05
Acredito que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora * Peso Crosstabulation
Acredito que poderia
estar melhor vestido(a)
do que você está agora
Total
Sim
Não
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Normal
16
80,0%
4
20,0%
20
100,0%
Sobrepeso
18
90,0%
2
10,0%
20
100,0%
Peso
Obesidade I
17
85,0%
3
15,0%
20
100,0%
Obesidade II
9
90,0%
1
10,0%
10
100,0%
Obesidade III
9
90,0%
1
10,0%
10
100,0%
Total
69
86,3%
11
13,8%
80
100,0%
Homens e mulheres julgam que ter mais dinheiro é o que mais os ajudaria
a se sentirem bem vestidos. Posteriormente, ambos os gêneros acham que ter
roupas de modelos e estilos variados, bem como ter orientação profissional sobre
o que vestir, também podem melhorar a satisfação com sua aparência. Contudo,
estes dois últimos fatores são mais importantes para os homens. Ter mais
imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa é
muito mais importante para as mulheres. Outros motivos relatados no tópico 4.2.5
são muito mais importantes para os homens.
58 4.2.1 - Q2A1B: Opção – falta dinheiro para nos sentirmos melhor vestidos
TABELA 06
Dinheiro * Sexo Crosstabulation
Dinheiro
Sim
Não
9
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino Feminino
18
22
45,0%
55,0%
16
13
40,0%
32,5%
6
5
15,0%
12,5%
40
40
100,0%
100,0%
Total
40
50,0%
29
36,3%
11
13,8%
80
100,0%
TABELA 07
Dinheiro * Peso Crosstabulation
Dinheiro
Sim
Não
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Normal
13
81,3%
3
18,8%
16
100,0%
Sobrepeso
9
50,0%
9
50,0%
18
100,0%
Peso
Obesidade I
9
52,9%
8
47,1%
17
100,0%
Obesidade II
4
44,4%
5
55,6%
9
100,0%
Obesidade III
5
55,6%
4
44,4%
9
100,0%
Total
40
58,0%
29
42,0%
69
100,0%
Através da análise do discurso, observamos que para os homens com IMC
normal, ter dinheiro dá acesso a mais opções de modelos de roupas mais caras.
Essas roupas mais caras são vendidas por marcas conhecidas e gozam de
melhor qualidade.
“Teria mais opções de roupas caras. Eu poderia achar roupas que eu poderia
comprar.”
Homem IMC normal
Para os homens com IMC sobrepeso e obesidade I, II e III, o dinheiro
também dá acesso a roupas de marcas conhecidas. Além disso, ele proporciona
também maior liberdade para procurar em mais lojas e ter qualquer roupa que se
59 queira. Parece que ter dinheiro disponível estimula os homens acima do peso a
irem às compras.
“Eu teria mais liberdade para ter qualquer tipo de roupa que eu gostaria. Poderia
ter até tempo e dinheiro para procurar. Teria opções de mais lojas sem me preocupar
com o preço.”
Homem IMC obesidade III
As mulheres das categorias IMC normal, sobrepeso e obesidade I e II
afirmam que o alto custo das roupas – se comparado aos seus recursos
financeiros e às outras despesas do dia a dia – dificulta a compra de roupas de
melhor qualidade e em maior quantidade.
“Com dinheiro, eu compraria bem mais. Eu tenho curso aqui na Teodoro e fico
andando até dar a hora e vejo cada vestido lindo, cada roupa linda. Mas aí te falta o
dinheiro. Tem tanta coisa que fala mais alto: conta, prestação, essas coisas.”
Mulher IMC normal
Contudo, na categoria obesidade III, ter dinheiro garante que a participante
possua uma quantidade mínima de roupas. Ter mais dinheiro permite o acesso a
roupas de tamanhos grandes nas lojas especializadas, posto que seu custo é
maior do que uma peça similar da loja não especializada. Duas situações de
consumo relatadas pelas participantes chamam a atenção. Primeiro, ter dinheiro
permite que os participantes façam mais roupas sob medida. Segundo, pontuam
que não existe liquidação nas lojas de roupas de tamanhos grandes. Os
participantes justificam que o custo da compra diminui com o acesso a
liquidações. O relato das duas situações parece sugerir uma situação de exclusão
da dinâmica de consumo de lojas não especializadas, isto é, a dinâmica mais
comum em nossa sociedade.
“Quando você é mais magro, você tem mais vantagem. As roupas são mais
baratas, tudo que é loja tem liquidação. Loja de gordo não tem nada barato, não tem
liquidação. Eu poderia comprar mais. Às vezes você procura um modelo que você não
acha. Mas aí você pode comprar um tecido e mandar a costureira fazer o modelo que
você gosta. Mas para isso você tem que ter mais dinheiro, porque é mais gasto. Você
60 tem que comprar tecido, tem que pagar costureira. Mas na loja está em promoção, você é
magra, paga 15 ou 30 reais e você compra.”
Mulher IMC obesidade III
Em resumo, os participantes consideram alto o custo das roupas se
comparado às suas condições sócio-econômicas. E também, ter dinheiro
realizaria o desejo de consumir roupas produzidas por marcas famosas,
especialmente pelos homens. Os participantes com IMC obesidade III partilham
deste mesmo desejo, mas se deparam com um custo ainda maior nas lojas de
roupas especializadas em tamanhos grandes. Portanto, ter dinheiro estimula
estes participantes a procurar roupas adequadas e garante uma quantidade
mínima de roupas.
4.2.2 - Q2A2B: Opção – Orientação profissional sobre o que vestir
TABELA 08
Orientação profissional sobre o que vestir * Sexo Crosstabulation
Orientação profissional
sobre o que vestir
Sim
Não
9
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
9
9
22,5%
22,5%
25
26
62,5%
65,0%
6
5
15,0%
12,5%
40
40
100,0%
100,0%
Total
18
22,5%
51
63,8%
11
13,8%
80
100,0%
TABELA 09
Orientação profissional sobre o que vestir * Peso Crosstabulation
Orientação profissional Sim
sobre o que vestir
Não
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Normal
5
31,3%
11
68,8%
16
100,0%
Sobrepeso
7
38,9%
11
61,1%
18
100,0%
Peso
Obesidade I
3
17,6%
14
82,4%
17
100,0%
Obesidade II Obesidade III
2
1
22,2%
11,1%
7
8
77,8%
88,9%
9
9
100,0%
100,0%
Total
18
26,1%
51
73,9%
69
100,0%
61 Pela análise do discurso, observamos que os homens com IMC normal,
sobrepeso e obesidade I e II entendem orientação profissional como uma pessoa
que auxilia o participante a escolher roupas de acordo com seu tipo físico, sua
personalidade, seus compromissos do dia a dia, seus recursos financeiros e o
clima. Eles esperam que o profissional apresente novas combinações de peças
de roupas, criando um outro tipo de aparência física. Deste modo, esta orientação
faz com que o participante sinta-se mais seguro quanto à roupa que está
vestindo.
“Me ajudaria a combinar as coisas. A única coisa além de camisa comum e calça
comum, eu só sei comprar camisa social, calça social e cinto. Fora isso, não compro mais
nada. Talvez o profissional me apresente outras opções, outras combinações.”
Homem IMC normal
“Uma pessoa da moda ia trocar todo o meu guarda-roupa.”
Homem IMC sobrepreso
“Um profissional com certeza me ajudaria a vestir roupas melhores dependendo
do clima. Ele ajudaria a escolher a melhor combinação com o dinheiro que eu posso
investir.”
Homem IMC obesidade
A categoria obesidade II manifestou desconfiança a respeito do preparo e
das intenções do profissional que se oferece para ajudar. A categoria obesidade
III não citou ajuda profissional como relevante.
“Na verdade, os profissionais não estão preparados. É difícil ter alguém, algum
profissional que ajude de verdade. Eles querem vender. Um bom profissional me ajudaria
a definir melhor as combinações de roupas. Para me sentir seguro, desde os quinze anos
compro sempre nas mesmas lojas, só em duas lojas. Eu chego lá, e eles já sabem, não
62 precisa do constrangimento de falar do meu tamanho. Para você ter uma ideia, fico uns
quatro anos sem comprar tênis, mas quando compro, compro um bom. Se não o meu pé
fica cozinhando.”
Homem IMC obesidade II
As mulheres com IMC normal, sobrepeso e obesidades I e II entendem a
orientação profissional como uma pessoa que adequa as escolhas da participante
à imagem que ela quer transmitir numa ocasião social, uma vez que elas atribuem
a esta pessoa a capacidade de harmonizar alguns itens da aparência como
sensualidade, cor da pele e formas corporais. Para essas participantes acima do
IMC normal, tal profissional é capaz de fazer com que elas pareçam mais magras
usando certas roupas.
“Você sabe que está mesclando as coisas certas. Que você está combinando. Às
vezes você coloca uma roupa que você se sente bem, mas que não combina. A gente faz
o nosso próprio estilo. Mas às vezes é bom a orientação profissional. Principalmente
quando você vai procurar um trabalho, ou em algum jantar especial, é bom você saber
que está indo com a roupa adequada.”
Mulher IMC normal
“(...)Eu ando assistindo o esquadrão da moda, eu adoro aquilo. Outro dia, uma
mulher que estava gordinha, ficou com a silhueta perfeita. Para mim seria legal também.”
Mulher IMC sobrepeso
“Eu estou acima do peso, então tem roupa que ajuda a gente a ficar um pouco
mais magra. Mesmo quem é magro, tem que tomar cuidado com a roupa. Dependendo
da roupa, deixa a pessoa gorda também. A cor da pele, o tamanho da pessoa, o
profissional ajudaria a combinar isso também.(...)”
Mulher IMC obesidade II
Não obstante, a categoria obesidade III entende a orientação profissional
não como uma pessoa, mas como a informação provinda dos meios de
comunicação.
63 “Poderia ter mais programas na televisão, revistas. É muito difícil ter revista para
gordinho, para aprender a se arrumar. Tem site, mas revista não. Eu precisei ser
madrinha de casamento e foi um dilema. Eu não achava o que vestir.”
Mulher IMC obesidade III
Em resumo, a orientação profissional pode proporcionar segurança
emocional ao escolher as roupas próprias para cada ocasião. O homem espera
que o profissional o ensine a escolher roupas adequadas especialmente ao clima
do ambiente – isto é, frio ou calor. Já a mulher espera que o profissional modere
suas próprias escolhas especialmente quanto à sensualidade e magreza que a
mulher deseja transmitir. Estes dados corroboram com a pesquisa bibliográfica
encontrada. Mesquita (2008) afirma que um dos modos contemporâneos de
adquirir estilo é consumir os serviços de um “personal stylist” – isto é, consultor de
estilo ou imagem pessoal. A autora pontua que há uma série de usos para o
termo. Em nossa pesquisa, os participantes utilizam o termo como uma ligação
entre a singularidade do individua, sua maneira de viver e suas escolhas de
compra. Tal definição sinaliza a ligação entre o produto “roupa” e a vivência
afetiva dos participantes.
Este profissional pode ser contratado para articular as roupas e acessórios,
o corpo e os ambientes nos quais o cliente circula. O trabalho deste profissional
pode aumentar a autoconfiança, a autoexpressão e a credibilidade do indivíduo
que o contrata. Em nossa pesquisa, os participantes com IMC normal, sobrepeso
e obesidade I afirmam que os serviços deste profissional podem aumentar a
segurança emocional a respeito do que eles vestem.
Contudo o consultor de estilo parece evocar desconfiança nos participantes
com obesidade II e III. Nenhum dos homens ou mulheres com IMC obesidade
classe III fez referência a uma pessoa que seja capaz de orientá-los
profissionalmente a respeito das roupas mais adequadas. Este comportamento
pode ser devido a dois motivos. Primeiro, o despreparo dos profissionais que
trabalham com roupas e imagem corporal para lidar com pessoas deste tipo
físico, tal como demonstra a fala de um homem com IMC obesidade II. Este
participante é um pouco mais leve, mas relata dificuldades para encontrar
orientação profissional adequada. Segundo, a descrença na possibilidade de
melhorar a sua aparência através do olhar compreensivo de outra pessoa.
64 Esses dados corroboram com o apontamento das pesquisas bibliográficas,
posto que Wood et al. (2008) afirmam que as mulheres com IMC acima do normal
não procuram ajuda profissional para aprender a ajustar seu sutiã devido ao
temor de viver duas situações. A primeira, ouvir comentários dos profissionais a
respeito do formato de suas mamas. Segunda, ser obrigada a comprar um sutiã
que vestiu bem, mas que não a agradou ou está além das suas possibilidades
financeiras.
4.2.3 - Q2A3B: Opção – Faltam roupas de modelos e estilos variados
TABELA 10
Roupas de modelos e estilos variados * Sexo Crosstabulation
Roupas de modelos
e estilos variados
Sim
Não
9
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
14
15
35,0%
37,5%
20
20
50,0%
50,0%
6
5
15,0%
12,5%
40
40
100,0%
100,0%
Total
29
36,3%
40
50,0%
11
13,8%
80
100,0%
TABELA 11
Roupas de modelos e estilos variados * Peso Crosstabulation
Normal
Roupas de modelos
e estilos variados
Sim
Não
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
6
37,5%
10
62,5%
16
100,0%
Sobrepeso
8
44,4%
10
55,6%
18
100,0%
Peso
Obesidade I
7
41,2%
10
58,8%
17
100,0%
Obesidade II
2
22,2%
7
77,8%
9
100,0%
Obesidade III
6
66,7%
3
33,3%
9
100,0%
Total
29
42,0%
40
58,0%
69
100,0%
Pela análise do discurso, observamos que os homens de todas as
categorias de IMC relatam que só um estilo de roupa é vendido nas lojas. Entre
os homens com IMC acima do normal, há quem deseje copiar este modelo único
65 que predomina nas lojas, mas não o faz porque não encontra o modelo num
tamanho adequado ao seu corpo.
“Por exemplo, agora entrou essa onda de roupa colorida. E eu não sou dessa
‘vibe’. Você vai na loja de surf, e eles estão colocando muita roupa colorida. Não é assim
como essa camiseta (e mostra a própria camiseta). Eu gosto de camisa de surf mais
básica.
Homem IMC normal
“Na hora de sair, você quer copiar um modelo que o pessoal esteja vestindo. Eu
me visto quando eu vejo outras pessoas se vestindo. Eu não tenho meu estilo próprio. Se
eu vejo uma pessoa vestindo algo legal, eu quero me vestir que nem ele.”
Homem IMC obesidade I
Os participantes de todas as categorias de IMC contam que se sentem
melhor quando podem variar o vestuário. Eles manifestam incômodo frente à
obrigatoriedade do uso de “roupa social” – isto é, calça com corte de alfaiataria e
camisa – no ambiente profissional. Esta exigência associa tal vestimenta à rotina,
gerando mal estar ao utilizá-la. Tal polarização entre rotina e variedade em
relação à “roupa social” é mais incômoda para homens de 25 a 35 anos. As peças
de roupas consideradas mais difíceis para se adequar são calça, camiseta e
camisa.
“Eu tenho a impressão que estou sempre com as mesmas roupas. Eu vario
pouco durante a semana. Até sobra roupa no guarda-roupa que eu não uso. Eu acabo
repetindo a mesma camisa, a mesma calça, o mesmo tênis. Até a cueca às vezes é a
mesma, mas eu lavo.”
Homem IMC normal
“Não tenho paciência para ficar procurando uma coisa. É tudo igual e não me
serve. Se eu pego uma camisa tamanho G, ela para aqui (aponta acima do pulso). Assim
eu compro uma camisa tamanho GG para ela cobrir até aqui que eu gosto. Mas fica larga
no colarinho. Então ficar procurando me irrita, não gosto.”
Homem IMC sobrepeso
66 “Porque você sempre com aquele mesmo estilo, parece que sua vida vai virando
rotina. Então semanalmente ou diariamente você tem que colocar uma roupa diferente.
Alguma coisa para mudar. Automaticamente você se sente melhor com isso.”
Homem IMC sobrepeso
“Outros estilos de camisas, cores, outros estilos de calça, bermuda, tênis que eu
não encontro com facilidade.”
Homem IMC obesidade II
“Esse negócio de moda não faz muito a minha cabeça. Eu não gosto de rotina.
Tem que usar social para trabalhar, mas eu enjoo fácil. Quanto mais variedade, me sinto
melhor.”
Homem IMC obesidade III
As mulheres de todos os IMC relatam que não acham o que gostam devido
à predominância de um estilo e um tamanho nas lojas, ou que elas mesmas
variam pouco as roupas que usam. O maior número de roupas de modelos e
estilos variados permitem que elas achem as roupas que gostam, além de
diminuir o uso do conjunto calça jeans e blusa.
“Dependendo do que está na moda, você acha tudo igual em todo lugar. Podia ter
um pouco de variedade. Tem bastante. Mas mesmo assim eu acho que às vezes fica
tudo muito numa moda só, num modelo só ou num tipo de corpo só. Essas lojas grandes
Renner,
Marisa,
Riachuelo,
é
tudo
mais
ou
menos
o
mesmo
padrão.”
Mulher IMC normal
Outros desconfortos se acumulam à medida que aumenta o IMC da
participante. A partir da categoria IMC sobrepeso, maior variedade implica
também ter roupas adequadas à faixa etária da mulher que vai vesti-las. As
mulheres mais jovens e mais velhas com sobrepeso não sentem que o vestuário
disponível nas lojas é adequado ao corpo delas. Participantes de 18 a 24 anos
com IMC sobrepeso e obesidade I relatam que as roupas são muito pequenas e
expõem o seu corpo de um modo que gera desconforto.
67 “Quando você vai comprar roupa, é tudo muito curto, muito decotado. Se tivesse
uns modelos maiores, seria melhor. Porque hoje em dia o short é muito curto. E achar um
short mais comprido é mais difícil”.
Mulher IMC sobrepeso
As mulheres de 36 a 46 anos começam a se preocupar com o que vestem,
de modo que não pareçam mais velhas. A preocupação em transmitir uma
aparência mais jovial é significativa entre as mulheres de 47 a 60 anos que estão
com IMC acima do normal. Deste modo, a maior variedade de modelos e estilos
permite que elas conciliem seu próprio processo de amadurecimento, seu peso e
as novidades relacionadas ao vestuário.
“Hoje eles fazem uma roupa muito para menininha. E esquece que a gente vai
amadurecendo e que precisa ter uma roupa que seja compatível com a nossa idade.
Nem tão menininha, nem tão velhona. Falta o meio termo.”
Mulher IMC sobrepeso
“Porque eu acho que tem a roupa adequada para mim. Cada idade tem a sua...
cada corpo... tem que escolher a coisa certa. Eu estou procurando um blazer de manga
curta. Andei a Teodoro inteira e não achei no meu número que é 46. Só achei até o 44.”
Mulher IMC obesidade I
Para as participantes com IMC obesidade III roupas variadas é um
sinônimo de roupas com modelagem adequada ao corpo gordo. Ao vestir as
roupas atualmente disponíveis nas lojas para o seu tamanho, as participantes
sentem que a modelagem destas peças é inadequada para suas formas
corporais. Portanto, ao vestir tal roupa, elas se percebem como fisicamente feias,
o que diminui sua autoestima.
“Geralmente pensam que uma gordinha tem que usar uma roupa quadrada. Não
tem um modelo, não tem um molde. Eu, por exemplo, sou acinturada e tenho quadril.
Mas tem pessoas que são mais quadradas. Aí no caso, eu não entro nem no gordinho
nem no magro. Tem roupa que eu experimento numa loja de gordinho e fica enorme. Eu
68 não tenho complexo nenhum, mas se você colocar uma blusa mais moderna, fica mais
justo, mais alinhado.”
Mulher IMC obesidade III
“Eles pensam que gordinha é só colocar uma roupa, amarrar um negócio no meio
da cintura e está linda e maravilhosa. E não é bem assim. A gente também tem que se
sentir bem. Eu queria encontrar algo bonitinho e moderno.”
Mulher IMC obesidade III
Em resumo, a maioria dos participantes acredita que há um modelo de
roupa predominante nas lojas. A padronização relatada pelos participantes
corrobora com o conceito de Castilho e Vicentini (2008) relatado na bibliografia
pesquisada. As autoras pressupõem que uma dinâmica social permeia e
determina a interação entre roupa e corpo. Uma vez que a roupa cobre o corpo a
fim não só de adequá-lo ao convívio social – isto é, não mostrar-se nu – mas
também para definir seus contornos. Esta formatação do corpo tem por finalidade
adequá-lo às concepções que a sociedade partilha a respeito do corpo em geral.
Segundo os dados obtidos, quatro perfis de participantes se mostraram
particularmente incomodados com essa formatação do corpo através da roupa:
homens de 25 a 35 anos; mulheres com IMC acima do normal com idades entre
18 e 24 anos e entre 47 e 60 anos; e mulheres com IMC obesidade III.
O desconforto dos homens encontrado na pesquisa confirma as reflexões
dos autores encontrados. Eco et. al (1989) afirmam que os homens se ressentem
com o desconforto e as limitações a que são submetidos através do uso da roupa.
Flügel (1966) atribui a rigidez da “roupa social” masculina à responsabilidade e ao
senso de dever que são associados a ela. Portanto, a “roupa social” ajusta a
aparência corporal masculina aos valores morais que a sociedade espera
encontrar num homem inserido no mercado de trabalho. Flügel (1966) prossegue
dizendo que o homem suporta a austeridade corporal e a falta de variedade
provocada pela “roupa social” devido à imagem positiva que ela transmite. Diniz
(2005) demonstra que na sociedade contemporânea, este traje goza de muito
prestígio. A ponto da qualidade da “roupa social” ser determinante na aprovação
ou não de um candidato a cargos importantes em grandes empresas.
69 Os homens adultos jovens foram os que mais expressaram desconforto.
Possivelmente devido à inserção destes participantes no mercado de trabalho.
Uma vez que o ambiente profissional exige o uso desse tipo de traje no cotidiano.
Contudo, esses jovens não podem abrir mão de tal roupa sem prejudicar a
conquista da estabilidade social e econômica.
As mulheres acima do peso com idades entre 18 e 24 anos e entre 47 e 60
anos parecem se defrontar com a percepção social a respeito da relação entre
idade e atratividade. Kaiser (1998) afirma que a idade da mulher é mais
importante do que a idade do homem na determinação social de sua atratividade
física. O homem mais velho é avaliado como tendo agora uma aparência diferente
da juventude. A mulher mais velha é avaliada como tendo agora uma aparência
menos atraente do que na juventude.
Desse modo, é esperado que uma mulher jovem tenha uma aparência
atraente e sensual e exponha mais seu belo corpo. Segundo Navarri (2010) a
mulher magra, alta e jovem é considerada glamorosa, isto é, desejável
socialmente. Tal exposição do corpo feminino jovem e magro parece se refletir na
modelagem diminuta das roupas feitas para esse público. Como as jovens
participantes com IMC acima do normal têm dimensões corporais maiores, é
esperado que experimentem tanto desconforto físico quanto psicológico por conta
da inadequação das roupas às suas formas corporais.
Com relação às mulheres entre 47 e 60 anos, o desconforto relatado por
estas participantes apoia a bibliografia encontrada. Kaiser (1998) afirma que as
mudanças físicas decorrentes do envelhecimento limitam as opções de vestuário
devido aos problemas de ajuste corporal decorrentes. A mulher mais velha tende
a experimentar mudanças corporais como sedimento da linha do busto,
engrossamento da cintura e perda de tônus muscular na parte superior do braço.
Kaiser (1998) afirma que os fabricantes de roupas se encontram num
dilema ao tentar atender essas potenciais consumidoras. Eles não sabem como
oferecer roupas para mulheres mais velhas sem rotulá-las como velhas. Ao
divulgar o público-alvo do seu produto, eles tendem a estigmatizar estas roupas e
suas consumidoras como pouco atraentes. Como um dos critérios de
autoavaliação corporal feminina é a atratividade física, esta potencial consumidora
tende a rejeitar a roupa oferecida. Ao retomar a fala de uma participante, parece
que a solução deste impasse seria a produção de roupas “nem tão menininha,
70 nem tão velhona”. Isto é, que contemple as formas corporais da mulher madura
de modo atraente.
As mulheres com IMC obesidade III descrevem as roupas disponíveis
como quadradas, pouco alinhadas e pouco ajustadas ao contorno corporal.
Soma-se a isso a lipofobia cultural apontada por Fischler (2005) onde a gordura
não é digna de complacência, mas sim de dura oposição. Talvez essa
modelagem de roupas sem contornos definidos seja o reflexo de um imaginário
coletivo a respeito do corpo gordo. Essa modelagem inadequada provoca
sentimentos negativos na mulher obesa III a respeito de sua própria aparência.
4.2.4 - Q2A4B: Opção – ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo
que o seu nas propagandas de roupas.
TABELA 12
Ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu * Sexo Crosstabulation
Ter mais imagens de
pessoas com o mesmo
corpo que o seu
Sim
Não
9
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino Feminino
7
17
17,5%
42,5%
27
18
67,5%
45,0%
6
5
15,0%
12,5%
40
40
100,0%
100,0%
Total
24
30,0%
45
56,3%
11
13,8%
80
100,0%
TABELA 13
Ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu * Peso Crosstabulation
Normal
Ter mais imagens de
pessoas com o mesmo
corpo que o seu
Total
Sim
Não
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
3
18,8%
13
81,3%
16
100,0%
Sobrepeso
4
22,2%
14
77,8%
18
100,0%
Peso
Obesidade I
6
35,3%
11
64,7%
17
100,0%
Obesidade II
4
44,4%
5
55,6%
9
100,0%
Obesidade III
7
77,8%
2
22,2%
9
100,0%
Total
24
34,8%
45
65,2%
69
100,0%
Homens de todas as categorias de IMC acreditam que ver a imagem de
pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupas ajuda a
71 perceber quais roupas ficam melhores no próprio corpo. Os participantes das
categorias IMC normal e obesidade I, II e III queixam-se por não se verem
representados nas propagandas.
“Não tem muita imagem de homem magro assim nas propagandas. O que eu vejo
é um tipo mediano, camisa padrão, tamanho grande. O tamanho grande nunca fica do
meu tamanho. Fica sempre curto. Manga, calça, barra. Se eu compro calça tamanho 40,
ela fica curta. A roupa fica larga, tem que mandar apertar.”
Homem IMC normal
“Questão de comparação. Para perceber coisas que ficam melhor, que ficam pior
em pessoas com o mesmo biotipo que o seu. Ajudaria”.
Homem IMC obesidade I
“Você tem uma noção do que você pode vestir ou não. Não só em relação a mim,
mas a outras pessoas que sejam gordas.”
Homem IMC obesidade II
“Não há gordos como eu em campanhas publicitárias. Ficamos sem nenhuma
referência.”
Homem IMC obesidade II
“Hoje você só vê praticamente modelos magrinhos, raquíticos. O biotipo de moda.
E no dia a dia, tem vários. Isso nas roupas masculinas. No feminino é até mais fácil. Em
geral, você não tem publicidade de todo tipo de roupa, só tem publicidade para aquela
roupa, para aquele biotipo da moda. Agora no verão você só vê magrinhos usando estilo
surf, polo.”
Homem IMC obesidade III
As mulheres de todas as categorias de IMC afirmam que o tipo físico
apresentado nas propagandas de roupa não corresponde à realidade. Quanto
maior o IMC, maior o sentimento de exclusão presente no discurso das
participantes. Este sentimento de exclusão afeta negativamente tanto a
autoestima quanto o comportamento de vestir-se das participantes. Além disso,
elas partilham a crença que as roupas vestem melhor numa pessoa magra.
72 Mulheres com IMC normal – isto é, que possuem o tipo físico magro –
também afirmam que o tipo físico apresentado nas propagandas de roupa não
corresponde à realidade.
“Na propaganda, todo mundo é lindo, super jovem, super magrinho. A roupa é
curtíssima, justíssima, decotadíssima. É um padrão que não é o nosso, não é o real. Está
longe da realidade.”
Mulher IMC normal
“Eu acho que a pessoa magra veste melhor. E tendo pessoas de corpo igual ao
meu, ia me ajudar mais.”
Mulher IMC normal
Para as mulheres com IMC sobrepeso, ter mais imagens de pessoas com o
mesmo corpo torna mais fácil encontrar as lojas que vendem roupas de tamanhos
adequados.
“Nas propagandas, a gente só vê gente magrinha. Cadê que não põe uma
gordinha com as roupas que caem bem, que vestem bem? É pouca a propaganda que
tem, então deveria ter mais”
Mulher IMC sobrepeso
“Mais a parte grande. Porque tem uns modelinhos que são novidade, mas está
difícil de encontrar o tamanho 48 porque só vai até o 44. Eu visto 48 só em cima.”
Mulher IMC sobrepeso
Para as mulheres com IMC obesidade I, ter mais imagens de pessoas com
mesmo corpo tem duas vantagens. A primeira é facilitar a busca e evitar o
constrangimento ao procurar roupa numa loja que não oferece tamanhos maiores.
A segunda é o aumento da autoestima ao ver imagens de referência nas
propagandas.
“Porque quando a gente vai comprar roupa, a gente procura roupa do nosso
tamanho e às vezes não tem o modelo que a gente quer. Ou não tem a cor. Aí a gente se
73 sente um pouquinho inferior”.
Mulher IMC obesidade I
“Se a gente ver, de repente a gente vai se identificar com alguém. É uma maneira
de você falar ‘Não, eu não preciso usar necessariamente isso. Eu posso mudar. Ela
também
é
gordinha
como
eu’.
Mas
eu
não
tenho
nenhuma
referência.
Mulher IMC obesidade I
Para as mulheres com IMC obesidade II, falar sobre imagem corporal
remete não só às imagens exibidas nas propagandas, mas também à imagem
social do gordo. Elas percebem uma hostilidade social em relação ao corpo gordo
e à pessoa que é gorda.
“Agora eu estou trabalhando, graças a Deus. Mas as pessoas acham que a
pessoa obesa não presta para nada. Tem que se ferrar mesmo. E só fazem roupa para
magro. Deviam incentivar as pessoas a fazer mais roupas para gordo, porque gordo
também precisa se vestir. E isso acaba fazendo a pessoa se sentir mal. Porque só tem
manequim 38. Eu, por exemplo, uso 50 e tralalá.”
Mulher IMC obesidade II
“Na propaganda, eu ia ver e me sentir bem. Às vezes eu acho que está todo
mundo olhando para mim, mas eu vejo que tem gente mais gorda do que eu.”
Mulher IMC obesidade II
Para as mulheres com IMC obesidade III, o fato de a pesquisadora citar a
alternativa “imagens corporais nas propagandas” estimula nas participantes a
lembrança da exclusão do corpo gordo das novelas, revistas e programas de
televisão. Elas consideram que ver um corpo igual nos meios de comunicação
estimula o uso de uma roupa que a princípio ela não vestiria por medo de ficar
feia.
“Por exemplo, você está assistindo a novela e tem bastante gente usando aquele
modelo. Se é para a pessoa magra, a pessoa magra se entusiasma para querer aquele
modelo. Para a gente que é gordo, você não vê nada. Tanto que a gente nem vê direito
muito gordo na televisão, em coisa de manequim, de modelo, essas coisas assim. Se
74 tivesse, daria mais ânimo para você saber que tem para você poder comprar, usar. Daria
outras idéias de modelos diferentes.”
Mulher IMC obesidade III
“Às vezes eu não vejo que fica bem em mim, eu vejo em outras pessoas. Se eu
vejo uma gordinha vestindo uma coisa que eu queria comprar para mim, mas eu achei
que não ia ficar bem, aí eu vejo e acho que vai ficar bem quando eu vejo a outra pessoa.
Às vezes eu fico com vergonha: ‘Ah, eu sou gordinha. Isso não vai ficar bem’. Mas se eu
vejo outras pessoas, me motiva mais.”
Mulher IMC obesidade III
Em resumo, ambos os gêneros não se sentem fisicamente representados
nas propagandas de roupas. Contudo, entre os homens com IMC normal e
obesidade I, II e III há uma percepção comum a respeito de qual tipo físico é
veiculado nos meios de comunicação: corpo masculino com IMC sobrepeso. Ao
mesmo tempo, nenhum dos dez participantes com IMC sobrepeso queixaram-se
da falta de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa.
Este dado parece confirmar as informações obtidas na pesquisa bibliográfica.
Pope (2000) afirma que o corpo “sarado” – isto é, com boa quantidade de massa
muscular e equivalente ao IMC sobrepeso – vem se infiltrando nos meios de
comunicação através dos modelos masculinos que participam de anúncios de
cuecas a veículos utilitários. Os corpos masculinos expostos valorizam músculos
abdominais rígidos, tórax maciço e ombros inflados.
Não obstante o discurso dos homens tem uma carga afetiva menor que o
discurso das mulheres. Entre outros motivos, Pope (2000) afirma que esta
diferença se deve a um código de masculinidade insidioso: homens não têm
direito de se incomodar com preocupações relacionadas à sua aparência. Uma
vez que falar de sentimentos negativos relacionados a seus corpos e aparência
física pode ser visto como desmoralizante, os homens tendem a disfarçar ou
ocultar suas preocupações.
Entre as mulheres, há uma percepção comum a respeito de qual tipo físico
é veiculado nos meios de comunicação: o corpo magro. Contudo, mesmo as
mulheres com IMC normal, que são as participantes mais magras, não se
consideram representadas. Barlow e Durand (2011) afirmam que há uma
75 predominância de imagens de corpos femininos magros nos meios de
comunicação americanos, com base em publicações de 1979 a 1988, 69% das
páginas centrais da revista “Playboy” e 60% das candidatas a Miss América
pesavam 15%, ou mais, abaixo do normal para sua idade e altura. Dito de outro
modo, esses corpos femininos eram de mulheres com IMC abaixo do peso. Não
encontramos estudos e dados similares a respeito dos meios de comunicação
brasileiros. Assim, é possível que as mulheres com IMC abaixo do normal se
considerem fisicamente representadas nas propagandas de roupas, mas não
temos participantes com este IMC em nossa amostra a fim de confirmar ou refutar
esta hipótese.
Quanto às novelas e seriados, Barlow e Durand (2011) afirmam que é duas
a cinco vezes mais comum homens com sobrepeso interpretarem personagens
de televisão que as mulheres com sobrepeso. Os dados destes autores em
relação aos homens com sobrepeso na mídia é compatível com os resultados
encontrados. No entanto, em relação às mulheres, só podemos supor que talvez
predomine mulheres com IMC abaixo do peso nas propagandas de roupas. Uma
vez que o corpo magro característico do IMC normal não foi identificado como
comum nas propagandas pelas participantes com este mesmo IMC.
4.2.5 - Q2A5B: Opção – outros motivos não citados pela pesquisadora, mas
que o participante considera importante.
TABELA 14
Outros motivos * Sexo Crosstabulation
Outros
motivos
Sim
Não
9
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino Feminino
9
4
22,5%
10,0%
25
31
62,5%
77,5%
6
5
15,0%
12,5%
40
40
100,0%
100,0%
Total
13
16,3%
56
70,0%
11
13,8%
80
100,0%
76 TABELA 15
Outros motivos * Peso Crosstabulation
Normal
Outros motivos
Sim
Não
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
2
12,5%
14
87,5%
16
100,0%
Sobrepeso
5
27,8%
13
72,2%
18
100,0%
Peso
Obesidade I
3
17,6%
14
82,4%
17
100,0%
Obesidade II
3
33,3%
6
66,7%
9
100,0%
Obesidade III
9
100,0%
9
100,0%
Total
13
18,8%
56
81,2%
69
100,0%
Através da análise do discurso, observamos que as mulheres apontaram
dois fatores que podem ajudá-las a se sentirem melhor vestidas. O primeiro fator
é ter mais disposição para se vestir, tal como relatado por participantes da
categoria IMC sobrepeso.
O segundo fator é a necessidade de emagrecer citada por participantes da
categoria IMC obesidade II.
Emagrecer, para eu sentir que estou me vestindo melhor. Você vê aqui na rua.
Tem três ou quatro lojas de roupas de tamanhos maiores e cem lojas para tamanhos
menores. Aí eu tenho que me adequar aos tamanhos menores. Não eles a mim.
Mulher IMC obesidade II
Ser um pouco mais magra. O estilo, as roupas que eu gosto, eu mantenho.
Mulher IMC obesidade II
Os homens com IMC normal e sobrepeso apontavam três fatores como
importantes para que eles se sintam bem vestidos. O primeiro é a padronização
da vestimenta, onde o homem que não se ajusta é considerado mal vestido.
“A mecanização da moda, a vestimenta única. Se você não se encaixar, você não
está bem. É a falta de variedade mesmo.”
Homem IMC normal
“Você poder pôr a roupa que você quer sem ser julgado por isso. Cada um poder
ter seu próprio estilo sem ficar com essa palhaçada de ‘está fora, está inadequado’.
Ninguém está inadequado. Ninguém está pelado para estar inadequado. (...)”
Homem IMC sobrepeso
77 O segundo fator citado é o ambiente. Isto é, o ambiente que o participante
frequenta exige que ele esteja usando a vestimenta adequada, mas o tipo de
vestimenta exigida é incompatível com o clima.
“Roupa depende do local que você mora. Acho que em São Paulo, por exemplo,
dá para se vestir melhor por causa do hábito das pessoas e do frio. Já em Salvador,
Bahia, tem que usar menos roupa.”
Homem IMC sobrepeso
“Você vai entrar no trabalho com a regata, e os caras vão falar ‘você está fora,
você está despreocupado, é oba-oba’. Não é oba-oba, é país tropical. É a realidade.
Você não vive na Europa para usar roupa tampando tudo. Porque mulher usa blusinha,
saia, sandália no calor para trabalhar. Por que homem também não pode usar? (...) Ai
tem homens que se prendem a valores. (...) Porque eles também não estão contentes.
Mas eles têm medo de botar o que eles querem usar.”
Homem IMC sobrepeso
O terceiro fator citado pelos participantes com IMC normal e sobrepeso é
não encontrar roupas adequadas para seu tipo físico.
“Ter mais roupas para a minha altura. Eu tenho uma altura que dizem que é a
altura do brasileiro. Mas não fazem calça para homem com 1,70 metros de altura. Fazem
calça para quem é menor ou para quem tem 1,75 metros. Numa loja de departamento,
por exemplo, você não encontra a roupa adequada. Tem que mandar um alfaiate fazer a
partir das suas medidas. Mas raramente eu mando fazer roupas.”
Homem IMC sobrepeso
Os participantes da categoria IMC obesidade I apontam o “relaxo” – isto é,
a falta de empenho na tarefa de vestir-se – como um comportamento importante
no ato de vestir-se. Os participantes sentem a necessidade de mudar sua opinião
a respeito dos cuidados com a aparência, já que cuidar da aparência muda sua
autoestima.
78 “Falta eu me preocupar mais, mudar minha opinião, minha forma de ver as coisas.
Nem sempre se vestir bem é questão de grana ou de orientação profissional. Acho que
duas cores são suficientes, pois roupa para mim é para trabalhar, não preciso de
frescura, sou prático.”
Homem IMC obesidade I
“Falta empenho meu mesmo. Eu não ligo muito para minha aparência, para roupa,
não faço tanta questão. Se eu me esforçasse, mudaria minha autoestima.”
Homem IMC obesidade I
Os participantes da categoria IMC obesidade II apontaram que falta
emagrecer para que eles se sintam melhor vestidos.
“Emagrecer. O problema é eu mesmo.”
homem IMC obesidade II
Em resumo, uma mulher e um bom número de homens afirmam que lhes
falta empenho na tarefa de vestir-se. Este resultado está de acordo com a
bibliografia relatada. O critério atratividade física associado ao corpo feminino
parece estimular as mulheres a se preocuparem mais com a própria aparência.
Contudo ser masculino em nossa cultura implica não se dar ao direito de se
incomodar com preocupações sobre sua aparência como salienta Pope (2000).
Quando os participantes dizem que precisam mudar sua opinião a respeito
dos cuidados com a aparência, parecem se referir à necessidade de romper com
a associação entre preocupação com a aparência e feminilidade. Um estímulo
para esta mudança de comportamento é o aumento da autoestima que eles
experimentam ao escolher com atenção o que vão vestir.
Outras duas queixas se referem à padronização da vestimenta. Os
participantes afirmam que a roupa exigida é incompatível com o clima do nosso
país. Ao mesmo tempo, não usar a vestimenta exigida faz com que ele seja
considerado mal vestido. Essas duas queixas parecem estar ligadas aos
resultados apresentados no tópico 4.2.3., onde os homens manifestaram
incômodo por ter de usar “roupa social” – isto é, calça com corte de alfaitaria,
camisa e sapato.
79 Ao cruzarmos os dados das duas questões, podemos notar que os homens
estão divididos entre duas necessidades. Uma é a necessidade de usar a “roupa
social” que garante sua inserção na vida produtiva, mas é desconfortável para o
clima quente do nosso país. A outra é a necessidade de usar vestimentas mais
adequadas ao clima tropical que gozem do mesmo prestígio social que a “roupa
social”.
O quarto motivo citado por mulheres com IMC obesidade II é necessidade
de emagrecer. Já os homens com IMC obesidade II citam a falta de roupas
adequadas ao seu tamanho. Em ambos os casos, as dimensões corporais são
fatores importantes no sentimento de bem-estar em relação ao ato de vestir-se.
4.3 – Q3: “Você tem dificuldade para achar roupas de tamanhos
adequados para você?”
Na questão 3 perguntamos: “Você tem dificuldade para achar roupas de
tamanhos adequados para você?” Foram oferecidas três alternativas de
respostas: sim, não e agora não. Quando os participantes responderam “não”,
prosseguimos para a questão 4. Quando eles responderam “sim” ou “agora não”,
fizemos a seguinte pergunta: “Como você se sente diante desta situação?
A maioria dos participantes (55%) afirmou que tem dificuldade para achar
roupas de tamanhos adequados para seu corpo (TABELA 16). Entre os
participantes do gênero masculino, 45% têm dificuldade para achar, 42,5% não
têm e 12,5% já tiveram. Nenhuma das alternativas prevalece. Já entre as
participantes do gênero feminino, a maioria tem dificuldade (65%) como
demonstra a tabela 16.
80 TABELA 16
Tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados * Sexo Crosstabulation
Tem dificuldade para
achar roupas de
tamanhos adequados
Sim
Não
Agora não
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
18
26
45,0%
65,0%
17
8
42,5%
20,0%
5
6
12,5%
15,0%
40
40
100,0%
100,0%
Total
44
55,0%
25
31,3%
11
13,8%
80
100,0%
Ao analisar o nível de dificuldade para achar roupas de tamanhos
adequados por categoria de IMC, observamos que quanto maior é o IMC, maior é
a dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados (TABELA 17). Esta
dificuldade é maior quando observamos a categoria IMC obesidade I. Este
aumento pode sugerir que se um indivíduo com IMC sobrepeso ganhar mais peso
a ponto de alcançar o IMC obesidade I, ele sofrerá mais bruscamente o impacto
de não ter roupas de tamanhos adequados. No tópico 4.3.1 através da análise do
discurso, vamos relatar quais as dificuldades encontradas segundo cada
categoria de IMC.
TABELA 17
Tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados * Peso Crosstabulation
Normal
Tem dificuldade para
achar roupas de
tamanhos adequados
Sim
Não
Agora não
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
7
35,0%
12
60,0%
1
5,0%
20
100,0%
Sobrepeso
8
40,0%
10
50,0%
2
10,0%
20
100,0%
Peso
Obesidade I
16
80,0%
2
10,0%
2
10,0%
20
100,0%
Obesidade II
7
70,0%
1
10,0%
2
20,0%
10
100,0%
Obesidade III
6
60,0%
4
40,0%
10
100,0%
Total
44
55,0%
25
31,3%
11
13,8%
80
100,0%
Essa relação entre IMC e dificuldade para achar roupas parece evidenciar
a existência de um padrão métrico equivalente ao normal como predominante na
confecção das roupas. Não obstante, em todas as categorias há participantes que
já tiveram dificuldade para encontrar roupas de tamanho adequado, porém hoje
não têm mais. Assim é importante saber o que fez com que estes participantes
81 superassem tal dificuldade. No tópico 4.3.2, através da análise do discurso,
vamos identificar quais foram as dificuldades encontradas, bem como quais as
estratégias utilizadas por aqueles que conseguiram superá-las.
4.3.1 – Q3A: Opção – Sim, eu tenho dificuldade para achar roupas de
tamanhos adequados
Pela análise do discurso, observamos que os homens de todos os IMC
reivindicam roupas de tamanhos maiores, dada a sua preferência por roupas que
ficam folgadas no corpo. Estes mesmos participantes atribuem a dificuldade de
achar roupas adequadas à confecção de roupas masculinas a partir de uma
modelagem menor do que o tipo físico da população em geral.
“Chateado. Porque o padrão deles é fora do padrão comum. Não é o real.”
Homem IMC normal
“Irritado. Porque eu acredito que eles não estão oferecendo um produto adequado
para mim. Acredito que já há um padrão determinado nas lojas de roupas quando eles
vendem o produto.”
Homem IMC obesidade I
Homens com IMC acima do normal atribuem a dificuldade de achar roupas
adequadas também ao fato de terem um corpo gordo. Ao não encontrar a roupa
de tamanho adequado estes homens se sentem mal, irritados, frustrados e
incomodados.
“Eu fico frustrado, porque eu penso: ‘Eu estou gordo, eu preciso emagrecer’. Eu
tenho dificuldade com calça. Não é o tamanho exatamente, é mais o corte. Eu tenho
coxas grossas e dependendo da calça fica muito Zezé de Camargo, coladinha. Eu gosto
de roupa mais larga, que fique mais confortável.”
Homem IMC obesidade I
82 Ao comprar as roupas, o momento de provar as peças é constrangedor
para alguns participantes que tem dificuldade para achar roupas de tamanhos
adequados.
“Dá vontade de sair correndo da loja. Dou umas três ou quatro procuradas. Aí
desisto e vou embora.”
Homem IMC sobrepeso
“Agora que eu estou treinando, eu dei uma desinchada. Mas comprar calça era
um inferno. Eu tinha até vergonha de ir nos provadores das lojas. Porque nunca tinha
calça do meu tamanho. Me sentia um E.T.”
Homem IMC obesidade II
Não obstante, dois participantes relataram que superaram a dificuldade de
achar roupas de tamanhos adequados no Brasil comprando roupas nos EUA.
“Eu descobri que eu não sou gordo, eu sou americano. Eu fui para os Estados
Unidos ano passado. Aqui no Brasil, você vai em qualquer loja de roupa normal, não
especializada para gordo, você vai comprar roupa tamanho GG e não entra na sua perna.
Nos Estados Unidos eu comprei esta bermuda, deste tipo que eu gosto muito, e ela é
tamanho G. A modelagem americana é muito maior, os americanos são maiores.”
Homem IMC obesidade II
“(...) Eu gosto de roupa mais larga. No meu tamanho é difícil. (...) O mais difícil é
roupa legal do meu tamanho. Mas eu só acho lá fora, nos Estados Unidos tem. Sempre
compro lá, é mais fácil, no meio dos tamanhos normais. Eu vou lá a cada dois anos e
compro bem. (...) Tem roupa normal, tem roupa para peão e tem roupa de veado. Ou só
tem roupa social, e eu não aguento mais usar roupa social. Falta o esporte normal,
marcas normais de roupa.”
Homem IMC obesidade I
As mulheres com IMC normal afirmam que a falta de roupas de tamanhos
adequados se deve ao descompasso entre as proporções de seu corpo e os
modelos de roupas disponíveis.
83 “Eu acho roupa na sessão infantil. Calça é um tormento para eu achar. Minhas
pernas são muito finas e a calça fica muito folgada. Tem lugar que o tamanho 36 dá. Tem
lugar que o tamanho 36 fica grande para mim. Depende muito do modelo da calça e do
fabricante. Sendo com strech é mais fácil. As blusas são mais coladinhas, é fácil de
achar.”
Mulher IMC normal
“Eu tenho muito busto e pouco quadril. Então tem certos tipos de roupas que
servem em cima, mas não servem embaixo. Ou aperta em cima e fica larga embaixo.
Então eu tento me adaptar. Se não serve para mim, não serve, paciência. Eu tento me
adaptar. Se for um vestido que não ficou bom, eu vou comprar uma blusa ou uma saia,
por exemplo.”
Mulher IMC normal
As mulheres com IMC acima do normal atribuem a dificuldade de achar
roupas de tamanhos adequados à confecção de roupas femininas a partir de uma
modelagem menor do que o tipo físico da população em geral. Algumas
participantes afirmam que esta padronização é fruto de preconceito, outras
consideram esta padronização normal. Ao não encontrarem as roupas de
tamanhos adequados, se sentem mal, incomodadas, frustradas, indignadas,
chateadas e inferiores aos outros.
“Bem mal. A gente se sente até inferior aos outros. Porque o mercado exige mais
variedade de roupas para corpos do tipo modelo, não para as mais gordinhas assim. Eles
visam mais um modelo de corpo, um padrão. Não visam todos os tamanhos. Vários
estilos de roupa que às vezes eu gosto, não tem.”
Mulher IMC obesidade I
Algumas participantes com IMC acima do normal consideram o próprio
peso corporal como a causa da dificuldade para achar roupas adequadas.
Consequentemente elas consideram o emagrecimento como uma solução para
superar a dificuldade com as roupas.
84 “Me sinto muito mal. Porque quando você precisa de uma roupa, você não acha.
A única coisa que você tem que fazer é fechar a boca. Fechar a boca não tem jeito, é
difícil. Mas a gente se sente meio usada.”
Mulher obesidade I
“É meio triste. E isso me leva a querer fazer coisas para que eu consiga um corpo
melhor, como exercício e uma boa alimentação.”
Mulher IMC sobrepeso
Essa associação entre peso corporal, emagrecimento e dificuldade para
achar roupas adequadas pode causar sofrimento significativo, tal como podemos
observar nos relatos de duas participantes.
“Horrível. Eu quero achar uma roupa, eu acho uma linda e maravilhosa e compro.
Mas quando eu experimento, não serve mais. Antes eu achava que era normal. Hoje eu
já sinto que não é normal. Tanto que eu guardo a calça no meu armário, e falo que um
dia eu vou usar ela de novo. Tem várias coisas que eu já comprei e não usei porque eu
achei bonito. Aí eu fico achando que vou emagrecer para entrar nela de novo.”
Mulher IMC obesidade II
“Estou me sentindo mal. Todo dia me olho no espelho e me acho péssima. Ainda mais no
espelho da empresa que é corpo inteiro e perfil. Parece que eu estou bem, mas é porque
eu estou com a roupa adequada. Mas se eu estou com uma roupa que não fica legal, vai
mostrar tudo, entendeu? Mas se você me olha assim parece que eu estou bem. Mas não
estou. Estou me sentindo péssima. Você está entendendo? Psicologicamente, eu estou
péssima. Para quem vestia 38, agora está vestindo 44!”.
Mulher IMC obesidade I
As mulheres de 46 a 60 anos com IMC acima do normal têm dificuldade
para encontrar roupas de festa e calças com modelagem adequada ao seu corpo.
Relatam também que enfrentam dificuldades ao serem atendidas por vendedoras
mais jovens. Estas participantes em especial sentem-se mal, frustradas,
desrespeitadas e constrangidas.
“Tenho dificuldade para achar calça com corte adequado para mim. Eu não acho.
É tudo calça que o pessoal está usando, como a Gisele Bündchen. E como eu não faço
85 mais parte dessa juventude, eu não me visto. Você só tem calça tudo igual. Então eu
nem compro. Eu só uso as calças legging. Eu acho um despautério, uma falta de respeito
com a gente. Assim como tem mulheres da minha faixa etária que gostam das calças
atuais, que acham bacana, tem o meu caso que não gosta. Aí você fica totalmente fora.
Eu não sou jovem, eu não sou mocinha para usar este tipo de calça. Me sinto mal. Tanto
que eu nem compro. Deveriam pensar mais na gente”.
Mulher IMC sobrepeso
Em resumo, frente à dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados,
homens e mulheres com IMC acima do normal se defrontam com duas questões:
o mercado nacional de roupas de tamanhos grandes e a culpabilização do próprio
corpo.
Entre os participantes do sexo masculino, encontramos, como estratégia
frente à dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados, a aquisição de
roupas em lojas de departamento norte-americanas. Na sociedade norteamericana, o corpo gordo é um dos biótipos aceitos como comuns no comércio de
roupas vendidas em lojas não especializadas em tamanhos grandes. Kaiser
(1998) afirma que as roupas para indivíduos com IMC sobrepeso e obesidade
surgiram a partir da década de 1980 nos EUA. O mercado voltado para a
produção e comercialização de roupas de tamanhos grandes – conhecido como
“Plus Size” – se mostrou um dos setores mais rentáveis economicamente naquele
país.
No
Brasil,
o
mercado
de
tamanhos
grandes
encontra-se
em
desenvolvimento. Segundo Gisele (2010), o mercado brasileiro conta com
profissionais que tentam unir a imagem social positiva da Moda às roupas de
tamanhos grandes. Entretanto, há muitos outros profissionais que consideram as
modelos de tamanhos grandes feias e se recusam a favorecer o desenvolvimento
deste segmento de mercado. Talvez a não aceitação social do corpo gordo como
um biótipo comum brasileiro seja um dos fatores que dificultam a produção e a
comercialização de roupas de tamanhos grandes tão bonitas e atualizadas quanto
aquelas que os participantes disseram encontrar em suas compras no exterior.
Não obstante, a maioria dos homens e mulheres da população brasileira,
bem como a maioria dos participantes de nossa pesquisa, não tem recursos
86 financeiros e culturais suficientes para realizar uma viagem internacional a fim de
comprar roupas.
Assim, homens e mulheres acima do IMC normal vivenciam a
culpabilização do próprio corpo. Isto é, frente à dificuldade de achar a roupa de
tamanho adequado, eles pensam em modificar seu corpo a fim de adaptar-se ao
tamanho das roupas que desejam vestir. Contudo, homens e mulheres parecem
lidar de forma distinta com esta culpabilização.
Paralelamente à vontade de modificar seu corpo, os homens manifestaram
uma avaliação crítica em relação ao papel da cultura na modelagem das roupas.
Eles consideram que a dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados
não é causada somente por seu peso, mas também por um rigor da sociedade
com relação às formas corporais maiores.
Já as mulheres, em sua grande maioria, não demonstraram qualquer
reflexão a respeito do papel da cultura na formatação das roupas. Tal dado
parece corroborar com a bibliografia encontrada.
Barlow e Durant (2010) afirmam que o choque entre a cultura e a fisiologia
do corpo humano pode gerar efeitos emocionais negativos. Já que por um lado, a
cultura estabeleceu ao longo das últimas décadas padrões e formas corporais
cada vez mais magros e difíceis de serem atingidos. Por outro lado,
simultaneamente a melhora da nutrição da população vem aumentando o
tamanho e o peso da mulher que pode ser considerada média na população. Este
embate entre corpos maiores e padrões corporais menores pode produzir dois
efeitos secundários. O primeiro é o aumento do uso de dietas restritivas e
exercícios físicos que visam atingir um tipo físico que, de fato, pode ser uma meta
impossível. O segundo é uma insatisfação com a própria aparência tão severa
que pode levar à fobia ou fixação por espelhos, por exemplo, tal como relatado
por uma participante.
Barlow e Durant (2010) prosseguem dizendo que a falta de senso crítico a
respeito desse embate entre a cultura e a fisiologia pode estimular o
desenvolvimento de traços psicopatológicos.
Em
nossa
pesquisa,
duas
participantes não consideram normal o sofrimento que experimentam tanto ao se
olhar no espelho, quanto ao guardar roupas na esperança de um dia emagrecer e
poder vesti-las. Parece que a roupa, nestes casos, torna-se um território de
embate entre a cultura e as formas corporais por dois motivos. Primeiramente, o
87 tamanho da roupa evidencia a mudança das formas corporais decorrente do
ganho de peso, tal como podemos ver na fala da participante que se incomoda
com espelhos: “Para quem vestia 38, agora está vestindo 44!”.
O segundo motivo é que o tamanho das roupas marca numericamente o
quão distante as formas corporais da participante estão do padrão corporal que a
cultura estabelece. Esta marcação do corpo pelos trajes é vivida não somente
pelas mulheres com IMC obesidade, mas também por mulheres com IMC normal,
como vemos no relato desta participante: “Eu acho roupa na sessão infantil. Calça
é um tormento para eu achar. Minhas pernas são muito finas e a calça fica muito
folgada. Tem lugar que o tamanho 36 dá, tem lugar que o tamanho 36 fica grande
para mim.”
Se um sofrimento significativo com a relação à própria aparência pode
gerar uma fixação ou fobia de espelhos, parece possível também que um
sofrimento significativo em relação à aquisição e/ou uso de roupas provoque uma
fixação por roupas – por exemplo, guardar roupas na esperança de emagrecer e
posteriormente poder vesti-las.
Tal sofrimento pode provocar também a fobia de situações ligadas à
aquisição de roupas. Entenda-se “fobia específica” como medo irracional ou
excessivo de uma situação específica que interfere na capacidade de viver de um
indivíduo (BARLOW e DURAND, 2011, p.158). Frente à situação fóbica, o
indivíduo pode reagir de dois modos. O primeiro é evitar a situação, o que é vivido
com alívio. O segundo modo é enfrentar a situação com intensa angústia e stress.
Pope (2000) lembra que os homens também podem sofrer calados por
conta desses mesmos sintomas. Contudo em nossos resultados as mulheres
relataram mais sofrimento.
A variável “idade” apareceu como significativa entre as mulheres acima do
IMC normal. Elas apontam dois modelos específicos de roupas como mais difíceis
de serem encontrados num tamanho adequado ao seu corpo: calça e roupa para
ocasião festiva. Elas também apontam a dificuldade das vendedoras mais jovens
em compreender suas necessidades ao comprar uma roupa.
88 4.3.2 – Q3B: Opção – “Agora não. Eu já tive, mas hoje não tenho mais
dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados.”
Um homem com IMC normal relata que passou por um período de privação
de alimentos e emagreceu a ponto de ter dificuldade para achar roupas de
tamanhos adequados. A superação desta fase permitiu que ele engordasse e hoje
ele encontra roupas mais facilmente.
“Me sentia mal. É igual você falar: ‘Puxa, eu quero aquele’. É igual você querer
comer alguma coisa. Aí você vai lá e te falam: ‘Puxa, não tem mais’. Você se sente mal.
Eu pensei ‘eu preciso mudar isso rápido’. Mudei alguns hábitos e aí consegui ganhar
mais peso. Agora não, mas eu já passei uma ocasião muito triste alguns anos atrás. Eu
pesei 50kg e foi difícil achar calça tamanho 38. Hoje eu acho calça tamanho 40 mais fácil.
Mas é horrível você procurar alguma coisa e você não poder ter porque não tem o seu
padrão.”
Homem IMC normal
Pela análise do discurso, observamos que os homens com IMC obesidade
III superaram a dificuldade de achar roupas de tamanho adequado de três modos:
a descoberta de lojas que vendem os modelos que lhes agradam; o aumento
crescente do número de lojas especializadas em tamanhos grandes e a
submissão à cirurgia bariátrica.
“Agora não, porque eu sei onde procurar. Sempre tem as lojas que eu sei onde eu
encontro as roupas do meu tamanho, que eu gosto. Eu sou de Mauá, e lá até que eu
acho.”
Homem IMC obesidade III
“Agora eu não tenho dificuldade para achar roupa do meu tamanho. Eu tinha há
uns 10 anos atrás quando não tinha loja de gordinho.”
Homem IMC obesidade III
“Eu fiz a cirurgia bariátrica há 8 meses. Pesava 200kg. Eu não tinha tanta
dificuldade com articulação, joelho, por exemplo. Mas roupa era bem mais difícil. Eu já
perdi alguns quilinhos e agora está mais fácil. Eu gosto desta loja por causa da variedade
89 de roupas. Mas ainda sim hoje tem mais lojas especializadas para os mais pesados.”
Homem IMC obesidade III
Uma mulher com IMC normal relata que o ganho de peso próprio do início
da vida adulta ajudou a achar roupas mais facilmente. No entanto, ao longo do
seu discurso parece que a dificuldade não foi totalmente superada.
“As vezes eu sinto dificuldade de encontrar roupa porque quando era mais
magrinha, eu tinha dificuldade para comprar roupa. Não usava o 36, eu usava o 16.
Então não tinha, aí eu ficava sem. Agora que eu dei uma engordadinha, estou entre o 38
e o 36. Esta calça mesmo (aponta a própria calça) está caindo. Mas se eu pegar uma
menor não entra. Eu uso 38 e mando na costureira para apertar. Então não é o seu corpo
ali. Então tem que ir se adequando mesmo.”
Mulher IMC normal
Duas participantes com IMC sobrepeso ganharam peso devido às suas
condições de saúde bem específicas – câncer e aborto espontâneo. Após a
melhora do quadro de saúde, elas tiveram uma perda de peso significativa.
“Terrível. Eu já tive dificuldade para achar roupa, mas emagreci 25kg. Engordei
25kg devido a um câncer de mama. Você se sente um elefante, porque eu nunca fui
gorda. Era magrela. Mas nessa época foi difícil. Eu ainda estou com uns 4kg a mais. Mas
nessa época eu não me sentia bem com nada.”
Mulher IMC sobrepeso
As mulheres com IMC obesidades I, II e III superaram a dificuldade de
achar roupas de tamanhos grandes de dois modos: a descoberta de lojas que
vendem os modelos que lhes agrada e o aumento crescente do número de lojas
especializadas em tamanhos maiores.
“Agora não, porque tem bastante loja com roupas do meu tamanho. Antes eu não
encontrava.”
Mulher IMC obesidade I
90 “Agora não, porque eu vou em lojas especializadas. Depende também porque se
eu quiser comprar uma roupa da ‘Fórum’ não dá. Mas se eu for numa loja de roupa
indiana, eu acho. Eu sei as lojas que eu acho o tipo de roupa que eu uso. Me sinto
conformada, porque eu já me estressei muito. Mas hoje não mais. Não me sinto mal por
não achar uma roupa numa loja.”
Mulher IMC obesidade II
“Já tive mais. Antes, tinha o tamanho GG mas era um GG pequeno. Agora parece
que o pessoal está mais gordo, tem o Extra G. Aí eles aumentaram o tamanho também.
Mas antes era ruim. Antes você tinha que andar muito para achar.”
Mulher IMC obesidade III
Em resumo, homens e mulheres com IMC normal solucionaram a
dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados ao ganhar peso. Homens
e mulheres com IMC obesidade I, II e III solucionaram a dificuldade de três
modos: a localização de lojas especializadas em tamanhos grandes, a perda de
peso e a maior oferta atual de lojas de roupas de tamanhos grandes.
A localização das lojas e a perda de peso ocorreram a partir da iniciativa
dos participantes. Ao ler as respostas dadas pelos participantes que utilizaram
estas estratégias, notamos em seu discurso que a superação da dificuldade para
achar roupas vem acompanhada de um olhar mais compreensivo a respeito do
próprio corpo e da própria aparência física.
O aumento da quantidade de lojas especializadas em tamanhos grandes
nos últimos anos foi determinante na superação da dificuldade para achar roupas
de tamanhos adequados aos participantes com IMC obesidade. Este parece ser
um sinal de que a relação entre IMC e dificuldade de achar roupas de tamanhos
adequados se deve à modelagem de algum modo restrita e/ou limitada das
roupas ofertadas nas lojas não especializadas em tamanhos grandes.
Este pode ser um sinal de que as roupas disponíveis nas lojas de
departamento, por exemplo, atendem mais facilmente os indivíduos com IMC
normal e sobrepeso e as lojas especializadas em tamanhos grandes atendem
mais facilmente as pessoas com IMC obesidade I, II e III
91 4.4 – Q4: “Você está satisfeito com seu peso corporal?”
Na questão 4 perguntamos: “Você está satisfeito com seu peso corporal?”
Logo em seguida, oferecemos duas alternativas de resposta ao participante: sim e
não. Posteriormente à escolha da alternativa, solicitamos ao participante uma
justificativa para sua escolha.
A maioria dos participantes (65%) afirma que não está satisfeita com seu
peso corporal atual (TABELA 18). Se avaliarmos por gênero, a maioria dos
homens (60%) e mulheres (70%) não está satisfeita com seu peso corporal
(TABELA 18).
TABELA 18
Está satisfeito(a) com seu peso corporal * Sexo Crosstabulation
Está satisfeito(a) com
seu peso corporal
Sim
Não
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
16
12
40,0%
30,0%
24
28
60,0%
70,0%
40
40
100,0%
100,0%
Total
28
35,0%
52
65,0%
80
100,0%
Se avaliarmos por IMC, a maioria dos participantes com IMC normal se
declara satisfeitos com seu peso corporal. Nas categorias IMC sobrepeso e
obesidade I, II e III a maioria dos participantes se declara insatisfeitos com o peso
corporal (TABELA 19). Os participantes com IMC obesidade I apresentaram o
percentual mais alto de insatisfação com peso corporal (85%). Portanto o
percentual de insatisfação com o peso corporal tem uma relação linear com o
aumento do IMC. Quanto maior o IMC, maior a insatisfação com o peso corporal.
92 TABELA 19
Está satisfeito(a) com seu peso corporal * Peso Crosstabulation
Está satisfeito(a) com
seu peso corporal
Sim
Não
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Normal
13
65,0%
7
35,0%
20
100,0%
Sobrepeso
8
40,0%
12
60,0%
20
100,0%
Peso
Obesidade I
3
15,0%
17
85,0%
20
100,0%
Obesidade II
2
20,0%
8
80,0%
10
100,0%
Obesidade III
2
20,0%
8
80,0%
10
100,0%
Total
28
35,0%
52
65,0%
80
100,0%
4.4.1 – Análise da satisfação e da insatisfação com o peso corporal
Pela análise do discurso, observamos que os homens com IMC normal que
se declaram insatisfeitos com o peso corporal se dividem entre os que querem
perder e os que querem ganhar peso. O participante que quer perder peso se
considera acima do peso.
“Não. Eu quero emagrecer uns 5kg. É muita cerveja.”
Homem IMC normal
Os participantes que querem ganhar peso justificam que gostam do corpo
masculino mais forte, com mais músculos, e desejam ganhar mais massa
muscular.
“Não, eu queria ter mais músculos, mais massa muscular. Você pode manter seu
peso, mas ficar mais fortinho. Meu peso está ideal. Mas se eu precisar ganhar massa, eu
vou ter que ganhar mais peso.”
Homem IMC normal
“Não, porque não estou no meu peso ideal. Tenho 78kg agora, mas preferia estar
com 90 kg.”
Homem IMC normal
Os homens com IMC normal que se declaram satisfeitos com o peso
corporal se consideram fisicamente adequados para sua idade e altura, bem
como se sentem à vontade com seus corpos.
93 “Sim. Estou na forma física adequada para minha altura. Me sinto à vontade com
meu peso. Se eu engordar, fico incomodado fisicamente. E emagrecer não dá porque
estou muito magro.”
Homem IMC normal
Os homens com IMC sobrepeso que se declaram insatisfeitos com o peso
corporal querem perder peso a fim de aumentar a satisfação com as proporções
do próprio corpo, bem como para atingir o IMC normal.
“Não. Porque eu preciso emagrecer dois quilos. Eu sou muito ligado em ter o peso
ideal para a altura. Tenho uma ideia do que é legal para mim e o que não é.”
Homem IMC sobrepeso
“Não, poderia estar um pouco mais magro. Por causa da autoestima mesmo.”
Homem IMC sobrepeso
Os homens com IMC sobrepeso que se declaram satisfeitos com o peso
corporal não justificaram sua escolha. Somente um participante fez um
comentário.
“Sim. Estou quase chegando no meu peso ideal.”
Homem IMC sobrepeso
Os homens com IMC obesidade I insatisfeitos com seu peso querem
perder peso por quatro motivos. O primeiro é atingir o “peso ideal”.
“Não, comecei a malhar tem três semanas. Quero chegar no meu peso ideal que
é 87kg.”
Homem IMC obesidade I
O segundo motivo pelo qual esses participantes querem perder peso é a
necessidade de restaurar a aptidão física.
94 “Não, pois tenho problemas físicos, já. Subo uma escada e já fico ofegante. É
péssimo isso.”
Homem IMC obesidade I
O terceiro motivo é evitar problemas de saúde.
“Não. Um pouco esteticamente, e um pouco por questões de saúde. Importante
não ter peso por ter histórico de saúde familiar.”
Homem IMC obesidade I
O quarto motivo é melhorar a aparência física.
“Não. O peso não é um problema em si. É mais uma questão de estética. Acho
que eu tinha que perder uns quilinhos, perder barriga.”
Homem IMC obesidade I.”
Homens com IMC obesidade I que se declaram satisfeitos com o peso
fazem ressalvas a respeito do alcance desta satisfação.
“Sim, eu só queria perder barriga.”
Homem obesidade I
“Sim, porque eu tenho preguiça de emagrecer. Eu me sinto bem assim.”
Homem IMC obesidade I
Os homens com IMC obesidade II e III que se declaram insatisfeitos com o
peso querem perder peso por quatro motivos. O primeiro é estar acima do IMC
normal.
“Não. Porque meu peso está muito acima do ideal.”
Homem IMC obesidade II
“Não. Porque eu estou muito acima do meu peso. Eu até estou cuidando disso.”
Homem IMC obesidade III
O segundo motivo é resolver problemas de saúde.
95 “Não. Por uma questão de saúde, eu preciso perder. Às vezes você está com
pressão alta, maior cansaço, dificuldade para fazer exercício.”
Homem IMC obesidade III
O terceiro motivo é restaurar a aptidão física, e o quarto é melhorar a
aparência física.
“Não. Porque o peso não me faz bem. Eu me sinto mais cansado. Tem a questão
das roupas, da beleza.”
Homem IMC obesidade III
Homens com IMC obesidade II e III que se declaram satisfeitos com o peso
corporal declaram estar à vontade com seu corpo.
“Sim, sou feliz assim.”
Homem IMC obesidade II
“Sim, sem problema nenhum.”
Homem IMC obesidade II
Porém um participante que se declara satisfeito com seu peso cita a
insatisfação de outro com seu peso.
“Sim. Não me incomoda ser gordo. Quem briga mais comigo por causa do peso é
minha mulher. Não é o peso ideal. Tem pouco tempo que eu sou gordo assim. É por
causa do hipotireoidismo. Mas nada que abala a minha autoestima.”
Homem IMC obesidade II
As mulheres com IMC normal que se declaram insatisfeitas com o peso
querem perder peso e apresentam uma satisfação flutuante com as formas
corporais.
“Não. Quando era mais magrinha, era até mais fácil encontrar o tamanho 16. Era
mais fácil vestir roupa, não apareciam as gordurinhas e tudo o mais. Aí vai passando o
tempo e na escola tem a cantina, o pão de queijo. Aí você vem para a Teodoro e tem
96 essas lanchonetes atrativas, aí você vai comendo, comendo, engordando, e você não
para de comer. Eu não estou tão gorda ainda. Dá para ir maneirando. Mas uma hora vai
ter que chegar lá, e na hora que chegar lá eu não vou conseguir parar. Eu vou
maneirando, mas satisfeita eu não estou não. Queria ficar com uns três quilos a menos.”
Mulher IMC normal
Uma participante com IMC normal insatisfeita com seu peso se considera
acima do IMC normal.
“Não. Porque eu estou acima do peso.”
Mulher IMC normal
As mulheres com IMC normal que se declaram satisfeitas com seu peso
corporal também apresentam uma satisfação flutuante com as formas corporais.
“Sim. Mas eu perderia uns dois quilos. Mas não é uma coisa que me incomoda
profundamente. Se eu não engordar, se eu mantiver, está bom. Se eu perder uns
quilinhos também está bom. Eu faço academia, mas não é necessariamente para perder
peso. Você quer ganhar perna, ganhar massa. Mas hoje eu não tenho neura. Estou mais
satisfeita hoje do que no passado. Já fui muito insatisfeita com meu peso mesmo. Queria
perder peso. Só que quando eu estava magra também nunca estava bom. Ganhei peso
também, mas nunca estava bom. Então eu cheguei à conclusão que agora está bom.
Tem que estar agora.”
Mulher IMC normal
“Sim, mas tem coisas que eu melhoraria. Por exemplo, a barriga que às vezes me
incomoda. Mas o peso em si está bom. Mas eu melhoraria a distribuição do meu corpo.”
Mulher IMC normal
As mulheres com IMC sobrepeso que se declaram insatisfeitas querem
perder peso por três motivos. O primeiro é melhorar a saúde.
“Não. Não por estética, mas por saúde poderia estar melhor.”
Mulher IMC sobrepeso
O segundo é chegar ao peso que estabeleceram como meta.
97 “Não. Porque eu não estou na minha meta. A minha meta é 60kg.”
Mulher IMC sobrepeso
O terceiro é atingir o IMC normal.
“Não. Porque eu estou fora do peso para a minha altura.”
Mulher IMC sobrepeso
As mulheres com IMC sobrepeso que se declaram satisfeitas com o peso
dizem que estão insatisfeitas com a “barriga”.
“Sim, mas a única coisa que me incomoda é o estômago, a barriga alta.
Mulher IMC sobrepeso
“Sim. Só não estou satisfeita com a minha barriga.”
Mulher IMC sobrepeso
As mulheres com IMC obesidade I que se declaram insatisfeitas querem
perder peso por quatro motivos. O primeiro é estar com IMC acima do normal.
“Não, porque eu tenho que emagrecer. Estou muito acima do meu peso.”
Mulher IMC obesidade I
O segundo motivo é restaurar a aptidão física.
“Não. Porque me sufoca, tonteira demais, dor no corpo todo. Porque meus ossos
são pequenos, aí para agüentar tudo isso de peso...”
Mulher IMC obesidade I
O terceiro motivo é evitar problemas de saúde.
“Não. Porque a gente leve consegue se cansar menos. Tem menos possibilidade
de ficar doente. Quanto mais acima do peso, mais dificuldade você tem para desenvolver
certos trabalhos. Não quero perder peso por estética. É mais porque se não cuidar hoje,
as doenças vão vir.”
Mulher IMC obesidade I
98 O quarto motivo é melhorar a aparência.
“(...) Porque quando eu vou na loja eu fico praticamente o dia inteiro para escolher
roupa só para mim. Eu tenho que olhar se tem roupa de tamanho grande, mas não são
todas que ficam legais em você. No trabalho todo mundo fala:’Nossa, sua roupa está
ótima’. Mas isso é porque eu escolhi muito para ficar legal no meu corpo e adequar. Tem
que ficar adequado, não mostrar a barriga. Não é porque eu tenho 31 anos que eu tenho
que andar que nem uma velha.”
Mulher IMC obesidade I
Além dos quatro motivos, elas apontam também a postura e a insatisfação
de outras pessoas com seu peso corporal.
“Não. Por causa da roupa, que a gente não encontra o que a gente quer. Porque
as outras pessoas ficam fazendo piadinhas. Por saúde também. Porque as pessoas mais
gordinhas têm tendência a ter problemas de diabetes, de sangue, no coração.”
Mulher IMC obesidade I
“Não. Vai muito do dia. Acho que os outros são mais insatisfeitos do que eu.
Como a minha mãe, na minha casa, eles são mais insatisfeitos do que eu. Eu já não me
preocupo tanto, porque já não coloco como prioridade na minha vida. Mas as outras
pessoas, que estão de fora, que são da família, se sentem muito mais incomodadas do
que você. Eles falam ‘ah, porque você está assim gorda! Como você se conforma em
ficar deste jeito? Que horror!’ Mas já me preocupei bem mais, já sofri bem mais. Mas
você vai criando umas barreiras para que essas influências não te atinjam tanto. Se não
você não vive. Só vive em função da roupa que você quer vestir. Só vive em função das
pessoas que você quer agradar. No meio que você quer entrar. Você vai ficando exposta
com um monte de críticas. Todo mundo quer criticar, rebater. Mas ninguém tenta fazer
você enxergar o que é bom, o que é bonito em você, e o que você pode aproveitar e
melhorar na sua imagem. Mas ninguém tenta realçar para que você tenha um estilo. Mas
ao criticar, ela acaba diminuindo a pessoa. Ao se sentir diminuída, a pessoa não tem
autoestima, não consegue superar.”
Mulher IMC obesidade I
99 As mulheres com IMC obesidade I que se declaram satisfeitas com o peso
não apresentaram justificativas.
As mulheres com IMC obesidade II que se declaram insatisfeitas querem
perder peso por três motivos. O primeiro é estar acima do IMC normal.
“Não, porque estou bem acima do peso.”
Mulher IMC obesidade II
O segundo motivo é restaurar a aptidão física.
“Não, porque dói as pernas, me sinto cansada. Agora subi a Teodoro e senti muito
peso.”
Mulher IMC obesidade II
“Não. Eu me sinto melhor mais magra. Eu já fui mais magra e acabei engordando.
Fiquei muito tempo sem fazer atividade física. Acredito que só na atividade física eu
consiga melhorar meu peso.”
Mulher IMC obesidade II
O terceiro motivo é resolver problemas de saúde.
“Não, mas não é por causa de aparência, é por causa da saúde. Agora minha
pressão voltou ao normal, minha saúde está melhorando. Porque agora estou perdendo
peso.”
Mulher IMC obesidade II
As mulheres com IMC obesidade II que se declaram satisfeitas com o peso
não apresentaram justificativas.
As mulheres com IMC obesidade III que se declaram insatisfeitas querem
perder peso por quatro motivos. O primeiro é restaurar a aptidão física.
“Não. Primeiro porque é ruim para a sua saúde. Te dá mais cansaço. Você gorda
faz as coisas que o magro faz, só que demora mais. Além de não ter muita disposição
para andar. Tem pressão alta, varizes, peso no joelho.“
100 Mulher IMC obesidade III
“Não. Por exemplo, estamos andando e eu já estou cansada.”
Mulher IMC obesidade III
O segundo motivo é resolver problemas de saúde.
“Não. Porque eu estou acima do peso. Aí já entra a questão de saúde, um monte
de coisa.”
Mulher IMC obesidade III
O terceiro motivo é sentir-se fisicamente desconfortável com o excesso de
gordura.
“Não. Porque eu me sinto muito gorda.”
Mulher IMC obesidade III
O quarto motivo é melhorar a aparência.
“Não. Eu fiz a cirurgia de redução do estômago há cinco anos. Emagreci 65kg. Aí
agora eu vou fazer as plásticas. Preciso emagrecer mais 10kg para poder fazer a cirurgia
plástica.”
Mulher IMC obesidade III
As mulheres com IMC obesidade III que se declaram satisfeitas com o
peso não apresentaram justificativas.
Em resumo, homens com IMC normal que se declaram insatisfeitos com
seu peso corporal e querem ganhar peso justificam sua escolha devido à
preferência por corpos masculinos de dimensões maiores e mais musculosos. Tal
dado é coerente com a bibliografia encontrada. Pope (2000) conta que em suas
pesquisas, ao perguntar aos homens que tipo físico gostariam de possuir, a
maioria diz que gostaria de ser bem construído e musculoso. Não querem ser
magros nem ser gordos.
101 Os homens com IMC sobrepeso que estão insatisfeitos com seu peso
corporal querem perder peso a fim de aumentar a satisfação com as proporções
do próprio corpo. Novamente, os dados obtidos apoiam a bibliografia. Pope
(2000) afirma que, quando questionados, mais da metade dos homens se
declaram insatisfeitos com partes dos seus corpos. As partes que provocam mais
incômodos são o abdome, o tônus muscular e o tórax. No entanto o autor não
especifica em qual categoria de IMC este desconforto é predominante. Em nossa
pesquisa esta insatisfação com partes do corpo surgiu entre os homens com IMC
sobrepeso.
As mulheres com IMC normal insatisfeitas com seu peso corporal e que
desejam perder peso apresentam uma satisfação flutuante com o peso e/ou
desejo de mudar as proporções do seu corpo. Chama a atenção que estas
mesmas flutuações de satisfação e a vontade de mudar as proporções corporais
aparecem também entre as mulheres com IMC normal que se declaram
satisfeitas com seu peso.
Esses dados parecem ser compatíveis com a bibliografia encontrada.
Kaiser (1998) afirma que as mulheres magras em geral tendem a se perceber
como mais pesadas do que elas realmente são. Em nossa pesquisa, as
participantes às vezes se descrevem como mais pesadas do que realmente são.
Contudo, Baturka et al. (2000) afirmam que a satisfação com o peso corporal
pode flutuar segundo a roupa que uma pessoa veste. Em nossa pesquisa, as
participantes apontam que as roupas marcam certas partes dos seus corpos de
modo negativo, o que gera certa insatisfação com aquela parte do corpo que foi
destacada.
Os participantes com IMC obesidade I insatisfeitos com seu peso corporal
e que desejam perder peso reúnem nas suas justificativas todas as preocupações
próprias dos participantes com IMC normal, sobrepeso e obesidade II e III.
Esses participantes com IMC obesidade I insatisfeitos se avaliam
fisicamente a partir do IMC normal e querem perder peso para melhorar sua
aparência, tal como os participantes mais leves do que eles. Ao mesmo tempo,
eles se preocupam em perder peso a fim de evitar as doenças provocadas pelo
excesso de gordura, tal como os participantes mais pesados do que eles.
Os participantes com IMC obesidade I de ambos os gêneros sofrem com a
insatisfação dos outros com seu peso corporal. Baturka et al. (2000) afirmam que
102 a percepção dos outros afeta a própria satisfação com o peso corporal. Assim, a
percepção dos outros parece afetar a satisfação dos participantes com IMC
obesidade I com seu próprio peso corporal.
Em todas as categorias de IMC, diante da pergunta “você está satisfeito
com seu peso corporal?”, muitas vezes obtivemos a seguinte resposta: “Não,
porque eu estou acima do peso ideal para minha altura” ou “Sim, porque eu estou
no peso ideal”. Parece que os participantes usam a fórmula do IMC como um
critério para avaliar o nível de satisfação com o próprio peso corporal. Diante da
frequência significativa dessa resposta investigamos a possibilidade de haver um
bom número de profissionais das áreas de saúde e ciências biológicas na
amostra que pudessem ter emitido tais respostas. Encontramos somente um
professor de educação física dentre a amostra de 80 pessoas. Não há médicos,
enfermeiros, nutricionistas, bem como qualquer outro profissional que conheça a
fórmula do IMC devido à sua formação acadêmica entre os participantes.
Tal dado corrobora com a bibliografia encontrada. Luz e Sudo (2007)
afirmam que o conhecimento biomédico é um importante referencial na cultura
ocidental. Portanto, as definições a respeito do que é normal ou patológico
segundo o paradigma biomédico podem ser utilizadas para propagar um tipo
físico socialmente desejável. Isto é, o uso do critério de normalidade e patologia
definido pelo IMC pode transmitir aos indivíduos qual é o tipo físico socialmente
determinado como normal, bem como a crença de que esta forma física pode ser
atingida através de exercícios físicos e dietas adequadas. Alvarenga et al. (2011)
afirmam que tal uso do discurso médico dissemina a falsa noção de que o corpo é
infinitamente maleável, bem como nega as particularidades do corpo de cada um
e as limitações impostas pela biologia e pela genética.
As autoras estudaram o conteúdo a respeito da obesidade veiculado em 12
edições das revistas semanais brasileiras “Veja” e “Isto É” publicadas entre 1997
e 2002. Elas constataram o uso do discurso biomédico neste meio de
comunicação como um dos modos de propagação de um tipo físico socialmente
desejável. Portanto, é possível que o uso da fórmula do IMC pelos participantes
para se autoavaliarem fisicamente se deva ao conhecimento deste cálculo
antropométrico através dos meios de comunicação.
Certamente, muitos participantes conhecem a fórmula do IMC devido às
consultas que realizaram como profissionais de saúde. Alvarenga et al. (2011)
103 apontam que embora estes profissionais condenem a magreza excessiva, eles
podem propagar, sem perceber, as concepções culturais referentes à aparência
física na sua prática clínica. As autoras afirmam que os familiares e os parceiros
conjugais também podem ser propagadores deste discurso biomédico que visa a
mudança corporal.
As autoras afirmam que a aceitação dos valores a respeito do tipo físico
desejável não dependem só da atuação de agentes externos – como mídia,
família, profissionais de saúde – mas também da internalização dos padrões
socioculturais de beleza pelos indivíduos. Entenda-se internalização como o uso
de um artefato para monitorar e comparar continuamente o seu corpo real ao
corpo socialmente desejado. Um destes artefatos é o IMC, posto que ele permite
a monitoração do peso corporal, bem como a comparação quantitativa entre o
corpo do indivíduo e o tipo físico desejável segundo os padrões biomédicos. O
uso de parâmetros como o IMC pode construir uma insatisfação com o peso
corporal nos indivíduos que estejam ou não dentro do IMC normal. Em nossa
pesquisa, quanto maior o IMC maior a insatisfação com o peso corporal, o que
indica que o IMC é um critério de autoavaliação corporal comum entre os
participantes da pesquisa.
Alvarenga et al. (2011) afirmam também que a compreensão crítica do IMC
– isto é, a compreensão dos critérios biométricos e socioculturais que sustentam
este índice – pode diminuir ou desconstruir a insatisfação dos indivíduos com seu
peso corporal.
4.5 – Q5: “Você já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da
necessidade de se vestir?”
Na questão 5, perguntamos aos participantes: “Você já sentiu vontade de
ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir?”. A seguir
oferecemos duas alternativas de resposta: sim e não. Quando o participante
respondeu “não”, a entrevista foi encerrada. Quando o participante respondeu
“sim”, perguntamos “Você teve vontade de ganhar ou perder peso?”.
Posteriormente à escolha da alternativa, solicitamos ao participante uma
104 justificativa para sua escolha. Após a justificativa, fizemos mais duas perguntas:
“Diante da situação relatada (na justificativa), como você se sente?” e “O que
você fez para solucionar esse conflito (emocional relatado na justificativa)?”.
A maioria (57,5%) dos participantes já teve vontade de ganhar ou perder
peso por conta da necessidade de se vestir (TABELA 20). Grande parte deles
teve vontade de perder peso (86,7%) e a menor parte teve vontade de ganhar
(13,3%) como mostra a tabela 21.
TABELA 20
Já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir *
Sexo Crosstabulation
Já sentiu vontade de
ganhar ou perder peso
por conta da necessidade
de se vestir
Sim
Não
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
16
30
40,0%
75,0%
24
10
60,0%
25,0%
40
40
100,0%
100,0%
Total
46
57,5%
34
42,5%
80
100,0%
TABELA 21
Sentiu necessidade * Sexo Crosstabulation
Sentiu
necessidade
Ganhar
Perder
9
Total
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Count
% within Sexo
Sexo
Masculino
Feminino
4
2
10,0%
5,0%
12
27
30,0%
67,5%
24
11
60,0%
27,5%
40
40
100,0%
100,0%
Total
6
7,5%
39
48,8%
35
43,8%
80
100,0%
Ao observar a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade
de se vestir de cada gênero, notamos que a maioria dos homens (60%) nunca
sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir
(TABELAS 20 e 21). Contudo dentre os homens que declararam já terem sentido
vontade, a maioria (75%) já sentiu vontade de perder e o restante (25%) sentiu
105 vontade de ganhar peso. A maioria das mulheres (75%) já sentiu vontade de
ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir, sendo que a
grande maioria (93%) sentiu vontade de perder.
Ao observar a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade
de se vestir segundo o IMC, não encontramos relação entre o IMC dos
participantes e a vontade de ganhar ou perder peso (TABELAS 22 e 23).
TABELA 22
Já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir * Peso Crosstabulation
Já sentiu vontade de
ganhar ou perder peso
por conta da necessidade
de se vestir
Sim
Não
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Normal
10
50,0%
10
50,0%
20
100,0%
Sobrepeso
7
35,0%
13
65,0%
20
100,0%
Peso
Obesidade I
13
65,0%
7
35,0%
20
100,0%
Obesidade II
9
90,0%
1
10,0%
10
100,0%
Obesidade III
7
70,0%
3
30,0%
10
100,0%
Total
46
57,5%
34
42,5%
80
100,0%
TABELA 23
Sentiu necessidade * Peso Crosstabulation
Normal
Sentiu necessidade
Ganhar
Perder
Total
Count
% within Peso
Count
% within Peso
Count
% within Peso
5
55,6%
4
44,4%
9
100,0%
Sobrepeso
7
100,0%
7
100,0%
Peso
Obesidade I
1
7,7%
12
92,3%
13
100,0%
Obesidade II
9
100,0%
9
100,0%
Obesidade III
7
100,0%
7
100,0%
Total
6
13,3%
39
86,7%
45
100,0%
Não obstante, os números de duas categorias chamam a atenção: normal
e obesidade II. Os participantes com IMC normal sentiram mais vontade de
ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir do que os
indivíduos com IMC sobrepeso. Alguns destes participantes com IMC normal já
sentiram vontade de perder peso – mesmo já possuindo o peso adequado – por
conta da necessidade de se vestir.
Os participantes com IMC obesidade II apresentaram o maior percentual de
vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir (90%).
106 4.5.1 – Q5a: “Por que você sentiu vontade de ganhar/perder peso?”
Através da análise do discurso, observamos que os homens com IMC
normal que já sentiram vontade de ganhar peso não relataram nenhuma
dificuldade diretamente relacionada ao ato de se vestir para justificar sua vontade.
Contudo, afirmam que ganhar peso ajuda a se sentirem melhor com a roupa que
vestem.
“Ganhar. Para eu me sentir melhor. Porque eu sou alto, mas sou magro. Eu
aumentando meu peso, teria o peso ideal para mim. Também me ajudaria em alguns
momentos com a roupa.”
Homem IMC normal
Os homens com IMC normal que já sentiram vontade de perder peso por
conta da necessidade de se vestir afirmam que a roupa veste melhor quando
estão mais magros.
“Perder. Eu já me vi magro e com certeza na pessoa que é mais esbelta a roupa
cai muito melhor. As roupas são feitas para as pessoas esbeltas. Principalmente se for
roupa de estilista, de marca, é para gente magra. Não é para quem tem sobrepeso.”
Homem IMC normal
Os homens com IMC sobrepeso já sentiram vontade de perder peso
porque a roupa marca o abdome.
“Perder. Principalmente agora que estou me sentindo um pouco mais gordo. Eu
uso uma camiseta mais clara, e parece que marca mais a barriga. Mesmo sem ser
camiseta apertada.”
Homem IMC sobrepeso
Os homens com IMC obesidade I e II já sentiram vontade de perder peso
por dois motivos. O primeiro é querer vestir uma roupa que gostam, mas que não
está disponível no seu tamanho.
107 “Perder. Porque não tem tanta variedade para tamanhos maiores. Eu acho uma
bermuda legal, mas não acho do meu tamanho.”
Homem IMC obesidade II
“Perder. Entro na ‘C&A’, por exemplo, e nem GG serve. É horrível, me sinto mal.”
Homem IMC obesidade I
“Perder. Existem muitas roupas que eu tenho vontade de vestir só que não se
adequam ao meu tamanho. Por isso eu gostaria de perder peso para vestir aquelas
roupas. Por exemplo, uma calça jeans, uma camisa social. Mandando fazer fica igual,
mas olhando no espelho fica diferente do que eu vi nas outras pessoas.
Homem IMC obesidade I
O segundo é poder usar as roupas que já têm, mas que ficaram pequenas
devido ao ganho de peso.
“Perder. Para poder usar um monte de coisa que eu tenho, mas que eu não posso
usar agora. Eu engordei uma coisa assim cavalar, muito rápido.”
Homem IMC obesidade II
Um participante com IMC obesidade I relata que sente vontade de ganhar
peso a fim de vestir roupas mais coladas ao corpo.
“Ganhar. Queria ficar mais forte para a roupa ficar colada.”
Homem IMC obesidade I
Os homens com IMC obesidade III já sentiram vontade de perder peso por
três motivos. O primeiro motivo é que a roupa veste melhor quando estão mais
magros.
“Perder. As roupas não ficam legais quando você está acima do peso. Quanto
mais magrinho você estiver, melhor. As roupas caem melhor em você.”
Homem IMC obesidade III
O segundo é a necessidade de sentirem-se bem ao usar a roupa.
108 “Perder. Não é só por conta da necessidade de se vestir. É pela necessidade de
se sentir bem. Vestir também é se sentir bem, ajuda.”
Homem IMC obesidade III
O terceiro é poder vestir uma roupa que já possuem, mas não serve por
conta do aumento de peso.
“Perder. Porque às vezes você vê umas roupas boas que você usa, e de repente
começa a ficar apertada. E você pensa ‘ao invés de comprar outra roupa, seria o ideal se
eu perdesse peso’. Não serve, eu dou. Mas é mais gostoso quando você volta a ver que
o colarinho de uma camisa que estava apertada agora está bom para você.”
Homem IMC obesidade III
As mulheres com IMC normal que já sentiram vontade de ganhar peso
explicam que poderiam encontrar roupas de tamanho adequado mais facilmente
se possuíssem dimensões corporais um pouco maiores. Isto é, certas partes do
seu corpo se ajustariam melhor às roupas disponíveis.
“Ganhar. Eu ia encontrar roupa mais fácil. Não muito peso. Mas se eu tivesse
mais corpo, mais perna, mais bunda.”
Mulher IMC normal
As mulheres com IMC normal que já sentiram vontade de perder peso
dizem que as roupas vestem melhor no corpo magro e sem abdome saliente.
Contudo, encontramos uma ambiguidade no discurso destas participantes.
“Sim, ganhar e perder. Se eu quero colocar aquela roupa, naquele momento, eu
tenho de estar com o corpo perfeito, com a barriga perfeita, o quadril certinho, a perna
bonita, para colocar aquela roupa.”
Mulher IMC normal
“Perder. Quando eu estava um pouquinho acima do meu peso. Uns dois quilos,
que você sente que a roupa está... Sobe um pouquinho para o 56kg ou 58kg. Mas eu
quero sempre manter o 54kg.”
Mulher IMC normal
109 As mulheres com IMC sobrepeso já sentiram vontade de perder peso por
três motivos. O primeiro é que as roupas vestem melhor no corpo magro.
“Perder. Tudo é mais fácil. Quando olha a roupa na magrinha você fala: ‘Nossa,
que bonito’. As roupas combinam mais com uma pessoa magra do que uma pessoa mais
gordinha.”
Mulher IMC sobrepeso
O segundo é que a “barriga” aparece para fora da roupa.
“É muito chato você colocar uma calça jeans e fica a barriga aparecendo, os
culotes não deixam, a calça não vai subir. É estranho, não é? Eu me sinto enorme,
gordona. Hoje mesmo eu subi na balança e começou a neura: ‘Eu estou grande, eu estou
gorda.’ Eu não posso subir na balança.”
Mulher IMC sobrepeso
O terceiro motivo é achar a roupa que ela gosta num tamanho adequado
ao seu corpo.
“Perder. Porque a roupa não serve quando eu vou comprar.”
Mulher IMC sobrepeso
As mulheres com IMC obesidade I já sentiram vontade de perder peso
pelos mesmos motivos relatados pelas mulheres com IMC sobrepeso. Contudo,
nesta categoria elas relatam o preconceito das outras pessoas em relação ao
corpo gordo.
“Perder. Uma vez eu fui numa loja. Eu pedi a blusa para eu ver. A vendedora
falou: ‘Não tem como eu pegar para você ver porque não tem o tamanho adequado para
você.’ Mas eu só pedi para ver a blusa. Ela quis dizer que ali não tinha a roupa adequada
para mim. Aí eu me senti muito mal. Porque as pessoas tem muito preconceito, tanto com
pessoas gordinhas como pessoas de cor também. Eu me senti inferior. Porque já para a
minha amiga que estava do meu lado ela falou: ‘Para você vai ficar lindo, mas para você
não tem o tamanho.’ Então eu fiquei sem graça.”
Mulher IMC obesidade I
110 “Perder. Principalmente quando você é mais nova e vê todo mundo usando roupa
X ou Y, e você não consegue se adequar àquele padrão porque a roupa não fica bem em
você. Mas aí depois conforme você vai vendo, melhora. Incomoda. Não vou ser hipócrita
ao ponto de falar que o peso não incomoda, mas não é uma coisa que te abala como
antes. (...) Mas às vezes eu sinto. Eu não gosto de tirar foto. Eu não tenho nenhuma foto
na minha casa. Eu evito me olhar no espelho. Me visto, olho rapidinho e saio. Não gosto
de olhar muito. Acho que por conta de coisas que ocorreram já quando eu era pequena.
Ficavam martelando na minha cabeça que ‘era feio, era feio, era feio’. Desde menina eu
sou gordinha. Mas eu convivo.
Mulher IMC obesidade I
As mulheres com IMC obesidade II já sentiram vontade de perder peso por
três motivos. O primeiro é vestir a roupa de que gostam no tamanho adequado.
“Perder. Porque não tem nenhuma roupa que sirva para mim e que eu goste de
verdade. Que nem aqui na loja, eu tive que achar modelos menos de senhora para caber
no meu estilo que é mais nova. Você olha e pode dizer: ‘Tudo bem, é mais nova.’ Mas se
você for ver, é tudo aparência de mais velha.”
Mulher IMC obesidade II
O segundo é que as roupas vestem melhor nas pessoas magras.
“Perder. Além da saúde, tem visualmente um aspecto melhor uma pessoa mais
magra do que uma pessoa mais gorda.”
Mulher IMC obesidade II
O terceiro é o preconceito em relação à roupa adequada à pessoa gorda.
“Perder. Eu ia num casamento, e queria comprar um vestido. Mas o vestido que
eu queria não entrava. E não dava tempo de fazer um. Eu achei o modelo, mas o
manequim, eu jamais entraria nele. Eu já fui numa costureira. Ela fez uma roupa de
qualquer jeito, pôs um laço e eu falei: ‘Mas eu não queria o laço’. Ela respondeu: ‘Mas
gordo tem que se vestir como a gente quer.’ Eu falei: ‘Não, não é assim.’ Ela pôs o laço e
eu fiquei parecendo uma grávida. Eu levei uma revista com o modelo que eu queria. Ele
era soltinho debaixo do busto, tinha um detalhe no ombro. Mas não tinha aquele laço
111 debaixo do busto. Ela fez franzido e com o laço. Eu reclamei e ela disse: ‘Gordo não tem
o que escolher. O que entrar, está bom.’ E acabou estragando o meu pano.”
Mulher IMC obesidade II
As mulheres com IMC obesidade III já sentiram vontade de perder peso por
dois motivos. O primeiro é vestir a roupa de que gosta no tamanho adequado.
“Perder. Muitas vezes eu já cheguei na loja, e não tinha o tamanho que eu queria.
Eu pensava: ‘Ai, se eu fosse magra tinha.’ Aí sai todo mundo junto para comprar as
coisas. Para todo mundo tem, menos para você, porque não tem seu número. Aí de novo
você pensa: ‘Se eu fosse mais magra, tinha meu número também.’”
Mulher IMC obesidade III
O segundo é a percepção de que as roupas vestem melhor nas pessoas
magras.
“Sim, muitas e muitas vezes. É muito ruim ser gordo. Você veste uma roupa e não
fica bem. Eu achava um monte de blusinha, aí mostrava a barriga.”
Mulher IMC obesidade III
As mulheres com IMC obesidade III se incomodam com a aparência
envelhecida das roupas de tamanhos grandes.
“Perder. Porque melhora a autoestima. Eu perdi o emprego porque estou gorda.
Às vezes a pessoa obesa quer se arrumar, pôr uma roupa melhorzinha, mas não cabe,
fica tudo apertado. Ou você só acha roupa evangélica, muito fechada. É difícil achar
roupa moderna para meu tamanho. Tem uns três meses que eu estou procurando um
maiô preto com branco que eu acho lindo. Mas não acho para mim. Então eu vou fazer a
redução do estômago no final do ano. Eu quero pôr uma calça jeans legal que eu tenho lá
em casa guardada há mais de 10 anos.”
Mulher IMC obesidade III
Em resumo, participantes de ambos os gêneros com IMC normal
compartilham da crença de que as roupas vestem melhor em pessoas magras ou
“esbeltas”. Esses mesmos participantes que podem ser considerados magros se
112 declaram insatisfeitos com suas proporções corporais. Eles acreditam que
modificar o volume das pernas, dos glúteos e do abdome ajudaria de dois modos.
O primeiro é que a mudança do volume de certas partes do corpo promove o
ajuste adequado a certas roupas. O segundo motivo é não destacar o abdome, o
glúteo ou mesmo as pernas de modo inadequado ao vestir a roupa.
O abdome também é motivo de incômodo para homens e mulheres com
IMC sobrepeso. Contudo, as participantes do gênero feminino gostariam de
emagrecer para usar roupas de modelos que lhes agradam, mas que não estão
disponíveis no tamanho do seu corpo.
Uma característica comum entre homens com IMC normal e obesidade I
que querem ganhar peso é a vontade de vestir uma roupa que fique colada ao
corpo, tornando seu corpo mais volumoso e sua aparência mais atraente.
Chama a atenção o preconceito com o corpo gordo mencionado por
algumas participantes com IMC obesidade. Tal dado é coerente com a bibliografia
descrita. Uma vez que Kaiser (1998) afirma que estar acima do peso é um
estigma, isto é, um atributo socialmente indesejado. Ao mesmo tempo, Baturka et
al. (2000) alegam que a percepção dos outros afeta a satisfação do indivíduo com
seu próprio corpo. Em nossa pesquisa as participantes relatam que ficam tristes
frente à percepção do preconceito com a pessoa gorda, o que provoca a
insatisfação destas com seu corpo e sua aparência física.
Encontramos no discurso de participantes de ambos os gêneros e de todos
os IMC a crença de que as roupas vestem melhor em pessoas magras ou
“esbeltas”. Isto é, eles compartilham da crença de que o corpo magro vestido é
mais bonito que o corpo gordo vestido. Segundo os relatos dos participantes com
IMC obesidade, costureiras, vendedoras e parentes manifestam esta percepção
social negativa a respeito da aparência do corpo gordo, o que diminui a satisfação
destas participantes com sua aparência física.
As mulheres com IMC obesidade I, II e III desejam perder peso – entre
outros motivos – porque as roupas de tamanhos adequados não são joviais ou
modernas. Especialmente as participantes de 18 a 35 anos relatam que não
conseguem vestir roupas adequadas à aparência esperada para uma mulher da
sua faixa etária.
113 Os homens com IMC obesidade I, II e III desejam perder peso – entre
outros motivos – a fim de voltar a usar as roupas que já possuem, mas que não
servem mais devido ao ganho de peso.
4.5.2 – Q5aA: “Como você se sentiu diante da vontade de ganhar/perder peso?”
Diante da vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de
se vestir, os homens de todos os IMC relatam dois tipos de vivência emocional:
sentimentos negativos sobre si e neutralidade emocional. A maioria (73,3%) relata
sentimentos negativos. Contam que sentem-se mal, frustrados, limitados,
ansiosos, diferenciados, estranhos, tristes e constrangidos.
“Quem tem um biótipo mais gordo, como eu, não procura pelo modelo. Você
procura pelo que tem do seu tamanho. Quando você vai procurar o que você quer, seja
por cor por exemplo: ‘Olha, para o seu tamanho só tem essas duas cores’. Isso é meio
frustrante. É um biótipo comum, mas eles direcionam para outro biótipo. Tem um nicho
da população que não é atendido. É atendido em partes. Porque você até encontra, mas
não tem a mesma variedade como para quem tem um biótipo mais magro.”
Homem IMC obesidade I
“Teve uma situação em que eu me sentei e o botão da calça explodiu. Eu dei
risada, mas é constrangedor. Eu continuei, encarei numa boa.”
Homem IMC obesidade II
“Triste. Não satisfeito. Porque eu poderia estar com menos peso e maior
variedade de roupa. Até mesmo as roupas de maior qualidade, não tem no tamanho que
serve.”
Homem IMC obesidade II
“É para melhorar meu dia a dia. Incluo roupa, mas não só. Se vestir traz bemestar.”
Homem IMC obesidade III
114 A minoria (26,7%) tem uma vivência emocional neutra frente à vontade de
ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir. Eles declaram que
já se acostumaram, não sentem nada e tal vontade de ganhar ou perder não
interfere em nada na sua vida afetiva.
“Eu já me acostumei a ser alto e magro. Mas eu gostaria de engordar. Eu não
estou satisfeito com meu peso.”
Homem IMC normal
Diante da vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de
se vestir, as mulheres de todos os IMC relatam três tipos de vivência emocional:
sentimentos negativos, sentimentos positivos e neutralidade emocional. A maioria
(70%) relata sentimentos negativos. Contam que se sentem mal, de mãos atadas,
revoltadas
quando
comem
brigadeiro,
impotentes,
chateadas,
tristes
e
desanimadas por procurar e não achar roupas de tamanhos adequados. Entendase sentir-se mal como ter vontade de chorar, redução da autoestima e fingir que
está contente embora não esteja.
“Eu me sinto de mãos atadas. Porque como eu falei, eu sinto vontade de comer.
Mas você não pode comer tudo. (...) E se você não comer, você engorda do mesmo jeito.
Aí eu vou comendo. Mas é de mãos atadas mesmo. Eu tento não passar vontade, mas
sempre tem uma conseqüência depois que é engordar.”
Mulher IMC normal
“Fico chateada, triste, desanimada. Não tenho vontade de comprar, não tenho
vontade de experimentar roupa.”
Mulher IMC obesidade I
“É horrível. Eu fico triste, aí eu fico chateada. Aí eu falo para a minha mãe: ‘Vamos
ali tomar um sorvete’. Ou então o que eu faço: ‘Nada deu certo, então eu vou comprar um
sapato.’ Ou sapato ou coisas de cabelo, porque eu sei que vai servir. Ou então vou cuidar
do meu cabelo, das minhas unhas, ou dos meus pés, porque é o que dá. Eu quero me
cuidar, mas eu fico chateada, fico em casa. Algo emocional me bloqueia. Ainda não
descobri o porquê ainda.”
Mulher IMC obesidade II
115 “Eu fiquei mal. Com a autoestima lá embaixo. Com vontade de chorar. Mas pior
seria se eu não tivesse condições de me vestir de nenhuma forma.”
Mulher IMC obesidade II
“Muito desanimada, às vezes, cansada de procurar e não achar. O jeito agora é
fazer minha redução de estômago para ver se eu emagreço. E poder me arrumar melhor,
ter uma aparência melhor. Eu trabalhava no shopping numa loja de bebê, e me
mandaram embora. Disseram que eu não podia me abaixar e que minhas roupas
estavam muito ridículas. Mas onde eu ia comprar roupa?”
Mulher IMC obesidade III
A minoria (30%) relata sentimentos positivos ou tem uma vivência neutra
frente à vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir.
Elas contam que sentem-se conformadas, indiferentes, privilegiadas, além de se
sentirem melhor com o amadurecimento ao longo dos anos.
“Hoje eu me sinto bem, porque a gente amadurece. Como eu te falei, hoje eu
tenho 39 anos. Aprendi bastante coisa já. Hoje eu me sinto mais satisfeita do que há
alguns anos atrás.”
Mulher IMC normal
Em resumo, a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade
de se vestir provoca sentimentos negativos sobre si na maioria dos participantes
de ambos os gêneros e todas as categorias de IMC. A minoria vive tal situação
sem prejuízo à sua autoestima.
4.5.3. – Q5aB: “O que você fez para solucionar o dilema que provocou a
vontade de ganhar/perder peso?”
Através da análise do discurso observamos que diante da vontade de
ganhar peso por conta da necessidade de se vestir, os homens com IMC normal
usam duas estratégias: dieta para ganho de peso e aceitação de seu peso
corporal.
116 “Uma dieta de engorda. Mas ela dificilmente acontece. Eu tento fazer, mas nem
sempre. Nem sempre eu consigo me alimentar todos os dias igualmente.”
Homem IMC normal
“Eu me senti muito magro na infância. Hoje eu aceito. Não tenho mais problema
com isso.”
Homem IMC normal
Diante da vontade de perder peso por conta da necessidade de se vestir,
os homens com IMC sobrepeso e obesidade I, II e III usam as seguintes
estratégias em ordem decrescente: combinado de atividade física e dieta
alimentar restritiva (23,5%); troca da a roupa que não serve, doando uma e
comprando outra (17,6%); somente atividade física; somente dieta alimentar
restritiva; submissão à cirurgia bariátrica; e tentativa de emagrecer sem
especificar a maneira ou instrumento que utiliza para atingir este objetivo.
“Comecei a fazer exercícios e dieta.”
Homem IMC obesidade I
“Eu procuro sempre mudar. Se eu não encontrar do jeito que eu vi, eu procuro
modificar pelo menos uma parte da roupa para eu me sentir à vontade. Tudo que eu visto
não é igual ao que eu vi, mas eu tento chegar próximo ao que eu quero.”
Homem IMC obesidade I
“O conflito com a roupa é coisa do passado, porque hoje eu não preciso fazer
mais nada. Depois da cirurgia, eu estou emagrecendo a cada dia que passa. A roupa que
eu vim trocar, eu comprei dois meses atrás. Agora já está grande. Eu já diminuí o
número. Tanto que eu vim trocar por uma menor. Estou perdendo mais.”
Homem IMC obesidade III
“Eu voltei a treinar agora. Vou me exercitar por uns três ou quatro meses agora,
para ver se dou uma secada.”
Homem IMC sobrepeso
117 Diante da vontade de ganhar peso por conta da necessidade de se vestir,
uma mulher com IMC normal declara não utilizar nenhuma estratégia, embora
afirme comer muito.
“Só fico na vontade. Eu não faço nada não. Eu como muito. Só aconteceria se eu
fosse numa academia, malhar. Mas não acho que isso precisa. Mas estou feliz assim
mesmo.”
Mulher IMC normal
Diante da vontade de ganhar peso por conta da necessidade de se vestir,
as mulheres com IMC normal usam três estratégias: dieta alimentar restritiva,
ingestão de chocolate e troca de roupa.
“Eu tento dar uma maneirada no que eu quero comer, porque eu adoro
salgadinho, pão de queijo, risole. Eu tento comer menos na rua, dar um intervalo maior
entre as refeições, comer pouco. Vou dando uma maneirada porque vou emagrecendo
devagarzinho e não passo vontade.”
Mulher IMC normal
“Eu como brigadeiro. Mas eu vou emagrecer este ano. Promessa de Ano Novo.”
Mulher IMC normal
“Eu como chocolate. Eu como doce mesmo, de verdade. Esqueço, ponho outra
roupa. Hoje mesmo eu coloquei a bermuda jeans e achei muito apertada. Eu pensei ‘quer
saber?’ Eu troquei de roupa e vim com esta mesma.”
Mulher IMC normal
“Tem situações que eu realmente tenho que mudar de roupa. Não vou sair com
aquela roupa só porque eu quero. E se eu sair, eu vou ficar o tempo todo mal no
ambiente, me sentindo péssima. Eu vejo uma outra roupa similar bonita. Às vezes eu
manero mesmo na alimentação.”
Mulher IMC normal
Diante da vontade de perder peso por conta da necessidade de se vestir,
as mulheres com IMC sobrepeso e obesidades I, II e III usam as seguintes
estratégias em ordem decrescente: somente fazer dieta alimentar restritiva ou
118 comer menos (21,2%); nada, tentar conviver (18,1%); combinado de atividade
física e dieta alimentar restritiva (12,1%); estratégias psicológicas – como
psicoterapia, fugir para o trabalho, dar risada, se valorizar (12,1%); trocar de
roupa; tomar remédio ou chá emagrecedor; procurar roupa numa loja
especializada em tamanhos grandes; e não ir às lojas nem observar vitrines.
“Neste conflito todo, eu tento emagrecer para ver se eu acabo me adaptando a
alguma coisa nem que seja parecida com o que eu quero vestir. E vou usando minhas
calças legging, que eu não acho que fica feio.”
Mulher IMC sobrepeso
“Agora eu vou ter que fechar a boca porque eu quero. E vou entrar na academia.
A partir daí eu vou melhorar. Vou ficar feliz.”
Mulher IMC sobrepeso
“Não vou nas lojas, não olho para as lojas. Eu vejo uma roupa bonita, mas nem
entro. Vejo a vitrine e passo, não paro.”
Mulher IMC obesidade I
“Eu vou empurrando com a barriga. É cansativo. Já fui magra. Há 20 anos atrás
eu pesava 68 kg. Agora eu peso 120kg. Eu usava umas roupas legais. Eu adorava
comprar revista de moda. Eu consumia muita roupa. Depois fui engordando muito.
Depois fiquei morrendo de medo de ir no shopping. A única coisa que a gente faz no
shopping é passar pelo corredor e descer correndo as escadas para a praça de
alimentação. Se você começa a andar no shopping e ficar vendo aquelas roupas você
fica numa paranóia: ‘Por que você quer, você está gorda e não entra’. Eu já cheguei a
comprar roupa e pensei: ‘Eu vou emagrecer’. A roupa ficou lá um tempão.”
Mulher IMC obesidade III
“Já procurei psicóloga, já procurei terapia. Mas hoje não procuro mais. Porque o
estudo e o trabalho consomem muito. Mas eu procuro dentro de mim qualidades que
podem superar as críticas. Ou que eu faço é tentar enxergar o bom em mim. Vou tentar
fazer com que as pessoas gostem de mim pelo que eu sou.”
Mulher IMC obesidade I
119 “O que eu fiz foi aproveitar, encarar e curtir. Não fico trancada porque estou gorda.
O fato de você estar acima do peso, não significa que você é uma má pessoa. Ou que
você não possa se divertir como as outras. Não me afeta.”
Mulher IMC obesidade II
Em resumo, diante da vontade de ganhar ou perder peso por conta da
necessidade de se vestir, homens e mulheres optam por estratégias diferentes a
fim de atingir seu objetivo. Os homens optam por perder peso através do
combinado de atividade física e dieta restritiva ou somente atividade física. Os
homens que optam por manter o peso corporal trocam de roupa – isto é, doam a
que está apertada e compram outras de tamanho adequado. As mulheres optam
por perder peso através de dieta, comendo menos, ou realizando o combinado de
dieta restritiva e atividade física. As mulheres que optam por manter o peso
tentam conviver com a vontade de perder peso ou utilizam estratégias
psicológicas a fim de aceitar seu peso corporal. Contudo, algumas mulheres
contam que evitam lojas, vitrines e shopping center.
120 CONCLUSÃO
O objetivo geral desta pesquisa foi compreender qual é o tipo de relação existente
entre o peso corporal dos indivíduos e a aquisição e/ou uso que eles fazem de
suas roupas. Observamos que os fatores que interferem no ato de vestir-se são
similares entre os participantes, contudo eles variam em importância dependendo
do IMC e do gênero de cada participante.
O primeiro objetivo desta pesquisa foi observar se a variável IMC interfere
nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas.
Constatamos que a variável IMC interfere na aquisição e uso de roupas de três
modos. Primeiro, quanto maior o IMC, maior a dificuldade para achar roupas de
tamanhos adequados. Frente à dificuldade de achar roupas de tamanhos
adequados, participantes de todos os IMC experimentam sentimentos negativos e
se autoavaliam fisicamente de modo negativo. Os participantes com IMC normal
culpabilizam as proporções do seu corpo pela dificuldade de achar roupas de
tamanhos adequados, da mesma forma ocorre com os participantes com IMC
sobrepeso e obesidade I, II e III. Para esses participantes mais pesados, ir a uma
loja procurar por uma roupa de tamanho adequado, bem como entrar no provador
para experimentá-la são situações constrangedoras. Em alguns casos, o
sofrimento é tão significativo que o participante evita ir às compras. Dentre os
participantes que superaram a dificuldade para achar roupas de tamanhos
adequados, encontramos estratégias diferentes segundo o IMC. Participantes
com IMC normal superaram a dificuldade ao ganhar peso. Participantes com IMC
sobrepeso e obesidade I, II e III superaram a dificuldade ao perder peso. Somente
os participantes com IMC obesidade I, II e III superaram a dificuldade ao localizar
lojas especializadas em roupas de tamanhos grandes que vendem roupas que
lhes agradam. O número crescente de lojas especializadas foi determinante para
a superação da dificuldade vivida por participantes desse IMC.
O segundo modo como a variável IMC interfere no uso e aquisição de
roupas é o seguinte: quanto maior o IMC, menos os indivíduos se sentem
representados nas propagandas de roupas. Exceção a esta regra foram os
homens com IMC sobrepeso, que não manifestaram este sentimento. Entre os
homens, há uma percepção comum de que o tipo físico veiculado nas
propagandas equivale ao homem com IMC sobrepeso. Entre as mulheres, há
121 uma percepção comum de que o tipo físico veiculado nas propagandas de roupas
equivale a uma “mulher muito magra”, perante a qual as mulheres com IMC
normal não se sentem representadas.
Os participantes afirmam que uma imagem de referência nas propagandas
ajuda a orientá-los sobre qual é a roupa mais adequada ao seu biótipo dentre as
que se encontram à venda nas lojas. Contudo, quando o indivíduo olha para a
propaganda e não vê um corpo similar ao seu, usando a roupa, duas mensagens
são transmitidas. A primeira é “não vendemos a roupa adequada ao seu tipo
físico”. Segundo, “o seu tipo físico não é adequado às roupas disponíveis”. Se as
propagandas expõem corpos femininos com pouca massa gorda e homens com
significativa massa muscular, parece coerente que o sentimento de inadequação
ao ver a propaganda seja mais intenso entre mulheres de todas as categorias do
IMC e homens com IMC normal e obesidade I, II e III.
O terceiro modo como a variável IMC interfere no uso e aquisição de
roupas é o seguinte: quanto maior o IMC, maior a insatisfação com o peso
corporal. Frente à constatação da relação entre as variáveis IMC e satisfação com
o peso corporal, apresentamos as considerações finais referentes ao segundo
objetivo da pesquisa: observar se há relação entre a satisfação com o peso
corporal e a aquisição e/ou uso de roupas.
Os participantes de todos os IMC e gêneros partilham da crença de que as
roupas vestem melhor numa pessoa magra, isto é, o corpo magro vestido é mais
bonito que o corpo gordo vestido. Soma-se a isso o uso da fórmula do IMC como
um critério de autoavaliação física comum entre os participantes de todas as
categorias e gêneros. Essa crença de que somente o corpo magro vestido possui
beleza interfere negativamente na satisfação com o peso corporal de todos os
participantes, porém de modos diferentes conforme o IMC.
Participantes com IMC normal e sobrepeso avaliam que o uso de certas
roupas destaca o glúteo, o abdome e as pernas de modo inadequado, gerando
sofrimento. Assim, eles consideram que a perda ou ganho de peso modifica o
volume de certas partes do corpo, facilitando o ajuste do corpo à roupa.
Participantes com IMC obesidade I, II e III avaliam que se fossem mais magros
poderiam usar roupas mais bonitas e modernas. Tal limitação gera sofrimento.
Portanto, a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se
122 vestir gera sentimentos negativos sobre si na maioria dos participantes de todos
os IMC. A minoria deles vivencia tal vontade sem prejuízo à sua autoestima.
Ao mesmo tempo, ganhar ou perder peso é uma estratégia de modificação
corporal usada com finalidades distintas pelos participantes dependendo do IMC.
Os participantes com IMC normal e sobrepeso usam o ganho ou a perda de peso
como estratégias de gerenciamento da aparência, isto é, para modificar o volume
de algumas partes do seu corpo. Os participantes com IMC obesidade I, II e III
usam a perda de peso como estratégia para recuperar a homeostase5 orgânica e
a aptidão física, tendo como efeito secundário a melhora da aparência. Em
resumo, a insatisfação com as formas corporais, provocada pelo destaque
inadequado de certas partes do corpo ao usar roupas, estimula a vontade de
ganhar ou perder peso dos participantes com IMC normal e sobrepeso. A
insatisfação com o peso corporal, provocada pela vontade de usar roupas mais
bonitas e modernas, estimula a vontade de perder peso nos participantes com
IMC obesidade I, II e III.
O terceiro objetivo da presente pesquisa foi observar se a variável ‘gênero’
interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas.
Embora os homens se sintam bem vestidos com mais frequência do que as
mulheres, ambos os gêneros são igualmente autocríticos quanto às possibilidades
de melhora da sua aparência física através da aquisição e uso de roupas. Em
nossa pesquisa, constatamos que os homens sofrem tanto quanto as mulheres
por conta de questões ligadas ao vestuário. Contudo, há alguns fatores que
provocam sofrimento no ato de vestir-se que são decorrentes das expectativas
sociais referentes a cada gênero.
Um fator que não foi considerado no início da pesquisa destacou-se como
significativo para os homens no ato de vestir-se: o descompasso entre as roupas
exigidas nos ambientes sociais e o conforto físico provocado pelo uso delas. Para
estes participantes as roupas masculinas são divididas em dois tipos. O primeiro
refere-se à “roupa social”, composta principalmente por calça com corte de
alfaiataria e camisa, sendo exigida especialmente no ambiente de trabalho. O
segundo tipo é a roupa informal, como bermuda e camiseta regata, usada em
ambientes domésticos e atividades de lazer. Esta dicotomia no traje masculino é
5
Estado de equilíbrio das funções orgânicas, que equivale a um dos conceitos de saúde
existentes.
123 vivida pelos participantes como limitante e gera sofrimento significativo. Embora o
traje social seja fisicamente desconfortável devido ao calor que ele provoca, os
homens o vestem porque ele garante prestígio social à sua imagem pessoal.
Aqueles que se vestem de modo diferente desse padrão, são julgados como
moralmente inadequados e perdem em prestígio e respeitabilidade social. Ao
mesmo tempo, grande parte dos participantes do gênero masculino considera
relevante a orientação profissional de um consultor de imagem. Isto porque eles
projetam sobre este profissional a habilidade de fazer novas combinações de
roupas masculinas – para além da “roupa social” e da roupa informal. Entendamse novas combinações como escolher, adquirir e usar roupas que conciliem o
conforto térmico frente ao clima tropical de nosso país e a transmissão de
respeitabilidade, prestígio social e virilidade. De certa, podemos dizer que eles
projetam sobre estes profissionais a habilidade de construção de uma persona
masculina mais autêntica.
O sofrimento com a dicotomia do vestuário masculino é mais expressivo
entre os homens de 25 a 35 anos de todas as categorias do IMC. Esses
participantes mais jovens apontam também a necessidade de mudar suas
concepções a respeito dos cuidados com a própria aparência. Por outro lado,
homens com mais de 46 anos não se dispuseram a nos conceder uma entrevista
sobre roupa justificando tratar-se de um tema próprio para ser discutido com
mulheres. Portanto há uma associação cultural entre a feminilidade e o sofrimento
provocado por desconfortos com a própria aparência que começa a ser
questionada por homens adultos jovens. Esses últimos se permitiram relatar
sofrimento por conta da aparência a uma mulher desconhecida. Mesmo que tenha
sido muito mais difícil encontrar homens do que mulheres para falar sobre roupas,
acreditamos que há uma abertura social contemporânea para que os homens
expressem suas preocupações com a aparência. Soma-se a isso o número
expressivo de homens insatisfeitos com seu peso e que apresentam
psicopatologias ligadas à aparência. Olhando os comportamentos saudáveis, os
homens que participaram da pesquisa relataram que vivenciam mais sentimentos
positivos sobre sua própria aparência ao prestarem atenção no que vão vestir.
Este parece um bom estimulante para que se inicie uma reforma social dos
costumes ligados à vestimenta masculina. Cabe a estudos acadêmicos
posteriores dedicar mais atenção ao comportamento de vestir-se masculino, a fim
124 de facilitar a reforma à qual os homens entrevistados em nossa pesquisa parecem
pré-dispostos a aderir nos próximos anos em nome do próprio bem-estar.
As mulheres demonstraram menor senso crítico a respeito do papel da
cultura no ato de vestir-se, o que estimula o uso de estratégias pouco assertivas
frente à dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados. Estas estratégias
podem ser: comer menos, dar risada, comer mais frente à vontade de perder
peso, bem como evitar lojas, vitrines e passeios em shopping center. É possível
que homens e mulheres usem estratégias pouco eficazes, mas que somente as
mulheres relatem essa ineficiência ao lidar com a dificuldade. Uma vez que os
homens podem temer parecer ineficazes ou fracos frente a um problema
aparentemente simples. Em diversas questões, as respostas de homens e
mulheres são similares, porém a fala feminina vem carregada de mais afeto.
Supomos que esta carga afetiva não se deva ao maior sofrimento feminino, mas
novamente ao temor masculino de parecer fragilizado frente a uma questão que
tradicionalmente deve afetar ou perturbar somente às mulheres.
Portanto, chegamos ao objetivo geral da presente pesquisa: compreender
qual é o tipo de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e a
aquisição e/ou uso de roupas. Constatamos que a relação entre o peso corporal e
a aquisição e uso de roupas é marcada pela inversão de importâncias, uma vez
que o peso corporal – bem como as proporções corporais que o caracterizam –
deve se adaptar à roupa, e não o inverso.
O comportamento de vestir-se é um território de embate entre as
concepções e expectativas culturais a respeito do corpo e os atributos físicos
singulares dos indivíduos. No centro deste embate está o ego. Por um lado, cabe
a ele aceitar que ele vive em sociedade e, portanto, é vulnerável às expectativas
culturais a respeito do peso corporal desejável. Como as roupas são produzidas a
partir desse ideal social, ele precisa aceitar que terá mais dificuldade para achar
roupas de tamanho, bem como verá menos imagem de pessoas com o mesmo
corpo nos meios de comunicação, à medida que seu peso corporal aumentar.
Por outro lado, também cabe ao ego aceitar que ele não pode se livrar da
limitação individual e particular em que se encontra. Dito de outro modo, cada
indivíduo tem uma herança genética que pré-determina seu peso corporal. Ele
pode utilizar as biotecnologias para alterar seu peso, mas ainda sim seus genes
125 sempre limitarão a quantidade de peso corporal que o indivíduo pode ganhar ou
perder sem comprometer a homeostase orgânica.
Frente à necessidade de adaptação da aparência física às exigências
sociais, o ego se identifica com os valores da cultura referentes ao corpo. Mais
precisamente, ele assume o IMC como um dos seus critérios de autoavaliação
física. Ao comparar seu peso corporal atual com o peso corporal considerado
“normal”, ele tende a encontrar uma discrepância. Neste momento, parece que
boa parte dos participantes desta pesquisa desconhece o que é a normalidade. A
faixa de normalidade de qualquer mensuração não inclui todos os indivíduos de
uma população. A normalidade é sempre uma referência métrica, fruto de
cálculos estatísticos que visam homogeneizar a população para fins didáticos.
Porém, tal referência, não é dotada da capacidade de abarcar a heterogeneidade
dos tipos físicos existentes numa dada população.
O uso indiscriminado dos valores da categoria normal do IMC como
referência ao avaliar o próprio peso provoca sentimentos negativos como a
incapacidade de controlar seu corpo e sua alimentação. Esta autoavaliação
moralista somada à percepção negativa da própria aparência provocam
sofrimento significativo em pessoas gordas e magras. Tal sofrimento é fruto da
disseminação, na sociedade contemporânea, do uso distorcido do IMC a fim de
propagar e/ou favorecer um padrão de beleza corporal inatingível para indivíduos
de todos os pesos. Portanto, o rigor da cultura com o peso corporal provoca
sofrimento e preocupação excessiva com o peso não somente nos indivíduos
gordos, mas também nos magros.
Frente à necessidade de adaptação da aparência física, cabe ao ego
gerenciar a tarefa de vestir-se. Por um lado o ego lida com a limitação social, isto
é, um tipo de vestuário próprio de sua cultura e que ele deve vestir a fim de se
inserir socialmente. Ao mesmo tempo, esta obrigatoriedade tem uma margem de
variação que permite a cada indivíduo imprimir certa originalidade à composição
de sua aparência física. Contudo, fatores como ambiente social, gênero, idade e
peso corporal somados determinam a amplitude ou redução da margem de
variação na aquisição e uso de roupas.
Por outro lado, o ego lida também com as necessidades, sentimentos,
preferências e traços físicos que compõem a individualidade. Sendo mais
específica, o indivíduo possui um peso corporal, bem como os contornos
126 corporais que caracterizam este peso. No ato de vestir-se, o ego pode usar os
traços físicos e as características psicológicas mais marcantes como referência
para escolher, adquirir e usar roupas. Ao mesmo tempo, possuir uma boa
variedade de roupas garante a composição de aparências físicas específicas e
adequadas às ambições sociais do indivíduo. Essa diversidade na aparência
física permite a expressão mais completa do si-mesmo na vida pública.
Ao procurar por roupas nas lojas, os indivíduos com IMC obesidade notam
que a aquisição de roupas é limitada por seu peso corporal. Vários fatores se
acumulam em torno da aquisição de roupas, dentre eles o alto custo e a pouca
beleza das roupas de tamanhos grandes. Tais fatores sinalizam o não
reconhecimento social do corpo gordo com um dos biótipos comum da população,
tornando compreensível o sofrimento dos participantes com IMC obesidade ao
adquirir e usar roupas.
Além disso, o uso de roupas gera insatisfação com as formas corporais em
indivíduos com IMC normal e sobrepeso. Uma vez que as roupas marcam os
contornos e as características corporais socialmente indesejáveis, tal como o
abdome proeminente. Portanto, as necessidades de ser magro e ter formas
perfeitas para vestir certas roupas geram sofrimento nos indivíduos mais magros.
De um modo geral, podemos identificar em nossa pesquisa vários tipos de
personas. Contudo, duas nos interessam particularmente: a persona do gordo e a
persona do magro. Entenda-se persona aqui como conjunto de atitudes habituais
que visam adaptação tanto à sociedade quanto às necessidades pessoais.
A persona do gordo é composta por quatro características. Primeiro, um
sentimento ocasional de sentir-se bem vestido, uma vez que ele é de fato
cerceado e limitado na aquisição e uso de roupas. Segundo, uma preocupação
com a saúde devido à associação entre excesso de gordura e doenças crônicas.
Terceiro, uma dificuldade para confiar no olhar compreensivo, estimulante e
positivo do outro sobre sua própria aparência física. Afinal, ele recebe a projeção
social da imoralidade e do descontrole pessoal. Quarto, possuir um corpo
desprovido de beleza.
A persona do magro é composta por duas características. Primeiro, o
sentimento ocasional de sentir-se bem vestido, uma vez que adquirir roupas de
tamanho adequado não é problema. O problema é usá-las, pois ao vesti-las
qualquer característica corporal inadequada fica evidente. Segundo, a busca das
127 formas corporais perfeitas. Se ele não as tem, vai conquistá-las através do autocontrole e auto-vigilância constantes. Este esforço para se ajustar ao ideal social
é defensivo porque permanecer magro – sem excessos de gordura e com boa
quantidade de massa muscular – o mantém distante da vivência social punitiva
que é reservada aos indivíduos gordos.
Em resumo, diante do rigor social com o peso corporal, gordos e magros se
identificam com as expectativas sociais e utilizam personas defensivas - isto é,
persona que visa proteger o indivíduo do sofrimento vivido ao sentir-se
inadequado socialmente. Contudo, se identificar com estas personas gera ainda
mais sofrimento para ambos. Diante deste embate entre formatação e conforto,
cabe ao ego restaurar o equilíbrio de dois modos. O primeiro, desenvolver um
olhar crítico a respeito das expectativas sociais quanto à aparência física e ao
peso corporal. A partir do momento em que os indivíduos demonstram
comportamento fóbico frente à necessidade de mensurar o peso corporal,
podemos considerar que a lipofobia cultural tornou o peso uma questão moral.
Estudos futuros podem se dedicar a compreender melhor as crenças e fatores
sociais que sustentam esta rigidez cultural em relação à gordura.
O segundo é afrouxar a rigidez com o peso corporal ao avaliarmos nosso
peso e o peso dos outros. A aceitação da diversidade de biótipos permite a
composição de novas personas do gordo e do magro, menos defensivas e mais
expressivas. A persona mais expressiva permite uma expressão da beleza
singular dos corpos gordos e magros. Não ousamos propor quais outras
características teriam essas personas, já que as características possíveis são
infinitas. Contudo, quando o ego reconhece e aceita as características mais
singulares, a persona torna-se vívida, socialmente eficaz e capaz de garantir a
saúde e o equilíbrio da psique.
Este trabalho tem como propósito sensibilizar as pessoas a respeito do
quanto pode ser doloroso gerenciar a própria aparência – principalmente para os
indivíduos gordos – devido aos ajustes necessários à socialização. De fato, a
jornada do indivíduo gordo em busca da aquisição de roupas é solitária. Uma das
contribuições deste trabalho é evidenciar a importância do olhar positivo,
compreensivo e estimulante do psicoterapeuta para o ato de vestir-se do indivíduo
gordo. Este olhar terapêutico pode ser determinante no aumento dos sentimentos
positivos do indivíduo gordo sobre si mesmo. Esta técnica pode servir para
128 estimular tanto a vontade de perder peso – para aqueles que têm este propósito –
quanto à construção de uma persona diferenciada.
No entanto, ficamos surpresos ao constatar que o uso das roupas pelo
indivíduo magro também é doloroso, mas um pouco menos solitário. Infelizmente,
a cultura contemporânea não tem mecanismos capazes de orientar as pessoas a
respeito da vivência corporal, como compreender seu corpo para além do peso
corporal. Além, é claro, de auxiliar o indivíduo a adequar as exigências da cultura
às suas características pessoais tais como valores sociais diferenciados, idade,
corpo em desenvolvimento ou envelhecimento, condições socioeconômicas,
necessidade de autoexpressão diferenciada, entre outros.
Por fim, esperamos que este trabalho proporcione alívio aos leitores ao
demonstrar que o sofrimento parece solitário, uma vez que ele é vivido na
intimidade do nosso corpo e da nossa psique. Não obstante, tal sofrimento é fruto
da inserção social, o que o torna, de certo modo, coletivo e inevitável.
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132 ANEXOS
133 ANEXO I
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Este termo, em duas vias, é para certificar de que eu,................................................... ….........................................................................................................,................................................
RG:.....................................................,concordo em participar na qualidade de voluntário, do projeto científico “A influência do peso corporal sobre o ato de se vestir”, cujo objetivo é observar as vivências associadas ao peso corporal e ao uso das roupas no cotidiano, realizado pela psicóloga Maristela dos Reis Souza. Por meio deste, dou permissão para ser entrevistado e para estas entrevistas serem gravadas em áudio digital. Estou ciente de que as gravações serão apagadas após o término desse estudo. Declaro que os objetivos e detalhes desse estudo foram‐me completamente explicados, conforme seu texto descritivo. Estou ciente de que sou livre para recusar a dar resposta a qualquer questão durante as entrevistas e se, em qualquer momento, quiser interromper a participação na pesquisa, esta autorização não mais será válida, sem ser em nada prejudicado. As informações obtidas serão utilizadas com ética na elaboração de trabalho científico, que poderá ser utilizado para publicação em meios acadêmicos e científicos. Meu nome não será utilizado nos documentos pertencentes a esse estudo e a confidencialidade será garantida. Desse modo, concordo em participar do estudo e cooperar com a pesquisadora. Nome: _________________________________ Assinatura: _________________________ São Paulo, ___ de ______________ de __________. Pesquisadora: Maristela dos Reis Souza RG: 34.XXX.XXX‐3 Tel.: (11) 9463.0000 [email protected] 134 ANEXO II
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA ROTEIRO DE ENTREVISTA Nome:____________ Sexo: ( )feminino ( )masculino idade:____ Peso:_______ Altura: _______ Estado civil:____________ no.Filhos:_______ profissão:____________ IMC: ________________ 1. No seu dia a dia, você se sente bem vestido (a) ( )sempre ( )quase sempre ( )às vezes ( )raramente ( )nunca Por que? 2. Você acha que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora? ( )sim – Fazer pergunta A ( )não – pular para a pergunta 3 A. O que falta para você se sentir melhor vestido(a)? 1( )dinheiro 2( )orientação profissional sobre o que vestir 3( )roupas de modelos e estilos variados 4( )ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa 5( )outros motivos B. Ter a(o)______(item escolhido), faria com que você se sentisse melhor vestida(o) de que maneira? 3. Você tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados para você? ( )sim – fazer pergunta A ( )não – prosseguir para pergunta 4 ( )agora não – fazer a pergunta B A. Como você se sente diante desta situação? B. Como você se sente diante da situação relatada? 4. Você está satisfeito(a) com seu peso corporal? ( )sim ( )não Pq? 5. Você já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir? ( )sim – ( )ganhar ( )perder Por que? ( )não – encerrar a entrevista A. Diante da situação relatada, como você se sente? B. O que você fez para solucionar este conflito? 
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Maristela dos Reis Souza A influência do peso corporal sobre o ato