1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC/SP Maristela dos Reis Souza A influência do peso corporal sobre o ato de vestir-se MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA São Paulo 2011 2 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC/SP Maristela dos Reis Souza A influência do peso corporal sobre o ato de vestir-se MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Psicologia Clínica, sob a orientação da Profa. Dra. Denise Gimenez Ramos. São Paulo 2011 3 Banca Examinadora: _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ 4 AGRADECIMENTOS Aos meus pais, Adriano e Vanda, por acreditarem e apoiarem o desenvolvimento do meu potencial acadêmico, inicialmente, muito mais do que eu. À minha filha Maria Luiza, por ter pacientemente dividido a minha atenção, minha preocupação e o meu carinho com o presente trabalho. À minha orientadora Denise Gimenez Ramos, pela coragem em acreditar e apoiar o desenvolvimento de um tema tão delicado e complexo, sempre com muita alegria, curiosidade e prazer em pesquisar as diversas nuances da alma humana. Às professoras Cristiane Mesquita e Liliana Liviano Wahba, pela disponibilidade para se aventurarem comigo e com minha orientadora na compreensão de um objeto de estudo que exigiu de todas nós dividir o saber, e ao mesmo tempo, suportar o não saber. À minha amiga Clarissa de Franco pela parceria e inspiração constantes, ao ler, refletir e trabalhar junto, tornando muitas vezes meu próprio trabalho mais inteligível para mim mesma. Às minhas amigas e companheiras de jornada – Denise Mathias, Lara Caldas, Talita Baltazar, Priscila Torolho, Gisele Azanuma, Monalisa Dibo – pelos diálogos sempre estimulantes, divertidos e reconfortantes. À minha amiga Iraci Suzart, por acreditar e apoiar a pesquisa com participantes, cedendo pacientemente seu espaço de trabalho devido à sua sábia convicção de que o conhecimento é um dos mais importantes alimentos da alma. Á Tatiana Suzart e Salomão de Abreu, por me aproximarem da Iraci, bem como dividirem observações, orientações e dicas inesquecíveis a respeito da interação humana. À Anita Costa Maluf e Erotilde de Franco, pela disponibilidade ao ensinarem, corrigirem e me tranquilizarem na dura tarefa de conciliar gramática, ortografia, coerência e um quase desespero em ser compreendida através da escrita. À Wolney Martini, pelo diálogo sempre estimulante e provocativo tanto dos conceitos quanto das pré-concepções da teoria psicológica junguiana. À CAPES, pelo financiamento de parte da presente pesquisa. 5 DEDICATÓRIA Em 10 de junho de 2006, estava cursando o último ano da graduação em Psicologia. Há meses eu sonhava diariamente com roupas de todo tipo. Ao mesmo tempo, eu trabalhava o embrião da presente dissertação – isto é, meu trabalho de conclusão de curso. Nesta data, eu fui dormir com uma pergunta angustiante da cabeça: “Para onde eu vou seguir com minha carreira profissional?”. Em resposta, tive o seguinte sonho. “(...)Minha casa está desmoronando e corro com a minha companheira do trabalho de conclusão de curso rumo ao desconhecido. Andando pelos fundos de várias casas, escolhemos uma e entramos. Nos fundos desta casa havia muitas crianças órfãs e desabrigadas. Estavam naquele cômodo a espera de cuidados. Tinha mais de 100 crianças entre 5 e 12 anos naquele quarto. A minha companheira tentou me sensibilizar para cuidar das crianças ou ter meus próprios filhos. Eu respondi que não os teria nunca porque não tinha dinheiro para sustentálos. Logo em seguida, atravessamos para a parte da frente da casa e chegamos à sala de estar. Era enorme, luxuosa e percebemos que a casa pertencia a alguém. Entrou na sala uma senhora. Ela tinha entre 50 e 60 anos. Cabelos brancos, curtos, bem vestida e de porte elegante. Ela me disse: “Se não pode ter filhos, agora você vai poder”. Ela estendeu as mãos e me deu um saco transparente com uma pequena fortuna em dinheiro e alguns documentos para assegurar que a doação não tivesse problemas. Ela prosseguiu dizendo: “O dinheiro será suficiente para cuidar dos seus filhos e das crianças que estão nos fundos. Eu estou esgotada, cansada, logo eu não terei mais forças para cuidar deles. Tenho herdeiros que querem o dinheiro, mas que não querem cuidar das crianças”. Então, neste momento, eu ganhei a casa, mais de 100 crianças para cuidar, uma pequena fortuna em dinheiro, mas não sabia por onde começar.” Assim, esta dissertação representa o início de uma jornada pessoal. Dedico este trabalho aos aspectos psicológicos desamparados e que esperam por cuidado dentro de cada um de nós. 6 RESUMO SOUZA, Maristela dos Reis. A influência do peso corporal sobre o ato de vestirse. 2011. 134f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2011. Possuir índice de massa corporal “obesidade” e ser cuidadoso com sua aparência física podem ser características pessoais inconciliáveis para os indivíduos gordos. Assim, o objetivo geral da pesquisa foi compreender qual é o tipo de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e a aquisição e uso de roupas. A pesquisa utiliza o conceito de “persona” – provindo na Psicologia Junguiana – a fim de compreender esta relação dentro do ponto de vista psicológico. O método da pesquisa consiste na entrevista semi-aberta e na mensuração do “índice de massa corporal” de 40 homens e 40 mulheres distribuídos entre cinco categorias do IMC: normal, sobrepeso, e obesidade classes I, II e III. Os dados foram analisados a partir do cruzamento entre as questões fechadas que mais destacaram percentualmente e o discurso emitido pelos participantes ao justificar sua escolha. Encontramos uma relação linear entre o IMC e as três variáveis: sentimento de exclusão, dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados e insatisfação com o peso corporal. A preocupação com o peso corporal no ato de vestir-se gera sofrimento não só para os participantes com IMC obesidade, mas também para os participantes com IMC normal e IMC sobrepeso. Palavras-chave: persona, IMC, obesidade, roupa, psicologia Analítica. 7 ABSTRACT SOUZA, Maristela dos Reis. The influence of body weight in the act of clothing. 2011. 134l. Dissertation (Master in Clinical Psychology). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2011. Possessing a Body Mass Index (BMI) categorized as “obese” and taking care of physical appearance may be two irreconcilable characteristics among fat individuals. Therefore, the overall objective of this research is to understand what type of relation exists between the body weight of these individuals and the act of acquiring and wearing clothes. This research uses the concept of “persona” – from Jungian Psychology – to understand this issue in a psychological perspective. The methodology used involves semi-structured interviews and the measurement of the Body Mass Index of 40 males and 40 females, distributed between five BMI categories: normal range, overweight and obesity classes I, II and III. The data was analyzed by crossing the closed questions that stood out in terms of percentage with the verbalizations of the participants aimed at justifying their choices. We have found a linear relation between the BMI and the following variables: the feeling of exclusion, difficulty in finding clothes of adequate size and dissatisfaction with body weight. Worrying about body weight causes suffering not only in participants with “obese” BMI, but also in participants with normal BMI and “overweight” BMI. Keywords: persona, BMI, obesity, clothing, Analytical Psychology. 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................ 10 CAPÍTULO I .................................................................................................... 17 1. PERSONA E SOMBRA: ADAPTAÇÃO SOCIAL RUMO À EXPRESSÃO DO SI-MESMO .............................................................. 17 1.1. Ego ............................................................................................ 17 1.2. Sombra ...................................................................................... 18 1.3. Persona ..................................................................................... 19 1.4. O Processo de Individuação ..................................................... 21 1.5. A Dinâmica Psicológica que Subjaz ao ato de vestir-se ........... 24 CAPÍTULO II ................................................................................................... 28 2. ROUPA E CORPO: INTERAÇÃO ENTRE A FORMATAÇÃO SOCIAL E O CONFORTO INDIVIDUAL ............................................................. 28 2.1. A percepção cultural do peso corporal ..................................... 28 2.2. A interação entre roupa e corpo ............................................... 33 2.3. A necessidade de conforto corporal ......................................... 34 CAPÍTULO III .................................................................................................. 38 3. MÉTODO .............................................................................................. 38 3.1. Objetivos ................................................................................... 38 3.2. O plano inicial de pesquisa ....................................................... 38 3.3. IMC como critério de escolha .................................................... 39 3.4. As características dos participantes .......................................... 41 3.5. Instrumentos utilizado ............................................................... 42 3.6. A coleta de dados ..................................................................... 43 3.7. Método estatístico aplicado na análise dos dados .................... 47 CAPÍTULO IV ................................................................................................. 49 4. ANÁLISE DOS RESULTADOS ........................................................... 49 4.1. Q1: “No seu dia a dia, você se sente bem vestido?” ................ 4.2. Q2: “Você acha que poderia estar melhor vestido do que você está agora?” .............................................................................. 49 55 9 4.2.1. Q2A1B: Opção – falta dinheiro para nos sentirmos melhor vestidos .............................................................. 58 4.2.2. Q2A2B: Opção – Orientação profissional sobre o que vestir .............................................................................. 60 4.2.3. Q2A3B: Opção – Faltam roupas de modelos e estilos variados ......................................................................... 64 4.2.4. Q2A4B: Opção – ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo.................................................................. 70 4.2.5. Q2A5B: Opção – outros motivos não citados pela pesquisadora, mas que o participante considera importante....................................................................... 4.3. 75 Q3: “Você tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados para você?” ....................................... 79 4.3.1. Q3A: Opção – Sim, eu tenho dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados ................................... 81 4.3.2. Q3B: Opção – “Agora não. Eu já tive, mas hoje não tenho mais dificuldade para achar roupas de tamanhos 4.4. adequados.”.................................................................... 88 Q4: “Você está satisfeito com seu peso corporal?”................... 91 4.4.1. Análise da satisfação e da insatisfação com o peso corporal........................................................................... 4.5. 92 Q5: “Você já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir?........................................... 103 4.5.1. Q5a: “Por que você sentiu vontade de ganhar/perder peso?” ............................................................................ 106 4.5.2. Q5aA: “Como você se sentiu diante da vontade de ganhar/perder peso?” .................................................... 113 4.5.3. Q5aB: “O que você fez para solucionar o dilema que provocou a vontade de ganhar/perder peso?” ............... 115 CONCLUSÃO ................................................................................................. 120 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................. 129 ANEXOS ......................................................................................................... 132 10 INTRODUÇÃO O presente trabalho surgiu da necessidade de compreender qual é o tipo de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e o uso que eles fazem de suas roupas. Mais precisamente, buscamos compreender esta relação dentro do ponto de vista psicológico – isto é, recortando os sentimentos experimentados pelos indivíduos durante o comportamento de vestir-se. A escolha do recorte afetivo se deve tanto a um incômodo pessoal da pesquisadora quanto à sua formação profissional. Quanto ao incômodo pessoal, a pesquisadora conviveu com muitas pessoas que possuem índices de massa corporal (IMC) sobrepeso e obesidade. Ela observou que estar com IMC acima do normal pode tornar mais difícil a execução de algumas tarefas do dia a dia. Uma destas tarefas chamou a atenção da pesquisadora: cuidar da aparência física. A imagem corporal total de uma pessoa – isto é, sua aparência física – é resultante da interação entre corpo humano, roupa e modificações corporais visualmente perceptíveis, tais como estilo de cabelo, tatuagem, maquiagem, entre outros. Contudo estar com IMC acima do normal e ser cuidadoso com sua aparência parecem ser características pessoais inconciliáveis. Especialmente se observarmos mais atentamente a aquisição e o uso de roupas – isto é, o ato de vestir-se. Diante de uma ocasião festiva, de uma entrevista de emprego, de um encontro romântico, ou mesmo para ficar em casa, o indivíduo com IMC acima do normal se depara com a falta de roupa adequada. Este desconforto pode ser vivido por indivíduos de qualquer IMC, mas é possível que esta vivência seja mais frequente e dolorosa para aqueles com IMC sobrepeso e obesidade. Uma vez que ao tentar compor uma bela aparência física, vários fatores culturais e individuais inerentes ao excesso de peso podem dificultar o alcance desse objetivo. A presente pesquisa parte do pressuposto que o ato de se vestir ocorre em dois níveis: a vivência material e a vivência emocional. Tais vivências ocorrem simultaneamente e se complementam durante a aquisição e uso das roupas. Chamamos de vivência material a relação que o indivíduo estabelece com todos os elementos tangíveis envolvidos no ato de se vestir, tais como: a modelagem e o estilo de roupas disponíveis nas lojas; roupas feitas sob medida 11 ou produzidas pelo próprio indivíduo; recursos financeiros disponíveis para comprar roupa; gênero sexual; as dimensões corporais de cada indivíduo, como tamanho e formas; entre outros. A vivência emocional refere-se aos sentimentos que o indivíduo pode experimentar durante a aquisição e uso de roupas, tais como: tristeza, frustração, irritação, constrangimento, satisfação, entre outros. É justamente a vivência afetiva que permeia o ato de vestir-se que nos interessa compreender, bem como a dinâmica emocional que a caracteriza. Como as vivências emocionais e materiais ocorrem em paralelo, não podemos realizar uma separação de fato entre elas. Assim, propomos esta separação didática a fim de delimitar nosso objeto de estudo. Contudo na pesquisa com participantes, observamos também a importância da vivência material. Sabemos pouco sobre como os indivíduos de cada categoria do IMC lidam com a tarefa social de vestir-se. O presente trabalho visa preencher parte desta lacuna através da compreensão dos comportamentos e sentimentos vividos por 40 homens e 40 mulheres distribuídos em cinco categorias do IMC – normal, sobrepeso, obesidade I, obesidade II e obesidade III – que participaram da presente pesquisa. Estabelecemos como primeiro objetivo específico do estudo observar se a variável índice de massa corporal (IMC) interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas. Ao mesmo tempo, o excesso de peso corporal é percebido de modo diferente nos corpos masculinos e femininos. Deste modo, definimos como segundo objetivo específico identificar se a variável gênero interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas. Ao ler as reflexões teóricas de alguns autores e os discursos dos participantes, podemos encontrar o uso da expressão “acima do peso”. No presente trabalho consideramos as expressões “acima do peso”, “acima do IMC normal” e “acima do IMC esperado para sua idade e altura” como sinônimas. Uma vez que nos três casos a palavra “acima” parte do mesmo referencial: o índice de massa corporal ou IMC. Este índice estabelece qual é o peso adequado para cada altura corporal. Caso o peso de uma pessoa esteja acima do adequado para sua altura, ela será considerada acima do IMC normal e fará parte de outras quatro categorias do IMC: sobrepeso, obesidade classe I, obesidade classe II e 12 obesidade classe III. A definição deste índice, bem como sua importância e categorias estão descritas no capítulo três. Ao ler as reflexões de alguns autores, encontramos o uso dos termos “acima do peso” e “gordo” como sinônimos. Assim, optamos por manter o uso original dos termos em nossa dissertação a fim de facilitar a compreensão do conteúdo apresentado. Utilizamos o conceito de IMC ao invés do peso corporal em nosso estudo por três motivos. Primeiro, porque este índice considera o peso proporcionalmente à altura. Isto é, dois indivíduos com o mesmo peso, mas com alturas diferentes, possuem tipos físicos diferentes. Assim, mensurar não só o peso, mas também a altura permite o agrupamento de participantes com tipos físicos semelhantes. Segundo, a “Organização Mundial de Saúde” considera este índice o método mais simples, barato e eficaz para calcular a quantidade de gordura existente no corpo humano. Terceiro não existem outros procedimentos antropométricos mais adequados para pesquisas com participantes realizadas em locais públicos. Os principais referenciais teóricos utilizados nesta dissertação são a Psicologia Analítica, as reflexões teóricas a respeito da relação entre roupa e corpo, e as pesquisas com participantes relatadas em artigos científicos. Utilizamos alguns conceitos da Psicologia Analítica a fim de compreender a dinâmica psicológica que subjaz ao ato de vestir-se. A principal contribuição desta teoria psicológica para o entendimento do nosso objeto de estudo é o conceito de “persona”. Posto que tanto a inevitabilidade das relações sociais quanto a inserção – mesmo que involuntária – dos indivíduos na vida social e cultural estão implícitas nesse conceito. Dito de outro modo, o conceito de “persona” pressupõe que todos os indivíduos devem lidar com as diversas exigências da cultura e da vida em sociedade. Usar roupas é uma dessas exigências. Por outro lado, a teoria psicológica junguiana também considera inevitável ser quem se é, isto é, conviver com as próprias características físicas e psicológicas mais singulares. Diante dessa interação entre a coletividade e a individualidade, cabe ao “ego” esforçar-se para equilibrar essas exigências caso a caso, dentro das particularidades da vivência de cada indivíduo. A definição e a relação entre os conceitos junguianos – ego, sombra, persona e processo de 13 individuação – bem como a dinâmica psicológica que subjaz ao ato de vestir-se, encontram-se no primeiro capítulo. Encontramos inúmeras reflexões teóricas a respeito da relação entre roupa e corpo. Contudo o nosso interesse pelo corpo gordo limitou nossas opções de bibliografia e autores. Os principais autores utilizados foram Castilho e Vicentini (2008), Fischler (2005), Flügel (1966), Kaiser (1998) e Pope (2000). De um modo geral, tais pesquisadores propõem que a aparência corporal é formatada de acordo com as expectativas sociais. Tal formatação parece garantir a inserção social dos indivíduos. O excesso de gordura corporal tem significados sociais diferentes nos corpos masculinos e femininos. Esta diferença pode ser determinante na qualidade da relação que homens e mulheres com IMC sobrepeso e obesidade têm com seus corpos. É importante enfatizar que este agrupamento de reflexões é heterogêneo – isto é, não apresenta um consenso teórico – posto que tal heterogeneidade é fruto da complexidade do objeto pesquisado. Estas reflexões foram relatadas no capítulo dois. Utilizamos as seguintes palavras-chave durante a revisão bibliográfica de artigos: roupa/clothing e sentimentos/feelings e sobrepeso/overweight e mulher/woman. A palavra “roupa/clothing” é um termo de uso popular. Interessava-nos obter qualquer tipo de produção científica que fizesse menção ao vestuário. Não importando se a roupa é o objeto principal da pesquisa, ou se ela aparece como um dado relevante na análise de resultados. Outras palavras como vestuário, indumentária, apparel, garment e clothes são termos mais técnicos. Eles se restringem os artigos encontrados no campo de estudo da disciplina “Moda” e excluem aqueles que pertencem a outras disciplinas. A palavra “sentimentos/feelings” é outro termo de uso popular e cotidiano. Geralmente é utilizado para expressar algo que experimentamos individualmente. Os termos “sentimentos/feelings” têm um uso bem específico na disciplina “Psicologia”. Não obstante, em outras disciplinas ligadas à saúde e ao vestuário, o termo pode indicar uma vivência emocional que surgiu em algum momento da pesquisa relatada. Mesmo que esta vivência seja secundária dentro dos interesses do pesquisador. Selecionamos artigos que fizessem alguma referência aos sentimentos relativos ao ato de se vestir, tais como sensações corporais (desconforto, pressão, dor), emoções (raiva, frustração, revolta, alegria, 14 tranquilidade) ou qualquer outra vivência mais íntima relatada pelo participante em relação às suas roupas. A palavra “sobrepeso/overweight” pode ter um ou dois significados dependendo do idioma. Em inglês, overweight pode significar “acima do peso” ou se referir à terceira categoria do IMC. Em português, o termo “sobrepeso” se refere exclusivamente à terceira categoria do IMC. O termo foi utilizado na pesquisa porque os dois significados são compatíveis com nossos propósitos. Ao realizarmos uma busca com a palavra “mulher/woman” encontramos estudos realizados com homens e mulheres, bem como somente com mulheres. No entanto, não encontramos estudos realizados somente com homens. Não encontramos artigos de pesquisas que tinham por objetivo estudar a relação entre o comportamento de vestir-se e o IMC dos indivíduos. Contudo, a relação entre estas duas variáveis surgiu durante a análise de resultados de três estudos onde a dimensão corporal individual – como o peso corporal e o tamanho da mama – era uma das variáveis controladas pelos pesquisadores. Tais estudos mostram que os participantes se preocupavam com o conforto e o bem-estar corporal ao adquirir uma roupa. Tal preocupação parece se traduzir na preferência dos indivíduos por roupas adequadas às suas formas corporais. A fim de compreender a relação entre o IMC e o ato de vestir-se, optamos por utilizar parte do método de pesquisa do estudo realizado por Baturka et al. (2000). Estes pesquisadores entrevistaram 24 participantes do sexo feminino distribuídas entre as seguintes categorias do IMC: normal, sobrepeso e obesidade. Os resultados do estudo norte-americano apontam que o ato de se vestir influencia o modo como o indivíduo sente-se a respeito do seu peso corporal. O contrário também pode ser verdadeiro. A descrição completa dessa pesquisa encontra-se no capítulo dois. Contudo o estudo não deixa claro qual é a importância dos elementos envolvidos nesta relação, tampouco a dinâmica psicológica que se dá entre eles. Como o estudo foi realizado somente com mulheres, também não é possível saber se tal influência ocorre também entre os homens. Frente aos resultados apresentados por Baturka et al. (2000), estabelecemos nosso terceiro objetivo específico: observar se há relação entre a aquisição e/ou uso de roupas e a satisfação com o peso corporal. Em nossa pesquisa, utilizamos o mesmo método de distribuição da amostra por IMC. 15 Os participantes de nossa pesquisa foram os transeuntes de três locais da cidade de São Paulo: Rua Teodoro Sampaio, Rua Domingos de Moraes e campus universitário SENAC Santo Amaro. No momento em que as pessoas passavam por estes locais, elas eram convidadas a participar da pesquisa. Ao aceitarem, estes participantes passavam por duas etapas. A primeira consistia na mensuração de seu peso corporal numa balança digital, bem como na mensuração de sua altura numa fita métrica presa à parede ao lado da balança. A segunda etapa consistia em responder a uma entrevista semiaberta com duração aproximada de dois minutos. Contudo, alguns procedimentos inicialmente planejados para a pesquisa foram alterados ao longo da atividade a fim de se adequar a duas dificuldades encontradas. Uma delas foi o receio dos participantes em subir na balança em um local público. A outra dificuldade encontrada foi a recusa dos transeuntes do gênero masculino em concederem uma entrevista sobre roupas. Mesmo diante de tais dificuldades, preferimos realizar a coleta de dados num local público a fim de garantir que as respostas se aproximem ao máximo da vivência cotidiana. Uma vez que grande parte dos participantes passaram em frente a vitrines de lojas de roupas alguns instantes antes de serem entrevistados. O relato completo do perfil dos participantes, os instrumentos utilizados, os locais de pesquisa, bem como os procedimentos utilizados para realizar a coleta de dados estão descritos no capítulo três. O método de análise dos resultados consiste em estabelecer um paralelo entre as alternativas escolhidas na entrevista (ANEXO II) que mais se destacaram percentualmente e o discurso emitido pelos participantes ao justificar sua escolha. Os discursos selecionados contêm as palavras citadas com mais frequência em cada grupo de respostas. De um modo geral, encontramos que o peso corporal interfere e provoca sofrimento no ato de vestir-se tanto para os participantes mais leves – com IMC normal e sobrepeso – quanto para os participantes mais pesados – com IMC obesidade I, II e III – só que por motivos diferentes. Os resultados obtidos e sua análise encontram-se descritos no capítulo quatro. A dissertação foi dividida em quatro capítulos, além de um uma reflexão inicial introdutória. No capítulo um, propomos o diálogo da Psicologia Analítica com o objeto de estudo. No capítulo dois, apresentamos a bibliografia encontrada, 16 incluindo as pesquisas com participantes e as reflexões teóricas. No capítulo três, descrevemos o método utilizado na pesquisa com participantes. Já no capítulo quatro, relatamos e analisamos os resultados obtidos. Por fim, posteriormente apresentamos as conclusões resultantes do estudo. 17 CAPÍTULO I 1. PERSONA E SOMBRA: ADAPTAÇÃO SOCIAL RUMO À EXPRESSÃO DO SI-MESMO O presente trabalho se propõe a compreender a dinâmica psicológica que subjaz à relação entre o peso corporal e o ato de vestir-se. Este primeiro capítulo apresenta alguns conceitos relativos ao tema sob o enfoque da Psicologia Analítica. Nos quatro primeiros tópicos do capítulo, abordamos os conceitos de ego, sombra, persona e processo de individuação. No quinto tópico, apresentamos nossa hipótese a respeito da dinâmica psicológica que subjaz ao ato de vestir-se, principiando o diálogo entre a teoria e o objeto de estudo. Iniciar o capítulo com um conteúdo básico visa atender a dois objetivos. Primeiro, construir uma base conceitual que nos permita realizar o diálogo da teoria psicológica junguiana com nosso objeto de estudo no decorrer de todo o trabalho. Segundo, facilitar a compreensão dos leitores poucos familiarizados com essa teoria. 1.1 – Ego A psicologia junguiana parte do pressuposto que a psique é composta de conteúdos conscientes e inconscientes. Os conteúdos conscientes são aqueles cuja existência reconhecemos. Já os conteúdos inconscientes são aqueles que estão no limiar da consciência ou não a alcançaram, porém constituem a semente de futuros conteúdos conscientes (JUNG, VII/2, 2008). Estes conteúdos podem ter duas origens: pessoal e coletiva. Conteúdos pessoais são aqueles adquiridos durante a existência individual, ou que reconhecemos como provindos de um ponto específico da nossa história pregressa. Os conteúdos coletivos são aqueles impessoais, que surgem sob a forma de arquétipos (JUNG, VII/2, 2008). A mediação entre consciência e inconsciente, bem como entre o individual e o coletivo, é realizada pelo ego. O ego é um complexo funcional que constitui o 18 centro do campo da consciência (PIERI, 2002). Ele contém as características que o indivíduo reconhece como “eu”. “(...) dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa” (JUNG, IX/2, 2008, §1). Mas este eu (...) alcança sempre o seu limite, todas as vezes que toca o âmbito do desconhecido. Este desconhecido é constituído por tudo quanto ignoramos, por tudo aquilo que não possui qualquer relação com o eu enquanto centro da consciência” (JUNG, IX/2, 2008, §2). 1.2 – Sombra No instante em que o ego toca o desconhecido no mundo interior, ele encontra o “mundo das sombras. Ali o ego se torna ligeiramente obscuro, não enxergamos e tornamo-nos um enigma aos nossos próprios olhos” (JUNG, XVIII/1, 2008, §38). O termo sombra refere-se a um campo da psique que contém características de personalidade – como tendências, atitudes, desejos, entre outros – que o ego desconhece ou rejeita. Tais características se encontram em estado indiferenciado ou fracamente diferenciado, porém constituem o germe de futuras qualidades do ego (JUNG, XVIII/1, 2008). Os traços que estão na sombra podem ser considerados “inadmissíveis, injustos ou imperfeitos” segundo os valores morais aceitos pelo ego (JUNG, XVIII/1, 2008, §40). Quando tais características se aproximam do campo da consciência, o indivíduo sofre com a possibilidade destes traços pouco lisonjeiros serem seus. Assim, o ego pode reprimir e/ou projetar estes conteúdos. Entendase reprimir como não permitir que eles permaneçam no campo da consciência. Entenda-se projetar como deslocar estes conteúdos para algo diferente de si, como outra pessoa, um objeto, entre outros. Se na repressão um conteúdo psicológico é removido da consciência, na projeção tal conteúdo não alcança a consciência (PIERI, 2002). A repressão tem por objetivo evitar o sofrimento, bem como constituir uma personalidade consciente aceitável moralmente. Contudo, reprimir os conteúdos da sombra implica também interromper o desenvolvimento de futuras qualidades individuais. Dado que 19 Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras consagradas pela tradição. (JUNG, XI/1, 1987, §134) O ego pode integrar parte da sombra – isto é, reconhecer e aceitar algumas destas qualidades pouco diferenciadas como parte do que o indivíduo conhece como eu. Este movimento de integração da sombra ocorre a partir dos esforços do ego para adaptar-se aos conteúdos psíquicos desconhecidos (JUNG, IX/2, 2008, §11 §16). 1.3 – Persona O ego também é responsável por mediar a relação entre o indivíduo e a sociedade. Entenda-se sociedade como: pessoas e situações através das quais operam os valores e formas de vida guardados e veiculados pela cultura. Para realizar tal mediação, o ego utiliza o mecanismo de adaptação social da persona. Persona é o mecanismo psicológico relativo a atitudes que satisfazem alternadamente às aspirações sociais do indivíduo e às exigências e opiniões do meio ambiente. O produto deste mecanismo é uma “máscara”, ou seja, uma atitude momentânea ajustada às circunstâncias e expectativas do ambiente social (JUNG, VI, 2009, §754). Tamanha capacidade de adaptação se deve ao fato da persona conter todas as modalidades expressivas que jazem na psique coletiva. Estas modalidades são, ao mesmo tempo, veiculadas pela psique coletiva consciente e inconsciente (JUNG, VII/2, 2008, §245; PIERI, 2002). “Cada meio ambiente requer uma atitude especial. Quanto mais for exigida esta atitude pelo respectivo ambiente, mais rapidamente ela se tornará habitual” (JUNG, VI, 2009, §753). Esta atitude habitual corresponde à definição de persona enquanto papel social desempenhado pelos indivíduos em situações coletivas. Posto que a persona (...) representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que ‘alguém aparenta ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo’. De certo modo, tais dados são reais; mas em relação à individualidade 20 essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma cota maior do que a do indivíduo em questão. (JUNG, VII/2, 2008, §246) A teoria junguiana parte do pressuposto que a psique individual é intimamente associada a psique coletiva: “Do mesmo modo que o indivíduo não é apenas um ser singular e separado, mas também um ser social, a psique humana também não é algo isolado e totalmente individual, mas também um fenômeno coletivo” (JUNG, VII/2, 2008, §235). Ego e persona surgem ao mesmo tempo no decorrer do desenvolvimento psicológico individual. Desde as primeiras experiências infantis, parte do que é experimentado como “eu” é determinado pelo coletivo. Exemplos disso são o nome, o sobrenome e o gênero sexual1, bem como outros predicados sociais que são atribuídos ao indivíduo por conta de suas características biológicas e das expectativas parentais (WHITMONT, 1990). Deste modo, o ego e os atributos sociais tendem a ser percebidos como uma coisa só no início da vida do indivíduo (JUNG, VII/2, 2008, §247). Esta identificação faz com que o ego desempenhe uma persona, mas não tenha consciência dela. Isto é, o indivíduo não sabe quais valores e formas de vida ele propaga. Ao adquirir consciência da persona exercida, o indivíduo poderá escolher quais valores e formas de vida ele deseja propagar através das suas atitudes habituais. Em todo caso, ele não estará desobrigado de atuar na vida coletiva, posto que o ser humano não pode prescindir da inter-relação social e cultural. A soma da inconsciência da persona à inevitabilidade da interação social tende a colocar o indivíduo numa posição passiva frente à cultura (PIERI, 2002). A inconsciência da própria persona implica também obliterar o desenvolvimento de uma noção de “eu” mais ampla, para além das expectativas sociais. Seria incorreto, porém, encerrar o assunto, sem reconhecer que subjaz algo de individual na escolha e na definição da persona; embora a consciência do ego possa identificar-se com ela de modo exclusivo, o simesmo inconsciente, a verdadeira individualidade, não deixa de estar sempre presente, fazendo-se sentir de forma indireta. Assim, apesar da consciência do ego identificar-se inicialmente com a persona – essa 1 Como veremos ao longo do texto, “sexo” refere-se às diferenças biológicas entre macho e fêmea, enquanto, “gênero” é uma construção social a respeito do que é masculino e feminino (KAISER, 1998). 21 figura de compromisso que representamos diante da coletividade, o simesmo inconsciente não pode ser reprimido a ponto de extinguir-se. (JUNG, VII/2, 2008, §247) Dito de outro modo, se o indivíduo permanece identificado com as atribuições e expectativas sociais, ele sofre. Este sofrimento pode ter dois motivos. Primeiro, porque o não reconhecimento de certas características individuais – que estão reprimidas na sombra – resulta numa vivência incompleta do si-mesmo, da verdadeira individualidade. Segundo, porque ele tende a repetir certos padrões de comportamento que não permitem a expressão adequada da sua individualidade nas relações interpessoais. A fim de reduzir tal sofrimento, o indivíduo pode conscientizar-se minimamente da persona exercida. Isto é, distinguir quais atitudes habituais são compatíveis ou não com sua individualidade. Neste momento, o ego poderá optar por não exercer algumas atitudes. Ao mesmo tempo, poderá optar por começar a exercer outras que expressem melhor sua individualidade. Este processo de escolha consciente das atitudes habituais frente ao mundo permite uma postura mais ativa, legítima e consciente do indivíduo frente à sociedade. Para que o sujeito possa compor uma ou várias personas mais autênticas, é necessário que ele amplie o campo do ego. Tal ampliação ocorre no processo de individuação. 1.4 – O Processo de Individuação A psique humana possui uma meta: o caminho da individuação. Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que ‘nos tornamos nosso próprio simesmo’. (JUNG, VII/2, 2008, §266) Jung considera uma série de aspectos como importantes e influentes no processo de individuação. Para manter o foco da pesquisa – isto é, a dinâmica psicológica do comportamento de vestir-se – vamos considerar somente três deles: ego, sombra e persona. O processo de individuação se dá em dois domínios. De um lado, constitui um processo de integração interna e subjetiva. Onde o ego esforça-se para 22 reconhecer e aceitar alguns traços desconhecidos da psique, a fim de compor uma individualidade mais legítima. De outro lado, constitui um processo de relacionamento externo e objetivo com o meio ambiente e as pessoas que o habitam. Nesse segundo contexto, o ego esforça-se para diferenciar o eu da cultura, e ao mesmo tempo, adequar a expressão desta individualidade às exigências da cultura (BLOMEYER, 1976). Este processo de relacionamento externo pode exigir o contato com o inconsciente. O que facilita, e de certo modo estimula, o processo de individuação. O ego comporta todos os valores morais da cultura aceitos pelo indivíduo conscientemente (PIERI, 2002). Devido a esta identificação com as exigências culturais, o ego tende a utilizar os traços da sua individualidade que são socialmente adequados para compor – consciente ou inconscientemente – a persona. As características individuais que podem ser consideradas inadequadas ao convívio social tendem a ser ocultadas do mundo, consciente ou inconscientemente. Se o ego estiver suficientemente diferenciado das expectativas sociais, o indivíduo pode ocultar traços da sua individualidade conscientemente. Isto é, pode reconhecer e aceitar algumas características individuais como parte do ego, mas optar por ocultá-las na sua vida pública devido à inadequação social destes traços. Neste caso a característica ocultada da sociedade não constitui uma sombra, uma vez que não foi ocultada sem o indivíduo conscientizar-se desta porção da individualidade. Foi antes uma escolha estratégica do ego a fim de preservar tanto sua singularidade quanto sua adaptação social. Embora as características individuais não sejam negativas ou positivas em si, a persona e a sombra formam um par de opostos se avaliados a partir das expectativas sociais. Por um lado, a formação da persona é orientada a partir do ideal social, posto que ela contém aquilo que gostaríamos de ser ou deveríamos ser. Por outro lado, a formação da sombra é orientada a partir das características singulares do indivíduo “que não combinam com o ideal” – isto é, aquelas que não gostaríamos de ser ou não deveríamos ser (BLOMEYER, 1974, p.18). Esta polarização entre persona e sombra tende a ser conflituosa, uma vez que ela tende a desorganizar o ego. Caso o indivíduo permaneça identificado com as expectativas sociais, ele pode paralisar seu processo de individuação. Por exemplo, o ego pode se fundir com a persona a ponto do indivíduo considerar 23 como eu somente seus traços psicológicos e atribuições sociais mais lisonjeiros. As outras características individuais menos lisonjeiras, que não são reconhecidas, ficam na sombra e podem ser projetadas. Tal identificação faz com que o indivíduo exerça uma persona sem vitalidade, bem como critique duramente qualquer atitude alheia mais espontânea. Nesta dinâmica, os conteúdos que estão na sombra e na persona são vividos como cindidos e incompatíveis pelo indivíduo. Não obstante, a consciência deste conflito entre persona e sombra é desejável e positivo no âmbito individual. Posto que este conflito estimula a diferenciação e o desenvolvimento de uma singularidade autêntica (BLOMEYER, 1976). A consciência de tal conflito pode fazer com que o indivíduo sinta a necessidade de desenvolver um “senso de responsabilidade e uma capacidade de julgamento” – a respeito de si mesmo e de suas atitudes – “não necessariamente idênticos aos padrões e expectativas externos e coletivos” (WHITMONT, 1991, p.31). Dito de outro modo, ele pode reconhecer que as características pessoais que estão distribuídas entre a sombra e a persona são na verdade partes de um todo mais amplo: o si-mesmo. No entanto, os conteúdos da persona e da sombra eram tratados como inconciliáveis por conta de sua adesão – sem consciência e reflexão – às expectativas e exigências do coletivo. Diante do conflito entre a persona e a sombra, cabe ao ego se apropriar do desenvolvimento pessoal a fim de reduzir este conflito interno. Pois em geral, tal conflito é vivido com sofrimento. Ao adquirir consciência deste conflito, o indivíduo pode relativizar a importância dada a certas normas e padrões ao escolher qual conjunto de atitudes ele deve tomar frente à sociedade – isto é, qual persona assumir. Dito de outro modo, o indivíduo pode desejar manifestar uma atitude inerente à sua singularidade que não é socialmente desejável. Frente à necessidade de autoexpressão, o ego pode esforçar-se para encontrar um modo de expressão e/ou ambiente social onde tal atitude seja adequada e desejável. Assim, a persona – enquanto mecanismo psicológico de adaptação – pode ser comparada à pele por conta de três características. Primeiro: ela se localiza na fronteira entre o externo e o interno da psique individual, assim como a pele se localiza na fronteira entre o interior e exterior do corpo (BLOMEYER, 1974). Tal localização permite que ela exerça o papel de mediadora entre os conteúdos 24 psíquicos internos e as exigências ambientais. Segundo: mesmo que se queira ou se deva ocultar partes do si-mesmo, sempre há “algo de individual na escolha e na definição da persona” (JUNG, VII/2, 2008, §247) que não se deixa retirar como se fosse apenas uma máscara social (BLOMEYER, 1974). Terceiro: no decorrer do processo de individuação bem sucedido, a persona pode se tornar um “órgão de expressão (comunicação) da personalidade total” frente à sociedade e à cultura (BLOMEYER, 1974, p.19). Uma vez que ela é capaz também de adaptarse às necessidades do indivíduo. Tal capacidade permite que ela negocie constantemente com o coletivo a ampliação da cota de expressão individual nos papéis sociais exercidos. Esta negociação garante tanto vitalidade ao papel social assumido quanto saúde e equilíbrio psíquico ao indivíduo. Em resumo, a dinâmica psicológica conflituosa entre persona e sombra subjaz todos os momentos em que o indivíduo tem de lidar com as exigências da cultura. Cabe ao ego, primeiramente, apropriar-se de parte das características que estão na sombra. Deste modo, o ego pode obter a energia psíquica necessária para utilizar a persona. Esta ampliação do ego permite ao indivíduo escolher conscientemente quais atitudes habituais tomar, a fim de atender ou não tanto as exigências da cultura quanto às da sua própria individualidade. 1.5 – A Dinâmica Psicológica que Subjaz ao ato de vestir-se Na presente reflexão, pressupomos que vestir-se é uma tarefa social. Desde o nascimento, o indivíduo é vestido por outros de acordo com os trajes próprios de sua cultura. Ao longo de seu crescimento, ele vai aprendendo que deve se apropriar da tarefa de vestir-se caso queira conviver em harmonia com o grupo social. Por outro lado, o indivíduo tem a necessidade de ser quem ele é – isto é, ser e expressar sua singularidade. Portanto, torna-se inevitável que o ego esteja em contato com as necessidades, sentimentos, preferências e traços que compõem a individualidade. Este conflito entre as exigências da cultura e as exigências da singularidade apresenta duas limitações ao ego. A primeira: cabe ao ego aceitar que ele não pode se livrar da limitação social e cultural em que se encontra (PIERI, 2002). Isto é, o indivíduo não pode 25 deixar de usar roupas, mas pode conscientizar-se da “possibilidade de assumir criticamente a cultura em que se encontra e de ser ele próprio produtor de cultura” (PIERI, 2002, p.379). Dito de outro modo, o indivíduo pode se apropriar do uso das roupas a fim de exercer e favorecer sua ação pública e prática na vida social. Dependendo de suas ambições pessoais, ele pode optar por vestir uma roupa ou outra a fim de gerenciar as expectativas e opiniões dos outros sobre quem ele é. Sem, no entanto, sentir-se violentado na sua singularidade, pois tem consciência de que o ego vai para além da atitude psicológica e da vestimenta que determinado ambiente social lhe exige. Em resumo, o si-mesmo necessita das roupas e de determinadas atitudes psicológicas para expressar-se nos domínios público e concreto. Se o indivíduo vivencia o vestir-se como uma tarefa que atende somente às expectativas e exigências do coletivo, ele pode sofrer com a sensação de imposição social (PIERI, 2002). Por exemplo, a profissão que ele exerce exige o uso de um modelo de uniforme que não o agrada. Ele o veste, mas faz queixas e sente-se desconfortável todas às vezes que o utiliza. Por outro lado, se o indivíduo tem consciência de que o vestir-se pode ser um veículo de participação no mundo, o ego e o coletivo viverão em constante atrito. Entretanto, o ego poderá desempenhar uma atitude social mais coerente com o si-mesmo (PIERI, 2002). Por exemplo, o indivíduo poderá desejar pequenas reformas no uniforme que não o agrada, a fim de ter mais conforto e adequação às suas necessidades. Feita a reforma, o indivíduo pode continuar um tanto insatisfeito e limitado com essa roupa. No entanto, ele agiu a fim de minimamente adaptar a vestimenta coletiva às suas necessidades e preferências singulares. Numa situação de insatisfação mais significativa, o indivíduo pode criar outro modelo de uniforme que seja mais coerente com suas necessidades e que atenda também às exigências do ambiente profissional. Caso não seja possível realizar qualquer ajuste ou reforma – como um uniforme militar, por exemplo – o ego tende a rever constantemente o quanto a carreira militar é compatível com a individualidade. Caso seja compatível, o ego pode suportar o desconforto corporal imposto por essa vestimenta. Uma vez que tal uniforme permite a expressão da individualidade na carreira escolhida. 26 A segunda limitação: cabe ao ego aceitar que ele não pode se livrar da limitação individual e particular em que se encontra. Dito de outro modo, um indivíduo não pode deixar de ser quem ele é. Por exemplo, uma pessoa não pode usar roupas de qualquer tamanho, modelo ou preço. Dado que a aquisição e uso de roupas será limitada por seu tipo físico, recursos financeiros disponíveis, preferência por determinadas cores, entre outras características individuais. Deste modo, o ego pode se identificar com as características mais peculiares do simesmo, e posteriormente se reconhecer responsável pelo modo como elas são expressas no ato de vestir-se (PIERI, 2002). Se o indivíduo entende o vestir-se como uma tarefa que deve atender somente às expectativas e exigências do coletivo, ele pode sofrer com a sensação de estar inadequado socialmente. Por exemplo, suponhamos que um novo modelo de blusa socialmente desejável chegou recentemente às lojas. O indivíduo prova a roupa, mas sente que ela não é confortável e nem fica bonita em seu corpo. O descompasso de tamanho entre a blusa socialmente desejável e suas dimensões corporais amplas pode provocar uma rejeição das formas físicas. Esta rejeição pode ser notada em pensamentos como: “Gostaria de ser mais magro” ou “Preciso fechar a boca e fazer matrícula na academia amanhã mesmo”. Ao passo que se o indivíduo entende o vestir-se como uma tarefa inicialmente limitada por suas características singulares, ele pode aceitar seus traços físicos e utilizá-los como a principal referência na aquisição e uso de roupas. Por exemplo, ao perceber que essa blusa não é compatível com seus atributos físicos, ele pode procurar outros modelos de roupa menos populares e mais adequados ao seu tipo físico. A roupa menos popular pode fazer com que ele se sinta bonito e confortável, tal como ele esperava se sentir ao provar a blusa que no momento goza de maior prestígio social. Uma vez que o sentimento de satisfação não é provocado pela roupa em si, mas pelo equilíbrio entre suas características pessoais – sejam elas físicas e/ou psicológicas – e a roupa que é possível vestir. Em resumo, ao aceitar as limitações do si-mesmo e da cultura, o ego pode se reconhecer responsável pelo comportamento de vestir-se. Ele pode usar os traços físicos e características psicológicas mais marcantes como referência ao escolher, adquirir e usar as roupas. Ao mesmo tempo, o uso de cada roupa 27 poderá ser estrategicamente escolhido segundo cada ambiente social. Dado que a roupa é um dos elementos que compõem a aparência física mais adequada às ambições sociais do indivíduo. No presente trabalho, consideramos que a roupa simboliza o conflito psicológico caracterizado pela necessidade de adaptação do ego tanto às exigências sociais quanto às exigências do si-mesmo. No momento em que cada indivíduo se vê obrigado a vestir-se a fim de conviver em grupo, este conflito tende a vir à tona. A intensidade, a importância e os sentimentos que caracterizam a necessidade de adaptação do ego a tais exigências variam de pessoa para pessoa. Assim, fica um ensinamento: não se pode estar despido numa situação coletiva. Simbolicamente falando, não é possível abster-se de assumir uma posição perante o outro. Dado que em muitas ocasiões sociais, o indivíduo deverá vestir algo que nada tem a ver com sua personalidade. Em outras ele pode se trocar e vestir algo mais confortável. Em momentos de intimidade, ele pode ficar nu (WHITMONT, 1991). Portanto a roupa é o símbolo da persona enquanto papel social – isto é, enquanto a máscara que corresponde à atitude momentânea do indivíduo e que possibilita a sua participação adequada na vida social. No presente capítulo, apresentamos a dinâmica psicológica que subjaz à interação entre o indivíduo e a exigência cultural e social de vestir-se. No capítulo seguinte, vamos observar como esta dinâmica se manifesta na composição da aparência física na sociedade contemporânea. 28 CAPÍTULO II 2. ROUPA E CORPO: INTERAÇÃO ENTRE A FORMATAÇÃO SOCIAL E O CONFORTO INDIVIDUAL O título deste capítulo trabalha com as duas instâncias fundamentais no processo de gerenciamento da aparência: as expectativas sociais e a personalidade individual. De um lado, as expectativas sociais estabelecem critérios que definem a aparência física mais adequada para os indivíduos. De outro, cabe a cada indivíduo negociar a satisfação destes critérios segundo os limites das suas singularidades físicas e psicológicas. Dessa maneira, o ato de vestir-se parece ser um comportamento cotidiano que envolve variáveis sociais e individuais. Flϋgel (1966) nos lembra que os vários fatores psicológicos que influenciam o ato de vestir-se não têm todos a mesma importância para cada indivíduo. Os motivos pelos quais as roupas são utilizadas parecem ser semelhantes entre eles, mas a atitude que cada um tem em relação às roupas pode se distinguir de várias maneiras. De acordo com os autores encontrados, três elementos parecem ser relevantes na distinção da atitude dos indivíduos: a percepção cultural do peso corporal, a interação entre a roupa e o corpo, e a necessidade de conforto corporal. No presente capítulo, vamos compreender a importância destes três elementos psicológicos na relação entre o peso corporal e o ato de vestir-se. 2.1 – A percepção cultural do peso corporal A percepção corporal é aqui compreendida como o modo como o indivíduo avalia o seu corpo. Esta auto-avaliação depende de quais critérios o indivíduo utiliza para se avaliar, bem como o significado que seu corpo tem, tanto para ele quanto para a cultura que ele compartilha. Se o seu corpo satisfaz estes critérios, predominam sentimentos positivos a respeito de si e do próprio corpo. Caso seu corpo não os satisfaça, predominam sentimentos negativos (KAISER, 1998). 29 Esses critérios que o indivíduo utiliza para se avaliar fisicamente não são criados exclusivamente por ele. Eles provêm do contexto cultural em que ele se encontra. Entenda-se contexto cultural como um “conjunto de significados construídos e partilhados” por um agrupamento social a fim de dar sentido à realidade (SOUSA, 2009, p.02). Cabe ao indivíduo partilhar destes significados e valores culturais a respeito da aparência corporal a fim de adaptar o próprio corpo às exigências do convívio social. Como vimos no capítulo anterior, o indivíduo deve atender não só às exigências do convívio social, mas também às da sua individualidade. Posto que atender a ambas as exigências garante o seu equilíbrio psicológico. A fim de atender às exigências de expressão da sua singularidade no corpo, uma pessoa pode criar seus próprios critérios de auto-avaliação corporal. Assim, ao se avaliar, ela utilizará tanto os critérios individuais quanto os critérios coletivos. O que torna bastante difícil identificar quando um determinado critério de avaliação corporal é uma construção social ou individual. Essa mescla de critérios resulta na composição de uma percepção singular a respeito do próprio corpo. Portanto, vamos considerar no presente capítulo, somente os critérios de avaliação corporal que parecem ser mais relevantes segundo autores que estudam o comportamento de vestir-se. Uma vez que os critérios de percepção corporal individualmente construídos podem ser tão únicos e variados quanto a singularidade própria de cada ser humano. O principal critério de percepção corporal que nos interessa compreender é o de peso corporal. O peso ou a densidade é uma das características materiais que ajudam a formatar o que se reconhece como corpo humano. Portanto, este traço corporal também evoca um conjunto de significados sociais a seu respeito. O significado social do peso corporal pode variar de acordo com o gênero sexual do corpo que possui tal característica. Sexo refere-se às diferenças biológicas entre macho e fêmea. Já o gênero é um conjunto de características a respeito do que é masculino ou feminino. As características de um gênero são determinadas, mantidas e/ou alteradas segundo o contexto social e histórico de cada grupo social (FLÜGEL, 1966; KAISER, 1998). Deste modo, o peso corporal tem um significado diferente na percepção cultural dos corpos masculinos e femininos. Antes, é necessário pontuar as diferenças entre homens e mulheres quanto aos critérios de avaliação corporal, atratividade e aptidão física. 30 Segundo Kaiser (1998) a construção da percepção corporal é diferenciada – entre outras características – de acordo com o gênero. Tanto os homens quanto as mulheres sentem-se bem a respeito de si quando veem seus próprios corpos de forma favorável. No entanto, homens e mulheres variam quanto ao critério que utilizam ao se avaliarem tanto física quanto psicologicamente. A autoavaliação do homem é baseada na sua eficácia física, bem como em traços de personalidade como assertividade e realização. A autoavaliação da mulher é baseada na sua atratividade física, bem como em traços de personalidade como sensualidade e aconchego. Em síntese, culturalmente a aptidão física é associada ao gênero masculino, enquanto que a atratividade física é associada ao gênero feminino. Contudo, nas últimas décadas, ambos acumularam a preocupação em desenvolver estes dois atributos. Desde a década de 1980, é esperado que a mulher também pratique alguma atividade física que promova força e definição muscular. Enquanto que as cirurgias plásticas e os implantes de próteses de silicone em homens triplicaram nos últimos cinco anos (BIDERMAN, 2010; KAISER, 1998; POPE, 2000). Quanto à percepção do peso corporal, há uma diferença entre homens e mulheres. Segundo Kaiser (1998) e Pope (2000) os músculos evidentes são culturalmente valorizados no corpo masculino. Homens que veem a si mesmos como magros e ossudos tendem a se sentir pouco atraentes. Estar envolvido em programas de treinamento físico para ganho de peso e força parece levar boa parte dos homens a experimentar sentimentos positivos sobre seu corpo e aparência física. Segundo Fischler (2005) a percepção cultural a respeito do homem gordo é ambivalente, posto que a sociedade partilha dois estereótipos a respeito dele. O primeiro é o do indivíduo extrovertido, habilidoso nas relações interpessoais, mas sofredor por conta do excesso de peso. O segundo é o indivíduo doente ou depressivo, dotado de uma voracidade incontrolável – nos sentidos físico e psicológico – capaz de aniquilar seus vínculos sociais. Sejam inocentes ou culpados por serem gordos, os homens acima do peso tendem a ser percebidos como transgressores da ordem social. Uma vez que o tamanho do seu corpo parece resultar da violação constante das regras que governam o comer, o prazer, o trabalho, o esforço, a vontade e o controle de si. 31 Fischler (2005) afirma que o corpo de um homem acima do peso, que participa de atividades corporais e ambientes sociais onde a força física é valorizada, tende a ser percebido como forte e não como gordo. Portanto, o corpo masculino acima do peso pode ser associado ao sucesso social principalmente no contexto esportivo. Em especial ao praticar esportes ou exercícios físicos que exijam resistência e dimensões corporais maiores – tais como rugby, futebol americano, musculação, entre outros (KAISER, 1998). Mesmo o homem acima do peso que exerce uma profissão dotada de pouco prestígio social pode ser percebido como forte, caso esta atividade exija força física. Posto que seu porte físico e seu apetite serão justificados pelo esforço físico que lhe é exigido (FISCHLER, 2005). Kaiser (1998) afirma que as mulheres magras em geral tendem a se perceber como mais pesadas do que elas realmente são. A autora apresenta os dados de um experimento sobre percepção corporal a fim de apoiar esta hipótese. Durante o experimento, quando comparada com um homem abaixo do peso, era mais provável que a mulher abaixo do peso considerasse a si mesma com peso normal. Da mesma forma, a mulher com peso normal, quando comparada ao homem com peso normal, tendia a ver a si mesma como acima do peso. Kaiser (1998) também afirma que a percepção cultural do corpo feminino acima do peso é complexa, dado que envolve inúmeros fatores. Ela aponta três que se destacam. O primeiro fator é a incapacidade de atrair sexualmente um homem. A mulher acima do peso tende a ser culturalmente percebida como dotada de capacidade de aconchego, porém portadora de uma sexualidade excessiva ou reprimida. O segundo fator é o descontrole aparente. Estar acima do peso faz com que a mulher pareça incapaz de se controlar – e de controlar seu corpo, seja através da alimentação regrada ou de atividade física regular. O terceiro fator é a fantasia recorrente de como o seu corpo e a sua vida seriam melhores se ela perdesse peso. Tal fantasia é sugerida nas propagandas de produtos e serviços que se propõem a mudar as formas corporais ao serem utilizados. Segundo Kaiser (1998) tanto a mulher com peso normal quanto a mulher acima do peso tendem a experimentar insatisfação com o seu peso corporal. Uma das causas desta insatisfação pode ser o significado cultural da gordura. Pois “(...) 32 uma das características de nossa época é sua lipofobia, sua obsessão pela magreza, sua rejeição quase maníaca à obesidade” (FISCHLER, 2005, p.69). Essa preferência cultural pelo corpo “magro” parece ser mais expressiva em relação ao corpo feminino. Segundo Kaiser (1998) 69% dos corpos femininos e 17% dos corpos masculinos expostos na mídia americana podem ser considerados magros. Não encontramos um estudo estatístico similar em relação aos tipos físicos expostos nas propagandas brasileiras. Entretanto, parece que esta preferência cultural se propaga através das imagens corporais veiculadas nos meios de comunicação. Em resumo, tanto os homens quanto as mulheres acima do peso tendem a ser percebidos culturalmente como pessoas aconchegantes e receptivas ao relacionamento interpessoal. No entanto, tendem a ser vistos simultaneamente como incapazes de controlar a si mesmos e aos seus corpos. Além disso, o rigor da cultura com o excesso de peso corporal parece afetar mais as mulheres do que os homens. Tanto o homem com peso normal quanto o que está acima do peso pode sentir-se bem com seu corpo através da prática esportiva. Tal atividade permite que ele satisfaça o critério aptidão física associado ao seu gênero. Caso um homem seja realmente magro – ou se sinta magro – ele pode aderir ao treino muscular a fim de ganhar dimensões corporais maiores. Caso o homem esteja acima do peso, ele pode participar de atividades esportivas onde este seja visto como forte. Supomos que o homem muito acima do peso possa ser uma exceção a essa regra. Ele pode sentir-se mal com seu corpo logo que o peso comece a diminuir sua eficácia física, isto é, quando o excesso de peso o impedir de realizar algumas funções corporais cotidianas com facilidade – tais como andar, subir escadas ou abaixar-se. Quanto às mulheres de todos os pesos corporais, elas sentem-se bem quando percebem que seus corpos satisfazem o critério de atratividade física. As características corporais que são consideradas atraentes – isto é, desejáveis – variam de uma cultura para outra. Em nosso atual contexto cultural, é desejável que o corpo feminino esteja dentro do IMC normal. Portanto, estar acima do peso corporal esperado para sua idade e altura é estigmatizante – isto é, um atributo indesejável ou que desqualifica socialmente um indivíduo (KAISER, 1998). Deste modo, o corpo feminino acima do peso não satisfaz o critério cultural de 33 atratividade. O que pode fazer com que a mulher acima do peso sinta-se pouco atraente, pouco feminina e insatisfeita com seu corpo. No entanto, chama a atenção o fato das mulheres com peso normal manifestarem uma tendência a considerar seu corpo como acima do peso real. Não encontramos entre os autores uma justificativa coerente para este fenômeno. Mas supomos que esta tendência feminina à insatisfação com peso corporal se deva à inexistência de uma prática e/ou ambiente social capaz de acolher o corpo feminino acima do peso, tal como ocorre na relação entre homens acima do peso normal e a prática esportiva. Ao mesmo tempo, parece não haver ainda uma prática e/ou ambiente social capaz de psicologicamente proteger as mulheres com peso normal da influência da lipofobia cultural. Após definirmos a percepção do peso corporal, o passo seguinte é compreender de que modo a roupa interage com esta percepção. Contudo, não encontramos considerações teóricas a respeito desta interação. Assim, vamos tentar nos aproximar do nosso objeto de estudo de dois modos. Primeiro, apresentamos dois conceitos que relacionam o corpo e a roupa no tópico 2.2. Segundo, observamos como os indivíduos interagem com a roupa conforme suas dimensões corporais e necessidades pessoais. Tal observação foi feita através dos resultados das pesquisas com participantes relatadas no tópico 2.3. 2.2 – A interação entre roupa e corpo Encontramos duas definições pertinentes a respeito do que é a roupa. Na primeira, Kaiser (1998) define o termo roupa como os objetos tangíveis que cobrem e/ou se atam aos nossos corpos a fim de construir a aparência corporal. Entenda-se aparência corporal como a imagem total criada pela interação entre a roupa, o corpo humano, e quaisquer modificações corporais que são visualmente perceptíveis. Essas modificações corporais podem incluir: dietas, estilos de cabelo, usos de cosméticos, tatuagens, piercings, entre outros. A segunda definição encontrada amplia o entendimento a respeito do modo como a roupa produz uma aparência corporal. Castilho e Vicentini (2008) pressupõem que uma dinâmica social permeia e determina a interação entre roupa e corpo. 34 A roupa é uma arquitetura têxtil que marca o papel do sujeito na sociedade. Entendido como um conjunto de trajes e acessórios que se articula com o corpo, o vestuário revela, então, as formas que o corpo assume no decorrer da História, definindo estilos de época, que também definem modelos de corpo. (CASTILHO E VICENTINI, 2008, p.135) Dito de outro modo, a roupa cobre o corpo a fim não só de adequá-lo ao convívio social – isto é, não mostrar-se nu – mas também de definir seus contornos. Esta formatação do corpo tem por finalidade adequá-lo às concepções que a sociedade partilha a seu respeito em certo período histórico. Em resumo, a interação entre roupa e corpo produz uma aparência coerente com as expectativas sociais. A ponto de a roupa adequar não só a superfície do corpo, mas também seus contornos. Portanto, usar uma roupa pode ser muito mais invasivo do que parece num primeiro momento. 2.3 – A necessidade de conforto corporal Encontramos quatro artigos que apresentam pesquisas com participantes relacionadas à aquisição e/ou uso de roupas. Dois destes artigos mensuraram o peso corporal dos participantes, e um se atentou às dimensões corporais deles. Itens como conforto, bem-estar, sensualidade e adequação parecem ser importantes no ato de vestir-se das mulheres. Tal importância se reflete na escolha de uma marca de roupa. Miranda (2007) entrevistou 24 mulheres com idades entre 16 e 55 anos, residentes em São Paulo, pertencentes às classes sociais A, B e C. A pesquisadora desejava saber quais os motivos que levavam as mulheres a consumir ou não marcas da moda. Na análise de resultados, a pesquisadora identificou nove tipos de marcas preferidas pelas participantes. A marca com maior grau de significância foi a que atendia somente aspectos funcionais. Os aspectos mais importantes ao escolher a marca preferida são: bem-estar, conforto, durabilidade e qualidade. Logo depois, as mulheres passam a dar mais importância aos aspectos simbólicos como sensualidade e adequação, respectivamente. Este estudo não especifica qual o peso corporal das participantes. 35 Para homens e mulheres muito acima do peso, o ajuste adequado das roupas às suas formas corporais proporciona melhor qualidade de vida. Duval et al. (2006) relatam um estudo organizado por médicos no Canadá. Eles entrevistaram 100 pessoas obesas classe III candidatas a cirurgia bariátrica2. O objetivo da pesquisa era conhecer quais eram os 10 setores da qualidade de vida mais afetados por um grau de obesidade tão avançado. O 6º. setor mais afetado – segundo ambos os gêneros – é o de “vestuário e higiene pessoal”. A principal queixa é a “dificuldade de encontrar roupas apropriadas”. Os participantes relatam que têm dificuldades para encontrar roupas que se ajustem às suas formas corporais adequadamente. Elas se percebem com uma tendência a vestir roupas que escondam algo em sua aparência. Encontramos uma pesquisa que faz pensar até que ponto os indivíduos têm treino suficiente para adquirir e usar roupas de tamanhos adequados ao seu corpo. Wood et al. (2008) pesquisaram se há alguma relação entre as dores nas costas relatadas por mulheres entre 18 e 26 anos nulíparas e o tamanho de seus seios. Os pesquisadores não encontraram relação entre tamanho da mama e dores nas costas. Mulheres com mamas menores muitas vezes relatavam mais dor do que mulheres com mamas proporcionalmente maiores. No entanto, 80% das mulheres usavam sutiãs de dimensões incorretas para seus corpos: 70% delas usavam sutiãs muito pequenos, enquanto 10% usavam sutiãs muito grandes. As autoras afirmam que este erro deve ocorrer por vários motivos, contudo dois deles se destacam. O primeiro é que as mulheres não são treinadas para dimensionar seus sutiãs corretamente ao comprá-los. Segundo, elas não são orientadas a trocá-los periodicamente. As pesquisadoras consideram o ajuste do sutiã um problema em particular para as mulheres com IMC sobrepeso e obesidade. Em resumo, mostramos no tópico 2.2 que a roupa adapta não só a superfície do corpo, mas também seus contornos às expectativas sociais. Por outro lado, os participantes das pesquisas relatadas se preocupam com seu conforto e bem-estar corporal ao adquirir uma roupa. Tal preocupação parece se traduzir na preferência dos indivíduos por roupas adequadas às suas formas corporais. Portanto esta interação entre a roupa e o corpo tende a ser marcada 2 Cirurgia que reduz o tamanho do estômago e/ou realiza um pequeno desvio no sistema gastrointestinal, a fim de diminuir o consumo e/ou a absorção dos alimentos. 36 pelo conflito entre as formas corporais socialmente desejadas e as formas corporais possuídas por cada indivíduo. O que faz pensar que todos os indivíduos tendem a vivenciar algum nível de desconforto na hora de vestir-se. Quando somamos a percepção cultural do corpo acima do peso a essa dinâmica conflituosa, o desconforto pode ser ainda maior para os indivíduos com IMC acima do normal. Posto que se as roupas perpetuam um modelo de corpo, elas tendem a perpetuar o modelo compatível com o peso considerado normal na sociedade contemporânea. Caso o indivíduo esteja muito acima do peso, ele pode ter sua qualidade de vida comprometida pelo descompasso entre suas formas corporais e as roupas disponíveis. Encontramos uma pesquisa que parece abranger todas as preocupações relatadas naquelas anteriormente apresentadas. Ela dá indícios de que há uma relação entre a satisfação com o peso corporal e a aquisição e/ou uso de roupas. Baturka et al. (2000) relatam um estudo de campo que explora as atitudes e crenças sobre imagem corporal e peso das mulheres afro-americanas que residem na zona rural sulista dos EUA. Nesta região, se encontram as maiores taxas de obesidade do país. Os pesquisadores desejavam compreender por que as mulheres negras perdem menos peso ao realizar dietas alimentares e abandonam mais os programas para perda de peso, quando comparadas às mulheres brancas. Foram entrevistadas 24 mulheres de 21 a 47 anos divididas em três categorias de IMC3: normal (12,5% das participantes), sobrepeso (37,5%) e obesidade (50%; classes I, II e III não foram especificadas). Através de uma entrevista semiaberta foram feitas perguntas sobre sua imagem corporal, seu peso e fatores que poderiam afetá-los. As mulheres se referiram às suas roupas em dois grandes temas: “insatisfação com o peso corporal” e “flutuação dos níveis de satisfação”. No tema “insatisfação com o peso” a maioria das respondentes inicialmente expressaram algum grau de insatisfação com seu peso ou medidas corporais. Ao explicarem por que queriam perder peso, um dos quatro motivos citados foi a insatisfação com a roupa. Elas relatam desconforto, indisponibilidade de roupas atraentes e roupas de medidas maiores. Nas outras categorias, citam que o seu peso as inibe de fazer coisas de que gostam – como comprar roupas. No tema “flutuação dos níveis de 3 Índice de Massa Corporal: para definição, ver capítulo 3 37 satisfação”, a satisfação com peso depende de três circunstâncias ligadas às roupas: a crença de que qualquer um pode parecer bem dependendo da roupa que vestir; a percepção do outro afeta sua própria satisfação, mesmo que o seu peso não tenha mudado; e a satisfação com seu peso depende do tamanho corporal médio das pessoas ao redor. A pesquisa realizada por Baturka et al. (2000) chamou a atenção por dois motivos. Primeiro: a separação da amostra por índice de massa corporal permite uma avaliação das respostas dos participantes de acordo com esta variável. Segundo: o método de entrevista semiaberta permite uma avaliação quantitativa e qualitativa das respostas emitidas. Devido à adequação deste método aos nossos objetivos, optamos por utilizar em parte este estudo na presente dissertação. Os objetivos, o perfil dos participantes, os instrumentos, os procedimentos de coleta e análise dos dados da presente pesquisa encontram-se no capítulo a seguir. 38 CAPÍTULO III 3. MÉTODO 3.1 – Objetivos O objetivo geral desta pesquisa é compreender qual é o tipo de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e a aquisição e/ou uso que eles fazem de suas roupas. A fim de nos concentrarmos em certas variáveis inerentes a esta relação, estabelecemos três objetivos específicos: • Observar se a variável IMC interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas; • Identificar se a variável gênero interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas; • Observar se há relação entre a satisfação com o peso corporal e a aquisição e/ou uso de roupas. 3.2 – O plano inicial de pesquisa A pesquisadora se posiciona num lugar público, como a entrada de uma loja ou uma praça de alimentação. Ela observa um transeunte e se aproxima. Ela se identifica, informa que está fazendo uma pesquisa sobre roupa e pergunta se o sujeito gostaria de participar. Ela avisa que o experimento será feito em duas etapas. A primeira etapa consiste na mensuração do seu peso e altura. A segunda etapa consiste numa entrevista que dura aproximadamente 2 minutos. Caso o participante aceite, a pesquisadora realizará a mensuração do seu peso corporal e de sua altura. No início da segunda etapa, o participante recebe o “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido” (ANEXO I). A pesquisadora explica o procedimento, riscos, possibilidade de desistir a qualquer momento e pede para o participante ler o documento. Caso haja dúvidas, a pesquisadora esclarece os devidos pontos. Caso o participante concorde, ele assina uma via e recebe outra. 39 Há um número preestabelecido de participantes para cada categoria de IMC. Caso o participante tenha um IMC equivale a uma categoria não preenchida, ele participará da segunda etapa da pesquisa. Caso sua categoria de IMC tenha sido preenchida, ele não será submetido à segunda etapa. Nesse momento, a pesquisadora informa o IMC do indivíduo, avisa que a categoria correspondente ao seu tipo físico está completa e agradece sua participação. Na segunda etapa, a pesquisadora liga o gravador e inicia-se a entrevista seguindo o “roteiro de entrevista” (ANEXO II) previamente definido. Ao término da entrevista, a pesquisadora desliga o gravador e pergunta como o participante está se sentindo. Este procedimento visa minimizar possíveis danos emocionais decorrentes da lembrança de sentimentos e sensações negativas decorrentes do ato de responder a entrevista. 3.3 – IMC como critério de escolha O principal critério utilizado na seleção dos participantes da pesquisa foi o índice de massa corporal (IMC). Este índice é uma medida antropométrica que costuma ser utilizada na mensuração lipídica indireta – isto é, para medir a quantidade de gordura corporal, sem necessidade de ter contato com ela ou mesmo visualizá-la diretamente (CONSENSO, 1998). Esta mensuração antropométrica consiste no uso da seguinte fórmula: peso/altura² = IMC. Esta fórmula pode ser usada com diversas finalidades na prática profissional de médicos, nutricionistas, educadores físicos, entre outros. Não obstante, a “Organização Mundial de Saúde” recomenda o uso deste índice para realizar a mensuração lipídica por dois motivos. Primeiro, há um associação significativa entre IMC elevado – a partir de IMC 30 – e o aumento de doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, doenças biliares e alguns tipos de câncer, por exemplo. Segundo, é um método de fácil manipulação e de baixo custo para avaliar a obesidade, distinguir categorias de obesidade, prever os níveis de gordura corporal e estimar o risco relativo de doenças associadas. De acordo com o IMC, os indivíduos são classificados entre seis categorias: abaixo do peso, peso normal, sobrepeso, obesidade classe I, obesidade classe II e obesidade classe III. Um indivíduo pertence a uma categoria 40 de acordo com o valor resultante do cálculo da relação entre seu peso e altura. Na amostra da presente pesquisa, homens e mulheres foram igualmente distribuídos entre cinco categorias do índice de massa corporal (IMC): peso normal, sobrepeso, obesidade classes I, II e III. Excluímos a categoria abaixo de peso porque nos interessa estudar os indivíduos com peso acima do normal. As categorias peso normal, sobrepeso e obesidade classe I possuem 10 homens e 10 mulheres cada. As categorias obesidade classe II e III possuem cinco homens e cinco mulheres cada. O menor número de indivíduos nas duas últimas categorias se deve à dificuldade da pesquisadora em encontrar indivíduos muito acima do peso. Os valores correspondentes a cada categoria de IMC, bem como a quantidade de participantes distribuídos em cada uma, podem ser visualizados na tabela 1. TABELA 1 Valores de IMC e distribuição da amostra Categorias IMC (Kg/m²) Homens Mulheres Baixo peso < de 18,5 0 0 Peso normal 18,5 - 24,9 10 10 Sobrepeso 25 – 29,9 10 10 Obesidade Classe I 30 – 34,9 10 10 Obesidade Classe II 35 – 39,9 5 5 Obesidade Classe III ≥ 40 5 5 Fonte: Consenso Latino Americano sobre obesidade (1998) Em resumo, não vamos utilizar o IMC para avaliar o estado de saúde dos participantes. As categorias deste índice servirão somente para padronizar os tipos físicos deles. Tal padronização permite o agrupamento das respostas emitidas segundo as semelhanças físicas que tendem a existir entre indivíduos com mesmo IMC. O “Consenso Latino Americano sobre obesidade” (1998) ressalta que sobrepeso e obesidade são conceitos diferentes. Estar com IMC sobrepeso é estar exclusivamente acima do peso corporal esperado para sua idade e altura, posto que a composição do corpo humano é dividida em massa corporal magra e 41 massa corporal gorda. A massa magra é a porção corporal isenta de gordura, constituída por ossos, músculos e vísceras. A massa gorda é a soma da gordura armazenada (localizada no tecido subcutâneo4) e da gordura essencial (encontrada nas vísceras, responsável pelo funcionamento fisiológico normal). A soma das massas gorda e magra compõe o peso corporal final de um indivíduo. Caso, por exemplo, um indivíduo possua massa magra maior do que o esperado e uma quantidade de massa gorda adequada, ele pode ser classificado como sobrepeso. Não obstante, estar com IMC obesidade é ter gordura corporal acima do esperado para sua idade e altura (CONSENSO, 1998). Neste caso, por exemplo, o indivíduo possui uma quantidade de massa magra adequada e uma quantidade de massa gorda maior do que o esperado. Este excesso de massa gorda aumenta o risco de desenvolvimento de doenças que comprometem a qualidade de vida e a saúde em geral. Em resumo, ter IMC sobrepeso não é patológico, mas ter IMC obesidade sim. 3.4 – As características dos participantes Entrevistamos 40 homens e 40 mulheres com idades entre 18 e 60 anos, em sua maior parte solteiros (61,3%). Contudo, há indivíduos casados (26,3%), divorciados (10%) e viúvos (2%) na amostra. Grande parte dos participantes não possui filhos (61,3%). Embora o restante possua um (16,3%), dois (15%), três (6,3%) ou quatro (1,3%) filhos. As ocupações dos participantes variam bastante. A ocupação mais expressiva na amostra é a de estudante (15%). Contudo, podemos encontrar: aposentados; donas de casa; funcionários públicos; ocupantes de cargos operacionais (atendente, segurança, balconista, taxista, entre outros); ocupantes de cargos gerenciais (administrador, comerciante, produtor de teatro, professor, chef de cozinha, entre outros); e profissionais liberais (advogado, psicólogo, engenheiro, entre outros). 4 Uma das camadas internas da pele que cobre o corpo humano. 42 3.5 – Instrumentos utilizados • Balança digital com plataforma de vidro transparente e capacidade para suportar 180 kg; • Fita métrica com 2 metros de comprimento; • Prancheta contendo dois itens: a tabela de amostra distribuída entre as categorias de IMC e cópias do termo de consentimento livre e esclarecido (ANEXO I); • Gravador de voz digital; • Roteiro de entrevista (ANEXO II). O instrumento “roteiro de entrevista” pode conter alguma fragilidade. Este roteiro é composto por cinco perguntas semiabertas elaboradas pela pesquisadora. Tal processo de elaboração se deu a partir de duas referências. A primeira foi o estudo de Baturka et al. (2000), bem como os temas principais que eles se dedicaram a investigar. Contudo, o roteiro de entrevista utilizado por eles não estava anexo ao artigo que apresenta a pesquisa. Mas algumas das perguntas feitas aos participantes foram citadas de forma textual no próprio corpo do artigo. A segunda referência foi o conhecimento teórico reunido no capítulo dois da presente dissertação. As perguntas, bem como as alternativas oferecidas para respondê-las, buscam contemplar itens que parecem ser influentes na vivência emocional do uso de roupas. Após a elaboração do roteiro de perguntas, esse instrumento foi submetido a um estudo-piloto. Este último teve por objetivo verificar: a capacidade de compreensão das questões, o tempo de duração da entrevista, algum tipo de confusão nas perguntas, bem como a viabilidade da aplicação do instrumento ao contexto escolhido. Foram entrevistadas 19 pessoas. Enquanto os participantes respondiam a entrevista-piloto, a pesquisadora anotava todas as dificuldades de compreensão, bem como as respostas dadas que fugiam às categorias preestabelecidas. Ao final da entrevista-piloto, era questionado ao participante se alguma pergunta não ficou clara, ou mesmo se alguma o incomodou e ele desejaria não ter respondido. A partir dos resultados do estudo-piloto, fizemos algumas alterações. Reduzimos o número de alternativas, e trocamos termos mais sofisticados por 43 expressões mais simples. Ao mesmo tempo, as respostas que não se encaixavam às alternativas oferecidas mas que apareceram com frequência, se transformaram numa nova alternativa de resposta. Em resumo, uma fragilidade do instrumento é não ter como parâmetro um questionário previamente avaliado por outros estudos. Contudo, o estudo-piloto nos permitiu minimizar possíveis inadequações do instrumento. Ao mesmo tempo em que tornou possível o desenvolvimento de perguntas que atendessem ao escopo do trabalho de forma simples, rápida e adequada ao dinamismo exigido pelo ambiente da coleta de dados. 3.6 – A coleta de dados Durante a coleta de dados, enfrentamos duas dificuldades. A primeira foi a recusa dos homens em conceder entrevistas. O que demandou uma alteração sistemática do local de coleta de dados. A segunda dificuldade foi a recusa dos indivíduos que aceitavam participar da pesquisa em subir na balança. Nesse caso, foram necessárias alterações no procedimento de mensuração previamente estabelecido. As entrevistas foram concedidas por transeuntes de três locais públicos na cidade de São Paulo. O primeiro é uma loja de roupas femininas de tamanhos grandes, localizada na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros. O segundo local é uma loja de roupas masculinas e femininas de tamanhos grandes, localizada na Rua Domingos de Moraes, no bairro Vila Mariana. O terceiro local é a praça de alimentação localizada dentro do campus do Centro Universitário SENAC – SP, localizado no bairro Jurubatuba. Todas as entrevistas foram realizadas entre meio-dia e seis horas da tarde, de segunda a sábado. O plano inicial era entrevistar somente transeuntes da Rua Teodoro Sampaio. A proprietária da loja foi previamente contatada pela pesquisadora. Ela permitiu que o espaço interno da loja fosse utilizado para mensurar o peso e a altura dos participantes. Após esta autorização, as entrevistas-piloto foram realizadas no local. Durante o estudo-piloto, percebemos disponibilidade das mulheres para conceder entrevistas. uma maior 44 Após os ajustes do roteiro, iniciamos as entrevistas válidas. À medida que tais entrevistas avançavam, a amostra feminina foi se completando rapidamente. Quando a amostra feminina chegou a 85% do necessário, a amostra masculina não havia chegado a 50%. Atribuímos esta discrepância a dois motivos. Primeiro, os homens em geral eram abordados pela pesquisadora, mas se recusavam a parar para conceder uma entrevista. Nos dias úteis da semana, eles alegavam ter um curto horário de almoço para participar de uma entrevista que seria muito longa. Outras vezes, alguns continuavam andando e diziam: “Pesquisa de roupa? Vai entrevistar mulher. Olha, tem um monte por aqui!” A fim de superar o obstáculo da falta de tempo, intensificamos a abordagem aos sábados. Contudo, nos finais de semana os homens passavam acompanhados de mãos dadas com uma parceira e/ou acompanhados de seus filhos e amigos. Nestes casos, eles rejeitavam o convite da pesquisadora e se irritavam com a abordagem. O segundo motivo pode ter sido o contexto da abordagem. Talvez conceder uma entrevista sobre roupas a uma mulher parada em frente a uma loja feminina seja percebido como algo pouco masculino. A falta de participantes do sexo masculino era mais grave nas categorias de obesidade classes II e III. Deste modo, começamos a procurar por lojas de rua especializadas em roupas masculinas de tamanhos grandes. Encontramos dois tipos de lojas: as populares localizadas na região central de São Paulo, e as de alto padrão localizadas em bairros nobres da cidade. Mas nenhum destes locais era próprio para uma pesquisa. As lojas populares não possuíam espaço suficiente na calçada, nem ofereciam segurança à pesquisadora. As lojas de alto padrão possuíam estacionamento ao redor delas, na sua própria calçada, não deixando espaço suficiente para permitir a abordagem dos clientes, que entravam e saíam sem a autorização dos lojistas. Por fim, encontramos uma loja de roupas localizada na Rua Domingos de Moraes. Ela atende ambos os sexos. A rua era tranquila e o segurança das lojas tolerou a permanência da pesquisadora no local. Nesta rua, conseguimos entrevistar alguns homens. Ainda assim, não foram em número suficiente, posto que era raro ver homens comprando roupas nas lojas durante os dias úteis. Os poucos que apareceram, estavam aproveitando seu horário de almoço para trocar uma peça de roupa comprada anteriormente. Deste modo, justificavam a falta de 45 tempo para participar do estudo. Optamos novamente por realizar entrevistas aos sábados. Contudo, os homens que apareciam para fazer compras, estavam acompanhados de suas parceiras. Elas os ajudavam a escolher roupas. Tentamos convidar os homens acompanhados. Todavia, como ocorreu na Rua Teodoro Sampaio, os homens ficaram irritados ou se mostraram hostis ao serem abordados. Em resumo, mesmo após as entrevistas na frente desta loja, o número insuficiente de homens com obesidade classes II e III ainda era um problema. A fim de completar a amostra, precisávamos de um local onde as pessoas do sexo masculino fossem numerosas, confiassem na pesquisadora e tivessem tempo disponível para se dedicar à entrevista. Assim, optamos por entrevistar os consumidores da praça de alimentação localizada dentro do campus do centro universitário SENAC – SP. Este local oferecia duas vantagens. A primeira é o grande número de homens que permanecem neste espaço no horário de almoço. O campus está localizado no pólo industrial do bairro Jurubatuba. Portanto, ele é rodeado por fábricas, indústrias e transportadoras. Como não há restaurantes por perto, muitos trabalhadores que não possuem relação com o centro universitário almoçam no local. A segunda vantagem era o vínculo da pesquisadora com a instituição. Este vínculo parece ter dado mais credibilidade à abordagem. A pesquisadora observava as pessoas até identificar um indivíduo com o perfil desejado. Ela se aproximava identificando-se como pesquisadora e professora da instituição, portando inclusive o seu crachá de identificação institucional. Ao mesmo tempo, ela esclarecia que a pesquisa nada tinha a ver com a instituição. Deste modo, o indivíduo estava livre para aceitar ou recusar o convite, sem ser em nada prejudicado. As pessoas do sexo masculino prontamente se dispunham a participar da pesquisa. Diante desta maior adesão, conseguimos completar a quantidade de participantes necessária. Em resumo, a principal diferença entre as entrevistas feitas na rua e as feitas na praça de alimentação foi o clima emocional. Na rua – desde a abordagem e as explicações até o movimento corporal e a fala dos indivíduos – tudo acontecia muito rápido. Pois a qualquer momento, o participante poderia sair andando sem completar a entrevista. Na praça de alimentação, todo o 46 procedimento foi mais tranquilo. Mesmo aqueles que se recusaram a participar, não demonstraram irritação ou agressividade de nenhuma ordem. A mensuração do peso corporal encontrou muita resistência por parte dos participantes. Durante as entrevistas realizadas na Rua Teodoro Sampaio, a balança e a fita métrica estavam sempre adequadamente posicionadas na parte interna da loja. A fita métrica ficava colada na parede de tal modo que a altura fosse medida no momento em que o participante subisse na balança. A pesquisadora abordava um transeunte convidando-o para participar de uma pesquisa sobre roupas. Quando ele aceitava participar da entrevista, logo em seguida este era convidado a pesar-se. Contudo, grande parte dos indivíduos – participantes ou não da pesquisa – se recusaram a subir na balança. Nas primeiras entrevistas, quando as pessoas se recusavam, a pesquisadora insistia na importância da fidedignidade desta informação para o estudo. Não obstante, as respostas a esta insistência foram as mais variadas. Alguns indivíduos falavam “deixa para depois então” ou “não tenho tempo, isso vai ser muito longo” e iam embora. Outros respondiam: “não precisa, eu sei qual é o meu peso porque eu acabei de me pesar” ou “eu me pesei uns X dias atrás”. Neste caso, tanto os homens quanto as mulheres disseram ter subido numa balança até 15 dias antes da presente mensuração. Alguns indivíduos queriam participar, porém se recusaram a subir na balança. Eles tinham como justificativa a submissão a um tratamento médico para perder peso. Portanto, preferiam seguir a recomendação médica de pesar-se somente nas consultas realizadas com o profissional. Alguns indivíduos aceitavam subir na balança e diziam: “Sabe que eu não sei qual é o meu peso?”. No entanto, ao subir na balança e ver o número resultante, pulavam para fora dela e diziam: “Sua balança está errada. Acabei de me pesar ou me pesei há X dias atrás. Ela está dando uns dois quilos a mais”. Diante desta suspeita, a balança digital utilizada foi testada com pesos não humanos e mensurou corretamente os quilogramas dos objetos colocados sobre ela. Grande parte dos indivíduos sabia aproximadamente qual era o seu peso corporal. Espontaneamente, ao subir na balança, era comum os participantes dizerem: “Acho que eu peso X kg”. Em geral, havia uma diferença de dois quilos, 47 para mais ou para menos, entre o peso que os indivíduos imaginavam ter e aquele que a balança indicava que eles tinham. A fim de evitar o constante constrangimento e desgaste – vivido tanto pela pesquisadora quanto pelos indivíduos participantes ou não – a estratégia de obtenção do peso corporal foi modificada. Se antes a pesquisadora pedia diretamente para a pessoa subir na balança, agora ela passa a perguntar: “Você sabe qual é o seu peso e a sua altura?”. Caso o indivíduo respondesse que sim, a pesquisadora perguntava: “Você tem certeza?”. Quando a pessoa tinha certeza, a pesquisadora anotava o peso e a altura citados. Quando o indivíduo tinha ou parecia ter alguma dúvida, a pesquisadora dizia: “Eu tenho uma balança e a uma fita métrica disponível. Vamos pesar para ter certeza?” Deste modo, os indivíduos subiam na balança de bom grado, não faziam queixas ou reclamações sobre a necessidade do procedimento. As entrevistas realizadas na Rua Domingos de Moraes e na praça de alimentação não contaram com a fita métrica para mensurar a altura dos indivíduos. Posto que não era possível contar com uma parede onde fosse possível posicionar os instrumentos. Nesse caso, a medida de altura foi dada pelo sujeito. Contudo, a balança pôde ser utilizada por ser fina, transparente e pequena o bastante para ser guardada na mochila da pesquisadora. A aparência discreta da balança permitiu também que os indivíduos se sentissem menos constrangidos ao se submeterem à mensuração. Em resumo, o processo de mensuração do IMC foi feito de três modos: peso e altura calculados pelos instrumentos; peso e altura fornecidos pelo participante; e peso mensurado pela balança e altura fornecida pelo participante. Apesar das dificuldades, o critério de escolha dos participantes de acordo com o IMC foi mantido, uma vez que este índice é o norteador desta pesquisa. 3.7 – Método estatístico aplicado na análise dos dados Esta pesquisa foi realizada a partir de uma amostra de 80 participantes formando quotas distribuídas por gênero (40 homens e 40 mulheres). O roteiro de entrevista (ANEXO II) foi composto por perguntas fechadas e abertas. A partir das respostas obtidas junto à amostra, foram construídos dois bancos de dados. Um 48 banco de dados no programa “SPSS 15.0” para as questões fechadas, outro no programa “Microsoft Office Word” para as abertas. As respostas às perguntas fechadas foram processadas no programa “SPSS”. Foram construídas tabelas que cruzaram as variáveis demográficas gênero e idade e o Índice de Massa Corporal (IMC) com as questões que medem as opiniões a respeito do ato de vestir-se e do peso corporal. O programa “SPAD.t” foi utilizado para trabalhar com as respostas dadas para as perguntas abertas, bem como seu cruzamento com as fechadas. Este software seleciona as falas mais características dos participantes por grupos constituídos para as questões fechadas. Por exemplo, perguntamos aos participantes o que faltava para eles se sentirem melhor vestidos. Todos aqueles que responderam “dinheiro” formaram um grupo. Dentre as justificativas dos participantes a respeito desta escolha, o “SPAD.t” destacou as falas mais características deste grupo. A partir das tabelas de dados quantitativos, foi possível estabelecermos um paralelo entre as alternativas que mais se destacaram e o discurso emitido pelo participante ao justificar sua escolha. No capítulo a seguir vamos apresentar os resultados da pesquisa com participantes, bem como analisá-los. 49 CAPÍTULO IV 4. ANÁLISE DOS RESULTADOS No presente capítulo, vamos apresentar os resultados obtidos em cada uma das cinco questões do roteiro de entrevista. Devido à complexidade dos dados, vamos analisar os resultados de cada questão ao final de cada tópico em que eles são apresentados. No início de cada um deles, estará escrito de forma abreviada qual questão vamos analisar. Por exemplo, “Q1” refere-se à pergunta número 1 do roteiro de entrevista (ANEXO II). Já Q2A1B, por exemplo, refere-se às justificativas dadas para a alternativa “(1) dinheiro” da questão 2. Ao lado destas siglas, escrevemos as perguntas feitas aos participantes. 4.1 - Q1: “No seu dia a dia, você se sente bem vestido?” Na questão 1 perguntamos: “No seu dia a dia, você se sente bem vestido(a): sempre, quase sempre, às vezes, raramente ou nunca?” No dia a dia, a maioria dos participantes sente-se bem vestida quase sempre (41,3%) e às vezes (31,3%), como demonstra a tabela 2. TABELA 2 Sente-se bem vestido (a) no dia a dia * Sexo Crosstabulation Sente-se bem vestido (a) no dia a dia Sempre Quase sempre Às vezes Raramente Nunca Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 10 6 25,0% 15,0% 18 15 45,0% 37,5% 9 16 22,5% 40,0% 2 1 5,0% 2,5% 1 2 2,5% 5,0% 40 40 100,0% 100,0% Total 16 20,0% 33 41,3% 25 31,3% 3 3,8% 3 3,8% 80 100,0% 50 Ao observar os participantes segundo seu IMC (TABELA 3), em todas as categorias, há participantes que declaram se sentir sempre bem vestidos. Os participantes que se sentem raramente bem vestidos estão distribuídos entre as categorias: sobrepeso e obesidades I e II. Os participantes que nunca se sentem bem vestidos estão distribuídos entre as categorias: normal e sobrepeso. Nas categorias de IMC normal, sobrepeso e obesidade I predomina o sentir-se quase sempre bem vestido. Nas categorias obesidade II e III diminui o sentimento de satisfação, pois a maioria sente-se bem vestida apenas às vezes. TABELA 03 Sente-se bem vestido (a) no dia a dia * Peso Crosstabulation Normal Sente-se bem vestido (a) no dia a dia Sempre Quase sempre Às vezes Raramente Nunca Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso 3 15,0% 10 50,0% 6 30,0% 1 5,0% 20 100,0% Sobrepeso 6 30,0% 7 35,0% 4 20,0% 1 5,0% 2 10,0% 20 100,0% Peso Obesidade I 4 20,0% 9 45,0% 6 30,0% 1 5,0% Obesidade II 2 20,0% 3 30,0% 4 40,0% 1 10,0% Obesidade III 1 10,0% 4 40,0% 5 50,0% 20 100,0% 10 100,0% 10 100,0% Total 16 20,0% 33 41,3% 25 31,3% 3 3,8% 3 3,8% 80 100,0% Como veremos adiante, indivíduos que escolheram as mesmas alternativas certamente o fizeram por motivos diferentes e particulares. Contudo, esta primeira questão isoladamente não fornece condições para se compreender tais motivações. Assim, optamos por compreender por quais motivos ocorrem as referidas diferenças de satisfação entre as categorias de IMC através do cruzamento das alternativas escolhidas com as justificativas obtidas nas questões 2, 3, 4 e 5, posto que estas quatro questões foram formuladas a fim de explorar as motivações com maior profundidade. Por hora, vamos analisar por quais motivos os participantes declaram-se satisfeitos ou não com as roupas que eles vestem. Pela análise do discurso, observamos que os participantes, independentemente do IMC, que se declaram sempre bem vestidos consideramse satisfeitos com as roupas que usam. Esta satisfação se deve a dois motivos. Primeiro, porque as roupas expressam sua individualidade. Segundo, porque os 51 participantes estão bem adaptados ao tipo de vestuário que lhes é exigido. Alguns exemplos: “Sempre. Porque eu sou diferente das outras pessoas. Eu gosto de me vestir bem exótica. Não gosto de me vestir no padrão certinha. Eu gosto de, além de uma calça jeans, eu gosto de extravasar usando pulseira, maquiagem, brinco. Nunca estou igual às outras pessoas. Raramente eu repito roupa.” Mulher IMC sobrepeso “Sempre. Porque eu gosto do meu corpo e do meu estilo.” Homem IMC normal “Sempre. Porque eu tenho um perfil de me vestir. Eu sigo um preceito evangélico. Então eu sempre me sinto bem dentro daquilo que eu uso no meu cotidiano.” Mulher obesidade I “Sempre, porque eu estou sempre de uniforme e me sinto bem assim.” Mulher obesidade II “Sempre. Porque eu compro só as roupas que ficam bem. Se não ficou bem, eu não compro.” Mulher IMC sobrepeso Os participantes, independentemente do IMC, declaram-se quase sempre bem vestidos quando, na maior parte do tempo e/ou das ocasiões, eles usam uma roupa que atende às exigências do ambiente social em que eles se encontram. Este ambiente pode ser o local de trabalho, uma ocasião festiva, um encontro romântico, um grupo religioso, entre outros. Os participantes consideram que a roupa exigida nestas ocasiões é mais formal. Sentem que o uso de roupas nestas ocasiões exige maior dedicação e maior energia psicológica, a fim de sustentar a postura esperada. O uso do traje formal faz com que o participante se avalie como bem vestido devido ao prestígio social que seu uso proporciona. As afirmações abaixo exemplificam esta vivência: 52 “Quase sempre. Porque normalmente eu uso traje social que veste bem. Quase porque quando você está em casa, você fica relaxado”. Homem IMC sobrepeso “Tem momentos em que eu me sinto inadequada em roupa social, ela é sempre ligada a uma postura de muito respeito, muita classe, e eu não tenho muita paciência para bancar isso por muito tempo”. mulher IMC normal “Quase sempre. O se vestir bem é complicado. É bem o estilo. Se você está vestido de acordo com a ocasião e num estilo que você se sente bem, você está quase sempre bem vestido. Você está formal para a situação e está legal num estilo que você curte”. Homem IMC normal “Quase sempre. Porque eu não gosto de roupa social e eu tenho que trabalhar de roupa social”. Homem IMC obesidade III Esses mesmos participantes, na menor parte do tempo e/ou na sua vida doméstica, vestem uma roupa em função do conforto que ela oferece. Como, por exemplo, a roupa que está mais adequada ao clima do dia e à expressão da sua individualidade. Os participantes declaram que vestem tal roupa porque gostam, porém se avaliam como mal vestidos nas ocasiões em que as vestem. As peças mais citadas como confortáveis, de uso informal e que são associadas a estar mal vestido são o chinelo, a camiseta regata e a bermuda. Veja alguns exemplos: “Quase sempre. No trabalho, eu me visto bem, mas em casa, eu fico de uma forma mais confortável. Eu uso um shorts, uma camiseta regata. O lado confortável. Eu não estou confortável nessa roupa de trabalho, mas tem formalidades, né? Eu estou com calor agora.” Homem IMC normal 53 “Quase sempre. Porque tem vezes que eu uso uma roupa mais largada, não social”. Homem IMC normal “Quase sempre. Porque de vez em quando você quer ficar meio largado de bermudão”. Homem IMC obesidade I “Quase sempre. Depende da roupa que eu estou vestindo. Tipo, em casa eu fico mais despojada. Quando eu saio, fico mais arrumadinha”. Mulher IMC sobrepeso Os participantes que se declaram às vezes bem vestidos sentem que na maior parte do tempo lhes falta algo para compor uma aparência física satisfatória. Pode faltar dinheiro, roupa de tamanho adequado, atenção com a aparência, orientação sobre o que vestir, entre outros. Em geral, estes participantes manifestaram boa percepção a respeito do que é socialmente adequado. Contudo, sentem que não conseguem nem expressar sua individualidade nem atender às exigências sociais. Portanto, sentimentos de incompetência e fracasso parecem marcar a autoavaliação do indivíduo frente ao ato de vestir-se. Veja alguns exemplos: “Às vezes. Porque a gente nunca está do jeito que quer, com o que gostaria de estar vestindo. Às vezes tem a roupa, mas não tem o sapato que você gostaria de combinar. Tem o sapato mas não tem a roupa”. Homem IMC normal “Às vezes. Porque eu não tenho dinheiro para comprar uma roupa que eu quero. Então eu compro uma que não é tão legal”. Mulher IMC normal “Às vezes. Normalmente porque às vezes você sente que a roupa não está bem adequada ao tipo físico. Como eu não sou muito preocupado com a aparência, e não que me incomode, mas às vezes posso não estar bem vestido”. 54 “Às vezes. Porque às vezes eu tenho preguiça de me arrumar para a faculdade, mas para sair eu me arrumo”. Homem IMC obesidade I “Às vezes. Eu acho que eu não tenho muito feeling para me vestir. Até gostaria de saber combinar roupas que se adequam mais. Eu sou mais moleca para me vestir, e o meu trabalho é mais formal”. Mulher IMC obesidade I “Às vezes. Porque como eu estou meio gordo, às vezes a roupa incomoda. Fica justa, apertando, não fica legal. A calça fica com a barriga para fora.” Homem IMC obesidade II “Às vezes. Por ser gordo, às vezes eu acho que tem roupa que não me cai bem. Tem dia que você acorda e a roupa te incomoda. Nem todo o meu guarda roupa é de roupas que eu gosto.” Homem IMC obesidade III Os participantes que se declaram raramente bem vestidos parecem não encontrar um equilíbrio entre a roupa e o corpo. O ato de vestir-se é uma experiência negativa, onde o corpo parece ser o “vilão”. “Raramente. Porque sou gordo, claro. E não se acha roupa para gordo. Agora com os novos índices de medida, acredito que a coisa vai melhorar. É muito difícil encontrar roupas de tamanho adequado.” Homem IMC obesidade II Os participantes que declaram nunca estar bem vestidos tendem a delegar às outras pessoas a função de avaliar a adequação da sua própria aparência. “Nunca. Eu não ligo para onde eu vou. Eu não paro para pensar que roupa vou usar. As pessoas sempre falam que estou mal vestido, mas eu me sinto bem vestido. Então, eu vou pelo que as pessoas falam.” Homem IMC sobrepeso 55 “Nunca. Eu não acerto nas roupas que eu compro para mim, que fiquem bem no meu corpo. Então eu acabo não me sentindo bem. Eu tenho dificuldade para comprar e escolher certos tecidos. Aí chega em casa meu marido reclama.” mulher IMC normal Em resumo, parece haver uma gradação da posição do ego. Quanto mais o participante se apropria da tarefa cotidiana de vestir-se, maior é o sentimento de satisfação com a própria aparência. Os participantes que responderam “quase sempre” tendem a fazer uma diferenciação psicologicamente saudável entre o eu, a necessidade pessoal de conforto e as exigências coletivas no ato de vestir-se. Os participantes que responderam “às vezes” parecem sofrer devido à dificuldade de equilibrar todos os fatores materiais e psicológicos envolvidos no vestir-se, sinalizando a necessidade de maior esforço consciente e/ou fortalecimento do ego a fim de gerenciar a tarefa cotidiana de vestir-se de modo satisfatório. 4.2 – Q2: “Você acha que poderia estar melhor vestido do que você está agora?” Na questão 2 perguntamos: “Você acha que poderia estar melhor vestido (a) do que você está agora?”. Os participantes podiam responder “sim” ou “não”. Quando respondiam “sim”, fazíamos a seguinte pergunta: “O que falta para você se sentir melhor vestido(a) do que você está agora?” Oferecemos cinco alternativas: (1) dinheiro, (2) orientação profissional sobre o que vestir, (3) roupas de modelos e estilos variados, (4) ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa e (5) outros motivos não citados que são relevantes para o participante. A maioria afirmou que falta dinheiro (58%) para que eles se sintam melhor vestidos. Por ordem decrescente, falta também: ter mais roupas de modelos e estilos variados (42%), ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa (34,8%), ter uma orientação profissional sobre o que vestir (26,1%) e outros motivos que não foram citados nas alternativas, mas 56 que o participante considera importante (18,8%). Estes dados foram obtidos através do cruzamento de dados das tabelas 04, 06, 08, 10,12 e 14. A maioria dos participantes (86,3%) considerou que poderia estar melhor vestido do que estava no momento da entrevista (TABELA 04). TABELA 04 Acredito que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora * Sexo Crosstabulation Acredito que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora Sim Não Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 34 35 85,0% 87,5% 6 5 15,0% 12,5% 40 40 100,0% 100,0% Total 69 86,3% 11 13,8% 80 100,0% A maioria dos participantes de todas as categorias de IMC respondeu que poderia estar melhor vestida do que estava no momento da entrevista. Houve uma leve variação entre os participantes com IMC normal (80%) e os participantes com IMC obesidade III (90%), como demonstra a tabela 05. Através do cruzamento de dados das tabelas 05, 07, 09, 11, 13 e 15, identificamos o que falta para que os participantes de cada categoria do IMC sintam-se melhor vestidos em ordem de importância decrescente. Para a categoria IMC normal, falta dinheiro (81,3%), roupas de modelos e estilos variados (37,5%), orientação profissional sobre o que vestir (31,3%), ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu (18,8%) e outros motivos não citados (12,5%). Para a categoria IMC sobrepeso, falta dinheiro (50%), roupas de modelos e estilos variados (44,4%), orientação profissional sobre o que vestir (38,9%), outros motivos não citados (27,8%) e ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu (22,2%). Para a categoria IMC obesidade I, falta dinheiro (52,9%), roupas de modelos e estilos variados (41,2%), ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu (35,3%), e com a mesma importância temos orientação profissional sobre o que vestir (17,6%) e outros motivos não citados (17,6%). 57 Para a categoria IMC obesidade II, o que mais falta é tanto dinheiro (44,4%) quanto imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa (44,4%). Depois, aparecem outros motivos não citados (33,3%), e na mesma ordem de importância falta orientação profissional sobre o que vestir (22,2%) e roupas de modelos e estilos variados (22,2%). Para a categoria IMC obesidade III, o que mais falta é imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa (77,8%), seguida da falta de roupas de modelos e estilos variados (66,7%), dinheiro (55,6%) e orientação profissional sobre o que vestir (11,1%). Esta categoria não citou outros motivos. Pela análise do discurso, observamos que os fatores citados nas alternativas são importantes para todas as categorias de IMC, mas por motivos diferentes. Nos cinco tópicos a seguir, vamos identificar as motivações que mais se destacam em cada categoria de IMC. Deste modo, podemos identificar quais as motivações comuns e/ou divergentes entre os participantes ao escolher uma alternativa segundo o seu IMC. TABELA 05 Acredito que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora * Peso Crosstabulation Acredito que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora Total Sim Não Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Normal 16 80,0% 4 20,0% 20 100,0% Sobrepeso 18 90,0% 2 10,0% 20 100,0% Peso Obesidade I 17 85,0% 3 15,0% 20 100,0% Obesidade II 9 90,0% 1 10,0% 10 100,0% Obesidade III 9 90,0% 1 10,0% 10 100,0% Total 69 86,3% 11 13,8% 80 100,0% Homens e mulheres julgam que ter mais dinheiro é o que mais os ajudaria a se sentirem bem vestidos. Posteriormente, ambos os gêneros acham que ter roupas de modelos e estilos variados, bem como ter orientação profissional sobre o que vestir, também podem melhorar a satisfação com sua aparência. Contudo, estes dois últimos fatores são mais importantes para os homens. Ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa é muito mais importante para as mulheres. Outros motivos relatados no tópico 4.2.5 são muito mais importantes para os homens. 58 4.2.1 - Q2A1B: Opção – falta dinheiro para nos sentirmos melhor vestidos TABELA 06 Dinheiro * Sexo Crosstabulation Dinheiro Sim Não 9 Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 18 22 45,0% 55,0% 16 13 40,0% 32,5% 6 5 15,0% 12,5% 40 40 100,0% 100,0% Total 40 50,0% 29 36,3% 11 13,8% 80 100,0% TABELA 07 Dinheiro * Peso Crosstabulation Dinheiro Sim Não Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Normal 13 81,3% 3 18,8% 16 100,0% Sobrepeso 9 50,0% 9 50,0% 18 100,0% Peso Obesidade I 9 52,9% 8 47,1% 17 100,0% Obesidade II 4 44,4% 5 55,6% 9 100,0% Obesidade III 5 55,6% 4 44,4% 9 100,0% Total 40 58,0% 29 42,0% 69 100,0% Através da análise do discurso, observamos que para os homens com IMC normal, ter dinheiro dá acesso a mais opções de modelos de roupas mais caras. Essas roupas mais caras são vendidas por marcas conhecidas e gozam de melhor qualidade. “Teria mais opções de roupas caras. Eu poderia achar roupas que eu poderia comprar.” Homem IMC normal Para os homens com IMC sobrepeso e obesidade I, II e III, o dinheiro também dá acesso a roupas de marcas conhecidas. Além disso, ele proporciona também maior liberdade para procurar em mais lojas e ter qualquer roupa que se 59 queira. Parece que ter dinheiro disponível estimula os homens acima do peso a irem às compras. “Eu teria mais liberdade para ter qualquer tipo de roupa que eu gostaria. Poderia ter até tempo e dinheiro para procurar. Teria opções de mais lojas sem me preocupar com o preço.” Homem IMC obesidade III As mulheres das categorias IMC normal, sobrepeso e obesidade I e II afirmam que o alto custo das roupas – se comparado aos seus recursos financeiros e às outras despesas do dia a dia – dificulta a compra de roupas de melhor qualidade e em maior quantidade. “Com dinheiro, eu compraria bem mais. Eu tenho curso aqui na Teodoro e fico andando até dar a hora e vejo cada vestido lindo, cada roupa linda. Mas aí te falta o dinheiro. Tem tanta coisa que fala mais alto: conta, prestação, essas coisas.” Mulher IMC normal Contudo, na categoria obesidade III, ter dinheiro garante que a participante possua uma quantidade mínima de roupas. Ter mais dinheiro permite o acesso a roupas de tamanhos grandes nas lojas especializadas, posto que seu custo é maior do que uma peça similar da loja não especializada. Duas situações de consumo relatadas pelas participantes chamam a atenção. Primeiro, ter dinheiro permite que os participantes façam mais roupas sob medida. Segundo, pontuam que não existe liquidação nas lojas de roupas de tamanhos grandes. Os participantes justificam que o custo da compra diminui com o acesso a liquidações. O relato das duas situações parece sugerir uma situação de exclusão da dinâmica de consumo de lojas não especializadas, isto é, a dinâmica mais comum em nossa sociedade. “Quando você é mais magro, você tem mais vantagem. As roupas são mais baratas, tudo que é loja tem liquidação. Loja de gordo não tem nada barato, não tem liquidação. Eu poderia comprar mais. Às vezes você procura um modelo que você não acha. Mas aí você pode comprar um tecido e mandar a costureira fazer o modelo que você gosta. Mas para isso você tem que ter mais dinheiro, porque é mais gasto. Você 60 tem que comprar tecido, tem que pagar costureira. Mas na loja está em promoção, você é magra, paga 15 ou 30 reais e você compra.” Mulher IMC obesidade III Em resumo, os participantes consideram alto o custo das roupas se comparado às suas condições sócio-econômicas. E também, ter dinheiro realizaria o desejo de consumir roupas produzidas por marcas famosas, especialmente pelos homens. Os participantes com IMC obesidade III partilham deste mesmo desejo, mas se deparam com um custo ainda maior nas lojas de roupas especializadas em tamanhos grandes. Portanto, ter dinheiro estimula estes participantes a procurar roupas adequadas e garante uma quantidade mínima de roupas. 4.2.2 - Q2A2B: Opção – Orientação profissional sobre o que vestir TABELA 08 Orientação profissional sobre o que vestir * Sexo Crosstabulation Orientação profissional sobre o que vestir Sim Não 9 Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 9 9 22,5% 22,5% 25 26 62,5% 65,0% 6 5 15,0% 12,5% 40 40 100,0% 100,0% Total 18 22,5% 51 63,8% 11 13,8% 80 100,0% TABELA 09 Orientação profissional sobre o que vestir * Peso Crosstabulation Orientação profissional Sim sobre o que vestir Não Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Normal 5 31,3% 11 68,8% 16 100,0% Sobrepeso 7 38,9% 11 61,1% 18 100,0% Peso Obesidade I 3 17,6% 14 82,4% 17 100,0% Obesidade II Obesidade III 2 1 22,2% 11,1% 7 8 77,8% 88,9% 9 9 100,0% 100,0% Total 18 26,1% 51 73,9% 69 100,0% 61 Pela análise do discurso, observamos que os homens com IMC normal, sobrepeso e obesidade I e II entendem orientação profissional como uma pessoa que auxilia o participante a escolher roupas de acordo com seu tipo físico, sua personalidade, seus compromissos do dia a dia, seus recursos financeiros e o clima. Eles esperam que o profissional apresente novas combinações de peças de roupas, criando um outro tipo de aparência física. Deste modo, esta orientação faz com que o participante sinta-se mais seguro quanto à roupa que está vestindo. “Me ajudaria a combinar as coisas. A única coisa além de camisa comum e calça comum, eu só sei comprar camisa social, calça social e cinto. Fora isso, não compro mais nada. Talvez o profissional me apresente outras opções, outras combinações.” Homem IMC normal “Uma pessoa da moda ia trocar todo o meu guarda-roupa.” Homem IMC sobrepreso “Um profissional com certeza me ajudaria a vestir roupas melhores dependendo do clima. Ele ajudaria a escolher a melhor combinação com o dinheiro que eu posso investir.” Homem IMC obesidade A categoria obesidade II manifestou desconfiança a respeito do preparo e das intenções do profissional que se oferece para ajudar. A categoria obesidade III não citou ajuda profissional como relevante. “Na verdade, os profissionais não estão preparados. É difícil ter alguém, algum profissional que ajude de verdade. Eles querem vender. Um bom profissional me ajudaria a definir melhor as combinações de roupas. Para me sentir seguro, desde os quinze anos compro sempre nas mesmas lojas, só em duas lojas. Eu chego lá, e eles já sabem, não 62 precisa do constrangimento de falar do meu tamanho. Para você ter uma ideia, fico uns quatro anos sem comprar tênis, mas quando compro, compro um bom. Se não o meu pé fica cozinhando.” Homem IMC obesidade II As mulheres com IMC normal, sobrepeso e obesidades I e II entendem a orientação profissional como uma pessoa que adequa as escolhas da participante à imagem que ela quer transmitir numa ocasião social, uma vez que elas atribuem a esta pessoa a capacidade de harmonizar alguns itens da aparência como sensualidade, cor da pele e formas corporais. Para essas participantes acima do IMC normal, tal profissional é capaz de fazer com que elas pareçam mais magras usando certas roupas. “Você sabe que está mesclando as coisas certas. Que você está combinando. Às vezes você coloca uma roupa que você se sente bem, mas que não combina. A gente faz o nosso próprio estilo. Mas às vezes é bom a orientação profissional. Principalmente quando você vai procurar um trabalho, ou em algum jantar especial, é bom você saber que está indo com a roupa adequada.” Mulher IMC normal “(...)Eu ando assistindo o esquadrão da moda, eu adoro aquilo. Outro dia, uma mulher que estava gordinha, ficou com a silhueta perfeita. Para mim seria legal também.” Mulher IMC sobrepeso “Eu estou acima do peso, então tem roupa que ajuda a gente a ficar um pouco mais magra. Mesmo quem é magro, tem que tomar cuidado com a roupa. Dependendo da roupa, deixa a pessoa gorda também. A cor da pele, o tamanho da pessoa, o profissional ajudaria a combinar isso também.(...)” Mulher IMC obesidade II Não obstante, a categoria obesidade III entende a orientação profissional não como uma pessoa, mas como a informação provinda dos meios de comunicação. 63 “Poderia ter mais programas na televisão, revistas. É muito difícil ter revista para gordinho, para aprender a se arrumar. Tem site, mas revista não. Eu precisei ser madrinha de casamento e foi um dilema. Eu não achava o que vestir.” Mulher IMC obesidade III Em resumo, a orientação profissional pode proporcionar segurança emocional ao escolher as roupas próprias para cada ocasião. O homem espera que o profissional o ensine a escolher roupas adequadas especialmente ao clima do ambiente – isto é, frio ou calor. Já a mulher espera que o profissional modere suas próprias escolhas especialmente quanto à sensualidade e magreza que a mulher deseja transmitir. Estes dados corroboram com a pesquisa bibliográfica encontrada. Mesquita (2008) afirma que um dos modos contemporâneos de adquirir estilo é consumir os serviços de um “personal stylist” – isto é, consultor de estilo ou imagem pessoal. A autora pontua que há uma série de usos para o termo. Em nossa pesquisa, os participantes utilizam o termo como uma ligação entre a singularidade do individua, sua maneira de viver e suas escolhas de compra. Tal definição sinaliza a ligação entre o produto “roupa” e a vivência afetiva dos participantes. Este profissional pode ser contratado para articular as roupas e acessórios, o corpo e os ambientes nos quais o cliente circula. O trabalho deste profissional pode aumentar a autoconfiança, a autoexpressão e a credibilidade do indivíduo que o contrata. Em nossa pesquisa, os participantes com IMC normal, sobrepeso e obesidade I afirmam que os serviços deste profissional podem aumentar a segurança emocional a respeito do que eles vestem. Contudo o consultor de estilo parece evocar desconfiança nos participantes com obesidade II e III. Nenhum dos homens ou mulheres com IMC obesidade classe III fez referência a uma pessoa que seja capaz de orientá-los profissionalmente a respeito das roupas mais adequadas. Este comportamento pode ser devido a dois motivos. Primeiro, o despreparo dos profissionais que trabalham com roupas e imagem corporal para lidar com pessoas deste tipo físico, tal como demonstra a fala de um homem com IMC obesidade II. Este participante é um pouco mais leve, mas relata dificuldades para encontrar orientação profissional adequada. Segundo, a descrença na possibilidade de melhorar a sua aparência através do olhar compreensivo de outra pessoa. 64 Esses dados corroboram com o apontamento das pesquisas bibliográficas, posto que Wood et al. (2008) afirmam que as mulheres com IMC acima do normal não procuram ajuda profissional para aprender a ajustar seu sutiã devido ao temor de viver duas situações. A primeira, ouvir comentários dos profissionais a respeito do formato de suas mamas. Segunda, ser obrigada a comprar um sutiã que vestiu bem, mas que não a agradou ou está além das suas possibilidades financeiras. 4.2.3 - Q2A3B: Opção – Faltam roupas de modelos e estilos variados TABELA 10 Roupas de modelos e estilos variados * Sexo Crosstabulation Roupas de modelos e estilos variados Sim Não 9 Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 14 15 35,0% 37,5% 20 20 50,0% 50,0% 6 5 15,0% 12,5% 40 40 100,0% 100,0% Total 29 36,3% 40 50,0% 11 13,8% 80 100,0% TABELA 11 Roupas de modelos e estilos variados * Peso Crosstabulation Normal Roupas de modelos e estilos variados Sim Não Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso 6 37,5% 10 62,5% 16 100,0% Sobrepeso 8 44,4% 10 55,6% 18 100,0% Peso Obesidade I 7 41,2% 10 58,8% 17 100,0% Obesidade II 2 22,2% 7 77,8% 9 100,0% Obesidade III 6 66,7% 3 33,3% 9 100,0% Total 29 42,0% 40 58,0% 69 100,0% Pela análise do discurso, observamos que os homens de todas as categorias de IMC relatam que só um estilo de roupa é vendido nas lojas. Entre os homens com IMC acima do normal, há quem deseje copiar este modelo único 65 que predomina nas lojas, mas não o faz porque não encontra o modelo num tamanho adequado ao seu corpo. “Por exemplo, agora entrou essa onda de roupa colorida. E eu não sou dessa ‘vibe’. Você vai na loja de surf, e eles estão colocando muita roupa colorida. Não é assim como essa camiseta (e mostra a própria camiseta). Eu gosto de camisa de surf mais básica. Homem IMC normal “Na hora de sair, você quer copiar um modelo que o pessoal esteja vestindo. Eu me visto quando eu vejo outras pessoas se vestindo. Eu não tenho meu estilo próprio. Se eu vejo uma pessoa vestindo algo legal, eu quero me vestir que nem ele.” Homem IMC obesidade I Os participantes de todas as categorias de IMC contam que se sentem melhor quando podem variar o vestuário. Eles manifestam incômodo frente à obrigatoriedade do uso de “roupa social” – isto é, calça com corte de alfaiataria e camisa – no ambiente profissional. Esta exigência associa tal vestimenta à rotina, gerando mal estar ao utilizá-la. Tal polarização entre rotina e variedade em relação à “roupa social” é mais incômoda para homens de 25 a 35 anos. As peças de roupas consideradas mais difíceis para se adequar são calça, camiseta e camisa. “Eu tenho a impressão que estou sempre com as mesmas roupas. Eu vario pouco durante a semana. Até sobra roupa no guarda-roupa que eu não uso. Eu acabo repetindo a mesma camisa, a mesma calça, o mesmo tênis. Até a cueca às vezes é a mesma, mas eu lavo.” Homem IMC normal “Não tenho paciência para ficar procurando uma coisa. É tudo igual e não me serve. Se eu pego uma camisa tamanho G, ela para aqui (aponta acima do pulso). Assim eu compro uma camisa tamanho GG para ela cobrir até aqui que eu gosto. Mas fica larga no colarinho. Então ficar procurando me irrita, não gosto.” Homem IMC sobrepeso 66 “Porque você sempre com aquele mesmo estilo, parece que sua vida vai virando rotina. Então semanalmente ou diariamente você tem que colocar uma roupa diferente. Alguma coisa para mudar. Automaticamente você se sente melhor com isso.” Homem IMC sobrepeso “Outros estilos de camisas, cores, outros estilos de calça, bermuda, tênis que eu não encontro com facilidade.” Homem IMC obesidade II “Esse negócio de moda não faz muito a minha cabeça. Eu não gosto de rotina. Tem que usar social para trabalhar, mas eu enjoo fácil. Quanto mais variedade, me sinto melhor.” Homem IMC obesidade III As mulheres de todos os IMC relatam que não acham o que gostam devido à predominância de um estilo e um tamanho nas lojas, ou que elas mesmas variam pouco as roupas que usam. O maior número de roupas de modelos e estilos variados permitem que elas achem as roupas que gostam, além de diminuir o uso do conjunto calça jeans e blusa. “Dependendo do que está na moda, você acha tudo igual em todo lugar. Podia ter um pouco de variedade. Tem bastante. Mas mesmo assim eu acho que às vezes fica tudo muito numa moda só, num modelo só ou num tipo de corpo só. Essas lojas grandes Renner, Marisa, Riachuelo, é tudo mais ou menos o mesmo padrão.” Mulher IMC normal Outros desconfortos se acumulam à medida que aumenta o IMC da participante. A partir da categoria IMC sobrepeso, maior variedade implica também ter roupas adequadas à faixa etária da mulher que vai vesti-las. As mulheres mais jovens e mais velhas com sobrepeso não sentem que o vestuário disponível nas lojas é adequado ao corpo delas. Participantes de 18 a 24 anos com IMC sobrepeso e obesidade I relatam que as roupas são muito pequenas e expõem o seu corpo de um modo que gera desconforto. 67 “Quando você vai comprar roupa, é tudo muito curto, muito decotado. Se tivesse uns modelos maiores, seria melhor. Porque hoje em dia o short é muito curto. E achar um short mais comprido é mais difícil”. Mulher IMC sobrepeso As mulheres de 36 a 46 anos começam a se preocupar com o que vestem, de modo que não pareçam mais velhas. A preocupação em transmitir uma aparência mais jovial é significativa entre as mulheres de 47 a 60 anos que estão com IMC acima do normal. Deste modo, a maior variedade de modelos e estilos permite que elas conciliem seu próprio processo de amadurecimento, seu peso e as novidades relacionadas ao vestuário. “Hoje eles fazem uma roupa muito para menininha. E esquece que a gente vai amadurecendo e que precisa ter uma roupa que seja compatível com a nossa idade. Nem tão menininha, nem tão velhona. Falta o meio termo.” Mulher IMC sobrepeso “Porque eu acho que tem a roupa adequada para mim. Cada idade tem a sua... cada corpo... tem que escolher a coisa certa. Eu estou procurando um blazer de manga curta. Andei a Teodoro inteira e não achei no meu número que é 46. Só achei até o 44.” Mulher IMC obesidade I Para as participantes com IMC obesidade III roupas variadas é um sinônimo de roupas com modelagem adequada ao corpo gordo. Ao vestir as roupas atualmente disponíveis nas lojas para o seu tamanho, as participantes sentem que a modelagem destas peças é inadequada para suas formas corporais. Portanto, ao vestir tal roupa, elas se percebem como fisicamente feias, o que diminui sua autoestima. “Geralmente pensam que uma gordinha tem que usar uma roupa quadrada. Não tem um modelo, não tem um molde. Eu, por exemplo, sou acinturada e tenho quadril. Mas tem pessoas que são mais quadradas. Aí no caso, eu não entro nem no gordinho nem no magro. Tem roupa que eu experimento numa loja de gordinho e fica enorme. Eu 68 não tenho complexo nenhum, mas se você colocar uma blusa mais moderna, fica mais justo, mais alinhado.” Mulher IMC obesidade III “Eles pensam que gordinha é só colocar uma roupa, amarrar um negócio no meio da cintura e está linda e maravilhosa. E não é bem assim. A gente também tem que se sentir bem. Eu queria encontrar algo bonitinho e moderno.” Mulher IMC obesidade III Em resumo, a maioria dos participantes acredita que há um modelo de roupa predominante nas lojas. A padronização relatada pelos participantes corrobora com o conceito de Castilho e Vicentini (2008) relatado na bibliografia pesquisada. As autoras pressupõem que uma dinâmica social permeia e determina a interação entre roupa e corpo. Uma vez que a roupa cobre o corpo a fim não só de adequá-lo ao convívio social – isto é, não mostrar-se nu – mas também para definir seus contornos. Esta formatação do corpo tem por finalidade adequá-lo às concepções que a sociedade partilha a respeito do corpo em geral. Segundo os dados obtidos, quatro perfis de participantes se mostraram particularmente incomodados com essa formatação do corpo através da roupa: homens de 25 a 35 anos; mulheres com IMC acima do normal com idades entre 18 e 24 anos e entre 47 e 60 anos; e mulheres com IMC obesidade III. O desconforto dos homens encontrado na pesquisa confirma as reflexões dos autores encontrados. Eco et. al (1989) afirmam que os homens se ressentem com o desconforto e as limitações a que são submetidos através do uso da roupa. Flügel (1966) atribui a rigidez da “roupa social” masculina à responsabilidade e ao senso de dever que são associados a ela. Portanto, a “roupa social” ajusta a aparência corporal masculina aos valores morais que a sociedade espera encontrar num homem inserido no mercado de trabalho. Flügel (1966) prossegue dizendo que o homem suporta a austeridade corporal e a falta de variedade provocada pela “roupa social” devido à imagem positiva que ela transmite. Diniz (2005) demonstra que na sociedade contemporânea, este traje goza de muito prestígio. A ponto da qualidade da “roupa social” ser determinante na aprovação ou não de um candidato a cargos importantes em grandes empresas. 69 Os homens adultos jovens foram os que mais expressaram desconforto. Possivelmente devido à inserção destes participantes no mercado de trabalho. Uma vez que o ambiente profissional exige o uso desse tipo de traje no cotidiano. Contudo, esses jovens não podem abrir mão de tal roupa sem prejudicar a conquista da estabilidade social e econômica. As mulheres acima do peso com idades entre 18 e 24 anos e entre 47 e 60 anos parecem se defrontar com a percepção social a respeito da relação entre idade e atratividade. Kaiser (1998) afirma que a idade da mulher é mais importante do que a idade do homem na determinação social de sua atratividade física. O homem mais velho é avaliado como tendo agora uma aparência diferente da juventude. A mulher mais velha é avaliada como tendo agora uma aparência menos atraente do que na juventude. Desse modo, é esperado que uma mulher jovem tenha uma aparência atraente e sensual e exponha mais seu belo corpo. Segundo Navarri (2010) a mulher magra, alta e jovem é considerada glamorosa, isto é, desejável socialmente. Tal exposição do corpo feminino jovem e magro parece se refletir na modelagem diminuta das roupas feitas para esse público. Como as jovens participantes com IMC acima do normal têm dimensões corporais maiores, é esperado que experimentem tanto desconforto físico quanto psicológico por conta da inadequação das roupas às suas formas corporais. Com relação às mulheres entre 47 e 60 anos, o desconforto relatado por estas participantes apoia a bibliografia encontrada. Kaiser (1998) afirma que as mudanças físicas decorrentes do envelhecimento limitam as opções de vestuário devido aos problemas de ajuste corporal decorrentes. A mulher mais velha tende a experimentar mudanças corporais como sedimento da linha do busto, engrossamento da cintura e perda de tônus muscular na parte superior do braço. Kaiser (1998) afirma que os fabricantes de roupas se encontram num dilema ao tentar atender essas potenciais consumidoras. Eles não sabem como oferecer roupas para mulheres mais velhas sem rotulá-las como velhas. Ao divulgar o público-alvo do seu produto, eles tendem a estigmatizar estas roupas e suas consumidoras como pouco atraentes. Como um dos critérios de autoavaliação corporal feminina é a atratividade física, esta potencial consumidora tende a rejeitar a roupa oferecida. Ao retomar a fala de uma participante, parece que a solução deste impasse seria a produção de roupas “nem tão menininha, 70 nem tão velhona”. Isto é, que contemple as formas corporais da mulher madura de modo atraente. As mulheres com IMC obesidade III descrevem as roupas disponíveis como quadradas, pouco alinhadas e pouco ajustadas ao contorno corporal. Soma-se a isso a lipofobia cultural apontada por Fischler (2005) onde a gordura não é digna de complacência, mas sim de dura oposição. Talvez essa modelagem de roupas sem contornos definidos seja o reflexo de um imaginário coletivo a respeito do corpo gordo. Essa modelagem inadequada provoca sentimentos negativos na mulher obesa III a respeito de sua própria aparência. 4.2.4 - Q2A4B: Opção – ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupas. TABELA 12 Ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu * Sexo Crosstabulation Ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu Sim Não 9 Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 7 17 17,5% 42,5% 27 18 67,5% 45,0% 6 5 15,0% 12,5% 40 40 100,0% 100,0% Total 24 30,0% 45 56,3% 11 13,8% 80 100,0% TABELA 13 Ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu * Peso Crosstabulation Normal Ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu Total Sim Não Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso 3 18,8% 13 81,3% 16 100,0% Sobrepeso 4 22,2% 14 77,8% 18 100,0% Peso Obesidade I 6 35,3% 11 64,7% 17 100,0% Obesidade II 4 44,4% 5 55,6% 9 100,0% Obesidade III 7 77,8% 2 22,2% 9 100,0% Total 24 34,8% 45 65,2% 69 100,0% Homens de todas as categorias de IMC acreditam que ver a imagem de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupas ajuda a 71 perceber quais roupas ficam melhores no próprio corpo. Os participantes das categorias IMC normal e obesidade I, II e III queixam-se por não se verem representados nas propagandas. “Não tem muita imagem de homem magro assim nas propagandas. O que eu vejo é um tipo mediano, camisa padrão, tamanho grande. O tamanho grande nunca fica do meu tamanho. Fica sempre curto. Manga, calça, barra. Se eu compro calça tamanho 40, ela fica curta. A roupa fica larga, tem que mandar apertar.” Homem IMC normal “Questão de comparação. Para perceber coisas que ficam melhor, que ficam pior em pessoas com o mesmo biotipo que o seu. Ajudaria”. Homem IMC obesidade I “Você tem uma noção do que você pode vestir ou não. Não só em relação a mim, mas a outras pessoas que sejam gordas.” Homem IMC obesidade II “Não há gordos como eu em campanhas publicitárias. Ficamos sem nenhuma referência.” Homem IMC obesidade II “Hoje você só vê praticamente modelos magrinhos, raquíticos. O biotipo de moda. E no dia a dia, tem vários. Isso nas roupas masculinas. No feminino é até mais fácil. Em geral, você não tem publicidade de todo tipo de roupa, só tem publicidade para aquela roupa, para aquele biotipo da moda. Agora no verão você só vê magrinhos usando estilo surf, polo.” Homem IMC obesidade III As mulheres de todas as categorias de IMC afirmam que o tipo físico apresentado nas propagandas de roupa não corresponde à realidade. Quanto maior o IMC, maior o sentimento de exclusão presente no discurso das participantes. Este sentimento de exclusão afeta negativamente tanto a autoestima quanto o comportamento de vestir-se das participantes. Além disso, elas partilham a crença que as roupas vestem melhor numa pessoa magra. 72 Mulheres com IMC normal – isto é, que possuem o tipo físico magro – também afirmam que o tipo físico apresentado nas propagandas de roupa não corresponde à realidade. “Na propaganda, todo mundo é lindo, super jovem, super magrinho. A roupa é curtíssima, justíssima, decotadíssima. É um padrão que não é o nosso, não é o real. Está longe da realidade.” Mulher IMC normal “Eu acho que a pessoa magra veste melhor. E tendo pessoas de corpo igual ao meu, ia me ajudar mais.” Mulher IMC normal Para as mulheres com IMC sobrepeso, ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo torna mais fácil encontrar as lojas que vendem roupas de tamanhos adequados. “Nas propagandas, a gente só vê gente magrinha. Cadê que não põe uma gordinha com as roupas que caem bem, que vestem bem? É pouca a propaganda que tem, então deveria ter mais” Mulher IMC sobrepeso “Mais a parte grande. Porque tem uns modelinhos que são novidade, mas está difícil de encontrar o tamanho 48 porque só vai até o 44. Eu visto 48 só em cima.” Mulher IMC sobrepeso Para as mulheres com IMC obesidade I, ter mais imagens de pessoas com mesmo corpo tem duas vantagens. A primeira é facilitar a busca e evitar o constrangimento ao procurar roupa numa loja que não oferece tamanhos maiores. A segunda é o aumento da autoestima ao ver imagens de referência nas propagandas. “Porque quando a gente vai comprar roupa, a gente procura roupa do nosso tamanho e às vezes não tem o modelo que a gente quer. Ou não tem a cor. Aí a gente se 73 sente um pouquinho inferior”. Mulher IMC obesidade I “Se a gente ver, de repente a gente vai se identificar com alguém. É uma maneira de você falar ‘Não, eu não preciso usar necessariamente isso. Eu posso mudar. Ela também é gordinha como eu’. Mas eu não tenho nenhuma referência. Mulher IMC obesidade I Para as mulheres com IMC obesidade II, falar sobre imagem corporal remete não só às imagens exibidas nas propagandas, mas também à imagem social do gordo. Elas percebem uma hostilidade social em relação ao corpo gordo e à pessoa que é gorda. “Agora eu estou trabalhando, graças a Deus. Mas as pessoas acham que a pessoa obesa não presta para nada. Tem que se ferrar mesmo. E só fazem roupa para magro. Deviam incentivar as pessoas a fazer mais roupas para gordo, porque gordo também precisa se vestir. E isso acaba fazendo a pessoa se sentir mal. Porque só tem manequim 38. Eu, por exemplo, uso 50 e tralalá.” Mulher IMC obesidade II “Na propaganda, eu ia ver e me sentir bem. Às vezes eu acho que está todo mundo olhando para mim, mas eu vejo que tem gente mais gorda do que eu.” Mulher IMC obesidade II Para as mulheres com IMC obesidade III, o fato de a pesquisadora citar a alternativa “imagens corporais nas propagandas” estimula nas participantes a lembrança da exclusão do corpo gordo das novelas, revistas e programas de televisão. Elas consideram que ver um corpo igual nos meios de comunicação estimula o uso de uma roupa que a princípio ela não vestiria por medo de ficar feia. “Por exemplo, você está assistindo a novela e tem bastante gente usando aquele modelo. Se é para a pessoa magra, a pessoa magra se entusiasma para querer aquele modelo. Para a gente que é gordo, você não vê nada. Tanto que a gente nem vê direito muito gordo na televisão, em coisa de manequim, de modelo, essas coisas assim. Se 74 tivesse, daria mais ânimo para você saber que tem para você poder comprar, usar. Daria outras idéias de modelos diferentes.” Mulher IMC obesidade III “Às vezes eu não vejo que fica bem em mim, eu vejo em outras pessoas. Se eu vejo uma gordinha vestindo uma coisa que eu queria comprar para mim, mas eu achei que não ia ficar bem, aí eu vejo e acho que vai ficar bem quando eu vejo a outra pessoa. Às vezes eu fico com vergonha: ‘Ah, eu sou gordinha. Isso não vai ficar bem’. Mas se eu vejo outras pessoas, me motiva mais.” Mulher IMC obesidade III Em resumo, ambos os gêneros não se sentem fisicamente representados nas propagandas de roupas. Contudo, entre os homens com IMC normal e obesidade I, II e III há uma percepção comum a respeito de qual tipo físico é veiculado nos meios de comunicação: corpo masculino com IMC sobrepeso. Ao mesmo tempo, nenhum dos dez participantes com IMC sobrepeso queixaram-se da falta de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa. Este dado parece confirmar as informações obtidas na pesquisa bibliográfica. Pope (2000) afirma que o corpo “sarado” – isto é, com boa quantidade de massa muscular e equivalente ao IMC sobrepeso – vem se infiltrando nos meios de comunicação através dos modelos masculinos que participam de anúncios de cuecas a veículos utilitários. Os corpos masculinos expostos valorizam músculos abdominais rígidos, tórax maciço e ombros inflados. Não obstante o discurso dos homens tem uma carga afetiva menor que o discurso das mulheres. Entre outros motivos, Pope (2000) afirma que esta diferença se deve a um código de masculinidade insidioso: homens não têm direito de se incomodar com preocupações relacionadas à sua aparência. Uma vez que falar de sentimentos negativos relacionados a seus corpos e aparência física pode ser visto como desmoralizante, os homens tendem a disfarçar ou ocultar suas preocupações. Entre as mulheres, há uma percepção comum a respeito de qual tipo físico é veiculado nos meios de comunicação: o corpo magro. Contudo, mesmo as mulheres com IMC normal, que são as participantes mais magras, não se consideram representadas. Barlow e Durand (2011) afirmam que há uma 75 predominância de imagens de corpos femininos magros nos meios de comunicação americanos, com base em publicações de 1979 a 1988, 69% das páginas centrais da revista “Playboy” e 60% das candidatas a Miss América pesavam 15%, ou mais, abaixo do normal para sua idade e altura. Dito de outro modo, esses corpos femininos eram de mulheres com IMC abaixo do peso. Não encontramos estudos e dados similares a respeito dos meios de comunicação brasileiros. Assim, é possível que as mulheres com IMC abaixo do normal se considerem fisicamente representadas nas propagandas de roupas, mas não temos participantes com este IMC em nossa amostra a fim de confirmar ou refutar esta hipótese. Quanto às novelas e seriados, Barlow e Durand (2011) afirmam que é duas a cinco vezes mais comum homens com sobrepeso interpretarem personagens de televisão que as mulheres com sobrepeso. Os dados destes autores em relação aos homens com sobrepeso na mídia é compatível com os resultados encontrados. No entanto, em relação às mulheres, só podemos supor que talvez predomine mulheres com IMC abaixo do peso nas propagandas de roupas. Uma vez que o corpo magro característico do IMC normal não foi identificado como comum nas propagandas pelas participantes com este mesmo IMC. 4.2.5 - Q2A5B: Opção – outros motivos não citados pela pesquisadora, mas que o participante considera importante. TABELA 14 Outros motivos * Sexo Crosstabulation Outros motivos Sim Não 9 Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 9 4 22,5% 10,0% 25 31 62,5% 77,5% 6 5 15,0% 12,5% 40 40 100,0% 100,0% Total 13 16,3% 56 70,0% 11 13,8% 80 100,0% 76 TABELA 15 Outros motivos * Peso Crosstabulation Normal Outros motivos Sim Não Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso 2 12,5% 14 87,5% 16 100,0% Sobrepeso 5 27,8% 13 72,2% 18 100,0% Peso Obesidade I 3 17,6% 14 82,4% 17 100,0% Obesidade II 3 33,3% 6 66,7% 9 100,0% Obesidade III 9 100,0% 9 100,0% Total 13 18,8% 56 81,2% 69 100,0% Através da análise do discurso, observamos que as mulheres apontaram dois fatores que podem ajudá-las a se sentirem melhor vestidas. O primeiro fator é ter mais disposição para se vestir, tal como relatado por participantes da categoria IMC sobrepeso. O segundo fator é a necessidade de emagrecer citada por participantes da categoria IMC obesidade II. Emagrecer, para eu sentir que estou me vestindo melhor. Você vê aqui na rua. Tem três ou quatro lojas de roupas de tamanhos maiores e cem lojas para tamanhos menores. Aí eu tenho que me adequar aos tamanhos menores. Não eles a mim. Mulher IMC obesidade II Ser um pouco mais magra. O estilo, as roupas que eu gosto, eu mantenho. Mulher IMC obesidade II Os homens com IMC normal e sobrepeso apontavam três fatores como importantes para que eles se sintam bem vestidos. O primeiro é a padronização da vestimenta, onde o homem que não se ajusta é considerado mal vestido. “A mecanização da moda, a vestimenta única. Se você não se encaixar, você não está bem. É a falta de variedade mesmo.” Homem IMC normal “Você poder pôr a roupa que você quer sem ser julgado por isso. Cada um poder ter seu próprio estilo sem ficar com essa palhaçada de ‘está fora, está inadequado’. Ninguém está inadequado. Ninguém está pelado para estar inadequado. (...)” Homem IMC sobrepeso 77 O segundo fator citado é o ambiente. Isto é, o ambiente que o participante frequenta exige que ele esteja usando a vestimenta adequada, mas o tipo de vestimenta exigida é incompatível com o clima. “Roupa depende do local que você mora. Acho que em São Paulo, por exemplo, dá para se vestir melhor por causa do hábito das pessoas e do frio. Já em Salvador, Bahia, tem que usar menos roupa.” Homem IMC sobrepeso “Você vai entrar no trabalho com a regata, e os caras vão falar ‘você está fora, você está despreocupado, é oba-oba’. Não é oba-oba, é país tropical. É a realidade. Você não vive na Europa para usar roupa tampando tudo. Porque mulher usa blusinha, saia, sandália no calor para trabalhar. Por que homem também não pode usar? (...) Ai tem homens que se prendem a valores. (...) Porque eles também não estão contentes. Mas eles têm medo de botar o que eles querem usar.” Homem IMC sobrepeso O terceiro fator citado pelos participantes com IMC normal e sobrepeso é não encontrar roupas adequadas para seu tipo físico. “Ter mais roupas para a minha altura. Eu tenho uma altura que dizem que é a altura do brasileiro. Mas não fazem calça para homem com 1,70 metros de altura. Fazem calça para quem é menor ou para quem tem 1,75 metros. Numa loja de departamento, por exemplo, você não encontra a roupa adequada. Tem que mandar um alfaiate fazer a partir das suas medidas. Mas raramente eu mando fazer roupas.” Homem IMC sobrepeso Os participantes da categoria IMC obesidade I apontam o “relaxo” – isto é, a falta de empenho na tarefa de vestir-se – como um comportamento importante no ato de vestir-se. Os participantes sentem a necessidade de mudar sua opinião a respeito dos cuidados com a aparência, já que cuidar da aparência muda sua autoestima. 78 “Falta eu me preocupar mais, mudar minha opinião, minha forma de ver as coisas. Nem sempre se vestir bem é questão de grana ou de orientação profissional. Acho que duas cores são suficientes, pois roupa para mim é para trabalhar, não preciso de frescura, sou prático.” Homem IMC obesidade I “Falta empenho meu mesmo. Eu não ligo muito para minha aparência, para roupa, não faço tanta questão. Se eu me esforçasse, mudaria minha autoestima.” Homem IMC obesidade I Os participantes da categoria IMC obesidade II apontaram que falta emagrecer para que eles se sintam melhor vestidos. “Emagrecer. O problema é eu mesmo.” homem IMC obesidade II Em resumo, uma mulher e um bom número de homens afirmam que lhes falta empenho na tarefa de vestir-se. Este resultado está de acordo com a bibliografia relatada. O critério atratividade física associado ao corpo feminino parece estimular as mulheres a se preocuparem mais com a própria aparência. Contudo ser masculino em nossa cultura implica não se dar ao direito de se incomodar com preocupações sobre sua aparência como salienta Pope (2000). Quando os participantes dizem que precisam mudar sua opinião a respeito dos cuidados com a aparência, parecem se referir à necessidade de romper com a associação entre preocupação com a aparência e feminilidade. Um estímulo para esta mudança de comportamento é o aumento da autoestima que eles experimentam ao escolher com atenção o que vão vestir. Outras duas queixas se referem à padronização da vestimenta. Os participantes afirmam que a roupa exigida é incompatível com o clima do nosso país. Ao mesmo tempo, não usar a vestimenta exigida faz com que ele seja considerado mal vestido. Essas duas queixas parecem estar ligadas aos resultados apresentados no tópico 4.2.3., onde os homens manifestaram incômodo por ter de usar “roupa social” – isto é, calça com corte de alfaitaria, camisa e sapato. 79 Ao cruzarmos os dados das duas questões, podemos notar que os homens estão divididos entre duas necessidades. Uma é a necessidade de usar a “roupa social” que garante sua inserção na vida produtiva, mas é desconfortável para o clima quente do nosso país. A outra é a necessidade de usar vestimentas mais adequadas ao clima tropical que gozem do mesmo prestígio social que a “roupa social”. O quarto motivo citado por mulheres com IMC obesidade II é necessidade de emagrecer. Já os homens com IMC obesidade II citam a falta de roupas adequadas ao seu tamanho. Em ambos os casos, as dimensões corporais são fatores importantes no sentimento de bem-estar em relação ao ato de vestir-se. 4.3 – Q3: “Você tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados para você?” Na questão 3 perguntamos: “Você tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados para você?” Foram oferecidas três alternativas de respostas: sim, não e agora não. Quando os participantes responderam “não”, prosseguimos para a questão 4. Quando eles responderam “sim” ou “agora não”, fizemos a seguinte pergunta: “Como você se sente diante desta situação? A maioria dos participantes (55%) afirmou que tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados para seu corpo (TABELA 16). Entre os participantes do gênero masculino, 45% têm dificuldade para achar, 42,5% não têm e 12,5% já tiveram. Nenhuma das alternativas prevalece. Já entre as participantes do gênero feminino, a maioria tem dificuldade (65%) como demonstra a tabela 16. 80 TABELA 16 Tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados * Sexo Crosstabulation Tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados Sim Não Agora não Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 18 26 45,0% 65,0% 17 8 42,5% 20,0% 5 6 12,5% 15,0% 40 40 100,0% 100,0% Total 44 55,0% 25 31,3% 11 13,8% 80 100,0% Ao analisar o nível de dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados por categoria de IMC, observamos que quanto maior é o IMC, maior é a dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados (TABELA 17). Esta dificuldade é maior quando observamos a categoria IMC obesidade I. Este aumento pode sugerir que se um indivíduo com IMC sobrepeso ganhar mais peso a ponto de alcançar o IMC obesidade I, ele sofrerá mais bruscamente o impacto de não ter roupas de tamanhos adequados. No tópico 4.3.1 através da análise do discurso, vamos relatar quais as dificuldades encontradas segundo cada categoria de IMC. TABELA 17 Tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados * Peso Crosstabulation Normal Tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados Sim Não Agora não Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso 7 35,0% 12 60,0% 1 5,0% 20 100,0% Sobrepeso 8 40,0% 10 50,0% 2 10,0% 20 100,0% Peso Obesidade I 16 80,0% 2 10,0% 2 10,0% 20 100,0% Obesidade II 7 70,0% 1 10,0% 2 20,0% 10 100,0% Obesidade III 6 60,0% 4 40,0% 10 100,0% Total 44 55,0% 25 31,3% 11 13,8% 80 100,0% Essa relação entre IMC e dificuldade para achar roupas parece evidenciar a existência de um padrão métrico equivalente ao normal como predominante na confecção das roupas. Não obstante, em todas as categorias há participantes que já tiveram dificuldade para encontrar roupas de tamanho adequado, porém hoje não têm mais. Assim é importante saber o que fez com que estes participantes 81 superassem tal dificuldade. No tópico 4.3.2, através da análise do discurso, vamos identificar quais foram as dificuldades encontradas, bem como quais as estratégias utilizadas por aqueles que conseguiram superá-las. 4.3.1 – Q3A: Opção – Sim, eu tenho dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados Pela análise do discurso, observamos que os homens de todos os IMC reivindicam roupas de tamanhos maiores, dada a sua preferência por roupas que ficam folgadas no corpo. Estes mesmos participantes atribuem a dificuldade de achar roupas adequadas à confecção de roupas masculinas a partir de uma modelagem menor do que o tipo físico da população em geral. “Chateado. Porque o padrão deles é fora do padrão comum. Não é o real.” Homem IMC normal “Irritado. Porque eu acredito que eles não estão oferecendo um produto adequado para mim. Acredito que já há um padrão determinado nas lojas de roupas quando eles vendem o produto.” Homem IMC obesidade I Homens com IMC acima do normal atribuem a dificuldade de achar roupas adequadas também ao fato de terem um corpo gordo. Ao não encontrar a roupa de tamanho adequado estes homens se sentem mal, irritados, frustrados e incomodados. “Eu fico frustrado, porque eu penso: ‘Eu estou gordo, eu preciso emagrecer’. Eu tenho dificuldade com calça. Não é o tamanho exatamente, é mais o corte. Eu tenho coxas grossas e dependendo da calça fica muito Zezé de Camargo, coladinha. Eu gosto de roupa mais larga, que fique mais confortável.” Homem IMC obesidade I 82 Ao comprar as roupas, o momento de provar as peças é constrangedor para alguns participantes que tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados. “Dá vontade de sair correndo da loja. Dou umas três ou quatro procuradas. Aí desisto e vou embora.” Homem IMC sobrepeso “Agora que eu estou treinando, eu dei uma desinchada. Mas comprar calça era um inferno. Eu tinha até vergonha de ir nos provadores das lojas. Porque nunca tinha calça do meu tamanho. Me sentia um E.T.” Homem IMC obesidade II Não obstante, dois participantes relataram que superaram a dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados no Brasil comprando roupas nos EUA. “Eu descobri que eu não sou gordo, eu sou americano. Eu fui para os Estados Unidos ano passado. Aqui no Brasil, você vai em qualquer loja de roupa normal, não especializada para gordo, você vai comprar roupa tamanho GG e não entra na sua perna. Nos Estados Unidos eu comprei esta bermuda, deste tipo que eu gosto muito, e ela é tamanho G. A modelagem americana é muito maior, os americanos são maiores.” Homem IMC obesidade II “(...) Eu gosto de roupa mais larga. No meu tamanho é difícil. (...) O mais difícil é roupa legal do meu tamanho. Mas eu só acho lá fora, nos Estados Unidos tem. Sempre compro lá, é mais fácil, no meio dos tamanhos normais. Eu vou lá a cada dois anos e compro bem. (...) Tem roupa normal, tem roupa para peão e tem roupa de veado. Ou só tem roupa social, e eu não aguento mais usar roupa social. Falta o esporte normal, marcas normais de roupa.” Homem IMC obesidade I As mulheres com IMC normal afirmam que a falta de roupas de tamanhos adequados se deve ao descompasso entre as proporções de seu corpo e os modelos de roupas disponíveis. 83 “Eu acho roupa na sessão infantil. Calça é um tormento para eu achar. Minhas pernas são muito finas e a calça fica muito folgada. Tem lugar que o tamanho 36 dá. Tem lugar que o tamanho 36 fica grande para mim. Depende muito do modelo da calça e do fabricante. Sendo com strech é mais fácil. As blusas são mais coladinhas, é fácil de achar.” Mulher IMC normal “Eu tenho muito busto e pouco quadril. Então tem certos tipos de roupas que servem em cima, mas não servem embaixo. Ou aperta em cima e fica larga embaixo. Então eu tento me adaptar. Se não serve para mim, não serve, paciência. Eu tento me adaptar. Se for um vestido que não ficou bom, eu vou comprar uma blusa ou uma saia, por exemplo.” Mulher IMC normal As mulheres com IMC acima do normal atribuem a dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados à confecção de roupas femininas a partir de uma modelagem menor do que o tipo físico da população em geral. Algumas participantes afirmam que esta padronização é fruto de preconceito, outras consideram esta padronização normal. Ao não encontrarem as roupas de tamanhos adequados, se sentem mal, incomodadas, frustradas, indignadas, chateadas e inferiores aos outros. “Bem mal. A gente se sente até inferior aos outros. Porque o mercado exige mais variedade de roupas para corpos do tipo modelo, não para as mais gordinhas assim. Eles visam mais um modelo de corpo, um padrão. Não visam todos os tamanhos. Vários estilos de roupa que às vezes eu gosto, não tem.” Mulher IMC obesidade I Algumas participantes com IMC acima do normal consideram o próprio peso corporal como a causa da dificuldade para achar roupas adequadas. Consequentemente elas consideram o emagrecimento como uma solução para superar a dificuldade com as roupas. 84 “Me sinto muito mal. Porque quando você precisa de uma roupa, você não acha. A única coisa que você tem que fazer é fechar a boca. Fechar a boca não tem jeito, é difícil. Mas a gente se sente meio usada.” Mulher obesidade I “É meio triste. E isso me leva a querer fazer coisas para que eu consiga um corpo melhor, como exercício e uma boa alimentação.” Mulher IMC sobrepeso Essa associação entre peso corporal, emagrecimento e dificuldade para achar roupas adequadas pode causar sofrimento significativo, tal como podemos observar nos relatos de duas participantes. “Horrível. Eu quero achar uma roupa, eu acho uma linda e maravilhosa e compro. Mas quando eu experimento, não serve mais. Antes eu achava que era normal. Hoje eu já sinto que não é normal. Tanto que eu guardo a calça no meu armário, e falo que um dia eu vou usar ela de novo. Tem várias coisas que eu já comprei e não usei porque eu achei bonito. Aí eu fico achando que vou emagrecer para entrar nela de novo.” Mulher IMC obesidade II “Estou me sentindo mal. Todo dia me olho no espelho e me acho péssima. Ainda mais no espelho da empresa que é corpo inteiro e perfil. Parece que eu estou bem, mas é porque eu estou com a roupa adequada. Mas se eu estou com uma roupa que não fica legal, vai mostrar tudo, entendeu? Mas se você me olha assim parece que eu estou bem. Mas não estou. Estou me sentindo péssima. Você está entendendo? Psicologicamente, eu estou péssima. Para quem vestia 38, agora está vestindo 44!”. Mulher IMC obesidade I As mulheres de 46 a 60 anos com IMC acima do normal têm dificuldade para encontrar roupas de festa e calças com modelagem adequada ao seu corpo. Relatam também que enfrentam dificuldades ao serem atendidas por vendedoras mais jovens. Estas participantes em especial sentem-se mal, frustradas, desrespeitadas e constrangidas. “Tenho dificuldade para achar calça com corte adequado para mim. Eu não acho. É tudo calça que o pessoal está usando, como a Gisele Bündchen. E como eu não faço 85 mais parte dessa juventude, eu não me visto. Você só tem calça tudo igual. Então eu nem compro. Eu só uso as calças legging. Eu acho um despautério, uma falta de respeito com a gente. Assim como tem mulheres da minha faixa etária que gostam das calças atuais, que acham bacana, tem o meu caso que não gosta. Aí você fica totalmente fora. Eu não sou jovem, eu não sou mocinha para usar este tipo de calça. Me sinto mal. Tanto que eu nem compro. Deveriam pensar mais na gente”. Mulher IMC sobrepeso Em resumo, frente à dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados, homens e mulheres com IMC acima do normal se defrontam com duas questões: o mercado nacional de roupas de tamanhos grandes e a culpabilização do próprio corpo. Entre os participantes do sexo masculino, encontramos, como estratégia frente à dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados, a aquisição de roupas em lojas de departamento norte-americanas. Na sociedade norteamericana, o corpo gordo é um dos biótipos aceitos como comuns no comércio de roupas vendidas em lojas não especializadas em tamanhos grandes. Kaiser (1998) afirma que as roupas para indivíduos com IMC sobrepeso e obesidade surgiram a partir da década de 1980 nos EUA. O mercado voltado para a produção e comercialização de roupas de tamanhos grandes – conhecido como “Plus Size” – se mostrou um dos setores mais rentáveis economicamente naquele país. No Brasil, o mercado de tamanhos grandes encontra-se em desenvolvimento. Segundo Gisele (2010), o mercado brasileiro conta com profissionais que tentam unir a imagem social positiva da Moda às roupas de tamanhos grandes. Entretanto, há muitos outros profissionais que consideram as modelos de tamanhos grandes feias e se recusam a favorecer o desenvolvimento deste segmento de mercado. Talvez a não aceitação social do corpo gordo como um biótipo comum brasileiro seja um dos fatores que dificultam a produção e a comercialização de roupas de tamanhos grandes tão bonitas e atualizadas quanto aquelas que os participantes disseram encontrar em suas compras no exterior. Não obstante, a maioria dos homens e mulheres da população brasileira, bem como a maioria dos participantes de nossa pesquisa, não tem recursos 86 financeiros e culturais suficientes para realizar uma viagem internacional a fim de comprar roupas. Assim, homens e mulheres acima do IMC normal vivenciam a culpabilização do próprio corpo. Isto é, frente à dificuldade de achar a roupa de tamanho adequado, eles pensam em modificar seu corpo a fim de adaptar-se ao tamanho das roupas que desejam vestir. Contudo, homens e mulheres parecem lidar de forma distinta com esta culpabilização. Paralelamente à vontade de modificar seu corpo, os homens manifestaram uma avaliação crítica em relação ao papel da cultura na modelagem das roupas. Eles consideram que a dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados não é causada somente por seu peso, mas também por um rigor da sociedade com relação às formas corporais maiores. Já as mulheres, em sua grande maioria, não demonstraram qualquer reflexão a respeito do papel da cultura na formatação das roupas. Tal dado parece corroborar com a bibliografia encontrada. Barlow e Durant (2010) afirmam que o choque entre a cultura e a fisiologia do corpo humano pode gerar efeitos emocionais negativos. Já que por um lado, a cultura estabeleceu ao longo das últimas décadas padrões e formas corporais cada vez mais magros e difíceis de serem atingidos. Por outro lado, simultaneamente a melhora da nutrição da população vem aumentando o tamanho e o peso da mulher que pode ser considerada média na população. Este embate entre corpos maiores e padrões corporais menores pode produzir dois efeitos secundários. O primeiro é o aumento do uso de dietas restritivas e exercícios físicos que visam atingir um tipo físico que, de fato, pode ser uma meta impossível. O segundo é uma insatisfação com a própria aparência tão severa que pode levar à fobia ou fixação por espelhos, por exemplo, tal como relatado por uma participante. Barlow e Durant (2010) prosseguem dizendo que a falta de senso crítico a respeito desse embate entre a cultura e a fisiologia pode estimular o desenvolvimento de traços psicopatológicos. Em nossa pesquisa, duas participantes não consideram normal o sofrimento que experimentam tanto ao se olhar no espelho, quanto ao guardar roupas na esperança de um dia emagrecer e poder vesti-las. Parece que a roupa, nestes casos, torna-se um território de embate entre a cultura e as formas corporais por dois motivos. Primeiramente, o 87 tamanho da roupa evidencia a mudança das formas corporais decorrente do ganho de peso, tal como podemos ver na fala da participante que se incomoda com espelhos: “Para quem vestia 38, agora está vestindo 44!”. O segundo motivo é que o tamanho das roupas marca numericamente o quão distante as formas corporais da participante estão do padrão corporal que a cultura estabelece. Esta marcação do corpo pelos trajes é vivida não somente pelas mulheres com IMC obesidade, mas também por mulheres com IMC normal, como vemos no relato desta participante: “Eu acho roupa na sessão infantil. Calça é um tormento para eu achar. Minhas pernas são muito finas e a calça fica muito folgada. Tem lugar que o tamanho 36 dá, tem lugar que o tamanho 36 fica grande para mim.” Se um sofrimento significativo com a relação à própria aparência pode gerar uma fixação ou fobia de espelhos, parece possível também que um sofrimento significativo em relação à aquisição e/ou uso de roupas provoque uma fixação por roupas – por exemplo, guardar roupas na esperança de emagrecer e posteriormente poder vesti-las. Tal sofrimento pode provocar também a fobia de situações ligadas à aquisição de roupas. Entenda-se “fobia específica” como medo irracional ou excessivo de uma situação específica que interfere na capacidade de viver de um indivíduo (BARLOW e DURAND, 2011, p.158). Frente à situação fóbica, o indivíduo pode reagir de dois modos. O primeiro é evitar a situação, o que é vivido com alívio. O segundo modo é enfrentar a situação com intensa angústia e stress. Pope (2000) lembra que os homens também podem sofrer calados por conta desses mesmos sintomas. Contudo em nossos resultados as mulheres relataram mais sofrimento. A variável “idade” apareceu como significativa entre as mulheres acima do IMC normal. Elas apontam dois modelos específicos de roupas como mais difíceis de serem encontrados num tamanho adequado ao seu corpo: calça e roupa para ocasião festiva. Elas também apontam a dificuldade das vendedoras mais jovens em compreender suas necessidades ao comprar uma roupa. 88 4.3.2 – Q3B: Opção – “Agora não. Eu já tive, mas hoje não tenho mais dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados.” Um homem com IMC normal relata que passou por um período de privação de alimentos e emagreceu a ponto de ter dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados. A superação desta fase permitiu que ele engordasse e hoje ele encontra roupas mais facilmente. “Me sentia mal. É igual você falar: ‘Puxa, eu quero aquele’. É igual você querer comer alguma coisa. Aí você vai lá e te falam: ‘Puxa, não tem mais’. Você se sente mal. Eu pensei ‘eu preciso mudar isso rápido’. Mudei alguns hábitos e aí consegui ganhar mais peso. Agora não, mas eu já passei uma ocasião muito triste alguns anos atrás. Eu pesei 50kg e foi difícil achar calça tamanho 38. Hoje eu acho calça tamanho 40 mais fácil. Mas é horrível você procurar alguma coisa e você não poder ter porque não tem o seu padrão.” Homem IMC normal Pela análise do discurso, observamos que os homens com IMC obesidade III superaram a dificuldade de achar roupas de tamanho adequado de três modos: a descoberta de lojas que vendem os modelos que lhes agradam; o aumento crescente do número de lojas especializadas em tamanhos grandes e a submissão à cirurgia bariátrica. “Agora não, porque eu sei onde procurar. Sempre tem as lojas que eu sei onde eu encontro as roupas do meu tamanho, que eu gosto. Eu sou de Mauá, e lá até que eu acho.” Homem IMC obesidade III “Agora eu não tenho dificuldade para achar roupa do meu tamanho. Eu tinha há uns 10 anos atrás quando não tinha loja de gordinho.” Homem IMC obesidade III “Eu fiz a cirurgia bariátrica há 8 meses. Pesava 200kg. Eu não tinha tanta dificuldade com articulação, joelho, por exemplo. Mas roupa era bem mais difícil. Eu já perdi alguns quilinhos e agora está mais fácil. Eu gosto desta loja por causa da variedade 89 de roupas. Mas ainda sim hoje tem mais lojas especializadas para os mais pesados.” Homem IMC obesidade III Uma mulher com IMC normal relata que o ganho de peso próprio do início da vida adulta ajudou a achar roupas mais facilmente. No entanto, ao longo do seu discurso parece que a dificuldade não foi totalmente superada. “As vezes eu sinto dificuldade de encontrar roupa porque quando era mais magrinha, eu tinha dificuldade para comprar roupa. Não usava o 36, eu usava o 16. Então não tinha, aí eu ficava sem. Agora que eu dei uma engordadinha, estou entre o 38 e o 36. Esta calça mesmo (aponta a própria calça) está caindo. Mas se eu pegar uma menor não entra. Eu uso 38 e mando na costureira para apertar. Então não é o seu corpo ali. Então tem que ir se adequando mesmo.” Mulher IMC normal Duas participantes com IMC sobrepeso ganharam peso devido às suas condições de saúde bem específicas – câncer e aborto espontâneo. Após a melhora do quadro de saúde, elas tiveram uma perda de peso significativa. “Terrível. Eu já tive dificuldade para achar roupa, mas emagreci 25kg. Engordei 25kg devido a um câncer de mama. Você se sente um elefante, porque eu nunca fui gorda. Era magrela. Mas nessa época foi difícil. Eu ainda estou com uns 4kg a mais. Mas nessa época eu não me sentia bem com nada.” Mulher IMC sobrepeso As mulheres com IMC obesidades I, II e III superaram a dificuldade de achar roupas de tamanhos grandes de dois modos: a descoberta de lojas que vendem os modelos que lhes agrada e o aumento crescente do número de lojas especializadas em tamanhos maiores. “Agora não, porque tem bastante loja com roupas do meu tamanho. Antes eu não encontrava.” Mulher IMC obesidade I 90 “Agora não, porque eu vou em lojas especializadas. Depende também porque se eu quiser comprar uma roupa da ‘Fórum’ não dá. Mas se eu for numa loja de roupa indiana, eu acho. Eu sei as lojas que eu acho o tipo de roupa que eu uso. Me sinto conformada, porque eu já me estressei muito. Mas hoje não mais. Não me sinto mal por não achar uma roupa numa loja.” Mulher IMC obesidade II “Já tive mais. Antes, tinha o tamanho GG mas era um GG pequeno. Agora parece que o pessoal está mais gordo, tem o Extra G. Aí eles aumentaram o tamanho também. Mas antes era ruim. Antes você tinha que andar muito para achar.” Mulher IMC obesidade III Em resumo, homens e mulheres com IMC normal solucionaram a dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados ao ganhar peso. Homens e mulheres com IMC obesidade I, II e III solucionaram a dificuldade de três modos: a localização de lojas especializadas em tamanhos grandes, a perda de peso e a maior oferta atual de lojas de roupas de tamanhos grandes. A localização das lojas e a perda de peso ocorreram a partir da iniciativa dos participantes. Ao ler as respostas dadas pelos participantes que utilizaram estas estratégias, notamos em seu discurso que a superação da dificuldade para achar roupas vem acompanhada de um olhar mais compreensivo a respeito do próprio corpo e da própria aparência física. O aumento da quantidade de lojas especializadas em tamanhos grandes nos últimos anos foi determinante na superação da dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados aos participantes com IMC obesidade. Este parece ser um sinal de que a relação entre IMC e dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados se deve à modelagem de algum modo restrita e/ou limitada das roupas ofertadas nas lojas não especializadas em tamanhos grandes. Este pode ser um sinal de que as roupas disponíveis nas lojas de departamento, por exemplo, atendem mais facilmente os indivíduos com IMC normal e sobrepeso e as lojas especializadas em tamanhos grandes atendem mais facilmente as pessoas com IMC obesidade I, II e III 91 4.4 – Q4: “Você está satisfeito com seu peso corporal?” Na questão 4 perguntamos: “Você está satisfeito com seu peso corporal?” Logo em seguida, oferecemos duas alternativas de resposta ao participante: sim e não. Posteriormente à escolha da alternativa, solicitamos ao participante uma justificativa para sua escolha. A maioria dos participantes (65%) afirma que não está satisfeita com seu peso corporal atual (TABELA 18). Se avaliarmos por gênero, a maioria dos homens (60%) e mulheres (70%) não está satisfeita com seu peso corporal (TABELA 18). TABELA 18 Está satisfeito(a) com seu peso corporal * Sexo Crosstabulation Está satisfeito(a) com seu peso corporal Sim Não Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 16 12 40,0% 30,0% 24 28 60,0% 70,0% 40 40 100,0% 100,0% Total 28 35,0% 52 65,0% 80 100,0% Se avaliarmos por IMC, a maioria dos participantes com IMC normal se declara satisfeitos com seu peso corporal. Nas categorias IMC sobrepeso e obesidade I, II e III a maioria dos participantes se declara insatisfeitos com o peso corporal (TABELA 19). Os participantes com IMC obesidade I apresentaram o percentual mais alto de insatisfação com peso corporal (85%). Portanto o percentual de insatisfação com o peso corporal tem uma relação linear com o aumento do IMC. Quanto maior o IMC, maior a insatisfação com o peso corporal. 92 TABELA 19 Está satisfeito(a) com seu peso corporal * Peso Crosstabulation Está satisfeito(a) com seu peso corporal Sim Não Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Normal 13 65,0% 7 35,0% 20 100,0% Sobrepeso 8 40,0% 12 60,0% 20 100,0% Peso Obesidade I 3 15,0% 17 85,0% 20 100,0% Obesidade II 2 20,0% 8 80,0% 10 100,0% Obesidade III 2 20,0% 8 80,0% 10 100,0% Total 28 35,0% 52 65,0% 80 100,0% 4.4.1 – Análise da satisfação e da insatisfação com o peso corporal Pela análise do discurso, observamos que os homens com IMC normal que se declaram insatisfeitos com o peso corporal se dividem entre os que querem perder e os que querem ganhar peso. O participante que quer perder peso se considera acima do peso. “Não. Eu quero emagrecer uns 5kg. É muita cerveja.” Homem IMC normal Os participantes que querem ganhar peso justificam que gostam do corpo masculino mais forte, com mais músculos, e desejam ganhar mais massa muscular. “Não, eu queria ter mais músculos, mais massa muscular. Você pode manter seu peso, mas ficar mais fortinho. Meu peso está ideal. Mas se eu precisar ganhar massa, eu vou ter que ganhar mais peso.” Homem IMC normal “Não, porque não estou no meu peso ideal. Tenho 78kg agora, mas preferia estar com 90 kg.” Homem IMC normal Os homens com IMC normal que se declaram satisfeitos com o peso corporal se consideram fisicamente adequados para sua idade e altura, bem como se sentem à vontade com seus corpos. 93 “Sim. Estou na forma física adequada para minha altura. Me sinto à vontade com meu peso. Se eu engordar, fico incomodado fisicamente. E emagrecer não dá porque estou muito magro.” Homem IMC normal Os homens com IMC sobrepeso que se declaram insatisfeitos com o peso corporal querem perder peso a fim de aumentar a satisfação com as proporções do próprio corpo, bem como para atingir o IMC normal. “Não. Porque eu preciso emagrecer dois quilos. Eu sou muito ligado em ter o peso ideal para a altura. Tenho uma ideia do que é legal para mim e o que não é.” Homem IMC sobrepeso “Não, poderia estar um pouco mais magro. Por causa da autoestima mesmo.” Homem IMC sobrepeso Os homens com IMC sobrepeso que se declaram satisfeitos com o peso corporal não justificaram sua escolha. Somente um participante fez um comentário. “Sim. Estou quase chegando no meu peso ideal.” Homem IMC sobrepeso Os homens com IMC obesidade I insatisfeitos com seu peso querem perder peso por quatro motivos. O primeiro é atingir o “peso ideal”. “Não, comecei a malhar tem três semanas. Quero chegar no meu peso ideal que é 87kg.” Homem IMC obesidade I O segundo motivo pelo qual esses participantes querem perder peso é a necessidade de restaurar a aptidão física. 94 “Não, pois tenho problemas físicos, já. Subo uma escada e já fico ofegante. É péssimo isso.” Homem IMC obesidade I O terceiro motivo é evitar problemas de saúde. “Não. Um pouco esteticamente, e um pouco por questões de saúde. Importante não ter peso por ter histórico de saúde familiar.” Homem IMC obesidade I O quarto motivo é melhorar a aparência física. “Não. O peso não é um problema em si. É mais uma questão de estética. Acho que eu tinha que perder uns quilinhos, perder barriga.” Homem IMC obesidade I.” Homens com IMC obesidade I que se declaram satisfeitos com o peso fazem ressalvas a respeito do alcance desta satisfação. “Sim, eu só queria perder barriga.” Homem obesidade I “Sim, porque eu tenho preguiça de emagrecer. Eu me sinto bem assim.” Homem IMC obesidade I Os homens com IMC obesidade II e III que se declaram insatisfeitos com o peso querem perder peso por quatro motivos. O primeiro é estar acima do IMC normal. “Não. Porque meu peso está muito acima do ideal.” Homem IMC obesidade II “Não. Porque eu estou muito acima do meu peso. Eu até estou cuidando disso.” Homem IMC obesidade III O segundo motivo é resolver problemas de saúde. 95 “Não. Por uma questão de saúde, eu preciso perder. Às vezes você está com pressão alta, maior cansaço, dificuldade para fazer exercício.” Homem IMC obesidade III O terceiro motivo é restaurar a aptidão física, e o quarto é melhorar a aparência física. “Não. Porque o peso não me faz bem. Eu me sinto mais cansado. Tem a questão das roupas, da beleza.” Homem IMC obesidade III Homens com IMC obesidade II e III que se declaram satisfeitos com o peso corporal declaram estar à vontade com seu corpo. “Sim, sou feliz assim.” Homem IMC obesidade II “Sim, sem problema nenhum.” Homem IMC obesidade II Porém um participante que se declara satisfeito com seu peso cita a insatisfação de outro com seu peso. “Sim. Não me incomoda ser gordo. Quem briga mais comigo por causa do peso é minha mulher. Não é o peso ideal. Tem pouco tempo que eu sou gordo assim. É por causa do hipotireoidismo. Mas nada que abala a minha autoestima.” Homem IMC obesidade II As mulheres com IMC normal que se declaram insatisfeitas com o peso querem perder peso e apresentam uma satisfação flutuante com as formas corporais. “Não. Quando era mais magrinha, era até mais fácil encontrar o tamanho 16. Era mais fácil vestir roupa, não apareciam as gordurinhas e tudo o mais. Aí vai passando o tempo e na escola tem a cantina, o pão de queijo. Aí você vem para a Teodoro e tem 96 essas lanchonetes atrativas, aí você vai comendo, comendo, engordando, e você não para de comer. Eu não estou tão gorda ainda. Dá para ir maneirando. Mas uma hora vai ter que chegar lá, e na hora que chegar lá eu não vou conseguir parar. Eu vou maneirando, mas satisfeita eu não estou não. Queria ficar com uns três quilos a menos.” Mulher IMC normal Uma participante com IMC normal insatisfeita com seu peso se considera acima do IMC normal. “Não. Porque eu estou acima do peso.” Mulher IMC normal As mulheres com IMC normal que se declaram satisfeitas com seu peso corporal também apresentam uma satisfação flutuante com as formas corporais. “Sim. Mas eu perderia uns dois quilos. Mas não é uma coisa que me incomoda profundamente. Se eu não engordar, se eu mantiver, está bom. Se eu perder uns quilinhos também está bom. Eu faço academia, mas não é necessariamente para perder peso. Você quer ganhar perna, ganhar massa. Mas hoje eu não tenho neura. Estou mais satisfeita hoje do que no passado. Já fui muito insatisfeita com meu peso mesmo. Queria perder peso. Só que quando eu estava magra também nunca estava bom. Ganhei peso também, mas nunca estava bom. Então eu cheguei à conclusão que agora está bom. Tem que estar agora.” Mulher IMC normal “Sim, mas tem coisas que eu melhoraria. Por exemplo, a barriga que às vezes me incomoda. Mas o peso em si está bom. Mas eu melhoraria a distribuição do meu corpo.” Mulher IMC normal As mulheres com IMC sobrepeso que se declaram insatisfeitas querem perder peso por três motivos. O primeiro é melhorar a saúde. “Não. Não por estética, mas por saúde poderia estar melhor.” Mulher IMC sobrepeso O segundo é chegar ao peso que estabeleceram como meta. 97 “Não. Porque eu não estou na minha meta. A minha meta é 60kg.” Mulher IMC sobrepeso O terceiro é atingir o IMC normal. “Não. Porque eu estou fora do peso para a minha altura.” Mulher IMC sobrepeso As mulheres com IMC sobrepeso que se declaram satisfeitas com o peso dizem que estão insatisfeitas com a “barriga”. “Sim, mas a única coisa que me incomoda é o estômago, a barriga alta. Mulher IMC sobrepeso “Sim. Só não estou satisfeita com a minha barriga.” Mulher IMC sobrepeso As mulheres com IMC obesidade I que se declaram insatisfeitas querem perder peso por quatro motivos. O primeiro é estar com IMC acima do normal. “Não, porque eu tenho que emagrecer. Estou muito acima do meu peso.” Mulher IMC obesidade I O segundo motivo é restaurar a aptidão física. “Não. Porque me sufoca, tonteira demais, dor no corpo todo. Porque meus ossos são pequenos, aí para agüentar tudo isso de peso...” Mulher IMC obesidade I O terceiro motivo é evitar problemas de saúde. “Não. Porque a gente leve consegue se cansar menos. Tem menos possibilidade de ficar doente. Quanto mais acima do peso, mais dificuldade você tem para desenvolver certos trabalhos. Não quero perder peso por estética. É mais porque se não cuidar hoje, as doenças vão vir.” Mulher IMC obesidade I 98 O quarto motivo é melhorar a aparência. “(...) Porque quando eu vou na loja eu fico praticamente o dia inteiro para escolher roupa só para mim. Eu tenho que olhar se tem roupa de tamanho grande, mas não são todas que ficam legais em você. No trabalho todo mundo fala:’Nossa, sua roupa está ótima’. Mas isso é porque eu escolhi muito para ficar legal no meu corpo e adequar. Tem que ficar adequado, não mostrar a barriga. Não é porque eu tenho 31 anos que eu tenho que andar que nem uma velha.” Mulher IMC obesidade I Além dos quatro motivos, elas apontam também a postura e a insatisfação de outras pessoas com seu peso corporal. “Não. Por causa da roupa, que a gente não encontra o que a gente quer. Porque as outras pessoas ficam fazendo piadinhas. Por saúde também. Porque as pessoas mais gordinhas têm tendência a ter problemas de diabetes, de sangue, no coração.” Mulher IMC obesidade I “Não. Vai muito do dia. Acho que os outros são mais insatisfeitos do que eu. Como a minha mãe, na minha casa, eles são mais insatisfeitos do que eu. Eu já não me preocupo tanto, porque já não coloco como prioridade na minha vida. Mas as outras pessoas, que estão de fora, que são da família, se sentem muito mais incomodadas do que você. Eles falam ‘ah, porque você está assim gorda! Como você se conforma em ficar deste jeito? Que horror!’ Mas já me preocupei bem mais, já sofri bem mais. Mas você vai criando umas barreiras para que essas influências não te atinjam tanto. Se não você não vive. Só vive em função da roupa que você quer vestir. Só vive em função das pessoas que você quer agradar. No meio que você quer entrar. Você vai ficando exposta com um monte de críticas. Todo mundo quer criticar, rebater. Mas ninguém tenta fazer você enxergar o que é bom, o que é bonito em você, e o que você pode aproveitar e melhorar na sua imagem. Mas ninguém tenta realçar para que você tenha um estilo. Mas ao criticar, ela acaba diminuindo a pessoa. Ao se sentir diminuída, a pessoa não tem autoestima, não consegue superar.” Mulher IMC obesidade I 99 As mulheres com IMC obesidade I que se declaram satisfeitas com o peso não apresentaram justificativas. As mulheres com IMC obesidade II que se declaram insatisfeitas querem perder peso por três motivos. O primeiro é estar acima do IMC normal. “Não, porque estou bem acima do peso.” Mulher IMC obesidade II O segundo motivo é restaurar a aptidão física. “Não, porque dói as pernas, me sinto cansada. Agora subi a Teodoro e senti muito peso.” Mulher IMC obesidade II “Não. Eu me sinto melhor mais magra. Eu já fui mais magra e acabei engordando. Fiquei muito tempo sem fazer atividade física. Acredito que só na atividade física eu consiga melhorar meu peso.” Mulher IMC obesidade II O terceiro motivo é resolver problemas de saúde. “Não, mas não é por causa de aparência, é por causa da saúde. Agora minha pressão voltou ao normal, minha saúde está melhorando. Porque agora estou perdendo peso.” Mulher IMC obesidade II As mulheres com IMC obesidade II que se declaram satisfeitas com o peso não apresentaram justificativas. As mulheres com IMC obesidade III que se declaram insatisfeitas querem perder peso por quatro motivos. O primeiro é restaurar a aptidão física. “Não. Primeiro porque é ruim para a sua saúde. Te dá mais cansaço. Você gorda faz as coisas que o magro faz, só que demora mais. Além de não ter muita disposição para andar. Tem pressão alta, varizes, peso no joelho.“ 100 Mulher IMC obesidade III “Não. Por exemplo, estamos andando e eu já estou cansada.” Mulher IMC obesidade III O segundo motivo é resolver problemas de saúde. “Não. Porque eu estou acima do peso. Aí já entra a questão de saúde, um monte de coisa.” Mulher IMC obesidade III O terceiro motivo é sentir-se fisicamente desconfortável com o excesso de gordura. “Não. Porque eu me sinto muito gorda.” Mulher IMC obesidade III O quarto motivo é melhorar a aparência. “Não. Eu fiz a cirurgia de redução do estômago há cinco anos. Emagreci 65kg. Aí agora eu vou fazer as plásticas. Preciso emagrecer mais 10kg para poder fazer a cirurgia plástica.” Mulher IMC obesidade III As mulheres com IMC obesidade III que se declaram satisfeitas com o peso não apresentaram justificativas. Em resumo, homens com IMC normal que se declaram insatisfeitos com seu peso corporal e querem ganhar peso justificam sua escolha devido à preferência por corpos masculinos de dimensões maiores e mais musculosos. Tal dado é coerente com a bibliografia encontrada. Pope (2000) conta que em suas pesquisas, ao perguntar aos homens que tipo físico gostariam de possuir, a maioria diz que gostaria de ser bem construído e musculoso. Não querem ser magros nem ser gordos. 101 Os homens com IMC sobrepeso que estão insatisfeitos com seu peso corporal querem perder peso a fim de aumentar a satisfação com as proporções do próprio corpo. Novamente, os dados obtidos apoiam a bibliografia. Pope (2000) afirma que, quando questionados, mais da metade dos homens se declaram insatisfeitos com partes dos seus corpos. As partes que provocam mais incômodos são o abdome, o tônus muscular e o tórax. No entanto o autor não especifica em qual categoria de IMC este desconforto é predominante. Em nossa pesquisa esta insatisfação com partes do corpo surgiu entre os homens com IMC sobrepeso. As mulheres com IMC normal insatisfeitas com seu peso corporal e que desejam perder peso apresentam uma satisfação flutuante com o peso e/ou desejo de mudar as proporções do seu corpo. Chama a atenção que estas mesmas flutuações de satisfação e a vontade de mudar as proporções corporais aparecem também entre as mulheres com IMC normal que se declaram satisfeitas com seu peso. Esses dados parecem ser compatíveis com a bibliografia encontrada. Kaiser (1998) afirma que as mulheres magras em geral tendem a se perceber como mais pesadas do que elas realmente são. Em nossa pesquisa, as participantes às vezes se descrevem como mais pesadas do que realmente são. Contudo, Baturka et al. (2000) afirmam que a satisfação com o peso corporal pode flutuar segundo a roupa que uma pessoa veste. Em nossa pesquisa, as participantes apontam que as roupas marcam certas partes dos seus corpos de modo negativo, o que gera certa insatisfação com aquela parte do corpo que foi destacada. Os participantes com IMC obesidade I insatisfeitos com seu peso corporal e que desejam perder peso reúnem nas suas justificativas todas as preocupações próprias dos participantes com IMC normal, sobrepeso e obesidade II e III. Esses participantes com IMC obesidade I insatisfeitos se avaliam fisicamente a partir do IMC normal e querem perder peso para melhorar sua aparência, tal como os participantes mais leves do que eles. Ao mesmo tempo, eles se preocupam em perder peso a fim de evitar as doenças provocadas pelo excesso de gordura, tal como os participantes mais pesados do que eles. Os participantes com IMC obesidade I de ambos os gêneros sofrem com a insatisfação dos outros com seu peso corporal. Baturka et al. (2000) afirmam que 102 a percepção dos outros afeta a própria satisfação com o peso corporal. Assim, a percepção dos outros parece afetar a satisfação dos participantes com IMC obesidade I com seu próprio peso corporal. Em todas as categorias de IMC, diante da pergunta “você está satisfeito com seu peso corporal?”, muitas vezes obtivemos a seguinte resposta: “Não, porque eu estou acima do peso ideal para minha altura” ou “Sim, porque eu estou no peso ideal”. Parece que os participantes usam a fórmula do IMC como um critério para avaliar o nível de satisfação com o próprio peso corporal. Diante da frequência significativa dessa resposta investigamos a possibilidade de haver um bom número de profissionais das áreas de saúde e ciências biológicas na amostra que pudessem ter emitido tais respostas. Encontramos somente um professor de educação física dentre a amostra de 80 pessoas. Não há médicos, enfermeiros, nutricionistas, bem como qualquer outro profissional que conheça a fórmula do IMC devido à sua formação acadêmica entre os participantes. Tal dado corrobora com a bibliografia encontrada. Luz e Sudo (2007) afirmam que o conhecimento biomédico é um importante referencial na cultura ocidental. Portanto, as definições a respeito do que é normal ou patológico segundo o paradigma biomédico podem ser utilizadas para propagar um tipo físico socialmente desejável. Isto é, o uso do critério de normalidade e patologia definido pelo IMC pode transmitir aos indivíduos qual é o tipo físico socialmente determinado como normal, bem como a crença de que esta forma física pode ser atingida através de exercícios físicos e dietas adequadas. Alvarenga et al. (2011) afirmam que tal uso do discurso médico dissemina a falsa noção de que o corpo é infinitamente maleável, bem como nega as particularidades do corpo de cada um e as limitações impostas pela biologia e pela genética. As autoras estudaram o conteúdo a respeito da obesidade veiculado em 12 edições das revistas semanais brasileiras “Veja” e “Isto É” publicadas entre 1997 e 2002. Elas constataram o uso do discurso biomédico neste meio de comunicação como um dos modos de propagação de um tipo físico socialmente desejável. Portanto, é possível que o uso da fórmula do IMC pelos participantes para se autoavaliarem fisicamente se deva ao conhecimento deste cálculo antropométrico através dos meios de comunicação. Certamente, muitos participantes conhecem a fórmula do IMC devido às consultas que realizaram como profissionais de saúde. Alvarenga et al. (2011) 103 apontam que embora estes profissionais condenem a magreza excessiva, eles podem propagar, sem perceber, as concepções culturais referentes à aparência física na sua prática clínica. As autoras afirmam que os familiares e os parceiros conjugais também podem ser propagadores deste discurso biomédico que visa a mudança corporal. As autoras afirmam que a aceitação dos valores a respeito do tipo físico desejável não dependem só da atuação de agentes externos – como mídia, família, profissionais de saúde – mas também da internalização dos padrões socioculturais de beleza pelos indivíduos. Entenda-se internalização como o uso de um artefato para monitorar e comparar continuamente o seu corpo real ao corpo socialmente desejado. Um destes artefatos é o IMC, posto que ele permite a monitoração do peso corporal, bem como a comparação quantitativa entre o corpo do indivíduo e o tipo físico desejável segundo os padrões biomédicos. O uso de parâmetros como o IMC pode construir uma insatisfação com o peso corporal nos indivíduos que estejam ou não dentro do IMC normal. Em nossa pesquisa, quanto maior o IMC maior a insatisfação com o peso corporal, o que indica que o IMC é um critério de autoavaliação corporal comum entre os participantes da pesquisa. Alvarenga et al. (2011) afirmam também que a compreensão crítica do IMC – isto é, a compreensão dos critérios biométricos e socioculturais que sustentam este índice – pode diminuir ou desconstruir a insatisfação dos indivíduos com seu peso corporal. 4.5 – Q5: “Você já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir?” Na questão 5, perguntamos aos participantes: “Você já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir?”. A seguir oferecemos duas alternativas de resposta: sim e não. Quando o participante respondeu “não”, a entrevista foi encerrada. Quando o participante respondeu “sim”, perguntamos “Você teve vontade de ganhar ou perder peso?”. Posteriormente à escolha da alternativa, solicitamos ao participante uma 104 justificativa para sua escolha. Após a justificativa, fizemos mais duas perguntas: “Diante da situação relatada (na justificativa), como você se sente?” e “O que você fez para solucionar esse conflito (emocional relatado na justificativa)?”. A maioria (57,5%) dos participantes já teve vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir (TABELA 20). Grande parte deles teve vontade de perder peso (86,7%) e a menor parte teve vontade de ganhar (13,3%) como mostra a tabela 21. TABELA 20 Já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir * Sexo Crosstabulation Já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir Sim Não Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 16 30 40,0% 75,0% 24 10 60,0% 25,0% 40 40 100,0% 100,0% Total 46 57,5% 34 42,5% 80 100,0% TABELA 21 Sentiu necessidade * Sexo Crosstabulation Sentiu necessidade Ganhar Perder 9 Total Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Count % within Sexo Sexo Masculino Feminino 4 2 10,0% 5,0% 12 27 30,0% 67,5% 24 11 60,0% 27,5% 40 40 100,0% 100,0% Total 6 7,5% 39 48,8% 35 43,8% 80 100,0% Ao observar a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir de cada gênero, notamos que a maioria dos homens (60%) nunca sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir (TABELAS 20 e 21). Contudo dentre os homens que declararam já terem sentido vontade, a maioria (75%) já sentiu vontade de perder e o restante (25%) sentiu 105 vontade de ganhar peso. A maioria das mulheres (75%) já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir, sendo que a grande maioria (93%) sentiu vontade de perder. Ao observar a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir segundo o IMC, não encontramos relação entre o IMC dos participantes e a vontade de ganhar ou perder peso (TABELAS 22 e 23). TABELA 22 Já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir * Peso Crosstabulation Já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir Sim Não Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso Normal 10 50,0% 10 50,0% 20 100,0% Sobrepeso 7 35,0% 13 65,0% 20 100,0% Peso Obesidade I 13 65,0% 7 35,0% 20 100,0% Obesidade II 9 90,0% 1 10,0% 10 100,0% Obesidade III 7 70,0% 3 30,0% 10 100,0% Total 46 57,5% 34 42,5% 80 100,0% TABELA 23 Sentiu necessidade * Peso Crosstabulation Normal Sentiu necessidade Ganhar Perder Total Count % within Peso Count % within Peso Count % within Peso 5 55,6% 4 44,4% 9 100,0% Sobrepeso 7 100,0% 7 100,0% Peso Obesidade I 1 7,7% 12 92,3% 13 100,0% Obesidade II 9 100,0% 9 100,0% Obesidade III 7 100,0% 7 100,0% Total 6 13,3% 39 86,7% 45 100,0% Não obstante, os números de duas categorias chamam a atenção: normal e obesidade II. Os participantes com IMC normal sentiram mais vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir do que os indivíduos com IMC sobrepeso. Alguns destes participantes com IMC normal já sentiram vontade de perder peso – mesmo já possuindo o peso adequado – por conta da necessidade de se vestir. Os participantes com IMC obesidade II apresentaram o maior percentual de vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir (90%). 106 4.5.1 – Q5a: “Por que você sentiu vontade de ganhar/perder peso?” Através da análise do discurso, observamos que os homens com IMC normal que já sentiram vontade de ganhar peso não relataram nenhuma dificuldade diretamente relacionada ao ato de se vestir para justificar sua vontade. Contudo, afirmam que ganhar peso ajuda a se sentirem melhor com a roupa que vestem. “Ganhar. Para eu me sentir melhor. Porque eu sou alto, mas sou magro. Eu aumentando meu peso, teria o peso ideal para mim. Também me ajudaria em alguns momentos com a roupa.” Homem IMC normal Os homens com IMC normal que já sentiram vontade de perder peso por conta da necessidade de se vestir afirmam que a roupa veste melhor quando estão mais magros. “Perder. Eu já me vi magro e com certeza na pessoa que é mais esbelta a roupa cai muito melhor. As roupas são feitas para as pessoas esbeltas. Principalmente se for roupa de estilista, de marca, é para gente magra. Não é para quem tem sobrepeso.” Homem IMC normal Os homens com IMC sobrepeso já sentiram vontade de perder peso porque a roupa marca o abdome. “Perder. Principalmente agora que estou me sentindo um pouco mais gordo. Eu uso uma camiseta mais clara, e parece que marca mais a barriga. Mesmo sem ser camiseta apertada.” Homem IMC sobrepeso Os homens com IMC obesidade I e II já sentiram vontade de perder peso por dois motivos. O primeiro é querer vestir uma roupa que gostam, mas que não está disponível no seu tamanho. 107 “Perder. Porque não tem tanta variedade para tamanhos maiores. Eu acho uma bermuda legal, mas não acho do meu tamanho.” Homem IMC obesidade II “Perder. Entro na ‘C&A’, por exemplo, e nem GG serve. É horrível, me sinto mal.” Homem IMC obesidade I “Perder. Existem muitas roupas que eu tenho vontade de vestir só que não se adequam ao meu tamanho. Por isso eu gostaria de perder peso para vestir aquelas roupas. Por exemplo, uma calça jeans, uma camisa social. Mandando fazer fica igual, mas olhando no espelho fica diferente do que eu vi nas outras pessoas. Homem IMC obesidade I O segundo é poder usar as roupas que já têm, mas que ficaram pequenas devido ao ganho de peso. “Perder. Para poder usar um monte de coisa que eu tenho, mas que eu não posso usar agora. Eu engordei uma coisa assim cavalar, muito rápido.” Homem IMC obesidade II Um participante com IMC obesidade I relata que sente vontade de ganhar peso a fim de vestir roupas mais coladas ao corpo. “Ganhar. Queria ficar mais forte para a roupa ficar colada.” Homem IMC obesidade I Os homens com IMC obesidade III já sentiram vontade de perder peso por três motivos. O primeiro motivo é que a roupa veste melhor quando estão mais magros. “Perder. As roupas não ficam legais quando você está acima do peso. Quanto mais magrinho você estiver, melhor. As roupas caem melhor em você.” Homem IMC obesidade III O segundo é a necessidade de sentirem-se bem ao usar a roupa. 108 “Perder. Não é só por conta da necessidade de se vestir. É pela necessidade de se sentir bem. Vestir também é se sentir bem, ajuda.” Homem IMC obesidade III O terceiro é poder vestir uma roupa que já possuem, mas não serve por conta do aumento de peso. “Perder. Porque às vezes você vê umas roupas boas que você usa, e de repente começa a ficar apertada. E você pensa ‘ao invés de comprar outra roupa, seria o ideal se eu perdesse peso’. Não serve, eu dou. Mas é mais gostoso quando você volta a ver que o colarinho de uma camisa que estava apertada agora está bom para você.” Homem IMC obesidade III As mulheres com IMC normal que já sentiram vontade de ganhar peso explicam que poderiam encontrar roupas de tamanho adequado mais facilmente se possuíssem dimensões corporais um pouco maiores. Isto é, certas partes do seu corpo se ajustariam melhor às roupas disponíveis. “Ganhar. Eu ia encontrar roupa mais fácil. Não muito peso. Mas se eu tivesse mais corpo, mais perna, mais bunda.” Mulher IMC normal As mulheres com IMC normal que já sentiram vontade de perder peso dizem que as roupas vestem melhor no corpo magro e sem abdome saliente. Contudo, encontramos uma ambiguidade no discurso destas participantes. “Sim, ganhar e perder. Se eu quero colocar aquela roupa, naquele momento, eu tenho de estar com o corpo perfeito, com a barriga perfeita, o quadril certinho, a perna bonita, para colocar aquela roupa.” Mulher IMC normal “Perder. Quando eu estava um pouquinho acima do meu peso. Uns dois quilos, que você sente que a roupa está... Sobe um pouquinho para o 56kg ou 58kg. Mas eu quero sempre manter o 54kg.” Mulher IMC normal 109 As mulheres com IMC sobrepeso já sentiram vontade de perder peso por três motivos. O primeiro é que as roupas vestem melhor no corpo magro. “Perder. Tudo é mais fácil. Quando olha a roupa na magrinha você fala: ‘Nossa, que bonito’. As roupas combinam mais com uma pessoa magra do que uma pessoa mais gordinha.” Mulher IMC sobrepeso O segundo é que a “barriga” aparece para fora da roupa. “É muito chato você colocar uma calça jeans e fica a barriga aparecendo, os culotes não deixam, a calça não vai subir. É estranho, não é? Eu me sinto enorme, gordona. Hoje mesmo eu subi na balança e começou a neura: ‘Eu estou grande, eu estou gorda.’ Eu não posso subir na balança.” Mulher IMC sobrepeso O terceiro motivo é achar a roupa que ela gosta num tamanho adequado ao seu corpo. “Perder. Porque a roupa não serve quando eu vou comprar.” Mulher IMC sobrepeso As mulheres com IMC obesidade I já sentiram vontade de perder peso pelos mesmos motivos relatados pelas mulheres com IMC sobrepeso. Contudo, nesta categoria elas relatam o preconceito das outras pessoas em relação ao corpo gordo. “Perder. Uma vez eu fui numa loja. Eu pedi a blusa para eu ver. A vendedora falou: ‘Não tem como eu pegar para você ver porque não tem o tamanho adequado para você.’ Mas eu só pedi para ver a blusa. Ela quis dizer que ali não tinha a roupa adequada para mim. Aí eu me senti muito mal. Porque as pessoas tem muito preconceito, tanto com pessoas gordinhas como pessoas de cor também. Eu me senti inferior. Porque já para a minha amiga que estava do meu lado ela falou: ‘Para você vai ficar lindo, mas para você não tem o tamanho.’ Então eu fiquei sem graça.” Mulher IMC obesidade I 110 “Perder. Principalmente quando você é mais nova e vê todo mundo usando roupa X ou Y, e você não consegue se adequar àquele padrão porque a roupa não fica bem em você. Mas aí depois conforme você vai vendo, melhora. Incomoda. Não vou ser hipócrita ao ponto de falar que o peso não incomoda, mas não é uma coisa que te abala como antes. (...) Mas às vezes eu sinto. Eu não gosto de tirar foto. Eu não tenho nenhuma foto na minha casa. Eu evito me olhar no espelho. Me visto, olho rapidinho e saio. Não gosto de olhar muito. Acho que por conta de coisas que ocorreram já quando eu era pequena. Ficavam martelando na minha cabeça que ‘era feio, era feio, era feio’. Desde menina eu sou gordinha. Mas eu convivo. Mulher IMC obesidade I As mulheres com IMC obesidade II já sentiram vontade de perder peso por três motivos. O primeiro é vestir a roupa de que gostam no tamanho adequado. “Perder. Porque não tem nenhuma roupa que sirva para mim e que eu goste de verdade. Que nem aqui na loja, eu tive que achar modelos menos de senhora para caber no meu estilo que é mais nova. Você olha e pode dizer: ‘Tudo bem, é mais nova.’ Mas se você for ver, é tudo aparência de mais velha.” Mulher IMC obesidade II O segundo é que as roupas vestem melhor nas pessoas magras. “Perder. Além da saúde, tem visualmente um aspecto melhor uma pessoa mais magra do que uma pessoa mais gorda.” Mulher IMC obesidade II O terceiro é o preconceito em relação à roupa adequada à pessoa gorda. “Perder. Eu ia num casamento, e queria comprar um vestido. Mas o vestido que eu queria não entrava. E não dava tempo de fazer um. Eu achei o modelo, mas o manequim, eu jamais entraria nele. Eu já fui numa costureira. Ela fez uma roupa de qualquer jeito, pôs um laço e eu falei: ‘Mas eu não queria o laço’. Ela respondeu: ‘Mas gordo tem que se vestir como a gente quer.’ Eu falei: ‘Não, não é assim.’ Ela pôs o laço e eu fiquei parecendo uma grávida. Eu levei uma revista com o modelo que eu queria. Ele era soltinho debaixo do busto, tinha um detalhe no ombro. Mas não tinha aquele laço 111 debaixo do busto. Ela fez franzido e com o laço. Eu reclamei e ela disse: ‘Gordo não tem o que escolher. O que entrar, está bom.’ E acabou estragando o meu pano.” Mulher IMC obesidade II As mulheres com IMC obesidade III já sentiram vontade de perder peso por dois motivos. O primeiro é vestir a roupa de que gosta no tamanho adequado. “Perder. Muitas vezes eu já cheguei na loja, e não tinha o tamanho que eu queria. Eu pensava: ‘Ai, se eu fosse magra tinha.’ Aí sai todo mundo junto para comprar as coisas. Para todo mundo tem, menos para você, porque não tem seu número. Aí de novo você pensa: ‘Se eu fosse mais magra, tinha meu número também.’” Mulher IMC obesidade III O segundo é a percepção de que as roupas vestem melhor nas pessoas magras. “Sim, muitas e muitas vezes. É muito ruim ser gordo. Você veste uma roupa e não fica bem. Eu achava um monte de blusinha, aí mostrava a barriga.” Mulher IMC obesidade III As mulheres com IMC obesidade III se incomodam com a aparência envelhecida das roupas de tamanhos grandes. “Perder. Porque melhora a autoestima. Eu perdi o emprego porque estou gorda. Às vezes a pessoa obesa quer se arrumar, pôr uma roupa melhorzinha, mas não cabe, fica tudo apertado. Ou você só acha roupa evangélica, muito fechada. É difícil achar roupa moderna para meu tamanho. Tem uns três meses que eu estou procurando um maiô preto com branco que eu acho lindo. Mas não acho para mim. Então eu vou fazer a redução do estômago no final do ano. Eu quero pôr uma calça jeans legal que eu tenho lá em casa guardada há mais de 10 anos.” Mulher IMC obesidade III Em resumo, participantes de ambos os gêneros com IMC normal compartilham da crença de que as roupas vestem melhor em pessoas magras ou “esbeltas”. Esses mesmos participantes que podem ser considerados magros se 112 declaram insatisfeitos com suas proporções corporais. Eles acreditam que modificar o volume das pernas, dos glúteos e do abdome ajudaria de dois modos. O primeiro é que a mudança do volume de certas partes do corpo promove o ajuste adequado a certas roupas. O segundo motivo é não destacar o abdome, o glúteo ou mesmo as pernas de modo inadequado ao vestir a roupa. O abdome também é motivo de incômodo para homens e mulheres com IMC sobrepeso. Contudo, as participantes do gênero feminino gostariam de emagrecer para usar roupas de modelos que lhes agradam, mas que não estão disponíveis no tamanho do seu corpo. Uma característica comum entre homens com IMC normal e obesidade I que querem ganhar peso é a vontade de vestir uma roupa que fique colada ao corpo, tornando seu corpo mais volumoso e sua aparência mais atraente. Chama a atenção o preconceito com o corpo gordo mencionado por algumas participantes com IMC obesidade. Tal dado é coerente com a bibliografia descrita. Uma vez que Kaiser (1998) afirma que estar acima do peso é um estigma, isto é, um atributo socialmente indesejado. Ao mesmo tempo, Baturka et al. (2000) alegam que a percepção dos outros afeta a satisfação do indivíduo com seu próprio corpo. Em nossa pesquisa as participantes relatam que ficam tristes frente à percepção do preconceito com a pessoa gorda, o que provoca a insatisfação destas com seu corpo e sua aparência física. Encontramos no discurso de participantes de ambos os gêneros e de todos os IMC a crença de que as roupas vestem melhor em pessoas magras ou “esbeltas”. Isto é, eles compartilham da crença de que o corpo magro vestido é mais bonito que o corpo gordo vestido. Segundo os relatos dos participantes com IMC obesidade, costureiras, vendedoras e parentes manifestam esta percepção social negativa a respeito da aparência do corpo gordo, o que diminui a satisfação destas participantes com sua aparência física. As mulheres com IMC obesidade I, II e III desejam perder peso – entre outros motivos – porque as roupas de tamanhos adequados não são joviais ou modernas. Especialmente as participantes de 18 a 35 anos relatam que não conseguem vestir roupas adequadas à aparência esperada para uma mulher da sua faixa etária. 113 Os homens com IMC obesidade I, II e III desejam perder peso – entre outros motivos – a fim de voltar a usar as roupas que já possuem, mas que não servem mais devido ao ganho de peso. 4.5.2 – Q5aA: “Como você se sentiu diante da vontade de ganhar/perder peso?” Diante da vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir, os homens de todos os IMC relatam dois tipos de vivência emocional: sentimentos negativos sobre si e neutralidade emocional. A maioria (73,3%) relata sentimentos negativos. Contam que sentem-se mal, frustrados, limitados, ansiosos, diferenciados, estranhos, tristes e constrangidos. “Quem tem um biótipo mais gordo, como eu, não procura pelo modelo. Você procura pelo que tem do seu tamanho. Quando você vai procurar o que você quer, seja por cor por exemplo: ‘Olha, para o seu tamanho só tem essas duas cores’. Isso é meio frustrante. É um biótipo comum, mas eles direcionam para outro biótipo. Tem um nicho da população que não é atendido. É atendido em partes. Porque você até encontra, mas não tem a mesma variedade como para quem tem um biótipo mais magro.” Homem IMC obesidade I “Teve uma situação em que eu me sentei e o botão da calça explodiu. Eu dei risada, mas é constrangedor. Eu continuei, encarei numa boa.” Homem IMC obesidade II “Triste. Não satisfeito. Porque eu poderia estar com menos peso e maior variedade de roupa. Até mesmo as roupas de maior qualidade, não tem no tamanho que serve.” Homem IMC obesidade II “É para melhorar meu dia a dia. Incluo roupa, mas não só. Se vestir traz bemestar.” Homem IMC obesidade III 114 A minoria (26,7%) tem uma vivência emocional neutra frente à vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir. Eles declaram que já se acostumaram, não sentem nada e tal vontade de ganhar ou perder não interfere em nada na sua vida afetiva. “Eu já me acostumei a ser alto e magro. Mas eu gostaria de engordar. Eu não estou satisfeito com meu peso.” Homem IMC normal Diante da vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir, as mulheres de todos os IMC relatam três tipos de vivência emocional: sentimentos negativos, sentimentos positivos e neutralidade emocional. A maioria (70%) relata sentimentos negativos. Contam que se sentem mal, de mãos atadas, revoltadas quando comem brigadeiro, impotentes, chateadas, tristes e desanimadas por procurar e não achar roupas de tamanhos adequados. Entendase sentir-se mal como ter vontade de chorar, redução da autoestima e fingir que está contente embora não esteja. “Eu me sinto de mãos atadas. Porque como eu falei, eu sinto vontade de comer. Mas você não pode comer tudo. (...) E se você não comer, você engorda do mesmo jeito. Aí eu vou comendo. Mas é de mãos atadas mesmo. Eu tento não passar vontade, mas sempre tem uma conseqüência depois que é engordar.” Mulher IMC normal “Fico chateada, triste, desanimada. Não tenho vontade de comprar, não tenho vontade de experimentar roupa.” Mulher IMC obesidade I “É horrível. Eu fico triste, aí eu fico chateada. Aí eu falo para a minha mãe: ‘Vamos ali tomar um sorvete’. Ou então o que eu faço: ‘Nada deu certo, então eu vou comprar um sapato.’ Ou sapato ou coisas de cabelo, porque eu sei que vai servir. Ou então vou cuidar do meu cabelo, das minhas unhas, ou dos meus pés, porque é o que dá. Eu quero me cuidar, mas eu fico chateada, fico em casa. Algo emocional me bloqueia. Ainda não descobri o porquê ainda.” Mulher IMC obesidade II 115 “Eu fiquei mal. Com a autoestima lá embaixo. Com vontade de chorar. Mas pior seria se eu não tivesse condições de me vestir de nenhuma forma.” Mulher IMC obesidade II “Muito desanimada, às vezes, cansada de procurar e não achar. O jeito agora é fazer minha redução de estômago para ver se eu emagreço. E poder me arrumar melhor, ter uma aparência melhor. Eu trabalhava no shopping numa loja de bebê, e me mandaram embora. Disseram que eu não podia me abaixar e que minhas roupas estavam muito ridículas. Mas onde eu ia comprar roupa?” Mulher IMC obesidade III A minoria (30%) relata sentimentos positivos ou tem uma vivência neutra frente à vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir. Elas contam que sentem-se conformadas, indiferentes, privilegiadas, além de se sentirem melhor com o amadurecimento ao longo dos anos. “Hoje eu me sinto bem, porque a gente amadurece. Como eu te falei, hoje eu tenho 39 anos. Aprendi bastante coisa já. Hoje eu me sinto mais satisfeita do que há alguns anos atrás.” Mulher IMC normal Em resumo, a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir provoca sentimentos negativos sobre si na maioria dos participantes de ambos os gêneros e todas as categorias de IMC. A minoria vive tal situação sem prejuízo à sua autoestima. 4.5.3. – Q5aB: “O que você fez para solucionar o dilema que provocou a vontade de ganhar/perder peso?” Através da análise do discurso observamos que diante da vontade de ganhar peso por conta da necessidade de se vestir, os homens com IMC normal usam duas estratégias: dieta para ganho de peso e aceitação de seu peso corporal. 116 “Uma dieta de engorda. Mas ela dificilmente acontece. Eu tento fazer, mas nem sempre. Nem sempre eu consigo me alimentar todos os dias igualmente.” Homem IMC normal “Eu me senti muito magro na infância. Hoje eu aceito. Não tenho mais problema com isso.” Homem IMC normal Diante da vontade de perder peso por conta da necessidade de se vestir, os homens com IMC sobrepeso e obesidade I, II e III usam as seguintes estratégias em ordem decrescente: combinado de atividade física e dieta alimentar restritiva (23,5%); troca da a roupa que não serve, doando uma e comprando outra (17,6%); somente atividade física; somente dieta alimentar restritiva; submissão à cirurgia bariátrica; e tentativa de emagrecer sem especificar a maneira ou instrumento que utiliza para atingir este objetivo. “Comecei a fazer exercícios e dieta.” Homem IMC obesidade I “Eu procuro sempre mudar. Se eu não encontrar do jeito que eu vi, eu procuro modificar pelo menos uma parte da roupa para eu me sentir à vontade. Tudo que eu visto não é igual ao que eu vi, mas eu tento chegar próximo ao que eu quero.” Homem IMC obesidade I “O conflito com a roupa é coisa do passado, porque hoje eu não preciso fazer mais nada. Depois da cirurgia, eu estou emagrecendo a cada dia que passa. A roupa que eu vim trocar, eu comprei dois meses atrás. Agora já está grande. Eu já diminuí o número. Tanto que eu vim trocar por uma menor. Estou perdendo mais.” Homem IMC obesidade III “Eu voltei a treinar agora. Vou me exercitar por uns três ou quatro meses agora, para ver se dou uma secada.” Homem IMC sobrepeso 117 Diante da vontade de ganhar peso por conta da necessidade de se vestir, uma mulher com IMC normal declara não utilizar nenhuma estratégia, embora afirme comer muito. “Só fico na vontade. Eu não faço nada não. Eu como muito. Só aconteceria se eu fosse numa academia, malhar. Mas não acho que isso precisa. Mas estou feliz assim mesmo.” Mulher IMC normal Diante da vontade de ganhar peso por conta da necessidade de se vestir, as mulheres com IMC normal usam três estratégias: dieta alimentar restritiva, ingestão de chocolate e troca de roupa. “Eu tento dar uma maneirada no que eu quero comer, porque eu adoro salgadinho, pão de queijo, risole. Eu tento comer menos na rua, dar um intervalo maior entre as refeições, comer pouco. Vou dando uma maneirada porque vou emagrecendo devagarzinho e não passo vontade.” Mulher IMC normal “Eu como brigadeiro. Mas eu vou emagrecer este ano. Promessa de Ano Novo.” Mulher IMC normal “Eu como chocolate. Eu como doce mesmo, de verdade. Esqueço, ponho outra roupa. Hoje mesmo eu coloquei a bermuda jeans e achei muito apertada. Eu pensei ‘quer saber?’ Eu troquei de roupa e vim com esta mesma.” Mulher IMC normal “Tem situações que eu realmente tenho que mudar de roupa. Não vou sair com aquela roupa só porque eu quero. E se eu sair, eu vou ficar o tempo todo mal no ambiente, me sentindo péssima. Eu vejo uma outra roupa similar bonita. Às vezes eu manero mesmo na alimentação.” Mulher IMC normal Diante da vontade de perder peso por conta da necessidade de se vestir, as mulheres com IMC sobrepeso e obesidades I, II e III usam as seguintes estratégias em ordem decrescente: somente fazer dieta alimentar restritiva ou 118 comer menos (21,2%); nada, tentar conviver (18,1%); combinado de atividade física e dieta alimentar restritiva (12,1%); estratégias psicológicas – como psicoterapia, fugir para o trabalho, dar risada, se valorizar (12,1%); trocar de roupa; tomar remédio ou chá emagrecedor; procurar roupa numa loja especializada em tamanhos grandes; e não ir às lojas nem observar vitrines. “Neste conflito todo, eu tento emagrecer para ver se eu acabo me adaptando a alguma coisa nem que seja parecida com o que eu quero vestir. E vou usando minhas calças legging, que eu não acho que fica feio.” Mulher IMC sobrepeso “Agora eu vou ter que fechar a boca porque eu quero. E vou entrar na academia. A partir daí eu vou melhorar. Vou ficar feliz.” Mulher IMC sobrepeso “Não vou nas lojas, não olho para as lojas. Eu vejo uma roupa bonita, mas nem entro. Vejo a vitrine e passo, não paro.” Mulher IMC obesidade I “Eu vou empurrando com a barriga. É cansativo. Já fui magra. Há 20 anos atrás eu pesava 68 kg. Agora eu peso 120kg. Eu usava umas roupas legais. Eu adorava comprar revista de moda. Eu consumia muita roupa. Depois fui engordando muito. Depois fiquei morrendo de medo de ir no shopping. A única coisa que a gente faz no shopping é passar pelo corredor e descer correndo as escadas para a praça de alimentação. Se você começa a andar no shopping e ficar vendo aquelas roupas você fica numa paranóia: ‘Por que você quer, você está gorda e não entra’. Eu já cheguei a comprar roupa e pensei: ‘Eu vou emagrecer’. A roupa ficou lá um tempão.” Mulher IMC obesidade III “Já procurei psicóloga, já procurei terapia. Mas hoje não procuro mais. Porque o estudo e o trabalho consomem muito. Mas eu procuro dentro de mim qualidades que podem superar as críticas. Ou que eu faço é tentar enxergar o bom em mim. Vou tentar fazer com que as pessoas gostem de mim pelo que eu sou.” Mulher IMC obesidade I 119 “O que eu fiz foi aproveitar, encarar e curtir. Não fico trancada porque estou gorda. O fato de você estar acima do peso, não significa que você é uma má pessoa. Ou que você não possa se divertir como as outras. Não me afeta.” Mulher IMC obesidade II Em resumo, diante da vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir, homens e mulheres optam por estratégias diferentes a fim de atingir seu objetivo. Os homens optam por perder peso através do combinado de atividade física e dieta restritiva ou somente atividade física. Os homens que optam por manter o peso corporal trocam de roupa – isto é, doam a que está apertada e compram outras de tamanho adequado. As mulheres optam por perder peso através de dieta, comendo menos, ou realizando o combinado de dieta restritiva e atividade física. As mulheres que optam por manter o peso tentam conviver com a vontade de perder peso ou utilizam estratégias psicológicas a fim de aceitar seu peso corporal. Contudo, algumas mulheres contam que evitam lojas, vitrines e shopping center. 120 CONCLUSÃO O objetivo geral desta pesquisa foi compreender qual é o tipo de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e a aquisição e/ou uso que eles fazem de suas roupas. Observamos que os fatores que interferem no ato de vestir-se são similares entre os participantes, contudo eles variam em importância dependendo do IMC e do gênero de cada participante. O primeiro objetivo desta pesquisa foi observar se a variável IMC interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas. Constatamos que a variável IMC interfere na aquisição e uso de roupas de três modos. Primeiro, quanto maior o IMC, maior a dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados. Frente à dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados, participantes de todos os IMC experimentam sentimentos negativos e se autoavaliam fisicamente de modo negativo. Os participantes com IMC normal culpabilizam as proporções do seu corpo pela dificuldade de achar roupas de tamanhos adequados, da mesma forma ocorre com os participantes com IMC sobrepeso e obesidade I, II e III. Para esses participantes mais pesados, ir a uma loja procurar por uma roupa de tamanho adequado, bem como entrar no provador para experimentá-la são situações constrangedoras. Em alguns casos, o sofrimento é tão significativo que o participante evita ir às compras. Dentre os participantes que superaram a dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados, encontramos estratégias diferentes segundo o IMC. Participantes com IMC normal superaram a dificuldade ao ganhar peso. Participantes com IMC sobrepeso e obesidade I, II e III superaram a dificuldade ao perder peso. Somente os participantes com IMC obesidade I, II e III superaram a dificuldade ao localizar lojas especializadas em roupas de tamanhos grandes que vendem roupas que lhes agradam. O número crescente de lojas especializadas foi determinante para a superação da dificuldade vivida por participantes desse IMC. O segundo modo como a variável IMC interfere no uso e aquisição de roupas é o seguinte: quanto maior o IMC, menos os indivíduos se sentem representados nas propagandas de roupas. Exceção a esta regra foram os homens com IMC sobrepeso, que não manifestaram este sentimento. Entre os homens, há uma percepção comum de que o tipo físico veiculado nas propagandas equivale ao homem com IMC sobrepeso. Entre as mulheres, há 121 uma percepção comum de que o tipo físico veiculado nas propagandas de roupas equivale a uma “mulher muito magra”, perante a qual as mulheres com IMC normal não se sentem representadas. Os participantes afirmam que uma imagem de referência nas propagandas ajuda a orientá-los sobre qual é a roupa mais adequada ao seu biótipo dentre as que se encontram à venda nas lojas. Contudo, quando o indivíduo olha para a propaganda e não vê um corpo similar ao seu, usando a roupa, duas mensagens são transmitidas. A primeira é “não vendemos a roupa adequada ao seu tipo físico”. Segundo, “o seu tipo físico não é adequado às roupas disponíveis”. Se as propagandas expõem corpos femininos com pouca massa gorda e homens com significativa massa muscular, parece coerente que o sentimento de inadequação ao ver a propaganda seja mais intenso entre mulheres de todas as categorias do IMC e homens com IMC normal e obesidade I, II e III. O terceiro modo como a variável IMC interfere no uso e aquisição de roupas é o seguinte: quanto maior o IMC, maior a insatisfação com o peso corporal. Frente à constatação da relação entre as variáveis IMC e satisfação com o peso corporal, apresentamos as considerações finais referentes ao segundo objetivo da pesquisa: observar se há relação entre a satisfação com o peso corporal e a aquisição e/ou uso de roupas. Os participantes de todos os IMC e gêneros partilham da crença de que as roupas vestem melhor numa pessoa magra, isto é, o corpo magro vestido é mais bonito que o corpo gordo vestido. Soma-se a isso o uso da fórmula do IMC como um critério de autoavaliação física comum entre os participantes de todas as categorias e gêneros. Essa crença de que somente o corpo magro vestido possui beleza interfere negativamente na satisfação com o peso corporal de todos os participantes, porém de modos diferentes conforme o IMC. Participantes com IMC normal e sobrepeso avaliam que o uso de certas roupas destaca o glúteo, o abdome e as pernas de modo inadequado, gerando sofrimento. Assim, eles consideram que a perda ou ganho de peso modifica o volume de certas partes do corpo, facilitando o ajuste do corpo à roupa. Participantes com IMC obesidade I, II e III avaliam que se fossem mais magros poderiam usar roupas mais bonitas e modernas. Tal limitação gera sofrimento. Portanto, a vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se 122 vestir gera sentimentos negativos sobre si na maioria dos participantes de todos os IMC. A minoria deles vivencia tal vontade sem prejuízo à sua autoestima. Ao mesmo tempo, ganhar ou perder peso é uma estratégia de modificação corporal usada com finalidades distintas pelos participantes dependendo do IMC. Os participantes com IMC normal e sobrepeso usam o ganho ou a perda de peso como estratégias de gerenciamento da aparência, isto é, para modificar o volume de algumas partes do seu corpo. Os participantes com IMC obesidade I, II e III usam a perda de peso como estratégia para recuperar a homeostase5 orgânica e a aptidão física, tendo como efeito secundário a melhora da aparência. Em resumo, a insatisfação com as formas corporais, provocada pelo destaque inadequado de certas partes do corpo ao usar roupas, estimula a vontade de ganhar ou perder peso dos participantes com IMC normal e sobrepeso. A insatisfação com o peso corporal, provocada pela vontade de usar roupas mais bonitas e modernas, estimula a vontade de perder peso nos participantes com IMC obesidade I, II e III. O terceiro objetivo da presente pesquisa foi observar se a variável ‘gênero’ interfere nas vivências emocionais e materiais da aquisição e/ou uso de roupas. Embora os homens se sintam bem vestidos com mais frequência do que as mulheres, ambos os gêneros são igualmente autocríticos quanto às possibilidades de melhora da sua aparência física através da aquisição e uso de roupas. Em nossa pesquisa, constatamos que os homens sofrem tanto quanto as mulheres por conta de questões ligadas ao vestuário. Contudo, há alguns fatores que provocam sofrimento no ato de vestir-se que são decorrentes das expectativas sociais referentes a cada gênero. Um fator que não foi considerado no início da pesquisa destacou-se como significativo para os homens no ato de vestir-se: o descompasso entre as roupas exigidas nos ambientes sociais e o conforto físico provocado pelo uso delas. Para estes participantes as roupas masculinas são divididas em dois tipos. O primeiro refere-se à “roupa social”, composta principalmente por calça com corte de alfaiataria e camisa, sendo exigida especialmente no ambiente de trabalho. O segundo tipo é a roupa informal, como bermuda e camiseta regata, usada em ambientes domésticos e atividades de lazer. Esta dicotomia no traje masculino é 5 Estado de equilíbrio das funções orgânicas, que equivale a um dos conceitos de saúde existentes. 123 vivida pelos participantes como limitante e gera sofrimento significativo. Embora o traje social seja fisicamente desconfortável devido ao calor que ele provoca, os homens o vestem porque ele garante prestígio social à sua imagem pessoal. Aqueles que se vestem de modo diferente desse padrão, são julgados como moralmente inadequados e perdem em prestígio e respeitabilidade social. Ao mesmo tempo, grande parte dos participantes do gênero masculino considera relevante a orientação profissional de um consultor de imagem. Isto porque eles projetam sobre este profissional a habilidade de fazer novas combinações de roupas masculinas – para além da “roupa social” e da roupa informal. Entendamse novas combinações como escolher, adquirir e usar roupas que conciliem o conforto térmico frente ao clima tropical de nosso país e a transmissão de respeitabilidade, prestígio social e virilidade. De certa, podemos dizer que eles projetam sobre estes profissionais a habilidade de construção de uma persona masculina mais autêntica. O sofrimento com a dicotomia do vestuário masculino é mais expressivo entre os homens de 25 a 35 anos de todas as categorias do IMC. Esses participantes mais jovens apontam também a necessidade de mudar suas concepções a respeito dos cuidados com a própria aparência. Por outro lado, homens com mais de 46 anos não se dispuseram a nos conceder uma entrevista sobre roupa justificando tratar-se de um tema próprio para ser discutido com mulheres. Portanto há uma associação cultural entre a feminilidade e o sofrimento provocado por desconfortos com a própria aparência que começa a ser questionada por homens adultos jovens. Esses últimos se permitiram relatar sofrimento por conta da aparência a uma mulher desconhecida. Mesmo que tenha sido muito mais difícil encontrar homens do que mulheres para falar sobre roupas, acreditamos que há uma abertura social contemporânea para que os homens expressem suas preocupações com a aparência. Soma-se a isso o número expressivo de homens insatisfeitos com seu peso e que apresentam psicopatologias ligadas à aparência. Olhando os comportamentos saudáveis, os homens que participaram da pesquisa relataram que vivenciam mais sentimentos positivos sobre sua própria aparência ao prestarem atenção no que vão vestir. Este parece um bom estimulante para que se inicie uma reforma social dos costumes ligados à vestimenta masculina. Cabe a estudos acadêmicos posteriores dedicar mais atenção ao comportamento de vestir-se masculino, a fim 124 de facilitar a reforma à qual os homens entrevistados em nossa pesquisa parecem pré-dispostos a aderir nos próximos anos em nome do próprio bem-estar. As mulheres demonstraram menor senso crítico a respeito do papel da cultura no ato de vestir-se, o que estimula o uso de estratégias pouco assertivas frente à dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados. Estas estratégias podem ser: comer menos, dar risada, comer mais frente à vontade de perder peso, bem como evitar lojas, vitrines e passeios em shopping center. É possível que homens e mulheres usem estratégias pouco eficazes, mas que somente as mulheres relatem essa ineficiência ao lidar com a dificuldade. Uma vez que os homens podem temer parecer ineficazes ou fracos frente a um problema aparentemente simples. Em diversas questões, as respostas de homens e mulheres são similares, porém a fala feminina vem carregada de mais afeto. Supomos que esta carga afetiva não se deva ao maior sofrimento feminino, mas novamente ao temor masculino de parecer fragilizado frente a uma questão que tradicionalmente deve afetar ou perturbar somente às mulheres. Portanto, chegamos ao objetivo geral da presente pesquisa: compreender qual é o tipo de relação existente entre o peso corporal dos indivíduos e a aquisição e/ou uso de roupas. Constatamos que a relação entre o peso corporal e a aquisição e uso de roupas é marcada pela inversão de importâncias, uma vez que o peso corporal – bem como as proporções corporais que o caracterizam – deve se adaptar à roupa, e não o inverso. O comportamento de vestir-se é um território de embate entre as concepções e expectativas culturais a respeito do corpo e os atributos físicos singulares dos indivíduos. No centro deste embate está o ego. Por um lado, cabe a ele aceitar que ele vive em sociedade e, portanto, é vulnerável às expectativas culturais a respeito do peso corporal desejável. Como as roupas são produzidas a partir desse ideal social, ele precisa aceitar que terá mais dificuldade para achar roupas de tamanho, bem como verá menos imagem de pessoas com o mesmo corpo nos meios de comunicação, à medida que seu peso corporal aumentar. Por outro lado, também cabe ao ego aceitar que ele não pode se livrar da limitação individual e particular em que se encontra. Dito de outro modo, cada indivíduo tem uma herança genética que pré-determina seu peso corporal. Ele pode utilizar as biotecnologias para alterar seu peso, mas ainda sim seus genes 125 sempre limitarão a quantidade de peso corporal que o indivíduo pode ganhar ou perder sem comprometer a homeostase orgânica. Frente à necessidade de adaptação da aparência física às exigências sociais, o ego se identifica com os valores da cultura referentes ao corpo. Mais precisamente, ele assume o IMC como um dos seus critérios de autoavaliação física. Ao comparar seu peso corporal atual com o peso corporal considerado “normal”, ele tende a encontrar uma discrepância. Neste momento, parece que boa parte dos participantes desta pesquisa desconhece o que é a normalidade. A faixa de normalidade de qualquer mensuração não inclui todos os indivíduos de uma população. A normalidade é sempre uma referência métrica, fruto de cálculos estatísticos que visam homogeneizar a população para fins didáticos. Porém, tal referência, não é dotada da capacidade de abarcar a heterogeneidade dos tipos físicos existentes numa dada população. O uso indiscriminado dos valores da categoria normal do IMC como referência ao avaliar o próprio peso provoca sentimentos negativos como a incapacidade de controlar seu corpo e sua alimentação. Esta autoavaliação moralista somada à percepção negativa da própria aparência provocam sofrimento significativo em pessoas gordas e magras. Tal sofrimento é fruto da disseminação, na sociedade contemporânea, do uso distorcido do IMC a fim de propagar e/ou favorecer um padrão de beleza corporal inatingível para indivíduos de todos os pesos. Portanto, o rigor da cultura com o peso corporal provoca sofrimento e preocupação excessiva com o peso não somente nos indivíduos gordos, mas também nos magros. Frente à necessidade de adaptação da aparência física, cabe ao ego gerenciar a tarefa de vestir-se. Por um lado o ego lida com a limitação social, isto é, um tipo de vestuário próprio de sua cultura e que ele deve vestir a fim de se inserir socialmente. Ao mesmo tempo, esta obrigatoriedade tem uma margem de variação que permite a cada indivíduo imprimir certa originalidade à composição de sua aparência física. Contudo, fatores como ambiente social, gênero, idade e peso corporal somados determinam a amplitude ou redução da margem de variação na aquisição e uso de roupas. Por outro lado, o ego lida também com as necessidades, sentimentos, preferências e traços físicos que compõem a individualidade. Sendo mais específica, o indivíduo possui um peso corporal, bem como os contornos 126 corporais que caracterizam este peso. No ato de vestir-se, o ego pode usar os traços físicos e as características psicológicas mais marcantes como referência para escolher, adquirir e usar roupas. Ao mesmo tempo, possuir uma boa variedade de roupas garante a composição de aparências físicas específicas e adequadas às ambições sociais do indivíduo. Essa diversidade na aparência física permite a expressão mais completa do si-mesmo na vida pública. Ao procurar por roupas nas lojas, os indivíduos com IMC obesidade notam que a aquisição de roupas é limitada por seu peso corporal. Vários fatores se acumulam em torno da aquisição de roupas, dentre eles o alto custo e a pouca beleza das roupas de tamanhos grandes. Tais fatores sinalizam o não reconhecimento social do corpo gordo com um dos biótipos comum da população, tornando compreensível o sofrimento dos participantes com IMC obesidade ao adquirir e usar roupas. Além disso, o uso de roupas gera insatisfação com as formas corporais em indivíduos com IMC normal e sobrepeso. Uma vez que as roupas marcam os contornos e as características corporais socialmente indesejáveis, tal como o abdome proeminente. Portanto, as necessidades de ser magro e ter formas perfeitas para vestir certas roupas geram sofrimento nos indivíduos mais magros. De um modo geral, podemos identificar em nossa pesquisa vários tipos de personas. Contudo, duas nos interessam particularmente: a persona do gordo e a persona do magro. Entenda-se persona aqui como conjunto de atitudes habituais que visam adaptação tanto à sociedade quanto às necessidades pessoais. A persona do gordo é composta por quatro características. Primeiro, um sentimento ocasional de sentir-se bem vestido, uma vez que ele é de fato cerceado e limitado na aquisição e uso de roupas. Segundo, uma preocupação com a saúde devido à associação entre excesso de gordura e doenças crônicas. Terceiro, uma dificuldade para confiar no olhar compreensivo, estimulante e positivo do outro sobre sua própria aparência física. Afinal, ele recebe a projeção social da imoralidade e do descontrole pessoal. Quarto, possuir um corpo desprovido de beleza. A persona do magro é composta por duas características. Primeiro, o sentimento ocasional de sentir-se bem vestido, uma vez que adquirir roupas de tamanho adequado não é problema. O problema é usá-las, pois ao vesti-las qualquer característica corporal inadequada fica evidente. Segundo, a busca das 127 formas corporais perfeitas. Se ele não as tem, vai conquistá-las através do autocontrole e auto-vigilância constantes. Este esforço para se ajustar ao ideal social é defensivo porque permanecer magro – sem excessos de gordura e com boa quantidade de massa muscular – o mantém distante da vivência social punitiva que é reservada aos indivíduos gordos. Em resumo, diante do rigor social com o peso corporal, gordos e magros se identificam com as expectativas sociais e utilizam personas defensivas - isto é, persona que visa proteger o indivíduo do sofrimento vivido ao sentir-se inadequado socialmente. Contudo, se identificar com estas personas gera ainda mais sofrimento para ambos. Diante deste embate entre formatação e conforto, cabe ao ego restaurar o equilíbrio de dois modos. O primeiro, desenvolver um olhar crítico a respeito das expectativas sociais quanto à aparência física e ao peso corporal. A partir do momento em que os indivíduos demonstram comportamento fóbico frente à necessidade de mensurar o peso corporal, podemos considerar que a lipofobia cultural tornou o peso uma questão moral. Estudos futuros podem se dedicar a compreender melhor as crenças e fatores sociais que sustentam esta rigidez cultural em relação à gordura. O segundo é afrouxar a rigidez com o peso corporal ao avaliarmos nosso peso e o peso dos outros. A aceitação da diversidade de biótipos permite a composição de novas personas do gordo e do magro, menos defensivas e mais expressivas. A persona mais expressiva permite uma expressão da beleza singular dos corpos gordos e magros. Não ousamos propor quais outras características teriam essas personas, já que as características possíveis são infinitas. Contudo, quando o ego reconhece e aceita as características mais singulares, a persona torna-se vívida, socialmente eficaz e capaz de garantir a saúde e o equilíbrio da psique. Este trabalho tem como propósito sensibilizar as pessoas a respeito do quanto pode ser doloroso gerenciar a própria aparência – principalmente para os indivíduos gordos – devido aos ajustes necessários à socialização. De fato, a jornada do indivíduo gordo em busca da aquisição de roupas é solitária. Uma das contribuições deste trabalho é evidenciar a importância do olhar positivo, compreensivo e estimulante do psicoterapeuta para o ato de vestir-se do indivíduo gordo. Este olhar terapêutico pode ser determinante no aumento dos sentimentos positivos do indivíduo gordo sobre si mesmo. Esta técnica pode servir para 128 estimular tanto a vontade de perder peso – para aqueles que têm este propósito – quanto à construção de uma persona diferenciada. No entanto, ficamos surpresos ao constatar que o uso das roupas pelo indivíduo magro também é doloroso, mas um pouco menos solitário. Infelizmente, a cultura contemporânea não tem mecanismos capazes de orientar as pessoas a respeito da vivência corporal, como compreender seu corpo para além do peso corporal. Além, é claro, de auxiliar o indivíduo a adequar as exigências da cultura às suas características pessoais tais como valores sociais diferenciados, idade, corpo em desenvolvimento ou envelhecimento, condições socioeconômicas, necessidade de autoexpressão diferenciada, entre outros. Por fim, esperamos que este trabalho proporcione alívio aos leitores ao demonstrar que o sofrimento parece solitário, uma vez que ele é vivido na intimidade do nosso corpo e da nossa psique. Não obstante, tal sofrimento é fruto da inserção social, o que o torna, de certo modo, coletivo e inevitável. 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVARENGA, Marle; SCAGLIUSI, Fernanda Baeza; PHILIPPI, Sonia Tucunduva (org.). Nutrição e transtornos alimentares. Barueri: Manole, 2011. BARLOW, David H.; DURAND, Mark R. Psicopatologia: uma abordagem integrada. São Paulo: Cengage Learning, 2011. BARTUKA, Natalie; HORNSBY, Paige P.; SCHORLING, John B. Clinical implications of body image among rural African-american women. Journal of General Internal Medicine, abril 2000. Disponível em: <http://www. ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1495436/?tool=pubmed>. Acesso em: 11 dez. 2009. BIDERMAN, Iara. Cada vez mais homens aderem ao silicone. Folha de S. Paulo, São Paulo, julho 2010, Caderno Cotidiano. BLOMEYER, R. Aspekte der Persona. Analytische Psychologie 5, p. 17-29, 1974. Basle: Karger. CASTILHO, Kathia; VICENTINI, Cláudia Garcia. O corte, a costura, o processo e o projeto de moda no re-design do corpo. In: CASTILHO, Kathia; OLIVEIRA, Ana Cláudia de (Org.). Corpo e moda: por uma compreensão do contemporâneo. Barueri: Estação das Letras e Cores Editora, 2008. CONSENSO latino americano sobre obesidade. Rio de Janeiro: [s.n.], 1998. Disponível em: <http://www.abeso.org.br/pagina/16/downloads.shtml> Acesso em: 11 dez. 2009. DINIZ, Daniela. Aparência importa, sim. Você S/A, São Paulo, ed. 89, p. 22, novembro 2005. DUVAL, Karine et al. Health-related quality of life in morbid obesity. Obesity Surgery, v.16, n.5, maio 2006. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/ entrez>. Acesso em: 11 dez. 2009. ECO, Umberto; SIGURTÁ, Renato; MARINO, Livolsi; ALBERONI, Francesco; DORFLES, Gillo; LOMAZZI, Giorgio. Psicologia do Vestir. Lisboa: Assirio e Alvim, 1989. 130 FISCHLER, Claude. Obeso benigno, obeso maligno. In: SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de (Org.). Políticas do corpo: elementos para uma história das práticas corporais. São Paulo: Estação Liberdade, 2005. FLÜGEL, John Carl. A psicologia das roupas. São Paulo: Mestre Jou, 1966. GISELE Bündchen tamanho GG. Folha de S.Paulo, São Paulo, maio 2010, Caderno Ilustrada. JUNG, Carl G. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2009, v. VI (Obras completas). ______. O Eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2008, v. VII/2 (Obras completas). ______. AION, estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2008, v. IX/2 (Obras completas). ______. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 1987, v. XI/1 (Obras completas). ______. Fundamentos de psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 2008, v. XVIII/1 (Obras completas). KAISER, Susan B. The social psychology of clothing: symbolic appearances in context. New York: Fairchild Publications, 1998. LUZ, Madel T.; SUDO, Nara. O gordo em pauta: representações do ser gordo em revistas semanais. Ciência & Saúde Coletiva, v.12, n.4, p. 1033-1040, Rio de Janeiro, julho/agosto 2007. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid =S1413-81232007000400024&script=sci_arttext&tlng=e!n>. Acesso em: 20 abril 2011. MESQUITA, Cristiane. Políticas do vestir: recorte em viés. 2008. 201 f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008. MIRANDA, Ana Paula de. Consumo de marcas de moda: aspectos funcionais e simbólicos. Dobras, v.3, n.5, fevereiro 2009. São Paulo: Estação das letras e cores. 131 NAVARRI, Pascale. Moda e inconsciente: olhar de uma psicanalista. São Paulo: Editora Senac são Paulo, 2010. PIERI, Paolo Francesco. Dicionário junguiano. São Paulo: Paulus, 2002. POPE, Harrison G. (org.). O complexo de Adônis: a obsessão masculina pelo corpo. Rio de Janeiro: Campus, 2000. SOUSA, Cristiano Oliveira de. A utilização da imagem como representação cultural passível de uma análise histórica: uma abordagem culturalista. II Encontro Memorial de Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Mariana, MG: [s.n.], 2009. Disponível em: <http://www.ichs.ufop.br/memorial/trab/h1_2.pdf> Acesso em: 03 mar. 2011. WHITMONT, Edward C. Persona: máscara que usamos para o jogo da vida. In: DOWNING, Christine (org.). Espelhos do self: as imagens arquetípicas que moldam a sua vida. São Paulo: Cultrix, 1991. WOOD, Katherine; CAMERON, Melanie; FITZGERALD, Kylie. Breast size, bra fit and thoracic pain in young women: a correlacional study. Chiropractic & Osteopathy, março 2008. Disponível em: <http://www.chiroandosteo.com/content/ 16/1/1>. Acesso em: 11 dez. 2009. 132 ANEXOS 133 ANEXO I PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Este termo, em duas vias, é para certificar de que eu,................................................... ….........................................................................................................,................................................ RG:.....................................................,concordo em participar na qualidade de voluntário, do projeto científico “A influência do peso corporal sobre o ato de se vestir”, cujo objetivo é observar as vivências associadas ao peso corporal e ao uso das roupas no cotidiano, realizado pela psicóloga Maristela dos Reis Souza. Por meio deste, dou permissão para ser entrevistado e para estas entrevistas serem gravadas em áudio digital. Estou ciente de que as gravações serão apagadas após o término desse estudo. Declaro que os objetivos e detalhes desse estudo foram‐me completamente explicados, conforme seu texto descritivo. Estou ciente de que sou livre para recusar a dar resposta a qualquer questão durante as entrevistas e se, em qualquer momento, quiser interromper a participação na pesquisa, esta autorização não mais será válida, sem ser em nada prejudicado. As informações obtidas serão utilizadas com ética na elaboração de trabalho científico, que poderá ser utilizado para publicação em meios acadêmicos e científicos. Meu nome não será utilizado nos documentos pertencentes a esse estudo e a confidencialidade será garantida. Desse modo, concordo em participar do estudo e cooperar com a pesquisadora. Nome: _________________________________ Assinatura: _________________________ São Paulo, ___ de ______________ de __________. Pesquisadora: Maristela dos Reis Souza RG: 34.XXX.XXX‐3 Tel.: (11) 9463.0000 [email protected] 134 ANEXO II PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA ROTEIRO DE ENTREVISTA Nome:____________ Sexo: ( )feminino ( )masculino idade:____ Peso:_______ Altura: _______ Estado civil:____________ no.Filhos:_______ profissão:____________ IMC: ________________ 1. No seu dia a dia, você se sente bem vestido (a) ( )sempre ( )quase sempre ( )às vezes ( )raramente ( )nunca Por que? 2. Você acha que poderia estar melhor vestido(a) do que você está agora? ( )sim – Fazer pergunta A ( )não – pular para a pergunta 3 A. O que falta para você se sentir melhor vestido(a)? 1( )dinheiro 2( )orientação profissional sobre o que vestir 3( )roupas de modelos e estilos variados 4( )ter mais imagens de pessoas com o mesmo corpo que o seu nas propagandas de roupa 5( )outros motivos B. Ter a(o)______(item escolhido), faria com que você se sentisse melhor vestida(o) de que maneira? 3. Você tem dificuldade para achar roupas de tamanhos adequados para você? ( )sim – fazer pergunta A ( )não – prosseguir para pergunta 4 ( )agora não – fazer a pergunta B A. Como você se sente diante desta situação? B. Como você se sente diante da situação relatada? 4. Você está satisfeito(a) com seu peso corporal? ( )sim ( )não Pq? 5. Você já sentiu vontade de ganhar ou perder peso por conta da necessidade de se vestir? ( )sim – ( )ganhar ( )perder Por que? ( )não – encerrar a entrevista A. Diante da situação relatada, como você se sente? B. O que você fez para solucionar este conflito?