A NOÇÃO DE AGRESSIVIDADE NOS SEMINÁRIOS DE LACAN - uma pesquisa Lia Amorim Meu propósito foi o de investigar a temática da agressividade que Lacan trabalhou sobretudo nos primórdios de seu ensino. Limitei-me aqui ao Seminário. Procurei afastar-me o mínimo possível dos textos pesquisados seguindo de perto as palavras supostamente proferidas por Lacan.1[1] Minhas eventuais intervenções serão identificadas no texto sob a forma de observações ou notas de rodapé. Os grifos, porém, eu os coloquei arbitrariamente onde considerei importante colocá-los. OS ESCRITOS TÉCNICOS DE FREUD 1953/54 12 de maio de 1954 A noção de agressividade2[2] tem que ser aprofundada porque faz-se dela um uso errado. Agressividade não é agressão. É no limite, virtualmente que a agressividade se resolve em agressão. A agressão é uma realidade vital, um ato existencial ligado a uma relação imaginária. p. 205 O objeto humano é originariamente mediatizado pela via da rivalidade, pela exacerbação em relação ao rival, pela relação de prestígio e de prestância. Já é uma relação de alienação porque é primeiro no rival que o sujeito se apreende como eu. A primeira noção de totalidade do corpo como vivido, o primeiro arroubo do apetite e do desejo passa, no sujeito humano, pela mediação de uma forma que primeiro ele vê projetada, exterior a ele, e isso, primeiro no seu próprio reflexo. Ainda que não perceba de maneira completa, o homem sabe que ele é um corpo. A fórmula ‘o desejo do homem é o desejo do outro’ vale no plano da captura imaginária, mas se fosse só assim, haveria uma impossibilidade de coexistência das consciências, como se exprime Hegel, todo outro permanecendo essencialmente aquele que frustra o ser humano, não somente de seu objeto mas da própria forma do seu desejo. Constantemente a projeção do desejo sucede a da imagem. Correlativamente há re-introjeção de imagem e re-introjeção do desejo. Jogo de báscula, jogo em espelho. 1[1] Como se sabe, o acesso que temos, sobretudo às comunicações orais de Lacan é via terceiros não estando, portanto, garantido o rigor com a transcrição, não importando o fato de estarem os seminários estabelecidos, publicados como livros, ou em transcrições anônimas. 2[2] Lacan emprega a palavra noção. Segundo o dicionário Houaiss, noção é um conhecimento, um julgamento, uma intuição, uma idéia sobre traços essenciais de um objeto. Evidentemente essa articulação se repete, ela não se produz uma única vez. E ao longo desse ciclo seus desejos são reintegrados, reassumidos pela criança. Como é que o simbólico se liga ao imaginário? Os desejos da criança passam inicialmente pelo outro especular. É aí que são aprovados ou reprovados, aceitos ou recusados. É por aí que a criança faz o aprendizado da ordem simbólica e acede ao seu fundamento que é a lei. Entre oito e doze meses a criança não reage igualmente: a uma batida acidental, a uma queda, a uma brutalidade mecânica ligada à falta de jeito e a um tapa com intenção punitiva. É que ela já tem uma primeira apreensão do simbolismo da linguagem e da função de pacto. A palavra é essa roda de moinho por onde o desejo humano se mediatiza. p. 207 A primeira emergência do objeto genital não é menos prematura do que tudo que se possa observar no desenvolvimento da criança, e ela fracassa. Só que a libido que se relaciona ao objeto genital não é do mesmo nível que a libido primitiva, cujo objeto é a própria imagem do sujeito. É na medida em que a criança aparece no mundo em estado prematuro que tem uma relação libidinal primitiva à sua imagem. Essa libido que diz respeito à prematuração é da ordem da Liebe, do amor. p.208-209 A libido segunda vai além, responde a uma primeira maturação do desejo, senão do desenvolvimento vital e se dá quando há uma mudança total de nível na relação do ser humano à imagem, ao outro. A relação à imagem narcísica cativante, alienante no plano imaginário, passa para o plano da Verliebtheit, da fascinação imaginária, que se destaca fenomenologicamente do registro do amor. A libido pré-genital é o ponto sensível, o ponto de miragem entre Eros e Thánatos, entre o amor e o ódio. A libido dita de-sexualizada do eu desempenha o papel crucial na possibilidade de reversão, de viragem instantânea do ódio em amor, do amor em ódio. Para sentir como em Freud isso colocou problemas, a leitura de seu texto “O eu e o isso” é ilustrativa. A reação agressiva à rivalidade edipiana está ligada a uma dessas mudanças de nível. Sendo o pai inicialmente uma das figuras imaginárias mais manifestas do Ideal do eu, como tal, ele é investido de uma Verliebtheit isolada, nomeada e descrita por Freud. É na medida em que há regressão da posição libidinal, entre três e cinco anos, que o que era amor dá lugar a um sentimento de agressão, de rivalidade e de ódio contra o pai. Para o sujeito, a desinserção da sua relação ao outro faz variar, espelhar, oscilar, ora completando ora descompletando a imagem do seu eu - o eu do sujeito. Há freagem, paradas que a técnica ensina o analista a ultrapassar, a preencher e às vezes a reconstruir. A técnica produz no sujeito uma relação de miragem imaginária consigo mesmo, para além do que o vivido cotidiano lhe permite obter. Tende a criar artificialmente, em miragem, a condição fundamental de toda Verliebtheit. Trata-se de que o sujeito na análise possa reconhecer as etapas por que passou, os objetos que vieram trazer consistência, que incarnaram e alimentaram a imagem e que ele constitua, por retomadas e identificações sucessivas, a história do seu eu. p.210211. O EU NA TEORIA DE FREUD E NA TÉCNICA DA PSICANÁLISE 1954/55 12 de janeiro de 1955 Refletindo sobre os impasses de Freud a respeito do ‘instinto de morte’, o filósofo Jean Hyppolite observa que tem-se a impressão de que os dois instintos, de vida e de morte, são apenas um no inconsciente mas o que é grave é quando os componentes se separam. “Naquilo que se chama amor humano há uma parte de agressividade, sem a qual haveria quase que só impotência, mas que pode levar até a matar o parceiro, e uma parte de libido, que iria dar numa impotência efetiva se não houvesse a parte de agressividade. Se isso funciona junto dá o amor humano. Mas quando isso se decompõe, quando um dos componentes funciona sozinho aparece então o instinto de morte.” Lacan responde que isso se dá no nível do imediato, e que é dado na experiência psicológica do indivíduo, no nível da marionete. Mas o que interessa Freud é saber por que fios a marionete é conduzida. É isto que está dizendo ao falar de instinto de morte ou de instinto de vida. p.90 AS PSICOSES 1955/56 18 de janeiro de 1956 p. 110-111. A relação do narcisismo é a relação imaginária central para a relação inter-humana, marcada pela ambigüidade e foi principalmente isso que, na experiência, fez com que os analistas aí se detivessem. É uma relação erótica- toda identificação erótica, toda apreensão do outro pela imagem numa relação de cativação erótica se faz pela via da relação narcísica -e é também a base da tensão agressiva. A partir do momento em que a noção de narcisismo entrou na teoria analítica, a nota de agressividade foi posta cada vez mais no centro das preocupações técnicas. É para isso que serve o estádio do espelho. Ele põe em evidência a natureza dessa relação agressiva e o que ela significa. Se a relação agressiva intervém nessa formação chamada o eu, é que ela a constitui, é que o eu sendo desde já um outro, ele se instaura numa dualidade interna ao sujeito. O eu é esse mestre que o sujeito encontra num outro e que se instaura em sua função de domínio no cerne de si mesmo. Se em toda relação mesmo erótica com o outro há algum eco dessa relação de exclusão, é ele ou eu, é que no plano imaginário, o sujeito humano é assim constituído, de forma que o outro está sempre prestes a retomar seu lugar de domínio em relação a ele, que nele há um eu que sempre é em parte um estranho a ele, senhor implantado nele acima do conjunto de suas tendências, de seus comportamentos, de suas pulsões. E onde está esse Mestre? No interior e no exterior, é por isso que todo equilíbrio puramente imaginário com o outro está sempre condenado a uma instabilidade fundamental. A imagem especular é essencial na medida em que dá o complemento ortopédico da insuficiência nativa, do desacordo constitutivo ligado à prematuração no nascimento. Sua unificação não será jamais completa porque é feita precisamente por uma via alienante sob a forma de uma imagem estranha que constitui a função psíquica original. A tensão agressiva desse ele ou eu está integrada a toda espécie de funcionamento imaginário do homem. Mas o comportamento humano não está nunca pura e simplesmente reduzido à relação imaginária. p.113 O complexo de Édipo quer dizer que a relação imaginária, incestuosa nela mesma, está destinada ao conflito e à ruína. É preciso que intervenha um terceiro que seja a imagem de algo bem sucedido, o modelo de uma certa harmonia. Não é demais dizer- é preciso aí uma Lei, uma ordem simbólica, a intervenção da ordem da palavra, isto é, do pai. p.114. Não o pai natural, mas o nome dele. Um nome ultrapassa a existência viva e se perpetua além. p.115 16 de maio de 1956 Há no movimento da teoria freudiana uma dupla alienação. Há o outro imaginário. Não posso esperar minha realização e minha unidade do reconhecimento de um outro que está preso comigo numa relação de miragem. Mas há também o outro que fala de meu lugar, aparentemente, esse outro que está em mim. É um outro diferente desse outro meu semelhante. Lacan aqui evoca duas situações para falar desse outro outro: p.274 1. a da transferência na qual tudo está feito para que a relação dual se apague, por outro lado , a necessidade de uma orelha, de um outro auditor, o analista. A análise só pode ser realizada com um analista, o inconsciente é essencialmente fala, fala do outro, do analisando. 3[3] 2. O outro exemplo está em Freud que, no fim da vida não tinha nenhuma ilusão quanto à profunda insuficiência e incompreensão de seus seguidores. No salto entre 1920 e 1924 ele embaraça a todos indo direto ao fundo do problema- o automatismo de repetição que tentaram reduzir a uma repetição das necessidades quando, na verdade, ele está fundado na insistência de uma fala, uma fala que deve tornar a voltar apesar da resistência do eu que é defesa, quer dizer, aderência ao contrasenso imaginário da identificação com o outro. A repetição é a insistência de uma fala que, no sujeito, volta, até que ele tenha dito sua última palavra, e a última palavra da antropologia freudiana concerne ao que possui o homem e faz dele o suporte de uma razão da qual ele é mais vítima do que senhor e pela qual ele é, de antemão, condenado. O homem é possuído pelo discurso da lei e é com esse discurso que ele se castiga em nome dessa dívida simbólica que ele não cessa de pagar sempre mais em sua neurose. Como o homem entra nessa lei, está colocado lá em ‘Totem e Tabu’. p.276 Freud não acreditou nunca em progresso da humanidade, ele é fundamentalmente anti-humanista, na medida que há no humanista esse romantismo que gostaria de fazer do espírito a flor da vida. Freud deve ser situado numa tradição realista e trágica. Na perspectiva freudiana o homem é o sujeito preso e torturado pela linguagem. Nesse sentido a frase entoada pelo coro de Édipo em direção ao bosque em Colono é definitiva: me phunai a cuja tradução melhor fora não tivesse nascido, Lacan acrescenta como tal -melhor fora não tivesse nascido como tal. 13 de junho de 1956 Em duas frases homófonas na língua francesa (mas não em português), vão ser trabalhados os diferentes efeitos produzidos a partir de como o sujeito escutou a frase vinda do Outro: Tu es celui qui me suivra - Tu és aquele que me seguirá Tu es celui qui me suivras - Tu és aquele que me seguirás p.315 e segs. Em francês o ‘s’ de ‘suivras’ é mudo. Seguir o que? No primeiro caso, manifesto uma certeza muito maior e, no segundo, uma confirmação muito maior. 3[3] O divã é aí importante porque tira o olhar de circulação (passível de privilegiar a imagem) e coloca a fala em evidência. Não é muito certo que o tu seja uma palavra que não tenha sentido próprio, mas não está excluído que ele prescinda de sentido. Isso acontece quando, por exemplo, indico uma rua a alguém. Não há aqui valor subjetivo. Em que momento e por que mecanismo o tu chega à subjetividade? A importância das distinções que Lacan vai fazer é a de mostrar que a mudança de ênfase, a plenitude que o tu confere ao outro, e que é também o que ele recebe disso, está essencialmente ligada ao significante. p.318 p.336 O tu está longe de ter um valor unívoco. Ele é no significante uma maneira de anzolear o outro no discurso, de enganchar-lhe a significação. Tu és aquele que me seguirá é uma extensão que implica a assembléia imaginária daqueles que são os suportes do discurso, a presença das testemunhas, e mesmo do tribunal diante do qual o sujeito recebe a advertência à qual é intimado a responder. É aí que o sujeito responde eu sigo. Quando o significante que porta a frase faz falta àquela, a resposta eu sigo que é a da primeira frase, permanece em eterna interrogação. O tu reaparece indefinidamente, o significante cai no campo que é para o outro excluído, inacessível. O significante produz nesse momento uma redução, mas intensificada à pura relação imaginária.4[4] O sujeito está preso numa função copular no estado puro e na função ostensiva. Para ele dizer outra coisa, é preciso que se recuse a ouvir, e recusar a ouvir é força de que da maioria dos humanos não dispõe. É aí que reside a força própria do discurso. p.339 De qualquer modo, essa frase é um primeiro passo em direção à segunda. Porque se digo tu ao mesmo tempo que denuncio que ele faz parte desses todos que o universo do discurso supõe, digo também que eu estou designando a ele suas relações de objeto. Mas para que eu tenha com ele uma relação autêntica, é preciso que ele responda tu és aquele que eu sou. Trata-se de uma identificação com o outro, recíproca. Obs: aqui eu abro parênteses para assinalar duas rubricas da palavra ‘autêntica’: na jurídica é documento legalmente comprovado e autorizado, e na eclesiástica, é certidão por meio da qual a autoridade eclesiástica reconhece como verdadeira determinada relíquia e permite a sua veneração. Prossigo com o desenvolvimento da reflexão de Lacan. Eu sou não é somente seguir, é também eu sou, e você, tu és, e também você, aquele que, no ponto de encontro, me matará. Se tu não podes suportar a verdade do tu, tu podes sempre ser designado por aquilo que tu és, ou seja, um velhaco. Se queres o respeito do teu vizinho, eleva-te à lei. É preciso que o outro seja reconhecido como tal, como figura na frase de mandado. Mas trata-se também de que o Outro seja reconhecido para além dessa relação mesmo recíproca, de exclusão, é preciso que nessa relação evanescente, seja reconhecido como tão impegável quanto eu. É preciso que ele seja invocado como aquilo que ele não conhece dele próprio. Esse é que é o sentido da frase segunda: tu és aquele que me seguirás. p.341. Aqui o vínculo entre a pessoa que aparece no tu da primeira parte da frase e aquele que aparece na relativa é mais frouxo do que na frase tu és aquele que me seguirá. Essa frase é uma confirmação, supõe que a pessoa sabe de que espécie de significante se trata nesse seguir, que ela o assume por confiança. Eu te sigo, eu sou, eu sigo o que tu acabas de dizer e o que tu acabas de dizer é absolutamente indeterminado, eu não sei aonde tu me conduzirás. A resposta ao ‘tu és aquele que me seguirás’ é eu o 4[4] Momento perigoso, quanto à passagem ao ato. sigo, eu sigo o que acabas de dizer. Há aí o uso da terceira pessoa absolutamente essencial ao discurso na medida em que ele designa o que é o próprio sujeito. É ao próprio tu que nos endereçamos enquanto desconhecido desejando que ele passe de tu és ao seguirás. A partir desse momento Lacan deixa de chamar mandado essa sentença e passa a chamar invocação com as conotações religiosas do termo porque é a seus deuses como a seus demônios que nos endereçamos. A invocação é aquilo que eu faço passar no outro a fé que é a minha. Do mandado à invocação, portanto.5[5] A RELAÇÃO DE OBJETO 1956/57 28 de novembro de 1956 A idéia de um objeto harmônico, encerrando, por sua natureza a relação sujeitoobjeto é perfeitamente contradita pela experiência, Freud mostra isso em Mal-estar na civilização e nas Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. O objeto inicialmente se apresenta em uma busca do objeto perdido. Oposto ao que Freud chama objeto alucinado sobre um fundo de realidade angustiante que surge do exercício do que ele dá o nome de ‘sistema primário do prazer’, na prática analítica existe o objeto que se reduz, afinal, ao real. Trata-se de reencontrar o real. Esse objeto se destaca não mais sobre um fundo de angústia, mas sobre um fundo de realidade comum, e o limite da pesquisa analítica é perceber que não há razão para dele se ter medo. Medo é diferente de angústia. O terceiro tema em que o objeto nos aparece seguindo-o em Freud, é o da reciprocidade imaginária: em toda relação do sujeito com o objeto, o lugar do termo em relação é simultaneamente ocupado pelo sujeito. Assim, a identificação com o objeto está no fundo de toda relação com este. Criticando autores analistas que em análise, remetem o sujeito obsessivo perpetuamente ao tema da agressividade, Lacan diz que na neurose obsessiva não é esse o tema central embora a agressão possa ser provocada por um sentimento outro que não o aborrecimento e a ironia, invocados pelos autores em questão não estando absolutamente excluído que um sentimento de amor, por exemplo, esteja no princípio de uma reação de agressão. Quanto à ironia, longe de ser uma reação agressiva, ela é, antes de tudo, uma maneira de questionar, é um modo de questão. p.29 6 de março de 1957 Em relação a Hans, o esquema primeiro, vulgar, da entrada no complexo de Édipo é a rivalidade quase fraterna com o pai. A agressividade em questão é do tipo daquelas que entram em jogo na relação especular, onde o eu ou o outro é sempre a mola fundamental. p.211 13 de março de 1957 5[5] O mandado é a ordem de uma autoridade cujo não cumprimento é sujeito a sanção. A primeira das duas frases é escutada como um mandado. Já a segunda eu diria que mais se aproxima da figura jurídica do mandato bem diferente do mandado pois trata-se de um contrato que designa duas vontades, uma que dá a outra uma incumbência, outra que a recebe e aceita. O mandato é uma delegação. É ao pai imaginário que se refere mais comumente toda a dialética, a da agressividade, da identificação, a da idealização pela qual o sujeito tem acesso à identificação ao pai. É pai imaginário também porque está integrado à relação imaginária que forma o suporte psicológico das relações com o semelhante que estão no fundo de qualquer captura libidinal, como no fundo de qualquer ereção agressiva. p.225 AS FORMAÇÕES DO INCONSCIENTE 1957/58 19 de março de 1958 Quando um sujeito feminino assume certa posição de identificação com o pai, quando adota suas insígnias, o que encontramos em análise não é o duplo, a reprodução do que acontecia entre o pai e a mãe. O que surge aí é todo um passado, são as vicissitudes das relações extremamente complexas que até então moldaram, desde a origem as relações da criança com a mãe, isto é, as frustrações, as decepções ligadas ao que forçosamente existe de contratempos, de abalos, fazendo intervir com uma ênfase muito particular as relações agressivas em sua forma mais original e também as relações de rivalidade, nas quais marca sua incidência, por exemplo, a chegada de elementos estranhos ao trio, os irmãos ou irmãs que possam ter interferido, mais ou menos inoportunamente na evolução do sujeito e de suas relações com sua mãe. Tudo isso surte efeitos e encontramos seu vestígio e seu reflexo, moderando ou reforçando o que então passa a se apresentar como uma reivindicação das insígnias da masculinidade. Tudo isso se projeta nas relações do jovem sujeito com seu objeto. p.307 26 de março de 1958 O fato de a identificação ser feita pela assunção de significantes característicos das relações de um sujeito com outro engloba e implica a ascensão, para o primeiro plano, das relações desejantes entre esse sujeito e um terceiro. S, sujeito, A maiúsculo e o a minúsculo. p.316 La Rochefoucauld disse que há duas coisas para as quais não podemos olhar fixamente, o sol e a morte. Lacan acrescenta o complexo de castração. Na origem, tratase de elucidar essa relação terceira na qual se produzirá a assunção da relação com certas insígnias indicadas no complexo de castração, porém de maneira enigmática, uma vez que essas próprias insígnias acham-se numa relação singular com o sujeito. Elas estão ameaçadas, e, ao mesmo tempo são justamente elas que é preciso acolher, receber, e fazê-lo numa relação de desejo concernente a um terceiro termo que é a mãe. p.316 Essa relação complexa, é preciso o analista captá-la, coordená-la e articulá-la pois há uma dispersão de imagens, mil faces, formas, reflexos na experiência do sujeito neurótico. É no indivíduo que temos que buscar a origem e o sentido do medo da castração que está relacionado com o pai como objeto, com o medo do pai. Seguindo uma linha que é genética pois remonta às origens, encontramos em primeiro plano o medo do órgão feminino. E isso de maneira ambígua, ou porque é ele que se torna a sede da ameaça contra o órgão incriminado ou, ao contrário porque ele é o modelo do desaparecimento desse órgão. Porém o que está mesmo na origem do medo da castração é o próprio falo, escondido no fundo do órgão materno. Bem nas origens, o falo paterno é percebido pela criança como estando sediado no interior do corpo materno, e é ele que é temido pelo sujeito. É preciso ainda que ele seja considerado ameaçador em razão de o próprio sujeito, nas origens, do que chamamos suas tendências agressivas, sádicas, primordiais, ter feito dele a arma ideal. Em última instância, tudo se resume numa espécie de puro reflexo do órgão fálico, considerado como suporte de uma tendência primitiva, que é a da pura e simples agressão. O complexo de castração reduz-se então, ao isolamento de uma pulsão agressiva primordial, parcial , e, portanto, desvinculada. A castração está ligada à evolução, ao progresso à maturação do desejo no sujeito humano. Não se trata nem de penis nem de testículos. É o caráter significante que predomina. p.317-318 18 de junho de 1958 A partir de um comentário dos escritos de Glover sobre a análise das resistências e da agressividade, Lacan retoma o tema dizendo que na época em que enfatizou que o sistema narcísico era fundamental na formação das reações agressivas, assinalou também muitas vezes o quanto nosso emprego do termo agressividade continuava marcado pela ambigüidade. A agressividade provocada na relação imaginária com o pequeno outro não pode confundir-se com a totalidade do poder agressivo. A violência pelo menos no plano humano, é o que há de essencial na agressão. É exatamente o contrário da fala. O que pode produzir-se numa relação inter-humana são a violência ou a fala. Se a violência distingue-se em sua essência da fala, pode colocarse a questão de saber em que medida a violência como tal - para distingui-la do uso que fazemos do termo agressividade - pode ser recalcada, uma vez que postulamos como princípio que só pode ser recalcado, em princípio, aquilo que revela ter ingressado na estrutura da fala, isto é, ter ingressado numa articulação significante. Se o que é da ordem da agressividade chega a ser simbolizado e captado no mecanismo daquilo que é recalque, inconsciência, daquilo que é analisável, e até, de maneira geral, daquilo que é interpretável, é por intermédio do assassinato do semelhante que está latente na relação imaginária. p.469-471 p.478. A relação do obsessivo com seu desejo está submetida ao papel precoce que ele desempenhou na desfusão das pulsões, o isolamento da destruição. A estrutura do obsessivo é determinada como tal, pelo fato de a primeira abordagem de seu desejo haver passado, como em qualquer sujeito, pelo desejo do Outro e de esse desejo do Outro ter sido inicialmente destruído, anulado. A fenomenologia do obsessivo mostra que à medida que ele se aproxima de seu desejo, este vacila e se esvaece e nesse caso porta a marca de ter sido inicialmente abordado pelo sujeito como algo que se destrói, por ter-se apresentado a ele como desejo de seu rival, por haver o sujeito respondido a ele no estilo da reação de destruição que é subjacente à sua relação com a imagem do outro, na medida em que esta o despoja e o arruína. O obsessivo só se mantém numa relação possível com seu desejo à distância. Contrariamente ao que pensam alguns autores,6[6] o que tem que ser mantido é a distância do seu desejo e não do objeto. Aquilo de que se trata, em todas as fórmulas obsessivas é de uma destruição concretamente articulada, uma destruição do Outro pelo verbo e pelo significante, que é dada na própria estrutura do sintoma. p.481 2 de julho de 1958 6[6] Lacan parece estar aqui referindo-se a Bouvet, Abraham, Glove e talvez outros. Há uma forma fundamental que encontramos no horizonte de toda demanda do sujeito obsessivo, e que é precisamente o que mais cria obstáculos à articulação de sua demanda por ele. É o que a experiência nos ensina a qualificar de agressividade e que nos levou cada vez mais a levar em consideração o que podemos chamar de anseio de morte. Falando de um caso clínico, Lacan diz que essa é a dificuldade maior, inaugural, diante da qual se rompe, fragmenta e desarticula a demanda do obsessivo, o que motiva a anulação , o isolamento de todas as defesas e nos obsessivos graves , aquele silêncio prolongado difícil para vencer no decorrer de uma análise. Trata-se, na realidade, da relação da demanda de morte com a própria dificuldade de articulação. Esse é um fenômeno que merece atenção. Se essa demanda é uma demanda de morte, é porque as primeiras relações do obsessivo com o Outro foram compostas por uma contradição, a de que a demanda dirigida ao Outro de quem tudo depende tem por horizonte a demanda de morte. Para avançar, é preciso deixar de lado as pulsões agressivas primordiais de que falava M. Klein. É preciso deixar de lado essa espécie de maldade primordial do recémnascido, cujo primeiro movimento o marquês de Sade nos sublinha que seria, se ele pudesse, morder e dilacerar o seio da mãe. É preciso situar essa demanda no nível no qual constitui um obstáculo ao discurso do obsessivo e em que se descobre um desarvoramento. A demanda de morte representa para o sujeito obsessivo um impasse do qual resulta um movimento de oscilação no qual o sujeito é como que remetido aos eixos de um impasse do qual não consegue sair. A demanda de morte exige ser formulada no lugar do Outro, no discurso do Outro o que quer dizer que a razão dela não deve ser buscada numa história qualquer, que implique a mãe, por exemplo, que teria sido objeto desse desejo de morte a propósito de alguma frustração. É de maneira interna que a demanda de morte concerne ao Outro. O fato desse Outro ser o lugar da demanda, implica a morte da demanda. 7[7] p.507 e segs. A demanda de morte não pode sustentar-se no obsessivo sem acarretar, por si só, o tipo de destruição que Lacan está chamando de morte da demanda. p.512 p.520. Ama o próximo como tu mesmo. Não sendo um mandamento moral porque se baseia na identificação, não deixa de ser um mandamento misterioso. É certo que amamos nós mesmos? A experiência prova que temos em relação a nós mesmos os sentimentos mais singulares e mais contraditórios. Também, de uma certa perspectiva esse tu mesmo pode dar a impressão de colocar o egoísmo no cerne do amor. Então é surpreendente fazer dele o modelo do amor. Ninguém jamais supôs que um Amo meu próximo como a mim mesmo pudesse corresponder à formulação do mandamento porque a fraqueza de um tal mandamento se revelaria aos olhos de todos. Essa formulação merece atenção porque ela ilustra o ‘horizonte da fala do mando’ Se a articularmos dali de onde deve partir, isto é, do lugar do Outro, veremos que ela se revela uma coisa totalmente diferente , ou seja, um círculo simétrico e paralelo ao que está subjacente à tomada de posição do Outro no nível da primeira demanda e que se enuncia como “Tu és aquele que me mata” 8[8] (Tu es celui qui me tues) . O tu levanos a reconhecer nesse tu mesmo, nada além do Tu. O mandamento cristão revela então seu valor ao ser prolongado: ...como tu mesmo tu és (tu és) no nível da fala, aquele a quem odeias (tu hais) na demanda de morte, porque a desconheces. p.521 7[7] Entendi aqui uma formulação assim: Ele quer a morte do meu desejo, então eu mato a minha demanda. 8[8] Lembro a frase do encontro de 13-06-56: Eu sou não é somente seguir, é também eu sou, e você, tu és, e também você, aquele que, no ponto de encontro, me matará. p.509.A demanda de morte exige ser formulada no lugar do Outro, no discurso do Outro. O fato desse Outro ser o lugar da demanda, implica a morte da demanda. A demanda de morte implica a destruição – a morte da demanda. Apenas esboçada, aí mesmo ela se extingue. O desejo é anulado mas seu lugar é mantido e o escutamos através de uma denegação, agressivo, desaprovador, depreciativo a nosso respeito. No horizonte de qualquer demanda, estarão lá o amor, o ódio a ignorância como relações intrínsecas. É preciso entender que demanda de morte não é tendência mortífera, É uma demanda articulada e por essa razão ela não se produz no nível da relação imaginária com o outro, não é uma relação dual, mas visa, além do outro imaginário, seu ser simbolizado, e é também por isso que ela é pressentida e vivida pelo sujeito em seu retorno. É que o sujeito, por ser falante e somente por isso, não pode atingir o Outro sem atingir a si mesmo, de modo que a demanda de morte é a morte da demanda. O DESEJO E SUAS INTERPRETAÇÕES 1958/59 22 de abril de 1959. Quando, acertando as bases para o duelo com Laerte, Hamlet exalta as qualidades do outro/si mesmo, ele vai ao paroxismo da absorção imaginária. É aqui que está manifestamente situado na peça o ponto de agressividade. Aquele que mais admiramos é aquele que combatemos. Aquele que é o ideal do eu é também, segundo a fórmula hegeliana da impossibilidade de coexistência, aquele que devemos matar. Eis a fala impressionante: “Considero que sua alma seja uma alma de muito alto valor, e que nele está infundida uma tal raridade e um tal valor que, para dele fazer uma verdadeira descrição , seu semelhante só pode ser seu espelho, e qualquer outro que quisesse seguir seu retrato só poderia fazê-lo como sua própria sombra e nada mais.” A imagem do outro é apresentada aqui como absorvendo completamente aquele que a contempla. Nesse duelo Hamlet encontra um rival à sua altura. A presença desse semelhante vai permitir-lhe, ao menos por um instante, sustentar o desafio humano de ser ele também um homem. É claro que isso sempre tem conseqüências. Aparecendo o falo, ele, sujeito desaparece. Tudo o que se apresentou a Hamlet na relação agressiva foi apenas miragem, quer dizer, ele entrou no jogo com seu falo. É somente na sua ilusão, que os floretes estão com proteção de couro, mas na verdade há um que não está e na luta a arma envenenada passa das mãos de um adversário para a mão do outro, depois que Laerte deu a estocada pela qual Hamlet vai morrer, a ponta muda de mão e aquele que matou vai também morrer. Isso mostra que o instrumento da morte Hamlet apenas pode recebê-lo de outro. É para além da rivalidade com o semelhante, com o eu-mesmo que ele possa amar, que se desenrola o drama da realização do desejo de Hamlet. A ÉTICA DA PSICANÁLISE 1959/60 23 de março de 1960 Aqueles que preferem os contos de fada fazem ouvidos moucos quando se fala da tendência nativa do homem à agressão, à destruição, e, portanto, também à crueldade. O homem, com efeito, é tentado a satifazer no próximo sua agressividade, a explorar seu trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturálo e matá-lo. Se não soubéssemos que foi Freud que assim escreveu, isso bem poderia passar como um texto de Sade.9[9] Cada vez que Freud se detém, como que horrorizado, diante da conseqüência do mandamento do amor ao próximo, o que surge é a presença dessa maldade profunda que habita o próximo. Mas, daí, ela habita também em mim. p.226 e seg. 30 de março de 1960 A resistência (do homem) ao mandamento Amarás o próximo como a ti mesmo e a resistência que se exerce para entravar seu acesso ao gozo, são uma única e mesma coisa. Pode parecer um paradoxo mas nós, analistas reconhecemos isso cada vez que vemos o sujeito recuar diante de seu gozo. Estamos falando da agressividade que ele contém, o núcleo temível desse destrudo que, quaisquer que sejam as pequenas afetações, os regateios analíticos de frescura, não deixa de ser com isso que nos encontramos constantemente confrontados em nossa experiência. É à medida que o sujeito faz com que a agressividade se volte contra si mesmo que provém a energia dita do supereu, Freud ensinou, e acrescentou que uma vez encetado o processo, não há mais limite – ele engendra uma agressão cada vez mais pesada do eu. Ele a engendra no limite, ou seja, à medida que a mediação que é a da Lei acaba por faltar. Recuo de amar meu próximo como a mim mesmo à medida que nesse horizonte há algo que participa de não sei que crueldade intolerável. Nessa direção, amar meu próximo pode ser a via mais cruel. p.236 e seg. 18 de maio de 1960 Parece que é da natureza do belo ser insensível ao ultraje. Na experiência analítica isso é discernível nas referências ao registro estético que o sujeito dá ao analista em suas associações, em seu monólogo desatado, entrecortado, seja sob a forma de citações, seja de recordações escolares. Essas referências, à medida que aparecem mais singularmente esporádicas, decisivas com respeito ao texto do discurso, são 9[9]Para ilustrar, escolhi algumas palavras do papa Pio VI do texto de Sade mencionado por Lacan “Dissertação do papa sobre o crime seguida de orgia” que encontra-se entre outras, na publicação & etc produzida por Publicações Culturais Engrenagem, Ltda, Lisboa, sem data, texto extraído da “História de Juliette ou as prosperidades do vício” “(...) toda a modificação operada pelo homem na matéria organizada serve bem mais a natureza do que a contraria.(...) para servi-la seriam necessárias destruições destruições mais vastas...bem mais completas do que as que podemos operar; atrocidade e grandeza é o que ela quer nos crimes.-p.68 (...) o assassinato é uma paixão como o jogo, o vinho, os rapazes e as mulheres e, Jamais corrigida se a ela nos acostumarmos. Nenhuma outra ação excita tanto, prepara tanta volúpia; é impossível ficar saciado. (...) Quanta delícia existe nos deboches e como o crime os faz picantes e deliciosos! O seu império incide ao mesmo tempo no moral e no físico, inflama todos os sentidos, inebria-os, e, entontece-os. (...) Quanto mais uma criatura nos atrai, ou interessa, quanto mais diretamente nos toca e sagradas são suas ligações conosco, mais a sua imolação nos deleita. (...) Tudo o que inventamos está sempre abaixo do que desejamos.Já não é pela extensão ou infâmia do suplício que a alma desperta. Desejaríamos mesmo que a vida se fizesse vezes sem conta para termos o prazer de a tirar sempre. correlativas de alguma coisa que se presentifica nesse momento aí, e que é sempre do registro de uma pulsão destrutiva. É no momento em que vai aparecer manifestamente num sujeito, no relato de um sonho, por exemplo, um pensamento que se chama de agressivo com respeito a um dos termos fundamentais de sua constelação subjetiva, que ele tirará para o analista, segundo sua nacionalidade, tal citação da bíblia, tal referência a um autor, clássico ou não, tal evocação musical. p.290 A TRANSFERÊNCIA 1960/61 19 de abril de 1961 Aquilo que na obsessão chamamos de agressividade, se apresenta sempre como agressão contra essa forma de aparição do Outro que em tempos passados Lacan chamou de falofania, o Outro enquanto pode se apresentar como falo. Golpear o falo no Outro para curar a castração simbólica, golpeá-lo no plano imaginário, é a via escolhida pelo obsessivo para tentar abolir a dificuldade que Lacan designa como parasitismo do significante no sujeito, e restituir ao desejo sua primazia, ao preço de uma degradação do Outro, que o faz essencialmente função de elisão imaginária do falo. Nesse ponto preciso do Outro onde ele está em estado de dúvida, de suspensão, de perda, de ambivalência, de ambigüidade fundamental, a relação do obsessivo com o objeto - um objeto sempre metonímico, pois para ele o Outro é essencialmente intercambiável –é essencialmente governada por alguma coisa que tem relação com a castração, a qual assume aqui forma diretamente agressiva -ausência, depreciação, rejeição, recusa do signo do desejo do Outro. Não abolição, nem destruição do desejo do Outro, mas rejeição dos seus signos. Eis o que determina esta impossibilidade tão particular que marca, no obsessivo, a manifestação de seu próprio desejo. P.244-245 7 de junho de 1961 A temática do Estádio do Espelho é uma referência exemplar que permite presentificar os pontos de entroncamento e conceber a renovação dessa possibilidade sempre aberta ao sujeito de um auto-dilaceramento diante daquilo que é ao mesmo tempo ele e um outro. Existe uma certa dimensão de conflito, que não tem outra solução além de um ou......ou.....é necessário tolerar o outro como uma imagem insuportável, que o arrebata de si mesmo, ou quebrá-lo imediatamente, inverter, anular a posição à frente, a fim de conservar aquilo que é, naquele momento, centro e pulsão de seu ser, evocado pela imagem do outro, seja esta especular ou encarnada. O laço entre a imagem e a agressividade é, aqui, inteiramente articulável. Mesmo que a mão que se estende em direção à figura de seu semelhante esteja armada com uma pedra – a criança não precisa ter muita idade para ter, senão a vocação, pelo menos o gesto de Caim – e se esta mão for detida por uma outra mão, a daquele que foi ameaçado, e se esta pedra, eles a pousarem juntos e ela constituir um objeto, talvez de acordo, ou de disputa, esta será a primeira pedra de um mundo objetal, mas isso não irá além, nada se construirá sobre ela. O que evoca um eco, numa harmônica, é o apólogo daquele que deve atirar a primeira pedra. E é necessário que, em primeiro lugar, essa pedra não tenha sido atirada. E uma vez que não se a tenha atirado, não se irá atirá-la contra nada mais. Mas para que se funde alguma coisa que se abra a uma dialética, é preciso, mais além, que intervenha o registro do grande Outro. É na medida que o terceiro, o grande Outro intervém na relação do eu com o pequeno outro, que algo pode funcionar, algo que acarreta a fecundidade da própria relação narcísica. p.242-243 14 de junho de 1961 O sinal de angústia se produz em algum lugar que pode ser ocupado por i(a), o eu enquanto imagem do outro, o eu na medida que é, basicamente função de desconhecimento. Ele ocupa esse lugar, não na medida que essa imagem o ocupa, mas sim enquanto lugar, isto é, na medida que ocasionalmente essa imagem pode ali ser dissolvida. p.350 O estádio do espelho não deixa de ter relação com a angústia, mas não é a falta de imagem que faz surgir a angústia. A relação especular, originária entre o sujeito e a imagem especular se instala na reação da agressividade. O caminho para compreender como se corta transversalmente a agressividade é orientar-se no sentido da relação temporal. Com efeito, não existem apenas relações espaciais que se referenciam à imagem especular quando esta começa a animar-se e torna-se o outro encarnado; há também uma relação temporal – apresso-me em me ver semelhante a ele, senão, onde irei estar? A função da pressa, essa maneira por que o homem se precipita em sua semelhança ao homem, não é angústia. Para que a angústia se constitua é preciso que haja relação com o nível do desejo. p.351 L’ANGOISSE 1962/63 5 de dezembro de 1962 É na medida que se deixa sem resposta a demanda, que a agressão vem se articular aí. Por outro lado, a dimensão de agressividade entra em jogo para recolocar em questão aquilo que ela visa por sua natureza, a saber, a relação à imagem especular. LOGIQUE DU FANTASME 1966/67 10 de maio de 1967 A propósito de uma publicação de M. Bergler, no ponto em que este aborda o tema da regressão oral, atribuindo às noções de agressão e agressividade um estatuto inteiramente equivocado, Lacan coloca essas noções na perspectiva da experiência analítica, dizendo que o que ela nos traz sobre o estádio dito oral, faz intervir aí essa dimensão corporal da agressividade oral, da necessidade de morder e do medo de ser devorado. Rio, 7 de novembro de 2008