UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS
UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE CIÊNCIAS SÓCIO-ECONÔMICAS E HUMANAS
CURSO DE LETRAS
A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE
AUGUSTO DOS ANJOS E ALEXEI BUENO
WALESKA CRISTINA MOREIRA MORAIS
ANÁPOLIS
2009
WALESKA CRISTINA MOREIRA MORAIS
A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE
AUGUSTO DOS ANJOS E ALEXEI BUENO
Artigo apresentado à Coordenação do Curso de Letras para fins de
obtenção do grau de licenciado em Letras com Habilitação em
Línguas Portuguesa e Inglesa e Literaturas pela Universidade
Estadual de Goiás.
Orientadora: Débora Cristina Santos e Silva.
ANÁPOLIS
2009
FOLHA DE APROVAÇÃO
Autora: WALESKA CRISTINA MOREIRA MORAIS
Título: A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS E
ALEXEI BUENO
Data de Defesa: 05 de outubro de 2009.
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________________
Prof°. Dra. Débora Cristina Santos e Silva
Orientadora
_________________________________________________
Profª. Ms. Euda Fátima de Castro
CONCEITO
___________
___________
A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS E
ALEXEI BUENO
Waleska Cristina Moreira Morais
RESUMO
O presente artigo propõe um estudo comparativo entre a Poética de Augusto dos Anjos, poeta moderno brasileiro, e a
de Alexei Bueno, poeta brasileiro contemporâneo. Tal estudo terá enfoque estético-filosófico, pois recorre à filosofia
existencialista sartreana para estabelecer a intertextualidade entre poemas selecionados dos poetas supracitados.
Através dessa filosofia, também se pretende buscar subsídios teóricos que auxiliem a compreensão das líricas
moderna e contemporânea, demonstrando as rupturas formais que ocorrem nesses textos.
PALAVRAS-CHAVE: Poética. Existencialismo. Modernidade. Contemporaneidade. Literatura
Comparada.
ABSTRACT
This article proposes a comparative study between the Poetics of Augusto dos Anjos, a modern Brazilian poet, and
Alexei Bueno, a contemporary Brazilian poet. This study will focus on a esthetic philosophical view, because it
uses the Sartre's existentialist philosophy to establish the intertextuality between the selected poems of the poets
mentioned above. Through this philosophy, it's intended to seek theoretical sources in order to understand the
modern and contemporary lyrics, showing the formal and thematic ruptures that occur in these texts.
KEYWORDS: Poetry. Existentialism. Modernity. Contemporaneity. Comparative Literature.
O homem nada mais é do que seu projeto; só existe na medida em que se
realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua
vida (SARTRE, 1970, p.13).
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO............................................................................................................07
REVISÃO DE LITERATURA.....................................................................................08
1. O gênero lírico: a lírica, sujeito lírico e o tempo......................................................08
2. O existencialismo: uma visão de mundo..................................................................11
DISCUSSÃO................................................................................................................14
1. Intertextualidade na poética dos autores...................................................................14
2. Análise comparativa de poemas...............................................................................16
2.1. Reflexão acerca da existência................................................................................16
2.2. Dualidade na construção do ser.............................................................................20
CONCLUSÃO..............................................................................................................23
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................24
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INTRODUÇÃO
Segundo Aristóteles (1997), a Poética é a arte presente em todos os gêneros literários, que
utilizam em seu engenho a mimesis, imitação que desencadeia a representação do ser e das
situações cotidianas vivenciadas por ele. Para diferenciar um gênero do outro e permitir sua
classificação basta analisar a maneira como a mimesis é modelada, visto que, para Aristóteles, a
epopeia, a comédia e o ditirambo se diferenciam por imitarem por meios diferentes, ou objetos
diferentes, ou de maneira diferente (p.19).
O gênero lírico originou-se na Antiguidade Clássica. Nesse período, as expressões
pessoais do eu poético eram cantadas ao ritmo da lira. Por esta razão, deu-se a denominação do
gênero que após ser concebido, acompanhou a evolução do homem e, por isso, em cada época, o
sujeito lírico contempla um ser social diferente.
O método utilizado nesta pesquisa foi o comparativo. Segundo Brunel, Pichois e
Rousseau (1995), este método permite estabelecer relações entre sistemas análogos, evidenciando
o que há em comum entre eles. Na literatura, a variante deste método é denominada por Kristeva,
em 1969, como intertextualidade , processo de produtividade em que um texto literário se
constitui de fragmentos ou citações de outros textos (KRISTEVA, 1974).
A intertextualidade entre os poemas de Augusto dos Anjos e Alexei Bueno analisados
nesta pesquisa foi estabelecida por um enfoque estético-filosófico, priorizando-se a filosofia
existencialista sartreana. Tal filosofia possui perspectiva não-cristã, pois nega a existência de
Deus e, como princípio fundamental, considera o homem como o único ser cuja existência
precede a essência. Esta concepção filosófica une as líricas analisadas pela temática, estrutura e
pelo posicionamento do eu lírico em relação ao ser, ao mundo e ao tempo.
Ao buscar um enfoque baseado na filosofia existencialista, apresenta-se uma nova visão
dos poemas, vistos, em outras análises, como pessimistas e radicais, evidencia-se que a angústia,
nessas líricas, é originada pela responsabilidade que o ser assume diante dos fatos e da sociedade.
Desse modo, o sujeito lírico não pode ser rotulado como pessimista nem como otimista, visto que
ele não espera nada, a fim de evitar frustrações.
Este trabalho foi dividido em dois tópicos de revisão da literatura. No primeiro discorre-se
acerca das características da lírica, desde sua origem até o contexto literário vivenciado por
Augusto dos Anjos e Alexei Bueno; no segundo, expõe-se sobre a filosofia existencialista
sartreana. Para a discussão do estudo, com as análises dos poemas, também foi destinado dois
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tópicos, no primeiro tópico, deste item, expõe-se a trajetória artística dos dois poetas, mostrando
as semelhanças de ideais artísticos em ambos. Finalmente, no segundo tópico estabelece-se a
intertextualidade entre os poemas selecionados para este trabalho, fazendo a análise das temáticas
e das estruturas presentes nestes textos com base nas teorias discutidas nos tópicos anteriores.
Por último, apresenta-se a conclusão deste trabalho ao comprovar os elementos de
intertextualidade entre os poemas estudados de Augusto dos Anjos e Alexei Bueno e a relevância
de uma leitura sustentada por princípios filosóficos, a fim de compreender o enunciado poético.
Acredita-se que esta pesquisa, ao apoiar-se na filosofia existencialista, auxiliará no
conhecimento da visão de mundo inerente à lírica moderna e contemporânea de Augusto dos
Anjos e Alexei Bueno, respectivamente. Esta também pretende ser útil aos profissionais de Letras
que optam pela dedicação aos estudos literários e, especialmente, aos estudos da lírica brasileira.
REVISÃO DE LITERATURA
1 O GÊNERO LÍRICO: A LÍRICA, SUJEITO LÍRICO E O TEMPO
O gênero lírico perpassa por vários séculos e a cada passagem se inova, transforma-se e
acompanha a evolução social. O que demonstra essa metamorfose do gênero em questão é sua
própria trajetória, que será remontada nas linhas subsequentes.
Na Antiguidade Clássica, Aristóteles (1997), em sua Arte Poética, menciona os
ditirambos, cantos festivos que expressavam alegria e tristeza unindo ritmo, métrica e música
pela voz do próprio autor. Segundo Cara (1998), estes são os primeiros indícios do gênero lírico,
que surge como uma composição para ser cantada ou acompanhada por música.
No século XV, no Renascimento, a lírica já se torna independente da música. Inicia-se a
busca pela diferenciação entre ambas, e os poemas passam a ser escritos e lidos, além de se
enfatizar esquemas classificatórios que reforçam uma visão teórica mais prescritiva. Porém, a
teoria normativa não era suficiente para dar conta da qualidade poética dos melhores poetas
líricos renascentistas (CARA, 1998, p.6), porquanto, o sujeito lírico ainda é o que expressa as
impressões da relação eu - alma.
Após a Revolução Francesa, com a formação da sociedade burguesa e o avanço da
indústria, tecnologia e ciência, o conceito de poesia lírica se inova e ela conquista um lugar cativo
na sociedade. Porém, um paradoxo se instala nesse momento, pois apesar do poeta ser
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reconhecido como artista profissional, ele se sente inútil pela idéia de utilitarismo decorrente da
revolução da sociedade. Por essa razão, os poetas românticos optam por um agudo subjetivismo
emocional e pela exaltação do eu poético (CARA, 1998), pois esses artifícios, além de o
ajudarem a assegurar seu lugar na sociedade, servem-lhe como autodefesa.
Alguns poetas românticos, como Poe, conseguiram multiplicar a linguagem lírica através
da reflexão sobre a criação poética com vistas em um mundo moderno, ao contrário de outros
românticos que se expressavam apenas pela emotividade. Ao explorar as possibilidades da
linguagem na lírica, a figura do poeta se transforma em um organismo vivo . A sociedade já
reconhece no século XVIII as exigências da época, como a valorização da individualidade, de
épocas históricas diferentes e a necessidade de mudar o foco da poesia lírica de mimesis para a
expressão inspirada de uma alma , o que acarreta na valorização da lírica, tanto na produção
como nas reflexões estéticas (CARA, 1998, p.31).
A visão crítica da poesia lírica e do poeta se manifesta enfaticamente na modernidade. O
poeta moderno desconstrói alguns mitos, explora possibilidades da relação poeta - realidade e,
com isso, prestigia a linguagem lírica. Como foi evidenciado acima, Poe ofereceu aos leitores
imagens modernas em seus poemas, mas seu sucessor, o poeta francês Baudelaire, também
merece destaque por sua contribuição na evolução do gênero lírico. Ele é considerado, pelos
escritores literários, o rei dos poetas modernos devido a alguns feitos como: associar a poesia
lírica à inteligência crítica, referir-se à multidão em plena transição e velocidade, unir ao poema o
som, o ritmo e a imagem, dar vida, através do seu texto, a tudo que era artificial e, ainda, por
abordar o grotesco.
O poeta moderno acredita que a linguagem expressiva conduz à relação poeta - realidade,
mesmo que a sociedade esteja mecanizada e o poeta se sinta excluído, já que, ao demonstrar a
inexistência de verdades absolutas nos poemas, a expressão e a comunicação não se abrandam,
pois para os poetas modernos, a poesia não é apenas a manifestação do pensamento lógico
(CARA, 1998).
Longe da intenção de aprisionar poetas em escolas literárias, neste estudo objetiva-se
avaliar a contribuição dos escritores da poesia lírica em relação à evolução deste gênero. Augusto
dos Anjos, no Brasil, apesar de ter sua produção situada na época simbolista é aclamado como
um poeta moderno que, a exemplo de Baudelaire, rompe com o falar lírico tradicional através de
recortes da realidade acerca do homem moderno, demonstrando-o como solitário e dotado de
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pessimismo. O pessimismo, orientando-se pela filosofia existencialista, é um realismo duro
(SARTRE, 1970), que não permite esperar pelo que não foi executado.
Os poemas de Augusto dos Anjos podem remeter a sua biografia, porém, o sujeito lírico
de sua obra não se refere a uma pessoa em particular, porquanto retrata angústias, sensações e
imagens universais da condição humana, não se referindo mais ao eu - autor . O texto em si, os
poemas de Augusto dos Anjos, apresentam o sujeito lírico como um ser original, preocupado com
o coletivo e possuidor de uma linguagem multifacetada, que consegue ocultar o poeta e o leitor.
(CARA, 1998).
A lírica moderna destaca-se pela audácia na linguagem e na produção de imagens, além
da transgressão lógica: de sujeito lírico
eu - alma
exaltado até então, para um
eu
comprometido com o universal, que reflete acerca do mundo, da condição humana e dos desejos
humanos na modernidade.
A poesia lírica brasileira contemporânea apresenta uma relação de continuidade com a
lírica modernista. Por isso, salientam-se algumas características já evidenciadas em estudos
recentes: o eu - lírico contemporâneo, ao seguir os passos do eu poético moderno, desconstrói
algumas características do tradicional para criar o novo. Com isso, apresenta uma temática
diversificada a respeito do homem e seus conflitos cotidianos. Essa lírica também não se curva ao
escapismo, a arte é vista como universal, a-histórica e, ainda, como fonte de inovação da
linguagem lírica.
A era da globalização e dos discursos midiáticos exige que o ser humano se adapte a esses
processos, e na arte não é diferente. O escritor contemporâneo, como Alexei Bueno, está ciente
da sua posição neste contexto e, através de seus poemas, apresenta um sujeito lírico capaz de
ressignificar a imaginação.
Os poemas da lírica moderna e contemporânea brasileira, mencionados como corpus desta
pesquisa, serão relacionados a partir da intertextualidade entre eles por meio do enfoque estéticofilosófico. A filosofia existencialista permitirá mapear as características temáticas e formais dos
textos relacionados. Para isso, abaixo se explana sobre a base filosófica que orienta este trabalho:
o existencialismo sartreano.
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2 O EXISTENCIALISMO: UMA VISÃO DE MUNDO
O homem está condenado a ser livre (Sartre, 1970, p.9).
O movimento filosófico existencialista foi inspirado nas idéias dos filósofos alemães
Friedrich Nietzsche, Edmund Husserl e Martin Heidegger, e popularizou-se no século XX através
do trabalho de Jean Paul Sartre, filósofo francês. A popularização do existencialismo aconteceu
após o término da Segunda Guerra Mundial, período em que a sociedade européia sofria com os
resquícios da guerra e, por essa razão, se encontrava em um clima de desânimo e desespero. Este
clima, segundo Penha (1982, p.7) fez com que o movimento existencialista se propagasse além
do ambiente acadêmico e das publicações especializadas, sendo considerado também um estilo de
vida, uma forma de comportamento excêntrica que era divulgada pelos meios de comunicação e
caricaturada pela compreensão popular.
A filosofia existencialista recebe esta denominação por ter como princípio fundamental a
concepção de que a existência precede a essência , definição de Sartre (1970) que, para o
filósofo francês, é a única comunhão entre o existencialismo ateu, defendido por ele, e o
existencialismo cristão, que acredita na limitação da existência pelo criador: o Cristo. A crença na
existência de Deus é uma característica paradoxal do existencialismo cristão, devido não explicar
de forma coerente a precedência da existência em relação à essência. Esta vertente do
existencialismo que se fundamenta no catolicismo é desenvolvida, principalmente, por Jaspers e
Gabriel Marcel.
Sartre (1970, p.5) acredita que o existencialismo ateu é mais coerente ao afirmar que
Deus não existe , pois, sendo assim, há apenas um ser em que a existência precede a essência ,
o homem. E o que significa esta célebre frase de Sartre acerca da anterioridade da existência em
relação à essência, com a qual busca justificar o existencialismo? Consiste em inferir, nas
próprias palavras do filósofo, que o homem existe, encontra-se em si mesmo, surge no mundo e
só posteriormente se define .
De início, o homem, pela visão existencialista, não é definido, não é nada, só
posteriormente a existência será, e será aquilo que o indivíduo faz de si mesmo. Este é um dos
princípios do existencialismo: o homem é plenamente responsável pelo que é (SARTRE, 1970,
p. 6).
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A consciência da responsabilidade do indivíduo em relação a sua existência é o primeiro
passo para que este reflita sobre suas escolhas e não-escolhas, e como elas influenciam o outro,
pois, nesta corrente filosófica existencialista, o homem não é responsável apenas por si, mas
também por todos os homens. Esta responsabilidade do homem é aclarada por Sartre como
subjetividade, termo que sofre críticas dos contrários a filosofia satreana e significa:
por um lado, escolha do sujeito individual por si próprio e, por outro
lado, impossibilidade em que o homem se encontra de transpor os limites da
subjetividade humana. É esse segundo significado que constitui o sentido profundo do
existencialismo. Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer
que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se ele
escolhe todos os homens. (SARTRE, 1970, p.6).
O ato de escolher, além de suscitar a responsabilidade exposta acima, desencadeia a
angústia, já que o homem, além de escolher ser, também é legislador, posto que
concomitantemente escolhe a si mesmo e a toda humanidade. Com isso, não consegue se livrar
dessa profunda responsabilidade questionadora: sou eu, realmente aquele que tem o direito de
agir de tal forma que meus atos sirvam de norma para toda humanidade? (SARTRE, 1970, p.8).
Quem não se indaga, para Sartre, mascara a sua angústia.
Tratando ainda da angústia, o filósofo francês salienta que esse estado não remete ao
quietismo e a inação, pelo contrário, a angústia é um processo da escolha que culmina na ação,
além de ser uma sensação comum aos que tiveram ou têm responsabilidade em situações
cotidianas. Moutinho (1995), em seu estudo sobre a vida e a obra de Sartre, argumenta que a
angústia é uma experiência que se vive ao descobrir a liberdade do homem; os que não escolhem
ser livres vivem rodeados de desculpas, a má fé.
A liberdade do homem, para Sartre, está relacionada à inexistência de Deus, não a
inexistência divina veiculada por certas morais laicas que a fim de eliminarem Deus sem
provocar conflitos se sustentam da propagação de valores que devem ser respeitados e
considerados primitivos. Sartre define essas morais laicas como radicais, pois estas não
modificam em nada a relação entre a determinação dos valores sociais e o não existir de Deus.
Para o filósofo francês, só a partir da crença na inexistência de um ser divino superior e
concomitantemente com a desconsideração de valores sociais e do determinismo é que o homem
está livre .
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Ao tratar da liberdade do homem, Sartre o considera como um condenado a ser livre ,
por não ser determinado pela paixão e sim ser condutor dessa situação. Também, por não existir
nenhum sinal no mundo que oriente o sujeito, cabe a ele inventar o homem a cada instante
(SARTRE, 1970, p.9). Na constante invenção em que o homem se encontra, o sujeito se sente
desamparado, fato que comprova ser ele o responsável por suas escolhas. Ao mesmo tempo,
sente-se desesperado, sentimento que para Sartre significa agir sem esperança , considerando
apenas o que depende da vontade do indivíduo ou das probabilidades que sejam sustentáveis para
efetuar-se a ação, pois a realidade só existe na ação (SARTRE, 1970, p.13).
Dentre as críticas feitas ao existencialismo, a mais comum é acerca do pessimismo dessa
corrente filosófica refere-se ao fato de apresentar, nas obras de ficção literária, personagens
fracos, covardes e descrentes. Entretanto, Sartre defende esta representação dos personagens,
justificando ser ela exemplo da dureza do otimismo (SARTRE, 1970, p.14), pois o ser
representado tem a possibilidade de reverter sua representação, ao passo que o destino do homem
é construído apenas por sua única esperança, suas ações. O existencialista introduz um
personagem que se faz ser descrente ou covarde, ao contrário do naturalismo-realismo como o
que Zola engendrava em suas obras, em que os defeitos e qualidades do ser eram advindos de
características hereditárias ou de projeções da sociedade e do meio.
Acerca da existência do outro, Sartre afirma:
o outro é indispensável em minha
existência (SARTRE, 1970, p.16), por ser através da relação eu - outro que o homem/ indivíduo
é capaz se autoconhecer e decidir quem é, e quem os demais são. O isolacionismo criticado por
contrários às idéias sartreanas também obtém a reposta do filósofo francês. Sartre considera uma
universalidade humana de condição , ou seja, cada homem possui uma essência universal
resultante da natureza humana, um conjunto de limites primitivos, do qual cada homem pode, em
seu projeto individual, se libertar, negar, adaptar ou afastar-se dessas restrições, construindo
assim o universal ao escolher-se.
Com base nesta fundamentação teórica nortear-se-á as análises do corpus desta pesquisa,
a fim de discutir os aspectos explicitados na introdução deste estudo.
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DISCUSSÃO
1 INTERTEXTUALIDADE NA POÉTICA DOS AUTORES
Sabe-se que a obra de um autor fala por si, mas é relevante conhecer o criador de
determinada arte. Neste trabalho, Augusto dos Anjos e Alexei Bueno são os artesãos dos poemas
a serem estudados. É notório que estes não precisam de apresentação no âmbito acadêmico,
todavia, em se tratando de escritores intitulados como polêmicos, abre-se um espaço para a
apresentação destes poetas na óptica desta pesquisa.
Augusto dos Anjos é considerado um poeta polêmico, primeiramente, pelo fato de
apresentar à sociedade, poemas que fugiam dos estilos em ênfase na época, como o culto à forma
praticada pelos parnasianos. Além desse fator, a realidade urbana do autor, que conheceu a
Paraíba, o Recife e o Rio de Janeiro, quando ainda era Capital Federal, era representada através
das imagens dos grupos marginalizados da época: mendigos, prostitutas e negros, por exemplo.
Estes eram introduzidos em tempo noturno e em espaços considerados degradados, como:
cemitérios, prostíbulos e estações. Segundo Reis (1982), no poema Os doentes , Augusto dos
Anjos cria imagens completas de grupos excluídos da sociedade de seu tempo, os moradores da
cidade de lázaro , como o escritor descreve no poema.
Há outras divergências acerca deste poeta paraibano. Estudiosos da literatura se
dividem ao classificá-lo como autor de uma determinada escola literária. A discrepância está no
repetido questionamento: Augusto dos Anjos é um poeta simbolista ou preconizador no
modernismo?
Na introdução de Eu e outras poesias , livro editado por Soares e no qual constam os
poemas analisados neste trabalho, o editor e amigo de Augusto dos Anjos argumenta que o poeta
não se filiou a nenhuma escola por ser original, função do ser poeta, que deve ser reconhecido por
seu sentir que é individual.
A lírica de Augusto dos Anjos não pode ser enclausurada em um estilo de época. Este
trabalho denota-o como moderno, não a fim de restringi-lo, mas para, mostrá-lo como um escritor
que preconiza os anseios do homem moderno através de suas reflexões acerca de temas
universais: miséria, sofrimento, existência e angústia.
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Assevera-se que o poeta paraibano é moderno por encontrar em sua lírica a reunião de
múltiplos estilos que são manifestados por suas intensas leituras acerca da poesia da época (a
simbolista) e dos acontecimentos mundiais vivenciados neste período.
O uso de termos
científicos também é reflexo de suas leituras, visto que, neste momento o cientificismo estava em
auge . (REIS, 1982, p.101).
O poeta contemporâneo, Alexei Bueno, assim como Augusto dos Anjos, é reconhecido
pela polêmica em seu discurso. O escritor, editor e tradutor, em sua obra e em entrevistas faz
notar sua criticidade e originalidade acerca da arte literária.
Desde 1984, ano em que ele publicou As escadas da torre, seu primeiro livro, os
apreciadores da literatura se deleitam com a obra de Alexei Bueno. Posteriormente, mais dez
títulos foram lançados até 1997. No livro Poesia Reunida (2003) encontram-se os poemas que
servem com corpus deste trabalho. Este livro comemora os quarenta anos do escritor e reúne toda
sua produção poética ao longo de seus vinte e um anos de exercício poético.
Em entrevista a Rodrigo de Souza Leão, Alexei Bueno declara que não vive da literatura,
visto que, infelizmente, no Brasil, os escritores que gozam deste feito são aqueles que publicam
para o mercado. E atender as exigências de um mercado, muitas vezes alienador e fútil, é uma
condição que não condiz com a postura discursiva do autor. Seus poemas não acompanham uma
tradição formal, eles se impõem. Alexei Bueno afirma nesta entrevista que: cada vez mais só
escrevo quando o poema se impõe. Então ele vem quase pronto, no geral mexo nele muito pouco
posteriormente, só para ajustar certas inadequações . Em relação ao formato do poema, o escritor
acredita que cada poema exige uma forma , para ser o que realmente propõe-se a ser.
Na obra de Alexei Bueno não há gratuidade, todos os aspectos invocados estão a serviço
de um dizer poético, e é justamente por ter algo a dizer que o escritor é reconhecido como
poeta do pensamento , explora a reflexão sobre as ações humanas, e, além disso, tem opinião
criteriosa e sagaz sobre a poesia e literatura atual.
Também como Augusto dos Anjos, Alexei Bueno não se adapta a uma escola literária,
pois seu discurso e recursos poéticos são, às vezes, intimistas outras, múltiplos e universais,
características que impedem a rotulação do poeta.
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2 ANÁLISE COMPARATIVA DE POEMAS
Neste artigo utilizam-se dois poemas de Augusto dos Anjos Aberração e Vítima do
dualismo, e dois de Alexei Bueno No Cárcere e Quando Desceres como corpus deste estudo.
2.1 Reflexão acerca da existência
Os poemas Aberração e No Cárcere, respectivamente de Augusto dos Anjos e
Alexei Bueno dialogam, primeiramente, acerca da temática. Em ambos, o eu lírico reflete
sobre sua existência É este o reino esperado? (BUENO, 2003, p.133). Em que Deixo
inscrita a memória do meu gérmen! (ANJOS, 2005, p.148).
O eu lírico, em ambos os poemas, se vê diante de uma sociedade preestabelecida, em que
suas ações são tidas como aberrações ou os leva para o cárcere , como sugerem os títulos dos
poemas.
Aberração
Na velhice automática e na infância,
(Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era)
Minha hibridez é a súmula sincera
Das defectividades da Substância:
Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia,
Como Belerofonte com a Quimera
Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera
E acho odor de cadáver na fragância!
Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto
De anomalias lúgubres. Existo
Como a cancro, a exigir que os sãos enfermem...
Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o lodo
E nas mudanças do Universo todo
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Deixo inscrita a memória do meu gérmen! (ANJOS, 2005, p.148)
X
No Cárcere
O para ver tão visto
O por saber sabido
O fim sempre princípio
Cumprido está tudo isto.
Demais, demais, cumprido.
Terrível particípio.
O onde chegar chegado.
A porta abrir com chave.
O por que? com porque.
É este o reino esperado?
De profundis clamavi
O Domine, ad te. (BUENO, 2003, p.133)
No poema Aberração, o ser irregular que surgiu do nada é origem da universalidade
humana de condição, discutida por Sartre, em que a ação de um homem influencia a coletividade.
Se esse ser se sente incompleto, ele mesmo reconhece que isto advém da universalidade: Minha
hibridez é a súmula sincera / Das defectividades da Substância (ANJOS, 2005, p.148).
A universalidade humana de condição também se faz presente em No Cárcere . O eu
lírico está ciente de ter concluído suas ações, por isso utiliza verbos na forma nominal particípio
(visto, sabido, cumprido, chegado, esperado) indicando que as situações são concretas e auxiliam
o ser na construção de si e ao mesmo tempo da coletividade.
O existencialismo sartreano defende que o homem possui a liberdade, diferentemente dos
outros seres que têm predeterminada sua essência. Somente o homem se constrói através de suas
escolhas. Sendo assim, somente o homem é responsável por suas escolhas e ações.
As ações se concretizam no tempo presente, período de exercício da definição humana.
Tanto em Aberração (ANJOS, 2005, p.148), quanto em No Cárcere (BUENO, 2003, p.133), a
maioria dos verbos indica um fato ocorrido no momento da fala, no tempo presente do modo
indicativo (teço, deixo, engendro, é, está). O modo verbal revela a realidade, um acontecimento
certo. Ainda, sobre verbos, em Aberração o verbo no gerúndio Criando , no início da segunda
estrofe, sugere a construção, e em No Cárcere o último verso, também da segunda estrofe,
Terrível particípio sustenta a concepção de Sartre de que o ser é condenado a ser livre pela
responsabilidade em sua definição.
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Para Sartre, o homem surgiu do nada, porém, para onde irá no fim? O filósofo e escritor
francês é contundente: o homem surge do nada, se define através de suas ações e retorna ao
nada (SARTRE, 1970, p.6). Essa é uma das certezas expressa nesta corrente filosófica, que se
apresenta metaforicamente, nos poemas estudados, pelo emprego de antíteses, como
velhice/infância em Aberração e fim/princípio em No Cárcere. Observa-se que nos dois
textos a fase final antecede a inicial na ordem de colocação, sugerindo a relação destes contrários
como um ciclo contínuo.
Refletir sobre a existência nesses poemas não confere isoladamente as vozes dos sujeitos
líricos. Essa incidência é universal, pois são vozes sociais. Os substantivos sobressaem nos dois
poemas, como se o ato de nomear fosse missão do poeta, entretanto, o dar nome aos seres permite
inferir que a coletividade, sentimentos comuns a toda a humanidade, é expressada pelo uso de
substantivos abstratos (velhice, infâmia, ânsia, fim, odor, memória), que segundo Goldstein
(2005), representa a generalização.
Sartre concebe o homem como legislador por se definir e consequentemente definir o
outro, e toda ação realizada pelo homem é de sua inteira responsabilidade, como já foi citado
anteriormente. Com base nesta proposição, estes dois poemas se utilizam do recurso da inversão
sintática em versos que se referem à ação concluída, como em Cumprido está tudo isto - No
Cárcere (BUENO, 2003, p.133), que sem a inversão sintática seria: Tudo isto está cumprido; e
como em: E nas mudanças do Universo todo
Aberração (ANJOS, 2005, p.148), na ordem
direta: E nas mudanças de todo o Universo. As inversões demonstram que o poeta é livre para
reger seu texto, assim como o homem rege sua existência.
Ser uma aberração ou viver no cárcere não soa como natural aos ouvidos humanos, o eu
lírico ao se denotar como um ser perturbado demonstra toda sua inquietação em engajar-se para
posteriormente agir.
Através da símile, em Aberração, relaciona-se a ação/luta do homem livre à ação/luta do
herói grego Belefronte, que mata o monstro Quimera. Enquanto o herói grego luta contra
monstros, o homem luta contra as morais laicas sustentadas pelo: ideal, pelos sonhos e pela
esfera, que respectivamente, pode-se inferir que significam o padrão, a esperança e as
convenções sociais, que parecem agradáveis, a fragrância, mas são como o odor de cadáver por
serem sustentadas pela má fé, atitude de dissimulação da escolha: (...) Como Belefronte com a
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Quimera/ Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera/ E acho odor de cadáver na fragrância
(ANJOS, 2005, p.148).
Estar no cárcere é estar condenado, como afirmava Sartre (1970) ao argumentar sobre a
liberdade humana. O homem se sente condenado a lutar contra padrões O onde chegar
chegado e contra a redução do ser humano a objetos que são definidos pela sua essência, antes
mesmo de sua existência, como: A porta abrir
com chave / O por que?
com porque
(BUENO, 2003, p.133).
Se ao homem cabe lutar contra estereótipos ou padrões, para se confirmar como a própria
existência, construindo-se e renovando-se, ao poeta a missão endereçada é renovar a forma de
versar, e nesses dois poemas é notório o cumprimento de tal missão. Augusto dos Anjos em pleno
século XVIII utiliza-se de uma linguagem culta, de rimas ora ricas, ora pobres, de figuras de
linguagem, de um texto em forma fixa, o soneto; o qual renova por não usar métrica, por refletir
sobre a existência humana e por não falar exclusivamente do seu eu, mas do eu universal.
Alexei Bueno também não poupa o uso de figuras de linguagem, usa-se da linguagem
culta e não há métrica no texto composto por quatro estrofes com três versos poéticos cada. A
diferenciação se dá no uso das rimas em seu texto, visto que o poeta utiliza tercetos rimados no
esquema ABC nas duas primeiras estrofes e DEF nas duas últimas estrofes, como se fosse
fornecido duas formas de ler o poema, uma como está escrito e a outra fazendo os jogos da rima.
Para finalizar os poemas, em No Cárcere o eu - lírico clama ao soberano a piedade, em
latim. O substantivo anterior aos dois últimos versos em latim é reino , o que literalmente
remete ao reino dos céus, conduzido por um deus. No poema, a linguagem simbólica permite
inferir que o clamavi é direcionado ao homem, o único deus da sua própria existência, como
argumentava Sartre (1970) e a pergunta também É este o reino esperado? , visto que ele é
considerado o supremo diante do universo, o ser que se define, mostra sua essência e é
responsável por ela: Teço a infâmia, urdo o crime, engendro o lodo / (...) Deixo inscrita a
memória do meu gérmen! (ANJOS, 2005, p.148).
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2.2 A dualidade na construção do ser
O segundo par de poemas é formado por Vítima do dualismo de Augusto dos Anjos e
Quando Desceres de Alexei Bueno. A intertextualidade se apresenta na temática dos poemas que
revela a dualidade na construção do ser e, para discursar sobre este tema, os poetas utilizam
recursos semelhantes, como a figura de linguagem antítese.
Vítima do dualismo
Ser miserável dentre os miseráveis
- Carrego em minhas células sombrias
Antagonismos irreconciliáveis
E as mais opostas idiossincrasias!
Muito mais cedo do que o imagináveis
Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias
Cóleras dos dualismos implacáveis
E à gula negra das antinomias!
Psique biforme, O Céu e o Inferno absorvo...
Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,
Feita dos mais variáveis elementos,
Ceva-se em minha carne, como um corvo,
A simultaneidade ultramonstruosa
De todos os contrastes famulentos! (ANJOS, 2005, p.149)
X
Quando desceres
Quando desceres ao Inferno,
À solitária e ígnea dança,
Onde a lembrança é o asco eterno,
Ninguém guiará tua esperança.
Quando no Paraíso entrares,
Enorme, farto até dos céus,
Não acharás irmãos nem pares,
Só te guiarão os passos teus...
Vieste ilegível a este exílio,
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Coberto aos outros e a ti nu...
Tu és teu próprio Virgílio
Tua Beatriz também és tu. (BUENO, 2003, p.274)
O maniqueísmo esteve e ainda está presente em nossa literatura. Lima (2001) o define
como uma forma simplista de enxergar o mundo, dividindo-o entre o bem e o mal, e sobre a qual
as pessoas precisam se posicionar.
Os poemas a serem analisados contrapõem a visão maniqueísta com a antítese céu e
inferno , para demonstrar que o homem não se pode definir apenas como bom ou mau, em uma
situação ele poderá sem bom, em outra poderá ser mau.
O eu lírico inicia o poema Vítima do dualismo (ANJOS, 2005, p.149) com pessimismo, pois
ele, o homem, não consegue seguir apenas o bem, ou apenas o mal. Ele se sente miserável ,
dotado de células sombrias por tais antagonismos propícios a sua espécie. A sua dualidade é
considerada uma antinomia para a sociedade, por esta razão o ser se sente só.
Quando desceres (BUENO, 2003, p.274) também retrata a dualidade do ser humano. Esta é
apresentada nas duas primeiras estrofes, nas quais uma estrofe se opõe a outra, e sugere que o
homem ao escolher é obrigado a inventar sua própria lei (SARTRE, 1970, p.18), o que confere
toda responsabilidade em seus atos.
Ambos os poemas revelam a inconstância através de antíteses a inconstância do ser
humano. Em Vítima do dualismo (ANJOS, 2005, p.149) a alma do homem é vista como
biforme , ela oscila entre Céu e Inferno . A mesma idéia é apresentada em Quando desceres,
no qual o eu lírico faz menção ao Inferno e ao Paraíso . Quanto ao fato de Céu e Inferno e
Inferno e Paraíso estarem grafados com letras maiúsculas se deve a intenção dos poetas ao
denotar que o homem é a sua própria morada. Se ele direciona suas ações sem desculpas,
pensando em si e no coletivo, eis o Céu ou Paraíso , entretanto, se a pessoa inventa um
determinismo ou dissimula a total liberdade do engajamento (SARTRE, 1970, p.19), ela está
vivenciando a má fé e construindo seu próprio inferno.
Os poemas deixam clara a responsabilidade do ser em suas escolhas (...) Criação (...)
Feita dos mais variáveis elementos (ANJOS, 2005, p.149) / Só te guiarão os passos teus
(BUENO, 2003, p.274). Responsabilidade que se confirma através do existencialismo sartreano, a
liberdade do homem é indício de sua superioridade em relação aos demais seres. Portanto, se o
homem foi lançado no mundo, ele é responsável por tudo que faz (SARTRE, 1970, p.9).
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Vítima do dualismo (ANJOS, 2005, p.149), em sua última estrofe, serviu-se da
símile ao comparar o dualismo do ser com a ação do corvo ao alimentar-se do seu oposto,
animais mortos, sendo um necrófago. Além disso, o corvo representa uma versatilidade de mitos
em todo mundo, ele é visto como ser sinistro, sábio, misterioso e criativo, assevera Quintino
(2007).
O pessimismo também se faz presente neste poema, como se pode notar nas expressões
células sombrias, gula negra, corvo, monstruosa , pois o contraste do ser é considerado uma
simultaneidade ultra monstruosa , visto que a moral laica prega que o ser é bom ou mau.
Todavia, como o homem tem ciência de que ele não pode apenas escolher ser bom, então,
ele se desespera, e desesperar-se significa perceber que só podemos contar com o que depende
da nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que tornam a nossa ação possível
(SARTRE, 1970, p.12). Em Quando desceres (BUENO, 2003, p.274), o desespero também é
evidenciado pelos versos: À solitária e ígnea dança (...), Não acharás nem irmãos nem pares (...)
e Vieste ilegível a este exílio (...). O ser se sente desamparado, não há mais desculpas ou sinais
que possam orientá-lo em suas escolhas, ele é o que ele próprio projeta, como sugerem os dois
últimos versos do poema: Tu és teu próprio Virgilio / Tua Beatriz também és tu .
Ao contrário do aconselhamento exposto por Dante em Divina Comédia, nos versos
acima se reafirma a ideia que fundamenta o existencialismo sartreano o homem nada mais é do
que aquilo que ele se faz (SARTRE, 1970, p.6), ele se projeta. E para se construir, o desespero é
necessário, visto que: a própria angústia que constitui a condição de ação (p.8). O ser que é
livre para escolher se desespera e esse desespero compõe a ação humana.
Nos dois poemas há a predominância de verbos no tempo presente do modo
indicativo (és, é, carrego, absorvo), o que de acordo com Goldestein (2005) permite inferir que os
poemas retratam um acontecimento real e acompanham a concepção existencialista de que a ação
se dá no presente. Também não há sugestão de quietismo, pois nos poemas, a maior parte dos
verbos é de ação, expressam dinamismo. As rimas estão a serviço da temática do texto, em ambos
os poemas elas são cruzadas, demonstrando como as escolhas do ser podem variar, ora uma, ora
outra.
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CONCLUSÃO
A filosofia existencialista sartreana recebeu e ainda recebe inúmeras críticas,
porém, sem a contribuição de Sartre, tanto a filosofia quanto a literatura teriam lacunas. É notório
em seu legado filosófico e literário que objetivo de seus estudos era, sem dúvidas compreender a
existência a partir da supremacia humana.
Se muitas outras filosofias contestaram a concepção sartreana, o fato é que a
maioria também buscava respostas acerca da existência, tanto que a literatura pode representar a
continuidade dessas respostas, pois é no texto literário que a filosofia se desenvolve a fim de
atingir o público e despertar a reflexão.
Nos poemas analisados, sem a contribuição da filosofia existencialista sartreana
poderia haver outra compreensão das temáticas, as justificativas para as comparações, metáforas,
antíteses e outros recursos lingüísticos. Através do aparato teórico, porém, foi possível fazer uma
escolha e refletir sobre duas épocas distintas, o século XVIII Augusto dos Anjos e o século XXI
Alexei Bueno.
Ambos os poetas dialogam como artífices polêmicos, como pensadores e como
gloriosos poetas. Poetas que trabalham a linguagem a serviço do dizer, e dizendo fazem poesia.
Seus textos são tão próximos, que poderiam ser complementos um do outro.
A semelhança nos textos analisados não é vista como cópia, pois são diálogos
poéticos frutos da intertextualidade dentro do mesmo gênero. Tanto que, apesar de muitos fatores
semelhantes, há também os meios peculiares, como a forma do texto, Augusto dos Anjos optou
pelo soneto, enquanto Alexei Bueno, nos poemas analisados, opta por estruturas livres.
Ler esses poemas pela filosofia existencialista sartreana revela a riqueza da poética
brasileira, a preocupação acerca da reflexão sobre a existência, a sagacidade destes poetas que ora
ou outra se referem às obras clássicas, mostrando o quanto conhecem de literatura. O que
demonstra a compreensão da importância da tradição e da responsabilidade da poesia do agora,
marcada pela multiplicidade de tendências e de veiculação (SOUZA, 2009, p.16).
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANJOS. A. Eu e outras poesias. São Paulo: Martin Claret, 2005.
BRANDÃO, R. de O. BRUNA, Jaime. A poética clássica de Aristóteles, Horácio, Longino. São
Paulo: Cultrix: 1997.
BRUNEL, P. PICHOIS, C. ROUSSEAU, A. M. Que é literatura comparada? São Paulo:
Perspectiva, 1995.
BUENO. A. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2003.
CARA, S. de A. A poesia lírica. São Paulo: Ática, 1998.
GOLDESTEIN, N. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 2005.
KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. Trad. Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo:
Perspectiva, 1974.
LEÃO.
R.
de
S.
Entrevista
de
Alexei
Bueno.
Disponível
<http://www.revista.agulha.nom.br/r2souza04c.html> - Acesso em: 10 de agosto, 2009.
em:
LIMA. R. de. O Maniqueísmo: o bem, o mal e seus efeitos ontem e hoje. Revista Espaço
Acadêmico, ano I, n. 07, dez. 2001.
MOUTINHO, L. D. S. Sartre existencialismo e liberdade. São Paulo: Moderna, 1995.
PENHA, J. da. O que é existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 2004.
REIS, Z. C. Literatura comentada
Augusto dos Anjos. São Paulo: Abril Educação, 1982.
SARTE, J.P. O Existencialismo é um humanismo. Trad. Rita Correia Guedes. São Paulo: Nova
Cultural, 1987. 3ª ed.
SOUZA. P. A. da S. O Opifício poético Roliminiano: As múltiplas sobrevidas da palavra. 2009.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande.
QUINTINO. C. Corvo. Disponível em: <http://www.claudiocrow.com.br/corvo_home.htm>
Acesso em: 10 de ago. 2009.
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A Filosofia Existencialista na poética de Augusto dos Anjos e Alexei