UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE CIÊNCIAS SÓCIO-ECONÔMICAS E HUMANAS CURSO DE LETRAS A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS E ALEXEI BUENO WALESKA CRISTINA MOREIRA MORAIS ANÁPOLIS 2009 WALESKA CRISTINA MOREIRA MORAIS A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS E ALEXEI BUENO Artigo apresentado à Coordenação do Curso de Letras para fins de obtenção do grau de licenciado em Letras com Habilitação em Línguas Portuguesa e Inglesa e Literaturas pela Universidade Estadual de Goiás. Orientadora: Débora Cristina Santos e Silva. ANÁPOLIS 2009 FOLHA DE APROVAÇÃO Autora: WALESKA CRISTINA MOREIRA MORAIS Título: A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS E ALEXEI BUENO Data de Defesa: 05 de outubro de 2009. BANCA EXAMINADORA _________________________________________________ Prof°. Dra. Débora Cristina Santos e Silva Orientadora _________________________________________________ Profª. Ms. Euda Fátima de Castro CONCEITO ___________ ___________ A FILOSOFIA EXISTENCIALISTA NA POÉTICA DE AUGUSTO DOS ANJOS E ALEXEI BUENO Waleska Cristina Moreira Morais RESUMO O presente artigo propõe um estudo comparativo entre a Poética de Augusto dos Anjos, poeta moderno brasileiro, e a de Alexei Bueno, poeta brasileiro contemporâneo. Tal estudo terá enfoque estético-filosófico, pois recorre à filosofia existencialista sartreana para estabelecer a intertextualidade entre poemas selecionados dos poetas supracitados. Através dessa filosofia, também se pretende buscar subsídios teóricos que auxiliem a compreensão das líricas moderna e contemporânea, demonstrando as rupturas formais que ocorrem nesses textos. PALAVRAS-CHAVE: Poética. Existencialismo. Modernidade. Contemporaneidade. Literatura Comparada. ABSTRACT This article proposes a comparative study between the Poetics of Augusto dos Anjos, a modern Brazilian poet, and Alexei Bueno, a contemporary Brazilian poet. This study will focus on a esthetic philosophical view, because it uses the Sartre's existentialist philosophy to establish the intertextuality between the selected poems of the poets mentioned above. Through this philosophy, it's intended to seek theoretical sources in order to understand the modern and contemporary lyrics, showing the formal and thematic ruptures that occur in these texts. KEYWORDS: Poetry. Existentialism. Modernity. Contemporaneity. Comparative Literature. O homem nada mais é do que seu projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua vida (SARTRE, 1970, p.13). SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................................07 REVISÃO DE LITERATURA.....................................................................................08 1. O gênero lírico: a lírica, sujeito lírico e o tempo......................................................08 2. O existencialismo: uma visão de mundo..................................................................11 DISCUSSÃO................................................................................................................14 1. Intertextualidade na poética dos autores...................................................................14 2. Análise comparativa de poemas...............................................................................16 2.1. Reflexão acerca da existência................................................................................16 2.2. Dualidade na construção do ser.............................................................................20 CONCLUSÃO..............................................................................................................23 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................24 7 INTRODUÇÃO Segundo Aristóteles (1997), a Poética é a arte presente em todos os gêneros literários, que utilizam em seu engenho a mimesis, imitação que desencadeia a representação do ser e das situações cotidianas vivenciadas por ele. Para diferenciar um gênero do outro e permitir sua classificação basta analisar a maneira como a mimesis é modelada, visto que, para Aristóteles, a epopeia, a comédia e o ditirambo se diferenciam por imitarem por meios diferentes, ou objetos diferentes, ou de maneira diferente (p.19). O gênero lírico originou-se na Antiguidade Clássica. Nesse período, as expressões pessoais do eu poético eram cantadas ao ritmo da lira. Por esta razão, deu-se a denominação do gênero que após ser concebido, acompanhou a evolução do homem e, por isso, em cada época, o sujeito lírico contempla um ser social diferente. O método utilizado nesta pesquisa foi o comparativo. Segundo Brunel, Pichois e Rousseau (1995), este método permite estabelecer relações entre sistemas análogos, evidenciando o que há em comum entre eles. Na literatura, a variante deste método é denominada por Kristeva, em 1969, como intertextualidade , processo de produtividade em que um texto literário se constitui de fragmentos ou citações de outros textos (KRISTEVA, 1974). A intertextualidade entre os poemas de Augusto dos Anjos e Alexei Bueno analisados nesta pesquisa foi estabelecida por um enfoque estético-filosófico, priorizando-se a filosofia existencialista sartreana. Tal filosofia possui perspectiva não-cristã, pois nega a existência de Deus e, como princípio fundamental, considera o homem como o único ser cuja existência precede a essência. Esta concepção filosófica une as líricas analisadas pela temática, estrutura e pelo posicionamento do eu lírico em relação ao ser, ao mundo e ao tempo. Ao buscar um enfoque baseado na filosofia existencialista, apresenta-se uma nova visão dos poemas, vistos, em outras análises, como pessimistas e radicais, evidencia-se que a angústia, nessas líricas, é originada pela responsabilidade que o ser assume diante dos fatos e da sociedade. Desse modo, o sujeito lírico não pode ser rotulado como pessimista nem como otimista, visto que ele não espera nada, a fim de evitar frustrações. Este trabalho foi dividido em dois tópicos de revisão da literatura. No primeiro discorre-se acerca das características da lírica, desde sua origem até o contexto literário vivenciado por Augusto dos Anjos e Alexei Bueno; no segundo, expõe-se sobre a filosofia existencialista sartreana. Para a discussão do estudo, com as análises dos poemas, também foi destinado dois 8 tópicos, no primeiro tópico, deste item, expõe-se a trajetória artística dos dois poetas, mostrando as semelhanças de ideais artísticos em ambos. Finalmente, no segundo tópico estabelece-se a intertextualidade entre os poemas selecionados para este trabalho, fazendo a análise das temáticas e das estruturas presentes nestes textos com base nas teorias discutidas nos tópicos anteriores. Por último, apresenta-se a conclusão deste trabalho ao comprovar os elementos de intertextualidade entre os poemas estudados de Augusto dos Anjos e Alexei Bueno e a relevância de uma leitura sustentada por princípios filosóficos, a fim de compreender o enunciado poético. Acredita-se que esta pesquisa, ao apoiar-se na filosofia existencialista, auxiliará no conhecimento da visão de mundo inerente à lírica moderna e contemporânea de Augusto dos Anjos e Alexei Bueno, respectivamente. Esta também pretende ser útil aos profissionais de Letras que optam pela dedicação aos estudos literários e, especialmente, aos estudos da lírica brasileira. REVISÃO DE LITERATURA 1 O GÊNERO LÍRICO: A LÍRICA, SUJEITO LÍRICO E O TEMPO O gênero lírico perpassa por vários séculos e a cada passagem se inova, transforma-se e acompanha a evolução social. O que demonstra essa metamorfose do gênero em questão é sua própria trajetória, que será remontada nas linhas subsequentes. Na Antiguidade Clássica, Aristóteles (1997), em sua Arte Poética, menciona os ditirambos, cantos festivos que expressavam alegria e tristeza unindo ritmo, métrica e música pela voz do próprio autor. Segundo Cara (1998), estes são os primeiros indícios do gênero lírico, que surge como uma composição para ser cantada ou acompanhada por música. No século XV, no Renascimento, a lírica já se torna independente da música. Inicia-se a busca pela diferenciação entre ambas, e os poemas passam a ser escritos e lidos, além de se enfatizar esquemas classificatórios que reforçam uma visão teórica mais prescritiva. Porém, a teoria normativa não era suficiente para dar conta da qualidade poética dos melhores poetas líricos renascentistas (CARA, 1998, p.6), porquanto, o sujeito lírico ainda é o que expressa as impressões da relação eu - alma. Após a Revolução Francesa, com a formação da sociedade burguesa e o avanço da indústria, tecnologia e ciência, o conceito de poesia lírica se inova e ela conquista um lugar cativo na sociedade. Porém, um paradoxo se instala nesse momento, pois apesar do poeta ser 9 reconhecido como artista profissional, ele se sente inútil pela idéia de utilitarismo decorrente da revolução da sociedade. Por essa razão, os poetas românticos optam por um agudo subjetivismo emocional e pela exaltação do eu poético (CARA, 1998), pois esses artifícios, além de o ajudarem a assegurar seu lugar na sociedade, servem-lhe como autodefesa. Alguns poetas românticos, como Poe, conseguiram multiplicar a linguagem lírica através da reflexão sobre a criação poética com vistas em um mundo moderno, ao contrário de outros românticos que se expressavam apenas pela emotividade. Ao explorar as possibilidades da linguagem na lírica, a figura do poeta se transforma em um organismo vivo . A sociedade já reconhece no século XVIII as exigências da época, como a valorização da individualidade, de épocas históricas diferentes e a necessidade de mudar o foco da poesia lírica de mimesis para a expressão inspirada de uma alma , o que acarreta na valorização da lírica, tanto na produção como nas reflexões estéticas (CARA, 1998, p.31). A visão crítica da poesia lírica e do poeta se manifesta enfaticamente na modernidade. O poeta moderno desconstrói alguns mitos, explora possibilidades da relação poeta - realidade e, com isso, prestigia a linguagem lírica. Como foi evidenciado acima, Poe ofereceu aos leitores imagens modernas em seus poemas, mas seu sucessor, o poeta francês Baudelaire, também merece destaque por sua contribuição na evolução do gênero lírico. Ele é considerado, pelos escritores literários, o rei dos poetas modernos devido a alguns feitos como: associar a poesia lírica à inteligência crítica, referir-se à multidão em plena transição e velocidade, unir ao poema o som, o ritmo e a imagem, dar vida, através do seu texto, a tudo que era artificial e, ainda, por abordar o grotesco. O poeta moderno acredita que a linguagem expressiva conduz à relação poeta - realidade, mesmo que a sociedade esteja mecanizada e o poeta se sinta excluído, já que, ao demonstrar a inexistência de verdades absolutas nos poemas, a expressão e a comunicação não se abrandam, pois para os poetas modernos, a poesia não é apenas a manifestação do pensamento lógico (CARA, 1998). Longe da intenção de aprisionar poetas em escolas literárias, neste estudo objetiva-se avaliar a contribuição dos escritores da poesia lírica em relação à evolução deste gênero. Augusto dos Anjos, no Brasil, apesar de ter sua produção situada na época simbolista é aclamado como um poeta moderno que, a exemplo de Baudelaire, rompe com o falar lírico tradicional através de recortes da realidade acerca do homem moderno, demonstrando-o como solitário e dotado de 10 pessimismo. O pessimismo, orientando-se pela filosofia existencialista, é um realismo duro (SARTRE, 1970), que não permite esperar pelo que não foi executado. Os poemas de Augusto dos Anjos podem remeter a sua biografia, porém, o sujeito lírico de sua obra não se refere a uma pessoa em particular, porquanto retrata angústias, sensações e imagens universais da condição humana, não se referindo mais ao eu - autor . O texto em si, os poemas de Augusto dos Anjos, apresentam o sujeito lírico como um ser original, preocupado com o coletivo e possuidor de uma linguagem multifacetada, que consegue ocultar o poeta e o leitor. (CARA, 1998). A lírica moderna destaca-se pela audácia na linguagem e na produção de imagens, além da transgressão lógica: de sujeito lírico eu - alma exaltado até então, para um eu comprometido com o universal, que reflete acerca do mundo, da condição humana e dos desejos humanos na modernidade. A poesia lírica brasileira contemporânea apresenta uma relação de continuidade com a lírica modernista. Por isso, salientam-se algumas características já evidenciadas em estudos recentes: o eu - lírico contemporâneo, ao seguir os passos do eu poético moderno, desconstrói algumas características do tradicional para criar o novo. Com isso, apresenta uma temática diversificada a respeito do homem e seus conflitos cotidianos. Essa lírica também não se curva ao escapismo, a arte é vista como universal, a-histórica e, ainda, como fonte de inovação da linguagem lírica. A era da globalização e dos discursos midiáticos exige que o ser humano se adapte a esses processos, e na arte não é diferente. O escritor contemporâneo, como Alexei Bueno, está ciente da sua posição neste contexto e, através de seus poemas, apresenta um sujeito lírico capaz de ressignificar a imaginação. Os poemas da lírica moderna e contemporânea brasileira, mencionados como corpus desta pesquisa, serão relacionados a partir da intertextualidade entre eles por meio do enfoque estéticofilosófico. A filosofia existencialista permitirá mapear as características temáticas e formais dos textos relacionados. Para isso, abaixo se explana sobre a base filosófica que orienta este trabalho: o existencialismo sartreano. 11 2 O EXISTENCIALISMO: UMA VISÃO DE MUNDO O homem está condenado a ser livre (Sartre, 1970, p.9). O movimento filosófico existencialista foi inspirado nas idéias dos filósofos alemães Friedrich Nietzsche, Edmund Husserl e Martin Heidegger, e popularizou-se no século XX através do trabalho de Jean Paul Sartre, filósofo francês. A popularização do existencialismo aconteceu após o término da Segunda Guerra Mundial, período em que a sociedade européia sofria com os resquícios da guerra e, por essa razão, se encontrava em um clima de desânimo e desespero. Este clima, segundo Penha (1982, p.7) fez com que o movimento existencialista se propagasse além do ambiente acadêmico e das publicações especializadas, sendo considerado também um estilo de vida, uma forma de comportamento excêntrica que era divulgada pelos meios de comunicação e caricaturada pela compreensão popular. A filosofia existencialista recebe esta denominação por ter como princípio fundamental a concepção de que a existência precede a essência , definição de Sartre (1970) que, para o filósofo francês, é a única comunhão entre o existencialismo ateu, defendido por ele, e o existencialismo cristão, que acredita na limitação da existência pelo criador: o Cristo. A crença na existência de Deus é uma característica paradoxal do existencialismo cristão, devido não explicar de forma coerente a precedência da existência em relação à essência. Esta vertente do existencialismo que se fundamenta no catolicismo é desenvolvida, principalmente, por Jaspers e Gabriel Marcel. Sartre (1970, p.5) acredita que o existencialismo ateu é mais coerente ao afirmar que Deus não existe , pois, sendo assim, há apenas um ser em que a existência precede a essência , o homem. E o que significa esta célebre frase de Sartre acerca da anterioridade da existência em relação à essência, com a qual busca justificar o existencialismo? Consiste em inferir, nas próprias palavras do filósofo, que o homem existe, encontra-se em si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define . De início, o homem, pela visão existencialista, não é definido, não é nada, só posteriormente a existência será, e será aquilo que o indivíduo faz de si mesmo. Este é um dos princípios do existencialismo: o homem é plenamente responsável pelo que é (SARTRE, 1970, p. 6). 12 A consciência da responsabilidade do indivíduo em relação a sua existência é o primeiro passo para que este reflita sobre suas escolhas e não-escolhas, e como elas influenciam o outro, pois, nesta corrente filosófica existencialista, o homem não é responsável apenas por si, mas também por todos os homens. Esta responsabilidade do homem é aclarada por Sartre como subjetividade, termo que sofre críticas dos contrários a filosofia satreana e significa: por um lado, escolha do sujeito individual por si próprio e, por outro lado, impossibilidade em que o homem se encontra de transpor os limites da subjetividade humana. É esse segundo significado que constitui o sentido profundo do existencialismo. Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se ele escolhe todos os homens. (SARTRE, 1970, p.6). O ato de escolher, além de suscitar a responsabilidade exposta acima, desencadeia a angústia, já que o homem, além de escolher ser, também é legislador, posto que concomitantemente escolhe a si mesmo e a toda humanidade. Com isso, não consegue se livrar dessa profunda responsabilidade questionadora: sou eu, realmente aquele que tem o direito de agir de tal forma que meus atos sirvam de norma para toda humanidade? (SARTRE, 1970, p.8). Quem não se indaga, para Sartre, mascara a sua angústia. Tratando ainda da angústia, o filósofo francês salienta que esse estado não remete ao quietismo e a inação, pelo contrário, a angústia é um processo da escolha que culmina na ação, além de ser uma sensação comum aos que tiveram ou têm responsabilidade em situações cotidianas. Moutinho (1995), em seu estudo sobre a vida e a obra de Sartre, argumenta que a angústia é uma experiência que se vive ao descobrir a liberdade do homem; os que não escolhem ser livres vivem rodeados de desculpas, a má fé. A liberdade do homem, para Sartre, está relacionada à inexistência de Deus, não a inexistência divina veiculada por certas morais laicas que a fim de eliminarem Deus sem provocar conflitos se sustentam da propagação de valores que devem ser respeitados e considerados primitivos. Sartre define essas morais laicas como radicais, pois estas não modificam em nada a relação entre a determinação dos valores sociais e o não existir de Deus. Para o filósofo francês, só a partir da crença na inexistência de um ser divino superior e concomitantemente com a desconsideração de valores sociais e do determinismo é que o homem está livre . 13 Ao tratar da liberdade do homem, Sartre o considera como um condenado a ser livre , por não ser determinado pela paixão e sim ser condutor dessa situação. Também, por não existir nenhum sinal no mundo que oriente o sujeito, cabe a ele inventar o homem a cada instante (SARTRE, 1970, p.9). Na constante invenção em que o homem se encontra, o sujeito se sente desamparado, fato que comprova ser ele o responsável por suas escolhas. Ao mesmo tempo, sente-se desesperado, sentimento que para Sartre significa agir sem esperança , considerando apenas o que depende da vontade do indivíduo ou das probabilidades que sejam sustentáveis para efetuar-se a ação, pois a realidade só existe na ação (SARTRE, 1970, p.13). Dentre as críticas feitas ao existencialismo, a mais comum é acerca do pessimismo dessa corrente filosófica refere-se ao fato de apresentar, nas obras de ficção literária, personagens fracos, covardes e descrentes. Entretanto, Sartre defende esta representação dos personagens, justificando ser ela exemplo da dureza do otimismo (SARTRE, 1970, p.14), pois o ser representado tem a possibilidade de reverter sua representação, ao passo que o destino do homem é construído apenas por sua única esperança, suas ações. O existencialista introduz um personagem que se faz ser descrente ou covarde, ao contrário do naturalismo-realismo como o que Zola engendrava em suas obras, em que os defeitos e qualidades do ser eram advindos de características hereditárias ou de projeções da sociedade e do meio. Acerca da existência do outro, Sartre afirma: o outro é indispensável em minha existência (SARTRE, 1970, p.16), por ser através da relação eu - outro que o homem/ indivíduo é capaz se autoconhecer e decidir quem é, e quem os demais são. O isolacionismo criticado por contrários às idéias sartreanas também obtém a reposta do filósofo francês. Sartre considera uma universalidade humana de condição , ou seja, cada homem possui uma essência universal resultante da natureza humana, um conjunto de limites primitivos, do qual cada homem pode, em seu projeto individual, se libertar, negar, adaptar ou afastar-se dessas restrições, construindo assim o universal ao escolher-se. Com base nesta fundamentação teórica nortear-se-á as análises do corpus desta pesquisa, a fim de discutir os aspectos explicitados na introdução deste estudo. 14 DISCUSSÃO 1 INTERTEXTUALIDADE NA POÉTICA DOS AUTORES Sabe-se que a obra de um autor fala por si, mas é relevante conhecer o criador de determinada arte. Neste trabalho, Augusto dos Anjos e Alexei Bueno são os artesãos dos poemas a serem estudados. É notório que estes não precisam de apresentação no âmbito acadêmico, todavia, em se tratando de escritores intitulados como polêmicos, abre-se um espaço para a apresentação destes poetas na óptica desta pesquisa. Augusto dos Anjos é considerado um poeta polêmico, primeiramente, pelo fato de apresentar à sociedade, poemas que fugiam dos estilos em ênfase na época, como o culto à forma praticada pelos parnasianos. Além desse fator, a realidade urbana do autor, que conheceu a Paraíba, o Recife e o Rio de Janeiro, quando ainda era Capital Federal, era representada através das imagens dos grupos marginalizados da época: mendigos, prostitutas e negros, por exemplo. Estes eram introduzidos em tempo noturno e em espaços considerados degradados, como: cemitérios, prostíbulos e estações. Segundo Reis (1982), no poema Os doentes , Augusto dos Anjos cria imagens completas de grupos excluídos da sociedade de seu tempo, os moradores da cidade de lázaro , como o escritor descreve no poema. Há outras divergências acerca deste poeta paraibano. Estudiosos da literatura se dividem ao classificá-lo como autor de uma determinada escola literária. A discrepância está no repetido questionamento: Augusto dos Anjos é um poeta simbolista ou preconizador no modernismo? Na introdução de Eu e outras poesias , livro editado por Soares e no qual constam os poemas analisados neste trabalho, o editor e amigo de Augusto dos Anjos argumenta que o poeta não se filiou a nenhuma escola por ser original, função do ser poeta, que deve ser reconhecido por seu sentir que é individual. A lírica de Augusto dos Anjos não pode ser enclausurada em um estilo de época. Este trabalho denota-o como moderno, não a fim de restringi-lo, mas para, mostrá-lo como um escritor que preconiza os anseios do homem moderno através de suas reflexões acerca de temas universais: miséria, sofrimento, existência e angústia. 15 Assevera-se que o poeta paraibano é moderno por encontrar em sua lírica a reunião de múltiplos estilos que são manifestados por suas intensas leituras acerca da poesia da época (a simbolista) e dos acontecimentos mundiais vivenciados neste período. O uso de termos científicos também é reflexo de suas leituras, visto que, neste momento o cientificismo estava em auge . (REIS, 1982, p.101). O poeta contemporâneo, Alexei Bueno, assim como Augusto dos Anjos, é reconhecido pela polêmica em seu discurso. O escritor, editor e tradutor, em sua obra e em entrevistas faz notar sua criticidade e originalidade acerca da arte literária. Desde 1984, ano em que ele publicou As escadas da torre, seu primeiro livro, os apreciadores da literatura se deleitam com a obra de Alexei Bueno. Posteriormente, mais dez títulos foram lançados até 1997. No livro Poesia Reunida (2003) encontram-se os poemas que servem com corpus deste trabalho. Este livro comemora os quarenta anos do escritor e reúne toda sua produção poética ao longo de seus vinte e um anos de exercício poético. Em entrevista a Rodrigo de Souza Leão, Alexei Bueno declara que não vive da literatura, visto que, infelizmente, no Brasil, os escritores que gozam deste feito são aqueles que publicam para o mercado. E atender as exigências de um mercado, muitas vezes alienador e fútil, é uma condição que não condiz com a postura discursiva do autor. Seus poemas não acompanham uma tradição formal, eles se impõem. Alexei Bueno afirma nesta entrevista que: cada vez mais só escrevo quando o poema se impõe. Então ele vem quase pronto, no geral mexo nele muito pouco posteriormente, só para ajustar certas inadequações . Em relação ao formato do poema, o escritor acredita que cada poema exige uma forma , para ser o que realmente propõe-se a ser. Na obra de Alexei Bueno não há gratuidade, todos os aspectos invocados estão a serviço de um dizer poético, e é justamente por ter algo a dizer que o escritor é reconhecido como poeta do pensamento , explora a reflexão sobre as ações humanas, e, além disso, tem opinião criteriosa e sagaz sobre a poesia e literatura atual. Também como Augusto dos Anjos, Alexei Bueno não se adapta a uma escola literária, pois seu discurso e recursos poéticos são, às vezes, intimistas outras, múltiplos e universais, características que impedem a rotulação do poeta. 16 2 ANÁLISE COMPARATIVA DE POEMAS Neste artigo utilizam-se dois poemas de Augusto dos Anjos Aberração e Vítima do dualismo, e dois de Alexei Bueno No Cárcere e Quando Desceres como corpus deste estudo. 2.1 Reflexão acerca da existência Os poemas Aberração e No Cárcere, respectivamente de Augusto dos Anjos e Alexei Bueno dialogam, primeiramente, acerca da temática. Em ambos, o eu lírico reflete sobre sua existência É este o reino esperado? (BUENO, 2003, p.133). Em que Deixo inscrita a memória do meu gérmen! (ANJOS, 2005, p.148). O eu lírico, em ambos os poemas, se vê diante de uma sociedade preestabelecida, em que suas ações são tidas como aberrações ou os leva para o cárcere , como sugerem os títulos dos poemas. Aberração Na velhice automática e na infância, (Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância: Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia, Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera E acho odor de cadáver na fragância! Chamo-me Aberração. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. Existo Como a cancro, a exigir que os sãos enfermem... Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo 17 Deixo inscrita a memória do meu gérmen! (ANJOS, 2005, p.148) X No Cárcere O para ver tão visto O por saber sabido O fim sempre princípio Cumprido está tudo isto. Demais, demais, cumprido. Terrível particípio. O onde chegar chegado. A porta abrir com chave. O por que? com porque. É este o reino esperado? De profundis clamavi O Domine, ad te. (BUENO, 2003, p.133) No poema Aberração, o ser irregular que surgiu do nada é origem da universalidade humana de condição, discutida por Sartre, em que a ação de um homem influencia a coletividade. Se esse ser se sente incompleto, ele mesmo reconhece que isto advém da universalidade: Minha hibridez é a súmula sincera / Das defectividades da Substância (ANJOS, 2005, p.148). A universalidade humana de condição também se faz presente em No Cárcere . O eu lírico está ciente de ter concluído suas ações, por isso utiliza verbos na forma nominal particípio (visto, sabido, cumprido, chegado, esperado) indicando que as situações são concretas e auxiliam o ser na construção de si e ao mesmo tempo da coletividade. O existencialismo sartreano defende que o homem possui a liberdade, diferentemente dos outros seres que têm predeterminada sua essência. Somente o homem se constrói através de suas escolhas. Sendo assim, somente o homem é responsável por suas escolhas e ações. As ações se concretizam no tempo presente, período de exercício da definição humana. Tanto em Aberração (ANJOS, 2005, p.148), quanto em No Cárcere (BUENO, 2003, p.133), a maioria dos verbos indica um fato ocorrido no momento da fala, no tempo presente do modo indicativo (teço, deixo, engendro, é, está). O modo verbal revela a realidade, um acontecimento certo. Ainda, sobre verbos, em Aberração o verbo no gerúndio Criando , no início da segunda estrofe, sugere a construção, e em No Cárcere o último verso, também da segunda estrofe, Terrível particípio sustenta a concepção de Sartre de que o ser é condenado a ser livre pela responsabilidade em sua definição. 18 Para Sartre, o homem surgiu do nada, porém, para onde irá no fim? O filósofo e escritor francês é contundente: o homem surge do nada, se define através de suas ações e retorna ao nada (SARTRE, 1970, p.6). Essa é uma das certezas expressa nesta corrente filosófica, que se apresenta metaforicamente, nos poemas estudados, pelo emprego de antíteses, como velhice/infância em Aberração e fim/princípio em No Cárcere. Observa-se que nos dois textos a fase final antecede a inicial na ordem de colocação, sugerindo a relação destes contrários como um ciclo contínuo. Refletir sobre a existência nesses poemas não confere isoladamente as vozes dos sujeitos líricos. Essa incidência é universal, pois são vozes sociais. Os substantivos sobressaem nos dois poemas, como se o ato de nomear fosse missão do poeta, entretanto, o dar nome aos seres permite inferir que a coletividade, sentimentos comuns a toda a humanidade, é expressada pelo uso de substantivos abstratos (velhice, infâmia, ânsia, fim, odor, memória), que segundo Goldstein (2005), representa a generalização. Sartre concebe o homem como legislador por se definir e consequentemente definir o outro, e toda ação realizada pelo homem é de sua inteira responsabilidade, como já foi citado anteriormente. Com base nesta proposição, estes dois poemas se utilizam do recurso da inversão sintática em versos que se referem à ação concluída, como em Cumprido está tudo isto - No Cárcere (BUENO, 2003, p.133), que sem a inversão sintática seria: Tudo isto está cumprido; e como em: E nas mudanças do Universo todo Aberração (ANJOS, 2005, p.148), na ordem direta: E nas mudanças de todo o Universo. As inversões demonstram que o poeta é livre para reger seu texto, assim como o homem rege sua existência. Ser uma aberração ou viver no cárcere não soa como natural aos ouvidos humanos, o eu lírico ao se denotar como um ser perturbado demonstra toda sua inquietação em engajar-se para posteriormente agir. Através da símile, em Aberração, relaciona-se a ação/luta do homem livre à ação/luta do herói grego Belefronte, que mata o monstro Quimera. Enquanto o herói grego luta contra monstros, o homem luta contra as morais laicas sustentadas pelo: ideal, pelos sonhos e pela esfera, que respectivamente, pode-se inferir que significam o padrão, a esperança e as convenções sociais, que parecem agradáveis, a fragrância, mas são como o odor de cadáver por serem sustentadas pela má fé, atitude de dissimulação da escolha: (...) Como Belefronte com a 19 Quimera/ Mato o ideal; cresto o sonho; achato a esfera/ E acho odor de cadáver na fragrância (ANJOS, 2005, p.148). Estar no cárcere é estar condenado, como afirmava Sartre (1970) ao argumentar sobre a liberdade humana. O homem se sente condenado a lutar contra padrões O onde chegar chegado e contra a redução do ser humano a objetos que são definidos pela sua essência, antes mesmo de sua existência, como: A porta abrir com chave / O por que? com porque (BUENO, 2003, p.133). Se ao homem cabe lutar contra estereótipos ou padrões, para se confirmar como a própria existência, construindo-se e renovando-se, ao poeta a missão endereçada é renovar a forma de versar, e nesses dois poemas é notório o cumprimento de tal missão. Augusto dos Anjos em pleno século XVIII utiliza-se de uma linguagem culta, de rimas ora ricas, ora pobres, de figuras de linguagem, de um texto em forma fixa, o soneto; o qual renova por não usar métrica, por refletir sobre a existência humana e por não falar exclusivamente do seu eu, mas do eu universal. Alexei Bueno também não poupa o uso de figuras de linguagem, usa-se da linguagem culta e não há métrica no texto composto por quatro estrofes com três versos poéticos cada. A diferenciação se dá no uso das rimas em seu texto, visto que o poeta utiliza tercetos rimados no esquema ABC nas duas primeiras estrofes e DEF nas duas últimas estrofes, como se fosse fornecido duas formas de ler o poema, uma como está escrito e a outra fazendo os jogos da rima. Para finalizar os poemas, em No Cárcere o eu - lírico clama ao soberano a piedade, em latim. O substantivo anterior aos dois últimos versos em latim é reino , o que literalmente remete ao reino dos céus, conduzido por um deus. No poema, a linguagem simbólica permite inferir que o clamavi é direcionado ao homem, o único deus da sua própria existência, como argumentava Sartre (1970) e a pergunta também É este o reino esperado? , visto que ele é considerado o supremo diante do universo, o ser que se define, mostra sua essência e é responsável por ela: Teço a infâmia, urdo o crime, engendro o lodo / (...) Deixo inscrita a memória do meu gérmen! (ANJOS, 2005, p.148). 20 2.2 A dualidade na construção do ser O segundo par de poemas é formado por Vítima do dualismo de Augusto dos Anjos e Quando Desceres de Alexei Bueno. A intertextualidade se apresenta na temática dos poemas que revela a dualidade na construção do ser e, para discursar sobre este tema, os poetas utilizam recursos semelhantes, como a figura de linguagem antítese. Vítima do dualismo Ser miserável dentre os miseráveis - Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos, minha alma, enfim, dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme, O Céu e o Inferno absorvo... Criação a um tempo escura e cor-de-rosa, Feita dos mais variáveis elementos, Ceva-se em minha carne, como um corvo, A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! (ANJOS, 2005, p.149) X Quando desceres Quando desceres ao Inferno, À solitária e ígnea dança, Onde a lembrança é o asco eterno, Ninguém guiará tua esperança. Quando no Paraíso entrares, Enorme, farto até dos céus, Não acharás irmãos nem pares, Só te guiarão os passos teus... Vieste ilegível a este exílio, 21 Coberto aos outros e a ti nu... Tu és teu próprio Virgílio Tua Beatriz também és tu. (BUENO, 2003, p.274) O maniqueísmo esteve e ainda está presente em nossa literatura. Lima (2001) o define como uma forma simplista de enxergar o mundo, dividindo-o entre o bem e o mal, e sobre a qual as pessoas precisam se posicionar. Os poemas a serem analisados contrapõem a visão maniqueísta com a antítese céu e inferno , para demonstrar que o homem não se pode definir apenas como bom ou mau, em uma situação ele poderá sem bom, em outra poderá ser mau. O eu lírico inicia o poema Vítima do dualismo (ANJOS, 2005, p.149) com pessimismo, pois ele, o homem, não consegue seguir apenas o bem, ou apenas o mal. Ele se sente miserável , dotado de células sombrias por tais antagonismos propícios a sua espécie. A sua dualidade é considerada uma antinomia para a sociedade, por esta razão o ser se sente só. Quando desceres (BUENO, 2003, p.274) também retrata a dualidade do ser humano. Esta é apresentada nas duas primeiras estrofes, nas quais uma estrofe se opõe a outra, e sugere que o homem ao escolher é obrigado a inventar sua própria lei (SARTRE, 1970, p.18), o que confere toda responsabilidade em seus atos. Ambos os poemas revelam a inconstância através de antíteses a inconstância do ser humano. Em Vítima do dualismo (ANJOS, 2005, p.149) a alma do homem é vista como biforme , ela oscila entre Céu e Inferno . A mesma idéia é apresentada em Quando desceres, no qual o eu lírico faz menção ao Inferno e ao Paraíso . Quanto ao fato de Céu e Inferno e Inferno e Paraíso estarem grafados com letras maiúsculas se deve a intenção dos poetas ao denotar que o homem é a sua própria morada. Se ele direciona suas ações sem desculpas, pensando em si e no coletivo, eis o Céu ou Paraíso , entretanto, se a pessoa inventa um determinismo ou dissimula a total liberdade do engajamento (SARTRE, 1970, p.19), ela está vivenciando a má fé e construindo seu próprio inferno. Os poemas deixam clara a responsabilidade do ser em suas escolhas (...) Criação (...) Feita dos mais variáveis elementos (ANJOS, 2005, p.149) / Só te guiarão os passos teus (BUENO, 2003, p.274). Responsabilidade que se confirma através do existencialismo sartreano, a liberdade do homem é indício de sua superioridade em relação aos demais seres. Portanto, se o homem foi lançado no mundo, ele é responsável por tudo que faz (SARTRE, 1970, p.9). 22 Vítima do dualismo (ANJOS, 2005, p.149), em sua última estrofe, serviu-se da símile ao comparar o dualismo do ser com a ação do corvo ao alimentar-se do seu oposto, animais mortos, sendo um necrófago. Além disso, o corvo representa uma versatilidade de mitos em todo mundo, ele é visto como ser sinistro, sábio, misterioso e criativo, assevera Quintino (2007). O pessimismo também se faz presente neste poema, como se pode notar nas expressões células sombrias, gula negra, corvo, monstruosa , pois o contraste do ser é considerado uma simultaneidade ultra monstruosa , visto que a moral laica prega que o ser é bom ou mau. Todavia, como o homem tem ciência de que ele não pode apenas escolher ser bom, então, ele se desespera, e desesperar-se significa perceber que só podemos contar com o que depende da nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que tornam a nossa ação possível (SARTRE, 1970, p.12). Em Quando desceres (BUENO, 2003, p.274), o desespero também é evidenciado pelos versos: À solitária e ígnea dança (...), Não acharás nem irmãos nem pares (...) e Vieste ilegível a este exílio (...). O ser se sente desamparado, não há mais desculpas ou sinais que possam orientá-lo em suas escolhas, ele é o que ele próprio projeta, como sugerem os dois últimos versos do poema: Tu és teu próprio Virgilio / Tua Beatriz também és tu . Ao contrário do aconselhamento exposto por Dante em Divina Comédia, nos versos acima se reafirma a ideia que fundamenta o existencialismo sartreano o homem nada mais é do que aquilo que ele se faz (SARTRE, 1970, p.6), ele se projeta. E para se construir, o desespero é necessário, visto que: a própria angústia que constitui a condição de ação (p.8). O ser que é livre para escolher se desespera e esse desespero compõe a ação humana. Nos dois poemas há a predominância de verbos no tempo presente do modo indicativo (és, é, carrego, absorvo), o que de acordo com Goldestein (2005) permite inferir que os poemas retratam um acontecimento real e acompanham a concepção existencialista de que a ação se dá no presente. Também não há sugestão de quietismo, pois nos poemas, a maior parte dos verbos é de ação, expressam dinamismo. As rimas estão a serviço da temática do texto, em ambos os poemas elas são cruzadas, demonstrando como as escolhas do ser podem variar, ora uma, ora outra. 23 CONCLUSÃO A filosofia existencialista sartreana recebeu e ainda recebe inúmeras críticas, porém, sem a contribuição de Sartre, tanto a filosofia quanto a literatura teriam lacunas. É notório em seu legado filosófico e literário que objetivo de seus estudos era, sem dúvidas compreender a existência a partir da supremacia humana. Se muitas outras filosofias contestaram a concepção sartreana, o fato é que a maioria também buscava respostas acerca da existência, tanto que a literatura pode representar a continuidade dessas respostas, pois é no texto literário que a filosofia se desenvolve a fim de atingir o público e despertar a reflexão. Nos poemas analisados, sem a contribuição da filosofia existencialista sartreana poderia haver outra compreensão das temáticas, as justificativas para as comparações, metáforas, antíteses e outros recursos lingüísticos. Através do aparato teórico, porém, foi possível fazer uma escolha e refletir sobre duas épocas distintas, o século XVIII Augusto dos Anjos e o século XXI Alexei Bueno. Ambos os poetas dialogam como artífices polêmicos, como pensadores e como gloriosos poetas. Poetas que trabalham a linguagem a serviço do dizer, e dizendo fazem poesia. Seus textos são tão próximos, que poderiam ser complementos um do outro. A semelhança nos textos analisados não é vista como cópia, pois são diálogos poéticos frutos da intertextualidade dentro do mesmo gênero. Tanto que, apesar de muitos fatores semelhantes, há também os meios peculiares, como a forma do texto, Augusto dos Anjos optou pelo soneto, enquanto Alexei Bueno, nos poemas analisados, opta por estruturas livres. Ler esses poemas pela filosofia existencialista sartreana revela a riqueza da poética brasileira, a preocupação acerca da reflexão sobre a existência, a sagacidade destes poetas que ora ou outra se referem às obras clássicas, mostrando o quanto conhecem de literatura. O que demonstra a compreensão da importância da tradição e da responsabilidade da poesia do agora, marcada pela multiplicidade de tendências e de veiculação (SOUZA, 2009, p.16). 24 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANJOS. A. Eu e outras poesias. São Paulo: Martin Claret, 2005. BRANDÃO, R. de O. BRUNA, Jaime. A poética clássica de Aristóteles, Horácio, Longino. São Paulo: Cultrix: 1997. BRUNEL, P. PICHOIS, C. ROUSSEAU, A. M. Que é literatura comparada? São Paulo: Perspectiva, 1995. BUENO. A. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2003. CARA, S. de A. A poesia lírica. São Paulo: Ática, 1998. GOLDESTEIN, N. Versos, sons, ritmos. São Paulo: Ática, 2005. KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. Trad. Lúcia Helena França Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974. LEÃO. R. de S. Entrevista de Alexei Bueno. Disponível <http://www.revista.agulha.nom.br/r2souza04c.html> - Acesso em: 10 de agosto, 2009. em: LIMA. R. de. O Maniqueísmo: o bem, o mal e seus efeitos ontem e hoje. Revista Espaço Acadêmico, ano I, n. 07, dez. 2001. MOUTINHO, L. D. S. Sartre existencialismo e liberdade. São Paulo: Moderna, 1995. PENHA, J. da. O que é existencialismo. São Paulo: Brasiliense, 2004. REIS, Z. C. Literatura comentada Augusto dos Anjos. São Paulo: Abril Educação, 1982. SARTE, J.P. O Existencialismo é um humanismo. Trad. Rita Correia Guedes. São Paulo: Nova Cultural, 1987. 3ª ed. SOUZA. P. A. da S. O Opifício poético Roliminiano: As múltiplas sobrevidas da palavra. 2009. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande. QUINTINO. C. Corvo. Disponível em: <http://www.claudiocrow.com.br/corvo_home.htm> Acesso em: 10 de ago. 2009.