Reflexões sobre os parâmetros curriculares nacionais da Língua estrangeira do ensino Fundamental do ponto de vista psicolingüístico Adriana Soares* Resumo: Refletir sobre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) da Língua Estrangeira Moderna (LEM) é tarefa obrigatória de qualquer professor de línguas, nesse caso, a língua inglesa (LI). A partir dessa reflexão, colocar em prática a proposta pedagógica deste documento sob um olhar psicolinguístico é tarefa essencial para que o processo de aprendizagem nas escolas brasileiras passe a ser construído não apenas no ensino da língua enquanto ‘forma’, mas sim, um ensino articulado com a diversidade de temas transversais, a cultura da língua-alvo e, principalmente, a busca pela compreensão e a comunicação em inglês enquanto língua internacional. Palavras-chave: língua estrangeira moderna – psicolinguística – ensino/aprendizagem – língua inglesa – PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais). processo Abstract: Reflecting about the ‘Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) da Língua Estrangeira Moderna (LEM)’ is a compulsory task to any foreign language teacher, in this case, the English language. From that reflection, putting the pedagogic proposal of this document in practice under psycholinguistic view is an essential task for learning process in Brazilian schools to be built not only based on language ‘form’ but on its teaching articulated to diversity of transversal subjects, its culture and mainly the search for comprehension and communication in English as an international language. Key-words: modern foreign language – psycholinguistics – teaching/learning process – English language - NCPs Introdução O presente artigo tem como objetivo apresentar uma reflexão dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Estrangeira no Ensino Fundamental, do ponto de vista psicolinguístico. Essa reflexão parte dos aspectos centrais do documento PCNs, é sustentada pelos fundamentos da Psicolinguística e a sua relação com a atividade dos profissionais de ensino da linguagem e aborda a caracterização do objeto de estudo: a Língua Estrangeira (LE). Apresentam-se, também, aspectos que justificam a inclusão da LE no ensino das escolas brasileiras e aspectos que se relacionam com a situação anterior à Lei de __________________ * Professora de Língua Inglesa e Estágios da Faculdade Cenecista de Osório/FACOS. Mestre em Letras – Lingüística Aplicada/PUCRS. 77 Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) bem como o quadro atual do ensino de língua estrangeira no Brasil. PCNs da LE & Psicolinguística Com a implementação dos PCNs, em 1998, a situação do processo de ensinoaprendizagem da LE toma novas dimensões, pois este documento procura ser fonte de referência para discussões e tomada de posição sobre ensinar e aprender LE nas escolas. Os temas centrais do documento dos Parâmetros Curriculares Nacionais são a cidadania, a consciência crítica em relação à linguagem e os aspectos sociopolíticos da aprendizagem de Língua Estrangeira. Eles se articulam com os temas transversais, notadamente, pela possibilidade de se usar a aprendizagem de línguas como espaço para se compreender, na escola, as várias maneiras de se viver a experiência humana. Para a viabilização desses temas no documento é essencial caracterizar duas questões teóricas de base: • uma determinada visão da linguagem, isto é, sua natureza sociointeracional; • o processo de aprendizagem entendido como sociointeracional. Esses dois pilares são essenciais na sustentação do processo de ensinar e aprender línguas: uma visão teórica da linguagem e da aprendizagem. Portanto, o aspecto fundamental dessa reflexão é de que forma a linguagem, a língua estrangeira e o seu processo de ensino-aprendizagem devem ser considerados pelos professores. Da mesma forma, como o conhecimento teórico e as áreas de aplicação da Psicolinguística podem concorrer para melhorar as atividades pedagógicas dos professores de LE. De fato, a Psicolinguística tem contribuído bastante para o aprendizado de línguas estrangeiras, pois é a ciência que estuda as influências recíprocas estabelecidas entre os parceiros da comunicação através da mensagem. “Essas influências são instanciadas através de alterações estruturais da 78 mensagem e de mudanças nos estados psicológicos e cognitivos dos interlocutores”. (Poersch, 1992, p. 45). Ela também abrange seu uso como arte: a utilização de traços linguísticos e na estruturação da mensagem pelo falante /escritor com o objetivo de provocar alterações nos estados psíquicos e ou cognitivos do ouvinte/leitor. Nessa perspectiva psicolinguística, considera-se o processo de ensinoaprendizagem como processo de comunicação verbal em que o aluno reage aos estímulos verbais do professor e, ao mesmo tempo, o seu comportamento mantém-se intimamente condicionado pelas modalidades de estímulos do professor. Este, por sua vez, adéqua suas ações e corrige suas próprias intervenções de acordo com as respostas dos alunos. Além disso, defende-se a idéia de que o professor de língua estrangeira deve redimensionar o seu entendimento sobre linguagem, suas funções e usos, sobre ensino de língua estrangeira como elemento de comunicação e integrado ao conjunto de conhecimentos que deverão compor as situações de aprendizagem do aluno. Da mesma forma, os alunos de Licenciatura do Curso de Letras, futuros professores de línguas, que devem considerar a LE não apenas como instrumento, mas como objeto de estudo. Os profissionais ligados à educação se utilizam da linguagem para informar, para transmitir conhecimento, para chamar a atenção, para manter a concentração, gerar expectativas e curiosidade e, principalmente, para contagiar e motivar os alunos para a aprendizagem. A relação da linguagem com a educação torna-se ainda mais forte quando se trata do ensino de línguas. Professores de língua estrangeira lidam com um código linguístico desconhecido do aprendiz; precisam usar uma linguagem que favoreça um ambiente descontraído e relaxado para que ele possa apreender a língua nãonativa da forma mais natural possível. Os aspectos mais relevantes referem-se às técnicas de motivação e de conscientização das diferenças e semelhanças entre os códigos. 79 No que diz respeito à relação entre motivação e êxito na aprendizagem de LE, pressupõe-se que esta só ocorre pela modificação de estados cognitivos, em que o aprendiz, por motivos individuais, é impulsionado à atividade necessária para aprender. Partindo dessa concepção, é necessário que o professor desperte a atenção do aluno, estimule seu interesse pela aula e pela língua nova que está conhecendo. Ao ensinar língua estrangeira, é essencial ao professor que ele tenha uma compreensão teórica do que é linguagem, tanto do ponto de vista dos conhecimentos necessários para usá-la quanto em relação ao uso que o aluno faz desses conhecimentos para construir significados no mundo social. Conforme Poersch (1976), a linguagem é um fato social no seu princípio e no seu uso principal. Então, o uso da linguagem tanto verbal quanto visual é essencialmente determinado pela sua natureza sociointeracional, pois quem a usa considera aquele a quem se dirige ou a quem produziu o enunciado. De acordo com os PCNs, existe uma estreita relação entre língua estrangeira e língua materna na aprendizagem, visto que o processo sociointeracional de construir conhecimento linguístico e aprender a usá-lo já foi percorrido pelo aluno no desafio de aprender sua língua materna. Quando a criança chega à escola, já é falante competente de sua língua para os usos que se apresentam nos seus espaços sociais. Neste percurso, o aluno já aprendeu usos da linguagem com os quais pode não ter se familiarizado em casa e, na escola, começa a construir conhecimento de natureza metalinguística nas aulas de língua materna. Isso lhe possibilita pensar, falar, ler e escrever sobre sua própria língua. Enfim, o aluno já sabe muito sobre sua língua materna e sobre como usá-la, ou seja, sabe muito sobre linguagem. Em linhas gerais, o que a aprendizagem da LE vai oportunizar, segundo os PCNs, é: 80 • aumentar o conhecimento sobre linguagem que o aluno construiu sobre sua língua materna, por meio de comparações com a língua estrangeira em vários níveis; • possibilitar que o aluno, ao se envolver nos processos de construir significados nessa língua, se constitua em um ser discursivo no uso de uma língua estrangeira. Entende-se “ser discursivo” como o sujeito capaz de se relacionar com outros e de agir no mundo social por meio da palavra em língua estrangeira em várias habilidades comunicativas. Nesse sentido, Goethe tinha razão ao dizer que “aquele que não conhece nenhuma língua estrangeira não conhece verdadeiramente a sua própria”. (Vigotski,1998,p.137). Conforme os PCNs, o processo de construção de significados de natureza sociointeracional acontece pela utilização de três tipos de conhecimento: • Conhecimento sistêmico é aquele que envolve os vários níveis da organização linguística: os conhecimentos léxico-semânticos, morfológicos, sintáticos e fonético-fonológicos. • Conhecimento de mundo é aquele que se refere ao conhecimento convencional que as pessoas têm sobre as coisas do mundo. Fica armazenado na memória em blocos de informação. Para o aluno de LE, a ausência de conhecimento de mundo pode apresentar grande dificuldade no engajamento discursivo, principalmente se não dominar o conhecimento sistêmico na interação oral ou escrita na qual estiver envolvido. Por outro lado, essa dificuldade será diminuída se o assunto já for do conhecimento do aluno. • Conhecimento da organização textual é aquele que se refere à organização da informação em textos orais e escritos. Em geral, os textos orais e escritos podem ser classificados em três tipos básicos: narrativos, descritivos e argumentativos. 81 No entanto, conforme Solé (1998), o interessante é que o aluno leia diferentes tipos de textos na escola, que conheça e se tenha contato com diversas estruturas de texto. Assim, os significados não estão nos textos; são construídos pelos participantes do mundo social: leitores, escritores, ouvintes e falantes. O uso da língua estrangeira parece estar, em geral, mais vinculado à leitura de literatura técnica ou de lazer. Acrescenta-se, também, que o ingresso em universidades e cursos de pós-graduação pressupõe o domínio da habilidade de leitura em LE. Portanto, a leitura atende, por um lado, às necessidades da educação formal, e, por outro, é a habilidade que o aluno pode usar em seu contexto social imediato. Além disso, a aprendizagem de leitura em língua estrangeira pode ajudar o desenvolvimento integral do letramento do aluno. A leitura tem função primordial na escola e aprender a ler em outra língua pode colaborar no desempenho do aluno como leitor em sua língua materna. PCNs priorizam a Leitura Para os PCNs de língua estrangeira, “a compreensão leitora é a fase em que o aluno tem de projetar o seu conhecimento de mundo e a organização textual nos elementos sistêmicos do texto. Com base no nível de compreensão previamente estabelecido, o professor capitaliza nas estratégias de leitura que o aluno tem como leitor em sua língua materna e nos itens lexicais e gramaticais semelhantes aos da língua materna e em outros itens sistêmicos diferentes, na dependência do nível de compreensão. É claro que para níveis de compreensão mais detalhada a familiarização com elementos sistêmicos diferentes da língua materna será necessária. É importante também que o aluno aprenda a adivinhar o significado de palavras que não conhece, por meio de pistas contextuais, da mesma forma que é essencial que aprenda a desconsiderar a necessidade de conhecer todos os itens lexicais para ler. São 82 importantes as estratégias de integração de uma informação a outra, o estabelecimento dos elos coesivos e a utilização de estratégias de inferências. “É crucial que o aluno aprenda a distinguir entre informações centrais na estrutura semântica do texto e os detalhes”. (PCN/LE, 1998, p.92) Partindo dos pressupostos acima, confirma-se de que a compreensão é o objetivo da leitura e de sua aprendizagem. Ela sofre influência de fatores que a favorecem de modo geral; entre eles destacam-se o conhecimento prévio que o leitor tem do assunto e da tipologia textual utilizada para o ensino. Nessa mesma perspectiva, Kleiman (1989) compartilha a idéia de que a compreensão de um texto é o processo que se caracteriza pela utilização do conhecimento prévio. O leitor utiliza na leitura o que já sabe, o conhecimento adquirido ao longo de sua vida. É mediante a interação de diversos níveis de conhecimento, que entram em jogo durante a leitura, que o leitor consegue construir o sentido do texto. Como são utilizados conhecimentos que interagem entre si, a leitura é considerada um processo interativo. De acordo com os PCNs, o processo de construção de significados resulta da combinação dos conhecimentos sistêmico, de mundo e da organização textual utilizados pelos indivíduos. Para Kleiman (1989), a compreensão em leitura só existirá pelo engajamento do conhecimento prévio, que é o resultado da interação de três aspectos: o conhecimento lingüístico, o conhecimento de mundo ou enciclopédico e o conhecimento textual. Refletindo sobre outro aspecto apresentado pelos PCNs acerca da importância de o aluno aprender a adivinhar o significado das palavras desconhecidas, através de pistas contextuais, e também, de não realizar uma leitura literal, reforça-se a idéia de que a leitura é um processo de construção do significado. Assim, é fundamental que o leitor não utilize o dicionário como uma ‘muleta’ e sim como recurso de confirmação de suas hipóteses durante a leitura. 83 Segundo Goodman (1976), o leitor tem um papel essencial, ele se torna elemento ativo que traz para o texto a sua própria bagagem cognitiva. Nesse sentido, a leitura passa a ser vista como um ato de construção e não de mera decodificação de sinais lingüísticos, que são apenas fatores que contribuem para a construção do sentido. Além disso, a leitura também é considerada como um jogo psicolinguístico de adivinhação. Conforme Smith (1989), o leitor utiliza-se de certas estratégias cognitivas para a construção do sentido, entre elas, a predição. Se o professor de LE também considera a leitura como processo psicolinguístico, então, ele também deve levar em conta a importância do uso de inferências. Nesse sentido, ele deve ter o conhecimento de que a inferência é uma estratégia geral de adivinhação. A inferência se aplica a todos os aspectos da leitura e a todos os sistemas de indícios: os leitores inferem informações grafofônicas (seqüências gráficas, correspondências entre os sistemas gráfico e fonológico da língua), informações sintáticas (marcadores-padrão, o leitor infere a estrutura profunda para poder chegar ao significado) e informações semânticas (experiências, conceitos e vocabulário próprios do leitor). Além dessas, inferem informações implícitas (referem-se àquele sentido que deve ser lido embora não esteja lido) e informações explícitas (referem-se àquilo que o escritor diz efetivamente). Portanto, o uso constante do dicionário durante a atividade de leitura por parte dos alunos de LE tem a grande desvantagem de interromper a continuidade da leitura. Neste sentido, sugere-se ao professor, enquanto mediador do processo ensinoaprendizagem, que direcione o aluno a fazer uso das pistas do contexto e a apreender o sentido geral da frase, do parágrafo, do texto, fazendo suposições. Por outro lado, somente quando persistir dúvida sobre determinada palavrachave, então, o aluno deverá procurá-la no dicionário para confirmar ou não 84 sua suposição. É essencial também que o professor ofereça aos alunos diferentes tipologias textuais bem como variedade de atividades orais e escritas que busquem a compreensão leitora, e não a tradução literal dos textos. O professor brasileiro de LE Nem sempre o professor de língua estrangeira no Brasil teve seu papel valorizado como educador e mediador do processo de ensino-aprendizagem. Por muitos anos, sofreu crescente desprestígio com relação à sua disciplina dentro dos currículos escolares. Os fatores que o levaram a essa situação estavam naturalmente ligados aos problemas da educação como um todo: a formação de professores, as condições de trabalho nas escolas, os problemas disciplinares ligados à motivação e atitudes tanto de professores quanto de alunos. Entretanto, na prática educativa, o professor preocupava-se especialmente com os aspectos estruturais do ensino da LE, na tentativa de levar o aluno ao domínio da língua e do sistema formal das quatro habilidades (ouvir, falar, ler e escrever), considerando o ensino centrado no professor e no produto final. Assim a LE nas escolas passou a pautar-se, quase sempre, apenas no estudo de formas gramaticais, na memorização de regras e na prioridade da língua escrita e, em geral, tudo isso de forma descontextualizada e desvinculada da realidade. No ensino de línguas no Brasil, como em outros países, às vezes, o professor não estabelece uma teoria a seguir. Na intenção de ser eclético, ele não considera importante definir o que entende por língua. Para ele, é indiferente se a língua é um conjunto de regras gramaticais ou um conhecimento adquirido ou aprendido; se o uso da língua é um processo de imitação ou de criatividade. O resultado, portanto, é uma mistura de técnicas de ensino para desenvolver objetivos muito amplos, teorias sem suporte e metodologias desgastadas. 85 A grande maioria das escolas brasileiras, por sua vez, desconsidera o papel formativo da língua estrangeira, delegando a ela apenas uma função extra ou ‘decorativa’, estabelecendo para seu ensino uma carga horária irrisória, salas de aula lotadas e utilização de recursos didáticos nada atualizados e pedagógicos, como: quadro, giz, dicionários incompletos e simplificados, e os mesmos aparelhos áudios-visuais: televisão, DVD e CD player. Aprender línguas é aprender maneiras diferentes de pensar, de criar, de sentir, de agir e de conceber o mundo em que vivemos. A partir dessa idéia, considera-se a língua como um meio dinâmico e ativo. Por outro lado, frequentemente, ao se colocar o ensino de LE nas escolas, se reduz todo um universo de possibilidades e recursos a uma tarefa irrelevante e sem sentido em relação à verdadeira natureza da aprendizagem de uma língua em uso. Os alunos não progridem na sua habilidade comunicativa, não aprendem nada de novo em termos de informação e não vêem a ligação entre o que realmente fazem para se comunicar e o que se realiza na aula. Conforme Costa (1987), a interação comunicativa e a negociação do significado são a própria aprendizagem. O ensino da LE deve ser visto enquanto processo e a competência comunicativa enquanto habilidade para pôr o discurso em ação e explorar o conhecimento de regras até se chegar ao consenso entre falante/escritor e ouvinte/leitor. Dessa forma, acredita-se que a prática educativa de línguas deve preocupar-se essencialmente com a dimensão formativa, que está estreitamente ligada ao desenvolvimento pelo aluno de estratégias de aprendizagem. Propõe-se, também, o abandono da concepção de língua como produto e, sim, da adoção de uma perspectiva que veja a língua enquanto discurso. Além disso, ressalta-se a importância do professor de LE, que é o responsável pelo ensino e que desempenha um dos papéis mais relevantes na construção da motivação e do conhecimento do aluno, fazendo com que este adquira certas atitudes e competências com relação à língua a ser apreendida. 86 Considerações Finais O documento PCNs da LEM no Ensino Fundamental já tem mais de dez anos, mas, infelizmente, está longe de ser referência de discussões ou base para o processo de ensino-aprendizagem nas escolas brasileiras. Percebemos ainda que o ensino da LE, na grande maioria das escolas, é voltado somente para tradução de textos e exercícios gramaticais descontextualizados. O professor precisa teorizar mais sobre temas relacionados ao seu objeto de estudo: linguagem, língua materna, língua estrangeira e psicolinguística. Esta ciência tem aprimoramento concorrido de constantemente práticas educativas para o desenvolvimento que possibilitem e resultados comportamentais e cognitivos positivos tanto na aprendizagem quanto no ensino da língua estrangeira. Em relação ao papel do professor de LE, é importante ressaltar sua função como único modelo da língua-alvo, capaz de transmitir conhecimento, informar, motivar, mas, acima de tudo, formar leitores de ‘mundo’ de diferentes culturas e códigos. Os PCNs enfatizam a relação entre a língua estrangeira a ser aprendida e a língua materna já adquirida. O aluno já domina a sua língua no uso e na estrutura e o professor pode fazer uso de suas semelhanças e diferenças a fim de facilitar a construção do conhecimento e significados da língua estrangeira dentro de um processo sociointeracional, ou seja, enquanto ouvinte, falante, leitor e escritor no mundo social. Tal processo de construção de significados faz-se, conforme os PCNs e outros estudiosos, a partir do uso de três conhecimentos: o conhecimento de mundo, que deveria ser bastante explorado pelos professores, já que a partir dele, o aluno pode criar hipóteses e fazer inferências sobre textos orais e escritos; o 87 conhecimento sistêmico, que poderia ser desenvolvido através de exemplos autênticos e contextualizados; conhecimento de organização textual, que, por meio da diversidade de textos orais e escritos, possibilitaria ao aprendiz conhecer mais sobre a língua. Embora os PCNs priorizem a habilidade lingüística da leitura ‘reading’, acreditamos que as outras habilidades, de ‘listening, speaking, writing’, não sejam negligenciadas, ou seja, que o professor oportunize atividades que desenvolvam tais habilidades, afinal, a língua estrangeira não pode ser vista como objeto compartimentado. Essa postura diante da prioridade à leitura talvez esteja vinculada à falta de profissionais competentes nessas habilidades ou, mais provavelmente, pela ausência ou ineficiência de recursos didáticos que possibilitem o desenvolvimento das quatro habilidades de forma integrada. Assim, os PCNs consideram o ensino da língua estrangeira como auxiliar no letramento do aluno em relação à sua língua materna. Incontestavelmente, a leitura é habilidade fundamental para a aprendizagem de qualquer objeto de estudo. Entretanto, é importante que o professor tenha claro que tipo de leitura deve ser desenvolvido. Normalmente, a leitura é vista como atividade, oral e silenciosa, e em se tratando de língua estrangeira, é evidenciada a tradução literal do texto, com uso demasiado do dicionário. Contudo, a leitura, tanto na língua materna e, principalmente, na língua estrangeira, deve ser a busca pela compreensão, pelo todo ou por partes dele (informações). Nesse momento, o leitor faz uso de seus três conhecimentos e estratégias já desenvolvidas na aquisição da primeira língua. Assim, cabe ao professor favorecer esse processo de construção do significado, o que já foi definido como um ‘jogo psicolinguístico de adivinhação’ e estratégias de predição e inferências. Nesse sentido, o professor passa a ser mediador e o aluno com suas habilidades cognitivas, dentro de um processo sociointeracional, passa a ser o centro. 88 No que se refere ao papel do professor de língua estrangeira, reforçamos que sua disciplina e metodologias empregadas nem sempre foram reconhecidas, tão pouco nos dias de hoje. O professor, na sua prática educativa, tem que enfrentar todo tipo de problema, tais como: a falta de formação continuada na sua área de estudo, condições insuficientes e ineficientes de trabalho, a indisciplina dos alunos e a desmotivação de ambas as partes. Por outro lado, o professor também deve fazer a sua parte, buscar teorias que fortaleçam sua prática, adotar metodologias de acordo com sua realidade escolar e atualizá-las e priorizar a leitura compreensiva sem negligenciar as outras habilidades lingüísticas. Portanto, o professor de LE também é parte integrante e fundamental nesse processo em busca pelo conhecimento, pois é ele quem oportuniza a aprendizagem de diferentes estratégias e competências, com as quais levará o aluno ao conhecimento e ao uso significativo da língua estrangeira. Referências BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: língua estrangeira. Brasília: MEC/SEF, 1998. COSTA, D. N. M. Por que ensinar língua estrangeira na escola de 1º grau. São Paulo: EPU,EDUC, 1987. GOODMAN, K. Reading, a psycholinguistic guessing game. In: SINGER, H. & RUDDELL, R. (Eds.). Theoretical models and processes of reading. Newar: International Reading Association, 1976. p. 497-508. KLEIMAN, A . 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