VIABILIDADE ENERGÉTICA DA PRODUÇÃO DE ETANOL HIDRATADO EM PEQUENA ESCALA Michel Brondani Professor Substituto do curso de Engenharia Química/Universidade Federal de Santa Maria [email protected] Priscila Marques Julio Acadêmica do curso de Engenharia Química/Universidade Federal de Santa Maria Ronaldo Hoffmann Professor Titular do curso de Engenharia Química/Universidade Federal de Santa Maria Resumo. Fatores edafoclimáticos impedem a produção extensiva de cana-de-açúcar no Rio Grande do Sul e a consequente instalação de grandes usinas de produção de etanol hidratado. No entanto, a produção pode ser elevada com a instalação de microdestilarias. Dentre outras questões, a avaliação da eficiência energética do processo produtivo torna-se importante a fim de ratificar a maior produção de energia do que seu consumo. A partir da análise da produção de etanol hidratado na microdestilaria da Universidade Federal de Santa Maria, foi calculada a eficiência energética global do processo. O resultado mostrou que a eficiência energética global do processo foi de 2,92 e 0,69, com e sem créditos da energia contida no bagaço, respectivamente. Logo, o processo é eficiente se considerado o potencial energético do bagaço. Palavras-chave: Etanol hidratado. Eficiência energética. Pequena escala. 1. INTRODUÇÃO Apesar de o Brasil ser um grande produtor, exportador e consumidor mundial de etanol, alguns de seus Estados são deficitários na produção do mesmo. É o caso do Rio Grande do Sul (RS), que não produz álcool etílico anidro e, embora produza álcool etílico hidratado, torna-se irrelevante quando comparada com a quantidade produzida pelo Estado de São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás, segundo Capeletto (2013). Atualmente, o RS produz, em média, 2,58 % do etanol consumido, de acordo com os dados da Tabela 1. Tabela 1. Porcentagem de etanol hidratado produzido em relação ao consumido no RS Ano (%) 2005 1,76 2006 3,58 2007 3,11 2008 1,94 2009 0,61 2010 2,41 2011 4,67 Fonte - Adaptado de Capeletto (2013) As condições edafoclimáticas do Estado impedem a produção agrícola extensiva e a consequente construção e operação de grandes usinas. No entanto, pequenas destilarias podem fornecer, em parte, este etanol hidratado a partir de cana-de-açúcar. No último zoneamento climático, constatou-se a possibilidade da produção de cana-de-açúcar para fins energéticos (etanol) confirmando que o RS possui áreas propícias ao cultivo de cana-de-açúcar. O projeto XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil “Desenvolvimento da cultura da cana-deaçúcar para o RS - Foco na produção de álcool”, convênio FINEP: 01.09.039.00 também estimula tal ação. Nesse sentido, torna-se oportuno verificar a eficiência energética do processo produtivo de etanol hidratado em pequena escala. Através do balanço energético é possível estabelecer os fluxos de energia de entrada (input) e saída (output) do processo e calcular o ganho líquido de energia pela razão output/input. A avaliação da eficiência energética determina se o sistema produtivo está contribuindo positivamente, ou seja, se é produzido mais energia do que é consumido, sendo conhecida como Retorno de Energia Sobre a Energia Investida ou EROEI (Energy Returned On Energy Invested). Quando o EROEI de um recurso é inferior a um, a fonte de energia não produz energia excedente, consumindo mais energia do que produzindo. Quando for igual a um, a produção de energia é nula, ou seja, não se consome mais energia do que se produz e tampouco se produz excedente energético, segundo Murphy & Hall (2010). Assim, o objetivo desse estudo foi avaliar a eficiência energética global do processo produtivo de etanol hidratado, em pequena escala, avaliando a etapa agrícola e industrial. 2. MATERIAIS E MÉTODOS O processo de produção de etanol hidratado avaliado se desenvolveu na microdestilaria instalada no Colégio Politécnico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), cuja capacidade máxima estimada fica entre 320-360 Letanol/dia e operando em regime batelada. Os dados foram calculados baseados nessa capacidade de produção, de acordo com a eficiência de extração do caldo da cana-deaçúcar e destilação do mosto. Foi assumido a operação em 6 dias na semana (25 dias/mês), por 6 meses ao ano, tendo em vista o ciclo produtivo da cana-de- açúcar. Os dados gerais estão dispostos na Tabela 2. Tabela 2. Dados de produção agrícola e industrial Produtividade (cana) 80 TC/ha Produtividade (etanol) 56,5 L/TC Produção de etanol 48.000 L/ano 1 Área requerida 10,62 ha 1 Estimada a partir da produtividade da cana-deaçúcar, do rendimento da extração e da destilação. Fonte - Autor A produção anual de bagaço e vinhaça é de 369.557,52 kg e 624.000,00 litros, respectivamente. Segundo BEN (2012), o poder calorífico inferior (PCI) do bagaço de cana com 50% de umidade é 8,916 MJ/kg e do álcool etílico hidratado é 26,371 MJ/kg (21,336 MJ/L). O PCI da vinhaça fica em torno de 0,0238 MJ/L. Os fluxos de entrada e saída da etapa agrícola e industrial foram quantificados a partir das informações obtidas em entrevistas nos centros de estudos da UFSM, no acompanhamento da operação na microdestilaria e na conversão por meio de índices mássicos e energéticos de trabalhos similares. O tempo de vida útil dos equipamentos foi respeitado. A forma de quantificação dos fluxos mássicos e energéticos foi similar ao estudo realizado por Brondani et al. (2014) referente à produção de biodiesel. A equação para o cálculo da eficiência energética (E.E) foi adaptada de Macedo et al. (2008) e apresentada na Equação (1). E.E Energia produzida Energia fornecida 1 A quantidade de índices mássicos e energéticos é bastante grande e não está apresentada. No entanto, a Tabela 3 apresenta, em termos qualitativos, as entradas e saídas consideradas no processo avaliado. XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil Tabela 3. Entradas e saídas do processo Etapa Agrícola Fertilizantes (P2O5, K2O, N) Calcário Herbicida Inseticida Água Trator (1 unidade), Arado (1 unidade) Diesel Mudas de cana-de-açúcar Etapa de Transporte da cana-de-açúcar Trator (1 unidade), Reboque (1 unidade) Diesel Etapa Industrial Eletricidade Água Lenha Insumos Construção Predial Moenda (1 unidade) Tanque decantador (1 unidade/500 L) Tanque fermentador (3 unidades/2.000 L) Tanque de armazenamento (2 unidades/100 L) Tanque de armazenamento (2 unidades/1.000 L) Tanque de armazenamento (2 unidades/6.000 L) Bomba (2 unidades) Caldeira (1 unidade) Destilador (1 unidade) Fonte - Autor 3. Tabela 4. Total de energia fornecida (Input) e produzida (Output) Etapa Input (GJ) Output (GJ) Agrícola 192,00 Transporte 46,50 Industrial 1.240,00 Etanol 1.020,00 Bagaço 3.290,00 Vinhaça 14,90 Total 1.478,50 4.325,00 Fonte - Autor Ainda se verifica, através da Tabela 4, o alto potencial energético do bagaço, que apresentou 76,07 % da energia gerada no processo. O etanol hidratado apresentou 23,58% do total de energia produzida e a vinhaça não teve importância considerável. Tais resultados são importantes para estimular o uso do bagaço não só como alimento animal, como geralmente é feito, mas também como combustível na geração de vapor reduzindo o consumo de lenha. Em termos mássicos unitários, o PCI do etanol é cerca de 3 vezes maior que o do bagaço, no entanto, o total mássico produzido de bagaço é cerca de 10 vezes maior que o de etanol hidratado, o que representa grande potencial, quando quantificado energeticamente. A Figura 1 apresenta os resultados referentes a eficiência energética (E.E) do processo. RESULTADOS E DISCUSSÕES A energia final requerida em cada etapa e gerada no processo de produção do etanol hidratado é relatada na Tabela 4. Pela Tabela 4, é possível perceber que o maior requerimento da energia corresponde à etapa industrial, com 83,87% do total do input energético. Ainda que necessite de maior estudo, pode-se atribuir esse elevado requerimento energético ao fato do processo se desenvolver em batelada, com demasiadas paradas e acionamentos de equipamentos de alto consumo energético como a moenda, por exemplo. Figura 1 - Eficiência energética do processo Fonte - Autor XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil A E.E de 2,92 unidades pressupõe que para cada unidade de energia consumida são geradas 2,92 unidades, ou seja, um ganho líquido de 1,92 unidades. No entanto, considerando apenas os créditos de energia do etanol hidratado, o processo seria ineficiente, tendo em vista que haveria um déficit de 0,31 unidade de energia para cada unidade de energia consumida/introduzida no processo. Estudo semelhante foi realizado por Santos (2011), obtendo uma E.E de 5,00 unidades de energia (4,00 unidades úteis). A diferença para este estudo incide em fatores como escala de produção, diferença entre índices mássicos e energéticos adotados e a delimitação da fronteira do sistema analisada. 4. CONCLUSÕES Energeticamente, o processo global apresentou-se ineficiente se analisado somente a produção de etanol hidratado. Considerando o potencial energético contido no bagaço oriundo da etapa de moagem (ou prensagem), o processo se torna energeticamente viável, ou seja, é produzido mais energia do que é consumido de energia. Naturalmente, há que se considerar o bagaço e o seu conteúdo energético, pois pode ser usado como alimentação animal ou adubo (podendo desempenhar importante papel de deslocar os insumos químicos) e na queima em caldeiras para geração de vapor. Enfim, em um processo produtivo de etanol hidratado em pequena escala e em regime de batelada, seria relevante o dimensionamento da usina e dos equipamentos de forma a funcionar de acordo com um abastecimento de matériaprima já definido e seguro. Dessa forma, os equipamentos podem ser adquiridos e operacionalizados de acordo com a capacidade produtiva estabelecida, sem consumo excessivo de energia e sem ociosidade. Agradecimentos Aos funcionários e alunos do Departamento de Fitotecnia da UFSM e aos funcionários da microdestilaria da UFSM. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Ministério da Educação (CAPES) pela bolsa de incentivo financeiro à pesquisa. 5. REFERÊNCIAS BALANÇO ENERGÉTICO NACIONAL (BEN). Relatório Final - Ano Base 2011. Brasília, Brasil, 2012, 282 p. BRONDANI, M.; HOFFMANN, R.; MAYER, F. D.; KLEINERT, J. S. Environmental and energy analysis of biodiesel production in Rio Grande do Sul, Brazil. Clean Technologies and Environmental Policy. Vol. 5, p. 1-15, 2014. CAPELETTO, G. J. Balanço Energético do Rio Grande do Sul 2012: ano base 2011. Rio Grande do Sul, Brasil, 2013,194 p. MACEDO, I. C., SEABRA, J. E. A.; SILVA, J. E. A. R. Greenhouse gases emissions in the production and use of ethanol from sugarcane in Brazil: The 2005/2006 averages and a prediction for 2020. Biomass and Bioenergy. Vol. 32, p. 582-595, 2008. MURPHY, D. J.; HALL, C. A. S. Year in review - EROI or energy return on (energy) invested. Ecological Economics Reviews, Vol. 1185, p. 102-118, 2010. SANTOS, R. E. R. Análise da viabilidade energética e econômica da produção de etanol em microdestilarias. 2011. 128 p. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Energia) - Universidade Federal de Itajubá, Itajubá, 2011. XXVI CONGRESSO REGIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA EM ENGENHARIA – CRICTE 2014 8 a 10 de outubro de 2014 – Alegrete – RS – Brasil