PERCEPÇÕES DE EDUCANDOS/AS DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE A ÁFRICA* DENISE APARECIDA CORRÊA Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) Docente da Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho" (UNESP-Bauru) INTRODUÇÃO Observamos comumente na educação física escolar, o esporte eleito como conteúdo único das aulas, tornando-as circunscritas ao contexto esportivo da cultura estadunidense e/ou européia, em detrimento das potencialidades que podem ser exploradas ao propor a vivência de outras manifestações como jogos, brincadeiras, lutas, danças, oriundas da diversidade cultural de diferentes povos que construíram e constroem o Brasil, dentre eles os africanos e os indígenas. (GONÇALVES JUNIOR, 2007). Conforme propõe Freire (2008), não se trata da “justaposição de culturas, muito menos no poder exacerbado de uma sobre as outras, mas na liberdade conquistada, no direito assegurado de mover-se cada cultura no respeito uma da outra, correndo risco livremente de ser diferente, de ser cada uma ‘para si’” (p.156). Neste sentido, a educação física enquanto componente curricular da Educação Básica pode e deve propiciar a reflexão acerca da diversidade cultural oriundas das manifestações de diferentes povos e culturas, pois como mencionam os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs: A Educação Física permite que se vivenciem diferentes práticas corporais advindas das mais diversas manifestações culturais e se enxergue como essa variada combinação de influências está presente na vida cotidiana. As danças, esportes, lutas, jogos e ginásticas compõem um vasto patrimônio cultural que deve ser valorizado, conhecido e desfrutado. Além disso, esse conhecimento contribui para a adoção de uma postura não-preconceituosa e discriminatória diante das manifestações e expressões dos diferentes grupos étnicos e sociais e às pessoas que dele fazem parte (BRASIL, 1997, p.28-29). Assim, o presente trabalho teve início com a proposta de abordar a temática da diversidade cultural nas aulas de educação física, trabalhando os jogos africanos e afrobrasileiros, na perspectiva de promover aproximação com o universo histórico-cultural da * CORRÊA, Denise A. Percepções de educandos/as do ensino fundamental sobre a áfrica. In: VII Colóquio Internacional Paulo Freire – Paulo Freire: contribuição para a educação e cultura popular. 2010, Recife. Anais... Recife: Centro Paulo Freire/ UFPE, 2010. p.1-8. (CD-ROM – ISBN 9788563977007). África e respeito às diferenças etnoculturais. Como educadora, acredito na possibilidade de ensinar e aprender mutuamente e coletivamente, na perspectiva do falar com e não falar para ou sobre (Freire, 2008) aos/as educandos/as. Assim, torna-se fundamental partir do saber de experiência feito (Freire, 2008), ou seja, aquele saber que os/as educandos/as constróem a partir das experiências em seu mundo-vida, fazendo-se o diálogo imprescindível, até mesmo porque, podemos nos equivocar em nossas interpretações. Em acordo com Freire (2002), tendo como premissa a compreensão que os educandos/as não são receptáculos vazios a espera de serem preenchidos, realizamos investigação acerca dos saberes e dos conhecimentos que as crianças traziam de seu mundo-vida sobre a África, para a partir daí, construirmos os saberes de forma conjunta e dialogada. Este estudo teve por objetivo identificar a percepção que os/as educandos/as do ensino fundamental (ciclo 1) têm acerca do continente africano. Para tanto realizamos a seguinte questão: "O que é África para você?", cujas respostas foram apresentadas por meio de relato escrito e ilustração. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O estudo envolveu cinquenta e oito educandos/as na faixa etária de oito anos, pertencentes a 2ª série do ensino fundamental de uma escola da Rede Pública Estadual localizada na cidade de São Carlos/SP. No primeiro encontro destinado ao trabalho com a temática proposta, instigamos os/as educandos/as mencionando que o que iriam conhecer a partir daquele momento, partiria da participação deles em responderem a uma pergunta que seria escrita no quadro. Após ser entregue para cada educando/a uma folha de linguagem, explicamos detalhadamente que a resposta deveria ser redigida e ilustrada em uma folha constando o nome e a série. Desafiados com a atividade esperaram com muita curiosidade a tal pergunta, soletrando em coro cada palavra escrita no quadro e por fim lendo coletivamente em voz alta: "O que é África para você?". Na perspectiva de garantir registros genuínos, não realizamos nenhuma apresentação prévia do tema ou assunto aos/as educandos/as, os/as quais foram orientados/as a produzirem seus registros individualmente. De início, percebemos exclamações permeadas de alegria e contentamento, principalmente quando mencionamos que, posteriormente, teriam oportunidade de realizar uma apresentação coletiva, bem como diálogos acerca dos relatos. Recolhemos os registros a medida que finalizavam e somente quando todos já haviam sido entregues, comentamos que aqueles que quisessem poderiam apresentar para os colegas suas produções a partir da leitura das respostas e exibição das ilustrações. De início, poucos/as educandos/as se ofereceram, mas a medida que percebiam que os colegas que se apresentavam eram ovacionados com palmas, ou seja, que seu trabalho era elogiado e valorizado pela turma e pela educadora, todos se mostraram interessados em apresentar. Obviamente, não foi possível que todos se apresentassem em uma aula, portanto dedicamos mais um encontro para esse momento, que acreditamos terem sido muito proveitosos. A medida que ocorriam as apresentações, a educadora anotava em um caderno palavras mencionadas por eles para serem retomadas no diálogo coletivo, o qual foi realizado no terceiro encontro. Os relatos escritos foram submetidos à análise de conteúdo de natureza qualitativa (Gomes, 2004), na qual privilegiamos os elementos comuns contidos nos relatos, os quais foram agrupados em seis categorias. Cada categoria é apresentada juntamente com a quantidade de asserções, seguida de excertos dos relatos dos educandos/as correspondentes à respectiva categoria. Os excertos foram mantidos na versão original como foram redigidos pelos/as educandos/as, os quais não aparecem identificados nominalmente de modo a preservar a identidade dos mesmos. RESULTADOS E DISCUSSÃO A análise demonstrou que os relatos fizeram referência à África como: 1) Lugar selvagem e pouco habitado, categoria que apresentou maior número de asserções, totalizando cinquenta e seis, cujos relatos remeteram de um modo geral a ideia de África como lugar repleto de árvores e habitado por animais, como ilustram os trechos reproduzidos a seguir: “A África pra mim é um lugar onde vive animais selvagens (...)” (Educanda N) “É uma seuva, ondi tem muitos animais (...)” (Educando R) “Eu acho que a África é uma floresta (...)” (Educando K) “Para mim a África é uma floresta tem um monte de bichos (...)” (Educanda A) 2) Lugar pobre e perigoso, identificado em dezenove asserções cujas maioria dos relatos, alguns deles reproduzidos abaixo, relacionaram África à pobreza e miséria: “Pra mim a África é muito triste porque judiam deles. A cidade é pobre eles passam um pouco de fome (...)” (Educanda T) “É um lugar (...) onde vive os pobres (...)” (Educando O) “[...] são muito pobres, poucos de lá tem uma casa bonita, bastante comida.” (Educanda B) “[...] maior parte dos africanos estão desempregados e nem sempre conseguem sustentar sua família”. (Educanda A) “[...] são magrinhos, passam fome.” (Educanda D) “A maioria das pessoas da África vivem em barracos ou casas bem pequenas” (Educanda S) Ainda nesta categoria, foram elencados os relatos de educandos que se referiram à África como um lugar potencialmente perigoso para viver, como é possível notar nos trechos extraídos dos relatos dos Educandos “O” e “J”, respectivamente, ao destacarem que a África “É perigo (...)”, bem como um “[...] país muito bonito, mas acontecem muitas coisas ruins por exemplo: terremoto e acidentes.”. 3) Lugar paradisíaco, observado em dezoito asserções. Nesta categoria, ao contrário da anterior, ficou evidente concepções marcadas pela positividade, embora permeada pelo caráter idealizado. É possível que tal entendimento seja reflexo da sobreposição propagandista difundida pelos meios de comunicação, particularmente a televisão e os jornais, que se voltam a explorar a África como rota turística, principamente diante da proximidade da Copa de Mundo de Futebol de 2010, evento a ser realizado na África do Sul. Ilustram esta categoria os relatos reproduzidos abaixo: “A África pra mim é aventura (...)” (Educando L) “É aventura e diversão (...)” (Educando J) “Um lugar com areia e casas, tem lagos (...)” (Educanda P) “Um lugar muito bonito, lá também tem muita areia pura coqueiros, tem um lago cheio de peixinhos.” (Educando O) “É um paiz muito legal, é um lugar muito feliz.” (Educanda Q) “[...] tem cachuera, tem montanhas (...) tem areia” (Educando R) 4) Lugar culturalmente diferente, com dezessete asserções que evidenciaram os aspectos que diferem a África de outros lugares que conhecem. Ressaltam diferenças na culinária, moradia, língua ou idioma, costumes, bem como nos jogos e brincadeiras. Interessante observar que tais conhecimentos foram mencionados pelos educandos/as serem advindos em sua maior parte através de programas televisivos e filmes, e uma pequena parte transmitidos por familiares. Nenhum deles se reportou à escola ou alguns de seus professores como espaço e agentes deste processo de conhecimento. São ilustrativos desta categoria os seguintes relatos: “O que eu sei sobre a África é que eles falam diferente, eles conhecem coisas que a gente não conhece (...) eles sabem brincadeiras diferentes (...)” (Educanda D) “[...] tem várias pessoas que fala em outra língua, eles jogam jogos diferentes, cumidas diferentes (...) tem também casa meio diferente” (Educanda E) “Eles bebem sangue de vaca usam roupas diferentes da gente” (Educanda F) “[...] usam roupas diferentes e falam outra língua e os africanos fazem a comidas deles de um modo diferente e usam outros alimentos (...)” (Educanda H) 5) Lugar habitado só por negros e índios, que totalizou onze asserções. São ilustrativos desta categoria, os relatos que se reportaram à África como lugar habitado por negros ou “[...] onde tem só pessoas morenas (...)”, como menciona a Educanda H e outros colegas que relatam que: “A África para mim é um país de negros” (Educanda A) “A África para mim é um lugar onde vive negros” (Educanda M) “[...] Pessoas negras vivem” (Educanda T) “[...] é um povo neguinho que vive numa floresta” (Educando U) Foram agrupadas nesta categoria também os relatos que fizeram menção aos habitantes serem índios: “É um país indígena que os índios mora” (Educanda G), bem como que: “Na África moram muitos índios africanos” (Educando O) “[...] Indiu de variu tipos (...)” (Educando G) 6) Lugar de segregação racial e escravidão, encontrado em três asserções. Nesta categoria prevaleceu os relatos de educandos/as que demonstraram terem proximidade com conhecimentos acerca de segregação racial e de uma parte da trajetória histórica do povo africano. “Os africanos para mim já foram maltratados pelos brancos” (Educanda A) “[...] todas as pessoas brancas faziam os negros de lá escravos. Minha Bisa-avó me falou que as festas dos brancos não entrava pessoas negras. Felizmente hoje a escravidão não existe mais. Eu sou branca e tenho pessoas negras na família e com ORGULHO.” (Educanda B)” “[...] Eu sou negra, mais tem pessoas brancas eu não fico triste porque Deus que me criou” (Educanda V) Interessante ressaltar que as asserções referentes a essa última categoria, que traz em seu bojo o conhecimento acerca de um momento histórico significativo da África, foram de educandos(as) que explicitamente se reconheceram como descendentes de africanos em seus relatos e cujo conhecimento não foi originado na escola, mas no contexto familiar por meio da oralidade, como fez questão de destacar um dos educandos ao mencionar que tais conhecimentos foram originados em conversas com a bisavó. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise dos dados permitiu concluir que os conhecimentos dos/as educandos/as acerca da África de forma geral remetem à ideia prevalente nos meios de comunicação de massa que, quando não a associam exclusivamente à miséria e a fome, a colocam como a representação do exótico, em uma perspectiva folclorizada. Outro aspecto a ser observado é que o maior número de asserções indicou uma compreensão estereotipada da Àfrica ora a compreendendo como uma região inóspita, cujos habitantes, quando não são animais, se comportam como eles, vivendo de modo primitivo, ora como um lugar idealizado, repleto de belezas naturais relacionando à aventura e diversão. Por outro lado há a concepção associada a aspectos negativos, identificando a África como um lugar perigoso e carregado de sofrimento, principalmente em decorrência da fome e da probreza. Tais considerações evidenciam a necessidade de um trabalho compromissado da escola e dos/as educadores/as dos diversos componentes curriculares, dentre eles, a educação física em tratar de forma crítica os conhecimentos acerca de povos, como os africanos e indígenas, cuja história e riqueza cultural foram negados no processo de escolarização, bem como, sugerem refletir qual tem sido o papel da escola e dos/as educadores/as em assumirem a responsabilidade pela transformação e superação de concepções hegemônicas e discriminatórias ainda presentes na sociedade, na expectativa de que, desta forma, mais educandos/as possam se reconhecer e se dizer orgulhosos/as de suas raízes. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Brasília: MEC / SEF, 1997. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 15 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008. ______. Pedagogia do oprimido. 33 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. GOMES, Romeu. A análise de dados em pesquisa qualitativa. In: MINAYO, Maria Cecília de S. (org.). Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 2004. GONÇALVES JUNIOR, Luiz. A motricidade humana no ensino fundamental. In: I Seminário Internacional de Motricidade Humana: passado-presente-futuro, 2007, São Paulo. Anais... São Paulo: ALESP, 2007. v.1. p.29-35. Palavras-chave: Ensino Fundamental. Educação Física. África. [email protected]