Uma nova EJA: reorganização
curricular dos municípios
mineiros de Itabira e São Gonçalo
do Rio Abaixo
A área de Educação da Fundação Vale busca contribuir
para a melhoria da educação básica, com foco na
promoção de uma prática docente pautada nos princípios
da pluralidade
Fundação
Vale cultural e do respeito às diferenças.
Ação Educativa
Conselho Curador
Presidente
Vania Somavila
Conselheiros
Luiz Eduardo Lopes
Marconi Vianna
Zenaldo Oliveira
Antonio Padovezi
Alberto Ninio
Ricardo Mendes
Luiz Fernando Landeiro
Luiz Mello
Diretoria
Maria Machado Malta Campos
Luciana Guimarães
Michele Prazeres
Coordenação Geral
Vera Masagão Ribeiro
Coordenação da Unidade de EJA
Roberto Catelli Jr.
Concepção e texto
Ednéia Gonçalves
Conselho Fiscal
Michele Escoura
Presidente
Murilo Muller
Roberto Catelli Jr.
Conselheiros
Cleber Santiago
Benjamin Moro
Felipe Peres
Lino Barbosa
Vera Schneider
Fernanda Bottallo
Conselho Consultivo
Presidente
Murilo Ferreira (CEO Vale)
Conselheiros
Danilo Santos da Miranda (Diretor do SESC SP)
Dom Flávio Giovenale (Bispo de Abaetetuba)
Luis Phelipe Andrés (Conselheiro do IPHAN)
Paula Porta Santos (Historiadora e Doutora pela USP)
Paulo Niemeyer Filho (Chefe do Centro de Neurologia Paulo Niemeyer)
Silvio Meira (Presidente do Conselho Administrativo do Porto Digital)
Diretora Presidente
Isis Pagy
Diretor Executivo
Luiz Gustavo Gouveia
Gerência Geral de Relações Intersetoriais
Andreia Rabetim
Gerência de Educação
Maria Alice Santos
Andreia Prestes
Anna Cláudia D´Andrea
Carla Vimercate
Mariana Pedroza
Produção Editorial
Projeto gráfico e diagramação
Aeroestúdio
A Fundação Vale tem a Educação como um dos principais pilares de sua
atuação social, com base na premissa de que o ensino gratuito e de qualidade
é um direito de todos os cidadãos.
No âmbito da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o Brasil passou nas
últimas décadas por um processo de amadurecimento que provocou uma
transformação na compreensão sobre as questões centrais que envolvem essa
modalidade de ensino. Dentre elas, estão na linha de frente das ações a defesa
do direito de todos à educação ao longo da vida e a construção das identidades
de jovens e adultos como sujeitos de conhecimentos e aprendizagens.
Por isso, a Fundação Vale considera fundamental contribuir para a
estruturação da Educação de Jovens e Adultos nos municípios localizados nas
áreas próximas às operações da Vale. Com isso, aumentam-se as chances de
retorno aos estudos de pessoas que, por diversas questões sociais, evadiram da
escola regular. Além disso, educar para o fortalecimento do Estado Democrático
de Direito e para a construção de uma sociedade mais justa, equitativa e
democrática fazem parte dos objetivos da Fundação.
Esse material, fruto de um projeto desenvolvido nos municípios de Itabira
e São Gonçalo do Rio Abaixo em 2013 e 2014, construído em parceria com
a Ação Educativa, integra os esforços para o fortalecimento da EJA e se propõe a
oferecer subsídios aos professores e gestores na estruturação dessa modalidade
de ensino. A memória de todo o projeto, estruturada nessa publicação, contribui
para a reflexão dos profissionais de educação acerca das estratégias para a
superação dos desafios da EJA e, em consequência, para a construção de uma
escola mais democrática e aberta a todos os alunos.
Esperamos que o conteúdo aqui apresentado contribua para a ampliação
do entendimento sobre as especificidades da Educação de Jovens e Adultos
e, consequentemente, ajude no processo de fortalecimento dessa modalidade
de ensino em nosso país. Desejamos também que este material seja fonte de
apoio e inspiração para gestores e educadores na busca por novas estratégias
que levem à redução da evasão escolar e à desconstrução de estereótipos, por
meio de metodologias que valorizem sempre os saberes e as trajetórias pessoais
desses alunos.
Fundação Vale
2
Sumário
De início
5
Chegando a Minas Gerais
9
Vozes locais
15
Mapeando as demandas
27
Unindo esforços
41
Diálogo pelo Moodle
53
Publicações
57
Uma outra EJA é possível?
59
Fotos: Michele Escoura
Itabira.
Set. 2013.
Estátua do
Padre João em
São Gonçalo do
Rio Abaixo (ao
lado). Set. 2013.
De início
Construir uma organização curricular de forma participativa, em parceria com
professores e gestores de redes, que atenda à demanda de jovens e adultos em dois
municípios mineiros: este foi o principal objetivo do projeto, sobre o qual registramos aqui
o processo construído.
A Fundação Vale e a Ação Educativa assumiram o compromisso de conduzir o trabalho
no segundo segmento do Ensino Fundamental da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em
Itabira e São Gonçalo do rio Abaixo, acreditando na necessidade de ouvir, conhecer, dialogar
e criar conjuntamente uma proposta para a modalidade adequada aos sujeitos específicos
das redes municipais.
O ponto de partida de nosso trabalho foi a necessidade de criação de uma política
educacional específica para as demandas de pessoas jovens e adultas, considerando suas
experiências de vida e no mundo do trabalho. Acreditamos que pessoas jovens e adultas que
têm trajetórias já construídas não aprendem do mesmo modo que uma criança e, assim, a
escola de EJA deve estar preparada para colocar em prática um currículo específico para as
necessidades de aprendizagens de seus sujeitos, tornando-se cada vez mais autônoma em
relação aos modelos definidos para crianças e adolescentes.
Por isso, propomos criar uma escola nova, criativa e, principalmente, adequada aos
tempos e condições de vida de jovens e adultos. O material didático, o espaço da sala de
aula, a estratégia, as propostas de trabalho, nada deve ser igual ao que se faz com as crianças.
Precisamos nos colocar o desafio de criar uma outra escola em que jovens e adultos
sintam-se protagonistas de sua aprendizagem e não pessoas envergonhadas e acusadas
de estarem estudando fora da chamada “idade própria”. Não podemos esquecer que estudar
é um direito do sujeito em qualquer momento da vida. Levamos esses pressupostos para as
ações realizadas no projeto e trabalhamos a partir das seguintes estratégias:
•• realização de diagnóstico da realidade e das demandas educacionais dos municípios
(socioeconômico e de aprendizagem) para, com base nesses dados, dialogar sobre
um modelo de educação de adultos para o município;
•• caracterização do cenário e trajetória dos sujeitos envolvidos na ação educativa:
investigar quem são os alunos da EJA, quais são suas experiências de vida e seus
saberes prévios;
•• realização de encontros de formações presenciais mensais com educadores e
gestores para construir a proposta curricular de EJA, ao mesmo tempo em que
5
Fotos: Michele Escoura
Antiga casa de Carlos Drummond de Andrade em Itabira. Set. 2013.
Itabira. Set. 2013.
6
aprofundamos o nosso conhecimento sobre temas ligados à modalidade. Embora
tais processos de formação estivessem, em princípio, voltados aos profissionais da
educação de jovens e adultos de segundo segmento do Ensino Fundamental, os
profissionais de primeiro segmento e alfabetização e suas demandas específicas
foram também acolhidos no decorrer do projeto;
•• ampliação das ações educativas, via plataforma moodle, e criação de uma rede de
comunicação;
•• elaboração de sequências didáticas desenvolvidas pelos educadores, adequadas ao
público de cada município para aplicação em sala de aula.
O convite maior que fizemos a todos os professores e gestores municipais foi em defesa
do direito à educação como um direito humano, privilegiando a busca por uma educação de
qualidade, que possibilite a todos avançar na realização de seus objetivos e considerando a
EJA como espaço de afirmação de direitos em meio à diversidade de sujeitos.
Esta publicação é o registro dos dois anos do projeto em Minas Gerais e busca, a partir
da sistematização de todo o processo de ação educativa, consolidar-se como uma fonte de
inspiração para outras instituições ou redes de ensino. Nossa expectativa é que, com este
registro, nossa experiência em Minas Gerais na criação de uma política pública participativa
de EJA possa ser replicada em muitos outros lugares e por muitos outros sujeitos
comprometidos com o direito à educação de pessoas jovens e adultas.
7
Itabira. Set. 2013.
Foto: Michele Escoura
Chegando a Minas Gerais
Nossa chegada em Minas Gerais deu-se pela articulação entre a Fundação Vale, sua
equipe de Educação e as representantes comunitárias da Vale nos municípios de atuação.
O primeiro passo tomado foi o de aproximação das equipes de trabalho com as gestões
municipais de ensino e, nessas conversas iniciais, a ausência de uma rede municipal
de EJA de segundo segmento impossibilitou a participação de Santa Bárbara no projeto
de reorganização curricular.
Em seguida, a partir das conversas com as gestoras municipais de educação de Itabira e de
São Gonçalo do Rio Abaixo sobre as propostas de trabalho e as expectativas de reorganização
curricular, iniciamos as atividades com os professores e gestores de EJA das duas redes.
A primeira etapa foi a realização de diagnósticos sobre as realidades locais. Era
necessário, primeiramente, compreender os contextos sociais e educacionais dos dois
municípios para, então, orientar nossas atividades pedagógicas.
Nessa etapa de levantamento diagnóstico, contamos com duas ações fundamentais:
o levantamento de dados estatísticos e uma rodada de entrevistas com a comunidade
escolar de EJA.
Levantamento dos dados estatísticos
Os dados populacionais produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
(IBGE) no Censo 2010, os dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e do Cadastro
Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho compuseram
essa etapa de diagnóstico estatístico.
Dados do Censo 2010 puderam nos oferecer um panorama sobre a população geral dos
municípios; a escolaridade da população com 15 anos ou mais; a população que frequentava
a escola; o número de moradores que sabiam ler e escrever; a faixa etária da população e as
divisões populacionais por cor e raça.
Já os dados da RAIS e do CAGED puderam nos apresentar o cenário profissional de
Itabira e de São Gonçalo do Rio Abaixo: a flutuação de empregos formais nas diferentes áreas
de trabalho, as principais ocupações profissionais e os salários médios.
Esses dados serviram de base para a interlocução com as gestões locais e foram o
primeiro estímulo para a compreensão das demandas locais. A seguir, apontamos alguns
dos cenários encontrados.
9
Itabira
Conforme o Censo IBGE, Itabira tinha 109.783 habitantes em 2010. Desses, 85.892
tinham 15 anos ou mais. No que se refere à escolaridade da população, 49.946 (58%)
tinham completado o Ensino Fundamental e 35.946 pessoas (42%) com 15 anos ou mais
não completaram essa etapa de ensino. Ademais, desse conjunto de habitantes que não
concluíram o ensino fundamental, apenas 1.717 estão hoje estudando, ou seja, apenas 2%.
A demanda potencial de Itabira para o Ensino Fundamental (42%) é muito próxima da
média nacional (43%), ou seja, Itabira tem o mesmo desafio que o resto do país de aumentar
as oportunidades educacionais de jovens e adultos para que estes possam ampliar suas
oportunidades pessoais e profissionais enquanto cidadãos que têm a educação como um
direito garantido pela Constituição brasileira.
Gráfico 1. Demanda potencial de EJA em Itabira
120.000
109.783
100.000
85.892
80.000
60.000
49.946
35.946
40.000
20.000
1.717
0
População
15 anos ou mais
Concluíram o Ensino
Fundamental
Não concluíram o
Ensino Fundamental
Estão
estudando
Fonte: IBGE, Censo 2010
Gráfico 2. População com mais de 15 anos e Ensino Fundamental em Itabira
■ Concluiu o Ensino
Fundamental
42%
58%
Fonte: IBGE, Censo 2010
10
■ Não concluiu o Ensino
Fundamental
Gráfico 3. Demanda para a EJA no Ensino Fundamental em Itabira
2%
■ População com Ensino
Fundamental completo
■ Demanda potencial
40%
■ População matriculada na
EJA de Ensino Fundamental
58%
Fonte: IBGE, Censo 2010
Sobre o percentual de empregos formais na época do levantamento, o que
encontramos foi o seguinte cenário:
Gráfico 4. Percentual de empregos formais em Itabira em 2011
45,1%
■ Masculino
39,8%
■ Feminino
17,6%
8,9%
Extr. Mineral
15,1%
15,0%
10,6%
5,4%
6,7%
4,0%
2,6%3,0%
Ind. Transf.
Constr. Civil
Serv. Ind. UP
2,2%
Comércio
Serviços
Adm. Pública
1,6% 0,5%
Agropecuária
Fonte: Ministério do Trabalho, RAIS 2011
Gráfico 5. Admissões de emprego formal em Itabira em 2011
■ Extração Mineral
16%
■ Indústria de Transformação
23%
■ Construção Civil
2%
42%
10%
7%
■ Comércio
■ Serviços
■ Agropecuária
Adm. Pública
Serv. Ind. UP
Fonte: Ministério do Trabalho, CAGED 2011
11
Foto: Michele Escoura
Escultura em São Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
12
São Gonçalo do Rio Abaixo
São Gonçalo do Rio Abaixo tinha 9.777 habitantes em 2010, conforme o Censo. Desses,
7.442 tinham 15 anos ou mais. No que se refere à escolaridade da população, 4.496 habitantes
com 15 anos, ou seja, 61% da população, não havia completado o Ensino Fundamental até
2010. Do conjunto de habitantes que não concluíram o Ensino Fundamental, apenas 1381
estavam matriculados na EJA do município na época de coleta de dados, ou seja, apenas 3%.
Isso significa que 58% da população com 15 anos ou mais de São Gonçalo do Rio Abaixo
poderiam estar na escola e não estão, representando uma demanda potencial muito acima
da média nacional (43%). Tal quadro coloca um desafio ainda maior no município em relação
ao resto do país para garantir o direito à educação de pessoas jovens e adultas.
Gráfico 6. Público da EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo
12.000
10.000
9.777
8.000
7.427
6.000
4.496
4.000
2.931
2.000
0
População total
15 anos ou mais
Concluíram
o EF
Não concluíram
o EF
208
138
Estudam na EJA
Matriculados
na Escola Integral
Fonte: IBGE, Censo Demográfico, 2010
Gráfico 7. População com mais de 15 anos e Ensino Fundamental em São Gonçalo
do Rio Abaixo
■ Concluiu o Ensino
Fundamental
■ Não concluiu o Ensino
Fundamental
39%
61%
Fonte: IBGE, Censo Demográfico, 2010
1 Número de matrículas fornecido pela Escola Integral (E.I.) no momento da coleta de dados da pesquisa.
13
Gráfico 8. Demanda para a EJA no Ensino Fundamental em SGRA
3%
■ População com Ensino
Fundamental completo
■ Demanda potencial
39%
■ População matriculada na
EJA de Ensino Fundamental
58%
Fonte: IBGE, Censo Demográfico, 2010
E sobre o número de empregos formais na época do levantamento, o que encontramos
foi o seguinte cenário:
Gráfico 9. Números de empregos formais em SGRA
65,19%
■ Masculino
■ Feminino
32,7%
29,5%
15,10%
4,6%
0,48%
Extr. Mineral
3,8% 6,35%
3,94%
Ind. Transf.
Constr. Civil
6,1% 5,19%
Comércio
13,9%
9,5%
Serviços
3,75%
Adm. Pública
Fonte: Ministério do Trabalho, RAIS 2011
Gráfico 10. Admissões de emprego formal em SGRA em 2011
7%
■ Extração Mineral
13%
■ Indústria de Transformação
■ Comércio
8%
64%
3%
5%
■ Serviços
■ Agropecuária
■ Construção Civil
Adm. Pública
Serv. Ind. UP
Fonte: Ministério do Trabalho, CAGED 2011
14
Agropecuária
Vozes locais
Durante o período de uma semana, uma pesquisadora ficou responsável por percorrer
os dois municípios, coletando fotos, relatos e vídeos que pudessem compor o levantamento
inicial de dados de maneira mais qualitativa e privilegiando as vozes locais.
Ao todo, foram realizadas 13 entrevistas com secretárias municipais de educação,
gestoras escolares, professores e uma estudante. Além das entrevistas, foram realizados
dois grupos de diálogo com estudantes da EJA de segundo segmento. Todos os sujeitos
participantes foram informados que o teor da entrevista seria sobre a EJA no município
e suas relações com o ensino. Além disso, estavam informados que as conversas estavam
sendo gravadas e seriam transcritas posteriormente para manter a precisão de suas falas.
As entrevistas e os grupos focais, nessa etapa do projeto, cumpriram com o papel de
uma aproximação ainda maior com os sujeitos da EJA nos dois municípios e trouxeram
mais elementos para a equipe de formação orientar os trabalhos. Em Itabira, a entrada
recente de uma grande quantidade de estudantes jovens apareceu como uma das principais
questões levantadas, enquanto em São Gonçalo do Rio Abaixo, as dificuldades econômicas
e a necessidade de inserção precoce no mercado de trabalho apareceram como pontos
mais destacados para explicar os dados de evasão na EJA municipal. Em São Gonçalo do
Rio Abaixo, a necessidade de um concurso para professores efetivos da EJA e a experiência
de um trabalho curricular organizado por projetos interdisciplinares também foram temas
muito evidenciados nas falas. As conversas guiaram-se também pelas trajetórias pessoais,
as experiências em sala de aula e as expectativas para a educação de jovens e adultos.
A seguir, trazemos as vozes locais a partir de trechos selecionados das entrevistas
e conversas que subsidiaram nosso trabalho.
Questões da EJA nos municípios:
A gente estava falando sobre essa questão do jovem e o quanto, de certa forma, esses jovens
estão indo para EJA porque eles foram meio que afastados do ensino regular.
A gente ficou pensando nisso. Se a gente for pensar numa reorganização para EJA (e aí a
gente pensar na particularidade de Itabira, e quantos jovens tem na EJA de Itabira), talvez
a gente precisasse pensar também no quanto precisaria uma organização articulada para
o ensino regular também. (Gustavo Martins, Chefe do Departamento Técnico Pedagógico
de Itabira).
15
Fotos: Michele Escoura
Aula de matemática em São
Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
Ao lado, estudantes chegando
para mais uma noite de aula
em São Gonçalo do Rio Abaixo.
Set. 2013.
16
[Dificuldade na escola] Para mim é que tem muitas regras que eu acho que não era
necessário ter. (Estudante de EJA em Itabira).
Os alunos daqui são muito carinhosos, são de zonas rurais, sofridos, carentes mesmo
de atenção da gente. Então, eu não me sinto uma professora, eu me sinto, assim, uma
ajudadora deles, tipo como você fosse uma coordenadora. Quando eu vejo quem tá fora
digo ‘Por que você não está vindo à aula’, eu fico preocupada de verdade. Porque aqui o
índice de analfabetismo é muito alto, então eu vejo que eles perdem muita oportunidade.
Então, eu falo com eles: ‘Estudem para vocês poderem competir com os de fora, vocês terem
suas vagas aqui, conquistar os seus espaços, eu torço por vocês’. (Edilene Antônia Gomes,
professora em São Gonçalo do Rio Abaixo).
Aqui, na cidade, o índice de analfabetismo é muito grande. Como eu já falei para você, eu
cresci junto com eles quando eu vinha de férias, brincava com eles. Eram os avós, os pais,
os tios e eu não entendia, porque na época eu era muito nova, porque eles não estudavam.
Aí, depois, eu entendi porque Deus me mandou para cá. Aí, quando eu comecei a visitar
a família e conversar com as famílias, eu comecei a ver a grandeza dos problemas que
tinham. [...] quando eu cheguei, em 2005, eu me assustei muito, uma coisa que me assustou
muito foi que eu andava aqui na cidade e via muito jovem à noite nos botecos, nas ruas.
Falava: ‘Por que esses jovens estão todos na rua? Eles não estudam?’. Abandonaram a
escola, não deu certo com a escola regular pelo estado. Aí eu montei a proposta da EJA.
Eu lembro que, logo no primeiro ano da EJA, tinha 600 alunos, no primeiro ano. Na época,
eu concentrei aqui no recreio, onde ficava o Ensino Fundamental e tinha um galpão enorme,
eu fiz divisória. (Gloria de Fátima Pessoa, Secretária de Educação de São Gonçalo
do Rio Abaixo).
Não tem um quadro fixo de professores, então o que acontece? Por não ter concurso, porque
há muito tempo não tem concurso, o quadro de professores da EJA, pelo que eu percebi no
ano passado, pelo relato da vice-diretora que estava aqui, e nesse ano o quadro está sempre
mudando. Por exemplo, tem dois professores efetivos aqui na escola. Então, o que acontece?
Com a mudança desse quadro não tem condições de a gente fazer um trabalho efetivo,
um trabalho disciplinar, um trabalho, vamos dizer assim, mais integrado. E o nosso medo é
que o ano que vem mude o quadro de professores. Então, o que começou a ser, vamos dizer
assim, trabalhado agora, a gente começou a dar formação agora, ano que vem pode não
ter ‘valor nenhum’ para os professores, porque eles vão estar totalmente perdidos se mudar
o quadro. (Leize Leão, Coordenadora Pedagógica em São Gonçalo do Rio Abaixo).
EJA e trajetórias pessoais
Eu morava próximo e, até os 15 anos, permaneci no colégio. Aí, comecei a trabalhar,
comecei a namorar, desempolguei da escola e virei a mente somente para o trabalho. Agora,
depois dos 35, decidi retomar. Fiquei um ano, afastei de novo, agora, graças a Deus, eu estou
disponível até o fim. Até porque também a empresa, na qual eu presto serviço hoje, exige um
17
pouco de escolaridade, aí eu estou tentando recuperar o tempo perdido. (Estudante da EJA
em Itabira)
A Educação de Jovens e Adultos me deu uma perspectiva da Educação, me ensinou coisas na
Educação que são muito particulares. Primeiro, porque, quando nós assumimos a Educação
de Jovens e Adultos lá atrás, na década de 90 no município, a gente tinha um determinado
público, que era o público mais adulto do que jovem. Era aquele público que tinha vindo
do processo de exclusão da escola anteriormente construído no Brasil e que chegou na
vida adulta: às vezes com a família construída, com experiência profissional, mas sem
processo de escolarização. E ele retorna para a escola pela necessidade e pelo sentimento
que a escolarização traz para a pessoa [...] Então, o que eu percebia naquela época, eram
profissionais que às vezes trabalhavam na Vale, donas de casa, pessoas que tinham uma
vida profissional e que retornavam à escola a noite, porque sentiam que a escola era uma
oportunidade de ficar um pouco mais completo com esse sentimento social, entende? Eles
se reconheciam sujeitos capazes, cidadãos bem resolvidos, mas ficavam com esse hiato, essa
situação que não estava bem resolvida. [...] Então, essa percepção e essa separação [entre
rigor científico e aplicação do conteúdo a uma vida social] eu construí lá na Educação de
Jovens e Adultos, foi a perspectiva daqueles alunos que me ajudou a construí-los. (Luciane
Maria Ribeiro da Cruz Santos, Secretária de Educação de Itabira).
Minha dificuldade é porque eu casei muito cedo, aí criei família, formei meus filhos, ajudei a
criar um neto e agora vou tentando realizar esse sonho meu. Eu fiz tudo, mas como eu tinha
na época 12 anos, eles não me deram diploma. Aí eu conheci o marido com 14 anos, casei e
aí foi. A história é essa aí, fui embora e agora voltei por incentivo do neto. (Estudante de EJA
em Itabira).
Eu não parei de estudar. Tô aqui porque na outra escola estava com muita bagunça. E os
professores ficaram muito irritados, aí mudei da escola. (Estudante de EJA em Itabira).
Então os mais novos trazem para escola muita revolta, muita frustação, muita coisa a
questionar e a escola, a gente... [...] Então é no meio dessa guerra que a gente tenta abrir
um espaço para trabalhar e trabalhar com coisa significativa. E eu acho que projeto é muito
significativo para o aluno, e para nós também. (Joelma das Graças Pereira, professora de
EJA em Itabira).
[Parei de estudar] por causa de trabalho mesmo. Eu sempre gostei de ser independente,
sempre gostei de ter as minhas coisas do meu jeito. Aí eu queria as minhas coisas, nós somos
nove filhos e para a minha mãe dar para todo mundo não tinha condições. Ela criou a gente
sozinha. Teve ajuda, assim, porque ela sempre foi uma mulher muito disposta, então ela
não tinha vergonha de pedir, já pediu esmola. Mas eu sempre queria as minhas coisas do
meu jeito. Aí parei de estudar para trabalhar. Aí trabalhava e o horário não coincidia com a
escola. Às vezes, eu chegava muito cansada, às vezes eu trabalhava à noite, por esse motivo
eu parei. (Patrícia Cruz, estudante de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo).
18
Foto: Michele Escoura
São Gonçalo do Rio Abaixo, com estátua do padre ao fundo. Set. 2013.
19
Pensar currículo na EJA
Na Educação de Jovens e Adultos o que nós estamos fazendo é a base, nós estamos
fazendo é a inserção do sujeito no mundo em que ele vive. Então, lá [na EJA] isso é pauta
mínima obrigatória. Quer dizer, o professor da Educação de Jovens e Adultos que se
preocupa com muito formalismo e que não traduz aquilo que se estuda, e que não traz
aquilo que se estuda para o contexto social do aluno, para a compreensão profunda
daquilo e para a melhoria da compreensão dele como sujeito no mundo, não está
cumprindo a sua ação. (Luciane Maria Ribeiro da Cruz Santos, Secretária de Educação
de Itabira).
No caso do adulto, essa abstração já não interessa tanto mais. Ele precisa de algo
concreto, de onde esse ensino dele vai se materializar. Então, acho que por aí passavam
grandes preocupações, são esses três pontos: Unidades da Rede, conteúdo e a utilização
do aprendido na vida prática. (Gustavo Martins, Chefe do Departamento Técnico
Pedagógico de Itabira).
Eu vejo que o nosso currículo está voltado para o ensino regular, totalmente voltado. Eu acho
que precisa mexer nisso aí e adaptar para a EJA. Tem que ser pensada uma metodologia
diferente, tem que ser pensado em, vamos dizer assim, conteúdos voltados realmente para
atender os alunos da EJA. Porque, às vezes, eu percebo que são coisas, assim, que eles não vão
ter interesse. Muitos aqui não almejam uma graduação, uma faculdade, então aquilo para
eles não vai fazer sentido e, às vezes, está deixando de ser trabalhado algo para o dia a dia que
ele vai usar. (Leize Leão, Coordenadora Pedagógica em São Gonçalo do Rio Abaixo).
Eu adoro trabalhar com projetos, eu sei que dá muito trabalho. Dá sim. Nossa, dá muito
trabalho, mas eu acho, no caminhar do projeto, naquelas duas, três semanas, ou até mais.
A gente vê muita coisa bacana e o grupo de mais idade percebe que o trabalho dele tem
valor, porque é valorizado. (Joelma das Graças Pereira, professora de EJA em Itabira).
Minha sala começou, se eu não me engano, com 40 pessoas. O que passou foi 5. Todo
mundo desanimou com a escola, foi indo e foi desanimando. Não com a matéria, nem nada,
os professores, graças a Deus, ensinaram muito bem. Mas é porque fica aquela coisa, assim:
ia, estudava, não tinha nada diferente, nada que inovasse na escola. Esse ano não, esse ano
tem o festival de inglês, tem esse negócio de talentos, coisas assim que estão animando a
gente a ir. As pessoas mais velhas vão e tudo mais. Mas os jovens, na realidade, os jovens
não querem só estudar, querem uma coisa diferente. (Patrícia Cruz, estudante de EJA
em São Gonçalo do Rio Abaixo).
Eles estão acostumados, a partir desse ano é que eles estão vendo que projeto também
é um modo de aprender. Até o ano passado eles não tinham essa visão não, eles achavam
que aula era quadro e giz. Mudou isso. (Josiane Fonseca Moreira Luz, professora em
São Gonçalo do Rio Abaixo).
20
Fotos: Michele Escoura
Apresentação de dança de estudante da EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo.
Nov. 2013.
Professora Josiane ensaia com estudantes a apresentação musical do projeto
de língua inglesa. Em São Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
21
Eu sei que na EJA a clientela é diferente. Eles precisam disso, eles precisam de projetos,
eles precisam do currículo voltado para temas. (Márcia de Castro Bicalho de Araujo,
coordenadora da área de projetos de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo).
Uma EJA que se quer
E eu acho que tudo muda devagarinho. Nada muda de uma vez. Eu falo que, primeiro, as
pessoas têm que ficar sensibilizadas. Quando ela fica sensibilizada, ela vai conscientizando.
Aí, da conscientização para a tomada de decisão para mudar, é difícil. Eu penso que é isso
que é o papel seu. Os professores da EJA já estão sensibilizados, já estão conscientizados
que esse currículo que eles têm não pode continuar, que não está levando ninguém a nada.
Agora vem a fase melhor, mas a mais difícil, que é sair da zona de conforto. (Gloria de
Fátima Pessoa, Secretária de Educação de São Gonçalo do Rio Abaixo).
[Uma educação] muito mais comprometida com o processo de transformação social
dessas pessoas, muito mais comprometida com o crescimento dessas pessoas, com a
inclusão dessas pessoas, com a perspectiva de que a sociedade melhora quando ela
oferece educação para todos. Mas, educação mesmo, e não simplesmente um processo de
escolarização formal que se cumpre minimamente com um conjunto de atividades e um
conjunto de avaliações e uma nota. Como algo muito mais reflexivo, muito mais profundo,
muito mais focado no desenvolvimento do sujeito, do indivíduo, que a pessoa humana
seja considerada ali e o profissional da educação é que tem esse papel. Então, a minha
perspectiva é que a formação dê elementos para essa significação. (Luciane Maria Ribeiro
da Cruz Santos, Secretária de Educação de Itabira).
Não tem quadra para poder fazer Educação Física. Isso aí é horrível... A gente faz Educação
Física num cubículo. É perigoso até a gente se machucar naquele lugar. Precisa ter espaço lá.
Uma estrutura melhor, pelo menos. (Estudante de EJA em Itabira).
Eu acho que deveria ter pessoas indo na escola dar entrevista, saber da profissão delas. Porque
a gente quer ser uma coisa, vamos supor, ‘ah, eu quero ser veterinário’, mas eu não sei o que é ser
um veterinário. Ter um profissional da área que vá lá falar ‘ser veterinário é isso’. Isso incentiva
a gente. Aí você vai ter certeza se é isso mesmo que você quer. ‘Ah, eu quero ser um advogado’,
vai lá um profissional que já está advogando, essas coisas assim. É muito importante, isso
incentiva muito. Eu acho que esses projetos aqui na escola têm capacidade de continuar e até
melhorar, incentivando muito os meninos a ficarem na escola por causa dos projetos. Eu gosto
muito desses projetos. Podia ter cursos. Eu sei que tem o ano letivo, mas podia, uma vez no mês,
vamos supor, na quinta: vou tirar essa quinta para fazer tal curso, ter vários cursos, cada sala
vai ter o seu curso... Vai incentivar muito as pessoas a irem, mais gente ir para a escola. Porque
tem muita gente que não quer ir porque tem o SENAI à noite, aí não dá para estudar, trabalhar
e fazer SENAI. Mas, se tem um cursinho na escola que vai dar um certificado, a pessoa vai estar
estudando e fazendo um curso, mas não precisa parar, deixar de fazer um para fazer o outro.
(Patrícia Cruz, estudante de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo).
22
Foto: Michele Escoura
Itabira. Set. 2013.
23
Fotos: Michele Escoura
São Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
Fachada do histórico Hotel Itabira. Set. 2013.
24
A maioria ainda pensa que aula de matemática é assim: o professor ensina uma vez lá
no quadro, faz um exercício, um desafio, uma coisa para chamar a atenção. Os alunos
prestam atenção, e todo mundo faz atividade. Não era assim na nossa época? Eu acho que
ensinar matemática não é isso. É além disso. Porque se o aluno não sabe questionar, não
sabe cooperar com o colega, ensinar, falar, ele não vai aprender. Então, quem passa no
corredor fala: ‘espera aí, é aula de matemática, mas está parecendo de música? Porque está
conversando?’. Mas está conversando sobre a aula, sobre o conteúdo. Está ensinando um ao
outro. [...] Hoje o desenvolvimento, a mudança de postura da pessoa é ir ao quadro e fazer
exercício, mesmo quando não está sabendo, quando tem dificuldade. Vai lá, tenta fazer,
sabe conversar com os colegas... Mudou totalmente o jeito de ser a vida, entendeu? Escola é
isso, eu acho. Não é só conteúdo, é transformar essas pessoas. Era uma pessoa tímida, agora
é uma pessoa que pode buscar um emprego melhor, então ele ganhou mais ainda. (Edilene
Antônia Gomes, professora de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo).
Projeto de vida da Patrícia, uma estudante da EJA
Foto: Michele Escoura
Ah, eu quero estar casada, na minha casa, assim, quero ter um filho só ou dois no máximo.
Não quero mais não, dá muito trabalho. Já casada, assim, eu quero continuar trabalhando
porque eu gosto. Eu acho que não vou conseguir parar de trabalhar quando estiver mais
velha. Trabalhando ainda, com minha casa, minhas coisas do meu jeito e estar passando
o que eu pude aprender para frente. (Patrícia Cruz, estudante de EJA em São Gonçalo
do Rio Abaixo).
Patrícia, de 19 anos, estudante da EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
25
Foto: Michele Escoura
Fachadas históricas de Itabira. Set. 2013.
Mapeando as demandas
Depois de levantar os dados estatísticos disponíveis e conversar diretamente com
gestoras, professoras e estudantes da EJA nas duas redes municipais, conseguimos ter um
panorama sobre alguns desafios que precisaríamos enfrentar na reorganização curricular.
Entretanto, era preciso ainda mais elementos para conseguir mapear as demandas
específicas dos sujeitos da EJA em cada localidade.
Como estratégias para o mapeamento, realizamos duas atividades: uma pesquisa
de perfil dos estudantes da EJA e um evento público com toda a comunidade local para
discussão sobre a modalidade nos municípios.
Pesquisa: perfil de estudantes da EJA nos municípios
Partimos da ideia de que era essencial conhecer a realidade local para construir um
trabalho mais significativo para os sujeitos envolvidos no projeto. Acreditamos também que
todo processo de aprendizagem se enriquece quando seus sujeitos são conhecidos e suas
demandas, valorizadas. Desse modo, como uma das atividades desenvolvidas nas formações
de Fundamentos da EJA, propusemos aos professores a adoção da prática de pesquisa sobre
o perfil de sua turma como um passo inicial para orientar suas atividades.
Então, como parte do processo formativo, criamos um instrumento de pesquisa para
mapear o perfil dos estudantes da rede de EJA em Itabira e em São Gonçalo do Rio Abaixo.
Assim, toda a equipe de trabalho, tanto externa como local, pôde conhecer o cenário atual
da modalidade nos municípios e identificar as demandas concretas de seus estudantes.
O instrumento de pesquisa constituiu-se de um questionário com questões abertas
e fechadas (múltipla escolha) voltadas para coletar as informações pessoais sobre os
estudantes: sexo; cor/raça; faixa etária; se mora na zona rural ou urbana; estado civil; se tem
filhos; se trabalha; quando começou a trabalhar; quantos dias e horas trabalha por semana;
ocupação; qual profissão gostaria de seguir; escolaridade dos pais; até quando estudou;
por que parou de estudar; quais as dificuldades para estar na escola e quais motivos para
retornar aos estudos; além de suas percepções e práticas sobre a leitura e a escrita.
Os questionários em Itabira foram aplicados por uma representante da equipe do
projeto em parceria com a gestão e os professores e, em São Gonçalo do Rio Abaixo, a equipe
interna da Escola Integral fez toda a aplicação.
Seguem alguns exemplos de resultados que encontramos.
27
Itabira
Gráfico 11. Alunos da EJA em Itabira por sexo e faixa etária, 2013
70,0%
59,1%
60,0%
■ Masculino
■ Feminino
47,6%
■ % Faixa Etária
50,0%
40,0%
34,5%
25,9%
30,0%
16,7%
12,1%
20,0%
6,9%
10,0%
24,1%
14,5%
14,5%
6,1%
4,5%
5,2% 3,0%
4,0%
0,0%
12-19
20-29
30-39
40-49
10,6%
6,5%
1,7%
50-59
1,7%
NR
0,8%
vazio
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em Itabira/MG, 2013
Gráfico 12. Alunos da EJA em Itabira por raça/cor e sexo, 2013
35,0%
30,0%
31,5%
29,0%
■ Masculino
■ Feminino
25,0%
20,0%
15,0%
12,9%
11,3%
10,0%
4,0% 4,8%
5,0%
2,4%
0,0%
Parda
Preta
Branca
NR
1,6%
0,8%
0,8% 0,8%
Indígena
Amarela
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em Itabira/MG, 2013
Gráfico 13. Alunos da EJA em Itabira por idade de início de trabalho e sexo
50,0%
30,0%
■ Masculino
40,0%
40,0%
27,0%
■ Feminino
32,0%
29,0%
20,0%
20,0%
14,0%
10,0%
7,0%
6,0%
0,0%
Antes dos 14
14-16
17-18
18+
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em Itabira/MG, 2013
28
Gráfico 14. Motivos para voltar a estudar em Itabira, 2013
10,4%
Por expectativas familiares
44,3%
Para adquirir mais
conhecimentos
75%
Para ter melhores
oportunidades
profissionais
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em Itabira/MG, 2013
Gráfico 15. Principais dificuldades para estudar em Itabira, 2013
■ Falta de tempo
18,5%
■ Dificuldade em conciliar
trabalho e família
24,2%
■ Falta de transporte escolar
5,6%
■ Falta de estímulo
29,8%
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em Itabira/MG, 2013
São Gonçalo do Rio Abaixo
Gráfico 16. Alunos da EJA em SGRA por sexo e faixa etária, 2013
35,0%
30,0%
25,0%
25,0%
20,0%
19,0%
■ Feminino
26,0%
21,0%
20,0%
3,0%
15,0%
10,0%
■ Masculino
29,0%
15,0%
13,0%
5,0%
6,0%
6,0%
2,0%
0,0%
15-19
20-29
30-39
40-49
50-59
60+
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo/MG, 2013
29
Gráfico 17. Alunos da EJA em SGRA por raça/cor e sexo, 2013
35,0%
30,0%
■ Masculino
31,5%
29,0%
■ Feminino
25,0%
20,0%
15,0%
12,9%
11,3%
10,0%
4,0% 4,8%
5,0%
2,4%
0,0%
Parda
Preta
Branca
NR
1,6%
0,8%
0,8% 0,8%
Indígena
Amarela
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo/MG, 2013
Gráfico 18. Alunos da EJA em SGRA por idade de início de trabalho e sexo
50,0%
40,0%
50,0%
■ Masculino
38,0%
■ Feminino
29,0% 28,0%
30,0%
20,0%
8,0% 10,0%
10,0%
13,0%
6,0%
6,0%
10,0%
0,0%
Antes dos 14
14-16
17-18
18+
NR
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo/MG, 2013
Gráfico 19. Motivos para voltar a estudar em SGRA, 2013
7,6%
Por expectativas
familiares
42,8%
Para ter melhores
oportunidades
profissionais
49,7%
Para adquirir
mais conhecimentos
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo/MG, 2013
30
Gráfico 20. Principais dificuldades para estudar em SGRA, 2013
■ Falta de tempo
■ Falta de estímulo
36,0%
57,0%
■ Dificuldade em conciliar
trabalho e família
7,0%
Fonte: Pesquisa de Perfil da EJA – Ação Educativa, Fundação Vale e equipe de EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo/MG, 2013
E o que fazer com esses dados?
Em Itabira e em São Gonçalo do Rio Abaixo a pesquisa identificou uma EJA
predominantemente formada por pessoas negras (auto identificadas como pardas ou pretas)
e trabalhadoras.
Em Itabira a presença de homens muito jovens é uma característica marcante da EJA no
segundo segmento: quase 60% dos estudantes do sexo masculino têm até 19 anos de idade.
Já em São Gonçalo do Rio Abaixo, o dado mais marcante é o grande número de mulheres
entre os estudantes das faixas etárias mais avançadas. Das mulheres na EJA do município,
67% delas têm mais de 30 anos.
Esses dados sobre faixa etária indicaram dificuldades um pouco diferentes entre os
estudantes dos dois municípios. Em Itabira, destacou-se um cenário de grande presença
de jovens na EJA, sendo que isso ocorre por um processo de exclusão dos jovens do ensino
regular. O desafio, então, é a necessidade de uma maior problematização do tema da
juventude e o acolhimento das demandas dos jovens na reorganização curricular.
Já em São Gonçalo do Rio Abaixo, o fato de a maior parte das mulheres retomarem
os estudos em idades mais avançadas se ligava muito com as falas ouvidas nas entrevistas
locais de mulheres que justificaram sua saída da escola para cuidar da família. Muitas, tendo
sido mães muito jovens, afastaram-se da escola e tiveram que esperar seus filhos crescer e
adquirir maior autonomia para poder retornar à escola. Tendo em vista ainda que as turmas
de EJA são oferecidas apenas em período noturno, quando nenhuma escola infantil está
aberta, muitas delas têm dificuldade em conciliar seus estudos com o cuidado da família e,
por isso, uma das recomendações levantadas pela pesquisa foi de ofertar EJA também
no período diurno, caso haja demanda de jovens mães em estudar no mesmo turno
que seus filhos.
Com esses dados, nos dois municípios, os cálculos de faixa etária revelaram uma
necessidade de reflexão sobre a temática de gênero: fosse para problematizar a expulsão
sistemática dos meninos do ensino regular e seu acolhimento na EJA, ou para levantar
as demandas específicas para as mulheres que, socialmente consideradas responsáveis
31
PESQUISA COM ALUNOS
Perfil da demanda pela
Educação de Jovens e Adultos
Perfil da demanda pela Educação de
Jovens e Adultos – Pesquisa com alunos
VIDA PROFISSIONAL
PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA
P.07) QUAL A SUA SITUAÇÃO ATUAL DE TRABALHO?
P.22) DE MANEIRA GERAL, COMO VOCÊ AVALIA A SUA
(Marque apenas uma resposta)
Orientações:
• Os estudantes devem responder às questões. Se for
necessário o professor ou um colega podem ajudar a
preencher da melhor maneira possível. É fundamental
que as respostas sejam o mais fidedignas possível.
• Antes de começar a preencher, faça uma
explicação cuidadosa do questionário. Se for
necessário, leia as questões coletivamente e deixe
um tempo para os alunos irem respondendo.
• Deve-se prestar atenção quando é permitido inserir
mais de uma resposta (Múltipla escolha) ou quando
se deve incluir uma única resposta.
•
•
•
Não é necessário nem indicado inserir o nome do
entrevistado no questionário.
Este trabalho de pesquisa pode ser considerado
uma atividade pedagógica relacionada à Língua
Portuguesa e também às áreas de Ciências Humanas
e Matemática. Trata-se de um trabalho de utilização
da língua escrita e também de pesquisa social.
Este é um trabalho de todos (professores, alunos,
gestão e comunidade) na busca da construção de
uma escola de EJA para todos.
Escola:
Município:
PERFIL
CAPACIDADE DE LEITURA? VOCÊ DIRIA QUE:
01
Estou trabalhando (contratado por empresa).
02
Sou autônomo/trabalho por conta própria.
01
Não sabe ler
03
Estou desempregado.
02
Lê com grande dificuldade
04
Estou aposentado.
03
Lê com alguma dificuldade
05
Sou dona de casa.
04
Não tem nenhuma dificuldade para ler
06
Trabalho em atividade extrativista.
05
Não sabe avaliar
07
Sou produtor rural.
08
Outra situação (vive de renda, recebe pensão, é inválido etc.).
09
Estou procurando emprego.
(Marque apenas uma resposta)
10
Não trabalho e não estou procurando emprego.
01
Não sabe escrever
02
Escreve com grande dificuldade
03
Escreve com alguma dificuldade
04
Não tem nenhuma dificuldade para escrever
05
Não sabe avaliar
(Marque apenas uma resposta)
P.23) DE MANEIRA GERAL, COMO VOCÊ AVALIA A SUA
CAPACIDADE DE ESCRITA? VOCÊ DIRIA QUE:
P.08) QUANTAS HORAS POR DIA VOCÊ TRABALHA?
(Marque apenas uma resposta)
P.01) SEXO (Marque apenas uma resposta)
01
Masculino
02
01
Feminino
01
Branca
03
Parda
Preta
04
Amarela
05
horas por dia
01
Zona rural
03
Comunidade indígena
02
Zona urbana
04
Comunidade quilombola
P.24) DE MANEIRA GERAL, COMO VOCÊ AVALIA A SUA
CAPACIDADE DE FAZER CONTAS? VOCÊ DIRIA QUE :
(Marque apenas uma resposta)
P.10) SE VOCÊ TRABALHA OU JÁ TRABALHOU, COM QUE IDADE
P.04) SUA CASA ESTÁ LOCALIZADA EM: (Marque apenas uma resposta)
P.05) ESTADO CIVIL
VOCÊ COMEÇOU? (Marque apenas uma resposta)
01
Não sabe fazer contas
01
Antes dos 14 anos
02
Faz contas com grande dificuldade
02
Entre 14 e 16 anos
03
Faz contas com alguma dificuldade
03
Entre 17 e 18 anos
04
Não tem nenhuma dificuldade para fazer contas
04
Após 18 anos
05
Não sabe avaliar
P.25) UTILIZA O COMPUTADOR, AINDA QUE DE VEZ EM
P.11) QUAL CARGO/PROFISSÃO/ATIVIDADE PROFISSIONAL
01
Casado
03
Divorciado/separado
VOCÊ EXERCE ATUALMENTE?
QUANDO (INCLUSIVE NO CELULAR)? (Marque apenas uma resposta)
02
Solteiro
04
Viúvo
01
Não trabalho atualmente
01
Sim
02
Que tipo de trabalho você faz?
02
Não
P.06) FILHOS?
01
Não tenho filhos.
02
» PULE PARA PERGUNTA 29
Tenho filhos. Quantos?
1
32
Trabalho
dia(s)
Indígena
P.03) IDADE |___|___| anos.
13051-questionario_alunos_AF3.indd 1
02
P.09) QUANTOS DIAS POR SEMANA VOCÊ TRABALHA?
P.02) RAÇA/COR (Marque apenas uma resposta)
02
Não trabalho
6
2
Partes do instrumento de pesquisa.
6/7/13 9:41 AM
13051-questionario_alunos_AF3.indd 2
6/7/13 9:41 AM
13051-questionario_alunos_AF3.indd 6
6/7/13 9:41 AM
Fotos: Michele Escoura
Aplicação da pesquisa
de perfil em Itabira. Set. 2013.
33
pelo cuidado da família, se afastaram gradualmente da escola. Dados tais contextos
locais, os resultados da pesquisa puderam também ser incorporados às discussões que,
posteriormente, foram feitas na formação referente a relações de gênero.
Outro dado muito importante levantado pela pesquisa foi a constatação de que os
estudantes da EJA nos dois municípios são pessoas envolvidas no mundo do trabalho. Dos
estudantes da EJA em Itabira, 69% das mulheres e 59% dos homens começaram a trabalhar
antes mesmo dos 16 anos; em São Gonçalo do Rio Abaixo, foram 66% delas e 79% deles.
Tais dados reforçaram ainda mais a orientação do projeto em garantir ao tema do mundo
do trabalho grande presença na reorganização curricular. A sugestão foi que os professores
aproveitassem os conhecimentos de seus alunos no universo do trabalho para a organização
de suas aulas.
Além dos dados sobre o perfil geral, levantamos também questões sobre as
motivações e dificuldades dos estudantes. Nosso objetivo era identificar quais elementos
na implementação da política de EJA nos municípios poderiam ser ainda mais aprimorados
para se combater os recorrentes índices de evasão na modalidade. Das motivações e
das dificuldades dos estudantes da EJA para estar na escola, indicamos a cada gestora
municipal um conjunto de recomendações não só de alterações curriculares (pedagógicas
e de organização escolar), mas também de investimentos em infraestrutura e ações
articuladas com outros serviços públicos (como serviços de transporte e de inserção
profissional).
Por fim, dada a preponderância da população negra nas duas redes de ensino,
apresentou-se como primordial um cuidado especial com os temas relacionados à
diversidade e à desigualdade racial. Com a possibilidade de se apoiar ainda mais na Lei
que estabelece o ensino obrigatório da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes
públicas e particulares da educação (Lei 10.639/03), intensificamos o trabalho nessa área
e apoiamos as redes de ensino com uma formação específica sobre relações raciais.
Ao final de todas as tabulações e análises dos dados, os resultados e as
recomendações foram levados para reuniões com a secretaria municipal de educação de
cada um dos municípios e fundamentou conversas também com gestores e professores
nas formações.
Evento público: “Diálogos com a EJA”
A segunda estratégia de levantamento de demandas foi a realização de um evento
público em cada município. Os estudantes, professores, gestores escolares, secretárias de
educação, prefeitos e toda a população foram mobilizados para participar de um debate
público sobre a EJA no município: as questões, as dificuldades e as demandas.
Cada município ficou responsável pela ampla divulgação do evento e a Fundação
Vale, em articulação com as operações locais da Vale, organizou o ambiente do debate.
Em Itabira e em São Gonçalo do Rio Abaixo, os eventos ocorreram em anfiteatros abertos
ao público e contaram com apresentação das instituições que compunham o projeto;
exposição de dados levantados na fase de mapeamento estatístico nos municípios e na
pesquisa de perfil dos estudantes; apresentação de atividades pedagógicas e atrações
34
Foto: Michele Escoura
artísticas dos estudantes da EJA e, principalmente, com uma conversa entre o público
e a equipe do projeto sobre os contornos da EJA atual e as demandas necessárias para
aprimorá-la.
A maior parte do público em Itabira foi composto pelos próprios estudantes da EJA.
Por isso, a interlocução sobre as demandas locais ficou restrita ao olhar daqueles que já
estão na rede de ensino, e pudemos levantar poucas questões sobre como aumentar o
interesse dos 40% da população que poderia estar na EJA e não está. Já em São Gonçalo
do Rio Abaixo, o evento atingiu um público mais diversificado e conseguiu trazer questões
importantes sobre as necessidades de quem poderia estar na EJA. Além disso, o evento
ganhou bastante evidência local ao trazer para o debate o prefeito e o vice-prefeito do
município.
Entre todos os ganhos importantes para o projeto de reorganização curricular,
destacamos o papel político do evento público: para além do aprofundamento das
discussões sobre as necessidades locais para a EJA, o evento possibilitou que a modalidade
fosse colocada em foco, que se assumisse publicamente nos municípios o compromisso
com a educação de adultos e, principalmente, que a população local pudesse ter voz e
participação nas escolhas políticas dali decorrentes. Foi o momento da EJA e seus sujeitos
(ou potenciais sujeitos) ganharem centralidade frente aos gestores públicos municipais
e reivindicarem seu espaço.
Evento público “Diálogos com a EJA” em Itabira. Nov. 2013.
35
Fotos: Michele Escoura
Evento público
“Diálogos com a EJA”
em Itabira. Nov. 2013.
36
Fotos: Michele Escoura
Evento público “Diálogos com a EJA” em São Gonçalo do Rio Abaixo. Nov. 2013.
37
Fotos: Michele Escoura
Evento público “Diálogos com a EJA”
em São Gonçalo do Rio Abaixo. Nov. 2013.
38
Evento público “Diálogos
com a EJA” em São Gonçalo
do Rio Abaixo. Nov. 2013.
39
Unindo esforços
Trabalho em conjunto
Desde o início das atividades, cada passo tomado na execução do projeto foi realizado
a partir de muita interlocução e negociação. Sendo realizado por diferentes instituições e
redes de ensino, e ainda contando com uma extensa equipe interna, o projeto demandou
um trabalho conjunto e articulado para que as diferentes perspectivas e interesses pudessem
se alinhar em busca do objetivo comum: a reorganização curricular.
Ao todo, envolvemos uma equipe externa aos municípios com a participação de:
•• coordenações das instituições parceiras;
•• coordenações pedagógicas;
•• formadoras de temas e áreas;
•• elaboradores de conteúdo para as publicações;
•• especialista e EAD para Moodle;
•• assessoria financeira;
•• equipe editorial (revisora, diagramadora e gráfica);
•• consultoria em estatística para análise de dados;
•• especialista em avaliação de letramento e numeramento;
•• pesquisadora de campo;
•• aplicadores de questionários.
Formações presenciais por temas e áreas de conhecimentos
Ao longo dos dois anos de projeto, contamos com uma equipe de profissionais que
acompanharam o processo formativo dos professores, tanto de forma presencial quanto
a distância.
Como acontece na grande maioria dos municípios brasileiros, os professores que
atuavam na educação de jovens e adultos nos dois municípios do projeto não eram docentes
exclusivos da modalidade e não contavam com formação inicial específica para EJA. Assim,
uma estratégia utilizada para mobilizar o corpo docente dos municípios na reorganização
curricular foi criar um processo de formação de temas e áreas de conhecimentos conectados
à EJA.
No primeiro ano e início do segundo ano, o ciclo básico de formações envolveu todos
os professores de EJA das redes de ensino. Todos juntos, independentemente de suas
41
áreas específicas de atuação, os educadores discutiram e aprofundaram os conhecimentos
sobre os fundamentos de uma educação específica para sujeitos jovens e adultos; o
letramento e o numeramento, como perspectivas de um aprendizado de linguagens
e de matemática baseado nas práticas sociais dos sujeitos; as Ciências Naturais, vistas
a partir de uma perspectiva do letramento científico e sua relação com experiências
concretas, e as Ciências Humanas como um campo de afirmação dos direitos dos jovens
e adultos à educação. Ao final de cada módulo de formação de área, os docentes também
desenvolveram atividades propostas pelos formadores, de modo que a conexão entre as
discussões temáticas eram transpostas para atividades práticas, acompanhadas a distância
por meio da plataforma Moodle.
Além disso, o grupo formado pelos docentes compôs também as formações sobre os
temas de diversidade de sujeitos da EJA: o mundo do trabalho foi destacado pela formação
de Educação Profissional; a diversidade geracional na formação de Juventude na EJA e
as desigualdades de gênero e raça, nas formações de Relações de Gênero e de Relações
Étnico-Raciais.
No segundo ano de trabalho, os professores se dividiram em cinco grupos a partir de
suas áreas específicas de conhecimento (linguagens, matemática, ciências naturais e ciências
humanas) e alfabetização. Nessa etapa do projeto, a cada ida da equipe de formadores
à Itabira e a São Gonçalo do Rio Abaixo, os cinco grupos desenvolviam a pauta a partir dos
prismas específicos das áreas. Os objetivos do trabalho desenvolvido foram:
•• estabelecer os fundamentos gerais de EJA para cada uma das áreas;
•• identificar, nas práticas dos docentes, os princípios firmados e, ao mesmo tempo;
•• propor novas práticas para sua atuação em sala de aula.
Desse ciclo específico de formações, um conjunto de materiais e sequências didáticas
foram produzidos pelos próprios professores que, com o acompanhamento dos formadores,
iniciaram a reorganização curricular a partir de suas práticas cotidianas.
A seguir, listamos os principais pontos de discussão trazidos pelas diferentes formações.
Fundamentos da EJA
•• O que são Necessidades Básicas de Aprendizagem?
•• Propostas para a educação de pessoas jovens e adultas a partir de diagnósticos
de necessidades básicas de aprendizagem singulares
•• Compreendendo as necessidades específicas de grupos e realidades locais
•• Relação entre a escola e a comunidade
•• Gestão escolar que inclui a EJA
•• Relação entre professor e aluno como base para o processo pedagógico
•• Processo de ensino e aprendizagem voltado ao direito à educação dos sujeitos
da EJA
•• Currículo específico para pessoas jovens e adultas
•• Formação de um corpo docente específico para EJA
•• Repensando processos de avaliação
42
Fotos: Carolina Moraes
Formação em
Fundamentos
da EJA em Itabira.
Jul. 2013.
Material de
formação em
Letramento.
Jul. 2013.
43
Letramento
•• Multiletramentos e multiculturalismo na sala de EJA
•• As práticas sociais de leitura/escrita e o conceito de letramento: por que leitura
Fotos: Michele Escoura
e escrita devem ser compromisso de todas as áreas?
•• Gêneros do discurso relacionados a seus contextos de produção
•• Gêneros de texto e letramento
•• Desenvolvendo capacidades de leitura
Formação em Letramento em Itabira. Maio. 2014.
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Numeramento
•• Ensinar e aprender matemática
•• Quem tem medo de matemática?
•• Lembranças das aulas de matemática
•• Mundo atual – exigências educativas
•• Instrumentos de pesquisa para produzir conhecimento
•• Desenvolvimento do pensamento e do raciocínio lógico
•• Numeramento e convergências entre as diferentes áreas
•• A matemática nas práticas sociais cotidianas de pessoas jovens e adultas
Ciências Naturais
•• A área de ciências e o letramento
•• Alfabetização ou letramento científico
•• Reorganização curricular das Ciências Naturais na EJA
•• Natureza da ciência
•• Linguagem científica
•• Aspectos sociocientíficos
•• Investigação e sistematização
Ciências Humanas
•• EJA e direitos humanos
•• O significado dos direitos humanos para os sujeitos da EJA
•• Sujeitos da EJA e seus lugares sociais
•• O ensino da área de ciências humanas a partir dos sujeitos
•• Articulação entre os fundamentos da EJA e as ciências humanas
•• Processos históricos e geográficos locais no currículo de EJA
•• Contextualização, seleção de conteúdos e avaliação em ciências humanas
Educação profissional
•• Reflexão acerca da concepção de formação profissional
•• O que entendemos sobre Educação Profissional Social e como podemos viabilizá-la?
•• Como articular a EJA e a educação profissional?
•• Análise do catálogo de Educação Profissional de Ensino Técnico e GUIA FIC
•• O que é um Catálogo de Educação Profissional Social e suas possibilidades de
execução
•• Indicação por parte do grupo de eixos tecnológicos que possam ser abordados para
uma proposta de formação dos sujeitos da EJA
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Fotos: Michele Escoura
Formação em Ciências Naturais em Itabira. Fev. 2014.
Formação em Numeramento em São Gonçalo do Rio Abaixo. Ago. 2013.
46
Fotos: Michele Escoura
Formação em Ciências Humanas em Itabira. Maio. 2014.
Formação em Numeramento em Itabira. Fev. 2014.
47
Foto: Carolina Moraes
Formação
em Numeramento em
São Gonçalo do Rio
Abaixo. Ago. 2013.
Foto: Michele Escoura
Foto: Michele Escoura
Formação do grupo de 1o Segmento
em Itabira. Maio. 2014.
Formação em Numeramento em Itabira. Fev. 2014.
48
Juventude
•• Juventude e Juventudes: levantamento das percepções dos professores acerca da
presença dos/das jovens na EJA
•• Exposição dialogada sobre a condição juvenil e a situação dos/as jovens brasileiros/as
(e da localidade)
•• Problematizando as representações sobre os jovens
•• Problematizando os sinais que os jovens, por meio de suas expressões,
particularmente culturais, narram e relatam sobre um cotidiano e uma experiência
marcados por contradições e desigualdades
•• Discussão: “Por que os jovens incomodam?”: os descompassos e desafios que
permeiam a relação dos/das jovens estudantes com a escola
Relações de Gênero
•• Diferenças e diferenciações
•• O que é gênero?
•• Variedade humana
•• Feminização do magistério
•• Diferenças e desigualdades
•• Desigualdades em Itabira e em São Gonçalo do Rio Abaixo
•• Violência de gênero
•• Gênero e educação
•• Gênero e EJA
•• Como podemos ajudar?
Relações Étnico-raciais
•• Relações raciais no Brasil: o fio da memória
•• Raça, etnia, racismo... do que se trata?
•• Racismo, preconceito e discriminação racial
•• Eu quero ver quando Zumbi chegar
•• Quilombos, quilombolas... Valeu Zumbi!
•• Quilombos em Minas Gerais
•• Fim da escravidão oficial... ou Pra que discutir com madame?
•• Relações raciais no Brasil após 1888
•• Educação e relações raciais
•• Diversidade e Direito à Educação
•• Mas o que são ações afirmativas?
•• EJA e Relações raciais
•• Fundamentos da EJA e pedagogia antirracista
•• A Juventude negra em Itabira ... as mulheres negras em São Gonçalo do Rio Abaixo
•• Enfrentando o racismo na EJA em Itabira e em São Gonçalo do Rio Abaixo
•• Novos campos: laicidade e intolerância religiosa
49
Fotos: Michele Escoura
Formação em Letramento em
São Gonçalo do Rio Abaixo. Fev. 2014.
50
Formações específicas por áreas de conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências
Humanas, Ciências Naturais e Alfabetização)
•• Estabelecendo os pressupostos por área
•• Identificar o grau de apropriação dos pressupostos da EJA por parte dos professores,
suas práticas e desafios frente ao processo de ensino e aprendizagem dos jovens
e adultos
•• Acompanhamento presencial nas salas de aulas
•• Organização dos eixos temáticos por área de conhecimento, considerando os
fundamentos trabalhados nas formações anteriores
•• Transposição dos pressupostos para a ação educativa: produção de sequências
didáticas e acompanhamento pedagógico
Paralelamente às formações com professores da EJA, um processo formativo específico
foi firmado com a equipe gestora de ambos os municípios do projeto. Questões relativas
à organização da estrutura e do espaço escolar, à inclusão da EJA no Projeto Político
Pedagógico e às novas abordagens pedagógicas específicas para a EJA foram fundamentais
para a pactuação de que a educação de jovens e adultos precisa ganhar novos fôlegos
que possam emancipá-la da relação direta com a educação regular. Os principais temas
apontados pelas formações com gestores são descritos a seguir.
Gestão
•• Diagnóstico (socioeconômico e de aprendizagem)
•• Caracterização do cenário e da trajetória dos sujeitos envolvidos na ação educativa
•• Princípios e bases da gestão democrática
•• Em que as experiências e discussões poderiam inspirar seu trabalho na escola?
•• Premissas para inclusão da EJA no Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola
•• Temas para formação dos professores da EJA
•• Adequação de espaço e rotina da unidade escolar
•• Participação da comunidade
•• Abordagem curricular da EJA
•• Demandas e papéis dos gestores na inclusão da EJA no PPP (direção/vice,
coordenação pedagógica e de projetos – se houver)
•• Valorização e divulgação dos conhecimentos dos alunos da EJA
51
E, por fim, embora tivéssemos a garantia de encontros mensais entre os profissionais
das redes de ensino e os formadores do projeto, a plataforma Moodle foi acionada também
para a interlocução a distância. Assim, no início de nosso processo formativo, uma conversa
específica sobre o ambiente virtual e o funcionamento da plataforma foi feita, tanto com
professores como gestores locais. Nessa formação sobre a plataforma Moodle, a profissional
especializada no ensino a distância proporcionou o suporte inicial para a utilização do
ambiente virtual.
Moodle
•• Apresentação do ambiente Moodle
•• Navegando pelas pastas e cursos de áreas
•• Bate-papo com o formador
•• Espaços de discussões temáticas
•• Materiais de referência para as formações
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Diálogo pelo Moodle
A plataforma em ambiente Moodle foi criada com o objetivo de servir como um canal de
comunicação entre os formadores e os professores e gestores escolares. A ideia era fazer do
ambiente virtual uma extensão do espaço formativo, onde atividades, experiências, dúvidas
ou sugestões pudessem ser trocadas. Como o acesso à plataforma não era obrigatório,
a tentativa dos formadores foi em fazer do ambiente virtual um espaço continuado das
formações presenciais.
Assim, durante as formações presenciais, as atividades eram apresentadas aos professores
e nas reuniões se estabeleciam os combinados de que as devolutivas deveriam ser socializadas
pela plataforma. Além disso, a cada nova postagem no Moodle, todos os professores, gestores
e formadores cadastrados recebiam notificações em seus e-mails pessoais, de modo a se
inteirarem das novidades e se motivarem a participar da discussão on-line.
No primeiro ano de atividades, após uma oficina específica para os educadores
experimentarem a ferramenta virtual, a plataforma atingiu seu maior nível de utilização
após a atividade de “Mapeamento das Experiências”, proposta pela formadora de
Fundamentos da EJA.
Imagem: aparência do ambiente virtual.
53
Com a proposta de que cada professor revelasse uma experiência de interação da
sua história com a geografia da cidade, a atividade provocou grande mobilização e uma
imensa quantidade de relatos. O mapa da cidade foi coberto de experiências pessoais dos
professores e gestores e, ao mesmo tempo, todo o grupo de formação experimentou um
momento de muito envolvimento pessoal. Dos relatos, montamos um mapa interativos dos
dois municípios onde todos podiam navegar pelas histórias uns dos outros2.
Embora no primeiro ano, a utilização da plataforma tenha sido intensa durante a
realização da atividade de mapeamento de experiências, no segundo ano de atividades,
o envolvimento no ambiente virtual se arrefeceu e o Moodle não conseguiu mais se
firmar como um meio de interação entre os professores e os formadores. Por mais que os
formadores continuassem levando atividades para o ambiente virtual, foram poucas as
respostas dos professores.
Desse cenário, duas considerações podem ser levantadas para explicar a queda de
interação a distância. Em primeiro lugar, percebemos que o envolvimento dos educadores
com o ambiente virtual estava muito relacionado ao conteúdo específico da atividade
proposta: enquanto eles se engajaram nas atividades que estavam baseadas em relatos de
experiências pessoais, as atividades em que era sugerida a produção de conteúdos para
as áreas de conhecimento das formações pareceram menos atrativas. Os comentários das
postagens na atividade de “memórias” indicavam um clima de interatividade pessoal tal qual
encontramos em redes sociais e, talvez por isso, a plataforma Moodle tenha se tornado mais
interessante. Em contrapartida, as atividades que exigiam um esforço maior de reflexão e
trabalho sobre os conteúdos das formações, propostas a partir do segundo ano de trabalho,
não criaram o engajamento que esperávamos.
Em segundo lugar, a virada de ano letivo e a entrada de novos professores e gestores
no grupo de formações quebrou parte do vínculo estabelecido pelo grupo no ano anterior.
A ruptura pode ter sido ainda agravada devido a dificuldades técnicas da plataforma, que,
no segundo ano, passou por reconfigurações de servidores e suspensões temporárias. As
dificuldades de operacionalização, as mudanças no grupo e as atividades menos voltadas
aos relatos pessoais, em nossa avaliação, podem ter sido as principais causas, assim, para
a dificuldade de comunicação pelo ambiente virtual no segundo ano. Em algumas escolas
havia também um acesso limitado à internet.
Dessa experiência com o uso de ferramentas virtuais para a comunicação a distância,
tivemos os seguintes aprendizados: oficinas específicas para o aprendizado sobre a
ferramenta são importantes para facilitar o uso de plataformas; quanto mais próximas as
atividades a distância estiverem da lógica de interação de redes sociais, mais chances há de
engajamento dos interlocutores; em casos de plataformas de formação em que o acesso não
é obrigatório, é mais seguro priorizar a produção de conteúdos e atividades que demandam
maior esforço de reflexão e criação em encontros presenciais e fazer do Moodle um espaço
mais de divulgação dos resultados.
2 O mapa pode ser acessado no endereço: http://goo.gl/0257xs.
54
Mapeamento de experiências em Itabira.
Mapeamento de experiências em São Gonçalo do Rio Abaixo.
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Fotos: Michele Escoura
Aplicação da pesquisa
de perfil da EJA em
Itabira. Set. 2013.
Jovens estudantes da EJA em aula, São Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
Publicações
Muito esforço de produção de materiais foi dispendido nesse processo, acreditando
que toda a produção de conhecimento pode ser potencializada caso seja registrada e
possibilitada a sua ampla divulgação. Assim, as atividades de execução do projeto contaram
sempre com um apoio editorial e equipes responsáveis em produzir materiais de apoio:
cadernos de formações com textos introdutórios, textos de referências e propostas de
atividades; análises sobre as pesquisas e avaliações realizadas no processo e as publicações
finais de culminância da reorganização curricular em cada município, além deste volume
de registro das memórias.
Abaixo, o conjunto final de publicações:
•• Caderno Didático – Fundamentos da EJA
•• Caderno Didático – Letramento
•• Caderno Didático – Numeramento
•• Caderno Didático – Ciências Naturais
•• Caderno Didático – Ciências Humanas
•• Caderno Didático – Educação profissional
•• Caderno Didático – Juventude
•• Caderno Didático – Relações de Gênero
•• Caderno Didático – Relações Étnico Raciais
•• Pesquisa com perfil da EJA em Itabira
•• Pesquisa com perfil da EJA em São Gonçalo do Rio Abaixo
•• Reorganização Curricular Itabira com Avaliação de Aprendizagens e sequências
didáticas produzidas pelos professores
•• Reorganização Curricular São Gonçalo do Rio Abaixo com Avaliação
de Aprendizagens e sequências didáticas produzidas pelos professores
•• Livro de memórias
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Fotos: Michele Escoura
São Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
Interior de igreja em São Gonçalo do Rio Abaixo. Set. 2013.
Uma outra EJA é possível?
Princípios curriculares
Construir uma proposta de Educação de Jovens e Adultos à altura dos desafios atuais
da modalidade exige das redes municipais de ensino o aprofundamento do conhecimento
acerca das características de cada localidade, dos grupos que ali residem e das relações
estabelecidas entre a comunidade, a escola, a cultura, a oferta e a demanda de EJA.
Exige também que os pressupostos dessa nova proposta estejam em consonância
com os princípios que inspiraram a política pública da EJA no Brasil. Assim, para construir
o processo de reorganização curricular de EJA em Itabira e em São Gonçalo do Rio abaixo,
foi necessário também desenvolver junto à comunidade escolar das localidades um processo
de diálogo entre as práticas instituídas, os marcos conceituais e legais da EJA no país e as
especificidades locais. Desse modo, após todo o processo de trabalho de levantamento de
dados, mapeamento de demandas e formações temáticas e de áreas, cada município elegeu
os fundamentos que, a partir de então, seriam os pilares de sustentação da Educação de
Jovens e Adultos.
A seguir, estão elencados os princípios eleitos para fundamentar a EJA nos municípios.
Assegurar a equidade educativa:
•• considerar a diversidade de percursos escolares dos jovens e adultos;
•• identificar jovens, adultos e idosos como sujeitos de aprendizagem e portadores de
conhecimentos válidos;
•• adotar uma perspectiva contextualizada para a organização do ensino e seleção de
conteúdos;
•• abordar temas relevantes para as pessoas jovens e adultas das comunidades atendidas;
•• identificar a EJA como espaço de relações intergeracionais e de diálogo entre
saberes, preparando-se para acolher estudantes jovens, adultos e idosos.
Considerar o mundo do trabalho como temática prioritária:
•• aprofundar o conhecimento relativo ao universo e às relações de trabalho na história
da humanidade e suas peculiaridades locais;
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•• acolher as biografias e o histórico profissional na organização dos conteúdos
curriculares;
•• ampliar as oportunidades de realização de vocações e projetos profissionais dos
alunos e alunas;
•• ampliar o conhecimento acerca do mercado de trabalho, sua dinâmica e
funcionamento.
Garantir a qualidade da aprendizagem dos adultos:
•• satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem dos alunos e alunas;
•• construir processo de formação inicial e continuada específico para educadores
e gestores da EJA;
•• considerar os diferentes procedimentos adotados pelos estudantes na solução
de situações-problema;
•• elaborar e adotar materiais didáticos específicos para jovens e adultos;
•• construir processos contínuos de avaliação de aprendizagem e de atendimento
a demandas por apoio individual;
•• adequar equipamentos, espaço físico e rotina escolar às necessidades dos jovens
e adultos.
Abordar temas significativos para o universo juvenil e adulto:
•• meio ambiente, qualidade de vida e desenvolvimento sustentável;
•• tendências atuais do mundo do trabalho;
•• cidadania e participação;
•• relações étnico-raciais;
•• relações de gênero e direitos da mulher;
•• meios de informação e comunicação;
•• cidadania e participação.
Considerar o direito humano à educação:
•• oferecer educação a pessoas privadas de liberdade;
•• eliminar as barreiras físicas, atitudinais e pedagógicas para atendimento a alunos
com deficiências físicas ou transtornos globais do desenvolvimento;
•• promover aprendizagens que permitam aos jovens e adultos a participação plena
na sociedade.
A EJA no Projeto Político Pedagógico da escola
Tendo claros os princípios norteadores da EJA, o passo seguinte foi a inclusão da
modalidade e suas especificidades nos Projetos Políticos Pedagógicos (PPP) das unidades
escolares de cada município.
60
O PPP é uma ferramenta gerencial que auxilia a escola na definição de prioridades
estratégicas para alcançar as metas de aprendizagem e orienta a organização da unidade
escolar. Mas, para além de um instrumento de gestão escolar, a revisão (ou construção) de
um Projeto Político Pedagógico pode se transformar em um espaço de ampla discussão e
participação de toda a comunidade escolar para que a identidade e as metas de uma escola
sejam definidas.
Iniciar um processo de construção de PPP a partir de uma gestão democrática significa
incluir toda a comunidade escolar no processo de decisão das metas, estratégias e avaliações
sobre a unidade escolar. Professores, funcionários, gestores, estudantes e comunidade
podem se tornar parceiros nesse momento criativo e qualificar ainda mais as estratégias que
uma escola poderá adotar para suprir suas demandas.
Assim, partindo-se de uma experiência participativa de construção de PPP, cada
comunidade escolar pode se apropriar também das vozes e demandas específicas dos
seus estudantes jovens e adultos e garantir que a EJA seja assumida como modalidade
constituidora da escola. Retirar a EJA da sua condição comum de “inquilina” das escolas
é uma das grandes lutas que pode ser travada na produção de um Projeto Político
Pedagógico para se garantir à modalidade a especificidade que seus sujeitos impõem
ao processo de aprendizagem. Desse modo, ao incluir a EJA em seu Projeto Politico
Pedagógico, a escola acolhe a diversidade etária, de sujeitos, vivências, culturas, histórias
de vida, percursos e experiências escolares como expressões de sua identidade e a
equidade como realidade.
Dentre as discussões sobre a inclusão da EJA nos Projetos Políticos Pedagógicos das
escolas em Itabira e em São Gonçalo do Rio Abaixo, alguns compromissos de modificações
na estrutura foram assumidos pela comunidade escolar e outros desafios foram levantados
como necessidades de implementação de novas políticas públicas.
Se, por um lado, a demanda por concursos de profissionais efetivos e exclusivos para
a EJA pode ser destacada como uma necessidade que extrapola os muros da escola, por
outro lado, ações dentro do ambiente escolar surgiram como metas para garantir qualidade
à educação de pessoas jovens e adultas, como:
•• continuidade de formações específicas para os professores da EJA.
•• realização e atualização de pesquisas e estudos sobre a modalidade para
acompanhamento da demanda;
•• definição das bases teóricas do processo, com revisão e dinamização contínua
da pratica pedagógica à luz dos fundamentos e das diretrizes do currículo, da
metodologia, da avaliação, dos conteúdos, das bases da organização escolar, do
regimento, dos mecanismos de participação, do ambiente e do clima institucional,
das relações humanas, dos cronogramas de estudos e de reuniões etc;
•• atualização constante do pessoal docente e técnico (funcionários de todos os
setores: secretaria, biblioteca, merenda), inserida num processo de formação
continuada;
•• valorização e centralização dos conhecimentos dos sujeitos da EJA no processo
de aprendizagem;
•• garantir e desenvolver materiais específicos para a modalidade;
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•• ampliar a oferta de textos e acervo da biblioteca condizentes com o universo juvenil
e adulto;
•• oferecer mobiliário escolar específico e adequado para a educação de jovens e
adultos;
•• maior oferta de transporte escolar;
•• flexibilização dos horários de entrada e saída da escola.
Sequências didáticas
E, finalmente, após todo o processo de reorganização curricular da EJA, um novo
conjunto de materiais foi produzido pelos próprios professores a partir das formações
nas diferentes áreas de conhecimento. Ao todo, oito sequências didáticas tornaram-se
a materialização do processo de aprendizagem que os professores trilharam nos dois anos
de atividades em Minas Gerais e, a partir de agora, poderão subsidiar as ações educativas
em cada uma das salas de aula pelas quais passamos em Itabira e em São Gonçalo do
Rio Abaixo. Elas fazem parte do caderno de proposta de organização curricular para os
municípios de Itabira e de São Gonçalo do Rio Abaixo e foram produzidas como síntese
do trabalho realizado ao longo de dois anos.
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A área de Educação da Fundação Vale busca contribuir
para a melhoria da educação básica, com foco na
promoção de uma prática docente pautada nos princípios
da pluralidade
Fundação
Vale cultural e do respeito às diferenças.
Ação Educativa
Conselho Curador
Presidente
Vania Somavila
Conselheiros
Luiz Eduardo Lopes
Marconi Vianna
Zenaldo Oliveira
Antonio Padovezi
Alberto Ninio
Ricardo Mendes
Luiz Fernando Landeiro
Luiz Mello
Diretoria
Maria Machado Malta Campos
Luciana Guimarães
Michele Prazeres
Coordenação Geral
Vera Masagão Ribeiro
Coordenação da Unidade de EJA
Roberto Catelli Jr.
Concepção e texto
Ednéia Gonçalves
Conselho Fiscal
Michele Escoura
Presidente
Murilo Muller
Roberto Catelli Jr.
Conselheiros
Cleber Santiago
Benjamin Moro
Felipe Peres
Lino Barbosa
Vera Schneider
Fernanda Bottallo
Conselho Consultivo
Presidente
Murilo Ferreira (CEO Vale)
Conselheiros
Danilo Santos da Miranda (Diretor do SESC SP)
Dom Flávio Giovenale (Bispo de Abaetetuba)
Luis Phelipe Andrés (Conselheiro do IPHAN)
Paula Porta Santos (Historiadora e Doutora pela USP)
Paulo Niemeyer Filho (Chefe do Centro de Neurologia Paulo Niemeyer)
Silvio Meira (Presidente do Conselho Administrativo do Porto Digital)
Diretora Presidente
Isis Pagy
Diretor Executivo
Luiz Gustavo Gouveia
Gerência Geral de Relações Intersetoriais
Andreia Rabetim
Gerência de Educação
Maria Alice Santos
Andreia Prestes
Anna Cláudia D´Andrea
Carla Vimercate
Mariana Pedroza
Produção Editorial
Projeto gráfico e diagramação
Aeroestúdio
Download

Uma nova EJA: reorganização curricular dos municípios mineiros