O Ensino de História da África Marisa Antunes Laureano1 Resumo O trabalho que desenvolvo visa perceber como os professores apresentam a África no conteúdo histórico a ser ministrado no ensino fundamental e médio, no Município de Alvorada. A partir da lei 10639/032, vários projetos coletivos ou individuais passaram a ser desenvolvidos nas escolas públicas sobre a História da África e da cultura afro-brasileira, tornando possível a investigação da prática dos professores no que concerne à inserção do conteúdo História da África nos currículos escolares. Palavras-chave: Ensino de História. África. Lei 10639/03. Representações. Desde que foi estabelecida a obrigatoriedade do ensino de História da África e da Cultura Afro-brasileira nas escolas, houve muita discussão no sentido de pensar “como aplicar a lei”, uma vez que haveria necessidade de mudanças curriculares nas escolas. Além disso, havia o quesito “conhecer o tema” para poder trabalhá-lo e aí as dificuldades se apresentaram. Como os professores, que pouco sabiam da História da África e da cultura afro-brasileira, poderiam trabalhar nas escolas com esta temática? Diante deste questionamento surgiram algumas perguntas: como os professores estão trabalhando, a partir do que conhecem sobre a África, com seus alunos em sala de aula? Quais as diretrizes tomadas pelos professores? Que representações da África é possível perceber no trabalho dos professores? Quais as necessidades que podem ser respondidas a estes professores? Vou discorrer, portanto, sobre quais imagens da África são apresentadas pelos professores quando elaboram os planos de aula nas Professora de História da Rede de Ensino Estadual do Rio Grande do Sul, Licenciada em História pela UFRGS, Mestre em História pela PUCRS e especialista em Ensino de História da África.E-mail: [email protected]. 1 2 Lei 10639, de 9 de janeiro de 2003. “Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura AfroBrasileira. § 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinente à História do Brasil”. A lei deixa nítida a obrigatoriedade do ensino de conteúdos sobre a matriz negra africana na constituição da nossa sociedade no âmbito de todo o currículo escolar e sugere as áreas de História, Literatura e Educação Artística como áreas especiais para o tratamento desse conteúdo, tanto no ensino Fundamental como no Ensino Médio. Em março de 2008 a lei 10639/03 foi substituída pela 11645/08 e insere a cultura indígena como tema obrigatório nas escolas. A nova lei trata o assunto como introdução da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nos currículos escolares. Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 333 escolas. Que tipo de projetos são desenvolvidos que pretendem levar a um debate sobre a África e sua relação com a formação da cultura brasileira? Quais resultados podem ser percebidos quanto aos alunos envolvidos nestes projetos? Durante um programa de formação de professores, junto à Secretaria Municipal de Educação de Alvorada (SMED/Alvorada), pude acompanhar algumas escolas na tentativa de elaborar projetos de inclusão da História da África nos currículos escolares. O grande problema enfrentado foi a falta de conhecimento sobre a África e a relação desse continente com o Brasil. As dificuldades apresentadas por meus colegas incentivaram uma busca sobre o que havia, até o momento, de pesquisas que visassem à aplicabilidade da lei 10639/03 ou à formação de professores sobre a História da África e da cultura afro-brasileira. O resultado apontou um vazio de estudos. Até o momento, os trabalhos que pretendem analisar a introdução do estudo da África no cotidiano escolar, sob a ótica do professor, ainda são muito incipientes. Alguns pesquisadores estão iniciando pesquisas, mas nada ainda conclusivo que possa nos encaminhar para uma análise comparativa ou que nos permita buscar referencial para um novo estudo. A pretensão aqui é de ir além de um observatório de ações e conclusões embasadas nestas informações. Ao pesquisar as representações feitas pelos professores, nas escolas, sobre a África, eu utilizo minha própria experiência como estudiosa da relação África/Brasil para auxiliar os professores na construção de uma visão da África, que atenda a intenção da luta histórica do movimento negro, que é o combate ao racismo. A força dos Movimentos Negros, quanto à inclusão da História da África e da cultura afro-brasileira nos currículos, tem revertido em alguns resultados, mas ainda precisamos de mais ações e envolvimento dos professores em todos os níveis de ensino: daqueles que atendem as crianças de pré-escola até os que trabalham com orientação nos cursos de pós– graduação. Sabemos que sem o comprometimento de boa parcela da população, envolvida diretamente com a educação, a força dos Movimentos Negros não será suficiente. É importante destacar que, se desde janeiro de 2003, contamos com uma lei que alterou as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e tornou obrigatório o Ensino de História da África e da cultura afrobrasileira nos bancos escolares, há muito já existiam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)3 que apresentam a transversalidade como Os Parâmetros Curriculares Nacionais são diretrizes construídas por uma equipe de especialistas reunidos pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) com o intuito de reformular as formas de ensino no Brasil. Os PCNs são divididos por área de conhecimento. Na área de Ciências Humanas são estabelecidos parâmetros curriculares para História, Geografia, Sociologia/Antropologia/Política e Filosofia. Na apresentação do texto, o relator define a importância dos PCNs: Chamamos a atenção para o fato de que, neste documento, ao desenvolvermos textos específicos voltados para os conhecimentos de História, Geografia, Sociologia e Filosofia,habitualmente 3 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 334 proposta de ensino e como um de seus temas a “pluralidade cultural” que visa atender a diversidade cultural brasileira. Aconselha-se a ênfase nas diferentes formações que o povo brasileiro teve, sem que uma cultura sobreponha-se à outra, mas que todas sejam vistas como importantes para a construção da identidade nacional. Esta temática dificilmente é vista sendo trabalhada nas escolas. Ela obrigaria, já antes da lei 10639/03, que os professores dessem uma passada pela África para tratar de nossas heranças culturais. O esquecimento dos PCNs nos traz um alerta no sentido de não deixarmos morrer a lei 10639/03 para que não vire objeto de amostra sem utilidade. Tudo isso reforça a importância de escritos e palestras que destaquem os trabalhos realizados sobre a introdução da História da África e da cultura afro-brasileira nas escolas e, também, que visem à formação de professores nesta linha temática. Em análises dos projetos que foram apresentados pelas escolas visitadas, percebe-se que o que está sendo desenvolvido pelos professores ainda precisa de mais informação a respeito do que deve ser ensinado como conteúdo sobre a História da África e a cultura afro-brasileira. Certamente, o que falta a esses professores que se propuseram a realizar projetos não é vontade, mas o conhecimento. Para que as coisas melhorem, é importante uma formação adequada que minimize a falta de acesso às informações necessárias para um bom desempenho, quanto ao ensino a que se propõem esses educadores. Por isso, é necessário amparo teóricometodológico aos profissionais que estão, ou estarão, desenvolvendo um projeto sobre História da África em suas escolas. O Ensino de História A discussão sobre como ensinar a História acompanha os debates há muito tempo. As formas de ensino, os métodos de apresentação e até qual História deve ser ensinada. As discussões sobre este ponto da educação escolar requerem muita observação do contexto histórico em que ela está inserida. Pois, em cada momento da história a própria história é tratada de maneira diferente no que se refere a seu ensinamento. Os fatores que envolvem o ensino de História perpassam um debate importante que trata dos objetivos que nos levam a ensiná-la. A intenção pedagógica do ensino formalizados em disciplinas escolares, incluímos diversas alusões – explícitas ou não – a outros conhecimentos das Ciências Humanas que consideramos fundamentais para o Ensino Médio. Tratase de referências a conhecimentos de Antropologia, Política, Direito, Economia e Psicologia. (...). O objetivo foi afirmar que conhecimentos dessas cinco disciplinas são indispensáveis à formação básica do cidadão, seja no que diz respeito aos principais conceitos e métodos com que operam, seja no que diz respeito a situações concretas do cotidiano social, tais como o pagamento de impostos ou o reconhecimento dos direitos expressos em disposições legais. Na perspectiva do exercício da cidadania, importa em muito o desenvolvimento das competências envolvidas na leitura e decodificação do “economês” e do “legalês”. Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 335 é possibilitar ao aluno a capacidade de crítica sobre assuntos diversos e a interpretação própria do mundo. Sendo esta a tendência atual da pedagogia escolar, como discutir a história de forma a não determinar que este ou aquele pensamento prevaleça mais, mas sim deixar que o aluno o observe à sua maneira? Marc Ferro, em seu trabalho intitulado A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação4, discorre sobre como a história em várias sociedades é tratada de forma a agradar quem está no poder no momento. As forças que estão no poder determinam os rumos que a narrativa histórica vai ter no ensino escolar. Ele também destaca o quanto podem ser diferentes os caminhos tomados pelo ensino escolar e pelo ensino familiar, quando uma nação sobrepõe-se à outra. Foi baseando-se na dominação que se construiu o eurocentrismo no ensino escolar do Brasil, por exemplo, quando a relação colonial ainda se fazia presente. A “história branca”, como Marc Ferro chama, esteve presente em vários locais por onde os europeus passaram. Ainda hoje, nas escolas, o predomínio do ensino eurocentrista nos remete para esta herança colonial que parece tão difícil de ser revista. Ele destaca também que cada sociedade, à medida que se libertou do jugo dominador dos europeus, foi criando sua própria forma de narrar a história, injetando conceitos e personagens que condiziam mais com a população local. É importante, quanto a isto, levar em conta os alertas que Marc Ferro faz quando destaca os exageros que podem ocorrer na tentativa de se livrar do eurocentrismo e articular outras heranças históricas. Em alguns casos, pode-se trocar uma narrativa por outra, sem valorizar a história. Esta deve ser vista com todas as influências que determinado povo sofreu, ao longo dos anos. No caso deste texto, posso exemplificar com relação a isto que a integração da História da África nos currículos escolares não significa abolição da História européia, mas uma mediação de conteúdos que trate da contribuição de cada um. A questão não é trocar o centro, mas destacar todos os pontos que possam acarretar valorização da diversidade cultural da qual o Brasil é feito. A narrativa histórica nos meios escolares do mundo está em mudança, para Ferro A história universal morreu, está morta por ter sido a miragem da Europa (...). Os povos que entravam na história somente à medida que se encontravam com a Europa, vêem-se agora em barco próprio e as mudanças começam por aí. Marc Ferro destaca que: “Em face dessas iniciativas redutoras, não surpreende que cada coletividade tenha sentido necessidade de formular a sua própria história – desobrigada de camuflála diante dos vencedores”. 5 O Brasil, neste caminho de mudança, precisa olhar-se, perceber o FERRO, Marc – A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação/ Marc Ferro: Tradução de Wladimir Araújo., São Paulo: IBRASA, 1983. 4 5 FERRO, Marc, op.cit., pg. 290. Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 336 caldeirão de culturas em que vive e atender a todas, mostrando, através do ensino, as possibilidades de entendimento de nós mesmos. Para além da formação de cidadão crítico, como defendem as pedagogias mais progressistas, é preciso também de um cidadão culto, que tenha bases informativas para poder criticar e pensar sobre. A discussão levantada por Christian Laville em A Guerra das Narrativas: Debates e Ilusões em Torno do Ensino de História6 discorre acerca do objetivo do ensino de História diante da questão de formação do novo ser humano. Segundo ele, determinou-se que precisamos de cidadãos críticos e pensantes, o que faz com que não seja tão importante um trabalho com narrativas, mas com interpretações por parte dos alunos. Após discorrer sobre a importância dada às narrativas históricas em várias sociedades do mundo, a ponto de tornar-se debate de congressistas, Laville apresenta a seguinte dúvida: Essas são algumas ilustrações daquilo que anunciamos na introdução como um primeiro paradoxo: enquanto na maioria dos países se diz que o objetivo do ensino da história é desenvolver nos alunos as capacidades de que o cidadão precisa para participar da sociedade de maneira autônoma e refletida, o ensino da história, ainda é, muitas vezes, reduzido a uma narrativa fechada, destinada a moldar as consciências e a ditar as obrigações e os comportamentos para com a nação. Observou-se que, quando, em nosso mundo, há um debate público em torno do ensino da história, é essa narrativa que está quase sempre em jogo. 7 Hoje, ocorre no Brasil um debate sobre a introdução da História da África, nos currículos escolares, e esta discussão está embasada em como se dará a narrativa histórica em questão. O que pode ser dito, diante da dúvida de Laville, no que se refere à consciência crítica do jovem descendente de africano, é a valorização da ascendência de mais da metade do povo brasileiro. A narrativa histórica sobre a África pré-colonial vai resultar na informação sobre um povo que teve sua história negada e, portanto, vai permitir ao jovem uma capacidade crítica e reflexiva quanto à sua própria condição de descendente de africano. O Ensino de História da África Trabalhos que analisam a aplicação da lei 10639/03 são temas iniciais nos cursos de pós-graduação e estão centrados nos programas de Educação. Por isso, não se têm pesquisas prontas com resultados que permitam um referendo teórico. Existem trabalhos realizados cujo foco é a África nos livros didáticos, através deles é possível perceber a preocupação que há 6 LAVILLE, Christian – A guerra das narrativas: debates e ilusões em torno do ensino de história – in: Revista Brasileira de História, São Paulo, V.19, næ% 38, pg.125-138, 1999. 7 LAVILLE, Christian, op. Cit., pg. 135. Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 337 com o tema e também a relação que os professores mantêm com este conhecimento em sala de aula, o que permite uma boa troca, já que o que busco é perceber a atuação dos professores. Devo dar destaque aqui para a tese de doutoramento de Anderson Ribeiro Oliva8 que já apresentou alguns resultados de sua pesquisa em artigos publicados. O seu texto intitulado Lições sobre a África: a história africana nos manuais escolares9 é de suma importância para meu trabalho. Mesmo que sua observação recaia sobre os livros didáticos, a conduta dos professores, ao usarem estes livros, é muito reveladora. É, a partir deste ponto, que busco respostas para os questionamentos levantados anteriormente, o caminho que o professor toma, ao dar lições sobre História da África, nos bancos escolares. Em sua investigação, Anderson Oliva traz alguns elementos importantes para referência, quando questiona o desconhecimento dos professores quanto à História da África. Isto remete para outra pergunta: Como ensinar o que não se conhece? A sua argumentação parte do simples fato de que, mesmo hoje, com a lei 10639/03 em vigor, ainda não se percebem mudanças nos currículos das faculdades de História quanto à introdução da História da África. Se agora não se aprende nos bancos acadêmicos sobre a África, há algum tempo atrás também não. Dessa forma, os professores, que estão atuando, não viram a História da África e, possivelmente, encontram dificuldades para ter acesso às informações que lhes possibilitem aplicar a lei. Muitos educadores atentam para a importância do conteúdo, uma vez que sabem que a história do Brasil está interligada pela história da África. Mas, para além da vontade, inúmeros fatores os empurram para a comodidade e isso não ajuda quando se chega à sala de aula sem o conhecimento adequado sobre determinado assunto. Restam, portanto, os livros didáticos que em termos de boas referências sobre a História da África são poucos. Para Oliva, o entusiasmo do professor quanto ao ensino de História da África deve ser o ponto inicial para que este tema seja tratado em sala de aula, ele diz que: Anderson Ribeiro Oliva formou-se em História pela Universidade de Brasília (1999), instituição na qual também desenvolveu suas investigações no mestrado (2002). Atualmente, após um ano de pesquisa em Portugal (realizada em alguns dos principais arquivos relacionados à História da África), está finalizando a tese de doutorado. É professor de História da África, desde 2003. Grande parte de sua produção intelectual e bibliográfica está voltada para as temáticas relacionadas à África Ocidental e ao Ensino da História da África. 8 9 Tese de doutorado na linha de pesquisa Comércio e Transculturação no Mundo Atlântico, do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Brasília. O Autor tem o seguinte objetivo: Em meu projeto tenciono fazer o seguinte percurso: analisar a forma como os livros didáticos de História — produzidos a partir de 1995 — utilizados nas escolas brasileiras, portuguesas, angolanas e cabo-verdianas representaram(am) por meio de imagens e textos escritos os africanos, e qual o papel reservado à História da África em meio às temáticas e conteúdos abordados.” Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 338 Primeiro: temos que reconhecer a relevância de estudar a História da África, independente de qualquer outra motivação. Não é assim que fazemos com a Mesopotâmia, a Grécia, a Roma ou ainda a Reforma Religiosa e as Revoluções Liberais? Muitos irão reagir à minha afirmação, dizendo que o estudo dos citados assuntos muito explica nossas realidades ou alguns momentos de nossa História. Nada a discordar. Agora, e a África, não nos explica? Não somos (brasileiros) frutos do encontro ou desencontro de diversos grupos étnicos ameríndios, europeus e africanos? Aí está a dupla responsabilidade. A História da África e a História do Brasil estão mais próximas do que alguns gostariam.10 De algum modo, percebo que os professores estariam motivados da mesma forma, para História da África quanto para outros assuntos, se tivessem conhecimento suficiente do assunto que levarão para sala de aula. Isto seria solucionado se houvesse mais investigações que chegassem aos professores sobre a África, o que nos remete para outra citação de Oliva, na qual ele destaca: “Já na América, concentraram-se, principalmente nos Estados Unidos e no Brasil, os maiores esforços de entendimento sobre a África, evidenciados pelas pesquisas e centros de estudos montados. Mesmo assim, se comparados com estudos realizados sobre outras temáticas, ainda são esforços pálidos”.11 O distanciamento que temos quanto ao conhecimento sobre a África pode ser medido como inversamente proporcional à ligação que nossas vidas cotidianas o têm. Temos tanto da África e, ao mesmo tempo, tão pouco interesses acadêmicos sobre esse continente. É claro que se ouve o discurso da impossibilidade de conhecer a diversidade da África e o quanto é difícil pesquisar e estudar tantos povos e tantas culturas e uma história tão diversificada ao longo dos séculos. Mas o mesmo argumento não parece impedir muitas outras pesquisas e disciplinas que se tornaram obrigatórias nos bancos universitários. A História da África foi reescrita, entre 1965 e 1971, através de um projeto de vários pesquisadores e do financiamento da UNESCO. Nesse projeto, a intenção era retirar a História da África da obscuridade e lançar alguma luz sobre o conhecimento que se tinha desse continente. Para KiZerbo,coordenador do projeto: Com efeito, a história da África, como a de toda a humanidade, é a história de uma tomada de consciência. Nesse sentido, a história da África deve ser reescrita. E isso porque, até o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada, mutilada. Pela “força das circunstâncias”, ou seja, pela ignorância e pelo interesse.12 OLIVA, Anderson R. A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática. Estudos Afro-asiático., Rio de Janeiro, vol. 25, n. 3, p. 423 , 2003. 10 11 OLIVA, Anderson R. op.cit. p. 428. História Geral da África: I. Metodologia e pré-história da África / coordenador do volume J. Ki-Zerbo; {Tradução Beatriz Turquetti ... et. al ; revisão técnica Fernando A. Albuquerque Mourão... et al} - São Paulo: Ática; [Paris]: Unesco, 1982, pg. 21 12 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 339 Mesmo que o projeto de Ki-Zerbo e de outros estudiosos sobre a África seja hoje um clássico para se conhecer um pouco da história daquele continente, ainda há muitas máscaras, camuflagens e mutilações quanto à história africana que as crianças aprendem, principalmente através da televisão, já que na escola ainda se está iniciando um caminhar sobre as possibilidades de reescrever esta história. O andar ainda é lento em todos os níveis de ensino quanto à busca de conhecimento sobre a África e, até mesmo, sobre a escravidão moderna que causou tantas mazelas àquele continente e que o aproximou do Brasil. Muitos trabalhos acadêmicos foram feitos com a temática escravidão, mas muito pouco disto chegou aos professores que atuam no ensino regular. Hebe Maria de Mattos apresenta algumas questões sobre as dificuldades de inserção dos conteúdos escravidão e História da África nos currículos tanto universitários como do ensino fundamental e médio. Ela diz, quanto a isto: Para ficarmos no tema que nos interessa, os avanços da pesquisa histórica em relação à história social da escravidão, bem como a importância da questão para a construção de um conhecimento não apenas do Brasil, mas do mundo ocidental moderno, repercutem de forma limitada fora dos círculos de especialistas, com impacto ainda reduzido nos cursos de graduação em história. Estas limitações da própria formação básica do professor incidem necessariamente na produção de material didático para o ensino fundamental. Ainda mais grave, há alguns conteúdos fundamentais propostos nos novos PCNs – especialmente a ênfase na história da África – que, infelizmente, ainda engatinham como área de discussão e pesquisa nas nossas universidades, impondo-se como limite ainda maior ao esforço pedagógico que pode ser feito para uma abordagem que rompa com o europocentrismo que ainda estrutura os programas de ensino de história nas escolas.13 Esta citação só vem reforçar a necessidade de uma aproximação destes conteúdos, que tanto interessam à formação de identidade do brasileiro, com professores e futuros professores. Os Livros Didáticos Os professores que não têm os recursos financeiros nem o incentivo das instituições para buscar material de apoio contam apenas com os livros didáticos e, mesmo estes, não são suficientes para atender a demanda. Para quem estuda a África nos livros didáticos o que se encontra é: 13 MATTOS, Hebe Maria – Ensino de História e a luta contra a discriminação racial no Brasil – in: Ensino de História: Conceitos, temáticas e metodologia / Martha Abreu e Rachel Soihet (orgs.) – Rio de janeiro: Casa da Palavra, 2003, pg.131 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 340 Silêncio, desconhecimento e representações eurocêntricas. Poderíamos assim definir o entendimento e a utilização da História da África nas coleções didáticas de História no Brasil. Das vinte coleções compulsadas pela pesquisa, apenas cinco possuíam capítulos específicos sobre a História da África. Nas outras obras, a África aparece apenas como um figurante que passa despercebido em cena, sendo mencionada como um apêndice misterioso e pouco interessante de outras temáticas. 14 O professor vai ter que superar muitos obstáculos se quiser trabalhar com a História da África em sua escola. Por isso, a vontade de ensinar não será suficiente e, quando as barreiras se apresentam para um profissional que já enfrenta muitas dificuldades, acaba caindo na desistência. O caminho da desistência, quanto a um ensino de história crítico, parece estar bem próximo do professor, principalmente o de escola pública. E aí se encontra um paradoxo: ao mesmo tempo em que, nos dias de hoje, existe maior liberdade para que o professor de escola pública desenvolva seu trabalho em sala de aula, existe também maior dificuldade em buscar o conhecimento, buscar aperfeiçoamento e de ir além de um mero ensino repetitivo e sem sentido para o aluno. Jaime e Carla Pinsky, quando debatem o ensino de história, fazem uma chamada ao professor que cabe muito àquele que se encaminha para a desistência: Mais do que o livro, o professor precisa ter conteúdo. Cultura. Até um pouco de erudição não faz mal algum. Sem estudar e saber a matéria não pode haver ensino. É inadmissível um professor que quase não lê. Se o tempo é curto, se as condições de trabalho são precárias, se o salário é baixo, se o Estado não cumpre a sua parte, discuta-se tudo isso nas esferas competentes e lute-se para melhorar a situação dos docentes, em vez de usar isso tudo como desculpa para a falta de empenho pessoal em adquirir conhecimento, entrar em contato com uma bibliografia atualizada, conhecer novas linhas de pensamento e discutir com os colegas estratégias para melhor operacionalizar nas salas de aula o patrimônio cultural e histórico. 15 O argumento acima seria, possivelmente, recebido em uma reunião pedagógica com vários pontos contrários, o mais batido seria o do desconhecimento que o acadêmico tem do universo escolar e as lamúrias seguiriam. Não é possível descartar todas as dificuldades do professor de escola pública, mas concordo com os Pinskys quanto à necessidade de uma reavaliação pessoal dos professores que devem, sim, buscar um conhecimento mais aprofundado. E agora volto ao início da argumentação: 14 OLIVA, Anderson R. – op.cit. p. 429. PINSKY, Jaime e PINSKY, Carla B. – O que e como ensinar: por uma história prazerosa e conseqüente - in: História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas / Leandro Karnal, (org). 2 ed. – São Paulo: Contexto, 2004. pg. 22. 15 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 341 como se aprofundar em um conhecimento que é desconhecido, distante e sequer foi visto no inicio da formação do professor? A introdução de novas temáticas nos currículos escolares vai além da sala de aula ou até das escolas, deve começar pelas Secretarias de Educação. Se a formação do professor foi falha nisto ou naquilo, é necessária a promoção de eventos de formação que auxiliem nesta defasagem. Quando eu digo falha, no caso da História da África, um total desconhecimento. O profissional que fica isolado em sua classe escolar, dificilmente vai além do que já sabe para ensinar e debater com os alunos. A nova geração de professores que atuam na Rede Pública de Ensino aprendeu a trabalhar dividindo informações e debatendo problemas. Os que mantêm esta prática continuam ativos para as novidades teóricas e apresentam melhor desempenho quanto à pesquisa, muito necessária para um bom ensino. Pesquisar sobre o assunto que vai tratar com os alunos não significa somente ler o livro didático, pois se ficassem só nisto haveria grandes lacunas a serem resolvidas por estes professores. A pesquisa consiste em ler autores diferentes, mesmo que estes sejam de livros didáticos, estar atento às novidades, às novas linguagens, aos novos conceitos. Criar o hábito de buscar informações. Hoje, o educador não pode mais dizer que não tem acesso à Internet, pois se não há nas escolas, proliferam espaços públicos com computadores ligados à rede e mesmo espaços privados. O professor deve ser pesquisador e para tanto capaz de buscar o conhecimento necessário para a prática que pretende desenvolver em sala de aula. O livro didático torna-se um referencial importante para o professor que sabe pesquisar e que, muitas vezes, trabalha apoiado em vários livros de diferentes autores. Mas para aquele que fica preso em um único exemplar e dele não se desfaz por anos, a situação torna-se problemática em momentos de mudanças curriculares. O mesmo professor que muito se utiliza do livro didático para seu trabalho diário, indo além do livro ou não, nunca terá a mesma relação aluno/ conhecimento que o livro puro e simples possibilita. A representação sob a ótica do professor nos remete a uma imagem diferenciada daquela apresentada pelo autor do livro didático. Ocorre aí um filtro embasado nos vários fatores que influenciaram na construção daquela pessoa como professor. Por isso, a análise do ensino sob o ponto de vista do professor dá maior proximidade com o conhecimento sobre a África que chega até o aluno. A aplicabilidade da lei 10639/03 Em nove de janeiro de 2003, o presidente da República sancionou uma lei que movimentou os debates relacionados a questões étnico-raciais. Foi firmada uma conquista do Movimento Negro do Brasil que, há décadas, lutava pela valorização das origens étnicas do povo negro brasileiro. Nada se dizia; nada se fazia; nada era exposto de forma ampla, quando se tratava Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 342 do estudo da História da África e da cultura afro-brasileira. As produções acadêmicas, os trabalhos pedagógicos não se aproximavam das escolas e, portanto, não traziam resultados que representassem mudanças na forma de ser ver e pensar o negro no Brasil. A lei surgiu com controvérsias, pois muitos a negaram como proposta de mudança da LDB, mesmo os seus termos sendo muito claros quanto a isto. Passado este período inicial de negativa da lei e de questionamento sobre sua real obrigatoriedade de aplicação, houve o momento de aceitação. Nessa fase, algumas Secretarias de Educação passaram a desenvolver projetos e a criar leis que incluíam a História da África e da cultura afro-brasileira como integrantes dos projetos políticopedagógicos dos municípios.16 A cidade de Salvador, através de sua Secretaria de Educação, criou a disciplina História da África que vai fazer parte dos currículos escolares da cidade. Ou seja, para além de trabalhar a África no ensino de História, a África vai ser vista por inteiro em uma disciplina que vai ser pensada e voltada para que os estudos não se percam entre outros assuntos. O que nos remete para uma nova pergunta: como aplicar a lei? Será que uma disciplina extra vai funcionar? O que saiu para a entrada desta disciplina nas grades curriculares das escolas? A interdisciplinaridade tão defendida há décadas, e nunca realizada de fato, não seria mais efetiva para acabar com o preconceito racial do Brasil? A meta, ao se propor uma mudança curricular como esta, que envolve a história e a valorização da cultura de um povo, é justamente integrar este povo que vive na exclusão ou das marcas de um passado ainda não revelado para seus descendentes. Portanto, cabe a nós professores pensarmos as maneiras corretas para integrar esta História nos currículos escolares da maneira mais afirmativa possível. A Lei 10639/03 é resultado de uma luta histórica. O movimento negro e todas as entidades que combatem o racismo e a discriminação racial, de qualquer natureza, reconhecem que essas práticas discriminatórias são frutos do desconhecimento17. O povo negro sofre preconceito há séculos e somente o conhecimento da história e de uma compreensão de sua cultura vai encaminhar a nossa sociedade para o rompimento com práticas preconceituosas e discriminatórias. É importante destacar que alguns Estados e Municípios já, antes de 2003, criaram leis que incluíram nos currículos escolares a diversidade cultural brasileira. É caso das Constituições Estaduais da Bahia (Art. 275, IV e 288), do Rio de janeiro (Art. 306), de Alagoas (Art. 253), assim como as Leis Orgânicas de Recife (Art. 138), de Belo Horizonte (Art.182, VI), a do Rio de janeiro (Art. 321, VIII), além de leis ordinárias como a Lei Municipal næ% 7.685, de 17 de janeiro de 1994, de Belém, a Lei Municipal næ% 2.251, de 30 de novembro de 1994, de Aracaju e a Lei Municipal næ% 11.973, de 4 de janeiro de 1996, de São Paulo.(fonte: CNE/CP/DF). 16 A própria palavra preconceito, em sua semântica, já demonstra isso. Fazer um conceito prévio de determinada pessoa, que a denigre, resulta do desconhecimento de suas verdadeiras características. 17 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 343 Essa lei, quando foi criada, abriu espaço para debates, pesquisas e publicações sobre a África nos mais diversos aspectos. Entretanto, esse espaço ainda é pequeno diante da importância do tema para a sociedade brasileira. Os caminhos investigativos, portanto, direcionam para um olhar próprio sobre um objeto pouco trabalhado, qual seja o das representações sobre a África através da ótica dos professores que se propõem um projeto de ensino sobre este tema. As Representações Sobre a África O conceito representação surgiu como intenção de uso em minha pesquisa, quando fui assistir à apresentação de um trabalho sobre cultura afro-brasileira em uma escola pública de Alvorada. Uma professora, muito homenageada por desenvolver um trabalho que valoriza a cultura afrobrasileira, já trabalhando há meses com um grupo de crianças, a maioria negra, do ensino fundamental I, preparava o grupo de alunos para se apresentarem. Quando as cortinas são abertas surge um Auto de Natal: um cenário que representava uma estrebaria, ao centro um cesto com um bebê negro, um casal de crianças negras vestidas à época da Jerusalém antiga e uma música natalina tocando ao fundo. Logo entram outras crianças, mescladas entre negras e brancas e, em coro, entoam um cântico natalino. Ao final da apresentação, o casal, representando Maria e José, passa à frente com o bebê (um boneco negro) nos braços, meninas negras surgem como passistas e um samba estilizado (mais lento que o padrão) substitui a música natalina. O Auto apresentado pela professora e pelas crianças foi muito aplaudido e, a mim, coube o silêncio. Eu era a convidada que deveria auxiliar os professores na preparação de projetos que aplicassem a lei. Para mostrarem quão adiantadas algumas escolas já estavam, eu assisti àquela representação da “cultura afro-brasileira”. A professora que ensaiou as crianças é negra e, de tal forma, lhe coube o papel de mostrar um pouco de sua cultura aos demais. Várias perguntas fui formulando ao longo da apresentação das crianças. Como uma professora negra fez a representação da cultura afro-brasileira de tal maneira que a enquadrou nos padrões europeus de religiosidade, tal qual eram feitas as imposições no período colonial? Na composição daquela educadora e dos espectadores que tanto aplaudiram, ali estava a cultura afro-brasileira. No que responde a importância de se trabalhar a cultura afro-brasileira nas escolas, quando se busca uma valorização e um conhecimento do que realmente os africanos trouxeram e nos legaram como herança, ficou muito distante a apresentação do Auto de Natal. Até que ponto o que os professores apresentam como lição sobre a África é realmente o que esperam os movimentos que lutaram pela existência da lei ou uma representação distante daquilo que se construiu, Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 344 ao longo da História do Brasil e da África? O conceito de representação aqui discutido é o que nos apresenta Roger Chartier e Carlo Ginzburg, pois eles, utilizando-se dos bonecos de cera, couro ou madeira, que substituíam o corpo dos reis nos funerais de várias culturas européias, tratam a “representação” exatamente como uma substituição, muitas vezes consciente de tal elemento. O fato histórico, a cultura existente, o comportamento das pessoas são substituídos por representações que tentam revelá-las na íntegra, ou são mesclas de elementos de coisas existentes, ou são variações do que realmente são. Ao propor um breve entendimento do que seria a representação, Ginzburg a coloca como tendo dois lados: o que representa a ausência e o que representa a presença: Nas ciências humanas fala-se muito, e há muito tempo de “representação”, algo que se deve, sem dúvida, à ambigüidade do termo. Por um lado, a “representação” faz às vezes da realidade representada e, portanto, evoca a ausência; por outro, torna visível a realidade representada e, portanto, sugere a presença. Mas a contraposição poderia ser facilmente invertida: no primeiro caso, a representação é presente, ainda que como sucedâneo; no segundo, ela acaba remetendo, por contraste, à realidade ausente que pretende representar.18 Seguindo este jogo de palavras, o Auto de Natal apresentado pela professora representou ausência total da cultura afro-brasileira no fato de mostrar o cristianismo como tema da apresentação. Sob o ponto de vista da professora, ela atribuiu, certamente, sua contribuição à valorização do negro, no momento em que o cristianismo foi representado pelos negros em substituição aos brancos que seriam Maria e José. Jesus, como criança, era negro, e as crianças cantando eram negras. A presença dos negros justificou para ela uma representação tão distante da cultura afrobrasileira. Constantemente, ao observar as lições sobre História da África, remeto para a ausência e a presença feitas nas representações que os professores vão criando em seus planos de aula. O conhecimento que o professor busca sobre o assunto que vai tratar permite-lhe jogar com a ausência e a presença de forma que cumpra melhor com os PCNs e com a lei 10639/03. A professora que criou o Auto de Natal com crianças negras não tinha uma aproximação do conhecimento sobre a religião afrobrasileira, pois caso a tivesse o Auto não seria de Natal. A sua formação católica e o seu desconhecimento criaram uma falsa representação. Roger Chartier, no qual Ginzburg inspirou-se para tratar de ausência e presença, trata o conceito representação, quando significando a ausência, da seguinte maneira: GINZBURG, Carlo – Olhos de madeira: nove reflexões sobre a distância/ Carlo Ginzburg; tradução de Eduardo Brandão – São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pg. 85. 18 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 345 Na primeira acepção, a representação é o instrumento de um conhecimento mediato que faz ver um objeto ausente substituindo-lhe uma “imagem” capaz de repô-lo em memória e de “pintá-lo” tal como é. Dessas imagens, algumas são totalmente materiais substituindo ao corpo ausente um objeto que lhe seja semelhante ou não: tais os manequins de cera, de madeira ou couro que eram postos sobre a urna sepulcral monárquica durante os funerais dos soberanos franceses e ingleses (...) ou, mais geralmente e outrora, o leiro fúnebre vazio e recoberto por um lençol mortuário que “representa” o defunto (...). 19 Chartier define a representação da ausência quando ela é substituída por algo que a represente tal como é, ou seja, um Auto de Natal em sua concepção ocidental-cristã em nada representa a ausência da religião afrobrasileira. Mesmo que negros representem o Auto de Natal, ainda assim a ausência não está representada. Neste caso, se fossem todas crianças brancas, apresentando um encontro de orixás em uma roda de batuque, a representação da religião afro-brasileira teria sua ausência significada de forma mais próxima do que é. Em contrapartida ao trabalho apresentado pela professora sobre o Natal, surgiu o trabalho de uma professora que mostrou a arte negra aos alunos. O projeto em questão trouxe a representação da presença, quando valorizou a cultura africana demonstrado para os alunos o quão próximos, trabalhos de cubistas europeus famosos, estavam da arte africana. A professora mostrou máscaras e desenhos africanos e as crianças os compararam com obras de Picasso e puderam perceber as grandes semelhanças. A arte africana mostrou-se presente na obra de Picasso e os alunos puderam observar isto, aprendendo sobre arte e conhecendo um pouco da cultura africana. O que diferencia o processo educativo de uma professora e outra? As representações que elas vão construir em sala de aula vão dizer muito da formação que tiveram, do quanto lêem, do mundo que buscam, das vivências que construíram ao longo de suas vidas. Chartier lembra que as produções intelectuais e estéticas, as representações mentais, as práticas sociais, são sempre governadas por mecanismos e dependências desconhecidos dos próprios sujeitos20. O que, retomando a professora do Auto de Natal, remete para a negação da condição de negro a que muitos afro-brasileiro submetem-se. A negação da cultura é o primeiro passo para um distanciamento do que é ser negro neste país. De tal forma, talvez inconscientemente, a representação mental que tinha da cultura afro-brasileira era associada à religião católica. É importante destacar que o conceito de representação para Chartier é definido em torno de três aspectos, pois 19 CHARTIER, Roger – O mundo como representação. Estudos Avançados, Jan./Abril, 1991, vol. 5, næ%. 11, p. 184. 20 CHARTIER, Roger - A História Hoje: dúvidas, desafios, propostas – in: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.7, næ% 13, 1994, pg. 106. Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 346 De fato, ele permite designar e ligar três realidades maiores: primeiro, as representações coletivas que incorporam nos indivíduos as divisões do mundo social e estruturam os esquemas de percepção e de apreciação a partir dos quais estes classificam, julgam e agem; em seguida, as formas de exibição do ser social ou do poder político tais como as revelam signos e “performances” simbólicas através da imagem, do rito ou daquilo que Weber chamado de “estilização da vida”; finalmente, a “presentificação” em um representante (individual ou coletivo, concreto ou abstrato) de uma identidade ou de um poder, dotado assim de continuidade e estabilidade. 21 As três realidades em que as representações são construídas articulam bem os comportamentos e as práticas do professor e se reproduzem, não da mesma maneira, na representação que será formada pelo aluno. Ao considerarmos a representação individual de cada criança negra, que participou da encenação do Auto de Natal, teremos ali, certamente, uma contradição se formando na cabeça daquele aluno. Percebo isto quando levo em consideração que 65% dos moradores do município de Alvorada são freqüentadores das religiões de matriz africana. Entre estas crianças, há aquelas que, além de freqüentarem, são seguidoras e têm pais que já são iniciados na religião. Quando lhes é apresentada uma encenação cristã como parte da valorização da cultura negra, a confusão na identidade desta criança estará formada. Os meninos e meninas que em casa cultuam os orixás, na escola personificam São José e a Virgem Maria e idolatram Jesus. São duas construções psíquicas que atrapalham qualquer formação de identidade e posterior capacidade de assumir uma posição real diante da religião que de fato seguem. A pesquisadora em Educação, Lana Mara de Castro Siman22, pesquisa as representações que são compartilhadas pelas crianças como estudantes do ensino de História. Ela foca os alunos, crianças entre 9 e 11 anos de idade, e analisa as representações individuais e coletivas que eles fazem dos negros em nossa história. Para encaminhar sua pesquisa ela define que: As representações surgem, assim, como a capacidade de dar às coisas uma “nova forma” por meio da atividade psíquica. Esta envolve uma mediação entre o sujeito e o objeto-mundo. Como o sujeito se insere numa comunidade concreta e simbólica, este não está condenado a simplesmente reproduzir esta realidade. Ao indivíduo cabe a tarefa de “elaborar a permanente tensão entre um mundo que já se encontra constituído e seus próprios esforços para ser um sujeito”. Nesse sentido, podemos dizer que o processo de construção da identidade se desenrola na relação entre o sujeito e o social, mediado pelas representações sociais. 21 CHARTIER, Roger - A História Hoje: dúvidas, desafios, propostas – in: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.7, næ% 13, 1994, pg. 106. Lana Mara Siman é Professora voluntária do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Minas Gerais e assessora pedagógica do Centro de Formação de Professores (CEFOR) da PUCMINAS. 22 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 347 Ou seja, ao mesmo tempo em que este sujeito recria a realidade social e suas representações ele é também modificado em sua própria relação com o mundo. Dessa forma, os objetos presentes no meio social aparecem sob a forma de representação, recriados pelos sujeitos. 23 De tal modo, a forma como a escola atua vai interferir no mundo a ser construído como representação para o sujeito em questão. Voltando ao pressuposto que o professor de escola pública, mesmo enfrentando todos os problemas institucionais das Redes de Ensino, tem, no seu dia-a-dia em sala de aula, autonomia para encaminhar os assuntos a serem tratados, cabe a ele a responsabilidade de levar o aluno, principalmente o aluno afro-descendente, a um conhecimento mais próximo do real, no que se refere à sua identidade como sujeito histórico. É importante, porém, destacar que o professor, não sendo um ser flutuante no mundo, enfrenta as mais diversas reações ao seu trabalho. Estas reações vão desde a recusa por parte dos alunos em aceitar uma temática inovadora, até o desinteresse da supervisão pedagógica da escola que não vê com bons olhos mudanças no currículo escolar. Diante das dificuldades que se apresentam, os projetos vão modificando-se, as opiniões oscilando e até discursos dos mais progressistas vão camuflando práticas comuns, que em nada fogem da habitual visão eurocêntrica de ensinar História. A aplicação da lei 10639/03 ainda está em construção nos espaços escolares e ainda encontra muita resistência para sua efetivação, mas, pela importância do tema, devemos manter ações de conscientização para sua real implementação. Agora com a mudança da lei e sua substituição pela 11465/08, corremos o risco de termos apenas aspectos indígenas trabalhados, e mal trabalhados, pois se torna mais fácil para as escolas tratarem do índio em sua superficialidade, sem dar o destaque merecido, e assim dizerem estar trabalhando a nova lei. A luta dos educadores deve ser encontrar um bom espaço de trabalho para inserir nos currículos a cultura e as origens de dois povos que muito alicerçaram este país. Recebido em setembro de 2008. Aprovado em outubro de 2008. Title: Teaching African History Abstract The work aims to observe how teachers present history of Africa in elementary and high school levels, in the city of Alvorada. After the law 10639/03 from January, 9th 2003, some collective or individual projects on History of Africa and Afro-Brazilian culture began to be developed in public schools, making it possible to perform a practical investigation on SIMAN, Lana Mara de Castro – Representações e Memórias Sociais Compartilhadas: Desafios para os Processos de Ensino e Aprendizagem da História – Cadernos Cedes, Campinas, vol. 25, næ% 67, set/dez. 2005, p.352. 23 Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 333-349, jul./dez. 2008 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> 348 how history of Africa is being taught as well as how schools have inserted this content in their curriculums. Key words: History learning. Africa. Law 10639/03. Rrepresentations. Referências CHARTIER, Roger. O mundo como representação. 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