SEMINÁRIO BRASILEIRO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS
INTERNACIONAIS SEBREEI
Integração Regional e Cooperação Sul-Sul no Século XXI
20 a 22 de junho de 2012
Porto Alegre/RS, Brasil
O Pensamento de Boyd e a Resposta Neoconservadora Estadunidense à Ascensão do
Sul1
João Gabriel Burmann da Costa2
Luiza Costa Lima Corrêa3
Resumo
Procurou-se inventariar, no presente artigo, a influência do pensamento de John Boyd sobre as respostas americanas
neoliberais dadas nos anos Reagan e a formulação da estratégia neoconservadora dos anos 2000. Buscou-se também expor os
impasses que dividem os Estados Unidos sobre que atitude tomar diante da ascensão dos países do Sul. Explicou-se, portanto a
ascensão do Sul através da ideia de disseminação do “modelo norte-americano”. Conclui-se que a influência de Boyd na
resposta dada nos dois momentos identifica-se com a força de formação da política externa americana identificada com o
Destino Manifesto.
Palavras-chave: ascensão do Sul; modernização; política externa norte americana; John Boyd; neoconservadorismo.
1. Introdução
O papel destacado dos chamados países em desenvolvimento nos últimos anos, entre os quais se
destaca o Brasil como principal expoente no continente americano, trouxe novamente para os meios
acadêmicos e para a mídia em geral, a discussão das relações entre os países do Norte e os do Sul. A
ascensão dos países do Sul é parte de um processo histórico do capitalismo, com grande inspiração no
“modelo norte-americano” de estabelecimento de poderio econômico e político.
Entretanto, as visões divergentes existentes dentro dos Estados Unidos com relação ao papel desse
Estado no sistema internacional - e perante este - interpretam o crescimento econômico dos países do Sul
de um modo diferente. Uma das visões existentes, a do Destino Manifesto, entende que os EUA possuem
o encargo divino de promover a libertação dos povos dominados, levando até eles a civilização. Essa
percebe o Sul como uma ameaça e algo inferior aos EUA, nos quais as ideias de emancipação política
e/ou econômica não são legítimas. O pensamento de John Boyd foi identificado como influenciado e
influenciador pelo modo de pensar dos EUA do Destino Manifesto.
John Boyd foi um teórico da guerra americano que trabalhou como consultor do Pentágono,
realizando apresentações sobre sua visão da guerra para tomadores de decisão militares. O objetivo
estratégico traçado por Boyd é o de através da gerência do caos aumentar o grau de incerteza do inimigo e
produzir seu colapso moral. Esse objetivo e o modo de fazer a guerra decorrente dele viabilizam o
1
Os coautores agradecem a orientação do professor José Miguel Quedi Martins e a colaboração dos participantes da Oficina de
Estudos Estratégicos.
2
Graduando em Relações Internacionais, UFRGS, [email protected]
3
Graduando em Relações Internacionais, UFRGS, [email protected]
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exercício do excepcionalismo americano através da intervenção, do governo mundial através da guerra
permanente.
Existe, porém, outra visão do excepcionalismo estadunidense: a da Doutrina Monroe, a qual
defende a governança da sociedade, pelos americanos, através do exemplo.
Procurando aclarar as bases do comportamento americano em relação à emergência do Sul,
pretendeu-se, no presente artigo, demonstrar que: (i) há relação entre a visão de mundo e o pensamento
estratégico de Boyd e o comportamento dos Estados Unidos face à ascensão do Sul; (ii) houve uma
resposta claramente neoliberal à ascensão do Sul nos anos 1970 e neoconservadora no início dos nos
2000; (iii) após a eleição de Obama em 2008, o comportamento estadunidense em relação ao Sul
ascendente tornou-se ambíguo; (iv) está por ser definido qual das duas visões prevalecerá: Destino
Manifesto ou Doutrina Monroe, expresso pelas políticas neoconservadoras e de Obama, respectivamente.
Para tal, primeiramente, estabelecemos a relação da ascensão do Sul com o processo de replicação
do modelo americano. Analisamos, através da perspectiva de Chang, as similaridades entre as escolhas
econômicas norte-americanas durante o desenvolvimento de sua economia e as escolhas dos novos países
desenvolvidos. Em seguida, relacionamos as oportunidades de desenvolvimento da periferia a momentos
específicos do sistema capitalista mundial e da economia norte-americana.
Em um segundo momento, procuramos relacionar as ideias de Maria da Graça Mantovani a
respeito da dualidade norte-americana e o pensamento de John Boyd, a fim de explicar a influência do
pensamento de Boyd nas políticas neoliberais da década de setenta e oitenta, e neoconservadoras dos anos
2000, especialmente em relação à emergência dos países do Sul.
Por fim, analisamos os possíveis delineamentos de uma reação norte- americana ao cenário atual
procurando identificar as ações já sinalizadas com as correntes de pensamento ligadas ao Destino
Manifesto ou à Doutrina Monroe.
2. Ascensão do Sul: disseminação do modelo americano
O processo de ascensão do Sul não se deu como uma reinvenção do processo produtivo capitalista
ou uma transformação do desenvolvimento econômico. Pode-se chamar o desenvolvimento de diversos
polos regionais de resultado da exportação do modelo Americano na medida em que se observa a
presença de protecionismo e de intervenção estatal para a construção de uma economia robusta e
autônoma. É estranho, para alguns, relacionar o sucesso econômico estadunidense a medidas antiliberais
como as supracitadas. O país que estimula e endossa as prescrições liberais do Fundo Monetário
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Internacional (FMI) e do Banco Mundial parece amplamente crente na capacidade gestora do mercado, na
função mínima do Estado e na cautela financeira. Cabe ressaltar, no entanto, que essa posição só foi
tomada após longa fase de protecionismo da indústria infante e nem hoje é totalmente praticada pelo país.
A título de exemplo, não só para o fim de explicação imediata, mas também como introdução à
explicação da serie de mecanismos que impulsionaram os emergentes, servem as reformas de Hamilton,
primeiro ministro das Finanças dos EUA. No Report on the Subject of Manufactures, submetido ao
Congresso americano em 1791, Hamilton propôs tarifas protecionistas, proibição à exportação de
matérias-primas, subsídios, prêmios e patentes para invenções, regulamentação dos padrões de produção,
e desenvolvimento de infraestrutura financeira e de transportes. As ideias de Hamilton foram contestadas
e revalidadas ao longo da história norte-americana, geraram, todavia, com certeza, as bases da política
econômica dos Estados Unidos até 1945 (Chang 2009, 48 - 49).
Ao concatenar a necessidade de desenvolvimento industrial rápido e inserção internacional,
diversos países - tardiamente - replicaram o modelo americano. Fosse a partir da substituição de
importações (caso latino-americano) ou da construção de países “plataformas de importação” (caso
asiático), todo o desenvolvimento de uma liberdade de escolha proveniente do crescimento econômico e
autonomia industrial combinou: o incentivo estatal a indústrias específicas, em consonância com o setor
privado; proteção tarifária de tais setores escolhidos; subsídios; direcionamento de crédito; e grandes
projetos realizados por empresas estatais (Chang 2009, 13). A absorção do exemplo americano se deu
através da disseminação do modelo fordista em grande escala, aliado à exploração de matérias primas
para os países robustos em termos populacionais e territoriais, ou da administração de novas tecnologias e
apostas no investimento estrangeiro. A semelhança repousa no fato de que estas economias chegaram ao
ponto que estão por meio de uma conexão seletiva e estratégica com a economia internacional. (Chang
2009, 37)
Como consequência da implantação de um modelo de produção fordista - sustentado no
desenvolvimento de setores industriais estratégicos e de bens de consumo duráveis - iniciaram-se nas
décadas de 1960 e 1970 diversos processos de urbanização nos Novos Países Industriais. Em graus
diferenciados, dependendo do país, esta urbanização foi responsável pela transição de grandes massas de
trabalhadores das zonas rurais, para as cidades. Este êxodo deveu-se a expansão dos setores industriais,
que em um primeiro momento utilizavam mão de obra intensiva, preferencialmente com pouca
qualificação, que pudesse ser mantida com baixos salários. A essa massa de trabalhadores recém-chegada
nas cidades, somaram-se as empresas transnacionais e estatais voltadas para o mercado externo. Ambos
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estes agentes demandavam a existência de grandes investimentos em infraestrutura de transportes, de
telecomunicações, e principalmente de organização do espaço urbano. O resultado de tal processo foi
proliferação de grandes metrópoles nos países do Sul, constituídas de uma população muito elevada,
essencialmente de classe operária não qualificada.
O processo acima descrito, da tomada de decisões a favor do desenvolvimento nacional autônomo
e para isso, da expansão da capacidade industrial do país, pode ser contido em uma expressão, como a
desenvolvida por Samuel P. Huntington: “modernização”. A perseguição do modelo americano, no
entanto, não se restringe à esfera econômica. Ao longo do processo de modernização devem ser
escolhidas as formas de gerência da sociedade, uma vez que a mudança nas relações produtivas liquida o
regime político tradicional. A necessidade de revisão das estruturas institucionais não exclusivamente
leva à racionalização do sistema político. Os padrões culturais e o grau de politização das sociedades
influenciam largamente nas novas formas de controle dos radicalismos e do modelo de comportamento
oficializado, resultantes da modernização. (Peres 2004, 10) Dentre as opções existentes, a solução
institucional democrática é a que completa a reflexão do modelo norte-americano (ou ocidentalização,
para Huntington). A estabilidade política é alcançada através dos ideais de constitucionalismo, do
federalismo e da democracia de massas.
Destacar, no entanto, estes dois processos - o desenvolvimento econômico dos EUA e o
desenvolvimento econômico dos países do Sul – dos seus devidos contextos históricos e colocá-los em
comparação direta prejudica a análise de outra dinâmica profundamente importante para se compreender
a emergência do Sul a partir do modelo Americano. Não só o desenvolvimento do Sul é espelhado no
americano em termos de modelo “estático” de como se desenvolver economicamente, mas também é dele
consequência histórico-processual.
A pujança da economia norte americana no pós-Segunda Guerra, aliada à conjuntura do sistema
capitalista que promovia o “transbordamento de capitais” atingiu positivamente as economias da periferia
(mesmo que, de forma relativa ao centro, permanecessem em desvantagem) e adensou as redes que
interconectam o capitalismo mundial. Explica-nos Martínez Martins:
“Depois de 1945, a característica essencial da expansão [capitalista] residiu na internacionalização,
do comércio e também de capitais; do capital produtivo: as atividades produtivas se assentaram a
nível mundial em países diferentes das matrizes. Assim, se internacionalizaram as unidades
produtivas, ramos, processos de trabalho, tecnologia, em um escalonamento dentro da nova
divisão internacional do trabalho”. (Martínez Martins 1992, 25).
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Em um segundo momento, a partir do final dos anos 1960, o esgotamento do modelo fordistakeynesiano – assentado na distribuição de renda, intervenção estatal, produção de larga escala em linha de
montagem – também gerou um choque externo positivo nas economias subdesenvolvidas. Como reação à
exaustão do padrão produtivo vigente e possível ultrapassagem da sua economia pelos países da Europa
Ocidental e Japão, os EUA iniciaram uma série de aumentos reais nos preços do petróleo, das matérias
primas e dos alimentos, o que afastou seus rivais no momento da reestruturação econômica e qualificou
certos países do Terceiro Mundo, que lucravam com a exportação de produtos primários, a exercerem o
papel de incipientes potências locais (Visentini 2004, 20- 21).
3. Duas respostas dos EUA à ascensão do Sul
Vimos, portanto, que a ascensão do Sul é, antes que uma ameaça à hegemonia americana, um
resultado dela. Todavia, a interpretação dos EUA em relação a esse movimento, nem sempre foi nesse
tom. É possível, como fez Maria da Graça Mantovani4, diferenciar dois modos distintos de ação com
relação à política externa existentes dentro dos EUA. Dois países que diferem historicamente e
moralmente5.
O primeiro desses é os Estados Unidos da Doutrina Monroe, em que está presente o anseio de
exportar os valores da Revolução Americana, de emancipação e de cidadania. Proclamada em uma
mensagem do presidente americano James Monroe, em 1823, esta doutrina é a transferência dos ideais
dispostos na Declaração de Independência e na Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, para a
esfera internacional, mais especificamente às Américas. (Mantovani 2006, 62) De acordo com Monroe, os
movimentos nacionais que buscassem incorporar esses valores deveriam ser interpretados como
efetivação do ideal de mundo americano.
Entretanto, o dever americano de propagar esses valores foi, ao longo da história, distorcido. A
ideia do povo eleito - ou como é mais comumente utilizado para o caso americano, a do excepcionalismo
- pode ter duas faces: a de eleito para guiar e, portanto, dotado de mais encargos; e a de eleito para
governar, dominando, subjugando o resto e desfrutando de posições privilegiadas. Na primeira
4
Mantovani, Maria da Graça H. “Tribunal Sul-Americano: uma concepção cibernética de integração”. Dissertação de
Mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006.
5
Apesar de, ao longo do trabalho, tratarmos os dois modos de ação como uma dicotomia, essa é uma opção dos autores. Não
necessariamente a política externa dos EUA expressou-se na história, por este antagonismo. Para uma análise mais detalhada
dessa dicotomia ver MANTOVANI, 2006 e CASTELLANO, 2008.
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perspectiva a eleição é um fardo que dota a sociedade de “autorresponsabilidade”, na outra, uma
vantagem que imuniza o povo do erro.
É da versão da prerrogativa de superioridade que surgirá o “segundo país dentro do mesmo
território”, os Estados Unidos do Destino Manifesto, conflitante com o país da Doutrina Monroe.
Fortalecida na época da discussão sobre a anexação do Texas e a expansão para o Oeste, esta visão
se manifestará no termo Destino Manifesto. Utilizando-se deste termo a fim de legitimar a ocupação de
territórios do Oeste, John O’Sullivan afirma em seu ensaio “Anexação” que Deus havia escolhido o povo
norte-americano para prosperar e levar seus valores ao mundo, tal como a liberdade, a religião civil e a
democracia. Assim, a expansão americana poderia ser vista como uma condução divina de um processo
civilizatório, libertador dos povos dominados. Uma missão que deveria ser cumprida pelo povo eleito.
Como escreve Igor Castellano: “emergia uma outra América que, ao invés de se autoperceber a partir do
privilégio de inspirar pelo exemplo, propunha a transformação do mundo a partir de sua expansão e
intervenção.” (Castellano 2008, 19)
Estas “duas Américas” expressam-se na dicotomia existente entre os presidentes Woodrow
Wilson e Franklin Delano Roosevelt (FDR), analisada por Maria da Graça Mantovani.
Wilson era a representação do puritanismo e do liberalismo. Sua crença no livre mercado e no
trabalho como resposta para qualquer problema social, somada à responsabilização dos pobres pelos
problemas de sua época, o levou a aprovar a Lei Seca nos EUA. Externamente, suas crenças se
mostravam ainda mais fortes. A assinatura do Tratado de Versalhes e a criação da Liga das Nações
expressam a ideia de que o povo alemão deveria ser responsabilizado pela Primeira Guerra Mundial.
Além disso, o melhor modo para se manter a paz seria através de um mecanismo em que as grandes
potências fossem capazes de punir os países transgressores da ordem. Em suma, Wilson defendia com a
Liga das Nações, um mecanismo de governo mundial, a partir da noção de que os EUA deveriam através
do livre mercado, punir os países transgressores da ordem internacional. (Mantovani 2006, 99)
Já FDR, pelo contrário, representava a visão da Doutrina Monroe. A criação da ONU e do sistema
de Bretton Woods é a legitimação da paz como fruto da expansão de uma potência política, econômica e
militar. Por meio destes mecanismos de integração política e econômica, a Doutrina Monroe expressavase ao tentar estabelecer um modo de governança mundial, com participação destacada das regiões.
(Mantovani 2006, 100)
Como pode ser visto, Wilson e FDR representam duas expressões do excepcionalismo que se
antagonizam e se aproximam na política norte-americana. Diz-nos Maria da Graça Mantovani:
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“[...] os EUA eram (e ainda são) uma nação divida entre a Doutrina Monroe e o Destino
Manifesto, ainda que ultimamente pareçam pender exclusivamente para o último.” (Mantovani
2006, 111)
Crendo na ideia de que os EUA nos últimos tempos tendem ao comportamento relacionado ao
Destino Manifesto, passaremos para análise da teoria estratégica de John Boyd. É via Boyd, cuja teoria
traduz militarmente a forma de afirmação da excepcionalidade norte-americana no mundo, que
chegaremos às respostas neoliberais/neoconservadoras, dos anos 1970-80 e 2000.
4. O pensamento estratégico de John Boyd
John Boyd foi um estrategista militar estadunidense, considerado por seus seguidores como o
maior pensador do século XX. Piloto de caça de pouca expressão nas Guerras da Coréia e do Vietnã,
Boyd desenvolveu estudos sobre guerra de manobra (Maneuver Warfare), aplicada, especificamente, a
guerra aérea. Quando deixou o serviço ativo, tornou-se consultor da USAF (Forças Aéreas dos Estados
Unidos da América) no Pentágono, e foi o grande responsável pelo desenvolvimento de novas gerações
de caças estadunidenses, como o F-16 e o F-156. Por conta de sua participação no desenvolvimento
tecnológico da aeronáutica estadunidense, foi um dos expoentes do movimento de reforma das forças
armadas, que se destacou no Congresso Americano nas décadas de 1970 e 1980.
Boyd nunca publicou um livro. Suas obras escritas são um artigo que contém a parcela
epistemológica de sua teoria estratégica7 e um trabalho da Universidade da Força Aérea, de conteúdo
estritamente militar. Toda sua teoria estratégica de guerra está contida em diversas apresentações de
slides, que eram feitas para tomadores de decisão do Pentágono e para oficiais da USAF. Dentre as
centenas de apresentações feitas por Boyd, pode-se dizer que a mais importante foi realizada para Dick
Cheney, o então Secretário de Defesa dos EUA. Essa apresentação ocorreu justamente no momento de
preparação dos EUA para a Operação Tempestade no Deserto, que deu início a Guerra do Golfo de 1991.
Na ocasião, Boyd expôs sua teoria estratégica, e especialmente seu conceito de ciclo OODA, amplamente
aplicado pela USAF durante a operação. (Coram 2002, 422-24; Richards 2012, 3; Osinga 2005, 5).
Apesar de sua participação em setores de grande importância na definição da estratégia militar
estadunidense, as menções claras à influência de Boyd são raras. Grande parte do reconhecimento a seu
trabalho é feito somente no que diz respeito à teoria de guerra de movimento aéreo ou aos caças que este
6
Como contribuição a USAF ainda, desenvolveu o conceito de AirLand Battle (Batalha Ar-Terra) utilizado por esta durante a
Guerra do Vietnã e ao longo da década de 1980.
7
Boyd, John. Destruction and Creation. 1976. Não publicado.
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ajudou a desenvolver. Para que se possa estabelecer uma relação entre o pensamento de grande estratégia
boydiana, e a resposta liberal dos EUA na década de 1970 e neoconservadora nos anos 2000, é necessário
que analisemos primeiramente as linhas gerais da teoria de Boyd, e em seguida como esses ideais
expressam-se nas ações estadunidenses.
Para o autor, o homem tem como objetivo principal de sua vida a sobrevivência. Mais do que isso,
o homem busca sempre aumentar sua capacidade de ação independente. Neste contexto, até mesmo suas
relações sociais estarão condicionadas ao cumprimento desse objetivo. O grau de cooperação ou conflito
dependerá da capacidade de o homem agir de modo independente. (Boyd 1976, 1)
O meio ambiente boydiano caracteriza-se pela complexidade, incerteza e pela desordem decorrente do Princípio da Entropia ou Segunda Lei da Termodinâmica - que resultam em caos. (Boyd
1976, 4-6) Para que o homem possa alcançar seu objetivo de sobrevivência é necessário que explore suas
próprias fraquezas e dificuldades, além das do inimigo. Isso é realizado através do processo de ciclo
OODA: Observação, Orientação, Decisão e Ação. (Boyd 1995, 3)
É através da exploração do nosso ciclo de tomada de decisões e de ação que conseguimos superar
a incerteza e a desordem do sistema. E agindo pelo mesmo processo, de modo mais rápido e eficiente,
interferindo no ciclo OODA do inimigo explorando suas fraquezas e contradições – se alcançam as
vitórias. Ou seja, garantindo a sobrevivência neste sistema incerto.
É fundamental atentar para o fato de que, uma vez que o ciclo OODA envolve muito mais
aspectos e capacidades mentais e morais do que físicas, as ações contra um inimigo também devem
objetivar essas áreas. Sendo assim, Boyd faz uma distinção entre: (i) guerra física, que busca destruir
habilidades e recursos tangíveis, como pessoas, armas e ativos logísticos; (ii) guerra mental, que se centra
em dificultar a percepção inimiga da realidade através de ações como desinformação sobre as redes de
comunicação e de controle, ou seja, agindo na Observação e na Orientação, do ciclo OODA; (iii) e a
guerra moral, em que o objetivo final da ação é “destruir os laços morais que permitem a existência de um
corpo orgânico”. (Boyd 1986, 122)
A guerra moral é a parte da guerra mais importante para Boyd. Através deste meio de conflito o
ciclo OODA do adversário será afetado e desestabilizado por inteiro. Portanto, é com base na guerra
moral que Boyd formula seu objetivo estratégico, a saber:
“Penetrar o ser moral, mental, e físico do adversário de modo a dissolver sua fibra moral,
desorientar suas imagens mentais, romper suas operações, e sobrecarregar seu sistema, assim como
subverter, quebrar ou capturar, senão subjugar os bastiões morais, mentais e físicos, conexões ou
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atividades nas quais ele depende, a fim de destruir a harmonia interna, produzir paralisia e colapsar
a vontade adversária de resistir.” (Boyd 1986, 133)
Pode se dizer que a guerra, com John Boyd, torna-se um processo menos humano e moral do que
aquela teorizada até o momento. A guerra como conflito físico e mental, como expressa por Sun Tzu,
Fuller e Jomini - para citar alguns teóricos nos quais Boyd se inspirou - assume um caráter destruidor
muito mais profundo. A partir de agora, a guerra possui o objetivo de afetar o inimigo moralmente,
tornando a realidade dele tão caótica, desordenada e incerta, que o leve ao colapso moral.
Por consequência, os meios para se conduzir uma guerra cujo objetivo não é tão somente o
colapso físico do adversário também irão variar. Nos termos em que Boyd expõe seu objetivo estratégico,
qualquer meio que conduzido através do ciclo OODA, e que busque afetar o ciclo OODA adversário,
pode ser eficiente para causar o colapso moral do rival.
A efetivação do pensamento de Boyd se expressa na prática da guerra permanente. Uma vez que
seu objetivo final é, mais do que a derrota física do adversário, sua derrota moral os meios para se
conduzir a guerra serão variados. A política e a economia, portanto, constituir-se-ão em meios ordinários
de se fazer a guerra.
Cabe observar que, o termo permanente nesse conceito não possui relação direta com a duração
das guerras. Diz respeito, na verdade, à condição assumida pelo Estado de que qualquer prática de política
externa é uma ação de confrontamento a algum adversário.
5. Resposta neoconservadora / neoliberal dos EUA à ascensão do Sul
Expostas as duas visões do papel dos EUA no mundo - Doutrina Monroe e Destino Manifesto - e a
teoria estratégica de John Boyd, notamos a influência da visão oriunda do Destino Manifesto na política
externa estadunidense. Nosso objetivo daqui em diante será explorar como essa visão se fez presente na
política norte-americana em relação à ascensão do Sul, em dois momentos: a Grande Crise dos anos 1970
e 1980; e os anos 2000.
Adotamos daqui por diante (assim como Mantovani 2006) a tese de que os EUA, a partir dos anos
1970, passaram a adotar como prática a guerra permanente (perpetual war).
5.1. Contexto dos anos 1970-80
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Envoltos por esse conceito, os EUA planejarão a resposta à “Grande Crise” e à proeminência do
Sul na década 1970. A desvinculação do dólar ao ouro, a primeira das ações de “resposta”, em 1971,
(adotado com o sistema de Bretton Woods) torna o dólar uma moeda política e cria uma nova “arma”
para o governo norte americano: a economia.
Assim, a moeda americana poderia ser emitida em maior quantidade e inflacionar os preços
mundialmente, cobrindo os rombos orçamentários da guerra do Vietnã através da valorização das
exportações americanas e depreciação das do Terceiro Mundo (Visentini 1992a, 12). O aumento
subsequente dos preços do petróleo não só foi uma reação dos países da OPEP ao aumento generalizado
dos preços, mas também uma maneira dos EUA e das petrolíferas transacionais de “castigar” as
emergentes economias alemã e japonesa, não produtoras de petróleo.
Nos países subdesenvolvidos que não conseguiam alcançar um equilíbrio no novo nível de preços,
a crise se propagou. Isso se deveu ao fato de o aumento do valor das exportações de produtos primários
não ter sido suficiente para superar o acréscimo no preço dos combustíveis (Amin 1978, 42). A crise que
abateu esses países, somada ao declínio relativo dos EUA proporcionou ambiente favorável à explosão de
“ondas revolucionárias”. A Revolução Sandinista e a Revolução Iraniana (ambas em 1979) são exemplos
da nova dinâmica anti-imperialista imprevisível que abala o cenário internacional. (Visentini 1992a, 12 14)
Além do esgotamento econômico norte-americano oriundo dos custos da guerra do Vietnã, a
reestruturação do capitalismo que ocorre nessa década provoca reações adversas tanto nas economias
centrais quanto nas periféricas. A transferência de bases industriais para os países da periferia, a fim de
diminuir custos e alcançar preços competitivos, resolve o problema de crescimento da produção e influxo
de capitais por algum tempo. Mesmo que concentradas nos segmentos de tecnologia avançada, todavia, as
economias centrais não conseguem manter o mesmo ritmo empregatício e de crescimento. A
desindustrialização provoca prostração na sociedade e ondas de violência que alarmam as elites. A
intervenção governamental para mitigar a situação caótica é constrangida pela ofensiva neoliberal. Nos
Novos Países Industrializados - aqueles que receberam os investimentos e, em maior quantidade, novas
sedes de empresas transacionais - a concentração de renda e a poluição crescem a níveis alarmantes.
(Visentini 1992a, 16 - 19)
O cenário de crise, ebulição do Terceiro Mundo e reestruturação da divisão internacional do
trabalho produziram um ambiente de incerteza insustentável para os meios conservadores. A resposta
destes foi baseada no neoliberalismo; em uma nova corrida armamentista; na posição de intransigência
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em relação à multilateralização da política internacional; e na substituição da bandeira dos direitos
humanos pela democracia e combate ao terrorismo. (Visentini 1992a, 21; Davis 1985, 89)
A articulação dessas políticas cercou os movimentos revolucionários do Terceiro Mundo de
dificuldades e proibições. A retomada da busca da superioridade militar obrigou a URSS a cessar o apoio
aos insurgentes e estes, enfraquecidos, não puderam superar a nova estratégia americana de combate em
teatros limitados. A estratégia dos conflitos de baixa intensidade foi desenvolvida com o propósito
imediato de reforçar os opositores nos países em revolução nacionalista e os governos conservadores para
evitar o sucesso das guerrilhas de esquerda. Esse é o caso das diversas revoluções ocorridas na América
Central (Panamá, El Salvador e Nicarágua), e na África (Moçambique, Angola, e Zimbábue). (Visentini
1992b, 88)
5.2. Contexto anos 2000
Tendo vista as políticas norte americanas neoliberais das décadas de 70 e 80, de manutenção da
guerra permanente, nos campos militar, econômico e diplomático, percebe-se a nítida presença dos ideais
do Destino Manifesto. Entretanto, na primeira década do segundo milênio, delineiam-se duas políticas
divergentes com relação à ascensão do Sul. Novamente podem-se identificar nessas políticas traços das
duas visões de mundo americanas.
Como no período de 1970 a 1980, os elementos de desestabilização econômica e questionamento
da posição relativa dos EUA no cenário mundial estão presentes. Após uma década de hegemonia
incontestável no sistema internacional, os EUA dos anos 2000 caracterizam-se como um país de política
externa unilateral, envolto em intervenções militares mundo afora - justificadas pela defesa da democracia
“sem adjetivos” e pelo combate ao terrorismo - e com uma economia pauperizada pelos custos de duas
guerras sem previsões de acabar. A Doutrina Bush dá forma institucional à resposta dos neocons
estadunidenses, assim como a Era Reagan deu à resposta neoliberal dos anos 1970-80.
A esse cenário soma-se, mais recentemente, o papel de destaque dos países em desenvolvimento representantes da nova proeminência econômica, diplomática e militar do Sul - institucionalmente
denominados BRICS. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, articulados como um grupo, defendem
uma reforma do sistema monetário internacional, do FMI, das Nações Unidas e do Conselho de
Segurança. Suas reivindicações manifestam o entendimento de que é necessário reformar as instituições
internacionais, de modo a refletirem um sistema internacional multipolar e regionalizado. Quanto à
reforma do sistema monetário, a principal justificativa fica em torno da incapacidade atual dos Estados
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Unidos em gerenciar o dólar como padrão monetário internacional, e a vulnerabilidade dos demais países
às políticas econômicas internas estadunidenses. (Visentini 2011)
No que toca as instabilidades no mundo subdesenvolvido, a Primavera Árabe, conjunto de
levantes que derrubaram oligarquias autoritárias em diversos países do Oriente Médio e Norte da África,
reavivou questões relacionadas ao mercado energético, à legitimidade de governos ditatoriais e
intervenções militares. Mais especificamente, tal movimento, ocorrido em uma área de grande
importância estratégica para a economia mundial, trouxe à tona discussões sobre o papel do
intervencionismo norte-americano e da defesa do ideal ocidental de democracia. Em outras palavras,
volta-se à discussão sobre como deve se manifestar o excepcionalismo norte americano na política
mundial.
A resposta à conjuntura atual, no entanto, ainda não foi definida. Há sinais das duas expressões do
excepcionalismo americano atuando. A eleição de Barack Obama a presidência do país – democrata e
eleito em grande parte devido às críticas ao governo intervencionista de George W. Bush – em 2008,
demonstrou que a população estadunidense demanda novas formas de expressão do excepcionalismo de
sua nação.
Contudo, como fica expresso na resolução 568 de 17 de Maio de 2012 da Câmara dos Deputados
dos EUA (House of Representatives), há parcela da sociedade que ainda está engajada com a perspectiva
do Destino Manifesto. Essa resolução expressa o entendimento da Câmara dos Deputados sobre a
importância de se prevenir que o governo do Irã adquira capacidades nucleares. Em termos simples, ao
afirmar que é um interesse vital para a segurança dos EUA prevenir o Irã de adquirir poder militar
nuclear, essa resolução impediu o governo estadunidense de encontrar uma solução para o conflito
iraniano que não a do enfrentamento, através da manutenção das sanções econômicas e da pressão
diplomática.
A resposta expressa pela resolução 568, vinculada à visão de mundo do Destino Manifesto, à
teoria de John Boyd e à manutenção da guerra permanente define-se por: (i) os anseios de reforma
monetária internacional serem interpretados como afrontamento à hegemonia econômica estadunidense;
(ii) a manutenção de conflitos no Oriente Médio ser escolhida como forma de gerência de regiões
inconstantes, impedindo a ascensão de forças regionais; (iii) e, no caso dos BRICS, o papel de destaque
econômico dos países do grupo ser respondido com a desvalorização do dólar e consequente tarifação
desleal às importações (Thorstensen 2011, 17).
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Em contrapartida, a outra resposta que pode ser identificada, ainda que parcamente, busca atuar:
(i) via reconhecimento das propostas de alteração no padrão monetário internacional, como a aceitação de
negociações acerca de uma moeda internacional (Gantois 2009); (ii) na criação e fortalecimento de
mecanismos de governança regional, como o papel ampliado da OCX (Organização de Cooperação de
Xangai); (iii) mantendo sua supremacia econômica através da administração de marcas e patentes, e
investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Essas políticas, por sua vez, estão ligadas à eleição
de Obama, à América da Doutrina Monroe, da liderança pelo exemplo, das ações multilaterais e do
estabelecimento de um ambiente internacional seguro juridicamente através do respeito ao Direito
Internacional.
6. Conclusão
A assinalação da pendência exclusiva da política externa estadunidense para o Destino Manifesto,
no trabalho de Mantovani, diz respeito às escolhas de política externa dos EUA em relação à gerência
mundial através da supremacia nuclear e, posteriormente, da guerra permanente. O pensamento de John
Boyd, nesse contexto, revela-se uma tradução dos meios de efetivação da missão divina do
excepcionalismo americano. Em outras palavras, Boyd, ao defender a eficiência do processo do ciclo
OODA em relação ao do oponente, está corroborando a visão de superioridade dos EUA em relação ao
resto do mundo.
A operacionalização dos pensamentos de John Boyd e da superioridade tal qual expressa pelo
Destino Manifesto, configurou-se como a resposta neoliberal dos EUA em relação à ascensão do Sul nos
anos 70 e 80. Até o presente momento, a resposta estadunidense à conturbada conjuntura internacional e à
nova ascensão do Sul, tem sido mais próxima das políticas neoconservadoras, ligadas a Boyd e a Destino
Manifesto, do que aos ideais da Doutrina Monroe.
Como expressou Mantovani, a manutenção da guerra permanente pelos EUA levou-os à abdicação
dos valores de democracia e de soberania tais quais expressos na Doutrina Monroe. “O triunfo da
América no pós-Guerra Fria converteu-se no colapso da Revolução Americana e da projeção de seus
valores (liberdade e igualdade) [...]” (Mantovani 2006, 149). Ao invés dos valores da Revolução
Americana, os Estados Unidos passaram a exportar a guerra, via a negação da liberdade dos indivíduos e
dos povos que tentavam - e tentam - se constituir como autogovernos.
Contudo - como demonstramos - após a eleição de Barack Obama ao cargo de presidente,
delineia-se dentro dos EUA outra resposta à ascensão do Sul. Essa prega a multilateralização das relações,
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a promoção das regiões e a governança mundial através do exemplo, fundamentando-se claramente na
visão de excepcionalismo da Doutrina Monroe.
Tal perspectiva, através da qual os países emergentes tem espaço na construção da governança
mundial, sustentamos, responderia de modo mais satisfatório à transferência de poder corrente no cenário
internacional. Essa resposta seria preferível no que toca aos valores da não confrontação, do
multilateralismo e do fortalecimento de um sistema baseado no diálogo e na cooperação regional.
A preferência por estes valores não é baseada em abstrações e idealismos. A negação da ascensão
do Sul já foi feita anteriormente e não resolveu aspectos como o gerenciamento das regiões, o
desenvolvimento de um capitalismo sustentável ou mesmo da manutenção da hegemonia americana. É
somente através dos valores presentes na resposta relacionada à Doutrina Monroe, que se torna possível
um ambiente multipolar estável, em que o consenso se torna o resultado da metabolização das
divergências de interesses através das instituições internacionais.
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