REFLEXÕES SOBRE A LÍNGUA E AS IMPLICAÇÕES SOCIAIS DOS DISCURSOS E SUA INFLUÊNCIA NA FORMAÇÃO DA SUBJETIVIDADE DOS INDIVÍDUOS MIRANDA, Nilva Conceição - SEED/PR [email protected] Eixo Temático: Comunicação e Tecnologia Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O presente artigo apresenta algumas reflexões e conceitos referentes à língua em sua integridade concreta e viva, o discurso e a enunciação sob a ótica de Mikhail M. Bakhtin. Apresenta a língua como importante recurso de interação verbal, concretizada na forma de discurso, enquanto prática social capaz de despertar nos sujeitos, uma nova maneira de agir, reagir e posicionar-se diante do mundo. Busca-se ainda, examinar a relação existente entre o discurso externo que envolve ideologicamente e pode influenciar o discurso interno, o que diz respeito à formação da subjetividade dos indivíduos. Propõem-se também, compor uma breve análise de que forma os discursos políticos são construídos, nas vozes de Martin Luther King e Malcom X, considerando alguns aspectos sócio-histórico, político e cultural destes indivíduos que interagem por meio de discursos internos distintos. Indivíduos como estes que estruturam seus discursos por meio de formações ideológicas constituídas, exercem certo poder e influenciam a dinâmica das relações intersubjetivas em contextos sociais definidos. Assim, refletir sobre língua e discurso, é refletir sobre o sujeito que a utiliza, pois sem este, aqueles não existiriam. Nesse sentido, infere-se que língua, discurso e interação social são determinantes no processo de construção da subjetividade e do sentido pelo qual o sujeito se orienta no mundo real. Palavras-chave: Língua. Discurso. Interação social. Subjetividade. Introdução Os estudos e reflexões sobre a língua são preocupações antigas e constantes da mente humana. No decorrer da história, diversas foram as concepções de língua, determinadas pelo momento e contexto históricos, e de sua relação com a atividade humana. Por ser a língua um importante recurso de interação social, utilizado pelo homem desde os primórdios para se comunicar, ela será o ponto de partida deste estudo. Entendemos que, na comunicação humana, as relações sociais geram transformações 9536 na atividade mental e na vida dos indivíduos, que têm como ferramenta de ação os discursos os quais se manifestam nas formas da língua. Para Bakhtin, A língua não é o reflexo das hesitações subjetivo-psicológicas, mas das relações sociais estáveis dos falantes. Conforme a língua, conforme a época ou os grupos sociais, conforme o contexto apresente tal ou qual objetivo específico, vê-se dominar ora uma forma ora outra, ora uma variante ora outra (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2010, p.153). Neste artigo, optamos por fazer uso da concepção de Mikhail Bakhtin e seu Círculo (1988) no que se refere a conceitos sobre língua, discurso, e enunciação. Trata-se de um dos maiores pensadores do século XX que concentrou-se em aspectos fundamentais da língua e da interação verbal, sobre a linguagem e o caráter ideológico embutido no signo linguístico, dentre outros estudos. É, portanto, um teórico fundamental da língua. Na visão de Bakhtin (2000) ga verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas, nem pela expressão de uma consciência individual, mas sim pela interação verbal social efetivada pela enunciação concreta, ou seja, pelo discurso. h A aquisição da língua se constitui nos e pelos diversos discursos (Bakhtin, 1988) que se transformaram ao longo da história e continuam a se dinamizar a cada dia que passa. É por meio desta interação sócio-discursiva que se efetiva no e pelo outro que se torna possível compreender as relações sociais. Nesse sentido, a língua, o discurso e sua enunciação constituem-se e materializam-se a partir da percepção que temos da sociedade em um determinado momento histórico e das relações entre determinados grupos sociais com uma criação ideológica definida. Em sua teoria da enunciação Bakhtin (2010) confirma que a linguagem é social, sofre interferências históricas e culturais e se estabelece de acordo com a condição social do indivíduo, assim, “[...] a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados [...]” (BAKHTIN, 2010, p. 116). Sendo a linguagem um produto da interação social, e por meio dela, a formação ideológica e a formação linguística do indivíduo dependem não apenas da classe social a que pertence, mas do contexto sócio-histórico e cultural no qual esteja exposto. Assim, pode-se inferir que o discurso do mundo real pode interferir na formação da subjetividade do indivíduo tanto para a construção de seu conhecimento e de seu espírito crítico quanto para 9537 sua alienação como ser social. A língua como fenômeno social Em Bakhtin/Volochínov(1988), é possível ampliar a visão de língua na obra Marxismo e filosofia da linguagem, em que ele afirma que ga língua é constituída pelo fenômeno social da comunicação discursiva concreta e está presente na vida cotidiana, na ciência, na arte, na história, etc. h Portanto, é possível afirmar que discurso e língua caminham juntos, ou seja, não se pode dissociá-los em nossa comunicação. Logo, o discurso, pressupõem a dinâmica dialógica da interação entre sujeitos. Na obra de Bakhtin(2008,p.76), Problemas da Poética de Dostoiéviski, em seu capítulo gO discurso em Dostoiéviski h, língua e discurso convergem [...] porque temos em vista o discurso, ou seja, a língua em sua integridade concreta e viva e não a língua como objeto da linguística, obtido por meio de uma abstração absolutamente legítima e necessária de alguns aspectos da vida concreta do discurso f. Ou seja, a língua vista como discurso não pode ser dissociada de seus falantes e de seus atos, das esferas sociais, dos valores ideológicos [...] Nesse sentido, o discurso, enquanto prática social, ou seja, um uso vivo da linguagem, atua nas esferas subjetivas por meio de enunciados articulados ideologicamente, para reconstruir as concepções discursivas dos sujeitos. Bakhtin (2010) aponta que, [...] o discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes, sujeitos do discurso. O discurso sempre está fundido em forma de enunciado pertencente a um determinado sujeito do discurso, e fora dessa forma não pode existir (BAKHTIN, 2010, p. 274). Ocorre que, os indivíduos que interagem politicamente e estruturam seus discursos por meio de formações ideológicas, exercem certo poder e influenciam a dinâmica das relações intersubjetivas. Para que o sujeito/leitor compreenda o discurso político, é interessante que se proceda uma breve investigação do contexto histórico em que foi produzido, a quem ele se destina, bem como questione e edifique-se reflexões sobre o texto. Refletir sobre língua e discurso é refletir sobre o sujeito que a utiliza, pois sem este, aqueles não existiriam. Assim, pretendemos compreender de que forma o discurso se constitui, no meio 9538 social, as interferências e implicações que se desvelam nos envolvimentos subjetivos, articulados por meio de enunciados que podem ocasionar contradições dialógicas capazes de transformar o modo de agir e de pensar dos indivíduos. Nos discursos políticos que se incorporaram à história e à formação da sociedade, residem a alienação dos sujeitos que, envolvidos por essa teia de signos linguísticos e ideológicos, podem distanciar-se de si mesmos, alterando assim sua subjetividade. Grande parte dos discursos políticos se utilizam da 'arte da retórica' para difundir suas crenças e ideais. A arte da retórica, nesse sentido, consiste em utilizar palavras que passam a inspirar as pessoas a fazer algo, chamando-as para a ação, ou seja, a uma atitude responsiva ativa. Conforme Bakhtin (2003, p. 291), [ c] aqui não só compreendemos o significado de dada palavra enquanto palavra da língua como ocupamos em relação a ela uma ativa posição responsiva – de simpatia, acordo ou desacordo, de estímulo para a ação. Desse modo, a entonação expressiva pertence aqui ao enunciado e não à palavra [...]. A compreensão do exposto pode ser entendida a partir da análise de discursos que se tornaram célebres3, devido à importância do momento histórico em que foram proferidos. Desta forma, é essencial analisar e refletir sobre a relação existente entre o que tais discursos apresentavam ou ainda apresentam a ponto de envolver ideologicamente os indivíduos de uma sociedade em determinado momento histórico. O discurso político nas vozes de Martin Luther King Jr e Malcom X Dentre alguns célebres discursos, o de Martin Luther King Jr. intitulado I have a dream, pronunciado no ano de 1963, deixou a América perplexa com sua eloquência. Sua mensagem principal encontra-se impregnada, ideologicamente no pressuposto de que todas as pessoas são iguais, independente da crença, etnia ou condição social. Martin Luther King era de uma família de classe média e bem estabelecida em Atlanta. Teve uma infância feliz e segura, o que mais tarde refletiu em seus pontos de vista e em seus discursos. No decorrer de suas lutas sociais, tornou-se um expoente, no que se refere às reações ao racismo norte americano, seu ponto de vista, elaborado em sua trajetória de 3 Faremos uso de parte dos discursos proferidos por Martin Luther King Jr., Malcom X . 9539 lutas, reflete-se veementemente em seus discursos. Dois fatores foram significativos no discurso de Martin Luther King, o primeiro por estar fundamentado em preceitos pacifistas e o segundo por ser inspirado no pensamento cristão4. Estas condições corroboraram para que suas palavras carregadas de significados atingissem todo tipo de audiência. A partir deste discurso, o legado e a presença de Martin Luther King, influenciaram o pensamento político, social e cultural negro, promovendo uma nova visão perante o mundo. Martin Luther King possuía a habilidade de argumentar de maneira incisiva, porém de modo pacífico. Como aponta Marques (2007), “[...] O argumento ou o discurso falado tornase, portanto, relativo ao sujeito que o enuncia e às circunstâncias de sua enunciação [...]” (MARQUES, 2007, p.35). Na dimensão sócio-histórica, política e cultural, o discurso político se constitui de enunciados e se desenvolve com a intenção de prender a atenção, envolver e convencer de tal forma, que muitas vezes a audiência, não faz as devidas relações entre discurso e realidade. Então, na construção de um texto oral ou escrito, pressupõem-se sempre a existência de um interlocutor. Segundo Bakhtin (2010), […] A palavra dirige-se a um interlocutor: ela é função da pessoa desse interlocutor: variará se se tratar de uma pessoa do mesmo grupo social ou não, se esta for inferior ou superior na hierarquia social, se estiver ligada ao locutor por laços sociais mais ou menos estreitos (pai, mãe, marido, etc.)[...] (BAKHTIN, 2010, p.116). Nesse contexto, os discursos políticos, reproduzem uma considerável densidade de significados e emergem de contextos sócio-históricos em que se efetivam as relações sociais. Para que se compreenda o 'discurso político', é interessante que se proceda uma investigação, primeiramente do contexto histórico em que ele foi produzido, a quem ele se destina, e as implicações dele decorrentes. Ao analisar o discurso de Luther King, constituído de forma harmoniosa e pacífica, mas também carregada de metáforas, característica própria do autor, evidenciamos que as palavras direcionam-se enfaticamente as questões raciais e objetiva, por intermédio do discurso, o convencimento da sociedade norte americana à mudança de atitude com relação a 4 Martin Luther King mantinha seus laços religiosos à Instituição Baptista, o qual possuía título de Ministro desta. 9540 diversidade racial. Evidencia-se no início do texto que o autor apresenta a discussão racial enraizada no sonho americano. Palavras expressivas contidas nesse discurso como irmandade, justiça e liberdade reforçam seu desejo de igualdade entre os seres humanos. Todo o seu repertório de expressões e elementos discursivos refletem certa influência de pensadores que se utilizavam da retórica como poderoso instrumento político. Sob esse enfoque, pode-se afirmar que o discurso de Luther King possui características da “[...] arte de encantar a alma”, recurso retórico utilizado por Platão (1997) em sua obra Górgias. Outra característica peculiar em suas palavras é o da “[...] faculdade de descobrir em qualquer particularidade todo valor da persuasão”, este provindo de Aristóteles em sua obra Retórica. Ao associarmos o discurso de Luther King à natureza retórica, atenta-se para o fato do autor fazer uso intencionalmente de outras técnicas para evocar uma resposta emocional da audiência. E, ao que podemos chamar recursos retóricos, podem auxiliar na compreensão do significado de uma palavra, ideia ou sentimento daquilo que se quer transmitir. Recorrer à intertextualidade na elaboração de um discurso, além de enriquecer as ideias com as palavras do outro, é um recurso ativador da memória do interlocutor para reforçar aquilo que se pretende. Nesse caso, tem-se o discurso propalado em várias vozes. Podemos compreender essa relação de vozes no trecho que refere-se a uma das citações de Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos da América e autor da Declaração da Independência. Retomar um discurso que todos respeitam, a fim de comover a audiência, ao mesmo tempo que alerta que os direitos de igualdade assegurados para todos os cidadãos, não está sendo cumprido. Na esfera social política, o discurso político se desenvolve com o intuito de prender a atenção e envolver de tal forma a audiência dando a entender que quem profere o discurso e quem escuta compartilham das mesmas ideias, ou ainda, o discurso passa a ser tão envolvente que o ouvinte, muitas vezes, não faz as devidas relações entre discurso e realidade. As palavras passam a inspirar as pessoas a fazer algo, chamando-as para a ação, ou seja, a tomar uma atitude responsiva contra o sistema. O discurso e a construção da subjetividade O discurso político, possui, além dos recursos de linguagem utilizados que o tornam tão intenso, a energia emocional dispendida pelo falante. Esta energia emocional pode ser 9541 decorrente de experiências vividas no cotidiano, que vem à tona no momento do discurso. Nesse sentido, os indivíduos que interagem politicamente exercem certo fascínio e poder sobre as relações intersubjetivas e seus discursos se materializam em formações ideológicas correspondentes às formações linguísticas. Em sua teoria da enunciação, Bakhtin (2010) confirma que a linguagem é social, sofre interferências históricas e culturais e se estabelece de acordo com a condição social do indivíduo, assim, “[...] a enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados e, mesmo que não haja um interlocutor real, este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor” (BAKHTIN, 2010, p. 112). Ainda, em Bakhtin/Volochínov (2010), o conteúdo do psiquismo e da consciência, é totalmente ideológico, sendo determinado por fatores não individuais e orgânicos (biológicos, fisiológicos), mas puramente sociológicos. Portanto, podemos inferir que os discursos externos influenciam diretamente na construção da subjetividade dos indivíduos, discursos estes capazes de gerar mudança no ideal de vida, de verdade e de valores e, que podem alterar a forma de pensar, de elaborar conceitos, de interpretar os acontecimentos, etc. Há diferenças essenciais em relação à receptividade das enunciações do meio social e nos efeitos causados pelas experiências de vida de indivíduo para indivíduo. Uma diferente trajetória ocorreu com Malcom X, nascido em Nebraska, cujo pai foi assassinado e sua infância foi pautada no medo, transformando sua vida num pesadelo. Diferente de Martin Luther King acreditava na impossibilidade da igualdade, pela falta de consciência dos brancos, promovia a doutrina nacionalista e separatista. Em seu discurso God's Judgement of White America, ministrado em 1º de dezembro de 1963, ele promoveu sua filosofia separatista: “America must set aside some separate territory here in the Western Hemisphere where the two races can live apart from each other, since we certainly don't get along peacefully while we here together “(MALCOM X: The man and his times, p.287). Em Malcom X, havia o tom revolucionário, o qual podia incitar a audiência a hostilizar os brancos. Ele se utilizava de uma linguagem direta que podia ser compreendida por todos os níveis sociais da sociedade. Seu discurso era constituído de poderosas frases, argumentos e recursos retóricos capazes de prender e cativar o interesse da audiência. Malcom X , utiliza uma metáfora quando se refere à expressão the ballot or the bullet, alertava os afro-descendentes a respeito de quem ocuparia o poder e de que eles não se deixassem enganar por falsas promessas do governo. Ele compara o voto com uma poderosa 9542 arma. Nos primeiros parágrafos, Malcom X esclarece aos ouvintes sobre seu posicionamento religioso que, assim como ele fez sua escolha, outros líderes também o fizeram, e as diferenças religiosas não deviam interferir na luta que todos tinham em comum, ou seja, a luta pela liberdade e pelos direitos civis dos Afro-Americanos. Assim, notamos tanto na trajetória de vida de Martin Luther King quanto na trajetória de Malcom X, como os agentes externos da realidade interferem na formação do ser humano e no posicionamento social que se terá diante do mundo. Há, pois, diversas etapas da vida do indivíduo em que o processo de construção da sua subjetividade estará diretamente relacionado aos mecanismos sociais capazes de desencadear processos de desenvolvimento do sentido pelo qual o sujeito se orienta no mundo real. Desse modo, a linguagem como manifestação sociointeracional entre indivíduos atuantes no discurso externo pode influenciar a mudança de orientação do eixo do pensamento no discurso interno de outros indivíduos. Para Bakhtin/Volochínov (2010, p.121), “a personalidade que se exprime, apreendida, por assim dizer, do interior, revela-se um produto total da inter-relação social.” Ainda para esse teórico, “O mundo interior e a reflexão de cada indivíduo têm um auditório social próprio bem estabelecido, em cuja atmosfera se constroem suas deduções interiores, suas motivações, apreciações, etc.”. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2010, p. 117.) Considerações Finais O discurso não se efetiva por meio de enunciados isolados e vazios, mas pela interação do discurso com outro. Como observamos neste estudo, os discursos políticos constituem-se de textos ricos e que podem complementar a aprendizagem e facilitar a compreensão tanto da língua materna quanto da LE. Pois, é preciso ensinar a língua através da língua, como observa Bakhtin (2010, p. 264-265) “Ora, a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua”. As palavras passam a inspirar as pessoas a fazer algo, chamando-as para a ação, ou seja, a uma atitude responsiva ativa. É nessa dinâmica de relações que indivíduos dialogam, produzem outros discursos, e constituem o dialogismo. É na dialogicidade de vozes que o sujeito introjeta o discurso de outros, sempre em movimento de reconstrução. 9543 Em suma, a leitura e a análise dos discursos políticos são significativas no que diz respeito ao processo de formação e/ou alteração da subjetividade dos indivíduos. Dessa maneira, a apropriação dos discursos disponíveis nas diversas esferas da sociedade, constitui um importante conhecimento para os sujeitos e pode contribuir com o modo de ver o mundo. Dessa maneira, é de prima importância conhecer e analisar o contexto sócio-histórico, a intenção do autor, a finalidade do texto, as relações com outros textos e/ou autores, as vozes sociais presentes, etc. Estes dois discursos tornaram-se imortais e serviram de modelo para políticos e ativistas que se utilizam de algum modo dessa retórica para convencer, instigar, encantar ou incentivar nações por um mundo melhor ou por interesses próprios. Estes dois homens pertenciam a diferentes classes sociais e tinham experiências de vida bem diferenciadas, que resultaram em discursos únicos e não os impediu de se consagrarem como grandes mitos da história. Não se pode dissociar a língua, o indivíduo e o meio social, pois eles são interdependentes. Tudo o que é ideologicamente significativo ao indivíduo reflete em seu discurso interno, ou seja, a palavra. Conforme Bakhtin/Volochínov (2010), Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavra, mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores. Toda a sua atividade mental, o que se pode chamar o “fundo perceptivo”, é mediatizado para ele pelo discurso interior e é por aí que se opera a junção com o discurso apreendido do exterior. A palavra vai à palavra (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2010, p. 155). Podemos concluir que, as formas de agir e reagir aos fatores externos é única a cada indivíduo. As mudanças que ocorrem no discurso interno dos sujeitos são decorrentes das apreensões ativas do discurso de outrem que se manifestam nas formas da língua nas relações sociais. REFERÊNCIAS BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 12 ed. Tradução: Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 2010. ___________. Problemas da poética de Dostoiévski. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. 9544 ___________. Estética da criação verbal. Introdução e tradução do russo de Paulo Bezerra; prefácio à edição francesa de Tzvetan Todorov. 5 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. MARQUES, M.P. Filósofos na sala de aula. In: Os sofistas – o saber em questão. FIGUEIREDO, V. de. (org.) vol.2. São Paulo: Berlendis&Vertecchia, 2007. MALCOMX. The ballot and the bullet. Disponível http://www.malcolmxonline.com/malcolm-x-videosyoutube.html?videotitle=&videofile=CRNciryImqg>. Acesso em 20 jan. 2009. em: MALCOMX. Black history. Disponível em: <http://blackhistory.cmgworldwide.com/speeches/malcolm/speech2.htm>. Acesso em: 20 jan. 2009.