V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior POLÍTICAS PÚBLICAS E LICENCIATURAS: AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) NO PROCESSO DE FORMAÇÃO DOCENTE INICIAL Albano de Goes Souza1 RESUMO O presente trabalho² tem por finalidade refletir sobre as políticas públicas para a inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) na formação docente inicial. Inicialmente discutimos a importância da formação docente inicial na construção do ser docente, a partir da análise de trabalhos que já trataram sobre a temática - Políticas Públicas para as Licenciaturas. Em um e segundo momento é realizado a analise das politicas publicas que tratam especificamente sobre a questão das TIC nas licenciaturas, diretrizes e políticas essas, instituídas pelo Ministério da Educação (MEC) e pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em consonância com entidades representativas de classes, como Associação Nacional de Pósgraduação e Pesquisa em Educação (ANPED), Associação Nacional de Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), Fórum dos Pró-Reitores de Graduação (ForGRAD), Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). Este artigo é uma reflexão inicial, fruto de uma pesquisa de mestrado em andamento, intitulada “Entre a Teoria e Prática: a apropriação das Tecnologias da Informação e comunicação (TIC) nas licenciaturas da Universidade Estadual de Feira de Santana”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação (Mestrado em Educação) da Universidade Tiradentes (UNIT), e que pretende contribuir com as discussões sobre a relação educação e comunicação a partir das TIC na formação inicial de professores. PALAVRAS-CHAVES: POLÍTICAS PÚBLICAS; LICENCIATURAS; TECNOLOGIAS KEYWORDS: PUBLIC POLICIES; DEGREES; TECHNOLOGY 1 BOLSISTA PROCAPS/UNIT/FAPITEC/SE. Mestrando em Educação (UNIT), Graduado em Pedagogia (UNIABC). Integrante do Grupo de Estudo em Comunicação, Educação e Sociedade (GECES/UNIT). Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (PPED-UNIT). 2 ORIENTADOR. Profº Drº Ronaldo Nunes Linhares. Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), Mestrado em Educação (UFS), Graduado em História (UFS). Coordenador do Grupo de Estudo em Comunicação, Educação e Sociedade (GECES/UNIT). Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (PPED-UNIT). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3265 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior INTRODUÇÃO A formação docente inicial é o processo no qual futuro professor tem a oportunidade de criar as bases teóricas e pedagógicas para o início da sua prática educativa. A licenciatura exerce um papel importante nesse período, pois, a partir dela é possível conhecer sobre teorias pedagógicas, discutir metodologias existentes e exercer em caráter de estágio algumas práticas educativas. A formação deste profissional necessita estar orientada por uma concepção de educação e de sociedade constituída através de um currículo que corresponda às exigências que o espaço educativo solicita do futuro docente e aos saberes necessários para o exercício da formação e da prática docente. Inúmeros são os estudos que tratam sobre a questão da formação docente inicial, a partir das licenciaturas, dentre eles, destacamos as contribuições de Pereira (1999) quando faz uma reflexão sobre as políticas educacionais para a formação docente, com ênfase nas questões sobre as licenciaturas, a partir da implementação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96); Carvalho (1992) quando elabora uma análise da situação das licenciaturas nas universidades públicas brasileiras, partir da discussão sobre a implementação de cursos universitários noturnos para suprir uma demanda de professor das redes estaduais e, por fim, Cury (2003) quando reconstrói o histórico do processo de formação de professores, a partir da ótica das legislações que instituíram as diretrizes para a capacitação docente. Apesar da massificação dos cursos de formação de professores, traduzida no aumento do número de licenciaturas no país, percebe-se que há redução na qualidade desses cursos com decorrer dos anos, provocando lacunas na formação inicial do professor. E isso acaba refletindo na acaba na educação, pois, cada vez mais, professores estão adentrando as salas de aulas sem condições mínimas para o exercício da docência. E por tal motivo, é necessário que haja uma nova postura com relação ao processo de formação docente, principalmente o inicial, e isso, pode ocorrer, a partir de discussões como, a questão da capacitação de professores para uma sociedade marcada por mudanças nas relações sociais, onde a comunicação é elemento essencial e: Poderoso “ativador” das mudanças sociais, políticas, culturais contemporâneas, a comunicação (da qual a informação não deve ser ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3266 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior dissociada) [...] ela intervém diretamente nas relações sociais, contribuindo, por exemplo, com as mudanças organizacionais (MIÉGE, 2009, p.10) Mudanças essas, que podem ser vislumbradas na educação, nas propostas de inserção das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) no processo educativo, elementos esses que: [...] não se limitam à sua inscrição nas ferramentas em aparelhos ou dispositivos [...], elas emanam e participam de um meio quase inteiramente mercantil e até industrializado, o que impende que as pensemos somente do ponto de vista do consumo e mesmo dos usos que elas engendram, elas permitem cumprir funções múltiplas [...] e engajar ações da ordem da comunicação interindividual e mesmo ‘social’ da informação qualificada de ‘grande publico’, da informação documental, das atividades ludo-educativas, da produção cultural (MIÈGE, 2009,p.21). As TIC ocasionam alterações no processo educativo, pois tais, modificam a relação docente/discente. Se antes, o ensino era baseado na transmissão vertical do conhecimento, onde o professor, detêm a “pose” e o aluno é o “repositório2”, com essas tecnologias, se trabalhadas no sentido construtivo e não como mera reprodutoras de metodologias tradicionais, essa relação é revista, pois, o aluno, passa ser parte presente na construção do conhecimento, pois, ele busca, cria, dinamiza e compartilha as formas de conhecer, e o professor não é extinguindo nesse processo, pelo contrário, ele é “peça” importante, pois torna-se mediador, exercendo a função de orientar esse discente na construção do saber (KENSKI, 2003). No que diz a respeito da questão sobre formação docente inicial e TIC, podemos citar os trabalhos Fonseca e Couto (2009) que apresentam alguns resultados obtidos nos estado da Bahia, com professores em formação e sua relação com as tecnologias e os estudos de Barreto (2003) sobre as ações das politicas publicas do MEC para a questão das tecnologias no país e por fim a pesquisa de Alonso (2000) que investiga a questão das tecnologias no processo de formação de professores no Núcleo de Educação Aberta e a Distância da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMG). 2 Essa ideia de repositório tem como fundamento teórico a concepção de educação bancária, um modelo educativo, onde o aluno é o “depositório” e o professor é “depositante” do conhecimento, apresentada por Paulo Freire em seu livro a Pedagogia do Oprimido (FREIRE, 2006). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3267 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Nesse sentido, o objetivo desse artigo é desenvolver uma reflexão teórica sobre as políticas públicas para as TIC e o processo de formação inicial, as licenciaturas nas universidades brasileiras. Esta é uma reflexão inicial, fruto de uma pesquisa de mestrado em andamento, intitulada “Entre a Teoria e Prática: a apropriação das Tecnologias da Informação e comunicação (TIC) nas licenciaturas da Universidade Estadual de Feira de Santana”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação (Mestrado em Educação) da Universidade Tiradentes (UNIT), e que pretende contribuir com as discussões sobre a relação educação e comunicação a partir das TIC na formação inicial de professores. AS POLITICAS PUBLICAS E AS DIRETRIZES CURRICULARES PARA AS TIC NAS LICENCIATURAS As políticas públicas para a formação docente têm por função definir parâmetros de condução do processo formativo, ou seja, propiciando àqueles que são responsáveis pela educação, instrumentos e diretrizes para a construção do modelo educativo. Elas são elaboradas no sentido de suprir lacunas, propor novas ideias e estabelecer critérios para processo educativo. Conceitualmente, as políticas públicas são elementos do processo de organização sistemática dos objetivos que direcionam e normatizam os programas de governos com cunho na resolução de problemas da sociedade (BUCCI, 2002) ou seja, uma “ linha de ação coletiva que concretiza direitos sociais declarados em garantidos em lei. È mediante as politicas publicas que são distribuídos e redistribuídos bens e serviços sociais, em resposta as demandas da sociedade [...]” (PEREIRA, 2000 apud CARVALHO, 2002 p.12). Os Estados conduzem suas ações sociais a partir desses instrumentos que normatizam e estruturam o funcionamento da sociedade, ou seja, elaboração de políticas públicas tem como fundamento as necessidades sociais e normalmente, essas carências estão presentes nos diversos segmentos sociais. Contudo, as vezes, como esclarece Bonetti (2007, apud SOUZA; ALVES, 2011), elas não são elaboradas no sentido de sanar as carências da população. Há casos onde, grupos majoritários e hegemônicos desenvolvem necessidades “fictícias”, no sentido de fortalecer e atender interesses próprios. Elas estão presentes em todos os segmentos sociais, Saúde, Habitação, Trabalho e Educação. Nesse último, desempenha uma função importante, pois atuam nas estruturas do processo educativo, ou ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3268 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior seja, são através delas que são determinados elementos como: recursos financeiros, formação docente, infraestrutura, entre outros. É visto que, no Brasil, principalmente a partir dos anos 90, os organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), influenciaram e determinaram a elaboração das politicas públicas, principalmente, para a educação, o objetivo desses órgãos era: [...] gerar processos em escala mundial considerando a primazia das tecnologias [...] as quais exercem papel fundamental na emergência do mercado global, desenfreando a produção da mais valia e efetivando a globalização perversa, que assegura a simultaneidade, a instantaneidade e aceleração da história das ações, contaminando com outras tecnologias menos avançadas. Dessa forma, as técnicas tornam-se hegemônicas e invasoras e possibilitam a fragmentação das empresas e dos interesses, de modo que a gestão é articulada por intermédio das técnicas em tempo real (HETKOWSKI, 2007, p.144). Na educação, ao debruçarmos sobre as políticas públicas elaboradas, a partir desse período, elas tem como: [...] função, garantir aos sujeitos a formação para o sistema capitalista e hegemônico, baseado nas perspectivas da globalização e delineado pelas transnacionais. Nesse sentido, as reformas educacionais brasileiras demonstram a supremacia e o poder de politicas internacionais quando da determinação de diretrizes e parâmetros à organização dos espaços educacionais, sociais, políticos e culturais da sociedade brasileira. Assim, são mobilizados elementos através de partidos políticos, da opinião publica, dos meios de comunicação (fortes aliados da conscientização e incorporação das novas normatizações), do mercado de trabalho e da organizações sindicais (ibid., p.150). A partir dessa ótica, podemos afirmar que as políticas públicas não são neutras, assim, os elementos que nelas encontram-se presentes necessitam ser estudados de maneira critica, no sentido, avançarmos além de suas características que disseminam uma ideologia hegemônica. Ainda, sobre as políticas públicas de educação, mais precisamente, aquelas que estruturam a inserção das TIC nos cursos de formação de professores e visto que, só a partir dos anos 2000, que as tecnologias passaram a caracterizar-se como elementos de currículo das licenciaturas. A questão da inserção das TIC na educação básica, já era discutida desde os ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3269 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior meados dos anos 80, contudo, é visível a ausência delas nas politicas públicas que tratam especificamente da formação inicial dos professores para educação básica. A inserção das TIC na formação inicial dos professores é visualizada, inicialmente, nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena, instituída a partir da Resolução CNE/CP nº01 de 18 de fevereiro de 2002 (MEC, 2002), considerada a instrução normativa mais importante para a elaboração e estabelecimento dos currículos de licenciaturas nos país. O inicio da elaboração dessa política pública foi o ano de 2000, quando o Ministério da Educação (MEC) enviou a proposta inicial para apreciação do Conselho Nacional de Educação (CNE/MEC), que realizou, durante cerca de um ano, reuniões, consultas, e audiências públicas no sentido atender as necessidades da educação brasileira, até que em 08 de maio de 2001 a proposta final foi encaminhada Conselho Pleno (CP) do CNE/MEC (MEC, 2002). Essas diretrizes contaram com a colaboração de diversas entidades e classes que representam a educação no Brasil, entre elas a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), a Associação Nacional de Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), o Fórum dos Pró-Reitores de Graduação (ForGRAD) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). De acordo com o texto oficial, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior “constituem-se de um conjunto de princípios, fundamentos e procedimentos a serem observados na organização institucional e curricular de cada estabelecimento de ensino [...]” (MEC, 2002, p.01), ou seja, tal política pública estabelece as normativas que as instituições e organismos responsáveis pelo formação docente necessitam observar na constituição das licenciaturas. Sobre as TIC o referido documento em seu Art 2º trata sobre a organização curricular, ao afirma que: [...] cada instituição observará [...] outras formas de orientação inerentes à formação para a atividade docente, entre as quais o preparo para [...] VI - o uso de tecnologias da informação e da comunicação e de metodologias, estratégias e materiais de apoio inovadores (MEC, 2002, p.01). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3270 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Essa afirmação é importante, pois é possível visualizar os primeiros passos para o início da discussão sobre TIC nas licenciaturas, uma vez que, o termo “Tecnologias da Informação e da Comunicação” aparece pela primeira uma vez em uma diretriz que trata efetivamente da questão do currículo das licenciaturas. Essa afirmação está pautada na análise comparativa com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental, em nível médio, na modalidade Normal de 18 de abril de 1999 (MEC, 1999), política pública que antecede as diretrizes de 2002, e que em momento algum cita as tecnologias como elementos da formação docente, seja ela inicial ou continuada. Essa ausência das TIC nas políticas públicas para formação docente, anterior ao ano 2000, é discutida no relatório do MEC apresentado ao Conselho Pleno do CNE para fundamentar a aprovação da Resolução CNE/CP1/2002, onde é possível vislumbrar um tópico apenas sobre “Ausência de conteúdos relativos às tecnologias da informação e das Comunicações”em outras diretrizes: Se o uso de novas tecnologias da informação e da comunicação está sendo colocado como um importante recurso para a educação básica, evidentemente, o mesmo deve valer para a formação de professores. No entanto, ainda são raras as iniciativas no sentido de garantir que o futuro professor aprenda a usar, no exercício da docência, computador, rádio, vídeo-cassete, gravador, calculadora, internet e a lidar com programas e softwares educativos. Mais raras, ainda, são as possibilidades de desenvolver, no cotidiano do curso, os conteúdos curriculares das diferentes áreas e disciplinas, por meio das diferentes tecnologias [...] De um modo geral, os cursos de formação eximem-se de discutir padrões éticos decorrentes da disseminação da tecnologia e reforçam atitudes de resistência, que muitas vezes, disfarçam a insegurança que sentem os formadores e seus alunos-professores em formação, para imprimir sentido educativo ao conteúdo das mídias, por meio da análise, da crítica e da contextualização, que transformam a informação veiculada, massivamente, em conhecimento [...] Com abordagens que vão na contramão do desenvolvimento tecnológico da sociedade contemporânea, os cursos raramente preparam os professores para atuarem como fonte e referência dos significados que seus alunos precisam imprimir ao conteúdo da mídia. Presos às formas tradicionais de interação face a face, na sala de aula real, os cursos de formação ainda não sabem como preparar professores que vão exercer o magistério nas próximas duas décadas, quando a mediação da tecnologia vai ampliar e diversificar as formas de interagir e compartilhar, em tempos e espaços nunca antes imaginados [... ] (MEC, 2001, p.24). Em 2001, também, outro documento oficial contemplou a questão das TIC na formação dos professores, foi o Plano Nacional de Educação (PNE) instituído em 09 de janeiro ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3271 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior daquele ano. Neste documento é contemplado dois momentos sobre a questão das tecnologias, o primeiro relatando que as TIC não podem ficar somente no campo da instrumentalização da educação, pois possuem: [...] enorme potencial para o enriquecimento curricular e a melhoria da qualidade do ensino presencial. Para isto, é fundamental equipar as escolas com multimeios, capacitar os professores para utilizá-los, especialmente na Escola Normal, nos cursos de Pedagogia e nas Licenciaturas, e integrar a informática na formação regular dos alunos (MEC, 2001, p.55). O segundo discute a necessidade dos institutos de formação docente, sejam eles a nível médio ou superior, seguir alguns princípios básicos, entre eles está à necessidade do futuro docente ter o “[...] domínio das novas tecnologias de comunicação e da informação e capacidade para integrá-las à prática do magistério” ( MEC, 2001, p.78) A formação docente para uso das TIC, também é contemplada mais recentemente, na Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica instituída pelo decreto Nº 6.755, de 29 de janeiro de 2009, que preconiza como objetivo em seu Art. 3o “ [...] promover a atualização teórico-metodológica nos processos de formação dos profissionais do magistério, inclusive no que se refere ao uso das tecnologias de comunicação e informação nos processos educativos” (MEC, 2009, p.03). A pesquisa de mestrado em questão tem como objeto de estudo as licenciaturas em Pedagogia e Geografia3 da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), no estado da Bahia, por tal motivo, faz-se necessário, analisarmos, também, as politicas publicas estaduais que tratam sobre as TIC na formação de professores, bem como, as diretrizes curriculares especificas de cada licenciatura. Dessa forma, iniciamos nossa análise, com o Plano Estadual de Educação da Bahia (PEEB) que afirma: Para formação dos profissionais de educação e sua valorização, diretrizes políticas são definidas, devendo ser regidas, em quaisquer de seus níveis e modalidades, aos seguintes princípios: [...] f) domínio das novas tecnologias de comunicação e da informação e acesso às mesmas, visando à integração à prática do magistério; (BAHIA, 2006, p.44, grifo nosso). O PEEB tem seus princípios pautados no PNE de 2001, tanto, que seus objetivos são semelhantes. Assim, é possível tecer uma crítica, no sentido de que, é importante seguir uma ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3272 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior diretrizes elaborada a nível nacional, contudo, o respeito pelas características regionais e necessidades particulares necessitam serem levadas em consideração no momento de elaboração de politicas públicas, não só para educação, mas no geral, e isso não é visível nesse documento estadual. Avançando a análise, nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, instituída a partir da resolução CNE/CP Nº 1, de 15 de maio de 2006 (MEC, 2006), é possível contemplar a presença das TIC na seguinte afirmação: [...]Parágrafo único. As atividades docentes também compreendem participação na organização e gestão de sistemas e instituições de ensino, englobando: VII - relacionar as linguagens dos meios de comunicação à educação, nos processos didático- pedagógicos, demonstrando domínio das tecnologias de informação e comunicação adequadas ao desenvolvimento de aprendizagens significativas (MEC, 2006, p.02). Por fim, as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Geografia, instituídas a partir do Parecer CNE/CES 492/2001, de 03 de abril de 2001 (MEC, 2001) as TIC são contempladas, apenas como, competências que necessitam estarem presente no perfil do formando, e entre essas habilidades, encontram-se o domínio dos recursos de informática, assim, minimizado e delimitando o conceito de TIC, apenas, a ao nível da computação. POLÍTICAS PÚBLICAS, TIC E LICENCIATURAS: o descompasso das universidades Ao analisarmos as políticas públicas que tratam sobre a inserção das TIC nas licenciaturas, percebemos que a temática começou a ser discutida, efetivamente, a partir do ano 2000, momento em que, o país, passou por uma reestruturação de suas políticas estatais, projetando assim, o Brasil, para o cenário de modernização econômica mundial, reflexo de ações elaboradas e impostas por organismos FMI e o BIRD, no inicio dos anos 90. Contudo, onze anos após o inicio dessa discussão, as universidades brasileiras, ainda não, adequaram seus cursos de licenciaturas a nova demanda docente, ou seja, um professor que vislumbra as potencialidades das tecnologias presentes na sociedade, e não as vez como, mais um determinismo pedagógico para sua prática educativa, esse professor, também, 3 A seleção dessas duas licenciaturas está pautada na questão de que na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), apena s elas, contém em suas matrizes curriculares, elementos que levam a discussão sobre as tecnologias na educação. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3273 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior compreende a construção de conhecimento de forma colaborativa, onde, o discente é sujeito participante desse processo. É visível que a maioria dos cursos de licenciaturas da UEFS não estão caminhando em conjunto com as políticas públicas que tratam da inserção das TIC, isso fica evidente, a partir da constatação de que apenas dois, dos treze cursos de formação inicial de professores da universidade, contém, elementos que tratam efetivamente da relação educação e tecnologia (ver Tabela 01). LICENCIATURAS ANALISADAS GEOGRAFIA DISCIPLINAS EMENTA Estudar, refletir e analisar a utilização das tecnologias educacionais. ENSINO DA Promover discussão a respeito do uso na educação das tecnologias digitais e GEOGRAFIA E da conexão com outras tecnologias. Abordar o uso de novas e antigas NOVAS tecnologias no ambiente educativo. Vivenciar e produzir situações práticas TECNOLOGIAS que propiciem aos alunos refletir criticamente sobre o uso das tecnologias da comunicação e informação na educação, de suas possibilidades e limites. A natureza da prática pedagógica escolar: condicionantes sócio-políticos. A importância da Didática na formação do professor. Objeto de estudo da didática: o processo ensino-aprendizagem. A relação Currículo-Didática. DIDÁTICA I Estruturação da dinâmica da prática pedagógica: o processo planejamento. Avaliação: aspectos pedagógicos, políticos e teórico-metodológicos. Visão crítica do uso de tecnologias da educação. PEDAGOGIA DISCIPLINAS EMENTA Estudar, refletir e analisar a utilização das tecnologias educacionais. NOVAS Promover discussão a respeito do uso na educação das tecnologias digitais e TECNOLOGIAS DA da conexão com outras tecnologias. Abordar o uso de novas e antigas COMUNICAÇÃO E tecnologias no ambiente educativo. Vivenciar e produzir situações práticas DA INFORMAÇÃO que propiciem aos alunos refletir criticamente sobre o uso das tecnologias EM EDUCAÇÃO da comunicação e informação na educação, de suas possibilidades e limites. BIOLOGIA NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA FÍSICA NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA MATEMÁTICA NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA LETRAS VERNÁCULAS NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA EDUCAÇÃO FÍSICA NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA HISTÓRIA NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3274 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior LETRAS - INGLÊS NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA LETRAS-FRANCÊS NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA LETRAS-ESPANHOL NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA QUÍMICA NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA MÚSICA NÃO POSSUI DISCIPLINAS QUE TRATEM AS TIC EM SUA EMENTA Tabela 01. Licenciaturas da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Fonte:< http://www.uefs.br/portal/downloads/secretaria/programas-de-disciplinas/>. Acesso em 24 de setembro de 2011 Ao analisarmos as informações presentes na tabela acima, podemos observar o quanto é mínima a discussão sobre as TIC nas licenciaturas da UEFS. Apenas as graduações de GEOGRAFIA, que possui duas disciplinas - (Ensino de Geografia e Novas Tecnologias-EDU299 e Didática-EDU321) e PEDAGOGIA, apenas uma, (Novas Tecnologias da Informação e Comunicação na Educação-EDU616) - trazem em suas matrizes curriculares, disciplinas que tratam da temática tecnologia no processo educativo, isso, demonstra o descompasso entre o processo formação docente na universidade e os movimentos e discussões ocorridas na sociedade contemporânea. As disciplinas Ensino da Geografia e Novas Tecnologias (EDU299) e Didática (EDU321), presentes na matriz curricular da licenciatura em Geografia, possuem em suas ementas categorias de análise que nos permitem refletir sobre quais conceitos de tecnologia são discutidos junto seus licenciandos. Entre essas categorias, destacamos a questão da “Prática”, pois, a mesma, necessita ser entendida enquanto estruturante do “fazer ordenado voltado para ato educativo” (RIBEIRO; 2006, p.02), ou como descreve Libâneo; Pimenta (1999, p.206) “as transformações das práticas docentes só se efetivam na medida em que o professor amplia sua consciência sobre a própria prática” e esse processo ocorre, a partir da “Reflexão ou Visão Crítica”, que na ótica FREIRE (1996, p.39) é: [...] o momento fundamental [...]. é pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser de tal modo concreto que quase confunda com a prática. As “Possibilidades”, é outra categoria que permite uma análise, pois segundo Kenski (2003, p.29) “alteram todas as nossas ações, as condições de pensar e de representar a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3275 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior realidade e, especificamente, no caso particular da educação, a maneira de trabalhar em atividades ligadas a educação escolar”, ou como descrevem Pretto; Costa-Pinto (2006, p.23, grifo nosso): [...] que não podemos nos contentar com simples apropriações dessas tecnologias, como se elas fossem, por si sós, capazes de reverter situações. É por isso que precisamos enxergar que, com essas potencialidades, pululam elementos que, longe de serem unificadores, constituem-se em diferenciadores dos seres e de suas culturas, passando a pólos geradores de novas articulações. Desse modo, interligados as potencialidades das tecnologias na prática educativa, as ementas, citadas acima, propõe um contraponto para as possibilidades: os “Limites”, categoria que pressupõe uma reflexão crítica sobre até que ponto as tecnologias podem ou não contribuir com a aprendizagem e a formação do professor. A discussão que está presente nesse ponto é da tecnologia como ponto de mudança. É fato que elas alteram a forma do ensinar, as relações entre aluno e professor e o espaço escolar, mas até onde é seu campo de influência nesses processos e com que olhar o professor deve enxergar sua presença na escola. Ainda, analisando, as ementas das licenciaturas, percebe que no curso de Pedagogia, a disciplina Novas Tecnologias da Comunicação e da Informação em Educação (EDU616), apresenta uma ementa semelhante a aquela presente na disciplina Ensino de Geografia e Novas Tecnologias (EDU299), na licenciatura em Geografia, assim, a discussão de suas categorias torna-se redundante. Atribuímos a essa “coincidência”, o fato de ambas as disciplinas serem oferecidas pelo Departamento de Educação (DEDU) da UEFS. No entanto, isso não justifica a falta de aprofundamento e o não direcionamento da discussão sobre as tecnologias as licenciaturas específicas, ou seja, é necessário incorporar, a essas ementas, elementos que permitam encaminhar e levar o licenciando ao debate sobre a incorporação das TIC em sua área de conhecimento. Dessa forma, é possível afirmar que o futuro docente da UEFS, não estará apto para incorporar as tecnologias as suas práticas educativas. Por dois fatores visíveis, o primeiro, porque, há ausência total da discussão em algumas licenciaturas, e segundo, porque, mesmo aquelas licenciaturas que contêm a discussão sobre tecnologias, o número de disciplinas é reduzido, tomando como base as matrizes curriculares, que geralmente possuem entre trinta à quarenta disciplinas. A discussão necessita perpassar pelas matérias pedagógicas que auxiliam ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3276 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior na construção do “ser professor”, mesmo que de maneira superficial, deixando a discussão aprofundada para disciplinas especificas sobre educação e tecnologia. Por fim, a discussão sobre a inserção das TIC nas licenciaturas necessita ocorrer em conjunto – docente e coordenação - nas reuniões para elaboração das matrizes curriculares nos colegiados, uma vez que, a universidade propicia autonomia as essas estâncias na elaboração e implementação de seus cursos. Porém, se há uma demanda por professores que compreenda as tecnologias como potencialidades, há politicas públicas que determinam a utilização das TIC nas licenciaturas, porque, ainda, os cursos de formação inicial docente não estruturaram suas matrizes curriculares? CONCLUSÃO As licenciaturas passam por um momento de questionamento sobre sua importância na sociedade contemporânea, assim, construir proposta de ensino que atendam as necessidades sociais é algo mais do que inevitável, é fundamental. Nessa construção é necessário que estejam presentes elementos que fazem parte do dia-a-dia o sujeito, e as tecnologias é um desses elementos. Ou seja, não podemos mais elaborar cursos de formação docente que estejam ausentes as tecnologias. Elas devem estar presentes em todo processo de construção do “ser professor”, assim, é necessário uma reformulação nas propostas curriculares das universidades, no tocante do currículo para as licenciaturas. Porém, é plausível afirmar que não vislumbramos as tecnologias como redentoras do processo de formação docente, e sim, como elementos a serem inseridos no sentido de complementar e fortalecer aos cursos de formação de professores, a partir de suas particularidades e características. E isso ocorrerá, a partir do momento que o professor, tomar com bandeira de luta que o processo educativo contemporâneo mudou e que ele agora é dinâmico, baseado nas relações em espaços, reais e virtuais e que ele é elemento fundamental desse processo, e para tanto, necessita ter uma formação adequada. Por fim, é evidente a importância da contextualização das políticas públicas de currículo para as licenciaturas com as necessidades vigentes na contemporaneidade. Porém, nesse processo é faz-se necessário ouvir docentes, dirigentes e agentes ligados ao processo ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3277 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior educativo, pois assim, estaremos elaborando propostas horizontais, descontruindo o discurso que as politicas públicas são verticalizadas, por isso, difíceis de serem compreendidas e adotas pela classe educativa. REFERÊNCIAS ALONSO, Katia Morosov . Novas tecnologias e formação de professores: um intento de compreensão. In: Oreste Preti. (Org.). Educação a Distância, construindo significados. Brasilia: Plano, 2000, v. , p. 89-104. BAHIA (Estado). Assembleia Legislativa. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3279 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior POR UMA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA INTERCULTURAL COMO DISPOSITIVO POTENCIALIZADOR DE UM CURRÍCULO IMPLICADO: A EXPERIÊNCIA DO CURSO DE LICENCIATURA DE FILOSOFIA DA UFBA Alexandra Quadro Siqueira4 Leonardo Rangel dos Reis5 RESUMO O ensino de Filosofia passa por uma transição e difusão através Lei no 11.684/2008. Ao tensionar, questiona-se: como filosofar em língua “própria e apropriada” desde um currículo, numa abordagem inter/transdisciplinar, implicado na relação com a filosofia intercultural? Pensar isto é refletir acerca da multiplicidade num campo de saberes que não possui neutralidade na definição de um currículo, delimitando um imanente campo político. A opção da abordagem será dialogar e re-pensar os processos formativos desde a experiência da licenciatura em filosofia da Ufba ao propor reflexões sobre a Antropologia Filosófica Intercultural como dispositivo a fim de potencializar um currículo embricado, almejando os atos de currículo e suas implicações na formação deste educador na constituição dos saberes em uma dimensão ontológica e cultural da existência humana. Palavras-chave: Antropologia Filosófica Intercultural. Fluxo de currículo / Atos de currículo; Formatividade / Formação; Ensino de Filosofia / Educação Filosófica. ABSTRACT The teaching of philosophy goes through a transition and diffusion through the Law 11.684/2008. In tension, the question is: how language philosophy "proper and appropriate" from a curriculum, an approach inter / transdisciplinary, implied in relation to intercultural philosophy? Thinking this is a reflection on the multiplicity of knowledge in a field that has no neutrality in the definition of a resume, outlining an immanent political field. The choice of approach will engage and re-think the training processes from the experience of philosophy degree in UFBA to invite reflections on the Philosophical Anthropology and Intercultural device to enhance a curriculum embricado, longing for the acts of its implications for curriculum and training educator in the constitution of this knowledge in an ontological and cultural dimension of human existence. Keywords: Intercultural Philosophical Anthropology. Flow resume / curriculum Acts: formats / Training, Teaching of Philosophy / Philosophical Education. 4 Graduada em Economia e Filosofia. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia. Contato: [email protected] 5 Graduado em Ciências Sociais. Mestrando do programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia. Contato: [email protected] ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3280 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior PRA COMEÇO DE CONVERSA O interesse que se inicia aqui é o debate sobre os contornos do conhecimento, suas relações com as ciências, e sua importância na produção das subjetividades, como temas/desafio para se pensar o campo da antropologia filosófica, que é um fenômeno de extrema relevância e urgência. Ainda mais pelo fato de vivermos em um mundo onde o cientificismo e o etnocentrismo ainda existem, consistem e insistem em práticas correntes. A presente investigação parte assim de uma inquietação relativa ao sentido da filosofia na Educação Básica e procura observar como a construção do conhecimento individual e coletivo atinente à pragmática filosófica vem transcorrendo em universidades brasileiras, em especial, nos cursos de licenciatura em filosofia, e como a formação recebida vem incidindo diretamente na vida dos licenciados, seja no seu percurso acadêmico, seja na sua trajetória profissional, como professores de filosofia no Ensino Médio (EM) das escolas brasileiras. Qual é, pois, o lugar da filosofia na Educação Básica brasileira? Qual é o profissional que está sendo formado nos cursos de licenciatura em filosofia no país? O que se pode observar na formação nacional do professor de filosofia que garanta o filosofar como caminho do trabalho filosófico básico? Temos um desafio emergente em vista, ou não há nenhum desafio merecedor de nossos desejos e aspirações? É público como o ensino de filosofia vem sendo, descaracterizado do seu valor próprio, distanciando-se de sua especificidade polilógica. De sua possibilidade formativa e trans-formativa. O ensino de filosofia vem sendo subestimado como uma mera disciplina, ora optativa, ora complementar, mas sempre independente das circunstâncias específicas de cada caso, sempre ornamental ao longo de sua história. Com a recente obrigatoriedade da filosofia, através da Lei no 11.684/2008, como disciplina no currículo formal do EM, última etapa da educação 3básica, há um grande avanço legal, porém, percebe-se que a sua práxis pedagógica permanece estagnada, ainda atrelada à dinâmica da manutenção de força hegemônica elitista da sociedade brasileira. No que tange à formação do docente de filosofia, esta ainda se restringe ao estudo da compreensão dos conceitos e da ordem dos textos clássicos filosóficos, predominantemente, subjugados ao método estruturalista proposto por Gueroult, nos anos de 1940, e ainda algumas vezes aliado ao método genético. Essa perspectiva deixa de lado as possibilidades de uma articulação trans-disciplinar para caracterizar o papel da filosofia na educação básica, dando sentido ao que é apreendido em relação ao que é ensinado na construção de uma atitude dialógica crítico-reflexiva do processo ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3281 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior de hominização do humano. Ora, para que serviria uma filosofia que não filosofa? E como filosofar se o diálogo ainda não é dialógico? Se para o poeta Fernando Pessoa a sua máxima é “pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar”, ou seja, “sinto com o pensamento, logo existo”; para outros, a pulsão vital pode ser “sinto, crio, danço, penso, logo existo”. E assim, ao recordar também a frase do filósofo Descartes “Penso, logo existo”, tais proposições nos remetem a compreender que, para cada um de nós, a condição de existência é única, diferenciada e própria, tão “própria e apropriada” que reflete na simbologia estética-ética-cultural-política uma imagem singular da pessoa humana e não do nós, como somatório e representação homogênea de todos. Uma vez que esse mundo vem sendo gerido, mapeado, estratificado e controlado por conhecimentos múltiplos que se objetivam, mais e mais, em confluência para um falso manto de unidade, num discurso ocidental “igualitário” que, vem impondo modelos como se fossem os únicos a priorizar apenas o “pensar”. Compreendemos desta maneira que, diversos movimentos de contestação e de crítica, traduzidos nos mais diversos movimentos socioculturais, são tão capazes e tão criativos, ao ponto de inventar e instituir uma dinâmica própria de auto-sustentação e de reexistência6, intervindo assim na perversa lógica do capital como única possibilidade presumível, e assim abrindo o importante espaço à diversidade e à diferença. Ao propor desafios imprevistos à razão dominante, os re-existentes abrem novos espaços que emanam novas perspectivas de encarar a subjetividade humana, o Outrem, enfim o ser humano em seu estar-no-mundo-com. Preocupados em lidar com as diferenças, com a questão da alteridade, em compreender e enxergar o Outro: àquele que é negado, humilhado, invisibilizado, assujeitado nas relações sociais. Mostrando, entre outras coisas, que a lógica da identidade se dá sempre na ebulição da multiplicidade. Então, seguindo esta perspectiva, ser um educador-pesquisador-filósofo sugere em assumir uma postura de abertura para a multiplicidade que se encontra no mundo. Expressa também um sentido de força e coragem em admitir o inacabamento do ser humano como própria condição humana de existência para o estabelecimento dos processos de criação e de invenção. Significa ser capaz de se autorizar como ser múltiplo que se estabiliza temporariamente no uno ao propor e dispor um filosofar criador-inventivo como atividade 6 Os movimentos de re-existência marcam os principais conflitos e manifestações políticas de nossa atualidade e mostram que a produção das subjetividades também se inscreve nos movimentos das políticas de significações e de reconhecimentos. Trata-se da tentativa individual e coletiva de criar agências e processos legítimos de emponderamento. Em português esta palavra é muito significativa, pois a resistência porta a condição e possibilidade do existir. Ela mostra que a existência é tensionada por movimentos de constantes reelaborações. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3282 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior aprendente radical, a fim de instituir novos mecanismos para um formar mais participativo, ao dinamizar e hibridizar o lugar da práxis com o lugar da poiésis, buscando assim, uma encruzilhada nos termos de uma “praiésis”7. Para isto, este saber precisa estar comprometido com uma práxis e uma poiesis que atenda às demandas em prol de uma formação humana multirreferencial, multi-ética e poli-lógica com uma abordagem filosófica inter/transdisciplinar e intercultural. Impulsionando-nos a refletir, questionamos: por que muitos de nós não nos autorizamos a mudar o contexto sociocultural, político e econômico em que estamos submersos, a começar pela defesa em prol de uma Filosofia de língua “própria e apropriada” e de um currículo numa abordagem inter/transdisciplinar, implicado (contexto do lugar de onde se fala e pisa) na relação com a filosofia intercultural8? Em Em que momento os currículos das licenciaturas em filosofia abordam a especificidade cultural e humana do educando? A ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA INTERCULTURAL: UM ENTRELUGAR DENTRE ANTROLOGIA FILOSÓFICA E A FILOSOFIA INTERCULTURAL A antropológica em seu estudo tem empreendido uma série de pesquisas que tentam mostrar a grande diversidade do homem presente nas mais diversas culturas. Percebendo que a antropologia tem e mantém seu respeito para com a alteridade, tenta particularizar e mostrar as características específicas, singulares de cada cultura. Pretendemos aqui que a tal alteridade seja priorizada como dispositivo potencializador para invenção de um currículo implicado (lugar de onde se fala e se pisa) através de uma interlocução filosófica intercultural. Por isso que dizemos que a Antropologia carrega no seu bojo uma dupla ambição: a de ser uma ciência e ao mesmo tempo a ambição de abranger a totalidade do humano, ou todas as manifestações do humano Este clima atinge também a antropologia como estudo do humano. Ela se ressente desta má ambigüidade que provoca a dupla ambição refletida no paradoxo da ambição de uma objetividade científica confundida com a ambição da perspectiva da totalidade do saber sobre o homem. Pois, a temática da explicação e da compreensão encerra-se no âmbito da questão do subjetivo e do objetivo no esforço do conhecimento da condição humana. Ambas, explicação e compreensão não têm sucesso se cada um desses procedimentos tentar exaurir a totalidade do conhecimento humano, desde quando não existe totalidade no conhecer a 7 Junção dos termos práxis + poiésis = praiésis, cujo significado cunhamos aqui como um fazer inventivo-criativo-efetivo. Filosofia que surgiu na década de 80, como vertente da Filosofia da Libertação, proposta por Enrique Dussel. Ela busca reconhecer o filosofar a partir do diálogo através de e com contextos culturais da América Latina. 8 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3283 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior conhecer. Logo, trazemos aqui uma importante reflexão de Heidegger precisamente nesta direção: “(...) Que é isto, filosofar, se a problemática filosófica é tal que encontra seu lugar e seu centro na essência do homem?”9 Desta maneira, qual desafio nos coloca esta indagação face às reflexões propostas pela antropologia Filosófica sobre: quem é o homem? Uma antropologia baseada na pruriculturalidade, que saiba dialogar e respeitar à diversidade, e que, ao mesmo tempo, consiga se estabelecer como uma crítica ao tipo de conhecimento e visão do mundo etnocêntrico, pois somente assim, seremos realmente capazes de criar uma ampliação e abertura da esfera epistemológica, e assim conseguiremos também conectá-la com a esfera ética e estética. Pois, segundo Larrosa (2005, p. 65), com Nietzsche a fórmula “[...] O chegar a ser o que se é‟ está aqui do lado da liberdade entendida como vontade de Arte. E a Bildung começa a mostrar também sua dimensão estética ou poética, sua face de autocriação artística”, e desde então, “„chegar a ser o que se é‟ tornou-se para nós agora paradoxal. Pois, dessa unidade na multiplicidade, dessa singularidade múltipla que é a obra de arte” (Ibid, p. 65-66). Como lembrou Pareyson, aqui se forma por formar, visto que, só depois de acabado o processo, concluída a obra, terminada a formação, é que ele saberá o que deveria fazer e como deveria fazê-lo10, e o sabe justamente quando, no fundo, não precisa mais sabê-lo, pois já terminou o que deveria fazer e o executou com pleno sucesso. (PAREYSON, 1993, p. 69-70). De acordo com Fornet-Betancourt (2003), a Filosofia Intercultural busca re-conhecer o rosto de si no Outro. Ela procura re-configurar a história da filosofia também como a história de suas transformações, de sua libertação, através da manifestação polifônica daquilo que chamamos de filosofia desde o multiverso das culturas. Na qual, as experiências das culturas da humanidade são como lugares em que se pratica a filosofia. Neste sentido, a filosofia existe não porque siga um modelo paradigmático, mas porque existem “práticas culturais” de filosofia como exercício concreto do filosofar desde sua contextualidade e historicidade. Assim, é preciso desocidentalizar a Filosofia, não negando a importância da tradição, todavia, colocando o ocidente em seu devido lugar. Diante de um lugar de tradições complexas que, desde sempre, manteve relações com outros mundos e que, sendo assim, não é o único lugar de toda filosofia possível, mas o lugar de certas possibilidades para uma filosofia. Neste sentido, é preciso buscarmos desde o re-conhecimento da existência e da influência estética-ética-cultural-política, do sujeito educando do curso de licenciatura em filosofia da Ufba, uma imersão em seus saberes e fazeres, como uma condição de possibilidade 9 Disponível http://www.filoinfo.bem-vindo.net/filosofia/modules/wfsection/print.php?articleid=360 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3284 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior de mudança e transformação, através de um entrecruzamento de diversas perspectivas de cognição e cultura, que darão informação das tensões dos processos de cognição para formatividade da epistemologia do licenciando de filosofia através da relação entre os atos de currículo e a proposta interventora de um fluxo curricular. Sabemos que é preciso “gerar e organizar processos de transdução11 como necessidade no intercâmbio dessas perspectivas cognitivas”, pois, segundo Fróes Burnham (1993), a análise cognitiva assume este duplo campo cognitivo / epistemológico, e vem visando o entendimento de linguagens, estruturas e processos específicos de diferentes disciplinas, com o objetivo de tornar essas especificidades em bases para a construção de lastros de compreensão inter/transdisciplinar e multirreferencial. Destarte, ser um dispositivo fundante para invenção de um currículo outro, uma vez que, atualmente, este ainda tem como “espinha dorsal” as Histórias da Filosofia, priorizando desta maneira, uma formação inerentemente histórica, tal qual privilegia a formação do bacharel em filosofia. Este é fundamentado como referência brasileira no modelo uspiano (Universidade de São Paulo - USP) em formar licenciados e bacharéis em filosofia no País, importada do modelo francês de Gueroult. A FORMATIVIDADE, OS ATOS DE CURRÍCULO E SUAS IMPLICAÇÕES NA FORMAÇÃO DO EDUCADOR-PESQUISADOR-FILÓSOFO Ao se defrontar com profundas mudanças, a academia universitária deverá repensar, re-avaliar o quê e o como vêm pesquisando e o como vêm ensinando, indo muito além dos conteúdos trabalhados e métodos aplicados. Deve-se buscar o problema na raiz, na origem: o currículo e a formação/formatividade: do professor e do educando. O currículo tensiona a formação do sujeito na medida em que se faz presente nas ações e definições institucionais e não institucionais da vida escolar. Basta investigá-lo em seu atuar, em seu fazer-se ubíquo dentro da perspectiva dos “atos de currículo” para perceber que seus efeitos permeiam e orientam o comportamento dos atores educacionais em seus diversos espaços formativos. De modo que, os atos de currículo operacionalizam as atividades que se instituem em torno do mesmo, dinamizando e atualizando-o dentro da prática dos sujeitos educacionais. Além disso, a potência práxica do conceito de atos de currículo vinculado à formação é, ao mesmo tempo, uma maneira de resolução epistemológica para compreendermos a relação profundamente implicada entre currículo e formação, bem como 10 Grifo meu. Conceito cunhado por Fróes Burnham (2002), que significa processo entre o conhecimento científico e o conhecimento público através de um dispositivo que implique a linguagem, o epistemológico, as terminologias, as estéticas de comunicação, os conteúdos e necessariamente a sua apropriação pelos implicados. 11 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3285 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior um modo de empoderar o processo de democratização do currículo, como uma experiência que pode ser singularizada e como um bem comum socialmente referenciado. (MACEDO, 2010, p. 35) Tomando como pressuposto a hipótese de que a compreensão conceitual do currículo, bem como seu dobramento e desdobramento na prática docente viabiliza a maturação do educador e sua percepção crítica do papel curricular em sua práxis docente e na formação por ele veiculada, compreendemos aqui o currículo como [...] um artefato socioeducacional que se configura nas ações de conceber/selecionar/produzir, organizar, institucionalizar, implementar/dinamizar saberes, conhecimentos, atividades, competências e valores visando uma “dada” formação, configurada por processos e construções constituídos na relação com conhecimento eleito como educativo (MACEDO, 2007, p. 24-5). É preciso perceber que o momento de transição que vivemos requer um pensar em novas demandas do professor da educação básica com a obrigatoriedade do ensino de Filosofia. Nessa conjuntura, é preciso ter uma mínima garantia e escolha em relação ao professor-educador que se pretende/admite formar e o como esta formatividade repercutirá na sua atuação docente. Logo, a opção da abordagem será dialogar e re-pensar os processos formativos e a constituição dos saberes em uma dimensão ontológica estética-ética-culturalpolítica da existência humana, pois entendemos o currículo enquanto um campo vivo, dinâmico e operativo. O curso escolhido em questão foi de licenciatura de filosofia. Todavia, muito além das contribuições que a formação do licenciando em filosofia possibilita em torno de sua formatividade que ali ocorre, nos espaços de discussão, contradição, reflexão e, sobretudo, inquietação, tal estudo tem o intuito de questionar com o foco nos conceitos apresentados, por vezes postos e impostos, a partir de um discurso empoderado que tem um propósito de quem forma para quem vai ser formado(a). Nesse contexto, o que se deseja nesta reflexão é correlacionar epistemologias trazidas pelos licenciandos em filosofia, nascidas no contexto cultural, fundamentadas na antropologia filosófica intercultural, para que através dos possíveis dobramentos, desdobramentos e redobramentos permitam uma maior compreensão sobre como a epistemologia do licenciando de filosofia se constrói, para que esta concepção não esteja à margem da realidade destes participantes da pesquisa supracitada, sujeitos com voz ativa e autoral neste processo de formatividade e formação. Visto que, a epistemologia é compreendida então, como um espaço aberto ao sujeito, a sua originalidade, em que sua criação possibilita formas diversas de conhecer, se reconhecer e ser em um processo plural, dinâmico, constituído de múltiplas facetas das ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3286 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior realidades que vão se atualizando nos processos, sejam eles de caráter histórico, socialeconômico, educacional e ontológico-ôntico-estético-ético-cultural e político. Assim, ao enegrecer12 o lugar de que se fala da epistemologia, há dois conceitos fundamentais para que a epistemologia do licenciando de filosofia, foco desta pesquisa, seja melhor trabalhada. Assim, inicialmente, o conceito de rizoma, no sentido deleuziano do termo, que, a partir de uma interpretação do mesmo, apresenta, por meio de uma crítica metafórica, a epistemologia com uma árvore, que fixa um ponto através de sua raiz, de onde tudo brota, tudo nasce, tudo “vem”, como uma epistemologia hierarquizante, que se pretende hegemônica. (DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix, 2009) O rizoma, ao contrário, não apresenta uma epistemologia, mas se for pensada uma a partir dele, esta seria não linear, aberta, dinâmica e plural, porque advém das subjetividades e singularidades humanas, sendo assim, se a epistemologia Sendo assim, entendemos que há uma compreensão, que poderia se dizer linear, em que este termo é “[...] conhecimento racional cravejado pela dinâmica civilizatória grega. [...] um ramo da filosofia ocidental que se ocupa da questão do conhecimento (uma Teoria do Conhecimento)” (Oliveira, 2011). “[...] tem um vínculo com a ética” (Ibid., 2011), esta ética seria, então, uma ética por e pelo humano, portanto, mais humanizada e humanizante, pois quem dá o seu fundamento fundante é o próprio ser humano humanizado. Logo, o que está em jogo com o rizoma é o pensamento inventivo, criativo e transformativo do sujeito, por meio do seu caráter nascente e inerente de ser autônomo, que tendo sido reconhecido e recuperado este êthos, trará como possibilidade a subversão de epistemologias, pensamentos, ideias, enfim, discursos instituídos, e, assim, uma possibilidade de infinitos acontecimentos na imprevisibilidade e no acaso do mundo. Nessa perspectiva, não se pode falar de início ou de fim, nem de início e fim, ou ainda, início-fim, como em uma árvore é possível identificar. O rizoma, por outro lado, segundo Deleuze; Guatari (2009, p. 37), “[...] não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. [...]A árvore impõe o verbo “ser”, mas o rizoma tem como tecido a conjunção “e... e... e...”.” Numa síntese preliminar e diante do exposto, o rizoma é compreendido como acontecimento, que, para o propósito aqui, traduz a possibilidade do licenciando de filosofia com seus pares (re)pensar epistemologias para a ressignificação de suas práticas e de seu lugar ou até mesmo se autorizar a criar novas práticas a partir de sentidos outros. 12 Termo cunhado, em substitutivo, da palavra: esclarecer. Aqui, enegrecer assume o sentido de tornar-se destacado, explícito e relevante, desta forma, estamos desconstruindo que, tudo que advém do termo negro traduz algo negativo ou pejorativo. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3287 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior FILOSOFANDO A FORMAÇÃO DO LICENCIADO EM FILOSOFIA NO BRASIL Ao remontarmos a educação há alguns anos atrás, no período que antecede a década de 1940, a formação do professor de filosofia era baseada em dois vieses, tendo como características o tomismo e o ensaio. A primeira era ainda presa à herança predominante da educação católica deixada pelos padres jesuítas, cujo método era denominado “Ratio Studiorum”13. A segunda que por apresentar uma escrita leve e solta, ao ignorar a tradição, não por negá-la, foi destituída pela academia. Todavia, em 1934, com a implantação da proposta metodológica de Gueroult (PIMENTA, 2008), o ensino de filosofia passa a ter outras dimensões. Esse modelo historiográfico francês consiste no ensino e aprendizado de filosofia buscando compreender os conceitos e a ordem interna dos textos filosóficos. Ou seja, baseiase em identificar e re-construir a ordem das razões. Associado ao método estruturalista, assim como foi denominado, outro que teve também grande difusão foi o método genético, respaldado no fazer filosófico através da sua historicidade, desde a sua gênese. Presume-se assim que, para tal, estudar a história da filosofia é fazer filosofia. Mas será que a filosofia tem um fim em si mesma? Legitimar é mostrar deveras a sua importância restringindo-se apenas na leitura de textos clássicos filosóficos, ou melhor, textos canônicos com rigor? Pimenta (2008, p. 126) elucida muito bem ao relatar que os grandes filósofos tais como Platão, Marx ou Heidegger, buscaram reconstruir a ordem interna ou a ordem das razões nas obras de outros autores filósofos. Eles foram além do historiador da filosofia, eles filosofaram a partir da história da filosofia. Eles vão além, pois a partir de uma compreensão rigorosa dos pensamentos filosóficos vão tecendo sua própria filosofia. O maior problema que se aborda aqui é, a sacralização de um método [...]. As conseqüências pedagógicas são facilmente identificadas: uma filosofia estéril, um ‘pensamento tímido’. Ora, tal esterilidade no ensino de filosofia perdura há anos, esse ranço transpõe o ensino superior e invade o Ensino Médio. O que se propõe aqui não é uma filosofia rígida, nem tampouco totalmente des-cartar de sua história, da tradição, ela tem a sua devida importância, mais principalmente aos graduandos de filosofia, ainda que não como o eixo central do curso. Não há como contrapor, no entanto, é preciso ir além, é preciso ousar, ter um espírito livre, ser dialogante, dialógico na dialogicidade que o diálogo nos permite. Propor a 13 Configura-se como primeiro ensino organizado católico, cujas linhas pedagógicas ficaram incorporadas nas mentes dos educadores, não sendo totalmente superadas até hoje, independente do pensamento laico da educação e das muitas reformas que se sucederam na história da educação brasileira. Disponível: <http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/fontes_escritas/1_Jesuitico.htm> ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3288 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior filosofia na sua mera re-produção histórica é mantê-la letalmente, dia após dia, sem noção se haverá um amanhã. O que os grandes filósofos pensariam acerca da nossa época? Será que se eles estivessem se fazendo presente hoje, apenas reproduziriam o que os outros pensaram anteriormente? Será que de nada na contemporaneidade é relevante ou imprescindível para filosofar? Será que de nada cabe a filosofia pensar acerca das questões políticas nacionais, problemas do desemprego que assolam o País? Será que a filosofia de nada tem a contribuir questionando sobre os problemas planetários que nos afligem? Será que de nada ela tem a contribuir àqueles que estão na periferia da sociedade? Será que não podemos ter atitudes filosóficas no, pelo e para o mundo? Desta forma, cabe aqui, uma provocação de “escuta de nós”; das nossas vozes, antigas e novas, das vozes dos outros, das vozes híbridas, dos nossos diálogos internos e externos, das falas silenciadas e das autorizadas, ou seja, do nosso trajeto itinerante de construção do “eu-mundo-com-o-Outro”. A partir daí, surgem, então, algumas inquietações: como anda a formação do licenciado na Ufba, universidade pela qual atuamos, ora como professores ou ora como alunos? O que fazemos para mudar? A EXPERIÊNCIA DO CURSO DE LICENCIATURA EM FILOSOFIA DA UFBA A Faculdade de Filosofia da Bahia, Brasil, originou-se em 1941, inicialmente mantida pela Liga da Educação Cívica, apoiada por um grupo de cidadãos do setor industrial e comercial da Bahia, integrantes da Junta Mantenedora do Estado e do Município e de doações. Ao ser concebida, ela foi estadualizada, e apenas anos depois, ela foi federalizada com a Universidade da Bahia. Ao longo dos anos, para Loureiro (2008), os cursos de Filosofia, incluindo o da Ufba, sofreram algumas mudanças curriculares, sendo mais significativas as de 1970, 1984 e 1993, sendo esta última alterada em 1998. Até os anos 1970, eram baseados numa orientação mais tomista, assim a grade escolar tinha uma visão escolástica. Na reformulação de 1982, a perspectiva ficou voltada para os problemas sociais e políticos, e sua formação respaldada à percepção da realidade. Com a implantação do curso de Bacharelado na década de 1990, a Licenciatura também sofreu regulamentações, porém, de acordo ainda com Loureiro (2008), as disciplinas pedagógicas, tão necessárias à formação da práxis do docente em filosofia, ficavam ainda a cargo da Faculdade de Educação. No princípio, entre os anos de 1940 e de 1950, o corpo docente era composto por professores com formações em diversas áreas: medicina, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3289 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior engenharia, direito, até humanistas religiosos e leigos. A partir de 1990, passou-se a exigir uma formação mais verticalizada em filosofia (graduação, mestrado e doutorado). Todavia, se sabe que para a comunidade local (alunos e professores), na prática, as aulas ministradas configuram-se direcionadas, na sua grande maioria, para estudos debruçados acerca dos textos filosóficos clássicos, desconexas com a realidade contemporânea, as discussões são respaldadas exclusivamente no que o texto traduz. A relevância que se im-põe e prevalece para os estudantes de filosofia da Ufba é que sejam meramente intérpretes ou tradutores. Nota-se que o currículo oculto demonstra que, na realidade, os graduandos são, a priori, estimulados a seguir carreira de pesquisa, ingressando no mestrado e doutorado em Filosofia, que é desvinculada da docência no EM. Conforme Benetti (2006, p. 27): A formação de filósofos na maioria das universidades brasileiras ocorre mediante a diferenciação existente entre o aluno pesquisador e o aluno futuro professor, que produz efeitos para além do contexto de graduação. O aluno pesquisador é reconhecido pela sua “capacidade” para a pesquisa, e o aluno que não possui tais capacidades é incentivado a se tornar professor de filosofia nas escolas. [...] Com isso, uma forma de preconceito acompanha a formação dos filósofos: a de que aquele que não “serve” para a pesquisa deve ser professor de filosofia [...], mantém a ilusória separação entre ensino e pesquisa na filosofia. Ainda assim, há aqueles que optam pela licenciatura apenas e, embora desde 2010 tenha sido implantado o Programa de Iniciação à Docência – PIBID de Filosofia, que buscam propiciar aos licenciandos, futuros professores da Educação Básica, experienciar a realidade no próprio “chão da escola”, saem com precário conhecimento filosófico que lhes dê subsídios para enfrentar os desafios da docência no EM, com uma formação ainda desvinculada com a realidade, principalmente, da rede pública, pois o número de bolsistas é reduzido, contemplando apenas vinte graduandos. Além do agravante de o curso priorizar as disciplinas de história da filosofia, segue o método estruturalista genético que se preocupa com a leitura voltada para lógica estrutural do pensamento filosófico. E ainda, a maioria dos professores enfatiza apenas um filósofo, caracterizando, a priori, uma visão simplista ao não abordar a visão de outros contrapondo as idéias expostas naquele tema estudado. Destarte, de que maneira os professores de filosofia no EM, egressos do curso de licenciatura em filosofia, pela Ufba, terão subsídios para tratar os problemas contemporâneos na escola atual, que proporcione uma visão mais aguçada, uma percepção mais críticoreflexiva? Neste sentido, será que todo ser humano já nasce filósofo ou aprendemos a ter ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3290 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior atitudes filosóficas? Será que os graduandos da Ufba estão sendo preparados para terem atitudes filosóficas neste limiar do século XXI? Será que de fato esses professores de filosofia terão condições de assumir as turmas no EM brasileiro com as novas demandas que emergem após a inclusão da filosofia como ensino obrigatório? O que fazer diante de tais desafios? MATUTAÇÕES (IN)CONCLUSIVAS Embora as discussões sobre a obrigatoriedade legal do ensino da filosofia no EM já tenham sido iniciadas nos meios acadêmicos das IES que oferecem licenciatura em filosofia e na Associação de Pesquisa Nacional de Filosofia – ANPOF através do Grupo de Trabalho Filosofar e Ensinar a Filosofar, algumas medidas de políticas públicas também estão em prática, tais como o PIBID de Filosofia e o Curso de Especialização do Ensino de Filosofia, na modalidade de educação à distância – Ead, em trâmite de implantação, o grande impasse continua, pois estamos vivenciando a transição entre a legalização e a legitimação do ensino formal de Filosofia no Ensino Médio e assim, entre a formação / formatividade dos licenciandos do curso de Filosofia, futuros professores da Educação Básica. Entre a tradição e a mudança, entre a exegese do profissionalismo filosófico e entre o filosofar no limiar de certa linguagem de si, própria e apropriada, entre professar e mediar uma atitude filosófica inventiva-criativa-reflexiva. Não obstante, em meio aos percalços e à (des)ordem instaurada, o espantoso, o inexplicável, o admirável é: ainda com todos os problemas, os professores procuram alternativas para driblar os desafios impostos. Entretanto, de que maneira eles estão resolvendo-os? Quais os etnométodos e os etnocurrículos criados? São inúmeros os nós que ainda devem ser discutidos, reavaliados e desatados para que, de fato, seja possível uma educação emancipatória, justa e cidadã. Mas, até lá, a busca incessante continuará, nos acertos e nos erros, nas tentativas de promover meios para que, nas condições criadas e etnométodos inventados, ela seja alcançada. Freire (1987) já vislumbrava que a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. A partir dessa discussão, fica evidente a necessidade da formalização de estudos na Academia sobre as contribuições reais que a Filosofia pode propiciar. Pois a pergunta pelo quê da Filosofia é um duvidar de si mesmo, do outro, do mundo. Um duvidar de tudo. Daí vem o modo de ser arrebatador da Filosofia: um ser de si destemido e livre, um compreender maravilhado, um deslumbramento e uma embriaguez para além de qualquer medida e medição – um espanto. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3291 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Por conseguinte, a Filosofia é ilimitada, é inigualável e inexplicável na sua essência; perpassa as diversas áreas das ciências; transgride barreiras geográficas, temporais, culturais, étnicas, linguísticas, rompendo paradigmas. Surgem então algumas questões: como ensinar Filosofia? O que ensinar? Como ensinar a essa “Totalidade Vivente”? Galeffi (2006, p. 5-6) alerta que, “nenhum ‘ensino’ é capaz de garantir o próprio do que é, por imanência pura, extraordinário.[...] Trata-se da diferença entre Filosofia instituída e Filosofia própria e apropriada, entre Filosofia erudita e Filosofia viva, entre Filosofia do passado e Filosofia do agora”. Então, mediante tanta incompletude e complexidade, ainda assim, é possível ensinar Filosofia? Quais os meios? E ainda, será possível aprender Filosofia? Definitivamente Filosofia não é algo que se possa ensinar ou transmitir a outrem como se ensina e transmite uma sequência ordenada de determinado jogo de regras. O fato de não se poder ensinar Filosofia não impede a possibilidade de filosofar, não nega que se possa aprender a atitude filosófica na atitude filosófica. Aprende-se a filosofar filosofando. Aprende-se a pensar pensando. Aprende-se a viver vivendo. Aprende-se a aprender aprendendo. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3294 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior EM BUSCA DE UM DIÁLOGO ENTRE PNE, FORMAÇÃO DE PROFESSORES E MULTI/INTERCULTURALISMO Ana Canen14 Aline Cleide Batista15 Paulo Melgaço da Silva Junior16 Resumo O presente artigo se propõe a analisar como as propostas multi/interculturais estão refletidas no texto do PNE aprovado para entrar em vigor nos próximos 10 anos. Argumentamos que uma educação multi/intercultural pode contribuir para a construção de uma educação que valorize e reconheça as múltiplas culturas presentes no cotidiano e sobretudo promovendo uma interrelação entre as diferentes identidades culturais. Defendemos a relevância desta analise apoiados em Hall (1997) que nos mostra a centralidade da cultura em nossos tempos. Com isso, destacando como se dá a expansão de tudo que está associado a cultura a partir da segunda metade do século XX e como ela tem assumido uma posição central na vida dos sujeitos, no processo global de formação e mudança.Por isso, torna-se de fundamental importância refletir como o PNE (Plano Nacional de Educação) está incorporando as questões propostas pelo multi/interculturalismo, principalmente nas questões relativas à formação de professores/as. Concluimos reconhecendo que, é essencial que os cursos de formação inicial e continuada desenvolvam as discussões sobre o multi/interculturalismo, com o objetivo de desenvolver uma educação crítica, para a superação da desigualdade e exclusão social, do preconceito e do modelo hegemônico e monocultural de educação. Palavras chave – PNE, formação de professores e mul/interculturalismo Abstract The present paper intends to anlayse how the multi/intercultural proposals are reflected in the texto of the National Educational Plan (PNE) approved and due to take place in the next tem years. We argue that the multi/intercultural education can contribute to the construction of na educational process that values and recognises the multiple cultures that circulate in everyday school life, particularly promoting a positive interrelationship among the different cultural identities. We defend the relevance of the analysis, particularly drawing on Hall’s (1997) centrality of culture approach in the contemporary life. By doing that, we highlight how the expansion of culture and everything associated with it takes place from th the middle of the 20 century onwards,, discussing how it has been gaining the forefront in individuals’ lives, within the global process of formation and change. In that vein, we contend it is crucial to reflect how the PNE has incoporated such multi/intercultural proposals in teacher education. We conclude recognising it is central to that teacher education courses develop multi/intercultural discussions, so as to develop a critica education that challenges inequality, social inclusion, prejudices and an hegemonic monocultural model of education. Key words: PNE, teacher education, multi/interculturalism 14 Professora e pesquisadora do PPGE//FE/UFRJ, pesquisadora do PROEDES/UFRJ, Rio de Janeiro, RJ e pesquisadora do CNPq. Doutoranda - orientando da Profa. Dra. Ana Canen, Programa de Pós-Graduação da UFRJ. 16 Doutorando - orientando da Profa. Dra. Ana Canen, Programa de Pós-Graduação da UFRJ. 15 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3295 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Introdução O objetivo central deste texto é analisar como as propostas multi/interculturais estão refletidas no texto do PNE aprovado para entrar em vigor nos próximos 10 anos. Defendemos a relevância desta analise apoiados em Hall (1997) que nos mostra a centralidade da cultura em nossos tempos. Com isso, destacando como se dá a expansão de tudo que está associado a cultura a partir da segunda metade do século XX e como ela tem assumido uma posição central na vida dos sujeitos, no processo global de formação e mudança. Nesta perspectiva, torna-se de fundamental importância analisarmos as propostas para a educação brasileira e quais as possibilidades de articulação com a perspectiva multi/intercultural. Neste sentido argumentamos que uma educação multi/intercultural pode contribuir para a construção de uma educação que valorize e reconheça as múltiplas culturas presentes no cotidiano e sobretudo promovendo uma interrelação entre as diferentes identidades culturais. Com isso, entendemos o multi/interculturalismo como uma proposta que desafia congelamentos identitários e que busca responder as questões propostas pela diversidade cultural. Aqui, seguimos Canen (2008) que define o multiculturalismo como corpo teórico e político de conhecimentos, que privilegia o múltiplo, o plural, as identidades marginalizadas e silenciadas e que busca formas alternativas para sua incorporação no cotidiano educacional. Destacamos que o multiculturalismo não pode ser separado das relações de poder que obrigaram as diferentes culturas viverem no mesmo espaço (SILVA, 2001). Por outro lado, as discussões sobre a formação dos professores cresceram significativamente nos últimos anos, associada à busca por uma melhor qualidade na educação e no processo de ensino-aprendizagem. Neste sentido, a atuação dos professores no contexto educativo não se esgota na simples transmissão de conteúdos. Assim, conhecer os conteúdos de certa disciplina não lhes garante que consigam exercer o seu papel com sucesso. Outro fator preponderante na prática pedagógica se releva quando lidamos diretamente com a construção do conhecimento, o que torna necessário “definir a especificidade da ação docente como ação formativa intencional e sistematizada, para não banalizá-la com base na constatação verdadeira, porém parcial, de que todas as relações sociais e produtivas são pedagógicas, com o que todos são professores (...).” (KUENZER, 1999, p. 7). Como a educação nacional brasileira vivencia um momento decisório e importante no que diz respeito à organização da educação enquanto sistema educacional e de políticas que orientarão um rumo da educação por um período de dez anos, torna-se de fundamental ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3296 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior importância refletir como o PNE (Plano Nacional de Educação) está incorporando as questões propostas pelo multi/interculturalismo. O presente artigo esta estruturado da seguinte maneira: no primeiro momento apresentamos uma breve reflexão sobre a perspectiva multicultural, logo a seguir apresentamos o PNE, assim destacamos nossa analise do documento e por ultimo apresentamos as considerações finais. Multi/ Interculturalismo, formação de professores: reflexões e ações Existe uma grande polissemia em relação ao termo multiculturalismo. Candau (2009) destaca que expressões como multiculturalismo conservador, liberal, celebratório, critico, emancipador, revolucionário podem ser encontradas na produção sobre o tema e se multiplicam continuamente. No multiculturalismo folclórico as culturas são interpretadas em seus aspectos exóticos, ou seja, rechear o currículo com festas, ritos, formas de pensar e agir de diversos povos, raças, religiões e classes. O multiculturalismo critico propõem a interrogar, questionar, historizar a cultura dominante, colocar questões que revelem a historia que produziu as presentes identidades No entanto, as perspectivas do multiculturalismo interativo ou multiculturalismo pós-colonial propõem a inter-relação entre os diversos grupos socioculturais, reconhece que as identidades não são puras e que existe a necessidade de reconhecer a diferença dentro das diferenças. Reconhecem que vivemos em processos de hibridização cultural, onde culturas se relacionam, identidades se cruzam e estão sempre em movimento. Forquin (2000) denomina o multiculturalismo interativo de interculturalismo. Neste sentido, Candau (2010) afirma que “interculturalismo supõe a deliberada inter-relação entre diferentes grupos sociais” (p.97). Nos mostrando, também, que as relações sociais não são pacificas, idealizadas ou romantizadas e sim construídas na história, atravessadas por relações de poder, hierarquias socialmente construídas e marcadas pela discriminação. Nesse sentido apontamos para a necessidade da desnaturalização da cultura escolar dominante nos sistemas de ensino, bem como, incorporar a dimensão cultural na prática docente nos cursos de formação inicial e continuada. Trata-se da necessidade de conjugar a cultura de referencia dos alunos com a cultura escolar. (Candau e Arnhon, 2002), Para tanto, consideramos de suma importância que a formação inicial e continuada analise a prática docente em conjunto com as questões sociais, políticas, econômicas e culturais. Isso porque, a compreensão acerca das relações de poder, exploração, preconceito, etc., na sociedade são fundamentais para que o trabalho dos professores esteja voltado para a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3297 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior superação da desigualdade e da exclusão social. Nesse sentido, ao se pretender desenvolver uma prática pedagógica crítica, não basta a celebração da pluralidade, ou a tolerância da diferença. É importante que haja um investimento de esforços na busca da superação das condições que perpetuam as desigualdades e exclusão, desenvolvendo-se dentro de uma linguagem da vida pública, comunidade emancipatória e comprometimento individual e social. Isto porque, as escolas e outros locais sociais e culturais raramente estão completamente subjugados pelo processo hegemônico, pois nestes locais há também luta e resistência. (MCLAREN, 1997). Nesse sentido é que se apontamos para a necessidade de uma formação de professores para atuarem em sociedades multiculturais, constituídas na pluralidade, na multiplicidade e nas diferenças. Observamos que estas questões têm sido ressaltadas na literatura nacional e internacional, por autores tais como Canen (2002, 2007, 2008, 2010); Grant (2000); e McLaren (2000). Coerente com essa abordagem, Canen e Xavier (2005) defendem que o perfil do professor como profissional reflexivo, que assume uma prática enquanto processo de ação/reflexão/ação, pode articular-se às posturas multiculturais, promovendo a formação do professor pesquisador multiculturalmente comprometido. Tal perspectiva representa uma via pela qual as conexões entre o universo microssocial da sala de aula e a realidade cultural e social mais ampla possa se efetuar, possibilitando desafiar discursos que congelam identidades e reforçam preconceitos Para tanto, a educação multi/intercultural irá focalizar, além da diversidade cultural e identitária, os processos discursivos nos quais as identidades e culturas são formadas. Portando, a visão multi/intercultural, não se limita a constatar a pluralidade de identidades e os preconceitos construídos nas relações de poder entre as mesmas. Compreendendo que se trata de uma construção de significados que dentro de um grupo ganham força e se hegemonizam temporariamente, busca analisar criticamente os discursos que fabricam essas identidades e essas diferenças buscando interpretar a identidade como uma construção, ela própria múltipla e plural. Assim, a própria identidade, compreendida como provisória e híbrida é objeto de análise do multi/interculturalismo. Da mesma forma o hibridismo ou hibridização é conceito central dessa perspectiva multi/intercultural: “a construção da identidade implica que as múltiplas camadas que a perfazem a tornem híbrida, isto é, formada na multiplicidade de marcas, construídas nos choques e entrechoques culturais.” (CANEN, 2007, p. 95). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3298 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Análise do projeto de lei do PNE 2011 – 2010 Texto do PL 8035/10 de autoria do Executivo, em tramitação na Câmara Federal, que estabelece o novo PNE. O PNE 2011-2020 é composto por 12 artigos e um anexo com 20 metas para a Educação Sabemos que a educação brasileira é marcada por sérios desafios que questionam a possibilidade de pleitearmos uma educação de qualidade. Não podemos negar os avanços que o sistema educacional tem adquirido ao longo dos anos: a quase massificação do acesso a escola pública gratuita, o crescente número de pessoas cursando nível superior, os avanços na produção e na pesquisa no trato das questões educacionais, a “democratização” na gestão, dentre outros. Porém, temos que lamentar os resultados quanto a qualidade desse ensinoaprendizagem. Muito se tem feito na tentativa de acompanhar e controlar essa qualidade: ENEM, IDEB, Provinha Brasil... Embora, os números, demonstrem crescimento, revelam uma média nacional ainda muito baixa se considerarmos que temos no sistema nacional de ensino uma média para aprovação entre 6,0 e 7,0; revelam também as disparidades entre os estado e o nível das escolas particulares e públicas jogando contra uma credibilidade nas atuais medidas preventivas/reativas que constituem os muitos programas de ação na educação. No momento em que se define o rumo da educação para os próximos dez anos, é tempo de refletirmos e de analisarmos os avanços, recuos e permanências presentes nas propostas e documentos. É importante reconhecermos o “avanço” no processo no qual se delineia este novo PNE. Em uma tentativa de dar voz aqueles que fazem a educação nacional, o documento passa por etapas de construção em diálogo com as diferentes instâncias, na tentativa de se fazer um documento que pudesse expressar os anseios e necessidades frentes as diversas realidades desse nosso tão enorme e diverso mundo que é o nosso Brasil. O documento elaborado na Conferencia nacional da Educação – Conae, expressa essa tentativa de elaboração de um documento, dessa vez o PNE, que tivesse por parâmetro as “vozes do campo educacional”. Naquela ocasião o documento foi estruturado/organizado em seis eixos temáticos, quais sejam: I Papel do Estado na Garantia do Direito à Educação de Qualidade: Organização e Regulação da Educação Nacional; II - Qualidade da Educação, Gestão Democrática e Avaliação; III - Democratização do Acesso, Permanência e Sucesso Escolar; IV Formação e Valorização dos Trabalhadores em Educação; V – Financiamento da Educação e Controle Social; VI - Justiça Social, Educação e Trabalho: Inclusão, Diversidade e Igualdade. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3299 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior O desdobramento destes eixos aparece no PNE, nesta primeira versão, representado sinteticamente em doze artigos que norteiam e orientam as 20 metas, previstas no anexo do documento, com estratégias a serem desenvolvidas no intuito de se alcançar as respectivas metas. Nestes doze artigos, podemos identificar algumas preocupações com a diversidade, conforme aparecem no art. 2º, X - difusão dos princípios da equidade, do respeito à diversidade e a gestão democrática da educação; no parágrafo 3º do artigo 7º, § 3º A educação escolar indígena deverá ser implementada por meio de regime de colaboração específico que considere os territórios étnico-educacionais e de estratégias que levem em conta as especificidades socioculturais e lingüísticas de cada comunidade, promovendo a consulta prévia e informada a essas comunidades; no artigo 8º que dispõe sobre a elaboração de planos de educação nas esferas do estado e dos municípios os parágrafos 1º e 2º apontam para o atendimento á diversidade, especificadas nas particularidades da educação do campo, aos quilombolas e ao atendimento às necessidades especiais. Assim escrito no documento: § 1º Os entes federados deverão estabelecer em seus respectivos planos de educação metas que considerem as necessidades específicas das populações do campo e de áreas remanescentes de quilombos, garantindo equidade educacional. § 2º Os entes federados deverão estabelecer em seus respectivos planos de educação metas que garantam o atendimento às necessidades educacionais específicas da educação especial, assegurando um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, etapas e modalidades. No que se refere a formação continuada dos professores, os doze artigos do atual plano não apresentam nenhuma proposta ou apontamento quanto a proposições e definições de ações a serem desenvolvidas nesse sentido. Nesse sentido, acreditamos que o documento oculta uma discussão ímpar e imprescindível quando se pensa em avanço na educação. O único momento que essa discussão aparece de forma tênue e, a meu ver, ambíguo é no artigo 2º quando apresenta como diretrizes nos itens: V - formação para o trabalho; IX - valorização dos profissionais da educação. Quanto à formação para o trabalho, acredito que todo o documento estar muito voltado para a educação profissional, que nos lembra um pouco a lei 5692/71 que foi alvos de tantas críticas e de lutas para sua superação. No que diz respeito, a valorização dos profissionais da educação, percebemos uma preocupação com a carreira destes profissionais, podendo se caracterizar como um avanço que expressa à luta política destes profissionais. No entanto, no decorrer do documento, observamos que essa valorização ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3300 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior dos profissionais, está muito voltada para a certificação em níveis de pós-graduação lato e stricto sensu. Sendo essas certificações, possibilitadoras de crescerem na carreira e no melhoramento dos salários (as ditas promoções). No entanto é muito preocupante perceber que a valorização, ao invés de estar pautada em melhores salários se volta para “bonificações” adquiridas por certificações em cursos, que bem sabemos que pela quantidade da demanda e da conjetura nas quais podem se organizar, não garante qualidade. Ao contrário, há meu ver estaremos frente a um sério problema que se trata da possibilidade do “descuido” e “desqualificação” e mercantilização dos cursos de mestrado e doutorado. Observamos que, a estratégia referente a esta meta aponta para este caminho: 14.4 Expandir a oferta de cursos de pós-graduação stricto sensu utilizando metodologias, recursos e tecnologias de educação a distância, inclusive por meio do Sistema Universidade Aberta do Brasil - UAB. Desta forma estaríamos ocorrendo no mesmo erro, conforme o documento da Conae já expressava, na preocupação com a qualidade e de como os cursos de graduação conforme identificamos na página 80 daquele documento ao tratar dos Problemas na formação e da necessidade superação soluções emergenciais; A formação e a valorização dos/das profissionais do magistério devem contemplar aspectos estruturais, particularmente, e superar as soluções emergenciais, tais como: cursos de graduação (formação inicial) a distância; cursos de duração reduzida; contratação de profissionais liberais como docentes; aproveitamento de estudantes de licenciatura como docentes; e uso complementar de telessalas. E extinguir, ainda, todas as políticas aligeiradas de formação por parte de “empresas”, por apresentarem conteúdos desvinculados dos interesses da educação pública, bem como superar políticas de formação que têm como diretriz o parâmetro operacional do mercado e visam a um novo tecnicismo, separando concepção e execução na prática educacional. ( p. 80 documento da conae). Consideramos ainda que, nesta primeira leitura, o discurso em torno da diversidade parece se limitar as essencializações da educação da educação do campo, dos povos indígenas (numa proposição muito voltada para as diferentes linguagens existentes nessas comunidades), os quilombolas e os portadores de necessidades especiais. Exposta essas considerações passo a fazer um exercício de localizar nas metas anexas ao documento questões que tratam da diversidade cultural, da formação continuada de professores e da relação entre estas. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3301 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Onde há preocupação com a diversidade cultural, com a formação continuada e onde essas preocupações aparecem concomitantemente - Meta 1: Universalizar, até 2016, o atendimento escolar da população de 4 e 5 anos, e ampliar, até 2020, a oferta de educação infantil de forma a atender a 50% da população de até 3 anos. Formação continuada 1.1) Fomentar a formação inicial e continuada de profissionais do magistério para a educação infantil. - Meta 2: Universalizar o ensino fundamental de nove anos para toda população de 6 a 14 anos. Diversidade e Formação 2.1) Manter programa nacional de reestruturação e aquisição de equipamentos para escolas do campo, bem como de produção de material didático e de formação de professores para a educação do campo, com especial atenção às classes multisseriadas. - Meta 3: Universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar, até 2020, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85%, nesta faixa etária. Formação continuada 3.1) Institucionalizar programa nacional de diversificação curricular do ensino médio a fim de incentivar abordagens interdisciplinares estruturadas pela relação entre teoria e prática, discriminando-se conteúdos obrigatórios e conteúdos eletivos articulados em dimensões temáticas tais como ciência, trabalho, tecnologia, cultura e esporte, apoiado por meio de ações de aquisição de equipamentos e laboratórios, produção de material didático específico e formação continuada de professores. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3302 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior - Meta 4: Universalizar, para a população de 4 a 17 anos, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede regular de ensino. Formação continuada 4.1) Implantar salas de recursos multifuncionais e fomentar a formação continuada de professores para o atendimento educacional especializado complementar, nas escolas urbanas e rurais. - Meta 6: Oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas de educação básica. Formação continuada 6.1) Institucionalizar e manter, em regime de colaboração, programa nacional de ampliação e reestruturação das escolas públicas por meio da instalação de quadras poliesportivas, laboratórios, bibliotecas, auditórios, cozinhas, refeitórios, banheiros e outros equipamentos, bem como de produção de material didático e de formação de recursos humanos para a educação em tempo integral. - Meta 7: Atingir as seguintes médias nacionais para o IDEB: Formação continuada 7.1) Formalizar e executar os planos de ações articuladas dando cumprimento às metas de qualidade estabelecidas para a educação básica pública e às estratégias de apoio técnico e financeiro voltadas à melhoria da gestão educacional, à formação de professores e profissionais de serviços e apoio escolar, ao desenvolvimento de recursos pedagógicos e à melhoria e expansão da infra-estrutura física da rede escolar. 7.2) Informatizar a gestão das escolas e das secretarias de educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, bem como manter programa nacional de formação inicial e continuada para o pessoal técnico das secretarias de educação. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3303 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior - Meta 8: Elevar a escolaridade média da população de 18 a 24 anos de modo a alcançar mínimo de 12 anos de estudo para as populações do campo, da região de menor escolaridade no país e dos 25% mais pobres, bem como igualar a escolaridade média entre negros e não negros, com vistas à redução da desigualdade educacional. - Meta 9: Elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5% até 2015 e erradicar, até 2020, o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional. - Meta 10: Oferecer, no mínimo, 25% das matrículas de educação de jovens e adultos na forma integrada à educação profissional nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. Formação continuada 10.1) Fomentar a produção de material didático, o desenvolvimento de currículos e metodologias específicas para avaliação, formação continuada de docentes das redes públicas que atuam na educação de jovens e adultos integrada à educação profissional. 10.2) Fomentar a diversificação curricular do ensino médio para jovens e adultos, integrando a formação integral à preparação para o mundo do trabalho e promovendo a inter-relação entre teoria e prática nos eixos da ciência, do trabalho, da tecnologia e da cultura e cidadania, de forma a organizar o tempo e o espaço pedagógicos adequados às características de jovens e adultos por meio de equipamentos e laboratórios, produção de material didático específico e formação continuada de professores. - Meta 12: Elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% e a taxa líquida para 33% da população de 18 a 24 anos, assegurando a qualidade da oferta. Formação continuada 12.1) Fomentar a oferta de educação superior pública e gratuita prioritariamente para a formação de professores para a educação básica, sobretudo nas áreas de ciências e matemática, bem como para atender o déficit de profissionais em áreas específicas. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3304 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 12.2) Consolidar e ampliar programas e ações de incentivo à mobilidade estudantil e docente em cursos de graduação e pós-graduação, em âmbito nacional e internacional, tendo em vista o enriquecimento da formação de nível superior. - Meta 13: Elevar a qualidade da educação superior pela ampliação da atuação de mestres e doutores nas instituições de educação superior para 75%, no mínimo, do corpo docente em efetivo exercício, sendo, do total, 35% doutores. Formação continuada 13.1) Induzir a melhoria da qualidade dos cursos de pedagogia e licenciaturas, por meio da aplicação de instrumento próprio de avaliação aprovado pela CONAES, de modo a permitir aos graduandos a aquisição das competências necessárias a conduzir o processo de aprendizagem de seus futuros alunos, combinando formação geral e prática didática. - Meta 14: Elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu de modo a atingir a titulação anual de 60 mil mestres e 25 mil doutores. Formação continuada 14.1) Atuar conjuntamente, com base em plano estratégico que apresente diagnóstico das necessidades de formação de profissionais do magistério e da capacidade de atendimento por parte de instituições públicas e comunitárias de educação superior existentes nos Estados, Municípios e Distrito Federal, e defina obrigações recíprocas entre os partícipes. 14.2) Consolidar o financiamento estudantil a estudantes matriculados em cursos de licenciatura com avaliação positiva pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior SINAES, na forma da Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004, permitindo inclusive a amortização do saldo devedor pela docência efetiva na rede pública de educação básica. 14.3) Ampliar programa permanente de iniciação à docência a estudantes matriculados em cursos de licenciatura, a fim de incentivar a formação de profissionais do magistério para atuar na educação básica pública. 14.4) Consolidar plataforma eletrônica para organizar a oferta e as matrículas em cursos de formação inicial e continuada de professores, bem como para divulgação e atualização dos currículos eletrônicos dos docentes. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3305 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 14.5) Institucionalizar, no prazo de um ano de vigência do PNE, política nacional de formação e valorização dos profissionais da educação, de forma a ampliar as possibilidades de formação em serviço. 14.6) Promover a reforma curricular dos cursos de licenciatura de forma a assegurar o foco no aprendizado do estudante, dividindo a carga horária em formação geral, formação na área do saber e didática específica. 14.7) Induzir, por meio das funções de avaliação, regulação e supervisão da educação superior, a plena implementação das respectivas diretrizes curriculares. 14.8) Valorizar o estágio nos cursos de licenciatura, visando um trabalho sistemático de conexão entre a formação acadêmica dos graduandos e as demandas da rede pública de educação básica. 14.9) Implementar cursos e programas especiais para assegurar formação específica em sua área de atuação aos docentes com formação de nível médio na modalidade normal, nãolicenciados ou licenciados em área diversa da de atuação docente, em efetivo exercício. Formação continuada e Diversidade 14.10) Implementar programas específicos para formação de professores para as populações do campo, comunidades quilombolas e povos indígenas. - Meta 16: Formar 50% dos professores da educação básica em nível de pós-graduação lato e stricto sensu, garantir a todos formação continuada em sua área de atuação. Formação continuada 16.1) Realizar, em regime de colaboração, o planejamento estratégico para dimensionamento da demanda por formação continuada e fomentar a respectiva oferta por parte das instituições públicas de educação superior, de forma orgânica e articulada às políticas de formação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. 16.2) Consolidar sistema nacional de formação de professores, definindo diretrizes nacionais, áreas prioritárias, instituições formadoras e processos de certificação dos cursos. 16.3) Expandir programa de composição de acervo de livros didáticos, paradidáticos, de literatura e dicionários, sem prejuízo de outros, a ser disponibilizado para os professores das escolas da rede pública de educação básica. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3306 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 16.4) Ampliar e consolidar portal eletrônico para subsidiar o professor na preparação de aulas, disponibilizando gratuitamente roteiros didáticos e material suplementar. 16.5) Prever, nos planos de carreira dos profissionais da educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, licenças para qualificação profissional em nível de pós-graduação stricto sensu. - Meta 18: Assegurar, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os profissionais do magistério em todos os sistemas de ensino. Formação continuada 18.1) Instituir programa de acompanhamento do professor iniciante, supervisionado por profissional do magistério com experiência de ensino, a fim de fundamentar, com base em avaliação documentada, a decisão pela efetivação ou não-efetivação do professor ao final do estágio probatório. 18.2) Fomentar a oferta de cursos técnicos de nível médio destinados à formação de funcionários de escola para as áreas de administração escolar, multimeios e manutenção da infra-estrutura escolar, inclusive para alimentação escolar, sem prejuízo de outras. 18.3) Implantar, no prazo de um ano de vigência desta Lei, política nacional de formação continuada para funcionários de escola, construída em regime de colaboração com os sistemas de ensino. Nossas percepções e reflexões acerca da proposta Observamos que na preocupação com a educação infantil a diversidade está voltada para as preocupações com os povos indígenas e a educação do campo, num aspecto bem estrutural voltado para a questão do acesso. A questão da formação aparece como necessidade de fomento. Observamos que, a preocupação limitada ao acesso naturaliza a exclusão desses grupos minoritários Nesse sentido, ao se pretender desenvolver uma prática pedagógica crítica, não basta à celebração da pluralidade, ou a tolerância da diferença. Devese buscar superar as condições que perpetuam as desigualdades e exclusão, desenvolvendo-se dentro de uma linguagem da vida pública, comunidade emancipatória e comprometimento individual e social. (MCLAREN, 1997). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3307 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Na meta referente ao ensino fundamental de nove anos, aparece a preocupação com a diversidade novamente voltada para as questões do campo e dos povos indígenas. Observando mais uma vez a prioridade com as questões estruturais de organização de calendário escolar – tempo e de acesso a escola. Quanto à questão dos índios observamos fortemente a preocupação com a linguagem – da língua materna de cada comunidade. Nas questões relacionadas à formação continuada, esta aparece de forma relacionada com as especificidades da educação do campo. Assim uma formação de professores, não de forma geral, mas voltadas para atender as demandas didáticas pedagógicas das singularidades deste grupo. Nesse aspecto, observamos que diante de um cenário no qual o preconceito contra o diferente é cada vez mais exacerbado e violento/agressivo, preparar professores para a diversidade cultural é, mais do que nunca, uma necessidade premente da qual nenhum de nós deve esquivar-se. (CANEN, 2009) Ao colocar como meta a universalização da escola, pontuam-se os grupos da educação do campo, dos povos indígenas, quilombolas e aparece pela primeira vez no documento a preocupação com as questões de gênero e sexo. Neste sentido, dá a entender que há um reconhecimento de que esses grupos têm sido marginalizados no acesso e permanência a esse nível de escolaridade que corresponderia ao ensino médio. A questão da formação continuada de professores aparece de um dos elementos importantes no incremento da organização e avanço desse nível de ensino. É interessante e curioso que em uma questão tão específica e polêmica como é a alfabetização, ao apresentar uma meta específica sobre a questão, não aparece nenhuma estratégia que esteja voltada para a formação continuada dos professores. Não aparecendo nenhum apontamento dos saberes e estratégias que os professores necessitam desenvolver nesta etapa. Considero que se constitui em uma lacuna deixada no documento, uma vez que, este é um dos maiores problemas da educação brasileira. Na discussão sobre a diversidade é abordada a questão do currículo, tanto da abordagem afro-brasileira como da necessidade de um currículo comum flexibilizado com as especificidades regionais/locais. Nesse sentido, é importante lembrar que a simples seleção de conteúdos multiculturais não é garantia de que as práticas didático pedagógica das escolas sejam menos excludentes. É necessário que sejam fomentadas competências e habilidades no trato das diferenças de forma a serem percebidas como potencialidades a serem valorizadas. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3308 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Contudo, “não devemos recair nem em uma centralização excessiva (...), nem em uma reativação exagerada.” (CANEN & SANTOS, 2009, P. 69) Identidade cultural é abordada no item 7. 17 como essencializada e fixada. Nesse aspecto vai de encontro a proposição de identidade na perspectiva apontada neste trabalho, uma vez que compreendemos que a identidade está sempre em processo de construção, isto é, formada na multiplicidade de marcas, construídas nos choques e entrechoques culturais. (CANEN 2007) A 7ª meta, que trata da elevação dos índices do IDEB, e é a meta do documento que apresenta o maior número de estratégias a serem desenvolvidas, perfazendo um total de 25 metas. Aqui aparece pela primeira vez no texto a preocupação com a formação tanto inicial quanto continuada, além do professor, dos demais profissionais da educação: gestão, técnicos de secretaria, os que desenvolvem serviços de apoio ete. Embora a 8ª meta esteja diretamente ligada às questões da diversidade cultural e da diferença, sejam de raça ou sócio econômico, nas estratégias apresentadas não fica evidenciada nenhuma ação mais contundente no sentido de alcançar essa proposição de superação das desigualdades pontuadas. A questão da diversidade no contexto da Educação de jovens e Adultos não se focaliza nas questões culturais e sim nas especificidades do sujeito jovem e adulto enquanto categoria uniformizada. Nesse sentido, observamos deixa de ocorrer a desnaturalização da cultura escolar dominante nos sistemas de ensino indicada por Candau e Arnhon (2002). Mais uma vez, ao tratar da questão da alfabetização não se apresenta nenhum apontamento para possibilidades de formação contida dos professores que trabalham as especificidades do processo de alfabetização enquanto campo de saber. O Discurso acerca da formação dos professores para Educação de jovens e adultos é semelhante ao discurso apresentado na meta que trata do potencialização ensino médio. É interessante observar que na meta que trata da integração Educação de jovens e adultos e educação profissional, não aparece nenhuma discussão acerca da diversidade. É como se todos os jovens e adultos tivessem as mesmas necessidades e características uniformemente. Consideramos que a preocupação, apresentada neste documento, com a formação de professores para as áreas de ciências e matemática é de suma importância. Uma vez que a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3309 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior defasagem desse profissional na rede de ensino está se esgotando além dos cursos dessas áreas estarem esvaziados. È imprescindível que estas questões pontuais na discussão e política de formação de professores estejam colocadas. A única referência a formação em serviço aparece no item 15.5, de forma vaga e como uma decorrência de uma possível política nacional de formação de professores. Portanto a formação continuada em serviço, priorizando a relação teoria prática e na reflexão com os saberes da experiência, conforme havia sido configurada em documentos anteriores, neste PNE não é apresentada como estratégia de formação. A grande proposta de formação para professores, neste documento, está vinculada a cursos acadêmicos com certificação conforme aponta a meta 16 do documento. O que, para mim, conforme abordei anteriormente é motivo de preocupação, tendo em vista a grande demanda e a configuração na qual se apresenta a educação brasileira. Considero que temos pela frente um grande número de mestrados profissionais e cada vez mais cursos à distância. Considerações e recomendações Nesse trabalho enfatizamos e reconhecemos a escola e o contexto das políticas educacionais enquanto espaço onde há uma predominância da cultura dominante, mas também convivem as manifestações das culturas dominadas, num espaço de conflito e de emancipação. Assim, alertamos para a falta de apoio e condições no contexto da escola, que permitam/favoreçam adquirirem saberes que lhes permitam lidar com as características diversas da população escolar. Doutro modo, enfatizamos que os grupos em suas manifestações precisam ser percebidos para além das essencializações dos marcadores de raças, etnias, gênero ou classe social. É importante que a diferença dentro da diferença seja focalizada sob pena de mistificarmos e excluímos aquilo que não se essencializa/encaixa em um modelo padrão de um grupo. Por fim consideramos que alguns pontos são balizadores no desenvolvimento de uma prática e formação na perfectiva de uma educação multiculturamente orientada; que sejam desessencializados e problematizados às questões de classe, etnia/raça e gênero, entre outras; que as discussões acerca dos grupos menos favorecidos sejam desnaturalizadas e que se pense em estratégias que possibilitem o reconhecimento da diferença como valorativos e potencializadores de uma educação mais humana e menos excludente. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3310 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Dessa forma, reconhecemos que, é essencial que os cursos de formação inicial e continuada desenvolvam as discussões sobre o multi/interculturalismo, com o objetivo de desenvolver uma educação crítica, para a superação da desigualdade e exclusão social, do preconceito e do modelo hegemônico e monocultural de educação. REFERÊNCIAS: CANDAU, Vera M. Sociedade, Educação e Culturas. Petropolis: Vozes, 2010 (3ª Ed). _______.; ANHORN, Carmen T.G. A questão didática e a perspectiva multicultural: uma articulação necessária. In: CANDAU, Vera M. (Org.). Sociedade, Educação e Cultura(s): Questões e propostas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. CANEN, Ana. O multiculturalismo e seus dilemas: implicações na educação. Comunicação & Política, v.25, n. 2, mai./ago., 2007. _____. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3311 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior OS DESAFIOS DO CURRÍCULO PARA A FORMAÇÃO INICIAL DOS PEDAGOGOS NA CONSTITUIÇÃO DOS SABERES PROFISSIONAIS NECESSÁRIOS PARA SUA ATUAÇÃO EM ESPAÇOS NÃO ESCOLARES Ana Lídia Braga Melo17 Lucinalva A.Ataíde de Almeida18 RESUMO Nesse trabalho percebemos a necessidade de reformulação nos currículos do curso de Pedagogia, buscando ampliar a visão de Pedagogo para atender as novas demandas do mercado. Este estudo, buscou se inserir na discussão acerca das várias possibilidades de atuação do Pedagogo, nas práticas curriculares e nas contribuições dos pedagogos nos espaços não escolares. Dessa forma, objetivamos analisar os saberes profissionais exigidos ao Pedagogo e analisamos como o Pedagogo mobiliza os saberes necessários a sua prática. Como categoria teórica tivemos os saberes profissionais, pois buscamos compreender o caráter indissociável que existe entre o saber e o trabalho a ele relacionado. O trabalho pedagógico está associado a um saber, que se constitui em objeto da formação/ atuação do Pedagogo. Selecionamos duas instituições, que são respectivamente empresa pública e privada, situadas na cidade do Recife. O critério que norteou a seleção destas instituições, foram que as mesmas tivessem um setor de R.H, onde atuassem Pedagogos. Para a coleta de dados utilizamos a entrevista semi- estruturada e como critério a analise do discurso, proposta por Eni Orlandi (2002). Os resultados nos indicam que o saber profissional exigido ao Pedagogo em sua prática não escolar, reside na sua mobilização diante de um trabalho pedagógico que emerge da sua prática. Palavras- chave: Saberes profissionais; Práticas Curriculares; Trabalho Pedagógico. 17 Pedagoga pela Universidade Federal de Pernambuco, Especialista em Formação em Recursos Humanos para Educação pela Faculdade Frassinetti do Recife e aluna Especial do PPGED da UFRN. E-mail: [email protected] 18 Dou torado em Educação e professora Adjunta da UFPE. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3312 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Este trabalho apresenta resultados de uma pesquisa que surgiu durante a construção do trabalho de conclusão de curso na graduação em Pedagogia pela UFPE. Partimos do pressuposto que o processo educativo é amplo, não se restringindo ao espaço escolar. Contudo, durante a graduação pudemos perceber, que o discurso dos professores e as disciplinas oferecidas, formavam Pedagogos para atuar como docentes (Educação Infantil, Séries Iniciais e disciplinas pedagógicas), tendo a escola como campo prioritário de atuação, quando sabemos que existem outros espaços e outras demandas a exemplo de empresas públicas e privadas. Nesta perspectiva, constatamos a necessidade de reformulação nos currículos do curso de Pedagogia buscando ampliar a visão de Pedagogo para atender as novas demandas do mercado. Este estudo, buscou se inserir na discussão acerca das várias possibilidades de atuação do Pedagogo, nas práticas curriculares e nas contribuições dos pedagogos nos espaços não escolares. Considerando que esses saberes são produzidos socialmente e que emerge da confluência de vários saberes presentes nas instituições escolares, nos outros atores educacionais, nas universidades, nas empresas e nos espaços não escolares onde ocorram processos educativos. Segundo Pereira (2006 p.21), Os educadores e as educadoras, em caráter emergente, devem tentar buscar alternativas para o desenvolvimento de práticas curriculares mais abertas, ou seja, possibilitar a criação de espaços para que alunos e alunas se tornem agentes ativos no processo de ensinar- aprender; que as práticas curriculares estejam em consonância com a realidade e necessidades dos diferentes contextos, e que a construção dos saberes seja resultante de entrelaçamentos das diversas redes de conhecimento presentes no âmbito da escola pública. No nosso estudo essas redes de conhecimentos não estão localizadas na escola, mas no âmbito das práticas pedagógicas em espaços não escolares. Para isso, analisamos como o Pedagogo mobiliza saberes a fim de atender as exigências presentes nos espaços públicos e privados em que atua. Para tanto, vamos contextualizar a discussão, com elementos sobre a Educação, a Pedagogia, Políticas Curriculares e os Saberes Profissionais, segundo Brandão (1981), Libâneo (2006), Pereira (2006), Guimarães(2004), Tardif(2008). Utilizamos como categoria a análise do discurso, proposta por Eni Orlandi (2002). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3313 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Educação e Pedagogia A constituição atual da sociedade brasileira apresenta um contexto que permeia entre o pré-moderno, o moderno e o pós- moderno, entre o global e o local. Vivemos entre um processo de globalização homogeneizador que gera um significativo desnível, acentuando as diferenças de acesso a bens materiais e culturais, atingindo a camada da população que encontra-se a margem. Diante deste contexto vem se discutindo o papel da educação, quais as suas possibilidades e alcances, ao longo dos anos vem se ampliando a discussão sobre o papel do Pedagogo. Tem se levantado questões como por exemplo: o que deve ser um curso de Pedagogia, o que define o trabalho pedagógico, em que consiste a formação pedagógica e o exercício profissional do Pedagogo, se há lugar para especializações e habilitações, etc. Algumas entidades de educadores e faculdades de educação, em congressos e encontros tem produzido documentos sobre essas questões. O fato de o Pedagogo ter como objeto de estudo a educação, não significa que esta ocorra apenas no espaço escolar e que este educador seja o único responsável por ela. Conforme nos aponta o antropólogo Carlos Brandão (1981, p.7) Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender- e - ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias : educação? Educações?(...) Não há uma forma única nem um único modelo de educação: a escola não é o único lugar em que ela acontece e talvez nem seja o melhor, o ensino escolar não é a única prática, e o professor não é o seu único praticante. A Pedagogia é o campo do conhecimento que tem como ocupação estudar de forma sistemática a educação, ou, ato educativo, a prática educativa. Ocupa-se da educação intencional, ou seja, investiga os fatores que contribuem para a construção do ser humano como membro de uma determinada sociedade, bem como, os processos e meios dessa formação, buscando unir teoria e prática. Entendemos que a ação pedagógica não se resume a ações docentes, desta forma se todo trabalho docente é trabalho pedagógico, mas nem todo trabalho pedagógico é trabalho docente. Nesta perspectiva, Libâneo (2005,p.27) nos aponta que existe intervenção pedagógica nos meios de comunicação de massa e também nas empresas com investimentos em processos de formação profissional em serviço. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3314 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Nesse sentido, diante da complexidade das tarefas apresentadas para o trabalho pedagógico em espaços não escolares, existe um indicativo da necessidade de uma formação inicial e continuada que atenda a essas novas demandas contribuindo para a superação do distanciamento que existe entre a formação inicial e o exercício de sua prática, considerando os avanços científicos e tecnológicos, a globalização da sociedade e as mudanças nos processos de produção. Saberes profissionais e o Pedagogo Nesta pesquisa nos propomos a estudar os saberes, por isso precisamos compreender o caráter indissociável que existe entre o saber e o trabalho a ele relacionado. Considerando desta forma que, o trabalho pedagógico esta relacionado a um saber, que se constitui em objeto da formação/ atuação do Pedagogo. Desta maneira, o Pedagogo que atua no setor de R.H, constrói o seu saber, partindo de demandas existentes no seu ambiente de trabalho, este que tem na base de sua atuação a formação de pessoas. Considerando que a Pedagogia, como teoria e prática, formula objetivos e propõe formas organizativas e metodológicas de viabilização da educação humana. Ao Pedagogo é lançado o desafio da formação humana, diante de uma realidade tão mutável. Esse desafio produz questionamentos em torno desta formação. Neste contexto, o que é educar? Como atuar na formação de seres humanos? Libâneo (2006, p.215) nos aponta que: Educar é intervir na capacidade de ser e de agir das pessoas. Para isso, são providas as mediações culturais, isto é, as ferramentas simbólicas e materiais, mediante um processo de comunicação. É disto que trata a Pedagogia: a mediação de saberes e modos de agir. O Processo de constituição humana ocorre, a todo instante, pois a essência humana, se constitui a partir das relações que estabelece com o outro, consigo mesmo e com o meio. Pois o ser humano não nasce pronto para viver em sociedade. Segundo Guimarães(2004,p.26) “ao entrar no processo de constituir-se enquanto ser humano, o homem/ mulher aprende atribuindo sentido às experiências que vive, favorecendo a descoberta do eu, do outro e do mundo”, mobilizando movimentos de atividade, ligados a ação do sujeito, e o sentido, estabelecendo relações como outros aspectos da vida. No entanto, é preciso entender o mundo como histórico, pré- existente ao homem singular, criado a partir das relações estabelecidas historicamente pela humanidade. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3315 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Nesse movimento de descoberta do eu, do outro e do mundo, é que o ser humano se constitui. Neste sentido, a educação aparece como um elemento importante nesta constituição, estando presente a mediação e a ajuda do outro, na constituição da pessoa humana enquanto ser social e singular. Para isso, conhecimentos e saberes são utilizados como elementos construtores da humanidade, ao mesmo tempo em que são construídos por ela. Em sua pesquisa, Guimarães (2004,p.27) desenvolveu uma aproximação teórica entorno do saber, que constitui-se em base relevante para este estudo. Enquanto elemento de construção humana, o saber é um modo de conhecer mais dinâmico, menos sistematizado e mais articulado a outras formas de saber e fazer, constituído de relação, não havendo um saber em si, mas diferentes tipos de saber. Em Charlot (2000), o saber entendido numa perspectiva restrita é considerado conteúdo intelectual, porém numa perspectiva ampla e epistêmica, envolve a passagem do não domínio de uma atividade, extrapolando o sentido de posse. O estudo feito por Guimarães destaca o aspecto dinâmico, articulado e relacional do saber, que pressupõe uma relação entre o sujeito, o seu saber e o mundo a sua volta, dandolhe sentido e ressignificando-os. Neste sentido, o conhecimento está ligado à produção sistematizada e reconhecida cientificamente na sociedade, enquanto que o saber é visto como produção ligada ao domínio de atividades, que depende da relação dos sujeitos com a realidade. O saber é construído a partir de uma ação coletiva, que esta ligada a um contexto que a valida e transmite. É na ação de troca com o outro e consigo que se desenvolve a construção do saber. Assim, o saber apresenta um aspecto relacional, por ser um elemento construído a partir de uma relação de troca. O saber profissional exigido ao Pedagogo em sua prática não escolar, reside na sua mobilização diante de um trabalho pedagógico presente neste contexto. Em Guimarães (2004, p.27) Tardif nos indica “os saberes estão a serviço da ação e nela assumem significado e utilidade, tratando como indissociáveis, apesar de distintos, o elemento profissional, a prática e os saberes, que evoluem e transformam-se entre si”. Neste sentido, podemos considerar que o Pedagogo desenvolve um saber prático frente à realidade de seu trabalho no campo extra escolar, concebendo assim a relação entre os sujeitos e os saberes como relação dinâmica e em constante transformação, o que leva à ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3316 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior compreensão do Pedagogo como um profissional que desenvolve um saber prático e que o realiza através de investigação sistemática, ou seja, através da pesquisa. Therrien (1993) considera que o saber de experiência é o que traduz e reformula os demais saberes, uma vez que é “um saber que o profissional desenvolve na ação através de questionamentos que este se faz diante de situações problemáticas com as quais ele deverá compor”. Vale ressaltar a necessidade da ação contextualizada do Pedagogo na construção do saber prático, porque este não se restringe aos elementos da prática, mas envolve o saber cultural construído pelo Pedagogo em sua relação social. A fim de atendermos ao objeto central desta pesquisa, que são os saberes profissionais e considerando a empresa como um espaço não- formal. Segundo Libâneo (2005,p.31) “a educação não-formal seria a realizada em instituições educativas fora dos marcos institucionais, mas com certo grau de sistematização e estruturação”. Por isso, surgiu a necessidade de se compreender os elementos que caracterizam e compõem o saber fazer do Pedagogo neste espaço. Essa necessidade provocou o surgimento de diversificados sobre à prática educativa do Pedagogo, que esteja inserido neste contexto. Freire (1996, p.23), destacou um elemento importante para a discussão em torno dos saberes: O ato de cozinhar, por exemplo, supõe alguns saberes concernentes ao uso do fogão, como acendê-lo, como equilibrar para mais, para menos, a chama, como lidar com certos riscos mesmo remotos de incêndio, como harmonizar os diferentes temperos numa síntese gostosa e atraente. A prática de cozinhar vai preparando o novato, ratificando alguns daqueles saberes, retificando outros, e vai possibilitando que ele vire cozinheiro. A prática de velejar coloca a necessidade de saberes fundantes como o do domínio do barco, das partes que o compõem e da função da cada uma delas, como o conhecimento dos ventos, de sua força, de sua direção, os ventos e as velas, a posição das velas, o papel do motor e da combinação entre motor e velas. Na prática de velejar se confirmam, se modificam ou se ampliam esses saberes. Neste estudo, tecemos uma analogia a Freire a fim de embasarmos o nosso objeto. O autor trata da relação entre teoria e prática, dos elementos e saberes que são fundamentais ao ato de cozinhar e velejar, nós buscamos compreender os saberes subjacentes à prática não escolar do Pedagogo. Partindo da concepção posta por Libâneo (2005), que todo trabalho docente é pedagógico, mas que nem todo trabalho pedagógico é docente. Sob esta ótica, fizemos uma aproximação teórica entre os saberes docentes, colocados por Tardif (2002), Guimarães (2004) e Pimenta (2000), aos saberes utilizados ou exigidos ao Pedagogo no espaço não escolar. Guimarães (2004 p. 34) indica: ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3317 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Para Pimenta, os saberes da docência são compostos por: saberes da experiência – formados na atuação profissional, na interação com os alunos e com outros professores-; saberes do conhecimento ou científicos – específicos das áreas do conhecimento-; saberes pedagógicosdesenvolvidos na formação, e envolvem os saberes sobre a educação e sobre a pedagogia. Para Tardif, os saberes docentes são constituídos por: saberes experienciais- desenvolvidos na prática, no exercício das funções de professor-; saberes curriculares- objetivos, métodos e conteúdos estabelecidos pelos órgãos competentes-; saberes disciplinares- ligados aos campos de conhecimento específicos, independentes dos cursos de formação- e os saberes profissionais- os da formação, ligados às ciências da educação. Dentre esses saberes, os saberes da experiência, também chamados experienciais ou práticos e os saberes pedagógicos ou profissionais constituíram-se em elementos fundamentais deste estudo. Os saberes da experiência estão diretamente relacionados ao trabalho pedagógico desenvolvido pelo Pedagogo, visto que tem origem na prática cotidiana, no confronto com as condições da profissão. Os saberes pedagógicos ou profissionais são os saberes que justificam e legitimam a presença do Pedagogo no espaço empresarial. Tardif e Raymond chamam a atenção para o caráter temporal do saber, pois o tempo leva o trabalhador a mudar o seu trabalho e sua identidade, mudando também os saberes necessários à realização do trabalho, porque “os saberes ligados ao trabalho são temporais, pois são construídos e dominados progressivamente durante um período de aprendizagem variável, de acordo com cada ocupação”. Guimarães (2004,p.35) revela, que “em síntese os estudos levam a afirmar que o saber docente é um saber social, plural e fruto de relações estabelecidas pelo sujeito e seu entorno”. Neste sentido, entendendo que o saber docente que a autora coloca, aproxima-se ao sentido do saber profissional presente neste estudo. A mobilização dos saberes acontece para atender as necessidades do trabalho pedagógico, e está relacionada ao domínio dos conhecimentos adquiridos pelo Pedagogo já ressignificados pelo e no trabalho pedagógico no momento da sua realização efetiva. A articulação da diversidade de conhecimentos adquiridos ao longo de formação e da prática profissional atribui um novo e/ou real sentido. Já a sua utilização está ligada à seleção dos saberes mobilizados para atender as necessidades do trabalho pedagógico. Libâneo (2005,p.39), chama a atenção para uma distinção entre “trabalho pedagógico(atuação profissional em um amplo leque de práticas educativas) e trabalho docente (forma peculiar que o trabalho pedagógico assume na sala de aula)”. Os saberes necessários à prática pedagógica não são limitados à aplicação, mas submetidos à releitura, que os torna adequados à realidade, dando-lhe sentido. Deste modo, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3318 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior afirma-se a importância dos saberes disciplinares e pedagógicos ou profissionais, reconhecendo-se a importância dos saberes ressignificados no saber da experiência, que os mobiliza, utiliza e produz outros, a partir das relações que estabelece na relação do trabalho, conferindo ao Pedagogo o papel de produtor de conhecimentos e não apenas transmissor. O caminho percorrido Diante das reflexões que vem sendo feitas nos últimos anos a respeito dos paradigmas teóricos e metodológicos em pesquisa social, decidimos tomar como fundamento para nosso trabalho o modelo qualitativo de pesquisa, visto que melhor se adequa a nosso objeto de estudo, e à compreensão de ciência que em nós vem sendo construída, pois, enquanto Pedagoga estivemos de certa forma, envolvidos com o nosso objeto. As pesquisas qualitativas são caracteristicamente multimetodológicos, isto é, usam uma grande variedade de procedimentos e instrumentos de coleta de dados. Nós entretanto, adotamos os que foram considerados mais viáveis para a realização desta pesquisa. Para atingirmos nossos objetivos, durante a fase exploratória da pesquisa, foram feitos levantamentos iniciais, de empresas em que o Pedagogo estivesse atuando. Selecionamos duas instituições, que são respectivamente empresa pública e uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP)19, situadas na cidade do Recife. O critério que norteou a seleção destas instituições, foram que as mesmas tivessem um setor de R.H, onde atuassem Pedagogos. Estes profissionais embora não estivessem atuando na escola, seu exercício profissional deve estar, de certa forma, ligado ao âmbito educacional visto que existem diferentes modalidades de prática educativa, como foi mencionado anteriormente. Os sujeitos desta pesquisa estão inseridos em uma realidade profissional, que veio se modificando ao longo dos anos, os espaços destas instituições foram se abrindo a atuação do Pedagogo. Este “novo” campo de trabalho tem gerado inquietações, em torno do perfil do profissional e da capacitação profissional exigida ao Pedagogo. Isso tem nos remetido a questões que vão desde a formação inicial até a atuação deste profissional. Mediante a pesquisa de campo nas instituições, utilizamos a entrevista semiestruturada, como um elemento de coleta de dados, construímos um roteiro que norteou as entrevistas, neste roteiro tivemos questões que nos levaram a coletar dados segundo os 19 OSCIP - A lei 9.790/99 que criou o título de OSPIP é conhecida como uma das mais expressivas manifestações do marco legal do terceiro setor no Brasil. Essa lei tentou estabelecer os limites do que se entende por terceiro setor reconhecendo o seu caráter ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3319 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior objetivos propostos. Entrevistamos o Pedagogo em seu ambiente de trabalho, para que possamos obter mais elementos, que contribuíram para a pesquisa. Entrevistamos um Pedagogo em cada instituição, estes que desempenham funções no setor de R.H. Como categoria teórica tivemos os saberes profissionais e utilizamos como critério a análise do discurso (AD), proposta por Eni Orlandi (2002), pois este está na base da produção da existência humana. Estudamos sujeitos que estão inseridos em um contexto social, onde o discurso reflete sua relação com o mundo em que vive. A opção pela AD se deu porque na nossa pesquisa buscamos extrair da fala dos sujeitos, os elementos que pudessem responder aos questionamentos originais deste estudo. Análise dos dados Os resultados deste estudo, sinalizaram aspectos que revelam a demanda existente nos espaços não escolares, por profissionais que tenham a formação do Pedagogo. Considerando, que o Pedagogo desempenha o efeito de mediador das relações entre a empresa e o funcionário. Ele procura relacionar e mediar o que a empresa espera do funcionário, com um trabalho pedagógico para formação do mesmo a fim de atender as demandas postas pela empresa. O saber formal é a representação dos conceitos abstratos e teóricos, baseado no discurso acadêmico e nas metodologias. O Saber Tácito advém das experiências coletivas e individuais que podem alterar visões e comportamentos, nas organizações o saber passa, então, a ser construído não só do processo cognitivo formal mas, também, da realidade vivenciada por seus, funcionários. O saber tácito não faz oposição ao saber formal. Em realidade, devido às características do primeiro serem formadas, em ciclo continuo, no cotidiano do trabalho levando-o a constante reciclagem de acordo com as exigências do ambiente. A soma entre os dois saberes, possibilita uma maior capacidade de interpretação dos indivíduos, um aumento da criatividade. Neste sentido o saber apresenta um caráter dinâmico e relacional, que assume um novo significado na prática do trabalho do pedagogo dentro das organizações. O caráter de mediador assumido pelo pedagogo evidencia-se na fala de um dos sujeitos: público, criou-se um título emitido pelo poder público e, por fim, foi formatado um novo modelo de relacionamento entre o setor ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3320 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Eu sempre evito muito demitir um funcionário. Eu sempre tento reeducar o funcionário (...) Eu converso com o funcionário, eu faço o plano de melhoria para o funcionário, eu observo se ele esta com algum problema pessoal ou não. E faço uma capacitação em cima disso, uma reeducação. No plano de melhoria, eu vejo primeiro quais as dificuldades que o funcionário esta tendo no meio do trabalho e dentro do trabalho. O que esta impossibilitando a realização dele profissional, se for alguma coisa relacionada ao trabalho, a gente senta e conversa. Vê o que pode melhorar tanto da parte dele quanto da empresa(...). A fala do sujeito coloca o termo “reeducação do funcionário”, esse elemento demonstra a preocupação da empresa em preparar os seus funcionários, e nesta perspectiva o Pedagogo desempenha um papel importante enquanto facilitador, enquanto agente provocador de mudança de mentalidade, de cultura. A habilidade do Pedagogo em lidar com a comunicação, com a aprendizagem, e com a própria formação humana faz dele uma figura importante no processo mais abrangente de pedagogização do trabalhador. Como podemos perceber na fala de uma das pedagogas entrevistadas: E daí a gente começa a conversar e efetua o plano de melhoria. Pergunta se ele continua com o interesse de fazer parte da empresa, se ele quer melhorar, se ele quer ajuda e assim 70 % deles melhoram. Quando há esse interesse, porque o funcionário precisa entender, precisa sentir que o R.H esta interessado no trabalho dele. Neste contexto a atuação no setor de R.H exige saberes profissionais que estão ligados ao campo de atuação do Pedagogo e segundo Lindquist e Urt (2004) “o Pedagogo passou a ser requisitado pelo meio empresarial por deter um determinado ‘saber’ que contribuiria no desenvolvimento de processos educativos, para atender a demanda educacional que o momento histórico lança sobre as organizações empresariais”. Os saberes da experiência, também chamados experienciais ou práticos e os saberes pedagógicos ou profissionais constituíram-se em elementos fundamentais deste estudo. Os saberes da experiência estão diretamente relacionados ao trabalho pedagógico desenvolvido pelo Pedagogo, visto que tem origem na prática cotidiana, no confronto com as condições da profissão. Os saberes pedagógicos ou profissionais são os saberes da formação, sobre a ciência da educação e sobre Pedagogia. Os dados da pesquisa revelaram: Saberes que tiveram origem na formação inicial/ continuada- Psicologia, Didática, Metodologia, Planejamento, Avaliação, Acompanhamento. público e o privado, o termo de parceria. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3321 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Saberes desenvolvidos na prática pedagógica empresarial- Atendimento ao cliente, Tecnologia da informação, Tecnologia educacional, Administração de contratos, Processos internos da empresa/ normativos, Lei, Gestão de pessoas, Gerenciamento de conflitos, Comunicação empresarial. Os saberes experienciais das Pedagogas, embora se relacionem, são diversos e atendem a diferentes finalidades sociopedagógicas. Os dados coletados demonstraram, existirem saberes, que são exigidos a atuação em espaços não escolares e estão ligados ao âmbito educacional sobre este prisma organizamos em tópicos : Saberes Organizativos: Trabalhar em equipe, Dirigir um grupo de trabalho, conduzir reuniões, Organização do espaço físico. Saberes Cognitivos: Enfrentar e analisar situações complexas, Acompanhamento do desenvolvimento do funcionário, Construção e/ou modificação de valores e conceitos. Saberes Afetivos: Recepção dos funcionários, Incentivo ou estimulo e motivação, Bem- estar dos funcionários. Os saberes organizativos são aqueles utilizados pelo Pedagogo visando à organização do trabalho como um todo. São utilizados nas funções pedagógicas com finalidades especificas, que vão sendo materializadas na prática. Envolve a organização do ambiente para propiciar ou mesmo incentivar a aprendizagem, a construção e elaboração de propostas de trabalho. No âmbito empresarial busca-se a otimização para que os objetivos sejam atingidos. Os saberes cognitivos são aqueles que dizem respeito ao trato do conhecimento. Considerando as diferentes finalidades para as quais os saberes cognitivos são mobilizados e articulados procurando contribuir na constituição e sistematização do conhecimento que é valorizado e legitimado no ambiente de trabalho e no âmbito da própria formação humana. Os saberes afetivos são aqueles utilizados na interação com o funcionário, envolvendo as subjetividades e as expectativas de sujeitos sociais. Esse saber perpassa os demais saberes e são mobilizados no trabalho visando à recepção dos funcionários para sentirem-se bem, e são ligados ao incentivo e estímulo, pois o Pedagogo começa a exercer poder e influencia a partir do primeiro momento em que o trabalhador coloca os pés na empresa, é ele que “mostra a cara” da empresa. O Pedagogo acompanha todo o desenvolvimento profissional do funcionário, sob esta ótica e utilizando este saber ele investe na motivação do funcionário. Portanto, os saberes encontram-se interligados e a sua mobilização acontece para atender as necessidades do trabalho pedagógico. A mobilização de saberes está relacionada ao ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3322 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior domínio dos conhecimentos adquiridos pelo pedagogo e já ressignificado pelo e no trabalho pedagógico na sua realização efetiva. É no confronto com a realidade do trabalho que o pedagogo mobiliza, utiliza e produz saberes. Algumas Considerações A partir das inquietações que nos levaram a querer compreender os embates entorno da organização do curso de Pedagogia ao longo dos anos, bem como a constituição de diretrizes curriculares norteadoras, que vislumbrassem um campo de atuação mais amplo ao Pedagogo. Pois, partimos do pressuposto que a docência é um dos elementos da prática pedagógica. Neste sentido, buscamos analisar a atuação do Pedagogo no setor de R.H, e como este profissional constrói, reconstrói e mobiliza saberes neste espaço de atuação. Através da Análise do Discurso, instrumento teórico e metodológico de nossa pesquisa, foi possível compreender a concepção presente nas falas das entrevistadas e como estas utilizam os saberes diante da sua prática. No nosso caminho, desenvolvemos uma breve discussão sobre a estruturação do curso de Pedagogia, que facilitou a fundamentação da nossa idéia, em torno da atuação do Pedagogo no espaço não escolar, entendendo que a empresa também é um espaço permeado de práticas pedagógicas e conseqüentemente um espaço aprendente. Desvelamos a atuação do Pedagogo no espaço empresarial e percebemos que a sua inserção neste espaço não é recente, e que esta inserção encontra-se atrelada a uma lógica que permeia a cultura organizacional e a educação que se desenrola neste contexto. A atuação do Pedagogo neste espaço, é norteada pelos conhecimentos e saberes profissionais mobilizados na organização do trabalho pedagógico, para atenderem às necessidades apresentadas em cada contexto, revelando a complexidade e a articulação que norteiam a dinâmica que caracteriza essa relação. Os saberes profissionais são mobilizados e utilizados tanto para atender às atividades empresariais de modo geral, como também a efetivação de uma aprendizagem significativa, através dos processos interativos de funcionários e o setor de R.H. Os saberes profissionais mostraram-se nesta pesquisa como saberes organizativos, saberes cognitivos e saberes afetivos, que articulam- se entre si. Destacamos o reconhecimento do Capital Intelectual na empresa, este que é organizado sobre a lógica das ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3323 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior competências e se constitui a partir da relação entre os saberes formais e tácitos, que estão presentes no ambiente empresarial. No que se refere aos saberes cognitivos, a preocupação das Pedagogas volta-se à formação de sujeitos que se enquadrem nas demandas empresarias, para construção de conhecimentos sistematizados na empresa e para que se reconheçam como sujeitos participantes da mesma. Desta forma, promovendo mudanças e possibilitando a constituição de indivíduos mais flexíveis as constantes mudanças do sistema empresarial contemporâneo. A produção de saberes através das interações enfatiza a característica social dos saberes e do trabalho pedagógico. Os saberes produzidos nessas interações voltam-se predominantemente para lidar com os funcionários e para o trato do conhecimento. Entretanto, por não haver a sistematização dos saberes, estes não são reconhecidos enquanto saberes válidos para a profissão como um todo. Tomamos nesse trabalho a formação inicial/ continuada como momento de produção de saberes e de expressão da articulação entre teoria e prática. Representando fontes geradoras de saberes, promovendo a reflexão sobre a prática e a elaboração de novos saberes para o trabalho pedagógico. Existem dois desafios que são lançados ao Pedagogo, o primeiro reside no reconhecimento dos saberes que utilizam no seu trabalho como elementos da formação, que permitam o Pedagogo refletir e analisar a sua prática e reconhecer-se como produtor de saberes, articulando teoria e prática, saberes e trabalho pedagógico, produzidos nas diversas áreas sociais, inclusive na própria prática. O segundo desafio, reside em sua atuação na empresa, onde o Pedagogo tem que atuar na adaptação do individuo aos objetivos postos pela empresa capitalista. Sob uma lógica contraditória, em que o discurso afirma que o trabalhador é importante e que está preocupado com o seu bem –estar, mas que efetivamente busca-se a obtenção de resultados, de lucros, mesmo que represente queda dos salários, demissões. E o Pedagogo precisa convencer os indivíduos a se adequarem às demandas, a “aceitarem” a diminuição dos salários, a concorrência posta pelo mercado de trabalho, a exclusão existente nesta lógica. Em resumo, esta pesquisa nos revelou como a atuação do Pedagogo tem se desenvolvido no espaço não escolar, os desafios que são postos a este profissional neste campo de atuação e o caráter relacional e dialógico dos saberes frente às demandas existentes na sua prática profissional. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3324 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior REFERÊNCIAS BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação? 7.ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983. COSTA, Marco Roberto Nunes. Manual para Normatização de Trabalhos Acadêmicos: monografias, dissertações e teses. 6. ed. Rev. Recife:INSAF, 2006. FREIRE, Paulo. 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O pedagogo na empresa: um novo personagem nas novas formas de sociabilidade do trabalho. In: ANPED SUL, 2004, Curitiba-PR. Amped Sul. Curitiba: Editora da PUC/PR, 2004.v.1.p.1- ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3325 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior QUAL FORMAÇÃO DE PROFESSORES? PARA QUAL SOCIEDADE? O PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSAS DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA (PIBID) E SUAS POTENCIALIDADES NO DEBATE SOBRE CONHECIMENTO E FORMAÇÃO Andréa Rosana Fetzner Maria Elena Viana Souza UNIRIO Resumo O trabalho discute a formação de professores considerando-se as possibilidades abertas por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) e os desafios de um projeto de transformação da escola básica em uma instituição que assuma perspectivas interculturais em relação ao conhecimento escolar. Este trabalho, apoiado pela CAPES, apresenta os resultados iniciais de um estudo sobre as concepções de conhecimento escolar que permeiam os saberes da docência, identificadas por meio de entrevistas realizadas com um grupo de estudantes bolsistas de licenciaturas do PIBID no âmbito do projeto Iniciação à Docência: qualidade e valorização das práticas escolares. Observamos, até este momento, que a concepção de conhecimento escolar tem oscilado entre perspectivas conservadoras e perspectivas emancipatórias, entendendo-se estas últimas como aquelas que, compartilhando do conceito de bem viver, procuram integrar-se às necessidades das comunidades e compartilham de princípios que envolvem a relacionalidade, a correspondência e a complementariedade (WALSH, 2009). Palavras-chave: docência; conhecimento escolar; interculturalidade. Abstract This research discusses the teachers formation considering the possibilities offered by the Scholarship Program for New Teachers (PIBID) and the challenges of a project to transformation of the elementary school in an institution that takes intercultural perspectives in relation to school knowledge . This work, supported by CAPES, presents the initial results of a study about the conceptions of school knowledge that permeate the teacher knowledge, identified through interviews with a group of studentship in the initiation to teaching: quality and appreciation of school practices of PIBID. Observed, so far, that the concept of school knowledge has oscillated between the conservative and the emancipatory perspectives, the latter being understood as those who, sharing the concept of right living, aims integrate to the needs of communities and sharing principles involve the relationality, the correspondence and the complementarity (Walsh, 2009). Keywords: teaching; school knowledge; interculturalism ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3326 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Interculturalidade como instrumento de análise das concepções de conhecimento A interculturalidade pode significar, enquanto processo e projeto, o contato e o intercâmbio entre culturas, em termos equitativos e em condições de igualdade e, por isto mesmo, trata-se, ainda, um projeto que busca construir um conviver de respeito e legitimidade entre todos os grupos da sociedade (WALSH, 2009, p. 41). Entendemos que legitimar conhecimentos outros, na escola de ensino fundamental é ainda um grande desafio. Com frequência, desde fóruns de especialistas em educação até conversas com pais de estudantes das escolas de ensino fundamental, é comum ouvir-se a ideia de que o importante é aprender a ler, escrever e calcular, porque o resto poderia ser aprendido por meio destas três habilidades. Se nos propusermos a pensar criticamente esta visão da função da escola, podemos nos colocar questões que decorrem deste entendimento: aprender que o racismo é uma construção histórica decorrente de interesses econômicos é menos importante? Aprender a pensar sobre a relação sociedade e tecnologia em contextos diversos como a 2ª Guerra Mundial é menos importante? Compreender processos sociais e culturais que estão na base na produção de nossas condições de vida e de nossa relação com o ambiente é menos importante? Exercitar a criação coletiva de regras, o debate de princípios, o respeito a diferentes perspectivas religiosas é menos importante? Ou ainda, apenas a capacidade de ler, escrever e calcular possibilitaria desenvolvermos nosso entendimento intelectual sobre estas questões? Existiria um universalismo em ler, escrever e calcular, ou seja, ao aprender estas habilidades aprendemos a aplicá-la em qualquer situação? Ler um poema é o mesmo que ler uma bula de remédios? Com base neste entendimento, o conceito de interculturalidade pode nos possibilitar a pensar os conhecimentos escolares como suspeitos de servirem a interesses específicos e não dotados de um universalismo que os credenciariam a ser colocados a priori ou acima de qualquer suspeita. Mais do que isto, a interculturalidade toma como foco a relação entre as diferentes culturas (de forma tensa e não necessariamente amorosa e, menos ainda, folclórica) como foco do olhar para o entendimento de como determinados saberes, valores e linguagens vão sendo colocados em um lugar superior a outros na sociedade (em nossa análise, na escola). Se entendermos os conhecimentos escolares como conhecimentos em disputa (APPLE, 1989) talvez fosse mais fácil a discussão dos conteúdos trabalhados na escola de forma que estes pudessem ser mais significativos socialmente e contribuíssem mais para uma formação libertadora (FREIRE, 1972) e, junto a isto, a retomada da importância do ler, escrever ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3327 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior e calcular como instrumentos para entendermos a sociedade e não como fim em si mesmos. A tomada do ler, escrever e calcular como fim em si mesmos, parece-nos facilitar abordagens tecnicistas dos fazeres escolares e colaboram para a desvinculação entre as questões “o que fazer? Por que fazer?” da questão “como fazer?” Neste estudo, a interculturalidade constitui-se em instrumento por meio do qual se analisa o trabalho com o conhecimento na formação docente, entendendo-se ser possível a valorização de diferentes saberes, valores e linguagens presentes no cotidiano e a superação do desconhecimento, da desvalorização e/ou da subalternização a que, muitas vezes, estão submetidos. O Programa Institucional de Bolsas e Iniciação à Docência – PIBID, mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior – CAPES, em desenvolvimento na UNIRIO, por meio do Projeto Iniciação à docência – qualidade e valorização das práticas escolares, possibilitou bolsas de iniciação a docência a 36 estudantes de licenciaturas, seis professores supervisores de escolas públicas e três professores coordenadores de subprojetos de área na Universidade. O desenvolvimento do projeto envolveu três escolas públicas da educação básica, duas municipais e uma estadual, todas na cidade do Rio de Janeiro. O PIBID/UNIRIO propõe a formação na docência de forma integrada às práticas de pesquisa, ou seja, o licenciando, os professores supervisores e os coordenadores de subprojeto desenvolvem a pesquisa sobre e com a docência, com a escola, em grupos de discussão que, desde uma perspectiva qualitativa e dialógica, discutem questões que se apresentam como problema no exercício da docência. Nestas reuniões, a proposta é o estudo de pesquisas em relação aos problemas vivenciados, a produção de propostas de ação, a aplicação das propostas e a reflexão sobre as mesmas durante e pós a aplicação. Em meio a este processo, possibilidades e planejamentos, materiais didáticos e experiências são desenvolvidos. Como possibilidade de potencialização do projeto em desenvolvimento, foram criados fóruns para apresentação e discussão crítica dos trabalhos desenvolvidos, entre estes a Roda de Conversas PIBID/UNIRIO, que teve sua primeira edição em dezembro de 2010. Foi neste espaço que surgiu a preocupação sobre o que é tomado como conhecimento escolar e, como consequência, quais experiências estamos desenvolvendo com a escola. A pergunta da pesquisa surgiu quando percebemos que, em alguns momentos, o questionamento sobre o trabalho com a escola limitava-se a propor como fazer para que os alunos da escola aprendessem o que lhes era apresentado pela instituição, deixando-se de lado ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3328 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior o questionamento sobre porque é isto que se deve aprender e não outra coisa? Assim, para além das conversas e debates com o grupo propôs-se, em maio de 2011, a aplicação de um questionário que, complementariamente às observações ao projeto, pretendia nos ajudar a perceber como os bolsistas de iniciação à docência têm percebido o que é o conhecimento escolar e como o conhecimento gerado no trabalho com a escola tem contribuído para sua formação. O acompanhamento à escola básica onde um dos subprojetos de área se desenvolve, as observações aos projetos em andamento e o questionário aplicado tiveram como foco a necessidade de percepção sobre como o conhecimento é identificado, definido e trabalhado pelos bolsistas, em dois níveis de percepção, considerando-se: (a) as relações entre os conhecimentos da prática escolar (presentes nas escolas), e (b) os conhecimentos acadêmicos propostos pela Universidade. Nas escolas públicas, temos percebido o quanto os conhecimentos escolares são tomados como únicos e, por meio de únicas linguagens e atividades, em geral propostas de adestramento do pensamento, operam no sentido da exclusão de outros saberes, experiências e conhecimentos, em geral das classes populares. Ao excluir estes saberes, a escola exclui também seus portadores. A interculturalidade, portanto, se constitui num movimento de recuperar saberes, experiências, linguagens geralmente negadas na sociedade e, neste caso, na escola, na busca de uma compreensão mais plural da realidade, sua produção e significado, tornando-se, neste trabalho, instrumento para análise das concepções de conhecimento coletadas no questionário. A iniciação à docência e seus saberes Pimenta e Lima (2010) propõem que a formação de professores seja compreendida enquanto superação de uma formação apenas técnica e, também, superação de uma formação apenas no âmbito de seus fundamentos teóricos, neste sentido entende-se o PIBID como projeto que oportuniza a vivência da iniciação no campo da docência em diálogo à formação teórica oportunizada na Universidade, desde, é claro, que estes campos estejam em postura de diálogo e não de sobreposição de saberes. Entre os objetivos do PIBID, além da integração teórico-prática da formação, encontram-se (a) a necessidade de fixar estudantes de licenciaturas no exercício da profissão e aproveitar os saberes experienciais (GIMENO SACRISTÁN e PÉREZ GÓMEZ, 1998) dos ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3329 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior profissionais já no exercício da profissão como participantes desta formação; (b) a oportunidade de inserção da instituição universitária na escola básica, em diálogo com esta, sobre seus saberes visando promover a formação profissional do professor em uma perspectiva integral. Reconhecemos, desde este ponto de vista, portanto, que a escola e seus professores possuem experiência e saberes importantes a compartilhar com a Universidade e, por sua vez, a Universidade tem necessidade de compartilhar suas pesquisas com a escola. Mais especificamente na UNIRIO, o projeto PIBID é denominado Iniciação à docência: qualidade e valorização das práticas escolares e tem se caracterizado como projeto de pesquisa. São três subprojetos – licenciatura em ciências, pedagogia/anos iniciais do ensino fundamental e pedagogia/formação de professores em nível médio – que oportunizam a vivência do mundo do trabalho de forma integrada ao levantamento de questões para estudo, possibilidades de articulação entre os saberes universitários e os saberes do campo de trabalho, problematização das questões pedagógicas que se apresentam no campo e elaboração de propostas para estas questões. Nos três subprojetos do PIBID, envolvem-se, como bolsistas, 36 estudantes de licenciatura (12 em ciências e 24 em pedagogia), seis professores de escola pública coordenadores na escola (três escolas públicas envolvidas), três professores da universidade subcoordenadores de área e um professor coordenador geral do Projeto. Todos bolsistas de graduação participam do cotidiano da escola pública, desenvolvem atividades ligadas ao ensino e elaboram suas questões de pesquisa de forma integrada às demandas da escola. Na universidade, por sua vez, trazem suas questões para discussão em diferentes disciplinas. Durante o acompanhamento do projeto PIBID/UNIRIO, percebemos que a docência passa a se apresentar aos bolsistas de graduação como um campo de pesquisa, no sentido das possibilidades e desafios do cotidiano escolar. Propondo exercitar os princípios de uma educação libertadora, toma-se o diálogo entre estudantes e professores, entre os bolsistas do PIBID e seus coordenadores e entre os estudantes da escola pública e os bolsistas do PIBID, como ponto de partida para o trabalho realizado. A busca do conteúdo programático, dos temas e estudos a serem realizados, se dá coletivamente o que, segundo Freire (1972) exige uma nova educação expressada em uma nova escola, voltada para fomentar as perspectivas de mundo, de humanização e de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3330 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior aprendizagem que se tornem possíveis no momento atual, perspectivas estas a que o autor contrapõe às perspectivas escolares que chama de educação bancária. Dos 36 bolsistas do PIBID/UNIRIO, responderam ao questionário dentro do prazo solicitado quatro bolsistas do subprojeto pedagogia/ensino fundamental/anos iniciais, oito bolsistas do subprojeto licenciatura em ciências e nove bolsistas do subprojeto pedagogia/formação de professores em nível médio, perfazendo 21 bolsistas. Dos 21, apenas dois possuem menos de dois meses no projeto e 19 possuem entre nove e 12 meses (dados de maio de 2011), o que demonstra que os subprojetos estão com pouca rotatividade de bolsistas. No subprojeto de pedagogia/ensino fundamental/anos iniciais, os quatro bolsistas desempenham o mesmo tipo de ação na escola: participam de aulas comuns e desenvolvem oficinas no contra-turno da escola, buscando colaborar com as crianças que são indicadas por seus professores como estudantes com baixo desempenho escolar. Estas oficinas são planejadas com a professora coordenadora do subprojeto e acompanhadas, na escola, pelas professoras supervisoras. Ao serem questionadas sobre quais conhecimentos de sua formação profissional mais contribuiriam para o trabalho que desempenham na escola, as bolsistas do PIBID indicaram: estudos sobre o conceito de interação, mediação e ZDP20 de Vygostki e entre os autores que mais colaboram com suas práticas, foram citados, além de Vygostki, Paulo Freire e Vitor Paro e, ainda, de forma genérica, conhecimentos da área de didática e conhecimentos decorrentes da própria prática nas oficinas. O depoimento a seguir, da bolsista C121, resume: Todos os textos que lemos, aulas a que assistimos e as experiências que temos se encontram nos momentos de atuação [na escola básica], em rede de saberes que é tecida a cada leitura e a cada conversa. Mais abertamente, influenciam na minha atuação na escola as reflexões acerca da avaliação e do currículo da escola. Currículos oficiais, ocultos, praticados e todos os observados estão em constante destaque quando circulamos o espaço escolar. Mais fundamentais para a minha prática se mostram também os textos sobre Estágio Supervisionado e as reuniões dos estagiários com seus supervisores na UNIRIO. Os textos discutidos nas reuniões de pesquisa e as apresentações a que assistimos em congressos, todos versando sobre estudos do cotidiano, são extremamente importantes para a fundamentação de uma metodologia de pesquisa que consiste em um mergulho na escola. (depoimento em maio de 2011) 20 21 Zona de Desenvolvimento Proximal. Os nomes das/os bolsistas foram substituídos por letras, buscando preservar o anonimato, por uma opção das autoras. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3331 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Por meio do depoimento citado e, pelo conjunto das colocações que foram coletadas, é possível observar que saberes e espaços de formação são articulados por meio das demandas que a prática na escola provocam. No conjunto dos quatro depoimentos deste subprojeto surge a ideia de que, para aprender, é preciso dar espaço aos estudantes para perguntas, para questionamentos e para a autonomia na organização, além disto, indicam uma aprendizagem significativa realizada por meio do projeto e aprofundada nos estudos de graduação. A interculturalidade aparece no aguçamento para perceber as nuances dos currículos (currículos oficiais, ocultos e praticados), citados pela licencianda bolsista do PIBID e demonstram a presença integrada da concepção ao olhar à escola e à própria formação. Ao serem questionadas sobre o que o PIBID representaria em sua formação profissional, o depoimento da bolsista L2, é representativo do conjunto das respostas obtidas: O PIBID proporcionou-me uma visão real do cotidiano escolar, possibilitoume experimentar novos métodos de ensino e diversas formas de mediação, de acordo com a necessidade de cada aluno. (Depoimento em maio, 2011) De forma geral, as bolsistas do subprojeto pedagogia/anos iniciais do ensino fundamental identificam no PIBID uma forma de experienciar novas formas de atuar no ambiente escolar assim como a importância destas novas formas de atuar (expressão das bolsistas) para a melhoria da aprendizagem dos estudantes envolvidos nas oficinas oferecidas na escola. Os bolsistas do subprojeto licenciatura em ciências desenvolvem seu trabalho na escola, oferecendo oficinas no ensino de ciências, focadas em horta, sustentabilidade e astronomia. Neste grupo de trabalho, as temáticas/enfoques das atividades estão previamente delimitados, ou seja, não decorrem do cotidiano da escola, mas de uma proposta de atividade do subprojeto na escola. Os enfoques estão relacionados à proposta de ensino de Ciências das diretrizes curriculares nacionais para a área e são desenvolvidos nos anos finais do ensino fundamental e na educação de jovens e adultos. Ao serem questionados sobre quais conhecimentos da formação na universidade mais têm contribuído com o desenvolvimento do trabalho na escola, sete bolsistas citaram, de forma geral, o domínio dos conteúdos a serem abordados em sala de aula e as contribuições de disciplinas como didática e psicologia para o entendimento do comportamento dos estudantes, do processo de aprendizagem e como entender que alunos diferentes podem ter necessidades diferentes (depoimento bolsista A, maio de 2011). Apenas um dos bolsistas ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3332 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior identificou a necessidade de trabalhar, no cotidiano da escola, com questões mais gerais a respeito das ciências: Tenho um prazer enorme de falar de ciências [...] de personalidades históricas (grandes cientistas), todo um engajamento sociológico, educação ambiental e muito de documentários. Todas as disciplinas escolares, costumo inserir alguns temas e acredito que uma visão ampla e geral de todas as ciências influencia mais na formação desses garotos [da escola] do que um conteúdo focado num tema só. (Bolsista F., depoimento em maio 2011) A forma como os bolsistas deste subprojeto têm percebido o conhecimento de ciências indica certo isolamento das ciências do contexto do programa de ensino da escola, e merece ser melhor investigado no sentido de perceber se trata-se de uma dinâmica historicamente presente ao final do ensino fundamental, há muito tempo criticada, que referese à fragmentação dos conteúdos escolares ou refere-se à forma como os bolsistas percebem o conteúdo que trabalham. Destacamos o depoimento do bolsista F., por este ter demonstrado certa preocupação com uma formação geral dos estudantes, o que pode indicar uma perspectiva mais integrada dos conhecimentos da ciência com a relação de ensinoaprendizagem na escola. Ao serem questionados sobre o que representa o PIBID para sua formação profissional, os bolsistas do subprojeto licenciatura em ciências indicaram que o projeto tem sido um laboratório da profissão de professor, oportunizando aprender coisas que só aprendemos na prática docente, no dia a dia com os alunos (depoimento A., em maio de 2011). Os depoimentos, nesta questão, não vincularam as aprendizagens realizadas na Universidade com as aprendizagens realizadas na prática da docência na escola, o que pode ser mais um indicativo dos limites da formação oferecida, uma vez que não houve, ao responder esta questão, um vínculo espontâneo dos bolsistas entre o que é aprendido no espaço de formação acadêmica com o que é aprendido no espaço de formação na escola. Os dois espaços (academia e escola) são espaços diferentes, mas, no projeto PIBID/UNIRIO, há a ideia de integração da formação, sem dicotomia entre teoria e prática, uma vez que prática e teoria precisam ser refletidas por meio das aprendizagens da docência. Sendo assim, escola e universidade seriam espaços de formação teórico-práticas. Um dos oito bolsistas que responderam ao questionário destacou, nesta questão sobre o que representaria o PIBID para sua formação e o caráter de financiamento do estudo: ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3333 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior [...] o simples fato de eu não precisar trabalhar à noite para ter o direito de estudar, é de um enorme valor. O estudante de hoje, da biologia, precisa ter slides, tirar inúmeras Xerox e principalmente ter os livros, se locomover e se alimentar na Urca, tudo isso exige um nível de classe média onde os pais bancam ou o aluno trabalha, estudando integralmente e isso é inviável no meu caso e só o simples fato de participar da escola, sentir a alegria dos alunos, montar minhas aulas, e conseguir me manter estudando tem um valor inexplicável que me faz querer dar o máximo de mim, em prol daquilo que acredito, isto é, retornar o meu conhecimento à sociedade. (Depoimento bolsista F., maio 2011). A dimensão da necessidade objetiva de manutenção dos próprios estudos, de grande parte dos estudantes de licenciatura está, também, presente entre os bolsistas do projeto e é uma realidade, demonstrada pelo depoimento acima. No subprojeto pedagogia/formação de professores em nível médio, entre os nove bolsistas do PIBID que responderam ao questionário, dois indicaram desenvolverem seu trabalho junto ao setor de coordenação pedagógica da escola e sete trabalham com o projeto de dependência curricular em disciplinas do núcleo comum da formação de professores. O trabalho junto à coordenação pedagógica da escola, parceira neste subprojeto, implica no acompanhamento de atividades como supervisão de estágios e provas, organização de documentos, distribuição de atividades na escola. O trabalho do projeto de dependência implica no trabalho com estudantes do magistério que possuem a necessidade de revisar conhecimentos específicos propostos pela escola. Perguntados sobre quais conhecimentos de sua formação profissional mais contribuiriam para o trabalho realizado na escola, algumas referências foram feitas às disciplinas de avaliação e currículo, didática, gestão e planejamento escolar. Os bolsistas deste subprojeto apresentaram um discurso quase homogêneo em torno dos saberes cotidianos e das redes de relação entre os conhecimentos, como centrais no trabalho desenvolvido. O depoimento da bolsista A2 exemplifica: Os conhecimentos de minha formação profissional que mais contribuem são valorizar e perseguir práticas emancipatórias, críticas, participativas e dinâmicas, compreendendo a importância disso para o processo de formação tanto dos alunos como na configuração de minha identidade de futura professora. Acredito que isso está ligado ao referencial epistemológico metodológico usado no grupo de pesquisa PIBID-EM e em algumas propostas curriculares da UNIRIO que compreendem a escola como espaço-tempo de formação para além do discurso hegemônico – fracasso escolar, provas únicas, currículos exclusivamente prescritos. Assim, o trabalho do grupo PIBID-EM está pautado na valorização das práticas e trabalhos que já existem na escola, construindo uma parceria deste com esse espaço de formação. Dessa forma meu trabalho na escola é desenvolvido ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3334 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior partindo da perspectiva de ver o aluno, os professores e funcionários sujeito de saberes, assim construímos nosso conhecimento em redes. (Depoimento em maio de 2011) Mais uma vez, a perspectiva de perceber a escola como espaço de saberes múltiplos, seus alunos, professores e funcionários como portadores de experiências importantes no seu processo de formação parece-nos remeter ao conceito de interculturalidade. Quanto ao questionamento sobre as contribuições do projeto PIBID/UNIRIO para a formação profissional destes bolsistas, os depoimentos salientam a dimensão do PIBID enquanto pesquisa e a integralidade da formação teórico-prática: O PIBID representa um amadurecimento dos meus estudos da educação e a solidificação do respeito aos estudos do cotidiano. As reuniões de pesquisa são pontos de encontro de experiência, saberes, dúvidas e conhecimentos; tempo em que podemos refletir e discutir a prática pedagógica. Além de todo o conhecimento que tecemos ao longo do Projeto, o PIBID me permitiu conhecer melhor algumas dinâmicas do âmbito acadêmico, fazendo-me conhecer outras pesquisas e me preparando para estudos posteriores. (Depoimento bolsista C1, maio de 2011) Considerando-se os vinte e um depoimentos analisados, foi possível perceber que, com diferentes aproximações entre o espaço da formação na universidade e o espaço de formação na escola, todos os envolvidos como bolsistas de graduação têm percebido o PIBID como um espaço de formação para a profissão de professor e como espaço de ampliação das aprendizagens desta profissão. A forma como os bolsistas de graduação referem-se aos conhecimentos aprendidos no projeto PIBID/UNIRIO indica a possibilidade de integração entre os saberes aprendidos na academia e os saberes aprendidos na experiência com a escola e destaca a relevância deste projeto no âmbito da formação de professores e, principalmente, como a não existência de um único saber, o que nos parece a contribuição fundamental da interculturalidade. Primeiras conclusões Partindo da pergunta sobre qual formação de professores para qual sociedade, propomos, por meio do conceito de interculturalidade, discutir a percepção de conhecimento presente na formação de professores no âmbito do projeto PIBID/UNIRIO. Para isto, apresentamos a forma como têm funcionado os subprojetos pedagogia/anos iniciais do ensino fundamental, licenciatura em ciências e pedagogia/formação de professores em nível médio, envolvendo 36 bolsistas de graduação, seis bolsistas supervisores do projeto em escolas ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3335 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior públicas e três coordenadores de subprojeto de área na universidade, além do coordenador institucional do Projeto. Com base em um questionário aplicado aos bolsistas de graduação em maio de 2011 e no acompanhamento dos subprojetos em 2010/2011, questionaram-se o que o PIBID tem representado em termos de formação integral do professor, considerando-se os saberes da prática profissional e os saberes acadêmicos como teórico-práticos em sua essência. Percebeu-se que no subprojeto pedagogia/anos iniciais do ensino fundamental as bolsistas de graduação conseguem, por meio do trabalho desenvolvido, integrar não apenas os saberes universitários aos fazeres docentes, mas também integrar os saberes dos estudantes das escolas ao conteúdo escolar trabalhado no espaço escolar, o que parece ser uma aprendizagem importante, considerando-se a tradição docente de separar/desvalorizar os saberes da experiência dos alunos dos saberes propostos pela escola. Ao analisar os questionários dos bolsistas de graduação do subprojeto de licenciatura em ciências, também se percebe uma relação entre os saberes acadêmicos e o fazer docente desenvolvido por meio do PIBID, porém, ao menos no discurso apresentado, esta integração aparece na relação com o saber específico da disciplina de ciências (na maioria dos depoimentos e não na totalidade) e com pouca integração com uma formação mais geral dos estudantes da escola. Os bolsistas de graduação do subprojeto pedagogia/formação de professores em nível médio destacam, nas falas sobre o PIBID apresentadas, o caráter de pesquisa do projeto e a relação de algumas disciplinas do curso de pedagogia com cotidiano escolar do qual participam. Não há uma referência mais específica aos conhecimentos trabalhados com as/os estudantes do nível médio formação de professores que permita avaliar a integração entre as experiências destes estudantes com o conteúdo trabalhado pelos bolsistas do PIBID deste subprojeto na escola e isto se constituirá na continuidade de nossa investigação. Também neste processo de continuidade, pretende-se levantar as perspectivas das coordenadoras dos subprojetos de área e, na possibilidade de continuidade do projeto, a visão que as escolas envolvidas têm sobre o PIBID/UNIRIO, em especial, as interlocuções com a Universidade, por meio do projeto. Entendendo o PIBID como um projeto de ação-reflexão-ação (FREIRE, 2005) da prática escolar de forma integrada às práticas de formação na universidade, e compartilhando desta mesma metodologia para a análise sobre as concepções de conhecimento presentes nestas práticas, concluímos que este projeto (PIBID) tem contribuído para intensificar as ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3336 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior perspectivas interculturais no trato do conhecimento escolar, especialmente ao problematizar as práticas que, orientadas pelo princípio da neutralidade dos conhecimentos, destituem estes conhecimentos de suas funções sociais, culturais e políticas, tornando-os sem sentido em grande parte do tempo de formação, quer na escola, quer na universidade. Do ponto de vista da interculturalidade, que se preocupa com a destituição do caráter homogêneo dos conhecimentos trabalhados, os depoimentos parecem indicar certa relação entre as necessidades objetivas do cotidiano escolar, vivenciado por meio do desenvolvimento deste projeto e os estudos de algumas disciplinas na Universidade, notadamente, didática, currículo e avaliação. Retomando a perspectiva inicial da pesquisa, entende-se que a concepção de conhecimento trabalhado na Universidade e na escola pública tem oscilado entre perspectivas conservadoras (que compreendem o conhecimento como neutro e objetivo, decorrentes do processo que toma um particular como universal) e perspectivas emancipatórias (aquelas que, compartilhando do conceito de bem viver, integram-se às necessidades dos grupos com os quais se trabalha). No que entendemos como perspectivas emancipatórias, o conhecimento é compreendido de forma relacional, pois é produzido considerando determinado contexto e decorre de saberes disponíveis em certa situação, correspondente ao que é possível compreender e aprender diante das relações estabelecidas, e complementar, na medida em que não temos um conhecimento que baste a determinada situação ou necessidade, mas um conjunto de conhecimentos que se complementam diante das questões que pretendemos compreender (WALSH, 2009). Neste sentido, os depoimentos dos bolsistas de graduação demonstram definições de conhecimento subjacentes ao entendimento de que não existiria um conhecimento a ser definido a priori das situações educativas, mas que precisa ser articulado nestas situações. Isto é, um conhecimento a ser identificado, definido e trabalhado, na prática escolar (das escolas envolvidas, e com os conhecimentos acadêmicos propostos pela Universidade). Esta compreensão dá ao projeto PIBID/UNIRIO especial relevância enquanto instrumento de promoção da formação profissional do professor em uma perspectiva integral. REFERÊNCIAS APPLE, Michael. Educação e Poder. Porto Alegre: Artes Médicas,1989. FREIRE. Paulo. Pedagogia do Oprimido. 2ª. Edição. Porto: Afrontamento. Ed. João Barrote. 1972. Capítulo III. p. 109-170. GIMENO SACRISTÁN, J. e PÉREZ GÓMEZ, A. I. Compreender e transformar o ensino. Tradução ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3337 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Ernani F. da Fonseca Rosa. 4ª. Ed. Porto Alegre: Art\Med, 1998. Capítulos 6 a 9. p. 119-293. PIMENTA, Selma G. e LIMA, Maria do Socorro L. Estágio e docência. 5ª Ed. São Paulo: Cortez, 2010. WALSH, Catherine. Interculturalidad, estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, Ediciones Abya-Yala, 2009. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3338 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A IMPLEMENTAÇÃO DAS POLÍTICAS DE CURRÍCULO NOS CURSOS DE LICENCIATURA: UM ENFOQUE PRAGMÁTICO Antônia Dalva França Carvalho Universidade Federal do Piauí - UFPI Resumo Este trabalho decorre de uma análise das políticas curriculares para os cursos de Licenciatura no Brasil, evidenciando uma proposta pragmática de instituição de tais políticas na Universidade Federal do Piauí (UFPI). Inscreve-se, portanto, ao mesmo tempo, no âmbito das discussões em torno das políticas de currículo para o ensino superior e no campo da epistemologia da prática docente. Em princípio, faz uma abordagem sobre o paradigma da racionalidade técnica que tem dominado os currículos de formação docente para mostrar que este modelo necessita ser superado, como propõem as políticas curriculares emanadas do Estado, cujo texto legal se fundamenta no modelo da racionalidade prática. Em seguida, descreve uma proposta que toma a pratica como componente curricular nos cursos de licenciatura em Física, Matemática e Pedagogia da UFPI, como meio de consolidar um modelo formativo de professores onde a ação-reflexão-ação desencadeada pelo eixo da prática fomenta as competências requeridas para o ofício da docência. Trata-se, portanto, de uma proposta que enfoca o currículo na perspectiva do campo prático e do sentido com o qual é construído. Os resultados servirão para se refletir sobre as políticas de currículo, a avaliação permanente das ações na formação docente e os caminhos para se implementar políticas curriculares que fomentem o desenvolvimento de competências condutoras da maioridade e da autonomia racional dos futuros professores. PALAVRAS-CHAVE: políticas de currículo, formação docente, racionalidade prática. IMPLEMENTATION OF POLICIES IN THE CURRICULUM DEGREE COURSES: A PRAGMATIC APPROACH Abstract This work stems from an analysis of curriculum policy for degree courses in Brazil showing a pragmatic proposal to institute such policies at the Federal University of Piauí (UFPI). Subscribing is therefore at the same time, in the discussions around curriculum policies for higher education and the field of epistemology of teaching practice. In principle, one approach is the paradigm of technical rationality that has dominated the curricula of teacher education to show that this model needs to be overcome, as proposed by the curriculum policies issued by the state, whose legal text is based on the model of practical rationality. It then describes a proposal that takes the practice as a component of the curriculum in graduate courses in Physics, Mathematics and Pedagogy of UFPI as a means of consolidating a teacher training model where the action-reflection-action triggered by the axis of the practice fosters skills required for the craft of teaching. It is therefore a proposal that focuses on the curriculum from the perspective of practical field and the sense with which it is built. The results will be to reflect on the policies of curriculum, assessment of ongoing activities in teacher training and ways to implement curriculum policies that foster the development of skills and conducting the majority of rational autonomy of future teachers. KEYWORDS: curriculum policy, teacher training, practical rationality ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3339 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1. Introdução No Brasil, a partir dos anos de 1990, a política em torno dos currículos tem alcançado todos os níveis de ensino como forma de se resolver os problemas educativos, de modo geral. No que tange à formação docente e aos problemas decorrentes de sua fragmentação, dicotomização entre teoria e prática estreita no processo formativo, característicos de modelo calcado na racionalidade técnico-instrumental, portanto inadequado a prática da docência, as políticas de currículo para os cursos de licenciaturas, tem tentando rompê-lo. Nesta racionalidade, o currículo pode ser comparado a “um terreno plano que as pessoas têm que escavar suas bases sem saber por que” (STENHOUSE, 1998, p.23). O autor faz uma analogia entre o professor e um tipo de peão intelectual que não precisa dominar o conhecimento científico (isso é papel do cientista) para a manipulação eficaz. O importante é saber como escavar sem precisar entender a razão pela qual se está realizando uma ação. Disso deduz-se que o professor não é um sujeito epistêmico, uma vez que seus saberes e sua autonomia estão subordinados aos saberes do psicólogo, do sociólogo, do pedagogo. A constituição da racionalidade pedagógica dos futuros professores decorre da necessidade de imitação de modelos preestabelecidos, orientando-se pelo uso adequado de técnicas através das quais se depreende o sucesso do ensino. Superar esta racionalidade é consenso de toda comunidade científica cujas vozes pareceram ser ouvidas no processo de reformulação da educação no Brasil. Com efeito, a tentativa de superar este modelo encontra-se expressa na Resolução CNE nº 01/2002 que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Conforme o seu Art. 2º, cada instituição deverá observar na organização curricular dos cursos que formam professores: “o ensino visando à aprendizagem do aluno; o acolhimento e o trato da diversidade; o exercício de atividades de enriquecimento cultural; o aprimoramento em práticas investigativas; a elaboração e a execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares; o uso de tecnologias da informação e da comunicação e de metodologias, estratégias e materiais de apoio inovadores.” (BRASIL, 2002). A formação de professores passa a ser guiada pelo desenvolvimento de competências e não de técnicas, tornando-se seu eixo nuclear, podendo ser compreendida como habilidades, valores, conhecimentos, atitudes referentes à atividade docente. Também, orienta-se pela coerência entre a formação oferecida e a prática esperada onde as ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3340 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior aprendizagens das competências são avaliadas constantemente e, por último, fundamentada na pesquisa, foco do processo formativo como forma de tornar o futuro docente um sujeito epistêmico, que não somente aplica o conhecimento, mas que, também, o produz e, por esta razão necessita compreender o processo de construção de conhecimento. Neste aspecto, o currículo para a formação docente concebido pelas diretrizes adquire forma dinâmica e pragmática sendo a prática o eixo de preparação para o oficio, apontando para um novo paradigma de formação docente: o da racionalidade prática. Ressalte-se que o eixo da prática para a formação docente já se encontrava definido pela Lei de Diretrizes e Bases para a educação Nacional nº 9.394/96, como ressalta Carvalho (2010). De fato, no Art. 65, verbis, a LDBE, na formação docente, exceto para a educação superior, inclui a Prática como Componente Curricular (PCC) de, no mínimo, trezentas horas. Este número, de acordo com a Resolução CNE/CP nº 02/2002, é ampliado para 400 horas pelos Pareceres CNE/CP nº 09 e 28/2001, reforçado pelo Parecer CP nº 15/2005 como “Uma concepção de prática mais como componente curricular implica vê-la como uma dimensão do conhecimento que tanto está presente nos cursos de formação, nos momentos em que se trabalha na reflexão sobre a atividade profissional, como durante o estágio, nos momentos em que se exercita a atividade profissional”. (BRASIL, 2005, p.23) A Resolução CNE/CP nº 02/2002, em seu Art.12, corrobora a introdução do paradigma da racionalidade prática alertando para o fato de que a prática deverá estar presente desde o início do curso e permear toda a formação do professor não podendo ficar reduzida, na matriz curricular, a um espaço isolado, que a restrinja ao estágio, desarticulado-a do restante do curso. Assim, ela existirá no interior das áreas ou das disciplinas que constituírem os componentes curriculares de formação, e não apenas nas disciplinas pedagógicas, de modo que todas terão a sua dimensão prática. Contudo, pela própria natureza do processo educativo que é singular, movediço, incerto, conflituoso em função dos valores existentes na sociedade, não se trata da prática pela prática, mas de uma prática reflexiva, condizente com o paradigma da racionalidade prática onde “[...] a concepção, a prática não é apenas locus da aplicação de um conhecimento científico e pedagógico, mas espaço de criação e reflexão, em que novos conhecimentos são, constantemente, gerados e modificados” (DINIZ PEREIRA, 1999, p.109). Nesta racionalidade, como interpreta a formação de professores não é mera aquisição de saberes teóricos e técnicos, capacidade de aplicação, ou de conhecimento ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3341 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior teórico, mas a preparação de um profissional interventivo na “arte da prática”. Um profissional que entenda a educação como prática repleta de valores e visão sobre a relação entre educação e sociedade (KEMMIS, 1998). Assim, a formação docente deixa de se constituir como algo estático e acabado e se torna processual. Sua essência é dinâmica, porque ele é sempre hipotético. A visão de currículo como processo exige dos professores sensibilidade, capacidade de reflexão, conhecimentos, habilidades e dedicação profissional para adequá-lo às peculiaridades do aluno. Sua formulação deve-se concentrar mais em termos de conteúdo (que em boa parte advém do ensino) do que em objetivos. Sob esta composição, o papel do professor não é fazer o aluno realizar certas atividades (objetivadas), mas promover trocas significativas nos esquemas de conduta dos estudantes. Ao estabelecer que o currículo que forma professores deverá privilegiar a “aprendizagem como princípio metodológico geral, que pode ser traduzido pela ação-reflexãoação e que aponta a resolução de situações-problema como uma das estratégias didáticas privilegiadas” (BRASIL, 2002, p. 2), a Resolução nº. 01/2002, já evidenciava a opção por esta racionalidade prática, emprestando o enfoque reflexivo do americano Donald Schön. Este teórico tomando como referência os problemas que surgem na prática cotidiana dos profissionais, em que se produz uma base epistemológica, propõe a reflexão como forma de solucioná-los. Para proceder desta forma, o professor conta com o talento artístico profissional o qual guiará o seu pensamento prático ou sua racionalidade pedagógica. Para Schön (2000) aprender na prática significa não apenas reconhecer regras de raciocínio ou novos métodos de ação, mas também “construir e testar novas categorias de compreensão, estratégias de ação e novas formas de resolver problemas” (p.41) nascidos do pensamento prático e de igual diálogo entre professor e aluno. Toda a política curricular fundamentada no modelo da racionalidade prática colocou para os cursos que formam professores os desafios de modelo formativo orientado pelo novo princípio teórico-metodológico em que teoria e prática devem está articuladas entre si, cuja relação intrínseca deve perpassar todo o processo formativo. Incluía-se, assim, um novo elemento na formação docente, a Prática como Componente Curricular (PCC). Note-se que a PCC não se confunde com o estágio curricular. Trata-se de um componente curricular obrigatório, distinto, caracterizado pelo Parecer 15/2005 como um “conjunto de atividades formativas que proporcionam experiências de aplicação de conhecimentos ou de desenvolvimento de procedimentos ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3342 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior próprios ao exercício da docência. Por meio destas atividades, são colocados em uso, no âmbito do ensino, os conhecimentos, as competências e as habilidades adquiridos”. (BRASIL, 2005, p. 3). Apesar da ampla discussão sobre as Diretrizes Curriculares para a formação docente, muitas instituições não compreenderam a filosofia da PCC, nucleando-a em seus currículos como disciplina isolada e não a mencionando nos Projetos Político-Pedagógicos de seus cursos. E, à revelia do prazo fixado do ano de 2006 para implementação destas novas determinações, não implementaram a PCC, como a Universidade Federal do Piauí (UFPI) onde, no ano de 2008, os currículos dos cursos de licenciatura sequer a mencionavam, na contramão das políticas atuais de formação, negando em si a característica ontológica do trabalho docente (CARVALHO, 2010). O Ministério da Educação através de seus órgãos reguladores e avaliadores, provavelmente tenha percebido as dificuldades das instituições de Ensino Superior de implementar esta nova política curricular do Estado e, talvez, por esta razão, criou mecanismos para que esta implementação ocorresse através do financiamento de projetos no âmbito da CAPES. Dentre eles, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) e o Programa de Consolidação das Licenciaturas (PRODOCÊNCIA), ambos de apoio aos cursos de licenciatura. Assim para que este trabalho não se situe apenas em críticas e comentários e deixe em detrimento a investigação empírica, como nos lembra Pacheco (2002) acerca das políticas de currículo, alargamos nosso campo de análise para situar estas políticas na prática, no contexto da Universidade Federal do Piauí através da proposta de execução de um projeto financiado pela CAPES no âmbito do PRODOCÊNCIA, para evidenciar as possibilidades de se formar professores com base na racionalidade prática. É sobre o mesmo que passaremos a tratar. 2. Implementação das políticas de currículo nos cursos de licenciatura para além da racionalidade prática: uma proposta de ação Compreender currículo como algo que se constrói é concebê-lo como práxis. Por isso não ela não é neutra e também não é material, porque este ‘bem produzido’ só pode materializar-se através da ação (CARR, 1999). Sob este aspecto, é uma ação moralmente informada e moralmente comprometida, determinada por um saber, uma forma de ver o mundo, crenças, em uma tradição cultural, arquitetadas pelas pessoas em uma determinada ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3343 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior realidade. Tais saberes estão condensados em uma racionalidade que determina os fins de uma prática (práxis). Isso significa que idealizar um currículo que possa preparar o futuro professor para realizar o seu papel de efetuar uma práxis educativa, superando, inclusive a racionalidade das políticas curriculares, requer uma mudança de postura e trabalho coletivo organizado e o conhecimento da própria realidade onde se quer efetuar as modificações No caso da Universidade Federal do Piauí (UFPI), que completa este ano quatro décadas de existência sendo, portanto, muito jovem, nota-se uma expansão vertiginosa nestes últimos 6 anos, passando a se caracterizar como multicampi. Hoje, além do campus de Teresina, capital do Estado, tem os campi de Parnaíba, Picos, Floriano e Bom Jesus e possui, entre seus cursos, 13 licenciaturas: Artes, Biologia, Educação Física, Ciências da Natureza, Física, Filosofia, Geografia, História, Letras (Inglês, Português e Francês), Matemática, Pedagogia, Química e Ciências Sociais. Conforme o Índice Geral de Cursos (IGC) das instituições e os resultados do ENADE 2008, divulgados pelo INEP, a UFPI é a melhor instituição do Estado do Piauí, com a pontuação de 282 no IGC, que corresponde à nota três (3). Apesar disso, verifica-se que no ENADE de 2008, alguns cursos de licenciatura baixaram suas notas como, por exemplo, o Curso de Matemática, que antes apresentava a nota 4 e passou a ter nota 3. Por outro lado, cursos como Pedagogia, História e Filosofia a elevaram igualmente em um ponto.) A avaliação destes resultados aliados aos estudos sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para formação docente, nos levou a organização de um plano de trabalho que encontrou amparo no Edital do PRODOCÊNCIA/2010 nos possibilitando a continuar o desenvolvimento do projeto de 2008, intitulado “A epistemologia do trabalho docente na ação: proposta de formação docente tomando a prática como componente curricular”. A proposta tem como objetivo promover a formação inicial de alunos das Licenciaturas de Física e de Matemática baseada na prática como componente curricular. A nossa meta é ampliar e dinamizar as ações voltadas à formação de professores no âmbito da UFPI nas áreas de Física e Matemática, tomando a prática docente como referência de compreensão da pesquisa como produção de conhecimento e fonte de intervenção na prática social concreta. (Acreditamos que esta) Meta (será) alcançada com êxito, uma vez que os resultados do nosso projeto inicial, realizado com os cursos de Pedagogia e Educação Física, apontam que: os alunos das licenciaturas envolvidas adquiriram habilidades e domínio de sala de aula, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3344 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior de pesquisa e produção textual e são capazes de demonstrar e socializar estes saberes na academia; os Projetos Político-Pedagógicos dos de ambos os cursos foram renovados em sua estrutura curricular (estão consolidados no que tange a prática como componente curricular desde o inicio da formação), uma vez que as discussões no âmbito dos cursos envolvidos culminaram na reformulação dos mesmos; houve envolvimento dos estudantes de licenciatura do Curso de Educação Física e Pedagogia no trabalho coletivo das escolas públicas, bem como possibilitou a estes alunos o aprendizado do trabalho pedagógico através de ações supervisoras como: planejamento, organização didática, acompanhamento pedagógico e avaliação. Enfim, tornou evidente que a Prática como Componente Curricular (PCC) proporciona o aprendizado do ofício de professor baseada na reflexão-ação, manifestando que o PRODOCÊNCIA fomentou reflexões acerca dos Projetos Políticos Pedagógicos das licenciaturas envolvidas, incentivando sua reformulação colegiada. Ressalte-se que dos oito estudantes envolvidos no PRODOCÊNCIA de 2008 do Curso de Educação Física, todos eles ingressaram posteriormente no PIBID. E, ainda, que os estudantes de Pedagogia encontram-se envolvidos hoje em atividades de extensão remuneradas e iniciação científica. Isso demonstra que o PRODOCÊNCIA elevou a auto-estima dos alunos, estimulando-os a participarem de outras atividades no âmbito da UFPI. Assim, considerando os resultados exitosos do nosso projeto e a realidade preocupante de cinco de nossos cursos de licenciatura, idealizamos implementar o mesmo projeto no ano de 2010, nos cursos que apresentam alto índice de reprovação como o de Física e de Matemática, o que dificulta a permanência dos alunos. A proposta é, partindo da análise e avaliação conjunta dos Projetos Político-Pedagógicos fortalecê-los e adequá-los ao novo paradigma de formação docente. Nesta perspectiva, este projeto tem também a intenção de dar continuidade as atividades desenvolvidas no curso de Pedagogia, por se tratar da formação de professores da Educação Infantil e anos iniciais do ensino fundamental, oferecendo a quatro novos alunos iniciantes do curso a oportunidade de vivenciar a relação teoria/prática. Com isso, estamos estabelecendo vínculos orgânicos com as escolas públicas onde os futuros professores da educação básica em todos os níveis, aprenderão os saberes do ofício a partir da vivência reflexiva de sua prática. Ou seja, toma a própria prática social, que é o trabalho docente realizado nos escolas públicas, como base da formação e fonte da unidade teoria/prática, unindo estudo e trabalho desde o início da formação. Este propósito colabora para o sentido maior da ampliação do PRODOCÊNCIA da UFPI que é elevar a qualidade dos seus cursos de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3345 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior licenciatura, na perspectiva de valorizar a formação e a relevância social dos profissionais do magistério da educação básica. Deste modo, nossa proposta agrega quatro alunos de cada licenciatura contemplada e envolve seis professores: um do departamento de Matemática, outro do departamento de Física do Centro de Ciências da Natureza, e quatro do Centro de Ciências da Educação, que em regime de colaboração desenvolverão o PRODOCÊNCIA 2010 no sentido de que o mesmo se constitua instrumento de melhoria das licenciaturas na UFPI. A proposta tem como objetivo geral promover a formação inicial de alunos das Licenciaturas em Física, Matemática e Pedagogia baseada na prática como componente curricular e com isso elevar a qualidade das ações acadêmicas voltadas à formação inicial de professores da UFPI através da articulação teoria-prática. E, como objetivos específicos: Aproximar os estudantes dos cursos de licenciatura em Física, Matemática e Pedagogia, do trabalho pedagógico, desde o início do curso. Envolver os estudantes dos cursos de licenciatura em Física, Matemática e Pedagogia no trabalho coletivo das escolas públicas e no desenvolvimento de projetos pedagógicos. Possibilitar ao aluno de Física, Matemática e Pedagogia o aprendizado do trabalho pedagógico através de ações supervisoras como: planejamento, organização didática, acompanhamento pedagógico e avaliação. Promover a aprendizagem do oficio de professor baseada na reflexão-ação. Conhecer os princípios teórico-metodológicos dos Projetos Políticos- Pedagógicos dos cursos de licenciatura em Física e Matemática. Identificar os principais problemas em estabelecer articulação entre a teoria e pratica nos cursos de licenciatura em Física e Matemática. Consolidar os Projetos Político-Pedagógicos das licenciaturas em Física e Matemática. 2.1. Metodologia de execução do projeto Trataremos da metodologia do projeto através da descrição das ações propostas, a saber: Ação 1: Seleção de alunos Serão selecionados quatro alunos de cada curso conforme o Índice de Rendimento Acadêmico (IRA) e a disponibilidade para as atividades do PRODOCÊNCIA. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3346 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Ação 02: Caracterização do perfil sociodemográfio dos estudantes das Licenciaturas envolvidas no PRODOCÊNCIA. Aplicação de questionários aos estudantes dos cursos envolvidos com o objetivo de verificar aspectos relacionados a 1) situação socioeconômico e cultural dos alunos e 2) situação específica de sua condição de trabalhador-estudante. Os dados coletados serão devidamente analisados e deverão proporcionar um conhecimento específico e abrangente da realidade dos estudantes da referida licenciatura, bem como das dificuldades que estes alunos enfrentam para chegar à universidade e nela permanecer até a conclusão do seu curso. Esta ação será realizada pelo coordenador do projeto e pelos professores envolvidos. Ação 03: Conhecimento dos Projetos Políticos Pedagógicos dos Cursos de Licenciatura em Física e Matemática. Análise dos Projetos Político-Pedagógicos dos referidos cursos com a intenção de identificar a matriz curricular, os princípios teórico-metodológicos e a concepção de estágio curricular para definição do perfil profissional pretendido e identificação os principais problemas em estabelecer articulação entre a teoria e pratica nos Cursos de Licenciatura em Física e Matemática. Esta ação será realizada pelo coordenador do projeto e pelos professores envolvidos. Também serão entrevistados os coordenadores dos respectivos cursos. Ação 04: Realização do Seminário de Introdução a Docência Realização um evento científico onde sejam tratadas questões relativas a formação docente na seguinte perspectiva: o que é Educação; concepções de educação, o que é o trabalho docente; quais os saberes fundantes do trabalho docente, em que consiste o processo de ensino e aprendizagem; qual a nova epistemologia da prática docente orientada pelo MEC e saberes específicos de cada licenciatura. O objetivo é capacitar os alunos das licenciaturas para inserção no campo de atuação. Esta ação poderá contar com a participação de professores de outras instituições. Ação 05: Aproximação dos estudantes de licenciatura do Curso de Física, Matemática e Pedagogia do trabalho pedagógico, desde o início do curso. Visitas às escolas selecionadas para conhecimento do espaço físico, corpo docente, técnico-administrativo e contexto sócio-econômico da comunidade onde a escola está ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3347 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior inserida. A idéia é que o aluno estabeleça conexões com os professores da escola e a comunidade escolar de modo geral e desvelar o campo de atuação. Ação 06: Aprendizagem os saberes do saber-fazer Inserção do aluno na escola para o aprendizado do trabalho pedagógico por meio de vivências práticas com os alunos do Ensino fundamental. Tanto o aluno de Física como de Matemática e de Pedagogia realizarão atividades de planejamento, organização didática, acompanhamento pedagógico e avaliação dos alunos da escola colaboradora. Este aprendizado deve ocorrer com a colaboração dos professores da escola, co-participes do processo formativo baseado na reflexão-ação. Serão realizadas atividades de natureza distinta, desde as atividades de monitoria até a realização de projetos e oficinas, determinadas pelas necessidades da escola. Estas ações deverão ser planejadas em colaboração com os professores da escola e o professor responsável pelo PRODOCÊNCIA de cada curso e pelos dos alunos participantes. Ação 07: Realização de cursos e oficinas de aprendizagem de saberes específicos e pedagógicos Além de realizarmos o Seminário de Introdução à Docência, também realizaremos cursos específicos nas áreas epistemológicas dos cursos envolvidos, bem como cursos sobre: Ética Profissional, Relações interpessoais e trabalho docente, diversidade e ludicidade e educação, LIBRAS, entre outros. A intenção proporcionar aos alunos das licenciaturas a aquisição de saberes específicos e elementares para o trabalho docente. Esta ação poderá contar com a participação de professores de outras IES. Ação 08: Desenvolvendo a habilidade de reflexão sobre a ação Constituição de grupos de estudo entre os alunos dos cursos contemplados pelo projeto para socializar conhecimentos, dirimir dúvidas e discutir suas práticas, seus êxitos e estabelecer desafios. Estes grupos terão encontros bimestrais com os professores envolvidos em cada área. O objetivo é promover a aprendizagem do oficio de professor baseada na reflexão-ação. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3348 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Ação 09: Socialização os saberes adquiridos na experiência Produção de artigos para divulgação dos resultados parciais e/ou finais em eventos científico-culturais regionais e nacionais. Neste caso há a previsão de participação dos alunos e professores envolvidos no projeto. O Objetivo é divulgar os resultados do projeto de forma impressa e eletronicamente para corroborar a relevância de se tomar a prática, desde o início do processo formativo como componente curricular. Consiste na fase de consolidação do projeto. Também será publicado um livro sobre os resultados do projeto. A idéia é evidenciar para a comunidade piauiense e para a UFPI que formar professores reflexivos é um diferencial de melhoria da Educação Básica e que a UFPI, com o apoio da SESu/MEC e Capes, aprendeu a fazê-lo. Ação 10: Realização de fóruns de discussão Reflexão sobre os cursos através de fóruns de naturezas distintas. Um deles refere-se a fórum dos alunos dos cursos envolvidos para discutir/debater sobre a realidade dos mesmos. O outro envolve professores dos cursos para mostrar o sentido que cada um deles tem para os alunos e os rumos que podem tomar considerando as avaliações realizadas pelo ENADE, as Diretrizes Curriculares Nacionais, o novo paradigma de formação docente e a própria avaliação dos alunos. A idéia é realizar o fórum com os alunos logo no início do projeto e o segundo no final do segundo semestre de execução. 2.2 Resultados esperados Em geral esperamos elevar a qualidade das ações acadêmicas voltadas à formação inicial de professores de Física, Matemática e Pedagogia também através da articulação teoriaprática. Especificamente, esperamos: aquisição de habilidades e domínio de sala de aula, de pesquisa e produção textual e que sejam capazes de demonstrar e socializar estes saberes na academia pelos alunos envolvidos; compreensão do novo paradigma de formação docente pelos professores dos cursos das licenciaturas; integração mais efetiva do aluno dos cursos envolvidos que incentivem a curiosidade e, ao mesmo tempo, o prazer do aprendizado de novas experiências; colaboração do projeto no sentido da compreensão da relação dialógica teoria-prática como eixo norteador de formação de professores; ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3349 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior renovação, através da discussão coletiva dos Projetos Político-Pedagógicos dos cursos de Licenciatura em Matemática e Física de modo que possam implementar a Prática como Componente Curricular desde o início da formação. 2.3 Avaliação Para acompanhamento do projeto, será realizada a avaliação em processo, através de reuniões semanais com os alunos, coordenadores e professores participantes para avaliação e planejamento das atividades. A avaliação do projeto durante o seu desenvolvimento será efetuada de forma a redimensionar as ações executadas para que os objetivos sejam alcançados. Também será efetuada uma avaliação semestral pelo coordenador institucional, através de um relatório que tomará como base dados observados e dados oriundos dos relatórios dos professores responsáveis pelo desenvolvimento do projeto em cada curso. Este relatório tomará como referência a avaliação bimestral do desempenho dos alunos no projeto e o relatório mensal dos próprios alunos envolvidos. Neste caso, será elaborado um instrumento de avaliação e entregue ao professor colaborador na escola, responsável pela sala de aula onde o aluno da licenciatura aprende seu ofício para que ele avalie o aluno sobre os avanços, as dificuldades na aprendizagem do oficio. O professor coordenador também avaliará o aluno nestes aspectos, cujos resultados deverão estar contemplados em seu relatório bimestral. A avaliação final será descrita através do relatório técnico pelos Coordenadores Geral e Adjunto, a qual será encaminhada à Pró-Reitoria de ensino de Graduação e a CAPES. Ressalte-se que o projeto esta programado para ser desenvolvido em dois anos e orçado em R$ 156.000,00 (cento e cinqüenta e seis mil reais) dos quais R$ 26.000,00 (vinte e seis mil reais) são destinados a verba de capital. O restante é referente à verba de custeio. Assim, considerando com o referencial teórico-metodológico que orienta o projeto, respaldado na produção científica atual acerca da epistemologia da prática docente e a riqueza das ações propostas nossa meta final é evidenciar a exequibilidade de se formar professores a partir da reflexão-ação-reflexão, baseando-se no paradigma da racionalidade prática. Porém, incorporando a este modelo a crítica e dando-lhe um contorno emancipatório. Apesar da racionalidade crítica ser concebida como tendência mais produtiva no campo do currículo como afirma Moreira (1999); para nós ainda em processo de construção; constituindo-se uma via que pode romper com o caráter técnico e com as concepções ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3350 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior tradicionais do ensino, formando, de fato, o professor reflexivo, produtor de conhecimento e com a ousadia de problematizar aquilo que se critica, tocando no conflito. Sob este aspecto, segundo Giroux (1986), a racionalidade crítica toma por base a crítica da ação, “critica o que é opressor e apóia a ação a serviço da liberdade e do bem-estar individual“ (p.249). “Nesta direção, quem move a reflexão é a emancipação, pois desvela as condições sócio-históricas das práticas e os interesses a que serve” (CONTRERAS, p.164). Considerações finais Observamos que as políticas curriculares de ensino superior referentes aos cursos que formam professores para a Educação Básica integram a agenda de reformas no Brasil, desde os anos de 1990. Nestas políticas a formação de professores deve ser pavimentada por uma nova epistemologia da prática fundada no modelo das competências, através de uma prática reflexiva, em que os alunos (futuros professores) aprendem a ser pesquisadores de sua prática. Abordar sobre as políticas curriculares sobre formação docente requer, ainda que an passan mencionar as críticas relativas ao tema sobre a epistemologia da prática proposta pelo contexto legal das reformas. No que toca ao discurso da competência, por exemplo, os olhares críticos dos que debatem esta temática, o vêem como roupagem nova do tecnicismo e do positivismo (controle/avaliação) do trabalho do professor e de sua formação (PIMENTA, 2002). Scheibe (2002) se posiciona afirmando que este discurso “vincula-se à produtividade e ao pragmatismo, nos quais educação se confunde com informação e instrução, com a preparação para o trabalho, distanciando-se do seu significado mais amplo de humanização, de formação para a cidadania" (p.53). Ideologicamente, não para formar o cidadão capaz de pensar e propor mudanças também de ordem social, mas tão somente para operar na resolução de problemas, frente à sociedade da informação. Isso talvez explique por que o professor é convocado pelo Estado para responder às demandas das transformações sociais. Note-se que, apesar de o discurso das reformas de ensino efetuado nas últimas décadas reprimir o caráter técnico da racionalidade pedagógica, a literatura alerta para o fato de ela estar ressurgindo. Agora de forma muito mais elaborada, evidentemente. Sua presença foi encontrada nos sistemas educativos com clara orientação conservadora e técnica em diferentes países do mundo, conforme atestam Diniz Pereira e Zeichner (2002) e, também no ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3351 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Brasil, embora Therrien e Silva (2007) já tenham identificado alguns avanços. Porém os autores afirmam: a racionalidade técnica resiste. Os esforços teóricos caminham na direção de reconhecermos o risco de novamente ajustarmos à racionalidade técnica capitalista que direcionou (e ainda direciona) o paradigma de formação para o trabalho docente. Assim, é com atenção a estas críticas e com este cuidado que a nossa proposta de se experimentar a prática como componente curricular, tomando o chão da sala de aula e os espaços da universidade para promover uma formação fundada na reflexividade e na crítica desde o início dos cursos de licenciatura em Física, Matemática e Pedagogia se edifica. Nesta assertiva, idealizamos um currículo formação de professores enquanto praxis, e como tal, supõe um conjunto de saberes e experiências que concretizam os fins sociais e culturais, que são atribuídos à educação escolarizada. Um currículo que desenvolva as competências necessárias para a participação social, política e também de reivindicação social significa provê-lo de sentido nos domínios simbólico, cognitivo, ético, estético, afetivo, político e ideológico. Significa, sobremodo, entender que disciplinas não são eternas e indiscutíveis, para fazer jus ao termo currículo, e que o movimento, a dinamicidade e a flexibilidade são suas principais essências. Portanto, nossa idéia é desenvolver um projeto que capture as políticas curriculares e a obrigatoriedade da composição curricular dos cursos de licenciatura, evidenciando as ações e os sentidos produzidos por elas. Metodologicamente manteremos a reflexão, a auto-reflexão no processo formativo, acrescentando-lhe a intencionalidade desencadeadora de uma ação educativa compreensiva que, sendo prática, prima pela libertação autogestionada do indivíduo e da sociedade. Nossos resultados servirão de base para se refletir como mover a ação educativa de formar professores nas áreas delimitadas através de uma racionalidade reflexiva e crítica, com contornos emancipatórios. Referências BRASIL . Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF, 1996. ______. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer normativo, n. 009/2001 de 08 de maio de 2001. Relatora: Raquel Figueiredo Alessandri Teixeira. Brasília-DF, 2002. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3352 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior ______. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução CNE/CP nº 01, de 18 de fevereiro de 2002. Brasília-DF, 2002. ______. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Resolução CNE/CP nº 02, de 19 de fevereiro de 2002. Brasília-DF, 2002. ______. CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Parecer nº15/2005, de 02 de fevereiro de 2005. Relator: Paulo Monteiro Vieira Braga Barone. Brasília-DF, 2005. CARR, W. Una teoria para la educación. 2. ed. Madrid: Morata, 1999. CARVALHO, Antonia Dalva França (Org). 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3353 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior FORMAÇÃO HUMANA NAS TESES SOBRE O CURRÍCULO DE PEDAGOGIA NO BRASIL Carolina Nozella Universidade Federal da Bahia - UFBA Avaliações críticas da produção científica são fundamentais na identificação de limites e possibilidades do conhecimento acumulado. Assim, o objeto deste estudo é a produção do conhecimento sobre o currículo de pedagogia no Brasil. Objetivou analisar que concepções de formação humana embasam as teses sobre currículo de pedagogia, buscando verificar os nexos entre a concepção hegemônica e o problema da desqualificação da educação no país. As fontes de análise foram as teses disponíveis na CAPES e na BDTD de 1987 a 2010. Baseada no materialismo histórico dialético demonstrou que 85% das teses fundamentam-se numa visão idealista de homem, centrando a discussão do currículo na subjetividade. Metanarrativas são substituídas por descrições fenomênicas e interpretações consensuais. Discutem o currículo sem considerar que sua alteração vincula-se a luta pela superação da realidade que o determina. 15% das teses fundamentam-se no materialismo e numa concepção de formação pautada no trabalho, articulada à defesa do projeto histórico socialista. Ao defenderem o trabalho como eixo da formação, apontam possibilidades de avanço em proposições curriculares históricas que pautam a necessidade de superação da cisão teoria/prática na formação do pedagogo. Palavras-chave: currículo de pedagogia; formação humana; produção do conhecimento. Keywords: curriculum pedagogy; human formation; production of the knowledge. Introdução As avaliações críticas da produção do conhecimento científico se mostram como uma atividade humana fundamental para que possamos identificar limites e apontar possibilidades do conhecimento historicamente acumulado, para a reflexão acerca dos problemas situados no mundo da necessidade. Assim, o objetivo geral deste estudo foi analisar que concepções de formação humana embasam as teses sobre currículo de pedagogia no Brasil, buscando verificar quais os nexos entre a concepção hegemônica e o problema da desqualificação e rebaixamento da educação no país. Para tanto, delimitamos como fontes as teses sobre o currículo de pedagogia disponíveis no Banco de Teses e Dissertações da Capes e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD). Para análise, fundamentamo-nos no método materialista histórico dialético, pois este se constitui num instrumento teórico para explicarmos a realidade e ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3354 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior enfrentarmos as problemáticas que esta nos coloca, visto que, neste método os aspectos políticos, ideológicos e teóricos não se separam. Foram adotados os seguintes procedimentos de pesquisa: 1) identificação das fontes; 2) seleção da amostra; 3) reunião das fontes selecionadas; 4) elaboração de um instrumento de análise de acordo com as categorias delimitadas; 5) leitura sistemática da amostra e sínteses acerca das características da produção analisada; 6) elaboração da crítica a partir das necessidades que recaem sobre a problemática estudada. Vários estudos já pautaram os problemas enfrentados no curso de pedagogia no Brasil, dentre eles, Saviani (2008b) demonstra como historicamente vem se dando a constituição do espaço acadêmico da pedagogia no Brasil, e como este processo relaciona-se ao problema surgido a partir do século XIX, da necessidade de universalizar a instrução elementar que conduziu à necessidade de formação de professores em grande escala. Explica que neste contexto configuraram-se dois grandes modelos de formação de professores: o modelo dos conteúdos culturais-cognitivos, segundo o qual a formação de professores se esgota na cultura geral e no domínio específico dos conteúdos da área de conhecimento em que o professor irá lecionar; e o modelo pedagógico-didático, que considera que a formação de professores só se completa com o efetivo preparo pedagógico-didático. Estes modelos encontram-se em pólos distintos desde a criação do curso de pedagogia no país, com o Decreto n. 1.190/39. O mesmo deu origem ao modelo 3+1: três anos de bacharelado e um ano de licenciatura. Desde a década de 1980 com o movimento de professores em defesa da educação, inicialmente através da Comissão Nacional de Reformulação dos Cursos de Formação do Educador (CONARCFE), até hoje na Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE) e nas elaborações de estudiosos, pauta-se a necessidade de superar a cisão entre estes dois modelos formativos. O passo dado neste sentido foi a consagração dos cursos superiores no Brasil, com uma estrutura que acopla aspectos dos dois modelos de formação. Entretanto, conforme observa Saviani (2008a, p. 156), o dilema entre teoria e prática, conteúdo e forma persistem, pois embora se admita que os dois aspectos devam integrar o processo de formação de professores, não sabemos como articulá-los nem qual o peso específico que cada um deles deve ter no referido processo. Esta fragmentação nos cursos de pedagogia foi estudada ainda por: Freitas (1993; 2002); Brzezinski (1996); ANFOPE (2006); Silva (2003), entre outros. A mesma corrobora para uma formação unilateral dos homens e sua gênese encontra explicações na divisão social do ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3355 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior trabalho (cisão entre trabalho material e intelectual). Assim, o debate sobre a formação e o currículo de pedagogia não pode estar desvinculado desta discussão de fundo sobre a formação humana. Vivemos um período de profundas transformações - período de transição -, resultante da crise estrutural do capital, segundo Mészáros (2009) esta crise é endêmica, cumulativa, crônica e permanente, fruto do acirramento da contradição entre a produção coletiva e a apropriação privada que coloca em risco a existência da humanidade; à medida que para manter suas taxas de lucro o capital necessita cada dia mais, avançar na precarização estrutural do trabalho e na destruição da natureza. A educação tem um papel crucial no desenvolvimento da humanidade: transmitir o legado histórico construído pelas gerações precedentes às novas gerações. Seu papel vital é a garantia da aquisição, pelo homem, do que é ser ser humano, da cultura humana (LEONTIEV, 1977). A educação surge com o surgimento do homem, junto com a necessidade que as novas gerações têm de acessar o que as gerações que a sucederam acumularam ao longo da história da humanidade. (SAVIANI, 2008b) É fundamental refletirmos sobre a formação do pedagogo, pois seu trabalho relacionase à possibilidade de garantia de acesso da classe trabalhadora à cultura elaborada, ao conhecimento clássico, aos elementos necessários ao desenvolvimento do pensamento, para auxiliá-la a compreender e explicar como se estrutura a realidade em que vivemos, tendo maiores instrumentos para poder transformá-la. É preciso refletir sobre como os professores estão sendo preparados para enfrentarem as necessidades educacionais da nossa época, e explicar porque sua formação vem sendo insuficiente e desqualificada já no processo de qualificação, conforme (TAFFAREL, 1993). Analisamos as teses, pois sabemos que 90% da produção do conhecimento concentra-se na pós-graduação no Brasil e que os programas de pós-graduação são espaços privilegiados de elaboração do conhecimento científico, tendo importante influência na elaboração/proposição de políticas e práticas curriculares no país. Estando ainda ligados à formação de pesquisadores e professores do ensino superior, fundamental e básico. Crítica às teses sobre o currículo de pedagogia no Brasil: realidade e possibilidades O levantamento nos bancos de teses da CAPES e da BDTD, utilizando os termos de busca currículo de pedagogia e currículo do curso de pedagogia, entre os anos de 1987 a 2010, resultou num universo de 21 teses. Após a leitura das mesmas, descartamos 3 que não se ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3356 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior relacionavam diretamente ao nosso objeto, passando a ter um banco de 18 teses. A análise de conteúdo a partir da categoria concepção de homem/formação humana foi realizada nos 14 arquivos completos disponíveis na internet. Verificamos um ápice e uma concentração da produção na década de 2000, período coincidente com os anos após a promulgação da LDB, Lei nº 9394/96, que estabelece a exigência de elevação do nível de formação de professores para as séries iniciais. Este período é caracterizado pelo grande debate acerca das políticas de formação de professores. De um lado, o movimento dos educadores pela formação e profissionalização do magistério, encampado pela ANFOPE, lutando contra a degradação da profissão; de outro, o processo de flexibilização curricular tendo em vista a adequação do ensino superior às demandas oriundas do processo de reestruturação produtiva, subordinado às orientações políticas neoliberais. (FREITAS, 2002). Tratemos do conteúdo das teses partindo da concepção marxista de homem como ser social que se constitui a partir do trabalho no seu sentido ontológico, e da concepção de projeto histórico socialista (como transição para o projeto comunista), entendendo-os como necessidade histórica na superação do capitalismo, que subordina o trabalho ao capital e tem conseqüências drásticas para a formação humana. Deste modo, ao indagarmos sobre as concepções de formação humana presentes nas 14 teses, constatamos que aproximadamente 57% (8 delas) expõem e defendem uma concepção de formação humana. Cerca de 28% (4 teses) defendem uma concepção de formação de professores, sem fazer menção a formação humana em âmbito mais genérico. Cerca de 14% (2 teses) não expõem o que entendem por formação e não se posicionam na defesa de uma concepção de formação humana, nem de professores ou pedagogo. A permanência das cosmovisões idealista e materialista e seus desdobramentos nas concepções de homem e projeto histórico nas teses sobre o currículo de pedagogia De acordo com Gamboa (2007), a história da filosofia tem sido marcada por duas grandes e diferentes visões de realidade, o idealismo e o materialismo. No primeiro predomina o formalismo estático, a primazia do espírito sobre a matéria, tende-se ao equilíbrio perfeito ou a estática definitiva, defende-se a manutenção ou o ‘incremento’ do atual estado das coisas. No segundo predominam a dinâmica e a contradição, a primazia da matéria sobre a consciência, tende-se ao movimento e à evolução constante, defende-se a transformação, a inovação e a mudança radical das situações vigentes. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3357 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Relacionando estas visões de mundo às teorias educacionais classificadas por Saviani (1987), verificamos aproximação entre a concepção idealista de mundo e as teorias educacionais não-críticas, que encaram a educação como autônoma e buscam compreendê-la a partir dela mesma, considerando-a como uma força homogenizadora que tem por função reforçar os laços sociais, promover a coesão e garantir a integração de todos os indivíduos no corpo social. Tanto que lhe cabe um papel decisivo na conformação da sociedade evitando sua desagregação e, mais do que isso, garantindo a construção de uma sociedade igualitária. Por outro lado, as teorias educacionais críticas, que se empenham em compreender a educação remetendo-a sempre a seus condicionantes objetivos, isto é, à estrutura sócio-econômica que condiciona a forma de manifestação do fenômeno educativo, aproximam-se da concepção materialista de realidade. Considerando as referências teórico-metodológicas apresentadas e a categoria de análise, organizamos a apreciação das teses da seguinte maneira: àquelas que se situam no campo da visão de mundo idealista e das teorias educacionais não-críticas, e as que se localizam no âmbito do materialismo e das teorias educacionais críticas. Teses situadas no campo do idealismo e das teorias educacionais não-críticas As doze teses situadas no âmbito do idealismo e das teorias educacionais nãocríticas, dividem-se nos grupos seguintes: a) Teses que expõem e defendem uma concepção de formação humana As seis teses que compõem este grupo apresentam cinco tipos de explicação acerca da formação humana. O primeiro tipo das que explicam o Ser enquanto pre-sença/ Ser, assim, é abertura para o aberto: poder-ser-sendo/ o resultado da formação não se produz na forma de uma finalidade técnica, mas nasce do processo interno de constituição e de formação (SÁ, 2004, p.50), a existência humana como um estar sendo no e com o mundo (BERALDO, 2005, p.3). O segundo, as que consideram que o homem desenvolve-se a partir da linguagem e afirmam que O sujeito modifica a linguagem e é modificado pela linguagem/ é na relação intersubjetiva que se constitui a linguagem - na qual também nos constituímos (FRANGELLA, 2006, p.49), entende-se que "a palavra designa a manifestação do ser humano, ao tempo que é o meio pelo qual o próprio homem cria-se a si mesmo (SILVA, 2008, p.27). O terceiro, que entende que Ao produzir a cultura, o homem ao mesmo tempo se produz a si próprio em forma de constituição de um modo social de convivência” (p.136). Nesta relação dialética, descobrir ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3358 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior as várias culturas, a diversidade, a diferença, a desigualdade, foi o ponto mais marcante do meu trabalho. (COIMBRA, 2007, p.16). O quarto, que considera o desenvolvimento humano como "o conjunto de processos através dos quais as particularidades da pessoa e do ambiente interagem para produzir constância e mudança nas características da pessoa no curso de sua vida" (BRONFENBRENNER, 1979, p.191) (RAUSCH, 2008, p.36), porém não explica como se constituem estas particularidades da pessoa, como elas surgem, nem como se dá esta interação com o ambiente. E o último, que além de afirmar que o homem se constitui a partir da linguagem (SILVA, 2008), dá uma explicação religiosa, mítica para a formação humana e afirma que Ao abandonar seu estado original, a natureza humana não È, mas quando restaurada pela graça de Cristo, È. Assim, enquanto permanece em pecado o homem não È, e quando segue a Cristo È. (SILVA, 2008, p.40). Considerando a diferença entre as concepções fenomenológicas (que consideram o homem dialógico e comunicativo e fundador de sentidos e significados), Gamboa (2007, p.148), e as abordagens pós-modernas (que colocam em evidência que os seres humanos e suas relações sociais são constituídos de linguagem), Wood e Foster (1999, p.11), as teses situadas no campo do idealismo fundamentam-se numa concepção de homem centradas no sujeito situado no tempo presente. Sujeitos estes que estabelecem relações intersubjetivas entre o seu ser e o ser do outro, produzindo-se a si mesmos e a cultura, por meio da linguagem no ambiente com o qual convivem. Há uma forte tendência a desconsideração e silenciamento frente aos problemas da realidade histórica atual. O currículo de formação do pedagogo é discutido apartado da realidade concreta que o determina, no que diz respeito: a crise estrutural do modo de produção da existência; à realidade educacional brasileira; ao acúmulo das reivindicações dos movimentos de luta pela formação dos professores, a exemplo das referencias curriculares para a formação de professores defendidas pela ANFOPE. Como desdobramento desta negação da realidade, a discussão é centrada na subjetividade e na linguagem, o que leva ao silenciamento das necessidades históricas de superação do capital que desumaniza os homens. A criação de supostas situações históricas pela via da linguagem, a exemplo da sociedade pós-moderna ou modernidade líquida, como se o modo de produção da existência capitalista tivesse sido superado, quando na realidade ele se mantém. Conforme aponta Wood (1999, p.11), dentro desta idéia de sociedade não existe nenhum padrão externo de verdade fora dos ‘discursos’ específicos em que vivemos. Ao ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3359 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior centrarem-se na subjetividade negando a história, negam a generalidade humana, uma vez que: A história é a substancia da sociedade. A sociedade não dispõe de nenhuma substancia além do homem, pois os homens são os portadores da objetividade social, cabendo-lhes exclusivamente a construção e transmissão de cada estrutura social. Mas esta substância não pode ser o indivíduo humano, já que esse - embora a individualidade seja a totalidade de suas relações sociais – não pode jamais conter a infinitude extensiva das relações sociais. (HELLER, 2008, p.12-13) Sobre isto, ao se referirem à formação dos indivíduos singulares Marx e Engels afirmam: A efetiva riqueza espiritual do indivíduo depende inteiramente da riqueza de suas relações reais. (...) Essa visão pode, agora, ser apreendida de modo especulativo-idealista, isto é, de modo fantástico, como “autocriação do gênero” (a “sociedade como sujeito”) de maneira que a sequência sucessiva de indivíduos em conexão uns com os outros é representada como um único indivíduo que realiza o mistério de criar-se a si mesmo. Mostra-se aqui, certamente, que os indivíduos fazem-se uns aos outros, física e espiritualmente, mas não fazem a si mesmos (...). (MARX e ENGELS, 2007, p. 41). Estes apontamentos permanecem atuais, pois tomar o ser subjetivo apartado das condições concretas de sua existência como eixo para explicação do currículo do pedagogo é tratar da formação humana dos indivíduos, atribuindo-lhe a ‘auto-responsabilidade’ pela ignorância na qual está imersa a massa de seres humanos que são diariamente expropriados por meio das relações de produção. b) Teses que defendem uma concepção de formação de professores sem defender explicitamente uma concepção de homem/formação humana Estas são quatro, representando 28,57% do total das teses analisadas. Destas, as teses de (BRAGA, 2006; GUEDES, 2006) defendem a formação de professores como um processo contínuo e flexível como pode ser visto abaixo: A concepção de formação adotada [...] tem como um dos princípios básicos o de que a mesma não se constitui numa construção estanque, mas num processo contínuo, dinâmico, resultante das várias aprendizagens e vivências por que passa o sujeito professor. É uma construção de toda a vida, flexível, cujo movimento não necessariamente é retilíneo. (BRAGA, 2006, p.79) [...] formar o professor na mudança e para a mudança por meio do desenvolvimento de capacidades reflexivas em grupo/ formação embasada em proposições de um profissional crítico-reflexivo (GUEDES, 2006, p.14) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3360 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Na tese de (SALES, 2009) a formação de professores é entendida como processo dinâmico e mutante, como pode ser observado no trecho: formação docente, nesta pesquisa, como um movimento dinâmico e mutante, assim como é a própria natureza humana, com destaque para um dos aspectos fundamentais da existência: o desejo. (SALES, 2009, p.18). A tese de (SOUZA, 2010) apresenta a formação como construção e reconstrução de competências afirmando que: A preocupação quanto à formação centra-se em que o estudante aprenda a refletir sobre sua prática quando atuar na docência, valorizando-se, portanto, os significados de aprender a analisar a própria experiência, construindo-se e reconstruindo-se competências (PERRENOUD, 1993). Os professores compreendem e formulam suas identidades a partir dos processos de trabalho que vivenciam, como do aprendizado que não cessa em seu labor e nos diferentes espaços em que a sua existência pessoal e profissional se realiza. O espaço da formação constitui parte significativa do ser professor compondo um de seus saberes (TARDIF, 2008). O modo como se situam frente ao seu trabalho e à sua formação são significativos para a tomada de decisões - parte integrante do processo de conscientização-, pois “a conscientização não pode existir fora da práxis, ou melhor, sem o ato ação-reflexão. Esta unidade dialética constitui, de maneira permanente, o modo de ser ou de transformar o mundo que caracteriza os homens”. (FREIRE, 2001, p. 30) (SOUZA, 2010, p.47) Como vemos, estas produções são marcadas pela consideração da formação como um processo dinâmico, contínuo, que não é estanque e pela defesa da formação de professores reflexivos. A consideração da formação como um processo contínuo parece consenso entre os que discutem formação. É reconhecida a necessidade da formação inicial e continuada, sistemática, contudo, a defesa da formação como um processo dinâmico, apresenta limites quando passa a entender a processualidade da formação como sinônimo de currículos e programas formativos sem referência nas necessidades históricas da classe trabalhadora, referenciando-se nas necessidades de flexibilização da formação vinculadas à reestruturação do capital. Ao atenderem às necessidades postas pelo capital, a falta de referência, a flexibilização, a formação de competências na e para a mudança contribuem para o aligeiramento da formação e para a estruturação de currículos apartados da realidade educacional e da necessidade de sua transformação atrelada à superação do capital. A formação de professores cumpre papel estratégico na formação da classe trabalhadora e nos rumos da educação, não é por acaso que ao mesmo tempo em que esta formação tem recebido grande atenção, isto tem se revelado diretamente proporcional ao seu ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3361 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior esvaziamento. Conforme salienta Martins (2010, p.23), cada vez mais a formação de professores está sendo centrada no “pensamento reflexivo”, na particularização da aprendizagem, na forma em detrimento do conteúdo, no local em detrimento do universal. Segundo a autora, isto não é representativo daquilo que de fato deva ser a assunção dos elementos fundamentais requeridos a uma sólida formação de professores, no que se inclui, em especial, a apropriação do patrimônio intelectual da humanidade. Neste sentido, assim como as teses analisadas no tópico “a”, as quatro teses referidas acima, fundamentam-se numa concepção de homem/formação humana centradas no sujeito, sujeito este que estabelece relações intersubjetivas entre o seu ser e o ser do outro, refletem sua própria prática e assim constroem-se/reconstroem-se a si mesmos. Observemos que não há perspectiva de ação coletiva. Quando a ação transformadora é apontada, como em (SOUZA, 2010), ela restringe-se a ação do sujeito sobre sua própria prática e não vinculada a necessidades históricas mais gerais, como a luta pela defesa de uma formação humana omnilateral por exemplo. Constamos uma forte tendência na desconsideração da realidade concreta ou no consentimento com o atual estado das coisas. Conforme Saviani (1987), estas teses situam-se no campo das teorias educacionais não-críticas, haja vista que encaram a educação como autônoma e buscam compreendê-la a partir dela mesma, cabendo-lhe garantir a integração de todos os indivíduos no corpo social. Tanto que lhe cabe um papel decisivo na conformação da sociedade evitando sua desagregação e, mais do que isso, garantindo a construção de uma sociedade igualitária. Neste sentido, a crítica realizada às teses do tópico “a” também cabe às produções deste tópico “b”. c) Teses que não expõem o que entendem por formação humana e nem se posicionam na defesa de uma concepção de formação de professores As teses de (CAMARGO, 2004; MATOS, 2009), 14,28% do total, não expõem o que entendem por formação humana e nem se posicionam na defesa de uma concepção de formação de professores, de pedagogo, de escola. Por conseguinte, não explicitam a defesa de um projeto histórico e nem mesmo caracterizam o período histórico em que vivemos. Verificamos este não posicionamento em (CAMARGO, 2004) quando, por exemplo, a autora corrobora com a crítica realizada por Brzezinski (1999, p.91) sobre o negligenciamento dos conteúdos específicos na formação de professores, segundo a qual os professores adquiririam o domínio dos conteúdos das séries iniciais da escolaridade por osmose, sem que ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3362 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior houvesse uma preocupação mais específica acerca do conjunto de conhecimentos necessários ao exercício da docência. (CAMARGO, 2004, s/p, Tópico 2.2.2), mas não se posiciona na defesa de uma proposta de formação. Realiza ainda a crítica a concepção de formação defendida pela CONARCFE e pela ANFOPE, afirmando que: É possível visualizar um caráter utópico, idealizado acerca de quem é o educador, e ao mesmo tempo entender o vigor desta concepção na formação do discurso sobre o professor/educador brasileiro. Esta concepção admite uma estreita relação entre a atuação do educador e a possibilidade de transformação na realidade em que ele atua, a partir da influência do materialismo histórico e dialético na produção teórica daquele momento. Isso pode ser entendido tendo em vista que a natureza desse discurso irá se impor a todos aqueles que falam ou tentam falar dentro desse campo discursivo, influenciando toda uma geração que se formou a partir daí. (CAMARGO, 2004, s/p, Tópico 3.3.2) Contudo, não explicita a concepção de formação que defende. O faz provavelmente por considerar as diferentes concepções de formação como sendo diferenças discursivas e não como posicionamentos antagônicos de classe, como podemos ver no excerto seguinte: Em síntese, pode-se constatar que tanto o discurso da ANFOPE como os documentos oficiais enfatizam como papel da escola a formação de sujeitos capazes de viver de forma crítica e participativa em uma sociedade onde ocorrem grandes transformações. Ao evidenciarmos o trânsito entre os diferentes espaços discursivos entendemos que esses não devem ser concebidos como um bloco compacto impermeável a outras formações, que em princípio se oporiam entre si, mas que as fronteiras identificadas nas formações discursivas tendem a se deslocar em função dos embates da luta ideológica (MAINGUENEAU, 1997:112). Com isso evidenciamos a noção de interdiscurso segundo a qual há um processo de reconfiguração incessante na qual uma formação discursiva incorpora elementos construídos fora dessa formação, podendo estes ser redefinidos, redirecionados, ou mesmo ocorrendo que determinados elementos sejam apagados, esquecidos ou denegados (Idem). (CAMARGO, 2004, s/p, Tópico 3.3.2 – grifos nossos) Observa-se que a autora trata da disputa por projetos de formação como formações discursivas, utilizando-se do conceito de interdiscurso para explicar as disputas travadas no campo da formação a partir das idéias, quando na realidade sabemos que estas disputas são fruto da luta de classes que se origina no âmbito material concreto. A não tomada de posição também aparece em (MATOS, 2009) quando a autora apresenta um histórico da formação de professores no país, trata do sentido da educação e suas implicações na formação de professores, mas não apresenta a concepção de formação, educação, escola ou pedagogia que defende. Assim, é no mínimo curioso uma tese que discute ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3363 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior o currículo de pedagogia sem apresentar a concepção de formação, professor, pedagogo ou escola que defende. Destarte, apontamos os limites destas teses que investigam o currículo de pedagogia, sem responderem a questões fundantes como – como o homem se constituí homem; que homem formar; para que sociedade ele será formado e como projetaremos sua formação tendo em vista estas questões -, estes são pressupostos básicos que precisam ser respondidos quando se discute qualquer currículo de formação. Teses que expõem e defendem uma concepção de formação humana situadas no campo do materialismo e das teorias educacionais críticas Duas teses discutem o currículo de pedagogia no campo do materialismo, explicando a formação humana a partir da sua base material, situando-se no grupo das teorias educacionais críticas. As teses de (FREITAS, 1993; CASAGRANDE, 2007) discutem a formação do pedagogo partindo do entendimento do Homem como resultado do trabalho (FREITAS, 1993, p.42), e a Educação e Trabalho como Fundante do Ser Social (CASAGRANDE, 2007, p.116). Estas são também as únicas teses que ao explicarem e criticarem a sociedade capitalista apontam a necessidade de sua superação, defendendo explicitamente outro projeto histórico socialista. Reconhecemos que estas teses situam-se no campo das teorias críticas da educação, pois discutem o currículo de pedagogia empenhando-se em compreender a educação a partir de seus condicionantes objetivos, à estrutura sócio-econômica que condiciona a forma de manifestação do fenômeno educativo. Assumem assim, o papel de dar substância concreta a bandeira de luta da classe trabalhadora, lutando para garantir aos trabalhadores um ensino da melhor qualidade possível nas condições históricas atuais, de modo a evitar que esta bandeira seja apropriada e articulada com os interesses dominantes. (SAVIANI, 1987) Ao pautarem o currículo de formação do pedagogo a partir de uma sólida concepção de formação humana que explica como o homem constitui-se homem através do trabalho, possibilitam o debate sobre o currículo de pedagogia num patamar avançado, pois oferecem condições de apontarmos um currículo de formação que tenha por base a necessidade de socialização nos cursos de pedagogia, de questões fundamentais como: como se dá o desenvolvimento humano; como é desenvolvida a riqueza material e espiritual humana; como a humanidade se apropria ou é expropriada desta riqueza, e qual o papel que a educação cumpre neste processo. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3364 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Esta sólida concepção de homem/formação humana, que entende o homem como ser social que para se tornar humano precisa apropriar-se daquilo que é socialmente construído no seio da cultura criada pela humanidade, remete-nos ao reconhecimento do papel vital da educação na garantia da aquisição, pelo homem, do que é ser ser humano, da cultura humana (LEONTIEV, 1977). Eis o que possibilita, por exemplo, a defesa de um currículo de pedagogia que garanta a socialização dos conhecimentos clássicos acerca da educação, fundamentado na ontologia social, tendo a escola pública como objeto fundamental do curso. Além disto, o conceito de trabalho no seu sentido ontológico, conforme é explicitado nestas teses implica a consideração da relação dialética entre o homem e a natureza para apropriação e alteração do real, não sendo possível a formação do sujeito alheia à realidade concreta, ao conhecimento da realidade objetiva. Ou seja, o trabalho como eixo da formação subsidia proposições curriculares que buscam aproximar-se da superação da fragmentação teoria x prática, pensar x fazer, trabalho x estudo, pesquisa x ensino na formação do pedagogo, reivindicação histórica do movimento de luta em defesa da formação de professores, representado pela ANFOPE. Ao discutirem o currículo de pedagogia, o fazem partindo da realidade concreta, realizam sua crítica e apontam proposições que tem por horizonte histórico a superação do capital e da formação unilateral. Conclusão Pontuamos a seguir as conclusões sobre os nexos entre a concepção hegemônica nas teses e o problema da desqualificação da educação no país. 1º) Constatamos que 85% das teses fundamentam-se numa visão idealista de mundo. Este dado é alarmante haja vista que, vivemos num período de crise estrutural do capital, expressa através da retirada de direitos do trabalhador; da destruição dos organismos da classe; da negação aos serviços públicos básicos (saúde, educação; habitação; cultura); da privatização do público; negação de uma educação pública de qualidade; etc. Com isso relegase o trabalhador à sua própria sorte, embrutece-o, desumaniza-o, por conseguinte, degeneram-se as relações sociais; exacerba-se o individualismo; a violência; a barbárie. Estas teses discutem o currículo de pedagogia sem considerar que a alteração do mesmo não pode se dar descolada da luta mais geral pela superação desta realidade que o determina em última instância. 2º) Disto decorre que a centralidade da discussão curricular passa a ser a subjetividade em forma de discurso. As necessidades como as acima elencadas, são ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3365 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior substituídas por descrições fenomênicas e interpretações consensuais, que fazem com que a verdade científica resida não na realidade em si, mas nas normas particulares de grupos específicos. Resta ensinar a partir do saber cotidiano do próprio indivíduo, descartando-se o conhecimento científico e a cultura universal, bem como a necessidade da sua socialização. Neste sentido, esvazia-se a função social da escola e o papel do professor como fundamentais na transmissão dos conhecimentos historicamente acumulados pela humanidade, e no desenvolvimento do pensamento científico dos estudantes, o que contribuí com o rebaixamento e esvaziamento da educação em nosso país. Torna-se praticamente impossível uma base comum nacional de formação de professores, já que qualquer proposição que defenda a generalidade humana e a universalidade do conhecimento é tida como tradicional, conservadora e totalizante. 3º) Ao partirem de uma concepção de formação centrada no indivíduo, negam as explicações objetivas acerca da realidade, fixando suas análises no presente cotidiano, negando a história e com isto qualquer projeto de superação do capital, que gera as problemáticas enfrentadas no campo da educação. Esta posição traz em seu bojo todos os riscos de um irracionalismo que se contrapõe à verdade, à ciência e à ação humana capaz de nortear os rumos da história. A história passa a ser entendida então como um discurso, sem referente externo, assim como as reivindicações históricas dos movimentos sociais de luta. Por outro lado, o pequeno número de teses que caracteriza a sociedade atual exclui qualquer possibilidade de superação do capital quando se limita a considerar que a mudança se dá no âmbito do sujeito. 4º) Embora um considerável número de teses aborde a problemática da relação teoria e prática no currículo de pedagogia, a maioria delas, ao separarem o sujeito da sua realidade concreta propagam a divisão teoria e prática, historicamente identificada como um dos problemas fundamentais dos currículos de formação de professores. 5º) Duas das pesquisas (cerca de 15% da amostra) situam-se no campo do materialismo e apontam o trabalho como categoria central na formação humana, o que representa uma possibilidade importante ao pautarmos as discussões e proposições acerca do currículo de pedagogia, tendo em vista as necessidades educacionais e da formação do pedagogo enfrentadas na nossa época. Necessidades estas que buscam ser enfrentadas, por exemplo, pelos referenciais curriculares defendidos pela ANFOPE acerca da formação de professores. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3366 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 6º) O fato de conceberem o trabalho no seu sentido ontológico como base da formação, aponta a necessidade e a possibilidade da formação de pedagogos que não estejam apartados da realidade concreta, dos conhecimentos acerca da realidade objetiva. Deste modo, o trabalho como eixo da formação subsidia proposições curriculares que defendem a superação da fragmentação teoria x prática na formação do pedagogo, bem como, a formação omnilateral dos homens tendo a docência como base da formação profissional de todos aqueles que se dedicam ao estudo do trabalho pedagógico, reivindicações históricas da ANFOPE. 7º) Sendo o trabalho a base da formação, a construção do currículo se coloca na linha da alteração do trabalho sob o marco referencial do capital. Neste sentido, a superação dos problemas educacionais devem balizar o currículo de pedagogia a fim de que a defesa de uma formação consistente se torne um movimento real no enfrentamento destes problemas, o que significa a defesa da escola pública e a recuperação da sua função social. Embora reconheçamos os limites deste estudo, ele aponta em síntese a necessidade da defesa da garantia da apropriação pela classe trabalhadora da riqueza material e imaterial, pela elevação do seu padrão cultural. Isso perpassa a luta pela escola pública para forjarmos no marco referencial do capital uma formação que enfrente e coloque em cheque a formação unilateral que temos. E ainda, a compreensão de uma teoria da transição que tenha em vista a necessidade de avançarmos em elaborações, políticas e práticas curriculares de formação do pedagogo tendo em vista o período histórico vivido. REFERÊNCIAS ANFOPE. Documento do XIII Encontro Nacional. FE/UNICAMP, setembro 2006. BERALDO, T. M. L. Caminhos do curso de pedagogia na modalidade parcelada: percalços e avanços de uma experiência desenvolvida pela UFMT no interior de Mato Grosso. Tese de Doutorado, FE/Unicamp, Campinas-SP, 2005. BRAGA, M. C. B. 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Há alguns relatos sobre a constituição dos Registros Reflexivos pelos graduandos, enquanto proposta avaliativa das disciplinas Currículos e Programas, Currículo e Trabalho Pedagógico e Prática e Organização de Gestão Educacional. A elaboração destes Registros Reflexivos, por parte dos graduandos, ficou atrelada a questão processual avaliativa, com o intuito de favorecer a articulação entre referenciais teóricos, aquisição de conhecimentos na perspectiva crítica e construção e reconstrução de textos acadêmicos. INTRODUÇÃO Favorecer a articulação entre referenciais teóricos e construção e reconstrução de textos acadêmicos, na perspectiva freireana, pressupõe que é ao caminhar que se constrói o caminho, e que neste processo, se constroem e reconstrói trajetórias metodológicas, didáticas e avaliativas. Em nossas trajetórias docentes, enfrentamos desafios, eles podem aparecer e serem desconsiderados, devido sua maior ou menor relevância, como também necessitam de soluções de superação emergenciais. Enquanto professora do ensino superior, para além das questões de transmissão de informações é um desafio enfrentar os desafios emergentes, uma vez que focar num modelo de ensino aprendizagem significativo envolve revisão de nossas práticas de ensino. E nem sempre conseguimos devido a cultura escolar instalada, pressupondo autonomia do graduando quanto as ferramentas de estudo, conforme aponta Anaya (2008). Neste sentido, propor ações que envolvam elementos didáticos, metodológicos e avaliativos articulados, foi e é ainda, um ingrediente desencadeador de revisões e mudanças 22 Doutorado em Educação: Currículo (2006) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP; Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT (2001); Especializações em Didática Geral e Currículo do Ensino Fundamental pela Universidade Estadual de Mato Grosso - UNEMAT (1992; 1997) e Graduação em Pedagogia (1991). Professora adjunta, do Departamento de Educação (DED), Centro de Ciências Aplicadas e Educação (CCAE), Coordenadora do Curso de Pedagogia, campus IV, da Universidade Federal da Paraíba. Experiência na área de Educação, nos campos Currículos e Avaliação Educacional. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3370 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior em meu ofício docente, principalmente se formos contribuir no sentido de romper com as problemáticas enfrentadas pelos alunos sobre suas dificuldades de organizar pensamentos, pôr idéias no papel e registrá-los. Conhecer as dificuldades e transpô-las com ações de intervenção motivou-me a propor desafios aos graduandos. A ênfase desta intervenção de ordem pedagógica tinha como pano de fundo o respeito para com as singularidades de cada graduando, a construção de saberes críticos, bem como a valorização de produções acadêmicas de qualidade, considerando a organização destes registros, na modalidade de pequenos artigos. Esta ação estava fundamentada na tese de que a ampliação das leituras e dos discursos se une para a aquisição da linguagem crítica e promove mudanças no âmbito acadêmico, conforme Giroux (1997). Unir estas questões de aprender a aprender e a aprender bem com o ensino e acesso à linguagem da crítica e da possibilidade de aprender bem, fez-me entender que o conhecimento, neste caso especifico, constitui-se em um dos fatores relevantes, quando a questão é a democratização das oportunidades de aprender a organizar de pensamentos, fichamentos e organizar de idéias, pois viabiliza mais e melhores condições de inserção dos graduandos na vida acadêmica, profissional e social, especialmente quando saem da “questão do automático”. Assim, propus aos alunos que aceitassem o desafio de, numa perspectiva avaliativa formativa, construíssem textos reflexivos, articulando os saberes teóricos das disciplinas, com os saberes metodológicos do trabalho científico e de redação utilizados na construção de textos com linguagem acadêmica. Conforme Arroyo (1985) nós fomos formados, formamos nossos alunos e devemos atentar sobre porque, para que e como realizamos nosso oficio docente. Enquanto professora, atuante em sala de aula do ensino fundamental ao superior, perpassei por algumas etapas muito difíceis em meu exercício docente, pois é natural a resistência a mudanças que temos. A ruptura com essas necessidades emergentes, a tomada de consciência da busca individual de elaborações teóricas explicativas permanentes, a revisão de práticas e posturas pedagógicas, considerando-me no processo, fez valorizar-me, valorizar meus alunos e principalmente, refletir sobre o tipo de conhecimento que tenho defendido e viabilizado nos espaços formais do ensino superior. Entendo que é desafiador a todos nós professores e professoras relacionar o que ensinar com os saberes advindos de cotidiano dos graduandos, afinal a transposição didática dos saberes acumulados ao longo das gerações e o dia da dia dos nossos alunos, constituem desafios a serem transpostos, pois os afazeres docentes iniciavamse com os alinhavos destes conhecimentos formais e não formais. Buscar ressignificar estas ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3371 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior realidades tão dispares do que apregoa os documentos curriculares, quanto à seguridade de acesso e a qualidade do que ensinamos, é defendido por mim, como uma questão de inclusão social, em que os direitos dos alunos precisam ser privilegiados, sobretudo se focalizarmos as muitas questões de aprendizagem e de como correm em nossos espaços escolares. De 1989 – início do meu oficio docente – aos dias atuais, discuto com meus pares sobre os direitos de crianças, adolescentes e adultos, defendendo a emergência do olhar que enfatize outros elementos, para além das questões do direito ao acesso. Nossos espaços universitários estão mais democráticos, com muito mais graduandos, entretanto tenho refletido num constante, se valorizamos os conhecimentos que fazem parte do cotidiano informal dos graduandos, se lhes consideramos sujeitos de direito, se há qualidade no que ensinamos e se há qualidade no que eles aprendem. Estas questões derivam dos aspectos éticos, políticos, culturais e sociais, para além dos discursos de inclusão ao acesso a universidade, formalizado no nosso dia a dia. Desta forma, reflito sobre o acesso e o ensino formal que oferecemos, e de como contribuem na formação de uma consciência crítica aos educandos (Freire, 1987; 1997; 2001). É recorrente nos discursos pedagógicos, a emergência da relação entre os saberes do cotidiano com os saberes acumulados, no sentido de que valorassem a importância do conhecimento crítico, uma vez que, favorece-lhes maiores possibilidades de oportunidades sociais. Repensar sobre o que e de que forma, tem sido a veiculação dos saberes da escola básica ao ensino superior, quando ressaltamos a qualidade do ensino ofertada pelo sistema público ou privado, enfoca os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb, 2009, divulgado MEC, julho de 2010) e no Censo da Educação Superior (2009) referente à ampliação de vagas. Neste aspecto, há uma nítida ausência de dados sobre aprender a aprender e a aprender bem, uma vez que, nem sempre caminham entrelaçados com a expansão de vagas nos indicadores avaliativos. AVALIAR: CAMINHANDO E RECONSTRUINDO CAMINHOS O interesse pela ressignificação do conhecimento, do que é ensinado aos alunos, forneceu-me subsídios para a necessidade de acompanhamento sistemático do processo de ensino e aprendizagem. Estas observações, aos poucos, fizeram com que muitas das minhas atitudes e práticas pedagógicas, ao serem questionadas e refletidas, passassem a ser redimensionadas. Estas observações demandaram em revisões e intervenções constantes, a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3372 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior partir do conhecimento da realidade dos alunos, trazendo como subproduto certo ajustamento da minha prática pedagógica à realidade, conforme orienta Forquin (1993) e Enguita (1998). Para isso, fez-se prioritário uma maior interação entre meus alunos e eu, pois somos os mais preocupados com os determinantes do sucesso de uma prática pedagógica, que atentasse para as ressignificações entre os conteúdos programáticos sistematizados e os conhecimentos prévios inerentes ao cotidiano de cada um deles. Vale ressaltar, quando os envolvidos se isentam da tarefa de reunir as condições para se desencadearem dispositivos pedagógicos apropriados, com a finalidade de criar situações de aprendizagem significativa para os alunos com dificuldades, há uma nítida desconsideração as convicções de que qualquer criança, qualquer adolescente, qualquer adulto, é capaz de aprender e de desenvolver os seus recursos mentais Giroux (1997). Todavia, a ação pedagógica articulada com a mediação entre conhecimento, professor e aluno, o processo de ensino e aprendizagem sucederá de maneira mais harmônica. Ela se torna eficaz, na medida em que for organizada e planificada em função de objetivos de aprendizagem, segundo Giroux (1983; 1986). Neste sentido, urge uma revisão e reestruturação da maneira como são desencadeadas as situações de aprendizagem, redirecionando nossos afazeres pedagógicos para o desenvolvimento das competências intelectuais, com conteúdos de conhecimentos diferentes, respeitando as limitações e as características de cada área do conhecimento e de cada aluno. Segundo ANTUNES, uma das formas de compor melhor o ensino é desafiar por meio de casos e situações problemas, pois origina constatarmos “[...] como o aluno, individualmente ou em grupo, são capazes de buscar respostas com agilidade, versatilidade e cooperação, aprendendo também que a essência dessa busca fundamentar-se-ia em um sólido e bem feito planejamento” (2007, p. 36). Revisar e reorganizar um projeto educacional, que seja direcionado aos alunos, é propor uma nova leitura sobre a realidade existente fora de seus muros, imperando a ousadia e a participação de todos, uma vez que possibilita refletir e modificar esta realidade, com discussões sobre quem é seu aluno e quais suas reais necessidades, priorizando a formação do cidadão, cumprindo, nosso papel social, segundo Freire (1997). As observações do processo de aprendizagem e ensino desvela as dificuldades de aprendizagem e oportuniza refletir sobre as causas e quais os ensinamentos a abstrair, que estude o que o aluno aprende e de como fazer para que todos os alunos alcancem efetivamente a aprendizagem, serão efetivados, se neste bojo a avaliação da aprendizagem durante todo o processo de aquisição de conhecimento, for ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3373 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior uma ferramenta pedagógica, utilizada pelos professor, a favor da aprendizagem e do ensino, Hoffmann (1993; 2003). Assim, a avaliação no ensino superior, foi iniciada por mim, envolvendo os graduando das licenciaturas. Questões como exclusão, sucesso, perfil, metodologias e currículo foram entendidos como elementos que devem ser revistos e ressignificados no espaço educativo, na perspectiva da avaliação formativa (Abrecht, 1995). De acordo com DEPRESBITERIS, a avaliação formativa, “[...] cruza o trabalho pedagógico desde seu planejamento até sua execução, coletando dados para melhor compreensão da relação ensino e aprendizagem, possibilitando, assim, orientar a intervenção didática para que seja qualitativa e pedagógica” (2011, p. 43). Neste processo avaliativo, foi defendida ao longo da ação avaliativa, a natureza da avaliação, suas características e seus pressupostos, a identificação das causas das dificuldades de aprendizagem, retroinformar o processo, verificar os resultados alcançados, replanejar os trabalhos, por favorecer o desenvolvimento individual, conhecendo melhor suas dificuldades e autoavaliarem-se, pois beneficia-lhes a aquisição de elementos de autonomia e emancipação. Nesta conjuntura, a avaliação é e foi tratada como um ingrediente de democratização de oportunidades escolares, na dimensão política, uma vez que as relações de poder, fator determinante das dificuldades do processo educativo, não dificultam só ao professor, mas também o graduando. Os entraves ocorrem freqüentemente, quanto às modificações a realizar e evitar, tanto nos procedimentos de ensino, quanto de avaliação, como também nos juízos de valores feitos pelos avaliadores e avaliados. Romper é desafiador, pois culturalmente, as questões técnicas sobre a ação avaliativa estão descritas em nosso cotidiano, como verdades absolutas e imutáveis. Podemos constatar que desde 1559, no Ratio Studioriun, o documento que orientava a organização das escolas jesuíticas tinha claro que a construção, a parceria e a aprendizagem com o outro eram proibitivas, conforme Furtado aponta (2007, p.79) “Lá estão descritas certas atitudes que permanecem bastante familiares e atuais em nossas escolas. O documento recomenda, por exemplo, que os professores não permitam que os alunos consultem colegas ou a pessoa que estiver “tomando conta” da prova”. Com isso, podemos observar que em nossos espaços escolares, está questão ainda é reproduzida e romper com uma questão tão pequena, que envolve a individualização das tarefas executadas é complexa, mesmo quando, estudos como de Vigotsky, prevê que na interação social entre conhecimentos e pessoas, o aluno aprende mais e melhor. A articulação entre os princípios teóricos e as práticas pedagógicas é complicado e lento. O princípio ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3374 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior avaliativo que inclui os alunos no processo pressupõe um rompimento emergente com a dimensão técnica, uma vez que ela favorece a manutenção social do que já foi previamente decidido e sedimentado por aqueles que detêm o poder de decisão “status quo”, conforme Silva (2002). Romper esta lógica exige uma postura diferenciada frente ao comprometimento social dos educadores, ganhando destaque o papel desempenhado pelo professor enquanto mediador do processo. A avaliação formativa, só terá efeito permanente sobre as tarefas trabalhadas no cotidiano universitário, quando for problematizada a tal ponto que se transforme numa ferramenta pedagógica no ato educativo. Conforme defende Saul (1995), devemos contemplar aspectos importantes, de cunho político, na superação das relações de poder, na questão da prova, na concepção do erro, na avaliação enquanto processo, pois o paradigma emancipatório, tanto para o currículo quanto para a avaliação da aprendizagem, deve propiciar a transformação do professor e do aluno, dotando-os de criticidade para refletir sobre sua prática. A dimensão conceitual emancipatória ampara-se na necessidade de uma descrição da realidade e a análise, visando provocar a crítica, de modo a libertar o sujeito de condicionamentos deterministas, iluminando o caminho da transformação e beneficiando as audiências no sentido de torná-las autodeterminadas para os agentes que integram um programa educacional, pois é a partir daqueles que aprendem e praticam a avaliação, que os sujeitos sociais irão apreendendo as ações, os interesses, os conflitos, os significados e, conseqüentemente, percebendo a persistência à ruptura de determinados valores, Saul (2000). É evidente a inserção do aluno e do professor no processo avaliativo, assim como, as demandas de negociação, respeito às pessoas com diferenças de valores, e a participação. Neste contexto, ponderamos sobre a emergência de incluirmos nas questões avaliativas, os métodos, a interpretação de resultados, a negociação, a capacidade de respostas aos interessados e o objetivo da avaliação. Para tanto, a construção dos pressupostos avaliativos devemos pautar na interação e na negociação e, por ter um enfoque na responsabilidade, se desenvolver a partir das preocupações, proposições ou controvérsias. Foi com estes cuidados que foi proposta aos alunos da graduação, uma construção mediada pelo professor, em que os alunos e alunas selecionavam os textos que iriam compor o referencial teórico. O referencial selecionado pelos graduandos, para leituras, fichamentos e debates em sala, primeiramente deveria ter o constante da bibliografia básica e complementar das disciplinas, podendo ser ampliado com novos acervos, desde que compactuados em sala. Em caso de discordância, o aluno poderia justificar com o professor, a relevância da obra e contemplá-la em seus registros. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3375 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Nos Registros Reflexivos, os alunos contruiam seus textos, considerando os aspectos mais importantes. Estas produções seguiram os moldes dos textos acadêmicos, antes considerados como “bicho de sete cabeças” por eles, entretanto reconceituados ao final do processo avaliativo como trabalhoso e não difícil. O caráter construtivo, usando a avaliativa formativa, enquanto ferramenta pedagógica, teve percalços e avanços no decorrer desta proposta avaliativa e para avançar sempre defendi amparada em Hoffmann (1993, p. 20) que tenho“confiança na possibilidade dos educandos construírem suas próprias verdades e a valorização de suas manifestações e interesses”. A avaliação foi compreendida e defendida ao longo do semestre letivo, enquanto elemento que viabiliza desvelar percursos, conhecer a realidade avaliada, propondo momentos de reflexão e, conseqüentemente, possíveis alternativas de intervenção. Nesse contexto das concepções de avaliação educacional, um elemento inerente a elas é apontado com destaque – a auto-avaliação –, uma vez que, por meio dela, os graduandos foram tomando distância em relação a sua atividade, refletindo nas suas ações e nas condutas que deveriam ser tomadas para alcançar o objetivo, Luckesi (2010). Isso oportunizou a todos, professoras e alunos, um olhar sensível para as questões sociais, aquelas ligadas às concepções de avaliação educacional e, conseqüentemente, as de inclusão em sentido micro e, conseqüentemente, no processo avaliativo dos que apresentam dificuldades de aprender e mais amplas, de inserção os direitos essenciais dos sujeitos sociais (trabalho, moradia, alimentação, assistência médica, entre outros). Entretanto, notamos que, nem sempre focamos as questões mais amplas e que ao desconsiderar essas questões, a perspectiva de acesso ao conhecimento aturaria num entrave inestimável a quem quer aprender. Segundo Apple e Beane (2001), o conhecimento da realidade pelos envolvidos no ato educativo permite uma vivência democrática focada na participação, no planejamento cooperativo, um olhar atencioso para questões de dignidade e direitos e, conseqüentemente, maior colaboração entre todos. A CONSTRUÇÃO DO PROCESSO: AVALIAÇÃO – FERRAMENTA PEDAGÓGICA Os graduandos e os espaços institucionais A experiência inicial desta ação avaliativa teve como campo, uma instituição particular de ensino superior de porte pequeno. Nos três anos subseqüentes, estas experiências foram ressignificadas e devidamente adequadas as realidades das novas salas de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3376 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior aula, uma vez que no primeiro ano a ação avaliativa foi realizadas em universidade de porte pequeno e particular (salas de aula de 20 a 25 alunos), no máximo com duas turmas por semestre, depois em universidade de porte grande (salas de aula com 65 a 78 alunos), com 10 a 15 turmas por semestre. Antes sozinha, depois com a inclusão de novas professoras que compunham o corpo docente da universidade, no curso de Pedagogia e que dividiam a disciplina de Currículos e Programas e também Metodologia da Educação Básica se propuseram a também incorporar em suas salas de aulas. Estas colegas foram minhas colegas de mestrado e de doutorado em Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Logo depois, já concursada, em universidade pública federal, nas disciplinas de Currículo e Trabalho Pedagógico e Prática e Organização de Gestão Educacional, encaminhei esta proposta individualmente. A Universidade Federal que estou possui vários campi, e especificamente, onde foi desenvolvida esta ação, tem uma sala, no Curso de Pedagogia, com 32 alunos. A inclusão de novas parcerias – Nossa trajetória Compactuar com mais professoras a questão da avaliação se transformou numa prática mais robusta ao incorporar e acrescentar novas ferramentas de aprendizagem aos alunos, que considerasse a avaliação na perspectiva processual, e que em sua operacionalização os alunos e alunas, por meio de uma produção escrita de textos acadêmicos, selecionassem no universo dos múltiplos textos das disciplinas, com assuntos diferenciados, a temática que melhor se identificassem, pois iriam compor suas reflexões. Estes momentos ocorreram atrelados a revisões de referenciais, articulando os debates em sala, as leituras e os apontamentos dos textos teóricos do referencial básico e complementar, nomeado pelas disciplinas no semestre, além de novas aquisições bibliográficas que se fizessem necessárias, no sentido de produzir e resgatar os elementos teóricos e práticos numa perspectiva dialética e argumentativa. Esta ação avaliativa ocorreu em três momentos distintos, no primeiro, os alunos produziam e tinham o feedback de suas produções em sala de aula, com correções, sugestões de revisões e ampliação de leituras e fichamentos sobre suas reflexões escritas. Estas reflexões compunham o corpo do texto escrito. Na segunda, os alunos traziam os novos fichamentos, além daqueles citados no planejamento da disciplina, ocorrendo novas orientações e revisões. A terceira e última ação de produção deveriam acrescentar outros elementos pré-textuais como: título, resumo, palavras-chave, introdução, considerações finais e referências ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3377 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior bibliográficas, básica, complementar do planejamento e novos acervos utilizados. Com estas produções construídas durante o semestre, ao final do semestre e objetivando divulgar a produção dos alunos e alunas, foi proposto um artigo para divulgar esta ação avaliativa. Também foi sugerida pelos alunos a divulgação destes resultados, pois os colegas de graduação, ao escreverem seus trabalhos de conclusão de curso, terão maior facilidade se considerarem neste processo a necessidade de diálogos sobre suas leituras com outras pessoas, as leituras, fichamentos, escritas e reescritas de textos e seleção de referenciais bibliográficos. Resultados provisórios Esta avaliação teve uma ótima aceitação dos alunos e das outras colegas que vieram agregar novas ressignificações a uma experiência avaliativa, visto que os Registros Reflexivos tem como ponto comum elementos sobre currículo escolar e a proposição de algumas revisões como sugestão de transformação da realidade educativa, no sentido de revisões da manutenção do status quo que rompam com a prevalência de um tipo único de aulas, metodologias, e avaliação, considerando todos os conhecimentos válidos. Embora as alunas e alunos produtores do trabalho, que compuseram a ação avaliativa, compartilhassem deste pressuposto de ruptura, é válido destacar que foi difícil, a partir dele construírem os Registros Reflexivos. Havia uma resistência em focar o mesmo aspecto, com diferentes olhares a propósito da temática, demonstrando a fragilidade em se colocarem sobre um determinado tema. A questão do medo em desnudar-se por meio da escrita permeou muitas vezes as ações e houve muitas resistências, que desencadeou momentos dialógicos entre colegas e professoras, no sentido de amenizar o receio de demonstrar o que escrevem e como escrevem. Alguns destes Registros Reflexivos passaram por pequenas reformulações, mais em seu bojo todos conservaram sua composição original. Sendo assim, alinhavando e pontuando o que decorreu do processo avaliativo, verificamos que os alunos em sua maioria, propiciaram descobertas sobre leitura, escrita e conceitos teóricos das disciplinas, agregando-lhes novos conhecimentos e oportunizando melhor compreensão sobre a temática da disciplina que cursavam e sobre eles. A concepção de avaliação construída ao longo do trabalho empírico, intrínseco ao estudo ora desenvolvido, advêm da auto-avaliação, por ser compreendida como elemento que possibilita desvelar percursos, conhecendo a realidade avaliada, propondo momentos de reflexão e possíveis alternativas de intervenção, Teixeira (2006). Deste modo, destacamos que ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3378 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior a avaliação se for construída na perspectiva de ferramenta pedagógica, ela é um auxiliar competente na prática docente do professor e do aluno. Concluindo este relato , esperamos que tenhamos contribuído para algumas ressignificações sobre o processo de avaliação, pois ao conhecer a realidade social e profissional em que os graduandos estão inseridos, estamos favorecendo a formação de professores e professoras que discutem e intervenham sobre os modelos existentes, trazendo um olhar crítico sobre a organização do trabalho pedagógico, com possibilidades de serem constantemente revisitados e revisados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRECHT, Roland. A avaliação formativa. Rio Tinto/Portugal: Ed. Asa, 1995. (Coleção Práticas Pedagógicas) ANAYA, Viviani. Prática Docente e Relações Interpessoais: um olhar para a constituição curricular dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu. Dissertação de mestrado. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica, 2008. ANTUNES, Celso. A auto-estima do educando e sua relação com o processo de avaliação. In Avaliação na educação. Marcos Muniz Melo (org). 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Aliado ao problema de formação está o da informação: os livros didáticos disponíveis aos alunos de níveis escolares tratam o assunto de forma limitada. Partindo da constatação de falhas na conjuntura do conhecimento da Pré-história, e das análises e práticas em sala de aula, deu-se início ao Projeto A Construção de um Conhecimento Prático, vinculado à Monitoria do Curso, com o objetivo de criar junto ao alunato propostas didáticas sobre a pré-história, voltadas aos níveis Médio e Fundamental, demonstrando que o conhecimento sobre a evolução humana pode ser, ao mesmo tempo, específico e lúdico, e que está intrinsecamente vinculado a História do homem moderno. Palavras Chaves: Pré-história, Currículos, Práticas Pedagógicas ABSTRACT The knowledge regarding prehistory, despite of the current growth and promotion of the researches, still is far of the ideal. From poll with new attendees to the college for History faculty at UFPB, as well as previous experiences in other institutes of higher degrees and also other curriculums of History faculties, we have identified that the generalizations level seized by these students are the results of various factors, including education of the professors. Allied to the problem of education there is the information issue: the available books for the students treat the subject in some limited way. Based on the observation of failures at the juncture of the knowledge of prehistory and the analysis and practice in the classroom, started a project “A Construção de um Conhecimento Prático" (Construction of a Practical Knowledge), bounded to the faculty's management, with the objective to create together to the students didatic proposals regarding prehistory, geared to high school and elementary, demonstrating that the knowledge about the human evolution can be, at the same time, specific and playful, and it's intrinsically linked to history of modern man. Keywords: Prehistory, curriculums, Process of learning ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3381 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior INTRODUÇÃO A disciplina de Pré-história, em geral, é oferecida ainda no primeiro semestre dos cursos de graduação em História, estando os alunos do primeiro período ainda pouco familiarizados com as temáticas abordadas pela disciplina. Por tratar-se de assuntos específicos sobre o processo de construção da história da humanidade, ou ainda, do processo de evolução humana, assunto superficialmente abordado nos níveis escolares, vê-se uma relativa dificuldade por parte dos alunos em apreender o conteúdo, principalmente por enfocarmos o estudo da pré-história a partir da interdisciplinaridade, envolvendo conhecimentos como da antropologia, geografia e geologia. Constatando a total generalização do conhecimento, algumas questões tornam-se inevitáveis: Por que se conhece tão pouco sobre a pré-história? O conhecimento ainda é muito restrito ao âmbito acadêmico? Onde se encontram as falhas: na reprodução do conhecimento nas escolas? Nos livros didáticos? Na divulgação das novas descobertas feitas pela ciência? Na formação do docente? Ou podemos considerar uma conjunção de fatores? E foi buscando não achar as respostas, pois elas são evidentes, mas pensar propostas que amenizem os problemas, é que apresentamos neste trabalho os resultados parciais do Projeto Pedagógico de Pré-História: a construção de um conhecimento prático, inserido dentro do programa de Monitoria do Curso de História da UFPB. Como em geral há uma grande demanda de alunos matriculados, e, vendo as dificuldades que os mesmos apresentam nas discussões teóricas sobre o assunto, vimos da necessidade de trabalhar junto ao alunato atividades didáticas que auxiliem na construção do conhecimento da pré-história, geral e brasileira, obedecendo ao caráter do perfil de egresso do aluno no Curso, que é a licenciatura, e, portanto, necessário conciliar teoria e prática. Um dos problemas relacionados a pouca familiaridade com o assunto advém de lacunas existentes no período escolar (Ensino Fundamental e Médio), apesar dos livros didáticos já abordarem a pré-história como princípio da história da humanidade e das chamadas civilizações. Entretanto, essa abordagem é relativamente superficial, isto porque são poucas as páginas dedicadas ao assunto nesses mesmos livros. Outra questão está na falta de inclusão da disciplina nos programas curriculares de graduação em História. Como resultado, tem-se no decorrer de alguns anos, uma deficiência no transmitir do conhecimento sobre a origem e a evolução da espécie humana. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3382 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Essa parcial ou total ausência dos conteúdos de Pré-história nas escolas e nos cursos de licenciatura criou um ranço social e certa deficiência educacional, principalmente no que diz respeito à continuidade do ensino de História. Além disso, quando voltamos o olhar para a Préhistória brasileira observamos que dentro da conjuntura do continente americano, ela ocupa lugar de destaque, principalmente no que concerne a discussão sobre a chegada do homem neste continente. O termo Pré-história é abordado de formas variadas e pouco se discute a validade de seus marcos cronológicos, ou seja, do seu início e do seu término. A parte da História compreendida genericamente como o período entre o aparecimento do homem e o surgimento da escrita é muitas vezes suprimida, quando não é relegado ao esquecimento total. Do mesmo modo, as asserções e o vocabulário utilizado são em sua origem europeus e não bastasse isso, o sistema educacional contribuiu para que ao longo dos anos, apenas a préhistória da Europa fosse ensinada nas escolas brasileiras. O desenvolvimento do gênero humano em diferentes partes do mundo é pouco trabalhado, da mesma forma que a presença do homem nas Américas carece de seu espaço dentro dos vários conteúdos aplicados em sala de aula. Não obstante, existe a necessidade permanente de contribuir para a atualização do tema abordado, visto que uma das principais constantes do sistema educacional deve apresentar inovações tanto na forma de se trabalhar com os educandos, quantos nas informações apreendidas e repassadas pelo educador. Isto se aplica especialmente pelo fato de lidar com datas muito recuadas, métodos de periodização e contextualização pouco conhecidos e ainda algo mais complicado como a origem do homem, gera afirmações até por parte dos educadores, como: “A pré-história é pouco importante, e, além do mais, temos muitos alunos religiosos”. Como vivemos em um meio onde a forma de se expressar garante uma melhor apreensão de conceitos, é muito provável que mudando a forma de interagir possamos alcançar um melhor entendimento por parte dos alunos. Diante do exposto, pensou-se o projeto de monitoria da disciplina de Pré-História (Curso de História da UFPB) a partir de três pontos essenciais definidos pelo Projeto Pedagógico do Curso: 1) fundamentar a formação do profissional de história habilitado para a pesquisa e o ensino; 2) ressaltar a necessidade de integração entre a História e as demais disciplinas que constituem a formação humanística, isto porque a disciplina envolve principalmente conhecimentos nas áreas de Arqueologia, Antropologia, Geografia e Geologia e, 3) por ser um curso voltado para a formação do profissional de História capacitado para ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3383 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior atuar também na docência, a disciplina deve estabelecer um diálogo fundamental com a Educação, e, portanto, proporcionar ao licenciado a capacidade de atuar em diversas áreas do conhecimento histórico e das práticas educativas. Considerando o conhecimento já produzido por diversos pesquisadores sobre a préhistória brasileira e mundial, é possível traçar perfis culturais que envolvem a formação de grupos humanos pré-históricos, tanto no que diz respeito aos espaços ocupados como pela cultura material produzida por essas populações. A partir daí, é possível criar atividades pedagógicas que auxiliem os alunos no processo de compreensão deste universo, como por exemplo, aulas demonstrativas de produção de instrumentos líticos, ou reprodução e análise de pinturas rupestres, apresentação de vídeos e documentários sobre culturas pré-históricas, aulas de campo, etc. A dinamização do conteúdo abordado em sala deve ser conciliado entre teoria e prática, promovendo assim uma assimilação mais satisfatória por parte dos alunos. A CONSTRUÇÃO DAS GENERALIZAÇÕES O caráter fundamental dos cursos de licenciatura é a formação docente. Isso é fato. A grande questão em pauta é a qualidade dessa formação. E trataremos aqui a questão da qualidade como a capacidade de gerir o conhecimento adquirido, na sua forma teórica e prática, transformando-os em modelos didáticos, de modo a tornar esse conhecimento acessível. Numa fórmula matemática, o conhecimento adquirido por um aluno de licenciatura deve ser exponencial, em que seu aprendizado será compartilhado com mais 30, 50 ou 100 outros alunos, e estes passarão o conhecimento adiante por mais tantos outros indivíduos. Porém, diante dessa fórmula, se o conhecimento repassado inicialmente for limitado, a tendência é que ele vá se afunilando, o que nos leva as generalizações. É nesse contexto que se encontra o conhecimento de Pré-história. Para aqueles que cursaram o antigo Primeiro e Segundo Graus, até pelo menos os anos de 1980, provavelmente se lembram de não terem visto na sala de aula e nem nos seus livros didáticos qualquer menção ao processo de evolução humana, ou mesmo dos primeiros homens a chegarem as Américas. Na verdade, para essa geração, na qual me incluo, a história das Américas parece ter se iniciado com a chegada dos europeus, e o mais próximo que tínhamos dos tempos préhistóricos, era representado em desenhos como os Flinstonnes ou Capitão Caverna. Sem criticar a criatividade dos desenhos, a ideia que se incutiu nas crianças foi a de que essa ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3384 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior convivência entre homens e dinossauros foi perfeitamente possível, desconsiderando assim a enorme diferença temporal que separa as duas espécies. Ainda dentro do senso comum, está a crença de que a presença de antigos grupos humanos em diversas partes do mundo deu-se de forma simultânea, no momento da separação dos continentes. Na verdade, assim como unir contemporaneamente homens e dinossauros, temporalmente distintos em bilhões de anos, entre as mudanças geológicas da terra e o surgimento das primeiras espécies hominídeas existe uma diferença de pelo menos 100 milhões de anos. A partir dos anos de 1990 o conteúdo de Pré-história passou a fazer parte dos livros didáticos, porém, resumido à Europa. O homem pré-histórico passou a ser retratado como “homens das cavernas”, uma referência aos Neanderthais, vestidos com espessas peles de animais, cabelos desgrenhados, segurando suas claves ou instrumentos de pedra lascada. Com isso, ignoravam-se as espécies anteriores, como os Australopithecus, o Homo habiblis ou Homo Erectus, todos encontrados em diversos lugares da África. Vale salientar que a descoberta dessas espécies já era conhecida desde a década de 1960 (LEAKEY, 1995). De lá para cá, as informações sobre o assunto tornaram-se mais consistentes, com referências às pesquisas desenvolvidas por diversificadas áreas do saber nos últimos anos. Podemos mesmo falar de uma universalização do conhecimento diante da velocidade e das facilidades com que as informações nos chegam hoje, algumas vezes, até em tempo real. Mas, ainda assim, nos deparamos com o senso comum. Tentando discutir as causas dessas generalizações, não como ordem dos eventos, mas apenas para facilitar a nossa exposição, abordaremos aqui nossas questões em três eixos: o livro didático, a formação do docente e o aprendizado do aluno de nível escolar. A produção dos livros didáticos contém hoje parte das atualizações produzidas pela ciência, e aliado ao conteúdo dos livros, a mídia de modo geral vem complementar esse conhecimento através de documentários, filmes e sites que trazem informações variadas e detalhadas sobre as recentes descobertas da Pré-história, e que são sugeridas pelo livro como fonte de pesquisas. No entanto, o espaço abordado ainda é bastante restrito, em alguns casos, os quase 5 milhões de anos percorridos pela espécie humana para promover o seu o desenvolvimento biológico, tecnológico e cultural estão resumidos em apenas duas páginas. De acordo com a análise realizada pelos alunos do primeiro período de História da UFPB (2011.1), e tendo como referência os livros do 6º ano, observou-se que os conteúdos abordados, em geral, demonstravam consonância entre a parte textual, ilustrações e ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3385 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior atividades propostas. Por outro lado, alguns textos não apresentaram total clareza, de modo a permitir ao aluno a compreensão do processo evolutivo, como a relação entre o Homo habilis e os povos ameríndios, ou de como passamos de seres coletores de vegetais a exímios caçadores e fabricantes de instrumentos de pedra. Deste modo, a construção textual acaba por conduzir ao aluno a uma compreensão atemporal, imediatista e sem segmento espacial, e, portanto, não considerando os aspectos do desenvolvimento biológico (bipedalismo, diferenças na estrutura craniana, aumento da capacidade cerebral, etc), a relação deste desenvolvimento com a adaptação ambiental, as necessidades de sobrevivência que os levaram a um processo migratório, a introdução e aprimoramento de novas tecnologias que propiciou a vida do grupo, as relações interpessoais entre os indivíduos, a percepção dos elementos que os cercavam e daí a adoção e representação de símbolos expressos na arte parietal, além de muitos outros fatores ligados ao que chamamos de Evolução Humana. Para tanto, essa construção deveria estar explicitada no livro didático. Claro que não sugerimos aqui que as editoras dediquem metade das páginas dos seus livros sobre o assunto, mas que os autores busquem direcionar o aluno a esta compreensão entre homem, tempo e espaço, e evidencie que a decorrência dos eventos gerados pela evolução não foi meramente casual, mas sim, causal. Sintetizando numa ideia de Steven Mithen (2002), um dos autores referência no estudo da Pré-história, não precisamos dar importância a o que aconteceu, mas no porquê das coisas terem acontecido. Na composição do aprendizado, o aluno se apóia em dois eixos: no livro didático e no professor. O livro didático é sua principal fonte de referência. É a partir dele que o aluno irá extrair seu conhecimento teórico, e como, em geral, outras fontes de pesquisa são pouco ou nunca utilizadas, ele tem a palavra final, mesmo que o professor conteste seu conteúdo. Mas como saber, ou o que fazer quando o material escrito não corresponde adequadamente? Ao identificar as contradições ou limitações apresentadas pelo livro, o professor pode, e deve corrigi-las. Mas, sempre haverá a contra-contestação por parte dos próprios alunos e mesmos dos pais, que afirmarão prontamente: “mas o livro diz que é assim!”. Ou seja, a falta de credibilidade depositada no professor o define como incapacitado para discordar de um autor e sua obra. Mas apontar as falhas no conteúdo exige do professor domínio, mesmo que razoável do assunto. Apesar dos avanços científicos sobre a Pré-história e dos recursos tecnológicos de que o docente pode dispor para a sua prática em sala de aula, falta-lhe meios para saber usá- ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3386 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior los de forma eficaz. E o princípio desta falha pode estar na sua própria formação. Ainda há no Brasil a permanência de uma cultura eurocêntrica, nos moldes do século XVIII, em que a história da humanidade parece ter surgido não há milhões de anos atrás na África Central, mas sim com o surgimento das culturas egípcias, romanas e gregas, admiradas pelos seus conhecimentos tecnológicos e suas práticas artísticas e culturais. E na lógica deste pensamento, muitos dos cursos de Licenciatura em História optam por não oferecer a disciplina em sua grade curricular. Como consequência, gera-se uma formação de docentes, aptos a lecionarem, mas não necessariamente capazes de transmitir o conteúdo. Um estudo feito por Evanuel Silveira, Gilmara Costa e Márcia Vasques (http://www.cchla.ufrn.br/humanidades2009/Anais/GT06/6.1.pdf), tendo como foco A Préhistória do Seridó no ensino básico público, mostra exatamente a deficiência por parte de professores em trabalhar o assunto em sala de aula. Os autores apresentam duas questões básicas como problema no ensino da disciplina: o primeiro está no livro didático, que discute o assunto de forma generalizada, e o segundo está na própria formação do professor, que, durante sua vida acadêmica teve pouco contato com a bibliografia especializada. Esses problemas evidentemente se refletem na prática do ensinar. Considerando a opinião dos autores acima citados sobre a formação do professor, concordamos que, em se tratando da bibliografia específica, o aluno da graduação tem de fato pouco acesso, e as causas são diversas: insuficiência de obras disponíveis nas bibliotecas universitárias; as obras em geral tratam da pré-história européia, e há poucas obras consideradas compêndios da pré-história brasileira. Provavelmente, as duas obras mais acessíveis e didáticas sobre a pré-história do Brasil são os trabalhos de Gabriela Martin, em Pré-história do Nordeste do Brasil (Ed. UFPE, já na sua 5ª edição) e do André Prous, Arqueologia Brasileira (Ed. UNB). Ademais, há inúmeros artigos em periódicos ou sites eletrônicos e anais de congresso. Entretanto, faltam-nos trabalhos concisos que tratem a temática dentro de uma abordagem pedagógica. Analisando as grades curriculares de licenciatura em História de 30 universidades brasileiras (Federal e Estadual), constatou-se que a disciplina não faz parte do currículo de 64% das instituições. Em 36% delas, a disciplina é ofertada, sendo que, em apenas uma, a UFS, a disciplina tem caráter eletivo, nas demais ela é obrigatória já para o primeiro semestre. Na UFPE, Pré-história está dividida em duas disciplinas – PH I e PH II. Para as instituições que não oferecem a disciplina, buscou-se identificar se havia uma abordagem do assunto, pelo menos, nas ementas das disciplinas de História da África, História da América I e Brasil I, porém, as ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3387 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior informações disponibilizadas pelos sites das instituições foram insuficientes para qualquer afirmação comparativa e quantitativa. (MEC/INEP) Os números aqui apresentados nos dão somente uma parcial da situação dos cursos de graduação em História, visto que nos concentramos nas principais universidades federais e estaduais de cada Estado. Os dados referentes às instituições particulares ainda estão em fase de coleta, porém, antecipando resultados, o Rio Grande do Sul é o Estado que apresenta o maior número de cursos de História a ofertarem a disciplina de Pré-história. Algumas contam ainda com a disciplina de Arqueologia (UNISINOS, UNICRUZ, UNILASALLE, UNIVATES) e na Universidade de Caxias do Sul, a disciplina recebeu a nomenclatura de História da Humanização e Arqueologia. Espera-se que, com a conclusão desses dados, tenhamos um perfil da formação docente sobre os temas da pré-história, a partir de parâmetros quantitativos e comparativos por Estados e Regiões. A amostragem aqui apresentada pode nos indicar algumas respostas. Fica difícil para o professor contribuir no aprendizado do aluno de forma efetiva sobre a história da humanização, se ele mesmo desconhece o assunto. E uma questão é crucial: como um curso de licenciatura pode preparar um aluno dentro da sua formação docente, sem que lhe seja proporcionado discussões com ênfase nos assuntos que ele mesmo abordará em sala de aula? A soma desses elementos, livro didático e docente, recai imediatamente na formação do aluno. O que eles estão aprendendo sobre a pré-história? Para um resultado positivo, seria necessário que livro e professor estivessem em harmonia no processo de construção do saber, que ambos suprissem os questionamentos essenciais dos alunos. Mas, como a nossa realidade está ainda distante do ideal, a perspectiva de aprendizado para o aluno resume-se às generalizações. E aí entramos em uma espécie de ciclo vicioso, em que ou o professor não domina o assunto e, portanto, não consegue acompanhar os conceitos abordados pelo livro; ou o professor conhece a temática, mas o livro não corresponde no seu conteúdo. Para o aluno, resta o senso comum. O reflexo de todas essas questões pode ser constatado no ingresso dos alunos no curso de História. Fazendo testes de sondagem, é possível ter uma dimensão das falhas no sistema de aprendizado e na lacuna existente, pois, ao fazermos questionamentos sobre o que eles conhecem da Pré-história, as respostas são sempre as mesmas: a de que descendemos dos macacos e que as antigas espécies humanas viviam em cavernas e eram fabricantes de instrumentos de pedra para utilização na caça. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3388 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Enfim, o que vemos é a simplificação de uma história de 5 milhões de anos. Ao que parece, o estudo da origem e evolução humana não têm sentido ou importância diante de tamanha destreza e capacidade intelectual, artística e tecnológica de antigas sociedades já organizadas, até mesmo na África ou no Oriente Médio, que se desenvolveram e deixaram como herança grandes monumentos, e que hoje, nós homens modernos, não cansamos de admirá-los. Mas, raramente, ou nunca, nos perguntamos como aqueles homens chegaram àquele estágio tecnológico, social, cultural, político, etc. E nem mesmo o avanço das descobertas científicas não tem conseguido mudar opinião: a de que a Pré-história, com suas “criaturas peludas de atitudes animalescas” não é um lugar nobre para entender porque nos tornamos Homo Sapiens. CONSTRUINDO CONHECIMENTO As experiências com os alunos do primeiro período de licenciatura em História nos levou a repensar a metodologia aplicada à disciplina de Pré-história. Partindo de questões levantadas pelos próprios alunos, que se deparam com outra realidade de informações sobre a história da evolução humana, e considerando o fato de que nosso objetivo é a formação docente, mudamos o nosso foco de abordagem temática, conduzindo as discussões a reflexões sobre como se deu o processo evolutivo, ao invés de nos concentrarmos apenas em o quê evoluiu. Verificada as lacunas do conhecimento em geral, partimos para as definições das teorias e conceitos aplicados à Disciplina, mas evidenciando a relação existente entre tempo, homem e espaço. Uma barreira ainda presente está na compreensão do sentido de tempo. Acostumamos-nos a pensar e a agir a partir das horas, dias, anos. Quanto mais recuado, menor é a nossa capacidade de relacionar os eventos às questões humanas, e, na prática, a referência que temos é a do tempo histórico. Mas como pensar em tempo geológico? Como assimilar um evento que ocorreu há 300 mil, 1 milhão, ou 6 milhões de anos atrás? Quando discutimos as fases da evolução humana e o aparecimento de novas espécies, os alunos costumam interpretar como se houvesse um tipo de acender e apagar das luzes: um dia surgiu uma espécie, ela se extinguiu, depois surgiu outra, que também desapareceu, e assim por diante. Ou seja, é difícil a compreensão de que alguns desses seres viveram contemporaneamente, ocupando muitas vezes os mesmos espaços físicos, e que as transformações foram lentas e graduais, e que ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3389 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior foram necessários milhares de anos, e fatores, até que surgisse uma nova espécie com melhores condições adaptativas, e que encontraram em ambientes específicos os meios para prover sua sobrevivência. Todo esse esquema é demonstrado através de discussões, diálogos, apresentação de documentários e aplicação de atividades práticas, como a simulação de produção de instrumentos líticos, fabricação de vasilhames de cerâmica e representações parietais. O objetivo dessas atividades é promover junto ao aluno a concepção do cotidiano de antigos grupos humanos, e relacioná-las ao nosso modo de vida atual. Como resultado, o aluno será capaz de apreender melhor o conteúdo abordado e conhecerá métodos didático-pedagógicos que poderão ser aplicado em qualquer nível escolar. Seguindo essa proposta e buscando adotar a política de capacitação dos alunos para implantação dos novos parâmetros curriculares para os ensinos de nível Fundamental e Médio, formulamos o Projeto Pedagógico de Pré-História: A Construção de um Conhecimento Prático apresentado ao Programa de Monitoria da UFPB (2011.1), voltado para as estratégias pedagógicas a serem implantadas junto aos alunos dos referidos períodos escolares, como forma de melhorar e dinamizar os conteúdos abordados em sala de aula. O trabalho conjunto entre monitor e professor foi conduzido no sentido de orientar os alunos da disciplina de PréHistória na produção de material e atividades pedagógicas, e o resultado dessas produções foi apresentado em uma mostra geral. A execução do projeto foi realizada a partir das seguintes etapas: análise dos conteúdos presentes nos livros didáticos; discussão dos métodos de aplicação do conteúdo em sala de aula; escolha de uma das temáticas abordadas no conteúdo da disciplina; escolha do nível a ser trabalhado (Fundamental ou Médio); definição dos recursos didático-pedagógicos a serem aplicados na atividade; planejamento e apresentação da proposta. Durante todo o acompanhamento, os alunos participaram ainda de palestras sobre os novos Referenciais Curriculares da Paraíba, tendo como segmento os objetivos conceituais: - Compreender o desenvolvimento da vida humana até a constituição do homo sapiens e o significado dessa mudança para a organização da vida humana; - Compreender os seres humanos como produtores de cultura em relação com a natureza e seus semelhantes, mediante a sua ação e atuação na sociedade; - Compreender o peso da natureza sobre a cultura, nas primeiras organizações e a inventividade humana na criação dos meios (tecnologias) para a sua sobrevivência. (PARAÍBA, Referenciais Curriculares do Ensino Fundamental, 2010, p. 94) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3390 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A finalização de todas as atividades foi concentrada em uma mostra pedagógica, em que cada grupo de alunos expôs a sua proposta de abordagem. Desta forma, vários assuntos foram tratados, como a hominização, a evolução tecnológica, o processo migratório da África até ao Brasil, a cultura material de antigos grupos humanos, entre outros. E as estratégias utilizadas foram igualmente diversificadas, como jogos, elaboração de sítios eletrônicos, cartilhas, simulação de uma exposição museográfica, algumas com aplicações em escolas de João Pessoa. Ao fim das exposições, todos os alunos da turma tiveram de interagir com as atividades apresentadas pelos colegas, e na sequência, fez-se o debate para discutir os pontos positivos e falhos das propostas. Encerrando com uma discussão geral, os alunos fizeram uma auto-avaliação do seu nível de aprendizado sobre a Pré-história, comparando o seu grau de conhecimento ao ingressarem e após todas as etapas cumpridas na disciplina. Para tanto, expuseram sobre o conteúdo, a metodologia aplicada à disciplina e a experiência obtida na elaboração e execução de seus próprios projetos. E o resultado final de todo esse conjunto de ações foi considerado positivo para os alunos, o professor e a monitoria, visto que objetivos e metas foram cumpridos: o de instruir aluno e monitor nas atividades de docência através da ampliação do conhecimento prático e teórico dos conceitos de Pré-história, Educação e ensino CONSIDERAÇÕES FINAIS Com quase dez anos de experiência em ensino superior e à frente da disciplina de Pré-história, é inevitável que nossos anseios aumentem quando nos deparamos com os mesmos discursos generalizados. Deste modo, as lacunas e problemas aqui discutidos sobre o ensino de pré-história podem ser revistos a partir da conceituação teórica, das aulas práticas e das discussões sobre a criação de atividades que possam tornar o ensino de pré-história estimulante. Entretanto, é importante ressaltar que esse trabalho não se faz de forma unilateral, ao contrário, deve ser realizado entre o professor, que dará a diretriz do trabalho; as atividades paralelas, como os projetos de monitoria e extensão; e os alunos, que estarão em constante feedback com o professor, discutindo e apresentando propostas a partir de suas próprias experiências enquanto aluno. E o resultado dessa experiência pode ser resumido na definição dos próprios alunos da disciplina, que: ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3391 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A partir desta dinâmica o ensino de História ganha um caráter mais dialógico, produzindo uma consciência social que permite ao indivíduo entender-se quanto construtor e constructo da sociedade, podendo a partir disto compreender as diferenças e semelhanças entre os seres humanos. (REZENDE, A.; SANTOS, F.; BARBOSA, J.; BURITY, L.; FREIRE, P., 2011) As modificações na qualidade de ensino requerem também mudanças na postura do professor, tanto aquele que participa dos cursos de licenciatura e formação docente, quanto àquele que atua junto a crianças, jovens e adultos. É preciso rever as metodologias aplicadas, partindo de um esforço, até mesmo individual, em que o professor proporcione aos alunos novas perspectivas de reflexão e de conhecimento. E o aluno deve perceber que o aprendizado é contínuo e parte essencial para sua inserção nas relações sociais. REFERÊNCIAS GOVERNO DO ESTADO DA PARAÍBA. Secretaria de Educação e Cultura. Gerência da Educação Infantil e Ensino Fundamental. Referencias Curriculares do Ensino Fundamental: Ciências Humanas, Ensino Religioso e Diversidade Sociocultural. João Pessoa: SEC/Grafset, 2010. LEAKEY, Richard. A origem da espécie humana. Rio de Janeiro: Rocco, 1995. MEC/INEP. http://emec.mec.gov.br/ MITHEN, Steven. A pré-história da mente. São Paulo: Unesp, 2002. REZENDE, Alessandro; SANTOS, Felipe; BARBOSA, Janynne; BURITY, Luiz Mário; FREIRE, Paulo Darlan. Dinâmica de aprendizagem em História para os alunos do 6º ano de Ensino Fundamental. Relatório de Atividade Acadêmica, 2011. SILVEIRA, Evanuel; COSTA, Gilmara; e VASQUES, Márcia. A Pré-história do Seridó no ensino básico público. Encontrado em http://www.cchla.ufrn.br/humanidades2009/Anais/GT06/6.1.pdf, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3392 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior FORMAÇÃO CONTINUADA DE DOCENTES PARA ATUAÇÃO EM CURSOS TÉCNICOS DE PROEJA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES Cristiane Jorge de Lima Bonfim Lívia Freitas Fônseca Borges Universidade de Brasília - UNB RESUMO Este artigo é resultado de uma pesquisa de Mestrado em Educação realizada em uma Instituição da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica da Região Sul do Brasil. Buscamos identificar e analisar os desafios da formação continuada de professores em nível de Especialização lato sensu para atuação na Educação Profissional integrada à Educação de Jovens e Adultos. A abordagem metodológica foi predominantemente qualitativa, que atendeu ao estudo de caso Yin (2005). Os resultados da pesquisa mostraram que professores bacharéis com licenciatura ou apenas licenciados ingressaram na formação para “aprender sobre a modalidade”. Os aspectos a serem repensados são: aumento de práticas pedagógicas e conteúdos para a Educação de Jovens e Adultos no currículo da formação docente; desfragmentar disciplinas em busca da materialização do currículo integrado (BERNSTEIN, 1977) e aproximar professores formadores aos contextos do PROEJA objetivando aliar teoria e prática à formação. Palavras-Chave: Currículo. Formação Continuada de Professores. Educação Profissional. Educação de Jovens e Adultos. CONTINUING EDUCATION OF TEACHERS FOR ACTING IN PROEJA TECHNICAL COURSES: CHALLENGES AND POSSIBILITIES ABSTRACT This article is the result of a Master degree research in Education, which took place at an institution of the Federal Network of Professional Education and Technology, localized at Southern Brazil. We seek to identify and to analyze the challenges of continuing education of teachers with lato sensu expertise for acting at Professional Education integrated to youth and adults education. The methodological approach was largely qualitative, who observed the study case Yin (2005). The research results showed that graduated teachers (bachelor degree or graduation only) joined in the formation “learning about the modality”. There are aspects to be reconsidered: the increase in teaching practices and pedagogical content for Youth and Adults Education in the curriculum of teacher training; disciplines defragmentation in order to embody the integrated curriculum (Bernstein, 1977) and to approach teachers who act in the PROEJA contexts in order to ally theory and practice to formation. Keywords: Curriculum. Teachers Continuing Education. Professional Education. Youth and Adult Education. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3393 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Introdução O Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos - PROEJA foi instituído pelo Decreto n.º 5.478/05 e foi implantado na Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica - RFEPCT a partir de 2005. À época, não havia oferta de cursos para esta modalidade da Educação Básica. O Decreto n.º 5.840/06 revogou o Decreto nº. 5478/05 e abriu a possibilidade da oferta de cursos de PROEJA por instituições públicas e privadas adicionalmente à RFEPCT, com base em discussões entre a RFEPCT e os setores da sociedade, gestores e estudiosos que indicavam a necessidade de ampliação do número de cursos em virtude da demanda existente em todo o país. Para que os espaços de formação profissional para jovens e adultos pudessem ser criados a formação docente representou e representa importante fator desta iniciativa de educação pública no contexto de implantação e fortalecimento da modalidade. A todos os desafios à implantação do programa que necessitaram de fomento, a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica – SETEC do Ministério da Educação buscou atender incluindo a formação docente que se deu em nível de especialização lato sensu, fomentada por meio de quatro chamadas públicas do ano de 2006 a 2010 para a RFEPCT em parceria com as Universidades Federais que promoveram a oferta deste curso em todo o país. Segundo dados da SETEC/MEC/2009, em 2010 já eram mais de 10.000 professores formados pela especialização que foi ofertada por diversas instituições da RFEPCT no Brasil. A escolha da instituição pesquisada ocorreu com base no critério estabelecido que procurou a Instituição da RFEPCT com maior oferta de vagas da Especialização em Educação para o PROEJA no período delimitado pela pesquisa (2006 a 2009), portanto a instituição que se enquadrou neste critério é da Região Sul do Brasil que em 2010 contava com mais de 1500 professores cursistas formados pela Especialização. No decorrer da pesquisa foram entrevistados: a Coordenação Geral do PROEJA na Instituição pesquisada por Webconference em função da distância, e com a Coordenação Nacional do Programa na SETEC/MEC com objetivo de obter informações sobre o projeto da Especialização em Educação para o PROEJA do ponto de vista da gestão local e nacional. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3394 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Os professores cursistas egressos da formação das edições do curso de 2006 a 2009, colaboraram com a pesquisa por meio de formulário eletrônico enviado por e-mail desenvolvido na plataforma google docs23 . A análise documental nos permitiu identificar as especificidades do currículo da formação continuada para o PROEJA e se estas contribuem à integração da Educação de Jovens e Adultos e a Educação Profissional no contexto da Educação Básica. Na mesma direção analisamos as convergências e as divergências entre o currículo da formação continuada para o PROEJA e sua relação com os contextos da Educação de Jovens e Adultos e da Educação Profissional que permitem ou dificultam aliar teoria e prática aos egressos da formação docente. Foi imprescindível saber se os professores formadores do curso possuíam uma aproximação dos contextos escolares da Educação de Jovens e Adultos e da Educação Profissional na prática pedagógica escolar, por meio do ensino ou da pesquisa e por último buscamos identificar e analisar as motivações que levaram professores com formação inicial em cursos de licenciatura e em cursos de bacharelado a cursarem a Formação Continuada para o PROEJA. Ao final deste artigo, a partir da análise dos dados levantados pela pesquisa, pautada no referencial teórico, são destacadas as evidências encontradas, e apresentadas algumas sugestões de ajustes no curso objetivando contribuir com as próximas edições do processo formativo. A formação inicial de professores A formação inicial de professores é entendida, para fins deste artigo, como aquela ministrada no nível de graduação devendo possibilitar ao seu egresso as condições de formação profissional objetivando o melhor desempenho das atividades profissionais, posto que a docência é uma profissão e, como qualquer outra, precede de formação. Segundo Veiga “[...] o papel da formação é produzir profissionais com habilidades de ensino para ensinar, com habilidades de pesquisa para analisar e compreender o que está ocorrendo na sala de aula, na escola e na sociedade [...] (VEIGA, 1998, p. 78)”. Assim, a formação precisa possibilitar ao docente um aprimoramento do seu papel no contexto escolar no qual necessita ser ativo e interativo e que tenha as condições de perceber o desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem, os aspectos e impactos dos 23 O GoogleDocs é uma plataforma gratuita para edição de textos, planilha eletrônicas, formulários e apresentações em tempo real. Disponível em: <http://www.google.com/apps/intl/pt-BR/business/docs.html> Acesso em: 20 jun. 2011. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3395 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior movimentos sociais expressos pelos alunos em suas falas, em suas atitudes e comportamentos. Ao fazer um paralelo entre o trabalho industrial e o trabalho docente Tardif (2008) destaca toda a complexidade do segundo em relação ao primeiro, por este envolver inúmeras questões subjetivas e que estão fora do controle do docente, porém está dentro no seu lócus de atuação. A formação inicial de professores é abordada por Imbernón como a base estruturante da profissionalização. A formação inicial deve fornecer as bases para poder construir um conhecimento pedagógico especializado. [...] deve dotar de uma bagagem sólida nos âmbitos científico, cultural, contextual, psicopedagógico e pessoal que deve capacitar o futuro professor ou professora e assumir a tarefa educativa em toda sua complexidade, atuando reflexivamente com a flexibilidade e o rigor necessários, isso é, apoiando suas ações em uma fundamentação válida para evitar cair no paradoxo de ensinar a não ensinar (IMBERNÓN, 2009, p. 65). Dessa forma, sem a consolidação da base teórica e vivência na formação inicial, o docente se vê obrigado a buscá-las na formação continuada, que como veremos na próxima seção não tem este objetivo enquanto proposta de promover continuidade à formação inicial. A formação continuada de professores A formação continuada de professores é aqui entendida como aquela ministrada após a formação inicial em nível de graduação, devendo possibilitar ao docente a atualização e aprofundamento dos seus saberes, e também sua ascensão na carreira docente. Deve, ainda, atualizar tendências das práticas pedagógicas, dos recursos tecnológicos, do ensino para públicos específicos como, por exemplo, a Educação de Jovens e Adultos. Porém, a formação continuada tem sido colocada como forma de resolver lacunas da formação inicial, na maioria dos casos com a promessa de promover avanços profissionais. Segundo Gatti, [...] nos últimos anos do século XX, tornou–se forte, nos mais variados setores profissionais e nos setores universitários, especialmente em países desenvolvidos, a questão da imperiosidade de formação continuada como um requisito para o trabalho, a ideia da atualização constante, em função das mudanças nos conhecimentos e nas tecnologias e das mudanças no mundo do trabalho. Ou seja, a educação continuada foi colocada como aprofundamento e avanço nas formações dos profissionais. Incorporou–se essa necessidade também aos setores profissionais da educação, o que exigiu o desenvolvimento de políticas nacionais ou regionais em resposta a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3396 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior problemas característicos de nosso sistema educacional (GATTI, 2008, p. 57). Partindo do entendimento de continuidade com aprofundamento para a formação profissional, inclusive na educação, a formação continuada de professores acontece muitas vezes vinculada a programas de formação lançados pelo poder público na tentativa de suprir demandas urgentes de formação para o trabalho profissional docente. Este é o caso da formação continuada de professores para atuação no PROEJA que, segundo Moura (2006a), deverá: [...] guardar suas especificidades, mas também precisa estar inserida em um campo mais amplo, o da formação de profissionais para a EPT, pois se trata de uma nova modalidade dentro de um tipo de oferta já existente. [...] Se já houvesse uma solução para as questões relativas à formação de profissionais para a EPT, estaríamos diante de uma tarefa mais simples, entretanto, isso ainda não aconteceu, de modo que é necessário e urgente construí-la. (MOURA, 2006, p. 83). Assim, o PROEJA se insere no campo de atuação docente da Educação Profissional e Tecnológica, que segundo o autor a formação docente para EPT ainda é uma questão urgente a ser resolvida, considerando que muitos professores são graduados em cursos de bacharelado na sua formação inicial, que não têm o objetivo de formar para a docência, o que cria uma necessidade de formação docente complexa do ponto de vista do perfil a ser formado. Nessa direção, apresentando uma síntese sobre o perfil docente para EPT, Machado entende que: A formação dos docentes da educação profissional demanda atenção cuidadosa aos conteúdos pedagógicos e educacionais relacionados à sociologia dos saberes tecnológicos e escolares, à psicologia das aprendizagens, ergonomia cognitiva, história da educação profissional e tecnológica, sociologia dos currículos da educação profissional, filosofia da educação, educação tecnológica comparada, avaliação, construção da identidade docente profissional, métodos de ensino na educação profissional, organização escolar, políticas e gestão da educação profissional (MACHADO, 2008, p. 20). Analisando os inúmeros desafios mencionados pela autora acerca da formação docente para a Educação Profissional, temos delineado um perfil formativo complexo, com necessidades de desenvolvimento de habilidades que possibilitem intervenções teóricopráticas de ensino aprendizagem, que devem também ser voltadas para cada nível e ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3397 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior modalidade, que se relacionem com o desenvolvimento tecnológico, com a produção de pesquisa aplicada, e por fim, com a inovação e com o mundo do trabalho. A Educação Profissional na atual legislação brasileira A partir da LDB n. 9.394 em 1996 a Educação Profissional foi instituída reconhecidamente como uma modalidade da Educação Básica. Segundo o art. 39 da referida lei: “A Educação Profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia”. Em 2004 o Decreto n. 5.154/04 revogou o Decreto n. 2.208/97 e trouxe de volta a Educação Profissional integrada ao Ensino Médio, mantendo a forma concomitante e alterando o termo “forma sequencial” para “forma subsequente” ao ensino médio. O Decreto n. 5.154/04, que regulamenta os art. 36, e 39 a 41, em seu artigo primeiro destaca os níveis de oferta da Educação Profissional: I - formação inicial e continuada de trabalhadores; II educação profissional técnica de nível médio; e III - educação profissional tecnológica de graduação e de pós-graduação. Portanto, o texto legal permite pensar as concepções curriculares da Educação Profissional e Tecnológica em uma perspectiva de verticalização do ensino, oportunizando ao estudante a continuidade no nível superior dentro da mesma área em que concluiu seu curso técnico. As diretrizes curriculares nacionais para a Educação Profissional de nível técnico, são regidas por: um conjunto de princípios que incluem o da sua articulação com o ensino médio e os comuns com a educação básica, também orientadores da educação profissional, [...] está em consonância com o surgimento de um novo paradigma no mundo do trabalho, que se contrapõe àquele caracterizado como industrial, operário, assalariado, masculino, repetitivo, desqualificante, poluidor e predatório dos recursos naturais. (BRASIL, 1999). É preciso, portanto, romper com a formação limitada para o mercado de trabalho e a execução tácita de determinada tarefa sem sua compreensão, ou preocupação com o contexto, e com o meio ambiente. Assim a Educação Profissional enfrenta os desafios de formação para o mundo do trabalho por meio de uma formação técnica, profissional, consciente de seus direitos e deveres no contexto social sendo uma formação que fomente cidadania e prepare para o trabalho. Segundo Arroyo: ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3398 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A procura dos vínculos entre o trabalho e educação tem estimulado a vontade de conhecer melhor o mundo do trabalho tão desconhecido nas pesquisas e reflexões pedagógicas. Tem estimulado, também, a sensibilidade para as virtualidades formadoras do trabalho e, sobretudo, para os processos de formação do trabalhador, da classe trabalhadora, sua pressão para que os trabalhadores sejam reconhecidos como sujeitos políticos e culturais. Tem estimulado nos professores iniciativas para introduzir as experiências de trabalho dos educandos na prática escolar, para fazer do trabalho um recurso didático no processo de ensino-aprendizagem, para repensar as políticas do ensino médio e profissionalizante ou de educação de jovens e adultos. (ARROYO, 2008, p. 142). Nesta direção, o trabalho deve estar posto como princípio educativo que segundo Ciavatta (2005, p. 84) “buscamos enfocar o trabalho como princípio educativo, no sentido de superar a dicotomia do trabalho manual/trabalho intelectual”. A superação dessa dicotomia citada pela autora aponta o caminho para a integração das duas modalidades da Educação Básica que convergem nos cursos de PROEJA. Outro ponto desafiador da Educação Profissional é a integração curricular entre formação geral e formação profissional nos cursos técnicos integrados, sejam no ensino médio regular ou na sua articulação com a Educação de Jovens e Adultos. A esse respeito Ramos considera que É importante reiterar que a sobreposição de disciplinas consideradas de formação geral e de formação específica ao longo de um curso não é o mesmo que integração, assim como não o é a adição de um ano de estudos profissionais a três de ensino médio [...]. A integração exige que a relação entre conhecimentos gerais e os específicos seja construída continuamente ao longo da formação, sob eixos do trabalho, ciência e cultura (RAMOS, 2005, p. 122). Assim, a Educação Profissional no Brasil tem se constituído em adaptações à legislação que se baseiam em posicionamentos políticos que carecem de maior preparação e preocupação na sua operacionalização ainda que as escolas adaptadas aos seus contextos tenham um mínimo de condições de fazê-lo. Situação adversa pode ser constatada quando a legislação fica no papel e as propostas educacionais na gaveta, o tempo passa, o professor não tem condições de ir além de sua formação e o projetos não se sustentam, não pelo fato de não serem bons projetos, mas, entre outras limitações, a formação docente adequada para executá-los e promover nestes contextos de formação o avanço da escola que tem papel importante na formação profissional, na produção de ciência e tecnologia e preparação para o trabalho enquanto ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3399 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior contribuição necessária ao desenvolvimento humano e cidadão em uma sociedade emergente, em um mundo socialmente plural e globalizado. A Educação de Jovens e Adultos A Educação de Jovens e Adultos é marcada na legislação por iniciativas governamentais que refletem o cenário da falta de escolarização do cidadão brasileiro presente no século XXI como herança dos dois séculos anteriores, resultado da falta de investimento na educação que poderia alavancar o Brasil para uma órbita diferente desta que ele tem percorrido nos últimos 200 anos. Entre erros, acertos e descompassos, a promulgação da LDB, em 1996, se torna a base legal indispensável para pautarmos as discussões das legislações posteriores a ela para regulamentação mais específica da Educação de Jovens e Adultos enquanto modalidade da Educação Básica. A Educação de Jovens e Adultos necessita da construção de espaços de formação, nesse sentido, destacamos as ações de alfabetização de jovens e adultos no movimento marcado pela atuação de Paulo Freire. Estes espaços de formação vieram se configurando entre os momentos políticos e conflitos diversos vivenciados no Brasil nas seis últimas décadas. Muitos adultos que fazem parte da população com distorção idade série ou mesmo analfabeta: carregam o peso da impossibilidade da escola pela insuficiência da oferta de vagas, mas há um enorme contingente considerado jovem sobre o qual pesa a não-permanência, o insucesso, a chamada evasão e a inconclusão, irmã dileta do alardeado fracasso escolar. [...] eles expressam, em síntese, o fracasso do Estado no tocante a políticas sociais em geral, e não apenas educacionais, porque uma das causas mais acentuadas do afastamento da escola diz respeito à pobreza, que exige, nas famílias, mais braços trabalhando para aumentar a renda familiar. (PAIVA, 2006, p. 33). A discussão sobre o contingente de Jovens e Adultos marcados pelo insucesso, a não permanência e o fardo do fracasso escolar, nos remete ao estudo clássico de Paul Willis (1991) numa escola secundária inglesa, com adolescentes do sexo masculino de classe operária. Nessa perspectiva é possível dialogar com Paiva (2006) a respeito do desinteresse pela escola em virtude dela se mostrar fora de sintonia com o mundo do trabalho. O recorte trazido por Willis (1991) faz refletir as mesmas questões da idade e das abordagens descontextualizadas da escola secundária para este público no Brasil, e nos dois ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3400 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior casos os alunos evadem da escola por acharem que irão aprender mais fora da escola do que dentro dela. No caso do Brasil trazido por Paiva (2006), muitos destes alunos precisam ajudar no sustento da família, portanto o cansaço do trabalho ao longo do dia faz da escola mais um fardo que eles não estão dispostos a carregar. A Educação de Jovens e Adultos reclama uma afirmação diante da sua própria realidade, de necessidade de dedicação à sua especificidade e se coloca como um desafio ao professor que, em geral, não foi preparado para nela atuar, representa um espaço escolar não trivial, uma vez que ali os sujeitos cheios de histórias de vida estão predispostos a ressignificar seus conceitos, mas para isso precisam, como precisamos todos, de estímulo para melhorar a autoestima, de respeito pelos conhecimentos que trazem de suas trajetórias de vida, de oportunidade e de apoio para conseguir vencer as dificuldades do aprender no seu retorno à escola. O currículo da Formação Continuada de professores para o PROEJA na Instituição Pesquisada A proposta curricular do curso vislumbra abordar uma série de temas que pretendem dar conta da demanda de formação docente para atuação na Educação de Jovens e Adultos articulada à formação profissional com uma perspectiva de integração das duas modalidades baseada em eixos. O currículo tem significados que vão muito além daqueles aos quais as teorias tradicionais nos confinaram. O currículo é lugar, espaço, território. O currículo é relação de poder. O currículo é trajetória, viagem, percurso. O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo se forja a identidade. O currículo é texto, discurso, documento. O currículo é documento de identidade (SILVA, 2009, p. 150). Nessa direção os Projetos de Curso da Especialização para o PROEJA foram propostos pelas instituições da rede federal que atenderam aos requisitos das chamadas públicas realizadas no período de 2006 a 2010 pela SETEC/MEC utilizando como referência o documento denominado “Propostas Gerais para Elaboração de Projetos Pedagógicos de Curso de Especialização Brasil (2006)”, no qual o currículo da Especialização em Educação para o PROEJA deve ser organizado por eixos curriculares. O documento orientador descreve os cinco eixos curriculares destacados a seguir: Concepções e princípios da educação profissional, do ensino médio e da educação de jovens e adultos; Gestão democrática e economia solidária; Políticas e legislação educacional; ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3401 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Concepções curriculares na educação profissional e na educação básica na modalidade de educação de jovens e adultos; e Didática na educação profissional e na educação de jovens e adultos (BRASIL, 2006, p. 14). A organização do curso por eixos e a necessidade de discussões dentro de cada eixo e entre eles, sobre ciência, tecnologia, natureza, cultura e trabalho, tinha como objetivo favorecer a integração entre a Educação Profissional, a Educação Básica e a Educação de Jovens e Adultos, enquanto importante contribuição da Especialização em Educação para atuação docente na modalidade. A análise documental mostrou que o documento orientador Brasil (2006) está alinhado aos princípios do PROEJA presentes no documento Base 2007 do programa, e estes estão afinados com as discussões atuais sobre a Educação de Jovens e Adultos e as suas necessidades, no âmbito do currículo prescrito (GIMENO SACRISTÁN, 2000). Os Projetos dos Cursos estão em conformidade com o documento orientador e ao submeter as propostas às chamadas públicas que fomentaram a Especialização, a Instituição teve seus projetos de cursos analisados e aprovados por equipe técnica da SETEC. A análise da matriz curricular dos Projetos de Curso da Especialização do período pesquisado mostrou que houve alteração na organização curricular com o aumento das cargas horárias de algumas disciplinas e a supressão de outras, dentro do mesmo eixo curricular, e que estas mudanças refletiram nas ementas das disciplinas que tiveram a carga horária ampliada. Segundo Bernstein (1977, p. 76), os currículos podem ser organizados em dois grandes tipos. O primeiro chamado por ele de currículo do tipo coleção e o segundo de currículo do tipo integração. No currículo do tipo coleção, segundo o autor, os conteúdos estão claramente separados por disciplinas com fraco relacionamento entre si surgindo por consequência uma “classificação forte” (termo utilizado pelo autor). Quando os conteúdos das disciplinas estão bem isolados o currículo tende a ser rígido, diferenciador e tem um caráter hierárquico de forma que as disciplinas necessitam de uma sequência pré-determinada. Na perspectiva de encontrar a integração curricular orientada por eixos nos debruçamos na análise documental das matrizes curriculares das quatro edições do curso. O resultado desta análise serviu de referência na interlocução que estabelecemos entre as falas de professores cursistas egressos da formação e professores formadores buscando na formação e as dimensões curriculares de Bernstein sobre as quais a materialização do currículo integrado de forma se efetiva a partir de cinco condições básicas: ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3402 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1) deve haver algo de consenso com respeito à ideia integradora se é que esta há de funcionar; 2) a ideia deve explicitar-se; 3) a natureza da vinculação entre a ideia e os diversos conteúdos deve ser desenvolvida sistemática e coerentemente; 4) há de estabelecer um sistema de conselho de alunos e professores para desenvolverem um controle sensível à tarefa global; 5) é de fundamental importância desenvolver um critério de avaliação muito claro (BERNSTEIN, 1977, p. 79). Segundo Bernstein, a primeira condição a ser observada para a materialização do currículo integrado é que haja consenso sobre a ideia integradora para que ela funcione, ou seja, para que ela se concretize nos espaços de atuação docente. Considerando as falas dos professores formadores sobre a realização de reuniões de planejamento, quando lhes perguntamos se houve uma ideia integradora no eixo curricular no qual atuaram, com objetivo de integrar conteúdos de cada disciplina no mesmo eixo, os quatro interlocutores da pesquisa responderam negativamente. Na percepção do professor José “[...] esse é o principal problema do atual curso”. Ele afirma que “nunca foram discutidos os eixos curriculares”. Vale destacar que o professor atuou na edição do curso de 2009. A segunda condição a ser observada para a materialização do currículo integrado destaca a importância de um consenso sobre a ideia integradora, em relação à qual a integração de temas e tarefas deve se concentrar para o desenvolvimento das atividades que implementam o currículo, criando espaços de discussão democráticos e participativos tanto para alunos quanto para professores. Logo, se não houve discussão para consenso de uma a ideia integradora não foi atendida a primeira condição para materializar a integração. Desta forma, a segunda e a terceira condição decorrem da primeira, uma vez que não é possível explicitar o que não foi pensado ou planejado, e muito menos desenvolver o que não foi pensado ou planejado de forma sistemática e coerentemente. Os professores formadores destacaram a importância de um planejamento conjunto. A esse respeito o professor José respondeu: “um curso de pós-graduação lato sensu não pode ser realizado sem o planejamento e o comprometimento do corpo docente”. As falas dos professores sobre o planejamento integrado estão em concordância com Santomé (1998). Sobre esta questão denota-se que os professores formadores estão pré-dispostos à construção de um curso que ofereça condições a abordagens integradoras a fim de despertar nos professores cursistas uma ação-reflexão-ação sobre sua prática nesta direção. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3403 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A quarta condição a ser observada é estabelecer um sistema de conselho de alunos e professores para desenvolverem um controle sensível à tarefa global e esta condição também não foi atendida. A quinta e última condição para materialização do currículo integrado segundo Bernstein “[...] é de fundamental importância desenvolver um critério de avaliação muito claro”. De acordo com a análise documental do projeto do curso, optou-se por uma avaliação tradicional, que estipula de forma objetiva as condições estabelecidas para aprovação. Por outro lado, a avaliação em um contexto de integração, com base em nosso autor de referência, necessita ser definida de forma evidente, uma vez que em uma proposta que contemple a integração os conteúdos não estão mais isolados e se encontram a serviço de uma construção do conhecimento a partir de consensos em torno de uma ideia integradora. Portanto, seu relacionamento mais amplo e consistente pressupõe também outras formas de avaliação mais condizentes com a proposta de integração. Assim, a quinta condição para a materialização do currículo integrado, que versa sobre a clareza da proposta de avaliação, está atendida, porém, acrescentamos que, se por um lado as condições para materialização do currículo integrado não foram atendidas, o sistema de avaliação adotado pelo curso é compatível com o currículo coleção e, portanto, coerente com a proposta que por inferência até aqui nos aponta para um currículo do tipo coleção do curso de Especialização. A concepção de um currículo coleção se afirma na fala da professora cursista Iara (Turma 2009): “[...] por terem essa carga horária nenhuma dessas disciplinas pode deixar claro seus objetivos e nem serem claramente entendidas pela maioria de nós.” E segundo a professora Venina (Turma 2009) “A fragmentação resulta numa formação superficial”. Importante crítica à organização curricular disciplinar também se faz presente na obra de Santomé: [...] a forma mais clássica de organização do conteúdo, ainda predominante atualmente, é o modelo linear disciplinar, ou conjunto de disciplinas justapostas, na maioria das vezes de uma forma bastante arbitrária. Isso ocasiona o fim originário da educação como conhecimento compreensão do mundo e capacitação para viver ativamente no mesmo [...] Os resultados deste tipo de proposta curricular são, entre outros, a incompreensão daquilo que é estudado à força, por coerção, mais ou menos manifesta, pois tal fragmentação de conhecimento causa dificuldade para compreender o que foi estudado-memorizado. Nesta situação ocorre um “conhecimento acadêmico”, no qual a realidade cotidiana aparece desfigurada, com base em informações e saberes aparentemente sem qualquer ideologia e descontextualizados da realidade percebidos pelos alunos e alunas com uma ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3404 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior única finalidade, a de servir para superar as barreiras necessárias para passar de ano ou para a etapa posterior (SANTOMÉ, 1998, p. 103). No Brasil é comum encontrarmos nas escolas de Educação Básica e nas universidades os currículos organizados por disciplinas desconectadas que sofrem um forte controle externo, em que os relacionamentos significativos entre os conteúdos ficam a cargo de cada estudante, dentro de suas expectativas de aprendizagem e autodidatismo ao longo de sua trajetória de formação, desde as séries iniciais até a Pós-Graduação Lato e Stricto Sensu para aqueles que a alcançaram. Procurando encontrar as convergências e divergências do currículo da formação para o contexto do PROEJA, o que permite ou dificulta aliar teoria à prática aos egressos da formação docente, na análise documental das ementas das disciplinas observamos que o documento Base do PROEJA só foi adotado como bibliografia da disciplina Educação e Trabalho. Considerando que este documento por se constituir na base orientadora do programa poderia ter sido explorado em praticamente todas as disciplinas buscando trazer mais aproximação ao cenário do PROEJA. Provavelmente se o curso tivesse sido planejado por Eixos Curriculares o documento seria usado em todos eles. Não trazer o documento base do PROEJA para fomentar a discussão no curso de formação docente causou um distanciamento da própria modalidade que é nova e que o curso se propôs a formar. Houve, também, um distanciamento do currículo na abordagem da questão de gênero, posto que não encontramos em nenhuma das ementas e também não há ocorrência nas bibliografias apresentadas nos projetos analisados. Das doze ementas analisadas os temas das duas modalidades apenas quatro buscam a abordagem integrada do PROEJA em termos prescritos. As demais disciplinas buscam aproximação com a Educação Básica, a Educação de Jovens e Adultos e a Educação Profissional e dessa forma elas permaneceram onde estão não possibilitando a construção da identidade dos cursos de PROEJA. Sobre a aproximação dos professores formadores aos contextos do PROEJA, dos onze professores da especialização em consulta feita em abril/2011, a partir dos resultados da análise documental no Currículo Lattes, constatamos que: dois professores têm experiência no Ensino Médio, quatro têm experiência em Educação Profissional, uma tem experiência em PROEJA, porém nenhum dos professores registrou experiência em Educação de Jovens e Adultos e quatro deles têm aproximação ao PROEJA na perspectiva da pesquisa, visto que são ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3405 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior orientadores de Trabalhos de Conclusão de Curso da Especialização e não informaram experiência em nenhuma modalidade da Educação Básica. Nesse sentido, um professor de profissão é um ator no sentido do termo (TARDIF, 2008) e sem uma aproximação teórico-prática do saber fazer nos contextos do PROEJA, por mais esforço que a(o) professor(a) formador(a) possa empreender para que sua aula se torne interessante, ele(a) enfrentará dificuldade para fazer a contextualização de temas e projetos interdisciplinares no lócus da atuação docente dos egressos da formação. Os resultados da pesquisa mostraram que professores bacharéis com licenciatura ou apenas licenciados ingressaram na formação para “aprender sobre a modalidade”. Assim compreendemos que com tantos desafios a serem vencidos pela formação destacamos que ela não é simples e necessita de prática e aproximação do contexto escolar ao qual se destina, sob o risco de cair na mesmice das formações superficiais e aligeiradas, que tomam tempo e não resolvem a questão. Considerações finais De acordo com as Propostas gerais para elaboração de projetos e alinhados com o documento base do PROEJA ensino médio, os projetos do Curso de Especialização das edições do período pesquisado estão no âmbito do currículo prescrito (GIMENO SACRISTÁN, 2000). Não ocorreu a integração das disciplinas conforme as cinco condições de materialização do currículo integrado propostas por (BERNSTEIN, 1977), dentro de cada Eixo Curricular na perspectiva proposta pelo documento orientador, sendo esta necessária ao rompimento da fragmentação para que projetos relacionados à prática possibilitem a construção contextualizada no lócus de atuação dos docentes do curso egressos da formação. As disciplinas buscam aproximação com a Educação Básica, a Educação de Jovens e Adultos e a Educação Profissional e dessa forma permaneceram onde estão não possibilitando a construção da identidade dos cursos integrados do PROEJA. Na prática o curso não utilizou Eixos Curriculares (BRASIL, 2006). A falta de discussão do Documento Base do PROEJA causou um distanciamento da própria modalidade que é nova e que o curso se propôs a formar. Há de se considerar ainda que a falta do uso de metodologias integradoras para aproximação dos contextos reais como resolução de problemas não possibilitou aliar teoria e prática na formação no curso como um todo. Os professores formadores no período de início de trabalho no curso de Especialização para o PROEJA também estavam iniciando sua experiência nos contextos da ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3406 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior modalidade, a pouca ou nenhuma experiência em Educação Básica indubitavelmente prejudicou o processo ensino aprendizagem no curso. A pesquisa constatou que professores cursistas com formação inicial em curso de bacharelado e com licenciatura na mesma área ou apenas licenciados, ambos com experiência docente responderam que ingressaram na formação para “aprender sobre a modalidade”. Professores Cursistas, independente da formação inicial, indicaram que não foram atendidos em suas demandas de formação alegando falta de aprofundamento das questões relativas à Educação de Jovens e Adultos. É possível que isto tenha sido ocasionado pela falta de experiência dos professores formadores na temática central do curso e pela fragmentação das disciplinas evidenciadas na respectiva estrutura curricular. A maioria deles atribuiu as suas experiências profissionais como fator preponderante no seu aproveitamento do curso. Assim, este trabalho se soma às discussões do currículo da formação continuada de professores em nível de pós-graduação em educação para o PROEJA, trazendo a necessidade de reflexão sobre o currículo integrado na formação docente, que forma para o exercício da docência em contextos escolares da Educação Básica, que integram Educação Profissional à Educação de Jovens e Adultos. Referências Bibliográficas ARROYO, Miguel. Trabalho: educação e teoria pedagógica. In: FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008. BERNSTEIN, Basil. Clases, códigos y control: hacia una teoria de las transmisiones educativas. Madri: Ediciones Akal S. A, 1977. BRASIL. Decreto nº 5478/05. Institui, no âmbito das instituições federais de educação tecnológica, o Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA. Brasília, 2005. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3407 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior ______. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Capacitação de profissionais do ensino público para atuar na educação profissional técnica de nível médio integrada ao ensino médio na modalidade EJA. Propostas gerais para elaboração de projetos pedagógicos de curso de especialização. Brasília: MEC, 2006. Não publicado. ______. Lei de Diretrizes e Bases para o ensino 1º e 2º Graus nº 5692, de 11 de agosto de 1971. Brasília, 1971. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5692.htm>. Acesso em: 20 abr. 2011. CIAVATTA, Maria. Ensino médio integrado: concepções e contradições / Gaudêncio Frigotto, Maria Ciavatta, Marise Ramos (org.) – São Paulo: Cortez, 2005 pág. 83/105. GATTI, Bernardete A. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3408 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos. Tradução: GRASSI, Daniel. 3. ed. Porto Alegre, RS: Bookman, 2005. 212p. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3409 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior POLÍTICAS PÚBLICAS, ENSINO SUPERIOR E AVALIAÇÃO: OS DESAFIOS (PRO) POSTO PELA REFORMA Cristina Nacif Alves24 UFRJ e UNIABEU Eliane Maria de Freitas UNIABEU Priscilla Barbosa Bezerra UNIABEU RESUMO Este trabalho problematiza as mudanças no campo educacional a partir da reforma do Estado, proposta no final do século passado e questiona o impacto das avaliações de sistemas, em particular, o ENADE, sobre a formação de professores. Em recente pesquisa constatamos que professores e alunos tendem a depositar no outro a responsabilidade pelos baixos níveis de desempenhos relativos às aprendizagens dos alunos. Sendo assim, perguntamos: as avaliações de sistemas vão além da mera classificação dos sujeitos? Têm permitido a reflexão ética sobre os rumos da educação e sobre o desenvolvimento do conhecimento? Que reflexos tais mecanismos avaliativos incidem sobre a formação de professores? Consideramos a contextualização da reforma do Estado uma possibilidade de compreensão das novas relações pedagógicas adotadas no interior das instituições de ensino superior. A minimização do papel do Estado marca o direcionamento de políticas públicas. Consideramos a contextualização da reforma do Estado uma possibilidade de compreensão das novas relações pedagógicas adotadas no interior das instituições de ensino superior. A minimização do papel do Estado marca o direcionamento de políticas públicas educacionais com contornos da concepção de avaliação como regulamentação. Tal fato recai sobre o conhecimento e faz com que práticas pedagógicas enfatizem a construção de competências e habilidades em detrimento da apropriação e do desenvolvimento do conhecimento. Palavras-chave: Avaliação de sistemas. Ensino superior. Formação de professores. ABSTRACT This paper discusses changes in education from the state reform proposal at the end of last century and questions the impacto f assessment systems, in particular, ENADE, on teacher training. In a recent survey found that teachers and students tend to place responsibility on the other by low levels of performances in relation to student learning. Therefore, we ask, do the evaluations of systems go beyond mere classification of subjects? Do they have allowed the ethical reflection on the direction of education and the development of knowledge? What evaluative mechanisms such reflections focus on teacher training? We consider that the context of the state reform possibilities a new understanding of pedagogical relationship adopted in the institutions of higher education. The minimizing of the role of the state marks the direction of public policies considering that the context of state reform possibilities a new understanding of pedagogical relationships adopted in the institutions of higher education. The minimizing of the role of the state marks the direction of educational policies with contours of the concept of evaluation as regulation. This fact rests on the knowledge and makes that pedagogical practices emphasize the building skills and abilities at the expenses of apropriation and development of the knowledge. Keywords: Evaluation of systems. Higher education. Teacher training. 24 Professora do Centro Universitário Abeu/UNIABEU. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação/GPEE, da Faculdade de Educação/FE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Contato: [email protected]. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3410 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior CONSIDERAÇÕES INICIAIS Abordar a reforma do Estado requer, em primeiro lugar, a compreensão de sua gênese a partir da historicidade que a envolve. Os anos finais do século XX e os iniciais do XXI têm sido cenário para o registro histórico de profundas mudanças nos campos econômico, político, sociocultural, ético, ideológico e teórico. Tais mudanças foram impulsionadas pela nova crise do capital. A crise do capital (1929/1932) e os efeitos da 2ª Guerra Mundial reforçam a necessidade de intervenção do Estado nas esferas públicas. Estado assume a papel de proteger a população e amplia o conceito de cidadania baseado na concepção de direitos sociais indissociáveis à existência das pessoas: surge o Estado de Bem Estar Social. O indivíduo tem direito a um conjunto de bens e serviços através do Estado ou indiretamente, mediante seu poder de regulamentação sobre a sociedade civil. A ausência de trabalho torna-se a questão social por excelência. Com isso, estruturam-se idéias de intervenção estatal na economia como artefato de racionalização para a obtenção de índices de produtividade mediante regulamentações sociais e políticas públicas para uma maior eficiência nacional. Momento em que a política social torna-se produto como investimento no setor empresarial, justamente por seu caráter profilático e preventivo de combate ao desmantelamento da estrutura social. Em resumo, nesse momento histórico, a garantia de políticas públicas torna-se, sobretudo, a via de organização eficiente da produção. Segundo Bourdieu & Wacquant (2002), “num momento em que a competição pelo capital cultural se intensifica e quando as desigualdades de classe crescem vertiginosamente”, conceitos são produzidos pela estrutura e pela ideologia do capitalismo em crise como meio de superação, tais como: globalização, reengenharia, sociedade pós-industrial, sociedade do conhecimento, qualidade total, empregabilidade etc. A ideia contida nestas noções justifica a necessidade de reformas radicais no aparelho do Estado e nas relações sociais. Reformas no Estado são propostas porque, apesar dos gastos com políticas públicas, o referido Estado se apresenta como improdutivo e ineficaz em sua capacidade de intervenção na problemática da segurança social. Portanto, as reformas colocam a sociedade civil e o indivíduo, não mais o Estado no centro da gestão dos problemas sociais (COUTINHO, 2011). No final dos anos de 1960, o padrão de acumulação de riquezas dos “anos dourados” do capitalismo (Hobsbawm,1995), dá sinais de esgotamento e propaga a estagnação do capital a partir dos anos de 1970. Com isso, surge uma nova proposta para a configuração das políticas sociais, visto que a tríade (acumulação, equidade e democracia política) parece não ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3411 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior ser mais profícua ao crescimento econômico. O Estado de Bem Estar Social fracassa: além de não garantir a devida proteção da vida coletiva, se constitui em ameaçava à liberdade econômica e política, conforme expressa Coutinho (2007) ao comentar a obra de Hayek. A nova proposta sustenta a administração de recursos e a eficiência de suas aplicações na busca de agilidade, modernidade e eficácia como metas racionais com vista à conquista do objetivo central: o desenvolvimento econômico, a partir da parceria e solidariedade entre 3 setores sociais – o público representado pelo Estado, o privado constituído pelo mercado e a sociedade civil organizada para a participação responsável. Direitos sociais são deslocados para o setor de serviços, antes obrigação do estado e, agora, responsabilidade de toda a sociedade. Surge o conceito Terceiro Setor (GONÇALVES, 1996) que contempla iniciativas privadas de utilidade pública com origem na sociedade civil e, por isso, se interpõe entre o público e o privado. No campo educacional, notam-se ajustes dos sistemas educacionais às demandas da nova ordem social e à necessidade de instauração de uma efetiva democratização do acesso ao conhecimento em todos os seus níveis de ensino. A década de 1990 registra a marca dos organismos internacionais tanto na organização e na estrutura educacional como nos aspectos relativos à prática pedagógica, através do desenvolvimento de assessorias técnicas e de produções documentais e do financiamento eventos e recursos destinados ao âmbito educacional, conforme a Conferência Mundial de Educação para Todos (Jomtien, Tailândia) financiada pelas agências UNESCO, UNICEF, PNUD e Banco Mundial, em 1990. As mudanças em curso apontam para a formação de indivíduos social, responsável e eticamente preocupados com os rumos planetários. A educação assume o papel de protagonista no combate aos problemas sociais. A Educação reveste-se de meio fundamental para o desenvolvimento, nos indivíduos, de capacidades de respostas aos desafios (SHIROMA, 2002). No Brasil, o MEC adere às ideias propostas e, a paritr de 1995, assinala a concepção de educação como responsável pelo aumento da produtividade, redução da pobreza e inserção do país na era globalizada. O investimento na formação de pessoas para o desenvolvimento social torna-se central, conforme expresso nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN): "a sociedade brasileira demanda uma educação de qualidade, que garanta as aprendizagens essenciais para a formação de cidadãos autônomos, críticos e participativos, capazes de atuar com competência, dignidade e responsabilidade na sociedade em que vivem ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3412 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior e na qual esperam ver atendidas suas necessidades individuais, sociais, políticas e econômicas" (Brasil, MEC, 1997, p. 19). De acordo com a nova LDB, a Educação Básica tem por “finalidades desenvolver o educando, assegurando-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania, e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores” (Lei nº 9.394/96, art. 22). A Educação Básica se apresenta como lócus complementar à cidadania para a realização de condições básicas para o exercício consciente da cidadania política. A nova finalidade da Educação Básica força a revisão de seu papel e de sua organização: a escola precisa ser gerida com competência para se tornar eficiente na produtividade e satisfação dos objetivos pretendidos. Por exemplo, em relação ao problema do fracasso escolar anunciado no livro introdutório dos PCNs: “os altos índices de repetência e evasão apontam problemas que evidenciam a grande insatisfação com o trabalho realizado pela escola" (Brasil, MEC, 1997, p. 19). A baixa qualidade do ensino evidencia a incapacidade dos sistemas educacionais de garantir a permanência e continuidade do aluno na escola. Para superar a crise de eficiência da escola, o Plano Nacional de Educação (PNE) defende uma gestão adjetivada (FREITAS, 2007) e democrática “na forma de Conselhos de Educação que reúnam competência técnica e representatividade dos diversos setores educacionais” (Brasil, MEC, 1998). Novas tendências educacionais propõem maior produção, a descentralização, o envolvimento da comunidade e a busca permanente de inovações a fim de promover a expansão eficiente do sistema escolar, combater os baixos índices de permanência na escola e acompanhar as demandas sociais como garantia de “suporte para uma vertiginosa expansão, sustentada na qualidade da oferta" (Brasil, MEC, 1999). A reforma do Estado incide sobre todo o sistema educacional para adequá-lo à reforma econômica em curso. Almeja implementar a administração pública gerencial em detrimento da burocrática, cujas marcas são rigidez de procedimentos, excesso de normas e regulamentos e centralização das funções do Estado. Por isso, a reforma fundamenta a EB em princípios como flexibilidade, responsabilidade e ética para escolher e autonomia para decidi conforme suas necessidades emergentes locais. Desburocratização da administração dos sistemas e unidades escolares é o foco das reformas que devem contribuir com o sucesso da Educação. O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado (Brasil, 1995) afirma que as políticas públicas não atendem as necessidades sociais do cidadão, em função da rigidez e da falta de eficiência da máquina ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3413 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior administrativa. A escola livrar de tais procedimentos pode concretizar cidadania e resgata a qualidade e a racionalidade necessárias à escola de qualidade. Contudo, o desenvolvimento pleno da Educação depende do envolvimento de todos os que atuam direta ou indiretamente na escola. Portanto, a LDBEN 9394/96 sustenta a colaboração na execução das políticas educacionais e na implementação de programas capazes de descentralizar os recursos dos sistemas e unidades escolares para a instauração de gestões, valores e princípios transparentes voltados ao bem comum. A educação passa a ser responsabilidade de todos, e não apenas do Estado. A consciência dessa responsabilidade é requisito fundamental para a transformação da Educação e para a instauração de práticas pedagógicas baseadas na eficácia. O que a reforma do Estado propõe para a Educação? O desafio de contribuir para o desenvolvimento do país e para a superação dos atrasos na produção de bens para a qualidade de vida. Poderá a educação realizar tal feito? A quem cabe a garantia do direito? De quem é a responsabilidade pela qualidade na educação? Qual a natureza da reforma? Reformar ou (re)formar? AVALIAR, EXAMINAR, VERIFICAR PARA CLASSIFICAR O tema Avaliação Educacional constitui-se num campo teórico e prático que tanto abrange diferentes modelos e políticas como comporta processos e procedimentos variados no interior das instituições responsáveis pela formação humana. Falar em avaliação (de Sistemas educacionais, de aprendizagens, de desempenho escolar, institucional, de programas) implica a caracterização de seus processos, bem como a problematização de suas implicações para as relações sócio-históricas que os constituem como tal. As discussões ligadas à avaliação educacional não são consoantes quanto ao papel e função da avaliação educacional e nem sempre convergem para o mesmo ponto. Segundo Gatti (2009), ao contrário de diversas concepções favorecerem o debate, nota-se a escassez de problematizações e discussões quanto a seus desdobramentos tanto para a organização e o funcionamento das instituições de ensino como para a dinâmica social mais abrangente. Ainda de acordo com Gatti (2009), o pouco conhecimento sobre processos e sistemas de avaliação implicou no tardio processo de sua valorização na Educação e de seus efeitos quanto ao tratamento dado ao tema nos espaços de formação de profissionais da área. Por isso, análises e críticas caminham para a conquista de maiores adesões acerca das políticas nacionais e regionais de avaliação e da abrangência dos sistemas propostos. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3414 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Embora possamos falar em avaliação nos diversos níveis e de suas repercussões nas diversas modalidades de ensino, o foco principal diz respeito aos processos avaliativos escolares baseados nos princípios e valores referenciados na LDBEN 9394/96. Para o desenvolvimento da problemática que envolve a avaliação serão levados em conta apenas os que tangem à: “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”, “valorização do profissional da educação escolar”, “gestão democrática do ensino público” e “garantia de padrão de qualidade”. A avaliação tem sido ao longo de muitos anos, abordada como instrumento que o professor dirige ao aluno para saber o quanto ou o que ou como ele aprendeu. Avaliar significa conferir a aprendizagem dos alunos e, apesar de diversas concepções, todas têm sido usas para falar ao professor sobre as diversas maneiras de avaliar o aluno. Com as repercussões da Reforma do Estado sobre a Educação, o tema é tomado como acepções de diagnóstico de problemas, controle de direitos, desempenho de indivíduos e instituições e critério de justiça. Os novos sentidos da avaliação influenciam mudanças nos discursos e práticas sobre métodos de ensino, construção de conhecimento, uso de novas tecnologias, interdisciplinaridade, gestão escolar e pedagógica para formar pessoas aptas a aprender, desejosas por saber sempre mais, atuantes no cotidiano, responsáveis pelo futuro das relações sociais, participativas e transformadoras dos processos de exclusão. A LDB 9394/96 faz diversas referências ao tema e relaciona-o de forma relevante a instituições, sistemas, alunos, professores e processos educacionais. Segundo a LDB em questão, a avaliação tem o objetivo de diagnosticar problemas da realidade educacional para nela interferir, conforme art. 9º, inciso VI, que expressa como incumbência da União “assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino” (BRASIL, MEC, LDB 9394/96). Dessa forma, avaliar = definir necessidades = traçar metas = identificar potencialidade/limites = alterar para melhorar. Neste caso, avalia-se para sanar as deficiências e projetar o futuro da educação. Ou seja, o conceito de avaliação revela-se não como instrumento de medida absoluta, mas como análise e projeto para a implementação de ações. Seu caráter prospectivo volta os olhos de quem avalia para as potencialidades das metas a serem alcançadas. A LDB atesta que cabe à União “assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar” e “assegurar processo nacional de avaliação das instituições de educação superior” (LDB 9394/96 - Art. 9º, inciso VI e VIII). Nesse caso, a avaliação assume a tarefa de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3415 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior controlar o acesso de qualidade da Educação como direito de todos com aspecto amplo e atravessado pelas diferentes instâncias. O poder da União frente ao controle da qualidade na Educação se faz presente em relação aos cursos de Mestrado e Doutorado, à Educação a Distancia, à definição de atribuições de Estados e Municípios e, dessa forma, evidencia a valorização do direito à formação dos professores e dos educandos. Pois se as instituições são frequentemente avaliadas, professores e alunos também o são, sendo necessário que as mesmas se preocupem e viabilizem o processo de formação continuada e permanente dos envolvidos com a Educação. Quando se trata da organização da Educação Básica, o referido documento afirma que o rendimento escolar será observado quanto à “avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais” (LDB 9394/96, Art. 24, inciso V, alínea a). O texto privilegia uma concepção de avaliação qualitativa com foco no processo em detrimento de aspectos pontuais e classificatórios. Novamente a qualidade da Educação aparece com tenacidade, justamente, por não ser uma realidade (conforme dados de pesquisas como IEA, Iaep, Saeb, Enen, Enade, entre outras). Então, se a qualidade na Educação ainda é uma conquista, o que a qualifica bem? Para responder, pode-se recorrer ao Título II sobre princípios, dentre os quais estão a “valorização da experiência extra-escolar” e a “vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais” (LDB 9394/96, ART. 3º, incisos X e XI). Ainda na LDB atual constata-se a concepção de avaliação como estabelecimento de padrões de qualidade e critérios justos. O artigo 47 versa sobre a obrigação das instituições de Ensino Superior informar os critérios aos educando antes de serem avaliados. Assim, não sendo pegos de surpresa, podem se preparar adequadamente para tal. O artigo 36, inciso II, da LDB 9394/96, recomenda para o exercício docente, no Ensino, Médio adotar “metodologias de ensino e de avaliação que estimulem a iniciativa dos estudantes.” Além disso, versa sobre metodologias e formas de avaliação que viabilizem conhecimentos científicos e tecnológicos e de linguagens contemporâneas. Critérios de avaliação apontam para a participação social como exercício pleno de direitos e deveres, condição para a instauração da vida cidadã. Portanto, avaliar com critério significa adotar condições justas de participação e, ao mesmo tempo, garantir o rumo certo ao que se anuncia como qualidade educacional. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3416 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior QUAIS OS DESAFIOS SÃO RESERVADOS À EDUCAÇÃO? A análise geral da LDB 9394/96 permite vincular formação educacional, trabalho e práticas sociais. Por isso, as instituições de ensino precisam promover o permanente processo de investigação junto ao mercado de trabalho para programar informações e conhecimentos capazes de tornar o educando apto a lidar com as inovações relativas ao mundo do trabalho e às práticas sociais. Com isso, o referido documento aproxima a educação da eficiência gerencial, uma vez que assume como princípios o aperfeiçoamento permanente, o esforço coletivo na busca de soluções para os problemas e a alterações nas condições internas das organizações para melhor funcionamento para alcançar a qualidade plena. Por isso, as diretrizes do MEC expressam uma grande preocupação com o controle de resultados e reforça necessidade de padrões de avaliação com o objetivo de garantia da qualidade dos serviços educacionais. Educação e empresa aparecem sob a ótica do domínio da satisfação com o produto. Políticas de avaliação de sistemas são concebidas e sugeridas como meio de melhoria da qualidade na educação no Brasil. A avaliação detecta os problemas do sistema educativo e, com isso, permite as soluções cabíveis para majorar a educação brasileira. A perspectiva é de que o insucesso escolar resulta da ausência de monitoramento dos resultados e de verificação processos inadequados de educação. A LDB assume a prática de avaliação como política social capaz de reverter a situação de exclusão, na qual grande parcela se encontra. Emergem no campo educacional dois aspectos centrais acerca da avaliação: a defesa da importância de revisão permanente dos instrumentos usados para colher os dados, já que a sociedade é dinâmica e sofre mudanças permanentes; e o desafio de gestar os dados com eficácia para organizar e beneficiar a educação nacional. Por isso, a LDB aponta para a incorporação de novos mecanismos de gestão das unidades escolares, tendo em vista a superação da crise de eficiência por onde passa a escola. A escola é tomada como ineficaz porque não abarca estratégias de autonomia e participação efetivas quanto ao enfrentamento dos problemas concretos existentes no interior da escola e no encaminhamento de atitudes práticas que permitam a eliminação dos referidos problemas. Este discurso se justifica pela adesão às teorias administrativas, onde práticas de motivação, cooperação e integração são voltadas para a prevenção, resolução ou eliminação de barreiras ao crescimento dos indivíduos e da sociedade. A atuação ideológica que se espera dos gestores escolares e comunidade envolvida com a escola – definida também no Plano Nacional de Educação (PNE) – refere-se à “melhoria ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3417 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior dos níveis de qualidade do ensino requer a profissionalização tanto das ações do Ministério da Educação e dos demais níveis da administração educativa como a ação nos estabelecimentos de ensino. (...) implica a definição de competências específicas e a dotação de novas capacidades humanas, políticas e técnicas, tanto nos níveis centrais como nos descentralizados, tendo como objetivo o desenvolvimento de uma gestão responsável. (...) com o objetivo de aumentar a racionalidade e produtividade." (Brasil, MEC, 1998) A defesa da gestão democrática e do poder decisório de todos os envolvidos na educação admite diversas concepções e metodologias de garantia de qualidade escolar. Quem decide o que é qualidade? A resposta pode ser encontrada nos argumentos e nas orientações curriculares destinados à Educação Básica, aqui, resumidos em quatro dimensões educacionais ou competências: 1) para a Educação permanente, visto que a sociedade atual é dinâmica e, por isso, encontra-se em constante mudança; 2) para a participação orientada para os valores humanos, o trabalho em equipe, a comunicação, a solidariedade, o respeito mútuo, a criatividade; 3) para o desenvolvimento de capacidades técnicas e científicas que atendam as demandas relativas a problemas e necessidades sociais; 4) para a formação de postura reflexiva, analítica, ética e flexível que envolve os aspectos de diversidade étnico-racial e cultural, gêneros, classes sociais, escolhas sexuais, entre outros. A adesão ao exposto confere o que tem sido denominado como qualidade da educação. No entanto, a quem cabe o controle da qualidade na educação? Na LDB 9.394/96, o artigo 9º responde: cabe à União “assegurar processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior (...), objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino”. A partir daí, diversas políticas de avaliação de desempenho e de sistemas são desenvolvidas, tais como Saeb (Sistema de avaliação da educação básica), Prova Brasil (Avaliação do desempenho de alunos do Ensino Fundamental em proficiência em Linguagens e Matemática) e Provinha Brasil (Avaliação do desempenho de alunos do 2º ano do Ensino Fundamental), Enem (exame nacional do ensino médio), Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior), dentre outras. Apesar de discursos sobre avaliação apresentarem-se como inovadores e afirmaremse com argumentos de combate às desigualdades, as investigações acerca da avaliação em Educação, de modo geral, apontam uma dimensão meramente técnica e instrumental, resultante de olhares empobrecidos ou destituídos das tensões pertinentes à política, à economia e à cultura que marcam sua proposição como uma política pública e social, que ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3418 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior mascara a grande desigualdade de acesso à educação, bem como de permanência e sucesso na trajetória acadêmica. Perspectivas prescritivas sobre os modos como a avaliação deve ser formulada, estruturada e realizada exigem do sujeito avaliado conhecimentos específicos e pontuais. Movimento que, ao invés de incidir positivamente sobre a formação sólida e fundamentada dos sujeitos, toma o conhecimento de forma superficial e impulsiona o desenvolvimento de competências e o treinamento habilidades específicas para um agir social que reforça a desigualdade ocultada pelo viés da justiça social. Esta garantida por instrumentos universais de avaliação que supostamente forçaria a constituição da equidade educacional. Como romper com os limites entre produção e reprodução social, que apontam a avaliação – como política social e solução mágica e lógica para a superação das diferenças existentes entre os indivíduos ou entre as instituições? Quais argumentos desvelam as artimanhas (SAWAIA, 2004) da proposta de redução das práticas sociais à vontade e ao compromisso políticos como causas únicas e motrizes das transformações culturais? Como identificar as armadilhas (CASTEL, 2000) da defesa ingênua de parceria entre as instâncias públicas e privadas como possibilidade para a eclosão de realidades mais promissoras e profícuas a todos os indivíduos? De que meio o processo de avaliação precisa para ultrapassar a visão utilitária de correção de conduta ou de modelo disciplinar e, ao mesmo tempo, colocarse como prática que sustenta ou recusa a forma como o conjunto de homens tem acesso ao conhecimento e à educação? AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO: TRAJETÓRIAS E CONTEXTOS Com as repercussões da Reforma do Estado sobre a Educação, o tema é tomado como acepções de diagnóstico de problemas, controle de direitos, desempenho de indivíduos e instituições e critério de justiça. Os novos sentidos da avaliação influenciam mudanças nos discursos e práticas sobre métodos de ensino, construção de conhecimento, uso de novas tecnologias, interdisciplinaridade, gestão escolar e pedagógica para formar pessoas aptas a aprender, desejosas por saber sempre mais, atuantes no cotidiano, responsáveis pelo futuro das relações sociais, participativas e transformadoras dos processos de exclusão. Cabe à instituição de ensino formar o cidadão crítico dos problemas sociais, criativo para engendrar mudanças e autônomo para escolher, decidir e realizar. Segundo Freitas (1999), na última década dos anos de 1990, a noção de qualidade na educação passa ser vinculada a uma política de regulação e de controle federal, de onde ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3419 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior emergirão dados sobre a realidade educacional, social e cultural brasileira e sistemas nacionais de avaliação. Tanto os dados obtidos pelo governo como os exames nacionais do desempenho de alunos e de instituições são concebidos como elementos estratégicos da boa-governança (COSTA, 2008) educacional no país. Freitas (2007) aponta que o recente ingresso do Brasil no campo macro da avaliação constitui-se numa contradição frente aos graves problemas do processo de ensinoaprendizagem. Para a autora, este fato descortina limites e promove análises reducionistas que resultam não na almejada qualidade da educação, mas na administração do “mal-estar social” cotidianamente compartilhado, principalmente por alunos e professores, no enfrentamento dos problemas concretos da escola. A Reforma do Estado sugere que a compreensão da educação seja análoga à de organizações empresariais (Plano Diretor, 1995). O uso estratégico para lidar com a rapidez das mudanças tecnológicas e com o intenso movimento de informações e conhecimentos conduz à apreciação da realidade e o destaque de oportunidades ou ameaças na concretização dos objetivos a serem alcançados. A avaliação passa a ser concebida como mecanismo de controle e de medida da eficácia da educação. Com discurso semelhante, o Inep também realiza todos os anos o Censo Superior com a intenção informar sobre a situação realidade do Ensino Superior (ES) e de detalhar as tendências do setor, tanto para a comunidade acadêmica quanto para a sociedade em geral. As informações dizem respeito às instituições de ensino superior, seus cursos de graduação (presencial ou à distância) e cursos seqüenciais, à oferta de vagas, inscrições, matrículas, ingressantes e concluintes, aos docentes. Outro procedimento nacional de avaliação refere-se aos cursos de graduação com o objetivo de subsidiar o processo de regulamentação, exercido pelo MEC, como garantir a transparência dos dados sobre qualidade da ES a toda sociedade. Os indicadores de qualidade são produzidos pelo Inep através do (Enade) e das avaliações realizadas pelas comissões de especialistas para verificar as condições de ensino, o perfil do corpo docente, as instalações físicas e a organização didático-pedagógica. Os resultados servem para ara autorização, para reconhecimento e para renovação de reconhecimento das (IES), mecanismos vinculados à emissão de diplomas. A avaliação das IES compõe a (Sinaes) envolve aspectos como: ensino, pesquisa, extensão, responsabilidade social, desempenho dos alunos, gestão da instituição, corpo docente, instalações entre outros. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3420 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Se a qualidade na Educação ainda é uma conquista, o que a qualifica bem? Quando se trata de Ensino Superior, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) toma para si a tarefa de aprofundar o conhecimento do Ensino Superior, a partir da coleta de dados sobre a qualidade das Instituições de Ensino e dos cursos oferecidos, bem como do desempenho de estudantes. O Sinaes objetiva: identificar mérito e valor das instituições, áreas, cursos e programas, nas dimensões de ensino, pesquisa, extensão, gestão e formação; melhorar a qualidade da educação superior, orientar a expansão da oferta; promover a responsabilidade social das IES, respeitando a identidade institucional e a autonomia. (BRASIL, MEC. Disponível em: http://portal.inep.gov.br/superior-sinaes-objetivos, acessado em: 18 de setembro de 2011) A partir deste discurso, compreende-se que a eficácia no ensino e suas repercussões práticas recaem sobre a responsabilidade social tanto na identificação de demandas de formação como na instauração de processos formativos voltados para o bem comum. No que se refere à formação de professores, como nos cursos de Licenciaturas e Pedagogia, espera-se que as Instituições de Ensino Superior (IES) visem a formação para a gestão democrática. Ou seja, que as IES garantam a formação para a incorporação de processos coletivos de participação e poder de decisão para todos na fundamentação e na construção de um processo político educacional muito diferente das ainda atuais práticas de gestão autoritárias. A proposta potencialmente democrática de gestão educacional constituise num fazer coletivo que se realimente e se refaz nas relações sociais de desejo e luta pela garantia da autonomia da unidade escolar, experimentada nos processos colegiados de participação real concreta de toda a comunidade escolar na organização, construção e avaliação dos projetos pedagógicos, na administração dos recursos da escola (PARO, 1997). Portanto, profissionais da educação, alunos, pais, funcionários assumem responsabilidades sobre os rumos da educação, a partir do poder decisório de suas atuações na organização da escola. Delineia-se novo perfil para a formação e para o trabalho docente sobre o discurso do ser produtivo, do ser competitivo, do ser flexível. Com isso, questões sociais como desemprego, falta de oportunidades e ausência de trabalho são abordadas como consequência de traço cognitivos e estruturas mentais (GARDNER, 2004) em resposta aos problemas provenientes de realidades culturais, sociais, políticas, econômicas próprias. Crescem as perspectivas de gerenciamento e governabilidade na esfera da sociedade civil, lugar de recursos humanos eficientes, e de (re) evolução científica e tecnológica, terreno de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3421 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior desenvolvimento do conhecimento, de informações e de técnicas disponíveis ao bom desempenho. Ao legitimarem o novo papel do Estado, as políticas educacionais satisfazem às demandas do capital, portanto, a lógica do mercado. A partir aí, a educação torna-se um dos importantes meios de ajuste estrutural e fiscal para que o Estado corresponda às exigências das agências internacionais, como Banco Mundial (BM), a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Organização Mundial do Comércio (OMC). De acordo com Frigotto (2001), as dimensões públicas e privadas se fundem para estruturar os aspectos sociais, políticos e econômicos e, no caso educacional, afirmam uma concepção produtivista e mercantilista que visa desenvolver competências e habilidades para a empregabilidade requerida pelo mercado e imposta pelo novo padrão tecnológico de produção, circulação e regulação de conhecimentos e informações. (Re)formas de todos os tipos se constituem como mecanismos para a manutenção das bases de funcionamento do sistema de acumulação e, assim, reforçam a tese do Estado Regulador. Podem-se aproveitar os conceitos de Florestan Fernandes (1975) sobre capitalismo dependente e contra-revolução burguesa para problematizar a atual reforma universitária: as reformulações harmonizadas com lógica do mercado alteram as relações sociais, a oferta educacional, as condições de realização do processo pedagógico? Tais reformas democratizam a educação? Ou transferem as responsabilidades públicas para a sociedade civil e, co isso, validam financiam a iniciativa privada? A reforma universitária regulada por diversos decretos abarca: supervisão e avaliação das instituições de educação superior, (Decreto nº. 5.773/06); criação do Programa Universidade para Todos (PROUNI25) (Lei nº. 11.096/05); instituição do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES26), (Lei N. 10.861/04); regulamentação das Inovações Tecnológicas27 (Lei 10.973/04). Tais iniciativas marcam a presença de processos de mercantilização e de privatização na educação ancorados no estabelecimento de parcerias público-privado (PPPs). Sob a ótica da flexibilização, as novas relações de ensino e pesquisa reestruturam. Para Chaves (2006), nessas condições, o trabalho docente encontra-se desvalorizado e dependente do mercado. Ao ser julgado pela lógica racionalizadora do capital, também perde 25 Programa do governo de renúncia fiscal aos empresários da educação em troca da liberação de bolsas de estudo integrais e/ou parciais (50% e 25%) para alunos de baixa renda. 26 O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior aprofunda as formas de avaliação institucional já instituídas pelo governo anterior e mantém a mesma concepção de produtividade, meritocracia e competitividade. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3422 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior sua autonomia em relação ao saber e seu valor passa a ser determinado pela produtividade premiada ou punida. Conforme MOYSÉS e COLLARES (2005), a Lei de Inovação Tecnológica (Lei 10.973) é um ataque à Universidade e um impedimento ao conhecimento. Pois reduz as possibilidades de avanços científicos e o consequente avanço tecnológico: a educação tornase produto comercializável. A educação tratada como de mercadoria assume o caráter de treinamento. Esta se constitui na grande preocupação de diversos autores (CUNHA, 2002; CURY, 1997; DOURADO, 2006; FERNANDES, 2003FREITAS, 2005; GENTILI, 2002), sobre o aspecto técnico e pragmático que a educação básica tem destinado aos alunos, a partir dos resultados dos Programas de Avaliação. Como por exemplo, no caso do Enem defendido como critério universal para o acesso ao Ensino Superior. Além disso, modalidades dos cursos tecnólogos (de curta duração), a educação à distância (EAD) sustentam a formação como exercício de competências e prática de habilidades para a formatação de projetos de interesse privado com a certificação da universidade. Em Educação e reforma universitária no Brasil, obra organizada por ORSO (2007), quatro pesquisadores Dermeval Saviani, Paolo Nosella, João dos Reis Silva Júnior e o próprio organizador apontam que, na educação superior, lugar de lutas e disputas, não há espaço para práticas inocentes. A prática docente destina-se ao trabalho pedagógico e, somente assim, poderá efetivamente contribuir para a melhoria das condições de vida e de trabalho das pessoas. Assim, expressam a denúncia da reforma que, ao defender a melhoria da educação superior, apresenta-se como um projeto perverso que deteriora o ensino público superior e avigora o aumento das desigualdades sociais. Este será o desafio para os que lutam por um modelo único de qualidade da educação Consideramos este o caminho para afastar a educação do modelo baseado no treinamento de competências e habilidades (PERRENOUD, 2001) e aproximá-la da articulação entre teoria e prática (ALVES, 2007). 27 Essa lei estimula o professor a se tornar um “empreendedor” por meio de parcerias coma iniciativa privada ou de liberação do ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3423 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior REFERÊNCIAS ALVES, C. N. O sentido dos argumentos para a formação de coordenadores pedagógicos: caminhos para a aproximação entre teoria e prática. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Faculdade de Educação, UFRJ, 2007. BEHRING, E. R.; BOSCHETTI, I. Política social: fundamentos e história. São Paulo: Cortez Editora, 2008. BOURDIEU, P; WACQUANT, L. 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Para este trabalho, utilizaram-se os resultados parciais da dissertação “Bases metodológicas da formação em Fisioterapia: discutindo o distanciamento entre os processos de formação e a utilização da força de trabalho”, que a autora desenvolve junto ao Programa de Pós-Graduação em Modelos de Decisão e Saúde, da UFPB. Para alcançar os objetivos propostos, captaram-se as bases metodológicas dos processos de planejamento de ensino utilizados para nortear a formação dos estudantes de fisioterapia da UFPB, regularmente matriculados no Estágio Supervisionado Curricular na Atenção Básica à Saúde (ABS). A análise dos dados leva a crer que, uma parte considerável dos estudantes de Fisioterapia da UFPB, ao final do curso, ainda não se sente suficientemente preparada para atuar na ABS. Com os dados dos professores contradizendo isto, resta um longo caminho a percorrer e muitas perguntas a responder. Afirmamos que, o reconhecimento da importância das bases metodológicas que compõem os planos de ensino para a formação profissional, parece ser o lócus para esse processo de mudança. Palavras-chave: ensino, aprendizagem, fisioterapia Abstract The methodological principals of the pedagogies political teaching of courses in health must prime the interrelation of different knowledge, producing articulated knowledge between the political, economic and cultural contexts of the society. For is article, we used the partial results of the dissertation “methodological bases of education in Physical Therapy: discussing the distance between the processes of formation ans use of labor”, wish the author develops the idea within the Graduate Program in Models decision and Health, Universidade Federal da Paraíba. To achieve the proposed objectives, picked up the methodological bases of the planning projects of teaching used to guide the formation of the physiotherapy students of UFPB, enrolled in Supervised Curriculum in Primary Cares (ABS). The analyses of the results considerate the UFPB physiotherapy students at the end of the course which does not feel sufficiently prepared to act at the ABS. With the teachers data contradicting this, it remains a long way to go qnd many questions to answer. We affirm that the recognition of the importance of the methodological bases that make up the syllabus for the training seems to be the “locus” of this changing process. Keywords: teaching, learnig, physiotherapy ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3425 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1. INTRODUÇÃO De acordo com Gonsalves (2009), a palavra Educação possui duas fontes geradoras: educare (alimentar) e educere (levar para fora). Cada uma, separada, diz muito pouco do fenômeno educativo. As duas, juntas, favorecem a compreensão. O processo educativo tem como finalidade desenvolver a autonomia individual, para que a pessoa possa descobrir, por si mesma, quais são as suas “pautas internas”, o que a faz verdadeiramente feliz. A prática pedagógica precisa ter dinâmica própria, que lhe permita o exercício do pensamento reflexivo, conduzindo a uma visão política de cidadania, capaz de integrar arte, cultura e os valores, propiciando, assim, a recuperação da autonomia dos sujeitos e de sua ocupação no mundo, de forma significativa. Manter-se atualizado, aprendendo e reaprendendo a ser, a conviver, a fazer e a conhecer, constitui-se um decreto imutável para o saber fazer pedagógico alicerçado em novos valores e princípios (GOMES et al., 2006). As estratégias pedagógicas voltadas para as práticas profissionais em saúde referemse tanto ao desenvolvimento de capacidades individuais e coletivas, visando à melhoria da qualidade de vida, quanto às atividades de educação permanente, dirigidas aos trabalhadores da área de saúde através da formação profissional contínua. Estas estratégias devem, então, ser condizentes com o objeto de estudo - o processo saúde-doença e suas diferentes contextualizações. Vale ressaltar, que as ações de saúde não implicam somente na utilização do raciocínio clínico, do diagnóstico, da prescrição de cuidados e da avaliação da terapêutica instituída. A saúde não envolve apenas processos de intervenção na doença, mas processos de intervenção para que o indivíduo e a coletividade disponham de meios para a manutenção ou recuperação do seu estado de saúde, no qual estão relacionados os fatores orgânicos, psicológicos, sócio-econômicos e espirituais (PEREIRA, 2003; GIL, 2010). Diante disto, faz-se oportuna uma discussão permanente sobre as práticas educativas comumente utilizadas no processo de formação dos profissionais de saúde. Essas práticas educativas são norteadas pelas bases metodológicas e pelo processo de ensinoaprendizagem que resulta da escolha destas bases. Nesse cenário, têm relevante importância as bases metodológicas adotadas pelos professores que formam estes profissionais, uma vez que os procedimentos e recursos didáticos utilizados, bem como as formas de avaliação da aprendizagem, estão intimamente ligados ao perfil do egresso nos serviços de saúde. Transformar o processo de formação dos profissionais de saúde, e particularmente dos fisioterapeutas, ainda hoje baseado no modelo biomédico-cartesiano-curativista, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3426 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior representa um grande desafio a quem se propõe atuar no campo da saúde com um papel transformador. Uma importante ferramenta nesse processo pode ser o ajustamento das bases metodológicas dos planos de ensino, de modo a promover a compatibilização entre os processos de formação e utilização de recursos humanos. Com base no exposto, o objeto de estudo deste trabalho é a formação do profissional fisioterapeuta a partir do conhecimento das bases metodológicas que compõem o plano de ensino que subjaz o processo formativo e à preparação para inserção no espaço da Atenção Básica à saúde. Toma-se como base metodológica a união dos elementos (procedimentos, recursos e avaliação) que compõem os planos de ensino (particularmente os planos de aula) utilizados no processo de formação de força de trabalho em saúde e, neste estudo em particular, para formação de profissionais de Fisioterapia. A importância do estudo reside no fato de que algumas instituições formadoras continuam lançando no mundo do trabalho, profissionais de saúde, dentre eles os fisioterapeutas, que desconhecem ou não se interessam pela participação política do curso nos processos da Reforma Sanitária e sua inserção em programas vinculados à Atenção Básica dos serviços de saúde, deixando claro que a participação das universidades nesse processo pode e deve ser repensada. Este trabalho também apresenta importância estratégica no atual momento histórico nacional, quando a Fisioterapia e outros cursos conquistaram o direito de ampliar o leque de serviços oferecidos aos usuários da Atenção Básica, sob a égide da Portaria GM nº 154 de 24 de janeiro de 2008, republicada em 04 de março de 2008, que instituiu os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) (BRASIL, 2008). Esse fato acarreta a necessidade de realizar ajustamentos e reorientações nos processos de formação dos profissionais nas instituições de ensino superior em função da nova realidade. Na busca por mudanças positivas nos processos de formação do fisioterapeuta e nas suas práticas profissionais, questionaram-se quais são as bases metodológicas que norteiam o processo de formação dos fisioterapeutas na UFPB. Para responder a esta questão, formula-se os seguintes objetivos: Objetivo Geral - Analisar o processo ensino-aprendizagem da formação de fisioterapeutas, a partir da observação das bases metodológicas utilizadas na disciplina Fisioterapia na Saúde Coletiva do curso de Fisioterapia da UFPB. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3427 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Objetivos Específicos - Conhecer as bases metodológicas que compõem o plano de ensino do curso de Fisioterapia da UFPB; - Identificar as articulações entre as bases metodológicas utilizadas no processo de formação em Fisioterapia e as ações práticas previstas para estes profissionais na Portaria GM nº 154 de 04/03/2008; - Investigar o posicionamento dos discentes e dos docentes responsáveis pelo Estágio Curricular Supervisionado, da disciplina Fisioterapia na Saúde Coletiva, do curso de Fisioterapia da UFPB, quanto a aproximações e distanciamentos entre a formação e a prática profissionais. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Bases Metodológicas: o desafio da docência Segundo Pimenta; Anastasiou (2008), a Pedagogia - enquanto campo teórico da prática educacional, que não se restringe à didática da sala de aula nos espaços escolares, está presente nas ações educativas da sociedade em geral. Possibilita que as instituições e os profissionais cuja atividade está permeada por ações pedagógicas se apropriem criticamente da cultura pedagógica para compreender e alargar sua visão das situações concretas nas quais realizam seu trabalho para nelas imprimir a orientação sociopolítica que valorizam, a fim de transformar a realidade. Para Bordenave, Pereira (2008), o traçado da estratégia didática requer dois conceitos essenciais - experiência de aprendizagem e atividades de ensino-aprendizagem. Esses autores asseveram que, para realizar seus objetivos, o professor necessita conseguir que os alunos se exponham e vivam certas experiências capazes de neles induzir as mudanças desejadas. Tais experiências, por sua vez, exigem certos insumos educativos na forma de influências do ambiente que atuam sobre ele. Assim, os objetivos exigem que os alunos exponham-se a problemas reais ou a representações dos problemas, a fatos e teorias, a fórmulas e teoremas, a conflitos e esforços de cooperação e isso é o que se denomina conteúdo de matéria. Todavia, asseveram os autores, a palavra conteúdo é um termo estático, pois dá apenas uma ideia de conhecimentos e fatos, enquanto o termo experiências indica também as vivências que os alunos experimentam nas diversas situações a que são expostos. Gomes et al. (2006) enfatizaram que a prática pedagógica possibilita a inter-relação de diferentes saberes, produzindo conhecimentos em articulação com o contexto sóciopolítico, econômico e cultural, que resultam numa intervenção da realidade a partir da relação ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3428 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior com o mundo da experiência humana, com sua bagagem de valores, interesses sociais, afetos, conotações diferenciadas e cenários políticos. Bordenave, Pereira (2008), lembram que, o segredo do bom ensino é o entusiasmo pessoal do professor, que vem de seu amor à ciência e aos alunos. Este entusiasmo pode e deve ser centralizado mediante planejamento e metodologia adequados, visando, sobretudo, incentivar o entusiasmo dos alunos para realizar, por iniciativa própria, os esforços intelectuais e morais que a aprendizagem exige Outra questão a ser considerada é lembrada por Vasconcelos et al. (2006) para quem o ensino, na maioria das instituições, caracteriza-se como uma prática limitada ao tempo/espaço da sala de aula. A instituição prevê em seu regulamento acadêmico um sistema de avaliação vinculado a notas e procedimentos inerentes ao processo de aprovação/reprovação. Essa forma de conceber o ensino e a avaliação torna possível a manutenção de um status quo que justifica práticas de avaliações pontuais que supervalorizam a nota, porém, é preciso computar outros atributos, para que o processo ensino-aprendizagem seja verdadeiramente construtivo. Luckesi (2005), com base no contraponto entre o que caracteriza a avaliação da aprendizagem e a observação das experiências vividas nas salas de aula, considerou que, em vez de diagnosticar a aprendizagem, o que ainda se pratica como forma de avaliação em muitas escolas são os exames. Neles, as dificuldades apresentadas pelos alunos não são percebidas para subsidiar uma intervenção adequada, mas são classificadas, tendo em vista a aprovação ou a reprovação. Avaliar é muito mais do que aplicar um teste, avaliar é um ato rigoroso de acompanhamento da aprendizagem. Conceitos e práticas que constituem a avaliação da aprendizagem só podem existir se estiverem articulados com uma pedagogia construtiva, ou seja, articulados com uma pedagogia que esteja atenta ao ser humano como um ser em movimento, em construção permanente (MORIN, 2003; LUCKESI, 2005; CAVALCANTI NETO, AQUINO, 2009). Nesse sentido, o professor deve entender que o aluno é um ser condicionado, mas não determinado. Ou seja, o aluno é passível de mudanças de comportamento dependendo do estímulo que recebe. O professor também deve estar ciente de que a avaliação da aprendizagem é um instrumento de poder, tanto positivo quanto negativo e que o professor pode até abortar a carreira de um aluno (FREIRE, 1996; VASCONCELLOS et al., 2006). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3429 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Há várias formas de se conceber o fenômeno educativo. Por sua própria natureza, não é uma realidade acabada que se dá a conhecer de forma única e precisa em seus múltiplos aspectos. É um fenômeno humano, histórico e multidimensional. Nele estão presentes tanto a dimensão humana quanto a técnica, a cognitiva, a emocional, a sócio-política e cultural. Não se trata de mera justaposição das referidas dimensões, mas, sim, da aceitação de suas múltiplas implicações e relações (MIZUKAMI, 2009). As diferentes abordagens pedagógicas utilizadas no processo ensino-aprendizagem conferem às práticas educativas uma variedade de opções para que o conhecimento seja construído e/ou repassado e utilizado como agente transformador da realidade. Entender esse processo como um ciclo que se renova a cada descoberta, a cada nova experiência, permite tanto ao professor quanto ao aluno vivenciar experiências capazes de promover mudanças de comportamento que originam sujeitos mais comprometidos com a sociedade em que vivem. 2.2 Modelos de formação em Fisioterapia Durante a primeira metade do século passado, o quadro epidemiológico brasileiro caracterizava-se pelo predomínio de doenças infecciosas e parasitárias, sobretudo as epidemias de varíola, malária, febre amarela, poliomielite, tuberculose e sífilis. Nesse período, o Brasil também passou por mudanças em sua economia, deixando a condição de país agroexportador para adotar o modelo de produção capitalista, com o surgimento das primeiras indústrias. Por outro lado, o desenvolvimento industrial fez crescer o número de trabalhadores acidentados e lesionados e a consequente necessidade de reinserção desses trabalhadores no mercado de trabalho. Assim, a fisioterapia surgiu como instrumento de reabilitação da mão de obra e sua reintegração à força produtiva, num momento turbulento da sociedade brasileira, de forte crise no setor saúde e com grandes implicações para a população (PAIM, 2003). Quando foi regulamentada existiam no Brasil apenas seis cursos de graduação em Fisioterapia. Em 15 anos surgiram mais 16, totalizando 22 cursos em 1984. Nessa fase, o crescimento da oferta de vagas foi lento, o que se pode explicar por dois fatores: a pequena expansão do ensino superior no país, em decorrência da repressão do regime militar à educação superior, foco de resistência do regime ditatorial, e o pouco conhecimento das competências e dos benefícios da fisioterapia sobre a saúde da população. Durante a década de 80 e a primeira metade da década seguinte, a expansão dos cursos de fisioterapia seguiu a mesma tendência de crescimento lento, atingindo o total de 63 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3430 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior em 1995. A partir da segunda metade dos anos 1990, a abertura de novos cursos aumentou de maneira exponencial. Essa rápida expansão acelerou-se nos anos subsequentes. Entre 1999 e 2003, o número de cursos saltou de 115 para 298, o que representou um aumento de 159% em apenas cinco anos; nos cinco anos posteriores, o crescimento de 60% levou ao total de 479 cursos (BISPO JÚNIOR, 2009). O autor prossegue informando que, nos últimos dez anos, a quantidade de cursos e a oferta de vagas de fisioterapia no Brasil aumentaram em mais de 300%, com a criação de 364 novos cursos. Esse crescimento, a partir da segunda metade da década de 90, foi motivado pela inversão dos valores adotados nos anos 1970, sendo o principal fator determinante a política adotada pelo Estado brasileiro, de corrigir o déficit da escolaridade superior no país. Gallo (2005) chama a atenção para o fato de que o fisioterapeuta, além de estar inserido no mesmo contexto dos demais profissionais da saúde, em que a formação é direcionada para a doença, padece desse infortúnio de forma mais acentuada, já que é visto como “o profissional da reabilitação”, isto é, aquele que atua exclusivamente quando a doença, lesão ou disfunção já foi estabelecida. De acordo com Meyer; Costa; Gico (2006), quando o currículo tradicional é empregado, direciona-se o foco dos conteúdos programáticos para disciplinas específicas, sem a flexibilidade necessária a uma formação profissional direcionada ao cuidado coletivo. Os autores afirmam que esse tipo de modelo apresenta-se como um “currículo de doenças”, que dificulta o crescimento e o desenvolvimento de uma formação transdisciplinar para o futuro fisioterapeuta. Schmidt (2002), em pesquisa qualitativa com coordenadores de cursos de fisioterapia do Estado do Paraná, e com análise documental dos projetos pedagógicos e dos planos de ensino das disciplinas de Saúde Publica e Fisioterapia Preventiva, apontou avanços no tocante a consciência de que são necessárias mudanças estratégicas nos currículos para garantir a formação de um profissional competente e que contribua para a construção do setor saúde no Brasil, proporcionando melhores condições de vida aos cidadãos. Schwingel (2002) assevera que o acadêmico de fisioterapia tem pouco interesse nas disciplinas do campo social, como a Sociologia, Antropologia, Saúde Coletiva, Fisioterapia Preventiva e Atuação Comunitária, em detrimento das disciplinas exclusivamente técnicas como Ortopedia, Neurologia, Pneumologia, e que, na ausência do debate social e análise da realidade, perde-se uma parcela importante da formação. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3431 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Silva e Da Ros (2007) também chamam a atenção para a compreensão limitada, por parte de profissionais e estudantes, das possibilidades de atuação do fisioterapeuta na Atenção Primária à Saúde. Meyer; Costa e Gico (2006) consideram que a estrutura, a metodologia de ensino e a organização curricular dos cursos de fisioterapia ainda não se baseiam nas demandas sociais e nas políticas públicas de saúde, e que existe pouco envolvimento dos discentes e docentes com políticas institucionais e governamentais. Um dos fatores que contribuem para explicar essa situação é a própria opção da fisioterapia em se constituir como profissão liberal, direcionada para o atendimento à classe média e aos estratos de maior poder econômico. Durante muitos anos, o fisioterapeuta atuou como profissional autônomo, desenvolvendo atividades quase sempre em clínicas privadas, centros de reabilitação ou hospitais e voltada para a reabilitação de disfunções do sistema musculoesquelético. Parece ter ocorrido certa letargia, por parte desses profissionais, em discutir e apresentar proposições sobre as contribuições da fisioterapia para promoção da saúde e prevenção de doenças e sobre a intervenção em âmbito coletivo (BISPO JÚNIOR, 2009). Rebelatto e Botomé (1999) denominam essa situação de “inércia profissional”, caracterizada pela passividade dos profissionais, que só atuam em face de problemas de saúde já instalados e só prestam assistência aos que procuram os serviços quando não suportam mais sua condição patológica. Nesse caso, destacam-se como lócus de atuação o hospital e a clínica de reabilitação, espaços tradicionalmente estabelecidos e popularmente valorizados para a prática fisioterapêutica. A priorização desses espaços condiciona e restringe as possibilidades de intervenção a apenas um nível de atenção, a reabilitação. Tal situação impõe à população grande carga de doenças e sequelas que poderiam ser, muitas vezes, evitadas. A promulgação das leis 8.080/90 e 8.142/90, que criaram e regulamentaram o SUS, constituiu o marco do novo modelo de atenção à saúde, segundo o qual ficou estabelecida prioridade das ações de promoção e proteção à saúde, sem prejuízo das atividades assistenciais. No entanto, contraditoriamente, verificou-se no país o crescimento da assistência privada e suplementar, em paralelo ao desenvolvimento precário do sistema público, universal e integral (BARRETO, CARMO, 2007). Nesse cenário, quanto ao modelo de formação, as instituições de ensino mantiveram e aprofundaram o modelo curativo-reabilitador-privatista, formando fisioterapeutas a partir da concepção de profissional liberal. Estimulou-se o aprimoramento tecnicista sob o discurso da crescente concorrência do mercado de trabalho, em que o domínio do conhecimento biológico ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3432 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior e das técnicas de reabilitação eram requisitos suficientes e necessários para o estabelecimento no mercado (SCHWINGEL, 2002). Diante desse contexto, pode-se perceber que, uma série de contingencias política e social levou a fisioterapia a direcionar sua atuação para o sistema suplementar de assistência onde convênios e planos de saúde constituíram os espaços para o acesso aos serviços de fisioterapia. Frente aos desejos e às necessidades dos usuários-pagantes, a fisioterapia aperfeiçoou e desenvolveu novas especialidades, a exemplo da fisioterapia estética, drenagem linfática, reeducação postural global, pilates e acupuntura. A profissão elitizou-se e o acesso dos usuários do sistema público tornou-se ainda mais difícil sendo que a qualidade do atendimento não acompanhou a evolução do sistema privado (BISPO JÚNIOR, 2009). O autor prossegue afirmando que, pode-se considerar contraditório o significativo crescimento do numero de cursos de fisioterapia no Brasil e a carência desses profissionais em atuação nos níveis primário e secundário deixando clara a necessidade de aproximação entre a fisioterapia e as necessidades da população, bem como, a urgência em adequar-se, do ponto de vista da formação, para atuar de acordo com a nova lógica de organização dos modelos de atenção a saúde atendendo ao perfil epidemiológico da população. Vale salientar que, o despertar da fisioterapia para o redimensionamento do seu modelo de formação e construção de um novo perfil profissional ainda é muito recente. Em 2002, o Conselho Nacional de Educação instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Fisioterapia, marco importante na orientação e transformação do ensino, em que foram definidos princípios, fundamentos e condições para a formação em todas as instituições nacionais de ensino. A partir de então, ficou estabelecido que o perfil do profissional egresso devesse ser generalista, com formação crítica, humanista e reflexiva, e com capacitação para atuar em todos os níveis de atenção. Definiu, ainda, como objeto de trabalho da profissão, o movimento humano em todas as suas dimensões, destacando que a responsabilidade da atenção à saúde não se encerra com o ato técnico, mas sim com a resolução do problema em âmbito tanto individual como coletivo (BRASIL, 2003). A Carta de Vitória (2004), documento-síntese do 1º Congresso Nacional do Ensino da Fisioterapia, estabeleceu o referencial para a qualidade da formação na área. O documento sublinhou os principais problemas do ensino da fisioterapia e propôs algumas medidas de referência para a qualidade do ensino, tais como: carga de 4.500 horas, adequação dos currículos às necessidades regionais, incorporação de princípios e diretrizes do SUS no processo de formação e desenvolvimento de práticas coletivas (CARTA DE VITÓRIA, 2004). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3433 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 2. Metodologia Para a composição deste trabalho, foram utilizados os resultados parciais da dissertação “Bases metodológicas da formação em Fisioterapia: discutindo o distanciamento entre os processos de formação e a utilização da força de trabalho”, que a autora desenvolve junto ao Programa de Pós-Graduação em Modelos de Decisão e Saúde, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Para a consecução dos objetivos propostos neste artigo foram captadas as bases metodológicas constantes nos processos de planejamento de ensino (plano de curso; plano de aula; plano de estágio) utilizados para nortear a formação dos estudantes de fisioterapia da UFPB regularmente matriculados no Estágio Supervisionado Curricular (ECS) com atividades práticas na atenção básica. A captação das bases metodológicas dos processos de planejamento de ensino foi realizada com os estudantes e os professores da disciplina Fisioterapia na Saúde Coletiva, durante a realização do estágio curricular supervisionado na atenção primária de saúde. A coleta do material empírico deu-se em dois momentos distintos: Primeiro: descrição histórica e processual do curso de Fisioterapia, mediante o conhecimento de seu Marco Teórico-Metodológico; Objetivos; Perfil do Profissional Egresso e Competências, Atitudes e Habilidades previstos para o desempenho de suas atividades. Segundo: entrevistas com os professores responsáveis pelo estágio curricular supervisionado e com os estudantes regularmente matriculados, buscando conhecer o posicionamento de cada um dos segmentos sobre as aproximações e os distanciamentos da formação em relação a prática profissional em saúde coletiva no contexto da atenção básica. O trabalho foi do tipo exploratório-descritivo, desenvolvido a partir de abordagens qualitativas e quantitativas. Para capturar a descrição histórica e processual do curso de Fisioterapia, bem como as informações relativas às Bases Metodológicas que norteiam o ECS na APS, foi produzido um formulário específico para esse fim. Para buscar o posicionamento dos professores e dos estudantes sobre as aproximações e os distanciamentos da formação em relação à prática profissional no contexto da atenção básica, produziram-se dois questionários, sendo um para os docentes e outro para os discentes, onde as respostas de ambos os segmentos foram posteriormente cruzadas e analisadas. A análise qualitativa dos resultados foi feita pela técnica da Análise de Discurso proposta por José Luis Fiorin (FIORIN, 1990). Para a abordagem quantitativa do estudo, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3434 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior utilizou-se o Teste de Hipóteses através do software R, disponível no site www.r-project.org, em sua versão 2.9. (BEASLEY, 2004 apud BEZERRA 2011). 3. Resultados e Discussão A coleta do material empírico realizada no primeiro momento da pesquisa revelou informações relativas ao Projeto Pedagógico do curso; Perfil do egresso e Competências e habilidades previstas para o processo de formação do fisioterapeuta. Resumidamente, estes dados são apresentados a seguir: Projeto Político Pedagógico do curso de Fisioterapia da UFPB O Projeto Político Pedagógico do Curso de Graduação em Fisioterapia, do Centro de Ciências da Saúde, Campus I da UFPB é regulamentado pela Resolução N° 12/2005, que apresenta a elaboração e reformulação dos Projetos Político-Pedagógicos dos Cursos de Graduação, de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Fisioterapia, fixadas no Parecer CNE/CES 1210, de 12 de setembro de 2001. De acordo com o Art. 1 desta Resolução, compreende-se o Projeto Político Pedagógico do Curso de Graduação em Fisioterapia da UFPB como sendo o conjunto de ações sócio-políticas e técnico-pedagógicas relativas à formação profissional que se destinam a orientar a concretização curricular do referido curso. Perfil do Egresso O Curso de Fisioterapia da UFPB tem como perfil do graduando egre sso um profissional com formação generalista, comprometido com a promoção e atenção em todos os níveis da saúde do homem e da coletividade, inserido no contexto político-social, científico e cultural da sociedade brasileira. “Cidadão-Profissional” com conhecimento do ser humano nos aspectos bio-psico-sociais, com capacidade de interação interdisciplinar, dotado de visão ampla, crítica e global, respaldada nos princípios éticos e bioéticos do indivíduo e da coletividade. Este profissional apresenta competência para estudar o movimento humano em todas as suas formas de expressão e potencialidades, distinguindo as suas disfunções e repercussões psíquicas e orgânicas, no propósito de prevenir alterações, preservar, promover e restaurar a integridade de órgãos, sistemas e funções, englobando a capacitação para o diagnóstico cinético-funcional, a eleição, execução e avaliação dos procedimentos fisioterapêuticos necessários a cada caso. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3435 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior O egresso do curso de fisioterapia da UFPB também promove potencialidades para desenvolver projetos nas áreas do ensino e pesquisa, prestar consultoria e assessoramento técnico-científico em sua área de atuação, gestão e gerenciamento direto e indireto de suas atividades profissionais em órgãos e instituições. Competências, Atitudes e Habilidades. A graduação em Fisioterapia da UFPB deve garantir ao Egresso/Profissional o conhecimento requerido para o exercício das seguintes competências e habilidades: A) Inserir-se profissionalmente nos diversos níveis de atenção à saúde, atuando em programas de promoção, manutenção, prevenção, proteção e recuperação da saúde, sensibilizado e comprometido com o ser humano, respeitando-o e valorizando-o; B) Atuar multiprofissionalmente, interdisciplinarmente e transdisciplinarmente com extrema produtividade na promoção da saúde baseado na convicção científica, de cidadania e de ética; C) Contribuir para a manutenção da saúde, bem estar e qualidade de vida das pessoas, famílias e comunidade, considerando suas circunstâncias éticas-deontológicas, políticas, sociais, econômicas, ambientais e biológicas; D) Realizar consultas avaliações e reavaliações do paciente, colhendo dados, solicitando, executando e interpretando exames propedêuticos e complementares que permitam elaborar um diagnóstico cinético-funcional, para eleger e quantificar as técnicas, recursos e condutas fisioterapêuticas apropriadas, objetivando tratar as disfunções no campo da Fisioterapia, em toda sua extensão e complexidade, estabelecendo prognóstico, reavaliando condutas e decidindo pela alta fisioterapêutica; E) Elaborar criticamente o amplo espectro de questões clínicas, científicas, filosóficas, éticas, políticas, sociais e culturais implicadas na atuação profissional do fisioterapeuta, sendo capaz de intervir nas diversas áreas onde sua atuação profissional seja necessária; F) Desenvolver o senso crítico, investigador e conquistar autonomia pessoal e intelectual necessária para empreender contínua formação na sua praxis profissional; G) Conhecer métodos e técnicas de investigação e elaboração de trabalhos acadêmicos e científicos; H) Desenvolver e executar projetos de pesquisa e extensão que contribuam na produção do conhecimento, socializando o saber científico produzido; I) Exercer sua profissão de forma articulada ao contexto social, entendendo-a como forma de participação e contribuição social; ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3436 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior J) Desempenhar atividades de planejamento, organização e gestão de serviços de saúde, públicos ou privados, além de assessorar, prestar consultorias e auditorias no âmbito de sua competência profissional; K) Emitir laudos, pareceres, atestados e relatórios; L) Prestar esclarecimento, dirimir dúvidas e orientar o indivíduo e os seus familiares na seqüência do processo terapêutico; M) Manter a confidencialidade das informações, na interação com outros profissionais de saúde e o público em geral; N) Encaminhar o paciente, quando necessário, a outros profissionais relacionando o estabelecimento em nível de cooperação com os demais membros da equipe de saúde; O) Desenvolver atividades de socialização do saber técnico-científico na sua área de atuação, através de aulas, palestras e conferências, além de acompanhar e incorporar inovações tecnológicas pertinentes à sua praxis profissional; P) Manter o controle sobre a eficácia dos recursos tecnológicos pertinentes à atuação fisioterapêutica garantindo sua qualidade e segurança; e Q) Intervir para resolução de condições de emergência. A coleta do material empírico realizada no segundo momento da pesquisa revelou informações relativas às bases metodológicas dos processos de planejamento de ensino com informações sobre procedimentos pedagógicos dos professores e utilização de recursos materiais e humanos para operacionalização desses procedimentos. Os procedimentos pedagógicos descritos pelos docentes mediante os questionários respondidos caracterizam a utilização de uma abordagem Problematizadora, fato comprovado pelos discentes após o cruzamento das respostas oferecidas pelos entrevistados. Dentre as principais características da pratica educativa relatada, observaram-se a Realização de oficinas, dinâmicas e vivências de grupos; Produção de trabalhos científicos (pesquisa, artigos, resumos, etc.); Construção e engajamento em atividades coletivas junto as ESF; Prática e reflexão sobre assistência a usuários nos territórios de abrangência das Unidades Básicas de Saúde; No tocante aos recursos didáticos utilizados nos processos de planejamento de ensino analisados, observou-se que, nos campos de prática, utilizou-se com muita frequência salas e espaços do próprio território dos serviços de saúde, associações, unidades educacionais, unidades religiosas; residências e domicílios. Na universidade: sala de aula, lousa, recursos audiovisuais (Datashow, retroprojetor, etc). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3437 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Em relação aos conteúdos ministrados pelos professores durante a disciplina Fisioterapia na Saúde Coletiva, ficou constatado a ocorrência do tema relativo à Portaria GM Nº 154/2008, que discorre sobre as atribuições do fisioterapeuta na Atenção Primária de Saúde. O cruzamento das informações com vistas a obtenção de dados relativos a aproximação e distanciamentos da formação em relação a prática profissional em saúde coletiva no contexto da atenção básica, revelou que para os professores o fisioterapeuta está mais preparado para atuar no nível primário de atenção à saúde do que nos demais níveis. Os docentes consideraram ainda que, a duração do ECS do curso de Fisioterapia da UFPB na APS e bastante suficiente. Por outro lado, os estudantes, divergiram desta percepção, posto que, dos 24 estudantes entrevistados, 71% afirmaram não ser o nível primário de atenção à saúde um espaço para o qual o fisioterapeuta encontra-se preparado para atuar após sua formação e apenas 8% considerou que, ao longo do curso, existem abordagens que enfocam a APS. 5. Conclusão A análise dos dados coletados, ainda que parcialmente, nos levam a crer que, uma parte considerável dos estudantes de Fisioterapia da UFPB, na fase final de seu curso, ainda não se sente suficientemente preparado para atuar na Atenção Básica de Saúde. Com os dados relativos a participação dos professores contradizendo essa descoberta, resta-nos, um longo caminho exploratório a percorrer e muitas perguntas a responder. È fato que, a história recente dos processos de formação em fisioterapia, revela uma tendência, bastante forte, para uma preparação voltada para a atenção secundária e, sobretudo terciária de saúde. Entretanto, o advento da Portaria GM Nº 154/2008, constitui-se um forte apelo para a mudança de perfis profissionais no âmbito desse curso e as instituições de ensino não podem permanecer a reboque de contingencias trabalhista para ajustar-se às exigências históricas. Pelo contrário, devem patrocinar esses processos de mudança. Afirmamos que, o reconhecimento da importância das bases metodológicas que compõem os processos de planejamento de ensino para a formação profissional, parece ser o lócus, a partir do qual, se iniciará esse processo de mudança 6. Referências Bibliográficas BARRETO, M.L.; CARMO, E.H. Padrões de adoecimento e de morte da população brasileira: os renovados desafios para o Sistema Único de Saúde. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.12, supl, p.1779-1790, 2007. 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As provas de 2005 e 2008 apresentaram uma indicação muito superficial em relação ao trabalho com os conteúdos do currículo da educação básica e à abordagem interdisciplinar para a formação e atuação docente, prevalecendo um número maior de itens destinados aos conhecimentos referentes aos fundamentos teóricos da educação. Os dados analisados parecem indicar que não tem havido diálogo efetivo entre os currículos dos cursos de Pedagogia e os itens apresentados no ENADE e vice-versa. Palavras-chave: profissionalidade docente; ENADE, ensino fundamental Abstract The text analyzes the ENADE Pedagogy as an induction action in the elementary school’s professionalization and the polyvalence in this context. The tests of 2005 and 2008 indicate a very superficial work with the content of the basic education’s curriculum and interdisciplinary approach to training and teacher performance, and there is a larger number of items intended to knowledge concerning the theoretical foundations of education. The data analyzed seem to indicate that don’t exist an effective dialogue between the Pedagogy’ curricula and the items in ENADE. Keywords: teacher’s profissionality; elementary school; ENADE. Introdução A profissão é uma atividade humana, estando, por conseguinte, carregada de intencionalidade. Ela se manifesta através do trabalho do homem e, como qualquer atividade laboral, exige um conjunto de condições para sua existência, dentre as quais o domínio de um conhecimento específico que legitime a ação profissional. Percebe-se, que a profissão é ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3441 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior constituída de um corpus de conhecimentos, habilidades e valores que estabelece relação com o conteúdo ideológico e contextual. Assim, a profissão de professor é marcada e construída a partir das demandas sociais e históricas que apontam para o exercício da profissão e estão estritamente ligadas à concepção de educação, de sociedade, de homem e de escola que vem sendo construída ao longo dos anos através de conflitos, contradições, caminhos e descaminhos. A análise de Weber(2002) vai destacar em relação aos requerimentos de formação pelo Estado ganha destaque a a regulação/normatização na perspectiva da indução. Bourdoncle, por sua vez, comenta que a influência do sistema de regulação na formação docente, se relacionam com os saberes que baseiam a sua ação. No caso dos professores(as) dos anos iniciais do ensino fundamental a marca histórico-legal da diferenciação entre o professor polivalente, para as primeiras séries de ensino, e o professor especialista, para as demais séries, tem influenciado na constituição dos cursos, na carreira e nos salários, e, como aponta Gatti e Barreto (2009) “ sobretudo nas representações da comunidade social, da acadêmica e dos políticos, mesmo com a atual exigência de formação em nível superior dos professores dos anos iniciais da educação básica.” Assim, essa exigência tardia da formação em nível superior, instaurada pós LDB 9394/96 ainda se apresenta de maneira conflituosa, tanto pela hierarquização entre as instituições de ensino superior credenciadas para ofertar cursos de formação inicial para o professor polivalente, como pela admissão de que este possa ter como formação mínima a obtida em cursos de nível médio na modalidade normal. Nesse contexto, as políticas de avaliação do ensino superior também estabelecidas pós a LDB de 1996 integram um processo mais amplo de profissionalização docente induzido pelas reformas educativas dos anos 1990 que focalizam a formação, o currículo, a gestão e avaliação. Podemos considerar que num plano macro, estes elementos funcionam como mecanismos tanto de uma profissionalidade, baseada num conjunto de saberes, valores e concepções, a ser construída, como da constituição de profissionalismo pela possível garantia de um reforço do status social legitimado pelas práticas avaliativas estabelecidas. Podendo também se configurar, apenas como um dispositivo de análise das fragilidades dessa mesma fragilidade e estabelecer uma retórica pela busca de afirmação de um profissionalismo pela via da responsabilização. Diante do exposto, consideramos na presente análise que o ENADE constitui-se e um dos elementos de regulação da profissão de professor para atuar nos anos iniciais do ensino ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3442 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior fundamental com foco na definição de um perfil de formação. Assim, o texto analisa o ENADE como uma das ações de indução no conjunto maior da profissionalização docente para os anos iniciais do ensino fundamental tomando a característica do exercício da polivalência nesse nível de ensino como constituidora da profissionalidade polivalente. Aponta assim as influências diretas e indiretas desse sistema de avaliação na indicação de um perfil de formação inicial e, consequentemente, de um conjunto de saberes da formação inicial que atendam a especificidade da polivalência. 1. Profissão, profissionalização e profissionalidade docente: algumas considerações Das correntes de estudos sociológicos das profissões emergem, pelos menos, três elementos de consenso sobre o conceito de profissão:a especialização do saber, uma formação intelectual em nível superior e um ideal de serviço. Contudo, as profissões não podem ser reduzidas apenas a esses três elementos, uma vez que Chapoulie (1973) destaca que o paradigma funcionalista subjacente a definição desses critérios acabam por analisar os grupos profissionais a partir deles mesmos configurando assim um “tipo-ideal profissional”. Esse “tipo-ideal” não comportaria a compreensão de que uma profissão é um grupo social organizado e reconhecido que ocupa uma posição específica de prestígio na sociedade. Segundo Loureiro (op.cit) a idéia gerada a partir do processo de construção de definições analíticas sobre o conceito de profissão e, consequentemente de seu desenvolvimento, conduziu a formulação do conceito de profissionalização. Assim, para esse pesquisador, a profissionalização é um processo cujo objetivo é desenvolver um melhoramento individual e coletivo das capacidades e da racionalização dos saberes utilizados no exercício da profissão (p.32). Esse processo abarcaria não só os conhecimentos e capacidades que uma determinada prática profissional exige, mas, também elementos políticos de negociação de estratégias individuais e coletivas que buscam reivindicar uma elevação do grau de atividades que um grupo profissional deverá desenvolver e a legitimidade social da atividade profissional como um todo. Sendo assim, nesse processo de profissionalização, a profissão docente foi estabelecendo uma série de caracterizações e ações sob as quais os professores se definiriam como profissionais do ensino, a saber: o exercício da atividade docente em tempo integral e como principal ocupação; o estabelecimento de um suporte legal para esse mesmo exercício, associado à criação de instituições específicas para a formação de professores e a participação ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3443 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior em associações profissionais que desempenharam papel fundamental na defesa do estatuto socioprofissional dos professores. Nesse desenvolvimento duas dimensões foram importantes para a sua constituição: a formulação de conjunto de conhecimentos e técnicas necessários ao exercício qualificado das atividades docente. Nesse conjunto, os saberes de natureza técnica deveriam estar associados aos saberes de natureza teórico-científica. A outra dimensão dizia respeito aos valores e normas deontológicas, expressando uma estreita relação entre a identidade profissional docente com o projeto histórico de escolarização da nação. Essa dimensão reforça ainda o elemento fundante de que uma profissão não está relacionada apenas ao que acontece nos limites internos de sua atividade, mas está ligada ao contexto mais geral da vida em sociedade. Nesse contexto, Nóvoa (1991.) aponta, dentre outros elementos, a dinâmica de relação entre a construção da profissionalidade,a construção da autonomia e as políticas de Estado foram decisivas para a gênese da profissão e, consequentemente, da profissionalização docente. Bourdoncle (1991), por sua vez, acrescenta que a profissionalização possui dimensões interdependentes e não hierarquizados que constituem, portanto, o processo de apropriação da profissão pelo sujeito. Dentre essas dimensões, localiza a profissionalidade que diz respeito ao processo de melhoria das capacidades e dos conhecimentos realizados na profissão, responsáveis por distinguir a especificidade de ser professor. Na tentativa de delinear melhor como se dá o processo de profissionalização, Bourdoncle constrói uma análise a partir de dimensões, rompendo assim com visões generalizantes e tentando evidenciar a dinâmica na qual está compreendida o processo de profissionalização. Chama atenção para o fato de que essas dimensões de análise ou níveis sob os quais se apresentam e, por conseguinte, se analisam a profissionalização, não podem ser compreendidas como elementos segmentados ou hierarquizados em graus de importância. Assim, contribuindo também com um esclarecimento semântico a respeito do termo profissionalização, enumera três sentidos complementares e interdependentes deste processo, profissionalidade, profissionismo e profissionalismo. Profissionalidade diz respeito ao processo de melhoria das capacidades e dos conhecimentos construídos pela profissão, distinguindo a especificidade de ser professor. Profissionismo referindo-se às estratégias e à retórica coletiva que são utilizadas para reivindicar o estatuto sócio-profissional da atividade, constituindo também hierarquias de atividades e profissionalismo, no qual se efetiva a adesão ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3444 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior individual à retórica e às normas coletivas que legitimam a profissão a partir do cumprimento às mesmas. Para Bourdoncle, a profissionalidade tem sido objeto de estudo e de atuação dos gestores de sistema de ensino e dos formadores de professores, com vistas ao desenvolvimento profissional (1991; p.76). Bourdoncle e Demailly (1998), por sua vez, comentam que a influência do sistema de regulação na formação docente, da mesma forma como tal influência se relaciona com os saberes que baseiam a ação docente, é um elemento a ser considerado para a análise da profissionalização. Boing (2007) é outro autor que analisa a profissionalidade, apontando como uma sua característica marcar o início da socialização profissional. Segundo esse autor a profissionalidade: é um conjunto de conhecimentos e capacidades individuais e coletivas socialmente colocadas como expectativa profissional. Desde a formação inicial, passando pela formação continuada, percebe-se um constante trabalho de especialistas e profissionais da área para transmitir os saberes e os fazeres ideais da profissão. A profissionalidade está no plano das potencialidades e não da realidade. Cada profissão tem um protótipo exemplar como referência. Teorizar a profissão em torno deste ideal constitui a profissionalidade. É um momento importante da socialização profissional, uma vez que é neste estágio do processo que se pode colocar os marcos de referência para a ação profissional (2007, p 10-11). Na mesma linha de análise de Bourdoncle, Ramalho, Nunez, Gauthier (2004) apontam a profissionalidade seria uma dimensão da profissionalização que se articula ao conceito de profissionalismo de forma dialética, ou seja, ambos contêm partes que se complementam entre si, sem as quais não seria possível compreender cada conceito como tal. Dessa forma, esses autores sinalizam que a profissionalidade corresponde a uma dimensão interna da profissionalização na qual o professor adquire conhecimentos que são mobilizados nas atividades docentes. Já o profissionalismo, por sua parte, refere-se à reivindicação de status do exercício profissional que os sujeitos desenvolvem frente à sociedade, a fim de legitimar as qualidades específicas e complexas que separam uma profissão da outra, através de um processo de negociação, requerendo, ademais, assim um processo de formação específica. Assim, a profissionalidade envolve os conhecimentos e as habilidades necessários ao exercício profissional e estes, por sua vez, são constituídos num processo conflituoso de busca de autonomia para o exercício profissional, para fins de reconhecimento e valorização. A profissionalidade e o profissionalismo mantêm, portanto, uma relação dialética, pois as formas ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3445 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior de viver e praticar a docência desenvolvidas pelos professores de maneira individual e coletiva estabelecem uma estreita relação com as condições sociais e institucionais que estão postas para o trabalho docente, considerando ainda que tal relação é constituída e constitui a organização escolar na qual o exercício profissional se dá. 2. A avaliação no contexto da formação em nível superior: características do ENADE A avaliação é um campo do conhecimento que tem uma importância pública na sociedade. É notável a presença da avaliação nos diversos setores da atividade humana. Na sociedade, a avaliação tem importância pública quando esta ultrapassa o foro da individualidade e chega a ser vista na dimensão social. Como prática social, a avaliação passou a ser entendida como recurso necessário ao aperfeiçoamento de sistemas, políticas, programas e instituições, ganhando um caráter formal. Nesse espaço, entende-se a avaliação como um processo sistemático de análise de uma atividade, fatos ou coisas que permite compreender de forma contextualizada, todas as suas dimensões e implicações, com vistas a estimular o seu aperfeiçoamento. O campo conceitual da avaliação centrado nas instituições se transforma de acordo com os movimentos e mudanças dos fenômenos sociais, ganhando significados e ações metodológicas diferentes da avaliação apenas praticada na informalidade. Assim, os procedimentos avaliativos adequados e suficientes para as necessidades e usos individuais são insuficientes e inadequados quando se trata de instituições ou de ações de grande vulto ou impacto social. Atualmente no Brasil, a avaliação institucional como instrumento de política nacional vem sendo desenvolvida por meio do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES. Este sistema foi instituído pela Lei nº 10.861 de 14 de abril de 2004. O SINAES tem como núcleo a formulação das estratégias e dos instrumentos para a melhoria da qualidade e da relevância das atividades de ensino, pesquisa e extensão. O sistema de avaliação deve integrar e articular, de forma coerente concepções, objetivos, metodologias, práticas, agentes da comunidade acadêmica e de instâncias do governo. Os principais elementos de avaliação propostos pelo SINAES são a avaliação da instituição, avaliação dos cursos de graduação e a avaliação de desempenho dos estudantes. Estes elementos estão inseridos na concepção que toma a avaliação como processo que efetivamente vincula a dimensão formativa a um processo de sociedade comprometido com a justiça e a igualdade social. Através de seus vários componentes, a serem implementados com ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3446 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior a participação de múltiplos atores, objetiva promover a avaliação de instituições, cursos e desempenho de estudantes do ensino superior. Na proposta do SINAES busca-se compreender o complexo através da compreensão das partes que a compõe. Cada um dos componentes é analisado de maneira diferente de acordo com suas especificidades, porém o sistema deve ser recomposto para explicação do todo. Um desses componentes é o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), destinado a avaliar o desempenho dos estudantes da graduação, nas diversas áreas do conhecimento, sendo aplicado à uma amostra dos estudantes, no início e no fim do curso de graduação. O ENADE tem como objetivo revelar resultados de indicadores de qualidade acerca dos Cursos de Graduação e foi formulado com o objetivo de verificar as competências e habilidades básicas das áreas, os conhecimentos sobre conteúdos básicos e profissionalizantes e, ainda, verificar o desempenho em questões transdisciplinares, envolvendo o conhecimento mais geral. A operacionalização do ENADE se dá por meio dos seguintes instrumentos: questionário do estudante, questionário do coordenador do curso, prova e questionário de percepção sobre a prova. A prova do ENADE é composta de 40 questões, sendo 10 questões de formação geral, comum a todas as áreas e 30 questões do componente específico. As questões podem ser de múltipla escolha ou discursivas, tanto na parte comum quanto na parte específica da área. As questões são elaboradas em forma de estudos de caso, situações e alternativas problematizadoras, dentre outras. Com relação ao grau de dificuldade, as questões devem distribuir-se entre questões com grau baixo, médio e elevado de dificuldade. Segundo Ristoff (2006) a formulação das questões vai além do “que” e “quanto” o estudante aprendeu, prendendo-se mais ao estabelecimento de relações entre os conceitos. Essa estratégia é necessária porque a finalidade é permitir comparabilidade, tendo em vista à intenção de se medir a mudança. A intenção do ENADE com a aplicação da prova não é medir habilidades enquanto “traço”, mas apenas permitir verificar um conjunto de componentes (fundado em uma ou mais habilidades) que se manifestam quando o estudante é colocado frente a uma tarefa que demanda o uso de uma habilidade ou mais habilidades. O modelo de avaliação proposto para o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes - Enade é o de avaliação dinâmica. Esta abordagem considera as especificidades ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3447 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior culturais e do contexto onde o indivíduo está inserido, pois quando se quer aferir as competências adquiridas por um estudante é fundamental observar que estas estão relacionadas ao contexto e à cultura no qual estão imersos o estudante e a instituição. De acordo com Feuerstein (citado por Limana, 2006, p. 31) a abordagem dinâmica requer mudanças em quatro áreas: 1) a estrutura de testes e provas; 2) a situação-chave; 3) a orientação sobre as provas; e, 4) a interpretação dos resultados. O modelo de avaliação dinâmica é centrado na mudança do aprendiz e a palavra chave é modificabilidade. De maneira geral, este modelo foi adotado pelo ENADE porque o exame busca analisar as mudanças decorrentes da passagem dos estudantes da Educação Superior pelas instituições de educação superior onde buscam a formação. Assim, a intenção é avaliar o processo e não o produto. Através do ENADE busca-se aumentar o entendimento a respeito do estudante inserido em um contexto educacional específico, buscando verificar se ocorrem mudanças que possam ser atribuídas a trajetória do estudante na IES. Na área de Pedagogia, o ENADE foi aplicado nos anos de 2005 e 2008. Com base nas provas aplicadas nesses anos, selecionamos o corpus para a presente análise. 3. ENADE: Elemento de regulação da profissionalidade docente nos anos iniciais do ensino fundamental Analisamos o ENADE-Pedagogia tomando dois eixos, que tem se apresentado como consenso entre os estudiosos,sobre os saberes e a função docente: a importância da busca do domínio do conhecimento dos conteúdos e do conhecimento pedagógico para a formação e atuação do professor. Assim, considera-se que esse profissional tem uma responsabilidade especial em relação ao “conhecimento do conteúdo”, pois, expressa o modo como esse mesmo conteúdo é comunicado aos alunos, apresentando-o como essencial ou periférico e estando estritamente ligado às demandas concretas do trabalho docente, tais como: lidar com a diversidade de perfis de alunos e, consequentemente, com a diversidade de aprendizagens dos mesmos (SHULMAN, 1987). Destacamos que apesar de considerarmos que o eixo do conhecimento específico não seria o único definidor da profissionalidade docente polivalente esse é um dos eixos que parece indicar uma fragilidade no campo dos conhecimentos profissionais docente e se acentua ainda mais, para aquele docente que tem a demanda de lecionar diferentes áreas de conhecimentos específicos. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3448 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Nessa perspectivam, Sá-Chaves (2001) nos chama a atenção de que a dimensão do “conhecimento de conteúdo” se complexifica no contexto do que chama de monodocência – um mesmo professor assegurando a docência de todas as áreas do conhecimento ministradas num dado nível de ensino, sendo equivalente ao que chamamos aqui do Brasil de polivalência– principalmente porque tal afirmação comporta a hipótese de que esse profissional deve atender uma grande variedade de saberes, de forma a apresentar elevados níveis de rigor e atualidade científica. Assim, a análise em questão focou apenas os itens das provas da formação profissional específica. Observamos que as provas das duas edições em destaque apresentoram um número significativo direcionado aos fundamentos teóricos da educação. Esses itens correspondem a 23 % e 27 % respectivamente aos anos de 2005 e 2008. Já os relacionados aos conteúdos do currículo da educação básica figuram nas provas de maneira diluída nos itens que se referem às metodologias de trabalho. Não foi observado a indicação de um conteúdo tomando por base os conceitos fundamentais da respectiva área de conhecimento. A esse respeito, consideramos que houve avanço comparativo entre as habilidades exigidas, em alguns itens, entre as duas edições analisadas, com destaque para a área de matemática. Além de acrescentar mais itens correspondentes a essa área nesta edição, foi requerido do estudante o conhecimento sobre determinado conteúdo como também a integração com o tratamento didático-pedagógico, como vemos na figura 1. A característica de apresentar de forma muito parca itens sobre os conteúdos de ensino do currículo da educação básica parece ter reflexo também nos currículos dos cursos de Pedagogia. Por exemplo, o estudo de Gatti e Barreto (2009) teve como objetivo analisar os currículos prescritos para a formação de professores nos cursos de licenciatura, dentre eles os de licenciatura em Pedagogia. Nesse estudo, as pesquisadoras identificaram uma superficialidade no trato dos conteúdos das diversas áreas do conhecimento (Português, Matemática, Artes, História, Geografia e etc.) a serem ensinados nos currículos da educação básica. Do total de disciplinas obrigatórias e, de acordo com a categoria de análise definida na pesquisa que diz respeito aos Conhecimentos relativos à formação específica, apenas 7,5% das disciplinas são destinadas aos conteúdos a serem ensinados nas séries/anos iniciais do ensino fundamental, quando não aparecem apenas diluídos nas disciplinas referentes às metodologias (Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, Metodologia do Ensino da História...). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3449 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A pesquisa de Gatti e Barreto (op. cit) conclui, então, que os conteúdos específicos das disciplinas a serem ministradas não são objetos dos cursos de formação e questiona se essa formação panorâmica para um profissional que irá planejar, ministrar e avaliar um ensino das diversas áreas do conhecimento será capaz de dotá-lo de competências que o permita adotar uma postura interdisciplinar. A abordagem interdisciplinar é outro dado a ser questionado na formatação das provas do ENADE- Pedagogia. Apesar de esta proposição estar presente nas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de pedagogia. O Artigo 5º da Resolução CNE 01/2006, define como orientação que os/as professores/as tenham um conhecimento aprofundado sobre cada disciplina de modo a identificar possibilidades de diálogo com os demais saberes. Para Gatti (2009), a perspectiva interdisciplinar é complexa e requer um aprofundamento disciplinar lógico-conceitual para a constituição das condições do diálogo, algo difícil, segundo essa autora, de se obter dada a forma como se apresentam os currículos dos cursos de Pedagogia. A proposição da interdisciplinaridade como princípio da formação dos professores dos anos iniciais aparece também em outros textos oficiais, como aponta Dias (2009) ao analisar os ciclos de políticas para a formação de professores dos anos iniciais do ensino fundamental, no período investigado, que compreendeu os anos de 1996 a 2006. Em relação a essa questão, identificamos uma presença bastante incipiente nos itens das provas do ENADE avaliadas. Na edição de 2005 aparece apenas um item, indicado na figura 2, que lhe faz referencia. Na análise técnica dessa edição, os avaliadores destacaram que, ao ser solicitada na questão discursiva uma descrição de uma ação pedagógica, as características das respostas e a ausência delas fizeram concluir que este subitem representou dificuldades para os alunos dos cursos de Pedagogia (BRASIL,2005) O tratamento incipiente em relação à interdisciplinaridade também se apresenta fragilizada na análise dos currículos de Pedagogia. Para Gatti e Barreto (op. cit) a perspectiva interdisciplinar é complexa e requer um aprofundamento disciplinar lógico-conceitual para a constituição das condições do diálogo, algo difícil, segundo elas, de se obter dada a forma como se apresentam os currículos dos cursos de Pedagogia. Porém, é válido ressaltar que, comparativamente, a edição de 2008 apresenta um avanço, ainda que tímido, sobre essa perspectiva, exemplificado por dois itens relacionados à interdisciplinaridade (Figuras 3 e 4). Um que propõe/descreve uma integração entre conceitos ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3450 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior da área de artes e de matemática como pretexto para a solução de um enunciado relacionado ao ensino de matemática. E outra que propõe a integração entre as disciplinas de História e geografia denotando uma concepção de interdisciplinaridade como a utilização de um conceito comum entre diferentes áreas para proceder uma abordagem interdisciplinar. Destacamos ainda, que existe uma diferença entre as quantidades de itens referentes a cada área de conhecimento específico, integrando os itens objetivos e os discursivos. Há um número maior de itens nas áreas de linguagem e de matemática, seguida da de ciências. Há ainda apenas um item em cada uma das provas relacionado às artes visuais. Já as áreas de história e geografia aparecem integradas, como dito acima, na edição de 2008. Na edição de 2005 existe apenas um item relacionado à geografia. Considerações finais Este trabalho teve como objetivo analisar o ENADE como uma das ações de indução no conjunto maior da profissionalização docente para os anos iniciais do ensino fundamental, tomando a característica do exercício da polivalência nesse nível de ensino, como constituidora da profissionalidade polivalente. Aponta assim, as influências diretas e indiretas desse sistema de avaliação na indicação de um perfil de formação inicial e, consequentemente, de um conjunto de saberes da formação inicial que atendam a especificidade da polivalência. Consideramos que o instrumento analisado pode ter a positividade de ser um dos elementos indutores da elevação da qualificação e consequentemente do aprimoramento do processo de profissionalização docente para os anos iniciais do Ensino fundamental. Porém, dada a especificidade da polivalência, as provas apresentaram uma indicação muito superficial de elementos que podem contribuir para uma sólida formação nessa perspectiva. Um desses elementos diz respeito à clareza do trabalho com os conteúdos do currículo da educação. O outro refere-se à abordagem interdisciplinar para a formação e atuação docente. A própria forma como a habilidade destacada no âmbito dos conteúdos é regida associando-os ao tratamento metodológico não tendo assim um espaço próprio na formatação do perfil profissional a ser avaliado. Prevalece, ainda, um número maior de itens destinados aos conhecimentos das habilidades referentes aos fundamentos teóricos da educação. Esses fundamentos não dialogam com os conceitos fundamentais de cada área de conhecimento. Essa compreensão já tem sido discutida na realidade educacional portuguesa. Em documento oficial do Ministério ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3451 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior de Educação daquele país, afirma-se que “o que a criança precisa não é de um professor especialista em cada uma das áreas, mas de um professor especialista no ensino dos fundamentos básicos de cada uma delas e das respectivas relações conceptuais e sua aplicação”, (Ministério da Educação- ME – DGEBS, 1992, p. 42 apud, COSTA PEREIRA, 2010). É válido destacar que os dados analisados parecem indicar que não tem havido um diálogo efetivo entre o que tem sido proposto nos currículos dos cursos de Pedagogia e os itens apresentados no ENADE e vice-versa. REFERÊNCIAS BOING, L. A. A Profissionalização Docente. VIII Jornada Pedagógica do Grupo Escolas Rio, jan/2002. In: CENTRO PEDAGÓGICO PEDRO ARRUPE. www.pedroarrupe.com.br.Acesso em dez/2007. 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Figura 1 – Questão 27 da Prova do ENADE 2008 Fonte: ENADE/2008. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3453 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Figura 2 – Questão Discursiva 4 da Prova do ENADE 2005 Fonte: ENADE/2005 Figura 3 – Questão 26 da Prova do ENADE 2008. Fonte: ENADE/2008 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3454 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Figura 4 – Questão 29 da Prova do ENADE 2008. FONTE:ENADE/2008 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3455 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior EDUCAÇÃO, CURRÍCULO E FORMAÇÃO Dileno Dustan Lucas de Souza28 RESUMO A história da educação tem se mostrado de perdas irreparáveis e exclusão/marginalização social para a classe trabalhadora, bem como, de uma imensa preocupação pela manutenção de uma prática educativa que tem se pautado pela dinâmica do mercado e, por conseguinte, de sua hegemonia. Após o período da ditadura militar empresarial brasileira e o inicio daquilo que se chamou de redemocratização assistimos a uma sucessão de mandatos governamentais que tem aprofundado a separação entre teoria a prática e consequentemente assumindo uma posição desqualificadora de prática educativas crítica e com isso aprofundando as reformas educacionais que favorecem ao modelo educacional neoliberal. Os diversos pareceres e resoluções referentes a educação impõem um modelo formativo, dentre os quais, o de determinar os caminhos que poderemos/devemos formar, a saber: de uma prática tradicional, pautada num pensamento que segue numa direção cada vez mais precária, minimalista que se coloca historicamente ao lado das necessidades do mundo do capital. Ou seja, de uma prática educacional capaz de nos constituir na diversidade que é apresentada pela classe trabalhadora, dessa forma, seguir no caminho de uma formação humana, complexa que assegure uma prática pedagógica transformadora ou como diria Paulo Freire, libertadora. Palavras-chave: Educação; Currículo; Política Educacional. EDUCATION, CURRICULUM AND FORMATION Abstract The history of the education it has shown of irreparable losses and social exclusion/ marginalization for the diligent classroom, as well as, of an huge concern for the maintenance of an educative practice, one that has been lined for the dynamics of the market and, therefore, of its hegemony. After the period of the Brazilian military dictatorship business and the beginning of what it’s called democratization, we attend a succession of governmental mandates that has depth the separation between educative theory and the practical, and, in consequence, assuming a disqualifying position about critic educative practices and, this way, making it deeper the educative changes that go on favor of the new liberalistic model of education. The diverse resolutions when it’s talked about education imposes a formative model, having as a finality, to determinate the ways that we should and could take, knowing about: a traditional practice, based on thoughts that go for , more and more, to a precarious direction, minimalist that puts itself right beside of the needs of a world based on the capital, historically. In other words, of an educational practice capable of building us on the diversity of the working class, and, in that way, proceed in a complex human formation line, that ensure a transforming pedagogic practice or, as Paolo Freire would say, freedom. Key Words: Education; Curriculum; Educational politics. 28 Professor da Universidade Federal de Viçosa/Departamento de Educação. Membro do grupo de pesquisa trabalho, movimentos sociais e Processos Educativos. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3456 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A EDUCAÇÃ0 E A FORMAÇÃ0 PROFISSIONAL No processo de formação dos trabalhadores é preciso entender alguns aspectos conceituais da educação no Brasil. Um marco possível para esse entendimento é a Conferência de Educação para Todos, organizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), pelo Banco Mundial (BIRD) realizada em Jomtien, na Tailândia no ano de 1990. A perspectiva desta Conferência foi a “propor” aos países periféricos do capitalismo definir/impor metas educacionais ao mesmo tempo em que se pretende romper com um tipo de educação não muito favorável à nova dinâmica global/neoliberal. Ou seja, desde o final dos anos 1970, o mundo vinha passando por mudanças conceituais nesse sentido é preciso reordenar as políticas educacionais nos paises membros/subalternos daí a necessidade de rever as perspectivas educacionais e atualiza-las dentro de uma concepção de educação voltada aos interesses do mercado. Como resposta a essas exigências dos organismos internacionais o governo brasileiro inicia suas mudanças a partir do Plano Decenal de Educação para Todos definindo estratégias e perspectivas para os próximos dez anos (1993/2003) a fim de assegurar seu compromisso com as diretrizes da conferência assegurando dessa formas o direito à educação a população29 e assim se inserindo naquilo que foi denominado "esforço mundial de universalização da educação básica". Essa reordenação da educação nacional passou por mudanças consideráveis na LDB, nas resoluções, decretos e demais legislação educacional, nas novas formas de organização da produção, passa a interessar mais enquanto projeto político que atende aos interesses do capital. Neste contexto, a escola assume uma nova função, ou seja, passa a ser apresentada como local de prestação de serviços ao mercado procurando adotar inovações e incorporar avanços cognitivos e tecnológicos nos processos de ensino e de gestão escolar. O fundamento desta crítica é parcial na medida em que a escola é avaliada sob a ótica do capital, também dizendo que o atual modelo de educação interessa e atende aos anseios dos trabalhadores. As críticas que se fazem à escola são conjunturais e não buscam superar os reais problemas da educação na busca por um espaço mais democrático e de qualidade para os trabalhadores ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3457 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Percebe-se ai que os termos qualidade e autonomia são usados pelo neoliberalismo a partir de suas conveniência e as exigências apresentadas pelo Banco Mundial por meio de “ajuda financeira” a fim de intervir e definir as prioridades, as estratégias e os conteúdos das reformas da educação dos países da América Latina. Neste sentido, as mudanças educacionais atendem às exigências da lógica do mercado consolidando um projeto de formação que segue as tendências mundiais que dão ênfase na formação precária com a aceleração dos cursos, a adoção das modalidades de ensino a distância e o incremento no uso de tecnologias educativas a fim de precarizar a formação educacional da classe que vive do trabalho. Dessa forma, a formação pedagógica tem estado novamente em discussão perdendo espaço a formação presencial e ganhando a formação a distancia e em serviço, precarizada e despolitizada, o que remete ao darwinismo social: a mudança é apenas uma questão de ênfase, numa visão dicotômica que estrutura a política educativa optando, ora por este caminho, ora por aquele, mas seguindo sempre para o mesmo lugar. Nessa lógica, o trabalhador deve ser formado no próprio local de trabalho, é a partir da reestruturação das formas de produção. E a educação a distância é uma ótima alternativa para se massificar este tipo de ensino. Afinal, as instituições educativas formais30 (escolas, universidades etc.) não são competentes em formar o trabalhador que, sem a perspectiva da educação formal, ganha menos e é mais fácil de descartar. A ênfase atual na capacitação em serviço fundamenta-se, entre outras, na idéia de que não é preciso contratar novos professores, trata-se apenas de redistribuir racionalmente ( e até depurar) e "reciclar" os existentes. De fato, a necessidade de racionalizar a contratação e a distribuição dos professores é ponto decididamente recomendado pelo Banco Mundial aos governos, por meio — também — de medidas tais como o incremento do número de alunos por professor. O Banco argumenta que, ao aumentar a relação aluno/professor, faz-se uma economia que pode ser investida na capacitação em serviço dos docentes e no livro didático. (TORRES, 1998: 176). 29 No padrão de exploração anterior, a formação do trabalhador era limitada ao extremo, uma vez que o que importava era o domínio de algumas habilidades necessárias à execução das tarefas dentro de um determinado ritmo de trabalho, a educação escolar era um complemento e a má qualidade da escola não apenas não era um problema como, em muitos casos er a necessária. 30 Segundo Maria Clara di Piero, no documento ONGs e Educação contribuições de Minas "[...]perante o conceito ampliado de educação oferecido por Jomtien, a dicotomia entre formal e não formal (historicamente estabelecida no âmbito da educação popular) perde sentido...". No entanto, para fins de remuneração e ascensão na carreira os parâmetros ainda são ditados pela qualificação formal. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3458 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior O processo de formação nessa perspectiva é eminentemente conjuntural, ou seja, um tipo de educação instrumental, direcionada para o imediato, onde o fazer e o pensar estão desvinculados de uma reflexão mais ampla que envolva todas as dimensões do processo educativo. Essa qualificação tem como pressuposto imprimir "novas alternativas de trabalho dentro de uma concepção de formação aligeirada tanto dos professores, quanto de alunos, pois o ensino será trabalhado na perspectiva de uma educação possível e necessária”. Na realidade, a concepção é de que a escola há de ser um espaço que garanta ao aluno um ensino de qualidade, considerando o momento atual, numa dimensão prospectiva, sem perder de vista o ritmo acelerado de mudança que a sociedade vem passando. Nos projetos financiados pelo Banco Mundial para melhorar a qualidade da educação, o material instrucional e o livro didático são em geral a primeira ou a segunda rubrica, depois da construção escolar. Não obstante, são cada vez mais freqüentes os programas de capacitação docente que, na verdade, constituem um complemento à entrega de algum "pacote" didático. A relação aparece, então, invertida: não é o livro didático que complementa o professor é o professor que complementa o livro.[...] Os materiais auto-instrutivos, organizados em módulos, como os que projetam para os sistemas plurisserioados e a distância, converteram-se em protótipo do material didático no âmbito escolar. Tudo isto contradiz o discurso educativo atual, em particular o latino-americano, em que se enfatiza o protagonismo, a revalorização, a autonomia e a profissionalização do professor. (TORRES, 1998:178/179) É importante que a educação tenha como preocupação o momento atual, a fim de discuti-lo criticamente e compreendê-lo, mas essa conjuntura não deve determinar, ou pior, minimizar o conteúdo a ser trabalhado. É preciso atentar para os modismos ditados pelos organismos multilaterais e compreender o esforço da globalização em moldar a educação. Essa política de fazer recomendações e apresentar modelos educativos não é uma iniciativa nova, na verdade, é nossa velha conhecida. Nos anos de 1970, tivemos mudanças que redirecionaram o processo educativo para o tecnicismo, reduzindo o aprendizado para dar suporte a novas demandas industriais. As necessidades de um mercado robotizado e computadorizado onde a nanotecnologia passa a determinar as formas de pesquisa e demandas de consumo. Dessa forma nos deparamos com a consolidação de uma "nova" proposta educacional, que visa ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3459 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior estreitar os laços entre o processo educativo e produção de novas necessidades de consumo, ou até mesmo, justificar a nova perspectiva do mercado de trabalho, que ao substituir o trabalho homem pelo trabalho das máquinas precisa mostrar à sociedade, que o desemprego passa pela inadequação dos métodos de ensino e não pelas estratégias do mercado, ou seja, a escola é incompetente, bem como aqueles que nela trabalham. Neste sentido, a existência de mecanismos de exclusão e discriminação educacional resulta, de forma clara e direta, da ineficácia da escola e da profunda incompetência daqueles que nela trabalham. Os sistemas educacionais contemporâneos não enfrentam, sob a perspectiva neoliberal, uma crise de democratização, mas uma crise gerencial. [...] O objetivo político de democratizar a escola está assim subordinado ao reconhecimento de que tal tarefa depende, inexoravelmente, da realização de uma profunda reforma administrativa do sistema escolar orientada pela necessidade de introduzir mecanismos que regulem a eficiência, a produtividade, a eficácia, em suma: a qualidade dos serviços educacionais (GENTILI, 1996:17/18). Qualidade de ensino e formação política Se não se constituem em uma novidade que as mudanças impostas nos últimos anos pela sociedade capitalista vêm acelerando abruptamente a exclusão/marginalização das massas trabalhadoras, principalmente, se considerarmos a lógica da teoria do capital humano que expressa na educação a superação da condição social, o neoliberalismo tem sido analisado como uma contraposição radical às garantias historicamente asseguradas pela luta dos trabalhadores (as) travadas no sentido de buscar uma qualificação que se some às condições instrumentais de qualificação. Neste sentido, os intelectuais neoliberais entendem ser necessário um novo entendimento a fim de garantir o êxito ideológico do livre mercado, criando, desta forma, uma perspectiva social contrária à luta dos (as) trabalhadores (as), o que rompe com qualquer critério de igualdade, enquanto garantia para que todos tenham as “mesmas condições” de vida. Na prática, o que se observa é a crescente disseminação da desigualdade. Por outro lado, o discurso oficial investe no paradigma a equidade, enquanto ação jurídica, procurando determinar entre as pessoas relações burocráticas afirmativas aos seus privilégios daqueles que detém o poder de decisão. Esta necessidade do capital em romper com a igualdade ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3460 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior garantida pela luta dos trabalhadores (as) introduz novas exigências para a organização da educação como espaço estratégico do Estado para a formação. Com isso, o mercado ressurge como a grande esperança para reordenar as relações do capitalismo repensando a estrutura social, revertendo os parâmetros da educação para uma sociedade com novas exigências, onde o que se fala é que é preciso forjar um homem com novas concepções, nos moldes da nova ordem mundial. A Universidade, como importante patrimônio social, caracteriza-se pela sua necessária dimensão dialógica de produção/transmissão/produção da experiência cultural, científica e social. E se constitui, essencialmente, em um elemento constitutivo de qualquer processo estratégico e de construção de uma identidade social, independentemente do regime jurídico a que se encontre submetida. A dimensão pública das instituições de ensino superior se efetiva simultaneamente pela sua capacidade de representação social, cultural, intelectual e científica. E a condição básica para o desenvolvimento desta representatividade é a capacidade de assegurar uma produção de conhecimento inovador e crítico que respeite a diversidade e o pluralismo e não simplesmente preencha uma função de reprodução de estruturas, relações e valores; antes acolha os mais diversos elementos que possam constituir questionamentos críticos que as configurem como protagonistas da evolução histórica da sociedade. Assim entendida, a universidade pode também contribuir para a adequação das estruturas do Estado às aspirações democráticas em curso na vida política, nacional e internacional e, em especial, ser elemento ativo de intervenção democrática na vida da Sociedade Brasileira. Para realizar tais tarefas, permanecem ainda atuais os desafios de democratização e autonomia da estrutura universitária, para garantir o desempenho da universidade como instituição estratégica da sociedade. A ela caberá contribuir para a formulação de soluções viáveis para os diversos problemas sociais. Não é isto que se observa na história recente do ensino superior no Brasil, sobretudo a partir da implementação da Reforma Universitária imposta pela Lei 5.540 de 1968, proposta e implantada no auge do período de ditadura militar e, em especial, dos anos de 1980 para 1990. De lá para cá, o que vai se consolidar será um quadro da educação de terceiro grau cujas características seriam: a progressiva aceleração do processo de privatização e de empresariamento do ensino; a crescente desobrigação do Estado quanto ao financiamento da universidade pública; a definição pelo poder público de uma política nacional que não ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3461 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior assegurava condições reais de ensino e pesquisa na produção acadêmica e o autoritarismo estatal. Com a adoção de tais medidas, os governos privatizaram e degradaram a educação pública brasileira e, em conformidade com os objetivos da Organização Mundial do Comércio OMC, do Fundo Monetário Internacional - FMI e do Banco Mundial – BM, e transformaram a educação em mercadoria regulada pelos interesses explícitos do mercado. Atuando nessa lógica apregoam-se idéias de que as reformas necessárias ligam-se às grandes questões da qualidade e da eficiência do sistema, englobando, entre outros, temas como a autonomia universitária, a avaliação e o recredenciamento periódico, a tecnologia nacional, a interação com o governo para a formulação de políticas gerais. A adoção do Padrão Unitário de Qualidade da Universidade Brasileira31, como meta a ser alcançada não significa a busca da homogeneização das instituições e, sim, a necessidade de se atender às diferentes demandas sociais deve ser respeitada. Trata-se da elevação geral do padrão de qualidade das universidades de maneira, inclusive, a contribuir para a superação das diferenças regionais do desenvolvimento econômico e social. É um princípio que se contrapõe à concepção de um padrão de qualidade desigual para a Educação Superior que admite a coexistência de “Centros de Excelência”, dedicados à transmissão e à produção do conhecimento, formadores das elites; e “instituições periféricas” que se ocupam apenas da reprodução do conhecimento destinado à profissionalização das classes menos favorecidas. A qualidade da universidade torna-se cada vez mais necessária, ganha sentido e atinge a sua finalidade quando torna o produto do fazer acadêmico acessível à sociedade, contribuindo para o seu aperfeiçoamento e melhoria da qualidade de vida da população. Para que isso seja possível, não haveria outra defesa, no nosso entendimento, a não ser por meio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Nesse sentido, o processo de constituição e o parecer que deu sustentação às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do Curso de Pedagogia, propostas e implementadas apresentou alguns desafios. A par de ser a formação dos profissionais da educação um tema exaustivamente discutido, cabe aqui destacar alguns aspectos importantes de investigação, como aquilo que pode determinar os caminhos que poderiam ser seguidos num percurso de formação: a saber, uma prática tradicional de um pensamento que segue numa direção cada vez mais precária, minimalista que se coloca historicamente ao lado das necessidades do mundo do capital; ou uma prática educacional capaz de nos constituir na diversidade que é ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3462 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior apresentada na sociedade brasileira. Dessa forma, sugere-se que possamos seguir no caminho de uma formação humana mais ampla capaz de assegurar uma formação complexa que assegure uma prática pedagógica para além das DCN. A história da educação tem sido de perdas irreparáveis e marginalização social, bem como de manutenção de uma prática pedagógica que tem se colocado a serviço do capital e de sua hegemonia a partir da formação pedagógica. Após a chamada redemocratização da educação assiste-se a sucessão de governantes que não têm se mostrado sensíveis a uma prática pedagógica que assuma uma postura crítica em relação às práticas neoliberais. Essas práticas nos têm levado a uma séria crise da educação chegando a propor uma formação pedagógica intolerável pela sua crescente mercantilização, favorecendo a política de desobrigação do Estado com a educação pública, gratuita e de qualidade e propiciando cada vez mais uma educação marginalizadora. A sociedade vem discutindo e se organizando para intervir nessa situação, promovendo debates de pesquisas e experiências educacionais, bem como construindo propostas concretas em oposição às que os sucessivos governos, cada vez mais comprometidos com os setores empresariais da educação, vêm implementando. Tais propostas são alternativas ao modelo vigente e se constituem em um projeto políticopedagógico para a educação pautado na ética e na participação democrática a partir de um compromisso de classe, buscando uma educação capaz de formar para além das tais necessidades do mercado, ou seja, uma educação que tenha na humanidade a sua complexidade. Dessa maneira, é preciso consolidar um projeto educacional que contemple as suas dimensões e problemas sociais, culturais, políticos e educacionais, embasado nas lutas e proposições daqueles que defendem uma sociedade mais justa e igualitária e, por decorrência uma educação pública, gratuita, democrática, laica e de qualidade, para todos, em todos os níveis promovendo uma ruptura com a lógica da equidade que a todo o momento se contrapõe a prática da igualdade. As diretrizes do curso de pedagogia, por tradição, têm sido elaboradas sob a incumbência de gabinetes ministeriais ou de comissões instituídas para esse fim. Ostentam, quase sempre, programas ou projetos com características setoriais, pontuais, e enfoques 31 Padrão defendido por entidades dos movimentos sociais, em especial pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições do Ensino Superior - ANDES-SN. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3463 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior meramente economicistas. A maioria deles vincula educação e desenvolvimento, visando a formar “recursos humanos, capital humano”, sem conceber a educação como instrumento que, a serviço de todos, enseje aumentar a probabilidade da criação científica, artística e cultural, resultando em emancipação social e política. Além de peças burocráticas não cumpridas, tais planos são exemplos de que, no Brasil, a educação nunca foi prioridade: basta ver os percentuais destinados à consecução de suas metas, qualitativas ou quantitativas. Assim, a reformulação do curso de pedagogia para além da legislação deve ser um instrumento de condição humana. Sendo o seu principal objetivo atender às necessidades educacionais da maioria da população marginalizada socialmente. Outrossim, tanto o método quanto o conteúdo devem refletir o seu caráter coletivo e democrático de sua elaboração, assim como deverá fazê-lo na sua implementação e avaliação. Entendo que a formulação do curso de pedagogia deve refletir a defesa de princípios voltados para a busca de igualdade social. Assim, as concepções de homem, mundo, sociedade, democracia, educação, escola, autonomia, gestão, avaliação, currículo, entre outras devem ser bastante distintas daquelas que os setores sociais, hoje hegemônicos, se utilizam para manter a situação de marginalização que presenciamos. Dessa maneira, no âmbito de uma reformulação como esta devemos efetivamente propor a mudança no modelo social historicamente referenciado no Taylorismo/Fordismo partindo para uma prática que considere a educação enquanto processo educativo que se desenvolve na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais. Essa perspectiva nos remete à busca permanente de um desenvolvimento garantidor de um referencial que articule, pelo campo da formação pedagógica, outros campos como, por exemplo, o fortalecimento de uma política efetiva para a reforma agrária, uma efetiva política agrícola, uma política de Ciência e Tecnologia e práticas sociais, articuladas com as necessidades dos trabalhadores. Um processo pedagógico que considere as implicações sociais a partir das mudanças sofridas pelo Estado, de sua globalização econômica e cultural, bem como os Blocos Econômicos e do mercado mundial, a fim de não aceitar o processo em curso como inexorável, frente ao qual só resta render-se de forma subalterna e subserviente. A educação é aqui entendida como um instrumento de formação ampla, de luta por direitos e garantias e emancipação social capaz de contribuir com as pessoas e a sociedade ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3464 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior para a responsabilidade de construir, coletivamente, um projeto de sociedade com padrões de excelência e adequação aos interesses dos trabalhadores. Para isso, o ser humano deve ser concebido como: ativo, crítico, construtor de sua própria cultura, da história e da sociedade em que vive, para tanto é imprescindível seu acesso a uma educação que lhe proporcione uma formação ampla, desenvolva valores e atributos inerentes à ruptura com a opressão e marginalização social. A educação, nessa perspectiva, deve dirigir-se ao ser humano integral, englobando todas as dimensões de sua relação com o mundo. Assim, um dos principais objetivos do processo educativo é elaborar instrumentos de descoberta, escolha e integração das informações disponíveis. Nessa dimensão a escola se redefine como o espaço de respeito de valores, de tolerância e respeito às diferenças (negros, índios, trabalhadores do campo e da cidade, homossexuais, educação Especial e a Educação de Jovens e Adultos, crianças e adolescentes em situação de risco social, dentre outras) de produção e disseminação de conhecimento e de convivência humana e social, cultural e política, levando sempre em consideração a realidade das relações sociais e de trabalho. Nessa perspectiva, a reformulação curricular do curso de pedagogia deve estar atenta às demandas sociais e constituir uma grade curricular resultante da construção coletiva e da sua diversidade, fundamentada na análise crítica da realidade social devendo estar atenta à incorporação dos avanços da ciência e da tecnologia aos programas e práticas escolares. PARA CONCLUIR A preocupação de escrever este artigo vem de uma observação sistemática das atuais e repetidas investidas governamentais em enquadrar as universidades públicas dentro de sua lógica de formação em massa para futuros e atuais professores. Impondo um tipo de formação considerada por muitos como acelerada e precarizada, tais iniciativas têm sido consideradas condizentes com a própria perspectiva da sociedade neoliberal, que procura dar conta da brutal marginalização que vem impondo à classe trabalhadora. Na realidade o Banco Mundial e os Governos neoliberais definiram e elaboraram o projeto educacional montaram todas as estratégias e convocaram a sociedade para representar enquanto atrizes e atores do processo, ou seja, representam um papel determinado, bastando decorar o texto. Nessa concepção a formação educativa é concebida como medidas compensatórias, a fim de minimizar os efeitos perversos do ajuste neoliberal. A lógica da cidadania é a lógica do mercado de consumo, de bem-estar do cidadão, encarado como de contabilidade ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3465 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior custo/benefício, por isso a preocupação em redefinir e equacionar seus serviços a partir de critérios quantitativos. Os organismos multilaterais exercem profunda influência nos rumos da educação e chegam a determinar os passos e as medidas que devem ser tomadas para "melhor" atender a sociedade, considerando esse quadro e sem nenhuma pretensão de profetizar, percebe-se que a perspectiva da concepção de formação pedagógica é de ser muito pior do que já esta, exatamente por agudizar a marginalização e a exclusão social. Podemos então, conclusivamente, dizer que, os moldes da reinvenção da formação pedagógica é algo muito bem planejado como forma de consolidação da hegemonia mundial do capital, o que satisfaz as diretrizes educacionais do Banco Mundial. E é neste sentido que a formação do professor tem que passar por uma base teórica e prática que lhe dê uma compreensão mais ampla. É preciso discutir seus salários; garantir melhores condições de trabalho; consolidar um projeto de formação que supere a dicotomização entre as diferentes modalidades, garantindo uma qualificação ampla que considere, sobretudo, o professor real, suas expectativas e suas dificuldades. Até o presente os homens sempre fizeram falsas representações sobre si mesmos, sobre o que são ou o que deveriam ser. Organizaram suas relações em função de representações de Deus, do homem normal etc. Os produtos de sua cabeça acabaram por se impor a sua própria cabeça. Eles, os criadores renderam-se as suas próprias criações. Libertemo-los, pois das quimeras, das idéias, dos dogmas dos seres imaginários, sob o jugo dos quais definham. Revoltemo-nos contra esse predomínio dos pensamentos. Ensinemos os homens a substituir essas fantasias por pensamentos que correspondam a essência do homem, diz um; a comportar-se criticamente para com elas; diz um outro, a expurgá-la do cérebro, diz um terceiro - e a realidade existente cairá por terra( MARX, K e ENGELS, F. 1993: 17). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BANCO MUNDIAL. Relatório Sobre o Desenvolvimento Mundial 1997: O Estado num mundo em transformação. Washington, 1997. BRASIL, Ministério de Educação e Cultura (MEC). Plano Decenal de Educação para Todos. 1993. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3466 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior GENTILI, P. & SILVA, T.T. Escola s/a: quem ganha e quem perde no mercado educacional do neoliberalismo. Editora: CNTE, 1996. HADDAD, S. TOMMASI, L. & WARDE, M.J. O Banco Mundial e as políticas educacionais. Ed. Cortez, 1996. MINAS GERAIS. Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais: Programa de Capacitação de Professores(PROCAP): Guia de estudos gerais. SEE-MG, 1997. MINAS GERAIS. Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais: Programa de Capacitação de Professores(PROCAP): Reflexões sobre a prática pedagógica: Guia de estudos. SEE-MG, 1997 TORRES, Rosa Maria. Tendências na Formação Docente nos anos 90.In: WARDE M. J.(org). II Seminário Internacional Novas Políticas Educacionais: criticas e perspectivas. São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História e Filosofia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1998. UNICEF. Encontro Estadual "Educação para Todos: e as ONGs? Contribuição de Minas. UNICEF, 1994. UNICEF. ONGs e Educação; contribuições de minas. Referenciais apontados no Encontro Estadual: Educação Para Todos: e as ONGs? UNICEF, 1994. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3467 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior FORMAÇÃO DO PEDAGOGO E RE-SIGNIFICAÇÕES DO CURRÍCULO EM DIFERENTES ESPAÇOS EDUCATIVOS Djanice Marinho de Oliveira32 RESUMO Discutir a formação do pedagogo na atualidade requer um conhecimento da história do curso de pedagogia no Brasil e o seu percurso com momentos de cada período, com suas instabilidades e controvérsias quanto à identidade e formação do profissional formado em pedagogia. Dessa forma, as discussões levantadas ao longo de todo esse período têm gerado outras questões, ainda mais fortes para o pedagogo, estando inseridas as discussões para o currículo e como ele esta sendo prescrito e materializado nos cursos de pedagogia. Este estudo objetiva levantar algumas discussões acerca da formação do pedagogo e quais as implicações do currículo, tratando nos seus aspectos teóricos e trazendo posições de autores e entidades que tratam da questão da formação do pedagogo em seus mais diferentes meios educativos a partir da reflexão do trabalho docente exercido em espaços formais e não-formais de educação. Palavras-chave: Curso de Pedagogia. Formação do Pedagogo. Currículo O presente estudo importa procedermos a uma leitura do estado da questão da formação do Pedagogo apontando a necessidade de aprofundamento deste tema, suas articulações em dimensões mais amplas e uma dinâmica que traduza as considerações políticas e teóricas ao nível das práticas desejáveis, coerentes e factíveis. Em se tratando da reconstrução do currículo em novas bases prático-teóricas dos cursos de Pedagogia, torna-se necessário, antes ainda, aprofundar o entendimento comum sobre o que seja a dimensão profissional no mundo de hoje, sobre o que devemos entender por formação profissional em sua relevância fundante e sobre que linhas temático-conceituais devem embasar-se a formação do pedagogo em sua qualidade teórica e prática nos mais diversos espaços educativos.. O Curso de Pedagogia hoje está em bastante discussão no cenário educacional, pois a formação do profissional formado em pedagogia é uma temática que tem sido tratada pela literatura educacional com os mais diferentes objetivos e sob variados ângulos e critérios, favorecendo assim, uma busca pela identidade da formação do Pedagogo e enfocando o currículo e suas discussões. Uma das correntes de profissionais que lutam pela uniformização ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3468 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior do currículo e da formação de educadores onde baseiam-se suas ações na docência é a Associação Nacional de Formação dos Profissionais da Educação – ANFOPE, onde Brzezinski (1996, p.181), afirma que: A concepção de formação de profissionais da educação em um curso de Pedagogia adotada pela ANFOPE requer uma dinâmica curricular que supõe um movimento progressivo, planejado, regular, sistemático e intencional, embora a atuação do Pedagogo possa, num sentido latu, ser estendida aos diversos espaços da sociedade que exijam dos profissionais uma dimensão pedagógica, no sentido especifico está direcionada para uma educação institucionalizada e formal – a educação escolar. Desse modo, o profissional de que trato aqui é aquele que tem uma formação com características especificas para uma atuação na escola e no sistema educacional. Assim compreendido, esse profissional deve ser formado para ter domínio das relações que se estabelecem no trabalho pedagógico, que constituem o núcleo central de sua formação. Essas relações ocorrem em um lugar especifico de atuação – a escola –, que deve constituir um espaço pedagógico no qual se organizam situações educativas formais, intencionais e planejadas, expressas em seu Projeto Político-Pedagógico. A escola deve abrigar democraticamente a maioria da população e ser capaz de garantirlhe sucesso escolar, ao assumir seu papel de transmitir conhecimentos sistematizados e de criar situações que propiciem a produção do conhecimento. Para a ANFOPE é a docência a base da formação para o Curso de Pedagogia devendo formar educadores para ensinar da educação infantil até a primeira fase do ensino fundamental, mais também tem um caráter global de formação, voltado para os aspectos da formação inicial e docência como base relacionando o pedagogo nos mais diversos campos de atuação profissional formais e não-formais de educação. A formação para a vida humana, forma de manifestação da educação omnilateral dos homens; a docência como base da formação; o trabalho pedagógico como foco formativo; a sólida formação teórica, a ampla formação cultural; a criação de experiências curriculares que permitam o contato dos alunos com a realidade da escola básica, desde o início do curso; a incorporação da pesquisa como princípio de formação; a possibilidade de vivência, pelos alunos, de formas de gestão democrática; o desenvolvimento do compromisso social e político da docência; a reflexão sobre a formação do professor e sobre suas condições de trabalho; a avaliação permanente dos cursos de formação; o conhecimento das possibilidades do trabalho docente nos vários contextos e áreas do campo educacional. (ANFOPE 2000, p.37) 32 Djanice Marinho de Oliveira é mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) atuando na linha de pesquisa Formação de Professores e Prática Pedagógica. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3469 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior É com esta inquietação que tratarei teoricamente o campo que o Pedagogo pode atuar nos mais diversos setores da sociedade, estando subsidiado pelo currículo do curso de pedagogia, enfatizando a docência como base de sua formação e a escola como principal instituição de atuação.Para Brzezinski (1996, p.182): Assim compreendido, este profissional deve ser formado para ter domínio das relações que estabelecem no trabalho pedagógico, que constitui o núcleo central de sua formação. Essas relações ocorrem em um lugar específico de atuação – a escola – que deve constituir um espaço pedagógico no qual se organizam situações educativas formais, intencionais e planejadas, expressas em seu projeto político-pedagógico. A escola deve abrigar democraticamente a maioria da população e ser capaz de garantirlhe sucesso escolar, ao assumir seu papel de transmitir conhecimentos sistematizados e de criar situações que propiciem a produção do conhecimento. Como vimos, estas exigências da formação profissional se colocam e se devem cumprir, da maneira mais radical, no exercício mesmo da profissão, sob a forma de experiência que se aprofunde e alargue. Mas a experiência profissional não se pode restringir às exigências operativas e mediatas, nem pode fechar-se no âmbito exclusivo da corporação ou de uma escola em particular. Faz-se mister o diálogo explícito, orgânico e sistematizado com outras formas de construção do saber e com outras instâncias educativas. O contexto interno da escola é ponto de ancoragem obrigatória e imprescindível, mas é também ponto de partida para outras modalidades da formação profissional. Ao falarmos de outras modalidades de atuação profissional, estamos relacionando os diversos olhares na formação do pedagogo em torno da atuação profissional podendo atuar em qualquer instância da sociedade. Para Pimenta (2002, p. 63) Pedagogia é necessariamente: Conceber o curso de Pedagogia como destinado apenas à formação de professores é, ao meu ver, uma idéia muito simplista e reducionista. A Pedagogia ocupa-se de fato da formação escolar de crianças com processos educativos, métodos, maneira de ensinar, mas antes disso ela tem um significado bem mais amplo, bem mais globalizante. Ela é um campo de conhecimentos; diz respeito ao estudo e à reflexão sistemática sobre o fenômeno educativo, sobre as práticas educativas, para poder ser uma instância orientadora do trabalho educativo. Enfatizando ainda mais sobre as diretrizes que norteiam as ações da ANFOPE é necessário esclarecer que: onde estiver ocorrendo um processo educativo, seja em qual for o local deve ter um Pedagogo exercendo sua profissão, de certa forma, no contexto das ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3470 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior discussões sobre a formação do pedagogo, há embates quanto a caracterização que se dá para a base dessa formação, diversos autores como Libâneo (2002), Pimenta (1998, 2001, 2002), Saviani (2008), discutem o profissional pedagogo formado no curso de pedagogia não só como uma licenciatura, mais também como bacharelado. O grupo de intelectuais signatários do Manifesto dos Educadores Brasileiros compreende o curso de Pedagogia como campo científico e investigativo, constituindo-se prioritariamente como uma ciência e, somente por isso, como um curso. Por tal motivo vê o curso como bacharelado, no qual deve ser garantida a pesquisa. O lócus do curso são as Faculdades/Centros/Departamentos de Educação. Entre suas atribuições ganha realce a formação do gestor. Alegam não ser possível formar num só curso bons professores e bons especialistas e, portanto, a formação docente para Educação Infantil – EI e anos iniciais do Ensino Fundamental – AIEF deveria ocorrer em cursos específicos de licenciaturas podendo partilhar o mesmo espaço do curso de Pedagogia. (EVANGELISTA E TRICHES, 2008a) Nesse sentido, implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Pedagogia (DCNP) foi muito discutida no contexto da produção da resolução do CNE/CP Nº 1 de 15 de maio de 2006. Uma vez que, estabelecidas as diretrizes, a partir dessa Resolução, originou-se uma nova discussão em torno do curso de pedagogia, e mais uma vez, retoma-se as discussões da definição do seu currículo e que explicita a formação do pedagogo como também o seu campo de atuação. As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia, consubstanciadas nos Pareceres CNE/CP n. 05/2005, 01/2006 e na Resolução CNE/CP n. 01/2006, demarcam novo tempo e apontam para novos debates no campo da formação do profissional da educação no curso de pedagogia, na perspectiva de se aprofundar e consolidar sempre mais as discussões e reflexões em torno desse campo. Esse aprofundamento exige, no entanto, que se delineiem de forma mais clara e precisa os contornos e as perspectivas que essa formação poderá assumir em decorrência das diretrizes aprovadas. (AGUIAR et al 2006a, p.828-829) O curso de Pedagogia, desde sua criação no Brasil em 1939, tem sua trajetória marcada pela indefinição, motivo este que resultou numa fragmentação do curso e dos profissionais que ali eram formados, para entendermos sobre a origem das correntes em defesa do curso de pedagogia formado para a docência ampliada, e um curso formado tanto para licenciatura quanto para o bacharelado (formar especialistas) é necessário que façamos ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3471 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior uma breve análise sobre a história da formação de professores no Brasil. Pimenta (2002, p. 62) diz que: [...] de fato, uma tradição na história da formação de professores no Brasil segundo a qual o Pedagogo é alguém que ensina algo. Essa tradição teria se firmado no início da década de 1930 com a influência tácita dos chamados “Pioneiros da Educação Nova”, tomando-se o entendimento de que curso de Pedagogia seria um curso de formação de professores para as séries iniciais da escolarização obrigatória. O raciocínio que teria dado suporte a essa idéia é simples: educação, ensino dizem respeito a crianças (inclusive porque o “peda” do termo Pedagogia vem do grego paidós, que significa criança). Ora, ensino dirige-se a crianças, então quem ensina para crianças é pedagogo. E para ser pedagogo, ensinador de crianças, faz-se um curso de Pedagogia, isto é, um curso que forma professores para ensinar crianças. Foi essa idéia que permaneceu e continua reincidente na experiência brasileira de formação de professores (e que alguns educadores chamam de “conquista histórica”). Aliás, a aceitar esse raciocínio, também os cursos de licenciatura deveriam receber também, a denominação de cursos de Pedagogia, porque preparam professores para ensinar crianças e jovens. Assim, visualizando esta questão de uma identidade em construção, cabe a este estudo colocar em discussão indicativos que possam propiciar um redirecionamento, a caracterização do profissional pedagogo, configurando suas ações e caminhando para além da visão estabelecida até hoje, sem perder a perspectiva de estar em sintonia com compromissos perante a urgente e necessária qualidade social da educação brasileira. Com base nessas palavras, Pimenta (1998, p.48) diz que: Quanto à descaracterização profissional do Pedagogo, subsumido ‘professor’, sua formação passa a ser dominada pelos estudos disciplinares das áreas das metodologias. Estas, ao voltarem seus estudos diretamente a sala de aula, espaço fundamental da docência, ignoram os determinantes institucionais, históricos e sociais (objeto de estudo da Pedagogia) desse modo, a Pedagogia, ciência que tem a prática social da educação como objeto de investigação e de exercício profissional – no qual se incluem a docência, embora nele se incluam outras atividades de educar – não tem sido tematizada nos cursos de formação de Pedagogos. A identidade profissional do pedagogo se reconhece, portanto na identidade do campo de investigação e na sua atuação dentro da variedade de atividades voltadas para o educacional e para o educativo. O educacional diz respeito a atividades do sistema educacional, de sua política, estrutura, e sua gestão em suas várias modalidades, com finalidades e relações mais amplas da vida social. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3472 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior O educativo está voltado à atividade de educar no sentido mais próprio da palavra, envolvendo objetivos e meios de educação e instrução em várias modalidades e instâncias. Assim sendo, todos os profissionais que se ocupam de domínios e problemas da prática educativa em suas várias manifestações e modalidades e onde houver um caráter intencional são, pedagogos: professores, supervisores de trabalho, pais, agentes dos meios de comunicação, autores de livros, orientadores e guias de turismo, agentes de educação em movimentos sociais. Tomando como base às palavras de Libâneo (2002, p.56) ao afirmar que: A Pedagogia é a teoria da educação. Utilizo o termo educação numa acepção bastante ampla. A prática educativa não se reduz à escola e ao ensino. A intervenção educativa ocorre em muitos lugares, mediante variadas formas, por meio de diversas agencias. Há, portanto, agentes educativos convencionais – família, escola, comunidade – como há instituições sociais, culturais, civis, recreativas, meios de comunicação etc. a escola, portanto, não detém o monopólio do saber. A significação ampla da palavra Pedagogia cria condições necessárias para a sua intervenção em diferentes setores da nossa sociedade, havendo assim, um caráter teórico para termos o conhecimento das acepções pedagógicas e conseqüentemente a prática auxilia na concreticidade das nossas ações não se efetivando apenas no âmbito escolar. As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia através de seu parecer CNE/CP nº 3/2006 enfatizam a base da formação do pedagogo ser a docência, mas traz a preocupação de formá-lo ao mesmo tempo para ser um pesquisador, capaz de compreender e atuar no ensino, organização e gestão dos sistemas educacionais vigentes. Além do mais, o pedagogo também será capaz de produzir e difundir conhecimentos se comprometendo com os mais diversos valores da democracia, justiça, equidade e solidariedade. Art. 4º O curso de Licenciatura em Pedagogia destina-se à formação de professores para exercer funções de magistério na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos cursos de Ensino Médio, na modalidade Normal, de Educação Profissional na área de serviços e apoio escolar e em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. Parágrafo único. As atividades docentes também compreendem participação na organização e gestão de sistemas e instituições de ensino, englobando: I - planejamento, execução, coordenação, acompanhamento e avaliação de tarefas próprias do setor da Educação; II - planejamento, execução, coordenação, acompanhamento e avaliação de projetos e experiências educativas não-escolares; ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3473 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior III - produção e difusão do conhecimento científico-tecnológico do campo educacional, em contextos escolares e não-escolares. (DCNP, parecer CNE/CP n° 3/2006, p.7) A indicação de caminhos para uma recuperação através da responsabilidade que cabe aos pedagogos na redefinição dos rumos da educação brasileira e dos parâmetros da qualidade do ensino é possível pela qualificação profissional e pela ação corajosa destes profissionais nos espaços políticos da escola, nas salas de aula e em outros setores da sociedade por eles assumidos. Quanto às áreas de atuação do Pedagogo ficam bastante complexos devidos os inúmeros estudos relacionados ao campo profissional deste, além de trabalhar nas estratégias de ensino-aprendizagem, é um profissional que atua em diversos níveis e âmbitos, sendo também um profissional que pesquisa os processos educativos, as práticas pedagógicas, as políticas educacionais e os fundamentos da educação em geral. Dessa forma, a organização curricular para o curso de pedagogia, prevê nas DCNP um núcleo de estudos e aprofundamentos básicos para que o currículo se articule de forma integrada em todos os componentes curriculares propostos para alcançar os requisitos da competência para a formação e atuação do profissional formado em pedagogia. A organização curricular do curso de Pedagogia oferecerá um núcleo de estudos básicos, um de aprofundamentos e diversificação de estudos e outro de estudos integradores que propiciem, ao mesmo tempo, amplitude e identidade institucional, relativas à formação do licenciado. Compreenderá, além das aulas e dos estudos individuais e coletivos, práticas de trabalho pedagógico, as de monitoria, as de estágio curricular, as de pesquisa, as de extensão, as de participação em eventos e em outras atividades acadêmico-científicas, que alarguem as experiências dos estudantes e consolidem a sua formação. A estrutura do curso de Pedagogia, respeitadas a diversidade nacional e a autonomia pedagógica das instituições, constituir-se-á de: um núcleo de estudos básicos que, sem perder de vista a diversidade e a multiculturalidade da sociedade brasileira, por meio do estudo acurado da literatura pertinente e de realidades educacionais, de reflexão e ações críticas, articulará: a) aplicação de princípios, concepções e critérios oriundos de diferentes áreas conhecimento, com pertinência ao campo da Pedagogia, que contribuam para o desenvolvimento das pessoas, das organizações e da sociedade; b) aplicação de princípios da gestão democrática em espaços educativos; c) observação, análise, planejamento, implementação e avaliação de processos educativos e de experiências educacionais, em ambientes escolares e nãoescolares; d) utilização de conhecimento multidimensional sobre o ser humano, em situações de aprendizagem; e) aplicação, em práticas educativas, de conhecimentos de processos de desenvolvimento de crianças, adolescentes, jovens e adultos, nas dimensões: física, cognitiva, afetiva, estética, cultural, lúdica, artística, ética e biossocial; f) realização de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3474 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior diagnóstico sobre necessidades e aspirações dos diferentes segmentos da sociedade, relativamente à educação, sendo capaz de identificar diferentes forças e interesses, de captar contradições e de considerá-lo nos planos pedagógico e de ensino-aprendizagens, no planejamento e na realização de atividades educativas; g) planejamento, execução e avaliação de experiências que considerem o contexto histórico e sociocultural do sistema educacional brasileiro, particularmente, no que diz respeito à Educação Infantil, aos anos iniciais do Ensino Fundamental e à formação de professores e de profissionais na área de serviços e apoio escolar; h) estudo da Didática, de teorias e metodologias pedagógicas, de processos de organização do trabalho docente, de teorias relativas à construção da aprendizagens, socialização e elaboração de conhecimentos, de tecnologias da informação e comunicação e de diversas linguagens; i) decodificação e utilização de códigos de diferentes linguagens utilizadas por crianças, além do trabalho didático com conteúdos, pertinentes aos primeiros anos de escolarização, relativos à Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História e Geografia, Artes, Educação Física; j) estudo das relações entre educação e trabalho, diversidade cultural, cidadania, sustentabilidade, entre outras problemáticas centrais da sociedade contemporânea; k) atenção às questões atinentes à ética, à estética e à ludicidade, no contexto do exercício profissional, em âmbitos escolares e não-escolares, articulando o saber acadêmico, a pesquisa, a extensão e a prática educativa; l) estudo, aplicação e avaliação dos textos legais relativos à organização da educação nacional. (DCNP, parecer CNE/CP n° 3/2006, p.11) Assim, visualizando esta questão de uma identidade em construção, é preciso que sejam configuradas as ações estabelecidas nos documentos, entidades, pareceres e resoluções que tratam do curso de pedagogia e também a contribuição dos teóricos que enfatizam a formação do pedagogo como um campo ainda, tanto de atuação, quanto de formação presentes nos cursos oferecidos em âmbito nacional, indefinido, e para as propostas que geram em torno do currículo quanto a sua organização torne-se uma proposta interdisciplinar e integradora desse currículo para que haja articulação da teoria-prática, que não fique apenas no discurso, mas que todos articulem as relações curriculares que são propostas no curso de pedagogia, principalmente para haver significações concretas para a formação e atuação do pedagogo estar tanto em espaços formais e não-formais de educação. REFERÊNCIAS AGUIAR, Márcia Ângela da S. BRZEZINSKI, Iria. FREITAS, Helena Costa L. 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Os resultados apontam que os professores não têm conseguido materializar as demandas educacionais atuais devido à inconstância das políticas de formação docente, baixa aquisição de competências escolares dos alunos e dispersão e não comprometimento do corpo docente com o governo do curso. Há esforço de aproximação com o cumprimento dessas demandas e nesse esforço brotam sentimentos de confusão, angústia, parcas alegrias e necessárias esperanças. Palavras-chave: Formação docente, Demandas educacionais, Representações sociais, Professores. ABSTRACT This study sought to understand how teacher trainers of the School of Education has meaning and noticed the new educational demands, to identify if these teachers have included his work in training these new requirements, to grasp how these subjects are situated in their work through the crisis and the new educational demands. The theoretical framework adopted was that of social representations, in view of Serge Moscovici (1978) and Denise Jodelet (1987). Data were collected through focus groups with teachers and six were processed through the technique of content analysis (Bardin, 1979). The results show that teachers have failed to materialize due to the demands of current educational policies of the fickleness of teacher training, low skills of school students and the dispersion and non-faculty engagement with the government of course. There is an attempt to align with the fulfillment of these demands and this effort spring feelings of confusion, anguish, joy and necessary meager hopes. Keywords: Teacher education, educational demands, social representations, teachers. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3477 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1 - INTRODUÇÃO A educação no Brasil, considerando-se o seu sentido humanista calcado nos processos escolares que visa formar o homem cidadão, vem vivenciando crises que se inauguram nos primórdios do período colonial e se prolongam até os dias atuais. Da fundação do Brasil até as primeiras décadas do século XX, a crise na educação escolar se pautava no elitismo exacerbado e na exclusão demasiada da escola brasileira. Referindo-se ao elitismo e à exclusão escolar no período colonial brasileiro, Romanelli (1991) diz que apenas à elite econômica e política era assegurado o acesso à escola, e mesmo assim, dessa elite eram excluídos os filhos primogênitos e as mulheres. Neste caso a crise se configurava pela privação de acesso à escola de largas parcelas da sociedade, tendo como elementos fundantes desta privação a classe social e o gênero. A educação escolar, assim, constituía-se num privilégio. Com o raiar da república brasileira, e mais especificamente a partir da década de 1930, se intensificam as idéias e os esforços por parte da sociedade civil e do Estado que configuram a educação escolar como um direito de todos, independentemente de classe social, gênero ou outro grupo de pertença do indivíduo, buscando-se assegurar para a escola brasileira o sentido de educação moderna pautado nos postulados do liberalismo. Assim, o direito de acesso à escola é ressaltado no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932 como um direito biológico, e na Constituição de 1934, no capítulo “Da educação e da cultura” é assegurada a gratuidade e a obrigatoriedade do ensino primário integral a todos os brasileiros, com tendência à gratuidade nos níveis posteriores ao ensino primário. (GHIRALDELLI JUNIOR, 1996). Assim, podemos compreender que nos anos que se seguiram à década de 1930 até meados da década de 1990, a crise na educação brasileira pautou-se na não democratização da escola e, desse modo, se consubstanciou em três perspectivas: a) na não materialidade integral do direito de acesso à escola para todos, b) na não permanência de grande parte dos alunos na escola durante os anos escolares correspondentes ao ciclo da educação básica, e c) na não aprendizagem efetiva dos saberes escolares por parte de significativa parcela de alunos que concluiu a educação básica, mas não adquiriu efetivamente as aptidões básicas em leitura, escrita e cálculo. Esse fato é evidenciado por Batista (2006, p. 14) ao assinalar que uma comparação, feita por pesquisadores, entre os resultados do SAEB (Sistema de Avaliação da educação Básica) de alunos da 4ª e da 8ª série do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio é também desalentadora. O aumento da proficiência em leitura de uma para outra série ‘é bastante modesto, o que significa uma aquisição ainda muita restrita de novas ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3478 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior habilidades e competências em Língua Portuguesa ao longo da escolaridade básica’. O déficit do acesso à escola foi sendo amenizado e em meados da década de 1990, segundo os dados apontados por organismos do governo federal, a materialidade do acesso escolar de todos os cidadãos estava praticamente efetivada, haja vista que cerca de 96 % da população em idade escolar estava matriculada em alguma escola, como assinala Ghiraldelli Junior (1996, p.198). Na medida em que o acesso escolar foi sendo materializado, os problemas da não permanência e do déficit de aprendizagem foram se acentuando, evidenciando, assim, que a garantia do acesso à escola não era suficiente para realizar a democratização escolar. Neste sentido, buscando efetivar uma adequada preparação dos professores para lidarem com as características dos novos sujeitos sociais que adentravam à escola e assegurar a permanência e as aprendizagens escolares discentes, no início dos anos 1980 são desenvolvidas diversas iniciativas no sentido de se empreender nacionalmente a reformulação curricular dos cursos de formação de professores. Assiste-se a partir de então a um intenso movimento em prol da formação docente, tanto inicial quanto continuada, produzindo-se intensa literatura e variadas políticas e ações. Neste sentido, tem-se pensado em diversas propostas e tem-se executado diversos programas na perspectiva de contribuir para a superação do fracasso escolar, demonstrativo da crise da educação moderna. A questão é que a contemporaneidade, mais especificamente a partir de meados da década de 1990, exige que pensemos a formação docente em outra base, pois à crise da educação moderna se assoma uma nova crise, de contexto e de sentidos, alavancada pelas mudanças sociais advindas da revolução tecnológica e do surgimento de novos paradigmas nos campos produtivos, econômicos e políticos, gerando uma nova configuração social. Tal configuração cria novas demandas para a educação e, conseqüentemente, o enfrentamento de novos desafios e obstáculos para a escola e para os docentes. Tedesco (1998, p.15), referindo-se à crise atual da educação, nos assinala que A crise da educação já não se apresenta como um fenômeno de insatisfação no cumprimento de demandas relativamente estabelecidas, mas como expressão particular da crise do conjunto das instâncias da estrutura social: desde o mercado de trabalho e o sistema administrativo até o sistema político, a família e o sistema de valores e crenças. A crise, em conseqüência, já não provém da forma deficiente de como a educação ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3479 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior cumpre os objetivos sociais que lhe são atribuídos, mas, o que é ainda mais grave, do fato de não sabermos que finalidades ela deve cumprir e para onde deve efetivamente orientar suas ações. Como os formadores de professores têm percebido e sentido essas novas demandas e como as tem contemplado, ou não, no seu exercício profissional de formador é o que constituiu o nosso problema de estudo nesta pesquisa. Para realizá-la, tomamos como sujeitos um grupo de seis professores do Curso de Licenciatura em Pedagogia, do Centro de Formação de Professores, da Universidade Federal de Campina Grande, campus de Cajazeiras. 2 – OS OBJETIVOS - Compreender como os formadores de professores tem sentido e percebido as novas demandas educacionais; - Identificar se esses formadores têm contemplado no seu trabalho formativo essas novas demandas; - Apreender como esses sujeitos se situam no seu trabalho mediante a crise e as novas demandas educacionais. 3 – REFERENCIAL TEÓRICO Considerando o nosso objeto e nossos objetivos de estudo postos para esta pesquisa, compreendemos que um referencial teórico pertinente à realização da mesma seria a teoria das representações sociais, na perspectiva assumida por Serge Moscovici (1978) e Denise Jodelet (1997), haja vista que em tal perspectiva compreende-se que “os comportamentos dos sujeitos ou dos grupos não são determinados pelas características objetivas da situação, mas pela representação dessa situação” (ABRIC, 1997, p.207). Sendo assim, para entendermos o sentido e as percepções dos professores formadores sobre a atual crise educacional e as demandas contemporâneas, optamos pela teoria das representações sociais, objetivando compreender como o grupo dos formadores, professores do curso de Pedagogia, entendem e se comportam diante do objeto aqui estudado. Vários são os sentidos, as conceituações e os modos de emprego da teoria das representações sociais, por isso essas se constituem numa noção polissêmica. Como primeiro formulador dessa teoria, Moscovici (1978, p.26-28) entende que as representações sociais sejam “uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3480 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior comportamentos e a comunicação entre indivíduos”; como também “um corpus organizado de conhecimentos e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens tornam inteligível a realidade física e social, inserem-se num grupo ou numa ligação cotidiana de trocas, e liberam os poderes de sua imaginação”. Buscando dar continuidade ao trabalho de elaboração conceitual das representações sociais iniciado por Moscovici, diversos autores contribuíram nesse processo. Deste modo, Wagner (1998, p.04) as define como sendo: um conteúdo mental estruturado - isto é, cognitivo, avaliativo, afetivo e simbólico - sobre um fenômeno social relevante, que toma a forma de imagens ou metáforas, e que é conscientemente compartilhado com outros membros do grupo social. Abric (1998, p.28) entende que as representações sociais são uma forma de visão global e unitária de um objeto, mas também de um sujeito. Portanto, estas são tidas como: uma visão funcional do mundo que, por sua vez, permite ao indivíduo ou ao grupo dar um sentido às suas condutas e compreender a realidade através de seu próprio sistema de referências; permitindo assim ao indivíduo de se adaptar e de encontrar um lugar nesta realidade. Assim sendo, a representação social é ao mesmo tempo, ainda segundo Abric (op.cit., p.28), “o produto e o processo de uma atividade mental, através da qual um indivíduo ou um grupo reconstitui a realidade com a qual ele se confronta e para a qual ele atribui um significado específico.” De acordo com Jodelet (1997, p.53), as representações sociais são “uma forma de conhecimento, socialmente elaborado e partilhado, tendo uma intenção prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. Numa tentativa de síntese sobre o conceito de representações sociais, Moscovici (apud SÁ, 1996, p.31) as define como sendo: um conjunto de conceitos, proposições e explicações originado na vida cotidiana no curso de comunicações interpessoais. Elas são o equivalente, em nossa sociedade, dos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; podem também ser vistas como a versão contemporânea do senso comum. Essa diversidade de conceituações deriva de um elemento comum, ou seja, as representações sociais se referem a construção e partilhamento de sentido sobre um objeto, fato, situação que assume importância na vida de um determinado agrupamento humano, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3481 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior orientando o modo do sujeito representante perceber e se relacionar com o objeto representado. A partir das proposições moscovicianas, Abric (1998, p.28) busca elaborar as funções das representações sociais. Assim, argumenta que “se as representações têm um papel fundamental na dinâmica das relações sociais e nas práticas, é porque elas respondem a quatro funções essenciais”, a saber: 1) Função de saber - as representações permitem aos atores sociais a aquisição de conhecimentos que passam a integrar um quadro assimilável e compreensível para eles, de modo coerente com o seu funcionamento cognitivo e os valores correspondentes ao grupo, possibilitando assim as trocas sociais, a transmissão e a difusão dos saberes do senso comum; 2) Função identitária - encarregada da preservação da imagem do grupo, asseguralhe a sua identidade, ao mesmo tempo em que tem como sentido o exercício do controle social pela coletividade sobre cada um de seus membros, especialmente nos processos de socialização, garantindo desse modo uma imagem positiva do grupo. 3) Função de orientação - as representações guiam os comportamentos e as práticas sociais, pois como sistema de pré-decodificação da realidade onde se formam, elas se tornam, de fato, um guia para a ação. 4) Função justificadora - a representação é responsável pela diferenciação do comportamento do grupo em suas relações com outros grupos, podendo assim estereotipar essas relações e colaborar para a discriminação ou mesmo para a manutenção do distanciamento social entre os grupos. Desse modo, a representação intervém na avaliação das ações dos indivíduos membros de um grupo e permite aos indivíduos explicar e justificar suas condutas em uma situação, ou frente a um objeto ou em relação a seus parceiros. A teoria das representações sociais defende uma relação dinâmica e dialética entre o indivíduo e a sociedade, o psíquico e o social, o saber científico e o saber do senso comum e entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece, e nesse movimento se constitui uma cultura de grupo, alicerçada nos saberes elaborados no cotidiano, denominados de senso comum. Tais saberes orientam o modo de ser, de sentir, de pensar e de agir dos indivíduos constituintes de um grupo a partir de vivências e de fazeres comuns partilhados pelos sujeitos do grupo. Isto nos faz entender que é nos saberes do senso comum, que orientam de modo mais imediato o pensar, o sentir e o fazer o processo formativo do qual participam os sujeitos aqui estudados, que podemos encontrar respostas para o problema de estudo proposto para esta pesquisa, pautado nos sentidos e nas percepções dos sujeitos formadores de professores sobre o ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3482 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior processo do qual participam. 4 – OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Para proceder à coleta de dados para esta pesquisa constituímos um amostra com 06 professores formadores, sendo 02 psicólogos que ministram a disciplina psicologia da educação, e 04 pedagogos ministrantes das disciplinas de Currículo, Didática, Gestão Educacional e Estágio Supervisionado. Um deles exerce o cargo de coordenador de curso de graduação em Pedagogia. Os dados foram coletados por meio da técnica de grupo focal. Para organizar as falas dos sujeitos lançamos duas questões de base: 1 - Como os formadores de professores, no curso de Pedagogia, vem formando professores para atender as demandas que a sociedade contemporânea tem elaborado para a educação? 2 - Como o sujeito professor tem se visto, na condição de formador de professores, diante do processo de formação de professores, considerando as mudanças sociais vivenciadas atualmente, a crise da educação e as atuais demandas educacionais? As falas foram gravadas em aparelho de áudio, transcritas e, a posteriori, organizadas e analisadas através da técnica de análise de conteúdo, na perspectiva assumida por Laurence Bardin (1979), adotando-se a análise temática. 5 – AS REPRESENTAÇÕE SOCIAIS DOS FORMADORES DE PROFESSORES SOBRE FORMAÇÃO DOCENTE E DEMANDAS EDUCACIONAIS A análise dos dados nos possibilitou apreender que as representações sociais dos professores formadores sobre formação docente e demandas educacionais atuais são objetivadas na intersecção entre o eu professor e o outro com o qual constituem o processo de formação docente, no caso, os demais professores do curso e os alunos. Tais representações são ancoradas a partir de dois elementos básicos que se tencionam e que formam a sua estrutura central: o esforço individual do professor formador para buscar atender as demandas educacionais e as dificuldades que encontram para materializar com êxito essa busca. Assim, as suas representações são de certa forma, negativisadas, haja vista que são marcadas por confusão, angústia e parcas recompensas, sinônimo de poucas alegrias e poucas esperanças, pois ao examinarem a realidade que permeia o seu trabalho de formador, tomando como base as demandas educacionais, os professores constatam o distanciamento que o separa do que representam como ideal. Portanto, é a partir desse distanciamento que ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3483 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior os professores formadores dão materialidade ao seu trabalho, tanto na constatação da situação vivenciada como nas atitudes visando a sua superação. No que se refere à formação docente e às demandas educacionais, delineia-se em primeiro plano a constatação de que o processo formativo do qual participam não atende a tais demandas de modo desejado. Oficialmente falando, no nosso curso a gente talvez tenha feito com que dê conta minimamente do que essas demandas nos exigem. Por um lado a gente faz, está formando, contribui pouco, como disse, minimamente, por outro lado a gente acha que não contribui nada, tem hora que eu acho que a gente não está fazendo muito do que deveria ser feito dentro da 33 formação. (PF1) . Se por um lado essa representação negativisa a formação docente, atingindo a imagem do formador e do seu grupo de pertença, como também o sentido do seu trabalho, por outro lado há elementos nessa representação que alivia essa negatividade, fazendo agir uma das funções da representação que é a proteção identitária do grupo, como assinala Abric (1998). Assim, para esse grupo de formadores existe uma procura efetiva de se aproximar do atendimento às demandas. Essa procura carrega positivamente o sentido do seu trabalho formativo e serve de guia de orientação para as suas atitudes e para a sua conduta enquanto professor formador. Eu penso que a gente ainda não está a atender quanto a essa questão de estarmos contemplando o que o mundo está exigindo, eu acho que não. Eu penso que a gente está um pouco longe do atendimento dessas demandas, mas eu acredito na aproximação. (PF3) O que a gente tenta fazer é se colocar enquanto professor dentro de sala de aula, tentando cumprir o seu papel e também como professor político que tenta pelo menos estar envolvido com sindicatos, com questões políticas, tentando mover um pouco esse padrão de política e ai proporcionar nesse sentido. A questão da formação do professor eu compreendo nessa interface, nesse micro e macro, com o professor ali tentando fazer alguma coisa e, algumas vezes consegue e outras vezes não consegue, então como a demanda social que eu entendo, da educação, ela é ampla na aprendizagem, pelo menos na minha sala de aula eu tento também dar essa visão ampla para os alunos. (PF2) O esforço e a tentativa por empreender o cumprimento das demandas educacionais no bojo do processo formativo e de não o conseguir, apenas se aproximar, é justificado de diversas maneiras por esses professores. Tal justificativa se assenta em planos diversos. No 33 Para preservar a identidade dos 06 professores formadores pesquisados, usaremos a denominação PF, numerando-os de 1 a 6. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3484 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior plano macro se situam questões relativas ao sistema educacional brasileiro que junto com as novas demandas, traz demandas antigas não cumpridas e que se resvalam na atualidade, interferindo negativamente no processo de formação docente e causando impedimentos à realização das demandas atuais postas a esse processo. No plano micro se situam questões relativas à organização do curso e ao comportamento dos seus sujeitos. É a partir da compreensão e do reconhecimento dos problemas que justificam o não cumprimento das demandas atuais que esses professores elaboram fortes sentimentos de frustração que transbordam em forma de cascata, ou em outras palavras, produzem um efeito dominó, ou seja, a cada reconhecimento e vivência de um sentimento, desperta-se outro sentimento mais intensivo. Esse reconhecimento da situação que vivenciam enquanto formador gera, inicialmente, um sentimento de confusão, atordoamento e perplexidade diante da inadequação da realidade educacional, seja no aspecto da insuficiência e inconstâncias das políticas educacionais para a formação docente, da baixa qualidade do processo de escolarização básica do qual os discentes em processo de formação docente são herdeiros, e dos atropelos do fazer formativo docente decorrentes dos dois primeiros aspectos. Com relação às políticas de formação, tem horas que eu acho que a gente, que está todo mundo perdido, os gestores nacional, e aí a gente também está, porque nós acabamos de fazer, de aprovar um projeto pedagógico em maio e a gente já tem dúvidas, já tem crítica, já tem questionamentos sobre isso; e nas diretrizes, eu acho que ainda não são, sei lá, bem compreendidas por nós, a maioria de nós que fazemos a formação de professores no Brasil e, especificamente aqui, e ainda tem os próprios gestores nacionais que acho que eles estão perdidos com a formação nacional dos docentes. (PF1). Tem coisas que estão sobre o nosso controle e outras questões que fogem do nosso controle. É, hoje mesmo uma aluna comentou comigo que ser professora está difícil. Eu estou passando por um conflito moral. Ela dizendo assim que a diretora pressionando a passar alunos que não obtiveram êxito, e por ser uma instituição privada, e a diretora pressionando para que ela aprovasse os alunos, e tinham uns que nunca freqüentaram a turma. Então assim, tem questão que foge do controle, aquela questão do setor público em que o governo quer dados, quer números, e isso nos atingiu aqui enquanto instituição universitária no REUNI. Temos uma meta de aprovação para ter recursos, então essas questões algumas vezes fogem, é, nós não temos um controle, digamos assim, direto, é difícil essas variáveis, você fica assim, sem saber o que fazer muitas vezes, muitas vezes, e são questões políticas. (PF2) Eu fico pensando que nós estamos numa região que a demanda é mesmo tentar melhorar o processo de escolarização dos meninos, para vê se a gente puxa uma outra forma de pensar essa região, região do semi-árido, do sertão, que isso é tão pouco colocado como um ponto central, que seria ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3485 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior esse ponto central nosso, nosso do Centro de Formação de Professores, pensar isso e formar professores para vê se altera essa região, melhorar a escolarização dos alunos. (PF5) Essas três situações destacadas acima são responsáveis por um outro elemento agravante do processo formativo docente, que é o nível baixo de competências escolares presente em parte considerável dos estudantes em processo de formação docente, tanto no que se refere às competências que os alunos trazem da escolarização básica, quanto as que devem ou deveriam adquirir no processo de formação docente. Esse elemento alicerça outro sentimento compartilhado pelos formadores: a angústia. A falha na educação é que as crianças não aprendem a ler, os professores não sabem ensinar. Nós professores ensinamos os professores a ensinar o quê, se eles chegam na sala de aula às vezes e não sabem ensinar? Sei lá, é tanta confusão. Aí eu fico pensando: é falha minha, é falha nossa, de nós professores, é falha dos alunos que nos chegam, não sei? É uma série de coisas. Agora uma das falhas que a gente não está fazendo, é isso: é que os alunos estão chegando no 5º ano, 8º ano, 9º ano, na Universidade sem saber ler e entender um parágrafo, sem saber escrever uma linha, não é nem um parágrafo, é uma frase, aí fica essa coisa. Como é que a gente vai dizer que está formando? Eu não sei! Tem hora que eu me angustio muito assim sem saber o que eu estou fazendo, dentro da área da Pedagogia. (PF1) É angustiante você ver alunos já no estágio com esse tipo de angústia de não saber o que fazer. Até porque o curso de Pedagogia vem passando por tanta mudança, reforma, claro, baseado no que as diretrizes colocam, mas aí eu não vejo muito prumo nessa perspectiva, aí a gente está tentando se aproximar. Outra coisa que eu fico me questionando é: o que os alunos fazem com o que a gente trabalha dentro do curso? Como é que ele lança mão desse conhecimento, dessa informação que ele adquiriu dentro do curso? A impressão que me dá é que os alunos quando vão pra sala de aula eles pautam na pratica que os professores deles faziam com eles, na relação professor aluno de mandar, ficar sem recreio. Aí eu fico me perguntando que vácuo é esse? A gente não conseguiu implantar nada, acrescentar nada? (PF3). Outro elemento constituinte das representações dos formadores é a percepção de si enquanto grupo, enquanto coletivo específico. Neste caso, os formadores se reconhecem como membros de um corpo, um corpo docente, e que têm um enraizamento comum, fazem parte do corpo docente do Curso de pedagogia. Assim, esse elemento representacional se assenta na compreensão dos formadores de que são um corpo-sujeito, ou um corpo-ator, e desse modo passam a si representar enquanto um sujeito coletivo atrelado a um organismo e que por isso tem características e atribuições comuns. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3486 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Duas são as características elencadas por esse grupo a partir do que são enquanto corpo docente do Curso de Pedagogia do Centro de Formação de Professores da Universidade Federal de Campina Grande. São professores que formam professores e, assim sendo, se percebem como devendo ser referência e modelo para os seus alunos, numa espécie de jogo de espelhos, esperando se enxergarem refletidos na imagem que elaboram sobre seus alunos, vendo a si mesmos como reflexos e refletores. Esse jogo se dá em um campo tensionado, tensão que se elabora no confronto entre um eu que é professor e o outro, que no presente é aluno e no futuro será também professor. Eu tento na vida acadêmica mostrar que na sala de aula, também, são varias demandas que o aluno tem, tem família, tem escola, tem o lugar que ele está, e aí eu tento passar isso em sala de aula, essa visão que eu vejo do universo, e o professor por mais que ele não queira, ou queira, ele sempre vai marcar esses traços nos alunos dentro daquilo que vê no mundo, como ele contempla o mundo, acho que os valores que os professores têm, ele acaba, né, a teoria que ele gosta mais, isso tudo vai refletindo. (PF2). Como a gente quando aluno, aqui do CFP, era muito mais envolvido politicamente, muito mais, é, com muito mais cuidado, eu preciso aprender isso porque eu vou ser professor, ai como eu vou fazer isso, e aqueles professores que a gente admirava, fulano e fulano, eram professores que a gente gostaria de ser como eles, tal. (PF5) Considerando a visão que os professores evidenciam sobre seus alunos, esse jogo parece produzir frustração, haja vista que os professores, por um lado, não se vêem como referência ou modelo naquilo que enxergam em seus alunos. É na distância de si, do que foi enquanto graduando e do que é enquanto professor desse curso, que esses professores, como sujeito-individuo, enxergam os seus alunos. Vejo essa diferença de educação, tanto a questão política, como a questão do aluno que hoje, as dificuldades, hoje, antigamente era o aluno que não tinha voz, hoje o aluno, ele grita você, muitos professores, eles são gritados, um aluno: “professora, o que aconteceu com essa minha nota?” gritando com você! e você: calma, calma, perai, vamos com calma. (PF2) Todavia, quando na condição de sujeito coletivo olham para os seus alunos, os percebem na proximidade, mas é uma proximidade negativizada, pois enquanto corpo docente si representa negativamente. O corpo docente do Curso de Pedagogia é percebido como disperso, sem compromisso e sem solidariedade. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3487 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Mas acho mesmo que os alunos são menos solidários e pouco assim, que é talvez também resultado da nossa ação de pouco engajamento político, como nós nos engajamos do ponto de vista da organização coletiva, talvez isso repercuta nos alunos que também não se envolvem coletivamente para defender suas questões, acho isso, é muito diferente, desse ponto de vista do engajamento político, do envolvimento e da solidariedade. É, nós não temos isso. (FP5) A gente percebe que as pessoas estão muito afastadas do curso, muito afastadas mesmo. (FP6) Quanto às atribuições que esses professores colocam para si enquanto sujeitocoletivo, essas se referem ao governo do Curso, isto é, a elaboração coletiva de um projeto de curso e comprometimento de todos os professores na implementação, organização e gestão desse projeto. E considerando que esse corpo docente é representado como sendo disperso, sem engajamento e sem solidariedade, essa representação de si é negativa. O projeto, ele não é individual, principalmente se nós estamos pensando num projeto de curso, do Curso de Pedagogia e eu particularmente diria que não, nós não pensamos nesse sentido, a não ser que eu esteja entendendo errado, no sentido de governabilidade, que esse governo, ele não estaria na mão de uma única pessoa que faz o curso de pedagogia, mas de todos. , se nós tivéssemos um projeto, era um projeto de coletividade, enquanto docentes do curso X que nós queremos, e no fundo, no meu ponto de vista, e agora na avaliação vejo que não temos, porque o curso caminha cada um por si, a seu bel prazer, ninguém senta para pensar, quando se chama para se avaliar, para se pensar um projeto de curso: “para que isso?” “Isso não precisa!” Foram chamados na gestão passada, pouca gente foi e ainda foi nesse sentido: “para que isso?” (FP1) Aquela famosa noção de conjunto, há um processo de intercessão, há divergência, mas existe, deveria existir um processo de intercessão, não se espera igualdade de todos, assim, numa visão de projeto de pedagogia, mas visões divergentes, mas que em algum ponto haja comunhão, uma comunhão, uma convergência.(FP2) Se as representações sociais desses formadores têm o esforço de aproximação do atendimento às demandas educacionais como seu o componente representacional principal, é pertinente que haja elementos de recompensa nesse esforço. É neste sentido que aparecem dois componentes positivos importantes em tais representações. Trata-se da alegria e da esperança. São parcas tais alegrias, mas importantes para alicerçar necessárias esperanças. Alegrias e esperanças são pontuadas no discurso dos formadores a partir de alguns alunos que conseguem apreender conhecimentos ministrados no curso e desenvolver atitudes coerentes com o que os professores tem como ideal de aprendizagem. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3488 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Eu vejo assim que tem uma luzinha no fim do túnel, às vezes, né, que gente vê uma aluna nossa saindo do Curso de Pedagogia, algumas não fazem nada, ficam chorando em sala de aula, é o que menos esperam da vida. Outras conseguem dominar uma sala com 30 alunos e fazer com que desses 30, 10 aprendam a ler e escrever Aí quando eu vejo essa luzinha, que chega um aluno, que chegam eles dizendo: consegui professora. Eu acredito que estou fazendo alguma coisa. (PF1) A questão da formação tem várias questões, assim como nós temos questões de necessidades de aprimoramento, de redefinir, eu também sinto que as coisas não estão todas perdidas, claro que eu percebo que nós temos muito o que acertar, mas eu percebo, de acordo com o que se coloca em sala de aula, os alunos de final de curso, do 6º, 7º períodos, eles colocam que realmente é difícil se colocar em prática o que se coloca aqui em sala de aula, há um certo distanciamento entre teoria e pratica. De certa forma isso me incomoda. E nessas disciplinas que a gente tem, a gente fazendo a auto avaliação no final do curso, aí a gente percebe alguns avanços, não podemos negar também alguns problemas quanto à escrita, etc., mas eu já considero algumas janelas abertas, alguns avanços com relação aos anos 80, já avançamos no que diz respeito ao teórico e prático, e, de certa forma, o que me deixa muito feliz é que os alunos se identificam e utilizam, seja em didática, história da educação, muitos entram no curso sem saber o que querem e acabam pegando gosto. A construção da sua própria autonomia como pessoa, não apenas como professora. (PF4). CONCLUSÕES As representações sociais apreendidas sobre formação docente e demandas educacionais elaboradas pelos professores do Curso de Pedagogia do CFP/UFCG assinalam que esses professores tem clareza de que não tem conseguido materializar tais demanadas. Todavia, desempenham seu trabalho formativo assentados no esforço de aproximação desse atendimento. O esforço de aproximação se constitui como o principal componente representacional, brotando de tal componente os elementos secundários da representação se organizam em dois pólos: o negativo, consubstanciado em confusão e angústia, e o positivo que se caracteriza por parcas alegrias e necessárias esperanças. O pólo negativo é preponderante e é suscitado por três elementos: a insuficiência e inconstância das políticas de formação docente, a fraca aquisição de competências escolares dos alunos em formação e a baixa organicidade do corpo docente do curso de formação, pois esse corpo é percebido como disperso e descomprometido, não assumindo enquanto corpo docente a governabilidade do curso. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3489 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 6 - REFERÊNCIAS ABRIC, Jean-Claude. A Abordagem Estrutural das Representações Sociais. Trad. de Pedro H. F. Campos. In: MOREIRA, Antonia S. Pereira e OLIVEIRA, Denise C. De. (Orgs.) Estudos Interdisciplinares de Representações Sociais. Goiânia: AB, 1998. BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Tradução de Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 1979. BATISTA, Antônio Augusto Gomes. Alfabetização, leitura e escrita. In: CARVALHO, Maria Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena (Orgs.). Práticas de Leitura e Escrita. Brasília: Ministério da Educação, 2006. GHIRALDELLI JUNIOR, Paulo. História da Educação Brasileira. São Paulo: Cortez, 2006. JODELET, Denise. Représentations Sociales: Un domaine en expansion. In JODELET, Denise (dir.). Les Représentations Sociales. Paris: PUF, 1997. MOSCOVICI, Serge. A Representação Social da Psicanálise. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil. 14a ed., Petrópolis: Vozes, 1991. SÁ, Celso Pereira de. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3490 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior INDICADORES DE QUALIDADE DO ENSINO SUPERIOR: O PROCESSO DA AVALIAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DO SABER PROFISSIONAL Edna Maria Leite Dias34 O presente estudo bibliográfico tem como objetivos discutir e analisar o processo de avaliação das Instituições de Ensino Superior na consolidação do conhecimento científico e, consequentemente, do processo da reprodução desse conhecimento nos âmbitos acadêmico e organizacional. Busca-se identificar a correlação de construção do conhecimento científico e do saber profissional em cenários extremamente competitivos, e ao mesmo tempo contraditórios no que se refere aos processos da formação profissional e da efetividade acadêmica e organizacional. A partir de uma perspectiva de avaliação na visão sistêmica, onde existe permanentemente uma retroalimentação do ciclo educação/ensino/aprendizagem, destaca-se o processo de avaliação acadêmica como indicador de qualidade na construção do saber profissional. Através desse estudo foi possível concluir que existe um paralelo entre o contexto organizacional e escolar no exercício das funções da avaliação como instrumento de gestão dos saberes. Palavras-chave: Avaliação. Saber profissional. Qualidade. ABSTRACT INDICATORS OF QUALITY IN HIGHER EDUCATION: THE PROCESS OF EVALUATION AT THE CONSTRUCTION OF PROFESSIONAL KNOWLEDGE The present review of literature has the objetive to discuss and analyze the evaluation of Higher Education Institutions at the consolidation of cientific knowledge and, consequently, evaluate the reproduction process of this knowledge at the academic and organizational spheres. We seek to identify the correlation between cientific knowledge’s construction and professional learning in highly competitive scenarios, while contradictory, with regard to the processes of training and academic and professional effectiveness. Following a perspective of evaluation at the academic point of view, where predominates a feedback of the cycle education/teaching/learning, we emphasize the process of academic evaluation as an indicator of quality at the construction of professional knowledge. Through this study, we concluded that there’s a parallel between the organizational and scholar contexts at the exercise of evaluation’s role as a tool to knowledge management. Key words: Evaluation, Professional knowledge, quality. 34 Autor: Professora da Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza – FAMETRO. Assistente Social, mestre em Administração. Email: [email protected]. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3491 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1 INTRODUÇÃO As rápidas e constantes mudanças nas variáveis econômica, política, cultural, demográfica e tecnológica, ocorridas de forma mais acentuada a partir do século XX, têm imposto às organizações educacionais e não educacionais a adoção de novos padrões de conduta; padrões esses que levam a uma profunda reflexão e reformulação dos paradigmas clássicos do processo de formação e avaliação educacional, destacando-se a acadêmica, diante dos desafios do domínio da ciência e da tecnologia como fatores diferenciais competitivos no mundo do trabalho. A evolução das organizações, caracterizada pelas mudanças constantes de natureza econômica, social, tecnológica, e a consequente complexidade envolvida na sua administração, impõem um novo método de formação e avaliação acadêmica, destacando a construção do saber como um dos fatores importantes para a efetividade empresarial. De fato, alguns autores, entre eles Afonso (2000), Parsons (1985) e Luckesi (1995), referem-se que o sucesso de muitas organizações deve-se, em grande parte, à adequada e coerente qualificação de seus Recursos Humanos, através do ensino universitário. Afonso (2000, p.23), comenta o trabalho de Talcott Parsons: Num texto agora clássico, Talcott Parsons acentua precisamente a importância dos processos que ocorrem na sala de aula, tendo em vista o treino e motivação dos alunos para o desempenho de futuros papéis no mercado de trabalho. Para esse sociólogo, o processo de socialização escolar pressupõe: i) uma emancipação da criança com respeito à sua relação primária emocional com a família; ii) uma interiorização de normas e valores sociais que se pressupõem aos que se aprendem no contexto familiar; iii) uma diferenciação dos alunos tendo como base a avaliação do êxito escolar (grifo nosso) Luckesi (1995, p.41-42), reforça o papel e a responsabilidade da universidade na formação de profissionais: Por conseguinte, formando profissionais de alto nível tecnológico e fazendo ciência, a universidade deve ser o lugar por excelência do cultivo do espírito, do saber, e onde se desenvolvem as mais altas formas da cultura e da reflexão. A universidade que não toma a si essa tarefa de refletir criticamente e de maneira continuada sobe o momento histórico em quem ela vive, sobre o projeto de sua comunidade, não está realizando sua essência, sua característica que a especifica como tal crítica. [...] Se entendemos a função específica da universidade como desenvolvimento da ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3492 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior dimensão da racionalidade, podemos visualizar o processar-se dessa mesma racionalidade em dois momentos: primeiro, a racionalidade instrumentalcrítica, porque tem a universidade a responsabilidade de formar os quadros superiores exigidos pelo desenvolvimento do país; segundo, a racionalidade crítica criadora, porque sua missão não se esgota na mera transmissão do que já foi sabido, ela deve fazer avançar o saber [...]. Para ser consciência crítica, portanto, a universidade deve estar continuamente em interação com a sociedade, a realidade que a gera e a sustenta. Outrossim, pode-se ressaltar a inter-relação existente entre a universidade e a competitividade organizacional; a primeira, através da formação e qualificação profissional da comunidade, ou seja, seus alunos, no desenvolvimento de novos conhecimentos, técnicas e da ciência. A segunda, responsável pelo desenvolvimento e produtividade econômica, através da aplicação do conhecimento técnico-científico dos seus recursos humanos. Esses dois vetores constituem a base para o desenvolvimento e crescimento econômico de qualquer nação. Entretanto, cabe à educação, através também da universidade a responsabilidade e o desafio de preparar o homem às novas necessidades do trabalho, para atuação com qualidade nos novos modelos organizacionais, que repassam através da multifuncionalidade, flexibilidade, enxugamento de níveis hierárquicos, ênfase em equipes auto gerenciáveis, descentralização de processos, automação, e a permanente ameaça da competitividade. Realidade essa que impõe a adoção de reestruturação nas organizações, o que, consequentemente, reflete também na educação e implementação de novas ações metodológicas, a partir de avaliações contextualizadas nos acontecimentos da realidade. 2 COMPREENDENDO O PROCESSO SISTÊMICO DA AVALIAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DO SABER PROFISSIONAL Os desafios contemporâneos, quer educacionais, quer organizacionais, encontram-se diretamente relacionados ao desafio da gestão da qualidade nos processos de desenvolvimento do conhecimento e das habilidades humanas, dos métodos de ensino e avaliação, e, consequentemente, do produto final. DEMO (2.000, p.45), destaca que [...] qualidade, em si, é sempre processo humano. [...] É o aprimoramento do fator humano que transmite e produz qualidade. Existe hoje reconhecimento crescente sobre isso, inclusive no sistema produtivo, cuja qualidade é expressão da competência humana, muito mais que dos ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3493 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior insumos, da matéria-prima, dos métodos, etc. A pedra de toque da qualidade educativa é o professor. Dessa forma, percebe-se que qualidade não está centrada apenas em técnicas e tecnologias, destacando-se o fator humano, que por meio da competência passa a ser reconhecido como o mais importante e determinante para o sucesso das instituições. Em relação à qualidade educativa, percebe-se que as pessoas abrangem uma dupla dimensão de profunda complexidade, através dos diferentes papéis exercidos nos ciclos de vida: a de aluno e a de professor. O processo da qualidade é sistêmico. O aluno de hoje será o professor de amanhã, ou seja, o profissional que elaborará o seu produto final com todos os seus referenciais, conhecimentos, métodos, habilidades, valores filosóficos e científicos apreendidos e desenvolvidos nos períodos de formação educacional. Ele reproduzirá o produto da sua aprendizagem. Produto esse que inter-relaciona-se diretamente com os processos de avaliação. “A prática da avaliação do professor reproduz e assim revela fortemente suas vivências como estudante e como educador” (HOFFMANN, 1997, p.13). Percebe-se nesse cenário dois enfoques: a compreensão do homem de forma holística, no exercício de vários papéis na sociedade e que, fazer da universidade um centro de excelência, repassa pela qualidade do ensino e aprendizagem na formação profissional; essa qualidade faz parte de um sistema, não de um ponto fixo, isolado, desassociado do todo, mas integrado com a instituição em si, comunidade e sociedade, de um modo geral. Entretanto, todo processo da qualidade, fundamentalmente, repassa por um segmento, indispensável, que é o processo de avaliação. Define Luckesi (1995, p.92-93), o conceito de avaliação: [...] é formulado a partir das determinações de conduta de “atribuir um valor ou qualidade a alguma coisa, ato ou curso de ação [...]”, que, por si, implica um posicionamento positivo ou negativo em relação ao objeto, ato ou curso de ação avaliado. Isso quer dizer que o ato de avaliar não se encerra na configuração do valor ou da qualidade atribuídos ao objeto em questão, exigindo uma tomada de posição favorável ou desfavorável ao objeto de avaliação, com uma consequente decisão de ação. Compreende-se que esse conceito, de forma genérica, se aplica ao contexto educacional, organizacional, entre outros. No contexto educacional, é através da sistematização e da reflexão/avaliação dos processos de pesquisa e métodos de avaliação que define e redefine o desenvolvimento da qualidade de ensino e, consequentemente, da aprendizagem, através da ação e decisão. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3494 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Luckesi (1995) trata a questão da avaliação a partir da análise dos procedimentos de aferição do aproveitamento escolar, utilizados, na prática, pelos professores, quais sejam: “a medida do aproveitamento escolar; transformação da medida em nota ou conceito; utilização dos resultados identificados”. A partir da descrição fenomenológica dessas condutas, o autor procura identificar “se os atos de aferição do aproveitamento escolar, praticados pelos professores, são de verificação ou de avaliação” (LUCKESI, 1995, p.87). O ato de avaliar encontra-se relacionado ao acompanhamento sistematizado do objeto de avaliação, através da coleta, análise e síntese. O que permite o acréscimo de uma atribuição de valor ou qualidade, processado a partir da comparação da configuração do objeto avaliado, ou seja, do produto final com o padrão de qualidade, inicialmente estabelecido para o objeto (LUCKESI, 1995). Nesse sentido, destaca ainda Luckesi (1995), a diferença entre avaliação e verificação: A avaliação, diferentemente da verificação, envolve um ato que ultrapassa a obtenção da configuração do objeto, exigindo decisão do que fazer ante ou com ele. A verificação é uma ação que “congela” o objeto; a avaliação, por sua vez, direciona o objeto numa trilha dinâmica da ação [...] Podemos dizer que a prática educacional brasileira, opera, em quase totalidade das vezes, como verificação [...] A avaliação é um diagnóstico da qualidade dos resultados intermediários ou finais; a verificação é uma configuração dos resultados parciais ou finais. A primeira é dinâmica, a Segunda, estática (LUKESI, 1995, p. 93- 100). As avaliações, mesmo sendo feitas com expertise, ainda apresentam problemas decorrentes, em parte, da falta de tipologia para estabelecer o máximo de informações; da carência de instrumentos válidos e fidedignos, para captar a complexidade dos fenômenos, objetos de avaliação; inexistência de sistema informatizado; falta de mão-de-obra qualificada para atuar no processo de avaliação atuar e tomada de decisão (VIANNA, 2000). A avaliação consiste num objeto de investigação aberto a diferentes abordagens disciplinares e interdisciplinares; não é uma disciplina específica (AFONSO, 2000, p.16). No campo da sociologia da educação Patrícia Broadfoot, destaca em seus trabalhos que referenciam a análise sociológica da avaliação, que ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3495 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Os aspectos do desempenho dos alunos que as escolas escolhem para avaliar refletem muito claramente as funções requeridas de um sistema educativo específico pode-se argumentar que as práticas de avaliação constituem um dos mais claros indicadores da relação entre escola e sociedade, pois elas fornecem a comunicação entre as duas. (BROADFOOT, 1979, p.11, apud AFONSO, 2000, p.16). De fato, as diversas práticas existentes de avaliação refletem nas diferentes funções da avaliação, que segundo Broadfoot (1981, apud AFONSO, 2000, p.18), define como principais: “averiguação da competência acadêmica, a promoção da competição entre alunos e escola, a relação entre conteúdo e formas de avaliação e a seleção e alocação diferencial do indivíduo”. Identifica-se um paralelo entre o contexto organizacional e escolar, no exercício semelhante das funções da avaliação, como instrumento de gestão. Nesse contexto, Afonso faz uma referência clara considerando que Nas organizações, a avaliação é quase sempre um instrumento fundamental em termos de gestão. Particularmente importante nas relações de trabalho (por exemplo, como instrumento de seleção, promoção e desenvolvimento profissional) a avaliação é também um instrumento importante de controlo [sic] e de legitimação organizacional. As escolas (enquanto organizações complexas) têm, com algumas similitudes, utilizado a avaliação para esses mesmos fins (AFONSO, 2000, p.18). Nesse cenário, a avaliação educacional assume uma função específica, de avaliar também a qualidade da formação profissional, que será validada ou não no sistema organizacional. O que se entende e que se pode referenciar, é que em qualquer modelo de organização, o processo de avaliação é indispensável para a validação e manutenção da qualidade dos processos e modelos de gestão, quer educacionais, quer organizacionais (Anexo I - Quadro I: Processo de avaliação na construção do saber profissional). Destaca-se que seja relevante um segmento de palpável controle de gestão e de validação de resultados, com qualidade. Dessa forma, entende-se que os métodos de avaliação dos resultados organizacionais, podem também ser aplicados no sistema educacional, em relação à análise dos aspectos metodológicos utilizados, como etapas de avaliação no desenvolvimento da formação profissional. Procura-se enfocar a relação sistema educacional e organizacional, não de forma linear, mas como perspectiva sistêmica, de inter-relação do sistema social, onde interagem e ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3496 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior se complementam através da retroalimentação teoria/prática. É importante “ter em mente que existem conexões bem reais entre economia e a atividade de classificação e seleção realizada pela educação” (AFONSO, 2000, p. 25). O papel da universidade abrange uma dimensão complexa, visto que o processo de formação repassa por uma questão polêmica e evidente efervescência que é a avaliação da aprendizagem. O processo de educação encontra-se diretamente relacionado ao processo de avaliação e produção do conhecimento. A avaliação é a reflexão transformadora em ação. Ação, essa, que nos impulsiona a novas reflexões. Reflexão permanente do educador sobre sua realidade, e acompanhamento, passo a passo, do educando na sua trajetória de construção do conhecimento’’ (HOFFMANN, 1997, p. 18). O ponto central da vida acadêmica é constituído pela pesquisa, como princípio científico e educativo, ou seja, como estratégia de geração de conhecimento e de promoção da cidadania (DEMO, 2000). Entende-se que a produção do conhecimento encontra-se diretamente vinculada à pesquisa acadêmica como uma das fases da construção da qualificação da educação formal, podendo-se dizer que a pesquisa compõe um dos indicadores de qualidade mais significativo no processo da educação universitária. Nesse contexto, considera-se que o ensino/pesquisa precisa ser revisado, principalmente no que se refere às Ciências Humanas e Sociais, dada a natureza da subjetividade por se tratarem de ciências não exatas. Enfoca Demo (2000, p.18), o papel da educação, considerando que “no confronto com algumas outras ciências sociais (economia, antropologia, psicologia, sociologia), parece que a posição da educação é de inferioridade em termos de cientificidade do discurso e da prática”. No ensino, a pesquisa é como princípio educativo e científico, uma atitude do aprender a aprender. Fundamenta o ensino e evita que este seja simples repasse copiado (DEMO, 2000). Nesse contexto, identifica-se a pesquisa como processo contínuo e sistematizado na produção do conhecimento e retroalimentação da qualificação profissional e qualidade do exercício profissional no que concerne ao exercício do ensino como formação de novos profissionais. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3497 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 3 CONCLUSÃO O presente estudo demonstra que a discussão de alguns aspectos relacionados ao processo de avaliação e construção dos conhecimentos acadêmico e profissional, impõe às Instituições de Ensino Superior uma reflexão sobre o seu papel de formação de profissionais qualificados; reflexão essa contextualizada com os desafios profissionais em cenários extremamente competitivos e ao mesmo tempo contraditórios no presente século XXI. Compreende-se que a avaliação numa visão sistêmica retroalimenta o ciclo educação/ensino/aprendizagem como um dos indicadores de qualidade na construção do saberes acadêmico e profissional. Contudo, necessário se faz nesse processo a definição de indicadores e métodos visando obter análise construtiva para referenciais teóricos e práticos. Através desse estudo foi possível concluir que existe um paralelo entre o contexto organizacional e escolar no exercício das funções da avaliação, como instrumento da gestão do saber, gerando o desafio da integração desses segmentos para a consolidação dos saberes no contexto educacional e organizacional. Compreende-se que a integração da universidade e organização empresarial poderá ser um caminho a ser utilizado, através da identificação e avaliação dos indicadores da qualidade no ensino como novas perspectivas para a construção do saber da formação profissional e da efetividade acadêmica e organizacional. REFERÊNCIAS AFONSO, A. Janela. Avaliação educacional: regulação e emancipação para uma sociologia das políticas avaliativas contemporâneas. São Paulo: Cortez, 2000. DEMO, Pedro. Avaliação qualitativa. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 2000. HOFFMANN, Jussara. Avaliação: Mito e desafio: uma perspectiva construtivista. Porto Alegre: Mediação, 1997. LUCKESI, C. Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1995. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3498 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior VIANNA, Heraldo Marelim. Avaliação educacional. São Paulo: IBRASA, 2000. ANEXO I QUADRO I: PROCESSO DE AVALIAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DO SABER PROFISSIONAL. 1.1.2 TRABALHO 1.1.1 1.1.3 QUALIFICAÇÃO 1.1.4 PROCESSOS EDUCAÇÃO AVALIAÇÃO 1.1.6 PROFESSOR 1.1.5 UNIVERSIDADE 1.1.7 CIDADANIA 1.1.8 CONSTRUÇÃO SABER ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3499 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1.1.9 PRODUTIVIDADE 1.1.10 PESQUISA DESENVOLVIMENTO CONHECIMENTO CIENTÍFICO ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3500 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A ÉTICA E A HUMANIZAÇÃO NA TESSITURA CURRICULAR NO CURSO DE PEDAGOGIA Edson Carvalho Guedes Maria da Guia de Assis Resumo O principal objetivo desta pesquisa é investigar os currículos do curso de Pedagogia para identificar os elementos constituintes que promovem a formação de profissionais éticos e humanizados. Trata-se de uma pesquisa do tipo exploratória, desenvolvida por meio de estudo bibliográfico e documental. A pesquisa bibliográfica está orientada a partir de três eixos temáticos: currículo, humanização e ética. Para a pesquisa sobre currículo nos servimos dos escritos de Sacristán e de Pacheco. Sobre humanização trabalhamos com textos de Pivatto e Morin. Para a pesquisa relacionada à questão ética, tomamos por base os textos de Emmanuel Lévinas e Isabel Baptista. O currículo é visto, em muitas instituições, como um documento que organiza a dinâmica da instituição de ensino. Considerando que a vida acadêmica é construída, não apenas por conteúdos sistematizados, mas, também, por meio de relações entre os vários sujeitos, as questões sobre a ética e a humanização não poderão estar alheias à proposta curricular. Associada à questão ética, encontra-se um problema antropológico acerca da humanização do currículo de Pedagogia. Segundo Sertillanges, a ética é entendida como “ciência do que o homem deve ser em função daquilo que ele é” (SERTILLANGES, 1916, apud CAMARGO, 1999). A ética, neste sentido, é entendida como processo de realização do ser humano, naquilo que ele é interpelado a ser. Acreditamos ser necessário um estudo aprofundado, crítico e investigativo acerca da concepção de ser humano presente nos currículos de Pedagogia. Diante das diversidades culturais e antropológicas, a Pedagogia é desafiada a refletir e buscar respostas acerca do ser humano que pretende formar. Pivatto (2007, p. 338) chama a atenção, “a partir de textos e práticas educacionais existentes hoje, é que a educação revela uma identidade incerta e variável. Não apresenta uma concepção clara e firme do que entende por ser humano e por humanização”. Assim, os educadores, por falta de conhecimento e de orientação, iniciam sua vida profissional com uma concepção de ser humano, própria, criadas a partir de suas experiências pessoais que, em muitos casos, vem repleta de preconceitos e idealizações e acabam por reproduzir concepções antropológicas preconceituosas e excludentes. O currículo, desse modo, terá que contemplar conteúdos que indiquem tanto a dimensão ética e, associada a esta, uma concepção de ser humano. A pesquisa documental está sendo desenvolvida em torno dos currículos dos cursos de Pedagogia da UFPB, UFCG e UEPB. Por se tratar de uma pesquisa em andamento, a coleta de dados, ainda não foi encerrada. Espera-se que o encerramento dos trabalhos e os seus resultados estejam concluídos nos próximos meses. Palavras-chaves: currículo, ética, humanização. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3501 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1. Introdução O principal objetivo desta pesquisa é investigar os currículos do curso de Pedagogia para identificar os elementos constituintes que promovem a formação de profissionais éticos e humanizados. Trata-se de uma pesquisa do tipo exploratória, desenvolvida por meio de estudo bibliográfico e documental. A pesquisa bibliográfica está orientada a partir de três eixos temáticos: currículo, humanização e ética. Para a pesquisa sobre currículo nos servimos dos escritos de Sacristán e de Pacheco. Sobre humanização trabalhamos com textos de Pivatto e Morin. Para a pesquisa relacionada à questão ética, tomamos por base os textos de Emmanuel Lévinas e Isabel Baptista. A pesquisa documental está sendo desenvolvida em torno dos currículos dos cursos de Pedagogia da UFPB, UFCG e UEPB. Por se tratar de uma pesquisa em andamento, a coleta de dados, ainda não foi encerrada. Espera-se que o encerramento dos trabalhos e os seus resultados estejam concluídos nos próximos meses. 2. A ética e a humanização na construção do currículo - uma reflexão pertinente Mesmo tendo consciência que o curso de pedagogia possui riquezas em suas discussões, encontramos algumas lacunas na sua formação. Uma delas diz respeito ao problema ético, que é pouco trabalhado nas disciplinas do curso e, associada a esta, a questão sobre a humanização. O currículo é visto, em muitas instituições, como um documento que organiza a dinâmica da instituição de ensino. Considerando que a vida acadêmica é construída, não apenas por conteúdos sistematizados, mas, também, por meio de relações entre os vários sujeitos, as questões sobre a ética e a humanização não poderão estar alheias à proposta curricular. Todavia, ao tratar da questão ética não estamos nos referindo apenas às normas ou códigos morais, mas, sobretudo, às relações entre as pessoas, de umas em relação à outra. Numa instituição de ensino, os sujeitos em relação são vários: alunos, professores, técnicos, gestores e comunidade em geral, pertencentes a classes sociais e de origem culturais diversas. Nesse conjunto de relações, acolher, respeitar e cuidar tornam-se práticas educativas e humanizantes, importantes de fazerem parte do currículo. O mundo está passando por uma crise de valores e nossa sociedade não está distante disso. A violência cresce sem medidas, a corrupção tem norteado a vida política de alguns ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3502 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior governantes e várias outras situações vêm definindo o cotidiano de nossa população e despertando nela a necessidade da ética, não apenas nos espaços formais, mas também no cotidiano de suas vidas. Diante disso, a pertinência de pesquisar sobre a questão da ética vinculada à educação se encontra em observar o porquê das pesquisas acadêmicas com relação a esses temas não estarem acompanhando esse movimento que vem se instaurando em nossa sociedade pela busca de uma formação ética dos indivíduos. Embora o termo ética venha sendo bastante utilizado como um sinônimo de respeitabilidade, a produção científica e as propostas pedagógicas escolares visando a dimensão ética ainda precisam ser mais desenvolvidas e aprofundadas. Algumas pesquisas sobre a produção acadêmica acerca dessas temáticas mostram que entre os anos de 2000 a 2002, nos cursos de pós-graduação no Brasil, foram encontradas vinte e oito referências sobre ética e educação, porém, apenas dois artigos apresentam propostas pedagógicas concretas, quatorze sugerem rumos e doze não fazem referência a propostas educacionais (LA TAILLE; SOUZA; VIZIOLI, 2004, p. 102). A partir da visualização desses dados, o que nos preocupa é que a maioria dos autores desenvolveu suas pesquisas mais no sentido de identificar as lacunas e limitações com relação à ética na escola do que pensar e apresentar propostas pedagógicas na direção de solucionar os problemas vivenciados na sociedade e no cotidiano escolar, visto que uma é o espelho da outra. Esse posicionamento crítico também vem norteando a prática pedagógica de professores que se deixam levar pela crença que o comportamento ético dos seus educandos é consequência do ambiente familiar em que vivem, onde a escola não possui responsabilidade alguma sobre os valores, as virtudes e o respeito que esses indivíduos levam para sua vida social, pois o professor está ali, unicamente, para ensinar conteúdos prontos. A partir da pesquisa de La Taille, Souza e Vizioli (2004, p. 106), observarmos que praticamente são inexistentes propostas educacionais de formação ética e educação moral. A mesma pesquisa afirma que não é possível saber se a importância do tema ética e educação, que tem gerado mais publicações nos últimos anos, permanecerá presente e até aumentará, ou se voltará a cair no esquecimento. Em compensação, não ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3503 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior parece haver muitas dúvidas a respeito da urgência desta questão, pois nada indica que os problemas atuais de anomia, desrespeito, violência e outros mais desaparecerão milagrosamente sem intervenções sociais (LA TAILLE; SOUZA; VIZIOLI, 2004, p. 106). Associada à questão ética, encontra-se um problema antropológico acerca da humanização do currículo de Pedagogia. Segundo Sertillanges, a ética é entendida como “ciência do que o homem deve ser em função daquilo que ele é” (SERTILLANGES, 1916, apud CAMARGO, 1999). A ética, neste sentido, é entendida como processo de realização do ser humano, naquilo que ele é interpelado a ser. No decorrer de desta pesquisa sobre os currículos de Pedagogia, notamos que a preocupação com a humanização e a formação ética dos estudantes, bem como de toda a comunidade educativa parece ser uma realidade distante. O curso de Pedagogia visa formar pessoas responsáveis para desenvolver processos educacionais, fundamentados cientificamente, para a formação do ser humano, por meio das mais variadas aprendizagens. Todavia, quando se pergunta sobre que ser humano é esse que queremos formar, começamos a desenvolver uma reflexão filosófica densa e, ao mesmo tempo, fluida, no sentido de haver pouca transposição dessa reflexão para o mundo prático. Acreditamos ser necessário um estudo aprofundado, crítico e investigativo acerca da concepção de ser humano presente nos currículos de Pedagogia. Apesar da variedade de componentes curriculares com conteúdos das ciências humanas, Psicologia da Educação, História da Educação, Sociologia da Educação e tantas outras, além da própria Filosofia da Educação que contempla conteúdos relacionados à antropologia, chegam-se ao fim do curso sem uma proposta acerca do ser humano que queremos formar. Isso não significa reivindicar uma antropologia essencialista que defenda um único modelo de ser humano. Todavia, mesmo na diversidade e pluralidade cultural e antropológica, faz-se necessário responder que ser humano é esse que a Pedagogia se ocupa e que pretende formar. Pivatto (2007, p. 338) destaca, “a partir de textos e práticas educacionais existentes hoje, é que a educação revela uma identidade incerta e variável. Não apresenta uma concepção clara e firme do que entende por ser humano e por humanização”. Assim, os educadores, por falta de conhecimento e de orientação, iniciam sua vida profissional com uma concepção de ser humano, própria, criada a partir de suas experiências pessoais, que, em muitos casos, vem repleta de preconceitos e idealizações e, em muitos casos, acabam por ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3504 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior reproduzir concepções antropológicas preconceituosas e excludentes. O currículo, desse modo, terá que contemplar conteúdos que indiquem tanto a dimensão ética e, associada a esta, uma concepção de ser humano. 3. Sobre a complexidade do currículo Devido à sua natureza e dimensão pouco consensual, qualquer tentativa de definir currículo converte-se numa tarefa árdua, problemática e conflitual. Aliás, cada definição não é neutra, senão que nos define e situa em relação a esse campo. Insistir numa definição abrangente de currículo poder-se-á tornar extemporâneo e negativo, dado que, apesar da recente emergência do currículo como campo de estudos e como conhecimento especializado, ainda não existe um acordo totalmente generalizado sobre o que verdadeiramente significa. (PACHECO, 2005, p. 35) O termo currículo foi dicionarizado, pela primeira vez, em 1663, com o sentido de um curso, em especial um curso regular de estudos numa escola ou numa universidade, sentido que se impõe no vocabulário educacional (PACHECO, 2005, p. 29). Porém, a palavra currículo é de origem recente e aparece com o significado de organização do ensino, querendo dizer o mesmo que disciplina. De acordo com o teórico Gimeno (1988), “o currículo exprime o sentido de uma súmula de exigências acadêmicas, decorrentes do tradicionalismo acadêmico das disciplinas que constituem a alma curricular, e transforma-se num legado tecnológico e eficientista”. (GIMENO, 1988 apud PACHECO, 2005, p. 31) O currículo representa, com efeito, algo muito planificado e que depois será implementado na base do cumprimento das intenções previstas, constituindo os objetivos, que expressam a antecipação de resultados, e os conteúdos a ensinar os aspectos fundamentais para a sua definição (PACHECO, 2005, p. 31). Um currículo é um plano de ação pedagógica muito mais largo que um programa de ensino, que compreende, em geral, não somente programas, para as diferentes matérias, mas também uma definição das finalidades da educação pretendida. (D’HAINAUT, 1980, p. 21 apud PACHECO, 2005, p. 31) Bobbitt (1918) traz duas formas de definição para o currículo, que caminha pelas experiências dirigidas ou não e vão até as capacidades humanas, seus hábitos, enfim, o currículo como um documento que aborda ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3505 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior todo o leque de experiências, sejam estas dirigidas ou não, que visam o desdobramento das capacidades do indivíduo; ou é a série de experiências instrutivas conscientemente dirigidas que as escolas usam para completar e aperfeiçoar o desdobramento (...) Quando o currículo é definido como incluindo tanto experiências dirigidas como não-dirigidas, então os seus objetivos são todo o leque de capacidades humanas, hábitos, sistemas de conhecimento, etc., que cada indivíduo deve processar (...) A educação é o processo de crescimento na direção certa. Os objetivos são as metas do crescimento. As atividades e experiências do aluno são os passos que completam a sua jornada em direção a estas metas. As atividades e experiências são o currículo. (BOBBITT, 1918, p. 43,44 apud PACHECO, 2005, p. 32) A definição de Stenhouse expressa que “um currículo é uma tentativa de comunicar os princípios a aspectos essenciais de um propósito educativo, de modo que permaneça aberto a uma discussão crítica e possa ser efetivamente realizado”. (STENHOUSE, 1984, p. 29 apud PACHECO, 2005, p. 33) A imprecisão conceitual que salta aos olhos sobre o currículo requer uma legislação clara, consistente e, ao mesmo tempo, aberta à complexidade e diversidade da realidade, para além das divergências acadêmicas e políticas, como afirma Goodlad (1979): Se alguém desejar definir currículo como um curso de estudos, a ideia é legítima – e não é, certamente, bizarra. Comecemos por aí e vejamos onde nos leva. Se alguém desejar começar com o currículo como ‘as experiências dos alunos’, vejamos onde isto nos leva. Não comecemos, porém, por rejeitar todas as definições e por procurar somente substituir uma outra que apenas reflita uma perspectiva diferente. Podemos aperceber-nos rapidamente de quão curta é a distância que percorremos. (GOODLAD, 1979, p. 11 apud PACHECO, 2005, p.34) Após analisar as diversas teorias do currículo, Silva considera que não se pode mais olhar o currículo com inocência. E afirma que: O currículo tem significados que vão muito além daqueles aos quais as teorias tradicionais nos confinaram. O currículo é lugar, espaço, território. O currículo é relação de poder. O currículo é trajetória, viagem, percurso. O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo se forja nossa identidade. O currículo é texto, discurso, documento. O currículo é documento de identidade. (SILVA, 1999, p. 150 apud PADILHA, 2004, p. 124) Para Gimeno, no currículo devem estar contidas decisões pedagógicas, políticas, administrativas, de controle sobre o sistema escolar, de inovação pedagógica, pois esse documento vem se comportar como ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3506 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior a expressão da função socializadora da escola; é um instrumento imprescindível para compreender a prática pedagógica; está estreitamente relacionado com o conteúdo da profissionalidade dos docentes; é um ponto em que se intercruzam componentes e decisões muito diversas (pedagógicas, políticas, administrativas, de controle sobre o sistema escolar, de inovação pedagógica); é um ponto central de referência para melhoria da qualidade do ensino. (GIMENO, 1988, p. 36 apud PACHECO, 2005, p. 37) Tendo como base as duas definições de currículo presentes nos documentos de reforma do sistema educativo da década de 1980, não pela pertinência acadêmica, mas pela originalidade de aparecerem pela primeira vez em documentos orientadores e em normativos oriundos do Ministério da Educação: O currículo constitui [...] o modo de traduzir a ligação da teoria educativa à prática pedagógica. Mas porque a primeira se situa no plano das ideias e a segunda no plano da realidade, tal ligação tem que ser concebida com uma grande dose de pragmatismo, procurando optimizar-se o que pode ser face ao que deveria ser. O termo currículo é geralmente entendido ou em sentido restrito ou em sentido lato. Em sentido restrito, o currículo é constituído pelo conjunto das atividades letivas, ficando fora dele todas as atividades não-letivas ainda que reconhecidamente de grande interesse educativo. Em sentido lato, o currículo coincide com o conjunto de atividades (letivas e não-letivas) programadas pela Escola, de caráter obrigatório, facultativo ou livre. O entendimento que a CRSE tem do currículo, para os efeitos do presente programa, é o que corresponde ao sentido lato [...] o objetivo é conseguir com um tal programa educativo completo e integrado, a formação integral e a realização pessoal dos educandos. (CRSE, 1988, p. 97 apud PACHECO, 2005, p. 38) O posicionamento que move os educadores é a crença no poder social e político da escola, tendo como base o direito de todos, em condições iguais de oportunidades de acesso aos bens culturais, ao desenvolvimento das capacidades individuais e sociais, à formação da cidadania, à conquista da dignidade humana e da liberdade intelectual e política, enfim, das justas liberdades. Diante disso, Cortella afirma que a nova realidade social a ser parida também por nós educadores é mais do que uma espera (nostalgia do futuro); é um escravar no hoje de nossas práticas à procura daquilo que hoje pode ser desatado, fruto de situações que não se alteram por si mesmas, nem se resolvem com um “ah! Se eu pudesse...” “ah!, no meu tempo”. Nosso tempo, o dos educadores, é este hoje em que já se encontra, em gestação, o amanhã. Não um qualquer, mas um amanhã intencional, planejado, provocado agora. Um amanhã sobre o qual não possuímos certezas, mas sabemos possibilidade. Pode parecer romântico (até piegas); no entanto, é dessa utopia que não podemos apartar, sob a pena de perdermos o sentido da humanidade. (CORTELLA, 1998, p. 158-59 apud PADILHA, 2004, p. 137) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3507 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Diante da pluralidade conceitual acerca do currículo, é justo afirmar que se trata de uma realidade complexa, com uma variedade de conceitos, entendido em diferentes aspectos. Apresenta-se como um projeto escolar, um plano educativo formalizado, a cultura objetivada, sob um determinado formato, com conteúdos previamente definidos, mas também refletem práticas, experiências cotidianas, ideologias, crenças, valores; uma linguagem simbólica (GOMES; VIEIRA, p. 2009, p. 3224). A complexidade do currículo está no fato dele ser o responsável pela formação dos educandos e a este cabe implantar uma política cultural de formação, seja em qualquer área do conhecimento. Essa política, como toda, não é desinteressada; pelo contrário traz as marcas das disputas de classes travadas no mundo social. Isso é uma relação de poder, capaz de dar à teoria educacional seu caráter político; porém, não basta apenas reconhecer a relação de poder do currículo, é preciso identificá-la, por se camuflar a tal ponto de não ser percebida por aqueles que lidam com as questões de currículo (MOREIRA; SILVA, 2001 apud PEREIRA, 2010, p.3). Pensando nisso, justifica-se a necessidade de se refletir sobre um ambiente educacional onde a humanização dos sujeitos que dela fazem parte, direta ou indiretamente, seja critério fundamental, pois “educar coincide com humanizar” (ARAÚJO, 2006, p. 109). 4. A humanização e a construção do currículo No mundo contemporâneo, é conhecida e muito difundida a tese kantiana de que o homem só se torna plenamente humano mediante a educação (KANT, 2006), ou seja, o ser humano é compreendido como um ser em formação, num processo constante de vir a ser, de humanização. Considerando que a educação, em uma instituição formal de ensino, é desenvolvida mediante um projeto educacional ou curricular, entendido, aqui, como “prática pedagógica que resulta da interação e da confluência de várias estruturas (políticas/administrativas, econômicas culturais, sociais, escolares) na base das quais existem interesses concretos e responsabilidades compartilhadas (PACHECO, 2005, p. 37), há que se perguntarem quais os elementos desse currículo que promovem a formação do ser humano. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3508 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Ao interrogar sobre os elementos constituintes de um currículo que promove a humanização dos sujeitos, encontramos conceitos de grande complexidade, tais como currículo e humanização. Definir currículo é uma tarefa difícil, visto que carrega noções distintas e ambíguas. Diante disso, Pacheco e Ribeiro consideram “um conceito que não tem um sentido unívoco, pois se situa na diversidade de funções e de conceitos em função das perspectivas que se adoptam o que vem a traduzir-se, por vezes, em alguma imprecisão acerca da natureza e âmbito do currículo” (RIBEIRO, 1990 apud PACHECO, 2005, p. 34). Esta imprecisão na conceituação do termo currículo não está distante da dificuldade que encontramos ao se trabalhar com o conceito de humanização. Pivatto (2007. p. 338) chama a atenção para o fato de que, a partir das práticas educacionais existentes hoje, “a educação revela uma identidade incerta e variável”, não apresentando “uma concepção clara e firme do que entende por ser humano e por humanização”. Todavia, essa visão clara pretendida por Pivatto implica numa visão complexa do que venha ser o ser humano. Morin destaca que o processo de humanização diz respeito a “fenômenos muito mais complexos do que se imagina e que requerem abertura, quebra de paradigmas e investimento no espírito que impregna a matéria e a transfigura” (MORIN, 2000 apud PIVATTO, 2007, p. 341). Uma concepção do ser humano que contempla a sua complexidade é possível de ser encontrada em Cândido, quando compreende humanização enquanto processo que confirma no homem aqueles aspectos que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor” (CANDIDO, 1995, p. 249). Essa concepção de ser humano deixa claro que não é possível desenvolver um processo pedagógico de formação do ser humano que não contemple a dimensão ética. A questão ética pode ser trabalhada a partir de, no mínimo, duas concepções. A primeira, mais difundida, compreende a ética como “a reflexão sobre os princípios que devem nortear a ação humana e moral com a explicitação de máximas de conduta e a definição de regras consideradas adequadas (BAPTISTA, 2005, p. 22, 31). Outra concepção possível e, a nosso ver, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3509 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior bastante pertinente é aquela desenvolvida pelo filósofo Emmanuel Lévinas, denominada por muitos comentadores por “ética da alteridade”. Tanto uma como outra concepção fazem-se necessárias para a reflexão sobre currículo. A primeira por apresentar uma perspectiva mais normativa e a outra por enfatizar a responsabilidade e o cuidado dos sujeitos entre si, independente de haver uma norma que os obriguem. Neste sentido, acreditamos que a filosofia levinasiana é uma rica contribuição para se pensar os processos educacionais, associando ética e processos de humanização. 5. Ética e currículo Assim como já foi afirmado, trabalhamos com duas concepções de é tica: a ética normativa e ética da alteridade. A primeira, mais conhecida, pode ser denominada por ética normativa e diz respeito à observância de normas e regras em vista de um bem comum. A outra é a ética da alteridade, desenvolvida, inicialmente, pelo filósofo Emmanuel Lévinas (1906-1995), que define a ética como uma relação de responsabilidade e cuidado em relação ao outro. Segundo Lévinas, um ambiente ético é possível quando se constrói processos interativos em que os sujeitos estabelecem relações de cuidados recíprocos, de solidariedade de uns em relação aos outros. Se pensarmos no ambiente escolar e na importância deste na vida dos indivíduos, percebemos que basear-se nos princípios da ética normativa, embora necessário, é pouco diante da diversidade existente nas instituições escolares. O educando precisa possuir responsabilidade e cuidado com relação ao outro e esses princípios só serão aprendidos a partir da valorização da ética da alteridade. Embora vivamos em uma sociedade violenta, incerta, problemática, onde a exclusão e o desencantamento têm prevalecido nas relações sociais, às instituições de ensino têm o compromisso de formar indivíduos e construir espaços que tenham como princípios a democracia, a justiça, a paz e a solidariedade, se comportando como um lugar hospitaleiro, que reconheça quem são os sujeitos que nela se encontram e que incentive a proximidade e o encontro com o outro. A escola deixou de ser apenas um serviço do Estado e passou a se comportar como uma unidade social com identidade própria, onde sua organização só poderá ser vivida, pensada e gerida de forma ética. Nesse sentido, como afirma Baptista: “no caso específico da ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3510 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior organização escolar, os quês e os porquês devem ser obrigatoriamente, articulados numa rede de sentido que tenha em conta a primordialidade do quem.” (BAPTISTA, 2005, p. 98). Uma instituição escolar que possui comprometimento ético em sua organização e para com os sujeitos nela inseridos, têm por finalidade adotar uma atitude de busca, questionar o que a faz agir tendo em vista os seus fins, verificar os horizontes temporais, escutar a opinião das pessoas, enfim, deve está inserida em um presente fundamentado em melhorias progressivas, de medidas simples e, inevitavelmente, cautelosas, pois “não basta melhorar o funcionamento da escola, é também necessário mudar a visão que os diferentes atores sociais têm da escola, como a olham, o que esperam dela, o que lhe dão e o que lhe querem dar de melhor” (BAPTISTA, 2005, p. 103). O professor, como um dos principais responsáveis pela formação dos indivíduos inseridos no ambiente escolar, deixa de cumprir seu papel ético quando destrói o espírito crítico e curioso dos alunos, negligência a atenção aos educandos com necessidades educacionais especiais, nega o acesso à aprendizagem e deixa de acreditar na capacidade e potencial de cada aluno individualmente. Em contrapartida, um professor que exerce seu compromisso ético, desenvolve competências científicas e técnicas para melhor lidar com a complexidade e diversidade educativa, estando sempre atento e sensível à pessoa de cada aluno, à sua história e projetos. É necessário que o professor adquira um comportamento reflexivo, para que desenvolva a capacidade de interrogação sobre o que fizeram, porque fizeram, como fizeram e como deveriam ter feito. Caso algum professor não tenha um comportamento ético, caberá aos demais profissionais assumirem um posicionamento cooperativo e de ajuda, ao invés de punir ou excluir este educador. Por fim, é importante que não apenas os professores, mas todos os profissionais da educação tenham consciência de que a proximidade com o outro – o educando – é necessário, por que sem ela não existirá verdadeira oportunidade de encontro e de comunicação. 6. Considerações finais Diante do que já foi exposto, a ética na tessitura do currículo deve estar centrada na pessoa do educando e na sua liberdade. O aprender não acontece fora do mundo e da relação com os outros, por esta razão, mais do que estratégias de individualização, o compromisso ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3511 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior com a educabilidade requer respostas pedagógicas diferenciadas e contextualizadas, alicerçadas em competências profissionais de elevada exigência ética. Sem pretensão alguma de concluir as questões aqui postas, continuaremos pesquisando no sentido de contribuir para tessitura de currículos que possam promover processos educativos mais éticos, de maior responsabilidade e cuidado dos sujeitos envolvidos nas relações de ensino-aprendizagem. Trata-se de um currículo capaz de desencadear práticas humanizantes que, além de se ocupar com o saber acumulado e o que está em construção, promove interações de reconhecimento, respeito e cuidado para com todos do ambiente educativo. São estes os elementos constituintes de um currículo que possa promover a formação de profissionais éticos, humanizados e humanizadores. 7. Referências ARAÚJO, Elaine Sampaio. O Projeto Pedagógico como (Des) Encadeador do Trabalho Coletivo na Escola. Ribeirão Preto, 2006. BAPTISTA, Isabel. Dar rosto ao futuro: A educação como compromisso ético. Porto: Profedições, 2005. CAMARGO, Marculino. Fundamentos de ética geral e profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. CÂNDICO, Antonio. Literatura e Sociedade. 9. Ed. RJ: Ouro Sobre Azul, 2006. GOMES, A.; VIEIRA, L. O currículo como instrumento central do processo educativo: uma reflexão etimológica e conceitual. In: IX Congresso Nacional de Educação – EDUCERE III Encontro Sul Brasileiro de Psicopedagogia. Paraná, 2009. Disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/2925_1387.pdf Acessado em 07 de julho de 2011. LA TAILLE, Yves de; SOUZA, Lucimara Silva de; VIZIOLI, Letícia. Ética e educação: uma revisão da literatura educacional de 1990 a 2003. Educ. Pesqui., São Paulo, v. 30, n. 1, Apr. 2004 . Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ep/v30n1/a06v30n1.pdf>. Acessado em 05 de julho de 2011. http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97022004000100006. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3512 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior KANT, Immanuel. Sobre a pedagogia. 5ª. Ed. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2006. PACHECO, José Augusto. Escritos Curriculares. São Paulo: Cortez, 2005. PADILHA, P. R. Currículo intertranscultural: novos itinerários para a educação. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2004. PEREIRA, Antonio. Currículo e formação do (a) pedagogo (a) frente às novas diretrizes do curso de pedagogia: relato de uma experiência de reformulação curricular. São Paulo, 2010. PIVATTO, Pergentino Stefano. Visão de homem na educação e o problema de humanização. Porto Alegre, 2007. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3513 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A CENTRALIDADE DA AVALIAÇÃO INSTITUCIONAL NO CURRÍCULO DO ENSINO SUPERIOR E AS SUTILEZAS IDEOLÓGICAS DA TEMÁTICA DAS COMPETÊNCIAS 35 Elaine Abrahão Amaral Denise Silva Araújo36 37 Edna Aparecida de Oliveira Resumo Este artigo, resultado de uma pesquisa de cunho teórico-descritivo-bibliográfico, intenta realizar uma reflexão sobre como o currículo das instituições de ensino superior, a partir das transformações que ocorrem no contexto político, econômico e social, contribuiu por difundir a noção de competências com vistas a desenvolver capacidades nos acadêmicos que lhes garantissem condições de empregabilidade no mercado de trabalho. Para fins de ilustração dessa realidade, propõe-se uma análise da Resolução nº 4 de 13 de julho de 2005, da Câmara Nacional de Educação, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais- DCNs do Curso de Graduação em Administração, Bacharelado. A escolha das DCNs do Curso de Administração se justifica tendo em vista que os modelos educativos atuais incorporaram práticas forjadas nas empresas. Além disso, analisar-se-á a centralidade da avaliação que, ao deslocar o foco dos aspectos formativos para o produto do processo educativo, contribui para a manutenção de uma lógica de regulação e de rankeamento das instituições de ensino superior. A base teórica do presente estudo foi levantada na disciplina Tópicos de Currículo e Formação de Profissionais da Educação, do Programa de Doutorado da PUC - Goiás. O referencial teórico tomou por base as concepções de Teregi (1996) e Silva (2000) com a discussão do currículo tradicional ao estratégico de competências. Palavras-chave: currículo, avaliação institucional, ensino de competências. The center of Institutional Evaluation in the graduate teaching curriculum and the ideological subtility of the competences’ thematic Abstract This article results from a theorical – descriptive – bibliographic characteristic research and aims to carry through a reflection about how the curriculum of the superior teaching institution from the transformations that occurs in the political, economic, social context and contributed by spread out the notion of the competences with looking for develop capacities in the academic students which guarantee them conditions of employment in the work market and, for illustration purpose of this th reality, it is proposed an analysis of the resolution 4 from dated july 13 , 2005 from Câmara Nacional de Educação that instituted the National Curricular Directions (NCD) of the Undergraduate Management. The choice of NCD of the Management Undergraduate justifies in view of the current educative models had incorporated practical forged in the companies. Moreover, it will be analyzed the center of the evaluation that, when dislocating the focus of the formative aspects for the product of the educative 35 Doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC-GOIÁS; Mestre em educação pela Universidade Católica de Goiás, Coordenadora Pedagógica dos Cursos de Administração e Tecnológico em Gestão de Recursos Humanos da Faculdade Católica de Anápolis-Goiás. 36 Doutora em Educação pela Universidade Federal de Goiás- UFG; Professora Adjunta da Pontifícia Universidade Católica de Goiás- PUC-GOIÁS e da Universidade Federal de Goiás-UFG. 37 Doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás- PUC-GOIÁS. Mestre em educação pela Universidade Católica de Goiás, Pedagoga e Diretora do Centro Municipal de Educação Infantil Paulo Freire em Anápolis-Goiás. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3514 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior process, it contributes for the maintenance of a logical regulation and classification of the institutions of superior education. The theorical base of the present study was raised in subject of Curriculum Topic and Education Professionals Training (Tópicos de Currículo e Formação de Profissionais da Educação) of Doctorate Programme at PUC – GOIÁS. The theoretical framework took for base the conceptions of Teregi (1996) and SILVA (2000) with the quarrel of Traditional Curriculum to the strategic skills. Keywords: curriculum, institutional evaluation, teaching competence 1 Introdução As instituições de ensino antigas e atuais, sempre estiveram inseridas em um contexto impregnado por disputas políticas e ideológicas com vistas ao controle social e à manutenção da lógica de produção capitalista predominante na maioria dos países. Assim sendo, a análise do campo do currículo prescrito por instâncias educativas demonstra o predomínio do viés funcionalista na definição dos saberes ensinados nas salas de aula, conforme demonstrado por Coelho (2006, p. 45): Compreendida e realizada nos últimos 40 anos, como espaço de profissionalização dos alunos, de preparação para o mercado de trabalho, o mundo da produção, dos serviços e do consumo, a universidade tem se preocupado, sobretudo, em formar funcionários para o Estado, peritos em saber-fazer, profissionais, técnicos e especialistas nas várias áreas da atividade humana, incluindo a filosofia, as letras, as artes e a educação. E então, ela se nega como instituição acadêmica e se transforma em organização que transmite saberes instituídos, em supermercados do conhecimento, que oferece aos alunos saberes reduzidos a informações e banalizados, estereótipos, preconceitos, repetição do já dito e do já feito, produtos, disciplinas, conteúdos curriculares, como se fossem certezas de uma nova religião, verdades prontas e acabadas, resultados alcançados, pontos de chegada, enfim, imposição de esquemas de poder, de formas de ação e de reação. Nesta perspectiva, apresenta-se como objetivo primordial deste trabalho, discutir o “currículo formal” 38 presente no ensino superior, notadamente marcado por uma prescrição dos saberes necessários ao desenvolvimento de competências voltadas ao mercado de trabalho, ao modo de produção capitalista e à manutenção do funcionamento das instituições de ensino através de uma crescente preocupação com a otimização dos resultados da avaliação institucional com vistas a garantir o funcionamento das instituições de ensino superior. Assim sendo, a fundamentação teórica deste trabalho se vincula a uma revisão 38 Segundo Forquin (2000, p. 191):“Currículo real”, isto é, aquilo que é realmente ensinado nas salas de aula, que se pode conhecer por observação ou por pesquisa direta com os professores e os alunos, por oposição ao “currículo formal”, ou “oficia l”, tal como aparece na análise dos programas e cursos. Essa distinção é proposta por Perrenoud (1984), a partir de pesquisas efetuadas na Suíça francófona e é retomada por Viviane Isambert Jamati (1990). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3515 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior bibliográfica dos estudos de Teregi (1996) e Silva (2000) com a discussão do currículo tradicional ao estratégico de competências. A primeira parte do artigo se intitula “A trajetória do currículo tradicional e as bases para a implantação do tecnicismo,” onde serão apresentadas as concepções tradicionais de organização do currículo que foram construídas, em especial, na década de 1920 por Bobbitt e Tyler. A seguir discutir-se-á “O protagonismo da avaliação institucional no interior do currículo estratégico de competências” para demonstrar que, ao eleger os saberes articulados à lógica de mercado e ao modo de produção capitalista, as instituições de ensino se deixam influenciar pela temática das competências desqualificando e empobrecendo o processo de ensino aprendizagem contribuindo para a manutenção de modelos hegemônicos de dominação social. Aliada a isso, “a avaliação estabelecida de forma homogênea pelo poder central para todos os sujeitos em idade escolar converte-se no verdadeiro currículum” (TEREGI, 1996, p. 178). Por último, serão apresentadas algumas considerações finais. A trajetória do currículo tradicional e as bases para a implantação do tecnicismo Uma breve retrospectiva acerca das origens do currículo nos faz perceber a diversidade de concepções que foram sendo elaboradas ao longo do tempo. Tamanha variedade de acepções justifica-se pelas inúmeras ocorrências históricas que afetaram o contexto escolar ao longo do tempo e que, direta ou indiretamente, influenciaram as teorias curriculares que foram constituindo novos significados ao currículo escolar. Para fins de sistematização, necessário se faz compreender os diferentes significados do currículo partindo-se da sua origem etimológica e da construção tradicional dos seus conceitos, na perspectiva apresentada por Nonata (2006, p.234-235): Ao longo de sua evolução histórica diversa foi a compreensão do currículo como termo ou conceito. O termo veio do grego Kurikulu, por sua vez relacionado às idéias de: corrida (ato de correr);curso (indicador da pista) e processo, que além da idéia de continuidade, considera a de dinâmica tanto interna, quanto externa.[...] como conceito, ele mesmo, diversas são as descrições das origens do currículo, de acordo com fontes trabalhadas por autores modernos e que passo a descrever: Hamilton(apud GOODSON, 1995), apoiado no Oxford english dictionnaire de Glascow (1633) apresenta como a origem da palavra currículo, os termos ordo e disciplina, procedentes segundo o autor, não tanto das fontes clássicas, quanto das ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3516 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior idéias de Calvino sobre disciplina. A denominação ordo, (ordem) encontrada em Bowen (apud TEREGI, 1996, p. 167) antes atrelada à noção de ratio, que remete em termos lógicos a uma “ordenação de conhecimentos” referente “a idéia de dispor as coisas em sua correta sucessão”. Na origem do termo currículo evidenciam-se, portanto, as ideias de ordem, sucessão, disciplina e prescrição do ensino, que contribuíram para a construção de teorias curriculares tradicionais, pautadas apenas, por uma preocupação com a organização do ambiente escolar, conforme demonstrado por Silva (2000, p.15): As teorias tradicionais, ao aceitar mais facilmente o status quo, os conhecimentos e os saberes dominantes, acabam por se concentrar em questões técnicas. Em geral, elas tomam a resposta à questão “o quê?” como dada, como óbvia e por isso procuram responder a uma questão: “como?”. Dado que temos esse conhecimento (inquestionável?) qual é a melhor forma de transmiti-lo? As teorias tradicionais preocupam-se com questões de organização. Alguns estudiosos do currículo como, por exemplo; Barriga (1992, apud Teregi, 1996) e Silva (2000) apontam que a origem do currículo nos moldes atuais, estaria situada no contexto norte-americano do pós-guerra, mais precisamente no final da década de 1910. Algumas condições teriam propiciado os estudos do currículo nos Estados Unidos, dentre as quais se destacariam: a) a massificação do ensino, b) a expansão escolar americana, c) o sentimento nacionalista americano de preservação da identidade nacional ameaçada pelo aumento das imigrações, d) os investimentos em infra-estrutura que levaram ao aumento das áreas urbanizadas, e) o crescimento da industrialização, entre outras. No modelo curricular estadunidense, novos sentidos foram incorporados ao conceito de currículo contribuindo para uma nova ressignificação das instituições educativas, que a partir de então, foram colocadas a serviço da preparação da mão de obra para o mercado de trabalho, conforme demonstrado por Barriga (1992, p.26 apud Teregi,1996, p.168), assim: Curriculum é uma ferramenta pedagógica que substitui a antiga didática; que subordina a educação à uma visão eficientista e utilitarista apresentada como ideologia científica; e que impõe aos processos de prescrição sobre o que se deve ensinar uma lógica de construção- o chamado planejamento curricular –para a qual se geraram conceitos inteiramente novos, diagnóstico de necessidades, objetivos, perfil do egresso, modelos institucionais, etc. “A lógica interna do “curricular” preocupou-se com o desenvolvimento de habilidades técnico-profissionais requeridas para a incorporação do sujeito ao mercado de trabalho, em detrimento de uma formação mais ampla. O “controle”, como determinação exata do conteúdo ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3517 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior a ser ensinado, do comportamento (conduta) que se deseja obter, da “necessidade” por satisfazer, converter-se no eixo desta problemática. A escolarização em massa norte-americana abriu caminho para que a obra de John Franklin Bobbitt (1876–1956) se consolidasse como uma tendência tradicional e tecnicista voltada à sustentação de uma sociedade industrial por meio da organização de um currículo que privilegiasse conteúdos específicos direcionados para o desenvolvimento das habilidades essenciais ao mundo do trabalho. Desta forma, o modelo curricular de Bobbitt se contrapunha ao currículo clássico humanista39 pois apregoava a inutilidade para a vida profissional, do estudo de “línguas mortas” a exemplo do grego e do latim e enfatizava, por sua vez, as disciplinas pragmáticas, sem uma preocupação com a formação crítica, ao conceber um modelo educacional que fora forjado nos moldes empresariais, conforme descrito por Silva (2000, p. 19) assim: Bobbitt propunha que a escola funcionasse da mesma forma que qualquer outra empresa comercial ou industrial. Tal como uma indústria, Bobbitt queria que o sistema educacional fosse capaz de especificar precisamente que resultados pretendia obter, que pudesse estabelecer métodos para obtê-los de forma precisa e formas de mensuração que permitissem saber com precisão se eles foram realmente alcançados.O sistema educacional deveria começar por estabelecer, de forma precisa, quais são os seus objectivos. Esses objectivos, por sua vez, deveriam basear-se num exame daquelas habilidades necessárias para exercer, com eficiência, as ocupações profissionais da vida adulta. O modelo de Bobbitt estava claramente voltado para a economia. A sua palavra-chave era “eficiência” O sistema educacional deveria ser tão eficiente quanto qualquer outra empresa econômica. Evidencia-se, portanto, que as bases do planejamento curricular proposto por Bobbitt estavam assentadas nos princípios preconizados pela Administração Científica do engenheiro americano Frederick Winslon Taylor (1856-1915) quer seja; “a máxima eficiência” obtida por meio da divisão das tarefas e da racionalização do trabalho. As instituições educativas, a partir de então, à semelhança do modelo empresarial começaram a incorporar as propostas tecnicistas no âmbito da gestão escolar, por meio da adoção dos seguintes princípios: a) mensuração dos resultados por meio de métodos rigorosos de avaliação dos trabalhos dos alunos, b) transmissão de conteúdos com base no conceito de competências necessárias à adequação dos indivíduos ao mercado de trabalho, c) difusão dos 39 Silva (2000, p. 23) esclarece que “o currículo humanista tinha implicitamente uma “teoria” do currículo. Basicamente nesse modelo, o objectivo era introduzir os estudantes no repertório das grandes obras literárias e artísticas das heranças clássicas grega e latina, incluindo o domínio das respectivas línguas. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3518 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior saberes técnico-científicos atrelados às exigências das novas tecnologias, d) nítida divisão de tarefas entre os gestores, responsáveis pelo planejamento curricular e pela racionalização do trabalho educacional, e o trabalho dos docentes em sala de aula, que nessa perspectiva, se tornaram meros executores do que fora previamente planejado pelos especialistas, e) a valorização no meio acadêmico dos recursos de tecnológicos e de multimídia (filmes, slides, ensino à distância, computadores, etc). As propostas de Bobbitt para a educação se concretizaram, em definitivo, nos estudos de outro norte-americano, Ralph W. Tyler (1902-1994) que preconizava a organização do currículo por meio do detalhamento dos objetivos que deveriam ser formulados segundo uma orientação do comportamento que se buscava modificar e a adoção de padrões de referência para avaliar os resultados, conforme descrito por Silva (2000, p. 23) É apenas através dessa formulação precisa, detalhada e comportamental dos objectivos que se pode responder às outras perguntas que constituem o paradigma de Tyler. A decisão, sobre que experiências devem ser propiciadas e sobre o modo como organizá-las, depende dessa especificação precisa dos objectivos. Da mesma forma, seria impossível avaliar, como adiantava Bobbitt, sem que se estabelecessem com precisão os padrões de referência. Tanto Bobbitt quanto Tyler fundamentaram os seus trabalhos nas propostas tayloristas de racionalização, de máxima eficiência e de objetividade dos trabalhos, bem como, na teoria psicológica behaviorista para conseguirem condicionar e controlar o comportamento dos alunos. Para tanto, propuseram um modelo de avaliação a partir de um planejamento racional e na definição de procedimentos que privilegiassem os aspectos que pudessem ser mensurados e observados. Assim, na visão de Silva (2000, p. 27), “os modelos tradicionais de currículo restringiram-se à actividade técnica de como fazer, o currículo.” O protagonismo da avaliação institucional no interior do currículo estratégico de competências. Encontra-se, ainda, muito presente no meio educacional, a prevalência de objetivos comportamentais, a exemplo da época do modelo tecnicista de currículo de Bobbit e Tyler. A explicação para essa constatação pode ser retirada de uma noção de que a qualidade da educação estaria atrelada aos objetivos formadores do perfil de profissional que se pretende formar. Esta prevalência pode ser percebida, também, no direcionamento das propostas ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3519 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior formativas para a preparação de sujeitos aptos a ingressarem no mercado de trabalho, o que é compreendido como a forma de cumprirem a sua finalidade social. Para tanto, as instituições de ensino superior necessitariam gerenciar o trabalho acadêmico a partir de uma concepção empírico-positivista, muitas vezes sem perceber que, com isso, contribuem para a manutenção de modelos hegemônicos pautados na lógica de mercado capitalista. Na atualidade, as propostas curriculares para o ensino superior, no Brasil, sustentamse no ensino de competências40, que na década de 1970 se sobressaiu aos objetivos comportamentais, chegando a tomar-lhe o lugar no planejamento curricular numa clara tentativa de impor a idéia, de que, por meio do ensino de competências, as instâncias educativas conseguiriam atender às demandas sociais impostas por uma sociedade dita globalizada. O ensino de competências no contexto brasileiro atual tem a seu favor uma dupla vantagem, pois permite trabalhar as atividades de ensino atreladas aos indicadores de desempenho da avaliação institucional, no que concerne ao desempenho dos estudantes no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), a partir do desmembramento dos componentes curriculares. Em segundo lugar, permite que os órgãos gestores do sistema educacional brasileiro consigam estabelecer os indicadores de desempenho para a avaliação, dentro dos padrões de qualidade que pretensamente pretendem atingir para o modelo educacional brasileiro. No âmbito do ensino superior, as Diretrizes Curriculares Nacionais - DCNs orientam a elaboração das propostas curriculares dos diferentes cursos superiores, por meio de um rol de habilidades e competências que são utilizadas para direcionar o perfil de profissional que se pretende formar. A análise da Resolução nº 4 de 13 de julho de 2005 que instituiu as DCNs do Curso de Administração em seu Art, 4º confirma tal entendimento: O Curso de Graduação em Administração deve possibilitar a formação profissional que revele, pelo menos, as seguintes competências e habilidades: I-reconhecer e definir problemas, equacionar soluções, pensar estrategicamente, introduzir modificações no processo produtivo, atuar 40 Segundo Pena e Aquino (2001, p. 9, apud ISAMBERT-JAMATI, 1997), na Idade Média a expressão competência era associada especialmente a linguagem jurídica. Dizia respeito a faculdade atribuída a alguém ou a alguma instituição, de apreciar e julg ar certas questões. Por extensão o conceito de competência veio a designar o reconhecimento social sobre a capacidade de alguém pronunciar-se em relação a determinado assunto e, mais tarde, passou a ser utilizado, de forma mais genérica, para qualificar o indivíduo capaz de realizar determinado trabalho. Para Ropé (1997, p.69) A noção de competência se impôs na escola, há alguns anos essencialmente por meio da avaliação. Para Tanguy (1997, p.168) a noção de competências tem uma longa história nos diferentes registros da língua, ela está associada à noção de “organização do trabalho qualificante” nos discursos feitos pelas empresas ou pelos especialistas que estão associad os a elas, como os consultores. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3520 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior preventivamente, transferir e generalizar conhecimentos e exercer, em diferentes graus de complexidade, o processo da tomada de decisão; IIdesenvolver expressão e comunicação compatíveis com o exercício profissional, inclusive nos processos de negociação e nas comunicações interpessoais ou intergupais; III- refletir e atuar criticamente sobre a esfera da produção compreendendo sua posição e função na estrutura produtiva sob seu controle e gerenciamento; IV- desenvolver raciocínio lógico, crítico e analítico para operar com valores e formulações matemáticas presentes nas relações formais e causais entre fenômenos produtivos, administrativos e de controle, bem assim expressando-se de modo crítico e criativo diante dos diferentes contextos organizacionais e sociais; V- ter iniciativa, criatividade, determinação, vontade política e administrativa, vontade de aprender, abertura às mudanças e consciência da qualidade e das implicações éticas do seu exercício profissional. VI- desenvolver capacidade de transferir conhecimentos da vida e da experiência cotidianas para o ambiente de trabalho e do seu campo de atuação profissional, em diferentes modelos organizacionais, revelando-se profissional adaptável; VII- desenvolver capacidade para elaborar, implementar e consolidar projetos em organizações; e VIII- desenvolver capacidade para realizar consultoria em gestão e administração, pareceres e perícias administrativas, gerenciais, organizacionais, estratégicos e operacionais. Da análise das competências e habilidades ensejadas no artigo 4º das DCNs do Curso de Graduação de Administração se pode apreender que neste curso, a proposta de formação do perfil do profissional ensejado, inibiria a possibilidade de aprofundamento dos conteúdos associados à formação da dimensão crítica, normalmente, presentes nas disciplinas filosóficas, literárias, históricas, da geografia humana, das artes, que nesse caso, ficariam reduzidas dentro de uma abordagem das ciências sociais aplicadas à administração, visto que no mundo produtivo, esses saberes não seriam essenciais para o exercício profissional. Por outro lado, necessário se faz destacar o que Teregi (1996, p. 177) denominou de “reconversão do currículum de um sistema de ensino centralizado no ensino a um sistema centralizado na avaliação”. Para a autora, na década de 1990, essa ideia estaria presente de uma forma mais ou menos padronizada nos currículos de vários países e em especial, no Curriculum Nacional Britânico. Neste trabalho, defende-se que esta reconversão curricular empreendida na Inglaterra, na década de 1990, está presente nas reformas curriculares realizadas no Brasil, a partir da aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/1996). De acordo Teregi (1996, p. 178) “a avaliação estabelecida de forma homogênea pelo poder central para todos os sujeitos em idade escolar converte-se no verdadeiro curriculum.[...] se até agora para estabelecer o que se devia ensinar, era preciso analisar o curriculum prescrito, a partir de agora será sobretudo a avaliação que deverá ser conhecida.” ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3521 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Concordando com o entendimento de Teregi (1996) que a década de 1990 revelou a centralidade da avaliação institucional Oliveira, Fonseca e Amaral (2006, p.3) afirmam que: A partir daí, a avaliação do ensino superior tornou-se objeto de destaque, sendo contemplada com políticas, ações, estudos específicos com diferentes objetivos. De uma lado, estabelecia-se a instituição de uma nova racionalidade do sistema de ensino superior, tendo em vista uma expansão mais acelerada do número de estudantes, cursos e instituições. De outro lado, acabou por incentivar o surgimento de núcleos de estudos na área de avaliação em universidades e centros de pesquisa, formação e capacitação de recursos humanos na área e a produção de pesquisa aplicada para subsidiar a chamada qualidade educacional. Prosseguindo nessa linha de entendimento, uma questão emerge do texto de Teregi (1996, p. 178): “Como se produziu este deslizamento do curriculum, desde o ensino e a aprendizagem à avaliação?” Conforme demonstrado pela autora, de modo geral, um conjunto de políticas públicas deram origem ao Estado Mínimo. Nesta perspectiva, o Estado ao se desincumbir ao menos em parte, da sua função de prestador de serviços educacionais, assume o papel de Estado gestor do controle e da regulação dos serviços prestados por instituições públicas e privadas de ensino o que, no entender de Teregi (1996, p. 178) impacta a educação assim: Esta exterioridade do Estado com relação à prestação constitui uma novidade, e é a pedra de toque do deslizamento de sentido do curriculum desde o ensino para a avaliação.” Junto aos processos de abandono da prestação de serviço e aumento do controle através de práticas avaliativas nacionais, o Estado classifica os alunos, coloca etiquetas de qualidade e preço às escolas para “consumo” de pais, fixa salários diferenciais para os docentes, tudo isso em um mercado educativo cuja criação é o resultado final de sua política (Diker e Teregi, 1993:1). Os efeitos perversos da conversão da avaliação no próprio currículo podem em um prazo muito curto levar a uma supressão dos saberes científicos, e formadores de um espírito crítico em favor de um saber eminentemente técnico e pragmático, resultante da lógica capitalista. Para que isso não se concretize necessário se faz convocar os estudiosos e pesquisadores do currículo nacional a reagirem contra um aprofundamento do ensino de competências direcionadas apenas, à preparação de mão de obra qualificada para ocupar postos no mercado de trabalho. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3522 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Considerações Finais Neste trabalho, foi destacada a prevalência dos princípios da Administração Científica do engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915) nos currículos tradicionais preconizados por Franklin Bobbitt (1876–1956) e Ralph W. Tyler (1902-1994) para demonstrar que, ainda hoje, muitas instituições educativas, trabalham o planejamento curricular, a partir da determinação de objetivos comportamentais, da racionalização do trabalho acadêmico e da divisão das tarefas, tendo como fim último a máxima eficiência dos resultados pretendidos. Por outro lado, na análise da proposta curricular de Bobbitt e Tyler foram identificados os fundamentos teóricos da matriz do conhecimento positivista e ainda, da teoria psicológica behaviorista. Foi discutida também, a resignificação dos objetivos comportamentais presentes no currículo tradicional de Bobbitt e Tyler para o ensino de competências que, dentro das instituições de ensino superior, se fazem presentes nas Diretrizes Curriculares Nacionais- DCNs e que ensejam o perfil de profissional que se pretende formar. Por último, tomando por base o texto de Teregi (1996) discutiu-se o protagonismo da avaliação no interior do currículo estratégico de competências. Conforme defendido pela autora, como com o passar do tempo, “a avaliação se reconverteu no próprio currículo”. Este processo deve ser compreendido no contexto da década de 1990, em que o Estado ao se desincumbir de sua função precípua de provedor de Bem-Estar Social, permitiu que a lógica de mercado adentrasse no terreno educativo. Necessário, se faz ainda considerar que a organização curricular com base no ensino de competências, dentro de uma orientação oficializada por meio das Diretrizes Curriculares Nacionais- DCNS, dos Cursos Superiores contribui para a materialidade dos processos de avaliação institucional. Espera-se que as discussões suscitadas neste trabalho de pesquisa possam a ter contribuído de alguma forma para questionar a organização curricular com base no ensino de competências para que outras propostas formativas possam adentrar no currículo dos Cursos de Graduação de uma maneira que possibilitem uma mudança nas definições vigentes acerca do perfil de profissional que se pretende formar. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3523 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Resolução nº 4. Câmara Nacional de Educação. 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Parte de uma pesquisa institucional em andamento – a saber: Ensino superior e avaliação – discursos de alunos da UNIABEU sobre o ENADE – para relacionar os discursos discentes sobre o ENADE com os discursos oficiais acerca dos rumos e finalidades da Educação. Pretendemos analisar as respostas coletadas sobre o conhecimento dos alunos em relação ao ENADE e seus questionamentos a cerca dessa ferramenta de avaliação acadêmica de forma a interrogar ar políticas de avaliação de sistemas e suas implicações sobre a formação de professores. Assim, pretendemos ampliar o canal de diálogo entre o que o ENADE avalia como necessidade de conhecimento e o que se realiza no âmbito dos cursos de formação de professores. Palavras-chave: Políticas públicas de avaliação; ENADE; Formação de professores. Introdução Diversos estudos e pesquisa têm conferido destaque ao tema da avaliação como tentativa de compreender a problemática que a envolve e de analisar suas implicações práticas. Concordamos que as avaliações permitem reformular as ações futuras, que elas contêm potencial para transformar as relações humanas, de modo geral, e as relativas ao processo ensino-aprendizagem, especificamente. Aderimos também à ideia de que avaliar contribui a constituição de aprendizagens significativas e voltadas para a apropriação do conhecimento. Todavia, para que suas potencialidades sejam reveladas, as avaliações precisam superar o uso limitado da simples aferição de resultados e da mera classificação de 41 Orientadora: Cristina Nacif Alves – Centro Universitário Abeu/UNIABEU e Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3525 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior desempenhos. Nesse sentido, cabe problematizar os efeitos das avaliações de sistemas no ensino superior: de que maneira o ENADE repercute no processo ensino-aprendizagem de futuros professores? Que estratégias de ensino devem orientar as relações pedagógicas no ensino superior? O que alunos esperam com o ensino superior? Como encaram as avaliações do ENADE? A partir das problematizações voltamos nosso olhar sobre o curso do conhecimento nas formações realizadas no interior das universidades privadas. O presente trabalho resulta de questionamentos acerca das repercussões das avaliações de sistemas sobre a formação de professores. Parte de uma pesquisa institucional em andamento – a saber: Ensino superior e avaliação – discursos de alunos da UNIABEU sobre o ENADE – para relacionar os discursos discentes sobre o ENADE com os discursos oficiais acerca dos rumos e finalidades da Educação. Para problematizar o discurso produzido nas respostas recolhidas utilizaremos como a teoria da argumentação, de PERELMAN (1999), e o dialogismo, de BAKTIN (2003). A perspectiva teórica permite a discussão sobre as concepções dos alunos em formação de professores – licenciandos em História, Letras e Matemática e graduandos em Pedagogia – e o confronto dos discursos de alunos do ensino superior a cerca do ENADE com a problemática que envolve a realidade das avaliações de sistemas, presentes tanto nos discursos acadêmicos e nos oficiais como expressa na realidade que classifica e ranqueia posições e, com isso, hierarquiza sujeitos e instituições de ensino e amplia as distâncias entre os sujeitos sociais. Assim, ao inferirmos as análises um caráter científico, partindo dos discursos encontrados nas respostas dos alunos da UNIABEU sobre avaliação realizada pelo INEP, o ENADE, e seus questionamentos a cerca dessa ferramenta de avaliação acadêmica, interrogamos as políticas de avaliação que enfatizam a formação de professores voltada para a criação de competências e habilidades em detrimento daquela que visa o desenvolvimento e o aprofundamento do conhecimento. A pesquisa de campo e os procedimentos Ao voltarmos nossas atenções para a análise dos discursos dos alunos do ensino superior, buscamos identificar as variações presentes nas resposta concedidas aos questionários submetidos a esses alunos em relação ao ENADE, estabelecendo possíveis relação entre o conhecimento destes com a retórica utilizada pelo sistema para validar sua argumentação quanto à aplicação desta ferramenta. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3526 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Tal procedimento permitirá compreender e problematizar a compreensão dos discentes em relação às avaliações de sistema, visando ampliar o canal de diálogo entre os mesmos e a justificativa do discurso dispensado pelo sistema em defesa do ENADE. Através deste trabalho, visamos através contribuir para compreensão dos problemas que atualmente assolam a prática do uso desta ferramenta de avaliação. Para atender a demanda do sistema educacional, do mercado e da expectativa de alcançar os melhores resultados no ranking das universidades, torna-se cada vez mais necessário que as instituições estejam alinhadas com a realidade exigida, em que para ter êxito é preciso um trabalho em equipe com total comprometimento dos envolvidos (docentes e educandos). O objetivo geral desta pesquisa: analisar as concepções de licenciandos e graduandos sobre o ENADE. Para isso, alguns objetivos específicos se delineiam como possibilidade de circunscrição do objetivo geral, a saber: conhecer os discursos de alunos da UNIABEU sobre avaliação realizada pelo INEP, o ENADE; relacionar as percepções de alunos da UNIABEU sobre o ENADE com os discursos teóricos e oficiais acerca do tema; discutir os impactos da proposta oficial sobre a formação baseada em competências e habilidades como um limite a ser superado. No campo de compreensão sobre a formação do conhecimento, se inserem a Teoria da Argumentação de Perelman (1999) e a natureza dialógica da enunciação afirmada por Bakhtin (2003), ambos os autores apontam uma relação dialética entre os sujeitos do conhecimento e os objetos a serem conhecidos, na medida em que convocam o outro – a quem os argumentos se dirigem – a uma resposta – de adesão ou de recusa – sempre pautada na reflexão, no confronto e na procura por explicações e justificativas que possam fundamentar os pensamentos e ações postas em curso. A argumentação, ao contrário da demonstração, não é coerciva, mas reflexiva, pois dá ênfase ao campo da ação, a partir do confronto e do diálogo entre os que concorrem para a construção do conhecimento. Na argumentação dialética, são concepções consideradas como geralmente aceitas que são confrontadas umas com as outras e opostas umas às outras. Por isso, o método dialético é, por excelência, o método de toda filosofia que, em vez de se fundamentar em intuições e evidências, consideradas irrefutáveis, dá-se conta do aspecto social, imperfeito e inacabado, do saber filosófico. (Perelman, 1999, p. 53) Essa forma de conceber a construção do conhecimento não está centrada, apenas, no interior do psiquismo humano, mas participa dos diversos signos presentes no movimento ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3527 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior da história. O espaço de formação, lugar por excelência de encontro e de confronto de muitas vozes, reflete e refrata a realidade social dos membros de uma comunidade (BAKHTIN, 2003), cuja circulação dos discursos faz emergir a produção de conhecimento a partir e em torno da alteridade e das formas de organização do desejo no campo social. O que implica a condição do sujeito não somente em relação à identidade, mas também em relação à alteridade, pois a formação não se configura de forma individual e independente, requer e exige o reconhecimento e o envolvimento com modelos expressos num “consciente coletivo”, social e político. Dessa maneira, a qualidade de “ser educador” ou “ser educando” – de formador e formando – não condiz, tão somente, com as competências técnicas do sujeito idealizado, mas também, reflete a maneira como os outros lidam, encaram a sua capacidade de ensinar e aprender, bem como com as expectativas estabelecidas frente ao modo de ser desses sujeitos sociais. Bakhtin (2003) propõe a concepção da atividade mental como expressão da palavra presente nos atos de interpretação e nos esforços de compreensão dos discursos postos em ação pelos diferentes sujeitos. Define a palavra como resultante da relação social que orienta o problema tomado no debate e, por isso, indica e permite o engajamento em busca de transformações sociais. Já a teoria da argumentação de Perelman disponibiliza estratégias discursivas que permitem provocar ou ampliar a adesão das mentes às teses apresentadas à apreciação. Então, “toda argumentação visa uma mudança na cabeça dos ouvintes” (PERELMAN, 1999, p. 304) e se desenvolve em relação ao outro no sentido de interferir na tomada de decisão à ação. Tanto a formação como a avaliação voltam-se para o desenvolvimento e para a alteração das práticas sociais do sujeito inserido na cultura, jamais fora dela, o que permite compreender sua racionalidade e justifica a propositura de novas formas de pensar as atividades humanas. Visto que o sujeito não pode ser pensado senão como um ser de necessidades, satisfeitas socialmente nas relações que as determinam. Tanto o sujeito como as práticas provenientes de suas apreciações da realidade são socialmente explicadas, não havendo nada que não seja produto das interações entre indivíduos, grupos e classes. Ou seja, através da permanente inter-relação dialética o um e o outro, o individual e o coletivo, o particular e o universal, caracterizam-se nas práticas culturais. Desse modo, avaliações de sistemas, aferição de desempenhos, mecanismos de classificação de alunos, articulam-se a políticas públicas de educação e às condições concretas de realização das práticas propostas. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3528 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Considerações Finais Espera-se que esta pesquisa em andamento possa contribuir para a adoção de práticas de avaliação sustentadas na defesa do conhecimento como objeto de discussões e de confrontos, maneira pela qual se acredita disponibilizar a dialética que funda a constituição do conhecimento, conforme aqui defendido, não estático nem absoluto. Ao contrário, dinâmico, flexível e provisório. Portanto, o debate e as problematizações decorrentes caracterizam o conhecimento como fundamentalmente inacabado, jamais absoluto, inquestionável. Por isso, não se admite como conhecimento, as informações que apenas traduzem competências e habilidades pragmáticas. Ao contrário disso, conhecer é articular pensamento e ação de maneira consciente e reflexiva, de aproximar os indivíduos de sua condição humana: o uso do trabalho para transformar a natureza a seu favor. A pesquisa propõe que o processo de formação seja tomado como o movimento que se esforça para a diminuição das distâncias (PERELMAN, 1999) entre os homens e se coloca como argumento para a formação de professores como fruto da atividade responsiva aos questionamentos que emergem no espaço acadêmico e indicam que a discussão argumentativa constitui-se em ação privilegiada, em que formadores e formandos instauram novas formas de interação e impedem o atrofiamento do conhecimento como verdade absoluta (ALVES, 2007). Conhecer implica questionar, questionar viabiliza respostas várias, a responsividade dirige à coletividade que a aceita ou não como conhecimento provisório e confiável (OLIVEIRA, 2005) e faz dela ponto de partida para a instauração de novos diálogos. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3529 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior COMO OS ALUNOS DOS CURSOS DE LICENCIATURAS E PEDAGOGIA CONCEBEM O ENADE Eliane Maria de Freitas Eduardo Correa de Freitas Samanta Samira Nogueira RESUMO O presente artigo apresenta o projeto de pesquisa que analisa os discursos de alunos da UNIABEU sobre os sistemas nacionais de avaliação, com o objetivo de identificar os argumentos que embasam os discursos de alunos dos cursos de licenciatura e pedagogia da UNIABEU, futuros professores, sobre a prática de avaliação do ENADE. Pretende-se ainda estabelecer relações desses discursos com os discursos teóricos presentes na esfera da formação de professores. Para que o objetivo seja alcançado, dados serão coletados por meio de inquérito por questionário que aborde o conhecimento e as concepções dos mesmos sobre o ENADE. Os discursos coletados indicarão a possível relação destes com os discursos enunciados por teóricos representativos do campo da avaliação da aprendizagem, os dos sistemas educacionais e os dos promovidos em revistas de fácil acesso aos professores. Palavras-chave: Avaliação de sistemas - Formação de professores - Análise do discurso INTRODUÇÃO Este trabalho apresenta os fundamentos de uma pesquisa sobre as concepções de alunos do ensino superior sobre as avaliações em larga escala. Problematiza repensar as relações humanas travadas no âmbito da instituição privada de ensino superior e suas repercussões na produção da cultura e do conhecimento relativo à formação de professores. Nossa intenção é investigar as percepções de licenciandos em História, Letras e Matemática, bem como de graduandos em Pedagogia, sobre o ENADE para relacioná-las aos discursos teóricos presentes na esfera da formação de professores. Argumentos e discursos Alves em sua pesquisa de Mestrado (ALVES, 2007), constatou que os discursos destinados à formação de professores incidem sobre as práticas concretas realizadas no interior da escola, à medida que são representativos dos questionamentos, das necessidades, dos anseios, das expectativas, dos desejos, daqueles a quem são lançados. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3530 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Assim todo discurso visa conquistar a adesão do maior número de pessoas (PERELMAN, 1999). Quando um discurso atinge o ponto de destino, provoca uma atitude responsiva estabelecendo um dialogo que só é permitido pelo consenso ao enunciado, pois sem esse consenso não é possível que se estabeleça o dialogo, ou seja, o diálogo inicial de uma problemática ancora-se num ponto comum, ainda que no decorrer de seus desdobramentos muitos dissensos se concretizem. Em relação à problemática educacional, aos professores são dirigidos diferentes discursos, que funcionam como prescrições ou orientações sobre o que fazer para solucionar um fato ou questão. No entanto estes discursos apenas se legitimam nas expressões dos agentes educacionais, mas não chegam a se realizar na prática, mesmo porque para cada sujeito existe um modo peculiar de se apropriar dos conteúdos teóricos. Assim toda vez que um problema se coloca como importante e para ele acredita-se poder encontrar uma resposta (ou várias), passa-se a perseguir diferentes modos de solução, para cada solução projetada a partir da reflexão sobre a questão, a ação volta-se para o campo prático a fim de testá-la na resolução objetiva do problema. Conceber o progresso do conhecimento como vinculado à formulação e à solução dos problemas significa recusar vincular todo conhecimento a uma certeza prévia e separar claramente a teoria da prática. Quando se reconhece o papel primordial dos problemas na teoria do conhecimento, não se pode recusar-se a examinar aqueles para os quais um método perfeito não fornece solução adequada. (PERELMAN, 1999, p. 162) Portanto uma problemática não encontrará jamais uma única solução, uma única e absoluta resposta, devendo a problemática ser relacionada ao contexto (tempo/espaço históricos) e ser remetida à situação particular (grupo social) onde estão presentes os envolvidos e as condições reais do acontecimento. As problematizações surgem e se justificam infinitamente, sempre para sustentar as novas ações, escolhas e decisões que se desenvolvem no interior de um grupo social e que são sempre afetadas pelas peculiaridades da participação de cada indivíduo dentro desse grupo. Para tanto (...) podemos justificar nossas decisões na área da ação e do pensamento mediante argumentações que não são mecânicas nem coercivas, e que são garantidas, em última instância, pela solidariedade que seu emprego e sua avaliação estabelecem com a pessoa de quem as constrói e de quem lhe concede a adesão: a responsabilidade do homem participante é, como sempre, o corolário de sua liberdade. (PERELMAN, 1999, p. 165) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3531 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Segundo Perelman (1999), e conforme defendida no projeto de pesquisa apresentado por este artigo, a participação social não pode ser pensada fora da conseqüência que acarreta para a sociedade como um todo e para os outros homens. O resultado de uma ação individual sempre irá recair sobre muitos outros. Pois do entendimento particular sobre um fato resultam os julgamentos aferidos ao mesmo e, conseqüentemente, todas as decisões tomadas para a ação. Diante de tais argumentos, surge a problemática que envolve a avaliação escolar, de modo geral, e o ENADE especificamente, dando origem a uma pergunta para a investigação: que argumentos embasam os discursos de alunos dos cursos de licenciatura e pedagogia da UNIABEU, futuros professores, sobre a prática de avaliação do ENADE? Dessa forma o objetivo geral desta pesquisa se da em analisar os discursos colhidos desses alunos sobre o ENADE e para isso, alguns objetivos específicos se delineiam como possibilidade de circunscrição do objetivo geral, a saber, como conhecer os discursos desses alunos sobre avaliação realizada pelo INEP, o ENADE, problematizar os discursos de alunos sobre o ENADE e relacionar as percepções desses alunos sobre o ENADE com os discursos teóricos e oficiais acerca do tema. As respostas, possivelmente definirão posicionamentos ativos que definem os interlocutores nas suas inter-relações sociais. Dinâmica que determina o lugar, a posição, o valor, a necessidade, a grandeza, a estima, o merecimento, reservados para cada um dos homens na racionalidade usada para a justificativa (a avaliação) da ação concretizada (o julgamento). Metodologia No que diz respeito aos pressupostos teórico-metodológicos, a pesquisa apresentada neste artigo baseia-se na instauração da problemática em torno do conhecimento a partir da dialética proposta por Perelman (1999; 2005). Considerando o conhecimento como algo que não está dado, mas como aquilo que resulta dos diferentes debates acerca dos temas/coisa/fatos, portanto esta pesquisa se define como qualitativa tanto do sentido específico do ponto de vista metodológico – investigação qualitativa (BIKLEN & BOGDAN,1994), como do ponto de vista epistemológico –da teoria da argumentação (PERELMAN, 1999). Pois As razões que fundamentam as nossas decisões consistem, o mais das vezes, em opiniões que consideramos as mais prováveis, sendo, aliás, a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3532 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior probabilidade nessa matéria raramente suscetível de determinação quantitativa. Tais opiniões são elaboradas graças a raciocínios que não se prendem à evidências nem a lógica analítica, mas a presunções cujo exame depende de uma teoria da argumentação (Idem, p. 356-357). Esse modo de pensar a prática da pesquisa volta-se para a tentativa de superação da dicotomia e da cisão entre natureza/cultura, externo/interno, individual/coletivo, objeto/sujeito, ao mesmo tempo em que se reafirma na relação e na dinâmica dialética própria do debate entre conhecimentos conflitantes. Assim, a investigação propõe a opção metodológica que compreende: o caráter histórico-cultural do objeto de estudo e do próprio conhecimento como uma construção que se realiza entre sujeitos, [cuja] abordagem, consegue opor aos limites estreitos da objetividade uma visão humana da construção do conhecimento (FREITAS, 2003), p.26). Portanto a pesquisa trabalhará com análise dos dados recolhidos através de inquérito por questionários e consulta de dados documentais e bibliográficos e recorrerá, também, à análise de dados documentais como leis (LDB, PCN) e à consulta bibliográfica que possam ampliar o olhar do pesquisador sobre a realidade investigada. O inquérito por questionário se baseou naquilo que CAMPENHOUDT & QUIVY (2005) determinam os objetivos para o referido instrumento de pesquisa: O conhecimento de uma população enquanto tal: as suas condições e modos de vida, os seus comportamentos, os seus valores ou as suas opiniões. A análise de um fenômeno social que se julga poder apreender melhor a partir de informações relativas aos indivíduos da população em questão. Exemplos: o impacto de uma política familiar, ou a introdução da microinformática no ensino. De uma maneira geral, os casos em que é necessário interrogar um grande número de pessoas e em que se levanta um problema de representatividade. (p. 189) Esta pesquisa recorrerá à análise do discurso baseada nas teorias de Bakhtin (1992; 2003; 2005) sobre o dialogismo e de Perelman (1999; 2005) sobre a teoria da argumentação para proceder à investigação dos argumentos que embasam os discursos dos alunos da UNIABEU sobre o ENADE. Então, se a pretensão desta pesquisa é a de investigar que argumentos que embasam os discursos dos alunos da UNIABEU sobre o ENADE, não há como proceder, senão pela consideração das muitas vozes que se fazem presentes na referida instituição de ensino e formação de professores: as dos alunos com suas concepções e representações; as dos ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3533 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior discursos formais presentes na LDB e nos PCNs; as dos autores, cujas teorias foram lidas, discutidas, analisadas, eleitas; as dos muitos outros que direta ou indiretamente influenciam nossos pensamentos e nossas ações. Considerações Finais O debate e as problematizações decorrentes caracterizam o conhecimento como fundamentalmente inacabado, jamais absoluto, inquestionável. A adoção de práticas de avaliação sustentadas na defesa do conhecimento como objeto de discussões e de confrontos, maneira pela qual se acredita disponibilizar a dialética que funda a constituição do conhecimento, conforme aqui defendido, não estático nem absoluto. Ao contrário, dinâmico, flexível e provisório é a busca pela qual a pesquisa trabalhará. Referências: ALVES, C. N. O sentido dos argumentos para a formação de coordenadores pedagógicos: caminhos para a aproximação entre teoria e prática. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Faculdade de Educação, UFRJ, 2007. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BIKLEN, S. & BOGDAN, R. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto- Portugal:Porto Editora, 1994. PERELMAN, C. Retóricas. São Paulo: Martins Fontes, 1999. _____________. Ética e direito. São Paulo: Martins Fontes, 2005. QUIVY, R. e CAMPENHOUDT, L. V. Manual de investigação em ciências sociais. Lisboa: Gradiva, 2005. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3534 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior AVALIAÇÃO CURRICULAR: FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL Elivânia da Silva Moraes42 Meirecele Calíope Leitinho43 Resumo O presente artigo consiste numa síntese reflexiva de uma pesquisa exploratória realizada no ámbito da linha de avaliação curricular do Doutorado em Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), o qual tem como foco a investigação da fundamentação epistemológica e ideopolítica do currículo dos cursos de Serviço Social, procurando descrever e interpretar o que pensam os professores sobre tal fundamentação. Para tal fim, utilizaremos a pesquisa empírica de natureza qualitativa, desenvolvida pela metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo (Lefèvre e Lefèvre, 2005) a qual consiste em realizar uma análise do depoimento verbal dos professores investigados como sujeitos que expressam o pensamento de uma coletividade. Pela análise dos discursos dos docentes investigados, observamos que apesar do projeto de formação profissional do assistente social na atualidade dizer-se orientado pela matriz teórica marxista, a prática docente ainda está permeada de uma racionalidade instrumental e muitos professores optam por perspectivas diferenciadas à teoria crítica, o que nos remete a complexidade no campo epistemológico e instrumental da formação profissional dos assistentes sociais. Palavras-chaves: Currículo, Formação Profissional, Serviço Social. Abstract This article is a reflective summary of a exploratory research performed on the sphere of the curriculum evaluation line of the Doctorate in Education at the Federal University of Ceará (UFC), which focuses on the investigation of the epistemological and ideopolitical foundation of Social Services courses curriculum, seeking to describe and interpret what teachers think about such foundation. For this purpose, we use the empirical research of qualitative nature, developed by the methodology of Collective Subject Discourse (Lefèvre and Lefèvre, 2005) which consists in performing an analysis of the verbal testimony of teachers investigated as subjects that express the thought of a community. The analysis of the discourses of the teachers investigated demonstrated that despite the current project of the social worker professional training declares itself guided by a Marxist theoretical matrix, the teaching practice is still permeated by an instrumental rationality and many teachers choose different perspectives to the critical theory, which refers to the complexity in the epistemological and instrumental field of professional training of social workers. Key-Words: Curriculum, Professional Formation, Social Work. 42 Autora, Assistente Social, Mestre em Educação, Doutoranda em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará, da linha de Avaliação Curricular e bolsista da FUNCAP. Assessora da Célula Técnico Pedagógica da UECE. [email protected] 43 Co-autora, Pedagoga, Pós-Doutora em Educação pela Universidade de Brasília, Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (UFC) e consultora da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Estadual do Ceará (UECE). [email protected] ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3535 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1. Introdução A construção de uma tese exige inúmeros momentos de reflexão e investigação acerca da problemática a ser investigada, construindo momentos de aprofundamento teórico e incursões investigativas que exigem um contato direto com a realidade, que envolve instituições e sujeitos, dimensões objetivas e subjetivas em um constante olhar sobre a prática e as explicações aproximativas sobre esta. Pensando nesse processo de sucessivas aproximações com o objeto de investigação escolhido, nos propomos a realizar uma pesquisa exploratória que se configura como um recorte da tese de doutorado cujo objetivo consiste em desenvolver uma pesquisa avaliativa no currículo dos Cursos de Serviço Social centrado no pensar e do fazer pedagógico docente. O foco desse estudo centra-se na investigação da fundamentação epistemológica e ideo-política do currículo dos cursos de Serviço Social, procurando descrever e interpretar o que pensam os professores sobre tal fundamentação. Para tal fim, utilizaremos como metodologia a pesquisa empírica de natureza qualitativa, desenvolvida pela técnica de pesquisa do Discurso do Sujeito Coletivo (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2005). Tal técnica foi escolhida por possibilitar descrever e interpretar o que pensam os sujeitos sobre determinado tema e permite a realização de pesquisas de resgate de opiniões coletivas, entendendo o depoimento discursivo como: “manifestação lingüística de um posicionamento diante de um dado tema, composto por uma idéia central e seus respectivos conteúdos e argumentos.” (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2005, p. 13). Na análise dos discursos nos propomos a organizar um painel de depoimentos discursivos que revelem o que pensam os sujeitos envolvidos no desenvolvimento do currículo de Serviço Social, particularmente, os professores, visto que nosso foco de análise é o pensar e o fazer pedagógico desses sujeitos. A pesquisa exploratória objetivou, pois, uma aproximação com o campo de pesquisa, definido como duas unidades de análise: os cursos de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e da Faculdade Cearense (FAC) e uma aproximação e testagem da metodologia de investigação proposta. 2. Uma Breve Incursão nos Fundamentos Epistemológicos e Político-Ideológicos do Currículo de Serviço Social ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3536 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Partindo do pressuposto de que o conhecimento e o currículo são totalidades dinâmicas, transitórias e temporais, compreendemos que o currículo materializa determinada compreensão da realidade situada no tempo e no espaço, constituindo um sistema de signos os quais corporificam conhecimentos e assume modelos e referenciais que fundamentam a formação profissional proposta. Desta forma, compreender o currículo implica no entendimento científico e referencial de como o pensamento humano se desenvolveu e se desenvolve, destacando determinados paradigmas explicativos da realidade. Como bem afirma Pacheco (2005), a natureza intrínseca do currículo está ligada ao conhecimento e o currículo entendido numa perspectiva de totalidade encontra-se mediatizado pela relação entre sujeito e processo de construção do conhecimento. Estudar o currículo de Serviço Social também significa referenciar o desenvolvimento de seus fundamentos epistemológicos e ideo-políticos nas matrizes paradigmáticas do conhecimento científico sistematizado, haja vista que essa profissão, em sua natureza e materialidade, é influenciada por diversas áreas do conhecimento em seus diferentes enfoques e perspectivas teóricas, o que nos remete ao entendimento do estatuto científico da profissão. No Serviço Social, particularmente, percebemos a influência do pensamento filosófico e sociológico, sobretudo destacando a filosofia cristã - particularmente o tomismo e neotomismo- e os paradigmas emergentes do projeto de modernização da sociedade: o positivismo e funcionalismo, a fenomenologia e o marxismo, representado pela influência do pensamento de Althusser, Gramsci e Lukács. Esses paradigmas se fizeram presentes como fundamentos teórico-metodológicos do Serviço Social, desde seu surgimento até a atualidade. Desta feita o estudo do currículo de Serviço Social nos remete ao estudo dos fundamentos teórico-metodológicos e ético-políticos da profissão em tessitura com as matrizes paradigmáticas e explicativas da realidade social. As idéias e conteúdos doutrinários do pensamento social da Igreja Católica estão presentes no Serviço Social em seu processo de institucionalização e desenvolvimento até a década de 1960 no Brasil. Este paradigma se tornou uma das principais matrizes referenciais da profissão em sua constituição em toda América Latina, assumindo contornos particulares na Argentina e no Chile onde vai somar-se ao racionalismo higienista. Os influxos do pensamento cristão no Serviço Social brasileiro tem impacto na formulação de seus objetivos profissionais os quais se orientam por posicionamentos de cunho ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3537 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior humanista contrários aos ideários liberais e marxistas e se unem à luta de setores católicos pela busca da recuperação da hegemonia do pensamento social da Igreja. Como bem afirma Yasbek (2009, p.146): No que se refere a Doutrina Social da Igreja merecem destaque nesse contexto as encíclicas “Rerum Novarum” do Papa Leão XIII de 1891, que vai iniciar o magistério social da Igreja no contexto de busca de restauração de seu papel social na sociedade moderna e a “Quadragésimo Anno” de Pio XI de 1931 que, comemorando 40 anos da “Rerum Novarum” vai tratar da questão social apelando para a renovação moral da sociedade e a adesão à Ação Social da Igreja. No sentido da renovação moral da sociedade é que a formação profissional dos assistentes social organiza-se mediante a primazia da formação da personalidade e de valores morais defendidos pela filosofia cristã, balizados pelos postulados da perfectibilidade, dignidade e sociabilidade humana. A formação doutrinária era sistematizada por disciplinas que abordavam os fundamentos da filosofia tomista\neotomista e pelos círculos de estudo e orientação individual a fim de desenvolver o que era considerado como boas qualidades morais para os profissionais da área em estudo. Sob a influência do tecnicismo e do período desenvolvimentista, característicos dos anos de 1950 e 1960, há no Serviço Social não uma ruptura com suas bases doutrinárias, mas a incorporação a esta de uma concepção denominada científica, que subsidiava uma base técnica para o exercício profissional dos assistentes sociais. Com a influência cada vez mais intensa do Serviço Social norte-americano, o positivismo e o funcionalismo fundamentavam as propostas teórico-meodológicas desta profissão, enfatizando o uso racional da técnica como garantia de qualidade da ação profissional, fundamentada numa concepção de sociedade harmônica e a solidariedade orgânica pressuposta por Durkheim. Desta feita, neste período, a formação no campo mais sociológico vinculava-se a visão de mundo existente no positivismo e funcionalismo, enquanto que a formação filosófica assegurava a defesa de uma filosofia cristã. “Toda a linguagem do currículo vai ser condicionada por essas duas vertentes teórico-filosóficas, contraditórias por natureza e que o Serviço Social insiste em conciliar” (SÁ, 1995, p.88). Na busca de uma ruptura com a visão essencialmente humanista da profissão e com o tecnicismo, o Serviço Social ensaia uma aproximação com a fenomenologia. Tal aproximação concentra-se em alguns estudos e pesquisas individuais de autores que, a exemplo de Ana Augusta Almeida, criticam a ênfase na técnica realizada pela influência do positivismo e a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3538 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior ênfase nas dinâmicas macrosocietárias realizadas pelo marxismo. Como bem afirma Yasbek (2009, p.149): A vertente inspirada na fenomenologia, que emerge como metodologia dialógica, apropriando-se também da visão da pessoa e comunidade de E. Mounier (1936) dirige-se ao vivido humano, aos sujeitos em suas vivências, colocando para o Serviço social a tarefa de auxiliar na abertura do sujeito existente, singular, em relação aos outros, ao mundo de pessoas. Supostamente fundamentados na perspectiva fenomenológica, os profissionais sistematizam uma metodologia de ação profissional centrada no diálogo com os indivíduos em sua singularidade. A prática dessa metodologia aproxima-se, no entanto, muito mais com uma abordagem psicologizante do que fenomenológica e não ganha fôlego no Serviço Social a ponto de influenciar em sua organização curricular. Nos anos de 1980, com o desenvolvimento do Movimento de Reconceituação do Serviço Social e o questionamento sobre o significado social e político da profissão, o projeto de formação profissional do assistente social começa a ser sistematizado de forma coletiva e participativa, pelo protagonismo de professores, assistentes sociais e alunos do curso, orquestrado pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). Tal projeto assume por fundamento a teoria crítica marxista, apropriada inicialmente pelo viés estruturalista da teoria de Althusser. Com o amadurecimento teórico, ancorado no desenvolvimento da pesquisa e da pósgraduação, o Serviço Social sistematiza sua crítica à perspectiva althusseriana e busca sua fundamentação nas idéias de Gramsci e Lukács, dentre outros autores: Nesta tradição o Serviço Social vai apropriar‐se a partir dos anos 80 do pensamento de Antonio Gramsci e particularmente de suas abordagens acerca do Estado, da sociedade civil, do mundo dos valores, da ideologia, da hegemonia, da subjetividade e da cultura das classes subalternas. Vai chegar a Agnes Heller e à sua problematização do cotidiano, à Georg Lukács e à sua ontologia do ser social fundada no trabalho, à E.P. Thompson e à sua concepção acerca das "experiências humanas", à Eric Hobsbawm um dos mais importantes historiadores marxistas da contemporaneidade e a tantos outros cujos pensamentos começam a permear nossas produções teóricas, nossas reflexões e posicionamentos ideo-políticos (Yasbek, 2009, p.152) Tais referenciais teórico‐metodológicos e interventivos subsidiados na tradição marxista são reafirmados como fundamento do Serviço Social até a atualidade, tanto nos marcos legais que subsidiam a formação, representados pelas Diretrizes Curriculares da ABEPSS e Plano Nacional de Estágio, e o exercício profissionais (Lei de Regulamentação da ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3539 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Profissão e Código de Ética Profissional) quanto no que é denominado de Projeto Nacional de Formação Profissional e Projeto Ético-Político do Serviço Social. No entanto, fundamentando-nos nas publicações mais recentes do Serviço Social é comum os autores fazerem referência a um sincretismo teórico e ideológico do Serviço Social, representado pela conciliação mal feita entre diferentes paradigmas, muitas vezes de concepções colidentes. Considerando essa complexa teia de influências epistemológicas e teóricas que tem influxo na formação profissional e no desenho curricular dos cursos de Serviço Social é que nos propomos a realizar essa incursão investigativa, apoiando-nos na reflexão subsidiada pelas leituras dos fundamentos teórico-metodológicos do Serviço Social e pela pesquisa empírica das narrativas e discursos docentes. 3. Caracterização das Unidades de Análise e Sujeitos Investigados Para avaliar o currículo dos cursos de Serviço Social, escolhemos duas unidades de análise num universo de 17 (dezessete) cursos de Serviço Social existente no Ceará, dentre os quais 02 (dois) funcionam em instituições de ensino superior públicas em caráter presencial, 10(dez) funcionam em instituições privadas e 05 (cinco) funcionam na modalidade à distância, conforme o que expõe a tabela 1 em anexo. A escolha das unidades de análise foi realizada mediante a possibilidade de contrastar dois contextos acadêmicos diferenciados em funcionamento num mesmo município, Fortaleza, e coincidindo na modalidade de ensino: presencial. Considerando a localização dos cursos, a diferenciação dos contextos formativos e a referência em relação ao processo formativo de assistentes sociais, escolhemos o curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (UECE), um curso em funcionamento numa instituição pública, com 60 anos de existência e historicamente inserido na construção e discussões do projeto nacional de formação profissional do Serviço Social. O outro curso escolhido funciona numa instituição de ensino superior particular – Faculdade Cearense (FAC), criado em 2008, sendo o mais antigo dos cursos particulares de Serviço Social existentes em Fortaleza. As matrizes curriculares dos dois cursos se organizam com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais, a qual defende uma lógica de organização curricular que supere a disciplinaridade e a fragmentação dos processos ensino-aprendizagem, apontando a questão ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3540 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior social como eixo fundante da profissão e ponto articulador dos conteúdos da formação profissional. Os núcleos que compõe a denominada nova lógica da organização curricular são os seguintes: 1. Núcleo de Fundamentos Teórico-Metodológicos da Vida Social, que compreende os fundamentos para compreensão do ser social e da sociedade burguesa; 2. Núcleo de Fundamentos da Formação Sócio-Histórica da Sociedade Brasileira, que remete à compreensão da sociedade em suas diversidades regionais e locais dentro de uma perspectiva histórica; 3. Núcleo de Fundamentos do Trabalho Profissional, que compreende todos os fundamentos do Serviço Social como uma especialização do trabalho coletivo, em suas dimensões histórica, teórica, ética e Metodológica. O curso de Serviço Social da UECE define em seu projeto pedagógico como objetivo formativo: Produzir conhecimentos acerca da realidade social; formular, planejar, implementar e gerenciar políticas sociais públicas e privadas; assessorar e prestar consultoria as organizações públicas, privadas, ONGs, movimentos e grupos sociais populares em matéria relacionada às políticas sociais e à garantia dos direitos humanos, civis, políticos e sociais; trabalhar em parcerias interinstitucionais e em equipes multidisciplinares, tanto no setor público como privado, prestando serviços profissionais na captação, gestão, capacitação de Recursos Humanos. (UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ, 2007) No que diz respeito à oferta, o curso é diurno e noturno, com 160 vagas anuais distribuídas em duas entradas semestrais, perfazendo o total de oitenta vagas (40 diurnas e 40 noturnas). A integralização curricular do referido curso perfaz uma carga horária de 3.536 (três mil quinhentos e trinta e seis) horas, onde 476 horas são de estágio supervisionado e 136 horas de atividades complementares. O curso de Serviço social da FAC foi autorizado pelo decreto 1023, publicado e 08 de dezembro de 2008, passando a funcionar com a primeira turma em 2009. O curso também tem duração de oito semestres, com 3.040 horas de disciplinas, dispostas em quatro anos de curso e defende como perfil de formação do curso: Formar profissionais com concepção intelectual/científica e cultural generalista crítica; capaz de inserir-se no conjunto das relações sociais e do ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3541 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior mercado de trabalho; que atua nas diversas expressões das questões sociais, formulando e implementando propostas de intervenção para seu enfrentamento; comprometido com os valores e princípios norteadores do Código de Ética do Assistente Social; com capacidade de favorecer o exercício da cidadania e contribuir para o desenvolvimento da região Nordeste. (FACULDADES CEARENSES, 2011, p. 01) No que se refere aos sujeitos da pesquisa, escolhemos duas professoras: uma do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará (UECE), com mais experiência na docência e ampla participação nos fóruns de discussão coletiva do currículo de Serviço Social, e um da Faculdade Cearense (FAC), com pouco tempo de docência e iniciando sua participação nessas discussões. A escolha por esse número de sujeitos justifica-se pela opção “em deixar poucas pessoas, bem selecionadas, discursarem em profundidade sobre o tema pesquisado” (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2005, p. 17). A escolha dos sujeitos também quis contrastar perfis docentes com características distintas, tendo em vista perceber o que pensam esses dois sujeitos coletivos, que tiveram trajetórias formativas em tempo histórico diferentes e com uma inserção e contribuição na história da formação profissional do curso igualmente diferenciada. Observando conjuntamente o perfil das professoras do curso de Serviço Social da FAC, optamos por uma docente que além de ter menos tempo de docência na instituição, não havia passado pelos quadros docentes como professora substituta da UECE ou de outra IES nos cursos de Serviço Social. Vale mencionar que todas as outras professoras tinham tido ou estavam tendo a experiência docente na UECE, com exceção de uma que havia ensinado por dois anos numa faculdade privada do interior do Estado do Ceará. A fim de preservar o sigilo quanto à identificação das professoras, expomos dados de perfil de uma maneira mais genérica, particularizando dados que nos permitam situar seus processos formativos, suas inserções na docência e no trabalho profissional e ainda, a participação dos sujeitos nas discussões acerca da formação e do currículo.O perfil dos sujeitos coletivos pesquisados encontra-se definido na figura 1 (Anexo 2). 4. Descrição e Análise dos Depoimentos Discursivos Para a investigação dos discursos coletivos dos sujeitos sobre os fundamentos epistemológicos e político-ideológicos do currículo dos cursos de Serviço Social propomos sete momentos, dentre os quais três deles referiam-se mais diretamente a coleta de dados, quais ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3542 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior sejam: Definição do instrumental de investigação, seleção dos sujeitos da pesquisa exploratória e realização da entrevista. A realização da entrevista efetivou-se no local de trabalho das professoras e teve em média a duração de 40 minutos de depoimento livre, com poucas intervenções da pesquisadora. Os depoimentos foram gravados e posteriormente transcritos na íntegra a fim de compor um material sistematizado para a análise dos discursos. Para a compreensão dos dados dos depoimentos dos sujeitos coletivos, exercitaremos uma análise que contemple uma explicação sociológica, antropológica, ética, política e pedagógica, entendendo o depoimento discursivo como: “manifestação lingüística de um posicionamento diante de um dado tema, composto por uma idéia central e seus respectivos conteúdos e argumentos.” (Lefèvre e Lefèvre, 2005, p. 13) De acordo com o que propomos no projeto de pesquisa exploratória, na análise dos dados, buscamos implementar os seguintes momentos: seleção do material verbal de cada depoimento, sistematização do material verbal em idéias centrais, definição de ancoragens e sistematização dos discursos dos sujeitos coletivos propriamente ditos. Na etapa da seleção do material verbal de cada depoimento, procuramos trechos que evidenciem melhor o seu conteúdo, considerando o que Lefèvre e Lefèvre (2005) conceituam como sujeito coletivo. Tivemos o cuidado de não fazer a soma dos discursos e sim analisar que cada opinião ou pensamento discursado os quais se caracterizam como metadiscurso teórico\interpretativo do pesquisador. Considerando ainda que: O pensamento coletivo aparece, então, sob uma forma discursiva, mas que o esvazia como categoria empírica, uma vez que pela via metadiscursiva, ele não é mais um discurso da realidade e sim um conjunto de respostas ou extratos de respostas discursivas individuais justapostas que sob a forma de ilustrações, se articulam a um discurso teórico, gerado fora do espaço dos depoimentos, como um discurso sobre a realidade. (LEFÈVRE e LEFÈVRE, 2005, p. 15) Para a sistematização do material em Idéias Centrais, buscamos atentar para o significado e os sentidos presentes nos depoimentos de cada resposta e também no conjunto de respostas dos sujeitos investigados que apresentem sentido semelhante ou complementar. Essa etapa nos permitiu organizar os discursos pensando no momento seguinte. A definição de Ancoragens observou as possibilidades em “sintetizar as ideologias, os valores, as crenças, presentes no material verbal das respostas individuais ou agrupadas, sob a forma de afirmações genéricas, destinadas a enquadrar situações particulares” (LEFÈVRE ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3543 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior e LEFÈVRE, 2005, p. 22). Enfim, realizamos a sistematização dos discursos dos Sujeitos Coletivos propriamente ditos. O momento de descrição e análise do Discurso dos Sujeitos Coletivos (DSCs) exigiunos empreender a todo momento um raciocínio discursivo, onde a categorização correspondeu, nesta proposta de pesquisa, à definição de idéias centrais (ICs) e de ancoragens (ACs) revelando diversificadas opiniões e significados sobre o nosso foco investigativo, uma vez que são processados discursivamente e não sob a forma de categorias. Desta forma, optamos por apresentar os discursos não por referência às perguntas, tendo em vista que os sujeitos discorreram mais livremente sobre o tema: o que pensam sobre o currículo dos cursos de Serviço Social e englobaram as outras questões nesta que se tornou principal. Apresentamos então na tabela 2 (anexo 3), uma seleção de idéias centrais e sua relação com os discursos dos sujeitos, apresentando o conteúdo das respostas individuais, num exercício aproximativo e inspirado na metodologia proposta por Lefèvre e Lefèvre (2005). Refletindo sobre as idéias centrais acima expostas acerca do que pensam os sujeitos pesquisados acerca do currículo dos Cursos de Serviço social, percebemos que estes em seus discursos, evidenciam a hegemonia epistemológica do pensamento social crítico, tendo o marxismo como fundamento prioritário do projeto nacional de formação profissional do assistente social. Essa matriz de fundamento evidencia-se na visão de homem como ser político e na proposta de ruptura com o serviço social tradicional. A ruptura com o conservadorismo no Serviço social, evidenciada no discurso dos pesquisados, contrapunha-se a dois paradigmas: ao netotomismo e ao positivismo. O neotomismo trazia uma visão de homem com base cristã, fundamentado no paradigma neotomista, que a afirmava os princípios da sociabilidade, dignidade e perfectibilidade humana. Essa visão de homem trazia uma responsabilidade moral e individual acerca das condições sociais de pobreza e colocava para o assistente social a função tradicional de ajuda e caridade. O positivismo enfatizava o caráter técnico da profissão e a perspectiva de neutralidade. A metodologia de atuação do assistente social se realizava através do Serviço Social de Caso, Serviço Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade. Como bem evidencia o sujeito coletivo 1, o currículo proposto em 1982, defende a ruptura com esses dois paradigmas: neotomismo e positivismo e com a metodologia tripartide ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3544 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior (caso, grupo e comunidade), retira as disciplinas confessionais e insere as disciplinas de teoria e metodologia do Serviço Social, afirmando assim a relação teoria e prática e a perspectiva de formação generalista da profissão. Vale mencionar que o discurso do sujeito coletivo 2, acerca da superação do conservadorismo no serviço social, admite um avanço ao nível da formação e das discussões teóricas mas aponta Esta proposta curricular fundamenta-se claramente na teoria crítica, a qual considera que as disciplinas que tinham uma perspectiva de homem dentro de uma visão psicologista, individualistas ou de cunho moralizante perderam espaço a ponto de quase não existir disciplinas de psicologia no currículo atual. Os depoimentos afirmam ainda que as disciplinas de filosofia foram reduzidas à filosofia política e contribuem, por sua vez, para acentuar o matiz político da profissão. Tal redesenho da proposta curricular que vigora no Serviço Social, que traz um reconhecimento do homem prioritariamente como ser político, o que na opinião das depoentes, nega ou minimiza as dimensões, psicológicas, emocionais, espirituais, dentre outras presentes no ser humano. Tal opção é preocupante, pois sendo o Serviço Social uma profissão que lida diretamente com as necessidades humanas, a redução do homem a determinada dimensão impediria de estabelecer uma visão multidimensional do mesmo, o que muitas vezes traz prejuízos à prática interventiva da profissão. Outra reflexão trazida pelos sujeitos da pesquisa foi acerca da instrumentalidade do Serviço Social. As duas depoentes argumentam, fundamentadas em autores de referência do Serviço social, que a natureza do serviço social é interventiva e que essa dimensão tem sido negada ou pouco enfocada na formação profissional atual do assistente social. As mesmas destacam que as disciplinas que deveriam por excelência formar o aluno para uma intervenção técnica qualificada, enriquecida com a dimensão da pesquisa e da visão crítica da realidade, pouco enfocam o caráter interventivo e novamente enfatizam uma análise crítica e política mas ampla, sem tecer uma análise das especificidades da realidade social e profissional. Desta feita, as depoentes apontam que a nossa formação profissional na atualidade possui algumas fragilidades. Para o sujeito coletivo 1, essas fragilidades ancoram-se na visão fechada dentro de um paradigma dito crítico como visão única, ressalta a dimensão política do homem e das questões sociais sem ter uma visão de totalidade e pouco instrumentaliza para a intervenção profissional. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3545 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Para o sujeito coletivo 2, as fragilidades da formação profissional são semelhantes a opinião do primeiro sujeito, ressaltando que a visão de mundo proposta pelo marxismo não dá conta das demandas profissionais atuais e forma muito mais analistas políticos que profissionais qualificados para perceber as contradições e especificidades de seu trabalho profissional. Os discursos dos sujeitos ressaltam que a adoção da teoria crítica trouxe contribuições relevantes para a formação e a atuação profissional, tendo em vista um entendimento mais claro acerca do objeto da profissão: a questão social, a compreensão da sociedade percebendo as contradições de classe e não mais culpabilizando os sujeitos, a criticidade e o compromisso de determinados profissionais, o avanço das políticas públicas e da inserção desses profissionais nestas políticas, a inserção do serviço social no campo da pesquisa, dentre outros. Ao mesmo tempo que os sujeitos se identificam com a teoria crítica e revelam sua inserção individual em espaços de defesa dessa visão, eles reconhecem as limitações de uma teoria única explicar a realidade e o homem de hoje em sua totalidade. Em seu discurso, o sujeito coletivo 1, apresenta uma visão mais ampla de como se deu essa inserção e o aprofundamento da teoria crítica no Serviço Social, situando a década de 80 como um marco dessa apropriação, onde haviam posições diferenciadas reconhecidas como o Grupo de São Paulo que adotava uma leitura direto da literatura marxiana, onde se destacavam os nomes de Marilda Iamamoto, José Paulo Neto e Nobuco Kameyama e o Grupo do Maranhão, composto por Marina Maciel, Franci Gomes, dentre outros autores que se apropriaram do pensamento gramsciano. Comenta que na década de 1980 esse debate era mais maduro e que nos anos 1990, com a apropriação do pensamento marxista europeu proposto por Lukács, Hobsbawn e Meszáros, essa perspectiva se radicalizou, trazendo sem mediações as concepções defendidas por tais autores para o Serviço Social. Assim, escolhendo esses dois campos de análise ou ancoragens: presença hegemônica no discurso dos docentes do referencial epistemológico e político ideológico do Marxismo (Teoria Crítica) no currículo do Curso de Serviço Social e a fragilidade da formação profissional em relação à capacitação para o trabalho do Assistente Social em sua instrumentalidade e especificidade. Constatamos que o projeto nacional de formação profissional, defendidos pelas diretrizes curriculares da ABEPSS, se materializa, com poucas diferenças, nas duas realidades ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3546 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior pesquisadas – curso público e privado - e que suas limitações ou fragilidades são percebidas por professores de pouca ou longa experiência no curso. Percebemos ainda que a fala dos sujeitos pesquisados demonstra a produção de sujeitos coletivos, que se constroem pelas vivências possibilitadas pela realidade acadêmica e profissional e pela convivência nos espaços de discussão da formação profissional a saber: reuniões do colegiado de curso, a reuniões mais amplas entre as instituições de ensino que abrigam cursos de serviço social, sejam em caráter local ou nacional, fóruns e encontros promovidos pelas instâncias representativas da categoria profissional. 5. Considerações Finais Nesse estudo exploratório, buscamos investigar o que pensam os sujeitos acerca do currículo dos cursos de Serviço Social, buscando especificamente perceber suas opiniões sobre os fundamentos epistemológicos e político-ideológicos presentes no Projeto de Formação Profissional dos assistentes sociais defendidos nacionalmente pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS) e como essas concepções são percebidas nos projetos pedagógicos de cada curso. Percebemos nesta investigação exploratória, que o campo da fundamentação teórica da formação profissional do assistente social como subsídio para a organização curricular do curso é uma importante chave no percurso investigativo iniciado para compreendermos a configuração atual do currículo e seus determinantes históricos. Possibilita ainda concluirmos que qualquer sistemática de avaliação curricular a ser proposta para o curso em questão, deve analisar com acuidade os fundamentos que balizam o currículo e a prática docente. Referências FACULDADES CEARENSES. Perfil do profissional: Serviço Social. Fortaleza, 2011. Disponível em <http://www.faculdadescearenses.edu.br/graduacao/curso_perfil>. Acesso em 21 de setembro de 2011. LEFÈVRE, F.; LEFÈVRE, A. M. Depoimentos e Discursos: Uma proposta de análise em pesquisa social. Brasília: Líber, 2005. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3547 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior PACHECO, J. A. Escritos Curriculares. SP: Cortez, 2006. YASBEK, Maria Carmelita. Os Fundamentos Históricos e Teórico-metodológicos do Serviço Social Brasileiro na Contemporaneidade in Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. SP: Editora Cortez. 2010. SÁ, Jeanete L. Martins. Conhecimento e Currículo em Serviço Social: análise das contradições(1936-1975). SP: Editora Cortez, 1995. UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ. Projeto Pedagógico do curso de Serviço Social. 2007. Documento. ANEXO 1 MODALIDADE Presenciais Públicas TABELA 1- CURSOS DE SERVIÇO SOCIAL NO CEARÁ INSTITUIÇÃO Universidade Estadual do Ceará (UECE) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE) Presenciais Privadas Faculdade Cearense (FAC) Faculdade de Ciências Aplicadas Doutor Leão Sampaio (FLS) Faculdade de Fortaleza (FAFOR) Faculdade do Vale do Jaguaribe (FVJ) Faculdade Metropolitana da Grande Fortaleza (FAMETRO) Faculdade Princesa do Oeste (FPO) Faculdade Terra Nordeste (FATENE) Faculdade Vale do Salgado (FVS) Instituto Superior de Teologia Aplicada(INTA) Faculdade Teológica e Filosófica (RATIO) Cursos à Distância Universidade Anhanguera (UNIDERP) Universidade Estácio de Sá (UNESA) Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3548 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) Universidade Paulista (UNIP) Fonte: Boletim Flor do Urucum, Vol. 01, Ed 01, 14/06/2011. Fortaleza-CE. ANEXO 2 Figura 1- PERFIL DOS SUJEITOS PESQUISADOS Sujeito Coletivo 1 Sujeito Coletivo 2 • Professora mestra em Serviço Social, graduou-se em 1969, atua na IES pública com tempo de docência superior a 20 anos, é aposentada por trabalhar como assistente social em empresa privada, participa desde 1982 até 2009 das discussões sobre a formação profissional e currículo em Serviço Social. Foi da diretoria da ABEPSS, de 1987 a 1995. Participou em 1994 de uma pesquisa nacional: Formação Profissional do Assistente Social Brasileiro Pós novo curriculum: avanços e desafios. • Professora mestra em Políticas Sociais e Sociedade, graduouse em 2000. Foi bolsista do Programa Especial de Treinamento – PET, atua em IES privada, com tempo de docência de 01 ano, atuou como assistente social na área de família e assistência social na Prefeitura de Fortaleza, onde atualmente faz assessoria técnica na Secretaria Municipal de Assistência Social e exerce também a atividade de assessora parlamentar., na área de gênero e pobreza. ANEXO 3 TABELA 2- QUADRO ANALÍTICO-SINTÉTICO DOS DSCs IDÉIAS CENTRAIS DISCURSOS Fragilidade da Formação SC 1- “Refletindo sobre o currículo de 82, 93 e o atual, a gente vai perdendo Profissional aquelas disciplinas que preparavam as pessoas a trabalhar com pessoas. A profissão numa perspectiva maior está perdendo o nível de formação, a capacitação dos nossos profissionais, ela não está mais formando. A situação da formação profissional é muito preocupante.” SC 2- “Eu sinto falta, dessa atualização da realidade brasileira a partir dos anos 2000 até os dias atuais. Eu acho também, em relação ao nosso projeto ético político, da nossa profissão que a gente precisa de uma materialização desse ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3549 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior projeto, então a gente busca várias formas a partir dos princípios que estão no código de ética e tudo, mas ainda fica, ainda há uma coisa muito abrangente, pouco palpável.” Pouca Ênfase na Dimensão SC 1- “A dimensão interventiva está pobre demais. A partir de uma reflexão Interventiva sobre a prática, devíamos ensinar mesmo a fazer uma entrevista, um relatório, da profissão todas aquelas formas que a gente trabalha de intervenção” SC 2- “Só que a nossa profissão tem um caráter específico, porque ela é interventiva, então assim não dá pra você ficar meramente nessas questões maiores, sem fazer um link” Despreparo para o trabalho SC 1- “Eu acho que esse currículo atual ele não é de se jogar fora não, ele tem profissional muita coisa importante, tem essa ênfase na visão crítica, mas eu acho que falta alguma coisa tendo em vista o que é a nossa profissão mesmo: quem a gente trabalha, quem é o nosso usuário, qual é a proposta que a gente tem de profissão, qual o nosso papel, a nossa função social de profissão, qual a missão dessa profissão nessa sociedade atual. SC 2-“Talvez a gente saia como excelentes analistas conjunturais, mas para o meu exercício profissional mesmo e as contradições do local de trabalho, as relações de poder que são muito fortes, todas essas questões eu fui aprofundando mesmo no cotidiano profissional” Superação do Viés Conservador SC 1- “No currículo de 82, porque foi a que marcou mais, que foi o período da da Profissão virada, que foi quando a gente tirou as disciplinas confessionais de moral, aquelas coisas que a gente tinha que era muito pesada. A questão da superação de uma série de limites, da neutralidade, onde a gente passou por uma filosofia mais crítica, na visão de mundo e na visão de homem, mais próximo da realidade.” SC 2- “Porque eu acho que a nossa profissão ainda é muito carregada de senso comum. Então assim, as próprias análises sejam de alguns profissionais seja de algum aluno, fica muito naquela coisa do sabe. Eu acho que essa questão da caridade ainda é forte, por mais que a gente tente romper” Hegemonia da Teoria SC 1- “Eu vejo que a gente teve mais acesso as ciências que nos davam Crítica possibilidade de entender mais a dimensão política, as relações políticas. O marxismo ficou muito mais presente, Gramsci, Chasin, foi àqueles outros teóricos, mas dentro dessa mesma linha” “No início dos anos 90, aí ampliou, entrou outros pensadores marxistas, entrou Lukács, José Paulo teve um papel importante em colocar isso, aquele que estuda Mészáros, e tem outro, Hobsbawn, teve muitos outros, esse pessoal europeu, do pensamento europeu ele entrou no SS, eles começaram a estudar isso. Aí foi que fortaleceu essa dimensão política da profissão , de entender... e tem aquela discussão que é célebre, de entender a prática ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3550 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior política e a prática profissional, tem todo o embasamento marxista de entender a sociedade, a prática social”. SC 2- “O projeto de formação profissional não pode estar desvinculado do projeto societário, só que assim, a gente tem a hegemonia do marxismo e eu concordo com isso, é uma matriz teórica que eu acho importante, que eu me identifico com ela” Contribuições da Teoria Crítica SC 1- “Deu pra gente entender mais a questão da pobreza, a questão do Estado. Mas ao mesmo tempo a gente viu mais o homem na dimensão política, como sujeito político. Hoje a gente tem clareza que a sociedade de classe, a essência do capitalismo, a permanência dessa divisão com essa situação diferenciada de classe vai permanecer”. SC 2- “Eu acho que nesse novo currículo melhorou, porque assim, na minha época eu não sei nem se para os professores era muito claro a questão do objeto profissional ser a questão social, eu acho que não era muito. É positivo o nível de criticidade, o compromisso, eu acho que a duras penas mesmo eu acho que com tudo que tá aí.” Limitações da Teoria Crítica SC 1- “Nós estamos frágeis na instrumentalidade. Mas essa fragilidade na instrumentalidade ela se centra também porque a gente priorizou uma linha de pensamento, uma escola de pensamento, tá certo”. “Então a gente tem pouca filosofia, que é quem ensina a pensar, quem faz isso aí. Nós temos no currículo a filosofia política, ela é importante, mas quando ela é sozinha, ela dá um viés de militância e de “politicagem” na prática profissional do Serviço Social. Anteriormente nos faltava essa dimensão política, você tinha só a humanista, mas nós não fomos capazes de equilibrar essa coisa. Se você vê hoje, sociologia do trabalho, serviço social e processo de trabalho, serviço social crítico, quer dizer, inventamos uma tamanha coisa para introduzir uma ideologia única”. SC 2- “Porque a gente não consegue ver como essa discussão mais ampla do capital e do trabalho, como é que isso vai rebater nessas várias expressões da questão social. Porque ela pincela, mas ela não vai focando.” “Talvez isso atrapalhe, esse policiamento, dessa visão, eu acho que isso seja complicado, porque só o marxismo ele não vai dar conta, sabe. Eu acho, por exemplo, trabalhos etnográficos riquíssimos, têm trabalhos etnográficos muito bons, por exemplo, eu trabalhei numa comunidade, então não dá pra ter só uma visão só macro” ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3551 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A CONSTITUIÇÃO TRIPOLAR DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES: A AUTOFORMAÇÃO COMO ELEMENTO ARTICULADOR DA HETERO-ECOFORMAÇÃO Elzanir dos Santos/UFCG Ex-bolsista Capes RESUMO Este trabalho apresenta resultados da minha pesquisa de doutorado intitulada “Professoresestudantes e suas trajetórias: a construção de si como sujeitos da formação”, a qual intencionou analisar como professores-estudantes se constroem sujeitos da sua formação. A pesquisa tomou a abordagem (auto) biográfica como opção metodológica. O procedimento de coleta das informações foi o ateliê (auto) biográfico (JOSSO,2004;2006), aliado a entrevistas de explicitação. Os sujeitos da pesquisa foram três professoras estudantes de um curso de mestrado em educação. Tendo em vista o alcance dos objetivos propostos, uma das categorias teóricas definidas foi a autoformação (PINEAU, 1988), entendida como o poder que cada um tem de tomar nas mãos as rédeas de sua própria formação. As análises das trajetórias permitiram evidenciar que a autoformação está presente ao longo dos percursos das professoras-estudantes, seja em situações educativas formais e informais, seja em contextos em que predomina a dimensão da heteroformação. Além disso, constatou-se que a autoformação vai se consolidando na medida em que a idade adulta se aproxima. Portanto, as agências formadoras docentes devem proporcionar situações que potencializem a dimensão autoformadora nos professores. PALAVRAS-CHAVE: Autoformação, formação, docentes, pesquisa (auto) biográfica ABSTRACT This paper presents the results of my doctoral research entitled "Teachers, students and their careers: the construction of themselves as subjects of training", which purposed to analyze how teachers, students construct their subjects of training. The research took the approach (auto) biography as a methodological option. The procedure for collection of information was the studio (auto) biographical (Joss, 2004, 2006), combined with interviews of explicitness. The research subjects were students of three teachers a Master's degree in education. Given the scope of the proposed objectives, a set of theoretical categories was the self-formation (PINEAU, 1988), understood as the power each one has to take the reins in the hands of their own training. The analysis of the trajectories have highlighted that the self-formation is present along the pathways of students, teachers, whether in formal and informal educational situations, in contexts where it dominates the size of heteroformation. Moreover, it was found that the self-formation is consolidated as it approaches adulthood. Therefore, agencies should provide teachers forming situations that enhance self-wrought dimension in teachers. KEYWORDS: self-education, training, teaching, research (auto) biographical ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3552 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1 Introdução Este trabalho apresenta resultados da minha pesquisa de doutorado intitulada “Professores-estudantes e suas trajetórias: a construção de si como sujeitos da formação”, a qual intencionou analisar como professores-estudantes se constroem sujeitos da sua formação. A pesquisa tomou a abordagem (auto) biográfica como opção metodológica, assumindo ao mesmo tempo sua dimensão formadora. O procedimento de coleta das informações foi o ateliê (auto) biográfico (JOSSO, 2004; 2006), no qual foram conjugadas atividades de estudo, escrita individual e socialização das narrativas. As entrevistas de explicitação foram utilizadas para complementar as informações. Os sujeitos da pesquisa foram três professoras estudantes de um curso de mestrado em Educação. Tendo em vista o alcance dos objetivos propostos, uma das categorias teóricas definidas foi a autoformação (PINEAU, 1988), entendida como o poder que cada um tem de tomar nas mãos as rédeas de sua própria formação. A “teoria tripolar da formação” (idem) - ancorado na noção dos “três mestres da educação de Rousseau - que articula os conceitos de autoformação, heteroformação e ecoformação. A autoformação é definida, “como a apropriação por cada um do seu próprio poder de formação”, aplicando-o a si mesmo (Idem, p.65-67). Assim os formadores, e adultos em geral, tomam nas mãos a responsabilidade, a autoria na condução de sua formação. A autoformação é um dos pólos da formação e institui a distinção deste paradigma de formação, relativamente ao paradigma considerado mais tradicional, baseado predominantemente na heteroformação, em que o formando é sempre objeto e não sujeito da formação. Vale lembrar que autoformação não é um processo isolado, algo individualista, mas ela se realiza na articulação com os demais pólos hetero (educação escolar, familiar, social, etc.) e eco (influências climáticas e do meio físico em geral, incluindo a dimensão simbólicocultural, a qual é influenciada por aquele). O diferencial deste modo de conceber a formação é que nele o sujeito está presente, está consciente, está implicado, pois ele é responsável pelo processo. Tendo em vista os objetivos delineados para a investigação em curso tomo ainda como aporte a noção de autoformação - que diferentemente da noção de Pineau, que a circunscreve a um processo consciente - compreendida como uma dimensão que está presente, de forma explícita e/ou implícita, nas aprendizagens que ocorrem em todas as ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3553 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior idades; isto é, de crianças, adultos etc. Assim, compreende-se que “aprendemos a partir de atividades de autoformação (nós), com atividades de heteroformação (os outros) e atividades de ecoformação (o contexto)”. (CANÁRIO, 2006, p.28). É possível afirmar que nos autoformamos desde a infância, desde as primeiras aprendizagens, uma vez que estes processos só ocorrem se forem dotados de implicação, de uma intencionalidade explícita, ou não, por parte daquele que se forma. A seguir serão apresentadas as análises das narrativas, nas quais as autoras são nomeadas, de forma fictícia, respectivamente, como Helena, Pandora e Dandara. 2 Os Processos de Autoformação nas trajetórias de Helena, Pandora e Dandara 2.1 Helena A trajetória de Helena é rica em situações que envolvem as três dimensões que influenciam a formação: o eu, os outros e o ambiente físico, isto é, a autoformação, a heteroformação e a ecoformação. Porém, mesmo que essas dimensões estejam entrelaçadas, elas podem, nas várias situações educativas experimentadas ao longo da vida, cada uma, exercer certa predominância sobre as demais. Assim, nota-se que, no campo da educação escolar, de um modo geral, há uma prevalência de situações em que a “heteroformação impositiva”44 sobrepõe-se ás demais, uma vez que em tal contexto a educação se desenvolve pautada em hierarquias, normas, relações desiguais de poder. As duas outras dimensões, entretanto, não deixam de atuar, especialmente a autoformação. Têm-se, portanto, várias outras situações ao longo da vida de Helena. Assim, embora quase tudo seja determinado pelos professores e especialistas educacionais, a autora relata vários contextos em que ela está engajada, atuando e criando e ressignificando as práticas escolares, ainda que sob a orientação de outros. As peças teatrais, as “feiras de ciências”, as datas comemorativas” e as próprias disciplinas, as quais se tornam suas preferidas, são exemplos em que autoformação atua. Portanto, os conhecimentos adquiridos os são graças ao papel do sujeito que atribui sentidos ao que é aprendido, sendo possível afirmar que em todo processo de aquisição de conhecimentos há sempre a dimensão da autoformação, pois sem ela, sem o engajamento do formando não há aprendizagem (CANÁRIO, 2006). 44 Esta expressão é uma elaboração própria, mas à luz das elaborações de Canário (2006) e objetiva distinguí-la das situações educativas heteroformativas baseadas nas relações de interação, diálogos e trocas, as quais mais se aproximam de contextos de coformação. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3554 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A relação que estabeleceu com a leitura na infância, quando se descobriu leitora e começou a ler tudo o que lhe apareceu pela frente, é um exemplo desta articulação entre as dimensões do eu e do outro na formação. O irmão foi o grande educador, mas ela atuava, se engajava no processo. Portanto, a heteroformação se configura sob a forma da coformação, mas a autoformação se impõe, na medida em que Helena atua, fez um trabalho sobre si, neste processo formativo. Ela recriou os espaços e os tempos de formação além daqueles estabelecidos formalmente, criando um espaço-tempo próprio, um “espaço-tempo pessoal” de formação45. A relação que a autora estabelece com estes [...] revela o modo como ela neles se vai inscrevendo e de como vai abandonando o papel de mero objeto passivo e reprodutor das normas estabelecidas em favor do assumir de um estatuto de sujeito capaz de se apropriar desses espaços e de os gerir a partir de si própria. De espaços de heteroformação eles podem tornar-se e ser vivenciados como lugar de ecoformação e co-formação, assim, de autoformação. (COUCEIRO, 2002, p.111). Além dessas outras situações de autoformação de intencionalidades mais explícitas foram se configurando ao longo da juventude e vida adulta de Helena. Isto, na medida em que nestes períodos da sua vida, ela começa a se assumir como sujeito de vontade, de resistência; começou a explicitar seus sonhos e passou a tomar decisões, realizando escolhas e buscando orientar seu percurso formativo. A igreja e a família têm um papel destacado na sua formação, predominantemente através de experiências agradáveis. A igreja como instituição formadora não é mencionada pela sua doutrina, mas pelas oportunidades que proporciona em termos de atividades: a iniciação musical, a inserção no “clube dos desbravadores” etc. A família estava sempre presente, especialmente nas figuras do pai, da mãe e de dois irmãos. Os pais influenciaram sua formação, particularmente pelos incentivos para que ela buscasse “ser mais” pela via dos estudos escolares. O pai era a grande referência que a incentivava e confiava na sua capacidade. Seu depoimento é ilustrativo: Ele sempre foi uma força para mim, um referencial de vida, de integridade, de honra. Ele costumava dizer que acreditava muito em mim, que eu poderia ser o que eu quisesse, pois eu era muito inteligente, nada me deteria. 45 Coceiro (1992, p104) denomina esta recriação de “espaço-tempo pessoal”, traduzindo esta apropriação do tempo, pelo sujeito da formação, tendo em vista adequá-lo às suas necessidades. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3555 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Assim, o pai exerceu intensa influência na produção de si e, portanto, nas suas decisões posteriores, determinando, inclusive a sua primeira escolha profissional. Isto porque nas “construções projetivas, o pensamento e o olhar dos outros desempenham um papel de espelho: vejo-me no olhar do outro e adapto minha imagem ao olhar que empresto ao outro sobre mim mesmo”. (DELORY, 2008, p.65). O irmão, grande incentivador da leitura, proporcionou a Helena o desenvolvimento do gosto pela leitura. Conforme relato seguinte: “ele me motivou pra leitura depois (toda a trajetória de vida), o que foi me dando base para uma leitura mais consistente”. Sua relação com ele permitiu a inscrição de um processo de coformação, pois ele se torna um mediador da sua formação, possibilitando as condições para o seu desenvolvimento intelectual. O marido foi outra presença marcante em sua formação, estimulando-a a voltar-se para os estudos de Música, que culminam com seu projeto de Mestrado orientado para esta área. Alguns professores são igualmente destacados, tanto como incentivadores dos seus aprendizados, quanto como modelos de prática docente, seja pela relação positiva com o conhecimento ministrado, seja pela dedicação e/ou pela afetividade direcionada a si como aluna. Os laços de amizade também merecem registro: os da escola de Ensino Médio e alguns conquistados na Igreja, os quais, segundo ela, permanecem fortes até hoje. Assim, o papel dos outros na sua formação é destacado várias vezes, configurando processos coformativos, uma vez que os outros (no caso dos pais, irmão e professores), em muitas situações, exercem a condição de modelos de conduta, de exemplos positivos, constituindo assim a “adaptação social deliberada” (LESNE, 1977, p.30). Portanto, em todas essas situações a relação entre eu e o outro estão presentes compondo os processos formadores de Helena. A ecoformação é também demarcada nos deslocamentos pelos quais passa, sejam eles resultantes de decisões suas ou de outros. O bairro da infância, em Fortaleza, a experiência no Colégio Adventista em Pernambuco. Ela mesma afirma: O lugar era belíssimo, ao pé da montanha, a qual depois de algum tempo, costumávamos subir para orar (...) todo tempo que lá passei foram de experiências indescritíveis e, provavelmente, me deram essa atmosfera de paz interior. Depois, na cidade de João Pessoa, é envolvida pela “atmosfera” cultural, nomeadamente pela música, a qual segundo Helena é responsável pelo seu gosto pela música erudita. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3556 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A partir do exposto, constata-se que não é possível separar, delimitar cada um dos três polos da formação: autoformação, heteroformação, ecoformação, mas é perceptível que a aprendente está sempre atuando, construindo sentidos, estratégias, intencionalidades em seus processos formativos, sejam eles desenvolvidos sob a forma da educação formal ou não. Assim, mesmo que a formação de Helena se realize predominantemente em espaços formais e que a presença das instituições como a família e a escola tenham uma forte influência no seu percurso, ela forja espaços para produzir a si mesma, tomando decisões, realizando escolhas ou se engajando e criando sentidos próprios para as decisões e escolhas de outrem. 2.2 Pandora A análise do relato de Pandora permite ressaltar que os processos de autoformação enunciados em sua trajetória, assim como no percurso de Helena, vão se modificando ao longo da sua trajetória. A mudança se dá em termos de situações em que eles se configuram como engajamento nas aprendizagens e como intencionalidades pouco explícitas, particularmente na infância e adolescência. As formas mais conscientes, em que ela toma decisões, escolhe, se permite viver experiências que encarnam expectativas de aquisição de conhecimentos, transformações de valores, concepções e comportamentos - como, por exemplo, a timidez vão se tornando mais presentes na vida adulta. Na sua infância já se esboçam alguns indícios de uma atitude propícia à autoformação. Um deles aparece quando relata alguns confrontos com um irmão mais velho, o qual dispunha de uma legitimidade, principalmente por parte da mãe, para exercer “poder” sobre a irmã menor. Outra situação que corrobora tal atitude diz respeito ao fato de que, ante a sua conduta de quietude, de timidez e de dificuldade de socialização Pandora transforma o sentido dessas condutas, positivando aquilo que, à princípio, pode ser visto como negativo. Seu depoimento confirma isto: “o lado bom da minha quietude é o fato de eu ter me aproveitado disso para gastar todas as minhas energias nos estudos”. Ao fazer esta readaptação de sentido ela produz espaços e tempos próprios. Outras expressões de autoformação na forma de engajamento nas aprendizagens (CANÁRIO, 2005) estão nas situações em que ela relata se embrenha nas leituras escolares, além dos espaços acadêmicos, assim como ao sentir prazer nos desafiadores exercícios de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3557 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Matemática. Ela evidencia, assim, um processo de apropriação da sua formação, recriando espaços e tempos próprios, à semelhança de Helena. A morte do pai constituiu o marco de um processo engendrado de autoformação, no sentido de uma tomada de consciência daquilo que não queria mais para sua vida e da coragem para dar uma forma diferente a si. Nesta situação, Pandora reconhece que necessita assumir as rédeas de sua vida e tomar decisões por si e não mais simplesmente acatar as decisões dos outros sobre sua vida. Nessa perspectiva, a autoformação se opera graças a [...] uma elaboração duma consciência das situações novas resultante do questionamento de estereótipos ultrapassados, de idéias feitas herdadas do passado, de preconceitos fixistas, da repetição de atos desadequados”. (DUMADEZIER APUD COUCEIRO, 2002, p. 33). A autonomização e a fuga à opressão são ilustradas, também, quando decidiu sair do seu primeiro emprego como professora. Ela, aos poucos foi deixando pra trás a “Pandora boazinha” e “conformada” e foi se transformando na mulher que começa, através da observação de si, a compreender àquilo que a incomoda, que não lhe satisfaz e começa a vislumbrar que pode querer mais da vida. Seu olhar crítico, manifestação da transformação de um indivíduo em sujeito, também se anuncia, quando relata acerca do seu ingresso na Universidade. A “desilusão” e o estranhamento traduzem uma clareza de que o que estava vivendo não correspondia às suas expectativas em relação às aulas universitárias. Ela registra: A primeira semana já nos causou certa desilusão. [...]. Aconteciam situações extremas de professores que faltavam constantemente. E outros falavam a aula inteira sozinhos, depois mandavam a gente ler tais e tais textos para apresentarmos em seminários [...]. Neste período da sua vida, instaurou-se mais uma vez uma situação em que desloca sentidos. Os seminários, solicitados pelos professores, lhes causavam muito medo e apreensão, sentimentos que a conduziam a investir muito nos estudos, o que, por sua vez, aos poucos foi lhe proporcionando a aquisição de mais autoconfiança. Seu depoimento é ilustrativo: Aí, de repente, eu comecei a ser a melhor, não da turma, daquele grupo. E, no fundo, eu sabia que eu tinha um certo conhecimento, que eu fui adquirindo por essa disciplina pra estudar. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3558 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Explicita-se, com efeito, o processo de formação do sujeito da formação, mediante “o desenvolvimento de um saber sobre as suas qualidades e competências”. (JOSSO, 1988, p.49). Outro contexto em que ela manifesta sua capacidade de crítica e de revolta se dá após o empreendimento, sem sucesso, de muito esforço tendo em vista ser diretora de escola. Percebendo-se injustiçada, ela se sente convocada a reagir e não aceitar passivamente a situação que a impede de realizar seu intento. Seu relato é ilustrativo: “revoltada, fui conversar com a Diretora do CREDE e argumentei com ela que esse processo não era justo” (nar.). Portanto, a autoformação diz respeito também ao questionamento de situações negativas que lhe querem impor (COUCEIRO, 1992). A heteroformação, traduzida pela influência dos outros e das instituições integradas à formação de si, é, igualmente, destacado por Pandora. O papel da família na formação é assim ilustrado: Meu pai e minha mãe ajudavam do jeito deles. Minha mãe, algumas vezes, me dispensava das tarefas domésticas para eu estudar e meu pai sempre lembrava que o estudo era o maior tesouro que eu poderia obter. Neste sentido, percebe-se que apesar dos seus pais terem escolarização precária, eles valorizam a escola e conseguem transmitir isto para a filha, contribuindo para que ela possa desenhar uma trajetória diferente daquelas que lhes foi possível escrever para si. Seu pai a incentivava, igualmente, na aquisição da leitura. O relato a seguir confirma: Eu sentia que o meu pai ficava feliz com aquela cena, eu sentada num canto da parede da casa, lendo em voz alta. Algumas vezes, ele pedia para que eu lesse para ele ouvir. Dessa forma, importa destacar que pode não haver relação direta entre origem familiar e sucesso escolar dos filhos, pois algumas configurações familiares demonstram [...] a importância social, simbólica, no próprio seio da estrutura de coexistência, daqueles que sabem ler e escrever (da “criança letrada”), ou a integração simbólica do “escolar”. Quando se está desprovido de qualquer meio de ajuda direta, esses procedimentos de legitimação desempenham um papel central na possibilidade de uma “boa escolaridade” no curso primário. (LAHIRE, 2004, p.344). Outro aspecto que reforça a heteroformação, na perspectiva de modelos de referência é a menção que Pandora faz ao pai, conforme depoimento a seguir: “Admiro muito ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3559 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior meu pai e me orgulho de ter nascido dele e não de outro. Ele era um batalhador em potencial”. Ao casal que ajudava sua família, ela dedica um tópico do seu texto e explica: (eles) “contribuíram com meu processo formador, possibilitando experiências significativas em minha vida”, especialmente no campo da educação moral e religiosa. A escola e a igreja são instituições que ocupam um lugar fundamental na vida desta autora, favorecendo situações formativas positivas. O papel da igreja é destacado por ela, com insistência, na “entrevista de explicitação”. Neste espaço ela inicia, ainda na adolescência, sua empreitada por se constituir uma pessoa mais “exposta ao mundo” e “no mundo”, na medida em se engaja em grupos e lidera atividades. Sua importante decisão de não voltar à cidade de João Pessoa para concluir o curso de Serviço Social é creditado, entre outros elementos, a um “acordo” que fez com Deus, aspecto que sublinha o papel que a fé religiosa ocupa na sua formação. Pandora, assim como Helena, tem sua vida marcada pela formação institucional, tendo a escola como lugar privilegiado, pois nela se estabelece a relação da criança que foi com o adulto no qual se tornou, com o lugar que ocupa “no mundo social adulto, mas também com o conjunto de atitudes, sentimentos referências, valores que constituem seu universo psicoafetivo e sócioético”. (DELORY-MOMBERGER, 2008). Tal formação constitui-se o meio para a realização do projeto de si, que parece ter como fundamento principal a melhoria das condições materiais de existência. A escola, incluindo a Universidade, tem presença linear na sua formação e lhe proporcionam inúmeras aprendizagens, incluindo a capacidade crítica, por exemplo, no que diz respeito às relações de gênero. Seu depoimento é revelador: O que me revoltava eram as confusões [...] com meu irmão mais velho que eu 1 ano. E aí, quando eu entro na escola, talvez tenha sido as leituras, eu não sei, eu começo a me revoltar e colocar isso em palavras pra ele [...]. A percepção do machismo vem depois e acredito que a entrada na Universidade vai ajudando a entender isto. É importante ressaltar que a relação da autora com a escolarização, especialmente na infância, não se restringe à obediência aos pais, ou às normas da instituição, pois ela estabelece um vínculo com o conhecimento escolar, pautado no prazer, na curiosidade, no gosto pela auto-superação. Isto se traduz na sua relação com o aprendizado da leitura, na superação das dificuldades em Matemática, quando buscava, por si só, situações que ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3560 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior ampliassem seu conhecimento. Há, portanto, uma negociação entre o que é “imposto” e a autonomia relativa do aprendente. Há a obrigação da escolarização, mas há também o engajamento, a implicação da narradora, segundo ela mesma destaca: “aprender a ler para mim foi uma grande conquista”; “eu devorava o livro todinho de uma só vez”. É neste contexto de negociação que o sujeito se constitui. Pois, não há garantia de que determinados valores dos pais sejam simplesmente incorporados pelas crianças, sendo inadequado falar de “transmissão” de capital cultural. Isto porque o que há é um processo de reconstrução da “herança cultural” pela criança ou jovem, uma vez que atribui sentido ao conteúdo do que é “transmitido” (LAHIRE, 2004, p.341). Reitera-se, assim, a relação entre a auto e a heteroformação. Alguns professores são lembrados como responsáveis pela aquisição de aprendizagens importantes na Educação Básica. As qualidades ressaltadas são a paciência e a dedicação. “Acredito que consegui continuar estudando e aprendendo por eu ter tido nos primeiros anos escolares professoras muito boas, muito pacientes, muito amorosas”. Chama atenção a dimensão afetiva que perpassa as lembranças dos professores. Esses modelos possivelmente exercem influência na atuação docente da autora do relato, uma vez que a formação docente começa nas nossas experiências como aluno. Outros professores da Universidade são lembrados como incentivadores do seu ingresso como professora universitária. Vale destacar que um professor é lembrado, por Pandora, em virtude de práticas que a marcaram de forma negativa no Ensino Fundamental: [...] também lembro de um professor que me traz recordações negativas. Era um professor de Geografia. Ele tinha uma prática pedagógica autoritária e conseguia amedrontar todo mundo na sala [...]. Talvez por conta disso eu passei a ter aversão a Geografia. Sob tal aspecto a autora evidencia que tem clareza de que o que somos resulta das dores e delícias que experimentamos em nossas trajetórias. Sendo estas experiências negativas ressignificadas e transformadas em auxílio na formação de atitudes mais. Os amigos e o marido têm papel relevante no incentivo ao investimento na vida acadêmica. Eles são responsáveis, segundo a autora, pela coragem, que aos poucos foi ganhando corpo, de enfrentar situações em que teve que competir e ser avaliada. No que diz respeito ao marido, ela reforça sua influência neste aspecto, por ocasião do primeiro concurso ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3561 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior que fez pra professor universitário: “Mais uma vez meu marido me fez crer que era importante eu participar deste processo”. E, em relação às colegas de curso, ela lembra: Devido a minha desenvoltura nos seminários fui indicada por uma amiga da sala para participar de um grupo de pesquisa [...]. Eu relutei muito, explicava para essa amiga que eu tinha medo de falar em público e não queria ir [...]. Ela insistiu e me levou até a casa da Z. (professora) para falar com ela. As influências exercidas por tais pessoas não expressam, no entanto imposições, mas são consentidas, apropriadas e significadas por Pandora, aproximando-se da dimensão da coformação, a qual resulta de partilhas e de consensos. Na adolescência ela relata a conquista gradual de uma versão “mais moleca” de si quando conheceu uma amiga. Ela depõe: (com E. V.) “fui me envolvendo mais nas brincadeiras e me tornei mais moleca”. A importância atribuída a esta amizade se deve ao fato de que a ajudou a ser um pouco diferente da menina quieta e conformada às normas institucionais e aos adultos (família e escola). Características que lhe causava sofrimento e que tanto a incomodam até hoje. A ecoformação, entendida como resultado das influências do ambiente físico e cultural,é expressa quando Pandora relata a mudança da sua família do sítio para a cidade de Juazeiro do Norte. Ela descreve o seu estranhamento e, ao mesmo tempo, sua satisfação com todas as novidades de um ambiente mais urbano do que àquele onde morava até então. Depois, fala das experiências com teatro e com a religião a que teve acesso no bairro onde morava. Vale dizer que apesar de ser sublinhada nestas situações, esta dimensão perpassa toda a formação dos indivíduos. 2.3 DANDARA A autoformação, como “um aprender por si”, só se constitui na relação com o outro. Assim, o sujeito da formação só se constrói e se afirma a partir do reconhecimento do outro “pois é a relação interpessoal que dá ao indivíduo o desejo de ser ator, de inventar e reinventar as situações, ao invés de adequar-se e conformar-se a elas” [...]. (TOURAINE, 2005, p.24/25). A narrativa de Dandara é rica da presença do outro, as situações heteroformativas são inúmeras, diversificando-se quanto ao tipo de relação estabelecida: partilhas, solidariedade e exercício de poder. No entanto, em todas elas a autora se impõe, acolhendo, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3562 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior se apropriando, desenvolvendo estratégias para estabelecer negociações entre suas vontades e as pressões dos outros. A avó de Dandara exerce papel fundamental na sua trajetória. É ela quem assegura a educação familiar e a educação escolar. É em nome dela que a autora conclui o curso de Pedagogia, apesar de todos os conflitos que enfrenta, por não querer ser professora. Assim, ela afirma: “dei o diploma pra vovó”; “eu sempre fiz as coisas pela vovó, não por mim”. Portanto, afirma-se uma situação de heteroformação baseada numa relação desigual de poder, numa luta. Mas, ao mesmo tempo, a avó é, igualmente, uma das responsáveis pela constituição da sua identidade como “pessoa responsável”, que “sabe o que quer”. Ela (a avó) falava que as coisas estavam piorando, precisando comprar mais remédios e que era bom que uma pessoa trabalhasse, até pra eu dar exemplo pra outras irmãs. Aí começava a dizer que eu era mais responsável, tinha mais cabeça, que eu sabia o que queria na vida. Ela dizia: “você tem que ser um exemplo pra suas irmãs. Agüente, quando você se formar você arranja uma coisa melhor”. Aí, eu continuava por causa dela. Nesse caso, inscreve-se uma relação de heteroformação fundada na aceitação, no consenso, na partilha, uma vez que ela aceita e reforça características identitárias que lhe são atribuídos por outrem. Este aspecto é confirmado por Dandara num outro momento da sua entrevista: “eu sempre fui de ter compromisso, de ser responsável com as coisas que eu fazia”. Assim, evidencia-se que nós somos o resultado daquilo que conseguimos fazer com o que dizem sobre nós; o eu e o outro se articulam e na construção de nossos processos identitários (SANTOS, 2001). O marido é outra importante influência na sua vida. Com o casamento a avó deixa de ser a principal referência e ele passa a ocupar esse lugar. O depoimento da autora reitera isto: “[meu marido] me orientou a ser professora universitária’; “Eu tinha o exemplo do meu marido. Eu adorava quando ia pro emprego dele, pra sala dele. Eu dizia: “amor, eu quero ser você quando eu crescer” (nar.). O irmão, embora apareça pouco na sua trajetória, parece exercer uma influência importante na sua decisão por casar-se e ter filho. Assim, ela afirma: [...] meu irmão, antes de morrer disse que queria me ver casada, feliz e com filhos. Talvez essa fala ficou registrada no meu inconsciente e sempre achei que o primeiro encontro com meu marido foi algo fora do normal, como se uma energia nos unisse. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3563 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Os laços afetivos que estabelece durante o curso de Pedagogia são determinantes na construção de si como professora: “já no segundo semestre comecei a fazer novas amizades [...]. Nesse momento consegui estagiar em uma escola particular, estimulada pelas novas amizades”. Ao amigo A., que conheceu no curso de Pedagogia, ela dedica um registro especial em sua retrospectiva, referindo-se a este laço de amizade da seguinte forma: [...] (foi) uma amizade que me fez amadurecer”. Dessa forma, ela destaca: “com o A. passei a ter posicionamento político, participei do C. A., fui para o Encontro nacional de estudantes de Pedagogia, comecei a me interessar pela poesia, por romance, por Filosofia, pelas coisas simples da vida [...]. Ele foi responsável, portanto, pela formação de novas sensibilidades, ideias e crenças em Dandara. Isto, por sua vez, é revelador da abertura da autora do relato para outros modos de ser, outros pontos de vista. Vale ressaltar que nos contextos de grupo podem ser geradas relações de reconhecimento que são fundamentais para a emergência do sujeito. Isto, porque aí ocorre o desenvolvimento da estima social, a qual, por sua vez,” permite a ele (sujeito) uma relação positiva com suas qualidades e capacidades (COUCERO, 2000, p.89). Importa sublinhar que todas estas relações de amizade se configuram como um processo de coformação, pois se desenvolvem ancoradas na partilha, no consenso. Isto denota que a formação resulta de uma transformação contínua que se dá por “transações” 46 que [...] supõem a mobilização de si e dos recursos pessoais, ao mesmo tempo que exigem o reconhecimento do outro para com ele estabelecer uma negociação [...]. As transações são vistas em tensão entre o social e o pessoal, a hetero e a autoformação (FREYNET apud COUCEIRO, 2000, p.86). As colegas de trabalho na docência das séries iniciais também são mencionadas como exercendo importante papel na formação de Dandara. Segundo ela, na sua primeira experiência de ensino enfrentou muitas dificuldades e como não tinha ajuda dos professores da Universidade, “pedia conselhos aos mais experientes, às outras professoras da escola e colegas de curso” (nar.). É pertinente, então, afirmar que a constituição de si como professor se realiza, entre outros fatores, por meio de um processo de aprendizagem que se desenvolve 46 Este termo expressa a dimensão da intencionalidade e da atividade do indivíduo na relação que estabelece com o meio e com os outros (JOSSO, 2004). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3564 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior no exercício da profissão. E, neste sentido, importa reivindicar a passagem da formação de professores para "dentro" da profissão (NÓVOA, 2010, p.02). Em suma, todos os laços sociais que compõem a trajetória de Dandara reforçam a ideia de que são essas ligações que tecem nossa vida. Elas são, ao mesmo tempo, o que dá sustentação, que prendem e mantém uma relativa estabilidade, que permitem [...] o movimento em um perímetro definido, mas também que o impede sair desse perímetro, o que entrava, o que pode ficar machucando quando se tenta a liberdade sem consegui-la, o que se desfaz mais ou menos facilmente para encontrarmos a liberdade de movimento. (JOSSO, 2006a, p.373). Uma das situações ecoformativas mais evidentes se revela quando Dandara narra sua experiência na Escola Cooperativa do Banco do Brasil. Nela tem acesso a uma ambientação física e cultural própria de determinado estrato - a classe média. Assim, apreende gostos, valorações, modos de pensar e agir que são específicos de jovens pertencentes a essa classe social. Seu depoimento é emblemático: (A escola tinha) uma estrutura física diferenciada, com um amplo espaço físico: muitas salas, quadra estacionamento e um lindo espaço arborizado. Além de ficar ao lado da AABB (Associação Atlética do Banco do Brasil) que é o clube freqüentado pelos bancários. A mudança (de escola) me fez muito feliz, pois sabia que iria ter mais colegas e poderia fazer atividades físicas na AABB. A classe média situa-se no intermédio da classe menos favorecida economicamente e as elites. Assim, seu principal objetivo é diminuir a distância que a separa das classes dominantes. O investimento na escolarização é, dessa forma, o principal caminho para tal ascensão (BOURDIEU, 1989). A imersão de Dandara neste contexto, possivelmente, influenciou a construção de si como “sujeito de querer”, uma vez que parte da sua trajetória de formação é ambientada num contexto social em que as ofertas de caminhos a seguir, de perspectivas de vida, são mais diversas e as possibilidades se mostram mais viáveis. Isto se contrapõe aos contextos formativos dos filhos das classes menos favorecidas, os quais oferecem um repertório mais “limitado” de “escolhas” de orientação de vida. Assim, em face dos constrangimentos das condições de existência, também os sonhos são limitados, como são limitadas as possibilidades de autonomização individual, uma vez que “alguns indivíduos são mais dotados que outros na guerra de posições que condiciona o acesso a tal autonomia”. (GAULEJAC, 2004, p.68). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3565 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A trajetória na Universidade, por ocasião do curso de Pedagogia, também é mencionada como formadora/transformadora, época de “grande aprendizado”. Assim, ela relata: “aos poucos ia deixando de lado os preconceitos e começava a ver de outra forma os colegas de curso. Estava deixando de ser ‘fresca’ e preconceituosa”. Essa transformação se dá em face das impressões que tinha das colegas de turma que eram professoras “todas com semblante de cansaço e de pouco reconhecimento na profissão”. Portanto, cada novo tempo, dilema, aprendizagem e experiência favorece e amplia a disponibilidade à autoformação (COUCEIRO, 1992, p.142). As situações experimentadas por Dandara, em que a dimensão da autoformação se sobressai em face das demais, são evidenciadas nomeadamente na dimensão afetiva e social. No contexto das aprendizagens escolares, entretanto, ainda que a autora não mencione situações que possibilitem delimitar com maior clareza esta dimensão, a autorformação está lá, em todo seu percurso escolar exitoso, uma vez que em todo processo formativo interagem os três pólos: o si, os outros e as coisas, isto é, o meio ambiente físico e natural (PINEAU, 1988). Autoformar-se traduz-se, igualmente, nas atitudes de expressão de vontades, de desejos, de buscas, de revolta contra o que está posto. Assim, Dandara, desde criança mostrase como um ser de querer, como um ser que intenciona mudança, que não se conforma com determinadas situações e busca, à sua maneira, modificá-las. É assim, quando sai da casa da mãe e vai para a casa da avó; quando briga com sua irmã, porque não aceita que ela queira tudo a seu modo, pois ela também quer ter direito a ter direitos. Mostra-se insatisfeita com as condições de moradia na casa da avó e esforça-se para sair de casa exercendo inúmeras atividades remuneradas, tendo em vista obter meios financeiros para tal. Debatia-se inúmeras vezes com a avó para ter direito a não trabalhar tal qual as irmãs e para abandonar o curso de Pedagogia, porque sabia que não queria ser professora. Em sua retrospectiva, demonstra uma visão crítica em relação ao poder que sua avó exercia sobre si e a vontade de ser reconhecida na sua singularidade, na sua vontade de ser sujeito de querer: “ela nunca perguntou se (dar aulas) era o que eu queria”. Considera-se injustiçada no trabalho por não ter rendimentos compatíveis com o trabalho que desenvolve. Ante os constrangimentos que lhe foram se impondo - ter que trabalhar para ajudar a avó e para sair de casa - ela foi criando estratégias, a seu modo, para escapar de situações opressoras. Na primeira oportunidade, abandona um dos empregos. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3566 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Assim, a trajetória de Dandara evidencia uma luta por autonomia, que vai se consolidando aos poucos. Isto porque [...] se a dependência é fundante, a autonomia é um processo – e não um estado – pelo qual o sujeito tenta se construir na duração como uma exigência para ser “si-mesmo” e uma busca jamais satisfeita em ser um outro. (GAULEJAC, 2004, p.74). A aprovação no curso de Psicologia é um “momento-charneira”, o divisor de águas. Aí é demarcada uma trajetória de autonomização, de uma vontade de impor-se aos desejos dos outros, de sua vontade de tomar nas mãos as rédeas do projeto de si. Seu depoimento é emblemático: [...]eu vi que eu tava fazendo muito as coisas pela vovó e não por mim. Aí eu disse: “Agora, eu vou fazer por mim, não mais pela minha avó. Eu já consegui o diploma, que era o que ela queria. Pronto, dei pra vovó o diploma, ela vai morrer feliz sabendo que eu tenho nível superior. Então, eu vou fazer o que eu quero!”. A partir daí, seu processo autoformativo vai se revelando cada vez mais consciente e mais coerente com suas vontades e necessidades. Evidências disto estão nos inúmeros empreendimentos formativos no campo institucional – graduação e pós-graduação - que ela busca materializar. 3 Considerações Finais As trajetórias das três professoras demonstraram que os processos de autoformação se desenvolvem em diversos âmbitos da formação: do saber, do saber-fazer e do saber-ser. São exemplos disso o desenvolvimento da oralidade, a procura por mudança de aspectos da vida, a ressignificação de contextos, de objetivos e de projetos, a aprendizagem docente. Além disso, constatou-se que a autoformação passa por uma transformação, em termos de complexidade, á medida que a idade adulta vai se aproximando. Isto é, no período da infância e adolescência, em que as injunções sociais são mais fortes e mais aceitas ou menos contestadas, ela é predominantemente marcada por intencionalidades pouco explícitas. E embora se caracterize por engajamentos e responsabilizações, ainda é fortemente ligada àquilo que foi estabelecido pelos outros – o empenho nos estudos é ilustrativo. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3567 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Já na idade adulta, além destas características, tal apropriação da formação vai sendo revestida, com maior freqüência (embora nem sempre) de uma intencionalidade explicitada. Portanto, de maior “presença a si”, de mais consciência acerca dos próprios quereres, dos sonhos, das possibilidades e limites que constituem o projeto de si. Assim, as autoras dos relatos vão ampliando o sentido da autoformação em termos de tomada decisões, de escolhas, de imposição de suas vontades, de autonomia ante às imposições alheias - as decisões sobre o curso superior a ser seguido, estar ou não ao lado da família denotam isso. É pertinente afirmar, porém, que embora a autoformação seja mais explicitada na medida em que a idade adulta se aproxima, ela perpassa toda a vida dos sujeitos da pesquisa, não sendo um processo linear, nem livre de conflitos. Vale ressaltar ainda que, junto à compreensão de que a autoformação traz em si a imbricação com a hetero e ecoformação, ao mesmo tempo há uma tendência de pensamento e de prática que tenta torná-la subordinada aos processos heteroformativos. Daí a preocupação desta pesquisa em dar-lhe maior visibilidade, ainda que sem negar aquelas vinculações. Assim, evidenciou-se que, mesmo quando a heteroformação, baseada em relações de poder tenta se impor, o aprendente atua, seja atribuindo significados às orientações externas, seja se apropriando das decisões alheias e as tomando como suas. REFERÊNCIAS BOURDIEU, P. Poder Simbólico. Lisboa: DIFEL, 1989. CANÁRIO, Rui. A Escola Tem futuro? Das incertezas às promessas. 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A autoformação no decurso da vida: entre a hetero e a ecoformação. In: NÓVOA, Antonio e FINGER, Mathias (org.) O método (auto)biográfico e a formação. Cadernos de Formação, nº 01, 1988. SANTOS, Elzanir dos. Identidade Profissional Docente: os ditos e os feitos. Dissertação de Mestrado. Fortaleza: FACED/UFC, 2001. TOURAINE, Alan. Um novo paradigma: para compreender o mundo de hoje. Lisboa: Instituto Piaget, 2005. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3569 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior RESSIGNIFICAÇÃO DAS DCNP: O PERFIL DOS(AS) PROFESSORES(AS) E DOS PROJETOS DOS CURSOS DE PEDAGOGIA DE CARUARU E GARANHUNS Janssen Felipe da Silva47 Emmanuelle Amaral Marques48 Partimos da ideia de que as IES são campos de formação que possuem lógicas institucionais próprias que possibilitam um processo de refração-retradução (BOURDIEU, 2004) dos modelos de formação e das políticas nacionais para a formação de professores. O campo de pesquisa constitui-se de duas IES públicas do agreste pernambucano, a IES I e a IES II. Utilizamo-nos de questionários, da literatura e dos documentos produzidos pelas IES para a coleta de dados e os tratamos sob à ótica da Análise de Conteúdo (BARDIN, 1987). Traçamos o perfil dos professores dos cursos de Pedagogia das IES, assim como os posicionamentos, pressupostos e vertentes teóricas que possibilitam a compreensão da identidade do Curso de Pedagogia e do Pedagogo. Constatamos que as duas IES analisadas, guardam limites e potencialidades, contradições e avanços em relação às definições formativas advindas das DCNP. Palavras-chave: Diretrizes curriculares nacionais para formação de professores, curso de pedagogia. INTRODUÇÃO O fato de a Pedagogia ser observada sob vários enfoques propõe uma reflexão crítico-transformadora do locus do trabalho docente. Portanto, refere-se também à construção de uma formação do professor/pedagogo na perspectiva da racionalidade, e da intensificação do debate sobre a identidade do curso de pedagogia e a reconstrução e ressignificação de sua identidade. As transformações históricas e as revoluções científicas e legislativas possibilitam a emancipação do profissional pedagogo. A tese de identificação do curso de Pedagogia com a formação de professores ocorreu em razão de circunstâncias históricas. Mudam-se as concepções da sociedade, e somente depois se muda a concepção de educação. É imprescindível, portanto, que os educadores refletiram acerca dos fins, valores e políticas educacionais e não se prendam puramente à organização de modelos pontuais de ação. Para que se estimule o processo de 47 Pedagogo pela FAFIRE, Mestre e Doutor em Educação pela UFPE. Professor Adjunto do Núcleo de Formação Docente do Centro Acadêmico do Agreste – UFPE. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPE. E-mail: [email protected] 48 Graduada em Pedagogia, no Núcleo de Formação Docente do Centro Acadêmico do Agreste, pela Universidade Federal de Pernambuco. Bolsista de Iniciação Científica – CNPq; E-mail: [email protected] ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3570 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior tomada de consciência e compromisso com a humanidade. Fortalecimento da identidade pedagógica com práticas político-transformadoras que possam racionalizar ações que enalteçam o papel emancipatório da pedagogia. Deste modo, os conceitos e pressupostos para a sua formação, bem como os limites e as possibilidades inseridas nas discussões acerca dos processos de formação, propiciam uma ampla possibilidade de significação da Pedagogia e de sua intencionalidade enquanto fenômeno social. O principal objetivo do subprojeto desenvolvido no período de agosto 2009 a julho 2010, foi traçar os perfis dos(as) professores(as) e dos Cursos de Pedagogia das IES investigadas. Para realizar tal compreensão acerca das políticas de formação do pedagogo, tivemos como objetivos específicos: Analisar os estruturantes das diretrizes curriculares para a formação do(a) Pedagogo(a) (campo de atuação-função do pedagogo; concepção de Pedagogo e de Formação; exigências, princípios, objetivos, tempo-espaço da formação; saberes e competências do Pedagogo; concepção de docência); Analisar os estruturantes dos Cursos de Pedagogia (campo de atuação-função do pedagogo; concepção de Pedagogo e de Formação; exigências, princípios, objetivos, tempo-espaço da formação; saberes e competências do Pedagogo; concepção de docência para traçar seu perfil institucional); Identificar e traçar os perfis dos(as) professores(as)-formadores(as); Compreender o movimento de aproximação e de distanciamento entre as diretrizes curriculares para a formação do(a) Pedagogo(a) e os Projetos dos Cursos de Pedagogia das IES. METODOLOGIA DO TRABALHO A pesquisa foi desenvolvida tento como problema central quais os perfis dos(as) professores(as) e dos projetos dos cursos de Pedagogia do município de Garanhuns e Caruaru nas Instituições Federais de Ensino? A problemática em questão parte da necessidade de conhecer quem são os professores formadores dos cursos regulares de Pedagogia e qual a relação desses perfis com a estruturação dos projetos desses cursos, tendo como referência as Diretrizes Curriculares Nacionais. Partimos da idéia de que as IES são campos de formação que possuem lógicas institucionais próprias que possibilitam um processo de refração-retradução (BOURDIEU, 2004) dos modelos de formação e das políticas nacionais para a formação de professores e a relação com a recontextualização das DCNP. O campo de pesquisa foi composto pela IES I e a IES II. O primeiro campo de pesquisa, a IES I. Trata-se de um campus novo implantado em 2005 na cidade de Garanhuns que teve sua primeira de graduados no ano de 2009. Por se tratar de um campus novo e ainda ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3571 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior em vias de reestruturação de seu projeto curricular, o curso trás a discussão em torno da formação do Pedagogo. O que a torna, portanto uma IES em processo de constituição das políticas internas de formação. O outro campo de pesquisa foi escolhido devido à especificidade da IES II, no que se refere à estrutura política e organizacional que se configura de forma diferenciada de outros campus. Aprofundamo-nos nas dinâmicas, traços e formas de trabalho que caracterizam o diferencial do Curso de Pedagogia da IES II em suas concepções sobre a identidade, a formação e o campo de atuação do Pedagogo. Esta pesquisa trabalha com fontes e campo empírico. Para traçar o perfil do Curso de Pedagogia das IES tomamos como fontes: primeira a legislação produzida pelo MEC e CNE no período de 2005 a 2008 acerca da política curricular de formação do pedagogo. Este recorte histórico foi feito devido ao fato de ser o período de elaboração e de implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia; segunda fonte é constituída pelos Projetos dos Cursos de Pedagogia da IES. No que se refere ao campo empírico, os sujeitos da pesquisa com os quais aplicamos os questionários são os professores do Curso de Pedagogia das duas IES. O tratamento dos dados é realizado com base na Análise de Conteúdo (BARDIN, 1987) através da Análise Temática. Nesse processo utilizamos tabelas que nos auxiliaram a compreender os estruturantes analisados dos Projetos dos Cursos e da Legislação. A terceira fase é o tratamento dos resultados e as inferências que fazemos sobre eles. Construímos aqui uma rede de sentido e de significados em torno da temática em questão, no que se refere à relação significativa entre as políticas curriculares de formação de Pedagogo(a) e as políticas internas das IES para a formação de Pedagogos(as). Este processo permite-nos desenvolver reflexões e interpretações sobre os dados obtidos, assim como uma melhor compreensão do processo de formação dos pedagogos segundo a legislação e as instituições formadoras deste profissional da educação. RESULTADOS E DISCUSSÃO Nossa discussão parte da premissa de que as IES enquanto campo de formação possui seus próprios mecanismos de ressignificação dos modelos de formação e das políticas nacionais para a formação de professores. Nessa perspectiva, nos aprofundamos no corpus documental da pesquisa a fim de compreender as lógicas institucionais fundadas no princípio da autonomia parcial. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3572 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Primeiramente contextualizamos as DCNP e trouxemos os elementos gerais da sua constituição. Depois, fazemos uma análise comparativa geral entre as duas instituições e em seguida analisamos de forma específica o perfil de da instituição e por fim delimitamos o perfil dos professores dos cursos de Pedagogia das IES, assim como os posicionamentos, pressupostos e vertentes teóricas que possibilitam a compreensão da identidade do Curso de Pedagogia e do Pedagogo. Para analisar o perfil das Diretrizes Curriculares do Curso de Pedagogia trataremos dos seguintes estruturantes: campo de atuação-função do pedagogo; concepção de Pedagogo e de Formação; exigências, princípios, objetivos, tempo-espaço da formação; saberes e competências do Pedagogo; concepção de docência. Compreende-se que as DCNP permitem a ampliação da compreensão da complexidade do campo da Pedagogia e dos desafios da materialização das novas regulamentações legais, assim como cria uma nova conjuntura acerca do campo da formação do Pedagogo. Desenvolve, pois, uma análise da constituição do ser pedagogo, tendo por base a problematização do seu campo de atuação. Análise do Perfil dos Projetos dos Cursos e da Legislação A análise dos Projetos dos Cursos seguirá a seguinte ordem: primeiro será analisado o Projeto do Curso de Pedagogia da IES I, em seguida será realizada a análise do Projeto do Curso de Pedagogia da IES II. Inicialmente tratamos dos estruturantes da identidade e de formação do pedagogo (Quadro 1). Com a base nos documentos legais, relacionamos os estruturantes e os elementos fundantes da identidade profissional do Pedagogo nos Projetos de curso das IES investigadas. Com o cruzamento dos dados obtidos, conseguimos estabelecer aproximações e distanciamentos entre a legislação e os Projetos de curso. Os dilemas que circundam o processo da identidade e a concepção de Pedagogo é tratada em maior intensidade nas referências com relação à caracterização do Pedagogo como Professor e/ou Gestor, como pode ser contemplado no quadro 2. Nessa perspectiva as concepções se contrapõem a Libâneo (2009), que caracteriza a necessária distinção entre a concepção de pedagogo (profissional qualificado pra atuar no campo educativo e atender às demandas sociais) e a concepção de professor (profissional apto para atuação no trabalho docente). Nessa perspectiva, Libâneo entende que todo trabalho docente é trabalho pedagógico, mas nem todo trabalho pedagógico é trabalho docente. O que fatalmente ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3573 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior discorda da concepção de formação defendida pela ANFOPE, que argumenta que “a base da identidade profissional do educador é a docência”. Em média intensidade, evidencia-se no projeto dos cursos caracterização do Pedagogo, como pesquisador e profissional da Educação. Do ponto de vista de Libâneo, a prática educativa é um fenômeno constante e universal à vida social, portanto, se é um âmbito social é possível de ser investigado, pois constitui objeto de conhecimento e pertence à Pedagogia, entendida por ele como Teoria e prática da Educação. Assim, é importante a formação do Pedagogo como pesquisador, contudo, para Libâneo (2009), esta formação não se daria em par com a formação do professor. Identificamos como fato singular a discussão acerca da prática enquanto forma reflexiva e autônoma de formação de identidade proposta pela IES I. Essa perspectiva aproxima-se da proposta educacional da ANFOPE no que se refere à formação do educador crítico, com sua identidade profissional fundamentada na docência, com o pleno domínio do conhecimento e das competências inseridas na realidade da educação e da sociedade. O conhecimento pedagógico existente nas articulações da educação e suas relações sociais, políticas, econômicas e culturais. Segundo a ANFOPE (SCHEIBE, 2007), o Pedagogo deve ser crítico e estar apto à criação de condições de transformação educação e a realidade social. A proposta pedagógica de ambos os campos pressupõem uma ação docente que considere a contextualização da prática educativa com a dinâmica proposta pela legislação e pela comunidade escolar. Dessa forma, a socialização da produção do conhecimento e do saber proporciona autonomia institucional, bem como a ampla apropriação e difusão de conhecimento. A formação para o exercício primordial da docência nos diversos níveis de ensino. (EI, EF, EDPR, EJA) surge em maior intensidade na Concepção de Formação do Pedagogo. Neste viés, Libâneo (2009) entende que a formação do Pedagogo deve ser fundada em prol da formação do profissional que atua em várias instâncias da prática educativa, indireta ou diretamente vinculadas à organização e aos processos de aquisição de saberes e modos de ação, com base em objetivos de formação humana definidos em uma determinada perspectiva. A IES II traz em sua proposta curricular a singularidade da formação do Pedagogo para as práticas educativas nos movimentos sociais. Considerando as discussões em torno da formação docente presentes nas DCNP, entendemos que o curso de Pedagogia IES II é uma proposta formativa voltada para o estudo crítico das ciências e para a prática, levando em ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3574 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior conta as situações emergentes dos destinatários, incentivando o aprofundamento nas áreas de gestão educacional e de práticas educativas nos movimentos sociais, promovendo a pesquisa de iniciação científica e desenvolvendo atividades de extensão. Para Libâneo (2009), o processo de reconhecimento da identidade profissional pedagógica, constitui e delimita o objeto de estudo da Pedagogia. Demarcando-lhe um campo próprio de investigação e atuação do profissional Pedagogo. A Pedagogia estuda as práticas educativas, tendo em vista explicitar finalidades, objetivos sociopolíticos e formas de intervenção pedagógica para a educação. O pedagógico da ação educativa (PIMENTA, 2002) se expressa na intencionalidade e no direcionamento dessa ação. Outro estruturante de identidade abordado foi a função do Pedagogo. Este fator é comum em ambas as universidades. Entendamos função do Pedagogo como atuação reflexiva da ação pedagógica. Nessa perspectiva, evidenciou-se com maior intensidade a função do Pedagogo para a atuação no Magistério. Dentre essa instância, o pedagogo pode atuar nas escolas (professores, gestores, coordenadores pedagógicos, pesquisadores, formadores etc.). Ao analisarmos os projetos dos cursos, percebemos que os saberes docentes são provenientes de um conjunto de conhecimentos e habilidades que são adquiridas na prática pedagógica. Os saberes que as IES se utilizam estão relacionados, principalmente às condições em que elas dialogam com as políticas de formação. Estes saberes são suporte e podem enriquece e qualifica a prática docente. No entanto, é necessária uma formação que direcione e forme para uma prática crítica e dinâmica. O estudo também apontou-nos as características que são singulares às práticas pedagógicas do contexto das IES. A IES II traz ampla discussão sobre as relações entre educação e trabalho, diversidade cultural, cidadania, sustentabilidade e a articulação com o conhecimento multidimensional sobre o ser humano. Estes conhecimentos fortalecem o desenvolvimento e as aprendizagens de sujeitos em diferentes fases do desenvolvimento humano, em diversos níveis e modalidades do processo educativo, pois relaciona as linguagens, a sociedade e à educação, através dos processos didático-pedagógicos adequados ao desenvolvimento de aprendizagens significativas. Dentre as competências que surgem com maior intensidade, destaca-se a formação do Pedagogo para atuação na docência, nas áreas de gestão, no pensar e orientar práticas educativas. Em média intensidade, a atuação pedagógica em espaços escolares e nãoescolares. Confirmando o conceito de docência ampliada defendido pela ANFOPE. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3575 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A identificação de problemas socioculturais e educacionais faz com que a IES II tenha intensa participação no processo de formação científica e pedagógica para a compreensão da complexidade do ser humano, da vida social e das instituições sócio-históricas, que faz parte da concepção de desenvolvimento do conhecimento de maneira coletiva, dialógica. Que envolve os professores e alunos como participantes do processo da ação educativa e contribuem para a reflexão sobre a educação e para o bem-estar social. Análise do Projeto do Curso de Pedagogia da IES I Para analisar o perfil do Projeto do Curso de Pedagogia da IES I primeiro contextualizamos a construção deste campus e depois tratamos dos seguintes estruturantes: campo de atuação-função do pedagogo; concepção de Pedagogo e de Formação; exigências, princípios, objetivos, tempo-espaço da formação; saberes e competências do Pedagogo; concepção de docência. Desta análise emerge o contexto em que se firma a IES I, bem como o marco social e institucional defendido pela instituição. O Curso de Licenciatura Plena Normal Superior foi implantado na IES I no ano de 2005. Os egressos tiveram acesso por meio de aprovação no vestibular. Paralela à formação de turmas no campus Dois Irmãos, foi instituída em Garanhuns a Unidade Acadêmica e, com ela, o curso foi trazido para o contexto interiorano, A instituição visa atender as especificidades da região, que é marcada pelo déficit com relação à formação de professores. É possível justificar que a proposta de formação do projeto de curso IES I é baseada em novas concepções relacionadas às políticas de formação docente e de certa forma cumpre as exigência dos dispositivos legais que respaldam e sistematizam os ideais em prol da formação do Pedagogo. Trata-se de um curso ainda em fase inicial de implementação, os mudanças e ajustes na legislação foram priorizados desde o início com o objetivo de acolher às necessidades próprias da materialização das diretrizes, como também de atender às particularidades do contexto sócio-históricos em que o curso de Pedagogia é desenvolvido. O Projeto Político Pedagógico da Instituição foi reformulado a partir da implementação das DCNP. Após reuniões e atendendo as implicações da legislação, diversas alterações e acréscimos foram processados na caracterização, organização e implementação do currículo do curso. A proposta curricular da IES I foi construída em acordo mútuo entre os princípios legislativos que norteiam a formação de professores, incluindo também as DCNP. Além de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3576 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior baseia-se nesses referenciais, o projeto está de acordo com as políticas internas presentes na Resolução 313/2003 do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão – CEPE/UFRPE, que dispõe sobre a formulação dos projetos Políticos Pedagógicos da IES investigada. Por conseguinte, a instituição propõe um curso com motivações externas, no que se refere ao diálogo com as demandas da realidade educacional brasileira, e motivação internas dadas às especificidades do corpo docente e dos egressos do curso de Pedagogia. Assim fica evidente o processo de refração-retradução na constituição da Proposta Curricular da UAG quando se materializa o diálogo entre motivações internas e externas. O marco teórico-metodológico do curso prevê uma formação que seja compatível com a importância e com a complexidade da atividade de ensino. É perceptível que a formação de nível superior tem ênfase primordial no ensino, embora seja necessário o trabalho de pesquisa e estudo sistemático nas demais áreas da ação pedagógica como gestão e supervisão, contudo estas não fazem parte do foco principal da proposta do curso. O aprofundamento de nossos estruturantes de pesquisa no Projeto de Curso da IES I nos aponta que a discussão acerca da pertinência da caracterização do campo de atuação do Pedagogo. Como foi dito anteriormente, a unidade apesar de admitir a necessidade de formação para a não-docência, tem ênfase primordial no ensino. A IES I compreende a formação do Pedagogo para atuação na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, Ensino Médio, na modalidade Normal, Educação profissional, na área de serviços e apoio escolar, áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. A unidade admite a atuação do Pedagogo na não-docência como gestão de processos educativos escolares (Gestão Educacional) e especialmente no que se refere ao planejamento, administração, coordenação ao acompanhamento e a avaliação de planos e projetos pedagógicos bem como análise, formulação, implementação, acompanhamento e avaliação de políticas públicas e institucionais na área de educação. Contudo, não estimulam a atuação de seus egressos em âmbitos não-escolares, como produção e difusão do conhecimento científico e tecnológico. No que se refere ao planejamento, administração, coordenação ao acompanhamento e a avaliação de planos e projetos pedagógicos bem como análise, formulação, implementação, acompanhamento e avaliação de políticas públicas e institucionais na área de educação, constatamos através de análise do ementário da instituição, o unidirecionamento da formação para docência já que, na prática o curso foi ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3577 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior alterado apenas na nomenclatura e possui um currículo baseado na estrutura curricular do Curso Normal Superior. Nesse sentido, a função do Pedagogo se restringe a orientação e mediação do ensino e de aprendizagem, incentivo a atividades de enriquecimento curricular, elaboração e execução de projetos para desenvolvimento dos conteúdos curriculares e metodologias, estratégias e materiais de apoio. O reducionismo do campo de atuação-função da instituição reflete-se também na concepção de identidade e de formação do Pedagogo, que é representado como profissional docente, pensador do saber-fazer e gestor da prática docente. A Unidade de Garanhuns prima por uma formação compatível com a complexidade da atividade de ensino, formação de nível superior com foco principal no ensino da Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A IES I limita as exigências da formação do Pedagogo à articulação estruturada da reflexão teórica à atuação prática, e mais uma vez confirma a ênfase no ensino como intento de formação. E pontua seus princípios de formação na coerência entre a formação oferecida e a prática esperada do professor, bem como na centralidade e importância da prática docente para a formação do professor. É comum de ambas as IES a formação do Pedagogo em um tempo-espaço de formação propício ao refinamento de sua formação. Em concordância com as DCNP, a formação do Pedagogo se dá em Instituições de Educação Superior em um tempo de 3.225 horas distribuídas em: Núcleo dos estudos básicos: 2.820 horas; núcleo de aprofundamento e diversificação de estudos: 300 horas; e, núcleo de estudos integradores: 105 horas. Os saberes e competências do Pedagogo estão caracterizados como elementos constitutivos do processo de interação dos indivíduos nas dimensões de domínio de conhecimentos científicos e concepções e análise da situação de aprendizagem, relação pedagógica dialógica, e autogestão da aprendizagem e produção de conhecimentos. Através desses elementos, o Pedagogo em formação é pensador do processo educativo; orientador das práticas educativas; articulador do conhecimento teórico orientador do fazer pedagógico. O conhecimento pedagógico existente nas articulações da educação e suas relações sociais, políticas, econômicas e culturais. A Unidade Acadêmica prima pela atividade docente entendida como concepção de docência articulada a implementação de metodologias a serem aplicadas no âmbito escolar, gestão de sistemas de ensino, de organização e gestão de atividades educativas. O Pedagogo, segundo o documento institucional, deve ser crítico e estar apto à criação de condições de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3578 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior transformar a educação e a realidade social com sua identidade profissional fundamentada na docência, com o pleno domínio do conhecimento e das competências inseridas na realidade da educação e da sociedade. Análise Projeto do Curso de Pedagogia do IES II Para analisar o perfil do Projeto do Curso de Pedagogia da IES II. Em primeira instância, contextualizamos a construção deste campus e depois tratamos dos seguintes estruturantes: campo de atuação-função do pedagogo; concepção de Pedagogo e de Formação; exigências, princípios, objetivos, tempo-espaço da formação; saberes e competências do Pedagogo; concepção de docência. A implantação do campus IES II desde março de 2006 no município de Caruaru tem relevância estratégica na região. Por um lado, porque Caruaru é reconhecidamente um importante centro de convergência econômica no estado. Por outro, pelo potencial que possui no sentido de propor e participar de ações que visem a superação das desigualdades regionais acima descritas, que intervém diretamente na qualidade de vida dos seus habitantes. Convém destacar neste contexto o compromisso da IES com o Ensino Básico, tendo em vista a compreensão de que a melhoria da qualidade deste nível de ensino é condição indispensável à formação de recursos humanos qualificados para a pesquisa e, também, para a vida profissional. A instalação do Campus da IES II em Caruaru tem um significado especial porque visa atender o compromisso social da universidade pública com as cidades interioranas. A necessidade de desenvolvimento da pesquisa é um fator primordial não só para o desenvolvimento econômico da região, mas, principalmente, para a construção de condições da formação de profissionais capazes de elaborar projetos que possibilitem uma mudança nas relações sociais e políticas, buscando transformar os índices educacionais da região. Compreendemos que a criação do campus da IES II vem responder à demanda de interiorizar o conhecimento científico e a inovação tecnológica, de forma a fortalecer e dinamizar as cadeias produtivas e sociais do estado de Pernambuco. Por conseguinte, a implantação da Licenciatura em Pedagogia tem uma significação ainda mais especial, considerando os baixos índices educacionais. Esse curso vem atender a emergência de ações de formação de profissionais da educação (professores, gestores e coordenadores) para a atuarem na Educação Básica nesta região. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3579 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A formação do Pedagogo na região é elemento imprescindível para o incremento de profissionais da educação com capacidade de realizar projetos educacionais na Educação Básica para ações de gestão educacional em articulação com os movimentos sociais, tendo em vista a superação de uma tradição clientelista e atrasada. A IES II enquanto campo de formação possui uma lógica institucional própria que possibilita um processo de refração-retradução dos modelos de formação e das políticas nacionais para a formação de professores e a relação com a recontextualização das DCNP. A refração-retradução está baseada nas lógicas institucionais fundadas no princípio da autonomia parcial. Onde a designação do espaço relativamente autônomo da universidade está inserida em um campo mais amplo firmado em leis sociais específicas. Nesse sentido, as diretrizes propõem orientação política e ideológica para a formação do Pedagogo e que entra em diálogo com as orientações políticas e ideológicas da própria Universidade. Este diálogo constitui a integralidade contingencial do Curso de Pedagogia. A IES II na elaboração de seu projeto prima por uma nova perspectiva de formação fundada na multiculturalidade que contribui diretamente para que a práxis educativa possa utilizar o diálogo entre culturas estabelecidas na prática pedagógica, fomentando assim, a busca da unidade na diversidade existente no âmbito acadêmico. Dentre as questões que mais se intensificam no Projeto do Curso de Pedagogia da IES II, ressaltamos as que parecem mais intimamente relacionadas com a formação pedagógica e identitária dos professores. Evidencia-se a visão dualista existente entre a teoria e a prática, que é uma questão que não se resolve no campo da opção por uma concepção que siga a via da interação ou da dialética, incluindo os aspectos científicos e ideológicos na concepção de conhecimento e de método no agir educativo. Neste sentido, reafirma em seu projeto a necessária profissionalização da docência, e dispõe de ideias pedagógicas inovadoras que refletem a concepção de Gestão e práticas educativas em Movimentos Sociais. Em específico, trata da relação do pedagogo com o meio social no qual ele se relaciona. A educação não é alavanca da transformação social, mas sem ela essa transformação não se dá (FREIRE, 1996). Entendendo a cultura como campo complexo em que se enfrentam múltiplos sujeitos sociais, diferentes perspectivas, diversas práticas e variados contextos sociais, a educação nesse contexto deixa de ser um processo de formação de conceitos baseados unidirecionalmente para processos constituídos pela tensa relação entre os diferentes contextos sociais. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3580 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Percebemos que a questão do Pedagogo como Sujeito da educação e da formação pedagógica não deve ser entendida na perspectiva da idéia de sujeito ou do não-sujeito, como projetaram as ciências e as filosofias modernas. Sujeito é pessoa, alguém que tem uma história, que vive num contexto imediato, que padece de problemas sociais concretos, que tem aspirações e utopias. É com ele que o fazer educativo acontece. Para tanto, cremos que a educação seja um processo que nos faz voltar ao ser humano como ele é, como um ser existencial-pessoal, imerso em uma realidade cultural, social, econômica, religiosa, cheia de contradições e de possibilidades. Observamos durante nossa investigação que apesar do grande avanço, da vasta intencionalidade de produção, mobilização e organização existente no campus, ainda existem poucos descompassos na formação profissional e identitária do Pedagogo. Pois, é possível verificar grande quantidade de professores buscando preparar-se para atender as necessidades educacionais. O grande desafio é através das atividades de ensino, pesquisa e extensão incluir a diversidade do campo de atuação do Pedagogo em consonância com a concepção de formação de identidade do profissional Pedagogo.Pensando esse processo ideológico, tem-se a necessidade de recontextualizar os processos educacionais e a identidade do educador. Uma vez que esse educador faz parte do processo de formação do educando, e é sujeito direto das interações, criações e (re)criações das situações didáticas. Perfil dos professores Na análise dos questionários fora evidenciado uma maior abrangência da formação do(a) pedagogo(a)-professor(a) na intencionalidade de garantir a edificação de um(a) profissional que tenha a capacidade de ler seu contexto. O perfil também tem uma dimensão sociopolítica quando aponta para a condição de formação profissional. Seja um meio de inserção do(a) profissional na comunidade através de ações transformadoras da realidade a partir da capacidade de desenvolver pesquisa e produzir conhecimento. Compreendemos que a realidade de ambas as universidades e se aproximam e se distanciam nas dimensões da formação do Pedagogo. Para responder a questão norteadora da pesquisa analisamos a formação identitária e profissional dos professores que lecionam nos cursos de Pedagogia das universidades. No universo da IES I, foram distribuídos 18 questionários, dos quais 10 foram devolvidos para apreciação. Segundo os dados obtidos, 70% dos professores são do sexo feminino. 50 % se consideram brancos, 90% são casados, 67% têm filhos. Quanto à ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3581 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior escolarização da filiação, 40% têm pais com nível superior, enquanto que 30% têm pais não alfabetizados. Por outro viés, a IES I, indica que 40% dos professores-sujetos concluíram seus estudos básicos na rede pública, e 70% concluíram graduação na rede pública de ensino superior. Os dados revelam que no campo da formação acadêmica dos docentes, há uma aproximação entre as IES. No que se refere a IES I, apenas 20% possuem graduação no curso de Pedagogia, e 60% possuem especialização na área de Educação. Poucos deram prosseguimento aos estudos de Pós-graduação, 30% possuem Mestrado e 20% Doutorado em Educação. No que se refere à atuação profissional dos docentes, todos afirmaram em seus questionários que trabalham somente em uma instituição, sendo que destes, 100% trabalham em regime de dedicação exclusiva na IES I. No desempenho de atividades acadêmicocientíficas da IES II, 100% trabalham a docência, em 50% dos professores lecionam cinco disciplinas, enquanto que 70% desenvolvem pesquisa e 90% trabalhos de extensão, e 40% gestão. Dos 1O professores pesquisados na IES I, 5O% têm de 1 a 5 anos de experiência na instituição. Destes, 30% dos profissionais tem de 20 a 26 anos de experiência na graduação. Apenas 17,64% têm experiência no nível de Pós-graduação apenas nas especializações. Contudo, realizam estudos preparatórios para o ingresso na Pós-graduação como área de atuação profissional. Na conjuntura da IES I, 20% tem seis ou mais anos de experiência na instituição, destes, 30% dos profissionais tem de 1 anos 5 de experiência na graduação. Apenas 10% te experiência no nível de Pós-graduação – Mestrado. No universo da IES II foram distribuídos 20 questionários, dos quais 17 foram respondidos. Na conjuntura da IES II, a origem social dos sujeitos segundo os dados obtidos, constata como o esperado, que a maioria dos docentes é do sexo feminino. Temos assim, 70,58% dos professores do gênero feminino. 52% dos professores têm idades entre 40 a 50 anos; 59% se consideram brancos; 37% não têm filhos. No que se refere à escolarização da filiação, 25% têm pais com nível superior, enquanto que 6% têm pais não alfabetizados. Desde o cerne de nossa pesquisa tínhamos a curiosidade em saber como se deu o processo de formação da identidade profissional dos docentes da instituição. Neste sentido, delineamos o perfil escolar do ensino básico dos professores-sujeitos de acordo com seus níveis de titulação. Obtivemos dados que nos indicam que 76,47% concluíram seus estudos básicos na rede pública, 58.83% concluíram graduação na rede pública. Foi perceptível ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3582 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior também que aqueles que tiveram iniciação acadêmica na instituição, continuaram seus estudos posteriores na mesma instituição. Os dados apontam que 94,11% fizeram Mestrado, e 82,35% fizeram Doutorado na rede pública de ensino. De acordo com os dados da pesquisa, sobre a formação inicial dos professores da IES II, a minoria dos professores-sujeitos, apenas 29,41%, tiveram a sua formação acadêmica inicial no curso de Pedagogia. Contudo, observamos o direcionamento 23,52% possuem especialização na área de Educação como, administração escolar e formação de professores. Nos estudos referentes à pós-graduação, 52,94% possuem Mestrado em Educação, e também 52,94% possuem Doutorado em Educação. No que se refere à atuação profissional dos docentes, todos afirmaram em seus questionários que trabalham somente em uma instituição, sendo que destes, 94% trabalham em regime de dedicação exclusiva na IES II. No desempenho de atividades acadêmico-científicas da IES II, 100% trabalham a docência, em 59% dos professores lecionam pelo menos duas disciplinas, enquanto que 88,23% desenvolvem pesquisa e 82,35% trabalhos de extensão. Dos 17 professores pesquisados na IES II, 35,29% têm de 1 a 4 anos de experiência na instituição. Destes, 31% dos profissionais tem de 5 a 7 anos de experiência na graduação. Apenas 17,64% têm experiência no nível de Pós-graduação apenas nas especializações. Contudo, realizam estudos preparatórios para o ingresso na Pós-graduação como área de atuação profissional. Nessa perspectiva, a Licenciatura em Pedagogia de ambas as IES se propõem a desenvolver uma práxis educativa, tendo em vista que o profissional da educação adquira uma visão ampla do fazer docente ao relacioná-lo com as tensões históricas em que está inserido e que domine saberes e competências relacionadas às especificidades da sala de aula. Nesse sentido, o curso oferece uma cultura geral e profissional; conhecimentos sobre crianças, adolescentes, jovens e adultos, aí incluídas as especificidades dos alunos com necessidades educacionais especiais; conhecimento sobre a dimensão cultural, social, política e econômica da educação; conteúdos das áreas de conhecimento que serão objeto de ensino; conhecimento pedagógico; conhecimento advindo da experiência; aproximação reflexiva e propositiva entre a instituição formadora e os espaços de atuação profissional escolar e nãoescolar; pesquisa sobre a relação escola e sociedade, as práticas organizativas do trabalho escolar/não-escolar e do processo de ensino-aprendizagem. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3583 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior CONCLUSÕES Os Projetos indicam que os saberes, competências e habilidades servem de base para o ensino, tais como são vistos pelos professores, não se limitam a conteúdos bem circunscritos que dependem de um conhecimento especializado. Eles abrangem uma grande diversidade de objetos, de questões, de problemas que estão relacionados com seu trabalho. Além disso, não correspondem, ou pelo menos muito pouco, aos conhecimentos teóricos obtidos na universidade e produzidos pela pesquisa na área da Educação: para professores de profissão, a experiência de trabalho parece ser a fonte privilegiada de seu saber ensinar. Faz-se necessário uma formação mais completa que permita ao professor o alcance de conhecimentos, habilidades e competências para uma compreensão das relações que a educação e a cultura, tendo como finalidade o desenvolvimento escolar e social dos seus alunos. Uma formação capaz de promover uma prática educativa preocupada com a formação do profissional da educação que o direciona para o compromisso de formar professores investigadores, pesquisadores, ativos, principalmente, na construção e reconstrução tanto dos projetos institucionais, quanto na reformulação diária dos currículos escolares. A proposta curricular da IES II utiliza, com propriedade, instrumentos próprios para construção de conhecimentos pedagógicos e científicos. Tais como, estudo e aplicação crítica das diretrizes curriculares e outras determinações legais que cabem a implantação, execução e avaliação dos resultados obtidos. Neste sentido a formação do IES I, baseada nesses saberes e competências, proporciona conhecimentos que possibilitam aos Pedagogos a capacidade de se assumirem autor de uma prática educativa crítica. O desenvolvimento de competências que permitam aos Professores configurar e desenvolver projetos que adequam o discurso oficial às especificidades locais e ao mundo em que vivemos ou, dito de outro modo, que tornem significativo para quem aprende os conhecimentos selecionados pela escola e os processos dessa aprendizagem criem condições para o exercício ativo da cidadania. Não há um perfil que atenda somente as perspectivas de Libâneo ou da ANFOPE, o que existe é um processo hibrido de formação de Pedagogo. Ambas IES investigadas se apropriam do movimento de refração-retradução das políticas curriculares das instituições. Constatamos que as duas IES analisadas, guardam limites e potencialidades, contradições e avanços em relação às definições formativas advindas das Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação do Pedagogo. Atestando de forma fundamentada que o processo de refraçãoretradução dá-se dentro dos limites e possibilidades, resistências e criatividade de cada IES em seus reais contextos e especificidades. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3584 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR, Márcia Ângela da S. BRZEZINSKI, Iria. FREITAS, Helena Costa L. SILVA, Marcelo Soares Pereira da. PINO, Ivany Rodrigues. Diretrizes Curriculares do Curso de Pedagogia no Brasil: disputas de projetos no campo da formação do profissional da educação. Educ. Soc., Campinas, vol. 27, n.96 – Especial p. 819-842, out. 2006. Disponível em: http://www.cedes.unicamp.br. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo.[L’ analyse de contenu] Tradução de Luís Antero Reto e Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 1977. BOURDIEU, Pierre. Os Usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: UNESP, 2004. BRASIL. MEC/CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO /Conselho Pleno. Parecer CNE/CP n 5/2005, aprovado em 13 de dezembro de 2005. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia. Relatoras: Célia Brandão Alvarenga Craveiro e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. BRASIL. MEC/CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO /Conselho Pleno. Parecer CNE/CP n 3/2006, aprovado em 21 de fevereiro de 2006. Reexame do Parecer CNE/CP n.5/2005, que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia. ___________. Resolução CNE/CP n 1/2006, aprovada em 15 de maio de 2006. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. FREITAS, Helena Costa Lopes de. Formação de professores no Brasil: 10 anos de embate entre projetos de formação. Revista Educação e Sociedade, v. 23, n. 80, setembro, 2002. Campinas. p. 136-167. LIBÂNEO, J. C. Pedagogia e Pedagogos, para quê? 11 ed. – São Paulo: Cortez, 2009. ____________. Pedagogia em Questão: entrevista com José Carlos Libâneo. Olhar de Professor, ponta Grossa, 10(1): 11-33, 2007. Disponível em: http://www.uepg.br/olhardeprofessor. PIMENTA, Selma Garrido (Org.). Pedagogia e pedagogos: caminhos e perspectivas. São Paulo: Cortez, 2002. ____________. Pedagogia, Ciência da Educação? São Paulo: Cortez, 2001. SCHEIBE, Leda. Diretrizes curriculares para o curso de Pedagogia: trajetória longa e inconclusa, Cadernos de pesquisa, v. 37, n.130, p. 43-62, jan./abr.2007. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3585 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior DESAFIOS E COMPETÊNCIAS DA FORMAÇÃO DOCENTE NO SÉCULO XXI EUCLIDES FERREIRA BARROS Graduando de Pedagogia / UFCG [email protected] HERCÍLIA MARIA FERNANDES Doutoranda em Educação / UFRN [email protected] RESUMO O pôster reflete a formação docente no contexto das transformações científicas e tecnológicas que caracterizam a contemporaneidade como “sociedade do conhecimento”. O objetivo do estudo é conceber quais paradigmas envolvem a formação docente na atualidade, considerando que as mídias e multimídias têm contribuído - de um lado -, para construção de uma nova racionalidade; por outro lado, têm provocado a inacessibilidade à informação e às tecnologias de trabalho, gerando exclusões sociais. Tais realidades suscitam debates sobre as funções da escola para que se possa formar um sujeito crítico e autônomo, capaz de questionar interesses e ideologias para melhor atuação social. Nesse sentido, o trabalho comporta o exame de referências que investigam, criticamente, os paradigmas que suscitam novas atitudes docentes à educação no século XXI. PALAVRAS-CHAVE: Formação docente. Funções da escola. Novas tecnologias educacionais. 1 INTRODUÇÃO As revoluções científicas e tecnológicas têm contribuído para formar uma nova racionalidade, no século XXI, pautada na informação e construção de saberes (MORIN, 2006), colocando desafios e competências à formação docente (LIBÂNEO, 2007). Atualmente, as escolas dispõem de grande acervo de mídias e multimídias, porém evidencia-se que as tecnologias da comunicação e informatização ainda não têm sido manuseadas coerentemente na sala de aula (ALMEIDA, 2000; ALMEIDA; MORAN, 2005). Talvez pela ausência de conhecimentos do professor sobre as novas tecnologias educacionais (DANTAS, 2009), realidade que estabelece íntimas relações com os cursos de formação docente (LIBÂNEO, 2007). Nesse sentido, convém o questionamento: quais paradigmas permeiam à formação docente no contexto das transformações que afetam a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3586 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior contemporaneidade e colocam novos desafios e competências à educação no século XXI, dentre eles o uso das mídias e multimídias na sala de aula? Este pôster relaciona-se aos estudos na disciplina “Tecnologias e Educação”, do curso de Pedagogia, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG/Cajazeiras–PB). O objetivo é refletir os paradigmas que envolvem a formação docente na atualidade, considerando que as novas tecnologias têm contribuído para construir uma nova racionalidade. Porém, têm provocado, igualmente, a inacessibilidade à informação e às tecnologias de trabalho, gerando exclusões sociais. O trabalho envolve o exame de referências que debatem a construção do conhecimento na contemporaneidade (MORIN, 2006); bem como fontes que refletem a formação continuada docente (LIBÂNEO, 2007), especialmente em relação ao uso das mídias e multimídias na educação do século XXI (ALMEIDA, 2000; ALMEIDA & MORAN, 2005; DANTAS, 2009). Espera-se, com essas atitudes, que o pôster contribua para ampliar as discussões em torno da formação docente, sobretudo em relação aos desafios que as novas tecnologias colocam à prática educativa. 2 DESAFIOS, COMPETÊNCIAS E FUNÇÕES DA ESCOLA NOS PARADIGMAS EDUCACIONAIS DO SÉCULO XXI As transformações políticas, econômicas, socioculturais, científicas e tecnológicas que afetam a contemporaneidade colocam novas necessidades à vida humana e desafiam o conhecimento dos professores. A educação, na atualidade, consiste um complexo jogo de relações, onde os meios tecnológicos estão inseridos no processo de aprendizagem dos detentores dos meios de produção. Nesse sentido, Edgar Morin (2006) alerta para a emergência do “conhecimento pertinente”, visando atender às aspirações da “sociedade do conhecimento” através de uma educação de qualidade para o século XXI. Para Morin (2006), a luta pela conquista do conhecimento é um dos grandes desafios da atualidade, posto que as impressões e emoções humanas podem gerar erros e ilusões, considerando que: “Ao erro da percepção acrescenta-se o erro intelectual” (MORIN, 2006, p. 20). Todavia, quando o conhecimento é conquistado torna-se um poderoso meio para detecção de erros e ilusões gerados pelos paradigmas da ciência, haja vista que “nenhuma teoria científica está imune para sempre contra o erro” (MORIN, 2006, p. 21). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3587 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Assim, compreende-se que é na escola que se aprende a sistematizar de maneira reflexiva o pensamento, o que leva a compreensão da convivência social. Ademais, não se pode negar que a educação visa estudar o conhecimento que, em muitos casos, é “cego” e não tem a preocupação de se fazer conhecer com rigor e criticidade. Nesse sentido, é tarefa do ensino “mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão” (MORIN, 2006, p. 19). O conhecimento pertinente é um conhecimento que adere o objetivo preciso do conhecimento adquirido em diversas etapas da vida. Constituem exemplos as várias disciplinas que são estudadas no decorrer dos anos escolares, estas possuem um conhecimento invisível e as concessões entre elas também se tornam invisíveis. Isso, porém, não significa que é preciso aprender primeiro uma parte das matérias para depois compreender as outras. Ao contrário, esse processo deve situar-se em um conhecimento conjugado. Não apenas uma disciplina oferece ao estudante o conhecimento pertinente, mas a junção de todo o aprendizado; tendo em vista que “para que o conhecimento seja pertinente, a educação deverá torná-los evidentes” (MORIN, 2006, p. 35-36). Libâneo (2007), por sua vez, adverte que as novas exigências e competências que a sociedade do conhecimento impõe à educação constitui oportunidade ímpar para a redefinição das funções sociais da escola; sobretudo em relação à formação docente. Se não houver uma formação voltada às novas competências e atitudes, corre-se o risco de o professor ser substituído pelas novas tecnologias da comunicação e informação. O professor necessita ter clareza das possibilidades que os novos meios tecnológicos podem oferecer à aprendizagem, o que requer formação continuada adequada. Todavia, considera-se que as mudanças ocorridas podem trazer, igualmente, conflitos à subjetividade e às relações humanas. A padronização de hábitos e consumo pode levar à construção de uma moral desgastada e descartável. O individualismo e o egoísmo acentuam-se, levando a perda de práticas necessárias à vida coletiva, haja vista que: “Cresce o poder dos meios de comunicação [...], que passa a exercer um domínio cada vez mais forte sobre crianças e jovens, interferindo nos valores e atitudes, no desenvolvimento de habilidades sensoriais e cognitivas” (LIBÂNIO 2007, p. 16). Por outro lado, todos, de alguma forma, dispõem de contato com algum meio que, em muitos casos, transmite informações “aligeiradas”. Porém, o novo modelo de produção e desenvolvimento econômico exige do professor uma formação profissional que se adapte aos novos valores; considerando que “o novo paradigma produtivo [...] provoca modificações no ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3588 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior processo de produção, no perfil dos trabalhadores, nas relações de trabalho, nos hábitos de costumes” (LIBÂNEO, 2007, p. 19). Assim, a nova economia da educação pauta-se em uma lógica da necessidade de (re)qualificação profissional no intuito de lançar no mercado de trabalho sujeitos com habilidades de formação tecnológica e informatizada. Logo, a educação democrática chega a ser uma ilusão, segundo Libâneo, pois o que parece ter maior importância para a sociedade contemporânea é o desenvolvimento econômico e não, propriamente, o desenvolvimento pessoal de forma igualitária. Nesse contexto, a assunção do professor enquanto mediador do ensino consiste uma prioridade. O docente deve considerar as ideias prévias dos discentes, redimensionandoas para o desenvolvimento de experiências e significados mediados por estímulos educativos; pois consiste tarefa do educador: “Prevê condições e meios cognitivos para sua modificação por parte dos alunos e orientá-los, intencionalmente, para objetivos educativos” (LIBÂNEO, 2007, p. 29). Outro desafio colocado à prática docente condiz à troca de uma escola pluridisciplinar por uma escola interdisciplinar. Para Libâneo (2007), a escola pluridisciplinar é aquela cujas disciplinas do currículo são justapostas e isoladas entre si. A escola que adere, por sua vez, ao sistema interdisciplinar inclui, em sua organização curricular, novos parâmetros. É uma escola colaboradora com o desenvolvimento cognitivo do aluno, desafia as suas faculdades, induzindo-o às práticas científicas integradoras de conceitos e métodos. Nessa perspectiva interdisciplinar há a emergência do professor conhecer estratégias para potencializar o próprio pensamento, estimulando os alunos a “aprender a aprender”. Para tanto, é função do educador se empenhar na descoberta crítico-reflexiva dos conteúdos. Esses valores relacionam-se às mudanças colocadas à vida social, que traduzem as aspirações e necessidades da sociedade do conhecimento, das múltiplas formas de aprender através das mídias e multimídias (LIBÂNEO, 2007). Deve-se assumir a sala de aula como um processo de comunicação. Para que isso ocorra, o professor necessita buscar informações e compartilhá-las de modo a motivar novas informações; tendo em vista que “toda prática educativa intencional envolve capacidades comunicativas”. O que, na visão de Libâneo, exige a “leitura pedagógica dos meios de comunicação e informatização” (LIBÂNEO, 2007, p. 39). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3589 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para que as mudanças paradigmáticas venham, de fato, a adentrar no universo da sala de aula, faz-se necessária a formação continuada do professor, especialmente que contemple uma leitura pedagógica das mídias e multimídias. A formação do professor, aliada à prática reflexiva, deverá se especializar com os aparelhos de hardware no intuito de informatizar docentes e discentes para além “do uso em disciplinas que visam preparar os alunos para o domínio de recursos computacionais” (ALMEIDA, 2000, p. 15). O professor necessita capacitar-se para atender às expectativas do ensino informatizado. As atividades com os softwares, atualmente, mediante pesquisas de Dantas (2009), têm se apresentado como momentos de “lazer ou fuga”. Essa realidade parece justificar-se pela ausência de domínios conceituais e técnicos, que remetem professores e alunos para a aula de informática sem clareza dos objetivos educativos que, em síntese, deveriam pautar-se numa prática de letramento para as novas tecnologias da comunicação e informatização. Todavia, os alunos, em grande medida, se apresentam familiarizados à linguagem informacional, utilizando espaços como o Orkut, Facebook, MSN, etc. O que exige do professor o aprimoramento de novas competências, de modo a contribuir para a construção de “conhecimentos pertinentes” (MORIN, 2006). Para tanto, faz-se necessária a ressignificação das funções da escola nas discussões que envolvem a sociedade do conhecimento, especialmente a formação continuada docente (LIBÂNEO, 2007). REFERÊNCIAS ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de. Informática e Formação de professores. 1. ed. Brasília: Ministério da Educação, 2000. ______; MORAN, José Manuel (Orgs.). Integração das tecnologias na educação: um salto para o futuro. Secretaria de Educação a Distância. Brasília: Ministério da Educação, Seed, 2005. DANTAS, Aleksandre Saraiva. Percepções docentes acerca do uso da informática nas escolas públicas de Mossoró. In: Pedagogia crítica da mídia: a teia da mídia-educação nas redes sociais. Natal-RN: EDUFRN, 2009. LIBÂNEO, José Carlos. Adeus Professor, adeus professora? : novas exigências educacionais e profissão docente. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2007. MORIN, Edgar. Os setes saberes necessário para a educação do futuro. Tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya. Revisão técnica de Edgard de Assis Carvalho. 11. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2006. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3590 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior REESTRUTURAÇÃO CURRICULAR DE CURSOS DE LICENCIATURA EM QUÍMICA: DIMENSÃO PRÁTICA EM QUESTÃO Fabíula Torre da Costa Francislene Lúcia de Alencar Tânia Maria Lima Beraldo Universidade Federal do Mato Grosso - UFMT Resumo Com a promulgação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores, os cursos de licenciatura passaram por reestruturações curriculares para cumprir umas das exigências contidas nesse documento oficial, que se refere à carga horária. Neste trabalho buscamos analisar como ocorreu esse processo em dois cursos de Licenciatura em Química, ofertados em duas Instituições de Ensino Superior de Mato Grosso. Notamos que as instituições e seus grupos sociais têm diferentes histórias, concepções pedagógicas e formas de organização, respondendo diferentemente ás mudanças curriculares, reinterpretando-as. Palavras-Chave: Reestruturação Curricular; Diretrizes Curriculares Nacionais; Licenciatura em Química. Abstract With the promulgation of the National Curriculum Guidelines for Teacher Education, the undergraduate course curriculum have undergone restructuring to meet one of the requirements contained in this official document, which refers to the workload. We aim in this work was to analyze how the process in two degree courses in chemistry, offered in two Higher Education Institutions of Mato Grosso. We note that institutions and social groups have different histories, educational concepts and forms of organization, responding differently to the curriculum changes, reinterpreting them. Keywords: Restructuring Curriculum, National Curriculum Guidelines; Degree in Chemistry. Introdução Apoiando-nos em pesquisadores, tais como Stephen Ball, Alice Lopes, e Elizabeth Macedo, consideramos as políticas educacionais um fenômeno complexo que articula diferentes contextos. No mundo globalizado a produção de políticas torna-se uma prática ainda mais complexa, pois as influências do contexto global estão cada vez mais intensificadas. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3591 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Isso explica a utilização de termos como “convergência de políticas”, “transferência de políticas”, “empréstimo de políticas”, “epidemias de políticas” e até mesmo no “fim da política”. De fato, não há como negar as influências do contexto global nas políticas nacionais e locais, todavia, é preciso considerar que na produção de políticas há sempre possibilidades de tradução e de recontextualização de sentidos e proposições e, portanto de criação. Por essa razão, Ball (2001, 2004, 2006) defende a ideia de política como um ciclo. A abordagem do ciclo de política requer que se considere a articulação entre três contextos principais: de influência, de produção de textos, da prática, constituindo-se, portanto, em algo extremamente complexo. A criação das políticas nacionais é, inevitavelmente, um processo de “bricolagem”; um constante processo de empréstimo e cópia de fragmentos e partes de ideias de outros contextos, de uso e melhoria das abordagens locais já tentadas e testadas, de teorias canibalizadoras, de investigação, de adoção de tendências e modas e, por vezes, de investimento em tudo aquilo que possa vir a funcionar. A maior parte das políticas são frágeis, produto de acordos, algo que pode ou não funcionar; elas são retrabalhadas, aperfeiçoadas, ensaiadas, crivadas de nuances e moduladas através de complexos processos de influência, produção e disseminação de textos e, em última análise, recriadas nos contextos da prática (BALL, 2001, p. 102) O contexto de influência é aquele em que os discursos políticos são construídos e os conceitos adquirem legitimidade, formando um discurso de base para as políticas, o que ocorre a partir de embates de interesses entre grupos diversos. O contexto da produção de texto está articulado, normalmente, com a linguagem do interesse público mais geral. Os textos políticos são a concretização de uma política e surgem como resultado de disputas e acordos, visto que os grupos que atuam dentro dos diferentes lugares da produção de textos competem para controlar as representações da política. O contexto de produção do texto político articula-se com o contexto de influência e reflete os conflitos e confrontos dos discursos circulantes. Os textos políticos são, assim, uma forma de representação da política. O contexto da prática é onde a política pode produzir efeitos e consequências. Porém, nele ocorrem também hibridismo e recontextualizações que podem promover mudanças e transformações significativas nas decisões formuladas nos demais contextos. Ao defender essa concepção de política Ball (2006) questiona a visão daqueles que a consideram algo feito para ser posto em prática. As políticas normalmente não nos dizem o que fazer, elas criam circunstâncias nas quais o espectro de opções disponíveis sobre o que fazer é reduzido ou modificado ou nas quais metas particulares ou efeitos são estabelecidos. Uma resposta ainda precisa ser construída no contexto, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3592 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior contraposta ou balanceada por outras expectativas. Tudo isso envolve algum tipo de ação social criativa (BALL, 2006, p. 26). Embora os textos políticos possam se caracterizar como parte da legislação é preciso considerar que eles não estão fechados. A transmissão de significados e de proposições do contexto de sua produção até a instituição educativa está sujeita a processo de filtração interpretativa, resiliências, contestação e recontextualizações. Ainda que a lei, em seu conjunto, aspire intervir no funcionamento dos demais contextos, as orientações oficiais são interpretadas de diferentes maneiras nos contextos locais, obtendo-se assim resultados muito diferentes do que foi proposto na política (BALL e BOWE, 1998). No contexto das atuais reformas educacionais a formação inicial e continuada de professores tem ocupado lugar de destaque na pauta das discussões. Desde a promulgação da LDB, um leque de medidas normatizadoras vem sendo assumidas em nível federal no sentido de orientar o sistema educacional brasileiro. São medidas que tecem um largo espectro de políticas educacionais com interesses bem específicos, porém, referenciadas umas nas outras. As diretrizes curriculares nacionais para formação de professores da educação básica em nível superior, proposta pelo Parecer CNE/CP 09/2001, fazem parte dessas medidas. A proposta de reformulação contida nas diretrizes parece fundamentar-se na ideia de que há um problema pedagógico, anunciado pela inadequação dos currículos de formação, e um problema organizacional, que se define pela insuficiência das atuais instituições formadoras terem capacidade para dar conta das demandas de formação de professores (MACEDO, 2000). Ressaltamos que as políticas educacionais que estão em curso no Brasil não são específicas do nosso país. Elas estão articuladas ao “pacote” de reformas que ocorrem no contexto mundial (de influência), fato que explica porque alguns teóricos falam numa espécie de “epidemia de políticas”. Ball (2003) considera que os elementos chave da reforma que ocorre pelo mundo, em todos os níveis de ensino, são referenciados na lógica do mercado, na capacidade de gestão e na performatividade. As tecnologias políticas da reforma não objetivam apenas mudança técnica e estrutural das instituições. Elas intentam também “reformar” professores e mudar o que significa ser professor. Em outras palavras, buscam reformar as práticas pedagógicas, a subjetividade e, por conseguinte, a identidade social do professor. No âmbito das reformas os professores são instados a refletir sobre a própria atuação e sobre a própria produtividade. Esta tem sido baseada nos resultados da avaliação do ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3593 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior desempenho das instituições, (escolas, universidades), dos alunos e dos professores. Assim, o professor é motivado a se sentir responsável e comprometido com a gestão do próprio trabalho, ou seja, com a própria performatividade. Isto explica a incorporação do discurso da centralidade da formação na prática docente historicamente propalado pelos educadores e suas entidades científicas como uma forma de superar os muitos problemas dos cursos de licenciatura. Entendemos que a prática é espaço de produção de conhecimentos. Essa concepção exige considerá-la para além da atividade pragmática, ou seja, do simples fazer, pois ela é um campo complexo de resignificação de conhecimentos e, portanto, de (re)criação de sentidos, ainda que dentro de limites postos pela dinâmica do sistema de ensino. A prática não é apenas uma caixa de ressonância das definições oficiais, tampouco é um espaço autônomo que constrói sentidos para o currículo a despeito das ações governamentais. O contexto da prática se constitui, efetivamente, como produtor de sentidos para as políticas de currículo, ressignificando definições curriculares oficiais e vendo suas práticas e seus textos serem ressignificados por essas mesmas definições (LOPES, 2008, p. 84). Nessa concepção a prática pedagógica constitui-se num dos contextos das políticas educacionais. Ela faz parte da “trajetória das políticas”, conforme acepção defendida por Stephen Ball (2006). O contexto da prática pedagógica, constituído pela diversidade de instituições educativas, é sempre singular, pois, as condições, recursos, histórias e compromissos locais são sempre diferentes. Destarte, há possibilidade de atribuições de sentidos diferenciados e, consequentemente, possibilidades de recontextualização. A recontextualização envolve combinação de lógicas globais e locais produzindo, ao mesmo tempo, identidade e diferença, homogeneidade e heterogeneidade, desterritorialização e reterritorialização, mudança e estabilidade (LOPES, 2008). É com base neste entendimento que desenvolvemos esse estudo, que apresenta o processo de reestruturação curricular de dois cursos de Licenciatura em Química, sendo um desenvolvido pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Cuiabá, e outro ofertado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT) em parceria com a Universidade Aberta do Brasil (UAB). Buscamos, portanto, estabelecer relações entre o contexto da prática e contextos mais amplos (de influência e de produção de textos) levando em conta que, por mais que as políticas oficiais tenham interesse em produzir ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3594 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior hegemonias, há sempre possibilidades de criação resultando assim, em recontextualização por hibridismos49. Focalizamos na primeira parte algumas considerações sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores. Na segunda parte apresentamos a caracterização dos cursos ofertados pela UFMT e pela UAB/IFMT e expomos como ocorreu o processo de reestruturação curricular nesses dois cursos. Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Com a implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores da Educação Básica, os cursos de licenciatura tiveram que adequar seus currículos, para cumprimento de alguns itens expostos por tal documento oficial, dentre eles a carga horária destinada a prática como componente curricular (400 horas), ao estágio curricular supervisionado (400 horas) e as atividades complementares (200). Notamos assim, um destaque atribuído à dimensão prática. Segundo o Parecer CNE/CP 09/2001, que contempla a proposta das referidas diretrizes, os cursos de formação de professores, pautados no modelo de formação referenciado no esquema “3+1”, em que os três primeiros anos eram destinados ao estudo de disciplinas específicas e o ultimo ano destinado ao estudo de disciplinas pedagógicas, possuía limites na formação docente, destacando-se “o preparo inadequado dos professores cuja formação de modo geral, manteve predominantemente um formato tradicional, que não contemplava muitas das características consideradas, na atualidade, como inerentes à atividade docente” (BRASIL, 2001, p.4). Observamos dessa forma, que essa proposta, tendo a dimensão prática valoriza, parece ser uma tentativa de superação do modelo de formação citado. Entendemos que prática como componente curricular, proposta pelas diretrizes, é considerada o eixo articulador entre a teoria e a prática, portanto ela deve estar presente ao longo do processo formativo, não se restringindo ao estágio, fazendo-se presente no interior das áreas ou disciplinas. 49 Segundo os estudos de Lopes (2004), Ao circularem no corpo social da educação, os textos, oficiais e não oficiais, são fragmentados, alguns fragmentos são mais valorizados em detrimento de outros e são associados a outros fragmentos de textos capazes de ressignificá-los e refocalizá-los. A recontextualização desenvolve-se tanto na transferência de políticas entre os diferentes países, na apropriação de políticas de agências multilaterais por governos nacionais, quanto na transferência de políticas do poder central de um país para os governos estaduais e municipais, e destes para as escolas e para os múltiplos textos de apoio ao trabalho de ensino. A medida que as políticas curriculares são entendidas como políticas culturais é possível associar o conceito de hibridismo aos processos de recontextualização dessas políticas. No mundo globalizado, os processos de recontextualização são, sobretudo, produtores de discursos híbridos. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3595 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Destarte, apresento a seguir como se deu o processo de reestruturação curricular em dois cursos de Licenciatura em Química, ofertados por instituições do estado de Mato Grosso. O curso de Licenciatura em Química na UFMT – Processo de reestruturação curricular Em Mato Grosso o curso de Química foi oferecido somente a partir de 1972, após a criação da Fundação Universidade Federal de Mato Grosso pela lei federal 5.647, de 10 de dezembro de 1970. A UFMT incorporou o ICLC (Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá) e a Faculdade Federal de Direito de Cuiabá dando continuidade aos cursos ofertados por estas instituições. A partir da aprovação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Nº 9394/96, a Educação Brasileira vivenciou um enorme movimento de reflexão, dirigido, entre outras coisas, ao estabelecimento de novas diretrizes curriculares em seus diversos níveis. Contudo, muito antes da implementação das diretrizes, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) apresentava preocupação com a reorganização do currículo do curso de Licenciatura plena em Química, na perspectiva de estreitar a relação entre formação acadêmica e exercício profissional. De acordo com o projeto pedagógico do curso de Licenciatura Plena em Química a UFMT iniciou, em 1994, um processo de avaliação do seu curso de formação de professores de Química para Educação Básica. Essa avaliação do curso, realizada por Santos e publicada em 1996, evidenciou a necessidade de reestruturação curricular baseado em vários aspectos, tais como: identidade do curso de Licenciatura Plena em Química como um curso que prepara o discente para o exercício do magistério; simultaneidade da formação profissional docente; oferecimento da disciplina “Projeto de Ensino de Química”, que deveria acontecer ao longo de todo o curso com apresentação final de monografia; e oferecimento de disciplinas de Prática de Ensino de Química e Estágio Supervisionado num total de 360 horas, entre outros. Com a instituição, pelo Conselho Nacional de Educação, das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de Licenciatura, de graduação plena, mediante Resolução CNE/CP 1, de 18 de fevereiro de 2002, a comissão de reestruturação interrompeu o trabalho que estava em andamento e decidiu participar do processo de debates sobre as Diretrizes, no âmbito local e nacional. Contudo, segundo o projeto pedagógico do curso, o rompimento com as estruturas curriculares anteriores por parte da comunidade acadêmica apresentou-se com um dos prováveis motivos para que o trabalho da comissão não tivesse avanço, à medida que a discussão sobre a ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3596 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior atuação na formação dos professores para Educação Básica não encontrou ressonância, mas, sobretudo, resistências inclusive entre membros da própria comissão. A negação da carga horária de práticas como componentes curriculares e do estágio supervisionado geraram discussões ao longo de alguns anos. Assim, em um processo lento de reestruturação curricular, o curso veio de 2005 até 2008 reorganizando e discutindo o currículo, em uma constante troca dos membros da comissão de reestruturação (UFMT, 2009). Em janeiro de 2009 o curso recebeu diligência. Nessa diligência, o Ministério da Educação, mediante a sua Secretaria de Educação Superior (SESu) e Diretoria de Supervisão (DESUP), solicitou a adequação da estrutura curricular mais especificamente no que diz respeito às atividades do curso, ao perfil do egresso e estágio curricular, mantendo conformidade com as Diretrizes Curriculares Nacionais. Essas solicitações foram atendidas e enviadas à Pró-Reitoria de Ensino de Graduação, que procedeu aos encaminhamentos necessários. Em sequência a resposta da diligência, a comissão finalizou os trabalhos de reestruturação curricular. A estrutura curricular, antes do processo de reestruturação, contava com 3405 horas, distribuídas em cinco blocos, apresentados a seguir: Disciplinas de Formação Geral (obrigatórias) – 1005 horas; Disciplinas de Formação Profissional (obrigatórias) – 1650 horas; Disciplinas Pedagógicas (obrigatórias) – 630 horas; Disciplinas Optativas (sendo duas obrigatórias) – 120 horas. A nova e recente estrutura curricular do curso de Licenciatura em Química apresenta 3065 horas distribuídas da seguinte forma: disciplinas obrigatórias – 2445 horas; disciplinas obrigatórias optativas – 120 horas; Práticas Pedagógicas como Componente Curriculares – 420 horas; Estágio Curricular obrigatório – 420 horas; e Atividades Complementares – 200 horas. De acordo com o projeto pedagógico, o curso conta com um corpo docente qualificado, apresentando quatro professores (04) especialistas atuando nas áreas de Bioquímica, Química Inorgânica, Química Analítica e Química Orgânica; nove (09) mestres atuantes nas áreas de Química Analítica, Bioquímica, Química Orgânica, Química Inorgânica e Ensino de Química; além de dezesseis (16) doutores que atuam nas áreas de Química Analítica, Bioquímica, Química Orgânica, Química Inorgânica, Físico- Química e Ensino de Química. Analisando o projeto pedagógico do curso, encontramos um quadro com disciplinas equivalentes entre as duas grades, conforme mostra a tabela a seguir: Currículo Antigo Currículo Reestruturado --------------- Introdução à Educação (60h) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3597 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Psicologia da Educação V (60 h) Psicologia da Aprendizagem (60h) Química Geral I (105h) Química Geral I (90h) Química Geral I Química Geral Experimental I (30h) Introdução a Ciência da Computação (60h) Introdução a Ciência da Computação (60h) Calculo Diferencial e Integral I (60h) Cálculo Diferencial e Integral I (60h) Vetores e Geometria Analítica (90h) Vetores e Geometria Analítica (60h) Pratica de Ensino de Química I (60h) Instrumentação para o Ensino de Química I (60h) Psicologia Educacional VI (60h) Psicologia Educacional (60h) Química Geral II (60h) Química Geral II (75h) Química Geral II Química Geral Experimental II (30h) ---------- Metodologia e Redação Científica (60h) Calculo Diferencial e Integral II (60h) Cálculo Diferencial e Integral II (60h) Física I (90h) Física Geral I (90h) Prática de Ensino de Química II (60h) Instrumentação para o Ensino de Química II (60h) Estrutura e Funcionamento do Ensino (60h) Química Inorgânica I (75h) Organização e Funcionamento da Educ. Básica (60h) Química Inorgânica I (75h) Química Orgânica I (90h) Química Orgânica I (90h) Probabilidade e Estatística (90h) Estatística para Química (45h) ---------- História e Filosofia da Química (45h) Física Geral II (75h) Física Geral II (60h) ------------ Projeto de Ensino de Química (60h)** Didática III (60h) Didática Geral (60h) Química Inorgânica II (90h) Química Inorgânica II (60h) Química Orgânica II (90h) Química Orgânica II (60h) Química Analítica II (90h) Química Analítica Qualitativa (90h) Físico-Química I (75h) Físico-Química I (60h) Física Geral III (90h) Laboratório de Física (30h) Prática de Ensino de Química III (180h) Estágio Supervisionado I (120h) Biologia (75h) Biologia (60h) Química Orgânica I, II, III Química Orgânica Experimental (30h) Química Orgânica III (75h) Química Orgânica III (60h) Química Analítica II (90h) Química Analítica Quantitativa (90h) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3598 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Físico-Química II (75h) Físico-Química II (60h) Legislação e Ética Profissional (30h) Legislação e Ética Profissional (30h) Prática de Ensino de Química III (180h) Estágio Supervisionado II (60h) Mineralogia (90h) Geologia para Química (60h) Química Ambiental (75h) Química Ambiental (60h) Bioquímica Geral (120h) Bioquímica I (105h) Química Analítica III (90h) Química Analítica Instrumental (75h) Físico-Química III (90h) Físico-Química IV (90h) ------------ Estágio Supervisionado IV (1200h) ------------- LIBRAS (60h) Química Bromatológica (75h) Química dos Alimentos (60h) OPTATIVA (120h) OPTATIVA (90h) Físico-Química I, II e III Físico-Química Experimental I (30h) ------------ Iniciação a Pesquisa em Ensino de Química (60h) *Quadro presente no PPC (UFMT, 2009, p. 195-197) Nesse quadro notamos que não aparecem as seguintes disciplinas ofertadas na matriz curricular atual do curso: Físico-Química III (60h); Estágio Supervisionado III (120h); Toxicologia (45h); Bioquímica II (75h); e Tecnologias Educacionais para o Ensino de Química (45h). Também não aparecem as seguintes disciplinas da grade anterior do curso: Filosofia da Ciência (60h); Química Orgânica IV (90h); Química Inorgânica III (105h); Química Analítica IV (90h); e Bioquímica Educacional (90h). Observamos que o maior diferencial entre as grades curriculares está na inserção de algumas disciplinas (Introdução à Educação; História e Filosofia da Química; Projeto de Ensino de Química; Tecnologias Educacionais para o Ensino de Química; Toxicologia; Estágio Supervisionado III e IV; Libras; e Iniciação a Pesquisa em Ensino de Química); na exclusão de outras disciplinas (Filosofia da Ciência; Química Orgânica IV; Química Inorgânica III; Química Analítica IV; e Bioquímica Educacional); além da inclusão de 420 horas destinadas á Prática como Componente Curricular, distribuídas nas seguintes disciplinas: Química Geral I (1º semestre); Instrumentação para o Ensino de Química I (2º semestre); Instrumentação para o Ensino de Química II (3º semestre) ; Química Inorgânica I (3º semestre); Química Orgânica I (3º semestre); Projeto de Ensino de Química (4º semestre); Química Analítica Qualitativa (4º semestre); Bioquímica I (6º semestre); Toxicologia(7º semestre); Tecnologias Educacionais ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3599 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior para o Ensino de Química (7º semestre). Notamos que a prática como componente curricular se faz presente em disciplinas específicas (6), e em disciplinas de cunho pedagógico (4). No que se refere a prática como componente curricular, notamos que o projeto pedagógico do curso apresenta consonância com as normativas vigentes, permitindo ao licenciando um espaço em que a prática esta presente desde o inicio do curso, permeando toda a formação do professor. A relação teoria-prática, entendida como eixo articulador da produção do conhecimento, na dinâmica, estará presente desde o primeiro semestre do curso, mediante atividades incluídas na carga horária semanal, das diferentes disciplinas que compõe a grade curricular. (UFMT, 2009, pg.30) Defende-se a realização de situações de aprendizagem que mantenham articulação teoria-prática, condição básica para a produção de saberes docente. O curso de Licenciatura em Química no IFMT/UAB - Processo de (re)estruturação curricular O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT) participou do projeto de implantação da UAB, através dos editais 1 e 2 com os seguintes cursos: Curso Superior de Tecnologia em Desenvolvimento de Sistemas para Internet, e Licenciatura em Química, com oferta de vagas distribuídas em 7 polos de apoio presencial no estado. Com base no edital MEC-SEED nº 1 de 20 de dezembro de 2005, o IFMT, tendo em vista sua missão institucional de desenvolver pessoas e organizações e seu compromisso com a qualidade da Educação e, orientando-se pelos princípios e valores da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e do Projeto de Diretrizes Curriculares Nacionais para o Cursos de Licenciatura, e ainda, pelo levantamento de necessidades e demandas realizadas entre profissionais da área deste estado, se propôs a criar um curso de habilitação de Licenciatura Plena em Química, na modalidade a distância (EAD), através de seu Departamento da área de Química e Meio Ambiente. (IFMT, 2010) A proposta do IFMT visa fortalecer a efetiva profissionalização do professor, assim como valorizar a Escola, dando ênfase a formação específica de professores em conformidade com a demanda social, vislumbrando também propiciar formação aos que já atuam no exercício da profissão sem a qualificação exigida por Lei. (IFMT, 2010 pg. 17) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3600 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Conforme o projeto pedagógico do curso de Licenciatura em Química, modalidade á distância, o currículo de um curso assegura a formação para uma competente atuação profissional, portanto as atividades desenvolvidas devem articular harmoniosamente as dimensões humana, técnica, político-social e ética. Nessa perspectiva, no decorrer do curso devem ser considerados alguns princípios, dentre eles a relação entre a teoria e prática. Apesar do curso de Licenciatura em Química ofertado pelo IFMT/ UAB ser recente, o mesmo já passou por uma reestruturação curricular. O curso apresenta hoje uma carga horária de 2980 horas, sendo constituída de 1940 horas de conteúdos curriculares de natureza científico-cultural; 440 horas de prática como componente curricular; 200 horas de atividades acadêmico-científico-culturais; e 400 horas de estágio curricular supervisionado. O curso tem a duração de seis (6) semestres, com o tempo ideal de dez (10) semestres para conclusão. Anteriormente a reestruturação curricular, o curso contemplava 3000 horas, que deveriam ser cursadas em três (3) anos, distribuídas da seguinte forma: 2000 horas de disciplinas obrigatórias, 400 horas de Prática como Componente Curricular, 400 horas de Estágio Curricular Supervisionado e 200 horas de atividades complementares. O curso conta hoje com um quadro docente diversificado, tendo três (3) professores graduados nas áreas de Química, Engenharia de Alimentos e Matemática; oito (8) especialistas nas seguintes áreas de formação: 3 em Química, 1 em Engenharia Química, 2 em Matemática, 1 em Pedagogia e 1 em Engenharia Elétrica-Engenharia Segurança; dezessete (17) mestres, formados nas seguintes áreas: 4 em Química, 2 em Geografia, e em Farmácia-Bioquímica, 2 em Física, 1 em cada uma das áreas a seguir, Economia, Nutrição, Engenharia de Alimentos, Artes, Português, e Filosofia; e cinco (5) doutores, sendo: 4 em Química e 1 em Farmácia-Bioquímica. Além disso, existem dois (2) professores mestrandos (História e Biologia); e cinco (5) doutorandos (Química, Letras, Inglês, e Biologia). Apresento a seguir um quadro, contendo as disciplinas ofertadas antes e após a reestruturação curricular, nos permitindo observar as principais mudanças ocorridas: Currículo anterior Currículo atual Química - Metodologia e prática I (40h) Física - Metodologia e Prática I (40h) Fundamentos Sócio-Antropológicos da Educação (60h) Álgebra Linear e Geometria Analítica (60h) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3601 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Biologia - Metodologia e Prática I (40h) Química Geral (60h) Fundamentos da Matemática (60h) Língua Portuguesa (40h) -------------Química Geral I (100h) Fundamentos da Matemática (60 h) Língua Portuguesa (60 h) Introdução as Tecnologias para EAD (60h) Introdução a Educação a Distância – EaD (60h) Química - Metodologia e prática II (40 h) Química Geral II (80 h) Física - Metodologia e Prática II (40 h) Biologia - Metodologia e Prática II (40 h) Estatística (40 h) Cálculo Diferencial e Integral I (60 h) Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento (60 h) Química Orgânica I (60 h) --------------Biologia Geral (80 h) Fundamentos da Estatística Aplicada à Química (40h) Cálculo Diferencial e Integral I (60 h) Psicologia da Educação (60h) Química Orgânica I (60 h) Fundamentos das Ciências Ambientais (80h) Química e Educação Ambiental (80 h) Cálculo Diferencial e Integral II (60 h) Cálculo Diferencial e Integral II (60 h) Química Orgânica II (60 h) Química Orgânica II (60 h) Química Inorgânica I (60 h) Química Inorgânica I (60 h) Fundamentos de Física (40 h) Física Fundamental I (60h) Filosofia das Ciências (40 h) Didática (60 h) Filosofia da Educação (60 h) Didática Geral (80h) Metodologia da Pesquisa Cientifica (60h) Metodologia Científica (60h) Legislação e Diretrizes Educacionais (60h) Legislação e Diretrizes Educacionais (60h) Química Inorgânica II (60h) Físico-Química I (60h) Química Inorgânica II (60h) Físico-Química I (60h) ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3602 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Cálculo Diferencial e Integral III (60h) Física Fundamental II (80h) Educação de Jovens e Adultos (60h) Educação de Jovens e Adultos (60h) Cultura e Ética Profissional (40h) Educação Especial (60h) Planejamento a Avaliação da Aprendizagem (60h) Educação Inclusiva (60 h) Química Analítica Qualitativa (80h) Química Analítica Qualitativa (80h) Bioquímica (40h) Fundamentos da Bioquímica (60h) Físico-Química II (60h) Optativa I (60h) Análise Instrumental (60h) Química Moderna (40h) Química Analítica Quantitativa (60h) Trabalho de Conclusão de Curso (60h) Físico-Química II (80h) Optativa I (60h) Análise Instrumental (60h) Química Moderna (40h) Química Analítica Quantitativa (80h) Fundamentos da Linguagem Brasileira de Sinais – LIBRAS (60h) Instrumentação para o Ensino da Química (60h) Optativa II (60h) Metodologia para o Ensino de Química (60h) -------- ------------ Estágio Supervisionado I (100 h) -------------- Estágio Supervisionado II (140 h) --------------- Estágio Supervisionado III (160 h) Notamos que algumas disciplinas deixaram de compor a grade curricular do curso (Química-Metodologia e Prática I; Física-Metodologia e Prática I; Biologia -Metodologia e Prática I; Química-Metodologia e Prática II; Física-Metodologia e Prática II; Biologia Metodologia e Prática II; Calculo Diferencial e Integral III; Cultura e Ética Profissional; e Trabalho de Conclusão de Curso), e que outras disciplinas passaram a compor a matriz curricular atual (Álgebra Linear e Geometria Analítica; Química Geral II; Biologia Geral; ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3603 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Fundamentos Sócio-Antropológicos da Educação; Física Fundamental II; Planejamento e Avaliação da Aprendizagem; LIBRAS; e Estágio Supervisionado I,II e III). A recente estrutura curricular do curso de licenciatura em Química apresenta 440 horas destinadas ao desenvolvimento da Prática como Componente Curricular, distribuídas pelas seguintes disciplinas: Metodologia Cientifica (1º semestre); Didática Geral (3º semestre); Planejamento e Avaliação de Aprendizagem (4º semestre); Metodologia para o Ensino de Química (4º semestre); Educação Inclusiva (5º semestre); Fundamentos da Linguagem Brasileira de Sinais- Libras (6º semestre); e Educação de Jovens e Adultos (6º semestre). Observamos que no referido curso, as disciplinas possuem cargas horárias totalmente contabilizadas como Prática como Componente Curricular. No projeto pedagógico o entendimento de prática, é que a mesma permita o desenvolvimento de habilidades para lidar com o conhecimento de maneira critica e criativa, estando presente em todas as disciplinas do curso. (...) todo conteúdo curricular do curso de Graduação Licenciatura em Química na Modalidade á Distância deve fundamentar-se na articulação teórica-prática que representa a etapa essencial do processo ensinoaprendizagem. Adotando este principio, a prática estará presente em todas as disciplinas do curso, permitindo o desenvolvimento de habilidades para lidar com o conhecimento de maneira crítica e criativa. (IFMT, 2010, p.15 – grifos nossos) Conforme constatamos a matriz curricular não está em consonância com este entendimento, que o próprio projeto pedagógico defende. Algumas Considerações Desenvolvemos o presente trabalho com o intuito de analisar como ocorreu o processo de reestruturação curricular em dois cursos de licenciatura em Química, desenvolvido por duas instituições distintas, baseando-se em um referencial teórico que considera as políticas curriculares cíclicas. Nesta concepção os textos políticos não estão fechados, pois a transmissão de significados do contexto de sua produção até a instituição educativa se acha submetida à filtração interpretativa, resiliências, contestação e recontextualizações. Com a analise realizada, notamos que os cursos tiveram entendimentos diferenciados quando distribuíram a carga horária destinada a prática como componente curricular. No currículo atual do curso ofertado pela UFMT, ela se faz presente desde o início ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3604 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior do curso, permeando disciplinas pedagógicas e específicas, levando ao entendimento de que existe uma articulação entre as áreas do conhecimento, apresentando aproximações com as intenções contidas nas normativas oficiais. Já no currículo do curso ofertado pela UAB/IFMT, apesar de a prática como componente curricular estar presente ao longo do processo formativo, observamos que ela se faz presente apenas em disciplinas de cunho pedagógico, apresentando um distanciamento com as orientações expressas nos documentos oficiais. Podemos afirmar assim, que ainda que a lei, em seu conjunto, aspire intervir no funcionamento dos demais contextos, as orientações oficiais são interpretadas de diferentes maneiras nos contextos locais, obtendo-se assim resultados, às vezes, diferentes do que foi proposto na política, mostrando uma abordagem das políticas como ciclo. Referências Bibliográficas BALL, S. Diretrizes Políticas globais e relações políticas locais em educação. In Currículo sem fronteiras, v.1, Jul/Dez.. 2001, pp. 99-116. Disponível em: www.currículosemfronteiras.org. acesso em 02 mar 2010. ________, S. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3606 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A INSERÇÃO MASCULINA DE EDUCANDOS NO CURSO DE PEDAGOGIA DA UFAL Fernanda Núbia da Silva Manuella Souza de Oliveira Universidade Federal de Alagoas - UFAL RESUMO A profissão docente no ensino fundamental das series inicias, se configurou historicamente como uma profissão majoritariamente feminina. Esse processo histórico de feminização da docência, no Brasil, teve seu início com a República, consolidando-se com a ampliação do ensino público no país ao longo do século XIX. Entretanto, assistimos recentemente um retorno dos homens na docência do ensino fundamental das series iniciais e educação infantil. Este retorno começa a ser sentido nos cursos de Pedagogia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Sendo assim, a finalidade do trabalho foi investigar: que fatores vêm trazendo os homens de volta à profissão docente da educação infantil e do ensino fundamental? Para tanto, investigou-se os alunos do sexo masculino do curso de Pedagogia da UFAL do regime semestral que ingressaram nos anos de 2006 até 2010, diante da óptica que estes alunos têm sobre a inserção em um ambiente culturalmente constituído como sendo apropriado para a mulher. Buscando compreender que impactos essa mudança pode trazer para a profissão e para o campo educacional, bem como analisar o papel da categoria do gênero para compreensão do trabalho docente hoje, enfatizando os estudos das masculinidades, esperando observar quais implicações este fenômeno recente ocasionará para a profissão, considerando sua tradição feminina. Palavras-chave: Formação Docente, Gênero; Masculinidade. ABSTRACT The teaching profession in the early grades of elementary school, was configured historically as a predominantly female profession. This historical process of feminization of teaching in Brazil began with the Republic, consolidating with the expansion of public education in the country throughout the nineteenth century. However, there has been a recent return of men in the teaching of basic education and early childhood education series. This return begins to be felt in the Faculty of Education, Federal University of Alagoas (UFAL). There fore, the purpose of the study was to investigate: what factors have brought the men back to the teaching profession of early childhood education and elementary school? To this end, we investigated the male students of the Faculty of Education UFAL half who joined the scheme in the years 2009 to 2010, before the optics that these students have about the inclusion in an environment constituted as culturally appropriate for women . Trying to understand what impacts this change can bring to the profession and the educational field as well as examining the role of the category of gender for understanding the teaching today, emphasizing the study of masculinities, hoping to see what implications this recent phenomenon will result for the profession considering their female tradition. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3607 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Historicamente a profissão docente das series iniciais esteve associada a características tidas como femininas. Recentemente, alguns estudos vêm apontando um aumento significativo de homens (re)ingressando na profissão. Este fato se faz notar principalmente nos cursos de formação de professores/as, como é o caso do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), objeto de nossa investigação. Dessa forma, nossa finalidade foi analisar a seguinte problemática: que fatores têm motivado os homens a retornarem a docência da educação infantil e do ensino fundamental? Pretendíamos com esta pesquisa analisar como os professores do sexo masculino estão se inserindo na profissão, a partir do ingresso no curso de Pedagogia. Nosso interesse foi questionar como está sendo essa inserção, tanto no curso, quanto na profissão, uma vez que estão atuando num ambiente que tradicionalmente se constituiu a partir de traços associados à imagem da mulher. Buscamos perceber que impactos esse processo pode ocasionar na profissão docente e para o ambiente escolar, através da óptica dos alunos homens, assim como analisar quais suas expectativas e de que forma estas afetam direta ou indiretamente o trabalho dos professores em sala de aula. A metodologia utilizada na pesquisa foi o Estudo de Caso numa abordagem qualitativa. Entendemos que tal metodologia permite-nos lançar mão de uma série de técnicas de coleta de dados, que vão da análise documental, às entrevistas e questionários, como forma de entender a complexidade da realidade que pretende investigar. Os sujeitos que fizeram parte da pesquisa foram os alunos do sexo masculino do curso semestral de Pedagogia da UFAL, com ano de ingresso a partir de 2006 até o ano de 2010, nos três turnos (matutino, vespertino e noturno). Na coleta de dados foi entregue um questionário para cada aluno do curso que voluntariamente optaram por participar da pesquisa. De um total de 29 alunos matriculados, foram entregues 23 questionários e destes, foram respondidos 18. Na terceira etapa foram realizadas 5 entrevistas com os alunos que já atuam ou atuaram em sala de aula nas séries iniciais do ensino fundamental. De acordo com estudos feitos na área da docência, compreendemos que a feminização das series iniciais, no Brasil, aconteceu num momento em que o campo educacional se expandia em termos numéricos com a crescente expansão do ensino público. Aliando-se a essa demanda de mão-de-obra o discurso construía-se à base de argumentações que consideravam a presença feminina como a mais apropriada para o magistério primário, atrelada às ideias de domesticidade e maternidade. Esses discursos tiveram o poder de reforçar estereótipos a que as mulheres estiveram submetidas socialmente ao longo de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3608 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior décadas, por entender-se que cuidar de crianças e educar era missão exclusivamente feminina (LOURO, 2007). Nesse aspecto, entendemos que as discussões que permeiam as relações de gênero são fundamentais para a compreensão do contexto o qual está inserida a docência, à medida que percebemos tal processo de hibridização na profissão. É através da diferenciação de gênero que se constrói a ideia de que a profissão docente é um espaço voltado para trabalho feminino. Segundo Scott (1990, p.7) o gênero é “uma maneira de indicar ‘construções sociais’a criação inteiramente social de ideias sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres”, modo como se referem as suas identidades subjetivas, sendo ele uma categoria social, histórica e culturalmente imposta sobre um corpo sexuado, agindo no domínio das relações entre os sexos. Para tanto, assim como há a necessidade de discutir sobre a importância dos estudos feministas como fator determinante do conhecimento e contra a subordinação imposta as mulheres, atualmente percebemos a relevância de aprofundar as discussões que envolvem as relações das masculinidades no campo do gênero. Entendendo que tais relações não são mais centralizadas nas formas de masculinidades hegemônicas, pois segundo Connel (1995) é a configuração de práticas de gênero que “personifica a certeza de legitimação do patriarcado”, garantindo a posição de dominação dos homens e a subordinação das mulheres. Através das discussões que vêm sendo realizadas na área de gênero e com base nos dados coletados na pesquisa, podemos perceber questões relevantes para a compreensão do debate atual. Utilizaremos aqui as falas dos alunos participantes da pesquisa para uma analise mais aprofundada. Sendo assim, identificamos os alunos do turno diurno com as letras AM, do vespertino em AV e os do noturno em AN, e um número correspondente. Os rapazes, visto que são alunos predominantemente jovens (com faixa etária de 17 a 25 anos) demonstraram satisfação pela opção do curso e que em alguns casos tiveram a influência de um parente, amigo ou alguém próximo para a escolha do mesmo. Sendo que a família caracteriza-se por ser o grupo que mais influencia nessa decisão. Apesar de a profissão docente tender a ser desvalorizada e proletarizada, há certo consenso entre os rapazes do curso de que a busca pela mesma deve-se ao fato de que ainda é um campo de trabalho amplo que oferece estabilidade. De acordo com Lelis (2009, p.60) a escolha e permanência do profissional docente à área de atuação se devem também ao fato ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3609 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior da “necessidade imediata de obter um emprego seguro num mercado de trabalho aberto e a conciliação entre o estudo e o trabalho”. As masculinidades não são simplesmente características dos homens e compreendendo a dinâmica da categoria gênero podemos falar de feminilidade nos homens ou de masculinidades nas mulheres não como desvio, mas como possibilidades. No entanto existe certo controle para regulação dessas formas de gênero, impostas na sociedade. Diante de tal controle, perguntamos aos alunos se eles já sofreram preconceitos e ou discriminações por optarem cursar pedagogia ou por exercerem a profissão. Os alunos responderam em sua maioria não ter sofrido, embora o que observamos é que as práticas discriminatórias existem no cotidiano desses rapazes, mas isso aparentemente não lhes incomoda. Percebemos, entretanto, a relevância de levar as discussões de gênero para o campo da docência, pois como expõe Rabelo [...] estes são homens que lidam quotidianamente com atividades socialmente consideradas como femininas, deste modo, as suas relações de gênero colocam-se em conflito com as expectativas e podem mostrar exceções aos padrões de gênero ou tentativas de reafirmação. (2008, p.160). Nesse sentido, os alunos pesquisados demonstraram não concordar com a opinião de algumas pessoas que associam a profissão docente ao gênero feminino. Para eles essa imposição se deve ao preconceito e a “má informação” destas pessoas, pois segundo os rapazes, não é o fato de ser do gênero masculino que irá tirar a capacidade da pessoa enquanto profissional, e que a profissão “é de quem a escolhe” (A2N), independente do sexo. Embora o fato de a profissão docente nas series iniciais ter poucos homens atuando como professores, isto acontece, segundo alguns deles, porque, “para a sociedade o professor primário é aquele que acolhe, é aquele que deveria estar ocupando o lugar da mãe, já para os homens fica mais difícil assumir esta função” (A2M). Ou porque “ainda há esse preconceito por parte dos próprios homens em lecionar nas series iniciais [...] lidar com crianças, para eles é como se fosse trabalho de mulher...” (A1V). No que se refere aos problemas e carências sociais e afetivas dos educandos, uma parte dos alunos relatou que não acham que há necessidade de se envolver nesse tipo de problema, pois segundo eles “haverá fragilidade na atuação do docente em relação ao seu profissionalismo” (A1N). Entretanto há ainda aqueles que defendem uma postura de maior ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3610 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior envolvimento pessoal entre professor-aluno, já que segundo o aluno A2M, essa carência afetiva por parte do/a aluno/a não deveria acontecer, mas “se está acontecendo isso eu acho que o professor tem sim que se envolver, porque o aluno não tem outra pessoa que possa interceder por ele”. Como percebemos, a necessidade de afirmar constantemente suas formas de masculinidades e de profissional, leva em determinados momentos a alguns sujeitos de nossa pesquisa a atrelar características que comprovem suas condições de homens num espaço tido como feminino. De acordo com Cardoso (2004), compreende-se que ainda grande parcela dos professores homens utiliza-se frequentemente do discurso do profissionalismo para justificar suas atividades de trabalho, e para negar envolvimento emocional com os/as alunos/as quanto as suas práticas pedagógicas. Segundo Joan Scott (1990) é a atribuição de sentido, efetuada socialmente, que consolida os significados adquiridos pelas práticas, são esses significados que também distribuem o poder no meio social às diversas instâncias. Nesse sentido o ato afetivo, do cuidar do outro e de envolver determinados sentimentos numa relação profissional é tido por alguns profissionais como característica feminina, relacionando-a à função maternal da mulher, do cuidar e educar. No entanto segundo Veras e Ferreira (2010, p.222) “afetividade está presente como fator fundante das relações que se estabelecem entre os alunos e os conteúdos escolares ou acadêmicos, na mediação com o professor”. Com isto, a busca por produzir novas identidades significa tentar encerrar nossas subjetividades em modelos sociais e culturais que não necessariamente correspondem à contingência histórica que vivemos, uma vez que qualquer papel social muda de acordo com as incertezas históricas. Por fim entendemos pelos depoimentos que poucos alunos demonstram haver barreiras no curso, no entanto percebemos que algumas barreiras encontram-se implícitas em suas falas, relacionadas aos preconceitos, formas de discriminação referente à opção pela profissão e estereótipos criados para distanciá-los das salas de aula. Notamos ainda que os rapazes pesquisados estão buscando de fato atuar na profissão docente, grande parte, em decorrência das mudanças ocorridas a partir dos anos 90 no mercado de trabalho brasileiro e mundial. Essas mudanças têm provocado uma redução dos postos de trabalho no mercado formal, em particular, com forte impacto no setor industrial, restringindo as possibilidades de ingresso. Mesmo considerando o recente crescimento econômico brasileiro dos últimos anos, a economia pouco se alterou no Estado de ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3611 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Alagoas, motivando a procura por postos de trabalho que ofereçam certa estabilidade profissional. Sendo assim, não mais podemos considerar a profissão docente das series iniciais como feminina, pois esta se caracteriza por crescente hibridização. Compreendendo o prestígio existente neste processo, exemplificado através da perseverança dos professores em quererem continuar atuando, como algo que venha a acrescentar à nossa profissão, com o intuito de lutar por melhores condições de trabalho e um status merecido na sociedade. REFERÊNCIAS CARDOSO, Frederico Assis. Homens fora de lugar? A identidade de professores homens na docência com crianças. 2004. 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Para tal, partiremos do pressuposto de que o modo de produção da existência atual determina e influencia modificações tanto no mundo do trabalho, como nas leis que formulam as políticas públicas e regem o funcionamento do Estado. Portanto, analisar tais determinações impõe a necessidade de analisar a lógica do capital e de seu processo de produção e reprodução no âmbito geral e local durante o estágio atual do século XXI. Assim, procuramos identificar os conceitos que especificam a precarização social do trabalho e suas implicações sobre o trabalho docente e mais especificamente nas IFES. No caso da UFPB os dados demonstram que tanto na graduação como a pós-graduação a lógica aponta para uma intensificação da rotina do trabalho docente se expressando em mecanismos que aos poucos expõe o processo de precarização em que estamos envolvidos. E, por fim, tentaremos apontar indicadores em caráter preliminar e provisório de organização e luta dos trabalhadores. Palavras-Chaves: Mundo do Trabalho, Precarização, Trabalho docente Abstract This summary presented aims to reflect on the effects of neoliberal capitalism (the restructuring of production) in the workplace and the consequences of impacts on the process of precarious work in progress, and this process is expressed in teaching more specifically in the IFES. To this end, we assume that the mode of production determines the current existence and influence changes in both the world of work, the laws that formulate public policies and governing the operation of the state. Therefore, analyzing these measurements makes it necessary to analyze the logic of capital and its process of production and reproduction in general and local level during the current stage of the twenty-first century. So we try to identify the concepts that specify the precariousness of labor and its implications on teaching and more specifically in the IFES. In the case of UFPB data demonstrate that both the undergraduate and graduate logic points to an intensification of routine teaching work expressing mechanisms that gradually exposes the precarious process we're involved. And finally, try to point indicators in a preliminary and provisional organization and struggle of the workers. Key Words: World of Work, Insecurity, Work faculty 50 Reflexões formuladas a partir do debate sobre precarização do trabalho docente realizado pela Adufpb no dia de mobilização na Universidade Federal da Paraíba em 14 de setembro de 2011. 51 Professor do Departamento de Educação Física da UFPB e estudante do doutorado em educação da UFBA. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3613 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior “Os tempos em que hoje vivemos são ainda de derrota do campo dos trabalhadores e da esquerda, de vitória do capitalismo neoliberal, de guerra, de aquecimento global, de crise alimentar. As resistências sociais e políticas ao rolo compressor do neoliberalismo são desiguais. Na maioria dos casos as lutas continuam a ser defensivas. O fosso entre resistências sociais e a sua tradução em termos de consciência anticapitalista é ainda grande. Mas, se os momentos de derrota e isolamento podem ser propensos a sectarismo, também podem ser férteis em novas soluções... como por exemplo na recomposição da esquerda anti-capitalista europeia.”52 Introdução O diagnóstico claro da época em que vivemos, realizado por Alda Souza, nos traz uma reflexão concisa do atual estágio do capitalismo no mundo do trabalho, apontando derrotas aos trabalhadores, mas também, indicando possibilidades de superação. Nesse sentido, o texto aqui apresentado tem como objetivo refletir acerca dos efeitos do capitalismo neoliberal (da reestruturação produtiva) no mundo do trabalho e quais as consequências dessas repercussões sobre o processo de precarização do trabalho em curso, bem como, esse processo se expressa no trabalho docente mais especificamente nas IFES e, por fim, tentaremos apontar indicadores em caráter preliminar e provisório de organização e luta dos trabalhadores. Para tal, partiremos do pressuposto de que o modo de produção da existência atual determina e influencia modificações tanto no mundo do trabalho, como nas leis que formulam as políticas públicas e regem o funcionamento do Estado. Portanto, analisar tais determinações impõe a necessidade de analisar a lógica do capital e de seu processo de produção e reprodução no âmbito geral e local durante o estágio atual do século XXI. O debate dos efeitos do capitalismo neoliberal Cotidianamente assistimos o anúncio de uma nova crise que degrada o meio ambiente, aumenta a exploração da força de trabalho, retira direitos conquistados pelos trabalhadores e precariza os vínculos trabalhistas, que privatiza os bens públicos e desresponsabiliza o estado de garantir os direitos sociais, que diminui as mobilizações sociais e as possibilidades dignas de sobrevivência. 52 Texto retirado do prefácio de Alda Souza do livro Trotskismos de Daniel Bensaïd. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3614 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior No campo de reflexão marxista a crise, ora apresentada como nova, não tem nada de novo é parte constituinte do próprio modelo estrutural de produção e reprodução da vida, foi assim, na famosa crise dos anos 30, na crise após 2ª guerra mundial, dos anos 1970, crise do petróleo, crise da bolha imobiliária norte americana em 2008 e, mas recentemente na crise das dívidas dos países do “chamado primeiro mundo” agora em 2011. Para compreender tais processos de crises, no momento atual em que vivemos nos indica Filgueiras53 (1997), é preciso entender três conceitos chaves: neoliberalismo, reestruturação produtiva e globalização, pois tais conceitos estabelecem inter-relações entre si e são determinantes das condições de desemprego e precarização do trabalho atualmente e por serem fenômenos de alcance mundial, interferem na elaboração de políticas públicas em todos os países. De acordo com Harvey54 (2005), apesar de o neoliberalismo ser decorrente da crise econômica dos anos 1970, defendendo a ideia de forte ataque ao estado intervencionista e quase que exigindo um “mercado livre” como garantia de uma liberdade econômica e política, tal fenômeno está inter-relacionado a quase todos os aspectos da vida social, assumindo a condição de hegemonia cultural e política/ideológica, do qual o autor vai chamar da “virada Neoliberal”. De acordo com Filgueiras (1997) a reestruturação produtiva, pode ser compreendida como uma resposta do capital à queda/estagnação da produtividade e à diminuição dos lucros e diz respeito às transformações estruturais no âmbito da produção e do trabalho. Tem como principais características as novas tecnologias, as novas formas e métodos de gestão e organização do trabalho e que se desenrola essencialmente na órbita microeconômica, e pode ser vista sob dois aspectos: No primeiro, a partir de uma ótica setorial, ela se expressa na reorganização e reconversão de setores industriais, que se caracterizam pela realização de grandes investimentos nos setores de ponta (informática, química fina, novos materiais, biotecnologia, telecomunicações), pela modernização de setores dinâmicos (automobilístico, máquinas e equipamentos, petroquímica) e pelo declínio de setores tradicionais (siderurgia, têxtil). E no segundo, tendo por referência o processo de trabalho, ela se concretiza na adoção de um novo paradigma tecnológico e organizacional, com a introdução, por um lado, de novas tecnologias de base microeletrônica (automação informatizada) e, por outro, a introdução de novos padrões de gestão/organização do trabalho (o “modelo japonês”); acompanhados por 53 Professor do departamento de economia da Universidade Federal da Bahia. O mal-estar no fim do século XX – publicado nos anais do V encontro nacional da associação brasileira de estudos do trabalho. 54 David Harvey professor emérito de antropologia do centro de pós-graduação da City University of New York. O neoliberalismo: história e implicações. Ed. Loyola. 2005. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3615 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior um processo de individualização das relações estabelecidas entre capital/trabalho, com o consequente enfraquecimento dos sindicatos. (FILGUEIRAS, 1997) A flexibilidade na produção, seguindo a lógica do “Just-in-time”, refere-se à orientação do fluxo da produção, e mais que isso, significaria a economia de todos os elementos da produção, a eliminação de “todos os desperdícios”, a busca permanente da eficiência e diminuição de custos através da racionalização do processo de trabalho. E isso colocaria os trabalhadores em constante tensão buscando o aperfeiçoamento interminável e contínua, o que levaria o trabalhador ao esgotamento de todas as possibilidades de exploração no seu tempo e fora do trabalho, da reorientação da sua vida para melhoria da “performance” na atuação, criando, também, uma noção de responsabilização sobre o sucesso ou fracasso da produção. E isso justifica a necessidade de uma força de trabalho, condizente com esta nova concepção de produção, mais qualificada e capacitada para assumir as diversas tarefas, como operação e manutenção das máquinas, difusão das informações e ainda realizar o controle de qualidade, conformando um novo tipo de trabalhador com maior iniciativa e capacitação e que tem possibilidade de assumir várias funções ao mesmo tempo diminuindo o custo com a força de trabalho. Há uma assimilação da ideologia neoliberal nos próprios trabalhadores, a construção da subjetividade vai se dando nas relações sociais estabelecidas nas relações de trabalho, e então temos o ideário de “parceria” e “qualidade”. E por fim trazemos a compreensão do terceiro fenômeno, a globalização como: Um aprofundamento, nos anos 80, da internacionalização das relações capitalistas de produção e distribuição, impulsionada pelo processo de reestruturação produtiva iniciado na década anterior nos países capitalistas centrais. Para alguns, este processo não apresenta nada de novo, sendo apenas a continuidade de um movimento que já estava presente desde os primórdios do modo de produção capitalista, qual seja, sua permanente tendência à expansão e, nessa medida, à mundialização. Para outros, ao contrário, seria algo totalmente novo, de tal sorte que estaria se constituindo uma nova “sociedade global”, pós-capitalista; uma realidade, portanto, que estaria, no limite, superando as relações sociais capitalistas de propriedade, produção e distribuição. Em suma, continuidade para alguns e ruptura para outros (FILGUEIRAS, 1997). As principais dimensões desse fenômeno se apresentam com a desregulamentação dos setores industrial, financeiro e do trabalho; privatização dos bens públicos; retirada do estado de algumas áreas sociais e; compreensão do tempo-espaço no processo de produção, tendo como valor central o individualismo e a promoção das liberdades individuais. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3616 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Nesse contexto histórico, de mudanças o trabalho sofreu transformações que podem ser sintetizadas nos processos de flexibilização e precarização em todo o mundo. Entretanto, Druck e Franco55 (2007), nos chama atenção que ao analisar os conteúdos e naturezas desse processo, apesar de ser mundializados eles apresentam especificidades nacionais, regionais e setoriais. O Processo de precarização do trabalho em curso Para tratar desse processo de precarização do trabalho tomei emprestado o conceito da Druck (2007) após analisar pesquisa com os estudos empíricos no âmbito da sociologia do trabalho no Brasil: Precarização do trabalho compreende um processo social constituído por uma amplificação e institucionalização da instabilidade e da insegurança, expressa nas novas formas de organização do trabalho – onde a terceirização/subcontratação ocupa um lugar central – e no recuo do papel do Estado como regulador do mercado de trabalho e da proteção social, através das inovações da legislação do trabalho e previdenciária. Um processo que atinge todos os trabalhadores, independentemente de seu estatuto, e que tem levado a uma crescente degradação das condições de trabalho, da saúde (e da vida) dos trabalhadores e da vitalidade da ação sindical. (Druck, 2007, p.10) Os autores que se especializaram no tratamento desse assunto, como Antunes (1995, 1999), Alves (2000), Vasapollo (2005), indicam que o “trabalho precarizado” ficou mais evidente com as mudanças percebidas no mundo do trabalho ocorridas por volta da década de 1970. As razões para tais mudanças têm sido atribuídas a uma tentativa do capital de reduzir o custo com o trabalho como resposta preferencial para determinada crise na acumulação capitalista. Tal processo impôs a introdução de novas técnicas de gerenciamento e de organização do processo produtivo com o objetivo de “poupar” trabalho, o que resultaria na diminuição dos trabalhadores efetivamente empregados (HIRATA, 1993). Dessas novas técnicas resultaram contratações sem encargos sociais, vínculo empregatício direto e pagamento de salários menores por meio de empresas terceirizadas ou mesmo de cooperativas de trabalhadores. De maneira cabal, a solução encontrada para a crise do capital foi a precarização do trabalho, entendida como resultante do processo de reestruturação produtiva que, por seu turno, é apontado como o responsável pela diminuição dos empregos e 55 Professora do departamento de Ciências Sociais da UFBA Graça Druck. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3617 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior pelo aumento das relações de trabalho desregulamentadas, destituídas de muitos direitos trabalhistas. Assim, ocorre que a dinâmica da precarização, que passa pela intensificação do ritmo do trabalho em paralelo ao achatamento e perdas salariais, de captura da subjetividade do trabalhador e de retirada de direitos, alcança todo o conjunto da classe trabalhadora. As especificidades existem, haja vista que o processo de trabalho é diferente, mas o fundamento geral que estrutura a reprodução ampliada do capital e a situação de classe de segmentos aparentemente diversos de trabalhadores que realizam o trabalho produtivo e os que realizam o trabalho improdutivo os coloca em uma mesma condição: ambos precisam vender sua força de trabalho para viver, ambos estão submetidos à mesma lógica de exploração do trabalho, tanto em termos objetivos, quanto em termos subjetivos. E na atualidade as determinações objetivas e subjetivas do processo de trabalho capitalista interferem na precarização da atividade docente, particularmente nas universidades públicas. Implicações da precarização sobre o trabalho docente Dessa maneira, é preciso posicionar a questão da precarização do trabalho docente numa percepção mais ampliada das mudanças ocorridas nos últimos 30 anos no mundo do trabalho, buscando identificar e problematizar possíveis alterações na rotina das atividades docentes (ensino, pesquisa e extensão) e não apenas nas relações de contrato. Alargada a dimensão a partir da qual os impactos dessas mudanças no cotidiano dos docentes serão examinados. Tem-se, de início, a idéia de que a precarização do trabalho não pode ser resumida a um processo exclusivamente econômico, entendido geralmente como reestruturação produtiva, mas que tem implicações também de natureza social à medida que interfere na forma de existência da classe, cultural e política à medida que interfere na autopercepção que os trabalhadores, docentes em particular, têm de si e no modo com que se organizam. Alinhando-se a esse processo de precarização do trabalho docente, foi lançado em 24 de abril de 2007, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que contém dentre outras medidas o Decreto 6069/07 que institui o REUNI56 e a portaria interministerial 22/07 Ministério do Planejamento Orçamento e Gestão (MPOG)-Ministério da Educação (MEC) de 30 de abril de 2007, que cria o banco de professores equivalentes que se caracteriza pela ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3618 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior contratação de professores horistas com carga horária de T-20 e T-40 horas. Tais ordenamentos vêm definitivamente, dentre outros aspectos, provocar uma reestruturação do sistema federal de ensino e interferir na carreira docente quando preveem a médio e longo prazo mudanças do ponto de vista metodológico no fazer docente além de que forçam um aumento de produtividade em detrimento da qualidade, resultando na precarização das condições de trabalho. Somadas a estas manifestações, as alterações na base técnica no modo de organização do trabalho trazem demandas que têm penalizado a classe trabalhadora no atual cenário mundial. Ainda, o plano da formação humana recebe contornos de enquadramento do novo tipo de trabalhador demandado pelo capital; neste ponto, é possível identificar um quadro hegemônico de propostas educativas, na intenção da conformação técnica e ideológica do novo trabalhador às perspectivas da pedagogia das competências, baseadas nas noções de empregabilidade e empreendedorismo. Conforme posição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) expressa no Relatório Delors57. Alguns dados que ilustram o significado dessas relações são indicados por Silva Júnior e Sguissardi (2009), no caso das federais da região sudeste, todas as universidades, enquanto o montante de matrículas na graduação e pós-graduação, no período de 1995 a 2005, teve um aumento respectivamente de 29% e 112%, o corpo docente teve um aumento de apenas 10%. Dado que as exigências de produção científica, de participação em eventos científicos nacionais e internacionais, etc., aumentaram significativamente no período, em razão dos novos critérios da avaliação eficientista, esta diminuição dos efetivos docentes significou um aumento de pelo menos 50% de sua carga de trabalho efetivo. Para tanto, basta verificar o aumento do número de cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado), do total de matrículas nesses cursos, do total anual de titulados e, em especial, da diminuição do tempo médio de titulação dos pós-graduados. Tudo isto se tem traduzido em grande ampliação do trabalho dos professores e orientadores. Somando a esse processo que marca mudanças significativas no cotidiano da vida universitária e do trabalho docente, foi produzido um quase congelamento salarial durante este mesmo período em que as perdas chegam a ultrapassar cem por cento de inflação. No âmbito da UFPB, estes dados não são também diferentes, de acordo com o PDI da instituição durante o período de 2009 a 2012 o montante de matrícula presencial de 56 REUNI - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/Decreto/D6096.htm - consultado em 07.10.10 57 Relatório da UNESCO intitulado “Educação: um tesouro a descobrir”, presidido por Jacques Delors. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3619 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior graduação e pós-graduação prevê um aumento de 63,8% e 75,02%, enquanto que o corpo docente prever um aumento apenas de 17%, aliado a uma taxa de diplomados na graduação neste período de 90% e também um aumento das notas dos cursos de pos-graduação avaliados pela Capes em torno de 60% no mestrado e de 130% no doutorado. Tais dados indicam o processo de intensificação da rotina do trabalho docente no âmbito das federais, que vem se expressando como os mecanismos de precarização do trabalho docente, criando grandes contradições para os profissionais docentes das universidades, principalmente porque lhes restam poucas alternativas para contornar as consequências desse processo ideológico generalizado de valorização do privado e desvalorização do público. Conclusão Como tratamos no inicio, o quadro é desaminador os estudos indicam um cenário internacional de desregulamentações, terceirizações, flexibilização, informalidade, intensificação do trabalho e precarização social do trabalho, que vai para além da esfera da produção e atinge em todos os âmbitos da vida. Os dados indicam um processo de alienação do trabalho docente cada vez mais presente nas atividades cotidianas. Mas contraditoriamente a esse cenário concordamos com a professora Taffarel 58 que nos indica a necessidade histórica de reconhecer os projetos de sociedade e educação antagônicos, em disputa, em luta, para nos mobilizarmos, organizarmos, tomarmos posição e irmos ao combate orientados pela adoção da tarefa de superação da alienação por meio de um novo metabolismo reprodutivo social dos “produtores livremente associados”. Segundo Taffarel (2011), a luta será árdua e dificílima, mas necessária para a vitalidade da classe trabalhadora: Desta forma, a função social da educação é de importância vital para romper com a internalização predominante nas escolhas políticas circunscritas à “legitimação constitucional democrática” do estado capitalista que defende seus próprios interesses. Frente a isto, a contrainternalização exige a antecipação de uma visão geral, concreta, abrangente, de uma forma radicalmente diferente de gerir as funções globais de decisão da sociedade, da educação e da escola e demais espaços formativos. Diante do exposto, segundo Mészáros (2005), a tarefa educacional é simultaneamente, a tarefa de uma transformação social, ampla e 58 Celi Taffarel - Palestra dedicada aos professores, estudantes e técnico-administrativos das Universidades estaduais e federais da Bahia e do Brasil que lutam por suas reivindicações. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3620 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior emancipadora. Elas são inseparáveis. A transformação social radical é inconcebível sem uma concreta e ativa contribuição da educação no seu sentido amplo. O inverso também é verdadeiro: a educação não pode funcionar suspensa no ar, podendo e devendo ser articulada dialeticamente com as condições modificáveis e as necessidades da transformação social emancipadora e progressiva em curso. Neste sentido, as premissas teóricas não podem se opor às premissas programáticas, devem estar relacionadas entre si, bem como às táticas imediatas, mediatas, e históricas para que possamos enfrentar o capital com uma educação que reconheça a necessidade de superação da barbárie à qual foi levada a humanidade diante da subsunção do trabalho ao capital. REFERÊNCIAS ALVES, Giovanni. 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Além disso, a pesquisa propõe trazer ao debate questões como: Quais as concepções de currículo e de formação em matemática dos atores envolvidos? Quais as bases teóricas e ideológicas do modelo curricular praticado? Como as diretrizes veiculadas por documentos oficiais são traduzidos na prática curricular do curso? O presente currículo do curso de Licenciatura em Matemática insere-se nas pautas formativas contemporâneas, vinculados à formação do professor de matemática? Para isso, a pesquisa lança mão de uma metodologia numa abordagem qualitativa, dentro de uma perspectiva fenomenologia, sendo desenvolvida a partir de uma pesquisa do tipo etnográfico. A fundamentação teórica propõe realizar um diálogo entre as discussões do campo do currículo e da formação de professores, trazendo a educação matemática como pano de fundo. Palavras-chave: Currículo, Formação de Professor e Educação Matemática. Abstract This work is the fruit of an ongoing study in Post-Graduate Program Scritu Sensu in Scientific Education and Training of Teachers, in the modality of Masters, at the State University of West of Bahia (UESB), Jequié Campus. The goal is to promote an analysis of the conceptions of curriculum that permeate the course of degree in mathematics from a study of the acts of the curriculum and the implications for training of future teachers of mathematics. In addition, the study proposes to bring to the debate questions such as: What are the conceptions of curriculum and training in mathematics of the actors involved? What are the theoretical bases and ideological model curriculum practiced? As the guidelines published by official documents are translated into practice curriculum of the course? This curriculum of the Degree Course in Mathematics is in the tariffs formative contemporary, tied to education of teachers of mathematics? For this reason, the study makes use of a methodology using a qualitative approach, within a perspective phenomenology, being developed from a survey of the type. The theoretical foundation proposes to conduct a dialog between the discussions of the field of curriculum and the training of teachers, bringing the mathematics education as a background. Keywords: Curriculum, Teacher Training and Mathematics Education. 59 Flávia Oliveira Barreto da Silva – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Formação de Professores/ Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – Campus Jequié. Professora Auxiliar na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) – Campus XXI – Brasil – [email protected] ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3622 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior INTRODUÇÃO A educação atravessa um momento de grande crise e contribuir na formação do homem para a vida social tem sido cada vez mais difícil, bem como desenvolver sua visão de mundo e prepará-lo para o exercício da cidadania, e consequentemente para o exercício de sua profissão. Nesses termos, as práticas pedagógicas se constituem um dos indicadores desse problema que a educação atravessa, visto que o conhecimento que embasa e conscientiza o professor e sua prática não concilia os interesses, as vivências, os conhecimentos trazidos do seu cotidiano, entre educandos e educadores. Repensar nossas práticas pedagógicas é urgente e necessário. Este é o momento de reflexão. Porém, pensar, refletir sobre estas no processo de ensino e de aprendizagem é rever os caminhos e buscar maneiras originais, mecanismos, instrumentos, formas de tornar, tanto para quem ensina como para quem aprende um processo dinâmico, contextualizado e significativo. Vale salientar que a busca da melhoria do fazer pedagógico é uma questão complexa e perpassa por vários fatores, entre eles o currículo, visto que este retrata um modelo de sociedade, refletindo uma diferença entre o currículo que possuímos e o currículo que desejamos. Nesse sentido são oportunas as palavras de APLLE (1995,p.59), “educação está intimamente ligada à política da cultura. O currículo não é apenas um conjunto neutro de conhecimentos que de algum modo aparece nos textos e nas salas de aula de uma nação”. E Acrescenta: “... é produto das tensões, conflitos e concessões culturais, políticas e econômicas que organizam e desorganizam um povo” (Op.Cit). O Currículo enquanto texto ou documento burocrático, é o elemento simbólico do que o grupo entende ser formação. Todos os conceitos, valores, pensamentos e visões do grupo devem estar não só no discurso, mas principalmente no currículo, que viabiliza a prática. Muito esforço tem sido concentrado na busca de mudanças de cunho metodológico, mas o Currículo desta prática é que demonstra as verdadeiras concepções de cada grupo. Para Goodson ( ), “a história do currículo não se pode basear apenas nos textos formais, tendo de investigar também as dinâmicas informais e relacionais, que definem modos distintos de aplicar na prática as deliberações legais”. A palavra currículo é proveniente do étimo latino currere, que significa caminho, jornada, trajetória, percurso a seguir e encerra, por isso, duas ideias principais: uma de sequência ordenada, outra de noção de totalidade de estudos (PACHECO, 1996, p.16). Para Macedo, compreendemos o currículo ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3623 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior como um artefato socioeducacional que se configura nas ações de conceber/selecionar/produzir, organizar, institucionalizar, implementar/ dinamizar saberes, conhecimentos, atividades, competências e valores visando uma “dada” formação, configurada por processos e construções constituídos na relação com o conhecimento eleito como educativo. (MACEDO, 2008, p.24). Dessa forma, torna-se explícito quanto o currículo interfere na construção de práticas pedagógicas, uma vez que através do currículo se mantém alguns mecanismos de seletividade a partir da ação dos envolvidos, os atos de currículo, conceito defendido por Macedo (2008, p.25) quando defende que “o currículo estabelece chegadas e caminhos a percorrer, que são constantemente realimentados e reorientados pela ação atores/autores educativos”. Os atos de currículo fazem parte da práxis formativa, trazem o sentindo de não encerrar a formação num fenômeno exterodeterminado pela mecânica curricular e suas palavras de ordem, por consequência, não vislumbram os formandos e outros atores/autores da formação como meros atendentes de demandas educacionais, tão pouco aplicadores de modelos e padrões pedagógicos. (MACEDO, 2010, p.35). Ao trazer para a discussão a questão da educação matemática, tendo como pano de fundo o currículo na sociedade contemporânea, significa avaliar algumas propostas nesta área que vêm sendo desenvolvidas historicamente no Brasil, à luz deste contexto social emergente, onde a sociedade contemporânea vive um processo de globalização econômica, cultural e política cada vez mais intensificada pelo sistema capitalista, ao mesmo tempo em que traz outras dinâmicas para relações entre os povos. Nesse contexto social, a educação como processo de construção e trocas de conhecimentos historicamente sistematizados, o currículo da educação matemática vem sendo repensada frente aos seus desafios e possibilidades neste cenário. Neste sentido PIRES (2000, p.46) aborda: (...) para nós, educadores matemáticos que atuamos na formação inicial e continuada de professores, há um ponto estratégico que precisa ser considerado: é freqüente, entre egressos dos cursos de Licenciatura em Matemática, um desconhecimento completo sobre debates curriculares. Excluído desse debate, o professor tem enormes dificuldades em refletir sobre os processos que, historicamente, imprimiram à efetivação das propostas curriculares, o caráter de seleção de conteúdos e montagem de tarefas, a serem desenvolvidas cronologicamente, numa seqüência linear, sem considerar as finalidades da educação, a reconstrução de conhecimentos pelos alunos e sem as necessárias elaborações na ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3624 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior transmissão de conhecimentos, considerando-se a amplitude do capital cultural disponível e as diferenças naturais entre gerações. (PIRES, 2000, p.46) D'Ambrósio (1993) destaca a importância da dimensão histórico-cultural na Educação Matemática, enfatizando que a geração atual está vivenciando as primeiras experiências inter/transdisciplinares na escola, o que é um indicador de que as futuras gerações verão o enfoque holístico como algo natural. No enfoque holístico, segundo o autor, a História do conhecimento terá seu lugar e oferecerá condições para uma análise crítica da geração e produção de conhecimento, da produção intelectual e social. O modelo curricular disciplinar desvincula essas análises, estimulando uma visão restrita e neutra da História da Ciência. Para Melo, A cultura profissional no interior das instituições formadoras valoriza a prática científica da matemática, sendo esta avaliada a partir da produção acadêmica materializada nos mecanismos de divulgação disponíveis para o pesquisador. A prática pedagógica da matemática é relegada a um plano inferior tanto do ponto de vista do financiamento de projetos, programas e políticas de publicações quanto em relação a sua pouca importância presente nos programas de avaliação. (MELO, 2010, p.39) Assim, devemos como educadores propor uma verdadeira e profunda reflexão dentro e fora da universidade no tocante às práticas pedagógicas na disciplina de Matemática, sem perdermos de vista ainda o currículo que temos e o currículo que queremos, pois, começaremos dessa maneira a gestar um currículo mais justo, sincero, prazeroso e sedutor. TEMATIZANDO A INVESTIGAÇÃO: O CONTEXTO, O OBJETO E O PROBLEMA A sociedade atual vem vivenciando um novo tempo. Um tempo de quebras constantes de paradigmas, crise da ciência, inserção acelerada das novas tecnologias, mudanças epistemológicas, discussões sobre a existência do projeto moderno e da pósmodernidade. Uma destas preocupações é com a formação de cada ser no mundo e, neste âmbito o parâmetro educacional é um dos principais referenciais que nos revela eixos deste processo. O estudo da história das disciplinas, bem como as discussões em torno da interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, faz com que as discussões em torno do currículo ganhem evidência, pois os desafios colocados requerem uma visão ampliada e articulada na ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3625 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior construção do conhecimento e no processo de ensino-aprendizagem, que vai além do campo de discussão de cada área. Para Goodson, O objetivo central da história do currículo não é descrever como se estruturava o conhecimento escolar no passado, mas antes compreender como é que uma determinada construção social foi trazida até ao presente influenciando nossas práticas e as concepções de ensino. (GOODSON, 1997, p.10) No que diz respeito à educação matemática, encontramos na história das reformas curriculares no Brasil, uma trajetória muito interessante. Na primeira metade do século XX, destacaram-se dois marcos importantes: a chamada Reforma Francisco Campos, em 1931 e a Reforma Gustavo Capanema, em 1942. Na primeira, o educador brasileiro Euclides Roxo teve papel importante, ao propor a unificação dos campos matemáticos - Álgebra, Aritmética e Geometria - numa única disciplina, a Matemática, com a finalidade de abordá-los de forma articulada inter-relacionada, uma vez que, anteriormente, cada um deles era estudado como disciplina independente. Enquanto na Reforma Francisco Campos, a concepção de currículo foi ampliada para além da mera listagem de conteúdos a serem ensinados, incluindo uma discussão de orientações didáticas, na reforma seguinte, de 1942, essas inovações não se mantiveram, o que revela que as decisões curriculares no Brasil foram historicamente marcadas por procedimentos bastante questionáveis, influenciados por questões políticas ou influências de poder de alguns grupos ou mesmo de pessoas. Posteriormente, podemos identificar outros períodos marcantes: o primeiro, caracterizado pela influência do Movimento Matemática Moderna (de 1965 a 1980); o segundo, caracterizado por reformas que buscavam se contrapor ao ideário do Movimento Matemática Moderna (de 1980 a 1994) e lideradas por Secretarias Estaduais e Municipais de Ensino; o terceiro, organizado em nível nacional e consubstanciado num documento divulgado ao conjunto das escolas brasileiras, denominado Parâmetros Curriculares Nacionais (a partir de 1995). Em 2002, o Conselho Nacional de Educação, através da Câmara de Educação Superior, preocupado com a formação dos futuros professores de Matemática para a Educação Básica, aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Matemática, Bacharelado e Licenciatura. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3626 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Desde então, muitas discussões têm sido promovidas no campo da educação matemática, com o objetivo de tornar a Matemática mais acessível e contextualizada, já que é uma das disciplinas que historicamente mais reprova alunos, sendo em grande parte responsável pela evasão de estudantes. Segundo Ivor Goodson, Uma história do currículo não pode cair na armadilha de olhar para o processo de seleção e organização do conhecimento escolar como um processo natural e inocente, através do qual acadêmicos, cientistas e educadores desinteressados e imparciais determinariam, por dedução lógica e filosófica, aquilo que é mais conveniente ensinar às crianças e aos jovens. (GOODSON, 1997, p.10) Ele também afirma que “é preciso sublinhar a dimensão social, uma vez que o currículo está concebido para ter efeito sobre as pessoas, produzindo processos de seleção, de inclusão/exclusão e de legitimação de certos grupos e ideias” (GOODSON, 1997, p.10). Esta é uma realidade na história da escolarização em nosso país, saber matemática é muito importante e não saber justifica, muitas vezes ainda hoje, uma retenção de todo um ano escolar, mesmo durante a infância. (ZAIDAN, 2010, p. 192). Neste sentido, entende-se o processo de formação de professores como um dos aspectos desta dinâmica, assim, apresenta-se como problema de estudo a análise das concepções de currículo que permeiam o curso de licenciatura em matemática a partir de um estudo dos atos de currículo, bem como as implicações na formação dos futuros professores de matemática. Para isso, destacamos algumas questões que estamos tentando trazer para o debate: Quais as concepções de currículo e de formação em matemática dos atores envolvidos? Quais as bases teóricas e ideológicas do modelo curricular praticado? Como as diretrizes veiculadas por documentos oficiais são traduzidos na prática curricular do curso? O presente currículo do curso de Licenciatura em Matemática insere-se nas pautas formativas contemporâneas, vinculados à formação do professor de matemática? CAMINHO METODOLÓGICO Baseado na natureza do objeto de estudo, o trabalho está sendo desenvolvido numa abordagem qualitativa, dentro de uma perspectiva fenomenológica, que contribui com a produção acadêmica ao colocar em jogo a relação sujeito-objeto. À escolha da metodologia subjaz intenções e propósitos do pesquisador, desvelando e questionando, assim, a pretensa neutralidade na/da produção do conhecimento científico. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3627 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Optamos por uma pesquisa do tipo etnográfico, assumindo desde o início a interação e o envolvimento com a ambiência da pesquisa como pressuposto desse estudo. Conforme Álamo Pimentel, A pesquisa do tipo etnográfico é movimento. Evoca encontros e desencontros. Provoca atrasos e ultrapassagens. Contorna o velho e o novo. Implica aproximação e distanciamento entre aquilo que os outros dizem e fazem em campo e aquilo que as teorias já disseram a respeito do que outros já disseram e fizeram enquanto compartilhavam suas comunidades de destino com comunidades de pesquisadores. (PIMENTEL, 2010, p.163) Esta pesquisa tem por campo empírico o curso de Licenciatura em Matemática da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, no campus de Jequié, além de outros espaços que possam emergir no processo enquanto fonte de informação. De acordo com a opção metodológica, para conhecer o objeto da pesquisa, além da pesquisa de campo, está sendo realizada pesquisa bibliográfica e documental sobre a gestão do sistema de ensino superior, estudos referentes à gestão curricular, dispositivos formativos e estudos dos documentos oficiais sobre as reformas curriculares implantadas pela UESB. Além disso, fez-se necessário um estudo da história da disciplina Matemática, como um dos mecanismos de compreensão da lógica dos currículos e de seu papel no processo de ensinoaprendizagem. Os instrumentos que estão sendo utilizados para coleta de dados envolvem: um roteiro de entrevista semi-estruturada para os discentes atuais, os docentes do curso e os discentes egressos que já estão atuando profissionalmente como professores de Matemática. Além disso, estão sendo realizadas visitas, participação nas aulas, reuniões docentes, bem como qualquer outra oportunidade de observação e interação, por entender que o comportamento humano e suas relações precisam ser analisadas dentro do seu contexto, assim teremos mais chances de identificar as concepções epistemológicas e formativas em que se baseiam os atos de currículo. Para análise dos dados, prosseguiremos com a técnica de análise do conteúdo, seguindo as etapas de pré-análise, descrição e interpretação inferencial. Nessa linha, para melhor tratamento dos dados adotaremos o caminho didático proposto por Roberto Sidnei Macedo (2004, p. 210): a)leituras preliminares e estabelecimento de um rol de enunciados; ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3628 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior b)escolha e definição das unidades analíticas: tipos de unidades, definição e critérios de escolha; c)processo de categorização (perspectivas, termo adotado pelo autor); d)análise interpretativa dos conteúdos emergentes; e)interpretações conclusivas. Esses procedimentos têm o propósito de possibilitar a análise do conteúdo voltada para a compreensão das mensagens para além dos seus significados imediatos e de seus atributos linguísticos pura e simplesmente, por meio das ideias expressas, palavras utilizadas e justificativas apresentadas, utilizando como orientação o diálogo dos dados com o contexto histórico, político e social do tempo da pesquisa, numa perspectiva multirreferencial e intercrítica (Macedo, 2002, p. 56). CONSIDERAÇÕES PARCIAIS O contato inicial com os discentes atuais e os egressos que já estão atuando como professores em sala de aula tem nos proporcionado reflexões muito interessantes: a falta de interesse dos alunos pela sala de aula como futuro local de trabalho, o descrédito com as disciplinas pedagógicas, o foco nos conteúdos, a ausência de uma formação crítica e reflexiva, as dificuldades de administração do cotidiano escolar, entre outras. Neste momento, estamos iniciando uma maior aproximação com os docentes do curso, inclusive participando das reuniões de área, colegiado e departamento, bem como se inserindo nas discussões da reforma curricular do curso. A busca por uma prática reflexiva do professor de Matemática despertou em mim um encantamento pelas questões curriculares na área, o estudo da história das disciplinas, principalmente o desejo de entender como alunos do curso de Licenciatura em Matemática da Universidade do Sudoeste da Bahia (UESB), no campus de Jequié, tem feito o currículo e o que o currículo tem feito com estes futuros professores da Educação Básica. Existem muitos professores de matemática em processo de formação continuada, primando por dialetizar às relações, reconhecendo a complexidade dos contextos reais, compreendendo as múltiplas referências que se fazem presentes nos processos formativos e buscando abarcar uma unidade entre teoria e prática no seu fazer. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3629 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior A relevância desta proposta de pesquisa encontra-se exatamente na discussão da temática e da necessidade do estreitamento no diálogo entre a pedagogia e a matemática, não permitindo um fechamento das disciplinas, cada uma no seu universo. A educação matemática é imprescindível à formação do cidadão, diante dos desafios contemporâneos e da complexidade da sociedade. REFERÊNCIAS APPLE, Michael W. Trabalho docente e textos: economia política das relações de classe e de gênero em educação. Trad. Thomaz Tadeu da Silva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. BRASIL, MEC. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9394/96. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L9394.htm> [ 29/08/2010]; D’AMBRÓSIO, Ubiratan. 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ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3630 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior IDENTIDADES DE ACADÊMICOS E CURRILISTAS NORDESTINOS A PARTIR DAS DEMANDAS DA PÓSGRADUAÇÃO Francisca Pereira Salvino Resumo Meu propósito neste trabalho é refletir sobre os processos de identificação e diferenciação que favorecem a hegemonização dos discursos de acadêmicos e curriculistas, focalizando as tensões e articulações que emergem no espaço-tempo da pós-graduação no Nordeste brasileiro. Para tanto, recorro aos estudos culturais e, mais especificamente, à teoria do discurso de Ernest Laclau, cuja tendência corrobora no sentido da desconstrução de conceitos de sujeitos e identidades enquanto construções fixas, definitivas, imutáveis. O trabalho consiste em estudo teórico, no qual entendo “as identidades nordestinas” como processo de identificação e diferenciação descentradas, não essencializados, provisórios e contingenciais que vão se constituindo partir de demandas, necessidades e interesses particulares que se articulam formando cadeias de equivalências, com intuito de tornar hegemônicas (universalizar) certas práticas discursivas. Nesse sentido, tanto as identidades, quanto as demandas estão sempre sujeitas a deslocamentos e novas formas de identificação e diferenciação, de modo que as identidades se constituem a partir das demandas, assim como as demandas se constituem a partir das identidades. Palavras-chave: Nordeste. Pós-graduação. Identidades. Curriculistas Introdução As formas de conceber as identidades de acadêmicos curriculistas, enquanto categoria de análises neste trabalho interessa-me no sentido de fornecer elementos para que se compreendam quem são os sujeitos que produzem conhecimento na referida área de conhecimento, no âmbito particular da Região Nordeste. Tomo como referência teóricometodológica os estudos culturais e, mais especificamente, a teoria do discurso, cuja tendência influencia no sentido de questionar conceitos, significados, estilos de vida, valores, instituições, teorias e identidades, enquanto construções fixas, centradas, imutáveis. A opção pelos estudos culturais e pela teoria do discurso se justifica na medida em que metanarrativas como positivismo, iluminismo, marxismo e estruturalismo e seus projetos de emancipação têm sido questionados e desacreditados, bem como suas pretensões de verdade, objetividade e universalidade. Nesse sentido, questionar as identidades enquanto ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3631 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior construções essencializadas significa questionar diferentes concepções de sujeito, de modos de ser e de estar no mundo, seja como agentes individuais ou coletivos. Significa manejar sentidos para descentrar (deslocar) concepções preconcebidas e estabelecidas como verdades absolutas. Significa, ainda, desconstruir o pensamento de sermos racionais, cognoscentes, conscientes para nos reconstituirmos, através da linguagem, em seres instáveis, contraditórios, incompletos, cindidos. Isto se torna possível porque, “à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente” (HALL, 2001, p.13). A partir dessas considerações este trabalho objetiva analisar os processos de identificação e diferenciação que favorecem a constituição de identidades de acadêmicos e curriculistas, focalizando as tensões e articulações que emergem no espaço-tempo da pósgraduação no Nordeste brasileiro. A constituição dos sujeitos em sociedades globais/locais Uma compreensão mais adequada da constituição das identidades a partir dos estudos culturais pressupõe uma concepção de sujeito em constante devir e também uma análise das intervenções de nação e de mercado, dois importantes conceitos nos contextos atuais. Sobre o primeiro, Hall (2001) diz que uma nação é uma comunidade simbólica, o que explica seu poder para produzir significados, de tal forma que as culturas nacionais são compostas por instituições, símbolos, representações, discursos ou modo de construir sentidos que influenciam e organizam tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos, a ponto de terem se constituído em atributo inerente à humanidade. Todavia, a ideia de nação autônoma, soberana, desde suas origens, tem sido apenas aspiração porque sua origem coincide com a do capitalismo e este sempre operou em dimensões mais amplas que os limites dos Estados nacionais. Sua característica globalizante se amplia e fortalece na atualidade em virtude da compressão/disjunção espaço-temporal, que intensifica fluxos e interconexões entre diferentes lugares, minando ainda mais as conformações nacionais em termos políticos, econômicos e culturais. Por outro lado, local, entendido como lugar específico, concreto, conhecido, delimitado, ponto de práticas sociais que nos moldam e nos formam e com as quais nossas identidades estão ligadas (HALL, 2001, p. 72), permanece como ponto de interseção, embora o ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3632 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior espaço se modifique, seja abreviado, compactado. O efeito dessa dinâmica é o fortalecimento do local, da cidade e do regional que tende a desestabilizar as formas nacionais de identidade, pois as relações tendem a acontecer sem a intermediação do Estado nação, por vezes, as dimensões globais e locais são condição de existência uma da outra. Com base em Bhabha (2007), entendo que o Nordeste, como outros locais, assume feição de um terceiro espaço de fronteira entre o global e local, um espaço-tempo intersticial de relações deslizantes, de figuras traduzidas, hibridizadas, deslocadas. Desses espaços intersticiais, fronteiriços em que os limites globais e locais se dissipam emergem um terceiro espaço, um espaço internalizado e externalizado simultaneamente, de realidades históricas descontínuas, cuja problemática deve centrar-se nas formas de “significar as passagens intersticiais e nos processos de diferença cultural que estão inscritos nesse entre-lugar” (BHABHA, 2007, p. 298). Esse terceiro espaço suplementar instaura uma condição de ambivalência nas próprias teias da globalização, que obscurecem as relações de poder e entende o domínio da política em uma direção que não seja inteiramente dominada por forças econômicas e históricas pré-determinadas. De outro modo, ele chama a atenção para uma política de produção cultural que implica, necessariamente, em tradução, resistência e transgressão. Parafraseando Burity (2010), é possível afirmar que a dinâmica global/local promove o fortalecimento das identidades em duas dimensões: instrumental para as relações de mercado e expressiva das relações intra e intergrupais. Na primeira, identidade se define no contexto da cultura de consumo, que globaliza a ideia de livre escolha, que produz e estimula a diferenciação e a especialização, que se tornam signos da validade da cultura local. Identidade seria aqui a forma exteriorizada ou reivindicada de uma nova subjetividade, com diferentes finalidades, tais como: impulsionar a indústria de turismo e lazer; legitimar ações governamentais voltadas às práticas e demandas multiculturais; criar imagem empresarial para conquista de mercados específicos (negros, nordestinos, homens, mulheres, deficientes etc). Na segunda dimensão, a identidade é convocada quando o desenraizamento produz desorientação, ansiedade, sofrimento e destruição de formas de vidas ou instituições. Assim, as identidades resistem aos imperativos da globalização e atuam na direção de restaurar formas de vidas nostalgicamente idealizadas ou formas de sobrevivência às margens desses imperativos. As pretensões do mercado em transformar “minorias culturais” em grupos de consumidores com vistas à ampliação dos mercados favorecem a mudança na imagem ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3633 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior estereotipada desses grupos, enaltecendo a diferença, as identidades múltiplas, a alteridade, a autoimagem, as culturas locais. Na condição pós-colonial, pelas proposições do mercado (turismo, ampliação das vendas, artes etc), pela expressividade das relações intra e intergrupais e pelas lutas históricas as formas coloniais de representação estereotipadas, marginalizadas, excludentes de percepção do outro vão sendo deslocadas e substituídas, mas não apagadas ou eliminadas. Isto ocorre porque valores econômicos ou princípios de mercado inscritos numa governamentalidade neoliberal se irradiam para outros domínios da vida social, determinando processos de subjetivação, deslocando posições dos sujeitos e contribuindo para a constituição de novos atores coletivos. Segundo Lemke (2010), a concepção de governamentalidade em Foucault refere-se à ligação semântica de governar (gouverner) e modos de pensamento (mentalité), o que não é possível fora de uma racionalidade política que ligue tecnologias de poder a processos de subjetivação. Considero, então, que a política de pós-graduação se configura como um conjunto de estratégias, mecanismos, técnicas e formas de regulação engendradas por uma governamentalidade neoliberal, fundamentada no liberalismo de governo, conforme Foucault (2008). Segundo o filósofo, essa forma de governo consiste em uma forma de governamentalidade que se alastra a todas as esferas da vida, no momento em que desenvolvem e operam com novas técnicas de governo da população e dos indivíduos, ou seja, uma governamentalidade assentada numa razão de Estado que é o liberalismo. Esta razão se mantém na base da organização dos Estados neoliberais, porém com uma série de ajustes e conformações a depender da posição que ocupa na cadeia produtiva mundializada. Apesar da mesma base doutrinaria, os efeitos e implicações do paradigma neoliberal são dissonantes, diferem conforme o lugar (país ou região) e afetam os sujeitos de diferentes formas, portanto, as pretensões de regulação das identidades não são garantia de que isto ocorra ou não são garantia de que ocorra do modo pretendido. Nos espaços fronteiriços se desenvolvem também formas ambivalentes de transgressão e resistência pouco previsíveis. Nessa perspectiva de análise, as proposições de Laclau (2001) corroboram no sentido de pensar universal e particular como termos cuja significação se constitui pelo excesso e pela falta, pela encarnação e deformação de seus conteúdos particulares através da expansão de lógicas equivalenciais. Essa expansão torna-se possível na medida em que elementos ou identidades dispersas umas com relação às outras percebem pontos em comum que os articulem, transformando esses elementos em momentos diferenciais. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3634 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior As articulações próprias desses momentos modificam as identidades, ou melhor, “alteram semanticamente seus conteúdos particulares” (MENDONÇA, 2008, p. 62), recriando continuamente formas de identidade e alteridade. Esses momentos (discursivos) não são fixados em definitivo e estabelecem-se a partir de cortes antagônicos que os ameaçam continuamente, gerando novas possibilidades de articulações. Portanto, as identidades dependem de condições sócio-históricas e de sistemas discursivos que lhes dê sentido e não de um lugar, classe ou origem pré- determinadas. Nesse sentido, as identidades de acadêmicos e/ou curriculistas atuantes em universidades situadas no Nordeste do Brasil não são fechadas em si mesmas, isoladas e essenciais. Elas são constituídas provisória e discursivamente a partir de demandas locais, regionais, nacionais e internacionais que as colocam em articulação com outras identidades, em defesa de certas demandas e em oposição a outras. Por sua vez as demandas também vão se modificando a partir desses processos de identificação e diferenciação. Assim, simultaneamente, acadêmicos e curriculistas nordestinos (não necessariamente nascidos no Nordeste), se articulam em função de demandas nacionais da pós-graduação e também em função de demandas mais específicas e localizadas, mas que giram em torno de três eixos fundamentais que dão sentido a tais identidades: docência, pesquisa e extensão. Esse horizonte de análise possibilita refletir sobre as interrogações políticas que se fazem sobre a heterogeneidade constitutiva dos atores coletivos60 e corrobora com a relativização das concepções naturalizadas e essencializadas de sujeito e identidades formatadas a partir de proposições de racionalidade, objetividade, universalidade engendradas por concepções liberais, histórico-críticas e mesmo pluri/multiculturalistas. Demandas e identidades de acadêmicos nordestinos No âmbito da pós-graduação na região Nordeste, as articulações que se hegemonizam seguem as orientações e os ritmos do desenvolvimento dos estados, da necessidade de formação de profissionais para diversas áreas e da necessidade de consolidação do ensino, da pesquisa e da extensão. Ramalho & Madeira (2005), descrevem avanços no Norte e Nordeste que expressam modificações nas demandas para o setor da pósgraduação a partir da década de 80 que são importantes para entender as referidas identidades. Nesse período, enquanto a região Sudeste já tinha seus programas de pós60 Pode ser entendido como um movimento, organização, instituição, classe, grupo social. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3635 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior graduação consolidados, o Nordeste contava com apenas cinco cursos de mestrado em educação, “todos enfrentando as dificuldades de sua própria marginalidade em um sistema com alto nível de centralização e concentração no Sudeste” (RAMALHO & MADEIRA, 2005, p. 73). Portanto, as demandas através das quais as identidades se constituíam estiveram ligadas às condições de instauração e/ou expansão dos cursos, voltados principalmente à qualificação dos docentes para o Ensino Superior e a redução da dependência regional com relação à pósgraduação nacional e aos movimentos em prol da redemocratização do país. Segundo Ramalho & Madeira (2005), no final da década de 80 a redemocratização e a crise econômica induziram a um estreitamento entre a pós-graduação e o setor empresarial, dando força à institucionalização da pesquisa, já consagrada como elemento indissociável do ensino, mas até então ainda sem muita sustentação. Para os autores um desafio desse momento foi a fixação de pessoal de nível superior com qualificação e produtividade exigida para o padrão de excelência, requerido às universidades que foram se afirmando como lócus da produção do conhecimento. As instituições recorreram à contratação de profissionais experientes principalmente do exterior, à formação dos docentes em outras regiões ou países e ainda a propostas de integração entre várias instituições. No final da década, a grande preocupação foi com a criação dos doutorados através de consócios entre as universidades, mas a proposta resultou inviável. Em 1996, por ocasião da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9.394/96), foi estabelecida que a formação para o Ensino Superior fosse feita prioritariamente em programas de mestrado e doutorado, o que ratifica as funções de ensino, pesquisa e extensão como bases às identidades dos profissionais da pós-graduação. Os processos de identificação e diferenciação provenientes dessas articulações se estendem a movimentos político-sociais diversos e a aspectos da vida pessoal e familiar que interferem, dentre outras coisas na fixação desses profissionais na região. Na década atual, Ramalho & Madeira (2005, p. 74) defendem que Essas regiões dispõem de capacidade instalada em condições de responder a essa demanda, apesar dos históricos desequilíbrios regionais e intraregionais do país, que se reproduzem na mentalidade e na visão da própria academia. De qualquer forma, percebe-se um amadurecimento no discurso das representações regionais. Antes, o enfoque estava muito mais nas discrepâncias regionais; hoje, volta-se de preferência para as políticas públicas da educação. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3636 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior As afirmações dos autores remetem, a meu ver, a outra forma de identificação que se dá pela via do consenso nacional sobre a consolidação e a qualidade (excelência) da pósgraduação em educação, o que está vinculado às formas de alocação de recursos e à avaliação dos cursos e programas. À semelhança das demais regiões, as demandas acadêmicas no Nordeste estiveram marcadas pela ênfase no ensino, pela militância política e pelos movimentos de contestação ao polêmico modelo de avaliação, que gradativamente foi se impondo pelo pacto entre os órgãos estatais e as comunidades acadêmicas através da chamada “avaliação por pares”. Contudo, o caráter tardio e o ritmo lento de desenvolvimento na região e consequentemente na educação as diferenciam das regiões Sul e Sudeste, em termos de insuficiência e precariedade da infraestrutura, falta de profissionais qualificados, dificuldade para fixação de mestres, doutores e pós-doutores na região, falta de know how no campo de planejamento e gestão financeira e administrativa. Acredito que essa diferenciação está na base dos resultados da avaliação do triênio 2007-2009, realizada em 2010 (BRASIL, 2010). As avaliações da pós-graduação que se realizam desde 1976 têm revelado que um dos graves problemas que afetam a pós-graduação é a assimetria regional. Dados de 2008 analisados por Santos & Azevedo (2009) demonstram que a concentração dos programas na Região Sudeste persiste, com a seguinte distribuição: 6,7% no Centroeste; 12,3% no Nordeste; 2,7% no Norte; 61,1% no Sudeste; e 18,2% no Sul. Na avaliação de 2010 (BRASIL, 2010), na área de educação, nenhum dos programas situados na região Nordeste obteve conceito 7 ou 6, apenas o programa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) obteve conceito 5, enquanto 9 programas obtiveram conceito 4 e o programa da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) obteve conceito 3. Embora não exista, necessariamente, relação direta entre quantidade e qualidade, ver-se que a Região sudeste concentra tanto a maior quantidade de programas como os programas melhor qualificados pelo sistema CAPES de avaliação. Com relação às áreas de conhecimento, percebe-se uma assimetria análoga às regionais. Em 2010 a pós-graduação apresentou 2.647 programas organizados em 7 grandes áreas de conhecimentos e 46 subáreas, sendo 16 delas concentradas na grande área das Ciências Biológicas, que concentra também os mais altos indicadores de publicação de teses, dissertações, artigos qualificados em todos os níveis dispostos pela CAPES (A1 A2, b1 , b2, b,3). A avaliação da CAPES confirma a prevalência de conceitos 7 e 6 nas grandes áreas das Ciências Exatas e Terra, Biológicas e Agrárias, que juntas concentram 75,6% dos programas com ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3637 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior conceito 7, enquanto as grandes áreas das ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas, Linguística/letras/Artes e Multidisciplinar retêm apenas 24,4 % dos conceitos 7. A desigualdade diminui com relação conceito 4, onde o primeiro grupo concentra 58% dos programas com o referido conceito e o segundo grupo concentra 42%, conforme tabela em anexos. Ao compararmos o número de teses e dissertações concluídas com o número de artigos publicados nas áreas de ciências Biológicas e Ciências Humanas (ver tabela 2 em anexo) percebemos que na primeira há um equilíbrio entre o número de teses defendidas (13.210) e o número de publicação de artigos publicados em periódicos Qualis A1 (13.390), enquanto na segunda o número de teses concluídas (5.437) é bem maior do que o número de artigos publicados em periódicos Qualis a1 (1.727). Esses indicadores, a meu ver, colocam a área de educação e currículo e, consequentemente, os curriculistas nordestinos, em uma situação de duplo desfavorecimento: com relação à região e com relação às áreas de conhecimento. Esses dois fatores, por vezes, estão inter-relacionados com a alocação de recursos, cuja assimetria é agravada pelo fato de que financiamentos como os do Programa de Excelência Acadêmica (PROEX) apenas destina recursos para programas com conceitos 7 e 6 nas avaliações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Os conceitos citados são atribuídos aos programas com desempenho e inserção internacional e é mensurado com base nos indicadores de publicação em periódicos fora do Brasil. Diante desse quadro e na condição de docente, pesquisador e extensionista os curriculistas “nordestinos” têm se deparado com duas grandes questões: atender e adequar-se as demandas relacionadas à qualidade da pós-graduação e possibilitar o desenvolvimento de projetos curriculares que atendam a demandas comunitárias e interculturais. Os curriculistas têm sido convocados a debruçarem-se sobre os processos de ensino e aprendizagem da educação básica e superior, incluindo a pós-graduação, o que ocorre ancorado em políticas e propostas curriculares. Estas oscilam continuamente entre demandas universalistas (conhecimento científico, divisão mundial do trabalho, direitos humanos, valores globais) e particularistas (tradições e necessidades locais, formas de sobrevivência e preservação no semiárido, movimentos migratórios, religiosidades, enfrentamento de problemas urbanos como violências, moradia, saneamento, dentre outros). Essa convocatória propõe, necessariamente, que se trabalhe junto às comunidades escolares, criando possibilidades para que se pensem alternativas aos projetos curriculares liberais e críticos. As alternativas devem considerar dois princípios fundamentais apontados ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3638 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior por Macedo (2004): pensar um currículo que respeite a singularidade das diferenças, sem transformá-las em desigualdade; trazer as experiências não institucionalizadas das minorias marginalizadas e de homens e mulheres das classes trabalhadoras para o centro da organização do currículo. Para a autora, essas experiências já estão na escola e nos currículos, apenas precisam ser trazidas da periferia para o centro. Qualquer alternativa no sentido de que fala Macedo apenas faz sentido se as posições dos sujeitos são entendidas como relacionais ou, como argumenta Laclau (2001), como posições situadas provisoriamente em estruturas deslocadas que se fecham contingencialmente para dar sentido aos significantes e possibilitar certa comunicação entre identidades diferenciais. Desse modo, as identidades de intelectuais acadêmicos e curriculistas nordestinos não existem enquanto formações essencializadas ou naturalizadas. Porém, existem enquanto resultado de relações de poder, de negociações que se estabelecem a partir de demandas e discursos diversos através dos quais suas demandas particulares (locais e/ou regionais) se articulam a outras tantas demandas (regionais, nacionais e internacionais), constituindo formas hegemônicas de discursos, reivindicações e representações políticas. Considerações finais Com relação às identidades dos curriculistas nordestinos argumento que, para além da noção de território, limite, fronteira e condições geográficas, é preciso pensar que em cada Estado nordestino há uma ou várias universidades diferentes e por elas circulam sujeitos (professores, estudantes, funcionários) das mais diversas localidades (regionais, nacionais e internacionais), etnias, raças, religiões etc. Assim como os sujeitos nascidos no Nordeste transitam pelos Estados, regiões e países (des) localizando discursividades, fronteiras, modos de vida, de maneira que qualquer pretensão de definição de uma identidade pura e originária excede, transborda, emerge em diversas formas de identificação que vão se confirmando em função de demandas e de discursos que se pretendem hegemonizar. Por outra via, a identidade, ou seja, os processos de identificação e diferenciação também hegemonizam discursos e demandas porque estes movimentos não são unilaterais e lineares, mas entrecruzados e circulares. Portanto, as demandas forjam/produzem identidades, assim como as identidades forjam/produzem demandas. No âmbito da pósgraduação o que se observa é a hegemonização de discursos em torno da questão da excelência dos programas, o que depende do paradigma avaliativo formulado pela CAPES, ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3639 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior onde prevalecem os critérios de produção docente com padrão de qualidade internacional e o tempo de titulação em mestrados e doutorados. Pelo seu caráter regulador, as deliberações da CAPES, inscrevem-na num regime de verdade de uma governamentalidade neoliberal. Contudo, por si só, isto não explica nem justifica devidamente o quadro de assimetrias e a incipiente produção e veiculação de conhecimento no Nordeste porque os sujeitos não são peças de um jogo, completamente manipuláveis. Há aspectos particulares, singulares ainda não devidamente desvendados. Contudo, acredito que as comunidades acadêmicas situadas no Nordeste, como em outras regiões, necessitam potencializar suas vocações, compor cadeias equivalenciais que favoreçam a hegemonização dos seus discursos em torno de demandas particulares, encontrar formas de atuação estratégica nas instâncias representativas de onde emanam as decisões. Atribuir apenas ao Estado as responsabilidades pelos resultados, além de pouco produtivo, implica em desconsiderar a capacidade dos sujeitos, bem como o caráter contingencial e ambivalente das relações de poder. Referências BHABHA, Home. O local da cultura. Tradução de Miriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. 4. reimpressão. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. BRASIL. Ministério de Educação. Coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Relatório de avaliação 2007-2009. Brasília: MEC, 2005. Disponível em: www.trienal.capes.gov.br. Acesso em: 10/08/2010. BURITY, Joanildo. Desconstrução, hegemonia e democracia: o pós-marxismo de Ernesto Laclau. Disponível em: www.bibliotecavirtual.clacso.org.ar. Acesso em: 19/05/10 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 6. ed. Rio de Janeiro: PD&A, 2001 LACLAU, Ernest. Misticismo, retórica y política. México, Argentina, Brasil, Chile, Colombia, España, Estados Unidos, Guatemala, Perú, Venezuela: FONDO DE CULTURA ECONÔMICA, 2002. MACEDO, Elizabeth. Ciência, tecnologia e desenvolvimento. In: LOPES, Alice Casimiro; MAEDO, Elizabeth (Orgs.). Currículo de ciência em debate. 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In: Revista Brasileira de Educação, v. 14, n. 42 set./dez. 2009. Anexos Tabela 1: Número de programas de pós-graduação por regiões REGIÕES Centroeste Nordeste Norte Sudeste Sul Total NÚMERO DE PROGRAMAS* 72 156 34 777 232 1.271 Fonte de dados: SANTOS & AZEVEDO (2009) *Programas com mestrado acadêmico e doutorado Tabela 2: Grandes áreas de conhecimento GRANDES ÁREAS Ciências Exatas e da Terra Ciências Biológicas Ciências Agrárias Ciências Sociais Aplicadas Ciências Humanas Linguística/Letras/Artes Multidisciplinar TOTAL Fonte: www.trienal.capes.gov.br. QP 256 951 296 332 386 146 280 2647 TE 3529 13210 3960 2630 5437 2102 1271 32139 DI 8349 36683 10276 16095 18262 6915 7998 104578 A1 2266 13391 1598 438 1724 804 2565 22786 B1 7821 28025 10969 2377 4368 1129 4619 59308 Legendas: QP= Quantidade de programas TE= Teses DI= Dissertações A1= Artigos Qualis a1 B1= Artigos Qualis B1 ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3641 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Tabela 3: distribuição de conceitos segundo as áreas de conhecimento GRANDES ÁREAS Ciências Exatas e da Terra Ciências Biológicas Ciências Agrárias Ciências Sociais Aplicadas Ciências Humanas Linguística/Letas/Artes Multidisciplinar TOTAL Conceito 7 Conceito 6 Conceito 5 Conceito 4 Conceito 3 25 27 41 92 71 50 96 204 336 339 14 20 82 101 79 5 20 77 116 124 19 23 84 135 124 5 11 34 41 45 0 7 42 91 140 118 204 564 912 922 Fontes: www.trienal.capes.gov.br Gráfico 1: Distribuição de programas por regiões Fonte de dados: Santos & Azevedo (2009) Gráfico 2: Grandes áreas conhecimentos Fonte: www.trienal.capes.gov.br ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3642 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior Gráfico 3: Distribuição percentual de conceitos segundo as áreas de conhecimento Fonte: trienal.capes.br ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3643 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior POLÍTICAS DE CURRÍCULO E OS SABERES DOCENTES: IMPLICAÇÕES À FORMAÇÃO CONTÍNUA Francisco Mirtiel Frankson M. Castro Charmênia Freitas de Sátiro Maria do Carmo Carvalho Madureiro Universidade Federal do Ceará - UFC RESUMO Entende-se que somente as formações iniciais e contínuas institucionalizadas não dão conta de atender às necessidades formativas dos docentes, há outras situações de aprendizagem que complementam os saberes acadêmicos, que devem ser integradas às políticas curriculares dos cursos de formação de professores. Com isso, fica o problema: quais são os saberes da experiência integrantes da formação continuada docente com base na interação professoraluno, que podem ser contemplados nas políticas de currículo de formação docente? Nesse estudo, destacam-se os seguintes referenciais teóricos: Freire (1999), Imbernón (2010), Moreira (1999) Nóvoa (1995), Pimenta e Ghedin (2010), Silva (2003) Tardif (2002), Therrien (1997) e Veiga e d’Ávila (2008). Os dados relatados nesse artigo trazem informações sobre uma pesquisa em desenvolvimento, que tem como sujeitos do estudo professoras de uma escola de ensino fundamental em Itapipoca (Ceará) e como instrumentos de coleta de dados observações do local, memórias docentes e entrevistas semiestruturadas. Os resultados preliminares apontam que através da prática de ensino os docentes adquirirem muitos saberes vitais ao exercício da profissão e que devem ser contemplados nos currículos das licenciaturas. Palavras-chave: Política Curricular. Formação Docente. Saberes Docentes. POLICIES OF THE CURRICULUM AND FACULTY KNOWLEDGE: IMPLICATIONS TO TRAINING SUMMARY It is understood that only the initial training and ongoing institutionalized not realize meet the training needs of teachers, there are other learning situations that complement the academic knowledge, which must be integrated into the curriculum policies of training courses for teachers. Thus, the problem is: what are the members of the knowledge of experience teaching continuing education based on teacherstudent interaction, which can be subsumed under the policy training curriculum? In this study, we highlight the following theoretical frameworks: Freire (1999), Imbernón (2010), Moreira (1999) New (1995), Pepper and Ghedin (2010), Silva (2003) Tardif (2002), Therrien (1997) and Veiga and Avila (2008). The data reported in this article provide information about an ongoing research, which is subject of a study teachers in elementary school Itapipoca (Ceará) and as instruments for data collection of local observations, memories teachers and semi-structured interviews.Preliminary results indicate that through the practice of many school teachers acquire knowledge vital to the profession and that must be addressed in undergraduate curricula. Keywords: Curriculum Policy. Teacher Education. Faculty Knowledge. ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3644 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior 1. Introdução “[...] na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática.” (FREIRE, 1999, p. 41-42) Inúmeros debates, cursos de curta e longa duração, pesquisas científicas, dentre outras ações, são voltados à formação docente, em decorrência de determinados fatores, como a necessidade de melhorar a qualidade da educação, em razão das exigências dos organismos internacionais e da própria sociedade. As discussões voltadas a este tema não se esgotam nem perdem a relevância perante outras temáticas de pesquisa, pois o estudo da formação docente assumiu maior centralidade no quadro educacional do Brasil, algo que não pode ser desconsiderado pelas políticas públicas educacionais e curriculares voltadas à própria formação desses profissionais. Com efeito, nota-se que “[...] a formação de professores é um momento-chave da socialização e da configuração profissional [...]” (NÓVOA, 1995, p. 18). Então, faz-se necessário que o professor esteja em constante formação, em decorrência de sua função social. Destaca-se, porém, o fato de que existem diferentes “[...] limitações na formação inicial dos professores, que historicamente acumulam índices precários devido à formação aligeirada e muitas vezes frágil, teórica e praticamente”. (PIMENTA; LIMA, 2008, p. 50). Em relação a tal fato, consoante Imbernón (2004), Nóvoa (1995), Tardif (2002) e Veiga e d’Ávila (2008), sabe-se que somente a formação institucional não dá conta de todos os processos formativos necessários à conquista de sua identidade e de sua práxis educacional. Sendo assim, “o saber dos professores é plural e também temporal, [...] é adquirido no contexto de uma história de vida e de uma carreira profissional”. (TARDIF, 2002, p. 19-20). Para tanto, a formação institucionalizada, seja inicial ou continuada, deve dar uma maior atenção à prática de ensino e aos saberes experienciais como elemento relevante para a formação docente. Dessa forma, entende-se que as políticas curriculares de formação de professores necessitam dar conta de contemplar tais discussões no âmbito da elaboração e promulgação de ações voltadas ao processo formativo desses sujeitos, considerando o ensino presencial como relevante para o processo de desenvolvimento docente, o qual deve valorizar e dar ênfase aos saberes da experiência do professor, não somente durante a realização dos estágios, mas ao longo de todo o processo formativo, nos diversos componentes curriculares ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3645 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior da formação inicial e continuada, porque a prática docente ensino dialoga constantemente com a fundamentação teórica do ensino presencial. Nesse sentido, como o currículo pode ser compreendido como “o resultado de uma seleção” (SILVA, 2003, p.15), nota-se que é vital a existência de ações pedagógicas nas licenciaturas, via políticas curriculares, e no próprio espaço escolar, campo da prática de ensino, que a valorizem como elemento proponente de diferentes saberes, que se interligam com os demais conhecimentos do professor, sejam acadêmicos ou não, os quais devem ser visualizados pelo currículo formativo das universidades. Para tanto, entende-se que as unidades de ensino superior e os próprios espaços de trabalho do professor – escolas – devem dar uma maior atenção para a experiência docente, por ser esta um viés de articulação de vários conhecimentos e de identificação das necessidades formativas do professor, sendo este elemento central para a constituição da identidade docente. Deste modo, afirma-se que a prática pode desencadear reflexões sobre a formação acadêmica e a partir daí é possível rever a estrutura curricular dos cursos de formação de professores e a formação continuada promovidas nas próprias escolas. A prática de ensino “[...] é, portanto, um lócus de formação e produção de saberes”. (VEIGA; D’ÁVILA, 2008, p. 34). É no âmbito do processo educativo que se afirma e articula a relação entre teoria e prática, pela interlocução dos conhecimentos acadêmicos e do saberes provenientes do exercício da docência. Para tanto, a prática de ensino apresenta-se como um elemento propulsor para a aquisição e troca de conhecimentos. De acordo com Haidt (2002) e Libâneo (1994), a relação entre ensino e aprendizagem não é algo mecânico, por isso não deve ser visualizada como uma simples transmissão do professor que ensina para o aluno que aprende, ao contrário, é uma relação recíproca de aprendizagens. Ante a conjunção das reflexões apresentadas, em que a formação institucional pode vir a ser fragmentada, em decorrência de variadas limitações, é que se destaca a relevância do ambiente da sala de aula também como espaço de formação. Para tanto, entende-se que deve existir maior atenção por parte do poder público em elaborar políticas curriculares de formação decente, que tenham a prática como elemento de evidência no âmbito dos processos de aprendizagem desse profissional, sem desvalorizar os demais espaços e subsídios formativos, porque de acordo com MOREIRA (1997), há muito tempo o currículo deixou de ser apenas uma área meramente técnica, voltada para procedimentos e métodos. Além disso, como o currículo pode ser visto como o resultado de uma seleção de um universo mais amplo de conhecimentos e saberes, (SILVA, 2003) é fundamental que este dê ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3646 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior conta de contemplar na formação presencial do professor espaços de ressignificação e reflexão da prática de ensino, contemplando a valorização dos saberes da experiência, articulando estes com a formação teórica, tendo como foco de análise o exercício da docência e as relações estabelecidas com os alunos no âmbito escolar, por serem ricas situações de aprendizagens. Inúmeros estudos foram desenvolvidos sobre a epistemologia da prática como meio de formação docente, podendo ser citados os autores Pimenta e Ghedin (2010), Nóvoa (1995), Nunes (2001), Tardif (2002) e Therrien (1993; 1997), focando inclusive os saberes experienciais. Tais pesquisas, entretanto, não buscaram investigar os saberes que integram a formação continuada docente com suporte na interação professor-aluno. Supõe-se, com efeito, a existência de outras situações de aprendizagem que complementam a formação acadêmica do professor, relevantes para a sua qualificação profissional, com destaque para a referida interação, que pode produzir saberes. Diante disso, como o “currículo é uma questão de identidade” (SILVA, 2003, p. 16), evidencia-se que as políticas voltadas para a formação decente necessitam considerar que os professores constroem diferentes saberes no exercício do magistério. Com suporte na perspectiva exposta acerca da formação docente, tendo como eixo a interação professor-aluno e os saberes da experiência, definiu-se o problema de pesquisa em investigação: quais são os saberes da experiência que são integrantes da formação continuada docente, com base na interação professor-aluno, que podem ser contemplados nas políticas de currículo de formação docente? Inquietação esta que gera inúmeras reflexões sobre a ação docente, tendo como suporte os elementos da formação docente e em destaque, no caso em estudo nesse artigo, a contribuição das políticas curriculares em face da implementação de um currículo comprometido e voltado para busca de formação docente galgada no compromisso e na ética com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. 2. Os caminhos da pesquisa Esta investigação, em desenvolvimento, adota o método histórico-dialético, pelo fato de buscar penetrar o “[...] mundo dos fenômenos tendo em vista sua ação recíproca, da contradição inerente ao fenômeno e da mudança dialética que ocorre na natureza e na sociedade”. (MARCONI; LAKATOS, 2000, p. 91). É um estudo de natureza qualitativa, se preocupa com um nível de realidade que não pode ser quantificado, por trabalhar com o ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3647 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior universo de significados, aspirações, crenças, valores e atitudes, aprofundando o significado da questão para os sujeitos entrevistados (MATOS; VIEIRA, 2001; MINAYO, 1994). É desenvolvida com base em uma revisão bibliográfica, no intuito de compreender o que é discutido acerca da temática em foco e subsidiar as interpretações dos dados empíricos, que se apresentam como um meio de se conseguir não só uma aproximação com aquilo que se intenta conhecer e estudar, mas também de elaborar um conhecimento, mediante a realidade presente no campo (MINAYO, 1994). A pesquisa se constitui como um estudo de caso e tem como locus a Escola Pública Municipal de Ensino Fundamental de Tempo Integral Maria Magalhães Viana de Azevedo, localizada no município de Itapipoca (Ceará). A escolha se justifica por se tratar de uma escola que permite aos professores, sujeitos do estudo pretendido, maiores tempos de vivências com os alunos. Em consequência, supõe-se que estes têm maiores interações com os discentes, informação que é relevante para os propósitos deste estudo. Nesta cidade existem mais duas escolas com essa característica, porém, a instituição mencionada destaca-se pelo fato de concentrar um número significativo de professores efetivos com “longo” tempo de magistério, ou seja, mais de dez anos, em sua maioria, motivo que possibilita a permanência deles na instituição e com um maior tempo de exercício da docência, sendo este inclusive o critério de seleção dos sujeitos. Todas as atividades realizadas durante a pesquisa são anotadas em um diário de campo, mediante a elaboração de um plano específico para organizar e registrar as informações (GIL, 1994). Como a pesquisa encontra-se em desenvolvimento, têm-se as seguintes técnicas para a coleta de dados: inicialmente serão realizadas observações sistemáticas da escola, permeando o desenvolvimento da investigação, com destaque para as salas de aula, focando as relações entre os professores e os alunos, a fim de registrar informações que não venham a ser captadas por meio das técnicas descritas a seguir. Também serão gravadas as memórias dos professores em relação às interações com os discentes, pois os “[...] depoimentos e testemunhos biográficos (relatos de vida e histórias de vida) são centrais para a reconstrução dos pensamentos, do saberes, sentimentos e práticas”. (DAMASCENO; SALES, 2005, p. 111). Essa técnica vem “[...] valorizar saberes forjados na prática, descobrir rupturas e continuidades. Permite, sobretudo, enfatizar relacionamentos e aprendizagens, apontando a inevitabilidade dos riscos e transformações pessoais”. (IDEM, p. 115). ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3648 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior O referido procedimento é fundamental para identificar situações do cotidiano, guardadas na memória, que trouxeram mudanças na formação do professor. Por último, atrelada a esta técnica, serão realizadas entrevistas com os professores, orientadas por um roteiro com perguntas semiestruturadas, previamente estabelecidas com base nos objetivos e da fundamentação teórica, a fim de captar informações passiveis de não ser obter ou venham a ser secundarizadas nas memórias. Destaca-se que “[...] o trabalho de campo é sempre precedido por um esforço no sentido de traduzir as categorias de análise (entendidas como categorias básicas que norteiam o estudo) em categorias temáticas que possibilitam um contato direto com a realidade empírica investigada”. (IDEM, p. 96). A análise de dados considerará as categorias deste estudo, visualizando os seus objetivos, que serão o eixo central da discussão e interpretação das informações colhidas no campo, perante a fundamentação teórica e as interpretações do pesquisador. 3. Aproximações, diálogos e reflexões sobre o foco da pesquisa O interesse pelo estudo da formação docente teve como ponto de partida diferentes inquietações e experiências, dentre as quais podem ser citadas a participação como professor colaborador no Grupo de Estudos “Formação, Trabalho e Profissionalização Docentes na Contemporaneidade”, na Faculdade de Educação de Itapipoca (FACEDI), da Universidade Estadual Ceará (UECE), como também outras trajetórias trilhadas na graduação, ao participar, por exemplo, do Programa de Monitoria Acadêmica e de um grupo de estudos sobre pesquisa científica na UECE, no decorrer do exercício do magistério, na educação básica e no ensino superior, e, posteriormente, como coordenador de um grupo de extensão, que tem foco a análise de histórias de vida. As leituras e vivências que este estudo proporcionou permitiram evidenciar que, ante as transformações sociais e as próprias exigências do mercado de trabalho, o docente deve dispor de uma formação contínua de qualidade, firmada na execução de políticas públicas comprometidas e orientadas para tal propósito, que devem valorizar inclusive os conhecimentos provenientes da prática de ensino durante a formação presencial do professor. Isso se justifica também porque entende-se que “o desenvolvimento do trabalho docente, pelo grau de complexidade que envolve, não se encaixa em saberes estáveis, sistemáticos e ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3649 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior instrumentais, automaticamente aplicáveis às situações de ensino-aprendizagem.” (PASSOS, 2004, p. 79). Para a melhor compreensão do objeto da temática aqui analisada, realizou-se inicialmente um estudo bibliográfico, visando ao diálogo com diversos autores contemporâneos da educação. Em adição, foram executadas investigações exploratórias com o objetivo de definir claramente o problema, visando também a escolher o campo e os sujeitos desta proposta de pesquisa, e selecionar as técnicas mais adequadas a serem realizadas no recolhimento dos dados. Essas averiguações preliminares desenvolveram-se em atividades de alguns componentes curriculares (Estágio Supervisionado, Pesquisa e Prática Pedagógica, Teoria da Educação I e Didática) dos cursos de licenciatura em Pedagogia, Biologia e Química da FACEDI, em diversas escolas municipais de Itapipoca, quando se participou, como docente do ministério dessas disciplinas. Os professores, observados e entrevistados nestes trabalhos, tomados aleatoriamente, apontaram para a necessidade de investigar o significado que a interação de docentes e discentes assume na formação continuada do professor, quanto à constituição e aprendizagem de determinados saberes. De acordo com a fala da professora Luiza, “o contato com os alunos durante permite que nós venhamos também aprender com eles, porque nós trocamos conhecimentos, a relação com eles possibilitam a aquisição de conhecimentos importantes para a nossa vida profissional.” Essas investigações preliminares apontaram inclusive que a epistemologia da prática como elemento de formação docente “[...] pode ser considerada uma área nova, carentes de estudos empíricos [...]” (NUNES, 2001, p. 39). Há que ser destacado nesta discussão que a “fundamentação teórica, se em estreita interação com a prática a partir de uma reflexão sistemática sobre ela, oferecerá subsídios para ampliar as possibilidades de ação reflexiva do (a) professor (a).” (PASSOS, 2004, p. 80). Para tanto, percebe-se que a investigação da prática de ensino é algo pertinente e necessário nos processos formativos do professor e no exercício da docência, mas essa investigação deve ter como suporte uma rica fundamentação teórica. O exercício do magistério também revelou que a interação com os alunos possibilita momentos ricos de formação continuada, compreendida como “[...] um processo de aprendizagem ao longo da vida [...]” (NUNES, 2002, p. 55). Algo que deveria ter sido dado uma maior importância e destaque durante o curso de formação inicial para docência, no caso, aspectos relacionados ao campo da prática, do saber experiencial, dada relevância desta para o processo de formação de professores e, em especial, porque se compreende que o currículo ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3650 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior de formação docente “há muito tempo deixou de ser apenas uma área meramente técnica, voltada para questões relativas a procedimentos, técnica, métodos” (MOREIRA; SILVA, 1997, p. 07). No curso da ação docente, foram aprendidos determinados valores, habilidades e princípios, que foram configurados na forma de saber da experiência, que só fora apreendido com amparo na prática de ensino, mesmo sendo apresentado e discutido por determinados autores durante a graduação em Pedagogia Em destaque, pode ser citado o fato de saber escutar, pois “[...] o educador que escuta aprende a difícil lição de transformar o seu discurso, às vezes necessário, ao aluno, em uma fala com ele”. (FREIRE, 1999, p. 127). Há que ser explicitado nessa discussão que só é possível assimilar e vivenciar esse saber, aqui analisado, em situações dialogais com os estudantes, algo que trouxe inúmeras contribuições para a prática e a formação docente nos quais se evoluiu até o presente momento no mister de professor. Quanto a essa questão, Passos (2004, p. 81) vem destacar que a “formação se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal.” Os resultados deste estudo situam-se na possibilidade de contribuir para a elaboração de políticas públicas educacionais e curriculares de formação de professores, que privilegiem a sala de aula como espaço de formação docente, valorizando os conhecimentos por eles constituídos no âmbito escolar. Outro aspecto a ser destacado é que esta pesquisa pode ter papel importante para os cursos de formação de professores, pois nesse ensaio são realizados aprofundamentos teóricos sobre os saberes docentes, centrando-se nos saberes da experiência, com base noutra visão e perspectiva diversa, possibilitando a produção de conhecimentos e reflexões para docentes em formação ou que esteja no exercício do magistério, algo que já tem suscitado na formação do próprio pesquisador. A pesquisa, em curso, é desenvolvida na Escola de Ensino Fundamental de Tempo Integral Maria Magalhães Viana de Azevedo, localizada no Município de Itapipoca, que está situado na região norte do Estado do Ceará, localizado a 138 km de Fortaleza e conta com população estimada em cerca de 120 mil habitantes. Como ex-professor do ensino médio e atualmente lecionando em cursos de formação de professores nesse município, na FACEDI, viu-se que é preciso a universidade pública propiciar um retorno social por meio de suas pesquisas sobre a temática proposta, pois, quando se aspira a uma formação de qualidade para os alunos, é preciso voltar às atenções também para a qualidade da formação do ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3651 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior professor. Além disso, as inquietações que fizeram surgir o interesse por este estudo nasceram das vivências nessa Cidade, atuando-se tanto na educação básica quanto no âmbito da formação docente, em que foi possível se perceber a necessidade em estudar e valorizar a relação professor-aluno na formação profissional do professor. 4. Formação e prática docente: pontos integrantes e dialogais no âmbito do currículo dos cursos de formação de professores Como o conhecimento científico é produzido com muita velocidade e está em constante transformação e o professor é o principal agente deste conhecimento, mediante sua prática de ensino, faz-se necessário que ele tenha constante formação. Ressalta-se que essa formação pode ser realizada de maneiras diferentes, considerando diversos contextos, seja esta inicial, continuada, permanente, autoformativa e/ou inconclusa, conforme discutem Imbernón (2004; 2009; 2010), Libâneo (1994; 2004), Nóvoa (1995), Pimenta e Lima (2008), Pimenta (2009), Pimenta e Ghedin (2010), e Veiga e d’Ávila (2008). O processo formativo docente ocorre mediante a utilização de mecanismos cumulativos e sucessivos de aprendizagem, via realização de fundamentação teórica e de práticas de ensino, objetivando assimilar, constituir e reconstituir uma série de saberes relevantes para a sua profissão, porque, de acordo com Passos (2004, p.80), “[...] o exercício da profissão docente se caracteriza pela pluralidade de saberes e experiências para o seu desempenho.” Em razão da nova ordem mundial, do cumprimento da função social da escola e da busca por melhorias na educação do País, a temática da formação de professores apresenta maior importância em decorrência do papel que esses sujeitos assumem na promoção das políticas públicas para atender esses propósitos. Além disso, destaca-se que a formação “[...] se transforma na possibilidade de criar espaços de participação, reflexão e formação para que as pessoas aprendam e se adaptem para poder conviver com a mudança e a incerteza [...]” (IMBERNÓN, 2004, p. 15). Muitos estudos revelam os problemas de formação inicial e continuada do professor. Há críticas à rigidez curricular e metodológica dos cursos e ao distanciamento da prática (LIBÂNEO, 2004). Então, o exercício da docência permitirá ao professor a possibilidade de desenvolver também inúmeras aprendizagens sobre a profissão, ou seja, a sua prática ensejará a apreensão de conhecimentos que complementam e reestruturam seus saberes acadêmicos, pois “o tipo de formação inicial que os professores costumam receber não oferece preparo suficiente para aplicar uma nova metodologia, nem para aplicar métodos desenvolvidos ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3652 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior teoricamente na prática da sala de aula”. (IMBERNÓN, 2004, p. 41). Frente a isso, é fundamental que tais cursos, seja os de formação inicial ou continuada, devem urgentemente repensar seus fins e função social, a fim de reestruturarem seus currículos, no intuito de dar conta de contempla na formação de seus professores diferentes conhecimentos necessários à prática de ensino. Este estudo supõe, de saída, que somente a formação institucionalizada não possibilita ampla e plena qualificação ao professor, embora seja fundamental, por isso, considera a existência de outros meios e espaços de capacitação que complementam a formação inicial. Esta pesquisa compreende, com efeito, a categoria formação continuada “[...] como um processo dinâmico através do qual, ao longo do tempo, o professor vai adequando sua formação às exigências de sua atividade profissional [...]” (NUNES, 2002, p.47). Para tanto, não reduz essa formação a qualquer forma de certificação, treinamento ou capacitação após concluída a graduação, definindo-a como permanente, pois busca “[...] remover o sentido pedagógico comum, para recompor o equilíbrio entre os esquemas práticos e os esquemas teóricos que sustentam a prática educativa” (IMBERNÓN, 2004, p.59). É preciso considerar ainda que “[...] a formação de professores centrada na investigação envolve esforços no sentido de encorajar e apoiar as pesquisas dos professores a partir das suas próprias práticas [...]” (NÓVOA, 1995, p. 126). À vista do exposto, entende-se que tal formação deve ser orientada na relação teoriaprática, uma vez que estas categorias são dialéticas e indissociáveis, pois é preciso compreender que este vinculo é recíproco e simultâneo (FREIRE, 1979). Para tanto, a prática pedagógica é um elemento constitutivo da formação, sendo um local de produção de saberes (VEIGA; D’ÁVILA, 2008). Na perspectiva de Pimenta e Ghedin (2010), os saberes teóricos se articulam com os saberes da prática, ao mesmo tempo ressignificado-os e sendo por eles ressignificados. Destaca-se, ainda o fato de, que até a formação inicial “[...] só pode se dar a partir da aquisição da experiência dos formados (ou seja, tomar a prática existente como referência para a formação) e refletir-se nela [...]” (PIMENTA, 2009, p. 25-26). De acordo com Therrien (1993; 1997), os professores produzem saberes específicos no decorrer da práxis educativa, por isso, não são apenas mediadores ou repassadores de conhecimentos elaborados por outros sujeitos, uma vez que o saber em estudo é entendido como saber formulado na prática social e do dia a dia dos docentes. E sendo assim, a identidade desse profissional é constituída, assume e assimila elementos do que é produzido em sua prática, por intermédio de suas diversas ações e interações sociais. Os saberes da ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3653 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior experiência, segundo Pimenta e Ghedin (2010) e Veiga e d’Ávila (2008), são produzidos na prática refletida (ação e reflexão), sendo formados por todos os demais, mediante o diálogo e o confronto entre teoria e prática, na prática refletida, considerando as condições e exigências concretas da profissão, integrando a sua identidade de professor. Tomando como foco as interações sociais, centrando a atenção na interação dos discentes com os docentes, vê-se que esta constitui situação propícia e rica para a produção desse tipo de saber, porquanto à medida que o professor exerce o magistério, desencadeia inúmeras aprendizagens sobre a própria docência. Para Tardif (2002), o saber dos professores está relacionado com a pessoa e a identidade deles, suas vivências e história profissional. Portanto, o docente necessita se perceber como um ser em formação, que aprende se utilizando de variados mecanismos, como, por exemplo, segundo Haidt (2002), é por meio da interação professor-aluno que o conhecimento é paulatinamente e coletivamente formado, pelo intercambio de ideias, ideais e valores. Nessa relação, tanto os alunos quanto os professores aprendem coletivamente, mediante a troca de conhecimentos e compartilhamento de saberes diferentes. Quanto a esse assunto, Morales (2006) destaca que os alunos também influem na formação do professor, criando um círculo relevante para o aprendizado deste. É preciso que os docentes percebam e deem destaque ao papel de tais interações em sua formação, refletindo e valorizando as percepções dos alunos, seus conhecimentos e experiências. De outro modo, os cursos de formação – ao se referir especificamente das políticas curriculares de formação docente – têm que possibilitar a inserção nos componentes curriculares de espaços destinados a integração e veiculação dos alunos no ambiente escolar, isso além dos estágios, para que seja possível vivenciar o que se proposto nas reflexões aqui desencadeadas, pois não se pode perder de vista que “um currículo busca modificar as pessoas que vão ‘seguir’ aquele currículo.” (SILVA, 2003, p. 15). Sendo assim, por intermédio de uma formação ampla e diversificada, diferentes aprendizagens podem ser alcançados a partir do momento que se conjuga os elementos aqui explicitados – conhecimentos acadêmicos e saberes da experiência – que são fundamentas para a própria constituição da identidade docente, pois a “relação teoria e prática fertiliza, enriquece e oferece elementos de superação à ação docente.” (PASSOS, 2004, p.80) A sala de aula é palco de frequentes e instigantes diálogos. Em muitas situações, revela diferentes conflitos, produzidos, por exemplo, com o apoio em situações de indisciplina e autoritarismo, que podem comprometer o sucesso do processo educativo, mas, por sua vez, se ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3654 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior apresentam também como situações de aprendizagem para esses sujeitos. Desse modo, é preciso identificar a sala de aula como um lugar de relação, de experiências didáticas, em que são estabelecidas diferentes formas de comunicação, considerando aspectos afetivos e emocionais, que permitem a veiculação e intercâmbio de valores e princípios de vida, por meio de um trabalho interativo (HAIDT, 2002; LIBÂNEO, 1994; MORALES, 2006). Convém levar em conta o fato de que saber pode ser definido, “[...] num sentido amplo, os conhecimentos, as competências, as habilidades e as atitudes [...]” (VEIGA; D’ÁVILA, 2008, p. 33). Contudo, é preciso ressaltar que “[...] o saber docente é plural, formado [...] de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais” (TARDIF, 2002, p. 36). Logo, a formação do professor é marcada por diversificados e amplos saberes, constituídos e provenientes de múltiplas fontes, que em seu conjunto integram esse profissional, em sua essência, plural e inacabado. Para tanto, os saberes da experiência são produzidos no cotidiano, com origem em vivências, são dinâmicos e revelam valores, subjetividade, emoções e sentimentos, além de serem fruto de confrontos com os demais saberes, tendo como foco a prática docente. 5. Conclusão Os resultados preliminares da análise da fundamentação teórica dessa pesquisa revelam que o estudo da formação docente é algo pertinente e necessário na atual conjuntura, dada à importância dos professores em meio à sociedade, os quais são imbuídos de possibilitar, através da ação docente, o acesso ao conhecimento sistematizado a diferentes pessoas, permitindo a estas a compreensão dos contrastes e ideologias da dinâmica social. Sendo assim, para realizar tais atribuições, é necessário que esse profissional disponha de uma formação de qualidade, firmada em uma ampla fundamentação teórica e na prática educativa, por intermédio da práxis educacional. Evidencia-se que a formação acadêmica dos professores, seja inicial ou contínua, deve possibilitar o acesso a diferentes conhecimentos, porém, reconhece-se que somente estes não dão conta de permitir que esses sujeitos disponham de saberes para saber lidar com as diferentes situações do cotidiano escolar. Logo, percebeu-se a luz da contribuição dos autores em estudo que no decorrer da formação acadêmica, os docentes devem dispor de leituras que possibilitem a critica da sociedade e de sua própria prática de ensino, por intermédio do ISSN 18089097 GT 05: POLÍTICAS DE CURRÍCULO E O ENSINO SUPERIOR PRESENCIAL 3655 V COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES Avaliação das Políticas Curriculares: da educação básica ao ensino superior diálogo com as experiências docentes, que devem ir além da realização dos estágios supervisionados. Desse modo, nota-se que as políticas curriculares das licenciaturas devem permitir discussões e inserções de práticas educativas que contemplem e valorizem a sala de aula também como espaço de formação para os professores em formação, no intuito destes disporem de experiências críticas e reflexivas da prática docente, por ser este o viés formativo e ressignificador dos conhecimentos acadêmicos, pois a prática de ensino possibilita inúmeras aprendizagens. São ricas a vivências que o exercício do magistério possibilita aos docentes, pois existem inúmeros saberes que são explicitados no espaço da sala de aula, por meio dos processos educativos vivenciados nesse ambiente, tendo a relação professor-aluno como destaque nesse contexto. A literatura em estudo tem revelado ainda que o exercício do magistério possibilita aos professores o diálogo e ressignificação dos conhecimentos acadêmicos com a prática, algo que deve ser visualizado pelas políticas públicas educacionais de formação docente. Frente a isso, destaca-se ainda que os cursos de formação continuada dos professores em exercício devem dar maior atenção a esse campo como local de aquisição de diferentes saberes, que são imprescindíveis à formação do professor, porque pode possibilitar uma leitura mais crítica da dinâmica social que permeia a sala de aula, assim como, a própria formação desse profissional. Logo, os estudos aqui desenvolvidos revelam que as diferentes interações do ambiente escolar são fundamentais para a formação docente, principalmente quando se toma como eixo as interações com os alunos. 6. Referências Bibliográficas DAMASCENO, Maria Nobre; SALES, Celecina Veras (Orgs.). O caminho se faz ao caminhar: elementos teóricos e práticas na pesquisa qualitativa. Fortaleza: Editora UFC, 2005. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 16 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. ________. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1994. HAIDT, Célia Regina C