A LITERATURA-ARTE NA EDUCAÇÃO PÚBLICA. Profa Dra Eliana Gabriel Aires, Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. Goiânia-GO. [email protected] Resumo: Esta comunicação se propõe compartilhar a experiência da pesquisa A Literatura-Arte na Educação Pública, que pretende desenvolver o gosto pela leitura desde os anos iniciais da criança. Só a literatura arte pode contribuir para isso, pois acredita no potencial do seu leitor, não subestima sua inteligência e criatividade. O papel estético da literatura é muitas vezes negligenciado em função do papel formativo, que é o único valorizado pela maioria das escolas. Esta pesquisa contempla propiciar subsídios, em relação à leitura e escrita, tendo como eixo a literatura infantil. Seu objetivo maior é destacar a importância da literatura infantil na formação do professor ampliando suas possibilidades para superar as contradições de nossa realidade. A leitura literária para quebrar as armadilhas humanas. Esta pesquisa, ainda em desenvolvimento, já tem alguns resultados interessantes para serem socializados. Palavras-chaves: literatura infantil, leitura e escrita, formação do professor Seminário do 16º COLE vinculado: 08 AIRES, Eliana Gabriel. Faculdade de Educação-Universidade Federal de Goiás A Literatura-Arte na Escola Pública Esta comunicação se propõe compartilhar a experiência da pesquisa “A Literatura-Arte na Educação Pública”, que se originou de uma necessidade dos graduandos de Pedagogia da Faculdade de Educação (FE) e professores das Redes, em familiarizarem-se com a literatura infantil, com textos de bons autores e com atividades práticas do contexto literário no cotidiano da sala de aula. Tendo em vista as grandes dificuldades de nossos alunos desde as séries iniciais em relação à leitura e à escrita acreditamos ser o texto literário um elemento de fundamental importância para constituir o leitor crítico reflexivo. É grande o número de alunos que chegam à universidade sem o domínio mais elementar da leitura e escrita para o seu desempenho acadêmico. Estes estudantes não estão familiarizados com a leitura de livros, jornais, revistas e, consequentemente apresentam, sérias dificuldades para redigir um texto. Acreditamos que a aquisição do gosto pela leitura deve se constituir desde os anos iniciais da vida de uma criança e que só a verdadeira literatura, aquela que acredita no potencial de seu leitor, que não subestima sua inteligência e criatividade, 2 pode contribuir para que o aluno seja capaz de interpretar adequadamente testos de distintas naturezas e assim ser capaz de redigir satisfatoriamente. Para isso é essencial garantir uma relação lúdica e afetiva do aluno com o texto literário. O papel estético da literatura é muitas vezes negligenciado em função do papel formativo. A maioria das escolas utiliza o texto literário para o aluno responder a um questionário, para uma avaliação, ou mesmo para trabalhar questões gramaticais. Como afirma Versiani Machado, “o que antes estava na esfera do prazer transforma-se em mero instrumento de tais regras gramaticais... (o texto literário) fica privado de toda carga poética, transformando-se, também num simples instrumento de assimilação gramatical” (1996, p.47). È necessário criar espaço para o texto literário em sala de aula, lugar em que o aluno dialoga com a obra, emite opinião , reconta, produz outro texto, estabelece um jogo textual e vai se constituindo leitor. A literatura de qualidade é um instrumento poderoso, pois ultrapassa a constituição do leitor/autor. As experiências humanas que veicula atuam na formação moral, estética e ética da criança e do adolescente. A literatura oferece uma experiência ímpar e pode propiciar um avanço qualitativo em sua existência. A leitura do texto literário mobiliza a sensibilidade, a subjetividade, o gosto estético, a história pessoal, entre outros aspectos. A proposta da presente pesquisa contempla propiciar subsídios aos professores das redes, em relação à leitura e escrita, tendo como eixo a Literatura infantil, num esforço de superar a fragmentação dos textos literários e a sua aplicação quase que exclusivamente gramatical. Yunes & Pondé afirmam: “a literatura literária, como fonte de reflexão e prazer, fica relegada a algumas perguntas objetivas e sem sentido. O texto vira pretexto para ensino de gramática” (1989, p.30). Como enfatiza Cecília Meireles “a Literatura não é, como tantos supõem, um passatempo. É uma nutrição” (1979, p.28). No centro dos questionamentos recentes sobre o valor da literatura para crianças e jovens está a discussão sobre a necessidade desse tipo de ficção ser visto de outro modo no contexto educacional e na vida dos leitores. A literatura, independente de rótulos ou enquadramentos, procura se constituir como plena liberdade para alçar vôos e assim dar a seus leitores possibilidades de ingressar nessa aventura. Essa liberdade propiciada pela arte ficcional contribui para a formação do sujeito crítico, reflexivo e imaginativo. A gênese da criação (não só a artística) alicerça-se na criatividade alimentada pela imaginação. Só a partir da experiência de leitura individual do professor, pode-se criar atividades voltadas para o prazer e o jogo da literatura. Rodari assinala “o lugar de destaque que a imaginação deve ter no processo educacional, assim como a criatividade e a crença no valor de liberação que a palavra pode ter” (1982, p.13). Para esse escritor reconhecido como o maior autor infantil italiano, “criatividade é sinônimo de ‘pensamento divergente’, isto é, de capacidade de romper continuamente os esquemas da experiência. É criativa uma mente que trabalha, que sempre faz perguntas, que descobre problemas onde 3 outros encontram respostas satisfatórias (...),que é capaz de juízos autônomos e independentes (do pai, do professor, da sociedade), que recusa o codificado, que remanuseia objetos e conceitos sem se deixar exibir pelo conformismo ”(Idem,p.140). A literatura-arte se apresenta plurissignificativa, oferecendo-se como um amplo sistema de signos e assim instiga o leitor a uma disposição mental mais crítica e arejada frente ao texto. Ela se distancia do traçar regras ou estereótipos a serem seguidos e dos estigmas da convenção. Na literatura-arte não cabem ensinamentos categóricos, mas uma ousadia imperiosa e exigente. Considerando, como já foi dito muitas vezes, haver um descompasso entre o discurso acadêmico e a realidade escolar, nossa pesquisa se propõe a trabalhar com os professores das redes para propiciar-lhes condições mínimas no trato da leitura/escrita, através da literatura-arte. Questões em relação ao livro didático, às aulas padronizadas, ao professor, “leitor limitado”, que na concepção de Britto, (...), na sua maioria, é de fato um não-leitor, seja porque não tem o ‘hábito gratuito da leitura’, seja porque não tem condições sociais de ser leitor, seja ainda porque não ‘gosta de ler’ ” (2003, p.150). Este professor se torna incapaz de produzir intelectualmente e, portanto, não consegue realizar com êxito o seu trabalho educativo. Estas questões básicas constituem nosso ponto de partida e servirão como orientadoras da presente pesquisa, que pretende abordar, como já foi dito, o mau uso da literatura infantil na escola, a constituição do leitor criativo, a constituição do professor como leitor /autor e a atuação da literatura para além do ler e escrever , como um dos processos de formação do cidadão , enquanto sujeito de trabalho, cultura e linguagens. O Projeto “A Literatura-Arte na Educação Pública” originou-se da investigação de um Grupo de Estudos de Literatura Infantil, cuja proposta era suprir uma lacuna em relação à formação de nossos alunos do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás, e dos professores das Redes de Ensino, quanto às questões teóricas e práticas da Literatura Infantil. Foi iniciado assim, em 2004, o Projeto de Extensão “Estudos de Linguagem: Literatura-Leitura e Escrita”. Este grupo se reuniu semanalmente durante o ano de 2004 para estudar, refletir e discutir a necessidade de os professores estarem mais preparados e comprometidos com o valor da literatura na vida das pessoas. O projeto gerou três mini-cursos apresentados na Semana da Faculdade de Educação, em 2004. Em 2005 o “Grupo de Estudos” continuou se reunindo com mudanças no quadro de participantes. Um dos objetivos propostos foi a aquisição de orientações básicas para o trabalho com a Literatura na sala de aula, já que não possuíamos em nosso currículo uma disciplina que contemplasse esta área. Há bem pouco tempo a disciplina Literatura Infantil foi incluída no Núcleo Livre. Outro objetivo importante foi familiarizar o grupo com bons textos literários infanto-juvenis e estabelecer uma interação com os professores das redes pública e privada, para oferecer subsídios ao seu trabalho pedagógico e realçar o valor da literatura na sala de aula 4 objetivando romper as usuais barreiras que separam a Universidade e as Escolas Públicas. Em 2005 o Grupo de Estudos ofereceu o mini-curso “Monteiro Lobato: Ler, Ouvir, Sonhar e. se deliciar”, no 14º Simpósio de Estudos e Pesquisas Educacionais da FE. Realizou também Encontros com os professores das Redes, nos quais foram discutidas questões fundamentais da Literatura Infanto-Juvenil. Efetivou-se ainda o 1° Seminário de Literatura Infantil na FE, com a presença da escritora Marina Colasanti. É preciso registrar que, desses encontros com os professores, originou-se uma apostila que se constituiu num relato completo das atividades realizadas. Uma das preocupações que motivou a presente pesquisa foi a constatação do alarmante índice de dificuldades em relação à leitura e escrita de nosso alunos, das séries iniciais à Graduação e até mesmo dos alunos da Pós. Consideramos ser essencial garantir uma relação lúdica e afetiva do aluno com o texto literário, não só para o desenvolvimento da leitura e da escrita, mas principalmente para se constituir um leitor crítico e reflexivo, estimulado a enfrentar seus medos e embates cotidianos, que saiba valorizar a singularidade da linguagem literária e que, sobretudo leia com prazer. A partir dos anos 70, deu-se no Brasil um aumento significativo no interesse pelas questões relativas à literatura e ao incentivo à leitura. Vários programas surgiram para esse fim, intensificando-se a produção de livros infanto-juvenis bem como o surgimento de novos escritores que hoje são nomes de destaque nesse setor. Os escritores souberam inovar a concepção do livro destinado à criança e ao jovem, rompendo com ideologias e formas estéticas enquadradas em códigos instituídos. A literatura de qualidade é um instrumento poderoso, a experiência humana que ela veicula atua na formação moral, ética e estética do leitor, que pode sair transformado dessa interação. Para isso é necessário que se modifiquem as práticas em relação à atuação do professor com os textos literários. A grande maioria das escolas utiliza a literatura para trabalhar questões de gramática ou interdisciplinares, que algumas vezes são bem vindas, porém é necessário ter um espaço para a literatura, lugar em que o aluno interaja com a obra e se constitua também autor. Quando a literatura tem a finalidade de “ensinar” algo, fica reduzida e esvaziada do simbólico, um de seus principais valores. Cabe, pois, a nós professores, criar espaços para a literatura na escola e para isso é relevante a experiência individual do professor. Em 2006 este “Grupo de Estudos” constituiu-se no Projeto de Pesquisa “A Literatura-Arte na Educação Pública”, já que ampliamos nosso campo de atuação e nos propusemos estudar não só a Literatura Infantil, mas pesquisar como nossos professores das escolas públicas têm trabalhado a questão da literatura em sala de aula. Das experiências que tivemos através desses contatos com os professores da Rede, pudemos perceber a imperiosa necessidade que estes professores têm em manter um elo de ligação com a universidade para obter a colaboração participativa em suas atividades, que os fortaleça em suas práticas cotidianos, para lidar com os 5 diversos problemas que se confrontam. Particularmente, nossa intervenção pretende se dar nas questões relativas à Leitura e Escrita tendo como base de sustentação e apoio a abertura que a Literatura possibilita para romper barreiras. É, portanto, nosso intuito estabelecer contato com algumas escolas da Rede Pública de Ensino, objetivando lhes propiciar condições de trabalho em relação à Leitura e à Escrita através da Literatura-arte. Os professores se constituirão em veículos disseminadores do valor da Literatura Infantil e da relevância de sua prática em nossas escolas, como “a semente contém o futuro carvalho”. É nosso intuito partir do pressuposto que esse professor se constituirá em um futuro pesquisador, que atuará como sujeito de sua prática, participando da pesquisa ativamente, podendo sugerir, questionar, opinar e refletir criticamente as situações reais de ensino. Não há qualificação profissional para toda vida, portanto o professor deve estar vinculado a processos consistentes e significativos de atualização, uma formação continuada, que se dê ao longo da vida. É preciso ressaltar que se prioriza a formação do professor como sujeito co-participante do ato de ler e escrever, como queria Paulo Freire: “o trabalho intelectual em um contexto teórico exige pôr em prática, em sua plenitude, o ato de estudar de que não pode deixar de fazer parte a leitura crítica do mundo, envolvendo a leitura e a escrita da palavra” (2005, p.113). O professor precisa ser intelectualmente capaz de produzir e refletir dobre a ação docente. Hoje se exige do professor que saiba lidar com um conhecimento em construção, que entenda a educação como um compromisso político, ético e moral, como nos adverte Britto “é necessário estabelecer políticas públicas que ampliem possibilidades de escolarização e de participação política e cultural da população” (2002, p.30). Uma obra literária promove em seu leitor a possibilidade de romper com as imposições da sociedade, justamente pelo caráter inovador e original de sua escrita. A função emancipatória da arte, responsável pela construção de novas formas, deve ser reforçada, pois como queria Jauss, é preciso “compreender o caráter revolucionário da arte: o poder que ela tem de libertar o homem de preconceitos e representações arreigadas na sua situação histórica e de o abrir a uma percepção nova de mundo, à antecipação de uma nova realidade” (1993, p.45). Se, por um lado, a literatura pode servir à libertação de conflitos e dramas existenciais, por um lado essa libertação será tanto maior quanto mais estiver estimulada pelos próprios poderes da linguagem em seu funcionamento poético-só este capaz de agenciar aberturas em relação ao real. Uma leitura que salte dos limites da escolaridade para alçar vôos mais ousados. Sobre essa proposta libertadora Blanchot também se pronunciou: “a literatura anuncia-se como poder que emancipa, a força que afasta a opressão do mundo, esse mundo ‘onde todas as coisas sentem a garganta apertada’, é a passagem libertadora do ‘EU ao ‘Ele’(...) na direção de outro mundo , o da liberdade”(1987,p.68). Essa liberdade que a arte propicia é salutar e necessária para que o ser humano se realize, pois, só assim o leitor, o jovem em especial, poderá exercitar um novo modo de olhar a realidade. Mas é preciso que essa abertura se viabilize como 6 construção no seio mesmo da linguagem–espaço em que o criador pode conspirar com as forças mágicas da palavra, agenciando sentidos inesperados. A literaturaarte promove em seu leitor a possibilidade de romper com as imposições da sociedade, justamente pelo caráter inovador e original de sua escrita. A criança deve vivenciar a palavra e a escrita em todas as possibilidades, explorando diferentes linguagens para apropriar-se do mundo que a cerca. Assim vai se constituindo a inserção do sujeito na cultura. É importante se ter clara uma concepção de linguagem que fundamente o trabalho de leitura e escrita como um processo de interação verbal e social entre os locutores, como defende Bakthin. A polissemia e a polifonia da palavra abrem campos para os múltiplos sentidos presentes na realidade social. Bakthin afirma ser “a palavra é o fenômeno ideológico por excelência. A palavra é o modo mais puro e sensível da relação social” (1992, p.37). A literatura veiculando essa multiplicidade da palavra desenvolve a formação do indivíduo crítico e criativo, mais consciente e produtivo. Possibilita que “não se aborte o processo de curiosidade da criança” usando as palavras de Paulo Freire e se valorize o espaço da imaginação, pois ainda segundo Freire: “É necessário que a professora ou o professor deixem voar criadoramente sua imaginação, obviamente de forma disciplinada. E isto desde o primeiro dia de aula, demonstrando aos alunos a importância da imaginação em nossa vida. A imaginação ajuda a curiosidade e a inventividade da mesma forma como aguça a ventura, sem o quê não criamos” (2005, pp.70,71). É preciso reintegrar a narrativa no cotidiano da sala de aula, estimulando o prazer de contar, ler, ouvir e criar novas histórias. Ana Maria Machado nos assegura que, “quando brinca, a criança faz-de-conta. Quando cresce, sonha. Isto é: fantasia, imagina, finge-cria uma ficção. E isto desempenha um outro papel importantíssimo para qualquer ser humano em paz consigo mesmo-além do prazer que traz ”(2002,p.20). Quanto mais nossos alunos participarem do universo literário, maiores possibilidades terão de compreender as leituras e de escrever textos significativos. Como ressaltam Yunes & Pondè, “a literatura é a porta de um mundo autônomo que ultrapassa a última página do livro e permanece no leitor incorporado na vivência ” (1989, p.39). Tendo em mente essas considerações, justifica-se o presente projeto, que busca valorizar uma das funções mais legítimas da literatura-arte: constituir o saber pelo sabor da linguagem. A presente pesquisa insere-se numa abordagem qualitativa colaborativa, que pretende atuar com o professor da escola pública, considerando-o como um profissional crítico e reflexivo. Para efetivar mudanças na escola e na sala de aula sabemos ser o professor, se não o único, um agente determinante na prática pedagógica e também no processo de transformações. Portanto, pretendemos investigar sua atuação em sala de aula, mas também ouvi-lo e trabalhar em parceria com ele, para verificar como estão refletindo e produzindo os conhecimentos necessários à inovação nos contextos escolares. 7 A pesquisa “A literatura-Arte na Educação Pública” visa resgatar o valor da literatura-arte em nossas escolas, desde os anos iniciais, estabelecendo uma relação dialógica entre os pesquisadores e os professores das escolas. A referida pesquisa terá como base o Grupo de Estudos em Literatura Infantil, que se constituirá como “lócus” de aprofundamento teórico e prático dos temas que fundamentarão nossa pesquisa. A partir de leituras, discussões e reflexões ao longo do processo, pretendemos que os componentes do grupo ampliem e construam conhecimentos sobre o tema em questão. Nossa meta é realizar essa pesquisa nos contextos escolares, para compreender e encaminhar respostas às dificuldades encontradas na sala de aula, em relação ao trabalho com a literatura infantil. É nosso intuito, portanto, desenvolver nossas atividades de pesquisa também na escola-campo, para estabelecer, entre outros pontos, a instituição de uma análise das práticas pedagógicas que são realizadas, para possibilitar que os professores, com a colaboração dos pesquisadores da FE, mudem suas ações institucionais, pois compreendemos ser um compromisso da universidade a melhoria dos sistemas públicos de educação, para possibilitar a ruptura de barreiras. Essa pesquisa pretende-se colaborativa, pois será realizada na interação entre pesquisadores da universidade e professores-pesquisados nas escolas, possibilitando nos professores condições de realizar análises e alterações em suas ações docentes, fortalecendo-os como sujeitos que visem uma melhor qualidade na formação dos alunos. Segundo Pimenta, o papel dos professores é que “por meio da reflexão colaborativa, tornem-se capazes de problematizar, analisar e compreender suas próprias práticas, de produzir significado e conhecimentos que permitam orientar o processo de transformação das práticas escolares, gerando mudanças na cultura escolar” (2005, p.529). Portanto, os professores, através de suas próprias investigações das práticas docentes, devem ser capazes de construir seus saberes, constituindo-se sujeitos para tomar decisões e se fazer em sua historicidade. Os pesquisadores acompanharão a atividade docente identificando os processos de construção de leitura e escrita, se há (ou não) a utilização de textos literários e como se dá o trabalho com a literatura. O primeiro passo será o conhecimento da realidade a ser estudada e a integração nos trabalhos desenvolvidos pelos professores que serão divulgados. Os pesquisadores deverão refletir e orientar os professores em suas análises e reflexões e lhes propiciar subsídios teóricos e práticos, para levar o professor a refletir sobre sua prática. Consideramos assim os professores como sujeitos, capazes de refletir criticamente suas práticas e com possibilidade de construir conhecimentos sobre a leitura e a escrita mediadas pela presença da literatura-arte. É estabelecido um intercâmbio permanente entre os sujeitos participantes da pesquisa, desde a definição de temáticas a serem estudadas até a elaboração e produção do material didático impresso. O foco fundamental de nosso estudo está no professor e no aluno e no comprometimento com a qualidade de ensino que 8 pretende, através da literatura, alargar os horizontes do aluno, constituindo–se num dos processos de afirmação do cidadão. O grande desafio da pesquisa colaborativa é conquistar a relação de parceria; superar as desconfianças para ajudar os professores a encaminharem projetos de ação, para que ocorram transformações efetivas na formação do aluno. Foram feitas algumas atividades nas escolas com a participação de alunos de seis, sete e oito anos e com seus respectivos professores. O Grupo de Pesquisa se deslocou a duas escolas, uma municipal e outra estadual, para estabelecer uma aproximação da linguagem infantil com a linguagem poética. Foi realizado um trabalho dando especial atenção aos aspectos da linguagem que se manifestam espontaneamente, e para as estratégias textuais do poema, tais como a exploração dos vários sentidos de uma mesma palavra, do jogo com sons e o efeito que produzem. Através de dramatização, leitura de poesias de Cecília Meireles, José Paulo Paes, Vinícius de Moraes, Elias José, Roseana Murray, Mário Quintana,entre outros, tentou-se despertá-los para a importância da poesia na escola. Outro ponto destacado foi a relação de proximidade da poesia com a música, a imagem e o lúdico. Em seguida, as crianças produziram poesias e ilustrações extremamente criativas, surpreendendo aos professores e aos próprios pesquisadores, o que nos comprovou a preocupação questionadora de Drummond: “Por que motivo as crianças de modo geral são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo?”(1974,p.16). Desta forma consideramos extremamente significativa a realização criadora das crianças. BIBLIOGRAFIA ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983. BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. BRITTO, Luiz Percival Leme. Implicações éticas e políticas no ensino e na promoção da leitura. 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